Heresia
4 Lembranças e dúvidas
Notas iniciais
Passei alguns anos vivendo na floresta, morava em uma cabana feita de madeira e pedras que eu mesmo construí, estava exausto e estressado por tudo o que havia me acontecido, mas por incrível que pareça tive o sossego e a paz da qual havia até me esquecido como eram durante o tempo que estive naquela floresta. Eu acordava pelas manhãs e ia andar pela floresta, às vezes esbarrava com um ou dois humanos por lá, mas isso não me aborrecia. De vez em quando Miguel também vinha me visitar e isso me alegrava muito, pois ele sempre me trouxera presentes (de humano), muitas vezes coisas tão simples, mas que é claro eu não fazia ideia do que eram ou sua funcionalidade.
Se quiser rir, fique a vontade, o primeiro presente que ganhei foi uma navalha mais ou menos dois meses depois da primeira visita de Miguel. Eu parecia um animal com aquela barba e nunca tinha me barbeado antes, porque nunca tive barba, mas é claro que isso mudou quando perdi as asas e virei um quase humano. Até hoje não sei como não morri a primeira vez que usei aquela lâmina, pois cortei meu rosto todo, tive sorte de não cortar o meu pescoço, depois daquele dia pedia para Miguel me explicar sobre tudo que me dava mesmo que eu conhecesse.
As minhas melhores e mais alegres memórias daquele lugar são coisas realmente tão simples, mas tão especiais para aqueles que sabem apreciar. Eu amava ver a neve cair durante o inverno, a lua brilhando no céu, os vagalumes a iluminar a noite junto com a lua, as gotas de orvalho nas árvores pela manhã, o cantos dos pássaros, coisas realmente simples, mas que sei que nem todos tem a graça de poder apreciá-las.
Em um dia de inverno rigoroso eu comecei a mudar meu juízo sobre a solidão. Eu estava a alguns dias abrigado do frio em minha cabana, o vento soprava frio lá fora e a neve caia sem parar, lenhas me aqueciam com o calor de sua queima, mas é claro, elas não iriam durar muito. Durante aquele frio adormeci por algumas horas.
....................GOOD DREAMS...............NOAH........................
Alguém bateu na porta.
— Quem está aí?
— Senhor, sou eu. Abre a porta, está frio aqui de fora. Disse um garoto de aproximadamente 14 ou 15 anos.
— Meu filho, como foi a caça? O homem sorria ao abrir a porta, mas seu sorriso foi tirado ao sentir uma dor em seu abdômen, havia uma adaga fincada em sua carne. — Por quê? Disse ele antes de cair.
— Porque eu quero dinheiro meu senhor, simplesmente por isso eu vou te matar. Disse o filho enquanto esfaqueava o pai.
Ao longe estava Noah que olhava a cena com a cabeça baixa.
— Anjo de nada... Disse Noah antes de ir embora
....................WAKE UP......................NOAH...........................
Noah acordou assustado, não havia sonhado, aquilo eram sua memórias. Memórias que Noah não queria lembrar, mas que o perseguiam cada dia de sua vida.
No dia mais frio daquele inverno minhas lenhas acabaram e eu fui obrigado á sair para pegar mais. Peguei meu trenó e machado, estava difícil andar naquela neve, mas eu era mais forte que a neve e andava contra ela. Cortei três pinheiros grandes e retornei para minha cabana, estava frio demais até para mim. No caminho de volta se deparou com uma família, que o cavalo machucou a pata, então ambos ficaram presos na neve, tanto a família quanto o cavalo se esconderam debaixo de um enorme pinheiro e ficaram a mercê de um cobertor grosso e um abraço apertado para se aquecerem.
— Há uma caverna há uns 500 metros de vocês, por que não se abrigam lá?
—Meu cavalo prendeu sua perna, acho que quebrou e mal consegue andar.
— Que estupidez, deixe o animal e salve sua família.
Eu já estava um pouco longe quando ouvi a resposta do homem.
— Não posso, ele também é minha família.
ANJO DE NADA, ANJO DE NADA... Isso não saía da minha cabeça, mas ao ouvir as palavras daquele homem, me fez esquecê-las e me lembrou de outra “Não há bem maior que a família”. Isso me fez voltar na hora, fazia tempo que eu não via um ser humano assim, com compaixão, mesmo que por um animal (mais raro ainda de se encontrar), aquele homem amava sua família e ao animal que o servia. Aquelas palavras me fizeram ajudá-los na hora.
—Faça o seguinte, coloque sua mulher e crianças no trenó e me ajude á puxá-lo até minha cabana que não fica muito longe daqui. Depois voltamos para pegar o cavalo.
— Obrigado. Disseram a mulher e o homem com as faces rosadas pelo frio que fazia.
Passei dois dias com aquela família hospedada em minha casa, realmente eles se amavam, o casal se amava e amavam também seus dois filhos pequenos, o mais velho tinha três anos, o mais novo seis meses. Provavelmente deveriam ter seus problemas e desavenças como toda família normal, mas se amavam e era isso que importava.
Eles partiram quando a tempestade parou. Depois disso senti um vazio enorme em meu peito, eles me lembravam do amor de meu pai por mim e meus irmãos anjos, saudades de ser anjo.
Aquela família abençoada não saía da minha cabeça, e se eu estivesse errado sobre os humanos? E se ainda existissem homens bons? Eu tinha que descobrir sozinho a resposta desta pergunta.
Miguel veio me visitar quando a primavera chegou. Contei-lhe sobre o meu sentimento de solidão e sobre a dúvida que me assolava à semanas.
— Olha, nós anjos podemos viver séculos sem ver outro anjo dependendo da ocasião, mas humanos não conseguem. Brigando ou amando sempre vão precisar de alguém ao seu lado, esse sentimento de solidão é seu lado humano lhe pedindo ajuda.
— Hum... Humanos... Duvido que tenham mudado algo desde a última vez que os vi.
— Você tem razão, não mudaram nada. Mas também não há só pessoas más neste mundo, basta olhar atentamente e verá uma bondade e gentileza... Basta olhar.
— Acho que não tenho escolha a não ser tentar, pelo menos tentar.
— Você promete irmão?
— Não prometo nada, apenas tentarei.
Miguel abriu um sorriso do tamanho de seu coração e não disse mais nada, talvez se dissesse seu irmão mudasse de ideia ou coisa parecida, era melhor nem arriscar.
Quando todas as flores tinham florescido eu parti daquela cabana, novamente sem planos, apenas esperando que o desconhecido viesse ao meu encontro, não podia esperar mais nada além disto.
Durante aqueles anos que passei lá, o pedaço que me restava de minhas asas foram secando até que um dia caíssem como folhas murchas, creio que seja por isso que eu me comovi tanto com humanos, pois provavelmente agora era um deles.
Minhas asas murcharam e caíram com o outono seguido de um inverno rigoroso, agora era primavera e as flores floresciam e os pássaros cantavam novamente, mas quanto a mim? Valia a pena deixar que outras coisas e sentimentos florescessem em minha alma tão machucada por aqueles que me magoaram, por mais que fosse igual a eles agora, eles nunca serão igual a mim e nunca pensarão como eu. Pesando assim, valia a pena querer ser como eles e deixar a flor em minha alma desabrochar por completo?
Realmente não sei como seria a resposta se eu tivesse ficado na cabana, mas digo que não me arrependo da escolha. Minha irmã me deu um conselho antes que partisse: Nunca olhe nossos irmãos com os olhos, olhe com o coração e tenho certeza que verá bondade no deles. Sábias palavras, nem todos nesse mudo são bons, mas há pessoas boas neste mundo, o errado era eu, pois não as enxergava.
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