Herdeiros da Guerra
61 Capítulo XXXVII - Acalento
Notas iniciais
Os pandarens se aglomeravam, curiosos com a cena que viam. Desde que Horda e Aliança chegaram ali, muitos meses atrás, o ódio entre os povos que a formavam era, não apenas nítido, mas explosivo. Ali, na Meia Colina, não foram poucas as vezes que os guardas tiveram que intervir em conflitos, até que ambas as facções entendessem que aquele local era um santuário. A partir de então, o máximo que presenciaram foram olhares enviesados e um ou outro palavrão. Com o tempo, sempre esperavam que ocorressem conflitos. Por isso, ver elfos sangrentos e humanos sentados na mesma mesa, os deixavam indiscretamente encantados.
Pandora estava tão nervosa que mantinha seus olhos baixos e suas mãos embaixo da mesa, onde apertava os dedos tão fortes que doíam. Anduin estava sentado tão ereto que parecia que o tinham amarrado numa estaca. E Halduron apenas aguardava em silêncio, encarando ora Pandora, ora Anduin.
— Ora, não precisamos ficar com essas caras sisudas. — Falava Kassyeh com um bom humor de invejar. A elfa era a única que definitivamente não parecia incomodada.
— Acredito que não adianta lhe lembrar que isso pode soar da forma errada para o Chefe Guerreiro, princesa. — O elfo falou pausadamente, encarando Pandora.
— O Chefe Guerreiro pode ir para a puta que lhe pariu. — Falou suavemente a elfa, sem tirar um sorriso do rosto – Eu estou me sentindo melhor de uma doença que me deixou muito mal. Não tenho tempo para me privar de partilhar uma refeição com alguém por quem tenho muito apreço.
Após as palavras de Kassyeh, Pandora levantou os olhos da mesa e sorriu para a elfa. Lembrou dos momentos que passaram juntos na vila de Sri La e como ela e Tewdric salvaram sua vida e a do seu irmão. Respirou fundo, controlando as batidas do seu coração e, finalmente, encarou Anduin.
— Andy, foi Kassyeh e seu marido Tewdric quem nos salvaram quando a Nau Capitania naufragou. Eu sou muito grata por tudo. — E voltando seus olhos para Kassyeh, sorriu – Fiquei muito surpresa de te ver, Kass. Achei que sua irmã rainha tinha te trancado numa torre em Luaprata.
— Ah, ela tentou. — A elfa e a jovem humana riram juntas – E eu achei que sua tia tinha arrastado para Ventobravo pelas orelhas.
— Ela tentou! — as duas riram ainda mais.
Anduin e Halduron se encararam, involuntariamente, diante da intimidade das duas mulheres com quem se sentavam. Porém, o rapaz logo desviou sua vista e o elfo ergueu um pouco as sobrancelhas.
— Bem, acredito que aqui apenas Andy nos é novo, não é mesmo? — Kassyeh falou animadamente – Afinal, Pandora e Halduron se conhecem. Quer dizer, mais ou menos se conhecem.
Imediatamente o rosto de Pandora e Halduron ficaram pálidos e os dois perderam a voz. Pensaram exatamente a mesma coisa: como ela sabia? Todavia, alheia aos sentimentos dos dois, Kassyeh continuou a falar, decidindo que quem merecia uma explicação era Anduin.
— Quando nós achamos Pandora e Pietro na praia, Halduron estava muito ferido. Ele tinha sido atingido por uma flecha envenenada e ficou desacordado por dias. Quando ele recobrou a consciência, os meninos já tinham ido embora.
— Ah! — exclamou Anduin entendendo a situação – Acho que minha prima não comentou sobre isso…
Nunca antes Pandora se sentira tão burra. Estivera com tanta raiva de ter descoberto que Halduron era Horda no Monte Kun-Lai que aquela informação havia passado apenas rapidamente por sua mente. Por tanto tempo mantivera Kassyeh e Tewdric de um lado de sua memória, como seus salvadores, e Halduron do outro, como um sonho que acabara, que os ver juntos a deixara momentaneamente estonteada. Agora, vendo-o ao lado de Kassyeh, encarar seus olhos esverdeados, o cimentava definitivamente como um membro da Horda. E como se fosse uma luz que se acendera em cabeça, Pandora aceitou o fato. Aceitou de forma tão rápida que se surpreendeu com a calma que se apoderou dela. Percebeu que, mesmo sendo da Horda, Halduron estava ao lado de Kassyeh. Provavelmente de Tewdric também. Aquele fato lhe propiciava uma tranquilidade sem igual.
Ao mesmo tempo que a mente de Pandora fazia todas as conexões rapidamente e se acalmava, Halduron se viu estonteado. Quando se encontrara com Pandora no Monte Kun-Lai, ela o acusara de mentiroso. Como poderia ter feito aquilo se tinham se encontrado antes? Por que ficara tão revoltada se vira Kassyeh e Tewdric cuidando dele? Não fazia nenhum sentido aquilo. Todavia, a dúvida não lhe dava nenhuma angústia, muito pelo contrário. Um pensamento surgiu límpido e claro.
Teria que falar com Pandora sem que Kassyeh os visse. Não suportava o fato de ser chamado de mentiroso sem nada ter feito. Seu orgulho não permitiria isso.
— Então, Pandora. — Anduin quebrou os pensamentos de ambos chamando a “prima” – Você não comentou sobre um elfo doente.
A resposta chegou rápida aos lábios dela.
— Não achei que fosse necessário.
Aquilo apenas aumentou a curiosidade de Halduron. Ela o vira, com certeza. Se o reconhecera tão rápido no Monte Kun Lai, o fez também na vila Sri La. Ah, ele perguntaria tudo. Não poderia deixar Pandora sair da Meia Colina sem que ela respondesse algumas questões.
— Ah, a comida está chegando! — Kassyeh comemorou quando a pandarena que os atendiam vinha equilibrando os muitos pratos de uma forma que apenas uma mestra monja conseguiria.
Os deliciosos pratos servidos tiraram toda a preocupação da cabeça de Kassyeh e de Anduin. Ambos pareciam competir quem comeria mais. Halduron estava impressionado que, mesmo tendo comido assim que chegaram, a princesa ainda estava com apetite. Aquilo, com certeza era uma coisa boa. E com o clima um pouco mais leve, Kassyeh começou a perguntar como fora o resto da jornada de Pandora e Pietro e onde estava o menino. Ficou maravilhada ao saber que Pietro não apenas estava a salvo como conseguira melhorar e ia estudar para ser sacerdote de Chi-Ji. Se a princesa e o príncipe à mesa estivessem prestando atenção em Halduron durante aquele relato, poderiam ver seus olhos brilhando e um sorriso cálido que surgira em seus lábios. Estava muito feliz por ouvir que aquele menininho crescera e estava bem.
Após o relado de Pandora, fora a vez que Kassyeh contara o que acontecera. Pandora ficou extremamente frustrada ao saber que Halduron acordara no dia em que foram embora da vila de Sri La. Porém, a frustração fora rapidamente contida. Se Halduron tivesse acordado antes, as coisas poderiam ter se desenrolado de uma forma que poderia estragar a relação que criara com Kassyeh e Tewdric.
— Por que Tewdric não está com você? — quis saber Pandora.
Foi apenas naquele momento que Kassyeh hesitou em responder a jovem. Não poderia dizer o que estava para acontecer na Selva de Krasarang. Não por medo de considerar traição, mas apenas porque não queria arrastá-los para nada daquilo.
— A princesa está doente. — Quem respondeu foi Halduron – Veio ver a sacerdotisa Rukiah.
Foi naquele momento em que os olhos dele e de Pandora se encontraram novamente. O coração de ambos se descompassou e Pandora desviou o olhar dele para Kassyeh.
— O que você tem? Está muito mal? — falou com uma sincera preocupação.
— Acho que é a doença do pântano. — respondeu – Se bem que estou me sentindo muito melhor desde que cheguei aqui. — Ela esticou os braços, se espreguiçando – Talvez eu até dispense Rukiah.
— Não! — Halduron e Pandora exclamaram ao mesmo tempo. Depois se entreolharam, envergonhados e sem saber o que dizer.
Kassyeh deu uma risada e Anduin apenas ficou olhando do elfo para a jovem humana, sem parar de comer.
— Poxa, se Tewdric soubesse que você estava aqui, ele teria vindo. — disse Kassyeh alegremente – Ele ficaria encantado de ver sua preocupação comigo. Parece que agora eu tenho duas pessoas aqui preocupadas comigo. — e olhou carinhosamente de um para o outro. — Não se preocupem vocês dois, eu vou falar com Rukiah.
— Você não pode descuidar de sua saúde, Kassyeh. — Lhe falou Pandora, evitando olhar na direção de Halduron – Pietro ficaria triste se soubesse disso.
— E suas irmãs também. — Complementou Halduron, que não hesitava em pôr seus olhos sobre a jovem humana.
— É bom ver uma pessoa da Horda e da Aliança concordando em algo. — brincou Anduin, sentindo-se mais seguro. A atenção da mesa não estava em sua direção e aquilo era ótimo.
— Graças a essa terra maravilhosa que é Pandaria. — Kassyeh sorria com brilho nos olhos – É incrível como as coisas por aqui acontecem.
— Ô, se é… — concordou Pandora observando atentamente a mesa, sem querer levantar os olhos.
O resto da refeição foi tranquila, a conversa se concentrando principalmente em Pandora e Kassyeh. Halduron tinha perdido todo o interesse em Anduin, que era muito grato por isso. O príncipe se permitiu relaxar um pouco também, ciente que nada poderia ser feito em relação àquele encontro.
Tão logo a comida acabou, Kassyeh deu um enorme bocejo. Todo o sono acumulado de dias caiu sobre ela pesadamente. Sabia que, se não conseguisse uma cama logo, dormiria ali mesmo.
— A conversa está boa, mas viajamos a noite toda. Preciso dormir um pouco. — Desculpou-se a elfa – Vocês ficarão alguns dias por aqui?
— Esse é o plano. — respondeu Pandora — E vocês?
— Também. Ah, será ótimo ter novamente você por perto, Pandora! — Kassyeh segurou a mão da jovem e a apertou antes de se levantar – Foi um prazer comer com vocês. Halduron, você pode pagar pela refeição por favor? — e quando Pandora abriu a boca para reclamar, Kassyeh a interrompeu – Faço questão.
Halduron se levantou.
— Mais alguma coisa, princesa? — quis saber.
— Reserve nossos quartos e depois pode ficar à vontade. Quando Rukiah chegar, você me acorda.
Halduron assentiu, fez uma breve reverência e seu olhar se voltou para Pandora e Anduin.
— Foi uma excelente refeição. Espero que possamos ser cordiais uns com os outros em nossa estadia aqui. — E sorriu.
Foi só então que Pandora entendeu que ficaria sobre o mesmo teto que Halduron por dias. Seu estômago se apertou e ela não soube dizer se fora se medo ou de alegria.
— Também espero. — respondeu no mesmo tom.
Anduin fora o único a ficar realmente preocupado com aquilo. Por quanto tempo conseguiria esconder seu status real? E por que ficara aquele clima tão estranho entre Pandora e Halduron? Só podia torcer que, ao estabelecer uma boa conexão com a princesa Kassyeh, ele estivesse um passo mais perto de conquistar a almejada paz.
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— Finalmente estamos em Pandaria! — Arshe exclamou abrindo os braços como se mostrasse a paisagem.
Kayliel sorriu da animação dela enquanto pagava aos pandarens pelo teleporte até a entrada do Vale dos Quatro Ventos. Como eram ligados a uma facção neutra, eles não poderiam usar os portais principais da Horda e da Aliança; isso acabara dificultando a vinda dos dois e foram necessárias várias cartas trocadas com uma organização chamada Shado-Pans para que chegassem ao novo continente. Hadgar estava animado para saber em primeira mão o que estava acontecendo por ali e incumbira ambos de mantê-lo atualizado.
— Eu mesmo iria, — dissera o arquimago – mas ainda há muito a ser feito em Terralém. Cuidem disso por mim.
Aquele voto de confiança era mais do que Kayliel podia esperar. Encontrar um lar em Shattrath fora a realização do sonho de ambos; poderem ser uteis a quem os acolheu era o mínimo que poderiam fazer. Mas não fora por isso que Hadgar os mandara. Ele os mandara porque confiava no trabalho deles.
— Certo, para onde vamos agora? — se perguntou Arshe puxando um pergaminho de sua bolsa e o analisando – Aqui é uma área relativamente tranquila, pelo que eu soube. — comentou olhando fixamente para o mapa – A maior preocupação é com umas criaturas chamadas “saltídeos”, que rouba plantação. E no extremo oeste, tem a muralha que faz fronteira com as Estepes de Taolong, que sofre com ataque dos “mantídeos”. — Arshe apertou os lábios enquanto fechava o mapa, pensativa.
— Indecisa? — perguntou Kayliel se postando ao seu lado.
— Não exatamente. É um pouco óbvio que devemos evitar esses lugares e procurar estabelecer boas relações com os nativos, mas eu gostaria de um lugar onde pudéssemos estabelecer uma base nossa, dos Filhos de Lothar. — explicou – Porém, como fazer isso sem parecer que estamos forçando a mão? Não sei até que ponto está o clima com relação à guerra.
— É difícil saber quando ninguém nos conta…
As cartas que ambos trocavam com suas famílias não era uma fonte de informação. Ambos os lados não estravam em detalhes sobre o conflito ou o que estavam fazendo. Na verdade, nas últimas semanas a correspondência ficou bem mais escassa, o que prenunciava algum acontecimento. Isso despertara a pressa dos dois em chegarem logo ali e nem mesmo avisaram o que estava prestes a fazer. Só esperavam que o correio mágico os localizasse ali.
— Talvez não precisemos exatamente de um posto avançado só nosso. — sugeriu Kayliel – Se pudéssemos nos unir a esses Shado-Pans, já teríamos um aliado forte que nos ouvisse.
Arshe sorriu diante da proposta dele.
— Sabe que te amo por isso? — falou quanto batia as pestanas.
— Por minhas ideias? — gracejou ele enrubescendo um pouco.
— Isso. Você é tão inteligente quanto eu.
Ele deu uma risada.
— Isso é um baita do elogio! — exclamou.
— É sim. — Concordou a maga – Eu estava tendo essa mesma ideia. Precisamos achar os Shado-Pans.
— Então o que estamos esperando? Vamos!
Suas montarias, claro, os acompanhavam nessa viagem. Os Filhos de Lothar tinham o costume de usar cavalos baios e os deles não erma diferentes. Arshe especialmente adorava a égua que escolhera, pois ela era malhada e parecia uma vaquinha. Por isso, a chamara de Mimosa. Já o baio de Kayliel era cor de caramelo e recebera o nome de Pudim… também dado por Arshe. Quem visse aqueles cavalos tão graciosos não imaginavam a resistência e velocidade de ambos, criados em Terralém, prontos para socorrer seus condutores dos perigos de demônios e orcs de sangue.
— Ouvi falar que existe uma fera muito perigosa, que só pandarens conseguiram domar. — comentou Arshe quando passaram por dois lavradores pandarens, que conduziam um iaque – São chamadas de serpente das nuvens.
— Parece ser algo que podemos procurar para adquirir. — Sugeriu Kayliel – Ficará mais fácil nos deslocarmos pelo continente.
— E também para fugir, caso sejamos pegos no meio da guerra… — comentou Arshe com uma pontada de tristeza.
Ficaram em silêncio por um momento, até que Kayliel perguntou:
— Anduin e Lina não saem de sua mente, não é mesmo? — ele conhecia muito bem aquele olhar.
— Não consigo imaginar como eles estão lidando com isso, especialmente Anduin. E pensar que tio Varian deixou que ele ficasse por aqui! — ela sacudiu a cabeça – E Lina concordou!
— Isso pode significar que o perigo aqui não é tão grande como imaginamos. — Sugeriu o elfo.
— Espero que sim. — Desejou Arshe – Me pergunto onde ele está...
Os dois continuaram sua viagem sem tocar novamente no assunto. Em pouco tempo a conversa foi direcionada às paisagens idílicas e criaturas exóticas que apareciam no caminho. Pararam à noite para descansar e conseguiram abrigo na casa de um agricultor e sua família, que ficaram extasiados em recebê-los, principalmente por causa da missão que tinham.
— A primeira parada de vocês deve ser na Meia Colina! — sugeriu ele empolgado – As facções não lutam lá e os Lavradores conseguirão entrar em contato facilmente com os Shado-Pans para lhes ouvirem!
E com aquela dica, os dois mudaram sua rota e foram em direção ao local indicado.
Logo que se aproximaram da Meia Colina, Arshe viu, com imensa surpresa, um nabo tão grande que era necessário dois pandarens para carregarem-no. Ao lado disso, uma pandarena equilibrava, com destreza, inúmeros barris com uma mão, enquanto com a outra recebia um quitute de uma vendedora. Sentinelas atentas os encararam com serenidade, mas atenção, no momento em que chegaram.
— Tudo parece muito tranquilo… — comentou Arshe. Ela não via membro de nenhuma das facções ali, só pandarens.
— Isso é bom. — Concordou Kayliel. — Há um estábulo ali. Vamos deixar os cavalos descansando.
Arshe assentiu e direcionaram os cavalos para lá. Quando estavam amarrando os cavalos, perceberam que havia, além de Serpentes das Nuvens, um lagarto dourado e um falcodraco lilás. Kayliel sentiu o estômago apertar. Aquele seria Toblerone, lagarto voador de Tewdric? Sabia que era uma fera rara, poucas pessoas a tinham domado como montaria. Se fosse Toblerone, significava que o orc estava ali e provavelmente sua esposa também. Seu coração se apertou. Fazia dois anos que não via nenhum deles. Se fosse eles mesmo, como o receberiam?
— É um esplêndido animal, não é mesmo? — comentou o pandaren que cuidava dos animais.
— É sim. — Concordou Kayliel – O dono dele por acaso é um orc? De olhos azuis?
— Não saberia dizer, ele veio montado por uma elfa. E não havia um orc com ela, mas outro elfo, montando a libélula. — e apontou para o falcodraco.
Kayliel pensou em corrigir o velho pandaren e dizer que aquilo era um falcodraco, mas não viu motivos para tanto. Apenas assentiu e se afastou em direção à taverna. Arshe, que ficara calada durante a interação, perguntou, tão logo se afastaram do estábulo:
— O dragão é do orc que você falou? Tewdric?
Kayliel assentiu.
— Se é uma elfa montando, pode ser Kassyeh. E tem um elfo com ela…
— Você acha que pode ser seu irmão? — quis saber Arshe nervosa.
— Não sei… Faria sentido se Lux mandasse meu irmão para ficar de olho na Kass…
Apesar de ter vontade de conhecer seu cunhado, Arshe não estava muito feliz com a ideia de encontrá-lo logo ali. Olhou para seu vestido empoeirado e imaginou que seu rosto estava amassado pela noite maldormida na estrada. Se fosse para conhecer Rommath, queria fazê-lo em seu maior brilho. Afinal, ele era um elfo sangrento! Eles valorizavam a apresentação de uma pessoa. E a maga queria muito causar a melhor impressão possível em uma pessoa que ela já sabia que não era seu maior fã.
Chegaram à porta da taverna e Kayliel hesitou.
— Quer esperar aqui fora? — perguntou Arshe, sua preocupação agora se voltando ao seu marido.
Kayliel meneou a cabeça.
— Se ele estiver aí, é melhor acabar logo com isso.
Sorrindo, Arshe pegou em sua mão.
— Então, vamos fazer isso juntos. — e ela deu um passo à frente, decidida e abriu a porta.
Assim que botaram os pés dentro da taverna, a primeira pessoa que Arshe viu foi Pandora. As duas mulheres tiveram um sobressalto, ambas espantadas com o encontro. Logo em seguida, os olhos de Arshe foram para uma figura mais baixa ao lado da jovem caçadora e seu sorriso se abriu enormemente.
— And-
Antes que a exclamação da maga preenchesse o salão, Pandora rapidamente tapou sua boca e a empurrou sem nenhuma cerimônia para o lado de fora. Kayliel, que estava um pouco atrás da esposa, acabou sendo empurrado também. Confusos, o casal foi tropeçando de volta ao lado de fora da taverna, por uma amedrontada Pandora.
Os pandarens olharam, relativamente curiosos, uma jovem humana ser arrastada por outra, com sua boca tapada, enquanto apertava a mão de um confuso elfo, que era arrastado por consequência. Um jovem humano seguia a estranha procissão. Apenas quando estavam a uma distância segura da taverna, Pandora soltou Arshe. A maga respirou fundo, antes de olhar irritada para a jovem.
— Pãozinho, isso não é jeito de tratar uma dama! Pior ainda se for uma dama tratando outra dama!
— Eu sou tudo, menos uma dama, tia Arshe. — falou Pandora sucinta – Mas eu não podia deixar você deixar eles saberem que é Anduin.
— Eles? — quis saber confusa.
— Longa história… — falou Anduin, sendo novamente notado pela irmã de criação.
Esquecendo-se momentaneamente do que acabara de acontecer, Arshe deu um gritinho e se atirou sobre o menino, enchendo-o de beijos. Pandora olhou rapidamente para trás, mas não havia ninguém da Horda à vista. Finalmente suspirou, aliviada. Tinha livrado os dois de uma situação muito difícil.
— Quem da Horda está aqui na Meia Colina? — quis saber Kayliel, ansioso.
— Kassyeh e Halduron. — respondeu Pandora – Anduin está aqui como meu primo. — Esclareceu.
Nos minutos seguintes, Pandora explicou a situação para os recém-chegados. Arshe, que não soltara Anduin em nenhum momento, ouvia tudo sem muita atenção. Não era o irmão de Kayliel que estava ali, então tudo estava bem. Só queria abraçar seu irmãozinho que não via havia um tempo e garantir que ele estava com todos os pedaços coladinhos e intactos. Kayliel, ao contrário, ouvia interessado e preocupado.
— Kassyeh doente? Isso não é bom. Ela devia voltar à Luaprata. Isso não é apenas uma questão de bem-estar, mas também política.
— Como a doença de Kassyeh pode ser política? — estranhou Pandora.
— Se algo acontecer a ela, o Chefe Guerreiro pode alegar conluio da Aliança com os padarens para afetar raças da Horda. – Quem respondeu foi Arshe, sem largar do pescoço de Anduin – Além disso, pode cobrar dos pandarens que residem na Selva de Krasarang que jurem lealdade, para provar sua inocência.
— Isso não faz sentido nenhum! — exclamou a jovem humana.
— Politicamente, faz. — Anduin quem respondeu – Maninha, poderia soltar um pouco o pescoço? Está doendo…
— Ah, claro! — Arshe o soltou do abraço, mas continuou segurando sua mão – Estou tão, tão, tão feliz em te ver!
— Também estou feliz em te ver, maninha. — falou o rapaz, carinhoso – Mas temo que tenhamos que agir um pouco como estranhos pelo período em que estivermos aqui.
— Por quê? — quis saber ela, com uma pontada de irritação.
Apesar de ser muito inteligente e de uma excelente estrategista política, Arshe podia ficar um pouco cega quando o assunto era Anduin. Ela precisou de alguns segundos para soltar uma exclamação de entendimento e soltar, a contragosto, a mão do rapaz.
— Vocês poderiam nos informar qual a situação atual em Pandaria? — perguntou Kayliel um pouco receoso – Estamos aqui representando os Filhos de Lothar, mas ainda não tivemos oportunidade de nos inteirar de nada.
Pandora ponderou um pouco antes de responder. Olhou para o elfo, depois para Arshe e lembrou que sia tia confiava nela. Mesmo sendo uma vaca, Lina tinha um bom sensor no que dizia respeito a pessoas confiáveis. Por via das dúvidas, encarou Anduin, que assentiu.
— A Aliança planeja um desembarque nas praias da Selva de Krasarang. Estou aqui para manter Anduin seguro e escondido dos olhares da… dos inimigos.
Ela quase dissera “da Horda”, mas no último momento não queria soar como outras pessoas da Aliança. Ela sabia que os “inimigos” nem sempre pertenciam a uma facção só.
— Sei que a Kassyeh não entregaria Anduin, mas nunca sabemos quem mais vai aparecer. — Pandora encerrou a explicação, dando de ombros.
Kayliel acenou com a cabeça, a mão no queixo. Lidar com Halduron seria mil vezes mais fácil do que lidar com Rommath. Estava feliz de, no final das contas, ser ele o acompanhante de Kassyeh. Aproveitaria também para dar uma olhada na elfa. Não desconfiava da habilidade de Rukiah, mas queria ter certeza ele próprio.
— Bem, agora que está tudo esclarecido, podemos entrar? — perguntou Arshe, a animação voltando com tudo – Quero comer algo e dormir em uma cama!
— Acho que gostaria de um cochilo também. — falou Anduin esticando as costas.
— Sugiro que todos descansemos. — falou Kayliel – E tenhamos cuidado de não chamar Anduin pelo nome. Vai ser fácil passarmos por conhecidos dele, já que Lina e você são amigas, Arshe. Não seria estranho você o conhecer.
— Vai ser um pouco difícil, porque estou morrendo de saudades, mas conseguirei. — Garantiu Arshe.
— Obrigado, maninha. — Agradeceu o rapaz.
— Princesa Arshe. — Corrigiu Pandora – Você tem que chamá-la de “princesa Arshe”. Ou tia Arshe, como eu faço.
— Não! — protestou Arshe – Não me chame de tia! Vou me sentir muito velha se você fizer isso.
— Mas eu te chamo de tia! — lembrou-lhe Pandora, franzindo o cenho.
— É diferente! — garantiu Arshe, levemente ofendida.
Pandora apenas revirou os olhos e deu de ombros, como se dissesse “tanto faz”. Anduin, ao contrário, sabia que não podia deixar aquele assunto para lá. Ele precisou de alguns minutos para convencer a irmã a deixar chamá-la de “tia Arshe”, mas no final, a maga acabou, a contragosto, concordando.
— Tudo por sua segurança… — murmurou em um muxoxo.
— Obrigado, maninha.
— Tia. — Corrigiu Kayliel.
— Certo. Tia Arshe. — falou Anduin, as palavras ainda soando estranha em seus lábios.
Arshe apertou os lábios, mas nada falou.
— Agora, como o chamaremos? — perguntou Kayliel, seguro de que as coisas estariam sob controle assim que Arshe se acostumasse com a ideia.
Pandora deu uma risada alta enquanto Anduin ficava vermelho como tomate.
— Bem… — o jovem encarou sua irmã – Talvez você descubra que ser chamada de tia é um problema bem pequeno, comparado a ter um nome do estilo Wood…
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Doroteya protegeu os olhos com as mãos, tentando enxergar os navios um pouco melhor, apesar da luz forte do sol. O porto estava mais movimentado que o normal, o que era de se esperar, devido a imensa frota se formava no horizonte. Aqueles navios sairiam do porto no dia seguinte, rumo a Pandaria. Seria o começo do desembarque.
O coração da druidesa ficou apertado. O que mais queria era poder acompanhá-los. Não gostava do conflito, mas queria estar ao lado de Lina quando tudo aquilo começasse. Não que ela realmente precisasse; a companhia de Vincent e Rubrarosa seria suficiente para que a general pudesse cumprir com suas obrigações e ainda ficasse segura. Só que havia algo dentro do coração de Doroteya que ainda se apertava por estar longe. Se não fosse pela pequena Liana, já estaria em Pandaria há tempos.
A lealdade entre os worgens era algo estranho. Mesmo que a maioria não gostasse da comparação, era inevitável que compartilhavam algo que era comum entre lobos e caninos: ao escolherem alguém digno de sua fidelidade, o worgen agia como um protetor destemido e feroz, nunca recuando e protegendo a todo custo a pessoa escolhida. Para seu povo, o líder era óbvio: Grey Greymane, o rei de Guilnéas. Doroteya, contudo, era um ponto fora da curva. Depois que conhecera Lina, o laço que a mantinha presa ao rei se desfizera com uma facilidade imensa. Nem mesmo o medo de perder o filho e tudo que passara ao perder Liam não foram capaz de quebrar a lealdade ao rei worgen; a bondade de Lina, sim. Por isso, ficar tanto tempo longe dela estava se tornando quase dolorido.
— Senhora?
Doroteya voltou sua atenção ao vendedor. Frente a este, uma bancada cheia de peixes, preservados no gelo mágico que usualmente usavam ali. Tentou focar sua mente novamente nas compras e sorriu.
— Desculpe, estava aqui pensando na frota que partirá amanhã….
O homem assentiu, em concordância.
— É coisa pra ficar pensativo mesmo. — comentou ele – Dois amigos meus vão embarcar. Fazem parte da Sétima Frota. Eu nunca fui um bom soldado; prefiro o mar. — rindo, o homem sacudiu a cabeça – Espero que eles retornem.
— Vou rezar para Eluna os proteger. — A druidesa sorriu – Acho que vou querer esse aqui mesmo. — e apontou para o peixe que ele estava mostrando anteriormente a ela.
— A senhora não vai se arrepender! — garantiu, enquanto embalava o peixe.
O caminho de volta foi povoado de pensamentos conflituosos de Doroteya. E se participasse do desembarque, se perguntava. Liana estava bem maior, já comia e tomava leite de vaca. Porém, ainda era pequena demais, solicitando peito da mãe em toda oportunidade possível. Não seria justo simplesmente abandoná-la e ir para a guerra. Quantas pessoas não queriam fazer justamente o contrário, não ir para guerra e ficar com seus amados? E por que agora? Por que exatamente naquele momento? Lina já estava há tanto tempo em Pandaria e tinha se saído muito bem. Não era como se precisasse desesperadamente dela.
Talvez fosse a exaustão da maternidade, admitiu para si mesma. Tinha esquecido como era trabalhoso e extenuante era o papel de mãe de um bebê. Ainda não acreditava que conseguira cuidar de Theo sozinha na floresta. Claro, viver sozinha na floresta tinha suas vantagens: não havia muito o que se distrair de seus afazeres. Mas esse era também um problema, pois tinha que cuidar de sua sobrevivência e do seu filho em um ambiente selvagem. Suspirou. Não sabia se fora sorte ou desespero, mas no final das contas, conseguira criar o mais maravilhoso menino do mundo. Todavia, mesmo com toda a ajuda, a criação de Liana era infinitamente mais difícil.
— Uma moeda por seus pensamentos. — Murmurou uma voz.
Doroteya deu um pulo de susto. Tommy estava bem ao lado dela, sorrindo. Os dois tinham se encontrado pelo meio do caminho, na caminhada para casa, mas a druidesa nem reparara que o marido estava caminhando ao seu lado até ele falar.
— Você não devia me assustar assim! — protestou Doroteya parando momentaneamente com a mão no peito – E se eu tivesse te atacado por instinto?
— Você estava tão concentrada em sua caminhada que decidi arriscar. — e sorrindo, puxou-a para um rápido beijo.
Feliz por ter companhia de volta para casa, Doroteya correspondeu o beijo, voltando a caminhada logo em seguida. Sob protestos da esposa, Tommy tomou a maior parte dos pacotes em seus braços, livrando Doroteya de parte do peso.
— Liana ficou com os tios? — quis saber ela.
— Sim, está lá no ateliê. Fey diz que sempre conseguem mais cliente se conseguem sentar-se com ela na varanda.
— Não vai demorar muito para que eles queiram passar o dia todo com ela… — comentou Doroteya.
— E você já não acham que eles não querem? — Tommy sacudiu a cabeça – Sonham com isso desde que você fez a introdução alimentar dela.
— Eu ainda estou fazendo. — Corrigiu a druidesa – E hoje ela conhecerá peixe.
— Espero que ela goste. — Desejou Tommy – Afinal, ela gosta tanto de carne que quando tiver maior, será uma ameaça aos rebanhos da Aliança! — e riu ruidosamente.
Tristemente, Doroteya concordou. Já se conformara que seus filhos tinham um gosto especial por carne.
— Mas me diga, o que estava te preocupando tanto? — quis saber ele.
Doroteya hesitou um pouco.
— Algum problema? — agora ele quem estava ficando preocupado.
— Não exatamente… Quando chegarmos em casa eu falo.
Tommy pensou em insistir, mas decidiu deixar que ela lhe falasse em seu tempo. O casal não era de esconder coisas um do outro, tendo sempre um diálogo honesto e aberto. Era uma das coisas que mais gostava em sua esposa, a facilidade em falar sobre tudo e todos com ela. Por isso, se resignou a ficar em silêncio até que chegassem ao seu destino.
A casa não estava vazia quando chegaram. Na sala, Tobias, o tutor que Greymane escolhera para Theo, estava vestido com esmero, usando um tenro no estilo guineano, com um monóculo e usando sua elegante bengala para explicar as informações que estavam escritas em um quadro-negro apoiado em um cavalete. No quadro estavam todos os títulos nobres que eram usados na sociedade guilneana e qual a forma mais apropriada de cumprimento ao conversar com cada um deles. No sofá, segurando um caderno, estava Theo, com a testa franzida.
— Não seria mais fácil simplesmente chamar as pessoas pelo nome? — questionava o menino.
— Nobres gostam de ter seus títulos citados ao serem cumprimentados. — explicou o worgen.
— Nobres são chatos. — Decretou o menino.
Tobias deu uma risada.
— Eu concordo, Theo, mas infelizmente é necessário adotar certos protocolos ao lidar com essas pessoas.
— E era por isso que seu pai odiava quaisquer reuniões que tinha que a participar. — falou Doroteya assim que chegaram, enquanto tirava os sapatos.
— Entendo papai totalmente. — Afirmou o menino.
— Mas sempre é bom saber como puxar o saco de um nobre. — Tommy teve um pouco mais de dificuldade de retirar as botas, mas Doroteya o ajudou, segurando as compras – Nunca sabemos quando podemos precisar de um favor ou outro.
— O senhor Tommy está coberto de razão. — falou Tobias, se apoiando em sua bengala, agradecido – É preciso manter conexões com quem tem poder.
Theo sacudiu a cabeça, como se ainda não gostasse daquilo, mas anotou a observação no caderno.
Doroteya deu um beijo na cabeça do filho quando passou por este, que retribuiu com um sorriso.
— Janta conosco, Tobias? — quis saber a druidesa.
— Agradeço o convite, Doroteya, mas infelizmente tenho compromisso. Alguns amigos participarão do desembarque e faremos uma reunião para desejar boa sorte na viagem.
— Entendo. Espero que aceite, pelo menos, um chá.
— Adoraria uma xícara de chá. — Aceitou o worgen, educadamente.
Doroteya assentiu e foi em direção à cozinha, com as compras, sendo seguida de perto por Tommy. Enquanto o marido guardava as compras e levava o peixe para ser limpo no quintal, Doroteya fazia o chá para oferecer o tutor de seu filho. Tommy não perguntou novamente as preocupações de Doroteya, esperando que a mesma decidisse o melhor momento para falar. E foi quando estavam preparando o jantar, que a druidesa soltou:
— Queria participar do desembarque.
Tommy não se surpreendeu com a afirmação da esposa. Desde que Pandaria fora descoberta e Lina estava participando dos conflitos que a envolvia, Doroteya andava agitada e sabia que não era apenas o trabalho com a filha bebê.
— Você deve estar me achando uma péssima mãe agora… — murmurou Doroteya.
— Claro que não. – Afirmou Tommy – Na verdade, eu já suspeitava que você se sentia assim.
— Já? – surpreendeu-se Doroteya.
Ele sorriu carinhosamente.
— Não me gabando, mas já me gabando, eu conheço a minha esposa. – Ela deu uma risada envergonhada com o ‘minha esposa’ – Sei da sua ligação com a Lina e como você se preocupa com ela... Na verdade, eu me sentiria muito melhor se vocês estivessem juntas. Vocês fazem uma excelente dupla.
— Mas isso significaria eu estaria longe.
— Eu disse que me sentiria melhor, não que iria gostar. – Enfatizou ele – Eu nunca gosto de pensar em vocês correndo perigo por aí... Na verdade, eu gostaria de ser eu lá fora correndo perigo ao invés de vocês.
A afirmação também não surpreendeu Doroteya. Ainda tinha na lembrança a imagem de Tommy destruído e sedento por vingança. Aquele pensamento a deixou incomodada e ela voltava a atenção para a comida.
— Deixemos esse assunto para lá. – falou a druidesa – Não é como se eu fosse participar do desembarque.
Tommy nada falou e ambos continuaram a cozinha.
O resto da noite foi tranquila na medida do possível. Jantaram juntos, com os comentários animados de Fey e Mel sobre os negócios dominando a conversa. Liana adorou peixe, para a alegria de todos, mesmo a da mãe; afinal, crianças precisavam de proteína e haveria tempo para ela decidir se seria vegetariana. Doroteya não tinha muitas esperanças, já que já percebera que o sangue dos Wood era forte e clamava por muita carne. Depois de encerrada a refeição, os alfaiates se encarregaram da louça e Theo fez questão de colocar a irmã para dormir. E foi quando estavam sozinhos, tomando um pouco de chá no pergolado, que Tommy voltou inesperadamente ao assunto.
— Acho que você deveria ir.
Doroteya não entendeu a princípio, pois sua mente já se distanciara do desembarque.
— Ir para onde? – quis saber.
— Para Pandaria. Participar do desembarque.
Ela não escondeu a surpresa em seu rosto.
— Por que diz isso?! Você disse que não queria que nós corrêssemos perigo...
— E mesmo assim minha irmã está lá, pronta para morrer pelo rei. – Ele franziu o cenho – Me pergunto se ela teria essa mesma lealdade se não estivesse apaixonada por ele.
— Claro que teria! – Doroteya ficou ofendida no lugar da amiga – E se isso acontecesse, se ela morresse “apenas pelo rei”, – a druidesa fez a as aspas com as mãos – você se sentiria muito pior do que se fosse pelo homem que ela ama.
— Você acha? – perguntou, surpreso.
— Você não é o único abençoado com o conhecimento que apenas os casados têm.
Tommy deu uma risada e a beijou rapidamente, na bochecha.
— Acho que nós dois concordamos que não queremos a morte de Lina, com ou sem rei. – Retomou Tommy – Então eu acho que deveríamos dar crédito ao seu sentimento repentino de participar dessa batalha. Eu acho que é bem mais do que sua lealdade com Lina. Talvez seja a Luz ou Eluna, ou ambas nos mostrando algo.
— Tommy, mesmo que eu vá, e Liana? Ela ainda depende muito do meu leite.
— Ela tem tomado bastante na mamadeira esses dias. – lembrou-lhe o marido – E ela não precisava necessariamente ficar sem você todo o tempo.
Vendo a expressão confusa no rosto da esposa, Tommy sorriu.
— Eu tenho uma ideia...
**************************
Halduron bem que tentou dormir um pouco depois que Kassyeh se recolheu, mas simplesmente não conseguia. Deitado em sua cama, por algum motivo, ele não conseguia parar de pensar em Pandora. Ela estava tão diferente da menina que conhecera em Dalaran que o deixava curioso para saber o que acontecera durante aquele tempo. Também gostaria de saber mais sobre Pietro. E esclarecer uma coisa e outra com a menina.
Menina... Aquele pensamento o fez sorrir. Pandora não era mais nenhuma menina. Ficara mais alta e mais bonita. Mais madura. Se ao menos...
Antes que o pensamento pudesse se concretizar, ele se levantou. Estaria ficando louco se aquele tipo de coisa começasse a passar por sua cabeça. Sabendo de que nada adiantaria ficar ali deitado, vestiu-se novamente e foi para a taverna.
O plano de Halduron era sair e dar uma volta, mas tão logo desceu as escadas, ouviu uma voz conhecida e que custou a acreditar que ouvia.
— Kayliel? – perguntou assim que o elfo entrou em seu campo de visão.
— Halduron. – falou o sacerdote, sorrindo – Que bom revê-lo.
Halduron sorriu. Gostava muito de Kayliel. Era alguém que conseguia entender sua necessidade de mediar os conflitos e não sair atirando flecha para todo lado. Por isso, quando Kayliel se adiantou para abraçá-lo, o general patrulheiro fez questão de retribuir o gesto.
— Por que não está em Luaprata? – quis saber Kayliel depois do cumprimento.
— Acharam que eu seria a companhia mais apropriada para a princesa Kassyeh. – respondeu – Mas confesso que cansa ficar perto dela e de Tewdric; eles parecem em lua-de-mel eterna.
Kayliel deu um grande sorriso.
— Sei como é.
Só então foi que Halduron percebeu que havia outras pessoas presentes e uma delas era Pandora. A jovem humana não desgrudava os olhos dele e eles pareciam acusatórios, de alguma forma. Ao seu lado, o primo Andy estava novamente tentando não chamar a atenção, como se quisesse desaparecer atrás da prima. E havia mais uma humana presente, usando o mesmo tabardo que Kayliel, só que ela portava um cajado, de onde fluía magia arcana.
— Você deve ser a princesa Arshe. – falou Halduron, se dirigindo à maga – É um prazer conhecê-la, alteza – e fez uma mensura.
— Sou Arshe, mas não sou mais princesa. – falou gentilmente – Mas agradeço a lisonja, general Asaluz. – e fez um cumprimento.
— Apenas Halduron, por favor. – Pediu o elfo – Acredito que aqui não há necessidades dessas formalidades.
Pandora bufou, impaciente com tanta frescura. Bem que sua tia falou que as formalidades da nobreza eram um saco e ela detestava concordar com a tia. Se algum deles notou a impaciência da jovem humana, nada comentou.
— Imagino que vocês estejam aqui a pedido do arquimago Hadgar. – Continuou Halduron, que havia percebido a impaciência de Pandora – Os Filhos de Lothar com certeza tem interesse em manter contato com os pandarens.
— Sim, é verdade. – Confirmou Kayliel – Ele está preocupado com os impactos que o conflito tenha sobre os pandarens. E também, quer saber mais sobre a magia dessa terra. – E sem conseguir mais se conter, o elfo perguntou — Mas me diga, Halduron, qual o problema com a Kassyeh?
Halduron desviou seus olhos para Pandora, que o encarou. Kayliel rapidamente esclareceu:
— A tia de Pandora é a melhor amiga de Arshe. Nós já nos conhecemos há algum tempo.
— Faz sentido. – falou ele ainda encarando Pandora – Então ela deve ter te dito que não sabemos exatamente o que ela tem ainda.
— Não entrei em detalhes. – falou Pandora, como se o desafiasse.
Kayliel estranhou um pouco a atitude tão bélica de Pandora em relação a Halduron. Logo que chegaram, a jovem fez questão de dizer o quanto estava tentando manter Anduin seguro e a necessidade de discrição. Só que assim que vira Halduron, sua postura mudara. Por que aquilo acontecera?
— Será que poderíamos comer algo enquanto conversamos? – quis saber Arshe – Estou faminta.
— Eu não estou com fome, mas posso acompanhá-los. – se ofereceu Halduron – Gostaria de saber um pouco mais de sua vida em Shattrath, Kayliel. E posso te falar sobre como anda sua família em Luaprata.
— Ah, eu agradeceria.
— Que tal descansar um pouco, prima? – chamou Anduin tentando manter o tom de sua voz o mais calmo possível – Viajamos bastante e estou com sono. Podemos deixar os adultos conversando.
Pandora virou a cabeça tão rápido para Anduin que esse se assustou.
— Eu sou adulta também. – lembrou-lhe, com raiva.
— Claro que é. – respondeu Halduron, suavemente – E não vejo nenhum problema dos jovens se juntarem a nós.
Por mais que estivesse com muita vontade de conversar com Anduin, Arshe sabia que aquela não era a situação mais segura para o rapaz. Seu instinto lhe dizia que, apesar de sua postura calma e despreocupada, Halduron os estava avaliando cuidadosamente. Especialmente Pandora. Será que ele suspeitava que a jovem escondia o príncipe herdeiro de Ventobravo sob o manto de um dos muitos Woods?
— Eu gostaria de pedir a Pandora que reservasse nossos quartos. – falou Arshe suavemente – ? Depois, vocês podem reservar um quarto próximo aos nossos. Faço questão de pagar por isso.
Poderia fazer isso por mim, Pãozinho?
Um sorriso involuntário surgiu no rosto de Halduron ao ouvir o apelido. Pandora percebeu e seu rosto ficou imediatamente vermelho. Porém, ela falou de forma surpreendentemente calma.
— Claro, tia Arshe. Eu e Andy vamos pedir um que vai agradar muito vocês. Venha Andy. – e saiu arrastando o rapaz pela mão.
Depois que os jovens saíram de cena, sendo acompanhados pelo olhar de Halduron, Kayliel falou da forma mais despretensiosa possível.
— Que mundo pequeno esse, não é mesmo? Kassyeh e Tewdric salvaram Pandora e Pietro, que são sobrinhos de Lina, amiga de Arshe...
— Eles tiveram muita sorte. – Concordou Halduron voltando a atenção para Kayliel – Nós sabemos com aqueles dois são coração mole, principalmente quando se trata de crianças.
— Não deixe a Pãozinho ouvir você chamando-a de criança. – alertou Arshe enquanto azia um aceno para a pandarena que servia as mesas – Ela odeia isso antes mesmo de ficar adulta.
O dia que passaram juntos em Dalaran voltou à memória de Halduron e o elfo sorriu.
— Lembrarei disso. Afinal, a princesa Kassyeh tem uma consideração muito grande por essa jovem. Sei que nos veremos muito por esses dias.
A ideia de que Halduron estaria por perto de Anduin por tanto tempo deixava Arshe incomodada, mas Kayliel parecia relativamente calmo em relação a isso. Decidida a confiar no instinto do marido, Arshe focou em pedir a comida e cair na cama em breve.
— Halduron, poderia me contar um pouco da situação de Kassyeh? – pediu Kayliel, seu semblante ficando um pouco mais tenso.
O general patrulheiro nada escondeu de Kayliel. Sabia que o sacerdote jamais faria algo para prejudicar sua família, mesmo que estivesse casado com uma humana e usando um manto de uma facção neutra. O coração dele estava no lugar certo.
— Eu desconheço essa doença. – falou Kayliel depois de ouvir o relato de Halduron – Há uma doença do pântano em Terralém, no Pântano Zíngaro, mas os sintomas são bem diferentes. Ainda que eu examinasse Kassyeh, poderia deixar algo passar. O ideal é que a Rukiah faça o exame.
— Você também a conhece. – Afirmou Halduron sem surpresa.
— Sim, a conheci em Ventobravo. E ela é neutra. – Enfatizou o sacerdote antes que Halduron pudesse pensar qualquer outra coisa.
— Aparentemente é algo que encontrarei bastante por aqui. – brincou o patrulheiro.
— Graças a Luz. – Concordou Kayliel – Mas se não houver oposição, gostaria de estar presente no exame de Kassyeh. Jamais me perdoaria se não puder ajudá-la.
— E ela jamais me perdoara se eu esconder sua chegada dela. – riu-se Halduron – Então, devemos supor que você a encontrará.
— Será um prazer. E quero que você também a conheça, Arshe. – falou ele olhando para a esposa.
— Eu vou adorar! – empolgou-se Arshe no mesmo instante – Você fala tanto dela que é como se eu já a conhecesse!
A pandarena garçonete se aproximou da mesa naquele momento e anotou os pedidos do casal. Enquanto isso Halduron olhou ao redor e não viu nenhum sinal de Pandora e seu primo. Provavelmente teriam ido deitar-se. Quando conseguiria vera jovem sem ninguém por perto, se perguntava.
— Sei que você não pode falar muito, — Kayliel falou, capturando a atenção de Halduron no momento – mas o que o trouxe realmente aqui? As cartas de Luxuriah têm sido bem vagas.
— O desembarque. – Halduron falou sem nenhuma hesitação – A Horda desembarcara em breve nessas praias. Será um conflito violento, tenho certeza. Por isso trouxe Kassyeh para cá. Com ela doente como está nem Tewdric nem Ash conseguiriam focar em
— Ash está aqui?! – Kayliel o interrompeu, em pânico.
— Ash é a que você considera como irmã? – quis saber Arshe com os olhos brilhando -Ela está aqui na pousada também?! Queria muito conhecê-la!
Entre o choque de Kayliel e a animação de Arshe, Halduron ficou mais surpreso com a empolgação da jovem humana. Talvez ela não mantivesse aquela positividade toda se soubesse o que Ash pensasse dos humanos.... Mas obviamente Kayliel omitira aquele detalhe para sua esposa.
— Sim, ela está aqui, mas não na pousada. Na selva de Krasarang.
— Pela Nascente do Sol, como Luxuriah permitiu isso?! – Kayliel ainda nãos e recuperara do susto.
— É uma longa história...
E foi uma história que Halduron contou. Após ouvir por tudo que eles passaram para chegar ali, Kayliel entendeu porque Luxuriah nada falara para ele. As coisas já estavam muito complicadas com relação a Garrosh Grito Infernal para adicionar o relacionamento com alguém de uma facção neutra na jogada. Aquilo o entristecia um pouco. Adoraria estar do lado de sua família naquele momento, da mesma forma que sabia que Arshe gostaria de estar do lado da dela. Pelo menos sabia que, ali me Pandaria, o trabalho que fariam resultaria em coisas positivas para ambas as facções.
Depois que deixaram os assuntos do desembarque d elado, Halduron falou tudo que Kayliel queria saber sobre Tinuviel e Rommath. Também aproveitou para, discretamente saber um pouco mais sobre Pandora. E não foi difícil, pois Arshe amava falar sobre a amiga Lina e sua exótica família. Foi nessa conversa que descobrira sobre os pais de Pandora e Pietro e o quanto Arshe os detestava, sobre as brigas da família Wood, o quanto a general amava e cuidava daqueles dois, e também, do Andy e de como a persistência e teimosia de Pandora fora herdada da tia. Halduron apenas sorria enquanto Arshe despejava todas aquelas informações animadamente, mencionando inclusive a viagem a Dalaran que Lina dera a sobrinha de presente de dezesseis anos.
— E qual a idade de Pandora agora? – perguntou Halduron displicentemente.
Arshe parou um pouco de comer enquanto fazia as contas.
— Dezoito..., mas acredito que fará dezenove em breve. Vou só confirmar, para ter certeza de que não esqueci de dar o presente dela.
“Interessante...”, pensou o elfo.
Com as informações obtidas pelo casal neutro, Halduron se viu mais relaxado do que quando chegara. E foi só então que sentiu sono. Foi como se, de repente, os dias tivessem finalmente pesando em seus ombros. Pediu licença ao velho amigo, garantiu a Arshe que fora um prazer revê-la, e foi em direção à dona da estalagem para pedir que, assim que Rukiah chegasse, o avisasse. Por enquanto, finalmente tiraria o cochilo que merecia, sabendo eu teria muitos dias pela frente para abordar Pandora. E agora que sabia mais coisas do que jamais imaginava sobre a jovem, talvez não fosse muito difícil de tirar as respostas que queria daquele “pãozinho”.
*******************
Quantas coincidências deveriam acontecer para que deixassem de ser coincidência e passassem a ser destino? Aquela era uma pergunta que Pandora passara o dia se perguntando. O reencontro com Kassyeh e com Halduron, e depois com Arshe... Tudo convergia para a Meia Colina. Claro, se pensasse de forma racional, ali era um local neutro e seguro, ou seja, era evidente que todos aqueles mais moderados acabassem se encontrando. Mas assim, ao mesmo tempo? Não sabia se isso era sorte ou provação.
Com a mente em ebulição, não conseguira dormir. Deixou Anduin no quarto que reservara e fora dar uma volta. Viu rapidamente Halduron conversando com Arshe e Kayliel, mas fora furtiva o suficiente para que nenhum deles a vissem deixar a taverna. Ficou perambulando ali pela Meia Colina até encontrar um pandaren chamado Yoon que acabara de herdar uma fazenda e não sabia o que fazer com ela. Apiedada da situação do pandaren e lembrando quanto aquele povo a ajudara e ao irmão quando chegaram ali, Pandora decidiu que ia usar seus conhecimentos sobre fazenda para ajudá-lo.
A ajuda acabou se estendendo por toda a tarde e quando o dia já chegava perto do fim, ela estava cansada e satisfeita. Se comprometeu a voltar no dia seguinte para ajudá-lo novamente e daquela vez levaria Anduin para pegar no pesado também. Era bom que o príncipe colocasse a mão na massa um pouco para que lembrar de como as pessoas comuns viviam. E foi por ser a única sentada nos degraus da taverna, observando o pôr do sol que foi a primeira a ver Rukiah chegando em sua serpente das nuvens.
— Pandora! – exclamou a pandarena satisfeita quando a viu na feira da Meia Colina – Que surpresa te encontrar por aqui!
— Pois é, também estou surpresa de estar aqui. Foi uma decisão de última hora, coisa de minha tia.
— Lina está aqui? – quis saber ansiosa.
— Não, vim com Anduin. A propósito, aqui ele é meu primo de se chama Amendoim, mas é chamado de Andy. – e diante do olhar confuso da pandarena, explicou – Ninguém pode saber quem ele é.
— Ah, entendo. Eu vim pela Kassyeh, você por acaso a viu?
— Sim, a vi. – A mente de Pandora foi diretamente até a Halduron, mas logo ela empurrou esse pensamento para o lado – Ela me disse que estava com uma tal de doença do pântano, mas se sentia bem melhor desde que chegou.
— É mesmo? Me conte mais.
Enquanto elas caminhavam de volta para a taverna, Pandora resumiu a situação, sem contar, claro de seu encontro anterior com Halduron. Aquilo era algo que queria guardar somente para si. Falou de Arshe, de Kayliel, de como as coisas estavam calmas, apesar de todas as preocupações. Rukiah ficou pensativa.
— Normalmente os sintomas da doença do pântano envolvem febre e indisposição. Se Kassyeh melhorou assim que chegou aqui, talvez não seja isso.
— Espero que não. – Desejou Pandora.
— Estou confiante que não seja. – Assegurou Rukiah – E que bom que Kayliel está aqui, ele pode me ajudar, caso seja alguma doença de elfo ou coisa assim.
— Isso existe? – perguntou Pandora surpresa – Doença só de elfo?
Rukiah deu de ombros.
— Quem sabe? Eu sei que vocês humanos não tem problemas com os pelos da orelha enroscados. – e apontou para a própria orelha.
Pandora ainda ria quando entraram na taverna. E, para sua surpresa e deleite, Halduron estava sentado em uma mesa bem em frente à porta e a encarou quando as viu. Ele abriu um sorriso e o coração da jovem humana se acelerou. Porém, o sentimento foi de frustração quando percebeu que era pra Rukiah que ele sorria.
— Halduron! – Rukiah se adiantou alegremente na direção dele – Como é bom te ver! Como você está?
— Vivo, graças a você. – Ele se levantou e deu um abraço na pandarena – Nunca vou esquecer que você salvou a minha vida.
— Bobagem! – a pandarena retribuiu o abraço – E a Kassyeh, onde está?
— Ainda dormindo. Vou chamá-la.
— Não, não! Deixe-a descansar. Eu quero apenas que você me diga quais os sintomas que ela sentiu esses dias.
A intimidade dos dois deixou Pandora extremamente incomodada. Claro, sabia que não havia nenhum sentimento amoroso entre aqueles dois, mas a forma como Halduron sorriu para Rukiah a fez arder de ciúmes. Ciúmes? Sério, Pandora? Se perguntou indignada consigo mesma. Isso é lá uma coisa que você sinta logo de Rukiah? Ainda assim, aquele sorriso era tão lindo que queria que fosse dado para ela e somente para ela.
Imersa nesses pensamentos, demorou para perceber que tanto Rukiah quando Halduron a encaravam, como se esperassem uma resposta.
— Oi? – perguntou a jovem sentindo seu rosto arder. Por um momento, imaginou se eles podiam ler aquilo que se passava em sua mente.
— Estou dizendo que devíamos tomar uma cerveja. Ou duas. – falou a pandarena animada – Já que somos tomos amigos aqui.
E mais uma vez Pandora se viu sentada na mesma mesa que Halduron pela segunda vez no mesmo dia. Rukiah pediu novamente detalhes do que Kassyeh tinha e Halduron explicou demoradamente os males e o comportamento da elfa enquanto estavam na Selva de Krasarang. De vez em quando, Pandora percebia os olhos de Halduron caindo sobre sua figura, e tentou ignorar o palpitar do seu coração enquanto bebia a cerveja que Rukiah tinha pedido par aos três.
— Como pensei, esses sintomas não parecem com a doença do pântano. – Afirmou Rukiah animada – Pandora já havia me falado um pouco sobre como ela estava se sentindo e isso que você me falou só confirma. Na verdade... – Rukiah colocou o dedo no queixo – Será....
— Tem alguma ideia? – quis saber Halduron, ansioso.
A pandarena deu um pequeno sorriso.
— Tenho, mas quero falar primeiro com Kayliel. Como eu disse a Pandora, não se se existe alguma doença que só afeta seu povo.
— Seria bom chamar chamá-lo então. – disse Pandora procurando Kayliel com os olhos pela taverna – Ele deve estar lá em cima. Vou buscá-lo. – e se levantou em seguida.
Halduron acompanhou Pandora com os olhos enquanto ela atravessava a taverna na direção da escada e, quando voltou os olhos para Rukiah, a pandarena a olhava com um ar de singela curiosidade.
— Você não conheceu Pandora quando vocês estavam em Sri La. – falou ela suavemente.
— Verdade. – Concordou Halduron – Eu estava doente.
— Ainda assim eu lembro como ela estava preocupada com você. – Continuou a sacerdotisa.
Um leve incomodo se apossou de Halduron. Onde Rukiah queria chegar?
— Ela parece ser uma pessoa de bom coração. – Desconversou – Se não fosse, Kassyeh não teria se apegado tanto a ela.
— Sim, é. E é muito bonita também, não é mesmo? – o comentário foi despretensioso e Rukiah bebeu um gole de sua cerveja enquanto o encarava.
— Você acha? – Halduron devolveu a pergunta.
— Você acha. Se não achasse, por que não tiraria os olhos dela desde que chegamos?
O comentário foi tão direto e tão inesperado, que o elfo simplesmente não estava preparado para responder. Tentou ganhar tempo tomando um gole de cerveja, mas quanto mais sua cabeça demorava para criar uma resposta que mudasse o rumo do assunto, mais o sorriso de Rukiah se abria. Começou a ficar nervoso e sabia que precisava de algo que eliminasse de vez quaisquer ideias errôneas da cabeça de Rukiah, mas logo foram interrompidos pela voz alta da jovem.
— Estamos indo! – anunciou descendo a escada ruidosamente com Kayliel.
A pergunta não foi respondida e ficou pairando entre Rukiah e Halduron, incomodando imensamente o elfo, enquanto a pandarena estava deliciada.
— Rukiah, há quanto tempo! – cumprimentou Kayliel ao se aproximar.
A pandarena esqueceu momentaneamente de Halduron, levantou-se e abraçou o elfo com força.
— É mesmo! A última vez que nos vimos foi em Ventobravo!
— Sim, verdade. – e ansioso, já foi iniciando ao assunto – Pandora em disse que você acha que não é a doença do pântano que Kassyeh tem.
— Isso mesmo. – a pandarena foi direcionando os dois para se sentarem novamente na mesa – E antes de tudo, quero saber se tem alguma doença específica em seu povo.
— Bem, a única doença que sei que não compartilhamos com ninguém, e não é bem uma doença na verdade, é a sede por magia. Quando temos contato com magia vil, isso nos dá muito poder, mas nos joga numa crise de abstinência muito forte.
— Me fale mais sobre isso.
Os sacerdotes discutiram por um tempo sobre as questões com magia dos elfos e iam tirando dúvidas com Halduron a respeito das últimas semanas que Kassyeh passara na Selva de Krasarang. E enquanto discutiam os sintomas da princesa, um pensamento passou pela cabeça de Pandora. Foi um pensamento baseado em sua longa experiência como um membro da família Wood e aquilo iluminou seu rosto. Halduron percebeu a mudança no semblante da jovem humana e chegou a abrir a boca para perguntar, mas a lembrança da pergunta de Rukiah o refreou. Por algum motivo, ter sido indagado daquela forma pela pandarena o deixou ressabiado.
Todavia, percebeu que a mesma expressão agora estava no rosto de Kayliel e Rukiah e parecia que ele era o único que mantinha a expressão preocupada. E era o único também que não fazia ideia do que estava acontecendo.
— Acho que chegou a hora de vermos Kassyeh. – Anunciou Rukiah.
Kayliel assentiu.
— Acredito que ela já esteja acordada a essa hora. – Completou o sacerdote.
— Posso ir também? – quis saber Pandora, empolgada.
Rukiah e Kayliel olharam para Halduron, que demorou um pouco para perceber que eles esperavam seu aval para que Pandora os acompanhasse. O general patrulheiro encarou a jovem, vendo pela primeira vez quão brilhante era o tom de verde de sua íris e assentiu, desviando a vista para Kayliel rapidamente.
— Vamos.
E os dois elfos foram na frente, seguidos por uma ansiosa Pandora e, por último, Rukiah, que lutava para não dar risadinhas diante do que estava se desenrolando à sua frente.
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Kassyeh acordou com a impressão que não havia dormido nada. Lá fora, os passarinhos cantavam alegremente e a elfa se perguntou quanto tempo estava na cama, mas não parecia ser muito. Seu corpo doía, agora cobrando a viagem ininterrupta que forçara a si mesma e a Halduron fazer. Sentou-se na cama e respirou fundo. Pelo menos não estava enjoada mais. Na verdade, uma fome avassaladora rugia em seu estômago. Adorava tudo que comera naquele dia, mas vira que havia outras opções e começou a se perguntar quais dos pratos desconhecidos provaria.
Levantou-se, mas sentiu-se um pouco tonta e voltou a sentar. Respirou fundo mais uma vez e levantou-se com cuidado. Vestiu-se devagar, e penteou os cabelos, que estavam mais longos do que costumava usar. Porém, até gostava daquela nova aparência, pois podia fazer um coque e usar um dos muitos adornos que as pandarenas usavam e eram lindos. Já tinha terminado de se arrumar quando ouviu uma batida na porta.
— Entre. – falou, achando que veria Halduron entrar para verificar seu estado.
Ficou surpresa ao ver, não apenas Halduron, mas também Pandora, Rukiah e, inesperadamente, Kayliel. A pandarena ela já esperava encontrar, mas Kayliel era uma verdadeira surpresa. Ficou sem saber quem abraçava primeiro, apenas sorrindo bobamente. Rukiah decidiu em seu lugar, se adiantando e abraçando a elfa com força.
— Kassyeh, há quanto tempo!
— Há quanto tempo, Rukiah! – Kassyeh adorava abraçar os pandarens, porque eles eram tão fofinhos e cheirosos! – Eu estava ansiosa para te ver!
— Eu também! – e afastando um pouco a elfa, a olhou de alto a baixo — E nossa, achei que ia te encontrar um caco, mas você está corada e parece bem!
— Não sei qual foi o milagre que a meia colina operou, mas só de entrar nela eu me senti melhor.
— Isso é maravilhoso! Mas ainda vou te examinar. Eu e Kayliel. Prefiro pecar pelo excesso.
— Sim, senhora. – E mudando seu foco, olhou para Kayliel, que sorriu meigamente para a elfa – Kayliel, como é bom te ver!! – e se adiantou para abraça-lo.
— É ótimo revê-la Kassyeh. – falou o sacerdote sem esconder o alívio em sua voz – E ser recebido com esse abraço e não com uma magia de ataque ajuda muito.
— Você saber que eu seria a última pessoa a lhe condenar por seguir seu coração, não sabe?
— Sim, sei.
Enquanto Kassyeh cumprimentava os recém-chegados, Pandora e Halduron ficavam em uma proximidade desconfortante. Além disso, o silêncio entre os dois era perturbador e evitavam se olhar. A tensão era sentida por ambos e ambos se perguntavam se o outro sentia-se da mesma forma.
“Preciso me manter longe dele.”, pensava Pandora. “Minha missão aqui é manter Anduin escondido.”
“Tenho que dar um jeito de conversar com ela a sós.”, era o que estava na mente de Halduron. “Há várias coisas que preciso saber.”
— Então, farão os exames agora? – perguntou Halduron tentando afastar o incomodo de querer encarar Pandora desesperadamente.
— Sim, sim. – Confirmou a Pandarena — Se importa se eu abrir as cortinas, Kassyeh? Assim poderemos lhe examinar melhor.
— Sim, claro. Precisam que eu faça algo?
— Apenas sente-se onde você se sinta mais confortável. – pediu Rukiah indo em direção à janela e Kassyeh assentiu, sentando-se novamente na cama.
Cantarolando, Rukiah abriu cortinas e o sol entrou no quarto. Kassyeh pode perceber que a luz já baixava no horizonte e percebeu, surpresa, que dormira o dia todo. Não era à toa que estava com tanta fome! Fazia horas que havia comido algo.
— Hã... Kassyeh... Posso ficar? – quis saber Pandora levantando a mão – Eu também estou preocupada com você.
Kassyeh lançou um sorriso tão carinhoso para Pandora que a jovem humana quase se derreteu.
— Claro, Pãozinho. Venha, sente-se aqui comigo na cama. Estou um pouco nervosa, quem sabe você segura a minha mão.
Ansiosa para se afastar de Halduron, Pandora foi, alegremente, até Kassyeh, sentou-se ao seu lado e segurou sua mão. O general patrulheiro franziu um pouco o cenho e a princesa percebeu.
— Não faça essa cara, Halduron. – Reclamou – Pandora é uma amiga. Ela não me oferece perigo.
Naquele momento, Halduron e Pandora finalmente se olharam e, por um momento, Pandora se perguntou se ele estava incomodado não porque Pandora segurava a mão de Kassyeh, mas porque Kassyeh quem pedira para segurar sua mão.
“Até parece!”, Pandora disse e meneou com a cabeça, ainda olhando o elfo, até desviar o rosto e prestar atenção nas mãos luminosas de Kayliel e Rukiah, que estavam sobre a cabeça de Kassyeh.
Todavia, fora exatamente esse pensamento de Halduron. Ele se incomodara com a proximidade de Kassyeh com Pandora, porque, por algum motivo, gostaria que a jovem não fosse tão arredia perto dele e pudesse se um pouco mais como era com Kassyeh. Como fora com ele quando se viram em Dalaran. Lhe incomodava o fato de Pandora parecer decidida a manter-se afastada dele. Quando se tocou do absurdo que estava pensando, baixou os olhos. Culpava esses sentimentos ao encontro desastroso dos dois no Monte Kun Lai e estava mais decidido que nunca a confrontá-la assim que possível.
Depois de um momento que parecia uma eternidade, Rukiah e Kayliel retiraram suas mãos, que pairavam sobre a cabeça de Kassyeh, e se entreolharam.
— O que foi? – quis saber a princesa, nervosa.
— O que você tem sentido exatamente? – perguntou Kayliel um pouco ansioso.
— Apatia. Na maior parte do tempo não tenho ânimo de nada. E enjoo, muito enjoo. Nada para no meu estomago. – Ela pensou mais um pouco – E meu corpo dói como se eu tivesse apanhado.
Rukiah e Kayliel se encararam mais uma vez e aquilo deixou Kassyeh nervosa.
— Certo, por que vocês dois estão se encarando assim? Não é nada de grave, certo? Afinal, eu já estou bem melhor! Até dormi o dia inteiro.
— E você melhorou assim que chegou aqui. – Repetiu Rukiah.
— Sim! – exasperou Kassyeh – Eu até estou com fome! Na verdade, agora eu estou com muita fome, mas vocês dois estão me assustando!
— E se eu te disser que você precisa voltar pra Selva de Krasarang? – arriscou Kayliel – Como você se sentiria?
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Kassyeh fez uma expressão de tanto nojo que quase chegou a vomitar. Para sua surpresa, Kayliel e Rukiah riram.
— É o que eu estou pensando?! – perguntou Pandora ansiosa, olhando par aos sacerdotes.
— Com certeza é! – confirmou Kayliel.
— Ah, eu sempre trago algo na minha mochila para caso algo assim aconteça! – e Rukiah colocou a mochila em cima da cama de Kassyeh e começou a procurar lago lá, animadamente.
Porém, nenhum deles disse nada, só ficavam com aqueles sorrisos bobos olhando para Kassyeh.
— Espere, espere! – quem falou agora foi Halduron, se aproximando – O que está acontecendo?! O que a princesa tem?
— Eu também quero saber! – Kassyeh estava quase chorando, mas Pandora apertou sua mão.
— Calma Kassyeh! É uma coisa muito boa! – garantiu a jovem humana.
— Aqui está! — a pandarena virou-se, segurando uma roupinha pandarênica de bebê – Parabéns Kassyeh!
— Parabéns!! – Pandora abraçou fortemente.
— Eu sabia que esse dia chegaria Kassyeh, parabéns! – Kayliel se juntou ao coro.
Halduron ficou em choque por um momento e Kassyeh simplesmente parecia não ter entendido o que estava sendo dito.
— Hã? – foi tudo que saiu de sua boca
Rukiah, achando que ela estava se referindo à roupinha, explicou:
— Imagino que bebês de sua raça não sejam tão grandes quando nascem, mas acredito que com uns… — ela analisou a roupinha – Seis meses, seu bebê poderá usar! Parabéns de novo! — e entregou a roupinha a Kassyeh.
A elfa segurou a roupinha, sentindo a delicadeza da seda pandarênica. Sua mente, em choque, demorou para processar a notícia e, quando o fez, as mãos da elfa começaram a tremer.
— Que coisinha linda! – comentou Pandora alisando a roupinha.
— Eu acho que serão necessários mais que sete meses para o bebê caber aí... – analisou Kayliel.
— Mas o bebê será meio orc, não é? – questionou Pandora – Talvez ele cresça mais rápido.
Halduron ainda não falara nada. Estava pensando em como Tewdric e Luxuriah reagiriam a notícia. Com certeza tirariam Kassyeh no exato segundo que soubesse.
A maga segurava a roupinha delicada em seus dedos, que começaram a tremer. Finalmente havia entendido tudo.
— E-Eu… Estou grá-grávida? — gaguejou encarando primeiro a pandarena e depois a Kayliel.
— Sim! – confirmou Kayliel com um sorriso que não cabia em seu rosto.
— De exatos quarenta e sete dias, de acordo com minhas contas! – complementou Rukiah — Não é lindo?
— Nossa, que específico. – comentou Pandora dando uma risada — e vendo a expressão de incredulidade de Kassyeh, seu sorriso morreu – Kassyeh... Você… não está feliz?
Todos pararam de sorrir e encararam a maga, enquanto as lágrimas enchiam seus olhos. Se ela estava feliz? A sua felicidade era tanta que as palavras não saiam de sua boca. Seus lábios tremiam, pois, jamais conseguiria sorrir de modo a externar toda a alegria que estava sentindo, nem o triunfo que tomou conta de seu coração. Apertou os lábios, as lágrimas rolando e então um trêmulo sorriso surgiu em seus lábios. Estava grávida! Grávida! Depois de tantos anos juntos, ela e Tewdric finalmente teriam o bebê que tanto queriam! Carregaria em seu ventre e depois em seus braços uma criança do amor de sua vida. Tewdric poderia dar todo seu amor a mais um sortudo Fendessol! Esperava que aquilo não despertasse um ciúme muito grande em Karen. E Tinuviel.... Ela teria um priminho ou uma priminha! Aethas seria titio-avô de novo! Pela Nascente, como Ash e Luxuriah reagiriam àquilo?!
Os demais ainda estavam apreensivos quando Kassyeh abraçou a roupinha com força e gritou, a plenos pulmões:
— Eu sou a pessoa mais feliz desse mundo!!!!!!!
Houve gritos de comemoração e abraços trocados entre a elfa e todos os presentes, até mesmo Halduron, que foi o último a se aproximar para felicitá-la.
— Meus parabéns, Kassyeh. – Ele deixara o título de princesa momentaneamente para trás – Se tem alguém que merece ser mãe, esse alguém é você.
— O-obrigada, gen-gente! — as lágrimas não paravam de rolar pelo rosto de Kassyeh – E-eu estou tão... – mas ela não conseguiu terminar a frase, pois soltou um sorriso e enterrou o rosto na roupinha de bebê.
— Nem consigo imaginar a alegria de Tewdric quando souber! – exclamou Kayliel – E Luxuriah... Pela Nascente do Sol, ela vai querer te trancar na Torre Solfúria!
— Acho que não é hora para pensar nisso. – falou Rukiah – Acho que é hora de comemorarmos!
Kassyeh respirou fundo, ainda abraçada com a roupinha. Sua cabeça estava a mil, pensando em falar com Tewdric, com as irmãs, com Aethas, com Vivithi... Queria na verdade sair gritando para todas as pessoas que finalmente seria mãe! Mas Rukiah estava certa, primeiro que tudo queria comemorar.
— Eu definitivamente quero comemorar essa noite. – falou a princesa e todos se calaram para ouvi-la – E quero comemorar com todos. Pandora, traga sue primo. Kayliel, traga sua esposa. Quero finalmente conhecê-la. Halduron, você não vai reclamar, não é mesmo?
— De jeito nenhum. – Garantiu ele, sorrindo – Se eu engasse qualquer coisa a você nesse momento, Tewdric me partiria no meio.
Houve risadas antes de Kassyeh continuar:
— Queria também que pudéssemos fazer essa comemoração de forma mais reservada. Não quero correr o risco de ver ninguém que possa depois falar qualquer coisa e estrague tudo. E não estou falando em relação a Horda ou Aliança. Não sei como os orcs vão reagir a um mestiço nascendo. Ou os elfos...
— E você não vai pensar nisso agora. – Foi falando Pandora – Porque quem vai lidar com isso é o Ted e suas irmãs. Duvido que qualquer pessoa queira encarar aquele orc! E pelo que sei, suas irmãs não ficam atrás!
— Não ficam mesmo. – Concordou Halduron.
Pandora virou a cabeça rapidamente para encará-lo e, para sua surpresa, ele sorria. A notícia da gravidez de Kassyeh quebrou o clima estranho entre eles. Impregnada com aquela energia positiva no ar, ela retribuiu com um breve sorriso.
— Eu tenho uma sugestão. – Rukiah falou animadamente – Tem uma casa de banho do outro lado da colina. Eles têm águas termais maravilhosas que fazem muito bem à saúde! E eles também oferecem um jantar relaxante caso você requisite. É sempre cheio lá, mas conheço a dona. Se eu pedir com jeitinho, ela consegue nos atender! Podemos tomar um maravilhoso banho de fonte termal e depois um maravilhoso jantar!
— Já ouvi falar desses banhos termais! – lembrou-se Kassyeh – Fiquei com vontade de experimentar! Eu posso?
Rukiah fez que sim com a cabeça.
— Só não pode ficar muito tempo, mas um mergulho rápido e depois um escalda pés vai deixar você melhor ainda!
— Pois então é o que faremos! – e voltando-se para Halduron, pediu – Você pode resolver isso com Rukiah, Halduron? Pague o que a dona cobrar e reserve o banho e o jantar para todos nós!
Halduron fez uma mensura.
— Como quiser, princesa.
— Sem formalidades, Halduron! Sem formalidades! – exigiu Kassyeh – Hoje quero comemorar minha gravidez com meus amigos e não com subordinados!
Dando uma risada, ele concordou.
— Como quiser, Kassyeh. – e voltando-se para Rukiah – Vamos?
— Sim, vamos!
Assim que eles saíram, Kassyeh se voltou para Pandora e Kayliel.
— Vocês vão aceitar o convite, não é mesmo?
Os dois começaram a concordar ao mesmo tempo, as palavras de um atropelando as do outro e a princesa deu uma risada.
— Pois vão logo buscá-los. Assim que Halduron e Rukiah voltarem eu quero ir nessa casa de banho. Estou faminta e cansada!
**************************
As fontes termais eram uma diversão dos pandarens que muito agradou aos estrangeiros quando estes chegaram. A proposta não era apenas tomar banho para se limpar, mas aproveitar um momento de relaxamento com as pessoas próximas. A etiqueta exigia que se tomasse um banho com água fria antes de entrar nas fontes, para não as sujar. Lavava-se o pelo muito bem (ou, no caso de outras raças, os cabelos), tirava todo xampu e sabonete para só então aproveitar a imersão na água quente. Essas casas de banho eram em sua maioria coletivas, sendo separadas em banhos femininos e banhos masculinos. Após isso, um jantar era servido, normalmente acompanhado de muita cerveja, para que todos pudessem dormir relaxados e de barriga cheia.
Halduron ficou especialmente animado com as casas de banhos. Antigamente, quando Luaprata estava em seu auge, havia lugares similares às casas de banho pandarenas, com a diferença que era misto e as pessoas usavam roupas de banho para aproveitar a água quente, que era aquecida por magia. Fazia tanto tempo que ele não relaxava em uma banheira de água quente que ficou especialmente empolgado com a oportunidade.
Não foi difícil convencer a dona da casa de banho a cedê-los o espaço. De acordo com ela, o movimento estava meio fraco e só havia alguns pandarens bêbados dando trabalho. Ela prontamente os expulsou e garantiu que tudo estaria em ordem para quando a princesa e seus convidados chegassem. Disse que faria uma refeição reforçada, afinal haveria uma grávida ali, além de providenciar quimonos para que eles usassem após o banho, para ficarem mais à vontade. Todos os produtos de higiene estariam disponíveis também. Depois de acertado o pagamento, Halduron voltou e informou a Kassyeh tudo. Ela, então, pediu que ele e Rukiah convidassem os demais para acompanhá-los, enquanto ela comia rapidamente alguma coisa, pois estava faminta. No final as contas, Rukiah informara a Pandora e seu primo e ele convidara Kayliel e Arshe. Após isso, não tardou a ir à casa de banho e foi o primeiro a chegar.
Uma criança pandarena estava esperando-o. Era o filhote da dona da casa de banho. O menino o olhou longamente antes de lhe entregar uma cesta de vime com toalha, roupa e mesmo chinelos e lhe disse:
— Segunda porta à esquerda.
Halduron agradeceu com um aceno de cabeça e foi até lá. Havia um lugar para tirar a roupa e os sapatos e guardá-los lá. Depois de fazer isso, foi até onde tinha baldes de água fria e torneiras, além de banquinhos. Instruções escritas na parede diziam que ali era o local que deveria ser o banho frio. Halduron seguia s instruções, sentou-se no banquinho e começou a banhar-se. Jogou um balde de água fria em sua cabeça e um calafrio escorreu por sua espinha. Depois, passou a lavar os cabelos e o corpo com avidez, ansioso pela água quente.
O banho ajudava a lidar com seus pensamentos em ebulição. O fato de não ter dormido na noite anterior, nem ter tido condições de dormir algumas horas naquele dia o deixava com a sensação de embriaguez, o que detestava. Porém, resolvido a situação de Kassyeh e de uma forma muito mais positiva do que podia supor o deixara de bom humor novamente. Seu humor estava bom o suficiente até para encarar uma noite na companhia de Pandora sem ficar com aquele latente rancor de ela tê-lo chamado de mentiroso. Na verdade, estava ansioso para ver como a jovem seria e, um ambiente amistoso e comemorativo.
Banho terminado e era hora de Halduron entrar na fonte. Pensou em esperar Kayliel, mas depois mudou de ideia. Levantou-se, segurando o balde para devolvê-lo à prateleira quando ouviu pés se aproximando da entrada do local. Mas não foi Kayliel quem entrou. Nem Andy Wood.
Pandora estava parada à porta, com a expressão de choque.
Rapidamente ele pegou novamente o balde, que foi usado por Halduron para esconder seu sexo. Foi tudo que conseguira fazer.
A jovem humana continuava ali, parada, o encarando com a boca aberta. O rosto dela estava pintado de um intenso vermelho de vergonha.
— Algum problema, Pãozinho? – a voz de Rukiah preencheu o ambiente e Halduron ficou ainda mais nervoso, mas não sabia exatamente o que fazer.
Em instantes a pandarena adentrou a casa de banho e viu Halduron, pelado, de pé segurando o balde à frente de seu sexo e Pandora paralisada, apenas o encarando.
— Ah não! – exclamou a sacerdotisa – O Yun-Ho se enganou de novo! – e colocando a cabeça no corredor e gritou — Yun-Ho, o Halduron é macho, não fêmea! Você o mandou par ao banho errado.
E uma vozinha gritou:
— E como eu iria saber?!
Balançando a cabeça, Rukiah voltou sua atenção ao elfo.
— Quer seu robe e toalha? – perguntou delicadamente.
— Sim, para o favor. – falou Halduron numa voz fraca.
Rukiah entregou a toalha e o robe para o elfo, momentaneamente escondendo o corpo dele com o seu, o suficiente apenas para que ele colocasse a toalha ao redor da cintura, para depois colocar o robe por cima. Depois, o elfo calçou os chinelos, que ficou imenso em seus pés, e pegou a cesta com suas roupas.
— O masculino é a primeira à direita. – Anunciou a sacerdotisa.
— Sinto muito. – Conseguiu balbuciar ele antes de sair apressadamente.
Pandora ainda estava estática na entrada quando ouviu a risadinha de Rukiah.
— Eles são pelados mesmo! Nada, nadinha! – e então começou a tirar a roupa animadamente.
*******************
Apesar de já ser noite quando as mulheres se ajeitaram para ir às termas, as surpresas do dia ainda não haviam acabado. Quando Pandora e Arshe se encontraram com Kassyeh e Rukiah, as duas magas se olharam espantadas, antes de sorrirem e se cumprimentarem alegremente.
— Você é a princesa Kassyeh! – Arshe foi a primeira a falar – Nossa, ainda lembro de sua voz! É tão linda!
— E você é a princesa Arshe. – Kassyeh respondeu – Nossa, não sabia que a princesa Arshe é a mesma Arshe de Kayliel!
A maga ruborizou um pouco quando Kassyeh falou “Arshe de Kayliel”.
— Vocês se conhecem? – estranhou Pandora tentando encaixar em sua mente algum momento que aquelas duas pudessem ter se encontrado.
— É difícil de acreditar, mas nos conhecemos em Dalaran! Lina estava lá também! E a Doro! Nossa, a Kassyeh cantou tão bem naquele dia!
Por algum motivo, aquela informação fez o coração de Pandora acelerar. Seria Dalaran um local propenso a tantas coincidências assim? Ou sua energia mágica propiciava que esse tipo de coisa acontecesse?
As duas magas começaram a falar animadamente e não deram mostras que iam parar tão cedo, então, Pandora fez um gesto para Rukiah, chamando para que ela a acompanhasse.
— Nós já vamos indo. – Avisou.
Kassyeh e Arshe acenaram para as duas que estava tudo bem antes de continuarem conversa animada.
— Se a Kassyeh não se cuidar, tia Arshe vai prendê-la nessa conversa até amanhã. – comentou Pandora.
Rukiah deu uma risadinha.
— A Kass não parece se importar. – respondeu a sacerdotisa.
Quando chegaram nas termas, o pequeno pandaren as atendeu e lhes deu uma cesta com quimonos e produtos de banho e indicou o caminho. Pandora começou a seguir, mas Rukiah olhou para sua cesta e franziu o cenho.
— Cadê a bebida que temos direito? – perguntou.
— Sei disso de bebida não. – falou o menino coçando a cabeça.
— Pois, chame sua mãe que ela sabe!
O menino bufou e seguiu em direção ao interior da casa. Rukiah olhou para Pandora e indicou o caminho com a mão.
— Pode ir, chego já.
E foi assim que Pandora se viu sozinha nas termas com um Halduron nu, escondendo seu sexo apenas com o balde.
Vê-lo sem roupa era, sem dúvida, a última coisa que Pandora achou que aconteceria naquele dia. Tudo bem, o encontro fora inesperado, da mesma forma que fora o encontro de ambos no Monte Kun-Lai. A companhia de Anduin e sua missão de deixá-lo inteiro, vivo e incógnito complicara um pouco as coisas. Adicione isso a chegada de Kassyeh, que a conhecera, e que também, o alertou que já haviam encontrado antes, mesmo que ele mesmo não soubesse disso. Sim, as coisas não saíram nem um pouco da forma como ela pensara.
Todavia, ver o corpo do elfo nu fizera o dia atingir o ápice do mais estranho e aleatório dia de sua vida.
O que não era necessariamente algo ruim.
O coração de Pandora batia tão rapidamente que a jovem achou que infartaria. Seu rosto em brasa a traia, pois não mostrava vergonha, como supusera Halduron. Era desejo. O corpo de Halduron era simplesmente a coisa mais magnifica e máscula que ela já vira na vida. Foram poucos instantes, mas, parecerão que passara horas o analisando. Os músculos definidos, a pele rosada do calor, a água descendo pelo corpo e Pandora se pegara desejando lamber aquela água. Aquela realização a fez sentir-se mal por um momento, até que lembrou algo que ouvira de Vincent:
— Não devemos sentir vergonha por desejar algo ou alguém, a não ser que o desejo leve ao mal.
Ah, Pandora não queria o mal de Halduron. Não. Queria simplesmente tocá-lo de uma forma que jamais desejou tocar ninguém e queria que ele gostasse daquilo. Queria encostar seu corpo no dele e que ele a tocasse de uma forma que ninguém tocara antes. Esse desejo a chocou, mas também a fez sentir-se menos confusa desde que chegou. Podia nomear o impacto que Halduron tinha sobre ela. E naquele momento, o nome era puro e simples desejo.
— Está tudo bem, Pãozinho? – quis saber Rukiah preocupada.
A pandarena entrou e estacou ao ver Halduron. E a cena se desenrolou enquanto Pandora ainda tentava processar o desejo que latejava em seu corpo. Aparentemente encontrar um homem nu no banheiro não deixou a pandarena nenhum pouco preocupada e parecia não acreditar que tampouco Pandora ficaria.
Após a saída de Halduron, Pandora ainda ficou um tempo parada, mas diante do olhar intrigado de Rukiah, ela respirou fundo e falou:
— Não, nada. – Antes de se dirigir ao local onde guardaria a roupa.
Tirar a roupa foi um processo totalmente diferente para Pandora. Enquanto o tecido deixava sua pele, arrepiava-se, pensando que a poucos instantes vira o corpo de Halduron. Se perguntou o que aconteceria se fosse o contrário. E se fosse ele a ver seu corpo? Seu estomago apertou-se, mas foi de vontade que aquilo acontecesse.
As vozes de Kassyeh e Arshe a tiraram desse pensamento. As duas magas vinham rindo e conversando como se fossem amigas de longa data. Logo, tiravam a roupa animadamente e as mulheres se banharam na água fria, lavando o corpo e cabelo antes de entrarem na água térmica. Pandora se forçou a parar de pensar em Halduron e engajar na conversa entre as mulheres.
— Esse tipo de banho é muito comum em Pandaria. – Explicava Rukiah – Infelizmente na nossa vila em Sri La não temos.
— E nem precisa né, com aquele marzão todo. – disse Pandora.
— Ah, mas eu bem que queria que tivesse alguma fonte termal por perto. A mais próxima fica bem na divisa entre o Monte Kun-Lai e nossas terras.
Pela hora seguinte, as mulheres conversaram animadamente enquanto relaxavam na fonte termal. A pandarena havia trazido uma pequena garrafinha e a deixou boiando na água antes de oferecer às outras.
— É ótimo tomar um pouco disso na água. Ajuda a relaxar. Mas você não Kassyeh, você tá gravida.
Ouvir a palavra ‘grávida’ fazia o sorriso de Kassyeh abrir ainda mais. E por recomendação de Rukiah, Kassyeh não entrou na água quente por inteiro. Apenas colocou as pernas, para que ajudasse a relaxar e jogou água quente pelo corpo. Sem as vestes esvoaçantes, já era possível ver o ventre de Kassyeh ligeiramente inchado. Como as elfas eram extremamente esbeltas, Pandora perguntou:
— Você não percebeu essa barriguinha não, Kassyeh? – a jovem realmente estranhava que a elfa não tivesse percebido.
Kassyeh olhou para a própria barriga e pareceu levemente envergonhada.
— Achei que eram gases. – Admitiu.
A risada foi geral e Arshe era a que mais ria, quase perdendo o fôlego de tanto rir.
— Por favor, não diga à sua futura criança que você pensou que a gravidez eram gases! – pediu a maga humana entre risadas.
— Não digo se vocês não disserem. – E Kassyeh se juntou às risadas.
— Seu segredo está a salvo conosco. – Garantiu Rukiah.
Foi um momento relaxante que distraiu a todas. Perceberam que era muito fácil conversarem umas com as outras, como se fossem amigas de muitos anos, como se não houvesse uma guerra acontecendo bem perto delas. Uma guerra que pioraria muito mais em breve.
Depois do banho, as mulheres seguiram para a sala onde aconteceria o jantar, cada uma usando seu quimono. O de Pandora estava dando um pouco de trabalho, pois ela era mais alta que as demais e tinha bem mais seios. Então a curva deles ficaram de fora por mais que a jovem o ajeitasse. Por fim, simplesmente desistiu.
Os homens já estavam na sala quando chegaram. Anduin estava com o rosto corado e ria, relaxado como Pandora nunca vira antes. O jovem estava engajado em uma conversa com Kayliel, enquanto Halduron apenas ouvia e bebia de uma garrafinha semelhante a que Rukiah levara para o banho. Quando elas entraram, seus olhos se encontraram com os de Pandora.
Ver Halduron usando seu quimono, levemente aberto no peito, deixando entrever seus músculos fez a jovem lembrar novamente da imagem do elfo nu, a água escorrendo por seu corpo. Ficou ainda mais consciente da curva dos seus seios que apareciam e decidiu que precisava de uma bebida com urgência. E não preciso esperar muito, pois, logo estavam todos sentados e, como aquele dia já mostrava que não estava para brincadeiras, ficara exatamente na frente de Halduron durante o jantar.
Assim que se sentaram, a pandarena e seu filho entraram com a comida e distribuíram na mesa. As bebidas foram colocadas em abundância também.
— Por favor, sirvam-se à vontade! – disse a pandarena.
E eles assim o fizeram. Mas antes de começarem a comer, Kassyeh bateu a colher no copo dela, a traindo atenção de todos.
— Quero dizer que estou muito feliz de estar aqui com vocês hoje. – Começou a princesa – Eu nunca esperaria comemorar minha tão esperada gravidez com pessoas que não fossem minhas irmãs e marido, mas a presença de todos aqui me dá a esperança que o caminho para a paz não estar longe e que um mundo de paz para meu bebê não é apenas um sonho bobo, mas algo totalmente é possível. – Havia lágrimas nos olhos da elfa ao dizer essas palavras — Muito obrigada por darem esse acalento ao meu coração. Um brinde a isso! – e levantou o corpo.
Todos levantaram seus copos e brindaram.
No fim das contas, o jantar foi totalmente agradável, sem a tensão que Pandora esperava. A bebida a ajudou a relaxar e conversar animadamente com os presentes. A certa altura da conversa, quando falavam sobre bebidas, Arshe fez questão de falar a todos do vinho dos Wood.
— O avô de Pandora produz o melhor vinho que já provei. – disse já animada da bebida – Sem ofensas a essa bebida pandarênica maravilhosa, mas o vinho dos Wood é incrível!
— Vovô diz que o segredo é o amor. – falou Pandora sorrindo – Ele disse que ama demais minha avó e pensa nela quando faz o vinho. O que é bom, porque só assim para eles pararem de colocar Woods no mundo! – e deu um gole em sua bebida.
— E quantos Woods existem no mundo? – perguntou Halduron suavemente.
Talvez fosse a bebida, ou o que vira mais cedo, mas Pandora não recuou seus olhos quando se encontraram com os dele.
— Meus avós tiveram dezoito filhos. E quase todos eles procriaram. Exceto tia Lina, tio Fey e tio Mel. Dá uns – ela tentou fazer os cálculos de cabeça.
— São cinquenta e oito. – respondeu Anduin prontamente. – Cinquenta e oito netos.
A vida dos Wood era algo que Anduin realmente sabia e nem precisava fingir.
— Isso aí, primo! – comemorou ela – Cinquenta e oito netos. E uns vinte bisnetos!
— Vinte e três. – respondeu Anduin satisfeito.
Halduron e Kassyeh estavam realmente surpresos.
— As famílias élficas costumam ser pequenas. – falou Halduron olhando de Pandora para Anduin, ou melhor, Andi – A maior família que conheci foi a de Kassyeh, com quatro filhas.
— Em Pandaria, famílias grandes são comuns também. – falou Rukiah animada — Eu tenho oito irmãos e irmãs.
— Eu só tenho um irmão e já é o suficiente... – Kayliel sorriu tristemente – Espero que ele volte a falar comigo...
Kassyeh pegou na mão dele, o consolando.
— Vai sim, não se preocupe.
— Eu tenho um... – começou Arshe antes de dar uma tossida, como se tivesse engasgado – Não tenho irmãos... Filha única... – sua voz soou triste, mas apenas porque não podia apontar Anduin como seu irmão.
— Isso deve ser bem triste. – comentou Rukiah, sendo empática com a maga humana.
Pandora encarou Halduron, que parecia ter começado a se incomodar com o assunto.
— E você? – perguntou ela olhando diretamente para ele – Tem irmãos?
Halduron tomou um gole de sua bebida, antes de encarar Pandora intensamente e responder.
— Uma. Uma irmã. Ela foi morta pelo flagelo.
Um silêncio imenso caiu sobre o local. Pandora continuou encarando Halduron e pode ver a tristeza e o luto nos olhos dele. Naquele momento, conseguiu ver muito mais que o belo elfo que a encantara. Viu mais do que aquele corpo que despertara seu desejo. Pandora viu um pedaço da alma de Halduron, um pedaço frágil que ele deixou escapar, mas que ligeiramente sumiu quando ele se ajeitou na cadeira e desviou o olhar.
— Mas não vamos falar disso. – Ele sorriu, mas era um sorriso um pouco forçado – Estamos aqui para comemorar uma vida. Quando você pretende dizer a Tewdric sobre o bebê, Kassyeh?
— Ah! – Kassyeh foi pega um pouco de surpresa pela mudança de assunto, mas abriu um sorriso – Não quero distrai-lo das obrigações dele, então vou esperar alguns dias para avisar. Sei que, assim que ele souber, vai aparecer por aqui e querer me levar de volta para Luaprata.
— Ah, quero rever o Ted. – falou Kayliel animado – Espero que ainda estejamos aqui quando ele chegar!
E a conversa foi para outro caminho e Pandora e Halduron não trocaram mais nenhuma palavra durante o jantar.
Todavia, quando toda a comida foi consumida e o álcool fartamente bebido por todos, exceto Kassyeh e Anduin, os dois tiveram um breve momento que ficaram sozinhos. Foi durante a caminha de volta para a taverna. Anduin ajudava Kayliel com Arshe, que estava bem alcoolizada e Kassyeh havia saído um pouco mais cedo, pois estava com sono. Rukiah encontrara alguns amigos e ia continuar na bebedeira. Os pandarens eram, afinal, muito festeiros. Então, quando estavam a poucos passos da porta da taverna, Pandora vislumbrou Halduron olhando para a imensa lua que se erguia. Seus cabelos já estavam secos e desciam suavemente por suas costas. E aquela dor havia voltado aos seus olhos.
— Sinto muito por sua irmã.
O sussurro de Pandora reverberou na escuridão e Halduron a encarou. Toda a vontade dele de pressioná-la por uma resposta sumira diante dos acontecimentos da noite. Outras coisas enchiam sua cabeça.
— Obrigado. – Ele respondeu colocando as mãos dentro do quimono – E como está Pietro?
Pandora sorriu, lembrando do irmão com carinho.
— Bem. Ele está bem. Será um sacerdote de Chi-Ji e viverá mais do que qualquer pessoa poderia supor que ele viveria.
— Qualquer um, menos você. Você sabia que ele viveria.
A afirmação tão contundente a deixou um pouco desnorteada, e também, constrangida. Era tão transparente assim?
— Sim, eu sabia. – Ela confirmou.
Halduron sorriu.
— Você é uma boa irmã, Pandora. E uma boa pessoa. Espero que possamos superar nosso desentendimento inicial e ter uma boa relação.
E sem esperar resposta, ele seguiu e entrou na taverna.
Com o coração aos pulos, Pandora tentou entender o que acabara de acontecer. Desistiu logo depois. Aquele dia fora estranho demais. Dormiria e, no dia seguinte, poderia pensar com mais clareza. Todavia, levaria aquele sorriso de Halduron para seus sonhos, como um acalento para sua alma.
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