Herdeiros da Guerra

45 Capítulo XXVI - A coroação (PARTE VII)


Notas iniciais
Eu pensei que essa seria a última parte... Até ver que escrevi demais... De novo... kkkk Espero que vocês curtam e comentem! E quem quiser me seguir nas redes sociais, aí vão os dois perfis que mais uso: Instagram: @joy.black.official Tumblr: Kassyeh

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Era madrugada quando o orbe mágico que ligava Luaprata à Cidade Baixa reluziu. Sylvana Correventos, general patrulheira de Luaprata no passado e agora a Rainha Banshee dos Renegados apareceu sob luz tênue do orbe e olhou sem emoção para o interior da Torre Solfúria. Para ela, Luaprata nada mais era que ruínas de uma vida que há muito se acabara. Por isso, seguiu impassível em direção ao salão, arrancando exclamações surpresas dos elfos que guardavam os corredores àquela hora.

O objetivo da Dama Sombria estava ali mesmo, naquele local. Se encontraria com a futura rainha dos sin’dorei antes da coroação, pois não estava disposta a perder seu tempo com cerimônias que não faziam mais sentido para ela. De fato, sequer estaria indo ali se não fosse um resquício insistente e perturbador de uma curiosidade mórbida de olhar para a filha mais jovem de Samanthah. Não pensava na elfa que fora sua amiga com mais frequência do que lembrava de suas irmãs, mas, ainda assim, volta e meia, ela lhe vinha a sua mente. Porque, tinha que admitir, Samanthah fora a única que tentara enxergá-la em morte da mesma forma como em vida.

Sylvana ainda se perguntava porque tivera a necessidade de guardar a carta que recebera de Samanthah pouco antes da morte desta. Não havia nenhum motivo lógico e a Sylvana que Samanthah lembrava não existia mais. Todavia, a carta estava entre os poucos pertences que a rainha banshee mantinha em segredo e aos quais apenas ela tinha acesso. Era uma missiva curta, na letra elegante da maga, que dizia:

“Querida Syl,

Não tenho palavras para descrever a alegria que senti quando soube que, mesmo após tudo que sofreu, você tenha intercedido por nosso povo e nos protegido mais uma vez. Eu sabia que você ainda existia, apesar de muitos dizerem o contrário.

Quero te ver. Preciso te ver. Não vou deixar que a morte e a dor imposta por Arthas nos separe novamente. Confesso que essa é a única coisa que me deixa feliz com a nossa entrada na Horda: poderemos ser amigas novamente.

Esperarei ansiosamente por sua resposta.

De sua amiga,

Sam”

Sim, Arthas havia tirado muito mais que sua vida. Tirara tudo aquilo que constituía sua identidade, sua existência. E Samanthah queria lhe dar algo que Arthas tirara. Aquilo mexera com Sylvana de forma que não deveria ter mexido. Ainda assim, a carta não fora respondida. Enquanto decidia se valia a pena retomar o contato com aquela parte dela que havia desaparecido, Samanthah morreu. Ao saber da notícia, um desconforto se apoderou da banshee. Seria algum resquício da tristeza mortal? Talvez. Pensara muito em vingança e chegou a cogitar ir até em reviver seus assassinos apenas para torturá-los pela eternidade, mas Lor’themar queimara os corpos. Uma pena. Poderiam ter sido uma ótima diversão para seus comandados.

Agora, dez anos depois, ela viera até a cidade para ver a filha mais jovem daquela que fora a pessoa mais próxima a ela depois de suas irmãs e Nathanos.

As sentinelas ficaram eriçadas com a aparição não anunciada da Rainha Banshee em plena madrugada. Uma delas, provavelmente a líder, se aproximou e fez uma reverência à recém-chegada.

— Dama Sombria. — falou educadamente e Sylvana pode sentir o cheiro do medo dela.

— Chame Lor’themar e a futura rainha. — ordenou – Quero vê-los.

A sentinela ficou confusa por alguns segundos.

— Senhora, é madrugada. Eles dormem. — tentou explicar.

— Acorde-os. — disse sem emoção – Não tenho tempo para desperdiçar aqui. — e virou as costas, se encaminhando torre a dentro – Estarei na sala dele.

Sem saber o que fazer, a sentinela decidiu ir até quem era superior a ela.

Vivithi Theron.

Aquela era a madrugada do dia do baile. Naquele momento, Vivithi ainda dormia, antes de seu merecido dia de folga para se arrumar para encontrar Aethas. Em Ventobravo, Pandora dormia tranquilamente, sem saber que em poucas horas enfrentaria o primeiro combate de sua vida. Doroteya e Tommy ainda temiam o que iam dizer um ao outro. Todos os destinos estavam apenas aguardando para acontecer. E, sem saber o que aconteceria nas horas que se seguiriam, Vivithi acordou, desnorteada, com uma batida insistente em sua porta. Olhou para a janela e viu que ainda não amanhecera. Pulou da cama. Já temia o pior.

— O que aconteceu? — foi seu cumprimento para a sentinela.

— A Dama Sombria, senhora. Ela está aqui e exige ver o lorde regente e a futura rainha.

Por um momento, Vivithi achou que estava sonhando. Aquilo não fazia sentido. Por que Sylvana estaria ali tão antes da cerimônia? Mas, depois, lembrou que as coisas não funcionavam na mente da rainha banshee da mesma forma que na dos outros, então suspirou.

— Vá chamar meu tio. Vou acordar Karen. — e saiu em direção ao quarto de Karen, ainda de pijama.

Os guardas que estavam na porta do quarto da futura rainha ficaram tão confusos quanto Vivithi quando esta foi acordar a menina. Mas as notícias que Sylvana estava na torre logo iam correr, pensou a elfa entrando no quarto.

Karen dormia a sono alto. Já havia tirado todo o lençol da cama e dormia com os braços e pernas abertos, depois de muito se revirar na cama. Vivithi riu e balançou a cabeça. Até dormindo Karen era agitada.

— Karen… — chamou sacudindo levemente a menina – Acorde…

Karen apenas resmungou e virou de lado.

Vivithi suspirou.

— Acorde! — disse mais alto e a balançando com mais vigor.

A menina abriu os olhos, sonolenta e a encarou.

— O que foi? — perguntou semidesperta.

— A Rainha Banshee está aqui e quer te ver. — foi logo dizendo – Levante e vamos vestir uma roupa, rápido.

Foi como se Vivithi tivesse jogado um balde de água gelada em Karen. A menina ficou imediatamente desperta, os olhos arregalaram e ela perguntou, a ansiedade transparecendo em suas palavras:

— A Rainha Banshee? Sylvana Correventos? Que foi amiga da mamãe?

— Sim, essa mesma. — respondeu Vivithi – Então por que você não…

Mas ela nem precisou terminar a frase. Karen pulou para fora da cama como um furacão e correu na direção de seu closet. Jogou um monte de roupas para o ar, enquanto procurava algo, sob o olhar assustado de Vivithi. Nunca vira a menina acordar tão rápido e com tanta energia.

— O que está procurando? — perguntou vendo as roupas se acumularem ao redor da menina.

— Meu vestido favorito! Tenho que está bonita para ver a tia Syl!

Vivithi teve um pressentimento ruim.

— Karen, talvez você não devesse chamá-la assim…

— Por que não? — perguntou a menina – Achei! — tirou o pijama e começou a se vestir com destreza.

— Ela não é mais a ‘tia Syl’ que suas irmãs lembram. — avisou – Ela é a Rainha Banshee dos Renegados, a Dama Sombria.

— E daí? — perguntou agora já vestida e penteando os cabelos rapidamente – Aposto que ela ainda lembra da mamãe e não vai se importar de eu chamá-la assim! — e correu até o armário de sapatos e começou a jogá-los para o lado até achar a sapatilha favorita e calçá-la – To pronta! — gritou e já foi correndo para a porta.

— Karen! — chamou Vivithi correndo atrás dela – Karen, espere!

Mas Karen já estava muito a sua frente.

No momento em que Karen era acordada, o mesmo estava sendo feito com Lor’themar. Diferente da menina, o lorde regente acordou alerta, tão logo houve a batida em sua porta.

— O que houve? — ele perguntou de dentro do quarto já se levantando e pegando a roupa que deixava do lado da cama. Estar à frente dos elfos sangrentos durante aquele tempo todo o ensinara a sempre ter uma roupa do lado da cama. E uma espada.

— A Rainha Banshee o aguarda em sua sala, lorde regente. — falou a sentinela do outro lado da porta – Ela quer vê-lo e à futura rainha também.

Lor’themar parou por um instante de se vestir, dominado pela surpresa.

— Sylvana está ai? — perguntou ainda sem acreditar.

— Sim, milorde.

Uma mistura de raiva e receio se apoderaram dele, enquanto se vestia o mais rápido possível. Calçou as botas, pegou sua espada e saiu do quarto no mesmo instante em que Karen corria escada abaixo em busca da Rainha Banshee. Lor’themar não a viu, mas se encontrou com sua sobrinha no meio do caminho.

— Karen correu para encontrá-la. — Vivithi foi dizendo – Não consegui detê-la.

Lor’themar resmungou uma série de maldições em thallasiano.

— Vá, volte para o quarto. — ele aconselhou – Eu resolvo isso.

— Como se eu conseguisse dormir depois dessa… — ela fez um ruído chateado com a boca – Lá se foi meu sono de beleza pro baile…

— Volte para a cama. — insistiu Lor’themar – Eu dou conta.

Vivithi parou no meio da caminhada e deu meia volta, em direção ao seu quarto.

— Vou trocar de roupa e encontro vocês daqui a pouco. — disse.

Mesmo naquela situação, Lor’themar riu. Vivithi jamais ficaria tranquila enquanto não colocasse Karen na cama, inteira e viva, novamente. Melhor ele se apressar para mediar o encontro das duas.

Para Karen, contudo, ela não precisava de mediação. Tudo que ela queria era ver a amiga da mãe. Quantas histórias Sylvana poderia contar sobre Samanthah? Sobre seu pai era fácil, Lor’themar tinha todas. Vivithi também contava histórias de Samanthah, mas todas depois dela já estar com Dhomm. Só que Karen queria saber como era sua mãe antes. Antes de Dhomm, antes das filhas. A Samanthah que apenas Sylvana conhecera. Por isso, ela correu pelos corredores até chegar na sala de Lor’themar e a abriu com vontade, empurrando as duas portas e entrou na sala.

O choque que Sylvana sentiu ao ver Karen foi tanto que ela deu um passo para trás. Lembranças do passado a invadiram no mesmo instante. Se viu de volta a Luaprata, tantos anos antes, ali perto, na casa de campo dos Fendessol. Viu a si mesma cavalgando seu falcoztruz, o sol batendo em seu rosto, o vesto agitando seus cabelos dourados. Apenas uma visão de Karen e estava de volta ao seu passado.

A tarde estava quente, mas agradável. Sylvana estava ali, apesar da montanha de coisas que tinha a fazer, por causa de Dhomm. O elfo praticamente implorara que ela fosse ver a esposa, já que ele estava de volta ao trabalho e fazia dois dias que não ia em casa. Com relutância, ela aceitara. Afinal, também não via Samanthah há um tempo e estava com saudades. Todavia, assim que se aproximou da casa de campo, ouviu um choro alto e doloroso. Um choro de bebê. Seu sangue gelou. Teria acontecido algo? O bebê estava sozinho? Bateu com os calcanhares no falcoztruz e aumentou a velocidade. Assim que chegou, apeou, deixando sua montaria solta mesmo e entrou na casa. E a primeira coisa que viu foi sua amiga, com Karen no colo.

Samanthah estava totalmente descabelada. Segurava o bebê como se este fosse uma bomba prestes a explodir. Porém, a criança já explodia. Os gritos que Sylvana ouvira eram de Karen, que berrava a plenos pulmões, com o rosto vermelho, chorando tanto quanto a mãe. Sylvana foi tomada por uma mistura de alívio e confusão.

— Ela não para de chorar! – balbuciou Samanthah balançando o bebê inutilmente – Não é fome, não é dor, não é sono! E ela não para! Eu não aguento mais!

A maga caiu em lágrimas novamente e Karen aumentou o choro e os gritos.

— Calma, Sam. – pediu Sylvana ficando assustada – Quando começou o choro?

— Desde que ela nasceu! – exclamou desesperada – A única pessoa que faz ela parar é Dhomm e ele não tá em casa!

Sylvana se sentiu um pouco culpada, porque Dhomm não estava em casa por causa do trabalho. Do trabalho que ela lhe dera. Porém, era para ter alguém ali para ajudar a maga.

— Onde estão seus servos? – quis saber.

— Hobbs e a família viajaram há uns dias. Tudo estava controlado na época…

As duas tinham que conversar aos gritos, porque Karen tinha um excelente pulmão e uma garganta incansável.

— E as outras meninas, onde estão? – perguntou olhando em volta.

— Mandei-as para a casa de meus pais.

— Você o quê? – a surpresa de Sylvana assustou Karen, que chorou ainda mais – Você está louca?!

— Estou! – choramingou Samanthah.

Sylvana suspirou.

— Dê-me o monstrinho. – pediu a patrulheira estendendo os braços para pegar o bebê.

— Ela vai chorar ainda mais… – avisou a mãe cansada.

— Dê-me logo a menina! – ordenou.

Samanthah então passou a filha imediatamente. Com o bebê chorão nos braços e sob o olhar assustado da mãe, a elfa patrulheira segurou a menina e então a emborcou em seu braço esquerdo, deitando-a de barriga para baixo. Karen imediatamente parou de chorar.

— Pela Nascente do Sol, ela parou! – exclamou Samanthah maravilhada.

— O monstrinho só queria ver a vida por outro ângulo. – comentou gracejando.

— Ah, Syl, não a chame de monstrinho… – pediu a mãe fazendo um beicinho.

— E ela não é? – Sylvana tentou tirar Karen da posição e a menina voltou a chorar imediatamente. Sylvana a emborcou novamente – Funcionou com Arator, funcionou com ela. – comentou satisfeita consigo mesma – Agora que temos um pouco de silêncio, me diga: porque diabos você enviou suas filhas para a casa de seus pais? Você sabe que elas odeiam ir para lá!

— Ah, Syl, eu estava enlouquecendo! — falou a maga passando as mãos nos cabelos e os despenteando ainda mais – Sem Hobbs, sem Dhomm e a Lux não dava conta de me ajudar. Nem a Kass a fez parar de chorar! Ash estava tão estressada que chorava junto com Karen! — ela parou e tomou fôlego – Além do mais, papai ama as meninas. Dê um pouco de crédito para ele.

— O problema é sua mãe, você sabe…

Os olhos de Samanthah se encheram de lágrimas, mas ela não retrucou.

— Você está péssima. – falou a patrulheira mudando de assunto – Vá tomar um banho e depois conversamos.

— Mas e se ela chorar? — perguntou olhando a filha, que babava no braço de Sylvana.

— Não vai. E você precisa de um banho. – Sylvana chegou perto e a cheirou – Quantos dias faz que você não toma banho?

— Dois… – admitiu envergonhada – Ela não deixa… – e apontou para o bebê.

— Então vá logo! – ordenou Sylvana.

Samanthah ainda hesitou, mas foi. Quando a mãe saiu de sua vista, Karen ensaiou um início de choro. Rapidamente, Sylvana a tirou da casa, a ergueu na altura do rosto e falou:

— Você é um monstrinho mesmo, não é?

Para a sua surpresa, o bebê riu.

— Você gosta de coisas diferentes, monstrinho? – e passou a jogar Karen para cima.

Depois de arrancar muitos risos da menina, Sylvana passou a dar voltas ao redor da casa com ela, mostrando as moreias de mana que voavam por ali, as flores e também um eventual coelho que apareceu. Mesmo com a pouca idade, Karen se mostrava curiosa e ria de tudo. Uma borboleta chegou a pousar no nariz da menina, que espirrou. Sylvana riu e Karen riu junto.

De todas as filhas de sua amiga, Karen era a que mais parecia com a mãe, percebeu Sylvana. Só havia visto-a logo depois do nascimento e, naquela época, a menina tinha a mesma cara de todos bebês: joelho. Mas agora, as feições da mãe transpareciam. Se Karen fosse um pouquinho mais morena, seria ainda mais parecida. Qual seria a sensação de olhar para um pequeno ser como aquele e ver um pouco de si mesma?

— Ah, você está me deixando sentimental, monstrinho. – disse erguendo a menina na frente de seu rosto.

Karen riu.

Nunca pudera segurar seu sobrinho com aquela tranquilidade, pensou. Alleria não parava quieta em lugar nenhum e seu contato com Arator fora tão pouco… Se, pelo menos, sua irmã pensasse mais na família e ficasse mais tempo em casa. Suspirou. Karen agora passava a mão pelo rosto dela, explorando feições tão diferentes da mãe. Depois pegou o cabelo de Sylvana e levou à boca. A patrulheira puxou os fios de volta com cuidado.

— Está ficando com fome? Vamos ver se a mamãe terminou o banho para lhe dar um leitinho?

Karen apenas agitou as mãos, tentando pegar o cabelo dela novamente. Rindo, Sylvana levou o bebê para dentro da casa e subiu para o primeiro andar, com Karen na posição estranha que a acalmava. Assim que chegaram ao corredor, havia água por todo o chão.

— Sam? – chamou Sylvana preocupada.

Quando chegou ao banheiro, a porta estava entreaberta. Empurrou e entrou. Samanthah estava sentada na tampa da privada, só de roupão, encostada na parede, dormindo a sono alto, enquanto a banheira há muito transbordara. Sylvana suspirou. Pelo menos sua amiga não tinha dormido na banheira e se afogado. Foi até a torneira e a desligou. Karen sacudiu as mãos tentando pegar a água. Depois, Sylvana se dirigiu até sua amiga.

— Sam, acorde! – chamou sacudindo-a com um braço enquanto equilibrava Karen no outro. Samanthah acordou assustada.

— Ela ta chorando? – perguntou antes de ver a filha caladinha, chupando a mãozinha – Oi, meu amor!

— O monstrinho está bem calminho e você estava dormindo. Tome logo esse banho e vá tirar um cochilo. Eu fico com Karen.

— Ah, Syl, não precisa…

Sylvana a encarou, incrédula.

— Ok… Eu preciso sim… – murmurou a maga tirando o roupão e mergulhando na banheira.

— Ficaremos aqui para garantir que você não durma e se afogue. – avisou a patrulheira sentando na tampa da privada.

— Eu vou ter que limpar essa água toda depois… — murmurou Samanthah olhando o banheiro alagado e a água saindo para o corredor.

— Se preocupe com isso depois. — cortou Sylvana – Apenas tome esse banho.

— Certo, certo…

Sylvana então voltou sua atenção para o bebê.

— Olhe Karen, o que é isso? – perguntou fazendo voz de quem fala com bebê e pegando um objeto da pia – É um pente! É um pente!

A menina riu como se aquilo fosse a coisa mais engraçada do mundo.

— Você devia ter filhos, Syl. – falou Samanthah ensaboando bem os cabelos – Você tem jeito com crianças.

— Diga isso de novo e eu jogo a menina em você e vou embora. – ameaçou.

Samanthah tomou o resto do banho calada.

Depois de banhada e vestida, Samanthah foi convencida pela amiga a comer algo. A maga tinha que admitir que não lembrava a última vez que tinha comido sentada. Preparou chá para ela e Sylvana e improvisou um lanche para as duas com uma torta que deixara pronta antes de Karen lhe tirar o juízo.

— Muito obrigada, Syl… – agradeceu com sinceridade – Você me salvou.

— Se eu soubesse que você tinha dado à luz a um orc em vez de uma elfa, não teria convocado Dhomm para voltar ao trabalho.

Samanthah finalmente riu.

— Karen está sendo uma provação. – admitiu – Nem Luxuriah me deu tanto trabalho, e olhe que ela foi a primeira e eu não tinha experiência nenhuma!

— Se essa aqui dá trabalho agora, imagine quando começar a andar e falar…

— Oh, não quero nem pensar…

O bebê tentava pegar a torta de Sylvana com suas mãozinhas gorduchas e a patrulheira ficava levando-a para perto e para longe da mesa, fazendo o bebê rir e se esticar para tentar alcançar a guloseima.

— Você precisa dormir um pouco. – falou a patrulheira novamente – Dê comida ao monstrinho que vou dar uma volta com ela, enquanto você cochila. E não agradeça. – cortou quando percebeu que a outra ia abrir a boca – Somos amigas, não somos? É o que as amigas fazem. Os olhos de Samanthah se encheram de lágrimas.

— Tudo bem, não vou agradecer. – disse.

Enquanto Samanthah dava o seio para Karen, que sugava o leite com a mesma voracidade que chorava, Sylvana limpou a cozinha, enquanto batiam papo e colocavam uma a par das novidades da outra. Sylvana falou do trabalho, do quanto Vereesa progredia, de ter ouvido rumores estranhos vindos de Lordaeron e que buscaria Nathanos de volta para os Andarilhos, querendo Lor’themar ou não. Ignorou quando a maga deu uma risadinha maliciosa. Samanthah falou que Vivithi aparecia de vez enquanto, mas nunca demorava muito porque estava ocupada com o teste para tenente. Comentou que seu pai estava mais amoroso com as meninas e que Aethas viria visitá-los antes do Véu de Inverno. Disse também que pretendia dar uma pausa de, pelo menos, vinte anos antes de ter o próximo bebê. Sylvana a olhou como se ela fosse louca.

— Outro bebê?! — perguntou perplexa.

— Tenho a impressão que só terei meninas, mas queria tentar apenas mais uma vez. – explicou diante da incredulidade da amiga – Um menino agitaria as coisas por aqui.

— Você não precisa de um menino para agitar nada! Você tem ela! – e apontou para Karen, que encarava Sylvana enquanto mamava.

— Tem razão. – Samanthah riu-se – Por isso preciso de vinte anos! Preciso me recuperar dessa aqui! Quero um menino!

Quando finalmente a menina comeu e teve a frauda trocada, Sylvana tocou a mãe para o quarto, pegou o suporte para carregar bebês que Dhomm tinha inventado (ele chamava-o de canguru e Sylvana não fazia ideia do porquê), colocou Karen lá dentro, de costas para ela e de frente para a paisagem, pegou seu falcoztruz e saiu com a menina pela tarde.

Se Karen ficara fascinada com o jardim de sua casa, ficou ainda mais com a vista que se desenrolava diante de seus olhos. Passearam juntas por um bom tempo. O bebê não chorou em nenhum momento. E quando o sol estava se pondo, Karen começou a bocejar e em pouco tempo dormia, encostada ao peito de Sylvana. A patrulheira então pegou o caminho de volta para a casa dos Fendessol, tendo decidido que liberaria Dhomm por mais alguns dias, pelo menos até Hobbs voltar para ajudar com o monstrinho. Isso facilitaria as coisas pra ela também, já que não precisaria lidar com o choramingo de Dhomm. E Samanthah não enlouqueceria com aquela menina.

E enquanto voltavam, por um momento, apenas por um breve momento, Sylvana pensou que talvez não fosse tão ruim ser mãe. E desejou, só por um instante, que o bebê que carregava junto ao peito fosse dela. Foi um instante breve, mas que agora voltava a sua mente da patrulheira quando viu Karen, com doze anos e com a semelhança com Samanthah ainda mais nítida, parada em pé, na sua frente, sorrindo aquele mesmo sorriso de bebê do qual se recordava

Não havia medo em Karen, percebeu Sylvana sem acreditar. A menina a olhava fascinada, como se a Dama Sombria fosse uma pessoa muito querida e esperada. O brilho no olhar de Karen deixou Sylvana sem saber como agir pela primeira vez desde que sua vida fora lhe roubada. E se não estava preparada para encontrar aquele olhar, jamais imaginara o que viria a seguir.

— Tia Syl! — exclamou a menina abrindo os braços e a envolvendo com um carinho que Sylvana não imaginava que ainda pudesse lhe ser oferecido.

Lor’themar chegou na sala no exato momento em que Karen abraçava Sylvana. O lorde regente estacou, surpreso e temeroso do que viria a seguir. Sua mão foi prontamente para a espada, já temendo a pior reação possível de Sylvana.

Contudo, a Rainha Banshee nada fez. Estava surpresa demais para agir. Não conseguia acreditar que recebera o abraço de alguém. Era estranho sentir o calor de um corpo vivo junto ao seu depois de tanto tempo. Karen aparentemente não se incomodava com a frieza do corpo de Sylvana, já que ficou vários instantes abraçada nela, até, finalmente a soltar.

— Sou a Karen. — disse a menina olhando com avidez para a elfa renegada – E você é a tia Syl, não é? Vivithi disse que eu não posso te chamar assim, mas eu posso, não é? Você deixa, não é? Estou tão feliz que você tenha vindo me ver! Você era amiga da mamãe, não é? Pode me contar histórias?

A menina despejou todas aquelas palavras com avidez enquanto Sylvana ainda se recuperava de sua chegada. Quando Karen percebeu que o silêncio da outra estava durando mais que o normal, seu sorriso começou a se pagar. Aquilo deixou Sylvana mais agitada que a alegria de antes. E, em alguns instantes, conseguiu retomar sua postura.

— Vamos deixar uma coisa clara. — disse com a voz firme – Não me toque, a menos que eu permita. O toque dos vivos não me agrada.

Karen baixou um pouco a cabeça e a encarou com os enormes olhos verdes, arrependida.

— Tudo bem. — disse com a voz baixando de tom – Desculpe.

Sylvana acenou afirmativamente com a cabeça, ainda que a tristeza da menina a incomodasse mais que a sua alegria.

— Lor’themar, faça as devidas apresentações. — disse ela acenando com a mão para o elfo que ainda estava estático na porta da sala.

Forçando-se a permanecer calmo, Lor’themar entrou na sala, procurando no rosto de Sylvana algum indício do que ela estava pensando com aquele encontro. O patrulheiro teve a impressão de ter visto o lampejo de algo bem diferente da raiva e da dor que a Rainha Banshee ostentava desde sua morte.

“Deve ser impressão minha.”, pensou. Os sentimentos de Sylvana estavam mortos, tal como seu corpo. Era estupidez pensar que qualquer um, mesmo Karen, pudesse despertar algo na alma deturpada de Sylvana. Se é que havia uma alma.

— Vossa majestade, essa é Sylvana Correventos, a Rainha Banshee dos Renegados, também conhecida como Dama Sombria. Sylvana, esta é a futura rainha de Quel’Thalas, Karensky Fendessol.

Karen olhou novamente para Sylvana, com a mesma ansiedade de antes. Esperava que ela dissesse algo. Mas o quê?, se perguntou Sylvana. O que aquela menina queria dela?

— Você é muito parecida com sua mãe. — se pegou dizendo e se arrependeu logo em seguida. De onde viera aquele impulso de falar tal asneira? Aquela não era ela, não era a Sylvana de agora. Por que diabos aquele pequeno ser tão insignificante estava extraindo aqueles sentimentos perturbadores e aquelas palavras dela?

O sorriso de Karen abriu-se e iluminou o ambiente junto com a luz da manhã que começava a se infiltrar pelas janelas. A menina parecia se segurar para não dar pulinhos de felicidade.

— É mesmo? Pareço mesmo? Você a conheceu quando ela tinha minha idade?

Sylvana fez que sim.

— Apesar de que sua mãe jamais teria abraçado alguém que nunca tenha visto nem se comportado como se fosse um filhotinho de falcoztruz ensandecido.

A crítica da Rainha Banshee não diminuiu o sorriso de Karen, pelo contrário. A menina deu uma risadinha e alisou o vestido, um pouco envergonhada, mas ainda satisfeita.

— O Temma acha que tenho que melhorar meus modos para ser rainha.

— Não me importo com seus modos com os outros, mas contenha-se comigo. — avisou.

— Tudo bem, tia Syl! — concordou animada, antes de perguntar juntando as mãos e entrelaçando os dedos – Posso te chamar de tia Syl? — e a olhou com expectativa.

Apertando os dentes, Sylvana lutou contra a vontade de dizer sim de imediato. Encarou a menina por um momento, lutando para ver ela e não a imagem da sua amiga de infância. Porém, as duas se mesclavam em sua frente e tudo que Samanthah representara parecia querer voltar para ela e achava resistência dentro de uma Sylvana deturpada e diferente daquela do passado.

— Tanto faz como você me chama. — disse aparentando indiferença – Só não me toque mais.

— Tudo bem, tia Syl! — disse a menina dando um passo a frente como se quisesse abraçá-la de novo, mas parou no último momento – Tudo bem. — disse novamente rindo e coçando a cabeça, como se pedisse desculpe pela tentativa.

Já recuperado do susto, Lor’themar decidiu que devia pelo menos tentar conduzir aquela estranha situação o mais calmamente possível.

— Muito bem, Sylvana, o que a trouxe aqui nessa madrugada?

Os motivos de Sylvana agora não importavam mais para ela. Tudo que queria era voltar para a Cidade Baixa e analisar aquele encontro. Refletir porque a menina a afetara tanto. Descobrir o porquê de sentir todas aquelas coisas quando seus sentimentos deviam ter morrido com seu corpo. Seriam realmente sentimentos ou apenas memórias subversivas que a deixara desnorteada? Por isso, precisava de tempo.

— A conversa não será mais necessária. — disse se dirigindo a porta – Estou indo.

— O quê? — Lor’themar ficou revoltado – Você vem no meio da madrugada e nos perturba para nada?

Sylvana parou por um instante e virou-se para responder, mas nem foi necessário.

— Não foi para nada! — quem falou em defesa da Rainha Banshee fora Karen – Ela veio me ver e já me viu! — e olhando para Sylvana, perguntou – A gente vai se ver de novo na minha coroação, não é? Você vem, não vem, tia Syl?

— Virei. — respondeu antes de dar as costas e continuar seu caminho, deixando um Lor’themar ainda mais confuso e uma Karen muito animada.

Houve um momento de silêncio, em que o lorde regente tentou entender o que acontecera ali, mas sem conseguir chegar a uma conclusão.

— Pela Nascente do Sol, o que acabou de acontecer aqui? — perguntou o elfo mais para si mesmo do que para Karen, sua única companhia na sala.

— Temma, ela gosta de mim! — disse a menina empolgada.

Lor’themar não teve um bom pressentimento sobre isso. Porém, era algo para discutir mais tarde, na companhia das outras princesas, de Vivithi e de Lady Liadrin. Uma delas poderia ter a resposta para aquele evento tão peculiar e perturbador.

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Saba olhou para dentro da xícara de chá, procurando por padrões nas folhas que boiavam em meio a água quente. Sob o olhar duro de sua mestra, a menina observou por um tempo, até que, desanimada, acenou com a cabeça negativamente.

— Você desiste rápido, Saba. — falou a velha orquisa franzindo o cenho – Terá que se esforçar mais.

— Sim, senhora. — concordou a menina, envergonhada.

A venha senhora a observou por um momento, antes de suspirar e dar de ombros.

— Sei que essa viagem de hoje está atrapalhando seus pensamentos. Venha, pegue logo suas coisas e vamos para Orgrimmar.

Fazia algumas semanas que Saba finalmente se mudara para morar com Shikrik, sua mestra. O acordo foi feito devido aos sonhos ruidosos e angustiantes que a menina passara a ter com uma frequência assustadora. Como ainda era muito jovem para controlar suas visões, Saba precisaria de auxílio constante para lidar com suas emoções após uma noite estressante. Desse modo, os pais dela e sua mestra chegaram à conclusão que seria melhor que a menina morasse com a xamã. No começo, Saba sentiu muita saudades dos pais, mas já estava se adaptando. A rotina com sua mestra era difícil, mas os pesadelos diminuíram muito. Agora, que estava prestes a viajar para Luaprata, para a coroação de Karen, a apreensão que os sonhos ruins voltassem a dominou. Será que conseguiria ficar em paz na capital dos elfos sangrentos?

Quando expôs suas preocupações com Shikrik e a velha orquisa apenas meneou com a cabeça.

— Tenho certeza que lá os sonhos não lhe perturbarão.

Saba não a questionou. Estava com muitas saudades de Karen. Viajaria com ou sem pesadelos.

Caminharam até Orgrimmar juntas e, vez por outra, a mestra de Saba era parada por orcs que pediam seu conselho ou ajuda. Saba sentia-se orgulhosa de ter uma mestra tão respeitada e amada. Era muito melhor que treinar na Academia Militar, onde tinha que constantemente se defender dos alunos maiores. Com Shikrik era só paz e tranquilidade. E muito estudo. A volta até a capital fora mais longa que o normal devido as conversas da sua mestra e Saba começou a ficar agoniada, achando que Kassyeh desistiria de esperá-la se demorassem muito. E quando finalmente entraram na cidade e a menina já estava mais aliviada, viram uma figura enorme se aproximando das duas.

— Ei, garota! — grunhiu o orc.

Saba estacou. O orc era enorme, maior do que o normal e sua pele era negra, escura, que mostrava que aquele que se aproximava pertencia ao clã Rocha Negra. Assustada, Saba olhou para sua mestra, mas Shikrik estava calma e tranquila, então a menina relaxou.

O orc chegou bem perto delas e baixou-se, analisando Saba. Instintivamente, a menina procurou a mão de sua mestra e a apertou com força. O Rocha Negra ainda a analisava quando sua mestra, com sua voz rouca, mas suave, perguntou:

— Algum problema, Malkorok?

Então aquele era Malkorok? O guarda-costas de Garrosh Grito Infernal? Saba já ouvira muito falar dele e metade das coisas não eram boas. Apesar da maioria dos orcs admirar sua força, esses mesmos orcs duvidavam de sua honra. Afinal, ele era um Rocha Negra. Aqueles orcs tinham a fama de serem desonestos. O que Malkorok queria com ela, afinal?

— Essa menina aí, é ela que é amiga da piveta de Luaprata?

— Se você está se referindo à futura rainha de Quel’thalas, Karensky Fendessol, sim, elas são amigas. Posso perguntar por quê do interesse?

— Não, não pode. — respondeu Malkorok rudemente. E encarando duramente Saba, falou – Esteja avisada, piveta, em breve o Chefe Guerreiro vai querer falar com você sobre essa amizade.

Saba arregalou os olhos. Ela seria levada para falar com Garrosh? Quando? Naquele momento? Olhou para Shikrik em busca de ajuda. Uma coisa era admirar o chefe Guerreiro, a outra era ser levada até a sala dele por causa de sua amizade com Karen.

— Eu não sabia que Grito Infernal convocava crianças para a sala dele para saber sobre seus amiguinhos. — comentou a xamã com displicência – A Aliança deve estar muito quieta para que nosso Chefe Guerreiro tenha tempo para isso.

Malkorok se levantou e encarou a xamã:

— Está questionando os desejos do chefe guerreiro, velha?! — perguntou o orc aos gritos, com o rosto bem próximo de Shikrik, praticamente cuspindo em seu rosto.

Muitos passantes agora observavam a cena, mas a velha orquisa encarava Malkorok com serenidade.

— Claro que não. Estou apenas surpresa. Ela será levada agora? — perguntou enquanto Saba apertava sua mão com força.

— Tá surda velha? Eu disse breve!

— Então podemos ir? — perguntou a senhora apontando para o caminho que seguiam – Por favor?

Malkorok deu um passo para o lado, permitindo que elas continuassem. Saba apressou o passo, agoniada, mas foi contida por sua mestra.

— Calma, criança. Não demonstre seu medo.

Saba diminuiu o passo, respirando fundo e tentando imitar a calma de Shikrik. Quando estavam quase na estalagem de seus pais, olhou para trás e viu que Malkorok ainda as observava. Virou a cabeça para frente na mesma hora. Não gostada daquele orc, de forma alguma.

Kassyeh já estava na estalagem quando chegaram e aquilo trouxe um alívio imenso para Saba. Soltou-se da mão de sua mestra e correu para abraçar a elfa. Kassyeh acolheu Saba em seus braços, sorrindo, sem fazer ideia do que acontecera instantes atrás.

— Saba! Cada vez que te vejo você está maior! — e quando se separaram, viu lágrimas querendo brotar do rosto da menina. Seu sorriso morreu – O que foi, Saba?

A menina apenas sacudiu a cabeça negativamente, mostrando que não queria falar.

— Tivemos um encontro nada agradável com Malkorok. — relatou Shikrik deixando os pais de Saba alarmados e Kassyeh confusa.

— Malkorok? O guarda-costas do Chefe Guerreiro? — perguntou a maga.

Shikrik então relatou o encontro, tendo o cuidado de deixar a voz baixa, mesmo que não houvesse ninguém na estalagem, além do tauren Gamon, mas este estava muito bêbado para qualquer coisa. Depois que a xamã terminou de falar, Kassyeh olhou para os pais de Saba, confusa.

— Não faço ideia por que a amizade entre Karen e Saba seja do interesse do Chefe Guerreiro. Vocês sabem?

— Nem nós, Kass. — disse Murag pegando quatro copos e enchendo de bebida – Mas o que sabemos sobre Malkorok é o suficiente para não gostarmos de ele abordar nossa filha. — o orc ofereceu a bebida para a elfa, a xamã e sua esposa. Depois pegou um copo para ele. Bebeu tudo de uma vez só e pôs outra dose para si – Malkorok é um Rocha Negra. Ele acredita que os orcs são superiores as outras raças e que o Rocha Negra são superiores aos outros orcs. Ele não é muito benquisto em Orgrimmar.

— Em lugar nenhum. — falou Gryska – Acho que essa abordagem foi mais ideia dele do que o do Chefe Guerreiro.

Se aquilo fosse verdade, não era nada bom, pensou Kassyeh. Um líder que permite que seus subordinados abordem uma criança, assustando-a, podia permitir coisas muito piores. A elfa então pegou o copo que lhe foi oferecido e tomou de uma vez só, como os outros fizeram,

— Vocês ainda vão permitir que Saba viaje comigo? — quis saber.

Saba olhou para os pais, em pânico.

— Claro que ela vai. — disse a mãe da menina, arrancando suspiros de alívio desta – Não houve nenhuma proibição, não é? E ainda somos os pais dela. Ninguém tem o direito de interferir na vida de Saba sem nossa autorização. Nem o Chefe Guerreiro pode ir contra essa tradição.

— Obrigada, pai, mãe! — exclamou a menina abraçando os dois – Eu gosto muito da Karen! Não quero deixar de ser amiga dela!

— E ninguém vai te obrigar a isso. — disse o pai – Agora, vá logo antes que Malkorok mude de ideia e venha te buscar.

— Então, vamos! — a maga abriu o portal para Luaprata ali mesmo.

Saba se despediu dos pais e da mestra com abraços apertados, antes de pegar a mão de Kassyeh e atravessar o portal mágico.

Quando os orcs foram deixados a sós, se entreolharam. Apenas eles, que estavam vivendo em Orgrimmar, sabiam o clima de intolerância que estava se formando lentamente, mas que já era perceptível. Desde a entrada dos Presas de Dragão na Horda e da ascensão de Malkorok, as outras raças estavam sendo vistas com desconfiança e muitos diziam que Zaela enchia os ouvidos do Chefe Guerreiro de dúvidas quanto a lealdade e força de todo aquele que não fosse orc. Essas ideias achavam terreno fértil em jovens impressionáveis e velhos guerreiros saudosos de velhas glórias. Porém, em pessoas como eles, que entendiam e respeitavam qualquer um que pertencesse à Horda, aquilo era um mal sinal.

— Sinto falta de Thrall... — confessou Morag enchendo o terceiro copo.

— Todos nós. — respondeu Shikrik – Mas ele está salvando o mundo e a nós resta aguardar que isso seja um evento isolado.

Apesar das palavras, a xamã tinha dúvidas que aquilo pararia. Na verdade, acreditava que as coisas piorariam nos próximos anos. E os sonhos de Saba mostravam que a Horda passaria por uma grande provação em breve. Estava na hora de fazer oferendas aos espíritos e pedir proteção e sabedoria para esses tempos sombrios que se aproximavam.

***********************

Luxuriah não tinha uma boa noite de sono há dias e, ainda assim, já estava acordada quando o sol raiou. Há muito sentia que seu corpo não lhe pertencia mais. A barriga pesava e Tinuviel mexia-se mais e mais, impaciente com o espaço do útero, pequeno para seu atual tamanho. E por mais que a menina se movimentasse com frequência, ainda não havia parado na posição ideal para o nascimento. E aquilo deixava Luxuriah preocupada e ansiosa, o que tirava ainda mais seu sono. Olheiras se destacavam em seu rosto, esverdeadas em meio a pele morena e Rommath estava uma pilha de nervos devido a essa situação.

Todavia, naquele dia, o cansaço de Luxuriah estava maior que nos dias anteriores e ela acordara com uma sensação estranha, um aperto no peito. Sentia que algo estava muito errado, mas não conseguia saber o quê. Ficou olhando para o teto bastante tempo, analisando as sensações de seu próprio corpo, mas tudo parecia normal. O mesmo cansaço de sempre. O mesmo peso na barriga. Tinuviel mexendo e a mão quente de Rommath em seu ventre. Tudo parecia normal. Mas havia algo no ar. Algo que ela não conseguia descobrir.

— Conseguiu dormir? — ouviu Rommath perguntar ao seu lado.

Virou a cabeça e ele a encarava, preocupado. Luxuriah fez que não com a cabeça, lentamente. Seu pescoço doía também.

— Tirei alguns cochilos. — revelou – Acordava com vontade de ir ao banheiro ou com o movimento dela. — suspirou, cansada – E eu que achava que ela só me manteria acordada depois que nascesse…

Rommath alisou o rosto de Luxuriah, desesperado porque não havia nada que ele pudesse fazer que não fosse esperar. Se estivesse em seu poder, sua filhinha já estaria em seus braços e Luxuriah poderia descansar o suficiente mais uma vez. Todavia, a gravidez da elfa se arrastava cheia de tensão, preocupações e muito desgaste.

— Quer que eu chame Kayliel? — perguntou Rommath fazendo menção de se levantar.

— Não. — ela o deteve – Ele ficou de me examinar antes de ir ao baile. Deixe-o dormir. Ele também anda com insônia, como eu. Só que ele pode voltar a dormir quando o sol raia. — gracejou ela numa tentativa falha de fazer piada. Rommath não riu, apenas a encarou.

Cansada de ficar na cama, Luxuriah se levantou. Vestir-se era exaustivo, mas ela o fazia devagar e sozinha, porque não queria ter mais essa humilhação, de depender de outra pessoa para colocar suas calças. Apesar de que fazia mais de um mês que usava apenas vestidos. As calças não lhe serviam mais. Quando ficou pronta, saiu junto com Rommath na direção da sala de estar e ficou surpresa ao ver que Karen e Tewdric já estavam acordados e que a menina estava mais elétrica que o normal.

— Karen? — chamou a irmã mais velha ao descer as escadas – Já acordada?

— Eu recebi uma visita da tia Syl! — disse a menina cheia de empolgação.

— Tia Syl? — Luxuriah levou alguns segundos para entender que Karen se referia a Sylvana Correventos – A Rainha Banshee esteve aqui? — a pergunta foi dirigida a Tewdric.

Então, o orc começou a explicar e Luxuriah entendeu porque sua irmã parecia estar cheia de mana no corpo. A visita de Sylvana Correventos deixou Karen mais agitada que o normal. Muito mais.

Tewdric começou a lhe contar o que soubera por Lor’themar sobre a visita da Rainha Banshee em plena madrugada e como depois que esta foi embora, Karen não conseguira dormir mais. Lor’themar então ficou a cargo de cuidar dela para que sua sobrinha voltasse a dormir e não tivesse olheiras para o baile. O lorde regente disse que então foi bombardeado de perguntas sobre a antiga general patrulheira de Luaprata e respondeu todo o questionamento da futura rainha com paciência, ainda que estivesse morrendo de sono. E, assim que viu Tewdric acordado, passou a incumbência para o orc, se retirando para dar um cochilo reparador depois de tanto estresse. Desde então, o guerreiro ficou com Karen, tentando controlar a ansiedade da menina.

Será que essa era a sensação estranha que Luxuriah sentira? A presença sombria da antiga amiga de sua mãe pela Torre? Difícil… Se Luxuriah fosse uma paladina aquilo poderia ser possível. Paladinos sentiam os mortos-vivos. Não… O sentimento estranho que a dominara aquela manhã nada tinha a ver com a visita da Dama Sombria.

— Ela é tão legal! — disse Karen, extasiada – Até deixou eu chamá-la de tia Syl!

— E ela não lhe disse nenhum momento porque veio aqui? — perguntou Rommath sem acreditar.

— Claro que foi para me ver! — exclamou a menina exasperada.

— E por que ela não esperou a coroação? — questionou o arquimago.

— Porque ela queria me ver hoje! — respondeu a menina afobada – Aff, vocês complicam muito as coisas! Por que ela não poderia vir apenas para me ver? Ela era amiga da mamãe!

Rommath e Luxuriah trocaram olharem, mas nada falaram. Cansada como estava, Luxuriah apenas se sentou pesadamente em uma poltrona e respondeu a sua irmã:

— Claro que foi para te ver, Karen. — a última coisa que ela precisava era que sua irmã decidisse despejar sua ansiedade nela – Espero que isso não a impeça de vir novamente depois de amanhã.

— Ela disse que vinha! — avisou a menina alegremente.

O Grão-Magister fez menção de dizer algo, mas Luxuriah fez que não com a cabeça. Naquele momento, o ideal era não contrariar Karen.

Os três adultos então passaram a hora seguinte ouvindo todos os planos que Karen agora fazia de visitar a Rainha Banshee, tomar chá com ela, conversarem sobre Samanthah e como seriam grandes amigas. E outra situação, Luxuriah arrancaria os cabelos só de imaginar Karen sozinha com a Dama Sombria, mas estava cansada demais para pensar nisso. Chegou até mesmo a cochilar enquanto ouvia a irmã.

— Lux? — chamou Karen em determinado momento.

— Desculpe, Karen. — pediu passando a mão no rosto – Eu não dormi bem…

— Por que não se deita de novo, então? — perguntou a menina.

— Porque basta eu deitar para ela decidir acordar. — e apontou para a barriga – Se Tinuviel for tão agitada quando eu penso, vou empurrá-la para você. Como a tia com mais energia aqui, você vai ter que cuidar dela.

Os olhos de Karen brilharam de felicidade.

— Serei a melhor tia do mundo! — exclamou.

Luxuriah não duvidava.

Apesar de ter dito que não queria deitar novamente, Luxuriah acabou fazendo-o assim que ela e as irmãs tomaram café. Estava difícil se manter acordada e ainda não se sentia bem. Ficou feliz em passar a obrigação de cuidar de uma Karen a mil por hora para Kassyeh alegremente, já que a maga colocara mais lenha no fogo da irmã mais nova ao anunciar que buscaria Saba naquela manhã. Então, a Dama Sombria foi substituída na mente da menina pela amiga que ia chegar.

Após Luxuriah se retirar para o quarto numa tentativa de tentar descansar, sendo acompanhada por Rommath, Ash decidiu que Karen estava agitada demais para seu gosto e foi alegremente treinar no pátio. Kassyeh logo se teleportou para Orgrimmar enquanto Tewdric era arrastado pela futura para o recinto ao lado da sala do trono, onde os portais vindos de toda a Azeroth se abriam.

Em pouco tempo, a menina passou a dar voltas e voltas ao redor do cômodo, olhando a todo momento para o lugar onde o portal apareceria. Em determinados momentos ela parava, bufava exasperada, encarava o local e voltava a andar. Na quarta vez que ela fez isso, o orc tentou acalmá-la.

— Só faz uns dez minutos que a Kass foi. — avisou.

Karen parou de andar e colocou as mãos na cintura.

— Já faz tudo isso?! É muito tempo!!

— Não é tanto tempo assim… — disse Tewdric tentando minimizar a ansiedade da menina.

— É! Elas tão vindo de portal mágico! Portal! Entrou, tá aqui! — Karen voltou a andar e Tewdric deu de ombros.

Depois que Tewdric já tinha perdido as contas de quantas voltas Karen havia dado, houve um brilho em um canto da sala e a menina parou de andar e passou a observar a luz, dando pulinhos. Kassyeh e Saba apareceram em seguida e a primeira coisa que ouviram foi o grito de alegria de Karen antes dessa se atirar contra a amiga, abraçando-a com vontade.

Todos os medos de Saba foram varridos de sua mente naquele momento. Não importava mais Malkorok ou Garrosh. Karen era sua amiga e estava ali com ela. Estava tudo bem.

— Saba, Saba, você chegou! — Karen agarrou Saba e rodava com ela – Tenho tanta coisa pra contar! Tanta coisa!

— Também tenho! — falou Saba rindo – Muita coisa!

— Então vamos!!! — e Karen saiu puxando a pequena orquisa, deixando Tewdric e Kassyeh para trás.

Quando viu que estava a sós com sua elfa, Tewdric a puxou pela cintura e a beijou. Kassyeh emitiu um ruido de surpresa, mas logo estava agarrada ao marido, beijando-o com vontade. Ao fim do beijo, Tewdric a encarou, um pouco surpreso.

— Você bebeu?

Kassyeh suspirou.

— Bebi uma dose com Murag e Gryshka. Estávamos precisando.

Tewdric franziu as sobrancelhas, curioso.

— Você não vai acreditar no que aconteceu… — murmurou a elfa antes de contar o que havia acontecido com Saba naquela manhã. Tewdric não demostrou surpresa.

— Malkorok é tão ligado com essa coisa de ancestralidade e sangue orc quanto Garrosh. Se não for mais. E ele tende a ver todos como inimigos dos orcs. Até mesmo outro orcs.

— Isso não é bom… — murmurou Kassyeh.

— Não, não é. — Tewdric a estreitou em seus braços – Mas não se preocupe. Vou acionar uns contatos lá em Orgrimmar pra ficar de olho em Saba. Pelo menos ela tá morando com Shikrik. Nenhum orc em sã consciência arrumaria confusão com uma xamã como ela.

Kassyeh abraçou Tewdric com força, uma estranha sensação tomando conta de seu coração.

— Tewdric… As coisas estão ficando cada vez mais estranhas com Grito Infernal à frente da Horda…

— Estão mesmo… — o orc passou as mãos nas costas da esposa – Mas vai ficar tudo bem. Existem orcs como Eitrigg e Saurfang em Orgrimmar. Eles vão ajudar a manter as coisas em ordem.

Mesmo tendo afirmado aquilo, Tewdric estava tão temeroso quando Kassyeh. E sabia que, se as coisas ficassem realmente tão ruins quanto temiam algumas pessoas com as quais ele já conversara, os primeiros a serem afetados seriam eles dois. Um casal inter-racial entre os orcs eram muito mal visto. Mas o que podiam fazer contra ele, um sem clã? Tirar seu título de Campeão da Horda? Pois que ficassem com ele. Proibi-lo de entrar em Orgrimmar? Era impossível. Desde que não cometesse um crime contra a Horda especificamente, não podia ser considerado um traidor. O máximo que aconteceria seria sua exclusão dentro do seu povo, e ele não se importava com aquilo. Kassyeh ficaria triste, pois ela pensaria que era sua culpa. Seria questão de convencê-la que estava muito feliz e que não trocaria aquela felicidade por nada. No mais, Garrosh não podia prejudicá-lo de verdade. E talvez fosse isso que deixasse irritado. O Chefe Guerreiro não poderia abertamente prejudicá-lo sem deixar claro sua xenofobia. E isso custaria apoio dos outros chefes da Horda e, no momento, Garrosh precisava deles ao seu lado.

— Venha, minha Kass. — chamou ele puxando-a em direção à porta – Karen e Saba vão quebrar tudo se não ficarmos de olho nelas.

Mal o orc tinha falado e ouviram um grito e um barulho de armadura caindo. O grito era masculino e adulto.

— Ah, minha Nascente, o que Karen fez com os guardas dessa vez? — murmurou Kassyeh antes de correr atrás da irmã mais nova.

O resto do dia do casal foi bem atribulado. Karen e Saba estavam com muita saudade e energia acumulada. Queriam fazer tudo que pudessem ao mesmo tempo. Enquanto isso, Kassyeh era constantemente requisitada para dar opiniões sobre a organização da coroação. Por fim, Tewdric garantiu que ficaria bem com as meninas e disse que ela podia ir organizar as coisas junto com Lor’themar. Ficaram então os três juntos, até a noite.

Quando chegou a noite, Luxuriah já se sentia melhor. Passara por um longo exame com Kayliel, antes que o elfo fosse para o baile. O sacerdote garantiu, praticamente jurou ao irmão que estava tudo bem e que o cansaço de Luxuriah era normal.

— Ela está entrando no que eu acredito ser as últimas semanas da gravidez. — disse.

— Semanas?! — exclamou Luxuriah abismada – Achei que eram dias! Espero que ela venha logo. — desejou a mãe.

— Eu espero que ela não venha até que esteja na posição correta. — desejou Kayliel.

— E se isso não ocorrer? — perguntou Rommath preocupado.

— Teremos duas opções: eu tento virá-la dentro da barriga mesmo, mas isso será bem doloroso para a Lux.

Se só de Tinuviel se mexer normalmente já lhe causava incômodo, Luxuriah não queria pensar no que seria alguém tentando virá-la dentro de sua barriga. Tinha ânsias de vômito só de pensar.

— E qual outra opção? — perguntou Luxuriah, angustiada.

— Fazer uma cirurgia. É mais complicado e não quero recorrer a ela. Porque a Lux teria que tomar uma poção forte para dormir e eu teria que cortar a barriga dela e tirar a menina rapidamente enquanto Lorena a cura. É arriscado. Então vamos torcer para não precisarmos disso.

Rommath sentiu o coração descompassado só em pensar que tivessem que recorrer a um método tão violento quanto aqueles.

— Você deve evitar o estresse a todo custo. — continuou Kayliel – Deixe que outros se preocupem com a coroação de Karen. Fique na cama o máximo que puder. — e dando uma pausa, falou – Talvez eu não devesse ir para o baile. Talvez devesse ficar com você, Lux.

— Acho uma excelente ideia! — disse Rommath.

— Eu não. — retrucou Luxuriah – Kayliel só vive enfurnado em casa. Precisa sair. Ver gente. Mesmo que seja o povo imbecil do Kirin Tor. Quem sabe não conhece uma bela elfa por lá… — e deu um sorriso malicioso.

Era a última coisa que ele faria, mas sua cunhada estava grávida e precisava de paz, por isso disse:

— Quem sabe? Estou aberto a essa opção.

O sorriso de Luxuriah foi tão bonito e aliviado que Kayliel se sentiu culpado por aquela mentira.

— Certo, vá se arrumar logo. — ordenou a elfa – Quero te ver antes de você sair.

Todos já haviam jantado quando aqueles que participariam do baile ficaram prontos. Kayliel fora se arrumar em casa e pedira muitas desculpas a Luxuriah por isso. Deixara a roupa lá e não queria trazê-la pois corria o risco de amassá-la. A elfa não se importou. Só queria que ele fosse ao baile. Depois, as irmãs foram ver Vivithi vestida para o baile e desejar sorte. Saba preferiu não ir porque estava mais interessada em conversar com Lady Liadrin sobre como os elfos sangrentos lidavam com a morte, espíritos e outras coisas. A matriarca havia levado Salandria para brincar com as meninas. Depois da despedida a Vivithi, as três meninas ficaram sentadas no carpete grosso da sala de estar, combinando altas aventuras para o dia seguinte. Luxuriah ouviu os planos por um tempo, até perceber que precisava interromper e trazê-las de volta à realidade.

— Amanhã é a prova final dos vestidos de Karen para a coroação. — lembrou – Vocês não terão tempo para fazer metade dessas coisas. Além do mais, precisamos manter o salão de baile intacto. A coroação e o baile serão lá.

— Vestidos? — estranhou Saba – Ela vai usar mais de um?

— Vai. — respondeu Ash – Um para a coroação, um para o baile e um para receber os chefes da Horda.

— Mas Karen não decidiu ainda qual vai usar. — disse Salandria, a filha de Lady Liadrin.

— Eu já disse o que quero usar, mas ninguém me ouve! — reclamou a menina.

— Você não pode usar sua armadura na coroação, Karen, já conversamos sobre isso. — falou Luxuriah, cansada.

— Mas é uma armadura de gala! — insistiu a menina e Saba percebeu que aquela conversa já havia acontecido antes – Para quê eu tenho uma armadura de gala se não posso usar?!

Luxuriah suspirou, cansada. A sensação de mais cedo estava voltando e a deixava enjoada.

— Eu não vou discutir mais com você sobre isso, Karensky… — havia um desconforto visível na elfa – Você vai usar um vestido na coroação e ponto.

Karen bufou, irritada.

— E porque ela não veste a armadura depois? — sugeriu Saba – A Ash não disse que vai ter a cerimônia lá bonitona, aí depois tem o baile né? Por que você não usa a armadura no baile?

Os olhos da jovem elfa brilharam e Luxuriah desejou que Saba tivesse ficado calada. Vendo o cansaço no rosto da esposa, Rommath, que ficara quieto durante a conversa, decidiu ajudar:

— Saba, Karen precisa estar devidamente vestida para aparecer pela primeira vez como rainha para seu povo e para nossos aliados, então…

— Então ela pode usar a armadura, oras! — insistiu a pequena orquisa – Pra quê três vestidos? Usa dois e uma armadura! Ou um vestido e uma armadura! É mais justo!

— É sim! — concordou Karen.

— E a armadura de Karen é linda! — elogiou Salandria – É toda dourada com vermelha e tem umas asas de fênix nos ombros!

— Que linda! Quero ver! — exclamou Saba.

Luxuriah estava cansada demais para brigar com a irmã novamente, principalmente com o apoio de Saba. A sensação ruim de mais cedo ainda estava lá e piorava cada vez mais. Seria o bebê? Não, Kayliel garantiu que estava tudo bem. Já estava meio arrependida de não ter aceitado o oferecimento de Kayliel para ficar ali com ela e pensou em pedir para Rommath ir buscar o cunhado de volta. Não… Kayliel merecia aquela noite. Talvez fosse apenas a ansiedade da irmã contagiando-a. Era provável que fosse apenas exaustão e tudo que precisava para se sentir melhor era paz.

— Se eu deixar você usar a armadura para encontrar os chefes da Horda, você escolhe amanhã, sem reclamação, os dois vestidos? O da coroação e do baile? — perguntou Luxuriah sentindo-se vencida.

— Escolho até agora de noite! — falou Karen levantando de um pulo – Pode pedir pra trazer o alfaiate! E amanhã fico livre com as meninas!

Luxuriah a encarou, cética.

— Sem reclamações? — perguntou.

— Nenhumazinha! — garantiu Karen.

— Certo, então. — Luxuriah achou melhor acabar logo com aquilo – Alguém peça para buscarem Marko Berthas com os vestidos logo hoje, em vez de amanhã. Assim podemos ter um pouco de paz…

— Talvez fosse melhor ir para lá. — sugeriu Kassyeh – Trazer os vestidos vai demorar. Ele fez muitos…

Apesar de não querer nem pensar em sair de casa, Luxuriah achou a sugestão de Kassyeh mais eficiente. Quanto antes se livrasse daquele problema, melhor. Passaria o dia seguinte na cama e só pretendia sair dela quando fosse estritamente necessário.

— Vamos, então. — Luxuriah fez um pouco de esforço para se levantar.

— Você pode ficar em casa. — sugeriu Ash – Eu e a Kass iremos.

— Não, quero ver se Karen vai escolher um bom vestido e não empurrar qualquer um para vocês duas. Vamos, vamos.

— Então, tudo bem então se eu ficar? — perguntou Ash já pensando em ter um momento a sós com Lor’themar.

— Pode ficar aí, namorando. — gracejou Karen – Eu não queria que você fosse mesmo…

— Haha… — disse a outra revirando os olhos.

Rapidamente foram buscar uma carruagem para levá-las. Lady Liadrin e a filha voltaram para casa, pois a paladina queria que a menina descansasse bem para o dia seguinte. A contragosto, Salandria deixou as amigas. Então Luxuriah tocou Karen e Saba para a carruagem, enquanto Rommath a ajudava a subir os degraus. Kassyeh entrou logo em seguida. Tewdric já estava quase entrando também quando lembrou de algo e voltou para dentro. Instantes depois ele saiu com um imenso machado nas costas, ainda que não usasse armadura.

— Para que isso, Tewdric? — perguntou Rommath rindo – Vamos apenas no alfaiate.

— Precaução. — disse o orc.

O alfaiate ficou surpreso quando a comitiva chegou, mas gostou da ideia de escolher logo os vestidos, assim poderia fazer os ajustes com calma no dia seguinte. Saba ficou impressionada quando foram para o estúdio e viu lá uma arara cheia de vestidos para Karen. Tinha pelo menos uns dez.

— Para que tantos? — perguntou.

— Bem, mesmo que a rainha decida só por três, os outros podem ser usados em outras ocasiões.

— Serão apenas dois. — revelou Luxuriah sentando pesadamente na poltrona – Para encontrar os chefes da Horda, ela usará a armadura de gala.

— Isso é ótimo! — exclamou o alfaiate – Vai mostrar para eles que estamos dispostos a lutar! Excelente ideia!

Saba abriu um grande sorriso e Luxuriah pensou que realmente, olhando pelo ponto de vista do alfaiate, fazia sentido.

— Vamos, Karen, escolha logo! — ordenou a irmã.

— Eu quero provar todos! — reclamou a menina – Para poder escolher direito! — e fazendo um bico, disse tristemente – Não queria que Lady Liadrin tivesse levado a Salandria…

— Salandria não tem sua energia. Se ficasse aqui, amanhã não conseguiria nem brincar. — disse Kassyeh.

A prova então começou e Luxuriah percebeu como seria difícil a escolha de Karen. Cada vestido era mais bonito que o outro. Por sorte, quando Karen não gostava de um, nem sequer saia do provador e já descartava o vestido. Fez isso com os três primeiros.

— São bonitos. — a menina explicou – Mas não pra coroação. Eu tenho que gostar bem muito do vestido!

— E se ela não gostar de nenhum? — perguntou Kassyeh baixinho apenas para Luxuriah ouvir.

— Ela vai ter que gostar de dois! — sentenciou Luxuriah.

Para o alívio das irmãs, Karen gostou muito do quinto vestido e já o deixou separado para o baile. Era realmente lindo. Não tinha mangas, o busto tinha uma mistura de pedras e tecido prateado com um decote de canoa bem perto do pescoço da menina. A saia era cheia, mas não tanto, permitindo o movimento gracioso da menina.

— Adorei! — exclamou ela quando exibiu para as irmãs— Com esse aqui vai dar pra dançar bem muito e ele vai ficar balançando quando eu andar!

— Não é um pouco nu demais em cima pra sua idade? — perguntou Kassyeh sem muita certeza da escolha da menina.

— Não, não é! — exclamou Karen – É lindo!

— Eu gostei! — afirmou Saba animadamente.

Karen olhou para a irmã mais velha, ansiosa. Luxuriah ficou surpresa por ter gostado do vestido tanto quanto a irmã.

— Eu adorei. — falou com sinceridade – E não é inapropriado para a idade dela, Kass. Karen tem doze anos! Já passou da fase dos vestidos bufantes!

— Isso mesmo! — concordou a pequena elfa.

Kassyeh apenas suspirou e não discutiu mais. Depois, Karen experimentou e descartou o sexto sem mostrar às suas companhias. O sétimo ela mostrou, mas Luxuriah balançou a cabeça em negativa. Para a surpresa de todos, Karen acatou a sugestão da irmã e descartou-o. A menina gostou bastante do oitavo, só que Saba brincou dizendo que ela parecia um pacote de algodão-doce. Karen descartou-o. E então pôs o nono vestido e ficou encantada. Era dourado, com mangas compridas, todo de rendas. A saia era imensa e imponente. Karen olhou-se no espelho e sentiu-se realmente uma rainha. Saiu rapidamente do provador, deu uma rodada na sala e o sorriso foi geral.

— Então será esse? — perguntou Luxuriah aliviada, querendo voltar para a Torre.

— Sim! Sim! – afirmou empolgada – Mas eu queria provar o último. — avisou.

— Por que? — indagou a irmã – Achei que você tinha amado esse.

— E amei! Vai ser ele! — ela passou as mãos animada pelo vestido – Mas quero provar o último. — a menina encarou a irmã e disse – Descarga de consciência.

— Desencargo de consciência. — corrigiu Kassyeh suavemente – Então vá logo provar o último Karen. Todos nós precisamos descansar.

A menina voltou para o provador saltitante para a última prova.

Durante esse período, Tewdric estava extremamente quieto, apenas observando a prova do vestido. Estava tenso. Seu instinto lhe dizia que algo estava para acontecer. Ou talvez fosse apenas preocupação depois do que Kassyeh lhe dissera pela manhã. Precisava mandar uma carta para o pessoal da guilda que estava em Orgrimmar. Pediria para lhe darem um apanhado completo do que acontecia na capital da Horda e como as pessoas estavam reagindo a isso. Discretamente, é claro. Pediria também para os de outras raças lhe dizerem o que seus respectivos líderes achava. Ele sabia a postura de Lor’themar, claro. Imaginava que outros não pensavam muito diferente. Com exceção de Gallywix. Aquele lá só pensava em dinheiro.

Estava imerso nesses pensamentos quando Karen saiu com o último vestido, encantada. Era totalmente branco e a menina usava luvas compridas, combinando. Tewdric sorriu. Ela parecia um anjo.

— Esse tá tão lindo! Não era bonito no cabide, mas agora…. Gostei bastante! — disse animada.

— Vai trocar um desses por esse ai? — perguntou Kassyeh apontando para os vestidos já escolhidos.

— Não sei… — ela estava em dúvida – O que acha, Saba?

Saba não respondeu. Encarava Karen com uma expressão tão aterrorizada que a pequena elfa sentiu toda a alegria se esvaindo.

— Tá tão feio assim? — perguntou Karen triste.

— E-eu j-já vi esse vestido… — gaguejou a menina.

— Isso é impossível. — disse o alfaiate franzindo a testa – Eu o fiz essa semana.

O pânico tomou conta de Saba e agora ela respirava com dificuldade. Sentiu as imagens voltando em sua mente como uma inundação invade uma casa vazia. O sangue, a dor de Karen, a impotência… Tudo voltou a sua mente e a menina percebeu que seus sentidos se esvaiam. Quando deu por si, Kassyeh a segurava com força, sua cabeça pendendo no peito da elfa.

— Saba! Saba! — chamava a maga assustada – O que você tá sentindo?

A menina piscou os olhos, focando a vista e olhou para Karen novamente.

— Saba, o que foi? — perguntou a menina, assustada.

— Tire o vestido! — mandou a pequena orquisa, com uma energia que não era compatível com a fraqueza em seu corpo – Vai acontecer algo!

Todos se encararam, sem entender. Tewdric então sentiu um frio na espinha. Saba estava estudando para ser xamã. E disse que já vira aquele vestido. E pela expressão dela, não fora uma visão feliz. Aquilo não era bom, não mesmo. Tirou o machado de suas costas.

— Saba vai ser xamã. — começou ele atraindo a atenção de todos – Ela pode ver coisas. Se ela viu esse vestido antes foi porque teve uma visão com ele e não foi uma boa visão. — havia urgência em sua voz enquanto explicava – Vamos todos voltar para torre, agora! — ordenou o orc se encaminhando para a porta.

O mal estar de Luxuriah aumentou diante das palavras de Tewdric e sentiu uma pontada em seu peito. Se levantou o mais rápido que sua barriga permitiu e dava ordens para as irmãs quando uma comoção fora do estúdio chamou a atenção deles.

— Luxuriah! — gritou uma voz – Eu sei que você está ai! Saia!

Luxuriah reconheceu a voz imediatamente. Era Grey. Sentiu-se desfalecer por um momento, mas foi segurada por Rommath. O desespero tomou conta de seu corpo e ela sentiu a angustia crescer dentro de seu peito. O que o elfo fazia ali?

— Como ele ousa! — exclamou Rommath querendo sair, mas segurando a esposa.

Tewdric não disse nada, apenas se virou e saiu. Lá fora, os guardas que foram com eles estavam de espadas sacadas, impedindo que o elfo, vestido em sua armadura prateada, entrasse no ateliê. O orc encarou Grey por um momento antes de fincar seu machado no chão.

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— Daqui você não passa, elfo.

— Nenhum de vocês vai me impedir. — disse Grey – Falarei com Luxuriah. Querendo ela ou não.

— Você e que exército? — perguntou Tewdric – Eu sozinho já daria conta de você. E não sou o único aqui que quer te ver indo embora. — falou apontando para a guarda.

Grey sorriu, altivo, e Tewdric ficou com ainda mais raiva.

— Ah, eu não preciso dar um passo para conseguir o que eu quero, orc. — disse com um sorriso malicioso no rosto – Luxuriah! — ele gritou – Ou você sai ou vou começar a contar seu belo segredo para todos em Luaprata! A escolha é sua!

Dentro do ateliê, Luxuriah fechou os olhos, sentindo o chão fugir de seus pés. O que ela mais temia estava acontecendo. Grey bradava, aos gritos, que revelaria aquilo que ela mais lutou para esconder. Karen e Kassyeh a olharam, num misto de confusão e preocupação. A elfa respirou fundo no momento em que sentiu uma pontada na barriga.

— Vou sair. — falou fracamente para Rommath, tentando se levantar – Vou falar com ele.

— De jeito nenhum! — exclamou Rommath segurando-a em seus braços – Esse maldito não vai conseguir o que quer!

— Luxuriah! — os gritos recomeçaram – Você tem pouco tempo!

Kassyeh, que ainda segurava Saba em seus braços, percebeu a dor e o desespero no rosto da irmã. O que quer que Grey ameaçava contar doía em Luxuriah e não podia permitir que aquele imbecil continuasse com aquilo.

— Eu vou sair e mandá-lo embora. — disse a elfa colocando Saba sentada no sofá – Fique aqui, eu vou resolver.

— Não! — gritou Luxuriah – Eu vou conversar com ele.

— Não! — gritou Rommath e Kassyeh ao mesmo tempo.

— Eu preciso ir! — insistiu a elfa.

Enquanto os adultos discutiam, Karen simplesmente saiu, antes que eles vissem. Aquele paladino Grey estava perturbando sua irmã e ela não podia permitir aquilo. Apenas Saba a viu sair e fez um esforço para ir atrás da amiga. As pernas da pequena orquisa mal funcionavam, o medo paralisando seus movimentos. Ela sabia o que aconteceria a seguir e não queria ver. Mas precisava estar lá.

Grey parou de gritar no momento em que a porta abriu. Pensou que Luxuriah estava atendendo seu chamado, mas logo que viu Karen, uma máscara de fúria tomou seu rosto infantil.

— Irmã errada! — gritou.

— Vá embora! — ordenou Karen se empertigando, como se quisesse parecer maior – Você não é bem-vindo aqui!

— Karenzita, volte pra dentro. — pediu Tewdric – Eu vou resolver isso. — e tirou o machado do chão – Vamos elfo! Apenas eu e você!

— Não vim aqui para lutar com você, orc. Não lhe darei esse prazer. — disse Grey desdenhosamente.

— Está com medo? — perguntou Tewdric com um sorriso selvagem no rosto.

Grey irritou-se e segurou a espada com as duas mãos. Os guardas recuaram até Karen.

— Se você não for embora, – continuou Karen dando um passo a frente – vou mandar te prender!

— Mande, pequena rainha. — provocou o paladino – E enquanto estiverem me prendendo, vou te contar como sua querida irmã Luxuriah matou o próprio filho!

— Não! — Luxuriah gritou desvencilhando-se de Rommath e saindo do ateliê rápido demais, fazendo com que sua barriga doesse, mas ainda assim não conseguiu controlar-se. Não podia permitir que ele contasse a Karen, não podia.

Apesar da hora avançada da noite, várias pessoas começaram a aparecer para ver que confusão era aquela que ocorria em pleno Bazar e ficaram estarrecidas ao verem a futura rainha vestida toda de branco, protegida por seus guardas e por Tewdric, frente a frente com o que parecia ser um paladino em atitude ameaçadora. Logo, guardas das redondezas começaram a correr naquela direção, temendo o que aconteceria em seguida.

Ao ouvir o que Grey dissera, Karen simplesmente franziu o cenho, tendo a certeza que aquele paladino era meio biruta.

— A Lux nunca teve um bebê antes. — disse ela olhando-o como se olha um louco.

— Não teve porque ela o matou!

— Grey! — o grito de Luxuriah saiu esganiçado enquanto ela se aproximava esbaforida, a mão no ventre inchado e os olhos já molhados de lágrimas – Pare, por favor!

Grey ficou chocado por um momento, diante da imagem de Luxuriah gestante, em um vestido folgado, o rosto redondo manchado de lágrimas e tanta dor em sua expressão. Por um instante ele se sentiu culpado pela dor que ela carregava. E, se aquela criança fosse realmente sua, não estava ele fazendo bem nenhum. Porém, esse arrependimento só durou até ver Rommath chegando logo em seguida e abraçando a esposa. A raiva que sentiu foi tanta que não se segurou. Mesmo que Luxuriah estivesse ali, na sua frente, como ele queria, não refreou a língua. Olhou diretamente para Karen e falou:

— Sim, ela cometeu um assassinato! Abortou o próprio filho!

— Cale-se! — gritou Luxuriah a pleno pulmões – Aquilo não era meu filho!

— A criança não teve culpa de seu estupro! — gritou ele de volta.

Kasssyeh e Tewdric ficaram abismados demais para dizer qualquer coisa e Karen olhou para irmã, confusa.

— Do que ele tá falando, Lux? — perguntou a menina – E o que é ‘estupro’?

Uma dor imensa irrompeu na barriga de Luxuriah, fazendo-a arfar e segurar o ventre. Líquido começou a escorrer do meio de suas pernas, misturados com sangue e a elfa gritou de dor e agonia.

— Lux! — Kassyeh saiu de seu estupor e correu na direção da irmã.

Surpreso com o acontecido, Grey fez menção de ir até onde Luxuriah estava, mas encontrou o machado de Tewdric, já recuperado do susto, no caminho. O orc o atingiu na altura do peito e, se não fosse a armadura do paladino, teria feito um belo estrago em sua carne. Porém, o elfo apenas deu dois passos para trás, antes de se firmar e então atacar o orc. A espada dele e o machado de Tewdric se chocaram no ar, causando espanto e medo em quem estava a volta.

— Tire ela daqui, Rommath! — gritou Tewdric – Eu seguro ele!

— Não! — gritou Grey tentando se desvencilhar de Terwdric, mas o orc apenas o empurrou em direção no chão, antes de segurar o machado com as duas mãos e descê-lo sobre o elfo. Habilmente Grey rolou para o lado e se livrou do golpe. — Você não vai fugir, Luxuriah! — gritou novamente tentando ir até ela, mas Tewdric estava decidido a não deixá-lo livre.

Enquanto isso, Luxuriah sentiu a pior dor de sua vida. Seu ventre queimava e sentiu Tinuviel se contorcendo dentro dela, angustiada. Estava perdendo líquido. Seu bebê em breve não conseguiria respirar. Estava tão aterrorizada que sequer conseguia se mexer.

— Venha, Lux, venha. — a voz de Rommath estava trêmula, mas ele tentava deixá-la calma – Vai dar tudo certo.

Kassyeh, ao lado destes, já abria um portal para a Torre Solfúria, sem perda de tempo. Ajudou a segurar sua irmã, que a olhou com a expressão mais amedrontada que Kassyeh jamais vira.

— Kass… — murmurou a elfa, pálida e trêmula.

Kassyeh sorriu, consoladora.

— Vamos, Lux. — disse carinhosamente – Tinuviel vai chegar, venha…

E os três sumiram dentro do portal.

Karen e Saba ficaram para trás.

Apesar de os guardas estarem ao redor de Karen, a menina estava angustiada demais. Não entendia o que Grey quisera dizer, mas sabia que ele machucara muito sua irmã. E agora queria machucar Tewdric. Olhou para o guerreiro, vestido apenas suas roupas civis e para Grey, de armadura completa e temeu por seu pai orc. Precisava fazer algo, mas a guarda a rodeava, impedindo-a de ir até eles. Já Saba, caminhara até ali como se estivesse em um sonho e agora jazia paralisada por seu medo ainda que estivesse de pé, ao lado de sua amiga.

— Essa luta não é justa! — gritou Karen tentando se aproximar, mas os guardas a impediram – O Ted tá sem armadura!

— Fique ai, Karenzita! — gritou Tewdric de volta – Já faz tempo que quero partir esse elfo no meio e hoje ele só aumentou minha vontade!

Grey olhava para o portal aberto por Kassyeh, que se esvaneceria a qualquer momento e para o imenso orc em seu caminho. Sabia que aquela era sua última oportunidade. Se o portal se fechasse, seria impossível chegar até Luxuriah depois que ela estivesse entrincheirada na Torre. Mas iria até ela. E quando o fizesse, tomaria a criança para si. Luxuriah não merecia tê-la. Mas para isso, precisava passar por Tewdric. Decidiu que não demoraria muito, se fizesse seu oponente perder a cabeça e parar de raciocinar.

— Você não parece surpreso com o que eu disse, orc. — provocou Grey.

— E você parece não ter noção do que fez, elfo. — devolveu Tewdric.

— Eu apenas revelei uma mentirosa para que todos soubessem! — rosnou o paladino.

— Não, você provocou uma mulher grávida até o limite, imbecil. — os olhos de Tewdric pareciam em chamas – Sempre soube que você era um lixo de paladino, mas você foi até outro nível, Grey.

Tremendo de raiva e vendo o portal ficando mais difuso, Grey atacou Tewdric. O orc segurou o golpe dele com o machado e revidou. Bateu uma, duas vezes com força, até que Grey invocou um martelo de luz, que derrubou Tewdric no chão. Quando o fez, correu até o portal. Karen, sabendo que assim que ele passasse estaria na torre, se abaixou, passou pelo meio das pernas dos guardas, que não conseguiram impedi-la, correu e se jogou contra Grey. O paladino caiu, mais com a surpresa da atitude de Karen que com seu peso e viu o portal tremeluzir e desaparecer. Ele gritou de raiva e brandiu sua espada no ar. A lâmina cortou o braço de Karen, que gritou de dor.

A vista de Tewdric escureceu de ira. O guerreiro gritou e se atirou sobre o elfo com uma fúria nunca vista antes por ninguém. Ele desceu o machado com tanta força que ele perfurou a armadura de Grey, cortando sua pele e fazendo o sangue espirrar. O paladino gritou, mas pegou sua espada e enfiou-a na barriga de Tewdric, que grunhiu de dor e surpresa.

— Ted! — Karen fez menção de ir até o orc, mas se viu rodeada dos guardas, que agora a seguravam e a puxavam para longe da briga – Ted! — gritava a menina desesperada.

Grey puxou a espada de volta, enquanto Tewdric dava passos para trás, se firmando enquanto o sangue escorria de sua barriga. O paladino invocou a luz e curou-se no mesmo instante, mas o orc não tinha desistido. Ignorando a dor na barriga e os gritos de Karen, ele investiu novamente contra Grey, que segurou seu golpe mais uma vez. As lâminas se bateram por um bom tempo, ambos combatentes experientes procurando uma brecha para acabar com o outro. Só que Grey tinha a vantagem de usar sua armadura. E de curar-se. Para Tewdric, restava a fúria orc que despertara dentro dele, que o fazia ignorar a dor e bater mais e mais forte, sua visão completamente tomada por vermelho, como se ele não estivesse livre da maldição que a Legião colocara em seu povo. E enquanto batia, cada vez mais forte, mas percebia que só havia uma forma de atingir Grey. Esperava que Karen o perdoasse por isso.

Grey sabia que Tewdric era forte, mas não imaginava que um simples guerreiro orc pudesse fazer frente a suas técnicas de combates e as suas magias. Mas Tewdric continuava lutando, ainda que o sangue escorresse de sua barriga e ainda que Karen gritasse e chorasse, pedindo para ele parar, para que ela o curasse. Tentava arrumar uma brecha novamente na postura do orc, mas era como se houvesse um muro invisível entre eles. Até que Tewdric baixou a guarda. Foi por um breve momento. Um momento que Grey aproveitou. E naquele segundo, a sua espada atravessou o peito de Tewdric, até sair por suas costas. Bem em seu coração.

Karen gritou, os olhos imersos em lágrimas, tentando se libertar daqueles que a seguravam.

Quando a espada de Grey perfurou o coração do orc, este fraquejou por um momento. Então, olhou para o paladino e sorriu, o sangue escorrendo por sua boca. Grey estendeu no último instante que era exatamente o que o guerreiro queria. Tewdric segurou a espada de Grey em seu peito e puxou o paladino para mais perto de si, fazendo a lâmina entrar ainda mais em seu corpo enquanto que, com a outra mão, levantou seu machado e desceu na altura do ombro do paladino, no fecho de sua armadura, no local mais fraco de sua proteção e enterrou a lâmina fundo, separando o ombro do corpo de Grey, abrindo-o praticamente ao meio em sua fúria.

“Não… Não é possível...”, pensou o paladino soltando sua espada e caindo para trás. Não sentia o lado esquerdo de seu corpo, sabendo que o mesmo estava despregado de seu corpo até a altura da cintura. Caiu de costas, cuspindo sangue e levantou a mão direita, invocando a Luz para curá-lo.

Mas a Luz não o atendeu.

Grey morreu sem acreditar que estava realmente morrendo.

Tewdric viu o paladino deixar de ser paladino e deixar de existir, ainda com a espada deste fincada em seu coração. Sorriu. Aquele idiota não ia mais prejudicar sua família.

Todavia, suas mãos de repente ficaram fracas e ele soltou o machado. Os gritos de Karen chegaram mais alto aos seus ouvidos e ele olhou para o peito. A menina devia estar assustada com aquele espadão fincado nele. Segurou o cabo e a puxou. Cuspiu ainda mais sangue e jogou a espada do lado. Queria dizer para sua Karenzita que estava tudo bem, que tudo ia ficar bem, mas não conseguiu falar. Na verdade, não conseguia mais ficar de pé. Fechou os olhos e caiu de joelhos antes de cair para trás. Sentiu então dois bracinhos o segurar com dificuldade. Abriu os olhos. O rosto de Karen estava sobre o dele, derramando lágrimas em seu rosto.

— Ted… Ted… — murmurava ela colocando as mãozinhas em cima da ferida em seu peito – Eu vou te curar… — balbuciava tentando lembrar as palavras certas para a invocação, mas não conseguia. Só conseguia pensar que havia sangue, muito sangue. Não devia ter tanto sangue.

— Karen… zita… — murmurou ele.

— Não fale, Ted. — pedia ela carinhosamente apertando o ferimento. Porque tinha tanto sangue? — Não fale, por favor…

— Eu te amo. — ele disse encarando-a.

— Também te amo, Ted. — murmurou ela sorrindo para ele – Você vai ficar bom, vai sim…

Tewdric sorriu de volta e colocou a mão em cima da mãozinha sobre seu peito. Ainda estava sorrindo quando seus olhos fecharam e sua mão soltou a de Karen, caindo para o lado, sem vida.

— Ted? — chamou Karen sem acreditar – Ted?

Ele não lhe respondeu.

O grito de Karen ecoou por toda Luaprata.

***********************

Ficar sozinha com Lor’themar era uma dádiva que Ash não tinha há vários dias. Por isso, ficou rodeando-o assim que suas irmãs saíram em direção ao ateliê de Marko Berthas, esperando que ele resolvesse as últimas pendências que acabaram aparecendo sobre a coroação de Karen. Quando as coisas acalmaram, ela rapidamente puxou o elfo até a sacada da torre, para sentarem-se juntos enquanto encaravam o céu estrelado da noite limpa de primavera. Sempre que alguém aparecia, a princesa o olhava com a cara de poucos amigos e a pessoa simplesmente dava a volta e saia. Lor’themar apenas sorria, satisfeito pelo momento de folga.

Com os dedos entrelaçados ficaram sentados lado a lado, em silêncio, a cabeça de Ash apoiada no ombro dele, enquanto observavam a noite, pensando em como era bom ter um pouco daquela tranquilidade em dias tão atribulados.

— Ash… — chamou ele a certa altura.

— Oi… — respondeu ela ainda encostada em seu ombro.

— Eu… — Lor’themar limpou a garganta – Eu gostaria de te perguntar algo…

Ash desencostou a cabeça e o olhou. Lor’themar a encarava.

— O que foi? — quis saber, estranhando a expressão dele. Era uma mistura de receio e ansiedade.

Lor’themar virou-se para ela. Vinha pensando muito no que ia falar e chegou a uma conclusão. Não sabia o que ela diria de sua proposta, mas esperava que ela aceitasse. Os dias estavam sendo tão cheios devido aos preparativos da coroação que mal tinham se visto. Como ela, agradecia por aquele momento breve de paz e estava ansioso que tudo aquele alvoroço terminasse. Seus deveres continuariam, claro, pois nem Karen nem as irmãs tinha a experiência dele. Contudo, sabia que seria apenas questão de tempo para que elas ganhassem o protagonismo do governo. E agradecia à Nascente do Sol todos os dias por aquilo.

— Nós temos tido bem pouco tempo juntos, com todas essas coisas que estão acontecendo. E eu sei que você espera mais desse relacionamento e… — ele respirou fundo, tomando coragem – Quando passar a coroação, o que acha de passarmos um fim de semana juntos, longe daqui? A casa da minha família próximo ao mar, ainda está de pé, é só questão de organizar a ida.

Ash o olhou, sem acreditar no que ouvia.

— Viajar? — perguntou sem conter a animação – Apenas nós dois?

Ele riu, ainda um pouco encabulado.

— Essa é a ideia. A menos que você queira levar alguém. — gracejou.

— De jeito nenhum! — disse ela rapidamente, fazendo-o rir – Só nós dois… — murmurou ela corando absurdamente. Sabia exatamente o que aquilo queria dizer.

Lor’themar viu o rosto dela ficar escarlate e ficou satisfeito. Sim, ela sabia o que ele queria dizer com o convite.

— Ash… — ele murmurou tocando no rosto dela – Eu sei que você fica frustrada com minhas… — ele pigarreou – Com minhas ressalvas…

— Você quer dizer que eu fico irritada quando você dá pra trás. — disse ela sem cerimônias.

Ele riu antes de continuar.

— Isso mesmo. Mas eu queria que você soubesse que não é por falta de desejo… — ele desceu com o dedo pelo pescoço dela e Ash arrepiou-se – Eu apenas não quero que esse passo que daremos seja aqui, com suas irmãs brotando por todos os lugares e um monte de pessoas nos observando… Quero que seja apenas nós dois… — ele inclinou-se e beijou-a lentamente.

O desejo queimou dentro de Ash e ela o enlaçou com vontade, passando de sua cadeira para o colo dele, sem se importar com os protestos que teimavam em brotar dos lábios colados aos seus.

— Ash.. — ele murmurava sem fazer muito esforço para afastá-la – Eu acabei de dizer….

— Eu sei o que você disse. — murmurou ela em seu ouvido – E quero muito. Mas isso não me impede de ter uma pequena amostra, impede?

Lor’themar riu e balançou a cabeça, em negativa.

— O que faço com você, pequena Ash? — perguntou colocando os dedos dentro dos cabelos dela.

— Me beije. — foi o que disse.

E ele ficou feliz em atender o pedido.

Puxou-a pela cintura, colando-a ainda mais em seu corpo, massageando sua nuca com uma mão enquanto a outra acariciava suas costas lentamente. Ash tremia a cada toque dele e estava prestes a dizer que queria correr para o quarto dele naquele momento, aproveitando que estavam sozinhos na torre, mas não o fez. Sabia que ele estava certo. Era melhor esperar. Ficariam sozinhos um fim de semana todo. Teria muito tempo para saborear aquele novo aspecto de sua vida. Todavia, a vontade de ignorar tudo persistia.

Com delicadeza, ele afastou o beijo. Estavam ambos ofegantes. O autocontrole de Lor’themar estava na corda bamba, afinal ele também tinha consciência que estavam sozinhos e ficariam por um bom tempo. Só que não queria estragar seus planos. Tinha em mente em dar a Ash a primeira vez dos sonhos de qualquer elfa e não estragaria tudo naquele momento. Mesmo que o corpo quente dela colado ao seu quase o deixasse louco.

— Vamos entrar? — perguntou num esforço quase sobrenatural, sem saber o que faria se ela negasse e o beijasse de novo.

Ash, contudo, respirou fundo, resignada.

— Tudo bem… — e se levantou – Mas vou querer uma compensação muito boa nesse fim de semana.

— Você terá… — prometeu ele.

Já estavam voltando para a sala quando Rommath e Kassyeh irromperam pela sala, carregando Luxuriah, que sangrava pelo meio das pernas, pálida e gritando de dor. Os dois estacaram, petrificados.

— Chamem Lorena! — gritou Rommath – Rápido!

Lor’themar foi o primeiro a agir. Correu porta afora, em direção ao escritório da sacerdotisa. No caminho, gritou para os guardas que encontrou que ajudassem Rommath. Ash ainda estava paralisada quando dois guardas ajudaram o grão-magister a subir as escadas com Luxuriah nos braços. O mago poderia ter levitado-a, mas visivelmente não estava em condições de lançar nenhum feitiço. Apenas quando Kassyeh subiu atrás que Ash percebeu que faltavam pessoas ali e foi quando saiu do torpor.

— Onde está Karen? — perguntou subindo atrás da irmã.

Kassyeh a encarou, perdida. Olhou para os lados, se tocando que a menina ficara para trás.

— Pela Nascente, ela ficou com Tewdric! No meio da luta! — Kassyeh tremia violentamente.

— Luta? Do que você tá falando? O que aconteceu?! — gritou Ash segurando Kassyeh pelos braços.

Kassyeh simplesmente não conseguia falar nada, apenas tremia.

— O que diabos aconteceu?! — insistiu Ash sacudindo a irmã trêmula.

— Grey… — murmurou Kassyeh com os olhos cheios de lágrimas – Ele disse coisas… Tewdric está lutando com ele… — a maga respirou fundo, tentando retomar o controle – Precisamos ficar com a Lux… Tewdric vai resolver tudo. — e soltou-se de Ash, seguindo o caminho que a irmã em trabalho de parto seguia.

Ash olhou para o chão, onde o rastro de sangue marcava o caminho de Luxuriah. Grey. Ele não ficara longe. Seus punhos se fecharam, o ódio borbulhando dentro dela. Se ele queria ficar no caminho delas, provaria de sua fúria. Estava saindo da sala quando Lorena e seu aprendiz passaram correndo por ela, os braços cheios de equipamentos e o medo no rosto dos dois. Lor’themar vinha logo em seguida e parou quando a viu.

— Kayliel precisa ser achado. — disse ela para Lor’themar.

— Já providenciei isso. — respondeu – Mas me diga… O que aconteceu? — Lor’themar estava pálido e preocupado.

— Grey apareceu. Ele está lutando com Tewdric. Karen ficou para trás. — disse compreendendo pela primeira vez o tamanho do problema – Foi por causa dele que a Lux entrou em trabalho de parto. — ela engoliu em seco – Se algo acontecer à minha irmã… A qualquer uma delas… — Ash tremia de fúria.

— Ash. — Lor’themar a segurou – Fique com Luxuriah. Eu vou atrás de Karen.

A jovem balançou a cabeça, em negativa.

— Eu não posso…

— Você viu o estado da Kassyeh? — perguntou ele – Acha que ela vai aguentar?

— Você acha que eu vou aguentar? — retrucou, as lágrimas turvando sua vista.

Ele lhe sorriu, carinhosamente.

— Claro que vai. — e lhe deu um beijo antes de virar as costas e sair gritando pela guarda, para que o acompanhassem.

Restou a Ash respirar fundo, fazer uma prece à Nascente do Sol e seguir até o quarto da irmã.

No quarto, Luxuriah enfrentava dores escruciantes. Desde o momento em que ouvira os gritos de Grey, ela sabia que o parto tranquilo que almejara estava perdido. Quando ele gritara seu segredo, na frente de todos, na frente de Karen e Kass, fora a pior coisa que ele poderia ter-lhe feito. Agora, suas entranhas estavam em chamas, sua filha lutava dentro de seu ventre para viver, enquanto ela sentia que a cada momento perdia um pouco mais daquela luta. Afinal, Tinuviel não estava na posição certa. O que faria para trazer sua filha em segurança para o mundo?

— Lux… — murmurava Rommath ao seu lado – Lux, meu amor, vai dar tudo certo…

Ela queria acreditar naquilo, mas a dor, ah, a infinita dor que a consumia não a deixava enxergar nada além de trevas à sua frente.

— Afastem-se. — ouviu uma voz dizer – Deixem-me vê-la.

Era Lorena. O choro de Luxuriah aumentou. O acontecimento de dez anos atrás voltou para assombrá-la. A dor que sentira naquele tempo também era horrível enquanto tirava o que acreditava ser uma maldição dentro dela. Será que, no final de tudo, Grey estava certo e que ela era uma assassina? Que pagaria pelos seus pecados perecendo ali? Que não merecia ser mãe? Que seu destino não era ser mãe? Que não veria o nascimento de sua filha? Assim que Lorena chegou perto dela, Luxuriah gritou:

— Saia de perto de mim! — e se encolheu.

Rommath abraçou Luxuriah carinhosamente.

— Lux, deixe-a fazer o trabalho dela. — falou Rommath segurando sua mão – Eu estou aqui, ok?

Kassyeh assistia o sofrimento da irmã, respirando fundo para não surtar. Agradeceu aos guardas que ajudaram a trazê-la e os dispensou. Chegou perto da cama e seus olhos se encontraram com o de Luxuriah, que desviou rapidamente a vista, antes de murmurar:

— Me perdoe Kass, me perdoe…

As palavras de Grey voltaram a mente de Kassyeh e as peças finalmente se encaixaram. Sim, aquele era o segredo que Luxuriah escondera todos aqueles anos. O segredo que Kassyeh sabia que existia, mas que nunca quisera saber. E agora, ele fora escancarado. Não havia mais como esconder. Só que aquilo não importava. Sua preocupação, percebeu, deveria ser manter sua irmã focada em trazer seu bebê ao mundo. O resto poderia ficar esquecido. Por isso, se aproximou da cama e Rommath deu espaço para Kassyeh que segurou a mão de sua irmã e beijou-a.

— Não há o que perdoar… — murmurou – Apenas se concentre em trazer Tinuviel para nós, ok?

Luxuriah então a encarou, ainda envergonhada.

— Kass… Eu… — mas Kassyeh colocou o dedo em sua boca.

— Se concentre, ok? Estou aqui. Com você. Não importa o que aconteça…

O choro de Luxuriah aumentou.

— Ela devia ser sua filha! — gritou em meio as dores – Eu não a mereço!

— Merece sim. — disse a maga, carinhosamente – Você é a pessoa que mais merece… Agora, vamos trazê-la, ok?

Luxuriah fez que sim com a cabeça. Ash chegou naquele momento e foi direto para a cama. Luxuriah estendeu a outra mão para a irmã recém-chegada.

— Lor’themar foi buscar Karen. — avisou – Vai ficar tudo bem.

Luxuriah tentou sorrir, mas uma contração a rasgou por dentro. Gritou de dor e angustia e se encolheu na cama. As irmãs ficaram assustadas e olharam para Lorena.

— Preciso examiná-la. Deem espaço.

A contragosto, as irmãs se afastaram. Luxuriah se encolheu diante de Lorena mais uma vez.

— Lux… — implorou Rommath – Deixei-a ajudar.

— Quero Kayliel aqui! — gritou a elfa.

— Fomos buscá-lo, mas você precisa confiar em Lorena agora, ok?

A contragosto, a elfa assentiu. Lorena se aproximou e tocou na barriga de Luxuriah apenas para esta gritar e se encolher de dor.

— Kayliel a examinou hoje. — o arquimago começou a falar apressadamente – Tinuviel ainda não está na posição.

— Teremos que virá-la então. — disse a sacerdotisa.

Era a coisa que Rommath mais temia.

— E a cirurgia? — quis saber, querendo que a esposa não sentisse a dor escruciante que estava claramente sentindo.

— Não posso fazer sem Kayliel aqui. — sentenciou Lorena.

— Lor’themar mandou buscá-lo. — avisou Ash.

— Não há tempo para isso. — disse a sacerdotisa – A criança pode morrer.

Luxuriah gritou de dor e pânico diante da fala da elfa e Kassyeh teve vontade de socar Lorena. Só não o fez porque a sacerdotisa se aproximou de Luxuriah e disse, numa voz calma e centrada.

— Luxuriah, eu sei que isso lhe traz péssimas lembranças, que eu lhe trago péssimas lembranças, mas preciso que você seja forte. Por você e pelo bebê. Pode fazer isso?

A elfa encarou a outra por um momento e então balançou a cabeça, afirmativamente.

— Eu terei que te tocar. — continuou Lorena— Vai doer muito. Mas nós vamos trazer Tinuviel, ok? Ela logo, logo estará em seus braços.

A fala de Lorena surtiu efeito, pois Luxuriah conseguiu sorrir em meio a dor.

— Salve-a… — sussurrou desesperada para a sacerdotisa – Não importa o que aconteça comigo, salve-a…

— Luxuriah… — começou a outra.

— Prometa-me! — exigiu Luxuriah segurando com força a mão de Lorena.

Suspirando, ela assentiu.

— Prometo. — e Luxuriah finalmente relaxou – Agora, precisamos nos preparar. — disse antes de começar a se movimentar.

A sacerdotisa fez com que todos participassem. Kassyeh, a maga, esquentou água e esterilizou tudo que Lorena precisava. Ash foi buscar as poções e as ervas que a sacerdotisa requisitara e Rommath sentou-se na cama, ao lado da esposa, segurando sua mão e lhe dando todo o apoio que ela necessitava.

— Vai dar tudo certo. — dizia ele o tempo todo.

E, por um momento, Luxuriah acreditou.

Foi então que as contrações pioraram.

Se havia um inferno naquele mundo, Luxuriah sabia que passava por ele naquele momento. A pressão em seu ventre aumentou e o sangue jorrou em abundância. Lorena então foi até sua barriga e, sem esperar mais, tocou-a, analisando onde estava o bebê. Luxuriah se contorceu de dor, mas a sacerdotisa não parou. Não podia. Quando descobriu onde estava a cabeça da bebê, soltou Luxuriah por um momento. Ash chegara com as poções.

— Dê uma para ela beber. — disse enquanto lavava as mãos com água quente e colocava luvas – Já sei onde está a cabeça. Precisamos virar antes que o líquido acabe. — e olhou para Ash e Kassyeh – Vocês vão ter que me ajudar.

Ash e Kassyeh se encararam antes de afirmar com a cabeça. Receberam as instruções de Lorena rapidamente e se puseram em ação. Kassyeh segurou as pernas de Luxuriah enquanto Ash se posicionava com Lorena na cama. Rommath ainda segurava a mão da esposa.

— Luxuriah, você vai ter que ser forte. — avisou a sacerdotisa – Vai ter que nos ajudar. Você fará isso?

Luxuriah apenas afirmou com a cabeça, perdida em meio a dor.

— Vai doer. — continuou Lorena – Mas preciso que você fique consciente, ok? Não durma. Sua filha precisa de você.

Rommath apertou mais a mão da esposa.

No momento em que Luxuriah teve mais uma contração, Lorena e Ash começaram a agir. Ela literalmente começaram a empurrar a criança na barriga da elfa, tentando colocá-la na posição correta. O grito de dor de Luxuriah parecia mais um uivo e gelou o coração de Rommath.

— Bom, foi bom! — disse Lorena tentando animar a puérpera – Ela mexeu na direção certa.

— Ela tá mexendo Lux. — avisou Ash tentando sorrir – Vai dar certo.

Respirando com dificuldade, a elfa tentou sorrir, mas o sorriso foi engolido por outra contração. Ela tentou se encolher na cama, mas Kassyeh segurou-lhe as pernas. Luxuriah precisava ficar na posição certa.

— Vamos! — ordenou Lorena.

A cada contração de Luxuriah, as elfas repetiam os movimentos. Rommath estava quase enlouquecendo, pela dor de Luxuriah e pela preocupação que sentia. O sangue estava cada vez mais forte e ele dava uma poção atrás da outra a sua esposa. O ajudante de Lorena curava Luxuriah com regularidade, mas as curas, como as poções, só davam um alívio momentâneo. A cada nova contração, Luxuriah ficava mais pálida e mais fraca. E quando Lorena finalmente anunciou que a bebê estava na posição, ele achou que desmaiaria de alívio. Mas, claro, as coisas não estavam terminadas ainda.

— Só mais um pouco, Lux, só mais um pouco. — dizia Rommath tentando animá-la.

Luxuriah não lhe disse que não sentia mais as pernas.

A dor passara todos os limites que a elfa podia suportar. Sabia que estava despedaçada por dentro, que seu corpo fragilizado do aborto não sobreviveria para ver a filha. Mas podia fazer um último esforço. Um último sacrifício. O preço a pagar por seus pecados. Traria Tinuviel aquele mundo, a qualquer preço. Não era o mundo ideal para sua filhinha, mas sabia que Rommath o tornaria bom para ela. Sabia que Tewdric e Kassyeh dariam todo o amor que a menina precisaria. Que Ash seria cuidadosa e Karen seria divertida. Todos cuidariam dela. À Luxuriah bastava trazê-la ao mundo. Por isso, orou para a Nascente do Sol. Não pedia para viver. Pedia apenas para deixar que sua filha vivesse.

Mais uma contração.

Luxuriah sabia que elas estavam chegando ao fim.

E, agora, cabia a ela empurrar.

A dor aumentava e aumentava. Em determinado ponto se recusou a tomar a poção. Não adiantava. Precisava de seu fôlego para empurrar. De suas últimas forças para dar vida à sua filhinha.

— Falta pouco. — disse Lorena quando viu que a cabeça do bebê coroava – Mas um empurrão, Luxuriah.

As forças dela estavam no fim. Não conseguiria mais que aquilo.

A última contração veio. Sim, sabia que era a última. Luxuriah respirou fundo e usou toda a sua força. Sentiu seu útero explodir e sua cabeça girar enquanto usava o que restava de sua vida naquele esforço. Sentiu que a cabeça de Tinuviel saiu, mas não conseguiu mais.

— Mais um pouco! — ordenou Lorena.

Luxuriah tentou, mas não podia mais.

— Lux? — ouviu a voz de Rommath se distanciando – Lux?!! — e suas mãos quentes em seu corpo.

Lorena então segurou a cabeça do bebê com cuidado e, enterrando os dedos dentro de Luxuriah, puxou-a pelos ombros. A criança saiu, mas não chorou. A sacerdotisa imediatamente colocou a boca na boca e narina da criança e soprou. E soprou. E o choro saiu. Alto, estridente e inquieto.

— Você acertou, Lux! — disse Kassyeh sem acreditar – É uma menina!

— Era para ter tanto sangue assim? — perguntou Ash angustiada – Lorena, o sangue não para e… Oh, pela Nascente.. Isso é…

— O útero dela… — murmurou Lorena, a voz falhando pela primeira vez.

Mas Luxuriah não disse nada. Apenas ouviu o choro do bebê e sorriu. Um sorriso fraco. Acabara. Não conseguia mais. Enquanto suas irmãs questionavam e a sacerdotisa tentava curá-la, Luxuriah suspirou um último suspiro e sua mão afrouxou o aperto na mão de Rommath.

— Lux?! — ele chamou desesperado sacudindo-a – Lux?

Ela não respondeu. Se entregara ao cansaço e desistira da luta. Já fizera o suficiente. Era hora de dormir. Dormir e não acordar mais.

***********************

Se houve alguma vez em que Lina se sentira pior que naquela manhã, não lembrava. A primeira coisa que sentiu antes mesmo de abrir os olhos foi uma dor de cabeça monstruosa, como nunca sentira antes. Levou as mãos a cabeça e apertou as têmporas. O gesto não aliviou nenhum pouco a dor. E para completar, um enjoo a atingiu intensamente e ela se encolheu na cama, com ânsias de vômito.

— Lina, estou aqui.

Era a voz de Tommy. Com muita dificuldade, ela abriu os olhos. Ele segurava um balde perto dela e a única coisa que Lina conseguiu fazer foi se inclinar e vomitar sofregamente. Sua garganta doeu mais que sua cabeça enquanto vomitava e ela percebeu que talvez não fosse a primeira vez que vomitava ali. Só que não conseguia lembrar-se de muita coisa. Pela Luz, quanto havia bebido daquela vez?

Não… Não fora só a bebida, lhe dizia a sua mente. Algo acontecera na noite passada… Mas o quê? A dor não a deixava pensar. E quando terminou de vomitar, Tommy lhe estendeu um frasco de poção e Lina tomou sem questionar.

— Volto já. — avisou ele antes de sair com o balde cheio de vômito.

Lina deitou-se novamente e fechou os olhos. A poção a fez se sentir um pouco melhor, mas a dor ainda estava ali. Tentou não pensar em nada, apenas se concentrar no alívio momentâneo que sentia. Instantes depois, ouviu alguém entrar no quarto e supôs que fosse Tommy. Abriu a boca para falar algo para o irmão, mas sua garganta doeu mais que quando vomitara. Levou a mão ao pescoço e sentiu algo estranho nele. Passou os dedos e percebeu que havia uma ferida fina em sua pele. Deslizou os dedos nela e ficou chocada ao constatar que ela seguia e seguia por seu pescoço. Então, entendeu o que era a marca. Os eventos da noite passada voltaram, em flashes confusos, emaranhados pela bebida, pelo medo e pelos ferimentos. Quando olhou seu irmão, viu que ele a encarava com uma mistura de tristeza e alívio.

— Quer um pouco de água? — perguntou ele – Doro disse que você ia sentir muita sede…

Depois que ele falou, percebeu que sua boca estava seca. Fez que sim com a cabeça e Tommy se levantou para pegar a água em uma moringa e ofereceu à irmã. Lina tomou o primeiro gole com muita ânsia para então pôr a água imediatamente para fora. A água tinha um gosto horrível, amargo. Mas sabia que não era a água, era sua boca. Tommy lhe estendeu um lenço e ela enxugou o queixo e o pescoço. Notou então que vestia seu pijama e não o vestido da festa. Tommy devia tê-la trocado durante a madrugada.

— Quer mais poção de cura? — perguntou ele preocupado – Elas não são muito fortes, mas dá pra lhe ajudar enquanto Doro descansa.

Lina arregalou os olhos e tentou falar novamente, mas a dor não deixou. E para piorar, sentiu gosto de sangue em sua boca.

— Ei, ei, nada de falar, ok? — lhe avisou Tommy – Ela está bem. Só precisa descansar. A madrugada foi… Estressante.

Aquela palavra, com certeza, não condizia com a madrugada anterior. Tommy não lembrava de uma noite tão atribula, exceto a noite após a morte de sua família. Lidar com aquela situação lhe trouxe sentimentos horríveis, que ele procurou distanciar tomando as rédeas da situação.

Depois que Lina fora acomodada na cama, Tommy fora ver como estavam os outros. Doroteya sofria os efeitos do pó mata-cachorro, mas estava mais preocupada com Theo, Pietro, Pandora e Lina. A primeira coisa que fez foi ver o filho, depois que Tommy lhe garantiu que a irmã respirava normalmente. Theo estava com um galo grande na cabeça e o local da pancada estava roxo. A druidesa usou a maior parte de sua magia para curar o filho até ele está perfeitamente bem. Depois, ela cuidou de Pandora. A adolescente só tinha alguns arranhões nas mãos e um olho roxo. Pietro fora poupado e só estava muito assustado. Assim que terminou as curas, era possível ver a exaustão no rosto de Doroteya. Não apenas no dela, mas no das crianças também. Tommy então sugeriu que todos dormissem no mesmo quarto, para se sentirem seguros. Sua sugestão foi aceita, não antes de Doroteya dizer que todos deviam tomar um banho para tirar os resquícios de sangue e do pó. Antes de ela sair, os dois trocaram olhares tristes. Não era o fim de noite que esperavam naquele dia.

Mas o pior, para Tommy, foi lidar com Mel em choque. Saber que tentaram matar sua irmãzinha amada além de seus sobrinhos favoritos (nos quais Theo já estava incluído), deixou o alfaiate sem chão. Ele sentara em um banco no jardim, com os olhos fitos na grama e não conseguia sequer chorar. E aquela reação deixou Tommy mais preocupado que se o outro tivesse feito um escândalo de proporções mundiais. Nunca vira Mel tão quieto, tão desligado do mundo. Talvez as coisas tivessem sido piores se não fosse um homem vestido de verde, que ficara ao lado de Mel o tempo todo. Tommy lhe agradeceu, antes de levar seu irmão para dentro da mansão. O acompanhante de Mel pediu para saber onde eles moravam em Ventobravo, para visitar o alfaiate depois e saber se ele estava bem. Tommy estava cansado demais para se sentir desconfiado, então simplesmente falou. Depois, levou Mel para o quarto dele e o deixou na cama com uma poção calmante. E só então, voltou para Lina.

Mesmo sem voltar completamente a consciência durante o resto da madrugada, Lina acordou algumas vezes. Na primeira, vomitou muito vinho e sangue no carpete do quarto onde estava. Calmamente, Tommy tomou conta da irmã e a levou, cambaleante, para o banheiro, enquanto servos limparam o lugar. Deu-lhe um banho, tirando o sangue e o vômito dela, vestindo-a em seu pijama em seguida. A fez beber uma poção de cura e a deitou. Isso aconteceu duas vezes mais antes de Lina acordar de vez. Mas para as outras vezes estava preparado e sua irmã não sujou mais nada além do balde. E agora ela estava acordada, com veias vermelhas marcando seus olhos, a marca roxa em seu pescoço se destacando na pele pálida e um medo que nunca vira em sua expressão.

— Você lembra do que aconteceu? — perguntou ele com a voz confortante, como se falasse com uma criança doente.

Lina fez ‘mais ou menos’ com a mão.

— Você foi atacada por dois homens. Eles tentaram te estrangular e quase conseguiram. — Tommy ficou surpreso por sua voz sair tão firme – Se não fosse Pandora e os meninos…

Ele então contou tudo que acontecera na noite anterior, o ataque, a reação das crianças, dos noivos, o choque de Mel. Contou tudo. Enquanto contava, Lina segurou a cabeça com as duas mãos, desesperada. Tinha prometido deixar as crianças seguras e as colocou em risco de vida. Lágrimas escorreram pelo seu rosto e sua garganta doeu ainda mais. A única coisa que deveria fazer era manter sua família segura e não conseguira. Além do mais, tinha estragado a noite de Horatio e Cláudia, duas pessoas que ela tanto considerava. E Mel… Mel devia está em pedaços… Quantas pessoas ferira naquela noite indiretamente? Quanto peso carregaria em sua consciência depois daquilo?

— Eu não acredito que eles te atacaram aqui… Você deve ter mexido com alguém realmente grande… – falou Tommy tristemente limpando as lágrimas dela – Quem, Lina?

Ela apenas sacudiu a cabeça.

— Você deve ter alguma ideia! — exclamou exasperado – Por acaso eu não mereço mais sua confiança?

Tommy sabia que aquele não era o momento para acusações, mas não conseguiu se controlar. Descobrir que quem quer que tivesse posto a cabeça de Lina estava disposto a fazer tal movimento daquela forma o deixara transtornado. Deveria ter previsto isso que não esperariam pacientemente ela ter uma missão perigosa para matá-la! Devia ter imaginado que tentariam fora da Bastilha! Da mesma forma que devia ter imaginado que poderiam ir atrás de sua família, dois anos atrás. Queria estar a postos. Pelo menos daquela vez, queria ter feito diferente. E mesmo que não pudesse ficar no pé dela o tempo todo, queria, pelo menos, tentar.

Sem conseguir falar, a comandante formulou um ‘me perdoe’ com os lábios. O coração de Tommy afundou, e ele pegou a sua mão.

— Desculpe, eu não devia… Isso não é hora para eu acusá-la… — disse procurando acalmá-la – Mas quero saber no que você anda metida, Lina. Passei tanto tempo longe… Não quero me sentir um intruso na sua vida, mas quero poder ajudar a dividir todo esse fardo que você carrega…

Lina apertou as mãos de seu irmão e sabia que ele estava certo. Viviam sob o mesmo teto e não era justo que o mantivesse longe de todos os aspectos de sua vida. Tentou falar e mais uma vez sentiu gosto de sangue na boca. Levou a mão mais uma vez para o pescoço. Tommy então teve uma ideia.

— Espere um pouco, ok? Volto já.

Pela segunda vez seu irmão a deixou sozinha e Lina sentiu um vazio misturado com medo. Jogou as cobertas para o lado e colocou as pernas para fora da cama. Respirou fundo e tentou ficar de pé. Estava ainda um pouco tonta, mas conseguiu firma-se nas pernas. Caminhou devagar até a penteadeira, olhou-se no espelho e teve um susto. Seu pescoço tinha uma linha vermelha quase em carne viva e, ao redor, uma imensa faixa roxa. Pela Luz, como sua cabeça não fora separada do corpo? Passou os dedos no pescoço, surpresa que tivesse sobrevivido aquilo. E olhe que já havia tomado poção de cura antes! Como estaria logo depois do ataque? Não era a toa que sentia tanta dor e que seus irmãos estavam tão aterrorizados! Percorreu os olhos pelo seu rosto agora. A marca roxa a deixava com a expressão ainda mais pálida, mas intensas linhas vermelhas se destacavam em seus olhos. Sabia que era por causa da esganadura. Não queria nem imaginar o que Varian diria se a visse daquele jeito…

Varian… Era outra pessoa de quem Lina escondera tudo. Naquele momento, ele devia dormir, alheio que ela estivera tão perto da morte. Seria justo com ele? O que faria se fosse o contrário e ele escondesse coisas dela?

“Bem, ele é o rei…”, pensou. Só que logo em seguida, retrucou a si mesma. “é assim que passarei o resto de minha vida? Lembrando que ele é o rei e agindo diferente? Eu quase morri ontem! Quase morri!” Aquela constatação fez seu coração disparar. “Se eu tivesse morrido, quanta dor eu causaria a ele quando fosse descoberto as coisas que eu escondi? O quanto ele se culparia?” E a lembrança do seu último pensamento voltou. “Se eu tivesse morrido, ele jamais saberia que eu o amo.” E foi isso que a fez decidir que as coisas tinham que ser diferentes dali por diante. Precisava contar tudo. Contaria a Tommy. Contaria a Varian. E que a Luz a guiasse naquele caminho dali para a frente.

A porta abriu-se mais uma vez e Tommy entrou. Parou de supetão ao vê-la em frente ao espelho.

— Você vai melhorar. — foi o que ele disse.

Lina então apontou para a porta e fez o gesto com uma espada. Tommy entendeu.

— Sim, tem guardas ai. Lady Cláudia providenciou. Todos estamos seguros.

Lina deu um sorriso, satisfeito.

— Eu trouxe algo para podermos conversar. Lembrei que tinha visto um desses com o menu do casamento. — e mostrou um pequeno quadro-negro e um giz. — Acho que você tem perguntas. E eu também tenho.

Assentindo com a cabeça, Lina voltou para a cama e estendeu as mãos. Tommy entregou o quadro e o giz.

— Primeiro eu. — disse Tommy sentando-se em frente a ela – Vamos retomar do começo. Quando foi mesmo que você descobriu que sua cabeça estava a prêmio?

“Alguns dias”, escreveu Lina.

— E porque diabos você não me contou assim que soube? — perguntou em tom acusatório.

Ela apagou o que tinha escrito com a mão e depois mostrou a nova frase. “Para evitar uma conversa como essa”, e o encarou como se aquilo fosse óbvio.

Tommy respirou fundo.

— Se Doro não tivesse sido atacada aquele dia, você teria me contado?

“Não”, escreveu Lina e Tommy passou a mão na cabeça, exasperado.

— A ordem original eram para te matar em serviço, não é mesmo?

Apagou o anterior e escreveu: “Isso”.

— O que mudou então? Por que te atacar aqui? No meio desse monte de gente? Quem ia querer isso?

“Excelentes perguntas!” e ela desenhou um rostinho sorrindo.

— Você devia levar isso a sério, Lina! — exclamou irritado – Parece que você não sabe como essa situação é perigosa!

“Sei” escreveu e desenhou embaixo uma seta imensa para o lado e colocou o quadro na altura do pescoço.

Tommy passou as mãos no rosto, exasperado.

— Você realmente não faz nenhuma ideia de quem queira você morta? — quis saber.

Ela deu uma risada, mas logo parou, porque doera muito.

“Faço! Muita gente!” escreveu e desenhou um monte de bonequinhos de palitinhos ao redor da resposta.

Apesar da vontade de tomar o quadro das mãos da irmã e metê-lo na cabeça dela, não pode deixar de sorrir. Lina estava usando seu humor ácido para lidar com aquilo. Menos mal. Significava que ela estava se recuperando melhor do que previra. Não sabia se devia ficar assutado ou feliz com aquela reação.

— Eu sei que muita gente não gosta de você. — recomeçou ele – E eu até entendo elas, sabe? — Lina mostrou o dedo do meio para ele, que a ignorou – Mas algo deve ter acontecido recentemente que gerou essa reação. Algo grande que você tenha feito. Alguém com que você tenha realmente prejudicado.

Lina arregalou os olhos, um pensamento passando por sua cabeça. Apagou rapidamente o que tinha escrito no quadro e já ia começar a escrever, quando se segurou. Se colocasse aquele nome ali, Tommy poderia sair correndo em busca de vingança e ela não tinha certeza, apenas suspeitas. Mas também não queria mais esconder nada do irmão. Levantou os olhos e o encarou. Ele a encarava também.

— Não vou sair caçando ninguém, eu prometo. — foi o que ele disse.

Hesitante, ela escreveu:

“Crowe”.

Tommy não estava surpreso.

— Foi o meu pensamento. E de Horatio também. Conversamos a respeito. — revelou – Só que o dinheiro da recompensa é maior do que a fortuna atual dos Crowe. Se ele tem esse dinheiro pra te matar, está em atividades ilegais. E Horatio já em adiantou que precisamos de provas contundentes se quisermos levá-lo ao rei. — Tommy encostou-se na cadeira, hesitando do que ia perguntar em seguida – Houve algo mais entre vocês?

Lina franziu o cenho e escreveu: “Como assim?”

Não era um pensamento que Tommy quisesse alimentar, mas queria que as coisas fossem tão transparentes entre eles quanto fosse possível.

— Você falou que tinha um relacionamento com um nobre…. — antes que ele terminasse a frase, Lina bateu com o quadro no braço dele e o encarou com uma fúria imensa. Tommy se perguntou se ela tinha ideia do quão assustadora ela parecia com aqueles olhos vermelhos injetados e com aquela raiva toda – Ei, ei! Foi só uma pergunta! Vou entender isso como um ‘não’! Calma! — e levantou as mãos em trégua.

Encostando-se mais uma vez na cama, Lina respirou fundo e levou a mão à garganta. Doía tanto!

— Mas… Deixando Crowe de lado… Esse ataque pode ter a ver com seu amante misterioso? — insistiu Tommy.

Lina bateu com o giz na tela negra do quadro algumas vezes antes de finalmente escrever “Conto assim que puder falar”.

Arqueando as sobrancelhas, Tommy perguntou:

— Você vai me contar mesmo? Dele?

Ela fez que sim com a cabeça antes de escrever “Tudo”.

— E eu não vou gostar de saber, não é mesmo? — arriscou perguntar.

“Nenhum pouco”.

— Suspeitei disso. E acho que você vai mudar de ideia assim que estiver melhor. — ele deu de ombros e se levantou. — Você precisa beber água. — e foi até a mesa.

Mesmo sabendo que tinha dado motivos para a desconfiança do irmão, Lina ficou magoada. Mais ainda porque achava que ele tinha razão. Quando a dor passasse e o medo também quem garantia que ela não voltasse atrás? Observou seu irmão voltar com um copo de água. Antes que ele chegasse a cama, aproveitou o momento de coragem, apagou apressadamente a última mensagem e começou a escrever. Tommy parou à beira da cama, o copo estendido e leu.

“Varian”, era o que tinha escrito.

— O rei será avisado em breve. — disse ele franzindo o cenho – Não me diga que está pensando já em voltar para o trabalho?

Lina revirou os olhos e acrescentou um coraçãozinho embaixo do nome de Varian. Tommy encarou o quadro e olhou de volta para ela. Ele não tinha entendido ainda. Bufando, Lina fez uma seta embaixo do nome e do coraçãozinho e colocou o quadro ao lado do corpo, a seta apontando para ela.

— Lina, você sabe o que isso tá parecendo? — perguntou o irmão rindo – Parece que o rei é seu…. — ele parou de rir diante da expressão dela – Seu… — Lina apontou com o giz para o nome de Varian e para ela mesma – Pela Luz…

Tommy sentou-se na cadeira, sem acreditar.

— Você… E o rei?

Ela fez que sim.

Ele bebeu a água que tinha trazido, pois ficara com a boca repentinamente seca. Depois, se levantou de supetão, assuntando a irmã e passou a andar pelo quarto, passando as mãos e o copo na cabeça, desesperado, sem saber o que dizer ou como agir. Lina percebeu que ele não fizera a barba ainda. Devia estar mesmo muito cansado. E para completar, ela jogara aquela bomba nele. Esperava que ele não tivesse um troço.

Lina estava certa em ter medo de um surto de seu irmão. Tommy andava em círculos no quarto, tentando absorver a informação. Nem percebeu que ainda segurava o corpo com força. Quando notou o objeto, foi até a mesa e bebeu outro copo. E mais outro. Olhou para a moringa de água. Precisava mesmo era de uma bebida. Mas lembrou que tinha que ficar alerta. Passou uma das mãos no rosto. Depois, voltou até a cama e olhou seriamente para a irmã.

— Porra, Lina! — gritou – Porra!

Ela simplesmente sorriu e deu de ombros.

— De todos os homens daquela merda de cidade! De todos eles! — ele jogou o copo no chão, espatifando-o.

“Quebrar as coisas da casa dos Hightower não vai ajudar…”, pensou Lina. Seria exatamente o que diria se pudesse falar. Viu a fúria do irmão irromper em seus olhos e teve medo que ele começasse a quebrar mais coisas. E por mais que esse fosse o desejo de Tommy, ele se controlou. Respirou fundo e recolheu os pedaços do copo do chão. Enquanto fazia isso, percebeu porque Lina não havia contado antes. Se fosse qualquer outro homem ele ficaria chateado sim, mas o rei… Afinal, se Varian a magoasse ou fizesse qualquer mal a sua irmãzinha, não podia simplesmente entrar na Bastilha e matá-lo. Teve a impressão que esse era mais um motivo de Lina não ter contado nada.

Depois da explosão, Tommy deixou só cacos do copo na mesa e foi até a cama. Dessa vez não sentou na cadeira, mas na cama, bem próximo a ela. Encarando a irmã machucada, se deu conta que estava com as dúvidas erradas.

— Você está apaixonada por ele, não é mesmo? — perguntou lembrando do Véu de Inverno.

Para seu espanto, Lina negou com a cabeça antes de escrever no quadro:

“Eu o amo.”

Tommy acreditou, porque Lina jamais usara aquelas a palavras para qualquer pessoa que não fosse da família. E, em alguns casos, nem alguns membros da família as mereceram.

— Há quanto tempo vocês estão juntos? — quis saber.

“Foi na mesma época em que você voltou”.

— Tanto tempo assim? — surpreendeu-se ele e Lina afirmou com a cabeça – Se alguém tentou te matar por causa do rei, é porque o caso de vocês foi descoberto…

Lina deu um sorriso sem graça e apagou a lousa antes de escrever:

“Bem… Eu conto quando puder falar…”

— Pela Luz, tem mais?

Lina apenas sorriu sem graça.

Antes que Tommy pudesse dizer mais alguma coisa, a porta se abriu e Doroteya entrou. A aparência dela estava bem melhor e a druidesa sorriu para os dois. Tommy imediatamente se levantou e foi até ela, abraçando-a com força. Sob o olhar espantado de Lina, ele a beijou ali mesmo aliviado que Doroteya estivesse bem.

— Que bom que você acordou. — disse ele segurando suas mãos – Não aguento ter que esperar as respostas dela.

— Imagino que ela também não aguenta não poder gritar com você, principalmente agora. — e olhou para Lina rindo.

Tommy virou-se para a irmã e viu que ela tinha escrito na lousa em letras garrafais: “FINALMENTE!!!”

Tommy sentiu o rosto ficar vermelho, mas não soltou as mãos de Doroteya. Caminhou junto com ela até a cama, vendo o sorriso enorme de Lina para os dois. Sentiu-se imensamente culpado. Lina estava ali, nitidamente torcendo para que ele fosse feliz e Tommy só estava julgando-a pela pessoa que ela escolhera. Ou melhor, que o destino escolhera. Duvidava que, se pudesse, a última pessoa que Lina escolheria para ter um romance seria o rei. Sua irmã não gostava de situações complicadas. E sem dúvida aquela era a situação mais complicada possível que ela poderia ter se envolvido.

— Pois é… — começou ele envergonhado – Nos resolvemos ontem.

Lina fez um gesto para Doroteya e para sua garganta, ansiosa por falar. A druidesa soltou a mão de Tommy e fez um gesto, curando a comandante. O pescoço de Lina voltou a cor normal, sem nenhuma marca ou ligadura do ataque. Seus olhos voltaram a ficar límpidos, destacando apenas o verde da íris. Lina respirou fundo, aliviada.

— Graças a Luz… — sua voz saiu um pouco rouca mas sem dor.

— Bem, agora você pode me contar tudo sobre esse seu lance com o rei. — disse Tommy sentando-se na cama novamente.

— Você sabe? — perguntou Doroteya assustada.

— Você sabia?! — retrucou Tommy.

— E você acha mesmo que eu não contaria para Doro? — perguntou Lina incrédula – Além do mais, ela me confidenciou o segredo dela. Não seria justo que eu mantivesse o meu escondido…

— A quem mais você contou? — perguntou visivelmente incomodado de ser deixado de fora.

Como já se sentia bem melhor e dona de si mesma mais uma vez, Lina decidiu colocar seu irmão logo no devido lugar dele antes que ele fosse estrangulado. E seria por ela.

— Vamos deixar algo claro aqui, Tommy: não fui eu quem abandonou a família por dois anos buscando uma vingança que nunca viria e morrendo aos poucos. — seu tom era duro e ela não pretendia aliviar para o lado do irmão – Então, eu tinha bons motivos para manter isso apenas para pessoas que estavam ao meu lado no momento e que podiam me ajudar a manter isso encoberto. E veja só: foi só começar a circular o boato que Varian estava apaixonado por mim, veja bem, apenas apaixonado por mim, sem qualquer relação comigo, que eu quase fui decapitada! — ela apontou para o pescoço, como se ele já tivesse esquecido o que estava ali antes – Aí eu ia falar para você, que não tinha como me ajudar, que não tinha nem forças para se ajudar, que eu estava envolvida na maior merda da minha vida?!

Ela falou tudo num fôlego só, sem deixar de encarar o irmão enquanto falava. Tommy sentiu as palavras dela como um chute no saco e se encolheu um pouco. Claro, ela estava certa. Odiava quando Lina estava certa.

— Já estou arrependido por ter deixado você curar ela. — falou para Doroteya franzindo a testa.

— Ah… Você vai ouvir muito mais… — avisou Lina.

— Antes que vocês comecem a se matar, preciso falar algo. — falou Doroteya tentando acalmar os ânimos entre os irmãos – Eu estive com Mel a pouco. Ele sabe sobre Varian também. Ele e Fey. Mas eles descobriram sozinhos.

Agora o espanto era no rosto dos dois e Doroteya ficou feliz em perceber que aquela informação quebraria o clima tenso entre eles.

— Como ele descobriu? — perguntou Lina abismada.

— Por causa do presente que você encomendou para Varian, a visita dele a você no final do ano passado e os boatos. — revelou Doroteya.

— Que boatos são esses? — perguntou Tommy.

Doroteya sentou-se na cadeira antes ocupada por Tommy e passou a explicar a ele toda a situação que surgiu após o ataque dos irmãos Jones a Lina e como isso levara a boatos que o rei era apaixonado por ela.

— Aproveite e conte tudo a ele, desde o começo. — pediu Lina se deitando na cama – Estou ficando cansada desse assunto.

Achando que aquela era a melhor coisa a fazer para evitar que aqueles dois se matassem, Doroteya pacientemente falou tudo que Tommy queria saber, desde o começo. Como acompanhara tudo que se desenrolara com Lina, pode dar sua perspectiva e até mesmo compartilhar algumas opiniões. Lina ficou imensamente grata que Doroteya tivesse assumido aquele fardo. Afinal, estava curada, mas um cansaço imenso se apoderou dela. Não dormira a noite com todas as coisas que acontecera e agora tivera que enfrentar aquela tensão com Tommy.

Quando Doroteya terminou o relato, Lina já tinha adormecido.

— Então você concorda comigo. — falou Tommy – Que o que aconteceu com Lina tem a ver com o rei.

— Eu tenho certeza. — admitiu a druidesa – Não é coincidência a ordem ter sido dada depois que o boato se espalhou. Acho que alguém quer eliminá-la antes que o rei consiga conquistá-la.

— Essa pessoa está um pouco atrasada. — ele olhou para a irmã adormecida – Ela admitiu para mim que o ama.

Doroteya sorriu, singelamente.

— Eu já sabia disso sem que ela precisasse me dizer. Estava muito na cara.

Tommy deu uma risada triste.

— Pelo visto menos para mim. — murmurou desanimado.

— E para o rei. Acho que ele não faz ideia do que Lina sente por ele. Na verdade, tenho certeza.

— E ele, o que sente por ela? — quis saber.

Se havia uma pessoa que saberia, era Doroteya com certeza. Ela conseguia ver dentro das pessoas como nenhuma outra pessoa que Tommy já tivesse conhecido.

— Ele a ama. Muito mais que Lina possa imaginar. E sofre com essa situação mais que ela. Ele se sente impotente. Ele tem exércitos e povos sob seu comando, mas não pode sequer tocar a mão da mulher que ama sem pesar as consequências que isso trará. — ela suspirou – Eu já estive no lugar de Lina, mas sei que o outro lado é tão doloroso quanto. Se não mais.

Tommy encarou Doroteya por um momento, feliz que Lina pudesse ter alguém como ela ao seu lado. E feliz por tê-la ao seu lado. Segurou a mão da druidesa antes de falar:

— Eu estava preocupado com minha irmã nessa situação, mas acho que você tem razão. O rei está numa situação pior que a dela. Duvido que ele tenham alguém com quem conversar sobre isso. Um amigo pra desabafar…

— Bem, ele tem Anduin. E Arshe. — lembrou Doroteya.

— É diferente. É o filho dele. E a sobrinha. Ele jamais os preocupará com seus verdadeiros medos.

Doroteya o encarou por um momento.

— Você poderia ser amigo do rei. — sugeriu – O amigo que ele precisa.

Primeiro, Tommy a encarou, aturdido. Depois, deu uma risada. Lina se virou na cama, incomodada. Ele então se calou. Para sua sorte, quando a irmã dormia, seu sono era pesado.

— Não acredito que eu, um plebeu, possa ser amigo do rei.

— E você acreditava que Lina poderia ser o amor do rei? — retrucou delicadamente.

Segurando-se para não rir, Tommy concordou com a cabeça.

— É, acho que você está certa… — e tocando o rosto dela, quis saber – Como você está, com tudo isso que está acontecendo?

— Tenho você ao meu lado. Não poderia estar melhor. — foi a resposta.

Sorrindo, Tommy se inclinou e a beijou.

— As crianças ainda estão dormindo. — falou Doroteya murmurando – Mel está bem e Lina também. Tudo está seguro por hora.

Ele entendeu o que ela queria dizer. Levantou-se e ofereceu a mão a ela. Sorrindo, Doroteya aceitou. E, juntos, caminharam até o quarto de Tommy. Mais que nunca, eles precisavam daquele momento a sós. Para pôr as coisas no lugar. Para se acalentarem de todas as coisas que aconteceram. Por que, finalmente, nenhum dos dois sentia que estava sozinho. A tempestade rugia sobre suas cabeças, mas podiam apertar um a mão do outro e encontrar o apoio que procuravam durante tanto tempo.

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Pandora estava exausta mesmo que tivesse acabado de acordar. Seu corpo todo doía e ela imaginava que era muito mais cansaço emocional que físico. A noite anterior a assombrara em sonhos e quando finalmente despertou, tinha a sensação que não havia dormido nada.

Sentou na imensa cama do quarto reservado para Doroteya e olhou em volta. Os meninos não estavam mais lá. Nem Doroteya. Levantou-se e vestiu-se apressadamente. Não queria ficar sozinha muito tempo. Assim que saiu do quarto, percebeu dois guardas em sua porta que a cumprimentaram educadamente. Pandora deu um sorriso amarelo para os dois e seguiu na direção do quarto originalmente reservado para ela e os meninos. Como imaginara, Pietro e Theo estavam lá, arrumando suas bagagens, enquanto conversavam sem muito entusiasmo.

— Pãozinho! — Pietro foi o primeiro a notar a presença dela.

— Nós já estamos indo então… — murmurou ela tristemente. O plano original era ficar até o dia seguinte na mansão.

— Tia achou melhor a gente ir. — respondeu Pietro – Mesmo que Lady Cláudia insistisse pra gente ficar…

— Tia quer contar ao rei o que aconteceu pessoalmente. — esclareceu Theo – Antes que ele receba o relatório do tenente que ajudou a gente.

Então sua tia decidira por tudo em pratos limpos com o rei. Era, com certeza, a melhor coisa para fazer, mas isso deve ter custado muito do orgulho de Lina Wood. Pandora não queria estar na pele dela naquele momento. Na verdade, não queria estar nem na própria pele. Se adiantou para arrumar suas coisas, quando Theo avisou:

— Tia Lina pediu para falar com você assim que você acordasse. Ela tá lá no jardim com tio Mel.

O estômago de Pandora revirou. Por algum motivo, ver a tia depois de tudo que acontecera lhe deixava com uma sensação estranha. Era como se fosse encontrar uma pessoa diferente daquela que mandara para a cama na noite anterior. Porém, o encontro não poderia ser evitado, então que acontecesse logo.

Caminhou pelos corredores da mansão, surpresa como as pessoas que trabalhavam ali conseguiram deixar tudo tão arrumado em pouco tempo. Além da bagunça que a própria festa causara, a bagunça feita pelos assassinos, e ainda assim a mansão estava impecável. Esperava que o pessoal que trabalhava ali ganhasse muito bem para compensar todo o trabalho que tiveram.

Pandora encontrou os tios no jardim, sentados em um banco de frente a uma fonte, em uma atitude tão carinhosa que a jovem ficou com pena de interromper. Lina descansava a cabeça no ombro do irmão, que alisava os fios negros da irmã com uma expressão de tristeza pensativa. Nem parecia o tio Mel de sempre, escandaloso e espalhafatoso. Ali, ele era apenas um homem preocupado com a irmã. E, pela Luz, como ele parecia mais velho naquela manhã! Tinha certeza que, assim que se recuperasse, ia exigir que Lina lhe pagasse tratamentos de beleza para esconder todas as rugas que conseguira naquele dia.

— Oi… — murmurou ela caminhando devagar na direção da tia – Theo disse que a senhora queria me ver…

Languidamente, Lina se separou do irmão e a encarou. Pandora ficou surpresa de ver tanta dor e tristeza no rosto da sua tia, sempre tão segura e decidida. Foi como se outra pessoa tivesse surgido dentro dela. Alguém que nunca vira antes e que não sabia se gostaria tanto de quanto gostava da outra. Levantando-se, Lina se aproximou da sobrinha e, para o espanto desta, a abraçou. Era estranho, sua tia detestava abraçar e ser abraçada. Pandora também. Porém, entendeu que era algo que Lina precisava. Não apenas Lina, constatou ao passar o braço ao redor da tia. Os sentimentos da noite passada voltaram e em poucos momentos Pandora chorava compulsivamente, assim como Lina. Choravam abraçadas, cientes que por muito pouco, muito pouco mesmo, teriam sido privadas de suas vidas, Lina muito mais que Pandora.

— Vou deixar vocês duas sozinhas. — disse Mel com a voz grave, sem os falsetes que fazia constantemente. Ele saiu antes que as duas se separassem de seu abraço.

As duas ficaram em silêncio por um tempo, abraçadas, até o som dos passos de Mel se perder em meio aos sons da manhã. Depois de um tempo, se separaram e Lina apontou para o banco de madeira. Sentaram-se. O silêncio se prolongou por mais algum tempo.

— Perdoe-me, Pandora. — Lina foi a primeira falar – Deveria ser eu a te proteger e não o contrário. Eu só posso imaginar o medo que você sentiu ontem…

Desviando o olhar para o chão, Pandora percebeu, surpresa, que ela e Lina ainda estavam de mãos dadas.

— O medo não apareceu na hora. — falou a menina – Na hora eu só pensava em não deixar aquele homem te matar.

Lina sorriu, tristemente.

— Você e os meninos foram tão corajosos… Eu tenho muito orgulho de vocês três…

— Se eu tivesse conseguido pensar, acho que teria saído correndo! — admitiu a jovem, arrancado risadas da tia.

— E eu não a condenaria! A sua reação e a deles só mostra que o futuro da Aliança está mais que garantido. Só vocês três já poderão encarar a Horda sem problema!

— Não sei se quero entrar em outra batalha para o resto da minha vida… — confessou Pandora.

— Se você não quiser, não tem problema. Você não precisa entrar no exército. E, se entrar, não precisa ir para o fronte. Eu só fui uma vez, em Nortúndria. E, veja só, quase morri nas mãos de alguém do meu povo, não do Flagelo. Ou da Horda. — ela riu como se aquilo fosse uma piada e não a sua vida em jogo – Que sorte, hein?

Como não achava nada daquilo engraçado, Pandora apenas a encarou seriamente. Lina parou de rir.

— Você quer voltar para a fazenda? — perguntou.

A pergunta surpreendeu a menina mais que tudo.

— A senhora vai me mandar embora?! Depois de tudo que me prometeu? — Pandora soltou a mão dela e se levantou de um pulo – Depois de eu ter salvado sua vida, você vai me mandar embora?!

— Claro que não, Pandora. — respondeu a outra calmamente – Eu jamais faria isso com você. Salvando minha vida ou não, eu não permitiria que você continuasse o calvário com seu pai. Preste atenção no que eu perguntei: você quer voltar? Depois de tudo que aconteceu, sabendo que você corre perigo estando perto de mim, você ainda quer ficar?

— Claro que quero! — respondeu sem pestanejar – Principalmente agora que a senhora vai contar ao rei o que aconteceu! Ele vai te proteger, né?

— Eu vou me proteger, Pãozinho. E vou proteger vocês. — disse resoluta.

— Ah, tia, como se ele não fosse querer fazer algo, né? — continuou a menina.

— Isso é algo que eu discutirei com ele, Pandora. Só quero deixar as coisas claras com você. Fiz a mesma pergunta aos meninos. Eles responderam a mesma coisa que você. Theo disse que não quer voltar para Darnassus e Pietro prefere os assassinos a voltar para perto do pai. Palavras dele. — Lina suspirou – E ele disse que sua resposta seria a mesma.

— É sim! — disse a menina cruzando os braços, decidida.

Sorrindo, Lina se levantou e colocou as mãos nos ombros da sobrinha.

— Eu não sou boa com lanças, então te arrumarei o melhor lanceiro que eu conheço pra te treinar. — revelou – Você não precisa ir para a escola se não quiser, afinal, você já terminou o básico na Vila D’ouro. A não ser que você queria ir para a Universidade de Ventobravo. Aí podemos dar um jeito.

— Não. — falou Pandora decidida – Quero ir para a Academia Militar que a senhora falou outro dia.

— Certo, arrumarei uma vaga para você lá. — prometeu a comandante – A diretora é minha amiga e eu já havia conversado com ela sobre isso.

— E treinos em casa com esse lanceiro que você conhece? — a perspectiva de ter um professor particular animou Pandora.

— Treino em casa com o lanceiro que eu conheço. — confirmou a comandante.

— Então nada de voltar para a fazenda? — perguntou a jovem mais uma vez só por garantia.

— Só se você quiser.

Satisfeitas, sorriram uma para a outra.

— Só mais uma coisa. — falou Lina tirando as mãos do ombro da sobrinha – Seu aniversário de dezesseis anos é mês que vem. Acho que você merece o melhor presente que eu puder dar. O que vai querer?

Os eventos da noite anterior tinham varrido seu aniversário de sua mente. E agora sua tia estava ali, lhe oferecendo alegremente o que ela tinha ansiado em pedir. Não precisou pensar muito, pois o pedido já estava na ponta da língua:

— Quero passar um dia em Dalaran. — disse ansiosa – O dia todo, sem nenhum adulto me supervisionando!

Lina franziu o cenho, uma nítida desaprovação em sua face. Porém, ela logo deu de ombros.

— Tudo bem, se é o que você quer. Vou separar um dinheiro para você e Pietro poderem se divertir bastante e você comprar algumas coisinhas para você também.

— Como você sabe que eu vou querer levar Pietro? — quis saber.

— E quando é que vocês se desgrudam? — retrucou Lina com um sorriso.

O coração de Pandora então disparou. Seria sua chance! Iria a Dalaran em seu aniversário, mas não estava interessada em passeios ou compras. Na verdade, até estaria, mas só seria realmente bom se reencontrasse com Halduron e pudessem fazer todos aqueles passeios de novo, almoçar juntos como da outra vez… Só não fazia questão da aventura no esgoto. De resto, seria maravilhoso. Já conseguia imaginar os três, ela, o irmão e Halduron juntos.

— Vamos voltar. — chamou Lina apontando para a mansão – Quero estar na estrada em uma hora e de volta a Ventobravo o mais rápido possível. Tenho pendências para resolver.

Pandora assentiu e voltaram juntas para dentro da mansão, cada uma com seus pensamentos, opostos totalmente. A alegria de Pandora suplantou todo e qualquer medo que a menina tivera na noite anterior, enquanto o medo de Lina superava qualquer alegria por estar viva e que todos a sua volta também estivessem.

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(CONTINUA)

Notas finais
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