Heresia

3 A noite na caverna


–Está com fome? Perguntou Miguel

Apenas acenei com a cabeça para dizer que sim. Ela me deu um pouco de pão e vinho, eu sorri ao ver aquilo. Admito que estava com fome, mas nada justifica o fato de eu ter comido como um animal naquela hora, eu mordi o primeiro pedaço do pão e uma fome absurda tomou conta de mim. Senti-me culpado por tamanha grosseria perante Miguel, mas a fome falava mais forte, nunca comi daquele jeito, na verdade nunca senti fome antes de perder minhas asas. Eu comia sem sentir fome, apenas pelo prazer de poder mastigar algo, algo que mudou quando arranquei as asas.

Miguel riu, eu parei de comer com a boca cheia de pão, Miguel vendo a cena riu mais ainda e me disse:

– Calma garoto! Eu sei que está com fome, mas a comida não vai fugir de você.

– Desculpe-me, estava com muita fome Miguel.

Eu limpei minha garganta com um pouco do vinho que havia ganhado, Miguel abriu um sorriso.

– Olha quem resolveu falar! Você não faz ideia de como é bom ouvir sua voz novamente meu irmão.

Ela estava certa, minha voz já não estava tão rouca, dei uma longa risada em agrado á suas palavras.

– Mas pelo jeito a coisa é séria. Você sabe por que estou aqui?

– Sinceramente... Mal me lembro como cheguei nesta caverna, só sei que parece que estou aqui há alguns dias.

Miguel me deu pouco mais de comida e novamente me mostrou seu lindo e sereno riso, acompanhado de um sorriso capaz de fazer o mais triste dos homens se sentir mais alegre, e talvez o mais doente se sentir melhor.

– Sabia que eu te amo mais agora do que antes meu irmão?

– Não sabia, mas por que irmão? Perguntei perplexo.

– Você não é mais um anjo, é quase um humano. Isso é triste, porém, não é a pior coisa que pode acontecer á um anjo.... A pior é um anjo perder sua fé.

Parei de comer e comecei a olhar fixamente para o chão, não sabia o que dizer, como explicar para Miguel que eu havia dado tamanho desgosto á nosso pai? Quando pensei em dizer algo olhei para meu irmão, escoriam-se algumas fileiras de lágrimas pelo seu rosto, aquilo me doeu o coração, cobri minha cara por tamanha vergonha e a abaixei novamente. Como poderia encara-la vendo seu desgosto aparente em sua face?

– Então é isso que aconteceu? Você desistiu de você mesmo irmão. Por que fez isso?

Não disse nada, nem seria capaz de dizer algo.

– Me responda! Disse Miguel, mas nada disse. Responda-me, agora! Tornou a dizer, mas dessa vez com tom firme e sério.

Olhei por entre meus dedos eu queria chorar novamente (pra variar), segurei as lágrimas e disse firmemente.

– Porque eu fracassei! Eu não consegui, deveria apenas ajudar os humanos, mas não entendo como, nenhum se importa com reconhecer a ajuda de Deus. Eu tentei várias vezes, mas não consigo mais.

– Não se cobre tanto, não é certo. Nosso pai ainda o ama.

– CHEGA!! Gritei interrompendo Miguel. Eu não quero ouvir isso, eu não mereço sua ajuda, eu mereço é morrer e ir para o inferno... Naquele momento não aguentei mais e sai da caverna para não chorar de novo, se chorasse capaz que eu mesmo e enforcaria por tanta fraqueza de minha parte.

– Espere!! Por favor, não vá embora.

Apenas fingi não ter ouvido Miguel e sai da caverna, sem qualquer coisa para cobrir meu peito, cada floco de neve que caia em minha pele me queimavam mais que fogo, mas não me importava com a dor, pois minha alma latejava de dor e qualquer dor física não se comparariam com aquela psicológica .

Andei novamente até o lago onde havia visto meu reflexo, a água estava totalmente congelada, passei a mão no gelo e consegui ver distorcidamente meu reflexo, naquele momento caí de joelhos e abaixei a cabeça.

– Perdoe-me pai!! Eu sinto muito mesmo!!

Enquanto estava abaixado senti uma mão quente em meu ombro, olhei para trás para ver se era Miguel, assim que virei parei de sentir o toque. Era meu pai, ele não havia desistido de mim. Comecei a chorar baixo e rir sem parar, ouvi passos, pensei ser ele, dessa vez era realmente Miguel com a capa debaixo do braço. Levantei-me e a encarei de longe, a neve caia intensamente, mas eu podia vê-la nitidamente.

– Não precisa falar comigo, apenas pegue a capa para se aquecer. Disse Miguel estendendo a mão com a capa.

Sai correndo e abracei Miguel, algo que deveria ter feito assim que ela entrou na caverna para me ver.

A nevasca durou alguns dias. Miguel ficou comigo até aquela tempestade de neve passar, sempre serei grato á minha irmã por aquilo.

– Cuidado com meu braço, está doendo. Ai, cuidado!

Miguel parou de tentar passar pomada nas queimaduras de seu irmão.

– Desculpe, mas da próxima vez não saia na neve espertalhão.

– A neve era mais gentil que você. Disse eu rindo e brincando.

Miguel pegou um pouco de gelo que encontrou no chão e pôs em minhas costas, gritei na hora.

– Retiro o que disse, retiro o que disse totalmente.

Nós rimos um pouco, depois deixei Miguel terminar seu serviço em paz. A definição humana de bruxa serve para um anjo? Porque caso sim, Miguel era uma bruxa das maiores, entendia de plantas (principalmente do planeta Terra) como ninguém. Ela sabia muito bem curar uma doença carnal com plantas, chás e muitas fé, além de ser ótima com curativos.

– umas noites atrás disse que te amava mais agora do que antes, você sabe por quê?

– Não faço ideia, nem consigo pensar em uma reposta.

– Como disse você é quase um humano, então sou sua protetora. Amo humanos, sendo assim te amo também.

–Era isso que você queria me falar aquela noite?

– Sim, isso e cuidar de você. Pedi para nosso pai isso assim que soube do que havia acontecido contigo.

– Miguel, igual a você não há. Você tem que me dizer algo mais?

– Estou com o coração na mão, não faço ideia de quais dadivas de Deus caíram sobre ti.

– E isso importa?

– O que?! Você pode ser igual um humano ou até mais fraco do que um, tenho medo disso. Você às vezes é um tanto desajeitado, tenho medo do que você pode fazer ou lhe acontecer.

– Ora, se isso te aflige irmã... Então eu prometo tomar cuidado até descobrir meus limites.

Na manhã seguinte o dia nasceu belo, acordei com raios do sol batendo em minha face, olhei em volta procurando Miguel, a vi olhando para o lado de fora da caverna, suas penas reluziam com os pequenos feixes de luz que entravam na caverna, pareciam cristais ao meu olhar.

– Está na hora!

– Ok, eu já levantei.

– Não de acordar, mas de eu ir embora. A neve foi embora e nosso pai já me chamou.

– Eu sabia disso, mas é bom brincar um pouco para descontrair de vez em quando.

O sol batia nas asas de Miguel, ainda úmidas pelo orvalho da manhã e a faziam brilhar. Antes de partir deu-me um último abraço, me pediu com carinho para eu me cuidar e partiu com apenas um bater de asas.