Herdeiros da Guerra

60 Capítulo XXXVI – O desembarque


Notas iniciais
Boa tarde a todos! Sei que andei sumida por muiiitoooo tempo, mas não esqueci da fanfic! Eu encerrei finalmente meu doutorado, mas logo em seguida tive que voltar à sala de aulas em descanso. Então, fiquei beeeeeem sobrecarregada. Pra completar, meu bebê peludo Thrall adoeceu gravemente e quase o perdemos.... Mas ele já está bem e já estou mais calma. Não tenho previsão para o próximo capítulo, a vida está corrida, mas podem ter certeza que voltarei assim que puder! Bjs a todos e desculpem mais uma vez a demora!

Ash molhou os pés nas águas mornas e calmas da praia da Selva de Krasarang, um local idílico, mas que em breve teria suas terras manchadas com o acirramento da guerra que já se desenrolava havia meses em Pandaria. A jovem elfa encarava o mar e respirou fundo, sentindo o ar salgado e úmido do local. Depois de um momento, virou as costas para o oceano e caminhou-se de volta para o acampamento, onde alguns poucos membros da Horda esperavam a chegada de Garrosh Grito Infernal.

Fazia três meses que a princesa Ashrial Fendessol de Quel’thalas havia saído de Luaprata com Kassyeh e Tewdric para desbravar o continente de Pandaria. Naquele tempo, enfrentara mogus, shas, mantídeos e outros monstros, além de muitos soldados da Aliança. O tempo que passara ali a ensinara bem mais do que suas curtas aventuras pelas Terras Fantasmas e o que enfrentara junto aos taurens, anos antes. Fora difícil, perigoso, mas sentia-se mais forte e preparada do que jamais se sentira antes. Estava orgulhosa de si mesma.

Todavia, algo a preocupava há vários dias e agora, com o iminente desembarque da Horda, aquela preocupação se acentuara. Kassyeh andava desanimada, sem se alimentar direito e pálida, mesmo estando na praia há dias. Desde que estabeleceram acampamento onde viria ser o futuro entreposto da Horda, a sua irmã mostrara sinais óbvios que estava doente, mesmo que não desse o braço a torcer.

Obviamente, em uma situação como aquela, Ash não era a única preocupada. Tewdric fora bem mais direto que a cunhada e tentara pressionar Kassyeh para dizer o que sentia. Pela primeira vez Ash viu Kassyeh ser bem dura e desagradável com o marido, para depois cair em lágrimas. Depois disso, o orc apenas rodeava a esposa, sem falar nada, mas sua expressão denunciava que se sentia tão ou mais preocupado que Ash.

Assim que voltou para o acampamento, viu Tewdric conversando com Hermenegilda, a trollesa que os acompanhava e que era uma das druidesas da guilda. Ela estava assando pão em um forno improvisado na praia e, de vez em quando, chegava um soldado para pegar uma porção. No momento em que os soldados chegavam, os dois paravam de conversar e voltavam a falar apenas quando estavam sozinhos. Isso fez Ash intuir que o assunto da conversa era Kassyeh, o que se confirmou quando eles não se calaram quando ela parou na frente deles.

— Ashzinha! — falou Tewdric tentando parecer mais animado do que estava – Foi bom o passeio?

— Sempre é bom relaxar aqui em Krasarang. — respondeu ela – Mas acho que a Herme não tem muito interesse no meu tempo livre aqui. — e riu.

Hermenegilda deu uma risada, verificando o pão dentro do forno.

— Aproveitar a calmaria antes da tempestade é sábio... — disse a trollesa – E a tempestade está a caminho…

Ash assentiu, entendendo do que ela falava. Deu uma olhada mais uma vez no mar e imaginou como ele ficaria em alguns dias, cheios de navios e zepelins da Horda.

— E era sobre isso que a gente tava falando… — a voz de Tewdric baixou e Ash voltou a olhá-lo – O Chefe Guerreiro está chegando. A Aliança não vai deixar estabelecermos nosso posto avançado tão fácil. Eles podem não ter chegado ainda, mas deve tá vindo um monte deles para cá… — ele acenou com a mão, mostrando a praia – E devem tá bem de olho em nós.

— Eu soube que tem um bocado deles do outro lado da praia. — comentou Hermenegilda, tirando um pão do forno e pondo em cima de uma mesa improvisada, que na verdade era um escudo em cima de algumas tábuas – Essa selva aí deve tá cheio de AVIN só esperando o momento.

Tewdric rosnou baixinho, com os dentes trincados.

— E a Kass tá doente… Eu sei que tá… — murmurou ele

— Você tá exagerando nesse sentido, Tewdric. — ralhou Hermenegilda – Não é como se a bonitona tivesse sem conseguir se mexer!

— É, mas você mesma disse que não sabe o que ela tem. — reclamou o orc.

— Eu disse que suspeito que seja alguma doença ligada à selva. — lembrou-lhe a trollesa insatisfeita – E acrescentei que os pandarens deveriam saber melhor do que se trata.

— Alguns soldados também se sentiram mal quando chegamos aqui. — Ash comentou – Alguns sintomas parecidos com a da Kass.

— Mas eles ficaram bons e ela não. — o orc resmungou.

— E o que você tá pensando, Ted? — quis saber a jovem elfa.

Enquanto conversavam, Halduron saiu da selva bem próximo a eles, com um punhado de ervas em suas mãos. Assim que os viu, o elfo caminhou na direção deles e entregou as plantas para Hermenegilda.

— Bom dia, Alteza. — ele cumprimentou Ash formalmente – Hermenegilda, aqui estão, as ervas que você pediu. — disse se dirigindo à druidesa.

— Muito bom! — comemorou a trollesa batendo as mãos para tirar a farinha delas antes de pegar as ervas – Vou fazer um elixir danado de bom pra Kass… Me deem um minutinho.

Hermengilda se retirou para sua barraca, levando as ervas. Quando ficaram a sós, Halduron virou-se para Ash e Tewdric e começou:

— Eu acredito que não é seguro para a princesa Kassyeh ficar aqui quando o desembarque acontecer. — disse sem rodeios – A saúde dela não está bem, mesmo que ela insista o contrário.

— Era exatamente o que eu tava dizendo pra Ashzinha…. To pensando em tirar minha Kass daqui, antes da treta começar. — revelou o guerreiro – Mandar ela pra algum lugar calmo, pra se recuperar do que quer que ela tenha…

— Concordo com você Ted, mas a Kass é cabeça dura. Não vai querer sair daqui. — falou Ash – Se acharmos uma desculpa para ela sair seria melhor… — e antes que algum dos dois dissesse algo, ela completou – E se eu pedir para ela irmos caçar uma fera espiritual para mim? Tenho certeza que ela iria.

— Seria bom se você pudesse fazê-la desistir da caçada assim que sair daqui. — lembrou-lhe Halduron – Ou ela vai se engajar em combate com a criatura assim que a vir, para te ajudar.

— Ah, é mesmo. — Ash suspirou, resignada – E agora?

— Eu tô com umas ideias ai. — falou Tewdric – Além de tirar ela daqui, conseguir a ajuda de alguém que entenda das doenças daqui de Pandaria.

— E você conhece alguém assim? — quis saber Ash

Sim, Tewdric conhecia e Halduron sabia exatamente de quem ele estava falando. Uma sacerdotisa que cuidara deles quando chegaram em Pandaria. Rukiah era a pessoa que Tewdric acreditava que pudesse dizer o que Kassyeh tinha, com toda certeza. Todavia, Rukiah era uma pessoa neutra, que tratava bem tanto pessoas da Horda quanto da Aliança. Se a pandarena fosse cuidar de Kassyeh, deveria ser em uma das localidades neutras que agora existiam no continente. E, por mais Ashrial amasse a irmã, ela tinha um pensamento muito forte com relação a qualquer um que ajudasse a Aliança, mesmo sendo um pandaren. Logo, não seria a pessoa mais indicada para acompanhar a irmã até Rukiah.

— Tenho uma pessoa em mente. — disse Tewdric por fim – Vou escrever uma carta pra ela e esperar a resposta. Espero que possa resolver isso o mais rápido possível.

— Espero que essa pessoa possa ajudar. — desejou Ash.

Halduron nada falou, mas sabia que Tewdric se referia a Rukiah e, caso Kassyeh precisasse ser levada até a sacerdotisa, seria ele a pessoa que faria isso. Não era algo que desgostasse; sendo bem sincero, ele não queria participar da operação do Desembarque. Tinha consciência que entraria em combate com a Aliança e aquilo era algo que estava evitando a todo custo, desde que passara a acompanhar as princesas, quando voltara do Monte Kun-Lai. Não conseguia parar de pensar em Pandora e o primo dela ali, em Krasarang, se preparando para atacá-los. Não queria sequer pensar na possibilidade em entrar em combate com ela e findar por matá-la. Ela tinha um irmão que precisava dela e não seria Halduron que o privaria daquilo.

Hemenegilda voltou naquele momento, com um frasco na mão.

— Aqui, fiz esse tônico pra Kass… — a trollesa mostrou um pequeno pote de vidro – É bom que ela tome, para se sentir melhor.

— Vou levar para ela – se disponibilizou Ash e Hermenegilda entregou o frasco a elfa – Espero que isso ajude.

A jovem elfa caminhou-se para uma das barracas, sob o olhar atento de Tewdric. Preferia ele mesmo ter levado o remédio, mas tinha arranjos para fazer. Precisava enviar a carta para Rukiah com urgência. E ele e Halduron precisavam conversar.

******************

Tal como dissera Hermenegilda, a Aliança estava de olho no recente assentamento da Horda, mesmo que estivessem acomodados no outro lado da selva. De pé, em cima de uma imensa rocha, Lina observava o acampamento inimigo com um binóculo de longo alcance, projetado por Vanellopi. A general não conseguia reconhecer silhuetas, mas podia ver toda a movimentação dos que estavam na praia e nem precisava dos relatórios da AVIN para saber que a intenção deles era a mesma da Aliança: um posto avançado na Selva de Krasarang.

“Isso vai ser um banho de sangue…”, pensou aflita, baixando o binóculo.

Sua missão atual era manter uma constante vigilância sobre o acampamento da Aliança, para evitar que fossem massacrados antes que as forças de Ventobravo chegassem. Liderava o pequeno grupo que se estabelecera na praia da Selva de Krasarang e, em poucos dias, a 7º Legião chegaria, com um grande contingente formado por todas as raças da Aliança.

Sentiu um aperto no coração ao pensar que Varian estaria ali em poucos dias. Apesar da saudade imensa que sentia dele depois dos meses que estava em Pandaria, sentia-se angustiada com o fato de ele estaria ali quando o conflito se desencadeasse. Sua cabeça lhe dizia que ele era um guerreiro experiente e que tiraria aquele assalto de letra, mas seu coração se apertava ao pensar que ele poderia ser machucado ou mesmo morrer durante aquele conflito.

“Por isso eu não queria me apaixonar…”, pensou pulando da pedra em direção à areia fofa da praia, que afundou com o peso de suas botas. “Preocupada com um homem que até gladiador já foi e, que tem mais poder do que a maioria dos soldados do exército juntos. Mais poder que eu mesma.”. riu de si mesma. Se tinha que se preocupar com alguém, não deveria ser com Varian.

— Lina? — chamou Anduin.

A general virou-se e viu Anduin se aproximando. O rosto do adolescente estava bem corado, fruto do tempo em que estavam acampados na praia. Seus cabelos loiros estavam ainda mais claros, pela exposição ao sol e seus olhos azuis pareciam dois faróis iluminando sua expressão.

— Você passou alguma loção protetora nesse rosto? — perguntou ela o encarando – Você parece uma lagosta.

Anduin riu, sem jeito.

— Sim, estou passando. — ele passou o dedo na pele do rosto — Já tive uma queimadura do sol e não foi uma experiência muito boa.

— Que bom.

O príncipe estava sob sua proteção desde que Lina voltara a Pandaria. Assim que aportara, três meses antes, soube que o templo da Garça Vermelha tinha sido dominado pelo sha e quase tivera uma síncope de tanta preocupação. Partiu imediatamente para a Selva de Krasarang e sentiu tanto alívio quando encontrou todos sãos e salvos, que nem brigou com Pandora quando descobriu que ela e Anduin não cumpriram o combinado e estavam no Monte Kun Lai, quando o templo fora atacado. Lina só soubera disso porque ouvira dois monges pandarens conversando. Sem querer dar o braço a torcer, os alertou que não fizessem mais aquilo ou poderiam não ter tanta sorte na próxima fuga. Os dois assentiram e Lina teve certeza que eles fariam de novo.

— Mas me diga, precisa de algo? — perguntou Lina apontando para ele segui-la de volta ao acampamento.

— Queria saber o que você viu lá no acampamento da Horda. — pediu o príncipe sem rodeios.

— Nada diferente do que esperávamos. — falou com sinceridade – Acredito que os planos deles são semelhantes aos nossos: vão estabelecer um posto avançado e estão se preparando para uma investida nossa.

— E haverá investida de nossa parte? — indagou o príncipe, preocupado.

— Do mesmo modo que haverá uma investida deles contra nós. — respondeu com sinceridade.

Anduin rapidamente lançou um olhar para a mata, visivelmente assustado.

— O que nos leva a um assunto que quero tratar com você. — disse Lina enquanto avançavam até a barraca dela – Eu gostaria que você não estivesse aqui quando o desembarque acontecesse. Será extremamente perigoso e não garanto que possamos manter você na segurança que eu e seu pai achamos apropriado.

— Foi meu pai quem ordenou isso? — quis saber o jovem, já na defensiva.

— Não. Isso é uma preocupação minha com seu bem-estar. — falou carinhosamente.

Anduin imediatamente relaxou e sorriu para ela.

A relação dos dois se estreitara ainda mais no tempo passado em Pandaria. Depois que reencontrara ele e seus sobrinhos, Lina não deixou que eles saíssem debaixo de suas asas um só momento. Enquanto recuperavam o templo da Garça Vermelha, ela manteve Pietro sob os cuidados dos pandarens, mas tanto Anduin quanto Pandora a acompanharam na batalha. Ficou surpresa em ver o quanto sua sobrinha evoluíra na mira e como ela manteve o sangue frio durante toda a ação. Já Anduin se tornara um excelente suporte e o fato de ele ficar longe do conflito corpo a corpo tornava sua presença mais aceitável na investida. Depois de recuperado o templo, Pietro retomou aos seus estudos enquanto Lina, Pandora e Anduin, na companhia de Vincent, exploravam outros lugares de Pandaria. Foi um período agradável, apesar de perigoso.

No acampamento improvisado da Aliança, todos cumprimentaram com deferência quando Anduin se aproximou. Vincent estava atiçando o fogo de uma fogueira, onde uma grande panela fervia com o que seria o café da manhã deles. Lina ficava surpresa o quão a vontade e relaxado ele estava, mesmo que usasse uma armadura completa numa ensolarada manhã na praia. Na verdade, o calor não parecia o afetar de jeito nenhum.

— Bom dia Alteza, Lina. — cumprimentou ele numa elegância que Lina jamais teria mesmo que vivesse mil anos – Estou fazendo uma sopa de peixe deliciosa!

— Um autêntico café da manhã pandarênico! — exclamou Anduin – Parece delicioso!

— Só mais um pouco e estará pronto, alteza. — garantiu o paladino.

— E Pandora, Vin? Já acordou? — quis saber Lina.

— Já sim. Está dentro da barraca, reclamando do sol.

Lina revirou os olhos. Pandora estava muito mal-acostumada.

— Venha Anduin. Vamos falar com a senhorita ‘não gosto de sol forte’. — chamou a general.

Vincent e Anduin riram e o príncipe acompanhou Lina para a barraca que a general compartilhava com a sobrinha. Como líder do acampamento, Lina tinha direito a uma acomodação grande e espaçosa, além de um escudeiro, para limpar suas armas e sua barraca. Para a infelicidade de Pandora, Lina dispensou o escudeiro, dizendo que ela e a sobrinha manteriam as armas limpas e o local arrumado. Pandora ainda a não a perdoara por isso.

Quando entraram na barraca, Pandora estava apenas de regata e calças folgadas, com uma expressão de desgosto no rosto e bebendo um copo de chá gelado. Era uma benção ter magos no acampamento.

— Achei que você gostasse de praia, Pãozinho… — provocou Lina tirando as botas para entrar na barraca. Anduin fez o mesmo. Era um hábito pandarênico que todos haviam incorporado.

— Gosto de praia quando estou de biquini e descansando. — reclamou a jovem – Aqui está quente, úmido e vou ter que vestir minha armadura. Não tem como gostar disso…

— Então tenho uma boa notícia para você. — anunciou Lina sentando-se em frente a sobrinha e pegando a jarra de chá gelado – Você vai acompanhar Anduin para a Meia Colina ainda hoje.

Tanto o príncipe quando a jovem soldado olharam espantados para Lina, que agora servia chá gelado para Anduin e depois para si mesma.

— Verdade? — animou-se Pandora – Vou sair desse calor miserável?

— Vai, mas não é para se divertir. — avisou Lina – Quero manter Anduin seguro durante o desembarque das nossas tropas. — e encarando a sobrinha com um olhar provocador – Acha que consegue?

Pandora devolveu o olhar da tia com presunção.

— Eu o mantive vivo quando você estava longe não mantive? Posso fazer isso de novo. — garantiu.

Anduin já estava tão acostumado naquelas duas falarem dele como se o jovem nem estivesse lá que nem reclamou, apenas tomou um gole de chá gelado, concordando secretamente com Pandora que seria ótimo sair um pouco do calor.

A Meia Colina era um local onde Anduin não tinha ido ainda, mas já ouvira falar. Era uma pequena encosta, onde pandarens que moravam no Vale dos Quatro Ventos costumavam se reunir e onde havia sempre muito comida e comemorações. Mas, o mais importante era que Os Lavradores, facção que comandava a Meia Colina, era neutra e não aceitavam conflitos envolvendo Aliança e Horda. Eles tinham guerreiros e monges fortes sempre presentes e as poucas vezes que alguém ousara a quebrar a tranquilidade do local, saíram de lá enfiados em tonéis de cerveja choca e proibidos de voltar lá até que se comprometessem a manter a paz. Saber que era para lá que seria enviado deixava Anduin feliz. Poderia aproveitar muitas comidas novas.

Pandora tinha outros motivos para querer sair da Selva de Krasarang, ainda mais para um local neutro como a Meia Colina. Apesar do tempo que passara em Pandaria, enfrentando perigos com sua tia, estar no meio de um conflito sério com a Horda era algo que não ansiava. Em primeiro lugar, não queria morrer. Por mais que a maioria dos soldados louvasse sobre o sacrifício heroico e outros blá blá blá, Pandora não pretendia desperdiçar sua vida daquela forma. Pragmática como só era, sabia que morrer com honra podia ser bonito nas histórias, mas, na prática, era apenas justificar derramar seu sangue numa guerra estúpida. Que a chamassem de traidora ou a acusassem de não ser patriótica. Que seja. Era jovem e queria viver sua vida.

Além disso, não queria nem pensar na possibilidade de participar de um conflito onde veria Kassyeh, Tewdric e especialmente Halduron do outro lado. Não teria coragem de atacar nenhum deles. Era possível que, se ficasse frente a frente com Halduron, ambos com as armas em punho, ficaria sem coragem. Seria capturada, na melhor das hipóteses.

Halduron teria coragem de matá-la? Melhor não descobrir.

Havia mais um motivo para sua animação e também estava ligada ao elfo sangrento. Um local neutro era mais uma oportunidade de que pudessem se encontrar. Apesar da possibilidade bem baixa de o general patrulheiro não participar do desembarque que sabia que a Horda efetuaria, era sua melhor chance. Já pensava, inclusive, em chamar Pietro para ir até a Meia Colina também. O menino adoraria desfilar por lá em seu disco e definitivamente ficaria feliz se visse Halduron, mesmo que isso implicasse Pietro descobrir que o elfo que encontrara em Dalaran fosse da Horda.

— Certo, quando partimos? — perguntou Pandora já se levantando.

— Ei, calma aí. — disse Lina erguendo a mão – Vocês têm que preparar suas coisas e quero que saiam daqui usando Hope. Nada de viagem por terra. Além do mais, preferia que você não usasse suas roupas reais, Anduin. — ela olhou para o menino – Se apresentar como um jovem comum diminuiria as chances de alguém fazer vocês de alvo.

— Mas na Meia Colina ninguém ousaria nos atacar. — lembrou-se Pandora, agitada. Já estava com o olho em sua mochila, sabendo que não levaria muito tempo para enfiar tudo lá e partir.

— Na Meia Colina não, mas fora dela sim. E não adianta me prometerem que não sairão de lá. — já foi avisando a general – Vocês quebraram a promessa uma vez e não tenho certeza que manterão sua palavra agora.

O rosto de Anduin, que já estava vermelho do calor, ficou em chamas, mas Pandora apenas suspirou, ciente que merecia a reprimenda.

— Sente-se Pandora. — pediu Lina calmamente – Vamos discutir todas as possibilidades e, então, comeremos algo e vocês seguirão caminho.

— E voltaremos quando meu pai já estiver aqui. — supôs Anduin.

— Sim. Vocês se encontrarão novamente. — garantiu, sorrindo.

Anduin retribuiu o sorriso e Pandora se sentou novamente, resignada. Ouviria a ladainha de sua tia e partiria assim que pudesse carregar Anduin dali, sem nem olhar para trás.

******************

Era dia no Pântano Vadeoso, mas uma forte tempestade caia, tão forte que o dia mais estava escuro, quase como se a noite já houvesse chegado. No meio da escuridão, uma luz fraca e difusa bruxeava, vindo de uma cabana afastada, já perto do litoral. Duas tochas tentavam permanecer acesas no pequeno espaço entre a cabana e a chuva torrencial, protegidos pelo teto de palha e madeira. Quem passasse na estrada ao longe, poderia ver duas figuras estavam postadas ao lado de uma porta, ambos espremidos na parede da cabana para se protegerem do temporal. Uma das figuras era alta e esbelta. O outro vulto parecia menor, e a pessoa deveria chegar muito perto para ver que, na verdade, era um imenso troll que estava de cócoras. Se, naquele momento reparasse bem, veria que o vulto alto e esbelto tinha o rosto coberto por uma echarpe, mostrando apenas os olhos verdes brilhando com a luz da tocha. Nenhum dos dois falava, os ouvidos atentos a qualquer coisa que se movesse naquele dilúvio e pudesse ameaçar a cabana.

Dentro da cabana, uma conversa acontecia, mas num tom baixo, como se os interlocutores tivessem medo que a chuva ouvisse o que fosse dito. De um lado, um troll velho que já havia visto muito mais do mundo do que gostaria. Do outro, uma jovem elfa, que ainda estava longe de ser considerada adulta, mas que começava a entender mais do mundo do que deveria. Entre os dois, uma fogueira trepidava, com uma panela em cima dela, tanto para espantar o frio quanto para alimentá-los.

— Você cresceu, moleca. — falou Vol’Jin com carinho.

Desde que se conheceram, Vol’Jin sempre a chamava carinhosamente de “moleca”. Não era de forma ofensiva ou desrespeitosa. Ele falava com o mesmo tom que Tewdric usava ao chamá-la de “Karenzita”. Por isso, quando ele a chamou daquela forma, ela sorriu.

— Só pra cima. — brincou a menina colocando a mão sobre a cabeça e levantando-a, sugerindo uma altura maior – Se ficar um pouco mais alta, vou bater nos candelabros da Torre.

O troll deu uma risada.

— Não seria ruim. Assim vocês os colocavam mais altos e eu não bateria a cabeça quando fosse te visitar.

Agora os dois riram e Vol’Jin mexeu no conteúdo da panela.

— Imagino que você já esteja de bucho cheio. — comentou – Mas odeio comer sozinho.

— Não comi ainda. — disse a menina – Ouvi dizer que sua sopa era a melhor sopa de rã de Azeroth e decidi provar.

— Essa aqui é peixe, mas também é muito boa. E Hermenegilda tá errada. A melhor sopa de rã é a dela.

Vol’jin serviu uma cumbuca de sopa a Karen e outra para si. Os dois tomaram em silêncio, ouvindo apenas o barulho da chuva do lado de fora. Aquele ritual era conhecido pela jovem elfa: nenhum troll que se preze trataria de um tema tenso sem alimentar o ouvinte. Era uma tradição que ela descobrira em suas conversas com Hermenegilda e outros trolls da guilda de suas irmãs. Sabia também que caso o ouvinte negasse a comida, não importa qual fosse, era como se já negasse quaisquer propostas que fossem debatidas. E nada de negócios até a primeira refeição fosse degustada.

Quando as cumbucas foram esvaziadas, Vol’Jin a pousou em seu lado e Karen fez o mesmo.

— Você foi convocada? — perguntou o chefe dos trolls, sem cerimônia.

— Sim. — respondeu Karen – Minhas irmãs ainda não sabem. Nem os conselheiros. Só a Vivi… Vivithi Theron, minha acompanhante. — explicou ela gesticulando para o lado de fora da cabana — Grito Infernal faz questão que eu esteja no desembarque.

— Retaliação porque não havia nenhuma de vocês em Theramore... — comentou Vol’Jin, sem nenhuma surpresa. — A dona Correventos e Baine não vão gostar nenhum pouco disso.

Karen sorriu diante da menção a Sylvana.

— A tia Syl… Digo, Sylvana Correventos e eu mantemos contato porque ela foi amiga de minha mãe. Eu gosto dela.

— Você deve ser a única pessoa viva que gosta da Rainha Banshee. — Vol’Jin não disse aquilo com sarcasmo ou malícia, apenas como uma constatação – E acredito que seja recíproco, o que te torna a única pessoa viva com quem ela se importa.

— E é por isso que o Chefe Guerreiro fez questão de me convocar. — comentou Karen numa calma que faria suas irmãs se perguntarem se ela estava doente.

— Você é esperta, moleca. — Vol’Jin falou apontando o longo dedo azulado dele na direção dela – E tá lidando com isso muito bem.

— Ah, eu fiquei com raiva quando soube. — confessou – Muita raiva. Mas acho que é isso que ele quer né? Me deixar com raiva. — ela deu de ombros – Se eu perder a calma, ele ganha. Mas é difícil. Minha vontade é mandar uma carta bem malcriada pra ele! — enfatizou, deixando transparecer a pouca idade naquelas palavras.

— Acho que é a vontade de todos nós. — garantiu Vol’Jin sorrindo – E você sabe que é por isso que estamos aqui, não é?

Desde Theramore, a maioria dos líderes da Horda estava bem descontente em como as coisas funcionavam. Primeiro, nenhum dos líderes foi informado dos planos de Garrosh para aquela cidade; depois, ele estava constantemente pressionando por tropas e mais tropas e sem se importar com feridos ou com as mortes. Porém, o que piorava toda a situação, era o desprezo nítido por quaisquer raças que não fossem os orcs. Se antes, a Horda era uma família, com povos prosseguidos e excluídos que se apoiavam, estava se tornando cada vez mais uma ditadura liderada pelo punho de ferro de Garrosh. E Vol’Jin, que já percebera isso e se posicionara contra o que o Chefe Guerreiro vinha fazendo, estava sendo excluído dentro da facção que ajudara a criar.

— Você não foi convocado? — perguntou Karen.

— Não. Nenhum troll foi. — falou Vol’Jin tranquilamente – Mas isso não significa que eu não vá.

Aquilo surpreendeu a jovem rainha, que arqueou as sobrancelhas.

— Isso não será perigoso?

— Claro que será. Mas é algo que eu preciso fazer. Para evitar que nós levemos a culpa pelo banho de sangue. Farei isso pela Horda.

Karen assentiu.

— E como eu posso ajudar?

Vol’Jin sorriu e começou a falar.

Pelas próximas horas, os dois discutiram planos e estratégias para o momento do desembarque, onde Karen era esperada e Vol’Jin não. O líder dos trolls não se espantou com a maturidade da menina para discutir temas tão espinhosos e perigosos; os loas já haviam confirmado que, apesar da inexperiência, a rainha dos elfos sangrentos seria essencial para lutar contra os planos insanos de Grito Infernal. Além disso, a proximidade dela com Sylvana Correventos era um benefício a mais. Duvidava que a Rainha Banshee se recusasse a ir contra Garrosh, já que os dois já tinham problemas há algum tempo, mas a participação de Karen faria com que Sylvana fosse mais… cuidadosa.

— Deixa eu te dizer uma coisa, moleca. — falou Vol’Jin, depois de um tempo – Não me sinto confortável nem feliz em ter que expor você a isso. Você é jovem, devia tá aprendendo a evitar guerras e não participar de uma.

— Obrigada pela preocupação. — falou com sinceridade – Eu também não gostaria de estar nessa situação. Minhas irmãs vão ficar muito chateadas… E o Ted também. Mas vou usar isso para evitar uma guerra maior. Uma guerra que acabe com a Horda.

— Você é uma rainha e tanto, Karensky Fendessol. — disse ele, por fim.

— Acho que eu prefiro o ‘moleca’! — exclamou Karen.

Vol’Jjin gargalhou.

— Como quiser, moleca. — e olhando para a porta, falou, com o tom mais alto – Venham comer, vocês dois. Aí deve tá frio para cacete.

Vivithi e Rokhan entraram na cabana, a roupa deles pontilhadas de pequenas gotas de chuva. Vivithi tirou a echarpe que cobria seu rosto e a capa.

— Se chover mais um pouco, isso aqui vira o rio Vadeoso e não mais pântano. — reclamou a elfa.

— Se aprocheguem. — chamou Vol’Jin chamando-os para perto do fogo – Tem comida e bom papo. Vamos aproveitar essa paz enquanto podemos.

Karen estendeu a cumbuca dela para Vol’Jin. Aproveitaria muito bem aquela paz, mas tinha planos para que ela fosse bem duradoura.

******************

Enquanto o Tewdric escrevia a carta para Rukiah. Ash se aproximava da barraca de sua irmã e, chegou no momento em que Kassyeh saia. O rosto da maga estava pálido e havia olheiras marcadas embaixo de seus olhos. Ash percebeu que a irmã estava mais magra do que alguns dias atrás, deixando suas roupas tão folgadas que ela tinha que usar lenços para deixá-los mais ajustados ao corpo.

— Bom dia, Ash. Dormiu bem? — perguntou Kassyeh gentilmente.

— Sim, dormi maravilhosamente bem. — garantiu Ash – E você?

— Não muito. — confessou Kassyeh – Mas acho que dá para perceber, não é? — a elfa riu.

— Pelo menos você não está tentando esconder o obvio. — Ash estendeu o frasco para a irmã – Tome, Hermengilda disse que faria você se sentir melhor.

— Ah, eu disse a ela que não precisava…. — murmurou Kassyeh, mas pegou o frasco – Tem gente pior que eu…

— Não tem não. — retrucou Ash – Você é a única que ainda está sentindo esses sintomas…

Kassyeh sorriu e abriu o frasco. Bebeu toda a poção e sentiu o estômago se acalmar na mesma hora. Aquilo era um imenso alívio. Precisava pedir a Hermenegilda que a ensinasse a fazer aquela poção.

Fazia dias que uma doença estranha se abatera entre os membros da Horda. Assim que se estabeleceram perto da praia, uma onda do que parecia ser uma gripe assolou o acampamento. Era febre, calafrios e alguns casos de vômito nos primeiros dias. Kassyeh estava certa que tinha a ver com alguma coisa na água e orientou a todos a ferver a água antes de beberem. Isso melhorara a saúde da maioria e praticamente fizera sumir a doença. Porém, a maga fora a última pessoa a mostrar os sintomas, tendo problemas graves no estômago quando todos já se sentiam melhor. Para lidar com a situação, ela passava o dia tomando chá e poções, ajudando o enjoo a sumir durante o dia, mas persistindo durante a noite. Por isso, ela dormia tão mal.

— Eu vou melhorar em breve, Ash. — garantiu Kassyeh para a irmã preocupada – O problema foi a água envenenada pelos mogus, já disse. Deixou meu estômago sensível. Mais algumas dessas – ela sacudiu o frasco vazio que Hermenegilda mandara – e eu fico nova em folha. Estarei pronta para quando o chefe guerreiro chegar.

Ash queria dizer que seria melhor que ela não estivesse ali, mas sabia que não seria a melhor pessoa para convencer sua irmã. Dificilmente Kassyeh se afastaria de Ash no meio de uma situação onde haveria conflito com a Aliança e a irmã corresse algum risco. E, naqueles dias em Pandaria, Ash se surpreendeu ao ver o quanto Kassyeh havia ficado forte. Claro, sabia que sua irmã tinha uma magia latente muito forte, mas ver aquilo transformado em setas de gelo, barreiras e nevascas, era lindo e assustador ao mesmo tempo.

— Quando eu estiver melhor e antes que o chefe guerreiro chegue, eu posso te acompanhar na busca pela fera espiritual que só pandarens falaram a respeito. — falou Kassyeh mais animada do que quando acordara.

— Desde que você não a mate antes de eu conseguir domá-la. — brincou Ash dando de ombros – Porque elas são bem difíceis de encontrar.

— Pode deixar, a manterei viva. — disse Kassyeh – Ah, será que ainda tem farinha? Estou com uma vontade de fazer um pão….

— Não precisa, a Hermengilda já fez. — avisou Ash – Eu estava vindo mesmo para tomarmos café da manhã juntas, se você estivesse melhor.

— Pois vamos, que esse elixir abriu meu apetite! — Kassyeh se espreguiçou – Eu realmente preciso dessa receita.

As duas foram na direção da cozinha improvisada, onde Hermenegilda estava, mas não havia sinais de Tewdric. Ash imaginou que ele deveria ter ido mandar a carta, mas vendo a irmã mais animada, pensou que talvez nem fosse mais necessário. Kassyeh conversou brevemente com a trollesa, que lhe cedeu a farinha que tinha sobrado. A maga se pôs a fazer o pão, enquanto conversava animadamente. Quando o cheiro do pão sendo feito começou a se espalhar, todos se aproximaram para pegar um pouco. Hermenegilda riu disso.

— Não adianta, esse povo sempre prefere o seu pão, Kassyeh. — falou a druidesa, piscando o olho.

Kassyeh, todavia, estava pálida novamente. Sob o olha preocupado de sua irmã, ela cambaleou, afastando-se do forno o mais que pode e depois vomitou toda a poção. Ash correu para ampará-la.

— Kass! — ela exclamou, apoiando a irmã.

Sem falar nada, Kassyeh continuou vomitando até não ter mais nada em seu estômago. Depois, simplesmente começou a chorar. Hermenegilda logo se juntou a Ash e a ajudou a levar Kassyeh de volta para a cabana. A elfa não apresentou resistência e apenas deixou-se levar. Quando ela parecia mais calma, Ash falou, com seriedade:

— Você não está melhor, Kass.

A maga nada respondeu.

— Tua irmã tá certa, Kass. — concordou Hermenegilda – Eu costumo ser a pessoa que manda os outros juntar os pedaços e ir lutar, mas não é o caso aqui. Tu tá doente. Tem que entender isso.

Ash viu a irmã apenas permanecer calada. A vontade dela era gritar com a irmã, mandá-la deixar de ser tão cabeça dura e sair logo dali! Queria gritar que nem ela, nem Tewdric conseguiriam mantê-la a salvo se ela insistisse em lutar! E, naquele momento, Ash decidiu que, se sua irmã não saísse dali por livre e espontânea vontade, ela a arrastaria sem dó nem piedade para bem longe.

Um pequeno sino tocou enquanto Ash ainda lidava com sua frustração. O sino era o sinal que alguém queria falar com Kassyeh ou Tewdric, colocado estrategicamente na entrada da tenda. Como sua irmã continuou calada, Ash perguntou:

— Quem é?

— Sou eu, Halduron. — respondeu o general-patrulheiro – A princesa Kassyeh tem correspondência.

— Entre. — sussurrou Kassyeh quase inaudível.

— Pode entrar, Halduron. — permitiu Ash, pois dificilmente Halduron ouvira o sussurro.

Quando o elfo entrou, arqueou levemente as sobrancelhas diante da cena de Kassyeh deitada enquanto Ash, com uma expressão irritada, e Hermenegilda, preocupada, fitavam a princesa acamada.

— Vou fazer outro tipo de elixir. — disse a druidesa mais para Ash que para Kassyeh – Não demoro. — e saiu da tenda.

Halduron se aproximou de Kassyeh, que se sentara na cama com alguma dificuldade, e estendeu a carta. Quando viu o remetente, Kassyeh abriu um sorriso.

— É uma carta de Rukiah! — falou com um pouco mais de animação.

Ash fez um esforço par anão trocar olhares com Halduron. Parece que o plano de Tewdric estava em ação.

— Quer que a deixemos a sós, princesa? — perguntou Halduron.

— Não precisa. — respondeu Kassyeh abrindo a carta – Vou ler e responder a carta dela em seguida. Aí você pode levar minha resposta ao correio mágico.

Com um sorriso, Kassyeh começou a leitura. Porém, a medida de progredia na carta, seu sorriso foi esmaecendo até que a elfa tinha uma expressão aborrecida e um pouco frustrada. Terminou de ler a carta e a colocou de lado.

— Princesa? — chamou Halduron.

— Eu… Vou descansar um pouco antes de responder. — disse Kassyeh transparecendo novamente o cansaço. Vocês poderiam me deixar a sós?

Ash não queria e já estava preparando sua contestação quando cruzou com o olhar de Halduron, que negou com a cabeça, discretamente.

— Se precisar de alguma coisa, princesa, é só chamar. — falou Halduron fazendo uma mensura.

— Eu venho já verificar você. — foi o que Ash disse antes de sair, acompanhada pelo general patrulheiro.

Eles não falaram nada sobre a carta de Kassyeh ou a situação. Apenas ficaram por perto, enquanto faziam uma ou outra coisa para os demais integrantes do acampamento. Algum tempo depois, Hermenegilda entrou na tenda de Kassyeh com um novo elixir e, quando saiu, sugeriu que ambos esperassem ela acordar. O humor da elfa tinha mudado drasticamente, e ela estava deprimida e não zangada. A contragosto, Ash aceitou.

Pouco tempo depois, Tewdric chegou. Em vez de ir para tenda, foi direto aonde Halduron e Ash consertavam arcos, embaixo de uma tenda, que os protegia do sol.

— Kass recebeu a carta de Rukiah. — foi logo falando Ash.

— Foi mais rápido que eu pensava. — disse Tewdric, satisfeito.

— O que você pediu para Rukiah falar pra ela? — quis saber a jovem princesa.

— Eu fui honesto: expliquei a situação e disse que precisava tirar Kassyeh daqui. Não importava o que ela fizesse, só queria que minha Kass saísse daqui e descobríssemos o que ela tem.

— Não teria sido melhor pedir que essa pandarena criasse uma narrativa mais… verossímil? — questionou Halduron.

— Talvez, mas não queria pedir pra Rukiah mentir pra Kass. Então, deixei isso com ela. — Tewdric olhou para a barraca – Ela passou mal de novo?

Ash fez que sim e contou o acontecimento da manhã. Tewdric ouviu com uma expressão preocupado e assentiu com a cabeça.

— Vou vê-la agora. — anunciou ele – E veremos o que foi que Rukiah falou.

O orc marchou até a tenda, afastou o pano que cobria a entrada e entrou. Ash e Halduron continuaram olhando para lá, como se aguardassem que o orc saísse correndo a qualquer momento, mas isso não aconteceu. Então, os dois voltaram sua atenção para sua atividade. Porém, não demorou muito que o orc se juntasse aos dois novamente, dessa vez com um grande sorriso no rosto. Ao ver a expressão de seu cunhado, o coração de Ash bateu ansiosamente.

— Ei, Hal! — foi dizendo ele – Pode arrumar a trouxinha! Você vai pro Vale dos Quatro Ventos!

— Graças a Nascente do Sol! — exclamou Ash com o peso sendo tirado de seu peito – Como Rukiah a convenceu?

— Não faço ideia! — Tewdric de uma risada, ao admitir – Só sei que minha Kass vai sair daqui e vamos descobrir o que ela tem!

— Eu gostaria de ir com ela… — admitiu Ash – Mas sei que Grito Infernal não ficará feliz se chegar aqui e não encontrar nenhuma de nós.

O sorriso de Tewdric morreu.

— Por mim, nenhuma de vocês estaria aqui, mas depois de Theramore…. — ele sacudiu a cabeça – Com Kassyeh no Vale dos Quatro Ventos, será mais fácil pra eu manter apenas uma de vocês segura quando o desembarque acontecer.

— Eu consigo me manter segura sozinha! — protestou Ash franzindo o cenho – Você não precisa se preocupar comigo!

— É claro que vou me preocupar com você, Ashzinha. Sei que você vai mandar muito Aliança pra Luz deles, mas quero garantir que nenhum vai machucar você.

Sabendo que não adiantaria reclamar com o orc, Ash apenas revirou os olhos.

— Bem, vou arrumar meus pertences. — falou Halduron levantando-se e deixando um arco já pronto no chão – Garantirei que a princesa chegue até o vale e encontre Rukiah. Onde o encontro vai acontecer?

— Na taverna ???. — respondeu Tewdric.

— Certo, farei de tudo para partirmos o mais rápido possível.

Halduron acenou com a cabeça e saiu. Ash encarou Tewdric, sentindo-se apreensiva.

— Será que o que a Kass tem é grave? — perguntou, preocupada.

— Vamos torcer para não ser, Ashzinha. Tudo que podíamos fazer, nós fizemos. — ele deu uma tapinha na cabeça dela – Venha, vamos ajudar a Kass a ajeitar as coisas. Ela quer ver você, acha que a magoou.

— Ela sempre acha que magoou alguém… — murmurou Ash, mas estava mais aliviada.

O que quer que acontecesse no Vale dos Quatro Ventos estava agora além de seu alcance.

***************

— Precisamos conversar.

Luxuriah levantou a cabeça lentamente e olhou para Karen, com a expressão exausta. O dia tinha sido muito difícil para a elfa. Ou melhor, sua filha tinha sido muito difícil. Tinuviel estava na fase de dizer não e se opor a tudo que a mãe pedia. Era complicado conseguir que a menina fizesse qualquer coisa. Se não fosse Rommath, Luxuriah tinha certeza que já teria enlouquecido. Naquele momento, estava aproveitando um breve momento de paz, enquanto o marido colocava a pequena para dormir.

Quando ouviu a frase da irmã, Luxuriah quase gemeu de desânimo. Se ajeitou na poltrona e encarou a irmã, que estava de pé, ereta como se estivesse se preparando para discursar.

— O que você fez, Karen? — perguntou, abatida.

— Eu não fiz nada. — falou a jovem na defensiva – Bem, não fiz nada de errado. — enfatizou – Mas vou precisar fazer algo e…

— Espere. — Luxuriah levantou a mão e Karen parou de falar – Sinto que preciso beber algo para continuar essa conversa… — e fez um gesto para uma serva, que prontamente trouxe vinho. — Agora sente, você aí parada está me deixando agoniada.

Karen sentou-se, mas não relaxou. Estava quase na beira da poltrona, inclinada para a frente e mal conseguia conter a ansiedade. O estômago de Luxuriah apertou-se. O que quer que a irmã fosse falar, parecia sério. Em contrapartida, Karen não queria ter aquela conversa com a irmã. Sabia exatamente que Luxuriah não estava em seus melhores dias, que Tinuviel não estava facilitando para a mãe e que ela ia apenas jogar mais um peso na vida de sua irmã. Pensou em desistir de falar, mas não podia. Deveria atender ao chamado de Grito Infernal em breve e, se queria ser uma rainha de verdade, não podia ter medo de ter conversas sérias.

Depois que Luxuriah se serviu de vinho e tomou um longo gole, ela respirou fundo e olhou para a irmã mais jovem.

— Vá em frente. — disse com um aceno de mão.

— Você não vai gostar do que eu tenho para falar. — falou Karen com sinceridade.

— É, eu já imaginava por sua cara. — confessou Luxuriah – É pessoal ou é relacionado à coroa? — quis saber a mais velha.

— Da coroa. — Karen respondeu prontamente.

De alguma forma, aquilo não a deixava menos preocupada com que a irmã tinha a dizer. Apenas acenou com a cabeça para que Karen continuasse.

— O Chefe Guerreiro planeja um desembarque em Pandaria. — começou a jovem rainha.

— Sim, eu sei. Estou esperando a convocação dele. — Luxuriah deu de ombros – Ele com certeza vai querer sacanear com a gente porque não fomos para Theramore.

— Bem, a convocação já chegou. — esclareceu Karen – Mas a convocada fui eu.

Karen esperava a explosão de raiva da irmã, mas Luxuriah piscou, como se não tivesse entendido o que a outra falara. Depois, colocou o copo na mesa e se inclinou para frente e perguntou, calmamente.

— Ele o quê?

— Ele me convocou. Eu tenho que ir liderando os elfos sangrentos durante essa investida.

— Ah, mas nem fudendo! — a explosão finalmente veio.

Enquanto Luxuriah se levantava em um arrobo de fúria e começava a praguejar contra Garrosh Grito Infernal. Karen suspirou e olhou para trás. Lor’themar esperava na sala ao lado, já sabendo da convocação da rainha e estava apenas a espera que ela contasse à irmã para então participar da conversa. Aquele tinha sido um pedido d apropria rainha, quando o antigo lorde regente havia se oferecido para contar sobre a convocação. Afinal, acreditava que era sua responsabilidade informar a Luxuriah sobre o que estava prestes a acontecer. A Lor’themar, pediu apenas que ficasse a postos.

— Lux… — começou Karen calmamente.

— Sem essa de “Lux”! — cortou a outra – Sei o que você vai dizer sei o que ELE vai dizer. — falou apontando para Lor’themar – Mas eu não vou deixar você ir nessa incursão.

— Acredito que isso não é uma opção viável. — alertou a mais jovem – O Chefe Guerreiro foi bem claro que me quer lá.

— E eu vou dizer carinhosamente a ele que você não vai para lugar nenhum! — Luxuriah andava de um lugar para o outro, furiosa – Você nem atingiu a maturidade ainda! Pela Nascente, você não tem força nem para erguer uma espada de suas mãos!

— Eu tenho sim! — visivelmente ofendida, a rainha argumentou – Não é porque não parece que eu possa segurar que eu não consiga!

A discussão acabou indo para um terreno totalmente diferente do pretendido, mas Lor’themar continuou impassível, assistindo as irmãs discutirem. Karen estava centrada até Luxuriah tocar no sensível ponto de sua composição física e agora pareciam até ter esquecido do chefe guerreio. Ele desejou ardentemente que Ash estivesse ali.

Para o alívio do lorde regente, não demorou muito para Karen recuperar a compostura e parar de discutir com a irmã. Deixou que Luxuriah continuasse a extravasar sua raiva e quando ela se acalmou, Karen retomou o assunto:

— Lux, eu tenho que ir. Nós duas sabemos que, na situação atual, não podemos nos dar ao luxo de ir contra Garrosh. Até a tia Syl tem andado cautelosa em relação a ele. Na verdade… — a voz da menina ficou mais baixa – Não duvido que ele fique sabendo dessa conversa em algum momento…

Espionagem entre as facções e até mesmo entre os povos aliados eram comuns. O lado racional de Luxuriah sabia que a irmã estava certa, mas custava a admitir. Ficou calada um tempo e depois voltou a se sentar. Encarou Karen e então falou, num tom derrotado.

— Se você tem que ir, irá. — e antes que a irmã pudesse dizer qualquer coisa, completou – Mas eu irei também.

— Não creio que isso seja prudente.

A fala de Lor’themar pegou as irmãs de surpresa. Em sua acalorada conversa, até tinham esquecido do elfo por um momento e sua colocação causou estranheza em ambas.

— Como assim Temma? — perguntou Karen, externando a confusão que Luxuriah também sentia.

— Kassyeh e Ash já estão em Pandaria. — lembrou-lhes o elfo – A rainha, como já foi dito, tem a obrigação de ir. Se Luxuriah também for, o trono de Luaprata ficará vazio. Isso é algo que não deve acontecer.

— Você pode ficar como regente novamente. — lembrou-lhe Karen – É algo que você já fez antes.

— Eu preferiria evitar tal situação.

Luxuriah se levantou, sem dizer nada, e caminhou até onde Lor’themar permanecia em pé. Ela o encarou por um momento e então perguntou, inclinando o corpo para a frente e falando, com o rosto bem próximo ao dele:

— Você tem certeza que quer me colocar no trono de Luaprata, Lor’themar? Nem que seja por um período curto? — e sorrindo, acrescentou – Tem muita coisa que eu gostaria de fazer e um pouco de poder seria muito bem-vindo.

Um calafrio percorreu a coluna de Lor’themar, que fechou os olhos por um momento e depois suspirou, antes de dizer por fim.

— Terei prazer em ficar como regente enquanto as princesas e a rainha estão fora. — resignou-se a falar.

Luxuriah sorriu. Lor’themar teve a impressão de ter deixado-a um pouco desapontada.

— Ótimo! — exclamou Karen se levantando – Está tudo decidido, então vamos começar os preparativos para a viagem! Vamos, Temma! A Lux precisa descansar um pouco, a Titi estava elétrica que nem uma moreia d emana hoje! — e dizendo isso, saiu porta afora, como um furacão.

Lor’themar e Luxuriah se encararam mais uma vez, antes do lorde regente fazer uma mensura com a cabeça e sair, seguindo a rainha, O sorriso de Luxuriah morreu e ela desabou no sofá, sem energias para continuar com raiva. Respirou fundo e apoiou a cabeça no encosto, sentindo um misto de apreensão e tristeza.

Tinuviel ficaria bem triste ao saber que a mãe viajaria mais uma vez.

*************

Pandora esperava ansiosamente enquanto Anduin terminava seus preparativos. O rapaz se sentia um pouco pressionado, pois a jovem o rodeava, como se o pedisse pra ele se apressar, mesmo sem nada falar. Era um pouco constrangedor, mas o príncipe preferiu permanecer em silêncio, pois não queria estragar o bom humor de Pandora.

Desde que Lina anunciara que os dois sairiam dali, havia um conflito dentro de Anduin. Ele queria ficar, encontrar seu pai e rever as pessoas da AVIN que tanto procuraram por ele em Pandaria. Porém, sabia que sair dali era melhor para todos, pois sua presença poderia distrair Lina ou seu pai durante a batalha que, com certeza, aconteceria no momento em que a Aliança colocasse os pés nas praias da Selva de Krasarang. Com Anduin longe, a general e o rei poderiam focar na luta e não em sua segurança.

— Com essa sua cara, vou pensar que você não quer minha companhia. — brincou Pandora. A jovem reparara em sua expressão e tentava animá-lo, provocando-o.

Anduin suspirou e parou momentaneamente a arrumação.

— Eu não queria ir, mas sei que preciso. — confessou.

— Pense da seguinte forma: se você for, poderá conhecer mais dessas terras sem nenhuma babá te enchendo o saco. — sugeriu Pandora.

— Bem, você é meio que uma babá. — Anduin falou, se sentindo a vontade o suficiente para devolver a provocação de Pandora, que apenas riu diante do comentário do príncipe.

— Tenha certeza que EU não vou encher seu saco. — enfatizou ela.

Anduin riu também.

— Ok. — disse retomando a arrumação e guardando o último livro – Estou pronto.

Os dois saíram da barraca do príncipe e suas mornarias estavam esperando. Para a surpresa dos dois, Lina não estava lá para ver sua partida, mas sim Vincent, que sorriu largamente quando viu os dois.

— Onde está Lina? — quis saber Anduin, procurando ao redor.

— Ela está resolvendo um problema. — justificou o paladino – Mas deseja boa viagem aos dois e advertiu para que vocês não façam nada perigoso.

— Ela devia ter especificado a que tipo de perigo ela estava se referindo. — falou Pandora em tom de riso.

— Vocês são espertos, vão ficar bem. — Vincent falou confiante – Mantenha a cabeça no lugar e a Luz no coração e nada de ruim vai acontecer.

— Obrigado, irmão Vincent. — agradeceu Anduin.

— Valeu tio Vin. — Pandora o abraçou fortemente, ou pelo menos tentou abraçá-lo, mas só conseguia sentir as placas de metal de sua armadura.

— Boa viagem aos dois, rezarei por sua segurança. — falou o paladino após retribuir o abraço de Pandora.

Quando as serpentes das nuvens subiram aos céus, o paladino acenou até que Anduin e Pandora ficassem fora de vista. Os ventos estavam calmos e as horas de voo foram tranquilos. O clima estava tão agradável e seguro que eles preferiram estender um pouco mais do voo para que pudessem acampar já no Vale dos Quatro ventos, onde havia menos riscos de encontrarem com mogus e saurogs. Tão logo o sol nasceu, eles seguiram para a Meia Colina.

A Meia Colina era um lugar já conhecido tanto por Anduin quanto por Pandora. Eles já haviam estado brevemente no local antes e sabiam que, se havia um local onde poderiam ficar em segurança enquanto esperavam o desenrolar dos acontecimentos, era ali. Apesar de serem lavradores, os pandarens da Meia Colina não deixavam a desejar quando o assunto era proteger seu lar; muitos haviam, inclusive sido monges em outros tempos, mas agora levavam a vida sossegada no campo. Ninguém, Horda ou Aliança, ousavam levantar um dedo sequer contra qualquer um naquele lugar.

Da mesma forma que quando estavam no Monte Kun-Lai, Anduin não usava suas roupas de príncipe. Ainda que as vestes fossem de boa qualidade, se assemelhavam mais as usadas por Pandora, ou seja, pessoas que não era nobreza, mas também não era pobre. Um meio termo que deixou o príncipe bem confortável, pois evitava olhares e comentários, além, claro de mantê-lo seguro. De fato, era algo que ele teria feito, mesmo que não tivesse sido exigência de Lina. Também decidiram manter a mentira que o jovem era primo de Pandora.

— Acho que vou te chamar de Amendoim. — gracejou Pandora enquanto soltavam os arreios das Serpentes das Nuvens para que elas voassem livres enquanto se hospedavam ali – Sabe, minha família tem toda nomes estranhos, de comida ou bebida… Acho que minha avó convenceria alguém a dar o nome do filho de Amendoim.

— Não seria um problema se não fosse parecido demais com meu nome, não é? — indagou, entrando na brincadeira.

— Tem razão. — Pandora estava se segurando para não gargalhar – Talvez eu apenas te chame de primo.

— Um primo chamado Primo? Parece algo da família Wood. — ponderou Anduin.

— Ah, mas eu tenho um primo chamado Primus. — ela não conseguiu mais segurar a risada – Certo, se alguém perguntar, seu nome é Andy. Que tal?

— Andy... Gostei. — resolveu o príncipe.

— Ótimo. Pois ande rápido, primo Andy, que estou com sede e com fome.

— Certo, prima pãozinho.

Pandora fez uma careta e deu uma tapinha no braço de Anduin. Aquela camaradagem fazia o jovem príncipe se sentir realmente da família dela. Não exatamente da família grande que morava na fazenda, mas da família que Lina construíra com seus irmãos em Ventobravo, menor, mas tão unida e barulhenta quanto a outra. Por isso não foi difícil se sentir nesse lugar de primo, assumir o papel que haviam lhe designado.

A Meia Colina era barulhenta e com um tráfego constante de pessoas de todos os tipos. Apesar da predominância de pandarens, logo Anduin e Pandora viram alguns anões e elfos noturnos que encaravam uma dupla de trolls. Apesar da troca de olhares, cada grupo seguiu seu caminho, sem nenhuma palavra ter sido trocada. Aquilo os deixou infinitamente mais calmos e entraram na taverna principal, onde pretendiam comer algo e também se hospedarem.

— Bem-vindo ao Nabo Preguiçoso — disse uma pandarena com um grande sorriso no rosto quando eles entraram – Meu nome é Lei Lan e vocês podem fazer os pedidos a mim.

— Obrigada. — agradeceu Pandora olhando ao redor – Tem uma mesa mais reservada, por favor? Estamos cansados e queremos ficar longe de qualquer confusão.

— Ah, não existe confusão aqui na Meia Colina. — garantiu a pandarena – O último que tentou lutar foi chutado tão forte que deve ter aterrizado na Selva de Krasarang! — a pandarena riu da própria piada – Mas sei que vocês humanos são tímidos, então tenho a mesa ideal pra os dois.

Acima do salão principal, havia um espaço com poucas mesas, de onde se podia ver a entrada da taverna, mas uma pilastra impedia que fosse visto de lá. Esse local ficava em oposição ao corredor que levava para os quartos, então a menos que alguém estivesse saindo do alojamento, não só veria com facilidade. Pandora e Anduin adoraram aquele lugar e logo que sentaram pediram comida (muita comida, porque Anduin estava morrendo de fome e comia tanto quanto um orc, mas Pandora não diria isso em respeito a Tewdric). Depois, eles pediram uma cerveja suave, sem álcool, do tipo que as crianças pandarens bebiam. Lei Lan ficou muito satisfeito com os pedidos deles e saiu prontamente para providenciar assim que terminaram de falar.

— É tão bom sentar numa cadeira e encostar as costas! — exclamou Pandora se espreguiçando – Acho que vou choraminga pra tia Lina me dar uma cela completa, com apoio traseiro!

— Acho uma ótima ideia. — Anduin estalava o pescoço – Se é para ficar muito tempo no ar, que seja de forma confortável.

— Depois que aprendi a voar, cavalgar se tornou enfadonho e perigosamente desnecessário. — Pandora sacudiu a cabeça – Se eu fosse maga, não dava mais um passo sequer, apenas me teleportava!

Anduin a acompanhou na risada e depois fizeram um breve silêncio, enquanto olhavam par ao salão abaixo deles.

— Será que encontraremos muitas pessoas da Horda aqui? — perguntou Anduin, pensativo.

— Provavelmente. — a jovem soou despreocupada.

— Eu queria ter sua coragem. — admitiu o rapaz – Não me preocupar com um ataque, nem em ser pego na surdina.

— Você não tem que ter medo aqui. Primeiro, ninguém quer enfrentar esses caras desnecessariamente. — ela apontou com o queixo para um pandaren tão grande que faria muitos orcs parecerem baixinhos – E segundo, e mais importante, você está comigo. Está seguro.

— Com certeza. Ainda me lembro a força do seu punho na minha barriga. — e Anduin fez uma careta, massageando o local.

Em vez de se sentir constrangida, Pandora deu uma gargalhada. Anduin riu também e ainda estavam rindo quando o taverneiro chegou com as bebidas e a comida. Então, o silêncio se fez. Estavam tão famintos e sedentos que nenhuma palavra foi trocada durante a refeição. Ouvia-se apenas o tilintar dos talheres, as batidas ocas dos copos na mesa e o burburinho do ambiente. Terminada a refeição, os olhos dos dois estavam pesados de cansaço. Bocejaram.

— Vou falar com Lei Lan. — falou Pandora se levantando e empurrando a cadeira – Precisamos descansar um pouco antes de…

No momento em que Pandora falava, a porta da taverna se abriu e um vento fresco entrou. O olhar da jovem foi automaticamente para lá e ela abruptamente parou de falar quando viu duas figuras entrando juntas no local. Uma delas estava de costas, mas era visível que era feminina. Foi a figura masculina que estava bem visível que fez Pandora perder a fala. Rapidamente, a jovem se sentou e puxou o capuz sobre sua cabeça. Não queria ser vista.

— O que foi? — perguntou Anduin olhando rapidamente para porta.

A cor fugiu do rosto do jovem. Era o elfo que eles encontraram no Monte Kun-Lai. Ele também puxou novamente o capuz sobre a cabeça.

— O que será que ele veio fazer aqui? — perguntou o príncipe, angustiado – Será que está em busca das tabuletas que pegamos?

As tabuletas eram a última coisa que passava na mente de Pandora. Estava esperançosa de ver Halduron, é claro, e aquele era um dos motivos pelo qual estava se aventurando. Só que não estava preparada para vê-lo. Fora pega de surpresa, e agora a comida estava querendo voltar pela sua garganta enquanto suas pernas tremiam. Como aquele elfo conseguia ter esse feito nela?!

— Pandora? — chamou Anduin, preocupado.

“Acalme-se, Pandora!”, exigia ela de se mesma. “Você tem que se acalmar! Anduin está contanto com você para que ninguém o reconheça. Se concentre!”

Respirando fundo, Pandora ergueu-se mais para olhá-lo. Só então percebeu a presença da figura feminina ao lado de Halduron. No primeiro momento, uma raiva borbulhou dentro dela e teve vontade de pegar o arco e furar aquelazinha. Porém, logo os movimentos da elfa lhe pareceram de alguma forma familiar. E então, quando ela baixou o capuz e revelou a face, Pandora ficou tão surpresa que não conseguiu conter sua voz.

— Kassyeh?!

****************

Fazia dias que Kassyeh não se sentia como ela mesma, e isso nada tinha a ver com sua misteriosa doença. Era verdade que ela se sentia enjoada, não mantinha nada no estômago, mas com isso até lidava bem.

O problema era a raiva.

Kassyeh estava com raiva de tudo e de todos. Quando comia, tinha raiva porque a comida estava estranha em sua boca. A textura lhe incomodava e era um dos motivos de fazê-la vomitar. Aí tinha raiva porque vomitava e aquilo a fazia se sentir fraca, e odiava ser fraca. E claro, tinha raiva da forma como todos a olhavam. Tinha vontade de gritar com Ash, com Halduron, com Hermenegilda e, a Nascente do Sol a ajudasse, tinha vontade de gritar com Tewdric a plenos pulmões.

Aí, sentia raiva de si mesma.

Naquela manhã não fora diferente. A mesma rotina de tomar a poção, sentir-se melhor e a raiva abrandar, colocar tudo para fora e ficar com raiva. Era tão difícil controlar os sentimentos naquele momento, mas se começasse a gritar saberia que ficaria sem voz de tanta frustração que estava dentro de seu peito. Por isso começou a chorar. Chorava e tremia, tendo a impressão que estava perdendo a si mesma.

De volta para seu quarto, ela queria só que todos sumisse! Que parassem de se importar com ela! Porém, receber a carta de Rukiah a fez se sentir imensamente melhor. Até começar a lê-la.

“Querida Kassyeh,

Antes de tudo, quero dizer que as crianças mandam beijo e dizem que estão morrendo de saudades. Quer que você venha logo visitá-las!

Soube que você está na Selva de Krasarang. Muito cuidado aí! A doença do pântano é cruel e pode ceifar muitas vidas se não bem cuidada! Se alguém estiver com sintomas persistentes, traga-o para mim sem falta! E se cuide você também, eu ficaria de coração partido de perder uma amiga tão querida!

Estarei no Vale dos Quatro Ventos por esses dias, tem um pandaren que me prometeu algumas rodadas de bebida e eu aceitei na condição de serem muitas bebidas hahaha.

Será que vai rolar algo mais que bebidas? hihihi

Venha me visitar assim que puder!

Com amor,

Rukiah”

Aquelas palavras gentis fizeram a raiva murchar dentro de Kassyeh como um balão se esvaziando. Por que tanta raiva? Qual o motivo dela? Podia ser aquele lugar? Podia estar tão doente a ponto de sua mente está comprometida? O medo substituiu a raiva e Kassyeh se perguntou se estava tão doente que estava enlouquecendo. Se isso acontecesse, o que seria de suas irmãs? De Tewdric? Ele se culparia eternamente por trazê-la ali. Tinha que ir embora. Tinha que encontrar com Rukiah.

Levantou-se com um pulo, mas ficou muito tonta e se sentou na cama. Respirou fundo, depois levantou com mais calma e começou lentamente a arrumar suas coisas. Foi assim que Tewdric a encontrou, com uma pequena mochila preparada e já vestida para a viagem.

— Quero sair daqui. — foi o que ela disse para seu marido – Esse lugar me adoece.

Tewdric não disse nada. Foi até ela e a abraçou. O abraço quente, o cheiro dele, a segurança que seus braços lhe davam quase a fez começar a sentir raiva de novo, raiva dela mesma por deixá-lo tão preocupado. Não conteve a raiva, mas a transformou em força para o abraço que compartilhava com Tewdric. E podia apertá-lo com toda a raiva que tivesse, sabia que jamais conseguiria machucá-lo.

— Estou feliz que você vai, minha Kass. — murmurou ele, a voz rouca e quente em seu ouvido – Esse lugar está te consumindo…

— Eu não entendo o porquê… — a voz dela embargou-se – Eu sou tão fraca… — e o apertou ainda mais.

— Não, não é. Só está cansada. E não tem problema estar cansada. Não é ruim descansar um pouco.

Os pensamentos de Kassyeh a dizia que não, não era bem assim, mas não prosseguiu. A decisão de ir já estava tomada e argumentar só a fazia se sentir pior.

— Peça para Halduron se preparar. — pediu Kassyeh se afastando a contragosto do marido – Ash precisa ficar para o desembarque. A última coisa que quero é o Chefe Guerreiro no nosso encalço…

— Veja só, você nem saiu daqui e só a perspectiva de sair te fez ficar melhor. — o orc deu uma risada – Agora já sei, selvas pantanosas não combinam com minha Kass.

Ela corou um pouco, amando ser chamada de “minha Kass” novamente. Talvez Tewdric tivesse certo e somente pensar em sair dali a fizesse se sentir melhor.

Não demorou muito para que Halduron estivesse pronto para que levantassem voo. Apesar de o ideal fosse deixarem para viajar no dia seguinte para sair mais cedo, Kassyeh queria ir embora o mais rápido possível. A carta de Rukiah servira como uma chave que mudou virou em sua mente e mudou seu pensamento. Se antes n~]ao cogitava a possibilidade de deixar a Selva, agora queria ir embora o mais rápido possível.

— Assim que chegar no Vale dos quatro ventos, me mande uma carta. — exigiu Ash – Quero ter certeza que você chegou bem.

Kassyeh abraçou a irmã e, em vez de responder, pediu:

— Desculpe-me Ash… Tenho sido uma péssima irmã…

— Claro que não! Você só está doente! — protestou a outra.

Ash não tinha como saber que Kassyeh estava se desculpando pelos sentimentos negativos que nutrira durante todos aqueles dias e preferiu que continuasse assim. Não queria compartilhar aqueles pensamentos com ninguém. Despediu-se de Hermenegilda e seu coração quase parou na hora que Tewdric a beijou e a abraçou novamente.

— Fique bem, minha Kass. — a voz de Tewdric denunciou o medo que o atormentava.

— Ficarei. — garantiu Kassyeh.

Os falcodracos logo os elevaram aos céus e Kassyeh sentiu como se um peso tivesse sido tirado de seus ombros. O vento fresco em seu rosto e a velocidade que sua montaria ia aumentando cada vez mais a fazia se sentir esplêndida. Halduron voava ao seu lado e mesmo em pleno voo podia ver a diferença na expressão do rosto da princesa. Falar com Rukiah fora mesmo uma coisa certa a se fazer.

E o voo dos dois se estendeu noite adentro, mesmo com os esforços de Halduron para que descansassem um pouco. Apenas quando viu que não estava mais na Selva de Krasarang foi que Kassyeh concordou em descansar. Mas eles não armaram acampamento; apena suma fogueira e sacos de dormir. E tão logo o sol pontilhou no céu, Kassyeh o chamou para que voltasse ao caminho.

Chegaram na Meia Colina algum tempo depois, o cansaço entranhando em seus ossos, mas a sensação de felicidade de Kassyeh era sem igual. Ficou de pé no ponto mais alto da meia colina, olhou para toda aquela terra verde e espreguiçou-se, sorrindo.

— É ótimo respirar e não engolir dezenas de inseto no processo. — falou a maga bem-humorada.

— Com certeza é um avanço. — comentou Halduron.

Kassyeh analisou seu rosto um pouco e depois falou:

— Desculpe te arrastar até aqui quase sem descanso. — pediu – Sei que parece exagero da minha parte, mas eu sentia que se não saísse dali, eu ia me despedaçar.

— Não há necessidade de explicação, princesa. — Halduron lhe garantiu – O importante é garantirmos que você fique bem.

— Obrigada.

Não era apenas a preocupação com Kassyeh que fizera Halduron ir até ali. Há dias que o encontro com Pandora não saia de sua cabeça e ele constantemente se perguntava onde a garota estaria naquele momento. Era lógico que aquele local, ainda que lindo, era perigoso para alguém tão temerário quanto Pandora. Ele quase riu consigo mesmo. Como podia pensar nela dessa forma, como se a conhecesse? Só a vira duas vezes, mas sua imagem não desaparecia de sua mente. Ser incumbido da missão de proteger Kassyeh em sua viagem pelo Vale dos Quatro Ventos era uma bem-merecida distração.

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Enquanto caminhavam em direção a taverna, Kassyeh parou num local onde vários pandarens oferecia comida e seu estômago reclamou. Era impressionante a fome que agora a dominava.

— Vamos comer algo aqui? — perguntou Kassyeh.

— Tem certeza que não quer esperar para comer na taverna?

Mas nem precisava de resposta, porque a princesa encarava a comida com tanto desejo que nem esperou ouvi-lo. Pediu uma tigela do caldeirão da pandarena e comeu tão rápido que queimou um pouco a boca. A pandarena riu.

— Sungshin, sua comida deve estar muito melhor que o normal hoje! — riu-se um pandaren ao lado.

— Verdade, Nam. — concordou Sungshin. E entregando uma segunda tigela a Kassyeh, completou – Sinto-me lisonjeada com seu apetite. — e oferecendo uma tigela a Halduron também.

A comida estava realmente ótima, mas Halduron comeu com mais cuidado que Kassyeh, que já repetia a refeição. O general patrulheiro ficou preocupado que ela colocasse tudo para fora poucos instantes depois, mas Kassyeh agradeceu a pandarena e pediu uma das laranjas expostas. Depois, quando terminaram, seguiram novamente para a taverna e o rosto de Kassyeh estava satisfeito e corado, como ele não via a dias.

A taverna do Nabo Preguiçoso não estava muito cheia e os dois elfos foram direto para o taverneiro, ansiosos para reservar seus quartos e descansar. Kassyeh se sentia subitamente muito sonolenta. Foi quando ambos ouviram o nome de Kassyeh ser dito um pouco acima de suas cabeças.

Quando Pandora pronunciou o nome de Kassyeh, no tom que fizera, Aquela palavra dita ter passado facilmente despercebida para ouvidos humanos, mas não para a apurada audição élfica. Rapidamente, as cabeças de Kassyeh e Halduron vivaram na direção da jovem humana. A expressão de Halduron foi de choque e a de Kassyeh foi de puro deleite.

— Pandora! — exclamou a elfa, abrindo um sorriso e começando a andar em sua direção.

Nem passou pela cabeça da princesa que teria que explicar ao seu acompanhante o porquê de conhecer aquela jovem humana e, se tivesse prestado atenção no rosto de Halduron, certamente teria ficado intrigada com a surpresa em seu rosto. A mesma surpresa que veria em Pandora assim que se aproximasse o suficiente.

Anduin, extremamente confuso e sentindo o pânico dominá-lo aos poucos encarava Pandora sem saber o que fazer. A meta deles ali era ficar fora do radar e esperar as coisas se acalmarem na Selva de Krasarang. Agora, tinham uma elfa sangrenta se aproximando deles, alguém que definitivamente era conhecida de Pandora.

“Merda. Merda. Merda. Merda”, era a única coisa que passava pela mente da jovem humana.

— Pandora… — murmurou Anduin à beira do pânico e puxando a manga de sua blusa.

— Confia em mim. — foi tudo que ela conseguiu sussurrar enquanto Kassyeh subia a escada em sua direção.

Mas será que ele deveria realmente confiar nela? Porque, naquele momento, o que deixava o coração de Pandora aos pulos, nada tinha a ver com Anduin ou Aliança. Nem mesmo com a chegada inesperada de Kassyeh. Tudo foi varrido de sua mente enquanto Halduron se aproximava dela.

“Claro que ele conhece a Kassyeh.”, pensou à medida que eles se aproximavam. “Ela é uma princesa! E ele um general! Pela Luz, eu deveria saber…”

Em nenhum momento antes daquele dia Pandora sequer cogitara a ideia que a presença de Kassyeh poderia trazer a presença de Halduron. Quando achava que ele pertencia a Aliança, isso era simplesmente óbvio. Depois de sua descoberta, de que ele era um general da Horda, apenas não associou uma coisa à outra. E agora, vendo a elfa sorrindo e caminhando em sua direção, se perguntou como as coisas sempre acabavam da maneira mais esdruxula possível pra ela.

— É tão bom ver você! — exclamou a elfa assim que chegou no andar de cima, enlaçando a jovem humana em seus braços.

Naquele instante, os pensamentos pessimistas foram expulsos da cabeça de Pandora, que voltou a sentir aquela sensação reconfortante que sentira na primeira vez que abraçara a elfa. Horda ou não, Kassyeh trazia uma sensação de segurança que faltava em muitos lugares pelos quais Pandora transitava. Por isso, aceitou de bom grado do abraço.

Anduin ainda olhava sem entender a cena, se perguntando quem era aquela elfa sangrenta que soara tão íntima de Pandora. E era nítido que a sua confusão era partilhado pelo elfo que a acompanhava.

Halduron queria entender o que estava acontecendo. Foi quando sua mente lhe trouxer ama lembrança: Tewdric havia lhe confidenciado que quando chegara em Pandaria haviam salvado dois jovens humanos. Então… Os jovens eram Pandora e seu primo? Como a Nascente do Sol poderia zombar dele daquela forma?!

Quando o abraço cessou, Kassyeh relanceou a vista para Anduin, que imediatamente baixou o rosto, com medo de ser reconhecido.

— Ora, por um momento achei que fosse Pietro. — comentou a elfa sorrindo.

Foi então que Anduin lembrou do que Pandora lhe contara anteriormente: quando ela e Pietro desembarcaram em Pandaria e se perderam de Anduin, foram ajudados por um casal de uma elfa e um orc que se mostraram bondosos e os trataram com tamanha gentileza que nem nos sonhos mais otimistas de Anduin ele teria imaginado. Aparentemente, aquela era a elfa. Mas onde estaria o orc? Em algum outro lugar dali? Esperava que o orc não fosse Nazgrim.

— Estou atrapalhando algo? — perguntou Kassyeh, agora olhando para Pandora, um pouco envergonhada – Podemos conversar depois, se quiserem ficar sozinhos.

Sem entender porque, o sangue de Halduron ferveu por um momento, ao imaginar que Pandora poderia estar simplesmente namorando e não correndo perigos, como ele supunha. Foi quando lembrou a si mesmo que aquele era o primo dela. Primos namoravam entre os humanos? Ele se perguntou.

Já Pandora, quando entendeu o que Kassyeh acabara de falar, começou a rir. Ela pensava que os dois estavam num encontro! A ideia de tal coisa lhe soava tão absurda que temeu, por um momento, que Kassyeh ficasse chateada com seu riso. Porém, havia um tom de nervosismo no riso dela, ao lembrar que Halduron estava ali. Sua risada parou da mesma forma que sua mente, que não conseguiu mais elaborar uma palavra sequer. Foi quando o príncipe prontamente levantou de sua cadeira.

— Sou primo de Pandora. — disse ele se curvando brevemente, tendo de ser educado, mas sem ser excessivamente formal, para não entregar sua ascendência nobre. — Podem me chamar de…

— Amendoim! — falou Pandora num tom meio estridente – O nome dele é Amendoim Wood.

O rosto de Anduin ficou extremamente vermelho. Não conseguia acreditar que ela colocara a brincadeira dentre os dois em palavras! Aquilo soava tão ridículo que duvidava que alguém, quem quer que fosse, acreditasse.

— Ah, sua família e os nomes estranhos! — a elfa deu um sorriso compreensivo – Ouvi Pietro alar disso. — e se dirigindo a Anduin, perguntou gentilmente — Diga-me, meu jovem, como gostaria de ser chamado? Sei que em sua família há apelidos para lidar com os nomes…. Exóticos.

A elfa soava sinceramente preocupada com os sentimentos de Anduin que, lembrando da postura de Lina quando falavam seu nome verdadeiro, falou num misto de constrangimento e irritação:

— Todos me chamam de Andy, senhora, mas minha prima gosta de me provocar, principalmente quando nossa tia não está por perto.

Halduron arqueou levemente as sobrancelhas. O rapaz falou de uma forma tão polida e formal, que não parecia uma pessoa comum. A desconfiança do elfo estava aumentando, e quando os olhos do rapaz encontrou brevemente os de Halduron, o jovem baixou a cabeça, como se estivesse se escondendo. Aquilo fez o alarme da cabeça de Halduron apitar.

— É um prazer, Andy. — falou Kassyeh, totalmente alheia às desconfianças de Halduron – Eu sou Kassyeh.

Antes que Anduin pudesse retribuir o cumprimento, Halduron falou, em tom sóbrio e formal:

— Princesa Kassyeh de Quel’thalas.

Anduin quase dava um passo para trás. Princesa Kassyeh? Era tudo que ele não precisava encontrar naquela viagem. Imediatamente sua mente apontou pelo menos dez erros que estava comentando ao encontrar alguém de uma posição similar a sua. Apesar de seres de facções rivais, lidar com alguém da realeza, merecia atenção e cuidado. Mesmo não sendo a princesa herdeira, como Anduin o era, a elfa ainda estava numa posição de destaque entre seu povo. Como diabos uma pessoa normal lidar com uma princesa sem cometer uma série de impropérios? Queria desesperadamente a ajuda de Pandora, mas a jovem estava agindo estranho, como se sua cabeça estivesse em outro lugar.

A questão era que, a cabeça de Pandora estava bem ali, tentando assimilar a presença de Halduron bem a sua frente, porém falhando miseravelmente. Era como se sua mente estivesse se recusando a cooperar.

— Não precisa fazer essa cara, Andy. — falou Kassyeh vendo a expressão no rosto dele – Eu sou princesa muito recentemente e nem me sinto tão princesa assim. — ela deu uma risada – Ah, e que cabeça minha! Halduron, essa é Pandora Wood, a jovem humana que eu e Tewdric lhe falamos. E Pandora, — ela olhou para a jovem – esse é Halduron Asaluz, amigo e atualmente guarda-costas! — ela riu – Estamos aqui para encontrar com Rukiah e estou muito feliz que você esteja aqui também!

Kassyeh se calou e ficou olhando de um para o outro como se esperasse algo. Pandora, com a cabeça totalmente sem nenhuma ideia do que falar, simplesmente estendeu a mão para ele. Halduron olhou a mão dela brevemente e percebeu que seus dedos tremiam um pouco. Ela estava com medo dele? Sentindo um aperto na garganta, sentiu à vontade imensa de abraçá-la e garantir que não precisava ter medo. Porém, sabia que devia transmitir aqueles sentimentos através de um aperto de mão, seguro para ambos.

Quando a mão de Halduron, firme, grande e áspera devido à grande experiência com os arcos tocou a sua, o corpo de Pandora estremeceu. E seu cérebro rapidamente voltou a funcionar como se uma explosão tomasse conta dele. O que estava fazendo? Por que demostrar tanta fraqueza? Não, devia ser firme. Por ela, por Anduin. E por Halduron também. Não daria a ele a satisfação de vê-la perdida. Sua mão parou de tremer e apertou a dele com força e vontade, para mostrar que não tinha medo.

— É um prazer conhecê-lo, Halduron. — disse Pandora reencontrando suas palavras e seu equilíbrio, agora o encarando em desafio.

Halduron viu a mudança que se operou nela em minutos e teve que fazer força para não sorrir, satisfeito. Ainda assim, seus lábios arquearam levemente, quase de forma imperceptível.

— É um prazer também, Pandora.

Kassyeh sorriu, satisfeita.

— Esses dias aqui na Meia Colina serão incríveis, concordam? — perguntou ela para todos.

Ninguém ali discordou, mas todos tinham uma visão diferente do que esse “incrível” significaria.

Notas finais
Espero que tenham gostado!!!! Comentem pra eu ver que vcs não desistiram de mim!!!!