Heresia
2 Uma luz na escuridão
Notas iniciais
Acordei inconsciente de onde estava, não sabia por que estava lá ou como fui parar lá, mas quando olhei para baixo e vi minhas asas me lembrei de tudo que havia feito, atos irreversíveis. Sinceramente, não sabia o que fazer naquele instante, me sentia fraco, com certeza devia ter dormido por dias.
Depois de muito pensar cheguei à uma solução prática, morreria lá mesmo, era fácil, já estava muito fraco, provavelmente uma hora alguém viria buscar minha alma e me levar para meu lugar de direito.
Era noite, estava frio, eu não tinha nada além de minhas roupas e um cobertor para me esquentar, nevava do lado de fora, meu bater de dentes era quase uma sinfonia desorganizada. De repente vi uma luz de tocha acesa, com certeza o dono da tocha estava perto, pois a neve era muito densa para ver algo a mais de 10 metros, enfim, seja quem fosse estava perto, muito perto. Quando vi que seu destino era realmente a caverna me arrastei até detrás de uma rocha grande.
Ouvi alguns passos e dei uma espiada para ver quem era, só via a sombra, a sombra era de uma mulher com silhueta basicamente perfeita, olhei por alguns instantes a mais e vi que estava parada na porta da caverna. Ela tirou aparentemente uma capa, quando acabou de tirar a capa vi a sombra de enormes asas, asas que eu conhecia muito bem de quem eram.
— Noah, meu irmão!
A voz confirmou sua presença, a mulher que estava na porta da caverna na verdade era um anjo, ou melhor, um arcanjo e santo, era são Miguel dos arcanjos. Não respondi o chamado então ela tornou a falar:
— Noah, meu irmão, saia de trás destas pedras, sei que você está aí, além do mais, esse seu bater de dentes é insuportável, venha se aquecer.
Eu queria abraçá-la, queria correr para seus braços e abraçá-la, mas não tinha forças. Por esse motivo também quis sumir naquele instante, estava acabado e mal conseguia me levantar, apenas cobri meus olhos para não ver a cara de Miguel e fiquei quieto, talvez ela desistisse de tentar me ajudar.
— Não vai me obedecer? Ok então.
Miguel foi até onde Noah estava, no meio do caminho viu suas asas pelo chão, abaixou e as tocou, aquelas eram realmente as asas de Noah, o sangue ao redor também, ela olhou ao redor e uma lágrima escorreu sobre seu rosto fino e delicado. Levantou-se e foi em direção ao irmão, Noah continuava sentado com a cabeça entre os joelhos e a mão tampando os olhos.
— Então é isso?! Você desistiu?!
Noah não queria responder a irmã, apenas abaixou mais ainda o rosto entre seus joelhos.
— Ok, já que é assim...
Miguel enlaçou seus braços ao redor de seu irmão e o envolveu em um abraço tão terno que era possível sentir que todo o amor que o anjo tinha pelos humanos pudesse ser compartilhado momentaneamente para aquele ser desprovido de fé. Noah levantou seu rosto e olhou fixamente para Miguel, mesmo sem dizer uma palavra, Miguel pode entender todo o sofrimento do irmão, então pegou sua cabeça e a colocou em seu ombro direito.
— Se quiser chorar, não tem problema. Mas por favor, fala comigo!
Noah segurou seu choro por alguns instantes, mas depois caiu em lágrimas ao ver que sua irmã estava lá, queria ajudá-lo, mas ele achava que não merecia isto, então chorou de angústia. Assim que começou a chorar abraçou a irmã decentemente, ficaram daquele jeito por alguns minutos, até que o choro de Noah parou.
—Sente-se melhor?
Noah nada disse, olhava fixamente para o chão.
– Está com fome?
Noah começou a salivar ao ouvir aquela pergunta, mas nada disse novamente.
— Você pode me dizer pelo menos se consegue levantar ou não?
Noah olhou para sua irmã e balançou a cabeça para dizer que não. Miguel estendeu a mão, o anjo o ergueu com apenas uma tentativa, logo depois apoiou seu braço sobre seus ombros, Noah quis cair ao primeiro passo, mas o anjo era muito forte e não deixou o irmão cair, andou com ele até uma pedra encostada na parede da caverna e o ajudou a sentar-se. Ela pegou a tocha e a capa que trouxera e levou para perto de Noah, mas na volta bateu o olho nas asas de Noah, ela parou por um momento e encarou-as, Noah percebendo a situação e disse com a voz rouca e muito fraca:
— Não doeu tanto assim.
— O que você disse?
— Não doeu tanto assim arrancá-las, doeria mais ficar com elas.
Noah abaixou sua cabeça novamente, Miguel aproximou-se, colocou a capa em seu irmão e levantou seu rosto.
—É triste para mim te ver assim! Anime-se e venha comer junto comigo. Disse Miguel.
Sempre admirei o arcanjo Miguel. Minha irmã sempre teve algo que eu demorei a ter, Amava os humanos, amava tanto que os aceitava e deixava-os serem como são... Perfeitamente... Imperfeitos.
Vocês devem estar se perguntando “Como essa mulher pode ser São Miguel? Ela não pode ser pelo simples fato de ser mulher?”. Se você pensou assim, deixa eu lhe dizer uma coisa, caso não saiba, desculpe-me pelos termos caso sinta-se ofendido.
Para aqueles que não sabem, anjos não tem sexo, mas vou explicar o porquê de nossas formas. Deus achou melhor que eu me parecesse com um homem quando vim para a terra e o arcanjo Miguel, talvez por ser um protetor, padroeiro da humanidade, talvez a imagem feminina lhe caísse melhor. Realmente não entendo os motivos de Deus, apenas sei que ele escreve certo por linhas tortas e isso não discuto.
Miguel tinha a forma de uma mulher perfeita, olhos claros cor de mel. Seus cabelos eram negros como a noite e compridos, batiam abaixo de seu quadril, ela sempre deixava seu cabelo trançado para diminuir o tamanho, trançava-o de várias maneiras, adorava brincar com seus penteados. Pele branca, mas com ombros e braços um tanto bronzeados por tomar muito sol em seus voos da tarde, e asas majestosas, enormes, porém delicadas, nunca tive nem vi asas como aquelas.
Aproveitando para falar de Miguel também vou falar de mim. Como posso me descrever... Ah sim, um desastre total quando se fala em ser humano, sou grande, desengonçado, sou muito forte, tanto para humano quanto para anjo. Tenho cabelo castanho e olhos verdes, desde que tornei-me humano acho que posso dizer que coleciono feridas, pois como disse, sou desengonçado e as vezes me corto por causa disso, sem contar que nem todos gostam de mim.
Fale com o autor