Herdeiros da Guerra

43 Capítulo XXVI - A coroação (Parte V)


Notas iniciais
Mais uma parte! E, na próxima (que eu pretendo não demorar a postar porque estarei de férias), teremos casamento, coroação e muita, MUITA, emoção! Não percam!

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As ruas de Luaprata mal ficaram iluminadas com a luz da manhã e já era possível ver Halduron Asaluz, o general-patrulheiro, em seu falcoztruz verificando os postos de seus patrulheiros e também as defesas para a coroação, que seria em quatro dias. Qualquer um que o observasse poderia supor que a dedicação à sua raça e à sua rainha era o motivo pelo qual estava tão cedo trabalhando. Essa era parte da verdade.

A outra era que ele não conseguira dormir com os gritos.

Os gritos em sua cabeça.

Os gritos de todos os elfos mortos pelo Flagelo.

Mais de uma década e ele não conseguia tirar os gritos de sua mente. Enquanto seu amigo Lor’themar parecia ter achado na regência e depois na figura da princesa Ashrial um consolo para suas dores, ele simplesmente não conseguia. Não tinha nenhum membro da família vivo, diferente do lorde regente e de Rommath. Não tinha nenhum amor a que se segurar. Apenas Luaprata e seu povo o mantinha vivo. Reerguer Luaprata. Manter seu povo a salvo. Sem isso, não haveria motivos para continuar aguentando aqueles pesadelos que o atormentavam tanto.

Claro, já havia tentado de tudo para aplacá-los. Poções. Bebida. Mana. E até ervas trólicas que muitos desaprovavam. Essas coisas ajudavam por um tempo. Mas os gritos voltavam. E continuariam voltando e voltando sempre, ele sabia. Por isso preferia ficar acordado e trabalhando. Luaprata precisava dele e seu povo também.

Assim ele passou uma boa parte da manhã. Vistoriando e analisando. Quando finalmente sentiu alguma fome, se dirigiu novamente a Torre Solfúria. Halduron tinha planos de se mudar em breve, pois as coisas estavam se tornando cada vez mais íntimas e isso o incomodava. Desde que as princesas foram para lá e Lor’themar e Rommath estavam perdidos em seus amores, sentia-se sobrando em toda a nova dinâmica do local. E claro, ter que ficar encarando Vivithi e Luxuriah a todo o momento o deixava totalmente constrangido. Sim, tinha que providenciar sua mudança o mais rápido possível.

Voltou para a torre e foi até seu quarto, de onde pediria para algum servo trazer uma refeição. Ele nunca comia com as princesas. Seria constrangedor demais. Foi então que percebeu um envelope roxo em cima da sua cama. Uma carta do Kirin Tor, pensou estranhando a correspondência. Pegou o envelope e quando viu de quem era a carta, estranhou ainda mais.

O que Vereesa Correventos quereria com ele?

O desejo pelo bem-estar de seu povo que o mantinha vivo era permeado pela esperança de que os sin’dorei pudessem reatar seus laços com os quel’dorei. Afinal, eram um povo só. Não havia motivo para aquela divisão. Todos os ressentimentos que os mantinham afastado só ajudavam para que os elfos, uma raça agora tão diminuta, findassem por desaparecer de Azeroth. Era algo que ele queria evitar a todo custo.

Abriu o envelope e leu a missiva rapidamente, sem acreditar. Veressa queria vê-lo. O mais breve possível. Dizia que tinha coisas a discutir com ele. A esperança transbordou por seu peito e Halduron finalmente sorriu. Esqueceu-se da fome que sentia, dos pesadelos, da noite insone, e foi em busca do lorde regente, que, naquele momento, devia estar com a rainha em mais uma de suas aulas. Então se dirigiu a sala de reuniões.

Ao passar pela sala de estar, pode ver a princesa Ashrial lá fora treinando com o arco concentradamente. Bom, assim Lor’themar não ficaria distraído em sua presença. Se seu velho amigo soubesse como parecia um bobo por causa daquela menina… Halduron suspirou. Lor’themar devia ter procurado uma elfa mais velha. Aquilo era… Estranho.

Pode ver que além de Ash, Tewdric e Kassyeh estavam na área de treinamento. Ruborizou um pouco ao ver a maga. Malditas poções de Rommath! A elfa andava atraindo atenção tanto de elfos quanto de elfas e isso, com certeza, não era saudável para ninguém, principalmente porque o marido orc dela estava concentrado em afiar machados. Sim, machados. Havia, pelo menos, uma dúzia no chão ao redor do guerreiro e ele os afiava com uma cautela imensa, enquanto conversava com a esposa e com a cunhada. Desviou o olhar antes que algum deles o visse,

Chegou em frente a sala de reuniões e respirou fundo. Sabia que teria uma discussão acalorada com Lor’themar. O lorde regente odiava Vereesa. Mas a carta que recebera lhe dera, pela primeira vez desde a cisão de seu povo, uma esperança concreta que nem tudo estava perdido. Talvez aquilo contribuísse para o fim dos gritos. Essa perspectiva o deixara animado ao ponto de ir até ali sem pensar duas vezes. Empurrou as portas e entrou. Na mesma hora se arrependeu. Luxuriah estava lá. Seu ânimo mingou. Com ela presente, as coisas não seriam tão fáceis.

Halduron não sabia que as coisas ali dentro estavam um pouco tensas. Karen estava dando mais trabalho que o normal para se concentrar. A menina queria aproveitar o dia de sol com Tewdric, Kassyeh e Ash e não tentar fazer ‘uma coisa de rainha’, como Lor’themar pacientemente pedia. Além destes, Vivithi também estava lá. O ânimo de Halduron ficou subterrâneo. Porém, já havia aberto as portas e todos os olhares recaíram sob ele imediatamente. Não tinha mais como voltar atrás.

— Majestade. Alteza. — disse ele fazendo uma reverência para Karen e Luxuriah.

— Oi Halhal! — devolveu Karen animada fazendo um aceno para ele.

Halhal? Aquilo era novidade para Halduron. Mas até que gostou do apelido. Sorriu para a menina, que retribuiu afetuosamente.

— Ora, ora, General patrulheiro. — Luxuriah tinha um riso de deboche – Há quanto tempo…

Vivithi tinha um ar de riso também e Halduron teve vontade de simplesmente sair da sala e deixar tudo para lá. Não gostava de estar no mesmo lugar com Luxuriah. Nem com Vivithi. Com as duas juntas era ainda pior. Aquilo lhe trazia péssimas recordações do que considerava ser a pior noite de sua vida, cujas lembranças estavam embaçadas, mas ainda eram muito constrangedoras.

Lor’themar desviou um pouco da atenção de Karen para Halduron. O elfo estava sério, apesar de constrangido, e trazia nas mãos uma carta com o selo do Kirin Tor. Aquilo fez o lorde regente entrar em alerta na mesma hora.

— O que deseja, Halduron? — perguntou Lor’themar, tomando a dianteira.

— Venho pedir autorização para uma visita a Dalaran. — começou ele com cautela – A líder do Pacto de Prata, Vereesa Correventos, solicita uma audiência para tratar sobre nossas relações.

A expressão de Luxuriah mudou de divertimento para raiva pura. A princesa se ajeitou na poltrona e colocou a mão na barriga volumosa com uma careta. Halduron não sabia se o desconforto dela fora por causa do que pedira ou por causa do seu estado.

Lor’thmar e Vivithi se entreolharam rapidamente. Ambos sabiam da ida de Ash a Dalaran, mas nem Halduron, nem Karen e muito menos Luxuriah estavam cientes disso. O que Vereesa queria com o general-patrulheiro poucos dias após a ida de uma das princesas a Dalaran? As coisas, com certeza, estavam relacionadas.

— Essa Vereesa é aquela que lidera uma parte do povo que brigou com você, Temma? — perguntou Karen interessada.

— Sim, é.

— Será que ela quer fazer as pazes? — a animação de Karen era evidente. A menina agora se colocara de joelhos na cadeira e com as mãos apoiadas na mesa.

— Duvido muito. — retrucou Luxuriah, com fúria em seus olhos e passando a mão na barriga – Ela nos odeia.

— Vereesa não é alguém que mudaria de opinião tão fácil, Karen. — explicou Vivithi – Faz pouco tempo que ela foi expulsa de Luaprata.

— A gente não sabe se mudou né? — continuou a menina sem desanimar – Ela pode ter sabido que eu vou ser rainha e querer conversar comigo, né?

— Só saberei quando eu for até lá, majestade. — disse Halduron torcendo para trazer a jovem rainha ao seu lado.

O olhar de Luxuriah agora era apenas ódio na direção de Halduron. Ela abriu a boca para dizer algo, mas foi prontamente cortada por Karen, que bateu com as duas mãos na mesa e gritou, animada:

— Pode ir!

Houve um momento de surpresa de todos e depois Halduron sorriu para a rainha. Sua alegria não era compartilhada com os demais. Era visível que ninguém, exceto ele, estava satisfeito com a fala de Karen. Porém, uma vez que a menina dissera aquilo, nem mesmo sua irmã poderia retirar a ordem. Se o fizesse, era demostrar que Karen não tinha autonomia para reinar, algo que ninguém naquela sala jamais cogitaria fazer.

— Pronto Temma! Fiz uma coisa de rainha! — Karen pulou da cadeira para o chão — Tô no intervalo agora! — e saiu correndo da sala tão rápido que ninguém teve tempo de dizer nada.

Após a saída de Karen, o clima ficou ainda mais tenso. Luxuriah se levantou com dificuldade, caminhou até Halduron e tirou a carta de Veressa das mãos dele. O elfo não protestou. Ela leu as poucas frases antes de encará-lo e devolver a missiva, empurrando-a em seu peito. Andou pela sala, com a mão nos quadris, seu desconforto ficando ainda mais visível. Era provável que o bebê nascesse antes mesmo da coroação de Karen, pensou Halduron. Rommath ficaria muito feliz.

— Sei que vocês estão insatisfeitos com isso. — começou ele em tom conciliador – Mas eu acredito que-

— Foda-se o que você acredita! — gritou Luxuriah enraivecida – Aquela vaca da Vereesa saiu daqui nos amaldiçoando e agora quer ficar de conversinha com você?! Para quê?!

— Eu não sei, alteza. — respondeu calmamente – Mas acho um bom presságio.

Lor’themar e Vivithi discordavam, mas não podiam dizer nada sem revelar a Luxuriah o que Ash fizera. O ideal era esperar Luxuriah sair para que pudessem conversar com o general-patrulheiro.

— Bom presságio?! — Luxuriah caminhou até ele – Sabe o que foi um bom presságio? Eu ter vomitado em cima de você naquela noite sem conseguir montar em seu pau!

Vivithi deu uma sonora gargalhada e Lor’themar colocou a mão no rosto, satisfeito de Karen ter fugido sem precisar ouvir aquilo. Na verdade, ele queria fugir também.

O rosto de Halduron ficou muito vermelho por um momento enquanto o elfo processava o que ela dissera.

— Como disse? — perguntou sem querer acreditar no que ouvia.

— O que você ouviu, idiota! — Luxuriah esbravejava – Eu estou muito feliz de não ter trepado com você! E pensar que me senti mal em ter te vomitado!

Anos atrás, quando Luxuriah ainda não havia se envolvido com Rommath, Vivithi convencera Halduron que devia ajudar Luxuriah, fazendo sexo com ela. Obviamente ele recusara. Ela era jovem demais e traumatizada demais. Porém, Vivithi o enganara. O chamara para fumar narguilé e tomar vinho e, em determinado momento, ele ficou tão bêbado que, quando deu por si, estava nu com Luxuriah ao seu lado. Não lembrava mais de nada depois. Só que acordara no outro dia com uma ressaca dos infernos e muito vômito em cima dele. Obviamente, achara que havia transado com Luxuriah e vomitado em si mesmo. Ficara tão constrangido que até aquele dia evitava ficar no mesmo ambiente que Vivithi ou Luxuriah. Claro, o fato de Vivithi cobiçar seu posto deixava as coisas ainda piores.

Porém, agora Luxuriah estava dizendo que fora ela quem vomitara e que nada havia acontecido?! Essa notícia era melhor do que a carta de Vereesa! Não conseguiu esconder a alegria, o que irritou ainda mais Luxuriah. Talvez essas boas notícias lhe dessem uma boa noite de sono, depois de tanto tempo.

— Não aguento mais olhar para sua cara! — disse a princesa com as mãos nos quadris – Vamos Vivithi! Vamos embora!

Prontamente a patrulheira se levantou e acompanhou Luxuriah até a porta. Só que havia ainda mais uma coisa que Halduron queria saber.

— Espere princesa. — pediu educadamente tentando agora parecer menos feliz – Se nada nunca aconteceu entre nós, porque você insistia em dizer que acontecera?

Foi a vez de Luxuriah rir.

— Porque era divertido ver sua cara desesperada.

E saiu da sala.

Halduron devia ficar com raiva, mas estava aliviado demais para isso. E agora fazia sentido também porque Rommath nunca quis arrancar sua cabeça, apesar de ele ter transado com Luxuriah. Era porque nunca transara. O mago devia saber, já que se acabava de rir quando Luxuriah o provocava. Rommath infeliz!

— Desculpe acabar com seu momento de felicidade, Halduron – começou Lor’themar – Mas gostaria que você sentasse para eu te contar o real motivo da carta de Vereesa.

O sorriso se esvaneceu mais uma vez do rosto de Halduron.

— O que aconteceu? — perguntou enquanto se sentava.

Lor’themar então contou a Halduron sobre a posição de Aethas no Kirin Tor, a mensagem de envio de Vereesa e Rhonin e como Ash fora a Dalaran impedir a visita do humano numa época tão frágil para sua irmã. Após ouvir todo o relato, incluindo como a visita de Ash se desenrolara, ele suspirou, entristecido.

— Eu sabia que era bom demais para ser verdade… — murmurou entristecido.

— Todavia, pensando bem agora, esse pedido dela é bom. — comentou Lor’themar se encostando na cadeira – Saberemos a posição oficial do Pacto de Prata referente a coroação de Karen.

— Verdade. — a esperança voltou a Halduron – A princesa Ashrial pode ter despertado simpatia em Vereesa.

Lor’themar sabia que não tinha sido assim, mas preferiu não arruinar ainda mais os sonhos de Halduron. Afinal, ele também sabia da mentira de Luxuriah e Vivithi e contribuíra para deixar o elfo constrangido. Era o mínimo que podia fazer para reparar seu erro.

Mas, é claro, Halduron não precisava saber daquilo. Que tivesse seu momento de alegria preservado.

— Quando pretende ir? — perguntou Lor’themar.

Halduron se levantou.

— Agora mesmo.

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Faltavam apenas dois dias para o baile de Dalaran e para o casamento de Lady Cláudia e Lina já estava quase arrancando os cabelos. Aqueles dias estavam colocando sua sanidade à prova. Primeiro, seus pais. Dar atenção aos idosos não era problema, mas demandava tempo. Tempo em que ela estava afastada da Bastilha e não podia caçar quem a estava caçando. Nem saber como estavam as coisas. E sem poder visitar Varian! Pois, mesmo com todos se esforçando para deixar dona Mariana e seu Sebastian a vontade, era Lina quem os levava a todos os lugares que queriam ir, para desgosto de Tommy. Seu irmão recebera muito trabalho naqueles dias e estava tão ou mais ocupado que Lina. Pietro, Pandora e Theo acompanhavam todas as visitas, dando ainda mais trabalho para a comandante, que só aguentou aquela situação toda porque Doroteya estava ao seu lado, impedindo-a de ter um colapso. Ou matar Pandora.

A druidesa começar a tomar as poções que Lina indicara e em poucos dias estava bem e sem nenhum sinal da irritação e da sensibilidade de antes. Isso permitira que ajudasse Lina, mas nenhuma das duas ainda tivera tempo de ir na conversar com Arshe e Doroteya se perguntava se teria o que contar no final das contas. Porque ela e Tommy ainda não tinham tido nenhuma oportunidade de conversar sobre o que acontecera com eles e a druidesa se perguntava se ele não estava evitando-a. Dividiu seu medo com Lina e o que ouviu foi:

— Pelo amor da Luz, ele olha o tempo todo para você como se fosse te sequestrar a qualquer momento! Quando papai e mamãe forem embora, vocês terão tempo de conversar.

Apesar da correria, Lina tinha que admitir que foram dias cansativos, mas felizes. Seus pais gostaram tanto de Doroteya quem nem perceberam que ela era mãe de Theo e que o menino não era seu neto. Ou simplesmente perceberam e não se importaram. Dona Mariana e a druidesa trocaram receitas, apesar de a idosa passar a maior parte do tempo tentando convencê-la que devia comer carne, porque não era saudável comer “só mato”. Doroteya apenar sorria e não discutia com a idosa. Tommy, junto com o pai, construiu o galinheiro que dona Mariana insistia que a casa precisava. Lina ficara surpresa que no seu quintal coubesse tanta coisa, e sabia que isso era graças à habilidade de engenharia de seu querido irmão.

Não era só Doroteya que queria conversar com Tommy. Lina também queria. Amava o irmão, mas tinha que ter certeza que ele não brincaria com os sentimentos da amiga. Afinal, só a Luz sabia o que a druidesa tinha sofrido com Liam e não era justo sair de uma enrascada e cair em outra. Só tivera um momento para falar com ele longe dos ouvidos de todos e foi um papo muito curto.

— Doroteya me contou o que aconteceu entre vocês. — foi dizendo.

Tommy, que estava martelando o galinheiro, meteu o martelo no dedo e deu um grito de dor. Colocou o dedo na boca e olhou para a irmã, sem acreditar.

— Ela confia muito tem você para te contar de Theo. — continuou enquanto dona Mariana vinha de dentro da casa saber porque o filho gritara – Faça por onde merecer essa confiança e não brinque com os sentimentos dela.

E saiu antes que ele dissesse qualquer coisa. O dedo de Tommy foi curado em seguida e tudo ficou bem.

Porém, quem estava mais feliz com tudo era, sem dúvida nenhuma, Pietro. O menino estava amando morar em Ventobravo e com a tia. Em poucos dias ele já parecia mais saudável do que quando chegara. Além disso, Theo amava ter um amiguinho para brincar, ainda que as brincadeiras fossem limitadas pela mobilidade reduzida de Pietro. Mas aquilo não importava. Eles se divertiam tanto que Lina percebeu que mandar seus sobrinhos de volta à fazenda seria um golpe não apenas para Pietro e Pandora, mas especialmente para Theo. Por isso, quando chegou o momento de os idosos irem embora, deixou claro que os meninos não voltariam com os avós.

— Issu vai dá confusão, Quengacilina… — disse dona Mariana preocupada.

— Deixe que eu me preocupo em resolver, mãezinha.

Estavam em frente a mesma carruagem que trouxe todos antes e que agora levaria apenas os pais de Lina de volta a fazenda.

— Minha carta para Varão vai explicar tudo. — Tommy tentou acalmar a mãe – Com sorte, ele vai entender e os meninos ficarão sem problemas.

— Se ele achar ruim, mande vir resolver comigo. — falou Lina cruzando os braços.

— Taí, queria ver isso! — comentou Pandora animada.

— Deixi di pô lenha na fuguera, Pandora! — ralhou a avó.

Pandora apenas deu de ombros.

Dona Mariana então se voltou para a filha mais nova. Aqueles dias haviam transcorrido de uma forma que nenhuma das duas jamais haviam imaginado. Mãe e filha, pela primeira vez, estavam conectadas. Lina nunca pensara que se tornaria próxima da mãe e percebeu, com surpresa, que era muito bom. Elas tinham mais em comum do que imaginava. Afinal, todos sempre disseram que Lina parecia mais com o pai e ela aceitara aquilo sem questionar. Contudo, agora, sabendo que compartilhava mais que os olhos verdes com a mãe, lhe dava uma sensação desconcertante, porém incrível. Quando comentara aquilo com Doroteya, a druidesa disse:

— Ora, é óbvio que seu poder de mandar em tudo você herdou de sua mãe. Seu pai pode ser bruto, mas sempre baixa a cabeça. Ainda que resmungando. Além do mais, você gosta de cuidar dos outros. Do mesmo jeito que ela. Você é uma mãezona também. — e riu.

Era tão óbvio que Lina se perguntou porque nunca percebera antes. E agora, frente a frente com a mãe, conseguia ver além da distância que impusera entre elas. A via com os olhos de uma filha que realmente amava a mãe. Sempre amara, mas nunca tinha percebido aquele amor.

— Foi muito bom ter vocês aqui. — disse a comandante com sinceridade, segurando a mão do pai e da mãe – Voltem com mais frequência.

— Minha fia, ocê me deixou muito filiz. — disse dona Mariana com lágrimas nos olhos – Eu visitei o turmulu dus rei, andei qui só aqui… Agora possu morrê im paz!

— Deixe de besteira, mãe! — ralhou Lina – A senhora ainda vai viver muito!

— Tenhu qui vivê muito mermo, prumode vê ocê casá e tê mininu! — continuou a senhora.

— Affi Marizinha, a Lina num vai casá nunca! — criticou o seu Sebastian – Eu num deixo.

— Ok, deixem esse assunto de lado. — cortou a comandante.

— Lina, me dá espaço! — pediu Mel afastando a irmã com o quadril para abraçar os pais.

Mel e Fey se despediram dos pais com entusiasmo, fazendo-os prometer que usariam as roupas que eles fizeram, não apenas para ir à igreja, mas para ficarem bem-vestidos todos os dias. Tommy se adiantou logo depois.

— Vou sentir saudades… — disse abraçando a mãe.

— Tumbém meu fí. — disse a mãe.

— Arrumi logo uma namorada! — ordenou o pai abraçando-o também.

Tommy se controlou para não virar para trás e encarar Doroteya. E quando esta se adiantou, foi abraçada com carinho.

— Vá visitá nós. — pediu a senhora.

— Irei, com certeza. — garantiu.

— Tchau, vô e vó! — Theo se atirou sem nenhum constrangimento dos braços deles, que riram e fizeram carinho na cabeça do menino – Voltem logo! O vô precisa me ensinar a fazer vinho!

Seu Sebastian riu.

— Ocê vai tê que ir na fazenda, meu netim! Lá qui tem as coisa pra gente usá!

Pietro e Pandora foram os últimos a se despedirem.

— Num vão dá trabaio à tia de vocês. — recomendou a avó – Ela já trabaia muito e num pode sê babá!

— Pode deixar vó. — falou Pandora – Vamos nos comportar direitinho.

— Quando seu pai concordá cá mudança, mando arguém deixá as coisa de ocês. – completou o avô.

— Obrigado, vô. — agradeceu Pietro.

Lina se surpreendeu quando seus olhos se encheram de lágrimas ao ver a carruagem com seus pais partir de Ventobravo. Tinha esquecido como era bom ser cuidada e paparicada pelo pai. E a nova intimidade com a mãe era reconfortante. Mas agora que eles se foram e as férias estavam oficialmente encerradas, era hora de cuidar de algo que estava incomodando-a muito.

Mel e Fey logo se despediram deles e voltaram ao ateliê. Tinham que terminar todas as encomendas para o casamento de Lady Cláudia e ainda havia a última prova do vestido de Arshe, que aconteceria no dia seguinte. E assim que os demais colocaram os pés dentro de casa, Lina anunciou:

— Preciso ir a Dalaran.

— Para quê? — perguntou Tommy preocupado.

Agora, toda vez que sua irmã saia de casa, ele ficava com o coração na mão e só sossegava quando ela voltava. Adquirira o hábito de conferir a casa toda antes de dormir e seu sono estava entrecortado e agitado nos últimos dias. Chegou a pensar em dormir na porta do quarto da irmã, mas achou que seria um pouco demais. E agora que ela voltaria ao trabalho, seria ainda pior.

Estava na hora de adquirir a nova espada.

— Preciso ver os preparativos para a proteção do baile. Não quero que a segurança de Arshe seja comprometida. — explicou.

Era impressionante como sua irmã ignorava completamente a própria segurança, pensou Tommy em pânico. Mas depois se acalmou. Ela ia a Dalaran. Com certeza quem quer que estivesse caçando-a não estaria esperando na cidade mais segura do mundo.

Foi quando percebeu que teria tempo para conversar com Doroteya.

Fazia tempo que tentava falar com ela. Porém, a atenção da druidesa estava sempre em outra direção. Primeiro, as dores da menstruação, depois a atenção que dava aos seus pais e a Theo e o que sobrava do tempo, tentava acalmar sua irmã, que parecia sofrer de uma abstinência crônica do trabalho. E assim eles passaram os dias, conversando com o olhar, encabulados, sabendo que, em algum momento, as palavras sairiam voando de suas bocas. O que elas diriam?

— E quando você vai? — quis saber seu irmão.

— Hoje.

— Eu quero ir! — anunciou Pandora, antes de olhar para o irmão e corrigir – Ou melhor, queremos ir!

— Vocês não podem ir! — respondeu Lina imediatamente.

— Por que não? — questionou Pandora.

— Vocês não têm o que fazer lá!

— Temos sim! Conhecer a cidade! Pietro sempre quis ir lá!

— Não use seu irmão para conseguir o que você, Pandora! — reclamou a tia.

— Mas tia… — Pietro olhou para a tia com lágrimas nos olhos – Eu queria tanto conhecer Dalaran…. — e fez beicinho.

Lina ficou sem palavras e logo seu rosto estava vermelho e não se sabia se era de raiva ou de vergonha.

— Tá bom! — explodiu a comandante – Eu levo os dois! Mas não vou poder ficar com vocês! Vão ter que se virar! — e saiu batendo o pé – Se aprontem que saímos em uma hora! — gritou de cima da escada.

Quando a tia saiu da sala, Pietro limpou as lágrimas e sorriu para a irmã, fazendo um “joinha” com o polegar. Tommy caiu na risada.

— Vocês são impossíveis mesmo! — exclamou.

— Dalaran! — gritaram os irmãos empolgados.

— Dalaram é aquela cidade voadora? — perguntou Theo olhando para a mãe.

— Sim, é. — respondeu ela.

— Você não quer ir com a gente, Theo? — chamou Pietro.

Theo fez que não com a cabeça vigorosamente.

— Mãe disse que lá tem muita gente e pouca árvore. — disse o menino como se fosse a coisa mais assombrosa que existisse pra ele. E talvez fosse mesmo.

— Trarei algo para você de lá então. — prometeu o menino.

— Traga histórias! — pediu Theo.

Todos riram. Theo era alguém que precisava de pouco para ficar feliz.

— Será que Lina vai querer que eu vá? — perguntou a druidesa com o dedo na bochecha – Ela não falou nada…

— A tia não vai a nenhum lugar sem você, tia Doro. — riu-se Pandora – Acho difícil ela te deixar.

O ânimo de Tommy mingou. Com certeza a irmã levaria Doroteya. As duas não saiam uma sem a outra. Talvez fosse até melhor, pensou. Alguém ficaria de olho na louca da Lina. Talvez começasse a chamá-la de Linouca. Riu com o pensamento.

Espere, Pandora chamou Doro de tia Doro? Olhou para a sobrinha surpreso, mas esta estava animada demais que nem notou o olhar abismado dele.

— Então o que faremos Tommy? — perguntou Theo animado – Seremos só nós dois.

Sentindo-se um pouco melhor, afinal, adorava ficar com Theo. Pensou então no que fariam. Talvez fosse hora de finalmente comprar sua espada. Também aproveitaria para comprar uma espada de aprendiz para Theo. Tinha a sensação que ele seria um excelente aluno. Seria difícil falar com Doroteya sobre o progresso do menino, sabendo que iria preocupá-la mais que orgulhá-la. Talvez ela se acostumasse com o tempo. Precisava também falar com um corretor de imóveis. Sua casa antiga precisava ser vendida. Estava formulando alguns planos em sua cabeça e precisava daquele dinheiro. É, teriam um dia cheio.

— Vamos sair e fazer resolver umas pendências. – disse – Almoçaremos numa taberna. O que acha?

— Oba!! — exclamou o menino.

Uma hora depois, todos tinham tomado seus destinos. Doroteya obviamente foi com Lina, Pandora e Pietro para Dalaran, enquanto Theo e Tommy foram ao mercado da cidade. Para chegar até a cidade voadora, a comandante e seus acompanhantes foram até a Torre dos Magos em Ventobravo. Não queria estressar Arshe dizendo que ia verificar a cidade. A jovem pensaria que ela estava indo para caçar Kayliel, o que não era uma má ideia, só não era o real motivo de ir até lá. A questão era que Lina não confiava no Kirin Tor. Nenhum pouco.

Assim que chegaram na mesma torre onde Ash aportara dias atrás, Lina ajudou Pandora a descer com Pietro pelas escadas que, assim como a princesa élfica, ficou bestificado com a cidade. Pandora também a achou linda, mas foi logo dizendo:

— Ventobravo é mais bonita.

— Claro que é. — respondeu Lina – Agora, vamos estabelecer algumas normas. — avisou colocando as mãos na cintura – Não vão até os esgotos da cidade. Lá só tem ladrão e assassino. E a cadeira de Pietro ficaria cheia de lama. Não tentem entrar no Santuário Fendessol. Lá é território da Horda, vocês serão teleportados para fora e ficaram bem tontos e enjoados. Acreditem. Eu já tentei. — e franziu a testa lembrando o quanto ouviu de reclamação de Bolvar Fordragon por aquilo – Vou dar dinheiro para vocês almoçarem, porque não sei que horas eu e Doro estaremos livres. Não gastem com bobagem! Almocem comida de verdade e não doces! — e deu umas moedas aos dois – E podem visitar Lícia se quiserem. A casa dela é-

— Mas eu não irei mesmo! — cortou Pandora – Ela é chata pra cacete!

— E os filhos dela são um porre! — completou Pietro.

— Tudo bem, então aproveitem a cidade. — Lina deu um beijo em cada um – E lembrem das minhas recomendações! Nos encontramos aqui quando tudo terminar.

— Até mais meninos! — se despediu Doroteya.

Os dois acenaram para elas enquanto se afastavam na direção da Cidadela Violeta e Pietro olhou para a irmã.

— Vamos tentar no território da Horda? — perguntou com os olhos brilhando.

— Mas é claro! — respondeu Pandora começando a empurrar a cadeira do irmão – E depois, esgotos!

— Uhull!!! — comemorou o menino.

Os dois estavam tão animados que nem notaram que chamavam atenção. Afinal, um menino numa cadeira de rodas não era comum, muito menos em Dalaran. Mesmo que tivessem notado, dificilmente os dois se importariam com aquilo. Terem saído da fazenda fora ótimo. Não precisarem voltar para lá fora excelente. Visitar Dalaran era indescritível! Tudo que queriam era se divertirem e olhar cada pedacinho da cidade Voadora.

Quando chegaram em frente ao Santuário Fendessol, ficaram algum tempo olhando para ele, um pouco intimidados para os guardas sin’dorei. Os estandartes da Horda tremulavam e, por um momento, quase perderam a coragem. Mas aí viram um anão bêbado, saindo de uma taverna e indo direto para o território da Horda com as pernas cambaleantes. Primeiro, ele tentou entrar, sumiu por instante e voltou mais cambaleante ainda. Para a surpresa dos meninos, o anão simplesmente vomitou no estandarte da Horda, ali mesmo, em frente aos guardas. Depois, fez um gesto bem rude com o braço e saiu rindo. Os guardas da Horda não pareciam nenhum pouco surpresos. Se entreolharam, deram de ombros e foram tirar o estandarte sujo.

— É agora! – avisou Pandora com as mãos no suporte da cadeira de Pietro, como se estivesse pilotando uma motoca – Segura firme!

E correu em direção ao Santuário Fendessol.

Foram transportados de volta a entrada logo em seguida, tão tontos que a menina teve que se segurar para não cair. Depois que a leseira passou, olharam um para o outro e caíram na risada.

— De novo? – perguntou a menina.

— Com certeza! – exclamou Pietro apertando os braços da cadeira – Pisa fundo!

Fizeram aquilo tantas vezes que perderam a conta. Nem perceberam que os guardas tinham voltado, trocado o estandarte por um limpo e agora riam das tentativas das duas crianças da Aliança. Aquela cena era mais comum do que muitos acreditavam.

Depois que aquilo perdeu a graça para os irmãos, eles compraram alguns doces, verificaram quanto de dinheiro ainda tinham e foram em busca da entrada dos esgotos.

— Deve ser aqui… – comentou Pandora quando chegaram a uma abertura ao lado da Plataforma de Krasus – O cheiro não nega…

— Não tem escadas! – exclamou Pietro animado – Vamos logo!

— Calma, que parece meio inclinado demais… Mas é melhor que escadas…

Pandora começou a conduzir a cadeira de rodas pelo esgoto com cuidado, pois o local era escorregadio e íngreme. Demorou um pouco mais de tempo que as pessoas que passavam por eles, mas conseguiram chegar até onde passava um canal de água malcheirosa.

— Impressionante como o esgoto de Dalaran é mais acessível que o resto da cidade… E mesmo que Ventobravo!

— Quando a tia for rainha, vamos convencê-la a fazer muitas rampas na Bastilha e no resto da cidade. – sugeriu Pietro.

— Ah, com certeza. Agora é melhor eu levantar um pouco seus pés para não molhar com essa água suja… Não é à toa que chamam esse lugar de Cloaca…

Passaram com alguma dificuldade pela Cloaca e chegam à abertura que levava para o Círculo dos Desejos. Para a tristeza dos dois, havia uma escada circular de madeira para poder chegar lá embaixo.

— Que pena… – murmurou Pietro.

Pandora, contudo, não se deu por vencida.

— Segure firme.

E, sob as vistas de espectadores que se divertiam com a cena, desceu as escadas com a cadeira e um nervoso Pietro. Cair dali de cima direto em um esgoto não seria uma boa maneira de marcar sua visita a Dalaran. Contudo, Pandora conseguiu e recebeu alguns aplausos e assobios de quem estava lá embaixo. A essa altura, a jovem estava toda suada pelo esforço.

— Não precisava, Pãozinho… – murmurou o irmão vendo o cansaço dela – Até ali já teria sido legal…

— De jeito nenhum! – exclamou ela – Você vai ver tudo que puder! Eu vou garantir!

Pietro sorriu, amoroso, para a irmã.

— Vamos! – chamou ela empurrando-o.

No Círculo dos Desejos tinha muita gente mal-encarada mesmo, tal como dissera sua tia. Pandora recebeu muitas cantadas e a maioria delas eram convites para tirar sua roupa por trás das cabanas do esgoto. A jovem fingiu que não ouviu nenhuma. Viram um monte de ratos e tartarugas e tinha um orc sentado em frente a um dos barracos que estava de smoking e monóculo.

— Pela Luz, se vê de tudo aqui mesmo… – murmurou Pietro.

Andaram por todos os lugares que podiam, até que viram uma aglomeração de globins perto do orc elegante e Pandora viu os olhos de Pietro brilharem. Mas descer uma escada ela arriscava, subir outra seria muito difícil. Deixaria aquele trabalho para quando fosse levá-lo embora dali. Porém, seu irmão queria ver os goblins de perto e ela propiciaria aquilo.

— Venha. — disse desabotoando o cinto dele – Vamos subir.

— Pãozinho…

— Não diga nada! – avisou pegando-o nos braços.

Subiu as escadas com o irmão no braço e o levou para cima. Pietro conheceu os goblins, todos eles promotores de luta de gladiadores e, para sua surpresa, todos foram muito simpáticos com os dois. Pandora percebeu que eles estavam tentando vender algo, dispensou educadamente e passou para outros lugares. Quando exploraram tudo e Pandora estava com os braços quase dormentes, voltaram para onde tinham deixado a cadeira.

Haviam três pessoas ao redor dela. Um humano, um orc e um goblin.

— Bonita cadeira essa aqui de vocês. – disse o humano mexendo na cadeira de Pietro – Perfeita para um cara preguiço que nem eu.

Os outros dois riram da piada e Pandora ficou tensa.

— Essa cadeira é do meu irmão, se afaste dela!

— Do seu irmão? – ele deu uma olhada para Pietro – Pobrezinho… Pena que a achei jogada aqui e parecia que não tinha dono…

— Achado não é roubado. – guinchou o goblin.

Pandora sentiu o rosto ficando vermelho. Estava morrendo de raiva e de medo também. Eram três contra ela. Mesmo que enfrentasse um, os outros podiam machucar Pietro. E estava desarmada. Pela primeira vez na vida, achou que a tia tinha razão.

— Olhem, vocês não precisam dela. – disse tentando pensar no que poderia fazer – Ela foi feita para Pietro sob medida.

— É? – perguntou o humano – Pois eu acho que caibo nela – e sentou-se na cadeira – Ei, empurra aí! – falou para o orc.

Sob o olhar enraivecido de Pandora e apavorado de Pietro, o orc começou a correr com o humano na cadeira de Pietro, sob o olhar de todos que estava ali. Pandora estava tremendo de tanta indignação.

— Pare com isso senão vou quebrar sua cara! – gritou sem pensar.

A cadeira parou imediatamente e o humano a olhou, agora sem nenhuma sombra de riso no rosto.

— Vai me quebrar é, menininha? – ele se levantou e se aproximou – Com o quê? Me batendo com seu bebezão aí?

— Vamos embora, Pãozinho... – murmurou Pietro com os olhos cheios de lágrimas – Deixe pra lá, vamos embora....

— O que você está resmungando aí, aleijado? – perguntou o homem se aproximando mais – Acho que seria bom eu tirar você desse colinho aí e eu dar umas amassos nessa gostosa, já que você é só o irmãozinho.

O coração de Pandora estava acelerado e ela deu um passo para trás. O homem se aproximou. Ninguém parecia se importar com aquilo e continuavam a observar desinteressados.

“O que eu faço?!”, pensou desesperada “O que eu faço, minha luz?”

— Deixe-os em paz. – disse uma voz inesperada.

O homem estacou e olhou para trás. Pandora olhou também. Um elfo alto, usando uma armadura azul reluzente se aproximava. Ele trazia duas adagas presas ao cinto e um enorme arco nas costas. Encarou os três que cercavam os meninos e falou calmamente:

— Amedrontando crianças? Por quê? Tem medo de encarar um adulto?

O humano ficou rubro de raiva. Se voltou para o recém-chegado se empertigando, como se quisesse ficar tão alto quanto o outro.

— Está me chamando de covarde? – perguntou cuspindo as palavras.

— Estou. – respondeu o elfo calmamente.

A resposta não agradou.

— Sua bicha! – gritou o homem partindo para cima dele.

O elfo deu um passo para trás e colocou apenas a ponta da bota no caminho do homem, derrubando-o facilmente. O atacante caiu de cara no esgoto. Quem estava por perto riu, exceto os comparsas dele.

— Ei! – gritou o orc de smoking se levantando – Se vão brigar, tem que pagar!

— Eu não vou brigar. – disse o elfo indo até a cadeira de Pietro – Só vou levar essas crianças daqui.

Mas o homem derrubado queria brigar. Enquanto o elfo pegava a cadeira e a empurrava de volta para seu dono, o caído puxou uma adaga do cós da calça e atacou o elfo por trás, pulando em cima dele.

— Cuidado! – gritou Pandora.

Mas nem precisava. O elfo simplesmente girou sem sair do lugar e deu um soco na cara do homem tão forte que afundou seu nariz e fez espirrar sangue para todo lado. Depois, enojado com o sangue em sua mão, o elfo tirou um lenço do bolso e limpou-se, antes de jogar o lenço sujo no homem caído. Os comparsas deste se adiantaram e levaram-no, desacordado, para longe dali. O desconhecido salvador aproximou-se com a cadeira e Pandora o encarou com os olhos arregalados e vidrados.

— Aqui está. – disse ele gentilmente.

Pandora não reagiu. Não conseguia tirar os olhos do elfo.

— Pãozinho? – chamou Pietro.

— Ah! – ela exclamou – Desculpe… – e colocou o irmão na cadeira – Desculpe, Pietro…

— Vocês estão bem? – quis saber o desconhecido.

Pandora só conseguiu balançar a cabeça bobamente enquanto o olhava. Só percebeu que as mãos tremiam quando tentou abotoar o cinto de Pietro que, percebendo o estado da irmã, começou a chorar.

— F-foi m-minha culpa... – murmurou com as lágrimas escorrendo no rosto – Por eu ser um inútil aleijado!

— Pietro! – exclamou a irmã saindo do transe – Já disse para nunca falar assim de você mesmo!

— Mas é verdade! – e se pôs a chorar ainda mais.

O elfo os observou por um momento e então ajoelhou-se ao lado da cadeira do menino.

— Pietro, certo? – falou com a voz tão suave que deu arrepios em Pandora – Olhe para mim.

Pietro olhou, o rosto marcado pelas lágrimas.

— Todos temos nossas limitações. Algumas são físicas, como a sua. Outras são mentais, como aqueles imbecis que ameaçaram vocês. – o menino deu uma risada – Mas você não deve se sentir diminuído ou inútil por isso. Tenho certeza que você tem habilidades que eu não tenho.

— Ele joga xadrez como ninguém. – foi dizendo Pandora – E aprendeu a ler e fazer contas com quatro anos de idade!

Pandora corou absurdamente quando o elfo a olhou e sorriu.

— Viu? – disse ele voltando-se para o menino – Nunca consegui aprender a jogar xadrez. Fui a vergonha da família por isso.

— Mas eu não conseguiria salvar ninguém jogando xadrez! – retrucou o menino fazendo biquinho.

— E quem disse que não? – falou o elfo sorrindo – Já ouviu falar em Kharazan?

Pietro fez que não.

— Pois vou te contar como um grupo salvou o mundo jogando xadrez em Kharazan. – e levantou-se – Mas primeiro, vamos embora daqui?

Os esgotos já tinham voltado a normalidade quando os três o deixaram. O elfo ajudou a levar a cadeira enquanto Pandora subia com o irmão nos braços pela escada circular. Depois, os escoltou para fora e os irmãos não ouviram mais nenhuma piadinha ou qualquer ameaça. Quando chegaram lá fora, o sol brilhava tanto que eles piscaram várias vezes se acostumando com a claridade.

— O ar daqui é bem melhor. – brincou o elfo.

Pandora tentava desgrudar os olhos dele, mas não conseguia. Nunca vira uma criatura tão maravilhosa em toda a sua vida. Perto dele, qualquer humano parecia feio e sem graça. Ali, na claridade do dia, pode ver que os cabelos dele eram tão dourados que reluziam. Eram cumpridos, mais que os seus e apesar do que acontecera, não tinha um só fio fora do lugar. Os olhos dele eram de um azul meio esverdeado. Parecia que mudaria de cor a qualquer momento. E a boca… Que boca linda. Os lábios bem desenhados e rosados, que estavam levemente arqueados em um sorriso charmoso. A boca começou a se mover, mas os ouvidos dela não conseguiam captar nenhum som. Só conseguia se concentrar na imagem dele a sua frente. E só quando ele a encarou e franziu suavemente as sobrancelhas, foi que percebeu que devia parecer estranha o encarando assim. Ficou vermelha e suas orelhas arderam.

— Então, Pãozinho, o que acha? – perguntou ele.

O quê??? Ele a chamara de Pãozinho??? Seu rosto ardeu tanto que pensou que tinha fumaça saindo de sua cabeça.

— H-h-hã?? – balbuciou.

— Ele quer saber se queremos almoçar com ele. – falou Pietro olhando para a irmã com o cenho franzido – Tá tudo bem, Pãozinho?

Então Pietro a chamara assim e o elfo estava repetindo. Fazia sentido.

— Pandora. – disse ela de repente – Eu me chamo Pandora. Pãozinho é apelido. – não sabia porque era importante esclarecer aquilo, mas falou sem pensar muito.

— Um apelido muito gracioso. – falou o elfo sorrindo.

Pandora tinha certeza que ia desmaiar a qualquer momento.

— E seu nome? – perguntou Pietro curioso – Qual é?

— Halduron Asaluz. – ele fez uma breve reverência – E espero que me deem a honra de almoçar comigo. Estou lhe devendo uma história, meu caro. – disse para Pietro.

— Iremos sim! Não é, Pãozinho? – e olhou para a irmã.

Forçando-se a sair do estupor, Pandora assentiu. Seu irmão estava estranhando muito o comportamento da irmã.

— Tá tudo bem? – quis saber – Ta preocupada com algo?

Sim, estava preocupada em manter o elfo em seu campo de vista e continuar admirando-o como a coisa mais linda que ela já vira na vida. Mas percebeu que estava agindo de forma muito bizarra. Por isso, procurou uma desculpa plausível em sua mente.

— Tia Lina vai nos matar. – falou percebendo que era uma verdade.

Pietro se apavorou.

— Como ela vai descobrir que fomos no esgoto? – quis saber o menino.

— Sua cadeira está toda suja. – respondeu a jovem percebendo que era verdade.

— Então vocês realmente não deviam ter estado lá. – falou Halduron em um leve tom de reprovação – Sei que quando se é jovem, desafios são bem-vindos, mas acho que vocês morderam mais do que puderam mastigar.

Ainda que estivesse chamando a atenção dos dois, a fala dele era gentil e compreensiva. Isso os fez ficar extremamente envergonhados do que tinham feito.

— Podemos dar um jeito nisso. – falou ao ver a desolação dos dois diante da possibilidade de serem descobertos – Venham comigo.

Eles foram. Durante o caminho, Pietro e Halduron conversaram e Pandora apenas observou. O encanto que parecia ter sido lançado nela estava se tornando mais controlável a medida que andavam. Porém, cada vez que Halduron a olhava, Pandora corava. Nunca se sentira assim antes e pensou que talvez fosse porque nunca ninguém causara tanto impacto com sua presença quanto ele. Mas precisava se controlar, senão ele a acharia uma retardada. Respirou fundo e procurou se inserir na conversa da forma mais normal que pode.

Logo chegaram em uma taverna muito chique e Pandora se perguntou se o dinheiro que a tia dera dava para pagar o almoço dos três ali. Por que, afinal, ele tinha salvo-os. O mínimo que podia fazer era pagar o almoço dele. Pegou as moedas que a tia lhe dera e passou a contar nervosamente.

— Não precisa se preocupar. — ouviu Halduron dizer – Vocês são meus convidados.

— Mas você nos salvou! — falou a menina corando absurdamente – Queria dar algo em troca.

Halduron deu um sorriso indulgente.

— Companhia. — ele disse – Deem-me companhia e já serei grato.

— Você é muito legal, Halduron! — exclamou Pietro – Muito obrigado!

— Agradeça-me quando sua tia não te matar. — brincou.

Sob as vistas do elfo, uma gnomida saiu da taverna com um balde de água com sabão e ajudou Pandora a lavar as rodas da cadeira de Pietro. A menina então percebeu que suas botas também estavam enlameadas e as limpou. Depois, entrou com Pietro na taverna enquanto Halduron entrava com a cadeira. A jovem lavou as mãos e ajudou o irmão a fazer o mesmo antes de finalmente sentaram-se junto ao elfo.

Halduron estava muito satisfeito àquela altura. Começar ao dia péssimo, como começava a maioria de seus dias, mas as coisas estavam se desenrolando bem. A carta de Vereesa, a revelação de Luxuriah e agora companhias muito agradáveis estavam tornando seu dia melhor. Quando decidira ir aos esgotos em busca de seu informante em Dalaran, nunca imaginou que teria que salvar duas crianças humanas de um bando de ladrões. Afinal, crianças não deviam ir aos esgotos em busca de aventuras. Mas aquelas ali eram diferentes. O menino, apesar de não andar, tinha uma disposição que Halduron admirava. Depois de passado o susto, se mostrara inteligente, esperto e muito simpático. Pietro era um menino muito amável.

Já Pandora, Halduron achara que era mais retraída. Inicialmente não acreditou quando viu a jovem desafiar três ladrões com o irmão nos braços e achou que ela era louca. Mas não. Era a coragem dela que era desmedida. Só quando sentaram à mesa que pode prestar mais atenção, viu que não era retraimento da jovem humana. Ela estava fascinada por ele. Era tão óbvio que ele ficou desconcertado. E um pouco lisonjeado também. Ali, a luz do sol, percebeu que ela não era tão criança quanto imaginara. Na verdade, ela era bem alta para os padrões humanos e devia estar perto da idade adulta. Isso o deixava ainda mais intrigado. Naquela idade, as jovens humanas estavam procurando aventuras amorosas e não cuidando de um irmão com limitações. Isso o fez tê-la em alta conta.

— Então… — começou ele depois que pediram a comida – Vocês desobedeceram ordens e se meteram em apuros. — ele sorriu – Não os culpo, fiz muita coisa que não devia na minha juventude. Mas sugiro que não o façam mais. Pela segurança de vocês.

— Se a minha irmã não tivesse me segurando, tinha chutado a bunda daqueles três! — disse Pietro confiante – Ela é muito boa com a lança sabe? Já afugentou uma matilha de lobos uma vez, sozinha!

— É mesmo? — ele a encarou e Pandora corou absurdamente – Conte-me como foi.

— Ah, você ficou de me contar uma história primeiro! — reclamou o menino.

Halduron deu uma gargalhada e Pandora pensou que não havia como ele ficar mais bonito do que já era.

— Mas é claro. Perdoe-me.

E começou a contar sobre a torre de Kharazan e como havia um tabuleiro gigante de xadrez no caminho de aventureiros que foram até lá eliminar a ameaça do príncipe Malqueezaar. Os olhos de Pietro brilharam de alegria. Halduron também falou como a sabedoria ajuda muitas vezes mais que a força e incentivou o menino a procurar artes que o interessassem e que pudesse desenvolver.

— Crianças devem perseguir o caminho que querem seguir, independente das circunstâncias. — disse.

— Eu não sou criança. — falou Pandora inesperadamente – Farei dezesseis anos próximo mês!

A jovem não soube porque, de repente, era tão importante dizer aquilo. Talvez porque detestasse que as pessoas a achassem mais jovem do que era e que colocassem obstáculos para suas ações. Depois que falou, porém, ficou temerosa de ter insultado Halduron. Porém, ele sorriu e acenou com a cabeça.

— Tem razão. Você não é criança. Perdoe-me, Pandora.

O coração dela parecia que ia sair pelo peito e pular direto na mesa.

— T-tudo bem. — gaguejou.

Foi quando a comida chegou. Comeram com vontade e Halduron imaginou que era daquele jeito que o mundo deveria ser. Sem facções para atrapalhar as pessoas de se conhecerem, e de se relacionarem. Se fosse outra pessoa, e não ele, teria um membro da Horda se arriscado por crianças humanas? Gostaria de pensar que sim. Como queria imaginar que, se fosse crianças élficas ou orcs, alguém da Aliança as salvasse.

A comida estava maravilhosa, e Pandora estava queimando os neurônios para tentar achar um assunto que pudesse conversar com o elfo sem parecer uma imbecil. Bem, ele tinha um arco, então devia ser um patrulheiro. Mas as adagas a confundiam. Já ouvira falar que, por viverem muito, os elfos conseguiam desenvolver habilidades múltiplas, que só humanos não tinham tempo de treinar, por sua vida curta. Então se perguntou qual seria a idade do elfo.

— Qual sua idade? — perguntou Pietro como se lesse os pensamentos da irmã – Soube que os elfos vivem muito.

— Pietro! — chamou a irmã – É falta de educação perguntar a idade das pessoas!

— Ué, achei que você tivesse curiosa também! — exclamou o menino estranhando.

— Não me incomodo, jovem Pandora, é muito comum me fazerem essa pergunta. — disse, antes de perguntar – Quantos anos você acha que tenho, Pietro?

O menino colocou a mão no queixo e pensou um pouco.

— Cento e cinquenta? — arriscou.

Haldurou deu uma gargalhada.

— Quem dera, Pietro! Não sou tão jovem! Mas é bom saber que estou bem conservado, não é? — e olhou para Pandora, piscando o olho para ela.

A jovem teve vontade de se enfiar debaixo da mesa e morrer de felicidade.

— Duzentos e cinquenta? — arriscou o menino novamente.

— Mais. — encorajou o outro.

Ficaram algum tempo tentando adivinhar até Pietro desistir. Halduron, no final, não disse a idade que tinha. Pandora achou melhor assim. Não queria imaginar o quanto ele já tinha vivido e ainda viveria, enquanto eles estavam relegados a uma vida curta. Bem curta.

— Você deve ser do Pacto de Prata. — comentou Pandora quando se recuperou da piscada que ele lhe dera – Dizem que não há arqueiros mais habilidosos que os elfos. É verdade?

Apesar de ficar surpreso com o raciocino de Pandora, não a condenou. Ele era muito confundido com os quel’dorei pro ter conservado os olhos azuis. Demorara mais que os outros para consumir a energia vil e ainda não passara pela mudança como os demais. Ainda que visse seus olhos cada vez mais esverdeados no espelho todos os dias, ainda conservava-os azuis. Sabia que aquilo mudaria em breve, mas estava feliz de não ter acontecido ainda. Assim, podia transitar mais facilmente em Dalaran.

Agora estava em dúvida se deveria falar para os meninos que não, não era do Pacto de Prata, mas General-patrulheiro de Luaprata. Que não era da Aliança, como eles, mas da horda. Por fim, achou melhor deixá-los acreditando que era um quel’dorei. Não sabia qual seria a reação deles e aquela pequena mentira não faria mal nenhum. E assim podia desfrutar mais da presença dos dois. Não tinha reparado ainda o quão solitário se sentia.

— Sim, os elfos são os melhores arqueiros. E os do Pacto de Prata estão entre os melhores dos melhores. — não era uma mentira e era algo que muitos em Luaprata tinham raiva – Mas, claro, existem exceções.

— Nossa tia é uma excelente arqueira, mas ela prefere armas de fogo! — falou Pietro animado.

Halduron franziu um pouco a testa.

— Não gosto muito de armas de fogo. — falou – São barulhentas, sujas e nada elegantes.

Pietro riu diante da fala dele.

— Sua arma é a lança, não é? — perguntou Halduron se dirigindo a Pandora.

A jovem procurou a voz que tinha perdido.

— Sim. — e quando percebeu que sua fala fora firme, continuou – Até sei atirar com o arco, mas odeio ficar sem flecha. Com a lança, posso atacar a distância e me manter segura e não corro o risco da munição acabar.

— Muito esperto de sua parte. — elogiou – Continue assim e chegará longe.

— Ela vai entrar no exército de Ventobravo, não é, Pãozinho? — perguntou o irmão.

A alegria de Halduron afundou. Aquela jovem tão bela se juntaria a uma guerra tão feia? Que desperdício.

— Eu ainda não sei, na verdade. — confessou – É muita disciplina para mim! E a tia vai querer que eu cumpra tudo à risca! Talvez eu seja só uma mercenária mesmo. — e deu de ombros.

— Liberdade acima de tudo. — Halduron gostou da resposta dela – Um brinde a isso. — e levantou o copo de suco. Afinal, não beberia antes de encontrar Vereesa. Apesar de imaginar que beberia bastante depois da conversa.

Brindaram e comeram. Depois, Halduron pagou, mesmo que Pandora tivesse tentado ajudar com o preço.

— Guarde seu dinheiro para comer doces com seu irmão, Pãozinho. — disse com carinho.

A jovem corou e deu um sorriso agradecido. Halduron percebeu então que os olhos dela era de um verde límpido e profundo, que destacava as sardas de seu nariz. Imaginou que mais um ou dois anos, aquela beleza amadureceria e levaria muitos homens a disputar a atenção da jovem.

Depois que saíram da taverna, Halduron se voltou para os dois e, com pesar, percebeu que estava na hora de deixá-los. Porém, antes de falar qualquer coisa, Pandora, sentindo que em breve o elfo partiria e talvez nunca mais o visse, rapidamente pediu:

— Já que você conhece Dalaran, pode nos mostrá-la? Se não for incomodo, claro…

— Seria muito legal! — exclamou Pietro animado.

Aquilo atrasaria sua visita a Vereesa, pensou Halduron. Mas, o quanto já não tinha esperado para falar com a elfa? Vereesa poderia muito bem esperar um pouco. E não seria ruim estender mais aquela companhia. Quando teria uma oportunidade de conversar tão livremente com pessoas que não eram seus comandados novamente?

— Claro. — concordou – Vamos.

E eles foram. Halduron os levou a todos os lugares que achava interessantes na cidade voadora. Visitaram a Plataforma Krasus, onde os meninos puderam ir até a beira da cidade e ver a Floresta Cristalina lá embaixo. Estava frio e Halduron emprestou a capa para Pietro, cujo frio fazia suas articulações doerem. Depois, foram até ao Memorial Antônidas e depois até a area comercial Magnus, onde os meninso ficaram fascinados com os produtos oferecidos. Próximo ao local chamado Alvorecer, Halduron alugou varas de pescas e eles usaram numa fonte, onde cada um pegou uma moeda que dizia algo sobre grandes heróis de Azeroth. Depois, se dirigiram a Cidadela Violeta, onde ficava o coração de Dalaran. Estava passando em frente ao Enclave Prateado, território da Aliança, e o elfo torceu para que os meninos não decidissem entrar e acabasse por revelar sua ligação com a Horda. Porém, os dois irmãos não deram sinais que queriam entrar lá. Foi quando viram um orc bêbado passar por ali e tentar entrar, do mesmo jeito que o anão tentou entrar no Santuário Fendessol. Claro, ele foi teleportado, enjoado para fora. Pietro riu.

— Será que ele vai vomitar na bandeira da Aliança agora? — perguntou o menino animado.

Porém, o orc tinha outra ideia. Ele baixou as calças. Na mesma hora, Halduron tapou os olhos de Pandora. A menina sentiu o calor da mão dele e seu coração disparou. Colocou sua própria mão em cima da dele, se perguntando como alguém que usava um arco podia ter a mão tão delicada. Sentiu o cheio dele também, um cheiro de floresta após a chuva. Um dos cheiros preferidos de Pandora.

— Haha, o orc fez xixi na bandeira da Aliança! — exclamou Pietro se acabando de rir.

De repente, o contato da mão de Halduron com o rosto de Pandora acabou e ela ficou frustrada. Queria sentir mais o toque dele. Porém, o orc já havia recolocado as calças e agora mostrava o dedo do meio para os guardas quel’dorei, que apenas deram de ombros e foram trocar o estandarte.

— Desculpe-me. — pediu Halduron para Pandora – Mas eu não podia deixar uma dama ver algo tão rude.

Uma dama? Ele a achava uma dama? Pandora sabia que a última coisa que alguém poderia chamá-la era de dama, mas ela adorou.

— Tudo bem… — disse – Eu não queria ver nenhum orc nu mesmo…

Halduron e Pietro riram.

— As pessoas gostam de se provocar muito por aqui… — comentou o menino.

— Mais do que é saudável para a neutralidade da cidade… — concordou o elfo.

— O que você acha da neutralidade de Dalaran? — perguntou Pandora a Halduron.

— Alguém tem que manter a sanidade nesse mundo. — foi a resposta dele.

E quando a tarde estava chegando ao fim foi que os três perceberam que era a hora da despedida. Pandora estava desolada. Tinha a impressão que jamais veria Halduron de novo e aquilo parecia que destruiria seu coração a qualquer momento. Pietro também estava muito triste e até mesmo o elfo dava sinais de tristeza.

— Vocês foram a melhor companhia que eu tive nos últimos anos. — disse Halduron com sinceridade – Jamais esquecerei vocês. — e fez uma reverência.

— Quem sabe a gente não vem mais vezes a Dalaran e se esbarra por ai. — disse Pietro esperançoso.

— Desde que não seja nos esgotos… — avisou o elfo.

Os dois riram. E o olhar de Halduron foi para Pandora, cujo coração descompassou mais uma vez.

— Foi um prazer, jovem Pandora. — falou – Confesso que nunca vi ninguém tão devota a outra pessoa como você é por seu irmão. Conserve essa bondade em seu coração. — e tocou o ombro dela.

Pandora colocou a mão em cima da dele. Queria lembrar o calor daquele toque pelo resto da vida.

— Obrigada. — disse com lágrimas querendo inundar seus olhos, sem nenhuma explicação – Muito obrigada por tudo.

Halduron sorriu, satisfeito.

— Até mais, meus caros companheiros de aventura. Pietro, Pandora. — ele fez uma reverência, deu uma última olhada e então virou-se e foi em direção a Cidadela Violeta.

Os irmãos ficaram vendo-o caminhar, até que a sombra dele sumiu numa curva da cidade. Entristecido pela partida do novo amigo, Pietro suspirou e disse:

— Vamos ver se a tia já tá no ponto de encontro?

Muito mais triste do que seu irmão poderia imaginar que ela estivesse, Pandora fez que sim com a cabeça e direcionou a cadeira de seu irmão até a Praça Fiarruna. Porém, mal haviam começado a caminhada e viram Lina e Doroteya, com as expressões preocupadas, indo em direção deles.

— Onde diabos vocês se meteram?! — foi brigando Lina – Faz mais de uma hora que procuramos por vocês.

— Vocês nos deixaram preocupados… — disse Doroteya.

— Desculpem. — pediu Pietro – Nos distraímos.

— Eu já estava quase procurando a guarda. — reclamou Lina. E Reparando que a sobrinha estava calada demais, perguntou – Está tudo bem, Pandora?

Na verdade, não estava. Conhecera Halduron poucas horas antes, porém a partida dele a deixara desolada.

— Estou só cansada, tia. — disse a menina, e não era mentira – Foram muitas escadas hoje…

— Dalaran não tem acessibilidade! — reclamou Pietro.

— E nem terá, se o interesse da general patrulheira por esse tema for igual ao seu interesse em monstrar as defesas. — Lina bufou – que mulherzinha desagradável!

— Ela estava sendo muito simpática até você dizer que não acreditava que os soldados dela protegeriam melhor Arshe que os seus. — lembrou Doroteya.

— Porque é verdade! — se defendeu Lina.

Doroteya balançou a cabeça, com um olhar de reprovação para a comandante.

— Mas tudo bem, já terminou e podemos ir. — falou Lina ignorando o olhar de desaprovação de Doroteya – Prontos para voltar para casa?

— Sim! — respondeu Pietro animado – Tenho histórias para Theo.

Mas Pandora não estava. Olhou para trás, para onde Halduron sumira, na esperança de revê-lo, mas, claro, ele não estava lá. Ela só o veria de novo dois anos depois, numa situação que nenhum dos dois jamais imaginariam.

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Notas finais
Não esqueçam de comentar!!!!!