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6 O Templo dos Guardiões
Notas iniciais
Depois de jantar (uma comida estranha, mas deliciosa), me sentia muito cansado e desgastado. Diana preparou lugares pra podermos dormir no primeiro andar. A casa tinha muitos cômodos, e ela nos acomodou em dois quartos que eram maiores que o meu. Um pros rapazes e outro pras moças. Fiquei impressionado. Os nossos anfitriões não pareciam ser ricos, porém a moradia deles era espetacular, tudo arrumadinho, uma decoração rústica, muito bonita mesmo.
– Mas que fedor é esse? – murmurou Willow.
– Não é da sua conta, Willow. Não queira ser desrespeitosa. – rebateu Trevor.
Como era o queridinho dela falando, logo se calou.
– Essa casa é demais! – eu disse, empolgado.
– É muito linda mesmo – concordou Alice.
– Não chega aos pés da minha mansão – retrucou Ethan.
– Não interessa seu mal-educado! – esbravejei.
– Ora, seu...
– Parem com isso, por favor, vai assustar Diana! – Alice tentou nos acalmar.
– Está bem – parei, com ar de graça. Ethan rosnou. Não dei à mínima.
– Por favor, fiquem à vontade. Se precisarem de algo, estou lá embaixo – Disse Diana com seu sorriso que me encantou desde que cheguei aqui. – Boa noite. Descansem bastante. Vovô gostaria que viessem conosco à cidade amanhã cedo.
– Muito obrigado mesmo por hospedar estranhos como nós, Diana. Sou muito grato – Falou Trevor, que pela primeira vez, deu um leve sorriso. Willow não gostou nada disso.
– Por nada. As briguinhas de vocês até que me divertem – ela disse, rindo. – Agora vão dormir. Até amanhã.
Não consegui dormir direito nessa noite, pensando no que realmente estava acontecendo. Tentava colocar na minha cabeça que aquilo tudo era um sonho muito longo, mas sabia que não era. Eu não estava só perdido, mas estava em outra época, em outro lugar. Longe de casa, longe da minha família, com pessoas que nem conheço direito, com exceção de Alice. Que merda! Meter minha grande amiga nessa furada. Minha cabeça doía com isso. E Willow? Vendo como ela sente num lugar totalmente diferente do estilo de vida luxuoso. E claro, todos nós com saudade de casa. Eu poderia culpar Trevor por nos convencer em colocar esses colares, no entanto não ia adiantar nada. E mesmo com o jeitão dele, percebi que ele está mais preocupado que nós com isso tudo. Culpa. E o quatro-olhos não era tão ruim assim, e não parecia ter nada contra mim. E o Ethan roncando! Não sei como os outros conseguem dormir com um motor de caminhão ligado! Até que ri com isso, gostava de perturbá-lo.
Eu sabia que tinha que encontrar um meio de voltar pra casa, mas como. Pelo que entendi quem nos trouxe foi os colares mágicos. Mas por quê?
Percebi que alguém tinha acordado.
– Flint, por que você me odeia tanto? – Era Trevor.
– Eu te acho arrogante, chato, mandão e galanteador – disparei.
– É porque você não me conhece direito. E é por causa da Willow não é?
– Não, claro que não! Ela é patricinha, chata, arrogante...
– Mas gosta dela. Não minta pra mim. Não é bom nisso. Vim avaliando isso há um tempo.
– Você não sabe de nada – disse, corando.
Ele deu outro sorrisinho e voltou a dormir.
Eu olhei em direção às estrelas e vi que esse episódio poderia ser pior se eles não estivessem aqui.
“O que o amanhã nos reserva?”, pensei. Não tinha ideia dos acontecimentos que me aguardavam no dia seguinte...
– Pessoal, acordem, está na hora! – alguém gritava
Quando abri os olhos, rezei pra que estivesse no meu quarto, na minha cama. A primeira pessoa que eu vi foi... Diana. – Ei, dorminhoco! Acorda! Está um lindo dia! Vovô está nos esperando!
Revirei os olhos e vi os outros se arrumando. Nossas roupas ficaram estragadas, então Diana nos deu roupas dela e do avô para nós. Parecia que íamos para uma festa fantasia medieval.
– Ai que lindo! Fora de moda, mas mesmo assim muito lindo – falou Willow, vendo seu vestido simples, mas com um toque azul que ficou lindo nela. Combinava com seus olhos.
– Como estou? – perguntou Alice.
– Quando olhei pra trás ela estava se olhando no espelho. Ela estava... Linda! Parecia uma fada com sua pele combinando com seu vestido também simples e branco.
– Eram das minhas irmãs mais velhas. Elas faleceram há muito tempo atrás.
– Que pena, Diana, mas obrigada – solidarizou Alice.
– Rapazes, essas roupas eram do meu irmão mais novo e do meu pai, eles eram guerreiros do rei. Vejam se são do seu tamanho.
As roupas ficaram muito bem em nós. Parecíamos de alguma corte que eu vi no filme Tróia
– Estamos agradecidos, Diana. – eu falei
– É, obrigado – disse Ethan.
– Já disse que não precisam me agradecer. Vamos, estamos atrasados.
Depois de prontos acompanhamos Diana e seu avô até a cidade numa charrete.
– Cadê o carro, seu Fausto? – perguntou Ethan.
– Sua anta! Estamos no século XIV! Não existem carros nessa época – falei cochichando pra não ouvirem. Sorte que eles não deram atenção.
Mais ou menos vinte minutos depois de termos saído, o Sr. Fausto mandou que olhássemos mais a frente do vale.
Então eu vi.
Definitivamente estava em outra época. Não podia acreditar em meus olhos. Era uma cidade enorme, rodeada por muros enormes de pedra, bem no estilo dos jogos RPG que via alguns nerds viciarem. E, no centro dela, vi a construção mais bonita e esplendorosa que já tinha visto em toda a minha vida. Um palácio renascentista majestoso, como nunca tinha olhado igual. É claro que já tinha visto o palácio de Buckinghan, mas esse o superaria de mil a zero, no mínimo.
– Estou num conto de fadas! – disse Willow.
– Não viaja patricinha! – resmungou Ethan.
– Calado!
Quanto mais nos aproximávamos daquela vila, mais ficávamos maravilhados com tudo. Vários mercadores estavam espalhados em todo lugar com seus produtos num espaço até pequeno. Vi ciganas dançando, malabaristas chamando atenção, um barulho chato, porém parecia que estava em casa, com se conhecesse aquilo de algum lugar.
– Diana querida, vá passear com eles um pouco. Eu comprarei o que preciso. Pode ir. Divirtam-se.
– Fique perto de mim e não me percam de vista, se não estarão perdidos.
– Sim, senhora! – falei rindo.
– Poderia nos levar mais pra perto do palácio?
– Claro, mas não muito perto. Os guardas são corruptos e batem no povo por qualquer coisa. Desde que o Rei Richard sumiu, um sobrinho dele assumiu o trono temporariamente, e ele é um tirano descarado. Vive cobrando impostos absurdos à população e manda punir sem piedade a quem não paga. Por favor, tenham cuidado. A guarda real não gosta de forasteiros.
Ficamos andando por um bom tempo, com Diana nos mostrando a cidade, até chegarmos próximos ao palácio.
– Chama-se palácio dos Guardiões. Tem esse nome por causa dos chamados Guardiões do Rei, escolhidos para proteger o reino. Dizem que eles sabiam usar magia! Mas há dez anos, o Rei e seus guardiões sumiram, e até agora não foram encontrados. E o povo sofre nas mãos do carrasco Duque Bradford e seus soldados.
– Mas que desgraçado! Eu gostaria de me encontrar com esse duque e enche-lo de pancada! – berrou Ethan
– Por favor, silêncio! Se os guardas perceberem vão nos lançar na masmorra! – disse Diana, bem baixinho.
– Falou o troglodita da London High – disse Alice, rindo.
– Fiquem calados um momento – cochichou Trevor – Que barulho é esse?
– Estou ouvindo também. Vamos dar uma olhada – concordei
– Não, é muito perigoso! – disse as garotas
– Vai ser rápido. Prometo.
E fomos bem devagar investigar o motivo do tumulto. Ouvi umas mulheres e crianças gritando. Quando dobramos a esquina, vimos o que era.
Um homem estava apanhando friamente de alguns soldados. A Guarda Real, que foi criada para proteger as pessoas da vila, estavam roubando dinheiro deles. Eles vieram obviamente pegar o dinheiro, mas o homem não tinha como pagar. Então o espancavam.
– Não, por favor, parem! Vão matar o meu marido! – gritava a esposa
– Papai! – chorava as crianças.
– Se não tem dinheiro pra pagar os impostos, então vão sofrer. Ordens do Duque Bradford – dizia o líder da guarda.
– Por favor – berrava o homem no chão – Façam o que quiser comigo, mas não machuquem a minha família! Eu imploro!
– Depois de cuidarmos de você, papai, vamos queimar a sua casa! – disse um dos soldados.
Eu cerrei os punhos. Mas que miseráveis! Judiando daquela família indefesa por causa de dinheiro! Tinha que fazer alguma coisa! Parecendo que leu meus pensamentos, Trevor segurou o meu ombro.
– O que pensa que vai fazer? Tá maluco? Você não pode fazer nada por eles. Lembra-se? Viemos aqui pra procurar pistas de como voltar pra casa! Não se intrometa!
– Mas...
– Sei que é difícil. Também não estou gostando. Mas temos que ir.
– Trevor, soube que você é bom em Kung Fu. Sou bom em Karatê. Temos que fazer alguma coisa! Não vou aguentar ver essa cena. Juntos podemos derrotá-los.
– Tá brincando? Eles têm lanças afiadíssimas e escudos enormes! Não seremos páreo pra eles – argumentou Trevor.
– Ah esquece o quatro olhos, canguru! Vamos lá! Eu to muito a fim de bater neles! – falou Ethan, animado com a ideia.
– Vamos sem você, Trevor. Pense bem.
– Mas que droga, Flint! Está bem, vamos. – Concluiu Trevor.
Decididos, fomos tentar ajudar.
– Ei, palhaços! Parem de atazanar esse homem! Não ouviram que eles não têm como pagar? Então vão embora! – gritou Ethan.
Os guardas olharam pra trás e viram Ethan.
– Não se intrometa, forasteiro, ou vai pagar caro pela insolência – falou o líder grandalhão.
– Vocês são uns imbecis mesmo! Vem bater em mim se tiver coragem! Eu vou chutar os traseiros de todos vocês! – continuou Ethan.
– Sabe do que mais? Peguem ele! – ordenou o grandão.
Os guardas foram pra cima de Ethan que começou a correr disparado pelos becos. Como era atleta e muito forte, ele certamente despistaria os soldados. Então, Trevor e eu fomos ajudar a família.
– A senhora e as crianças estão bem? Eles não lhes machucaram? – Trevor disse.
– Não, obrigada. Ajudem o meu marido, por favor! Ele está morrendo!
– Vou tentar o possível. – falei – Tem algum médico por aqui?
– Não.
– Droga – exclamei.
– Flint, alguma ideia? – Trevor olhou pra mim, aflito.
– Não.
– Droga. – ele conseguiu falar depois de segundos em silêncio.
– Meu Deus, eles vão voltar pra completar o serviço! O que será dos meus filhos! – a mulher não parava de chorar.
– Nós não vamos deixar que eles machuquem vocês de novo – eu falei
– Como, gênio? Você viu que não podemos lutar com eles. Eles são altamente treinados! – esbravejou Trevor.
Mas que merda! Eu realmente queria ajudar, mas acabei metendo Ethan e Trevor numa roubada. Pra mim estava tudo acabado, quando ouvi uma voz conhecida.
– Corram, escondam-se aqui, estarão seguros. Rápido.
Era o Sr. Fausto.
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