Herdeiros da Guerra

62 Capítulo XXXVIII – Areias vermelhas


A guerra começou antes mesmo das fragatas aportarem nas praias de Pandaria. Quando os navios se encontraram a poucos quilômetros do litoral da Selva de Krasarang, os canhões começaram a cantar, uma canção fúnebre que reverberaria nos ouvidos dos que sobreviveriam por muito tempo. A água se tingiu de vermelho e o sangue chegou às areias junto com os sons da batalha. Para quem assistia da terra, era uma espera angustiante de uma batalha certa e um medo palpável como o gosto de sal que a maré trazia. Para os que estavam no mar, o pesadelo já se tornara real.

Havia uma clareza quase surreal em estar dentro de uma batalha real pela primeira vez, pensava a rainha Karensky, vendo a fragata real “Canção de Luelly” sofrer mais um ataque. O escudo arcano novamente repeliu o projetil e o fabuloso navio vermelho e dourado continuava cortando as ondas intacto rumo ao continente. Apesar de estar no meio do fogo cruzado, sentia uma tranquilidade inconveniente; talvez apenas estivesse em negação.

Ao seu lado, sua irmã apertava as bordas do navio com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos. Karen queria dizer que não adiantava aquela raiva, pois nenhuma das duas poderia fazer nada; os magos estavam à frente da defesa e do ataque. Porém, ficou calada. Luxuriah estava com os nervos à flor da pele e não seria sensato falar nada naquele momento, fosse para criticá-la ou para tentar acalmá-la. Uma coisa que aprendera vendo-a lidar com Tinuviel era que a primogênita precisava extravasar seus sentimentos quando chegava naquele estado e o faria não importava quem estivesse por perto. O ideal era deixá-la fazê-lo livremente e somente quando ela soltasse tudo que estava em seu peito era seguro questioná-la. Se relegava ao seu estado anestesiado, de observar seu entorno como se vivesse um sonho.

Ainda assim, seu peito se apertava vendo os demais navios da Horda em chamas, mas a prioridade de sua tripulação era levar o “Canção de Luelly” até a praia da Selva de Krasarang. Desviou a atenção de sua irmã e olhou para o líder dos magos, que mantinha a barreira arcana erguida. Teria preferido que Rommath estivesse ali, afinal ele era o maior mago de Luaprata. Todavia, ele ficara em Luaprata, mantendo a cidade e sua sobrinha seguras. Em seu lugar, ele enviara outro magíster, que garantiu que era tão poderoso quanto ele. E realmente nem o magíster nem os magos que ele comandava não a decepcionaram. Enquanto navios da Horda e da Aliança ardiam, o navio dos elfos sangrentos cortava a batalha, intacto.

— Mas qual será o custo? – murmurou para si mesma.

— Majestade?

Lady Liadrin estava ao seu lado. Nunca que a paladina permitiria que a rainha saísse de Luaprata sem que fosse ao seu lado. Junto com ela, outros Cavaleiros Sangrentos estavam de espada e escudo nas mãos, prontos para enfrentar qualquer inimigo que se aproximasse.

— Quanto de mana os magos consumiram para manter essa barreira? – ela perguntou, preocupada.

— O suficiente para nos levar a salvo. – garantiu a paladina.

A rainha sacudiu a cabeça, em negativa.

— Quero saber se eles vão ficar a salvo. – ela olhou a formação dos magos no meio do navio, conjurando a barreira – Ele estão há horas consumindo suas manas.

— Eles ficarão bem. – garantiu a paladina – Estão acostumados a trabalharem com feitiços constantes e a consumirem de forma eficiente sua mana.

Claro, a rainha não precisava saber que antes da batalha os magos haviam consumido uma quantidade grande de cristais mana e que enfrentariam uma crise de abstinência excruciante pelos próximos dias. Os cavaleiros sangrentos tinham ordens para protegê-los tão logo o navio atracasse; claro, aqueles que não estivessem à serviço da rainha.

Mais um estrondo sacudiu o navio e Lady Liadrin segurou Karen, que perdera um pouco o equilíbrio quando o navio foi atingido. Dessa vez, o grupo de magos claramente sentiu um pouco mais o ataque. Um deles chegou a deixar de castar momentaneamente, mas logo retomou o feitiço.

Luxuriah repentinamente se afastou da borda do navio e sacou seu arco. A Thori’dal, o arco que tinha como alcunha a “fúria das estrelas”, o tesouro dos elfos sangrentos, brilhava nas mãos da princesa de Luaprata. Ela assobiou e uma sombra resplandecente cruzou os ares e Salem, sua fera espiritual se materializou ao seu lado.

— O escudo não vai aguentar muito tempo. – a caçadora encarou a praia, que se aproximava – Se tivermos sorte, ele vai se esvair quando atracarmos. – ela virou-se para olhar para a irmã – Karen, fique perto de mim e de Lady Liadrin.

Não era uma ordem, percebeu Karen, um pouco surpresa. A frase foi dita num tom de pedido, quase uma súplica. Talvez tivesse interpretado errado sua irmã, pensou a jovem rainha.

— Não pretendo entrar em conflitos desnecessários. – disse Karen.

As duas irmãs se encaram por um momento e Luxuriah assentiu, antes de voltar sua atenção à praia. Karen olhou brevemente para Lady Liadrin, que agora dava ordens para os demais cavaleiros sangrentos e também aos marinheiros. Desejava um desembarque pacífico, mas os navios da aliança que os seguiam deixavam claro que o desejo da jovem não seria concedido. Colocou a mão em cima do punho da espada, mas não a sacou. Preferiu tirar o escudo das costas e o colocar à sua frente. Falava sério quando disseram que não correria riscos desnecessários.

“Espero ver Tewdric logo...” desejou com o coração aos pulos.

A praia estava bem à frente.

Tão logo o fundo do barco roçou na areia, diversos tiros foram sentidos no escudo arcano. A energia mágica aguentou o ataque, mas exibia rachaduras. Só que era hora de desembarcar. Era hora das defesas serem recolhidas. O coração de Karen disparou.

— Cavaleiros, em guarda. – gritou Lady Liadrin – Aos seus postos! Defendam o navio! Defendam seus companheiros! E defendam sua rainha! Por Luaprata! Pela Nascente do Sol!

— Pela Nascente do Sol! – gritam de volta.

E quando todos estavam a posto, a barreira foi anulada.

O cheiro da maresia tornou-se mais forte a medida em que o vento passava pelo convés livremente. Karen teve um vislumbre dos magos caídos de exaustão no convés e de alguns cavaleiros sangrentos indo até eles antes de ter seu braço pego gentilmente por Lady Liadrin que a direcionou até a borda do navio, onde um bote a esperava.

Uma bola de fogo voou na direção das duas naquele momento, mas a paladina ergueu o escudo e as chamas passaram ao redor das duas, sem as atingirem. Lady Liadrin apertou o braço de Karen com um pouco mais de força e praticamente a arrastou até a borda do navio. Luxuriah já estava no bote, com Salem, dois magos e dois cavaleiros sangrentos. Os magos castaram feitiços nela e Lady Liadrin a ergueu por cima da borda e a jogou. Karen sentiu o coração acelerar até que percebeu que estava caindo lentamente, com um escudo arcano ao seu redor. Luxuriah a pegou assim que ficara ao seu alcance e disse:

— Deite-se no bote e cobra-se com seu escudo.

A menina assim o fez. O bote balançava mais que o navio e água entrava constantemente, fazendo-a ter que cuspir água salgada a cada nova onda. Felizmente essa viagem não foi longa e logo Luxuriah estava a direcionando para sair do bote. E foi quando chegaram a praia que Karen percebeu que Lady Liadrin não estava com eles.

— Cadê Lady Liadrin? – perguntou olhando ao redor.

— Ela está no próximo barco. – falou Luxuriah com o arco em riste – Fique atenta a tudo!

Com o escudo levantado, Karen se aproximou da irmã. A areia da praia estava repleta de botes de pessoas da Horda chegando. Os navios da Aliança queimavam ao longe e seus botes não pareciam estar indo em direção à praia. Aquilo fez com que a menina se sentisse aliviada.

— Acho que eles não virão nos atacar. – falou baixando o escudo, enquanto virava-se para ver as construções da Horda que se destacavam na colina próxima – Nós podemos-

Karen não viu a flecha que vinha na direção do seu pescoço. Ninguém vira. Mas Luxuriah sentiu a vibração do som e o silvo da madeira cortando o ar era tão familiar a ela quanto os próprios batimentos do coração. Instintivamente ela pulou e abraçou Karen, A flecha enterrou-se em seu ombro, transpassando sua pele e carne e parando bem no osso. A caçadora grunhiu de dor e puxou sua irmã em direção do chão. Quando os demais que faziam a segurança de Karen perceberam o que acontecera, gritaram para o resto das tropas:

— Emboscada! Eles estão na mata!

As forças da Aliança surgiram do meio das árvores e das moitas da Selva de Krasarang e partiram para o combate com os recém-chegados da Horda. Por isso que os soldados do barco não os seguiram. Outros já estavam à espreita.

O torpor melancólico que Karen sentira durante toda a viagem se espedaçou naquele momento como um espelho jogado contra uma parede. Aquela flecha era pra ela. Teria morrido se não fosse Luxuriah. E Tewdric morreria também. Sentiu seu coração acelerar de forma descontrolada, seu sangue latejando tanto em seus ouvidos que não conseguia ouvir mais nada ao seu redor. Quando Luxuriah levantou-se, o sangue escorreu de seu braço e pingou no rosto da jovem, que encarava a irmã com os olhos arregalados e vidrados.

— Karen, levante-se. – exigiu Luxuriah, sentando-se e arrancando a flecha como se tivesse tirando um pequeno espinho de rosa do dedo – Precisamos chegar à paliçada.

Todavia, a jovem ainda estava jogada na areia da praia, olhando o céu azul de Pandaria, onde pássaros voavam alegremente, sem se importar com os barulhos de dor e medo que os rodeava.

— Karen! – Luxuriah gritou, pegou em seu braço e a puxou, a forçando a se sentar.

Karen sentiu quando a gota de sangue de Luxuriah em seu rosto mudou de direção. Salem rosnou ao lado delas e Luxuriah ficou de joelho, erguendo seu arco.

— Se proteja com o escudo! – gritou a caçadora para a irmã.

Só que ela não conseguia se mover. Foi como se seus olhos tivessem sido aberto naquele momento. Via a batalha com uma nitidez surpreendente, a areia vermelha do sangue de ambos os lados e os sons que não conseguia distinguir se era de amigos ou inimigos. Naquele momento, viu um anão encará-la e correr até ela gritando, com o machado levantado. Luxuriah também viu e mandou Salem ir até ele, mas ele já estava perto demais. As flechas entravam em sua carne, mas ele parecia decidido a completar seu ataque. Quando Luxuriah levantou-se, Karen entrou em pânico. Não queria que sua irmã fosse seu escudo de novo, mas não conseguia se mover. Só que aquilo não foi necessário.

Lady Liadrin surgiu por trás do anão e sua espada cortou seu pescoço como uma faca quente corta a manteiga. A cabeça dele foi lançada, bateu contra o corpo de outros lutadores e voltou rolando até onde Karen estava. A menina encarou os olhos arregalados do morto e eles estavam vazios.

— Vocês estão bem? – perguntou Lady Liadrin balançando a espada para limpar o sangue da lâmina – Majestade, eu sinto muito por minha-

Antes que a matriarca terminasse sua fala, Luxuriah abaixou-se e deu um sonoro tapa no rosto de Karen.

— Acorde, Karensky! – gritou — Isso aqui não é um treino! Você não está em Luaprata! Você pode morrer! Eu posso morrer! Você está me entendendo?!

Karen segurou o rosto com a mão e os olhos lacrimejando.

— Você está me entendendo?! – repetiu aos berros Luxuriah, sacudindo a irmã.

— Sim... – murmurou a menina.

— Ótimo! Levante e me siga. Agora!

Com as pernas trêmulas, Karen levantou-se. Seus dedos mal conseguiram segurar o escudo, mas tentou mantê-lo o mais firme possível.

— Saque sua espada. – ordenou a irmã – Aqui você não pode se dar ao luxo de poupar ninguém.

Karen lançou um olhar suplicante para Lady Liadrin, mas a elfa fez um gesto com a cabeça, concordando com Luxuriah. A mão da jovem rainha estava trêmula quando sacou a espada.

— Vamos. – disse a caçadora, liderando o caminho.

Apesar do que dissera, Luxuriah e Lady Liadrin conseguiram acabar com qualquer conflito antes que esse chegasse a Karen. Todavia, a sensação de estar no centro de um grupo no meio do conflito era desesperadora. Karen não conseguia prestar a atenção em tudo. Diferente do treino, o ataque vinha de todos os lados, ao mesmo tempo. Percebeu o quanto estava aquém dos demais paladinos; era apenas uma criança brincando de lutar.

Depois do que pareceu uma eternidade, elas chegaram à paliçada da Horda. Era o lugar onde as forças se reuniam e protegiam os suprimentos e os primeiros prédios. Ao entrarem naquele lugar, tudo se tornou familiar: apenas raças da Horda, cuidando dos feridos e mantendo a posição de defesa.

Estavam seguras.

A bile subiu pela garganta de Karen, que soltou as armas no chão e correu até um canto. Ela vomitou sofregamente e depois ficou de cócoras, chorando por um tempo. Ficou feliz que ninguém fora consolá-la. Estava com vergonha.

Lady Liadrin a observou de longe, preocupada. Não era a primeira vez nem seria a última que via a reação de um aprendiz após a primeira luta. Mas aquela era sua rainha e seu coração se apertava como não se apertara para os outros.

— Ela ficará bem. – falou Luxuriah calmamente – Só precisa de um tempo.

Lady Liadrin a observou enquanto Luxuriah analisava o ombro ferido.

— Você parece muito calma. – comentou a paladina — Achei que ficaria muito mais preocupada com a rainha.

— E estou. – Luxuriah estava orgulhosa que conseguia esconder o vulcão que queimava em seu peito. Provavelmente teria insônia por dias pensando naquela luta – Mas se eu entrar em pânico, ela ficará pior. Além disso, para uma primeira luta, foi ótimo. Ela não viu nenhum aliado morto. Ninguém que ama ficou gravemente ferido. – Lady Liadrin apontou para o ombro dela – Eu disse gravemente ferido. Isso não foi nada.

— Vou curá-la em um instante. – falou se adiantando e ficou surpresa quando Luxuriah fez que não com a cabeça.

— Vou pedir que Karen me cure. Isso a ajudará a se sentir útil. Depois, darei um pouco de vinho para ela acalmar os nervos. Só um pouco. – reforçou vendo o cenho franzido da matriarca dos Cavaleiros Sangrentos – Vai ajudá-la. Depois, ela mesma vai se oferecer para curar os demais. É o tempo que ela regula seus sentimentos. Com sorte, só então veremos Grito Infernal. – Luxuriah olhou ao redor, satisfeita por não ver o chefe Guerreiro em nenhum lugar – Ele com certeza vai saber do que aconteceu com Karen, é importante que ela se prepare para as piadinhas. Espero que Tewdric tenha chegado até então.

Lady Liadrin assentiu. Olhou mais uma vez para onde Karen estava, encolhida e voltou-se para Luxuriah.

— Alteza, gostaria de autorização para dar as ordens às nossas tropas para armar nossas tendas e organizar nossos suprimentos.

Novamente surpreendeu-se com Luxuriah dando uma negativa com a cabeça.

— Vamos esperar a rainha. É dever dela nos liderar. Haverá momentos em que ela não terá o luxo de se recuperar, mas hoje poderemos esperar. Apenas hoje.

E dizendo isso, se encaminhou até os caixotes e foi chutando-os um por um, abrindo-os, até achar o caixote dos vinhos. Escolheu uma garrafa, tirou a rolha com os dentes, tomou um grande direto na boca e sentou-se nos demais, esperando o tempo de sua irmã.


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Lina agradeceu à Luz pela milésima vez por nem Anduin nem Pandora estarem ali. Mesmo já tendo estado em inúmeros combates, mesmo tendo combatido na época do Flagelo, ela nunca iria se acostumar com o cheio de pólvora misturado ao sangue que subia em meio à maresia. E aquela chacina parecia ainda mais irracional diante do cenário antes imaculado de Pandaria. Sentia uma vergonha daquela guerra como nunca sentira antes. Só queria que tudo acabasse.

Os barcos lutavam ao longe e mais uma explosão reboou. Lina, contudo, não desviou os olhos do bote que chegava ao ancoradouro improvisado. Ofereceu a mão para a elfa noturna ferida que, apoiada por outras duas, aceitou de bom grado o oferecimento.

— Temos curadores a postos para ajudá-las. – avisou Lina quando a elfa pisou na madeira molhada – É só seguirem o caminho. – e apontou para dentro da paliçada.

— Obrigada, General. – agradeceu a elfa, que não saiu de imediato, esperando que as demais subissem no ancoradouro.

— Vocês têm ideia de quantos navios naufragaram? – perguntou ela, ajudando a içar as demais elfas.

Elas negaram com a cabeça.

— Só sabemos que a Nau Real não foi pega pelo conflito. – respondeu outra das recém chegadas.

Nau Real?

O estômago de Lina despencou dentro de seu corpo.

— O Rei Varian... – ela não conseguiu terminar a frase.

— Chegará a qualquer momento. – respondeu a elfa.

Ah, era tudo que precisava. Varian ali no meio do conflito. Não que ele precisasse de proteção. Longe disso. Mas como convenceria seu coração daquilo? Lutando contra o desespero, focou sua atenção no resgate dos náufragos para só depois olhar no horizonte. Onde quer que a Nau Real estivesse, estava fora de sua vista.

Lina voltou-se para a praia e respirou fundo. Não podia se dar ao luxo de perder o foco naquele momento. Começou a voltar para a praia, passos firmes e dando ordens para que os feridos fossem cuidados e curados.

— Quem estiver em condições de lutar, à frente! – gritava ela – Precisamos de nossas forças concentradas!

Agora que sabia que Varian estava chegando, precisava reforçar as defesas. Não podia arriscar a possibilidade de serem atacados enquanto Varian estivesse bem ali. E sabia que, assim que o rei chegasse, ele mandaria buscar Anduin. Tentaria convencê-lo a, pelo menos, esperar que a construção principal estivesse levantada antes que trouxessem o jovem príncipe. Pediria para que os anões fizessem uma muralha reforçada também.

Enquanto direcionava os náufragos, ela passou os olhos pelos soldados, estranhando que os números estivessem baixos. Tinha certeza de que havia pelo menos o dobro deles designados para ficar ali. Um mau pressentimento lhe apossou. Caminhou mais um pouco, até que viu Vincent ajoelhado, curando um dos feridos que chegaram no barco.

— Vin. – ela falou se agachando, mas sem tirar os olhos dos arredores – A Nau Real está vindo.

O paladino murmurou algo incompreensível, mas que parecia um palavrão.

— Nem me fale... – ela concordou – Mas estou incomodada com algo... Não, não é apenas a Nau Real. É algo mais..., Mas não sei o que é...

Vincent não lhe respondeu de imediato, terminando primeiro de curar o homem a sua frente. Depois, ele encarou a general.

— Talvez você deva ir à para o front verificar como estão as coisas. – sugeriu ele fazendo um movimento com a cabeça – Eu cuido da aqui retaguarda.

Lina concordou com a cabeça.

— É o que farei. – e se levantou. Talvez o resto dos soldados estivessem por lá, fora de seu campo de visão.

— Cuide-se. – pediu o paladino.

— Vou tentar. – foi o que respondeu, antes de se afastar, com sua fera espiritual.

Caminhando até o limite da paliçada, ela pode ver ao longe a batalha que tinha se iniciado há algum tempo. Xingou baixo quem quer que tivesse começado aquilo, seja de qual facção fosse. Afinal, estavam construindo um ancoradouro, a última coisa que queria era uma batalha numa praia próxima. Então provavelmente o ataque partira de alguém da Horda, porque se fora alguém da Aliança teria que ser um imbecil completo para...

— Ah, não...

Lina procurou ao redor e não viu Crowe.

— Puta que pariu! – gritou em descrença e foi até a sentinela mais próximo – Onde está o General Crowe?!

A mulher, pega de surpresa, ficou confusa por um momento, antes de responder:

— Eu não o vejo desde mais cedo, general Wood. – falou a guarda.

— Mais cedo quanto? – exigiu saber.

A guarda pensou um pouco.

— Desde que os navios se aproximaram da costa.

O imbecil do Crowe foi atacar a Horda.

Se Lina fosse uma bomba, ela teria explodido naquele momento.

O plano não era nem de longe aquele. Eles sabiam que a Horda estava montando um porto do outro lado da Selva de Krasarang, tal como a Aliança. Na exata direção oposta. Mas, até então, nenhum combate real havia acontecido, apenas algumas baixas de membros da AVIN que tinham sido descobertos em suas atividades. E foram esses mesmos espiões que disseram que líderes da Horda desembarcariam naquelas praias, então era esperado que eles não quisessem um combate direto. Bem, se algum líder da Aliança viesse, e bem Varian decidira vir, ela jamais iniciaria um ataque e duvidava que a Horda fizesse o mesmo. A menos que eles quisessem um combate numa posição em desvantagem. Como o que acontecia agora.

— Eu sabia que ele era burro, mas não a esse ponto. – murmurou Lina para si mesma enquanto começava a caminhar em direção aonde estava localizada as forças de defesa.

Crowe tinha poder para dar ordens de ataque. Ele deveria ter visto os navios naufragando e achou que seria uma boa ideia pegar os náufragos na praia. Além de ser um ataque desonrado e desleal, não daria certo: quem quer que descesse dos navios, desceria em guarda, principalmente se líderes estivesse a bordo. Então, dependendo da quantidade de soldados que ele levara, seriam sobrepujados depois de um tempo e conhecendo a coragem de Crowe...

— Se preparem soldados! – gritou Lina atraindo a atenção de todos que estavam nas proximidades – Podemos sofrer ataques em breve! Prestem atenção nas matas por soldados nossos em fuga e também por inimigos em perseguição!

Depois do aviso, ela começou a dar ordem e organizar as forças que tinha na linha de defesa. Não demorou muito a acontecer exatamente o que Lina previa e os inimigos começaram a aparecer pela praia, no mesmo instante que alguém grita:

— A Nau Real se aproxima!

O estômago de Lina revirou-se. Era um péssimo momento para Varian chegar. Tinha que limpar a praia antes que os pés do rei pisassem na areia. Assoviou e sua coruja espectral, Hachi, apareceu tremulando ao seu lado. Apesar de saber usar espada, Lina era uma arqueira, e a melhor forma de ajudar suas forçar era conseguindo um bom lugar em meio a vegetação para atingir o maior número de inimigos, tendo Hachi como ajuda. E foi esse plano que ela pôs em ação.

Lina se embrenhou pela selva e subiu na melhor árvore que achou e se preparou. Quando os combates começaram, ela também começou. Escondida entre os galhos, procurava se ocultar da melhor forma, contente que decidira trazer o arco e não sua arma de fogo; os tiros a denunciariam. Conseguiu permanecer um bom tempo naquela posição, suas flechas derrubando e incapacitando alvos, até que Lina sentiu quando se tornou o alvo.

Foi por pouco. Se não fosse sua experiência em combate, teria ficado sem um olho. Quem quer que a visara, era bom, mas carecia de um pouco mais de experiência. Uma flecha com a ponta brilhosa direcionada aos olhos iria ofuscar o alvo por um milésimo de segundo; o ideal naquele caso era usar flechas escuras e opacas. Agradecida pela inexperiência do atacante, Lina conseguiu esquivar-se a tempo de ouvir a flecha fincar no tronco da árvore. Rapidamente, pulou para o galho seguinte, se detendo poucos segundos para ver o cabo da flecha do atacante. Era vermelho sangue. Um elfo sangrento. Seu peito se encheu de orgulho. Desviou de uma flecha de um elfo sangrento. Aquela história merecia ser contada na próxima vez que fosse para a taverna, com certeza.

Porém, seu adversário não havia desistido. O ar zunia e Lina pulava pela árvore, como numa dança ensaiada, desviando das flechas, ou rebatendo-as com seu arco. O arqueiro estava em desvantagem, pois o ângulo dos galhos e as folhas davam à general uma boa cobertura, mas ainda assim um passo em falso e Lina estaria perdida. Puxou três flechas da aljava e atirou sem mira, apenas para forçar seu oponente a se mover. Houve uma breve pausa nas flechas, que a general usou para pular para outra árvore e para o galho seguinte, escondendo-se para dar tempo de pegar a flecha de fumaça. Precisava sumir. Apontou a flecha para o chão e soltou-a.

Uma espeça fumaça subiu pela floresta e Lina ouviu um praguejar em diversas línguas. Saltou mais alguns galhos, em movimentos que fariam invejas a muitos elfos, antes de descer usando alguns cipós. Agora só precisava de achar um novo local e-

Ela viu o machado no último minuto. O imenso orc surgiu no meio da fumaça, silencioso como uma fera. Lina não teve tempo de deferir nenhum tiro, apenas de erguer o arco, que foi destroçado em segundos. A lâmina passou perto de sua pele, o suficiente para cortá-la superficialmente, mas a caçadora pulou para trás e evitou um golpe profundo. Sangrava, mas estava desarmada. Procurou sua espada, mas sabia que não daria tempo. O machado já baixava para o segundo golpe, mais rápido que sua mão puxava a sua arma. Ele era mais rápido. E era por isso que Lina morreria.

O machado tocou na pele do seu pescoço mas não o cortou. Ainda estava com a mão na bainha, a espada jamais seria puxada se o machado continuasse seu percurso. Porém, o machado parara. Lina olhava para a lâmina, se perguntando se tinha morrido e sua alma esquecera de sair do corpo. Porém, ela engoliu em seco e conseguiu sentir a lâmina, ainda encostada em seu pescoço. Ainda estava viva, mas por quê?

Com cuidado, ergueu os olhos e encarou o imenso orc. Ele tinha os olhos azuis, num tom que não pensava que existisse nos orcs. Eram no mesmo tom que os de Anduin. Ele a encarava boquiaberto, como se estivesse vendo um fantasma.

— Pandora? – perguntou incrédulo.

Foi quando ela entendeu. Aquele era o orc que salvara Pandora. Ele a reconhecera pela semelhança das duas.

— Tia... – foi o que conseguiu balbuciar, suas palavras tremendo em sua boca.

Ele piscou os olhos rápido, como se ainda não entendesse.

— Tewdric! – um grito veio da fumaça que Lina criara.

O movimento foi simultâneo. Os dois olharam para a direção da voz, depois se entreolharam. Lina sabia que a sua vida estava nas mãos dele. E Tewdric sabia que ela jamais seria páreo para ele. Ele recolheu o machado, mas no mesmo movimento ele chutou fortemente Lina, bem no meio de seu peito. A general ouviu suas costelas partindo e o sangue em sua boca. Sentiu a cabeça bater com força quando aterrissou de costas no meio do mato, mas não se mexeu ou emitiu nenhum som. Ficou imóvel, o sangue correndo de sua boca. Sua cabeça doía, queria tossir, mas se fizesse qualquer coisa dessas, estaria morta.

— Você a pegou? – ouviu uma voz feminina perguntar.

— Sim. – o orc respondeu – Vamos, Ash, eles recuaram. E o barco com suas irmãs já deve ter aportado. Não há mais nada a fazer por aqui.

A elfa chamada Ash deve ter concordado, pois ouviu passos se mexendo e se afastando. Porém, Lina não teve coragem de se mexer de imediato. Só quando o vento se tornou o barulho mais forte foi que ela começou a tossir e a cuspir todo o sangue de sua boca. Tentou se virar, mas a dor era dilacerante. Só conseguiu se mover para mais dentro da moita, se ocultando melhor. Colocou a mão na costela e tinha certeza de que tinha uma hemorragia interna. Sua cabeça rodava com a pancada e estava desorientada. Se aquilo era o que o orc podia fazer com um chute, ele com certeza teria arrancado sua cabeça com facilidade. Lina tentou se levantar, mas sua cabeça rodava e suas pernas tremiam.

Não fora apenas o ataque. Era medo. Lina já estivera em situação de quase morte antes, mas aquela fora diferente. Ela devia ter morrido. O orc parou o machado no último momento. Se não fosse sua semelhança com sua sobrinha, em breve alguém estaria entregando sua cabeça separada de seu corpo para sua família. O pensamento deixava suas pernas ainda mais trêmulas. Nunca tinha tido medo da morte, por que então agora o pânico a dominava?

“Tenho que sair daqui...” pensava olhando a moita na qual Tewdric a jogara. Ele não apenas a poupara. Ele a tirara do conflito e a escondera. Tinha que voltar para a sua base. Mas como? Não conseguia se mexer. Porém, se continuasse ali, seria um alvo fácil. Por isso, fechou os olhos e deixou sua respiração quase inexistente. Para quem passasse, seria quase um corpo. Precisava ficar incógnita até aquele tremor dentro dela passar.

Com a cabeça zonza, Lina não sabe quanto tempo ficou ali, imóvel, até ouvir o barulho de patas, fungadas e passos. Seu coração disparou. Alguém estava caçando-a? O barulho continuou, até que as patas pararam totalmente, houve uma pausa e depois um grito:

— Ela está aqui!

Lina reconheceu aquela voz. Seu corpo voltou a tremer. Ela não deveria estar ali. Tentou mexer seu corpo, mas a dor aumentou e um gemido escapou involuntariamente de seus lábios. Passos se aproximaram correndo e sentiu quando os arbustos foram empurrados para o lado e mãos fortes a seguraram.

— Lina! Graças a Luz!

Era Varian. Ele se abaixou e a ergueu com cuidado. Lina encarou os olhos dele, de um azul diferente do azul do orc, um azul conhecido e convidativo. Trêmula, ela agarrou em sua armadura e colocou a cabeça em seu peito, um gemido de dor e medo saindo de sua garganta.

— Lina... – murmurou ele, preocupado.

Mas Lina apenas se encolheu em seu peito, deixando as lágrimas lavarem seu rosto e sua alma. Estava viva. E ele estava ali. Nada mais importava.



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Tewdric sentiu um aperto no estomago como há muito tempo não sentia após uma luta. Apesar do que muitos pensavam, ele não gostava de matar; ele não o fazia porque era necessário. Ele matava para manter sua família em segurança; por suas elfas, ele o faria. Desprezava aqueles que matavam por prazer. Acreditava que estes não eram muito diferentes das bestas selvagens dos campos.

Porém, nunca estivera na situação e visualizar uma pessoa querida do outro lado de sua lâmina. Quando, em meio a fumaça, achou ter visto Pandora, uma miríade de emoções passou em seu íntimo. Choque, raiva, tristeza, hesitação. Mal podia acreditar que a menina adorável que cuidava do irmão estava prestes a perecer por suas mãos. Não, jamais poderia fazer isso. Jamais se perdoaria. Kassyeh não o perdoaria. E foi graças a sua experiência e habilidade que conseguiu parar seu braço antes dele fazer o movimento fatal.

— Pandora? – conseguira falar, sua boca seca demais para qualquer coisa.

— Tia... – a pessoa a sua frente balbuciou.

Foi quando seus olhos conseguiram ver além da semelhança. . As diferenças eram sutis, mas estavam lá. Primeiro, a pessoa a sua frente era mais velha, agora podia ver. Também seu corpo era mais musculoso e apele mais queimada do sol. Os cabelos também eram mais escuros. Lembrou-se que Pandora lhe falara daquela tia. Aquela lhe acolhera quando seus pais a queriam apenas por seu trabalho e desprezavam seu irmão mais jovem. Tewdric percebeu que jamais poderia usar sua arma para matar alguém que sabia ser uma alma boa, alguém que cuidara de uma pessoa que estava próxima ao seu coração. A morte daquela tia faria Pandora e Pietro sofrerem e Tewdric não queria aquilo. Nem Kassyeh quereria aquilo.

Esperava que, ao nocauteá-la, tivesse garantido que a tia de Pandora vivesse para que sua sobrinha pudesse chamá-la de vaca novamente.

— Você está tão calado, Ted. – comentou Ashrial.

Os dois caminhavam, voltando para onde a Horda estava construindo seu entreposto. Ao redor, corpos de inimigos eram abandonados na areia, enquanto corpos aliados eram resgatados por paladinos e sacerdotes, que comemoravam sempre que encontravam alguém que pudesse ser salvo.

Tewdric ponderou o que responderia para Ash. Não queria mentir para uma de suas elfas, mas também não podia falar a verdade.

— Estava pensando na nossa última luta. – uma verdade parcial às vezes era necessária.

— Ah, nem me fale. – Ash bufou – Não acredito que aquela humana conseguiu se esquivar das minhas flechas! Ainda bem que você cuidou dela.

— Pois é. – limitou-se a dizer.

Ao se aproximarem do portão improvisado do porto em construção, perceberam que inúmeros caixotes e caras novas que não estavam no acampamento antes. Foi quando se deram conta que os navios haviam desembarcado e que Karen e Luxuriah haviam sido pegas no meio do conflito enquanto desembarcavam. Se entreolharam por um momento, preocupados e então apressaram o passo, em busca das duas. Não demoraram a ver Luxuriah sentada num caixote e bebendo vinho direto da garrafa, Lady Liadrin de pé a poucos passos, calada e pensativa e ao lado da paladina estava Karen, sentada no chão abraçando seus joelhos e com o olhar perdido.

— Karenzita!!!!

Assim que ouviu seu apelido carinhoso ser chamado, Karen levantou a cabeça. Ao ver Tewdric e Ash, seus olhos se encheram de lágrimas. Levantou-se rapidamente e correu até o orc, abraçando-o.

— Ted! Ted! Ted! – ela dizia sem parar, seu rosto encostando na armadura ensanguentada dele.

— Karenzita, o que houve? – perguntou ele, preocupado, ao retribuir o abraço dela.

Mas a menina não respondeu, apenas o abraçou mais forte e continuou a chorar. Ash e Tewdric se entreolharam e a irmã mais jovem se encaminhou até onde Luxuriah estava sentada, bebendo impassível.

— Lux, o que aconteceu? – perguntou Ash à mais velha.

Luxuriah baixou a garrafa de vinho e falou, displicentemente:

— Karensky teve o gosto de sua primeira batalha hoje. – e tomou outro gole de vinho, antes de oferecer a garrafa para a irmã.

Ash sentiu como se tivesse engolido um tijolo. Lembrava bem da sensação desesperadora de estar no meio do fogo-cruzado, de não saber se havia alguém mirando em sua cabeça ou coração, do perigo iminente de morrer e da sensação de desesperança ao matar. Quis tirar a irmã dos braços de Tewdric, sacudir e gritar com ela, perguntar por que diabos tivera que ir até ali, que deveria estar segura em Luaprata, mas sabia que nada adiantava. Nem era culpa de Karen o fato dela estar ali. Por isso, aceitou a garrafa que Luxuriah lhe estendera e tomou um grande gole da bebida.

Tewdric deixou que Karen ficasse abraçada a ele pelo tempo que a menina desejou. Quando Karen parecia mais calma, ele gentilmente a puxou para longe das irmãs, para que ela ficasse mais à vontade. Segurou nas mãos de Karen a olhou nos olhos. Ela estava tão crescida que doía no seu coração. Lembrava claramente da coisinha pequena e fofa que se agarrava à sua perna, tão logo o medo do imenso orc fora embora. Não importava quanto tempo vivesse, sempre lembraria daqueles momentos. Agora, ela usava uma armadura, estava mais alta, mas sempre seria sua menininha. E o que via nos olhos de sua menininha era medo.

— Quer me contar o que aconteceu? – perguntou ele carinhosamente.

A menina hesitou por um momento.

— Não sei se consigo... – murmurou.

Ele a levou para onde havia mais caixotes e a sentou num deles, como fazia quando ela era criança e se sentou no da frente. Isso a fez dar uma risadinha e ele sentiu-se um pouco mais calmo.

— Leve o tempo que precisar. – ele disse.

Não demorou muito para que Karen se abrisse e contasse tudo que vivera naquela manhã, enquanto as lágrimas voltaram a cair. Tewdric estava devastado. Doía na alma saber que sua menina estivera tão perto da morte e ele não estivera por perto para protegê-la. Se algo tivesse acontecido a ela... Não, não queria nem pensar, pois a dor era descomunal. Era uma dor tão grande quanto era ver a dor no rosto dela naquele momento. Segurou nas mãos dela novamente.

— Ted... – a menina murmurou depois de uma pausa – Eu sou fraca?

— Que pergunta é essa Karenzita?! – estranhou ele – É claro que não! Você tem a força certa para seu treinamento e idade! Até mais!

A menina sacudiu a cabeça em negativa.

— Eu não falo esse tipo de força. Eu digo, força aqui. – e apontou para a própria cabeça.

— Você é mais forte aí – e ele apontou a cabeça dela – que a maioria das pessoas que eu conheço. – e deu uma risada ruidosa.

— Mas eu não me sinto forte! – reclamou, soltando as mãos dele – Eu não consegui fazer nada hoje! E depois... Eu só chorei e passei mal.... – ela voltou a chorar e passou a limpar os olhos com as costas das mãos.

Tewdric ficou impassível, antes de pedir, suavemente:

— Me fale sobre como você se sentiu lá.

Karen fungou e apertou os lábios, antes de começar:

— Sempre que vocês falavam de guerra, eu nunca pensei... nunca pensei que ela tivesse cheiro...

— Cheiro?

Ela assentiu.

— Cheiro ruim, pútrido, de sangue, misturado com suor e sujeira.... E esse cheiro parece que tá entranhado em mim... – ela passou as mãos pelos braços, como se quisesse arrancar o cheiro de seu corpo.

Tewdric se inclinou e colocou as mãos nos ombros da menina, fazendo com que ela o encarasse.

— Sempre há algo que torna a guerra real para nós Karenzita. É assim que você descobre que está em uma guerra. – disse tristemente.

— O que a torna real para você? – quis saber ela.

Houve um momento de silêncio antes da resposta:

— Os rostos. Principalmente quando eles percebem que vão realmente morrer... – ele soltou os ombros dela e se afastou — É triste...

— Você se sente triste pelos inimigos também? – perguntou, emocionada.

— Cada um deles... – respondeu, com sinceridade — É o mínimo que posso fazer por tirar suas vidas: lembrar.

Karen baixou a cabeça e perguntou, numa voz baixinha:

— E o que a gente faz Ted? Depois disso tudo?

— Vive. É o que dá para fazer.

Silêncio.

— A sensação ruim um dia passa? – quis saber a menina.

— Não. – respondeu Tewdric com sinceridade – Mas você aprende a viver com ela.

Karen assentiu com a cabeça e ele a abraçou novamente. Ficou feliz em ver que a menina não tremia mais. Depois, quando se afastaram , ele sorriu para ela e deu um beijo no alto de sua cabeça.

— Ted. – chamou ela novamente.

— Fale, Karenzita.

— O chefe-guerreiro vai chegar daqui a pouco. Eu não quero vê-lo. Ele quem me obrigou a isso... Nos obrigou a isso. – a voz dela falhou um pouco e ela engoliu em seco — Essa guerra é tão desnecessária...

O orc lembrou-se imediatamente da tia de Pandora. Entendia perfeitamente o sentimento de sua pequena elfa.

— Mas você é rainha, Karenzita. Você precisa vê-lo. – lembrou-lhe.

— Eu sei... – ela murmurou – Não disse que não vou... Só que não quero...

— Vamos fazer o seguinte: você manda que ergam sua barraca e preparem um banho bem gostoso para você. – aconselhou — Tire esse cheiro de guerra de você. Se prepare para lidar com a outra parte que a guerra trás: lidar com os líderes. Se Garrosh chegar, eu e Lulu enrolamos ele enquanto você termina seu banho. – terminou, orgulhoso de sua ideia.

Ela sorriu agradecida e o abraçou novamente.

— Vou fazer isso. Obrigada Ted. Te amo.

— Eu também te amo, Karenzita.

****************

Varian sabia que havia algo errado quando Lina não foi recebê-lo. Seu navio havia se afastado dos demais devido ao aviso de Doroteya: ela havia farejado o cheiro dos navios da Horda antes mesmo do imediato de sua embarcação vê-los. Trazer a druidesa tinha sido uma benção, mesmo que soubesse que Lina ficaria muito irritada com ele. Doroteya ainda estava amamentando e elaborara um esquema no mínimo interessante para estar ali. Porém, jamais impediria a presença de alguém que quisesse lutar, principalmente alguém que se importava tanto com Lina quanto ele; e alguém que tivesse uma conexão com forças que ele desconhecia.

— Sinto que preciso ir. – lhe dissera ela, embalado a filha nos braços – Algo me diz que preciso estar lá.

Agora estavam ali e não havia nenhum sinal de Lina. Mas havia luta.

— Majestade. – Vincent se adiantou, fazendo uma reverência.

— Vincent, onde está Lina? – perguntou o rei sem rodeio.

— Fomos atacados, majestade. Ela está contendo a Horda na frente da paliçada e-

Varian não deixou Vincent terminar o que estava dizendo. Ele puxou suas espadas e começou a se dirigir na direção do conflito.

— Majestade! – gritou um de seus muitos oficiais – O senhor não deveria entrar num combate nesse momento!

O rei nem se dignou a responder o que foi dito. Continuou a caminhada e, à medida que ele se dirigia até a zona de conflito, ouvia as armas daqueles que o acompanhavam sendo sacadas. Varian não seria o único a comprar aquela briga.

Foi no meio dessas pessoas que Vincent viu Doroteya. O paladino ficou preocupado, mas não surpreso com a aparição da druidesa. Imaginava que, mais cedo ou mais tarde ela acabaria aparecendo, principalmente depois que Rubrarosa e Lasciva decidiram continuar sua jornada pelo Ermo do Medo e não se juntaram a iniciativa do Desembarque.

— Vin... – cumprimentou ela, o abraçando com carinho.

— Doro... – ele retribuiu o abraço, satisfeito de ver um rosto conhecido depois de tanto tempo – E Liana? Como você fez para vir?

— É meio complicado... – admitiu – Te explico depois... Quero ver Lina primeiro.

— Então siga o rei. Eu vou ficar aqui, tomando de conta dos feridos. Chegaram vários nos últimos minutos.

Doroteya assentiu.

— Irei, mas antes... – ela tirou rapidamente uma carta de sua bolsa – Mel mandou. Disse que eu te entregasse assim que pusesse os olhos em você. – ela riu.

— Ah, Mel... – murmurou o paladino, seus olhos cheios de saudades – Obrigado, Doro.

— Não precisa agradecer Vin. – e depositando a bagagem no chão, avisou — Deixarei a bagagem aqui. – e transformando-se em worgenin, ficou de quatro patas e saiu correndo, na mesma direção que Varian tinha ido.

O rei não havia ido muito longe, desde que saíra da paliçada. Havia muitos soldados da Aliança feridos nas imediações, e o instinto de Varian foi ajudá-los imediatamente. Enquanto o rei lutava e empurrava os inimigos para longe, outros membros da Aliança arrastavam os feridos para dentro da paliçada. Assim que chegou, Doroteya começou a curar os feridos. Depois, passou a ficar mais junto de Varian, enquanto procuravam vestígios de Lina.

— Ela não ficaria exposta na praia. – disse a worgenin assim que Varian deu uma trégua nos ataques – Ela buscaria um local com uma boa visão para atirar.

O olhar do rei foi imediatamente na direção da floresta. Nada melhor do que árvores para um bom arqueiro.

— Você consegue rastreá-la pelo cheiro? – perguntou ele.

— Se conseguirmos pegar o rastro dela, sim.

— Pois vamos.

Varian e Doroteya seguiram, então, selva adentro.

Ainda havia inimigos espreitando nas sombras esperando por membros da Aliança desavisados ou desatentos. Porém, Varian e Doroteya não era nenhum dos dois. Com os nervos à flor da pele e os sentidos aguçados, a druidesa conseguia apontar os inimigos e o rei os abatiam antes mesmo de deferir qualquer golpe. Só que aquilo acabava prejudicando a busca dos dois, pois o cheio de sangue e medo enchia o olfato de Doroteya.

— Não vou conseguir pegar o cheiro dela desse jeito! – vociferou Doroteya, frustrada, apertando o focinho.

Varian olhou para os lados, após abater mais um inimigo.

— E se você voar para respirar e depois sobrevoar as árvores? – sugeriu ele.

Doroteya assentiu e imediatamente se transformou numa imensa coruja. Levantou voo e foi até além da copa das árvores. O vento marítimo levou embora os cheiros fortes dos inimigos e ela respirou aliviada. Deu algumas voltas e desceu de rasante pela selva, usando sua visão para detectar qualquer pista. Desacelerou quando viu o resto de uma cortina de fumaça, já quase totalmente dissipada. Seu coração se acelerou. Poderia ter sido qualquer caçador, mas poderia ser Lina também. Voltou rapidamente até onde estava Varian e voltou a sua forma worgenin.

— Tem algo naquela direção. – e começou a correr de quatro, com o rei alguns passos atrás dela.

Varian sabia que a melhor forma de achar Lina seria com Doroteya, por isso confiava nos sentidos da druidesa, enquanto cuidava da retaguarda dela e controlava as batidas descontroladas de seu coração. Não queria pensar que ela... Não, Lina era forte. Ela estava bem. Ela tinha que estar bem. Porque se ela não estivesse...

Não ficaria uma pedra sequer daquilo que a Horda chamava de porto de pé.

Doroteya parou abruptamente e cheirou longamente uma trilha. O coração de Varian descompassou quando ele percebeu que os pelos de Doroteya se eriçar.

— Sangue... Sinto o cheiro do sangue dela.

O porto?! Se Lina estivesse morta, ele queimaria Orgrimmar até o chão!

— Ache-a! – exigiu.

Sabia que não precisava mandar, porque Doroteya já corria mais rápido do que a maioria das pessoas conseguiria seguir. Mas Varian não era qualquer um. Ele não recebera a alcunha de Logosh à toa. E quando Doroteya gritou que a havia encontrado, ele se arremessou até o local apontado pela druidesa. Não esperou que ela confirmasse a condição de Lina; ele precisava vê-la. Doroteya teve o bom senso de não impedir quando Varian praticamente a tirou do caminho até chegar Lina . Por um segundo, ele achou que eles chegaram tarde demais e a dor que o consumiu foi quase enlouquecedora. Mas ela durou apenas um instante. Um instante que ele sentiu que sua mente implodia. E então Lina abriu lentamente seus olhos. Aqueles olhos verdes profundos como a floresta de Eowyn no verão. Com as mãos trêmulas, ele a pegou com cuidado, sem deixar de encará-la, como se estivesse com medo de ela fechar os olhos e nunca mais abri-los. E o que viu nos olhos dele foi algo que não tinha visto até então.

Era medo. Puro e simples medo.

Lina estava tremendo, suas mãos vacilando quando agarrou as bordas de seu peitoral, baixou a cabeça no peito dele e começou a chorar.

— Lina... – ele murmurou.

Não era tempo de perguntar nada, de falar nada. Estreitou os braços ao redor dela e a puxou para um abraço. Enquanto isso, encarou Doroteya e acenou com a cabeça. A Druidesa imediatamente começou a conjurar suas magias de cura. Ondas verdes envolveram os dois e os ferimentos aparentes de Lina foram sumindo, mas o choro dela continuava, pois seu sofrimento não vinha de dor física.

O primeiro impulso de Varian era pegar Lina e sair correndo dali. Só que o estado de Lina era tão diferente de tudo que ela já tinha visto dela até então, que tinha medo da reação dela caso sequer se mexessem dali. Por isso estreitou o abraço, pronto para usar até mesmo seu corpo como escudo se fosse necessário para proteger a mulher que amava.

Talvez fosse a ligação que tinha com a general, ou a empatia natural da druidesa, mas Doroteya sabia que o que quer que Lina sentia, não era algo que sua magia poderia curar. Ela se transformou em um urso e passou a guardar à distância os amantes, que ainda estavam abraçados. Se alguém decidisse atacar os dois, teria que passar por cima dela primeiro. O rei olhou agradecido para a druidesa. Não imaginava como teria encontrado Lina sem ela.

Varian não disse nada, nem apressou Lina. Deixou que ela chorasse, agarrada a ele, até que as lágrimas fossem se escasseando e a respiração dela e suas batidas do coração fossem voltando ao normal. Quando estava evidente que o pior havia passado, ele não queria saber de nada a não ser tirar ela dali o mais rápido possível.

— Vou tirar você daqui. – disse ele suavemente.

Lina não reagiu, apenas continuou com o rosto fincado em seu peito.

Preocupado, ele a ergueu sem muito problema, pronto para levá-la nos braços todo o caminho de volta até a paliçada. Foi quando percebeu, Doroteya estava ao seu lado, transformada num cervo.

— Não acho que ela vai querer montar sozinha. – disse ele para Doroteya.

O cervo fez um gesto para as costas com a cabeça.

— Eu montar com ela? – perguntou surpreso – Você aguenta?

O cervo bufou e bateu o pé no chão, visivelmente indignado.

— Tudo bem, tudo bem.

Com um movimento rápido, Varian subiu nas costas de Doroteya, ajeitando Lina em seu colo e a druidesa começou a correr rapidamente, como se não carregasse nada. O rei teve que segurar com uma mão nos chifres dela para se equilibrar. A worgenin o surpreendia mais uma vez.

Logo estavam na praia, mas a druidesa não diminuiu seu ritmo, nem mesmo na areia fofa. Saiu agilmente trotando, desviando dos corpos dos inimigos pelo chão e dos obstáculos colocados para a defesa, até chegarem na entrada da paliçada. O cervo ainda deu alguns passos para dentro, o suficiente para parar em um lugar que permitisse uma descida confortável e menos chamativa para o rei e Lina. Em seguida, ela voltou à sua forma humana. A única pista que fora ela quem fizera o trabalho pesado eram as gotas de suor que brotavam em sua testa.

— Leve-a para descansar. – pediu a druidesa recuperando o fôlego – Vou avisar a todos que vocês estão bem.

— Obrigado, Doroteya.

A druidesa fez uma mensura e saiu apressada. Varian olhou ao redor e percebeu que já haviam montado seus aposentos. Se dirigiu então até a barraca real, a maior e mais confortável das acomodações provisórias que poderiam ter por ali.

Nem havia chegado à porta quando a almirante do céu Rogers apareceu ao seu lado, visivelmente preocupada.

— Majestade... – ela começou.

— Agora não! – rosnou Varian sem sequer olhar na direção dela – Não quero ser interrompido! – ordenou antes de sumir dentro de sua barraca, deixando a almirante perplexa para trás.

Já haviam deixado tudo pronto para o rei. Varian não tinha um criado pessoal como Anduin; há muito preferia vestir-se e cuidar de suas coisas ele mesmo. Os servos apenas deixavam as coisas prontas para seu uso. Por isso, já havia uma cama no lugar, onde ele colocou Lina. Ou melhor, onde tentou. Quando fez menção de soltá-la, ela protestou com gemidos e apenas o agarrou com mais força.

— Tudo bem, eu fico com você... – ele disse, acalmando-a.

E deixaram os dois, sujos de sangue e poeira, na cama improvisada de Varian. E agora, que estavam em um lugar seguro, onde ninguém os atacariam, ele deixou-se dominar por um novo tipo de medo: Lina não estava bem. Aquele definitivamente não era o comportamento dela. Só que estava tão aliviado de ela estar viva que não se importava de ficar ali, desconfortável numa armadura suja de sangue, desde que ela estivesse respirando em seus braços. Se era aquilo que ela precisava, era aquilo que ela teria.

— Estou aqui. – disse em tom reconfortador – E não vou para lugar nenhum.

Já havia perdido demais na vida. Permitir-se-ia aquele momento de egoísmo.

Ficaram abraçados, em silêncio, ouvindo o movimento do acampamento ao redor deles. Varian encarava o rosto de Lina, aquela expressão desamparada que lhe lembrava a de Anduin quando tinha um pesadelo durante a madrugada. Ele levou a mão ao rosto dela e passou o dedo pela bochecha, limpando o sangue seco que estava grudado na pele.

— Lina... – ele chamou e ela focou seus olhos brevemente nele – Venha... Vamos tirar essa armadura, essa roupa suja...

Demorou um pouco, como se ela estivesse processando as palavras dele, para então assentir lentamente. Varian sentou-se na cama lentamente e depois se levantou, mantendo sempre contato físico com o corpo de Lina. Depois, ele a ajudou a sentar-se e abaixou-se e começou a tirar a armadura dela com cuidado. Tirou as botas, depois as joelheiras, as luvas e ombreiras e, por último, o peitoral. Embaixo da armadura, a roupa de Lina estava rasgada e suja de sangue. Muito sangue. Varian teve que respirar fundo e lembrar que os ferimentos dela já estavam curados e que ela não corria perigo nenhum. Pelo menos nenhum perigo físico.

— Acho que vamos precisar de um banho. – comentou Varian após tirar o último pedaço de armadura de Lina.

Já havia uma banheira cheia de água na barraca de Varian. Não era tão grande quanto a que ele tinha em Ventobravo, lógico, mas era um dos luxos a que ele tinha acesso mesmo em um lugar como aquele. No momento, ele não se importava muito em se limpar, mas acreditava que um banho ajudaria Lina a se sentir melhor.

Pegou com carinho as mãos de Lina, a levantou e a ajudou a tirar suas roupas. Ela parecia uma criança pequena, indefesa e obediente. Depois, ele entrou na banheira com ela e começou a lavar o sangue e a sujeira da pele de ambos. Não havia nada de sexual naquele banho; apenas cuidado e carinho.

Durante todo aquele tempo, a preocupação dilacerava Varian por dentro. Lina estava totalmente desconectada da realidade. O que quer que tivesse acontecido, havia deixado-a num estado catatônico como poucas vezes vira alguém ficar. Se fosse qualquer outra pessoa, poderia ceder a frustração me perder o controle e a paciência, mas era Lina. E vê-la naquele estado tão vulnerável o fazia querer cuidar dela, protegê-la e garantir que ela estivesse segura e confortável para quando finalmente pudesse sair de sua concha e encarar o que a aterrorizava.

Porque não duvidava nenhum momento que ela sairia daquele estado. Lina não o abandonaria no meio da guerra, sozinho. Ela só precisava de um tempo.

— Venha. – chamou quando já estavam limpos.

Saíram da banheira, Varian a envolveu numa toalha e colocou uma em volta da própria cintura antes de levá-la de volta para a cama. Sentou-a, ajoelhou-se em frente a ela e passou a enxugar o cabelo dela com cuidado. Ele adorava o cabelo dela. Ele era escuro e contrastava com a pele clara dela, fazendo com seus olhos verdes parecessem dois faróis embaixo das sobrancelhas igualmente escuras. Se perguntou por que demorou tanto tempo para percebê-la. Talvez porque o que mais chamou a atenção dele foi a combinação única de lealdade, força, determinação e beleza que o atraiu. Não era apenas o que se via. Era a essência dela acima de tudo que o atraia.

Tirou a toalha vagarosamente dos cabelos dela, segurou seu queixo com cuidado e ergueu seu rosto, esperando que ela o encarasse. Sorriu quando seus olhos finalmente se encontraram.

— Estou muito feliz que você está aqui comigo. – disse carinhosamente.

Os olhos dela se encheram de lágrimas. Ela segurou as mãos dele com força e soluçou:

— E-Eu... – ela balbuciou – E-eu...

Varian segurou o rosto dela entre suas mãos.

— Pode falar... Eu estou aqui...

Lina apertou os olhos, as lágrimas escorrendo no seu rosto.

E falou tudo.

*******************

Uma imensa barraca com o estandarte de Luaprata foi montada rapidamente para que as princesas e a rainha dos sin’dorei pudessem descansar com o mínimo de conforto. As irmãs decidiram que ficariam juntas nas mesmas acomodações para que fizessem companhia umas às outras, mas principalmente para que Luxuriah e Ashrial ficassem de olho em Karen. As mais velhas estavam preocupadas e sabiam que a jovem rainha precisaria de todo o suporte que pudessem dar diante do que acontecera.

Apesar de não ter um séquito de servos para ajudá-las no acampamento da Horda, não foi difícil providenciar o banho requerido por Karen. E depois de limpa e roupas trocadas, a menina sentia-se um pouco melhor. Não achava que fosse esquecer tão cedo o que vivenciara, mas ter sua irmã penteando carinhosamente seus cabelos ajudava a distrair.

— Lembra quando você penteava meu cabelo nos degraus da escada lá de casa? – perguntou Karen olhando para Ash pelo espelho.

— Lembro. Eu tinha que te chantagear com algum doce para conseguir te deixar quieta e conseguir desalinhar seus cabelos. – Ash franziu o cenho com a lembrança.

— Eu nunca tive esse problema. – comentou Luxuriah sentada num monte de almofadas no centro da barraca.

— Porque você dizia que se eu não ficasse quieta você ia raspar minha cabeça. – falou Karen fazendo bico.

— Ah, é. – Luxuriah riu – Bons tempos.

— E as coisas em Luaprata, como andam? – quis saber Ashrial.

— Você quer saber da cidade ou do Lorde Regente? – provocou a mais velha.

— Lógico que ela quer saber do Temma. – falou Karen revirando os olhos.

— E vocês me culpam? Estou morrendo de saúdes dele...

— E ele suas. – Luxuriah levantou-se e foi até sua mochila – Por isso, me pediu para te entregar “em mãos” uma carta. Ele deu bastante ênfase no “em mãos”. – disse fazendo aspas com os dedos.

Ash deixou o que estava fazendo e correu até a irmã, pegando a carta com ansiedade. Depois, sem dizer mais nada, ela saiu correndo da barraca, provavelmente para buscar um lugar com privacidade para ler a carta.

— Ótimo, ela nem terminou meu cabelo. – reclamou Karen, mas ela estava rindo. Sabia o quanto a irmã sentia falta de Lor’themar.

— Quer que eu trance seu cabelo? – ofereceu Luxuriah.

— Sim! – respondeu Karen empolgada. Fazia muito tempo que sua irmã mais velha nãos tinha tempo para fazer um penteado nela.

— Quer algo específico? – perguntou pegando o pente.

— Me surpreenda! – disse a jovem, solenemente.

Luxuriah riu. Decidiu fazer uma trança simples e depois enrolá-la no alto da cabeça da irmã. Seria algo elegante e ao mesmo tempo daria mobilidade à menina.

— Vamos fazer algo clássico. – explicou enquanto dividia o cabelo da irmã – Posso não ser tão habilidosa quanto Kassyeh, mas sei fazer um bom trabalho.

— Você é ótima, Lux. – garantiu Karen – Só dá medo às vezes.

— Não o suficiente para manter vocês na linha. – reclamou.

— Porque somos destemidas como você. – replicou suavemente, olhando para a irmã através do espelho.

As mãos de Luxuriah pararam um pouco de trabalhar e um sorriso triste e ao mesmo tempo orgulhoso brotou em seu rosto.

— Vocês podiam ser um pouco mais medrosas. – ela não daria o braço a torcer.

— Aí, você ia brigar com a gente, mandando a gente ser mais corajosa. – Karen também não estava disposta a ceder.

Luxuriah não conteve a gargalhada.

— Acho que você me conhece bem demais para meu gosto.

— É porque te amo. – falou a caçula com sinceridade.

Luxuriah parou mais uma vez o que estava fazendo e passou os braços pelos ombros da irmã, abraçando-a por trás. A encarou também pelo espelho.

— Também te amo, Karensky. E é por isso que sou dura com você às vezes. É minha forma de tentar você viva.

Karen tocou os braços de sua irmã e se encostou na cadeira, se aproximando dela.

— Eu sei. E desculpe pela minha reação hoje de manhã.

— Não precisa se desculpar. Sua reação é bem comum. Só que não pode acontecer de novo, certo? – pediu – A última coisa que eu quero é ver minha irmãzinha... – e não terminou a frase, sua voz trêmula.

Karen apertou seus braços.

— Eu prometo que isso não vai acontecer mais. – disse resoluta.

— Assim espero. – e soltando-se, voltou a se concentrar no cabelo – Vamos terminar logo isso. Grito Infernal deve aparecer em breve.

As duas fizeram uma careta e quando perceberam isso, riram. Luxuriah continuou o trabalho, enquanto Karen observava através do espelho. Um pensamento passou pela cabeça da jovem, mas se perguntava se devia trazer aquele assunto a tona novamente. Por isso, ficou apenas observando sua irmã terminar seu penteado. Quando Luxuriah deu seu toque final, colocando uma presilha dourada para prender a ponta da trança.

— Prontinho. – falou Luxuriah, satisfeita.

— Obrigada, Lux. – agradeceu, olhando o resultado no espelho. – Ficou ótimo. – e depois de hesitar um pouco, a curiosidade venceu – Lux, gostaria de fazer uma pergunta.

— Então faça. – respondeu a irmã displicentemente, guardando o pente e a escova que usou, no baú.

— Como foi sua primeira luta de verdade?

O rosto de Luxuriah endureceu. Sentiu a bile subir por seu estômago, a dor e a raiva entrelaçada dentro de si. Sentiu-se retorcer de angústia e quis gritar. Como sua irmã podia trazer aquilo a tona tão displicentemente. Porém, tão rápido como aquele pensamento veio, ele foi embora. Ela não lembrava. Claro que Karen não lembrava. Como poderia? Era só um bebê. Sua raiva murchou na mesma hora, deixando espaço apenas para dor. Virou-se e encarou a irmã, que agora a olhava, apreensiva. Se pudesse, a manteria alheia ao mundo para sempre, impedindo qualquer um de machucá-la. Só que estava prestes a estraçalhar mais um pedaço de seu mundinho cor-de-rosa.

— Foi quando nossos pais morreram. – disse, a voz roupa.

Os olhos de Karen se arregalaram e sua broca abriu, como se tivesse perdido a força na mandíbula. Rapidamente, a jovem venceu a distância entre as duas e jogou-se nos braços dela.

— Lux! – falou, a voz entrecortada pelo choro – Se eu pudesse, eu tirava essa dor de dentro de você!

Não era o que Luxuriah esperava ouvir. Abraçou a irmã de volta, sentindo as lágrimas correndo em seu rosto. Sim, era por isso que as protegia. Para que nunca pudesse ver os corpos de suas irmãs pelo chão como vira o de seus pais.

— Eu prometo que vou ficar forte e que sobrevivei a qualquer coisa! – prometeu a menina, resoluta.

— Fico feliz em ouvir isso. – falou apertando-a em seus braços. – E desculpa ter te dado um tapa naquela hora.

— Tudo bem, eu mereci. – disse a menina compreensiva.

Luxuriah deu uma risada.

— Posso pedir uma coisa? – perguntou a mais velha.

— Claro!

— Não conte a Kassyeh, ok? Ela não vai me deixar em paz se soube.

Foi a vez de Karen rir.

— Tudo bem.

— Certo, agora chega. – Luxuriah a afastou e secou as lágrimas – Vamos enterrar esse assunto. – e fez o gesto para que Karen a acompanhasse.

Quando as duas saíram da barraca, os elfos estavam organizando uma mesa para o jantar. Tewdric assava alegremente um grande javali e acenou alegremente para as duas quando as viu. Ash estava num canto, lendo a carata provavelmente pela milésima vez, com um sorriso besta no rosto. Karen observou a cena e suspirou. Era assim que os vivos faziam após o conflito. Seguiam vivendo. Fora o que Tewdric disse. Era o que estava acontecendo. Sua garganta apertou um pouco lembrando o que sua irmã acabara de lhe dizer, mas então Luxuriah colocou a mão no seu ombro e sorriu.

— Vamos sentar. – chamou.

Foram para a mesa improvisada e sentaram. Luxuriah pegou uma garrafa de vinho que estava por perto e abriu. Pegou duas taças e encheu uma para si própria. Na outra, colocou um pouco de vinho, uma colher de mel e completou com água. Mexeu e deu para Karen.

— Vai te ajudar a relaxar. – avisou.

Karen assentiu e bebeu.

— É gostoso. – disse a menina.

— Mas dá uma ressaca horrível. – riu-se Luxuriah – Claro, se você se embebedar. Com essa taça, você só se sentir mais relaxada.

E realmente, a jovem logo começou a sentir seu corpo mais leve e seu rosto mais quente.

— Quando será que Grito Infernal vai aparecer? – perguntou ela para ninguém em específico.

— Espero que demore. – respondeu Luxuriah.

— Eu também.

Continuaram ali até que uma imensa figura se destacou, se aproximando do seu lado do acampamento. Karen foi a primeira a reconhecê-lo.

— Vol’Jin! – e se levantou para cumprimentá-lo.

— Moleca! – ele saudou, animado, abrindo os braços e a convidando-a para um abraço.

Karen o abraçou forte, a felicidade por reencontrar o velho amigo transparecendo em seu rosto e varrendo as preocupações de mais cedo.

— Oh! – exclamou ela, dando um passo para trás – Isso não foi muito “rainha” da minha parte, não é? – perguntou em tom de desculpas.

Vol’jin apenas deu uma risada.

— E isso importa? Foi um abraço bom demais!

— Vol’jin! – Luxuriah se aproximou, cumprimentando-o – É bom te ver!

— Bom te ver também, princesa Luxuriah! O cheiro aqui tá bom demais para eu ficar afastado! O rango vai ser de primeira!

— E você é nosso convidado, não é mesmo, Karen? – perguntou a caçadora.

— Sim! Sim! Venha comer conosco! – e pegou na mão do troll, levando-o até a mesa.

Quando se aproximaram mais da fogueira, Tewdric deixou um pouco o preparo do javali para cumprimentá-lo.

— Vol’jin! Tá quase pronto, hein?! Quer uma cervejinha? Eu quem fiz!

— Nunca recuso uma birita sua, Tewdric! É a receita do sogrão?

— Com certeza! Pra sentir o gostinho de casa!

Sentaram-se e Luxuriah fez um sinal para servirem cerveja a Vol’jin. Ficou feliz em ver o brilho voltar aos olhos da caçula. O líder dos Lançanegra era muito querido pela jovem rainha e sua presença o acalmava. Torcia para que Grito Infernal decidisse não aparecer naquela noite. Queria que aquela alegria se mantivesse por mais tempo.

— Eu não sabia que você estava vindo! – comentou Karen quando sentaram-se à mesa.

— É, preferi manter minha vinda em sigilo. Não por causa de vocês, tão me entendendo?

— Sim, entendo. – disse Karen seriamente.

— Estou doido pra ver a cara de Grito Infernal quando ver você aqui. – comentou Tewdric começando a servir a comida – Ashzinha! – gritou ele – Deixe de cheirar esse papel e vem comer, menina!

— Eu prefiro não ver tão cedo. – falou Luxuriah.

— Então, que tal nos divertimos enquanto ele não dá as caras? Que tal uma cantoria com o rango? Eu sei que vocês são as melhores com isso!

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— Comida e música? – Ashrial se aproximou, sorrindo – Vou pegar o bandolim!

— Esse é o espírito! – elogiou o troll.

E foi assim que a presença de Vol’jin deixou as coisas mais leve, fazendo as irmãs se distraírem do que havia acontecido mais cedo. A música trouxe um complemente aos corações e, aos poucos, mesmo aqueles que não estavam na comitiva dos elfos sangrentos, foram se aproximando e pegando comida e bebida. Era algo que Kassyeh e Tewdric sempre faziam: a comida sempre era suficiente para todos e não apenas para seu grupo. E orc podia estar sozinho, mas fazia questão de fazer tudo de acordo com os desejos de sua esposa. E por mais que estivesse ocupado, sua mente constantemente voltava para sua elfa. Àquela altura, Rukiah já deveria ter ido vê-la. E fora que se tocou. Quando fora a última vez que consultara seu correio mágico?

— Oh, Lux! – chamou ele s eaproximando da elfa, que estava no meio de uma risada, com Vol’jin – VocÊ tá com aquele seu robozinho mágico aí?

— Qual deles? – quis saber.

— Aquele das cartas.

— Tá no baú. Por quê?

— Posso dar uma olhada nele? Ainda não instalaram a caixa de correio aqui, quero vê se a Kass me mandou uma carta.

— Pode ir, o baú ta destrancado.

Tewdric assentiu, colocou os instrumentos de churrasco na mesa e se encaminhou para a barraca. Não demorou a achar o baú de Luxuriah. O robozinho estava lá e Tewdric tirou ele e pôs no chão. A cabeça do robô brilhava, o que significava que havia uma carta. Ele sorriu e pegou.

Todos estavam conversando alegremente quando o urro de Tewdric foi ouvido. Depois, silêncio. As irmãs se encararam, assustadas, antes de correrem, desesperadas, para a barraca.



********************

A noite já havia caído quando Varian saiu de sua barraca. Ele não usava sua armadura; estava com uma calça marrom de linho simples e uma camisa branca e suas botas de couro afundaram na areia enquanto ele caminhava pelo acampamento. Seus cabelos estavam soltos e voavam ao sabor da brisa marítima, que trazia o cheiro da maresia, das fogueiras feitas pelos soldados e da comida sendo feita em algum lugar perto. Felizmente, o cheiro de sangue havia se dissipado.

Havia menos feridos sendo cuidados, o que deixou Varian mais aliviado; o pior já havia passado. Olhou para a praia, em direção onde a Horda estava montando seu porto. As luzes estavam fixas e mantinham distância. Duvidava que lançassem um ataque tão cedo, o que era bom. Precisavam levantar suas defesas e pensar no próximo passo de suas operações.

E no que fazer diante do que Lina o havia confidenciado.

Passou os dedos pelos cabelos, tentando conter sua agitação. Sua cabeça estava um turbilhão e sabia que não demoraria para que alguém o abordasse com demandas da Aliança, por isso retomou a caminhada, na direção da praia, se afastando das fogueiras e das aglomerações. Foi até o píer e caminhou por ele até chegar ao final, adentrando na escuridão e ouvindo as ondas se chocarem contra a praia. Fechou os olhos e tentou se concentrar no som para esvaziar sua mente. Queria que as ondas levassem seus pensamentos embora e os afogassem no mar do esquecimento.

Queria esquecer que quase perdera a mulher que amava pela segunda vez.

— Majestade?

Varian virou-se surpreso; não ouvira Doroteya se aproximando.

A druidesa estava parada embaixo de uma das tochas de iluminação do píer, e sob a luz da tocha ela parecia ainda menor do que era. Seus cabeços cacheados estavam presos em uma trança e ela trazia sua filha bebê presa ao seu corpo por um tecido trançado colorido. Nas mãos, a mulher segurava uma cumbuca funda fumegante.

— Vejo que seu marido já chegou. – ele disse com um sorriso, olhando para o bebê.

— Sim, agora a pouco. Ele decidiu que vai ficar para ajudar na construção do ancoradouro, depois de achar dois erros na estrutura principal. – ela sorriu – Trouxe um pouco de ensopado.

Varian não sentia fome, mas sabia que devia comer. Caminhou até a druidesa e pegou a cumbuca.

— Desculpe, estamos sem colheres. – disse ela enquanto mexia no bolso de seu vestido – Aqui, trouxe pão também. – ela abriu um lenço branco, onde um pão estava bem embalado.

— Muito obrigado. – ele agradeceu, antes de sentar-se em cima de um barril próximo e tomar um gole do ensopado – Nossa, isso está muito bom!

— Obrigada, majestade. Fiz o que pude com o que tínhamos.

— Lina sempre elogiou seus dotes culinários. – comentou antes de tomar outro gole do ensopado e comer um pedaço de pão.

Doroteya sorriu, encabulada e passou a mão nos cabelos da filha. Liana estava entretida mordiscando um pedaço grande de maçã.

— Bem, vou deixá-lo à vontade. – disse ela, fazendo uma reverência e fazendo menção de se afastar.

— Espere. – pediu Varian e Doroteya parou – Fique um pouco, por favor.

Ela assentiu e sentou-se no barril ao lado do dele. Ficaram em silêncio por um tempo, enquanto Varian tomava seu ensopado e Liana mordiscava sua maçã. A certa altura, a menina derrubou a fruta e começou a chorar. Doroteya a ninou um pouco e remexeu no invólucro onde a menina estava e logo em seguida, Liana calou-se e emitia sons de sucção. Estava mamando.

— Lina não vai ficar feliz quando ver que você trouxe a menina até uma zona de guerra. — comentou Varian.

— Não, não vai. – concordou Doroteya passando a mão na cabeça da filha – Mas não me arrependo.

Silêncio.

— Vou ficar feliz quando ver a explosão de raiva dela. – comentou Doroteya – Com isso eu sei lidar. Já com as lágrimas...

Mais silêncio.

Varian terminou de comer e colocou a cumbuca em seu colo, antes de falar, olhando para suas mãos.

— Obrigado. – disse ele fechando os olhos – Se você não tivesse vindo...

— Mas eu vim. – falou Doroteya suavemente – Eu sabia que a deusa me mandou por um motivo. Lina é muito importante para mim, majestade. Eu não suportaria perdê-la. – a voz dela tremia enquanto falava – Ela foi a única a me apoiar quando ninguém mais apoiava...

— Eu sei. Ela lhe tem em alta em conta também. – Varian respirou fundo – Ela me contou sobre Pandora e Pietro.

Doroteya olhou para o rei, sem entender.

— Sobre o orc e a elfa sangrenta que os salvaram. – esclareceu ele.

Os olhos dela se arregalaram.

— Majestade... – começou.

Varian ergueu a mão e ela calou-se.

— A última coisa que farei é criticar ou punir qualquer um envolvido nessa situação, Doroteya. – falou, em tom cansado – Porque esse orc também salvou Lina.

— Majestade... – começou Doroteya, mas Varian ergueu a mão e ela calou-se.

— Eu nem sempre me senti dividido como me sinto desde que minha alma foi partida em duas. – Varian falava, encarando as ondas que batiam no píer – Claro, eu tinha dúvidas, mas era uma sensação diferente. Após o que Onixya fez comigo, às vezes me vejo dentro de uma briga interna comigo mesmo, com o rei e Logosh lutando por coisas diferentes. Porém, vou ser sincero com você – ele virou a cabeça e encarou Doroteya – Eu nunca me senti tão inteiramente grato por algo como me senti hoje. Se, para que Lina fosse poupada por esse orc hoje, quem quer que fosse da Aliança tivesse que confraternizar com o inimigo, eu seria capaz de dar uma medalha por esse maldito feito.

Uma risada aliviada escapou dos lábios de Doroteya, mas ela rapidamente ficou séria.

— Não estou zombando do senhor, majestade. – se apressou em dizer – Apenas fiquei tão feliz com suas palavras que não me contive.

Foi a vez de Varian sorrir.

— Compreensivo. Eu mesmo estou aliviado em perceber isso. – ele suspirou – Admito, entretanto que é frustrante saber que Lina foi salva pelo inimigo, que se não fosse pela mão misericordiosa da Luz, nós teríamos recolhido o corpo...

— Não vamos falar nisso, por favor. – Doroteya rapidamente interrompeu, seu rosto expressando dor diante da possibilidade levantada pelo rei – Lina está viva e é isso que importa.

— Sim, você está certa. – concordou Varian.

Os dois se calaram brevemente, o som das ondas enchendo o ambiente, enquanto Doroteya alisava os cabelos da filha, que ainda mamava em seus seios.

— Ela falou sobre o que exatamente aconteceu? – perguntou Doroteya finalmente – Sobre o motivo da reação dela?

— Prefiro deixar para que ela te fale sobre isso. Não me sentiria a vontade em compartilhar o que me foi dito por ela num estado tão sensível.

— Compreendo. – concordou a druidesa, e compreendia mesmo. Na verdade, ela sabia que não perguntaria nada. Deixaria Lina decidir se compartilharia ou não o que quer que ela sentira naquela tarde.

Varian, finalmente, se levantou do barril onde estivera até então e Doroteya o imitou.

— Obrigado pela refeição, Doroteya. Estava maravilhosa. – e lhe entregou a cumbuca vazia.

— Posso levar mais para o senhor mais tarde. E levo um pouco para Lina também. – ofereceu ela, recebendo a vasilha.

— Sim, eu agradeceria. Um pouco de chá também seria bom, se você puder providenciar.

— Claro, sem problema.

Começaram a caminhar de volta ao acampamento, mas algo passou pela mente de Varian, que parou abruptamente, assim que seus pés atingiram a areia. Curiosa, Doroteya parou também.

— Posso te pedir um favor, Doroteya?

— O senhor é o rei, majestade. – falou a mulher, suavemente – O senhor não precisa me pedir nada, basta ordenar.

Varian a encarou com as sobrancelhas levemente arqueadas, como se Doroteya estivesse lhe contando uma estranha novidade.

— Bem, devo confessar que não me sinto à vontade se sair apenas lhe dando ordens indiscriminadamente, Doroteya. Você é a melhor amiga de Lina, afinal. Gostaria de pensar que possamos ser amigos também.

Um misto de surpresa e gratidão desenhou-se no rosto adorável da druidesa. Ela deu um sorriso amigável e gentil para Varian.

— Seria uma honra ser sua amiga, majestade.

— Então, que tal esquecer esse negócio de “majestade”? – perguntou – Pode me chamar apenas de Varian.

— Tudo bem, Varian. – Doroteya sorriu – Qual seu pedido?

— Poderia levar as coisas de Lina para a minha barraca? Ela ficará lá comigo a partir de hoje.

— Ohh!!! – Doroteya exclamou aturdida — Ela não vai gostar nada disso... Vai reclamar horrores!! Vai dizer que as pessoas vão falar! –olhou para Varian, preocupada – Tem certeza?

— Tenho. – falou, com convicção — Quase a perdi hoje, não a deixarei longe de mim. E se ela reclamar... Bem, pelo menos ela está viva para reclamar, não é mesmo?

Os dois deram risada.

— Farei isso, Varian. – concordou.

E então, os dois caminharam juntos pela areia em direção ao acampamento.

*****************************

Luxuriah foi a primeira a entrar na barraca. Ela viu Tewdric no chão, de joelhos, com as mãos no rosto e chorando. Tewdric, chorando? Seu estômago se revirou e ela se atirou na direção dele.

— Tewdric! – gritou sacudindo o orc – O que aconteceu?! É a Kassyeh?! O que houve com ela?! – exigiu saber.

A única coisa que ele conseguiu fazer foi apontar a carta caída ao seu lado no chão, enquanto seu choro continuava.

Luxuriah pegou a carta e começou a ler, no momento em que Ash e Karen chegaram na barraca. Sua expressão foi de alívio para choque, para depois seus olhos se encherem de lágrimas. Tal como Tewdric, ela soltou a carta e desabou no chão, ao lado do orc, chorando. As irmãs mais novas ficaram ainda mais aflitas e foi a vez de Ash pegar a carta.

— Ah, não! – protestou Karen – Você vai elr e vai começar a chorar também! Vamos elr juntas!

— Ok, ok! – concordou Ash e ajeitando a carta para que ela e Karen pudessem ler ao mesmo tempo.

A letra da carta era nitidamente de Kassyeh e aquilo já deixou as irmãs mais aliviadas. Mas o que a maga poderia ter escrito para deixar Tewdric e Luxuriah naquele estado?

“Meu querido Tewdric.

Pensei muito se deveria enviar essa carta. Esse não é o meio que eu gostaria que você soubesse. Pensei em apenas pedir que você viesse para conversarmos, mas isso te deixaria angustiado e triste. E eu não quero ver você assim, porque não há motivos para isso.

Então, mesmo que Halduron e Rukiah achem que eu devia lhe dizer pessoalmente, não consigo aguentar, pois não gosto de esconder nada de você.

Como você pode ver, Rukiah já está aqui8. Ela me examinou. Não se preocupe, eu não tenho a doença do pântano, nem nenhuma doença. Todos meus sintomas eram simplesmente porque eu havia enjoado do pântano.

Parece estranho, não é?

Mas é isso mesmo, eu enjoei do pântano.

Porque estou grávida.

Isso mesmo, meu amor, estou grávida. Finalmente nosso maior sonho se realizou.”


Naquele ponto da carta, Ash e Karen começaram a gritar e a pular. Depois, se abraçaram e gritaram mais.

— Espera, espera! Tem mais coisa na carta! – lembrou Ash e elas voltaram a ler.

“Se você já acabou de chorar, pois sei que você vai chorar, mostre a carta para a Ash. Não sei se Karen e Lux já terão chegado a essa altura, mas podemos fazer a carta para elas juntos, caso não.”

— Ah, há! Já estou aqui! – falou triunfante.

— Shh!!! – repreendeu Ash.

“Estou louca para te ver, mas, por favor, não faça nada precipitado, como desobedecer a ordens ou vir no meio da madrugada. Lembre que agora não somos apenas nós dois. Temos mais um para pensar sobre.

Tewdric, eu estou tão feliz!!! Eu não consigo expressar o quão feliz eu estou. Teremos um bebê! Um bebê! Karen ficará tão feliz!! E Tinuviel? Vai ganhar um primo ou uma prima! Ash e Luxuriah terão mais alguém para mimar! E não duvido que titio Aethas largue o Dalarane venha correndo nos ver quando souber. Espero que Vivithi nos agradeça.

É... Nossa família está crescendo...

É uma gota de felicidade nesse mundo caótico que eu pretendo preservar a todo custo. Por mim, por você, por toda nossa família.

Te amo.

Sua Kassyeh

PS.: Pandora está aqui. Ela manda lembranças.”

— Kassyeh vai ter um bebê! – gritou Ash sacudindo a carta.

— E vai ser um menino! – decretou Karen.

Ash franziu o cenho para a irmã.

— Como você sabe?

— Eu sinto!

As duas gritaram mais e então pararam repentinamente e olharam para Luxuriah e Tewdric, que ainda choraram.

— Por que diabos vocês estão chorando? – questionou Ash.

— Nós achamos que algo ruim tinha acontecido com a Kass! – concordou Karen.

Tewdric fungou, limpando o rosto na manga na camisa e disse, fazendo um muxoxo:

— É que eu to feliz demais...

As irmãs voltaram seu olhar para a irmã mais velha, com as mãos na cintura, esperando a explicação dela.

— Eu vou ser tia... – murmurou.

— Sério isso? – quis saber Karen.

— Ela esperou tanto por isso! Era o sonho d ela desde sempre! – e chorou mais.

Tewdric levantou-se de repente, assustando as elfas.

— Preciso ir lá, agora. – disse, determinado.

— Não! – exclamaram Ash e Karen ao mesmo tempo.

— Lembre do que a Kassyeh disse! – mandou Ash – De não fazer nada precipitado!

— Ela disse isso? – estranhou Tewdric.

— Disse! – responderam as duas novamente.

— Você não leu a carta toda? – quis saber Karen.

— Depois que li que ela tava grávida, não consegui ler mais nada.

Ash e Karen se entreolharam , reviraram os olhos e entregaram a carta novamente para ele. Tewdric respirou fundo, sentou-se na cadeira onde mais cedo Karen sentara para Luxuriah fazer seu cabelo e leu a carta com calma. Luxuriah também se levantou, enxugou suas lágrimas e respirou fundo. Assim que Tewdric baixou a carta, os olhos novamente marejados, ela pegou a carta para reler. Ash e Karen se entreolharam e depois os encararam de novo.

— Eu queria ir logo. – continuou Tewdric com o tom desanimado – Mas vou fazer o que minha Kass mandou.

— E então, podemos comemorar? – perguntou Ash ansiosa.

— Vamos, digam que sim! Ted? Lux?

Tewdric se levantou novamente, com um imenso sorriso no rosto.

— Vamos comemorar! – e para reforçar suas palavras, colocou a mão no ombro de Luxuriah e repetiu – Vamos comemorar! – e saiu correndo da barraca.

As elfas começaram a rir. Depois, se entreolharam e se abraçaram.

— Vamos ser tias de novo! – disse Ash empolgada.

— Vocês vão ser tias de novo. – corrigiu Luxuriah – Eu vou ser tia pela primeira vez. Vai ser bom poder mimar em vez de educar. Agora vamos, não podemos deixar Tewdric comemorar sozinho.

Quando elas saíram da barraca, Tewdric estava trazendo mais barris de cerveja para mais perto do grupo que jantava, que o observava curioso. Depois, ele subiu na mesa mais próxima e berrou, a plenos pulmões:

— Eu vou ser pai!

Uma enxurrada de gritos de alegria encheu o acampamento.

— Parabéns, papai! – exclamou Vol’jin batendo palmas – Agora entendi a gritaiada toda. Que boa notícia!

— É a melhor notícia da minha vida! – falou Tewdric pulando da mesa par ao chão – Vamos beber e comer a noite toda!

Desse jeito você vai acabar com toda provisão de cerveja que trouxemos. – avisou Luxuriah se aproximando, mas sorrindo.

— Ah, eu faço mais! Eu preciso comemorar! E amanhã, vou ver a minha Kass!

— Eu vou também! – ofereceu-se Karen.

— Também quero ir! – disse Ash – Também quero ver a Kassyeh!

— Ei, ei, calma vocês. – foi falando Luxuriah com as mãos erguidas – Temos que esperar para saber qual será a ordem do Chefe Guerreiro.

— Falando no diabo... – murmurou Vol’jin.

A figura de Grito Infernal se destacou a medida que ele se aproximava. Sua presença era tão intimidadora, que a comemoração, que estava muito animada até então, foi se calando, até ficar em completo silêncio quando ele chegou onde estavam reunidas as elfas e Tewdric. Um orc com uma armadura completa e um elmo cobrindo seu rosto vinha ao seu lado, lançando olhares de repulsa a todos os presentes. Seu nome era Rak’gor Navalha Sangrenta, se não estavam enganados. Vol’jin estava bem ao lado do orc e a expressão do Chefe Guerreiro ao vê-lo foi de surpresa a raiva rapidamente. Rak’gor cuspiu no chão ao ver o troll.

— Uma festa de comemoração à nossa vitória hoje nas praias da Selva de Krasarang? Imagino que não, ou vocês teriam convidado o chefe guerreiro, não é mesmo?

— Estamos comemorando a gravidez da minha Kass, chefe guerreiro. – respondeu Tewdric.

— E você é o pai? – perguntou Rak’gor, petulante.

Tewdric urrou de fúria e mostrou os dentes, antes de dar um passo à frente, como quem queria pular em cima do braço direito do Chefe Guerreiro. Luxuriah e as outras ficaram sem reação, num misto de choque diante da ofensa e da dúvida se deviam parar Tewdric ou não. Mas antes que o estrago fosse feito, Vol’jin colocou a mão no ombro de Tewdric e sussurrou apenas par ao orc ouvir:

— Tu vais ser pai. Não faça nada estúpido. Deixa comigo.

E deu um passo à frente, colocando-se na frente de Tewdric, que fechou as mãos em um punho, mas parou de avançar.

— Tu devias segurar a língua do teu cão, Garrosh. A Kassyeh é princesa e o povo dela não vai ficar feliz em ser insultado assim.

— Vol’jin! O que está fazendo aqui?! – perguntou Garrosh sem esconder sua irritação – Você não devia estar na sua ilha, lambendo sapos?

— A pergunta é: o que A GENTE tá fazendo aqui? Cê levou a guerra para o outro lado de Azeroth , e eu quero saber por quê.

Garrosh fez uma expressão de desdenho.

— É pela sua falta de visão que seu povo não passa de um bando de primitivos. Foi pela sua falta de lealdade que eu não convoquei os Lançanegra para esta campanha. – e encarou Karen, como se quisesse ver pelo rosto da menina se ela sabia que o troll estava a caminho. Porém, ele preferiu continuar seu embate – Olhe em volta Vol’jin. – e ele abriu os braços, como que para enfatizar suas palavras – Esta terra é rica em recursos: madeira, pedra, ferro, combustível. E gente. Uma demonstração de força aqui vai fazer os pandarens pensarem duas vezes antes de se unirem à Aliança.

Aquela última frase deu um nó no estômago de Karen e no de suas irmãs. Tewdric, por enquanto, só tinha olhos para Malkorok. Esperava um movimento em falso, só um, para pular na garganta do orc.

— Todo esse sangue só faz todo mundo pensar duas vezes antes de ir par aa Horda! – exclamou Vol’jin, sem esconder sua frustração.

— Esta é a diferença entre nós dois, Vol’jin. – falou Garrosh com desdém – Eu nunca deixaria MEU povo morrer de fome no deserto. Nada – NADA – vai me impedir de garantir um futuro glorioso para os orcs e para todos que tiverem coragem de marchar ao nosso lado. Espere aqui.

Garrosh e Rak’gor se afastaram, mas Tewdric ainda não tirou os olhos do orc que insultara sua esposa. Luxuriah sabia o que aquele olhar significava. Tewdric já o tinha marcado. Era só questão de tempo até desafiá-lo para um duelo. Aquela ofensa não sairia impune.

— Ele ta aprontando. – disse Vol’jin baixinho. – Cuidado Tewdric. Eles vão mirar em você.

— Que venham! – rosnou.

— Ted! – Karen puxou seu braço – Lembre o que a Kassyeh disse na carta. Não faça nada que te prejudique.

O orc bufou.

Pouco depois, o Chefe guerreiro e Rak’gor voltaram.

— Há uma coisa que você pdoe fazer par aprovar à Horda que você vale alguma coisa, troll. Uma missão no centro desse continente. – e olhando diretamente par aKAren, completou – Para você e as princesas elfas.

— Eu vou, mas só como testemunha em nome do meu povo. Alguém precisa ficar de olho em você, Garrosh.

— Pois bem! Amanhã vocês partem com Rak’gor para a localização que passarei. – concluiu o Chefe Guerreiro triunfante.

— Eu irei também. – falou Tewdric, determinado.

— Que seja. – Garrosh apenas virou as costas e saiu, sendo seguido por Rak’gor, que deu uma última olhada em Tewdric, antes de acompanhar o chefe guerreiro.

Assim que Garrosh sumiu da vista de todos, Karen estirou a língua na direção em que ele fora.

— Karensky. – repreendeu Luxuriah.

— Quê? – reclamou a menina – Viu o que aquele orc disse e Garrosh não o repreendeu? É a mesma coisa do próprio Garrosh ofender a honra da Kass! Isso seria o suficiente para Luaprata retirar todo o apoio a essa empreitada agora mesmo!

— E eu apoiaria se você decidisse fazer isso agora, moleca. – falou Vol’jin – Mas vou te pedir um favor. Fique e vamos nessa missão. Preciso de gente de confiança comigo e sei que posso confiar em vocês. E aquele Rak’gor deu uma adagada no pé com aquela frase. O povo da Horda conhece e respeita sua irmã. Vamos deixar ele se estrepar por ele mesmo.

Karen pensou um pouco e assentiu. Sabia que aquela era a melhor solução.

— E esse Rak’gor sempre pode sofrer um acidente misterioso na missão, não é mesmo, Tewdric? – falou Luxuriah olhando para o orc.

Tewdric, para sua surpresa, não sorriu.

— Sinto que não será necessário, Lulu. Ele está indo com o objetivo de nos eliminar. – disse ele, com seriedade.

— Não acredito que Garrosh seja tão burro assim, mas melhor prevenir que remediar. – Vol’jin ponderou – Em todo caso, é melhor a moleca não ir.

— O quê? Mas ele disse que era para eu ir!

— Não. – falou Luxuriah — Ele disse “as princesas”. Você é a rainha. Não sei se foi erro dele, ou se foi provocação... Mas vamos nos aproveitar disso. Eu, Ash e Tewdric iremos acompanhando Vol’jin.

— Eu não quero ficar sozinha! – protestou Karen.

— E não ficará. – consolou Ash – Ele disse que é no meio do continente, não é? Podemos passar pela Meia Colina. Assim, todos vemos a Kassyeh antes de seguir viagem.

A alegria voltou ao semblante de todos.

— Que tal deixarmos aquele estraga-prazeres para lá e voltarmos a comemorar? – sugeriu Luxuriah – Nad ado que Garrosh ou aquele imbecil digam e façam vai apagar o fato de uma nova vida ter sido gerada aqui, nessa terra, por um orc e uma elfa que se amam. Isso é a Horda, não é, Vol’jin? Uma família?

— Exatamente! – bradou o troll – Vamos comemorar a todos nós como família!

— Eu vou ser pai! – voltou a gritar Tewdric -e vou comemorar até o amanhecer! E depois – ele foi até um barril e o abriu com as mãos nuas – vou ver minha elfa!

E Garrosh foi varrido da mente de todos pelo resto da noite.

A comemoração foi retomada e Luxuriah permitiu que Karen tomasse um segundo copo de vinho com mel. Enquanto a irmã mais velha preparava a bebida, entretida numa conversa com Vol’jin, Karen lembrou-se de algo:

— Ash?

— O quê?

— Quem é Pandora?

A irmã deu de ombros.

— Não faço ideia.

***********************************

O cheiro mentolado do chá despertou Lina de seu sono inquieto. Sua cabeça doía e seus pensamentos ainda estavam confusos. Sentou-se lentamente na cama e procurou ao redor. O interior da barraca estava na penumbra, uma única luz de lanterna acesa da mesa onde Varian tomava uma xícara de chá. Ele virou a cabeça em sua direção quando percebeu o movimento na cama.

— Já é noite? – perguntou com a voz grogue.

Ele assentiu.

— Está com fome? Tem sopa e chá.

O estômago de Lina ainda estava embrulhado e ela não fez que não com a cabeça. Depois, encarou as próprias mãos entre os lençóis brancos de Varian. Queria voltar a dormir e esquecer a sensação de medo e desespero que sentia. Ao mesmo tempo, aos poucos, sua mente racional começava a se esgueirar, dizendo que era inapropriada sua permanência na tenda de Varian, que tinha que ir embora, só que pensar em sair de perto de Varian lhe dava uma angústia tão grande que nem sequer considerou essa possibilidade. Deixaria a general Wood lidar com aquilo depois. Lina ficaria perto de Varian.

Como se lesse os pensamentos dela, Varian se aproximou e sentou-se ao seu lado na cama, colocando uma bandeja sobre seus joelhos, onde pousava uma cumbuca com sopa e uma xicara de chá.

— Você precisa comer. – alertou o rei – Passou o dia em jejum e isso não é bom.

Lina encarou a comida com uma careta.

— Por favor. – pediu Varian – Por mim.

Jamais consideraria negar um pedido dele. Fez que sim com a cabeça e Varian ajustou a bandeja no colo dela.

— Só não tem colher, infelizmente.

— Estão no caixote 233. – informou Lina prontamente – Ninguém procurou lá? – e franziu o cenho.

Varian não conteve a risada. É claro que ela saberia onde estava os talheres.

— Acredito que não. Vou pegar uma colher para você.

Lina o segurou antes que ele se levantasse.

— Não precisa.

E passou a tomar a sopa direto da cumbuca. No primeiro gole, seus olhos se arregalaram, surpresa.

— Algum problema?

— Parece a sopa de Doroteya. – comentou Lina – Deve ter sido Vincent quem fez. – e continuou a tomar.

Varian não a corrigiu. Deixaria para lidar com aquilo no dia seguinte. Todavia, o fato de Lina ter apagado totalmente a presença de Doroteya mais cedo quando a buscara no meio da selva era preocupante. Mostrava quanto a experiência a impactara. Sentiu um aperto no peito. Queria ser capaz de entrar na mente de Lina e lutar contra todos seus medos. Era terrível ver a mulher que amava sofrer e não ser capaz de destruir o que causada o sofrimento.

Depois que Lina comeu, incentivou a tomar o chá, o que ela fez. Levou a bandeja de volta à mesa.

— Queria sair um pouco. – Lina comentou.

— Tem certeza? – perguntou Varian.

Ela assentiu.

— Queria andar um pouco na praia... Respirar um ar... – ela deu uma pausa – Deixe pra lá, melhor não, não quero falar com ninguém...

Varian se aproximou dela e colocou a mão no ombro dela.

— Se você, iremos. Ninguém irá te incomodar.

— Obrigada... – ela foi se levantando da cama e parou – Ah, eu não tenho roupa aqui.

— Sim, tem uma muda aqui.

Lina ficou surpresa quando ele pegou uma muda de roupa em cima de uma cadeira e lhe entregou.

“Vincent deve ter trazido quando trouxe a sopa...”, pensou Lina. Tinha que agradecer ao paladino depois, ele estava cuidando dela tanto quanto Doroteya.

Vestiu a roupa, colocou as botas e se encaminhou para a abertura da barraca. Varian se adiantou e entrelaçou os dedos nos dela. Lina virou a cabeça, ligeiramente surpresa, mas sorriu. Apertou a mão dele e saíram par a anoite.

O ar da noite lhe dizia que era quase madrugada. Não havia quase ninguém à vista e Varian ficou aliviado. Não queria que Lina visse Doroteya naquela hora e acordasse o acampamento inteiro. Apesar de quem ainda via as sombras do que acontecera nos olhos dela; a dor ainda não fora embora. Ainda assim, bloqueou a visão do resto das barracas com o seu corpo, passando o braço pelo ombro dela e a puxando para junto dele.

— Vamos. – murmurou no ouvido dela.

Lina sentiu as bochechas esquentarem. Pensou em protestar; havia pessoas ali que veriam aquele ato. Só que o torpor do dia, o medo do que vivera a calou. Aconchegou-se a ele e aproveitou o momento. Um momento que quase não acontecera.

O vento soprava forte e o cheiro de ozônio predominava, anunciando que a chuva não tardaria a chegar. Ainda assim, Lina tirou as botas e Varian fez questão de segurá-las, enquanto ela levantava a calça e molhava os pés nas águas geladas do mar. Não estavam longe de onde o rei jantara na companhia de Doroteya mais cedo naquela noite e o fogo das tochas estava fraco, mas ainda iluminada o suficiente para que ele visse dúvidas tremulando junto com as chamas.

Houve um momento de silêncio e o vento soprou mais forte, agitando os cabelos dos dois.

— Pensei em você naquela hora. – disse ela, de repente — Quando pensei que fosse morrer.

Varian sentiu um aperto no peito. Pensou em pedir para ela não falar mais a respeito, mas sabia que ela precisava por para fora.

— Eu pensei... – ela continuou – Pensei no quanto me arrependia de não ter dito o quanto te amava...

— Você disse.

— Não o suficiente. Nunca foi o suficiente. Nós nunca estamos juntos o suficiente... – ela continuou encarando o mar – Só quero que você saiba... Eu quero estar com você. Sempre. O máximo de tempo que eu puder. Sei que nossas vidas são essa bagunça, mas em todos os momentos, eu penso em você. E se eu puder escolher como passar os últimos momentos de minha vida, seria junto a você.

Varian se aproximou e ficou ao lado dela. Virou-a com gentileza e pegou levemente em seu queixo e ergueu o rosto dela em sua direção. Pela Luz, como a amava. Mesmo ali, com tanta tristeza nos olhos verdes, mesmo com tanto peso nos ombros de ambos, tudo que queria era garantir que nada mais ficasse entre os dois.

Nunca mais.

— Eu sinto o mesmo... – disse, enfatizando cada palavra..

Lina respirou fundo. Segurou com as duas mãos o antebraço dele.

— Eu tive tanto medo que eu morresse sem poder te dizer isso...

— Shhhh.... – ele colocou o polegar em seus lábios – Você está aqui. Estamos juntos. Temos a vida toda pela frente.

— Sem arrependimentos. – disse Lina sorrindo para ele.

— Sem arrependimentos. – concordou ele.

Varian a puxou para um beijo profundo, onde mais do que seus lábios, suas próprias almas se uniram. Seus corpos se entrelaçaram, como se pudessem se fundir por aquele instante e serem um só. O vento ficou mais forte e as ondas açoitavam seus pés, mas não se importaram. Queria que aquele instante durasse por toda a eternidade.

Quando o beijo se findou, o fogo das tochas estava quase totalmente extinto. Varian lembrou que a vida de Lina quase fora extinta naquele dia. E tomou uma decisão.

— Lina. – começou ele – Eu quero te pedir algo. Mas antes de me responder, pense em tudo que você me disse hoje. Não se amarre a nada. Apenas no que sentimos um ao outro. Você pode fazer isso.

— Eu faço qualquer coisa por você, Varian. – disse ela, com convicção.

— Então, case comigo.

Uma chuva fina começou a cair.

— Varian...

— Apenas o que sentimos, Lina...

O fogo dançava nos olhares que trocavam.

E ela sorriu.

— Sim. Eu caso com você.

Varian a puxou e o beijo foi mais exigente, mais voraz, mais dominador, como se quisesse marcar a posse sobre os lábios dela. Depois, ele enterrou o rosto em seus cabelos, beijando seu pescoço.

— Lina... – murmurou.

Ela entreabriu os lábios, pronta para dizer algo, mas um imenso trovão ressoou pela praia. O grito saiu angustiado de sua garganta e Lina, sem pensar duas vezes, pulou nos braços de Varian, passando as pernas pela cintura dele e o agarrando como uma criança. Varian ficou petrificado, surpreso.

— Não, não, não! – dizia ela, continuando a se mexer, como se quisesse escalá-lo.

Foi quando lembrou que ela tinha pavor de trovão.

Suprimindo o riso, ele a abraçou, a endireitando em seu braço, como quem pega uma criança pequena. Nesse ponto, a chuva já engrossa, molhando os dois.

— Calma, Lina. Eu estou aqui.

— Odeio isso! – ela dizia tapando os ouvidos com as mãos.

Outro trovão reboou e ela gritou novamente.

— Vamos, vamos para a barraca.

Ela estava com tanto medo que nem protestou da forma como ele a levou, atravessando todo o acampamento, sem se importar se os vissem naquela situação. Estavam completamente ensopados quando chegaram na barraca e Varian prontamente começou a tirar a roupa dela. Não poderia correr o risco de deixar sua noiva ficar doente. Nem de ficar sem sua general mais eficiente. Sorria enquanto pensava isso.

Mal a tinha despido, quando ela o beijou, pegando-o desprevenido.

— Me faça esquecer de tudo essa noite. – pediu, pressionando seu corpo nu contra o dele – E pensar em apenas nós.

Varian não tardou a tirar toda sua roupa molhada e dar a Lina exatamente o que ela pedira.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.