Herdeiros da Guerra
42 Capítulo XXVI - A coroação (Parte IV)
Notas iniciais
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Ash quase não se reconheceu quando olhou-se no espelho naquela manhã. Não era apenas uma versão melhorada de si mesma; era definitivamente outra pessoa. E aquela pessoa era, definitivamente, uma princesa.
A carta do Kirin Tor que chegara no dia anterior precipitara as coisas e agora dependia dela a resolução do problema que se avizinhava. Devia impedir o humano de aparecer na coroação. E Vereesa, claro. Karen ter pego a carta no dia anterior os deixara apreensivos, mas no final foi melhor assim. Tewdric descobrira tudo e agora iria ajudá-los com o plano. E havia Grey. A elfa franziu o cenho. Tinha a sensação que aquele elfo ainda causaria muitos problemas. Mas, no momento, tinha que se concentrar em sua missão.
Qual seria a reação do Kirin Tor quando chegasse lá de surpresa? Nem seu tio sabia de sua ida. Era melhor assim pois, quando vissem a surpresa de Aethas, não teriam dúvidas de sua ignorância. Só esperava que seu tio não estivesse com a cara coberta com aquela máscara horrorosa, pois queria que todos vissem sua expressão.
Respirou fundo e tornou a se olhar no espelho. Estava tão linda que nem sua baixa autoestima conseguia convencê-la do contrário. Torceu as mãos nervosamente. Se não se surpreendessem com sua presença, com certeza se surpreenderiam com sua aparência.
Quando foram anunciadas como princesas, ela e as irmãs ganharam muitos presentes. Entre eles, um guarda-roupa completo para cada uma delas, feito por todos os estilistas de Luaprata. E não eram poucos. Ao decidir que iria até Dalaran, seu primeiro pensamento foi ir com algum dos vestidos maravilhosos de sua avó, mas logo mudou de ideia. Prestigiaria os presentes de seu povo naquele momento tão tenso. E para aquela ocasião, escolheu um dos vestidos que mais gostara.
Ele era dourado, mas um dourado discreto. Estava cheio de flores feitas a mão com pequenos diamantes dentro, que davam um brilho modesto e sóbrio. O que mais gostava era que a gola ao redor do pescoço era feita dessas pequenas flores antes de se abrir em um decote coberto por uma renda tão fina que mal era perceptível na pele, até que as flores recomeçavam pouco acima dos seios. As mangas eram curtas, feitas com as flores do corpete e terminavam pouco depois do ombro. Depois a saia, feita da mesma renda do decote, mas com várias camadas sobrepostas, era pontilhada de apenas algumas rosas e se abria em um volume comedido, perfeito para um evento formal durante o dia. Nas costas, fitas prendiam o corselete, ao mesmo tempo que deixavam entrever um pouco da pele alva e delicada da princesa. Optara por uma sapatilha da mesma cor do vestido, pois não sabia quanto tempo ficaria de pé e queria estar confortável. Havia também uma bolsa de mão combinando. Seus cabelos foram penteados e presos em um coque. Mas o toque de sofisticação fora dado com uma trança que arrodeava sua cabeça e fora presa por uma fivela belíssima de ouro e diamante. Era como estar coroada com os próprios cabelos. Para completar o visual, uma discreta maquiagem. Ash ainda se olhava, admirada, quando uma batida na porta a tirou de seus devaneios.
— Entre. — disse sem tirar os olhos de si mesma.
Pelo espelho viu Vivithi entrar acompanhada de Lor’themar. Assim que seu olhar se encontrou com o do elfo, ele estacou parecendo atônito e de boca aberta. Ash então se virou para os recém-chegados.
— Você está muito linda! — falou Vivithi se aproximando – Marko Berthas caprichou nesse vestido hein?
— É, foi um dos que mais gostei. — confessou passando a mão pela saia enquanto Vivithi olhava cada detalhe do vestido – Pensei em guardar para a coroação de Karen, mas Luxuriah encomendou nossos vestidos especialmente para o dia. Então até gostei da oportunidade de usá-lo.
— Adorei o que fizeram com seu cabelo também. — Vivithi tocou levemente a fivela que prendia a trança – Você deu ordens expressas para as servas não comentarem sobre sua arrumação? — quis saber.
— Sim. — Ash ficou com as bochechas rosadas e explicou – Falei que ia sair escondido com Lor’themar e não queria que Luxuriah soubesse. Elas ficaram muito felizes em compartilhar o segredo.
Vivithi deu uma gargalhada.
— Então, titio, o senhor vai ter que sumir essa amanhã. — brincou Vivithi e virou-se para vê-lo.
Lor’themar fechou rapidamente a boca e se aproximou de Ash, afirmando com a cabeça. Parecia ter perdido a capacidade de falar. Ash enrubesceu.
— Nem parece eu, não é mesmo? — perguntou a princesa se olhando mais uma vez no espelho – Tão elegante e bonita…
— É claro que parece! É você! Só que pronta para arrasar o Kirin Tor! — Vivithi deu uma risada – Seu tio vai cair para trás quando te ver!
— E o seu tio, o que acha? — quis saber Ash preocupada com o silêncio de Lor’themar.
Lor’themar tentava achar uma palavra que pudesse descrever o quanto Ash estava linda, mas acreditava que nenhuma palavra na língua thalassiana, na verdade, palavra nenhuma em língua nenhuma, poderia expressar o quão maravilhosa ela estava. Porém, o silêncio também nada revelava, por isso sorriu e disse o que achava mais próximo ao que seus sentimentos diziam naquela hora:
— Eu acho que o Kirin Tor nunca viu e nunca verá outra princesa tão linda em toda a sua existência. — proclamou solenemente.
Ash ficou escarlate e desviou o rosto para o lado. Vivithi caiu na risada novamente.
— Nossa, tio, que eloquente. Mas acho que Ash preferiria ouvir você dizer que tem vontade de rasgar esse vestido e vê-la sem nada.
— Vivithi! — protestou o lorde regente enquanto Ash apenas cobria a boca, querendo sumir diante da fala da elfa.
— Que foi? É verdade! — afirmou a patrulheira.
— Onde estão minhas irmãs? — perguntou Ash querendo desviar daquele assunto.
— Rommath levou Luxuriah e Karen para um passeio logo cedo. — falou Lor’themar querendo esquecer a vontade de dar umas palmadas em sua sobrinha – Disse que não teria uma oportunidade tão boa de visitar o bazar quando Karen fosse coroada. Elas amaram a ideia e foram tomar café da manhã lá mesmo.
— E Kass?
— Fazendo bebê com Tewdric. — quem respondeu foi Vivithi – Ele me disse para não me preocupar que eles passarão o dia todo lá. Ah, e disse que afiou bem o machado. Todos eles.
Talvez não vissem Kassyeh e Tewdric pelos próximos dias, pensou Ash. Esperava que logo tivessem outra grávida em casa.
— Então agora é só esperar Lady Liadrin. — comentou a princesa.
— Ela já está lá em cima, no solário. — revelou Lor’themar – Achamos melhor vocês saírem de lá e não chamarem atenção. Por isso viemos buscá-la.
O estômago de Ash revirou-se. Ainda bem que decidira não comer nada ou já teria vomitado.
— Vamos. — chamou Lor’themar e lhe ofereceu o braço.
Ash pegou a bolsa e aceitou o braço de Lor’themar. Vivithi logo saiu à frente e se distanciou dos dois.
— Eu adoraria que fosse verdade. — ele disse de repente.
— O quê? — perguntou Ash.
— Que iriamos passar o dia todo juntos e que você estivesse tão bela apenas para mim. — ele a olhou de rabo de olho – Eu estaria disposto a me esconder de sua irmã superprotetora e de seu pai orc ciumento apenas para tê-la assim só para mim.
O coração dela se acelerou.
— Ainda podemos fazer isso, não é mesmo? — perguntou esperançosa.
Lor’themar parou um pouco e a encarou. Parecia que ele não havia considerado seriamente a possibilidade antes.
— Tem razão. Podemos. — ele sorriu – Depois da coroação, o que acha?
Ela achava que poderia simplesmente esquecer o Kirin Tor e ir naquele exato momento onde quer que ele a levasse.
— Adoraria. — e sorriu – Onde pretende me levar?
— Onde você quiser ir. — respondeu.
Ash queria ir para a cama dele, mas apenas provocou:
— Surpreenda-me.
Apesar de não querer criar expectativas, Ash achou o sorriso dele bem malicioso. Agora, estava com a esperança renovada que o relacionamento deles poderia deslanchar finalmente. Com esse novo foco, ficava mais fácil encarar o Kirin Tor e trazer logo a paz, para poder então se concentrar em Lor’themar.
Quando chegaram lá no solário, Lady Liadrin os esperava com outros três paladinos. Quando a viu, ela arregalou os olhos para depois exibir um sorriso.
— Ela é bonita demais para você, Lor’themar. — disse provocando o elfo.
— Tanto quanto aquele menino é novo para você, Liadrin. — devolveu o lorde regente sorrindo também.
Em vez de se sentir ofendida, Lady Liadrin apenas riu.
— Princesa Ash. — ela e seus paladinos fizeram reverências quando Ash estava finalmente de frente a eles – Vossa alteza está fabulosa. Terei que ter cuidado para que nenhum humano queira cortejá-la.
Ash franziu o cenho.
— Então acho que eu deveria levar uma arma, não acha?
A matriarca riu ainda mais.
— Sua arma sou eu, princesa Ash. — disse com um brilho selvagem no olhar – Ninguém se atreverá a chegar a menos de três metros de mim. E a essa distância ainda posso acertar qualquer um.
Ash não duvidava que fosse verdade, por isso relaxou.
— Deixe-me apresentá-la a sua escolta hoje. Esses são meus três melhores e mais confiáveis paladinos. Esta é Kazsandra. — disse apontando para uma elfa ruiva com os cabelos presos em um coque que fez uma reverência profunda. — Esta é Tyrigosa. — a elfa de cabelos pretos a reverenciou também – E este é Hobsbawn. — o elfo também tinha cabelos escuros e presos em um rabo de cavalo e fez a reverência profunda sem tirar os olhos dela. Lor’themar ficou visivelmente incomodado.
— Onde está Snetto? — quis saber a princesa.
— Ah, ele vai ficar cuidando de Salandria hoje. — respondeu a matriarca com carinho.
Podiam falar o que fosse da diferença de idade entre Lady Liadrin e seu namorado, mas Ash achava os dois fofos demais. Queria que Lor’themar tivesse metade da iniciativa que Liadrin demostrava em seu relacionamento.
— Estão prontos? — perguntou Vivithi segurando uma pedra roxa na mão – Esse é uma pedra de portal que Rommath deixou. Ela vai abrir um portal até Dalaran. Quando vocês chegarem lá, uma carruagem estará os aguardando. Meus contatos a contrataram.
— Aethas nos esperará na carruagem? — quis saber Lady Liadrin.
— Meu tio não sabe que eu vou. — revelou Ash.
A paladina demonstrou um pouco de surpresa, mas logo se recuperou.
— É melhor assim. — disse. E virando-se para Ash, perguntou – Pronta, princesa?
Ash fez que sim com a cabeça.
Vivithi lançou o cristal ao chão e quando ele se espatifou, um portal para Dalaran se abriu. Os três cavaleiros sangrentos foram os primeiros a passarem, depois a matriarca, e por último, Ash. A jovem olhou rapidamente para Lor’themar que acenou com a cabeça, incentivando-a. A princesa respirou fundo e passou pelo portal.
A visão de Dalaran deixou Ash sem fôlego.
Era sua primeira visita à cidade. Logo que aportou, foi cercada pelos paladinos e conduzida habilmente por Lady Liadrin para fora da torre onde todos chegaram. Uma bela carruagem realmente os esperava, mas Ash só conseguia olhar para os lados, encantada com o lugar. Os prédios, as ruas, até a abóboda a faziam ficar boquiaberta. Estava tão imersa por suas impressões que nem percebeu que ela se tornara o centro de um burburinho que varreu a praça.
— Vamos princesa. — chamou Liadrin suavemente – Nosso compromisso nos espera.
Deixou-se conduzir pela matriarca, sem tirar os olhos das paisagens. Agora entendia porque seu tio amava aquela cidade. Apesar de ser uma cidade construída por humanos, ela tinha um charme que Ash só vira nas construções élficas. Devia ser a influência de seu povo sobre eles, pensou. Afinal, os sin’dorei eram aliados do Kirin Tor há milênios, antes que uma enxurrada de acontecimentos tenham levantado atritos entre os dois povos.
Enquanto Ash era conduzida com sua escolta de paladinos pela cidade, o Kirin Tor finalmente recebia a notícia que uma das princesas de Luaprata estava em Dalaran e solicitava uma audiência. Rhonin ficou muito surpreso, mas não tanto quanto Veressa. A alta elfa fiscalizava constantemente toda e qualquer correspondência de Aethas e não estava sabendo de nenhuma visita. Então, o recado fora passado para o mago através da sua amante (que Vereesa ainda não sabia quem era e estava muito frustrada a esse respeito) ou ele não sabia. A chefe do Pacto de Prata descartou imediatamente a segunda hipótese.
— Há algo por trás disso! — ela exclamou para o marido enquanto caminhavam apressadamente pela Cidadela Violeta em busca de Aethas – Por que uma princesa viria até aqui depois de nosso comunicado? Ela deve vir pedir para seu tio representar o Kirin Tor!
— Vereesa, o próprio Aethas recusou. — falou ponderadamente Rhonin – Não haveria motivos para que ela solicitasse isso.
— Então deve ter vindo nos investigar, saber algo que Aethas não descobriu! — Vereesa bufou – Não estou gostando nada disso!
Rhonin parou de andar abrutadamente e segurou no rosto de sua esposa.
— Não vamos fazer suposições precipitadas. — pediu com delicadeza – Deixe para pensar em algo quando Aethas nos responder porque não nos avisou da vinda da sobrinha.
Vereesa não ficou muito satisfeita com o pedido, mas assentiu.
Aethas estava em sua sala arrumando livros e pensando em Vivithi. Mal podia esperar pelo baile de Jardinova para vê-la em seu novo vestido. Na verdade, ele estava preparando uma verdadeira surpresa para ela. Depois do baile, eles passeariam em sua fera mágica pelos céus da cidade e depois aportariam no pátio do telhado de sua casa. Haveria vinho para os dois e depois fariam amor sob o céu estrelado. A convenceria a ficar um dia a mais, enquanto ele arrumava suas malas para ir a Luaprata. Esperava que a escorregadia elfa aceitasse.
Ainda sorria como um bobo, guardando dois grimórios quando Rhonin entrou seguido por Vereesa pela porta aberta do aposento. Aethas sempre a deixava assim quando arrumava os livros, por causa da poeira. Como seu humor estava excelente, não se incomodou quando os dois adentraram sem pedir autorização e pararam a sua frente.
— Rhonin! Vereesa! — exclamou alegremente – Que surpresa!
— Surpresa foi a nossa ao sabermos da visita de sua sobrinha quando ela já estava na cidade, Aethas. — foi dizendo Vereesa sem dar chance do marido falar.
Por um momento Aethas pensou que tinha ouvido errado. Encarou a elfa, no meio do processo de pôr o grimório na estante e franziu o cenho.
— Como? — perguntou.
— Vamos lá Aethas, você sabe do que estou falando! — protestou Vereesa dando um passo a frente – Qual o motivo que levou sua sobrinha a vir tão repentinamente?
O arquimago olhou para ela e depois para Rhonin, como se esperasse que o humano dissesse que a esposa havia finalmente enlouquecido.
— Ele não sabe. — foi a sentença de Rhonin.
— Não sei o quê? — o bom humor de Aethas começava a escoar de seu peito como água indo para o esgoto – O que tem minhas sobrinhas?
Vereesa o encarava, incrédula. Rhonin tinha razão, Aethas parecia completamente alheio. Mesmo que fosse um exímio ator (e Aethas não era), dificilmente o olhar de alguém que fingia conseguia transmitir aquela confusão e preocupação.
— Uma de suas sobrinhas está na cidade. — revelou por fim o líder do Kirin Tor – E pede uma audiência com o conselho.
Aethas abriu a boca mas a fechou logo em seguida. Depois empurrou o grimório para a estante e depositou o outro na mesa com um estrondo. Foi até a bandeja onde estava sua correspondência e passou a olhar com ansiedade as cartas, na busca de alguma que esclarecesse o que Rhonin acabara de falar. E, claro, não achou nada.
— Deve ser um engano. — ele disse depois de conferir sua mesa – Nenhuma delas me avisou nada sobre uma visita.
— Tem certeza? — perguntou Rhonin.
— Absoluta! — o elfo então colocou a mão sob a boca – Será que algo… — e seus olhos transmitiam um pavor que definitivamente não poderia ser fingido. — Algo aconteceu com Luxuriah. — foi sua conclusão – Preciso ir a Luaprata! — e correu para pegar sua capa.
Rhonin foi até Aethas e colocou a mão em seu ombro. O elfo o encarou.
— Acredito que deva ser algo oficial. — disse o humano calmamente – Se fosse outra coisa, teria ido direto a você e não mandando a notificação para o conselho.
Fazia sentido, então Aethas se acalmou. Vereesa estava perplexa. Aethas realmente não sabia de nada.
— Se a princesa queria ver o conselho, por que te manteve alheio a visita? — indagou a elfa ainda desconfiada.
— Não compreendo… — murmurou Aethas. E depois, quis saber – Qual delas vem? Espere. — cortou antes que Vereesa pudesse falar – Não seria nem Luxuriah, que está grávida, nem Karen, que será coroada… Kassyeh? — perguntou sem acreditar que ela viria sem avisá-lo.
— Princesa Ashrial Fendessol de Quel’thalas. — respondeu Vereesa em tom pejorativo. Seu marido a olhou com repreensão, mas Aethas nem percebeu. Estava chocado demais.
— Ash?! A Ash está vindo?!
Aethas estava prestes a surtar. Se uma delas vir já era chocante, Ash vir era ainda mais. Luxuriah jamais deixaria a jovem sair de suas vistas e, principalmente, ir a Dalaran. O quê, pela Nascente do Sol, o que estava acontecendo?!
Rhonin virou-se para a esposa e arqueou as sobrancelhas. Vereesa entendeu muito bem o que o marido queria dizer com aquela expressão: “viu, eu estava certo. Ele não sabe.” E sim, ela agora tinha certeza que ele realmente não sabia. Aquilo a deixava mais calma, pois não perdera nenhuma informação e também preocupada, porque era óbvio que as princesas de Luaprata sabiam que estavam de olho em seu tio e agora se precaviam sobre isso. Desejava agora não ter sido tão explícita em seu desagrado contra Aethas.
— Sua sobrinha deve ter tido um bom motivo para não avisá-lo. — falou Rhonin tentando acalmar o arquimago – Talvez tenha sido uma decisão de última hora. Venha, vamos recebê-la apropriadamente e ver o que ela tem a dizer, Aethas.
Aquilo aplacou um pouco mais os sentimentos de Aethas. Deixou a capa em cima da mesa e então acompanhou Rhonin e Vereesa. A medida que foi se acalmando, a raiva começou a borbulhar no mago. Olhou para a líder do Pacto de Prata com o canto do olho. Se havia alguma pessoa culpada pelo mal estar entre os magos do Fendessol e o Kirin Tor, esse alguém era Vereesa. Ás vezes se perguntava se Rhonin realmente não percebia o quão manipulado era pela esposa ou se ele simplesmente não se importava em deixar os sin’dorei bem no meio das desavenças. Afinal, que direito ela tinha de indagá-lo sobre uma visita de uma de suas sobrinhas?
A raiva varrera os restos da alegria que Aethas sentira mais cedo.
Quando os três chegaram ao centro da Cidadela Violeta, apenas Modera os esperava.
— Onde estão os outros? — quis saber Rhonin.
— Viajaram à pesquisa, está lembrado? — esclareceu Modera.
— Ah! — exclamou o humano.
“Se fosse eu,” pensou Aethas amargurado “você não esqueceria tão fácil a minha ausência…”
— Aí vem ela. — anunciou Veressa.
Como estava no salão principal, Aethas não viu a luxuosa carruagem parar em frente a escadaria, nem viu quando Lady Liadrin desceu e depois ajudou Ash a descer. Não viu também quando um elfo noturno encarou por tanto tempo a princesa que deu de cara num poste. Nem o gnomo que comia uma maçã e se engasgou ao vê-la. Nem a humana que deu um tapa no namorado quando este assobiou baixinho diante da imagem de Ash.
— Vamos lá, Ashrial. — murmurou a jovem para si mesma sem perceber os olhares abismados em sua direção – Você consegue…
E começou a subir a escadaria, ladeada pela Matriarca dos Cavaleiros Sangrentos e os três melhores paladinos de Luaprata.
Aethas não estava pronto para a visão de sua sobrinha subindo as escadas e entrando na Cidadela Violeta. Na verdade, ninguém no salão estava. Quando Ash surgiu, resplandecente em seu vestido dourado, banhada pela luz cálida da manhã, houve um silêncio carregado de puro espanto. Ash estava nervosa demais para perceber o impacto de sua chegada, mas Lady Liadrin percebeu e deu um leve sorriso.
Quando chegou em frente ao conselho que a aguardava, ficou surpresa. O conselho deveria ter seis pessoas, mas só estavam seu tio, a mulher que devia ser Modera, o humano que devia ser Rhonin e uma elfa, que só podia ser Vereesa. As duas se encararam por um momento, o espanto estampado na face da alta elfa. Ash se perguntava se era por causa da presença de Liadrin. Mal sabia ela que Vereesa tivera um arrepio ao vê-la, pois sua imagem se assemelhava muito a de Lady Luelly em suas aparições.
— Conselho do Kirin Tor, eu os saúdo. – disse Ash com a voz controlada, apesar do nervosismo.
Rhonin piscou, como se tivesse saído de um encanto e pigarreou, antes de responder em meio a uma reverência:
— É uma honra recebê-la, princesa Ashrial Fendessol de Quel’thalas.
Modera imitou Rhonin na reverência, mas Vereesa permaneceu ereta com os olhos presos em Ash, que virou-se para onde estava seu tio e sorriu.
— Desculpe por vir sem avisá-lo, tio. – pediu docemente – Foi uma decisão de última hora.
Aethas sorriu e adiantou-se para a sobrinha, abraçando-a. Se alguém no conselho se incomodou com o gesto, nada falou.
— Estou muito feliz em vê-la, Ash. – falou Aethas apertando a sobrinha contra o peito. Ele não escondia a alegria que sentia – A surpresa foi impactante, mas bem-vinda. – e soltando-a, segurou em suas mãos, antes de perguntar – E suas irmãs, como estão?
— Muito bem. – falou para o alívio do tio – Lux tem reclamado do tamanho da barriga, mas não para quieta. Kass está empenhada em engravidar. – os dois deram risadinhas e a jovem corou um pouco – Karen tem se esforçado nos estudos, apesar de quase enlouquecer Lor’themar todas as manhãs.
— Fico feliz em saber que nada está fora do habitual. – disse com sinceridade – E Tewdric?
— Ansioso para beber uma cerveja com você. – completou piscando o olho.
Lady Liadrin, postada ao lado de Ash com as mãos para trás, não desgrudou seus olhos da princesa até que, curiosa, desviou a vista para Vereesa. A elfa parecia estar se segurando para nada falar, o desgosto estampado na face. A paladina reprimiu a risadinha.
— Princesa Ashrial. – começou Rhonin – Sei que você e seu tio há muito não se veem, mas eu gostaria de indagar a que devemos a honra de sua visita.
Ash soltou as mãos de seu tio e voltou-se para o líder do Kirin Tor. Estar cara a cara com um humano a deixava enojada e suas mãos se crispavam em busca de seu arco. Por isso, cruzou delicadamente as mãos na frente do vestido e procurou demonstrar o ar mais calmo e inocente que podia. Ao contrário da jovem elfa, humano estava extasiado de poder contemplar tamanha beleza e placidez. Por um instante, esqueceu-se que sua esposa estava ao seu lado e deu um sorriso galante para a princesa. Ash apenas repuxou os lábios, num meio sorriso educado.
— Gostaria de uma reunião em particular com o líder do conselho para discutir assuntos referentes à coroação de minha irmã mais jovem. — anunciou Ash solenemente.
Houve um momento de silêncio que logo foi interrompido por Vereesa.
— E o que pode ser tão importante que não pode ser compartilhado pelo resto do conselho? – perguntou sem esconder seu desagrado.
— Ora Vereesa, isso não diz respeito ao Pacto de Prata. – falou inesperadamente Lady Liadrin.
— Não falei com você, matriarca. – retrucou Vereesa.
— Nem a princesa falou com você, general-patrulheira. – devolveu a outra.
— Como responsável pela segurança do conselho, tenho direito a me manifestar. — era óbvio que Vereesa estava tentando se controlar, mas seus olhos diziam muito mais que suas palavras. Havia ódio puro ali.
— Ora Vereesa, acaso acha que a princesa tem uma arma debaixo de suas saias? — falou a paladina apontando o volumoso vestido de Ash.
Os três paladinos da escolta não conseguiram segurar suas risadinhas e aquilo só serviu para piorar o humor de Vereesa. Apertando o arco com força, ela deu um passo a frente e a paladina rapidamente tomou a frente de Ash com a mão no cabo da espada. Modera e Aethas instintivamente deram um passo para trás, enquanto os demais paladinos rodeavam a princesa, que não parecia nenhum pouco abalada com a tensão da sala.
— Acalmem-se, por favor! – pediu Rhonin fazendo um gesto com as mãos – Estamos em uma reunião pacífica!
As duas elfas continuaram se encarando por um tempo, mas nada falaram.
— Tudo bem, Lady Liadrin. — disse Ash calmamente – Acredito que a general-patrulheira não pretenda me atacar.
“Apesar de, obviamente, querer muito.” pensou ela.
Só depois da fala de Ash foi que a matriarca relaxou e tirou a mão do cabo da espada. Rhonin colocou a mão no ombro da esposa, que deu um passo para trás.
— Não temos o conselho completo hoje, por motivos particulares. – falou o mago tentando acalmar os ânimos – Porém, acredito que temos o suficiente para decidir de forma justa. Eu não vejo problemas em uma reunião com a princesa. Sei que não haverá perigo para nenhuma das partes. E os demais membros, concordam com a minha reunião em particular com a princesa Ashrial?
— Não vejo problemas. — Aethas foi o primeiro a dizer.
— Eu tampouco. – respondeu Modera.
— Eu não concordo. – foi logo dizendo Vereesa.
— Você não é do conselho. – retrucou Aethas seriamente.
Vereesa olhou para o arquimago e já ia abrir a boca para respondê-lo quando foi interrompida por Modera:
— Ele está certo, Vereesa. – disse a maga – Se há algo que a coroa de Luaprata quer falar de forma que apenas o líder saiba, acredito que deve ser muito importante. Devo lembrar que, quando a princesa Arshe Fordragon de Ventobravo veio a Dalaran e pediu para falar a sós com Aethas, nenhum de nós se opôs.
Ash ficou tão surpresa com o bom senso da humana que imediatamente quis que fosse ela a representante do Kirin Tor na coroação de Karen.
Lady Liadrin estava se divertindo mais do que imaginava naquele curto espaço de tempo em Dalaran. Para melhorar, só se pudesse quebrar a cara de Vereesa sem isso resultar em uma guerra. Quase desejou que ela tivesse dado mais um passo, só mais um, em direção a Ash para que sua lâmina saísse da bainha. Porém, aquele não era o motivo da visita e precisava garantir que a reunião acontecesse e que acontecesse o mais breve possível. Luxuriah não seria entretida por muito tempo.
— Tenho uma sugestão. – falou a paladina – Permite-me, princesa?
— Fale, Lady Liadrin. – autorizou Ash.
— Eu e a arquimaga Modera podemos ficar do lado de fora da sala de reuniões, a postos para quaisquer eventualidades. O que acha, senhora arquimaga? – perguntou olhando a humana.
— Por mim, tudo bem.
E olharam para Rhonin, em busca de respostas.
Rhonin sabia que sua atitude deixaria sua esposa chateada, mas o que estava em jogo ali era algo maior que os ressentimentos de Vereesa e do Pacto de Prata. Por isso, decidiu conversar com Ash.
— Pois bem, está decido. Acompanha-me, princesa? — e fez um gesto em direção às escadas.
Ash concordou com a cabeça e seguiu o humano. Lady Liadrin e Modera os acompanharam.
Antes que saíssem do salão, no momento em que Lady Liadrin passou por uma furiosa Vereesa, esta não se segurou e falou em alto e bom tom:
— Pensei que os Cavaleiros Sangrentos tivessem renegado a Casa Andassol.
Lady Liadrin virou-se e a encarou.
— E renegamos. – respondeu calmamente – Agora servimos a Casa Fendessol.
Vereesa não soube o que dizer.
Ao chegarem na sala de reuniões, um piso acima da entrada da Cidadela Violeta, Liadrin e Modera ficaram de fora quando as portas foram fechadas. Assim que estavam sozinhas, a arquimaga comentou:
— Confesso que sempre achei que Vereesa fosse a elfa mais bonita que eu já tinha visto. Estava enganada.
Lady Liadrin ficou surpresa com a receptividade da humana, mas deu uma risada.
— A princesa Ashrial é uma obra de arte da Nascente do Sol, sem dúvida. Suas irmãs também não ficam atrás.
— Parece-me também que a princesa é bem determinada.
A matriarca se perguntou se a humana estava apenas jogando conversa fora ou se queria informações.
— Novamente, todas elas são. Porém, a futura rainha é, de longe, a mais determinada. Muito jovem, mas com um espírito implacável. — se ia dar informações, que fossem aquelas onde seu povo se beneficiaria.
— É estranho que seja a irmã mais jovem a herdar o trono. — continuou Modera – Aethas nunca disse o porquê da decisão. A meu ver, a princesa Ashrial tem porte de rainha.
— Foi algo decidido entre elas. — foi tudo o que disse.
Modera percebeu a resistência de Liadrin, mas não ficou chateada, muito pelo contrário. A paladina nem precisava falar com ela, mas o fazia com polidez. E foi por se sentir a vontade ao lado da elfa, que acabou falando:
— Aqui entre nós, eu entendo o nervosismo de Vereesa em permitir essa reunião. — e diante do olhar cauteloso de Liadrin, completou com um sorriso – Eu também não ficaria confortável em ver meu marido a sós com uma mulher muito mais bonita que eu, principalmente quando ele estava praticamente babando por ela.
A matriarca soltou uma risada e foi acompanhada pela maga.
— Ah, ela não precisa se preocupar. — disse – Diferente da general-patrulheira, a princesa gosta de elfos. De um elfo bem específico e mais velho do que qualquer humano jamais será. — e não falou mais nada, deixando Modera morrendo de curiosidade, mas sem coragem de perguntar mais nada.
Enquanto paladina e maga trocavam palavras amistosas, dentro da sala Rhonin fez um gesto para que Ash sentasse e depois ele próprio se acomodou. Apesar do que Modera falara lá fora e apesar de achar Ash muito bonita, o arquimago já havia se recuperado do choque inicial e agora a tratava com a educação e profissionalismo que sua posição exigia. Ao contrário dele, Ash lutava contra a vontade de cuspir na cara daquele humano. Fechou as mãos sobre a saia e evocou a imagem de Luxuriah em sua mente. Era por ela que estava ali.
— Então, princesa Ashrial, o que posso fazer por você? — perguntou Rhonin.
— Recebemos a carta do Kirin Tor informando os enviados para a coroação de minha irmã. — começou – E temos algumas considerações a fazer sobre isso.
Aquela fala não foi surpresa para Rhonin, mas foi um pouco decepcionante. Vereesa estava certa afinal: ela ia pedir para o tio representar o Kirin Tor.
— Vossa alteza, quero esclarecer que a indicação da minha pessoa e de minha esposa só foi feita diante da recusa de vosso tio em nos representar.
— Eu sei. — respondeu singelamente Ash – Não vim aqui pedir para meu tio ir como representante. Ele vai como nosso tio. Isso é tudo que podíamos querer.
A fala de Ash deixou o arquimago confuso.
— Confesso que não entendo, princesa. — admitiu – Se sabe que a decisão partiu de seu tio, o que a traz aqui?
— Eu nunca disse que vim pedir pelo meu tio. — Ash estava lutando para permanecer calma e plácida diante do humano. Afinal, quando ela dissera que viera por Aethas? Ele era burro ou algo assim?! — Eu disse que vim por causa de sua indicação e de sua esposa.
A princesa tinha decidido que não chegaria jogando a situação de Luxuriah logo de cara. O comportamento de Vereesa lhe dera uma boa chance de começar a resolver o problema partindo da própria para só então chegar no humano.
Rhonin não disse nada depois da fala de Ash, que continuou:
— Primeiro, sobre sua esposa. Acho que não preciso explicar porque temos relutância em permitir a entrada dela em Luaprata. Você deve conhecer a história.
Sim, ele conhecia. Mas nunca imaginou que a nova realeza sairia de Luaprata apenas para barrar a ida de sua esposa à coroação. Pelo contrário, quando Vereesa se ofereceu para ir, ele imaginou que seria um momento ideal para a reaproximação entre os quel’dorei e sin’dorei. Porém, diante do comportamento de sua esposa naquele dia e da resposta da comitiva da princesa ao mesmo, achou que a princesa estava coberta de razão em requisitar a ausência de Vereesa.
— Admito que eu não imaginava que a indicação de Vereesa fosse gerar um mal-estar tão grande ao ponto de mover até mesmo uma princesa até Dalaran para protestar contra isso. — disse tristemente – Eu tinha a esperança que a coroação de vossa irmã abrisse uma janela para a reaproximação de vocês.
Ash pensou que, ou ele era muito retardado, ou muito inocente ou simplesmente um bom mentiroso ao falar aquilo. Talvez fosse um pouco de cada, adicionado uma boa dose de iludido na mistura.
— Sua esposa saiu de Luaprata nos amaldiçoando. — falou Ash suavemente – Ninguém esqueceu. Nem ela, tampouco.
Rhonin não tinha uma desculpa para aquilo.
— Lamento que isso tenha acontecido. — foi tudo que disse.
Ash afirmou com a cabeça.
— Então entende porque não podemos permitir a entrada dela em Luaprata. Isso geraria um mal estar imenso na população. E, claro, nos nossos aliados da Horda.
— Entendo. — disse Rhonin sentindo-se derrotado – Acho que foi muito otimismo de minha parte pensar que isso poderia dar certo.
“Não, foi burrice mesmo.” pensou Ash.
— Modera ficará feliz em ir no lugar de Vereesa. — Rhonin agora pensava porque não pensara nisso desde o começo – Acredito que com nossa presença, seu povo não ficará insatisfeito.
Chegara a hora de falar de Luxuriah e aquilo fez Ash se mexer incomodada na poltrona. Rhonin percebeu e algo lhe disse que ainda havia algo errado.
— Também não queres a presença de Modera? — perguntou já pensando em quem poderia substituir a maga.
— Não tenho nada contra a ida da arquimaga Modera. — falou Ash. Apesar de ser humana, ela era mulher e isso não provavelmente não afetaria tanto Luxuriah – Na verdade, gostei da postura dela e creio que é uma ótima ideia que ela vá representar o Kirin Tor. O que eu gostaria de requisitar é que apenas a arquimaga Modera vá.
Então não era apenas Vereesa, mas ele próprio. Rhonin então se sentiu ofendido. Por acaso não acreditavam em sua isonomia e lisura?
— Desculpe-me, princesa, mas devo deixar claro meu desagrado. Como líder do Kirin Tor sempre trabalhei de forma imparcial, sem permitir favorecimento a nenhuma das facções presentes em Dalaran. — ele franziu a testa – Não gostaria de ser julgado inapto apenas por ser casado com Vereesa.
Então ele pensava que era por causa da mulherzinha dele. Ash sorriu complacente para Rhonin.
— Meu pedido não tem nada a ver com seu relacionamento com Vereesa Correventos. — esclareceu.
Rhonin se mostrou surpreso e confuso.
— Eu realmente não entendo aonde queres chegar, vossa alteza.
Ash pensou em ir devagar. Pensou em começar a falar sobre a gravidez de sua irmã, da morte dos pais e parar por aí. Não queria revelar o segredo de sua irmã. Mas aquele humano parecia tão alheio ao ódio entre Aliança e Horda, tão alheio ao mal que impregnava sua raça, tão alheio a qualquer coisa que não estivesse dentro daquela cúpula, que Ash quis dizer. Sim, quis. Porque a postura de Rhonin parecia dizer que ele era melhor do que a guerra, do que o mundo lá fora. Ele parecia querer estar acima de tudo. E Ash o odiou por isso. Inclinando-se na direção dele, com os olhos em labaredas, ela deu um sorriso. Era um sorriso triste e perverso. Um sorriso que antecipava a destruição do mundo como o outro o conhecia. Rhonin soube imediatamente que ia ouvir algo que não ia gostar.
— Posso contar com a discrição do líder do Kirin Tor? — perguntou com um tom que deixava claro que não acreditaria na resposta, independente de qual fosse.
— Eu juro que nada do que for dito aqui será repetido lá fora sem sua autorização. — assim que disse isso, Rhonin se arrependeu. Algo dentro dele lhe avisou que não deveria ouvir, o que quer que fosse.
— Bom… — murmurou Ash – Muito bom.
Ash começou falando dos pais. Samanthah e Dhomm Fendessol. Rhonin já ouvira falar deles, claro, principalmente da irmã de Aethas. Afinal, ele tinha um quadro imenso dela em seu escritório. Por isso, falou deles. De sua família. E de suas irmãs. Falou do ressentimento de seu pai com a Aliança e de como ele apoiara a entrada de seu povo na Horda, apesar da reticência de sua esposa. Falou do quão pouco lembrava deles e de que sua irmã, Karen, a futura rainha, não lembrava sequer de seus rostos. Falou de como, apesar de tudo, sabia como eram felizes.
Então, falou do ataque. Um ataque covarde, de um grande grupo contra uma casa cheia de crianças. Falou do esconderijo, do quanto lembrava da escuridão com as irmãs. Falou de que Luxuriah ficara para lutar. E de que vira seus pais morrendo.
Aquela altura, Rhonin já estava com um nó na garganta. Não apenas pelas coisas que Ash falava, mas em como ela falava, fazendo gestos como se acenasse para os pais mortos. A tristeza em seus olhos que brilhavam de lágrimas que ela não permitiriam rolar na frente dele. Pensou que tinha entendido onde ela queria chegar, afinal a irmã de quem ela falava estava grávida.
Ele jamais imaginava o que viria a seguir.
Ash não o poupou. Falou de como a mãe morrera primeiro. Do pai morrer protegendo Luxuriah. E de como aquela menina, que mal atingira a maturidade, fora sumariamente estrupada por todos os humanos que estavam ali.
Rhonin não acreditou no começo. Mas os olhos de Ash não mentia. A jovem então lhe deu os detalhes que sabia através de Vivithi e foi ai quando Rhonin começara a chorar. Não! Não! Como seres humanos como ele poderiam fazer aquilo?! Não! Ele se levantou inesperadamente e deu as costas a Ash. Chorava compulsivamente. Mas ela não parou. Levantou-se e foi até onde ele estava. Ele não a olhava, mas sua voz estava ali ao lado, falando de como sua irmã quase morrera. Que não deixava sequer o tio Aethas tocá-la. Contou como a fizera comer com a boneca, depois de dias. E contou de que aquela brutalidade havia gerado algo que jamais seria aceito. E como Luxuriah quase morrera uma segunda vez, na tentativa de se livrar mais uma vez do mal que os humanos fizeram.
— Disseram que ela jamais engravidaria de novo. — falou Ash com os lábios trêmulos – Mas ela está grávida. O bebê nasce em breve. Mas o coração da minha irmã não está curado como seu corpo.
Ainda em prantos, Rhonin se perguntou como Aethas conseguia continuar na presença de qualquer humano, depois do que acontecera a sua família. Ele próprio se odiava naquele momento, por compartilhar a raça daqueles que fizeram tamanha atrocidade com uma jovem que era pouco mais que uma criança.
Em cima dos cadáveres de seus pais.
Era uma dor que jamais, em toda sua existência, poderia mensurar.
A história o deixara tão nauseado que ele ficaria dias sem dormir. Porém, naquele momento, apenas concordava em guardar o segredo até de sua esposa e nomear Modera (humana, mas mulher) e uma de suas discípulas para a representação. E quando seu choro cessou, murmurou para Ash:
— Diante de seu relato, princesa, eu me envergonho de minha raça.
— Deveria mesmo. — respondeu Ash seca.
Havia se passado pouco mais de uma hora de reunião quando as portas da sala onde Ash e Rhonin estava se abriram. Quando Modera viu o líder do Kirin Tor, se assustou. O rosto dele estava pálido e os olhos estavam vermelhos, como se ele tivesse chorado. Não apenas isso, parecia que ele vomitaria a qualquer instante.
— Modera. — disse ele num fio de voz – Você será a representante do Kirin Tor na coroação da rainha Karensky Fendessol de Quel’thalas. — e sem deixar a outra se recuperar da surpresa, acrescentou – Leve com você alguém… — ele rapidamente mudou de ideia – Não, não alguém, leve aquela maga que esteve aqui mais cedo. A loira, baixinha. Que veio com os filhos.
— Lícia? Lícia Wood?
— Sim, essa. Serão vocês duas.
Apesar de estar preocupada com a aparência de Rhonin, Modera ficou ainda mais surpresa com a fala dele. Relanceou a vista para a princesa Ash e ela estava tão pálida quanto Rhonin. Viu quando Lady Liadrin tocou levemente o braço da princesa, como se a confortasse. Podia não saber o que fora dito ali, mas fora algo que mexera não apenas com Rhonin, mas com a princesa. Achou melhor não questionar.
— Se essa é sua decisão, eu a aceito. Falarei com a Wood hoje ainda.
— Obrigado. — agradeceu ele parecendo muito aliviado.
Enquanto isso, Aethas tentava se manter calmo enquanto esperava aflito o fim da reunião. Do outro lado da sala, Verresa os encarava com visível incomodo. Os cavaleiros sangrentos, livres do fardo da neutralidade de Aethas, devolviam o olhar de desprezo multiplicado pela quantidade de elfos sangrentos no ambiente. Foi esse cenário que eles encontraram quando voltaram. Quando Ash olhou para o tio e sorriu, tristemente, mas ainda um sorriso, o coração do mago se acalmou. Vereesa olhou ansiosa para o marido, claramente querendo perguntar algo, mas a palidez no rosto dele a calou.
Percebendo o clima entre os cavaleiros sangrentos e a líder do Pacto de Prata, Modera imediatamente soube que a ida de Vereesa à coroação teria trazido mais problemas ao Kirin Tor que podiam imaginar. Pensou que esse podia ser esse o motivo da aparição da princesa Ashrial.
Mas seria só isso?
— Agradeço seu tempo, arquimago Rhonin. — disse Ash de volta a postura de princesa educada e gentil assim que voltaram ao salão.
— Eu que agradeço, princesa. — Rhonin fez uma reverência mas sequer olhou para princesa. Na verdade, ele propositalmente estava desviando o olhar.
Vendo a palidez de Rhonin e a de Ash, Aethas soube imediatamente qual tinha sido o teor da conversa dos dois. Aquilo lhe deu um frio no estômago.
— Rhonin. — chamou o mago – Permite-me tirar algumas horas para minha sobrinha? Gostaria de mostrar a cidade para ela.
— Sem problemas. — disse Rhonin sem olhar para Aethas. Teria coragem de olhá-lo algum dia novamente? Conseguiria ir a sua sala e ver o quadro de sua irmã morta da mesma forma? Com os pensamentos em ebulição, achou que estava na hora de sair dali, o mais rápido possível. — Peço licença a todos. — e virando as costas ia saindo do salão.
O mago só queria se afastar e colocar os pensamentos em ordem.
Vereesa estava abismada. Seu marido saíra dali firme como uma rocha e agora parecia estar em pedaços. O que aquela falsa princesa dissera a ele? Sim, falsa, pois Dhomm nunca fora filho legítimo do rei Anasterian e nunca o seria, não importava o que Lor’themar proclamara. Por isso, quando Aethas ofereceu o braço e já ia sair com a sobrinha, Vereesa fez questão de dizer:
— O Pacto de Prata não reconhece a Linhagem Fendessol como legítima herdeira do trono de Luaprata.
Rhonin virou para a esposa, num misto de surpresa e raiva. Por que diabos ela estava tornando aquela situação muito pior do que já estava?!
Ash não se abalou. Soltou-se do braço do seu tio, caminhou até onde Vereesa estava e parou na sua frente. Apesar da palidez, Ash estava com a face resoluta. Olhou para a líder do Pacto de Prata por um momento. Olhou-a de cima a baixo, como se a medisse. Depois, falou com simplicidade:
— Você não é do nosso povo. Não precisamos de seu reconhecimento.
E sem mais uma palavra, voltou onde estava seu tio, tomou o braço dele e saiu da cidadela deixando uma Vereesa furiosa e calada para trás.
Afinal, o que Vereesa Correventos poderia dizer depois de ter suas próprias palavras jogadas de volta em sua face depois de tantos anos? Restou assistir Ash deixar a Cidadela Violeta como uma verdadeira princesa, com sua escolta leal de paladinos, liderados pela mais poderosa guerreira da Luz de Azeroth e de braços dados com um poderoso mago que, com certeza, faria de tudo por ela, independente de sua neutralidade.
Aquela batalha Vereesa percebeu que perdera. Todavia, em seu íntimo, já deflagara uma guerra contra a Linhagem Fendessol e suas quatro princesas bastardas.
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As lembranças do dia anterior ainda estavam um pouco embaçadas na mente de Doroteya quando ela acordou. Piscou algumas vezes, tentando se situar e encarou o teto por um momento, deixando a mente vaguear. A perseguição, o ataque, sua mente desnorteada, Tommy e Theo chegando tão perto do assassino… Depois, Lina visitando-a no quarto, falando de sua imprudência… Tommy lhe levara mais poções, não foi? Ou teria imaginado? Tudo aquilo parecia um sonho e ao mesmo tempo tão real que a deixava enjoada. Sua cabeça latejava com força e ela teve dificuldade para sentar-se.
Passou a mão pela testa. A dor era tão forte que manter os olhos abertos era difícil. E, além da dor de cabeça, seu baixo-ventre parecia queimar como se tivesse sofrido uma pancada muito forte na barriga. Teria se machucado a esse ponto e não lembrava? Se fosse verdade, precisava tomar uma poção o mais rápido possível. Respirou fundo e finalmente se levantou. Foi quando entendeu o motivo das dores.
Sentiu algo escorrer entre as pernas e quando olhou para baixo, seu vestido estava sujo de sangue. Depois de um ano de ausência, sua menstruação voltara. Ficou tão surpresa, que sentou-se novamente na cama, assustada. Por que agora? O que havia acontecido para ela voltar? A raiva do dia anterior? O medo? O que, afinal, despertara seu corpo? Teria sido realmente por causa do dia anterior ou pelo momento de sua vida? A tranquilidade que a casa dos Wood lhe reservava? Ou… Seu coração se acelerou…. Tommy… Seria os sentimentos que começavam a criar raízes em seu coração que despertara seu corpo?
Baixou a vista para a camisola ensanguentada e então deu um pulo assustado que fez sua cabeça latejar ainda mais. Não queria sujar os lençóis da cama, mas já era tarde. Onde sentara e também dormira estava vermelho mas, por sorte, o sangue não chegara ao colchão. Juntou rapidamente os lençóis sujos e olhou para a camisola. Precisava de um banho para se limpar e colocar os pensamentos em ordem.
Antes de sair do quarto, deu uma olhada no corredor. Ninguém. Era cedo e a casa ainda estava silenciosa. Aliviada, conseguiu se esgueirar para o banheiro sem que ninguém a visse.
Doroteya não sabia que havia mais alguém acordado além dela.
Tommy tomava uma caneca de café quente e sem açúcar, enquanto olhava a luz do sol se esgueirar preguiçosa pela cozinha. Não conseguira dormir por vários motivos e todos eles de alguma forma convergiam para Doroteya. Pensara no beijo que trocaram. Na perseguição que ela fizera. No quanto desnorteada ela ficara. Na revelação que ela fez sobre a cabeça de sua irmã estar a prêmio. A total falta de importância que Lina deu a isso. Tudo isso lhe deixara acordado, enquanto via Theo dormir tranquilamente ao seu lado já que o menino não quisera perturbar a mãe e dividira o quarto com ele no dia anterior.
Agora, só pensava em conversar com Doroteya, saber como ela estava, mas, ao mesmo tempo, tinha medo do que ela lhe diria. Tomou mais um gole de café. Um nó se formara em sua garganta. Não saberia como reagiria se fosse rejeitado. Tinha consciência que não poderia simplesmente ir embora, porque não queria deixar Theo nem a irmã louca cuja cabeça estava a prêmio. Teria que lidar com a dor silenciosamente e sozinho.
Quando ouviu passos descendo as escadas e se encaminhando para a cozinha, seu coração se acelerou. Ninguém além da druidesa acordava tão cedo, então devia ser ela. E quando a figura pequena de Doroteya surgiu na porta da cozinha, com os cabelos molhados e os braços cheios de lençóis em uma trouxa, ele levantou-se tão rápido que quase derrubava a cadeira. Segurou-a antes de derrubá-la ao mesmo tempo em que Doroteya estacou assim que o viu. Tommy então se aproximou, passando a mão pelo cabelo e desejando não estar com olheiras.
— Você está bem? — ele foi perguntando preocupado – Seus olhos estão bons? Quer ajuda? — e fez menção de pegar os lençóis.
— Não precisa! – exclamou Doroteya tentando puxar a trouxa, mas os dedos de Tommy já tinham se enrolado nas pontas dos tecidos. A trouxa então caiu no chão, revelando a mancha de sangue e fazendo o rosto de Doroteya ficar escarlate.
— Você está ferida? — perguntou ele sentindo o pânico se entranhar em seu estômago – Eu posso pegar as poções que comprei ontem e-
— Não estou ferida! — gritou ela mais irritada do que jamais estivera – Estou menstruada!
Tommy calou-se rapidamente, surpreso com a irritação dela. Doroteya se abaixou e pegou a trouxa, antes de praticamente correr para o quintal. Pela janela da cozinha, ele a viu jogar os lençóis em uma bacia e encher de água, antes de pegar o sabão e começar a lavá-los. Então, ele ficou aliviado e até sorriu. Era somente o período dela. Que estranho, pensou, que não tivesse reparado em o quanto ela ficava estressada naqueles dias. Na verdade, pensando enquanto ia até a chaleira e enchia de água, não lembrava de nenhum dia em que ela não estava em sua tranquilidade cotidiana e até imaginou que ela tomava as mesmas poções que sua irmã para não passar pela menstruação. Talvez tivesse falhado. Já ouvira falhar que acontecia. E como um homem criado rodeado de mulheres, Tommy sabia como agir naquele momento.
Quando Doroteya regressou à cozinha, depois dos lençóis e sua camisola estar devidamente lavados e estendidos, Tommy a esperava com uma xícara de chá fumegante e perfumado.
— Esse chá é a receita da minha mãe para cólicas e dores. — disse com tranquilidade, como se ela não tivesse gritado com ele antes – Beba.
Doroteya teve vontade de chorar com a atenção dele, mas se controlou. Pegou a xícara e sentou-se na mesa. Tommy sentou-se em frente a ela, com seu café. Doroteya tomou um gole do chá timidamente, mas logo sentiu o gosto das ervas e também o mel com limão. Sorriu.
— Obrigada. — agradeceu com sinceridade – Está gostoso.
— Minha mãe diz que ele faz mais efeito se tomado amargo. — ele disse porque simplesmente não conseguira pensar em outra coisa pra dizer – Mas Ana sempre tomou com mel e limão e dizia que fazia o mesmo efeito.
— Minha mãe dizia que o limão piorava as cólicas dela. — disse Doroteya – Mas nunca chegou a ajudar com as minhas, porque já havia falecido quando minhas regras chegaram. — ela olhou para a xícara e então se tocou que conversava com um homem – Desculpe! Você não quer saber disso, não é?
— Ah, fui criado rodeado de mulheres, Doro! Uma mãe, oito irmãs, sete cunhadas e uma infinidade de sobrinhas! E fui casado! Sei o que é uma menstruação. Em teoria, pelo menos. — e riu sem jeito.
Doroteya o olhou, sem jeito.
— Desculpe ter gritado com você. — pediu envergonhada – É que eu não esperava te ver cedo e nessa situação…
— Ah, tudo bem! — foi logo dizendo ele – Só fiquei surpreso porque não tinha reparado que você ficava tão irritada nesses dias… Senão, já estaria acostumado.
— Fazia um ano que eu não menstruava. — ela se pegou dizendo – Não tinha como você ter me visto assim antes.
Tommy não escondeu seu espanto.
— Pensei que isso só acontecia quando as mulheres engravidavam! Ou tomavam poção! — e ponderando um pouco, perguntou – Isso é ruim? Ficar sem menstruar?
— Sim. Significava que algo está errado. — ela encarou o líquido dourado em sua xícara – E ela simplesmente parou de vir. Cheguei a pensar que tinha a ver com a maldição… Ou uma doença….
— Bem, já sabemos que você está bem, não é? Ela deve ter se atraso só por diversão. — disse ele tentando fazer graça. Ficou feliz quando ela sorriu.
— Acho que sim. — foi a resposta dela antes de tomar mais um gole do chá.
Doroteya tomou toda a xícara que ele havia feito e pediu mais um pouco. Tommy não tardou em atendê-la. Depois, ele perguntou:
— Está com cólica? — quando a viu afirmar com a cabeça, ofereceu – Posso fazer uma compressa quente para você. Sempre fazia uma para Ana, principalmente em dias frios. Ela tinha muita cólica.
Tommy então se tocou que Doroteya podia não gostar de ouvi-lo falar de sua esposa morta pouco depois de beijá-la. E no estado em que ela tava, ele poderia ter acabado de estragar tudo! Que insensível ele era! Ela devia pensar que ele era um aproveitador.
— Doro… — ele começou – Eu…
— Como ela era? A Ana? — perguntou Doroteya inesperadamente. — Me fale sobre ela. — pediu – Eu gostaria de conhecê-la um pouco.
Definitivamente, Doroteya não parecia chateada, pelo contrário. Seu pedido era sincero e expressava uma curiosidade saudável. Tommy percebeu então que já havia falado bastante sobre seus filhos, mas nunca sobre sua esposa. Bem, se Doroteya queria saber, ele contaria.
— Ela era mais baixa que eu. — ele fez um gesto com a mão, mostrando mais ou menos o tamanho de Ana – Cabelos lisos, castanhos claros e olhos pretos. Bem pretos. Nem parecia que ela tinha íris. — ele sorriu – Ela detestava os olhos, porque dizia que eram caídos, como de um cachorro. Mas eu os achava lindos.
— Como ela era por dentro? — perguntou a druidesa – A personalidade dela?
Tommy deu uma risada.
— Ela era bem difícil, tenho que confessar. Todos diziam que ela parecia com a Lina, mas não é verdade. Ana parecia minha mãe quando tava com raiva. Só que era assim o tempo todo, sabe? Como se fosse minha mãe raivosa o tempo todo. – ele riu e Doro o acompanhou – Ana tinha a paciência bem curta e a boca bem grande, então todos a achavam grossa. Mas era apenas sinceridade. Ela tinha motivos para ser assim sabe?
— Que motivos?
Tommy suspirou.
— O pai de Ana era alcoólatra e a mãe dela, distante. Era ela quem levava a casa nas costas. — o olhar dele se tornou perdido, como acontece com alguém cuja mente visita o passado – Nos conhecemos quando eu fui com meus irmãos na taverna comemorar algo que nem lembro mais. Eu a vi entrar, gritar com o pai, quebrar uma garrafa no chão e ameaçar quebrar outra na cabeça dele. Depois, ela o levou para casa à força. — ele deu uma risada triste – Me disseram depois que era uma cena frequente.
— Que triste. — comentou Doro. Ela sabia como a bebida podia acabar com as pessoas.
— Depois eu a revi numa festa na Vila D’Ouro. A chamei para dançar. Ela me reconheceu e perguntou de onde me conhecia. Contei a história e ela disse que não dançaria com quem frequentava tavernas porque não precisava de outro homem como o pai. Acho que foi aí que eu me apaixonei por ela.
— Realmente, parece algo que Lina diria. — comentou Doroteya.
— Verdade. — Tommy terminou de tomar sua xícara de café e encheu a caneca de novo – Eu não desisti. A convidei para sair outras vezes, mostrei que não era um bêbado e ela acabou aceitando. Depois que casamos, ela confessou que pensou em me dispensar apenas porque meu pai tinha uma vinícola e ela tinha medo do pai dela começar a me pedir vinho de graça. Mas isso nunca aconteceu. Acho que ela ameaçou o pai ou algo assim. — ele tomou mais um gole antes de continuar – Namoramos por uns três anos. Nesse tempo, vim morar em Ventobravo onde era soldado, mas sempre voltava para casa e ia visitá-la. Então, um dia ela me disse: “decida, vamos casar ou você vai ficar me enrolando? Não quero perder tempo com quem não quer algo sério.” — Tommy ficou envergonhado – Por favor, não pense mal dela. Ana só era sincera demais.
— Na verdade, eu a admiro. — disse Doro com sinceridade – Muitas mulheres engolem seus sentimentos para não magoar os outros. Ela já tinha sido tão magoada que preferia ser sincera e correr o risco de magoar do que continuar sofrendo. É preciso muita coragem para agir como ela agiu.
Impressionado, Tommy a encarou.
— Você conseguiu descobrir tudo isso sobre a Ana nesse breve relato? Eu precisei de anos para chegar a essa conclusão!
Doroteya deu de ombros.
— Sou boa com pessoas. — disse com simplicidade antes de voltar para seu chá – Continue. — pediu – Como foi o casamento de vocês?
— Ana não quis festa, preferia que juntássemos dinheiro para comprar uma casa. Então, só fomos no cartório e casamos. Foi a primeira vez que eu vi o pai dela sóbrio. Ele e a mãe dela choraram o tempo todo, pediram perdão e tal. Ana chorou bastante também e pediu para o pai parar de beber e para a mãe cuidar dos irmãos.
— E eles fizeram isso?
— Até o dia em que Ana e as crianças morrerem. — a voz dele ficou rouca – O pai dela voltou a beber e morreu três meses depois. A mãe dela pegou os filhos restantes e sumiu. Nunca mais soube deles.
Então os Defias não tinham destruído Tommy, mas também a família de Ana. Doroteya fechou o punho, com raiva. Um assassinato nunca destruía apenas a pessoa que morria, mas jogava seus estilhaços de desespero em muitas direções.
— Ela e Lina não se davam bem, não é mesmo? — perguntou a druidesa tentando afastar aqueles pensamentos da cabeça.
— Nem um pouco! — Tommy voltou a rir – Acho que só quem gostava da Ana era meus pais, Fey e Mel! Minhas irmãs a detestavam, mas com Lina o ódio era mortal. Lina achava que Ana me tratava como escravo dela. Ana achava o mesmo de Lina. E eu apenas me afastava e ficava fora do caminho das duas quando estavam juntas!
— Deve ter sido difícil para você. — comentou.
— Foi. Mas eu as amavas. Era um preço até pequeno para se pagar para ter tranquilidade.
O silêncio se deteve entre os dois por alguns momentos, a sombra da esposa falecida de Tommy pairando sobre os dois. Foi quando ele tomou coragem para perguntar:
— E você e seu marido, Liam? Como se conheceram?
Doroteya deu um sorriso triste. Sabia que chegariam a esse ponto e temia essa conversa. Por que, diferente de Ana, Liam não era uma pessoa simples que morava numa vila. Porém, Doroteya entendia que a importância de Tommy em sua vida e na do seu filho exigia que ela lhe revelasse a verdade. Era o mais justo a fazer.
— Eu estava caminhando pela floresta quando o vi pela primeira vez. — começou com o olhar perdido – Ele estava caçando raposas. Aquilo me deixou furiosa! — ela fechou os punhos e sacudiu no ar – Eu entendia as pessoas que caçavam para comer, mas caça à raposa nada mais é que crueldade! — os olhos da druidesa ferviam de raiva e Tommy inconscientemente se inclinou para trás, se afastando um pouco – Eu o segui pela floresta e subi em uma árvore. Quando ele ia atirar na pobre raposa, eu me joguei por cima dele e o animalzinho conseguiu fugir!
Tommy conseguia visualizar perfeitamente a cena. Doroteya, em sua selvagem pequeneza, se atirando de uma árvore contra um homem bem maior que ela e armado. Era a cara dela essas coisas.
— E o que aconteceu depois? — perguntou animado com a história.
— Eu ordenei que ele saísse de minha floresta. Que, enquanto eu vivesse, ninguém mataria por esporte no meu território. — ela riu – Ele ficou bastante irritado.
— E o que ele disse?
— Que, como príncipe de Guilneas, as florestas eram dele e ninguém diria o que ele deveria fazer ou não.
Tommy deu uma gargalhada, pensando em como o marido de Doroteya tinha soado arrogante em alegar um título que não tinha. E só quando percebeu a seriedade com o que ela falava foi que seu sorriso morreu.
— Espere aí. — falou ele erguendo a mão – Por que ele disse que era príncipe? Queria te por medo?
— Não. Ele disse que era príncipe porque realmente o era. Liam Greymane. Príncipe herdeiro de Guilneas. — explicou Dodoteya com tranquilidade enquanto tomava mais um gole de chá.
Durante um tempo, Tommy ficou calado esperando que Doroteya começasse a rir e então contasse a história verdadeiro. Mas ela não riu e continuou o encarando seriamente. Foi quando ele entendeu que ela realmente não estava brincando.
— Liam Greymane. — repetiu sentindo um gosto amargo na boca – O príncipe de Guilneas. Esse era seu Liam? Seu marido?
— Isso. — respondeu serenamente.
— Pai de Theo?
— Isso. — confirmou mais uma vez.
Tommy sentiu o chão se abrir embaixo de seus pés. O marido de Doroteya tinha sido um príncipe. A porra do caralho de um príncipe! Teve vontade de virar a mesa e sair correndo gritando. Toda sua esperança de chegar ao coração dela se esvaíram. Como diabos ele, só um maldito camponês que se tornara soldado teria chances? Como competir contra a lembrança de um príncipe? A porra do caralho de um príncipe! Os pensamentos dele provavelmente se tornaram nítidos em seu rosto, porque Doroteya se pôs a falar novamente:
— O Liam que eu conheci só foi o príncipe na nossa primeira conversa. — explicou – Como não baixei minha guarda nem minha cabeça, ele voltou a me procurar. Acho que primeiro por raiva. Depois curiosidade. Por fim, admiração. — ela sorriu – Eu nunca pensava nele como “o príncipe” até que isso afetou nossa vida incondicionalmente.
A voz voltou à garganta de Tommy para que ele perguntasse:
— E isso foi quando?
— Quando o rei descobriu de nós dois. Ele me ameaçou. Mandou eu me afastar de Liam. Eu o fiz. Mas Liam me procurou. Ele não desistiu de nós. — ela sorriu tristemente – Nosso casamento foi em segredo. Poucas pessoas sabem dele. Nunca cheguei a morar em Guilneas ou ter vida de nobre. Poucos também sabem da existência de Theo. Passei toda minha gravidez na floresta… — ela suspirou – Desculpe ter escondido isso de você durante esses meses… Eu não queria que você tratasse o Theo de forma diferente.
— Por que eu faria isso? — perguntou de repente, preocupado. Teria ele dado que tipo de impressão a Doroteya?
— Por ele ser príncipe… Mesmo que eu não o veja assim. Para mim é apenas meu filho e de Liam. — respondeu baixando a vista para a xícara – E também… É difícil para mim falar sobre isso… Foram tantos anos nos escondendo…. O rei sabe da minha existência e me odeia por Liam ter brigado com ele para ficar comigo, mas nem sonha que Theo exista. E eu prefiro que continue assim.
— Ele tinha tanto medo assim do pai? — perguntou Tommy tentando não ficar com raiva do morto – Para esconder a mulher e o filho?
Doroteya então contou toda a história a ele, sem esconder nada. O medo de perder o filho. Os anos na floresta. A fuga quando a maldição dos worgens se espalhou. Contou tudo. Da mesma forma que ele abrira o coração para ela, agora a druidesa fazia o mesmo. A sinceridade dela acalmou o coração de Tommy. Afinal, era Doroteya. E Doroteya não era alguém que se interessava por riqueza ou status. Ao final do relato dela, soube que ela se apaixonara pelo homem Liam e não pelo príncipe herdeiro. E por mais que as atitudes do pai de Theo não fosse das mais honesta, em sua opinião, Tommy entendeu que ele fizera o melhor que pudera para não comprometer seu reino nem sua família.
— Deve ter sido difícil para ele. — comentou Tommy – Equilibrar duas vidas e tantas pessoas importantes por tanto tempo…
— Ele nunca falou sobre como se sentia. — confessou Doroteya – E eu preferia não pressioná-lo… Ele já sofria pressão o suficiente.
— Eu não teria feito isso. — admitiu Tommy – Teria brigado por você. E pelo Theo. Mas a vida da nobreza, principalmente dos reis e seus herdeiros, é difícil. É um peso muito grande para se lidar. Fugir das regras então… — ele balançou a cabeça – Não desejo isso para ninguém. Estou admirado que ele tenha conseguido suportar e não ter abandonado vocês dois.
Doroteya se perguntou o quão ele ficaria preocupado se soubesse que sua amada irmã caçula estava na mesma situação que vivenciara com Liam.
— E eu continuarei amando Theo da mesma forma que antes. — continuou Tommy a encarando – Nada mudou.
Doroteya lhe deu um sorriso lindo e iluminado.
— Obrigada.
Os olhos deles agora estavam presos um no outro e o beijo do dia anterior voltou à mente de ambos naquele momento. Seus corações começaram a bater rápido, apesar de um não ter consciência do que o outro sentia.
— Você se arrepende? — perguntou ela inesperadamente – Por ontem? O… Beijo…
— Eu?! Não! — respondeu apressadamente sentindo o rosto em brasa – Você se arrepende?
— Não. — se apressou ela em dizer, também com o rosto em brasa.
Silêncio.
Baixaram a vista para a mesa por um tempo. Depois, se encararam no mesmo instante.
— Doro… — ele murmurou buscando a mão dela por cima da mesa.
Antes que ele dissesse algo, ouviram o elevador funcionando e a voz do senhor Sebastian reclamando de como a cidade era barulhenta demais de manhã e dona Mariana respondendo que barulhento era ele gritando tão cedo. Doroteya e Tommy recolheram as mãos no mesmo instante.
Aquela conversa teria que ficar para depois.
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— Sinto como se eu tivesse traído minha irmã.
Aethas relanceou o olhar para sua sobrinha. O rosto de Ash ainda estava pálido e as lágrimas que ela contivera durante a conversa com Rhonin agora rolavam abundantemente.
Tinham acabado de descer as escadas da Cidadela Violeta. Já recuperado da surpresa da visita, Aethas agora podia pensar um pouco em tudo que acontecera entre Rhonin e Ash. Sabia que o tema da conversa tinha sido Luxuriah. Isso abalara tanto a princesa que contara a história quanto o homem que a ouvira. Pensava nisso quando pararam em frente à luxuosa carruagem que ainda esperava pela princesa aos pés das escadas. Aethas então se voltou para sua sobrinha.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Ash. — começou gentilmente – Você não traiu sua irmã. Você a protegeu. — segurou o rosto dela com as mãos e limpou suas lágrimas – Não vamos falar disso aqui, certo?
Ash fez que sim com a cabeça.
— O que acha de dar uma caminhada? — sugeriu – Você precisa de ar puro. Podemos ir até ao Saguão da Destreza e tomar café da manhã. Imagino que você não tenha comido.
Ash fez que não.
— Está decido então. — concluiu ele carinhosamente.
Lady Liadrin, que estava observando tudo, foi até o cocheiro e o dispensou. Depois disso, tio e sobrinha, de braços dados, começaram a caminhada pelas ruas de Dalaran, com os paladinos ao seu redor, há alguns passos de distância deles.
A beleza de Dalaran já não fascinava mais Ash. Relembrar tudo que sua irmã viveu a fazia se sentir seca e sem vida. Olhou ao redor. Raças e mais raças da Aliança passava por eles. A maioria dos homens e muitas mulheres demoravam seus olhos na belíssima elfa que passeava com um dos conselheiros do Kirin Tor. Aconteceu até mesmo de um gnomo e um anão chocarem suas motos porque ambos ficaram olhando fissurados a elfa.
— Eu os odeio. — murmurou ela baixando a cabeça.
Aethas sabia a quem ela se referia.
— Eu não a culpo. — disse Aethas – Eu senti o mesmo por um bom tempo. Mas hoje é diferente.
— Como consegue tio? — perguntou com a voz trêmula – Eles mataram a sua irmã! Se alguém matasse… — ela não terminou a frase, pois o simples pensamento era doloroso demais. Não conseguia imaginar perder nenhuma de suas irmãs. Achava que morreria junto.
Aethas nunca havia conversado com ninguém sobre a morte de Samanthah. Não tinha amigos a quem recorrer. Não podia desmoronar na frente das sobrinhas. Então ele simplesmente supriu. Chorava em seu escritório olhando para a pintura dela, mas nunca falou.
Porque se sentia culpado.
Culpado de ter sido um péssimo irmão na maior parte de sua vida.
— Eu… — ele suspirou e parou – Não vamos conversar isso na rua. — foi o que disse.
Continuaram caminhando até chegar a mesma taverna onde ele, Kassyeh, Tewdric e Kayliel haviam encontrado Arshe, Lina e Doroteya no Véu de Inverno. E bastou uma olhada rápida para o interior para que Aethas desistisse de levar a sobrinha até lá. Estava cheio de aventureiros humanos e anões, bebendo cerveja e fazendo troça com as garçonetes. Deu meia volta e se dirigiu ao Santuário Fendessol. A última coisa que Ash precisava era ficar rodeada de raças da Aliança.
— Vamos para um lugar mais reservado. — disse para a sobrinha, que nem precisou de explicação. Da rua, era possível ouvir as vozes falando em língua comum coisas tão chulas que o parco vocabulário de Ash naquela língua já a deixara chocada.
— Tudo bem.
Se dirigiram ao Santuário Fendessol e foi somente quando Ash viu as bandeiras da Horda tremulando sobre os prédios que relaxou. Seu tio percebeu o alívio dela e reconheceu que ele mesmo estava aliviado por estar em território conhecido.
Tão logo entraram n’O Animal Imundo, todos os olhares se viraram para eles. Ash aparentemente não despertava o interesse apenas das raças da Aliança. Um troll ficou a olhando tão vidrado que errou a boca e derramou a bebida no pescoço. Um orc engasgou e teve que ser socorrido rapidamente. E Uda os encarou com os olhos arregalados e tão irados que Aethas tratou de dizer logo:
— Uda! Venha conhecer minha sobrinha Ash! — e acenou para ela alegremente e um pouco temeroso também.
A orquisa relaxou e se aproximou com um sorriso.
— Sobrinha é? Se fosse uma piriguete eu ia agora mesmo contar a Vivithi. — foi falando ao se aproximar.
Ash finalmente deu um sorriso diante da sinceridade da outra.
— Ah, o titio não trairia a Vivi. Minhas irmãs o matariam antes que ela o matasse. — falou gracejando, mas Aethas sabia que era verdade.
Uda deu uma gargalhada e Aethas trocou olhares com Lady Liadrin. A mudança em Ash era reconfortante.
— Você tem uma sobrinha bonitona, Aethas. Ela, com certeza, não puxou a você.
— Ainda bem. — respondeu o mago.
Todos riram e Ash riu mais que todos. Aquele alívio de estar em um lugar onde estava segura e entre pessoas que eram tão leais a Horda, era muito bem-vindo.
— E aí, o que vão querer? — quis saber a dona da taverna.
— Ash precisa de um bom café da manhã. — disse Aethas – Capriche.
— Pelo seu dinheiro, arquimago, sempre! — a orquisa deu outra gargalhada e os deixou.
Os cavaleiros sangrentos se dispersaram para dar mais privacidade à princesa e o seu tio. Lady Liadrin sentou-se no balcão, onde inciou uma conversa muito animada com Uda enquanto mantinha um olho na princesa e outro em sua ouvinte. Enquanto isso, Ash e Aethas ficaram em silêncio um momento até que a princesa perguntou novamente:
— Como você aguentou viver aqui, tio? Quando a mamãe morreu?
Havia um tom de acusação na voz de Ash que magoou muito Aethas. Apesar de saber que suas sobrinhas não aprovavam sua decisão de manter-se em Dalaran depois da morte da irmã, ouvir ali claramente a mágoa na voz de uma delas fez a dor brotar do canto mais reprimido da alma dele. Suas mãos tremeram por um momento e ele pensou que, finalmente, falaria a alguém o que sempre sentira.
Mas não. Sua voz não saia. Se saísse, Aethas tinha a impressão que quebraria em mil pedaços e jamais se reconstruiria. Por isso não falou. E tinha a impressão que jamais falaria.
Aethas não queria contar a ninguém como se sentia. Não queria contar o choque quando recebeu a notícia. Não queria contar a forma como entraram em seu escritório e o convocaram a Luaprata, como se ele fosse o culpado pelas mortes. Não queria contar como se sentiu quebrado, pela metade e diminuído com a morte da irmã. De como toda a ausência que impusera ao relacionamento dos dois voltou como um buraco negro sugando os momentos felizes de suas memórias como se fosse o pagamento pelo seu descaso. Não, não queria compartilhar a sua dor.
Nem com Ash e nem com ninguém.
E foi naquele momento em que Aethas percebeu que ele não era muito diferente de Vivithi. Da mesma forma que a elfa que amava, ele tinha segredos escusos escondidos em seu coração e que não queria partilhar. Por isso, deu a resposta padrão que ajudava a aliviar sua consciência nos piores momentos de sua vida.
— Porque era necessário para o nosso povo.
A resposta não agradou Ash, que franziu a testa.
— Era a sua irmã. — insistiu a garota – Sua irmã!
Um nó se formou na garganta de Aethas.
— Eu sei. — ele respondeu fracamente.
Talvez tenha sido a forma como ele falou, ou a dor nos olhos dele que fez Ash parar de insistir. A jovem conseguiu enxergar, por um momento, toda a exaustão de seu tio. Nos elfos, que ficavam jovem por séculos, a dor transparecia mais no olhar que nas rugas das raças de vida mais curta. E os olhos do mago mostravam décadas de dor que Ash só podia imaginar. Percebeu também que talvez ela não fosse a pessoa ideal para que ele conversasse.
— Tudo bem se não quiser falar comigo, tio. — disse por fim – Mas talvez você devesse conversar com alguém.
— Talvez. — respondeu ele desviando os olhos.
A comida chegou naquele momento e o apetite de Ash apareceu como se fizesse eras que ela não comia. Concentrou-se então em comer e deixou o clima entre ela e Aethas ficar um pouco mais leve.
— Então, — perguntou ele a certa altura da refeição – quem representará o Kirin Tor?
O ideal agora era restabelecer a conversa pelo motivo que levara a jovem princesa até ali.
— Como o senhor sabe que eu consegui? — quis saber a jovem surpresa.
— Em nenhum momento eu duvidei que você conseguiria. — disse gentilmente.
O coração de Ash se aqueceu e ela esqueceu completamente a mágoa de antes.
— Modera e uma tal de Foot. — respondeu.
— Foot? — Aethas franziu o cenho. Nunca ouvira falar de alguém com aquele nome – Tem certeza?
— Não. Acho que esse era o nome, mas esqueci completamente. Só sei que será outra mulher, então está bem.
— Luxuriah não vai gostar de ter humanas e o Kirin Tor lá, mas tenho certeza que reagirá melhor do que se fosse Rhonin e Vereesa. — ponderou ele.
— Com certeza. — e apertando só lábios, disse – Por mim, não iria ninguém daqui a não ser você.
Aethas deu uma risada e colocou a mão sobre a da sobrinha.
— Querida, eu sei que por você e suas irmãs eu nem estava aqui…
— Não estaria mesmo! E não perdi as esperanças ainda! — ela se recostou na cadeira – Ainda torço para Vivithi o tirar daqui e o colocar de vez em Luaprata.
Aquilo o surpreendeu.
— Você acha que Vivithi quereria me tirar daqui? — ele balançou a cabeça em negativa – Nunca.
— Como você pode ter certeza?
Porque ela foi destroçada por um imbecil há muito tempo e não ele não conseguira encontrar nenhuma forma de chegar ao coração dela naquele tempo em que dividiam a cama, pensou. Mas jamais poderia dizer aquilo a Ash.
— Apenas sei.
— Acho que você poderia se surpreender no futuro. — falou a jovem.
Aethas deu de ombros e Ash decidiu não se esticar naquele assunto. O mago então perguntou sobre como estava a rotina em Luaprata. Ash começou a contar e os dois entraram naquele território seguro. Conversaram enquanto comiam e logo Lady Liadrin chamava Ash para voltar para Luaprata.
— Já está na hora. — disse a matriarca.
Aethas e Ash se entreolharam e sorriram um para o outro. Se levantaram e se despediram com uma braço apertado.
— Nunca duvide do amor que eu tinha pela sua mãe. — murmurou Aethas para a sobrinha – Por favor, nunca duvide disso…
— Eu não duvido do seu amor, tio. — disse ela – Só nunca entendi a forma com a qual você o demonstrou.
Sem conseguir pensar em uma forma de responder a sobrinha, Aethas se relegou a soltá-la, lhe dar um beijo na testa e abrir o portal que a levaria de volta a Luaprata. Seu coração apertou-se quando a viu sumir em meio à magia arcana junto com sua comitiva. E quando a magia esvaiu-se, ele sentou-se novamente na cadeira, baixou a cabeça e a colocou entre as mãos.
Ninguém sabia. Ninguém entendia. Porém, tinha que permanecer ali, de cabeça erguida enquanto por dentro estava devastado.
Ouviu um barulho seco a sua frente e levantou a cabeça, assustado. Uda tinha colocado uma caneca grande de cerveja na sua frente.
— Você tá com cara de quem tá precisando de um goró. — disse a orquisa antes de sair e o deixar com a bebida e com as dores do coração.
Sim, ele precisava de um goró. E precisava desesperadamente deixar de ser ele mesmo. Por isso, virou a caneca e rezou para que o álcool aplacasse o furacão que se instalara em seu coração.
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Lina não gostava de estar de férias. Principalmente porque seu corpo não entendia que estava de férias. Como de costume, acordou quando o sol ainda estava nascendo. Levantou-se rapidamente para então lembrar que não precisava ir para a Bastilha. Voltou a deitar na cama, mas não conseguia dormir. Virou para um lado e para o outro. As preocupações que insistia em deixar afastada de sua mente enquanto estava ativa, voltavam para lhe assombrar quando tentava relaxar. E o que mais a incomodava no momento era o fato de Doroteya ter se ferido no dia anterior.
Não havia conseguido conversar direito com a druidesa quando chegara da Bastilha porque esta ainda estava grogue do pó mata-cachorro e quando ela tomou mais poções levadas por Tommy, virou para o lado e dormiu, exausta. Lina não tentou forçar a conversa e a deixou descansar.
Claro que seus pais perceberam a ausência de Doroteya e não ficaram muito satisfeito com a desculpa que Tommy dera.
— Ela tomou muito sol na praia. — dissera ele.
Só que os idosos ficaram com aquela expressão de quem sabe que tem mais coisa do que fora contada e não gostaram nenhum pouco. Porém, antes que os dois começassem a insistir para saber mais detalhes, Pietro e Pandora conseguiram desviar a atenção dos avós levantando a questão da morada deles em Ventobravo. Só pensar no tamanho da confusão que isso ia causar distraiu os idosos e quando eles subiram para dormir, Pandora fez um ‘joinha’ para a tia e disse:
— Ta me devendo uma, hein, tia?
Lina teve vontade de dar uns cascudos pela audácia, mas estava cansada demais para isso. Deixaria para dar um prumo a Pandora quando a jovem estivesse morando lá.
Por isso, cansada de pensar, levantou-se e foi se aprontar para o dia. Ficou surpresa ao ouvir barulho na cozinha tão cedo e ficou animada em pensar que Doroteya já estaria bem o suficiente para cozinhar. Desceu as escadas com rapidez e viu, com alegria no coração, a druidesa sentada na mesa da cozinha conversando alegremente com a dona Mariana, ainda que estivesse com a expressão um pouco abatida.
— Tomi esse caldinhu. — dizia dona Mariana parecendo preocupada servindo uma tigela de caldo – Vai ajudá a você a ficar forti!
— Bom dia. — disse Lina abrindo um sorriso para sua amiga – Como se sente? Depois da… insolação. — completou.
— Estou bem. — respondeu Doroteya dando um sorriso cansado – Logo estarei melhor.
— Tomi o caldinhu! — insistiu dona Mariana – Tem qui recuperá o sangue!
— Sangue?! — perguntou Lina sentindo o próprio sangue sumir da face. Alguém teria batido com a língua nos dentes?
— Estou menstruada. — respondeu rapidamente Doroteya – Sua mãe fez esse caldo para que eu possa me sentir melhor.
— Pur isso ela tava toda molinha ontem, a bixinha! — disse dona Mariana se levantando da cadeira e indo pro fogão – Vô fazer mais chá procê. Pras cólica! Adispois vá si deitar um poquim que mandu Tomilho com uma bolsa de água quenti.
— Obrigada, dona Mariana, mas não precisa se incomodar. — falou a druidesa envergonhada. Não estava acostumada a ser cuidada por ninguém.
— Bobagi. — disse a senhora.
Com a mãe virada de costas, Lina sentou-se de frente a Doroteya e analisou seu rosto. Estava um pouco pálido, com a expressão de cansaço e um pouco de dor. A mesma expressão que já vira tantas vezes no espelho e no rosto de outras mulheres. Independente do que acontecera no dia anterior, parecia que a situação de Doroteya era realmente de um sério problema com cólicas menstruais.
— A poção falhou? — perguntou Lina preocupada. A última coisa que queria era ter comprado um lote de poções que falhassem e acabasse grávida. Tinha náuseas só de pensar na situação.
— Essas poçãum vão deixá ocê seca, Quengacilina! Num vai podê tê mininu! — ralhou a mãe falando por sobre o ombro – Já falei pra ocê dexá de tumá isso e aceitá as regra!
Obviamente sua querida mãezinha achava que ela tomava aquelas poções apenas para que não menstruasse. Melhor que continuasse pensando assim.
— E ficar com essa cara que Doro tá? De jeito nenhum!
Dona Mariana resmungou e voltou-se ao fogão. Estava agora preparando ovos e o estômago de Lina roncou. Mal tocara na comida no dia anterior por causa da situação de Doro. Mas vê-la agora bem, na medida do possível, a deixava tranquila o suficiente para seu apetite voltar.
— Na verdade, Lina, eu não tomo poção…
— Faz muito bem! — falou dona Mariana.
E a druidesa explicou a Lina sobre sua situação. A comandante não ficou tão surpresa quanto Doroteya achava.
— Já vi acontecer com quem sofre um trauma grande. — explicou.
As duas sabiam qual tinha sido seu trauma grande. A morte de Liam.
— Mas que bom que voltou. Sabemos que está tudo bem agora. — e olhando para sua mãe – Vai querer ir para onde depois do café, mamãe?
— Eu levarei a mamãe na catedral. — falou Tommy entrando com uma cesta cheia de verduras do quintal e acompanhado do pai – Você pode ficar e fazer companhia a Doro, já que ela não está bem para sair.
— A horta tá bunita por dimais! E tem ispaçu pra prantar um pé di uva nesse quintal. — disse seu Sebastian se dirigindo a sua esposa e sem ver que os filhos trocavam olhares raivosos entre si – Vô trazer uma muda da próxima veiz.
— Achu meió construí um galinhero! — opinou dona Mariana – Dorozinha comi ovu.
— Dorozinha? — perguntou Lina esquecendo do irmão por um momento – Ela te chamou de Dorozinha! — e sorriu – Que fofo, mamãe!
Doroteya ficou sem jeito.
— Tudo bem, eu fico. — disse a comandante relutante – Eu e Doroteya temos muito o que conversar…
A druidesa então ficou nervosa, se perguntando se Lina sabia do beijo. E foi só quando a comandante começou a comer que Doroteya se lembrou que ela quereria falar do ataque. Por algum motivo, isso a deixou mais relaxada.
Depois de alguns minutos, Pandora e os meninos desceram, já prontos para sair pela cidade.
Theo ficou muito feliz em ver sua mãe sentada na cozinha sem nenhum olho roxo ou pele vermelha.
— Mãe! — ele exclamou se atirando sobre ela – A senhora tá boa!
Doroteya fez uma expressão de reprovação para o menino e ele entendeu que não podia falar daquilo na frente dos pais de Lina. Mas os velhos estavam entretidos numa discussão sobre o que era melhor: uma videira ou um galinheiro.
— Estou bem, meu amor. Só um pouco cansada. Quero que você aproveite bem o dia hoje sem se preocupar comigo, certo?
— Certo!
Foi um pouco difícil para todos se acomodarem na mesa pequena da cozinha e Theo acabou comendo sentado no colo de Lina, já que a mãe estava com cólica. Logo estavam fazendo os planos para a manhã, que incluía uma visita à catedral e à feira da cidade. Depois almoçariam em casa, os idosos descansariam e a tarde fariam um passeio pelos canais.
— Tia, libera uma grana pra gente? — perguntou a adolescente na maior cara de pau.
— Você pensa que sou o quê? Um banco? — retrucou Lina.
— Não, acho que você é a melhor tia do mundo e que ama muito seus sobrinhos e vai liberar um dinheirinho para a gente tomar uns refrescos na praça. — e bateu as pestanas inocentemente para Lina. — Afinal, tá quente né? A senhora não quer ver Pietro desidratado!
— Eu desidrato fácil. — completou o menino.
Bufando, Lina procurou a bolsa de moedas e entregou algumas à menina.
— Para você e os meninos. — disse ela – E não comam besteira, pois eu farei o almoço e quero vocês três devorando a comida. Principalmente as verduras.
— Minha fia vai fazê o armoço? — perguntou sua mãe extasiada.
— Vou sim, mãezinha. Só porque amo muito vocês. — era de conhecimento geral que Lina detestava cozinhar, apesar de cozinhar muito bem.
— Que fia boa essa minha! — disse seu Sebastian antes de dar um beijo no rosto de Lina – Vai fazer um cumê bem bom!
— Vai nos matar intoxicados. — disse Tommy, que levou um beliscão da irmã.
Depois de que todos comeram, Doroteya subiu para o quarto com Lina em seu encalço. A druidesa já havia feito a cama antes de descer e a primeira coisa que fez foi deitar-se com uma careta de dor.
— Está tão ruim assim? — perguntou Lina puxando uma cadeira e sentando.
Doroteya fez que sim.
— Vou te dar uma de minhas poções e você começa a tomar. Esqueça essa história de minha mãe. Elas não vão te secar ou nada do tipo.
— Tudo bem. — disse.
Lina observou um momento, enquanto a outra ajeitava um travesseiro debaixo da cabeça e então perguntou:
— Por que diabos você se arriscou ontem?
Doroteya a encarou com seus imensos olhos cor de mel.
— TPM? — perguntou em um gracejo.
Lina não queria ter rido, mas não conseguiu se conter. Doroteya era fofa demais!
— Sério, Doro. — disse ela quando parou de rir – Se o que o Tommy me contou for verdade, você se arriscou demais.
— Ele estava perto de Theo! — exclamou – E de Tommy! E se ele estivesse indo atrás de você?
Lina sorriu gentilmente e alisou a cabeça de Doroteya.
— E se ele tivesse matado você? Como acha que eu me sentiria?
Doroteya desviou os olhos.
— Agora conte-me tudo. — exigiu – Só sei do caso pela versão do meu irmão chato.
Doroteya se pôs a contar tudo. Só não contou do beijo. Não sabia o que Lina pensaria dela se soubesse que estava trocando beijos com seu irmão querido. E se ela ficava com raiva e a expulsasse de lá? Ou pior, e se ela resolvesse que não queria mais trabalhar com ela? Isso a deixava temerosa. Por isso não contou do quanto amara estar nos braços de Tommy e o quanto desejava as carícias dele. Contou do ataque, com detalhes. E Lina pareceu satisfeita, ainda que reprovasse o ato dela.
— Ele deve ter realmente ficado apavorado com sua perseguição, mas isso pode tanto fazê-los desistir ou ficar com mais raiva. — analisou a comandante – Isso, é claro, se eles acharem que a worgenin atacante é a mesma que anda na Bastilha comigo. Com sorte, não vão pensar nisso. Desde que Guilneas caiu, a aparição de worgens descontrolados não é tão rara assim.
— Infelizmente… — murmurou Doroteya.
— Para nós, nesse caso, será felizmente. Precisamos agora saber se o que está preso faz parte do quarteto que atacou a Bastilha. Se for ele, teremos dois fora da jogada e um que foi atacado e pode desistir do plano. Resta um. — Lina se recostou a cadeira – Preciso passar os detalhes para Horatio e… — foi então que Lina lembrou – Ah, você terá um casamento para realizar! Se quiser, claro.
— Casamento?
Lina então contou a história de Lady Cláudia e Horatio, de como iam casar apesar de não poderem e ela estava grávida. Para sua surpresa, Doroteya desatou a chorar. Sem saber o que fazer, Lina ficou só a observando, boquiaberta.
— Com licença. — foi dizendo Tommy entrando com uma compressa – Eu vim trazer… Ei! Por que você está chorando, Doro?! — seus olhos se voltaram para a irmã – O que você fez?!
— Eu não fiz nada! — se defendeu Lina – Ela que começou a chorar do nada!
Tommy adiantou-se, sentou-se ao lado de Doroteya e a consolou. Colocou a cabeça da druidesa em seu ombro e ficou alisando seus cabelos e a acalmando. Pandora chegou naquele momento, segurando uma caneca de chá enviada pela sua avó para a druidesa.
— O que foi? — quis saber sem entender a cena.
— Eu também queria saber! — falou Tommy fuzilando a irmã com os olhos.
— Eu também queria! — retrucou Lina.
Doroteya respirou fundo, tentando se controlar e gaguejou:
— E-eles vão c-asar! M-mesmo sem p-poder! I-isso é tã-tão lindo! — e voltou a chorar.
— Ah! — exclamou Lina se sentindo um pouco mal – É isso…
— Por causa do casamento de Lady Cláudia e Horatio Lane? — estranhou Pandora se aproximando e fechando a porta atrás de si.
— Horatio Lane vai casar com Lady Cláudia?! — perguntou Tommy surpreso – Desde quando isso é possível? Ele é plebeu!
— Não é possível. — falou Lina fechando a cara – Mas eles farão mesmo assim…
Tommy entendeu e abraçou ainda mais Doroteya. Pandora encarou o tio e a mãe de Theo com a sobrancelha franzida. Ora, ora…
Depois que o choro de Doroteya arrefeceu, a druidesa se soltou um pouco do abraço de Tommy mas continuou pegada na mão dele.
— Desculpem… — murmurou limpando o rosto – Eu apenas me emocionei…
— Pela Luz, tome logo essas poções! — exclamou Lina – Não quero nunca mais ver um período seu!
Doroteya soltou uma risada seca.
— Tem razão…
— Aqui, seu chá. — disse Pandora entregando o chá a druidesa e dando uma boa olhada no rosto do tio, que nem a notou.
— Obrigada, Pandora.
— Pegue, isso também vai te ajudar a se sentir melhor. — e Tommy entregou a compressa quente – E descanse. Lina, deixe-a descansar!
— Pare de tentar mandar em mim, Tomilho! Você nunca conseguiu antes, não conseguirá agora!
Tommy bufou, mas se levantou. Olhou para Doroteya, de quem ainda segurava a mão e disse:
— Descanse. Não deixe minha irmã lhe endoidar.
— Obrigada, Tommy. — agradeceu a druidesa e apertou a mão dele antes de a soltar.
Tommy saiu do quarto, mas Pandora não o acompanhou. Deu uma boa olhada em Doroteya, que agora tomava seu chá, e perguntou, sem nenhum constrangimento:
— Desde quando tá rolando algo entre você e o tio Tommy, Doro?
Doroteya cuspiu todo o chá que estava em sua boca e ficou escarlate.
— Quê?! — perguntou Lina confusa olhando para a sobrinha.
— Como assim ‘quê’, tia? Ele estava quase colocando ela no colo e beijando na sua frente e a senhora não reparou que tava rolando algo?
— Deixe de coisa, Pãozinho! — Lina abanou a mão desinteressada – Não tem nada rolando entre Tommy e Doro, não é? — perguntou olhando para a druidesa.
Doroteya não conseguia falar e manteve a cabeça baixa, com o rosto em chamas.
Silêncio.
— Doro? — chamou Lina.
— Foi só um beijo! Eu juro! — confessou a druidesa querendo sumir.
— Quêêê??? — gritou Lina se levantando da cadeira num pulo.
— Ahá! Eu sabia! — riu-se Pandora batendo palmas – Caraca, eu sou muito incrível! Descobri dois romances secretos em menos de vinte e quatro horas!
— Eu não tenho um romance secreto! — defendeu-se Doroteya antes de processar a fala da garota – Peraí… Dois?
— O da tia e do rei Varian. — ela soltou uma risadinha – Eu e Pietro descobrimos ontem desse caso… — e piscou o olho para Lina.
— Como assim ela e Pietro sabem? — perguntou Doroteya mais abismada ainda.
— Como assim você beijou meu irmão?! — perguntou Lina ainda não recuperada do susto.
— Ora tia, tio Tommy é muito gostosinho… — gracejou a menina.
— É sim… — murmurou Doroteya sorrindo sem jeito.
— Você acha meu irmão gostosinho?! — Lina não conseguia processar ainda o que ouvia.
O medo de Doroteya voltou com força total e ela tentou se aclamar. Tomou mais um gole do chá, tentando pensar no que dizer ao mesmo tempo que suas cólicas pioravam sensivelmente.
— Lina, não fique chateada comigo… — murmurou – Eu não sei bem o que houve… To confusa ainda… Não sei o que eu sinto… Não sei o que ele sente…
— Pelo que vi vocês sentem mó vontade de se comerem. — falou Pandora animadamente.
— Pandora, vou quebrar seus dentes! — ameaçou Lina com o punho fechado – Deixe Doroteya falar! — e olhando para druidesa cruzou os braços – Desembuche!
Doroteya acabou falando tudo. Do sonho, de vê-lo e desejá-lo e do beijo do dia anterior antes que ela saísse correndo atrás de um dos assassinos contratados para matar Lina.
— Eu não sei o que estou sentindo… É confuso demais… — confessou.
— Oh, minha Luz, você está apaixonada por ele! — exclamou Lina incrédula.
— Eu não sei! — insistiu Doroteya.
— Está sim! Dá pra ver na sua cara! — e foi quando Lina abriu um imenso sorriso – Que maravilha! Você e Tommy! Apaixonados um pelo outro! — a alegria de Lina era resplandecente.
— Nós não estamos… — Doroteya começou a dizer, mas se interrompeu – Espere. Você não está chateada? — perguntou confusa.
— Claro que não! É a melhor coisa que poderia acontecer!
— Concordo, tia! — disse Pandora abraçando a tia – O amor está no ar!
— O amor está no ar! — exclamou Lina retribuindo o abraço da sobrinha, antes de completar – Isso é bom demais para ser verdade, minha Luz! Tommy saindo da viuvez, você saindo da viuvez! E para completar, Lícia e Linda vão se roer de raiva! Tommy se apaixonou pela minha amiga e não pela amiga delas!
Doroteya teve a impressão que aquele era o verdadeiro motivo, mas isso não a impediu de rir, aliviada. Claro, ainda achava que Lina e Pandora estavam exagerando, mas ficava satisfeita de saber que, caso acontecesse algo mais entre ela e Tommy aquilo seria bem-aceito. Pelo menos por aquelas duas.
— Agora me conte tudo. — disse Lina sentando-se novamente – Quero saber de tudo!
— Mas eu já contei! — lembrou Doroteya.
— Quero detalhes! — exigiu a outra.
— Também vou querer saber quando eu voltar. — disse Pandora se dirigindo à porta – Tenho o dinheiro da tia Lina para gastar!
Lina nem se importou com o gracejo da garota, só tinha olhos para Doroteya. Esta por sua vez, ficou preocupada com o que Pandora poderia falar por ai, principalmente para Theo.
— Pandora, não conte nada a ninguém por enquanto, por favor. — pediu Doroteya – Afinal, eu nem mesmo sei o que está acontecendo.
— Tudo bem, tia Doro. Minha boca é um túmulo! — e fez um gesto de fechar a boca com um zíper antes de sair do quarto.
Doroteya encarou Lina, que sorria feito uma boba.
— Ela me chamou de tia? — perguntou sem acreditar.
— Sim, chamou. Mas esqueça dela e me conte os detalhes. — e puxou a cadeira para perto de Doroteya – E lembre que depois você vai ter que contar a Arshe. Pela Luz, ela vai desmaiar de tanta alegria!
— Vocês estão com muita expectativa… — murmurou Doroteya voltando par ao chá que tomava – Talvez nada aconteça, já pensou?
— Deixe essa conversa para lá e me conte tudo. Desde quando você acha meu irmão gostosinho?
Doroteya soltou uma risada e ficou escarlate. Seria uma manhã bem longa.
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