Herdeiros da Guerra
46 Capítulo XXVI - A coroação (PARTE VIII)
Notas iniciais
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A luz do sol tocava sua pele, morna, cálida, não muito quente, apenas na temperatura ideal para ficar confortável. A grama embaixo de seu corpo era fofa, perfumada e tão confortável quanto a melhor cama que já dormira. O perfume de centenas de flores dançavam pelos ares, levados por um vento suave que soprava em seus ouvidos. Todas as melhores sensações que já sentira. Luxuriah nunca se sentira tão bem.
Deitada na grama, abriu os olhos bem devagar. A luminosidade era grande, mas não doía na vista. Olhou em volta, um pouco confusa. Onde estava? Sentou-se lentamente, esperando sentir dor, mas só sentia uma bem-estar maravilhoso. Por que esperava dor mesmo? Não lembrava. E não importava. Sabia que tinha pessoas esperando por ela.
Levantou-se e olhou ao redor. Estava em uma colina, próxima a Luaprata. A cidade reluzia no sol da manhã, mais bela que nunca. Não havia nenhuma mancha negra no horizonte, nenhum prédio rachado. Tudo estava perfeito. Mas, a dúvida a corroeu de novo. Por que haveria manchas escuras em sua bela cidade? Que pensamentos estranhos…
Começou a descer a colina, o vestido branco esvoaçando ao redor de seu corpo, enquanto sue cabelo dançava ao sabor do vento em sua cabeça. Um bater de asas chamou sua atenção e ao virar para trás, viu um belo e dourado falcodraco a seguindo.
— Rocco! — exclamou vendo seu primeiro ajudante se aproximar – Por onde você andou? Senti sua falta!
Novamente a dúvida. Por que sentira falta de Rocco? Ele não estivera sempre com ela desde que o domara com a ajuda de seu pai? Era estranho sentir tanta alegria ao revê-lo, como se, em algum momento, houvessem se separado. Tocou o bico do falcodraco, que emitiu ruídos satisfeitos pelo carinho. Depois, ele virou-se para a direita, olhou-a e voou naquela direção. Rocco queria que ela o seguisse. Luxuriah o fez. Caminharam por um tempo muito curto, até a jovem reconhecer o caminho. Sorriu, a alegria transbordando em seu coração.
Sim, iria para casa.
Uma voz doce invadiu os ouvidos de Luxuriah assim que essa viu o topo da mansão Fendessol. Era o som mais lindo que já ouvira. Parou por um momento, extasiada com o que ouvia, até que Rocco bateu as asas perto de seu rosto, apressando-a. Luxuriah sorriu para ele e continuou. Logo, a dona da voz apareceu. Trazia uma cesta em suas mãos, cheias de botões da paz. Seus cabelos negros também traziam as rosas, enlaçadas em uma coroa. Era a elfa mais linda que Luxuriah já vira. E ela a conhecia.
— Vovó… — murmurou se aproximando.
— Minha querida Lulu… — Lady Luelly a envolveu em uma braço e foi a melhor sensação do mundo – Veja só, como está grande e bonita…
— Vovó, eu estou confusa… — murmurou sentindo o toque cálido das mãos suaves da barda – Sinto que há algo estranho…
— Claro que sente, minha querida. Você logo saberá. Venha… — e a puxou em direção à casa enquanto o falcodraco as rodeava – Não, Rocco, as ervas não são para você comer! São para o chá!
O falcodraco emitiu um ruido descontente e Luelly riu.
— Ok, só um pouquinho… — e deu um ramo para o animal, que fez círculos no ar, feliz.
Luxuriah segurou forte a mão da avó, tão linda e tão jovem quanto nas pinturas que a retratavam. E tão parecida com Ash… Mas ao mesmo tempo tão diferente. Seus olhos eram tão azuis que deixavam o céu acima delas fosco, sem brilho. Caminharam juntas, com o Rocco ao seu encalço, até o jardim da mansão dos Fendessol. O cheiro de torta de morango as envolveu e Luxuriah sabia quem encontraria.
— A mamãe fez torta! — exclamou para a avó.
— Sim, fez! Especialmente para você!
Então, Luxuriah a viu. Os cabelos loiros avermelhados presos em uma trança, o vestido verde favorito dela bem ajustado ao seu corpo, com um avental de flores coloridas por cima, que não tirava a beleza da elfa. Uma torta fumegava em suas mãos, protegidas por luvas cor-de-rosa. Samanthah sorriu quando viu a filha e a sogra aparecerem.
— Que bom que chegaram! Eu estava com medo de que Dhomm e Ted comessem toda a torta sem vocês! — exclamou a elfa dando uma risada.
— Ah, eu encheria o Tewdric de tapas se ele comesse minha torta! — falou Luxuriah se surpreendendo com a própria fala – Tewdric está aqui mesmo? — perguntou sem saber porque aquilo a espantava.
— Claro que está! — respondeu Luelly – Ele é da família! Onde mais estaria?
Não sabia onde ele estaria. Era tão óbvio ele está ali! Mas porque isso a deixava só um pouco triste? Sacudiu a cabeça, para se livrar daqueles pensamentos.
— Quer ajuda, mãe? Eu levo. — perguntou ela tomando a dianteira e estendendo as mãos para a torta.
— Não precisa querida, já estou levando para a mesa. Apenas me faça o favor de levar os pratos, sim? — e voltando-se para a sogra – Lulu, querida, já fervi a água para o chá. Mas vou avisando, aqueles dois estão bebendo cervejas como dois orcs!
— Mamãe, Tewdric é um orc. — lembrou Luxuriah rindo.
— É, mas seu pai não. — Samanthah suspirou e sacudiu a cabeça – Bem, vamos lá, antes que eles destruam tudo.
As três caminharam juntas até uma mesa comprida, onde um Dhomm e Tewdric conversavam alto, cada um com uma caneca de cerveja, bebendo e rindo, como dois grandes amigos. Luxuriah sorriu, sentindo-se muito feliz. E uma pontada de tristeza a invadiu apenas por um segundo. Aquilo era tão certo… Mas tão estranho! Tewdric deveria estar ali mesmo, mas também não deveria. Por que não deveria? Seus pensamentos contudo, sumiram quando ouviu a voz de seu pai.
— Chegaram as elfas mais bonitas dessa banda do mundo! — gritou Dhomm erguendo a caneca – E todas as três são da minha família!
— Olha, as duas Lulus juntas! Vou chamar Lulu Um e Lulu Dois! — gracejou Tewdric erguendo o copo também.
— Eu já disse para não me chamar assim! — protestou Luxuriah.
— Por que não, querida? — perguntou Lady Luelly depositando a cesta com as ervas em cima da mesa de jardim – Não é um apelido bonito?
— Bem… É… — admitiu – Mas não combina comigo… Só com a senhora. — disse singelamente.
— Claro que combina com você, bobinha. — a avó apertou a bochecha da neta carinhosamente – E eu sei que você, lá no fundo, gosta. Deixe o Ted lhe chamar assim, ok?
Luxuriah sorriu para a avó.
— Certo… Mas só porque você está pedindo… — disse se fazendo de difícil.
— Ah, igual ao seu pai! — reclamou Luelly revirando os olhos – Vamos, vamos sentar e tomar um chá.
Os cinco sentaram-se a mesa e logo atacaram a torta. Foi a melhor coisa que Luxuriah já provara na vida. Derretia em sua boca e a enchia de tanta felicidade que parecia impossível existir. Observou sua família animada, comendo e sorrindo e sabia que devia só sentir alegria ali. Contudo, uma pontada de dúvida a incomodava. Algo estava errado. O que era?
— Lulu! — chamou Tewdric e Luxuriah o olhou – Não fique assim, certo? Eu sei o que você tá sentindo, mas relaxe, ok? Não há nada que a gente possa fazer. Aproveite a cerveja! — e bebendo mais um gole – Sogrão, esse é o melhor goró que já provei!
— Minha receita secreta! — falou o elfo com orgulho – Vou te ensinar a fazer!
— Oba! Assim podemos fazer em dobro e beber mais!
— Com certeza! — Dhomm deu duas tapinhas no ombro do orc – Eu gostei de você, Ted! Gostei mesmo! Melhor orc do mundo!
— Também gostei de você, sogrão! — e deu duas batidas no ombro de Dhomm que foram tão fortes que o elfo foi sacudido e derrubou cerveja em sua roupa. Os dois então se olharam e riram ainda mais.
— Do que Tewdric está falando? — perguntou para a mãe.
Afinal, como Tewdric sabia que ela se sentia confusa? Na verdade, quando sua mãe a olhou, teve certeza que sua mãe também sabia de seus pensamentos.
— Ah querida, prove da torta e depois falaremos disso, ok? — Samanthah sorriu confirmando a sensação de Luxuriah – Estou tão feliz em te ver… — e tocou em seu rosto. Luxuriah retribuiu o toque, emocionada. Era exatamente o toque que ela lembrava.
— Vamos cantar! — avisou Dhomm naquele momento, pegando um violão debaixo da mesa – Todos juntos, hein?
E começou a tocar uma música tradicional de seu povo e todos começaram a acompanhar, até mesmo o orc, que cantava em sua voz grossa e desafinada. Mas cantaram, todos juntos, enquanto comiam a torta e o coração de Luxuriah explodia de uma felicidade que jamais sentira antes.
Continuaram a comer, rindo e conversando e cantando, como se sempre tivessem feito aquilo por toda a vida. Luxuriah estava deslumbrada em como Tewdric e seu pai se davam bem, parecendo que eram mais pai e filho do que sogro e genro. Eles se provocavam, davam cotoveladas um no outro, contavam piadas, riam e bebiam. Dhomm então passou a receita de sua cerveja para Tewdric, que ouviu atentamente.
— Esse meu genro é um cara bom demais! — exclamou Dhomm em determinado momento – Olha, Sam, você vivia pedindo um filho… Temos um!
Samanthah riu.
— Um filho-genro! — concordou a elfa.
— Verdinho! — completou Luelly arrancando risadas de todos.
As dúvidas de Luxuriah voltaram. Genro… Tewdric era casado… Com uma de suas irmãs… Ela tinha três irmãs…. Onde estavam elas?
— Onde estão as meninas? — perguntou para a mãe sentindo um sentimento de urgência surgir. Algo havia acontecido e ela não sabia o quê.
— Estão bem, querida. — disse Samanthah acalmando-a – E vão demorar bastante para vir para cá, então não se preocupe. — a mãe encheu sua xícara de chá novamente – Se tivermos sorte, Hobbs aparecerá hoje. Ele sempre aparece quando pode.
— Onde ele está agora? — quis saber Luxuriah, lembrando do quanto gostava do servo.
— Aqui ele não é servo, querida. — falou Luelly como se lesse a mente dela – Aqui todos nós somos iguais. Hobbs está com a família dele, mas gosta tanto de nós que sempre vem. Ele adoraria ver como você cresceu…
A confusão de Luxuriah apenas aumentava a medida que ela se dava conta que havia muitas lacunas em sua memória. E tantas coisas pareciam não se ajustar… Tewdric ali, a presença da avó, seu medo por suas irmãs e a ausência dela… Ainda assim, estava tão feliz de estar com os pais… Fazia tanto tempo que não os via… Mas porque fazia tanto tempo que não os via? Não lembrava. Mas decidiu que não importava. Ia celebrar aqueles instantes, deixando de lado aqueles sentimentos que não combinavam com a ocasião.
Continuaram comendo e rindo quando uma figura se aproximou. Era uma elfa alta, com cabelos e olhos dourados, uma aparência que Luxuriah nunca vira antes. O vestido dela era de uma cor que também nunca vira antes. Mudava do vermelho para o laranja e para o dourado, e voltava para o vermelho. Um milhão de tons avermelhados e dourados, como se fosse o pôr do sol. Apesar de, no primeiro momento, ela parecer desconhecida, Luxuriah sabia que a conhecia. De algum lugar, de algum tempo diferente.
— Anveena! — exclamou Luelly feliz – Que surpresa maravilhosa!
Aquele nome também não era estranho, pensou Luxuriah. A elfa se aproximou deles suavemente, como se flutuasse a cada passo. Sorria, um sorriso cálido que encheu o coração de todos de alegria.
— É tão bom vê-los… — a voz soou etérea, como se emanasse de todos os lugares ao mesmo tempo – Estou feliz de estar com vocês...
— Venha, coma conosco! — convidou Samanthah.
— Claro que sim! — respondeu para a felicidade de todos – Mas antes, tenho algo a fazer… – e flutuou até onde estava Tewdric – Está na hora de voltar. — disse para o orc.
— Sério? — perguntou o orc muito feliz – Aqui tá muito bom, mas já to morrendo de saudades da minha Kass, da Ash e da Karenzita!
— Você precisa delas e elas precisam de você… — falou Anveena – Não é sua hora ainda. — e estendeu a mão para ele.
— Posso fazer só uma coisinha antes de voltar? — perguntou Tewdric.
Anveena sorriu e assentiu, já sabendo do que se tratava.
Tewdric levantou-se, caminhou primeiro até Samanthah e a abraçou forte.
— Amei te conhecer, sogrinha! Agora sei porque as minhas meninas são tão especiais. Elas tem a quem puxar! — e lhe deu um ruidoso beijo na bochecha.
Samanthah deu uma risada alta e seu rosto ficou vermelho.
— Foi muito bom te conhecer também, Ted. — e devolveu o abraço na mesma intensidade – Cuide-se. E cuide das minhas meninas também.
— Pode deixar, sogrinha.
O orc então se dirigiu até Luelly.
— Você é ótima, Lulu Um! Incrível! — exclamou dando-lhe também um abraço apertado e um beijo estalado.
— Você também, Ted! — falou a barda – Cuide-se, sim?
Por último, Tewdric foi até Dhomm. O elfo abriu os braços e os dois deram um abraço cheio de tapinhas nas costas bem fortes e muitas risadas.
— Sogrão! Melhor elfo! Melhor cervejeiro! — e o ergueu do chão num abraço de urso.
— E você é o melhor orc, Ted! — disse Dhomm rindo com os pés balançando no ar – Não poderia querer um pai melhor para a Ash e para a Karenzita! Cuide da nossa Kass, ok? Eu jamais poderia querer um marido melhor para ela!
— Eu a amo mais que tudo, sogrão! E pode deixar, cuidarei de todas! — e colocou Dhomm no chão.
Depois da rodada de despedidas, Tewdric olhou para a confusa Luxuriah e acenou alegremente.
— Até mais, Lulu Dois!
E tocou na mão de Anveena, desaparecendo em seguida.
Foi quando Luxuriah entendeu.
— Eu morri, não foi? — perguntou para a mãe.
Havia tristeza dentro dela, mas também alívio por saber finalmente o que a incomodava. Estava morta. Por isso estava com os pais. Por isso conhecia a avó. Estavam todos em algum lugar que ela sabia não ser a Luaprata que conhecia, mas um lugar onde todos tocados pela Nascente do Sol descansavam. Por isso se surpreendeu de Tewdric está ali. Primeiro, como ele havia morrido? Segundo, ele era um orc. Devia estar com seus ancestrais. Mas estava ali, o que mostrava o quão especial o guerreiro era. Sorriu diante do pensamento.
— Sim, querida, você morreu. — respondeu Samanthah com uma pontada de tristeza.
— Foi no parto… — ela então pôs a mão no rosto, com uma pontada de angústia no peito – E Tinuviel? E minha filha?
— Está viva e bem. — quem respondeu foi Dhomm – Ela e Rommath esperam sua volta. — ele olhou para Anveena – Você veio buscá-la também, não foi?
— Apenas se ela quiser ir. — respondeu a elfa.
— Eu tenho escolha? — perguntou Luxuriah olhando para Anveena.
— Claro que tem. — respondeu singelamente a outra.
— E Tewdric? O que aconteceu? Por que ele estava aqui? E porque ele voltou?
— Ele entrou numa luta para defender a família dele. — esclareceu Luelly – E pereceu.
— Mas ele tinha que voltar. — continuou Anveena – Ele precisava voltar. Mas você… Você tem uma escolha. Você pode ficar aqui com sua família. Ou voltar para a sua família. A decisão é sua. — e estendeu a mão novamente.
Era tentador. Naquele lugar não havia dor, não havia arrependimentos. E estava com seus pais que amava tanto… E sua avó! Jamais imaginara que conheceria Lady Luelly e agora não imaginava como tinha sido sua vida antes de vê-las. Podia, realmente podia, deixar tudo para trás.
Porém, tinha uma filha. Uma filha que ainda não vira o rosto, que cresceria sem a mãe, tal como Karen. Que dor a pequena Tinuviel carregaria por ter pedido a mãe no dia que nasceu? Ela se culparia, provavelmente. E havia Rommath… Sim, não queria deixá-lo. Queria estar com ele, tocar sua mão mais uma vez, e que pudessem criar sua filha, juntos… E suas irmãs… Elas precisavam dela também. Não, não podia ficar. E quando olhou para a mãe, esta lhe sorriu. Samanthah sabia qual tinha sido sua decisão.
— Vou sentir saudades. — disse a maga abraçando a filha.
— Perdoe-me mãe… — pediu retribuindo o abraço – Se não fosse pelo meu pedido naquele dia, para caçar, nós estaríamos em Luaprata naquele dia… Vocês ainda estariam vivos…
— A culpa não é sua, querida… — falou Samanthah – Nunca foi. Deixe essa dor para trás…
Luxuriah então se desvencilhou da mãe para jogar-se nos braços do pai. O abraço dele era tal como se lembrava. Forte, porém carinhoso. E o mesmo cheiro de pinho e lavanda de sempre. Era tão bom sentir aqueles braços fortes de novo ao redor de seu corpo. Sentiu-se voltar a infância por um momento, relembrando que sempre podia contar com ele para sentir-se segura e plena.
— Pai… — murmurou.
— Não fale nada querida… — disse ele carinhosamente – Eu sei…
Ficaram abraçados por um tempo, que pareceu uma eternidade e também apenas um segundo até que se soltaram. Dhomm então deu um beijo em sua testa.
— Lembre-se querida. Eu te amo. E quero que você seja feliz. — disse ele – Mesmo que seja casada com aquele elfo velho e resmungão do Rommath… Pelo menos sei que ele te ama tanto quanto eu…
Luxuriah deu uma risada e mais um abraço no pai antes de voltar-se para sua avó, aquela que nunca conhecera mas que amara tanto.
— Vovó… — murmurou sem saber o que dizer.
— Lulu, querida… — Luelly tocou seu rosto – Eu sempre estive com você, pode ter certeza.
Luxuriah assentiu e a abraçou. Depois, voltou-se para Anveena.
— Estou pronta para voltar.
Anveena então estendeu a mão e Luxuriah aceitou. O toque era quente e a elfa fechou os olhos, sentindo-se transbordar de uma sensação de plenitude intensa. Depois, sentiu o ambiente ficar difuso, confuso, e uma dor imensa a trespassou. Seu corpo tremeu e ela arfou, abrindo os olhos fracamente. Acima dela, o rosto desesperado de Rommath apareceu, os olhos turvos de lágrimas, mas cuja boca esboçou um sorriso quando se encararam.
— Lux… Meu amor… — ele tocou levemente seu rosto e seus dedos estavam frios – Você está me ouvindo?
Luxuriah fez um movimento fraco, quase imperceptível com a cabeça.
— Ela está consciente! — exclamou ele sem conter a felicidade.
— Lux! — Kassyeh empurrou Rommath para o lado e se debruçou sobre a irmã abraçando-a – Achamos que tínhamos te perdido! — sua voz estava entrecortada pelo choro.
Confusa, Luxuriah não entendia o que tinha acontecido. Estava com muita dor, mas havia dormido. Sonhara com os pais… E com sua avó… Havia mais alguém lá? Sua mente estava confusa.
— Lux… — Ash também se aproximou e Kassyeh deu espaço para a irmã – Você nos deu um susto grande… — o rosto de Ash estava pálido e ela tremia dos pés à cabeça – Um baita susto…
— Deixem-me passar. — ordenou Lorena se encaminhando até a cama com algo nos braços – Ela precisa ver a filha…
O coração de Luxuriah se inundou de felicidade, apesar de toda a dor que rasgava seu corpo. Tentou estender os braços, mas eles mal se moveram. Rommath então pegou Tinuviel dos braços de Lorena e a colocou sobre o peito da esposa. A elfa moveu lentamente a mão até as pequenas e frágeis costas de sua bebê, em cujo topo da cabeça havia um berrante tufo de cabelos vermelhos bem arrepiados. Acertara nisso também.
— Ti… — murmurou sem forças para pronunciar o resto.
— Guarde suas forças, Luxuriah. — disse Lorena de forma mais branda – Você terá muito tempo com ela.
Teria todo o tempo do mundo, Luxuriah tinha certeza.
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Lor’themar liderou o grupo dos guardas em direção ao Bazar, onde ficava o ateliê de Marko Berthas. Deixar Ash para trás no momento em que sua irmã estava em trabalho de parto fora difícil, mas a futura rainha era sua prioridade. E Ash com certeza concordava que tinham que manter Karen a salvo, não importava o custo. Apressou o passo diante do pensamento.
Apressado demais para esperar que ajeitassem os falcoztruz dele e da guarda, seu grupo fora a pé, correndo pelas ruas, surpreendendo quem estava pelo caminho. E, ao se aproximar do local, Lor’themar ouviu primeiro que viu. O choro alto de Karen atravessava o ar como flechas e o lorde regente apressou ainda mais o passo. Já antecipava a tragédia, que se confirmou quando finalmente chegou ao Bazar.
Karen estava sentada no chão, como o vestido branco sujo de sangue, agarrada ao corpo de Tewdric. Lor’themar estacou, sem conseguir acreditar. O orc estava morto, era óbvio. Sentiu o estômago embrulhar, se perguntando como diria aquilo para sua Ash. E para Kassyeh. E para Luxuriah, quando aquela finalmente tivesse o bebê. Como encararia aquelas elfas e diria que aquele a quem amavam tinha perecido nos braços da pequena elfa que todos juraram proteger? Que a Nascente do Sol o ajudasse, pois não sabia como o faria. Porém, naquele momento, era necessário lidar com Karen.
Havia uma multidão ao redor da futura rainha agarrada ao corpo do guerreiro orc. Muitos choravam e nem todos eram elfos. Lor’themar não sabia se choravam por Tewdric ou diante da dor de Karen. Talvez ambos. Quando ele se aproximou, as pessoas prontamente abriram caminho fazendo com que o lorde regente visse a cena toda. Saba também estava lá, parada, encarando a amiga, visivelmente em choque. Seus olhos estavam arregalados e a pequena orquisa tremia da cabeça aos pés. Pode ver também o corpo de Grey, próximo ao de Tewdric. A compreensão do que tinha acontecido o assaltou e Lor’themar sentiu uma raiva imensa de si mesmo. Deveria ter posto um fim ao elfo há muito tempo, desde que ele o acusara de cúmplice de assassinato no aborto de Luxuriah. Era sua responsabilidade proteger a filha de seu amigo. E sua passividade havia custado a vida do mais valoroso guerreiro que jamais conhecera. Sentia que havia falhado com seu amigo Dhomm mais uma vez. Jurou que não cometeria aquele erro novamente, mas, para Tewdric e Karen, o mal já estava feito. Não havia volta.
Segurando as lágrimas, Lor’themar lentamente se aproximou de Karen e se ajoelhou ao lado dela.
— Karen…. — murmurou.
— O Ted tá machucado… — balbuciou a menina, com os lábios trêmulos, sem encará-lo – Eu vou curá-lo…
O coração de Lor’themar se apertou e sentiu um nó se formar na sua garganta. Evitando encarar o rosto morto de Tewdric, falou:
— Karen… Tewdric se foi…
— Não! — gritou a menina – Ele não morreu!
— Karen… — ele estendeu a mão para tocá-la.
— Não! — Karen gritou e uma força invisível empurrou Lor’themar para longe, derrubando-o no chão.
— O quê… — murmurou o elfo confuso sendo ajudado pelos guardas a se levantar.
Um brilho dourado envolveu Karen e Tewdric, impedindo que qualquer um chegasse perto dos dois. A menina usava sua habilidade de escudo de paladino para mantê-lo longe. E enquanto o lorde regente se perguntava o que diabos faria naquela situação, a mente de Karen fervia de dor e desespero. Ela simplesmente não aceitava o que estava acontecendo. Não podia ter pedido Ted. Seu Ted. Seu pai. Não, não, não. Não aceitaria aquilo. Queria tê-lo de volta. Agora! Não importava como. Não importava o que aconteceria. Só queria seu Ted de volta.
“Por favor, se tem alguém me ouvindo”, se pegou rezando fervorosamente “Traga meu Ted de volt! Eu farei qualquer coisa! Qualquer coisa! Mas traga meu Ted de volta!”, e debruçou-se em prantos sobre o corpo dele, soluçando.
Foi quando ouviu a voz.
“Eu posso trazê-lo, se você quer tanto.”
Karen levantou a cabeça e percebeu que não estava mais na praça. Ela e Tewdric estavam em um local iluminado, que parecia muito com a torre da Nascente do Sol que visitara com suas irmãs na ilha de Quel’Danas. Olhou ao redor. Todo resto sumira. Todas as pessoas. Não, restara uma. Uma elfa loira, de olhos dourados, que caminhou até ela, vestida de pôr do sol. Seus passos eram tão leves que não produziram nenhum ruído. Era como se ela flutuasse.
— Sabe quem eu sou? — perguntou ela.
— Você é a Nascente do sol. — disse Karen sem saber porque tinha tanta certeza daquilo.
A elfa sorriu.
— De todas, eu sabia que você me reconheceria. — falou carinhosamente – E você pode me chamar de Anveena.
— Sou Karen. — respondeu a menina, mas tinha consciência que a elfa sabia quem ela era.
Anveena se abaixou até a altura de Karen e a encarou. Os olhos dourados da elfa prederam os de Karen e então a elfa encostou um dedo no peito de Karen, em cima de seu coração.
— Karen. — murmurou com a voz mais doce que a menina já ouvira – Você decidiu ser rainha para poupar suas irmãs. Você decidiu ser paladina para salvar os outros. Tomou grandes decisões, mesmo sendo tão jovem… Isso me chamou atenção. Para você e suas irmãs…
Estar frente a frente com Anveena fez a dor do coração de Karen sumir. Estava deslumbrada com a elfa e a encarava, sem medo.
— Foi por isso que você nos deu as fênix? — perguntou.
— Sim. Porque eu escolhi vocês para começar um novo capítulo da história do meu povo. Nosso povo.
Karen apertou o corpo de Tewdric nos braços, a dor voltando ao seu coração e as lágrimas brilhando em seus olhos.
— Você pode…. — mas não conseguiu terminar a frase.
Anveena assentiu com a cabeça e Karen sorriu, suas esperanças sendo reestabelecidas.
— Eu lhe ajudarei a ter seu Tewdric de volta. — começou Anveena – Mas, antes, tenho uma proposta a te fazer.
— Eu aceito qualquer coisa! — falou a menina desesperadamente.
Anveena sorriu com calma, sem se afetar pelo desespero de Karen.
— Eu posso simplesmente trazê-lo de volta, lhe emprestando meu poder. — esclareceu a elfa – Porém, a vida dele ainda será curta. Como a dos outros de seu povo. Ele morrerá antes de você. Muito antes. E eu posso evitar isso.
Tudo que Karen queria era que Tewdric acordasse logo, mas não interrompeu a fala de Anveena.
— Eu quero que você seja minha campeã. — revelou Anveena – Não apenas a rainha. Não apenas uma paladina. Minha representante. Você lutará onde não posso ir, defenderá nosso povo não importa como, fará as coisas conforme eu lhe instruir…
— Mas eu já não vou fazer isso? — perguntou a menina confusa.
— Não estou falando de política. Estou falando de minha vontade. Você será a minha Arauto. Sua vida estará ligada a mim, até sua morte.
Karen sentiu o peso daquele cargo mais do que sentia o de ser rainha. Ser Arauto da Nascente do Sol lhe traria uma responsabilidade que nenhum em seu povo teve antes e amarraria a sua vida aos desejos de Anveena até o fim. Porém, naquele momento, parecia ser um preço pequeno a pagar.
— E em troca você traz o Ted de volta? — quis saber se entendera direito.
— Criança, eu não apenas trarei ele de volta. Vincularei a vida dele à sua. — disse ela antes de explicar – O orc não morrerá como os de sua raça. Terá uma vida tão longa quanto a sua vida élfica e morrerá de velhice quando você morrer de velhice. Ou quando ele decidir partir, caso sua amada Kassyeh vá antes. Ele não será imortal. — Anveena deixou claro – Outra luta dessas e ele morrerá de verdade. Porém, caso ele vença todos seus combates, o manterei por muito tempo ao seu lado. Se você aceitar meu acordo, obviamente.
— Aceito! — gritou Karen sem pensar – Aceito!
— Não seja tão precipitada, criança. — aconselhou Anveena carinhosamente – Eu posso pedir coisas que você não gostará. Talvez se colocar contra pessoas que você não deseja se indispor, fazer coisas que você não concorda… Está disposta a trocar sua liberdade pela vida dele?
— Sim! — exclamou Karen sem nenhuma dúvida.
Anveena sorriu.
— Muito bem então.
Karen sentiu sua cabeça zunir e fechou os olhos. Sentiu então suas mãos esquentarem e abriu os olhos. Estava de volta à frente do ateliê e agora sentia o poder fervilhando dentro dela. Levantou a mão em direção aos céus e invocou o poder da Nascente do Sol. Longe dali, quem estava na Nascente do Sol se surpreendeu ao ver uma luz saindo dela e indo em direção à Luaprata, no momento em que Karen foi envolvida por um brilho dourado. A menina sentiu o poder saindo dela para Tewdric e a ferida no peito do orc começou a sumir até se fechar completamente. Ele então emitiu um suspiro e seu peito começou a subir e descer. Voltara a respirar. E diante de um Lor’themar descrente, Tewdric começou a se mexer lentamente, abrindo os olhos e encarando sua pequena elfa tão amada.
— Ka… Karen…Zita… — ele balbuciou.
Karen baixou a mão e a luz parou. Ela então se agarrou novamente a Tewdric, chorando, mas dessa vez de felicidade.
— Ted! Ted! — ela gritava animadamente.
O burburinho começou devagar e logo estavam todos falando ao mesmo tempo, espantados demais para suprimir o que sentiam. Ressurreições já haviam sido testemunhadas antes, claro, mas todos sabiam que apenas paladinos muito poderosos podiam fazer. Nunca antes uma criança quase sem treinamento. Foi quando um elfo disse que a luz tinha vindo da Nascente do Sol a pedido de Karen e a agitação se espalhou ainda mais. Muitos começaram a se ajoelhar e a rezar fervorosamente, principalmente quando Tewdric se levantou, sem nenhum arranhão, nenhum resquício de dor em seu rosto e pegou Karen nos braços. Foi quando Lor’themar saiu de seu estupor e se adiantou.
— Tewdric? — chamou ele se aproximando, cautelosamente.
Os olhos azuis do orc o encararam, límpidos e claros como uma manhã de sol.
— Precisamos tirar as meninas daqui. — disse Tewdric com a voz firme – Você pode trazer Saba?
O elfo piscou, confuso por um momento e então fez que sim.
— Venha, Saba.
A menina ainda estava em choque, mas Lor’themar a pegou nos braços. Saba era mais pesada que uma criança élfica, claro, mas o lorde regente a carregou sem problemas. Karen se aconchegou em Tewdric, os olhos fechados, dos quais ainda saiam lágrimas, mas a menina tinha um sorriso grande em seus lábios. E enquanto voltavam para a Torre Solfúria, não emitiram nenhuma palavra. E deixavam apenas os rastros de murmúrios e reverência por onde passavam.
Os quatro e o grupo de soldados chegaram à Torre Solfúria, seguidos por um séquito de elfos que cantavam hinos para a Nascente do Sol. Foi essa cena que Aethas e Vivithi viram tão logo saíram da sala dos portais. Os dois estacaram ao ver Tewdric e Karen cobertos de sangue e aquela multidão cantando e o arquimago empalideceu.
— O q-que… — gaguejou já procurando o ombro de Vivithi para se firmar.
— Que porra aconteceu aqui? — gritou Vivithi.
— Karenzita tá bem. O sangue é meu. — explicou o orc numa tentativa de acalmar ambos.
Obviamente, a frase não ajudou muito e Aethas continuou a encará-lo, apoiado em Vivithi. A elfa olhou para seu tio, que trazia Saba nos braços e depois para os elfos lá fora, que continuavam a chegar e a cantar.
— Não há tempo para explicações agora. — disse o lorde regente – Precisamos de alguém para examinar as meninas. Agora. Lorena ainda está com Luxuriah.
A contragosto, Vivithi deixou Aethas e saiu porta afora, os saltos produzindo barulho enquanto ela andava com uma rapidez impressionante para o corpo limitado pelo vestido apertado. Lor’themar e Tewdric subiram as escadas e levaram as meninas até o quarto de Karen, sendo seguidos de perto por um aturdido Aethas, passando pelo silêncio da Torre, que chamou atenção do mago. O que estava acontecendo ali? E onde estava Luxuriah? Não havia uma palavra percorrendo os corredores e isso o preocupou. Aethas tropeçava nos próprios pés enquanto tentava acompanhar Lor’themar e Tewdric. Tentou colocar as coisas em ordem na sua cabeça: tinha sido chamado para o parto de Luxuriah, mas encontrara Tewdric coberto de sangue com Karen em seus braços. Conflito com Grey? Foi o que acontecera? E onde estava o paladino? E onde estava Luxuriah?
Quando chegaram no quarto de Karen, Aethas parou, sem entrar. A menina parecia bem, apenas continuava agarrada ao orc, os olhos apertados, ainda molhados. Estava abalada, mas apenas isso. Tewdric não estaria tão tranquilo se aquilo não fosse verdade.
— Preciso ver Luxuriah. — disse o mago.
Tewdric e Lor’themar o encararam.
— Nos traga notícias. — pediu o lorde regente.
Aethas assentiu e foi na direção do quarto da sobrinha.
Ao serem deixados a sós com as meninas, Lor’themar ficou sem saber o que fazer. Colocou Saba na cama e Tewdric tentou fazer o mesmo com Karen, mas a menina o agarrou forte, apertando seu pescoço.
— Não! — gritou.
— Tudo bem, Karenzita… — falou Tewdric em sua voz rouca e calma – Não precisa me soltar. — e sentou na cama, com ela no colo.
Ficaram os quatro em silêncio por um tempo, a tensão ainda presente, mas se esvaindo lentamente. Sabá foi saindo de seu estupor e as lágrimas foram aparecendo em seus olhos. Saba sabia. Sabá vira. Vira aquela cena meses atrás em seus olhos e esquecera. E aquilo aconteceu. Sentia-se culpada por esquecer, por deixar aquilo acontecer. Não apenas o conflito mas as consequências dele. Saba vira e ouvira Karen e Anveena. Sua amiga aceitara algo que deixou Saba preocupada. Karen perdera a liberdade. Lembrou das palavras de sua mestra, que Karen precisaria dela mais que nunca. Seria por isso? Por Karen está agora amarrada à vontade da nascente do Sol?
— Karen…. — murmurou Saba pela primeira desde que tudo ocorrera – O que você fez? — havia angústia em sua voz.
Karen sabia exatamente do que Saba falava.
— O que era necessário. — a menina respondeu sem olhar a amiga.
Lor’themar entendeu a conversa de outra forma. Acreditou que as meninas falavam do ato da ressurreição em si. Ele não sabia do acordo. Não ouvira. Ninguém ouvira. Apenas Saba.
— Foi… Foi um feitiço e tanto, Karen. — disse com a admiração transparecendo em sua fala – Lady Liadrin ficará orgulhosa.
— Eu sabia que minha Karenzita é especial! — exclamou Tewdric antes de sapecar um beijo na cabeça dela.
— Como você se sente, Tewdric? — quis saber o lorde regente.
— Estou ótimo. Minha cabeça só tá meio confusa… Tipo, lembro de atacar aquele elfo desgraçado… E nada mais. Acredito que matei ele, não foi? E ele me feriu…
“Não, Tewdric, você estava morto…” pensou Lor’themar, mas não disse nada.
— Você partiu ele no meio! — Karen animou-se e soltou-se de Tewdric e olhou diretamente para ele – Cortou ele no meio, como prometeu! Você é demais, Ted!
Tewdric encarou Karen e ficou boquiaberto.
— O que foi? — perguntou a menina confusa.
— Karenzita… — murmurou – Seus olhos…
— O que tem meus olhos? — estranhou.
Saba, que estava do lado, se debruçou e viu. Exclamou alto, colocando as mãos na boca.
— Lindos…. — murmurou a menina, extasiada, já esquecida do medo que sentira antes.
— Do que vocês estão falando? — perguntou Lor’themar se aproximando e olhando Karen bem de perto – Pela Nascente do Sol!
Os olhos de Karen estavam dourados. O verde intenso, resquícios de um passado de energia vil, haviam se esvaído. Os olhos da menina estavam límpidos e sem nenhum traço da mácula deixada por Kael’thas para seu povo. Dourados. Como a Nascente do Sol.
— O que foi? O que tem meus olhos?
Saba se levantou correndo e foi até a penteadeira da amiga, trazendo um espelho de mão prateado e entregou a Karen. Quando se viu, Karen teve um susto. Seus olhos estavam iguais aos de Anveena. Entendeu na mesma hora. Era a forma dela de mostrar o pacto das duas. Como explicaria aquilo às irmãs? Não… Não explicaria. Sentia que não precisava. O acordo era dela. Ela fizera com A Nascente do sol. Ninguém deveria se envolver.
Vivithi entrou naquele momento acompanhada de Lady Liadrin. A matriarca dos paladinos já sabia da balburdia de Grey e se encaminhava para lá quando as coisas aconteceram. Antes que chegasse ao Bazar, viu a comitiva de Lor’themar seguir e então deixou Salandria com Snetto antes de voltar para a torre. Encontrara Vivithi no meio do caminho e decidira ela mesma conferir a rainha. As duas já tinham ouvido boatos enquanto caminhavam, boatos que a Nascente do Sol pessoalmente atendera o pedido da futura rainha, trazendo Tewdric de volta à vida. Se aqueles boatos se espalhassem, pensou Liadrin, teria que lidar com um monte de elfos achando que Karen era algum tipo de divindade ou enviada da Nascente e aquilo complicaria as coisas para a menina. Já pensava no que fazer quando entrou no quarto e Karen a olhou. Seus olhos dourados fizeram a paladina estacar e dizer um palavrão em thalassiano que Lor’themar não ouvia a séculos e nem imaginava que alguém lembrasse que existia.
— Concordo. — foi o que o elfo disse.
— Por que os olhos de Karen estão dourados? — perguntou Vivithi sem rodeios.
— Foi a Nascente do Sol. — disse Karen simplesmente – Eu pedi a ela pra curar o Tewdric e ela curou. — era o que todos precisavam saber. Os termos do acordo das duas ficariam em segredo.
A expressão de espanto dos elfos no quarto apenas aumentou.
— Vo-você… Falou com ela?! — Lady Liadrin parecia que ia infartar.
Karen fez que sim.
— Anveena ajudou a deixar o Ted bom. — explicou – E qual o problema nisso?
— Anveena? — estranhou Vivithi – Quem é Anveena?
Lor’themar e Liadrin se entreolharam, ainda mais abismados. A história de Anveena e Kalecgos ali em Luaprata não era de conhecimento comum. E não eram todos que sabiam quem fora Anveena antes de voltar a ser a Nascente do Sol. Então, se Karen sabia aquele nome, era porque realmente falara com ela. Liadrin sentiu uma onda de emoção sem igual.
— Majestade… — Liadrin se aproximou da cama e se ajoelhou – O que ela lhe disse? — sua voz era pura devoção.
Karen sorriu, misteriosa.
— Segredo… — disse entre risadinhas.
Saba achava que Karen não tinha motivos para rir. A amiga não tinha noção das consequências que seu acordo trazia.
— Certo… Alguém pode explicar a situação? — perguntou Vivithi – Os olhos de Karen mudaram de cor, Lady Liadrin está quase venerando ela… Quem é essa Anveena e o por que diabos o povo lá embaixo não para de cantar?
— É uma longa conversa. — avisou Lor’themar – Mas acho que faço ideia do que está acontecendo…
Enquanto Lor’themar tentava explicar a sua sobrinha sobre a Nascente do Sol e o acontecido com Tewdric, Aethas foi em busca do quarto de Luxuriah. O arquimago sentia-se culpado por estar se divertindo com Vivithi em sua sala enquanto o caos reinava em Luaprata. Por que diabos as coisas tinham que acontecer daquela forma com sua família? Por que não as coisas não podiam ser mais tranquilas e fáceis?! Se ao menos estivesse ali, poderia ter evitado aquela situação. Parou se supetão na porta do quarto de Luxuriah. Poderia mesmo? Ou sua mente começava a criar desculpas para ficar mais tempo em Luaprata?
“Não tenho tempo para pensar nesse tipo de merda.” disse a si mesmo antes de empurrar a porta.
Assim que entrou, ouviu o choro do bebê. Estacou. Olhou em volta e percebeu que havia lençóis no chão ensopados de sangue. A visão de Aethas embaçou por um momento e o mago achou que fosse desmaiar, mas então ouviu a voz fraca de Luxuriah:
— Tio…
As forças voltaram às suas pernas e ele quase correu até a cama. Kassyeh e Ash estavam lá, cada uma do lado da irmã. O rosto das duas estava um pouco pálido, mas ambas sorriam para o pequeno pacotinho deitada sobre o peito de Luxuriah.
— É menina mesmo? — foi a primeira coisa que ele perguntou sentando-se ao lado da sobrinha.
— Sim… — murmurou Kassyeh com a voz chorosa – E veja, titio: é ruiva!
Aethas deu uma risada fraca e afastou um pouco o tecido que cobria o bebê para ver seu rostinho. Sim, o tufo de cabelos vermelhos estavam ali. Sentiu os olhos se encherem de lágrimas. Olhou para Luxuriah e viu que o rosto dela estava bem mais pálido que a irmã, com os olhos fundos e cansados. Não queria nem pensar a provação que ela passara. O sangue nos lençóis amontoados no chão lhe diziam que não havia sido fácil. Estava feliz que ela estivesse bem. Fraca, mas bem.
— Você me deu um belo susto. — murmurou ele passando os dedos nos cabelos da sobrinha – Vim correndo do baile quando soube… E fui logo dando de cara com Tewdric coberto de sangue…
— O quê?! — gritou Kassyeh assustando o bebê – Tewdric sujo de sangue? O que Grey fez com ele?
Tinuviel começou a chorar, protestando que seu sono fora interrompido.
— Kass, calma, você está assustando Tinuviel… — avisou Ash alisando a bebê e tentando acalmá-la.
— Desculpe, querida… — pediu a maga para a sobrinha.
Rommath estava sentado um pouco mais afastado, dando espaço para as cunhadas verem a irmã e a sobrinha. Na verdade, ele precisara se afastar. Tremia dos pés à cabeça e seu coração ainda não parara de bater descontroladamente. Rommath sabia que perdera Luxuriah. Que, por um momento, o coração onde havia entrado apenas recentemente parara de bater. Não queria pensar que, por um longo e terrível minuto sua esposa morrera. Se não fosse a magia de Lorena… Não, não queria pensar nisso. Não conseguia cogitar a possibilidade de viver sem ela. Por isso, estava se recuperando quando Aethas chegara e nem o notara. Agora, ele falara de Tewdric e foi quando lembrou que deixaram o guerreiro para trás para lutar com Grey.
— O que aconteceu com meu marido? — perguntou Kassyeh para o tio, agora com a voz um pouco mais baixa, enquanto acariciava o bebê para acalmá-lo.
— Grey fez algo com o Ted? E com Karen? — Ash já fazia a menção de levantar da cama, quando o mago acalmou-as.
— Ted está bem. — disse Aethas – Eu o vi levando Karen para o quarto. Acho que ela estava bem assutada, mas os dois estão bem.
Luxuriah emitiu um ruído que parecia um arfar, mas ninguém soube dizer.
— Devemos deixá-la descansar. — disse Lorena se aproximando – Eu ficarei aqui para cuidar dela e da menina. Vocês podem sair.
— Eu ficarei também. — disse Rommath se aproximando da cama – Mas gostaria de saber que fim levou Grey, Aethas. Se puder me informar…
Aethas assentiu.
— Claro. Eu também quero saber o que aconteceu. Voltarei em breve.
Kassyeh então se virou para a irmã, que a encarava com os olhos cabisbaixos, de quem estava tão cansada que mal podia sustentar-se acordada. Percebeu a mesma angustia que sentia por saber se Tewdric e Karen estavam bem em seus olhos.
— Eu voltarei, ok? Com boas notícias. Descanse. — e deu um beijo na testa da irmã.
— Durma bem. — murmurou Ash beijando-a também – Nós voltaremos assim que verificar que tudo está bem.
Luxuriah assentiu fracamente.
— Aqui, tome mais essa poção. — pediu Lorena se aproximando e ajudando Luxuriah a beber, enquanto Rommath sentava ao seu lado.
Foi assim que deixaram o quarto, com Rommath velando sua esposa e filha e Lorena cuidando de ambas. Tão longo colocaram os pés no corredor, os três elfos começaram a ouvir a cantoria que vinha do lado de fora da torre.
— O que é isso? — perguntou Ash estranhando.
— Uma multidão de elfos cantando lá fora. Por que? Não faço ideia. — disse Aethas.
Caminharam até o quarto de Karen e tanto Ash quanto Kassyeh ainda não se sentiam recuperadas do que acabara de acontecer. Durante todo o caminho até o quarto da irmã mais novas, elas não comentaram com o tio o parto difícil e dolorosos de Luxuriah. Não comentaram que, por um momento, as duas acharam que ficariam sem a irmã. Não contaram o temor de perder Tinuviel também, que nascera sem respirar. Nem o desespero de Rommath, que quase enlouquecera de dor. Não queriam lembrar quem, por um instante, sentiram a família desmoronar.
E havia algo a mais para Kassyeh naquela história. Pensou ter ouvido a voz de Tewdric pouco antes de Luxuriah perder os sentidos. Olhara para trás, se perguntando se o marido tinha entrado no quarto, mas não. Só que ouvira-o tão vivido. E seu coração se apertou. Agora, com seu tio dizendo que Tewdric estava coberto de sangue, se perguntava se tinha sido um sinal que ele estivera mal. Esperava de todo coração que fosse apenas sua imaginação.
Já havia uma comoção no corredor que levava ao quarto de Karen que os deixou preocupados. Os servos se enfileiravam, como se quisessem chegar mais perto e tivessem receio. Quando os viram, abriram espaço rapidamente, baixando a cabeça em sinal de subserviência. Ash e Kassyeh se entreolharam. Aquilo era estranho.
Mais estranho foi entrar no quarto e encontrar Lady Liadrin com um dos joelhos no chão e outro levantado, a cabeça baixa e os lábios se mexendo como se fizesse uma prece. Vivithi e Lor’themar conversavam em um canto do quarto e a elfa parecia exasperada. E, na cama, estava Karen, ao lado de Saba e Tewdric. Todos estavam aparentemente bem. Assim que a elfa mais jovem levantou a cabeça e olhou para os que entravam, os três pararam, espantados.
— Foi a Nascente do sol. — foi falando Karen como se quisesse se desculpar – Ela me ajudou a curar Tewdric.
Lor’themar percebeu a chegada deles e suspirou. Mais uma rodada de explicações aconteceria. Deixou Vivithi assimilando tudo e foi até o outro lado do quarto. Ele tinha a impressão que aquele noite não terminaria tão cedo.
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Aquela era a separação mais difícil que Arshe e Kayliel enfrentaram desde que se conheceram. Depois de tanto tempo estando separados e tão poucos instantes juntos, vestir-se e ir embora era tão doloroso quando uma lâmina penetrando a carne. Ambos sentiam isso e deixaram claro um para o outro, enquanto Kayliel a ajudava a vestir-se novamente, as lágrimas nublando a visão.
— Queria que essa noite nunca tivesse fim… — murmurou ele.
— Eu também… — respondeu ela – Mas o sol raiará logo e temos que voltar para nossas casas…
Kayliel, que estava abotoando as dezenas de pontinhos vermelhos nas costas do vestido de Arshe, parou por um momento.
— Temos mesmo? — perguntou.
— Claro que temos, Kayliel. — Arshe suspirou – Ou você acha que deveríamos fugir?
— Deveríamos, não acha?
Arshe virou de supetão, deixando seu vestido meio aberto e encarou Kayliel, com os olhos imensos, assustados, mas também esperançosos.
— Fugir? — perguntou sem acreditar.
As palavras haviam escapado sem querer dos lábios dele, mas agora percebia que era uma solução plausível para a situação deles. Queriam estar juntos e não podiam por suas famílias estarem em facções diferentes. Então porque não serem egoístas uma vez na vida e serem felizes juntos?
— Sim, fugir. — falou com convicção – Você não acha que seria o melhor para nós dois? Deixar tudo isso para trás? Todo esse ódio e construirmos uma vida, juntos?
— Mas onde? — perguntou ela, a ansiedade crescendo.
Kayliel não precisou pensar muito.
— Shatrath. Podíamos entrar para ‘Os Filhos de Lothar’. Eles são neutros. Assim não enfrentaríamos toda a comoção por voltarmos ao Kirin Tor.
— E as nossas famílias?
— Oh, eles ficariam furiosos, mas só duraria um tempo. Sendo aliados do grande Hadgar, com o tempo poderíamos voltar às nossas cidades, quem sabe até juntos. — Kayliel deu uma risada – Meu irmão vai demorar muito pra me perdoar, talvez mais do que uma vida humana, mas tudo bem para mim. Ele tem a esposa e a filha. Não ficará sozinho. — ele a encarou por um momento – É apenas uma sugestão, claro. Não quero que se sinta obrigada a isso.
Na verdade, era a melhor coisa que Arshe já ouvira. Esperava aquela proposta a tanto tempo que nem sabia o que fazer quando ela finalmente fora lhe oferecida. Quantas vezes não sonhara em fugir na calada da noite, tal como Lina fizera, para encontrar com Kayliel e viverem o amor deles, juntos? Sim, claro que ela queria! Porém… Algo a segurou.
— Eu quero sim, sumir com você. Mas você vai fazer o parto de sua cunhada, não é? Você tem se preparado pra isso…
Kayliel se arrependeu de ter contado aquilo pra ela, porque agora a responsabilidade lhe pesou nos ombros.
— Ah, mas tem outros sacerdotes que poderiam… — ele se calou quando ela colocou um dedo nos lábios dele suavemente.
— Sim, eu quero fugir com você. — disse ela com um sorriso – Ir embora para bem longe. Mas quero ir sem arrependimentos. Quero que você faça o parto de sua sobrinha. E eu quero também saber se Doro e Tommy vão se entender. — ela deu uma risada diante do olhar confuso dele. Ela não tinha contato sobre suas amigas ainda – Ah, teremos tempo para conversar. Mas, primeiro, vamos resolver essas pendências. Depois, o primeiro que resolver tudo comunica o outro. Aí nos encontramos aqui, de madrugada, como hoje. E partimos. Pode ser pra Shattrath, para onde for, não me importo. Quero estar com você…
Kayliel então a tomou nos braços e a beijou apaixonadamente. Sim, era aquilo que queria também. Faria o parto de Tinuviel, deixaria seu irmão com sua bela esposa e filha e partiria. Não pretendia contar a Rommath que estava indo nem pra onde iria. Talvez contasse para Ash, assim ela poderia mediar o confronto que se seguiria na Torre Solfuria. Isso se a jovem ficasse ao seu lado… Talvez a pessoa de quem mais conseguisse compreensão fosse Karen. Talvez se abrindo com a menina, que não odiava os humanos como suas irmãs, ela pudesse interceder ao seu favor no futuro. Quem sabe… Bem, não importava. No momento, queria aproveitar os últimos instantes com Arshe antes que ela partisse.
E aqueles instantes logo acabaram. Com a madrugada cada vez mais próxima do fim, os amantes sabiam que precisavam se apartar. Kayliel terminou de ajudá-la com o vestido e, com cuidado, se encaminharam novamente para a biblioteca. A pessoa que estava na recepção ainda dormia e os dois acharam que não teriam nenhum problema em se esquivar dali. Porém, pouco antes de chegaram a porta, ouviram uma comoção na rua e Arshe reconheceu a voz dos guardas que a acompanharam. Olhou assustada para Kayliel que, prontamente, desapareceu entre as estantes. Arshe pegou um livro que estava em uma mesa próxima e se aproximou da entrada da biblioteca com ar de quem acabava de sair de um cochilo inesperado.
— Oh, rapazes… — disse se fazendo de sonolenta e coçando os olhos – Que horas são?
— Princesa! — disse um deles se aproximando – Estávamos te procurando como loucos! Porque saiu do baile sem nós?
Arshe deu um sorriso tímido e baixou a cabeça, como se estivesse envergonhada.
— Ah, meus pés estavam cansados, mas não queria que a noite acabasse… E lembrei que a biblioteca fica sempre aberta e vim matar as saudades… Acabei vendo um livro interessante e adormeci, vejam só… — ela relanceou o olhar para o livro que pegara e viu que era sobre poções para curar feridas nos pés – Até achei um para me ajudar com os calos que ganhei hoje! — e mostrou o livro alegremente.
Os guardas riram aliviados e Kayliel, de onde estava meneou a cabeça, rindo também. Arshe sempre dava um jeito de convencer todos daquilo que queria. A sorte das pessoas que estavam ao seu redor era que a princesa tinha o coração bom demais para usar aquele dom para o mal. Se tivesse más intenções… Se bem que… O que fariam poderia ser colocado como mal, dependendo do ponto de vista. Para eles, era amor. Para os outros, traição. Passou a mãos pelos cabelos, querendo se distrair de seus pensamentos.
— Então, princesa, que continuar lendo seu livro? Podemos esperar no saguão. — ouviu um dos guardas dizer.
— Não, não, quero ir para casa. Dormir. Deixem só eu por esse livro ali na estante, certo? Me aguardem aqui.
Enquanto só guardas esperavam aliviados e pacientes a princesa, esta entrou e foi direto no corredor onde Kayliel se escondera. Entrou o livro a ele e o beijou com vontade. Kayliel teve vontade de rir, não sabia se era de alegria ou em pânico. Depois, Arshe o soltou, sorriu maliciosamente e saiu apressada, o vestido esvoaçando ao redor do corpo. Kayliel suspirou, seu coração cheio de alegria e pesar.
Assim, cada um foi para seu lar, e cada um teve que, ainda naquele dia, lidar com as consequências de coisas que estavam alheias a sua vontade, mas que mudaram completamente o rumo de suas vidas.
Em Ventobravo, Arshe chegou quando amanhecia. Uma verdade tinha contado aos seus guardas: seus pés estavam lhe matando. Assim que chegou na Bastilha, aproveitou que sua serva estava acordada e tirou o vestido pesado. A senhora então perguntou se a jovem queria um banho quente, mas Arshe dispensou. Queria dormir. Vestiu seu pijama e caiu na cama. Pensou que não conseguiria adormecera, a mente fazendo mil planos para quando estivesse junto com Kayliel, todavia, assim que sua cabeça encostou no travesseiro, caiu em um sono tranquilo, como não tinha há anos. Dormiu toda a manhã e uma parte da tarde e quando acordou, morrendo de fome, tomou um demorado banho, vestiu-se e já se preparava para pedir algo para comer no quarto mesmo quando sua serva lhe informou:
— Sua amiga Doroteya está lhe esperando nos jardins. Devo servir um chá com biscoitos?
“Doroteya?”, estranhou Arshe. Doroteya só deveria voltar com Lina da casa de Lady Cláudia no dia seguinte. Teria acontecido alguma coisa no casamento?
“Claro que não!”, pensou a princesa. “O que poderia ter acontecido de mais no casamento?”. Foi quando uma ideia surgiu em sua mente. Tommy e Doroteya se acertaram! Claro! Era a úncia explicação! A druidesa poderia ter vindo voado apenas para contar logo a novidade! Lina ainda devia estar bêbada, como dissera que ficaria, e provavelmente não aparecia até quando sua licença terminasse. Com isso em mente, Arshe seguiu ansiosa pelo castelo. Havia trocado as habituais sapatilhas por dois chinelinhos graciosos e leves, que não machucavam seus pés cheios de bolhas. Aproveitaria que a druidesa estava ali e pediria uma cura rápida. Animada, chegou quase saltitando ao jardim.
Doroteya estava sentada, com uma xícara de chá a sua frente. Ela parecia bem nervosa. Arshe pensou que era estranho ver Doroteya sem Lina do lado, era como ver um cachorrinho procurando seu dono. Riu do pensamento, mas prometeu a si mesma nunca dizer aquilo para Doroteya. Worgens não ficavam muito felizes em serem comparados a cachorros.
— Doro! — falou Arshe animada quando chegou – Já voltaram?
Quando Doroteya levantou e encarou Arshe, a maga ficou surpresa. Havia manchas verdes embaixo dos olhos da druidesa, olheiras fundas que deixou a maga preocupada. Nunca vira sua amiga tão cansada e não lembrava de nenhuma noite insone dela.
— Aconteceu algo? — perguntou preocupada.
— Sim, aconteceu. — disse Doroteya com sinceridade – Mas não se preocupe, tudo já está bem.
Arshe ficou encarando Doroteya, esperando as explicações. A druidesa então apontou a cadeira, como se fosse ela quem estivesse recebendo a visita e não o contrário. Arshe sentou-se devagar, como se esperasse que a cadeira explodisse. Depois que as duas estavam sentadas, Doroteya colocou a mão no bule de chá e esquentou-a com sua magia e serviu Arshe a si mesma.
— Antes de contar o que aconteceu, eu tenho duas boas notícias. — foi dizendo.
— Sua cara não parece de boas notícias. — falou a maga, desconfiada.
Doroteya riu.
— Mas tem. A primeira: eu trouxe bolo do casamento pra você. Surrupiei um pedaço antes de vir. — e pegou uma trouxinha do lado e abriu, revelando um belo e suculento pedaço de bolo – Você vai adorar, está doce na medida certa. Eu até pedi a receita. Farei lá em casa esses dias.
A fome de Arshe e sua loucura por doces falou mais alto que sua preocupação. Ela pegou o talher oferecido por Doroteya e começou a destruir o doce. Doroteya sorriu, feliz por propiciar aquela pequena felicidade à sua amiga. Depois que Arshe tinha comido metade do prato quando perguntou:
— Pode me dar a outra boa notícia logo? E depois as ruins?
— Bem, a outra boa notícia… — ela deu uma pausa dramática e sorriu antes de continuar – Eu e Tommy nos resolvemos.
— Aeww!!!! — comemorou a princesa esquecendo momentaneamente a preocupação e batendo palmas – Conte a conversa! Quero saber tudo!
Doroteya sentiu o rosto arder e ficou sem jeito.
— Não foi beeemmm uma conversa… — murmurou desviando a vista.
Arshe se engasgou com o bolo.
— Ohh!!! — exclamou – Agora que eu quero saber tudo mesmo! Vamos, conte! Com detalhes!
Mesmo extremamente encabulada, Doroteya começou a contar sobre ela e Tommy, enquanto Arshe terminava o bolo com as bochechas rosadas de empolgação e os olhos brilhando, emocionada. Doroteya contou sobre a declaração, o beijo e como os dois se esgueiraram para o bosque para fazer amor. Claro, ela não deu os detalhes picantes que Arshe tanto queria, afinal, era algo privado, mas forneceu o suficiente para satisfazer a curiosidade da princesa.
— Ah, vocês formam um casal tão fofo! — disse ela colocando as mãos no rosto sujando-o por ainda segurar o garfo cheio de glacê – Só estou com inveja porque agora você é cunhada da Lina! Vocês estão mais próximas!
— Levando em consideração com quem Lina se relaciona, você não seria mais próxima que uma simples cunhada?
Arshe deu uma risada.
— Acho que vou chamá-la de tia Lina, como Pandora!
— Ela vai te odiar! — disse Doroteya.
— Vai nada, ela me ama. — Arshe deu uma última lambida no garfo antes de pousá-lo no prato vazio. Suspirou. Depois pegou a xícara de chá e tomou um gole, antes de encarar Doroteya seriamente – Eu não vou gostar da outra notícia, não é mesmo?
Doroteya lançou um olhar triste para Arshe. Não queria acabar com a alegria dela. Porém, Lina estava por ali, esperando Varian no quarto dele, para ter uma conversa séria. As duas haviam combinado que seria a druidesa quem contaria à princesa, para que ela não soubesse por outras bocas; deviam isso por terem deixado-a no escuro antes. Não haveriam mais segredos.
— Antes de tudo, quero que você saiba que não lhe contamos antes para não te preocupar. Mas agora… — ela balançou a cabeça – Você merece saber. Como o rei saberá em breve. Lina vai contar ainda hoje.
— A Lina tá aqui? Conversando com meu tio? E o que eu não sei?
— Deixe-me contar…
O relato começou com o ataque na bastilha e foi até o fim da madrugada anterior. A medida que ia contando, Arshe ia empalidecendo. Quando falou em como quase conseguiram matar Lina, a enforcando com um garrote, Arshe começou a chorar copiosamente. Doroteya tentou acalmá-la, mas a princesa colocou as mãos no rosto e abaixou-o, em prantos. A druidesa pensou que fosse apenas o choque de saber que a amiga tão querida quase morrera de uma forma tão terrível, mas a verdade era pior, muito pior.
O que estava passando pela mente de Arshe, que a fizera cair no choro descontrolado e se recusar a falar com Doroteya, era pura e simplesmente culpa. Uma culpa avassaladora que se passou do coração de Arshe. Sua consciência agora gritava, com todas as forças que, enquanto ela se divertia com Kayliel na sala escura da biblioteca, se rendendo a uma paixão proibida e que Lina definitivamente reprovaria, sua melhor amiga, a mais querida e uma das poucas pessoas que realmente se importava com ela, estava lutando pela sua vida. Foi como se a percepção de uma maldição caísse em cima da princesa; sempre que ela e Kayliel ficavam juntos, algo acontecia com as pessoas que ela amava. Era uma besteira, dizia a parte racional de sua mente. O elfo nada tinha a ver com o que acontecia. O mundo era ruim e as pessoas ao seu redor eram pessoas marcadas com cargos importantes e deveres que outras pessoas não tinham. Seu pai fora assim. Lina era assim. Porém, a parte emocional, aquela que tinha medo de perder as pessoas queridas, a parte que se sentia culpada por amar alguém tão diferente dela, essa parte estava uivando de agonia em sua mente. E Doroteya, alheia a essa dor, nada conseguia fazer para acalmar a princesa. Quando tentou ir ao lado dela e abraçá-la, Arshe a empurrou, abraçando a si mesma. Doroteya não insistiu. Ficou sentada ao lado dela, esperando.
Arshe chorou. Chorou muito. Chorou até a exaustão. Quando não conseguiu mais chorar, de tão cansada que estava, Doroteya colocou um frasco em frente a ela. O conteúdo era dourado e Arshe sabia que era a poção para dormir calmamente, sem sonhos. Pegou o frasco, abriu-o e tomou todo, de um só gole.
— Eu e Lina viremos amanhã. — disse a druidesa – Ela está bem. Estamos bem. Lembre disso.
Arshe queria falar que não, não estava bem, porque ela mentira, ela enganara, ela se rendera a um desejo amaldiçoado, mas anda falou. Apenas assentiu com a cabeça.
— Quer que eu te leve até seu quarto? — ofereceu-se Doroteya – Que a ajude a deitar-se? A poção vai logo fazer efeito...
Assentindo com a cabeça, Arshe aceitou a mão oferecida. A poção estava tão forte que ela mal conseguia chegar ao quarto. A mente foi se enevoado, a dor passando e Arshe ficou feliz em apagar. Quando deitou-se na cama, já estava dormecida. Calmamente, Doroteya a despiu, vestiu sua camisola e a ajeitou na cama. Quando viu os pés cheios de bolhas de Arshe, percebeu a verdade, pelo menos parte dela. Sabia que a princesa se culpava por estar se divertindo enquanto a amiga sofria um atentado. Com um mover rápido de mãos, curou as feridas. No dia seguinte ela e Lina deveria estar lá bem cedo para conversar com Arshe. Acalmá-la. E garantir que tudo estaria bem.
E foi com essa esperança que Doroteya deixou Arshe, adormecida, num mundo sem sonhos.
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A noite em Ventobravo estava avançada quando Varian entrou em seu quarto, sentindo-se exausto e frustrado. A reunião havia sido longa, estressante e sem nenhuma resolução concreta. Com exceção de Jonas, as ações dos outros generais lhe lembravam cachorros correndo atrás do próprio rabo. Havia um dragão ancião louco e poderoso ameaçando o mundo e eles só conseguiam pensar em quanto dinheiro custaria aquela campanha! Quanta falta fazia Lady Cláudia com suas boas e ponderadas ideias! Mergulhado em sua frustração, assim que fechou a porta, Varian socou a parede, exasperado.
— Imbecis! — rosnou para a rocha.
— Dia estressante, pelo que vejo.
Varian não era de se assustar fácil, mas virou-se para trás de um pulo, já procurando o cabo da espada. Lina estava sentada na poltrona em frente a lareira, confortavelmente, encarando-o com a expressão séria.
— Lina… — murmurou ele sem acreditar que ela, finalmente estava ali.
Não a esperava tão cedo. Acreditava que a comandante ainda estaria na casa de Lady Cláudia e já estava preparado para mais alguns dias de solidão. Fazia mais de uma semana que não conseguia falar com ela e apenas a viu rapidamente no dia em que Arshe fizera a última prova do vestido. Desejara tanto vê-la, estar sozinho com ela e finalmente teria o que queria. Todavia, quando se aproximou, ansioso para tê-la em seus braços, percebeu que havia algo errado. Lina estava mais séria que o usual e seu rosto estava pálido, destacando os imensos olhos verdes, que ostentavam olheiras escuras. Seria apenas a luz do fogo da lareira que dava aquela expressão fantasmagórica à comandante? Mesmo que fosse, Varian, por um momento, temeu tocá-la e fazê-la esvanecer na noite anormalmente fria que caíra.
— Aconteceu algo? — perguntou o rei contendo a vontade de tomá-la nos braços.
— Aconteceu. — respondeu ela, para a preocupação dele – Precisamos conversar.
Por sua própria experiência, Varian sabia que um ‘precisamos conversar’ vindo de alguém que amava trazia ou muita tristeza ou muita alegria. A expressão de Lina já o avisava qual era a opção. Lutando contra o desejo de dizer que não queria ouvir o que quer que ela teria para lhe contar, Varian sentou-se na cadeira defronte a comandante. Algo lhe dizia que precisava estar sentado para aguentar o que viria.
— Sou todo ouvidos. — disse com a voz mais firme do que seu coração.
Lina o encarou por um momento e, para a surpresa dele, sorriu. Um sorriso tímido, quase inexistente, e nitidamente triste. Aquele sorriso não irradiava a mesma alegria que os outros sorrisos que já recebera dela. Lina estendeu a mão e tocou o rosto dele. Varian percebeu que sua mão estava gelada e suada, como se estivesse temerosa do que faria a seguir. O pânico tomou conta do peito dele.
Chegar até ali custara muito a Lina. Lhe custara o orgulho, a discrição e a segurança de manter-se a parte daqueles sentimentos, daquela vontade de ficar nos braços deles todo o tempo que desejasse. E quase lhe custara a vida. Como sempre, as coisas tinham que ser mais complicadas para ela… Por que não se apaixonara por um homem comum? Por que Varian? Por que o único homem que não podia ter por inteiro? Tocar o rosto dele, ver suas cicatrizes… E torcer para que ela não fizesse uma em seu coração….
Tommy estava certo ao afirmar que ela estava enfiada em uma grande merda.
— Lina… — murmurou Varian diante do silêncio dela – Você está me deixando nervoso…
Ela puxou a mão dos rosto dele e respirou fundo.
— Antes de começar, gostaria de pedir que você não me interrompesse, não importa o que eu falar. — pediu a comandante – Ouça-me até o fim. Pode fazer isso?
O pânico de Varian aumentou.
— Posso fazer isso, mas…. Lina… — havia um nó na sua garganta quando ele finalmente perguntou – Você está me deixando? — ele não conseguia pensar em mais nada que pudesse gerar uma conversa tão tensa.
— O quê?! — perguntou Lina assustando-se – Não! Não! Por que pensa isso?
Houve uma mistura de alívio e surpresa em Varian, que passou a mão nos cabelos, angustiado.
— Você nunca chegou aqui assim e… Sua expressão está tão… — ele balançou a cabeça – Foi a única coisa que passou na minha cabeça….
Lina se inclinou na poltrona e beijou suavemente os lábios de Varian, tocando novamente seu rosto com a mão ainda fria e úmida.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Sou egoísta demais para fazer isso… — disse ela depois do beijo.
— Você está realmente me deixando confuso… — confessou.
— Desculpe… — murmurou antes de encostar-se de novo na poltrona tentando recuperar o controle – Eu queria contar tudo para você com privacidade. Para que você não fosse pego de surpreso quando o relatório de Horatio chegasse… E também… — ela suspirou – Não vou mais enrolar.
Varian se ajeitou na cadeira, inclinando-se para frente e apoiando os cotovelos na poltrona.
— Minha cabeça foi posta a prêmio. — começou Lina – Há algumas semanas.
Varian a fitou, com a expressão de descrença no rosto. A cabeça dela? A prêmio? A primeira coisa que Varian pensou foi que a Horda finalmente caçaria Lina, diante de sua importância dentro da Aliança. Porém, logo mudou de ideia. Se fosse a Horda, eles não seriam discretos ao ponto de a ameaça ser descoberta por Horatio Lane. Se o tenente estava envolvido, a ameaça partia de dentro da própria Aliança. Essa constatação fez com que a perplexidade dele fosse substituída por raiva pura.
— Quem se atreveu… — começou ele fazendo menção de se levantar, mas Lina levantou a mão, pedindo calma.
— Até o fim, lembra?
Varian segurou os braços da cadeira com força, frustrado demais para protestar, mas sentou-se novamente, passando as duas mãos na cabeça, para se acalmar.
— Continue. — pediu ele.
— Muito bem… — Lina respirou fundo – Também tentaram me matar ontem, na casa de Lady Cláudia. Quase conseguiram.
— Como é?! — agora ele não conseguiu se controlar.
Levantou-se da cadeira, ajoelhou-se na sua frente, encarou seu rosto antes de segurá-lo com as duas mãos, procurando traços de dor nele. Lina segurou as mãos dele e as afastou com delicadeza.
— Eu estou bem. — garantiu – Estou viva. Por favor, me deixe contar tudo.
— Como você quer que eu ouça tudo isso passivamente, Lina?! — protestou Varian.
— Eu preciso contar do começo certo? — os lábios dela estavam trêmulos e aquilo surpreendeu o rei – Eu não tenho sido sincera com você, mas isso vai acabar hoje. Vou te contar tudo. Tudo que tem acontecido. Mas preciso que você me ouça com calma. — e suspirando, acrescentou – Por favor.
A situação era grave o suficiente para que Lina praticamente lhe implorasse por algo e isso era algo que o deixava desnorteado. Por isso, relegou-se a levantar-se e voltar para sua poltrona.
— Fale. — disse sentando-se pesadamente – Eu vou ouvir tudo. Do início, por favor.
— Certo.
A história então foi contada. Desde o ataque à Bastilha que culminou com o afastamento do general Crowe, o bilhete, o pedido a Horatio, as precauções que ela tomara junto com o tenente e Doroteya, o casamento, o segundo bilhete e o ataque. Descrever o ataque foi a parte mais difícil para os dois: Lina titubeava ao falar e Varian angustiava-se ao ouvir. A comandante tentou não dar muitos detalhes da tentativa de assassinato para facilitar as coisas para os dois. Mas as mãos trêmulas durante o relato mostraram a Varian que a situação vivenciada por Lina estava longe de ter sido tão insignificante quanto ela tentava demostrar. Havia medo nos olhos dela. Pela primeira vez, Varian via algo além da determinação e coragem dela. Era um lado de Lina que nunca lhe transparecera e ao vê-lo, apenas tinha vontade de tomá-la nos braços e protegê-la. Porém, deixou-a terminar. Deixou-a ir até o fim do relato, mesmo que cada palavra doesse em sua alma como se esta fosse apunhalada repetidamente por uma lâmina envenenada.
— Os dois homens não eram totalmente desconhecidos. — continuava ela, tentando desvincular-se do relato que dava, como se acontecesse com outra pessoa. Assim, poderia falar sem chorar – Um deles atacou Doroteya antes. Suspeitamos que o outro estivesse também no ataque à Bastilha. Horatio acredita que o bilhete que interceptaram partira de alguém que pode ser o homem que temos sob custódia ou uma quinta pessoa. Horatio dará as impressões dele quando fizer o relatório. — e cruzou as mãos no colo deixando claro que encerara sua fala.
Varian não aguentava mais ficar sentado. Não soube nem exatamente como conseguiu ouvir tudo sem quebrar alguma coisa. Levantou-se e caminhou pelo quarto, na tentativa que sua tensão se esvaísse com seus movimentos. Como sua frustração não diminuiu, ele parou atrás da poltrona onde estivera sentado antes e colocou as duas mãos no espaldar, encarando Lina.
— Por que só estou sabendo disso agora? — perguntou colocando mais cobrança na voz do que gostaria.
Lina desviou a vista para o chão. Já esperava essa reação dele.
— Era um problema meu, não seu.
— Você… — frustrado demais para falar, Varian recomeçou a andar, mexendo as mãos enquanto procurava palavras – Você deveria ter me dito! Eu teria colocado guardas para lhe proteger!
— É exatamente isso que eu estava evitando! — exclamou ela – Qual seria a desculpa para eu ter uma guarda em meu encalço?
— Eu não me importo! — gritou ele de repente caminhando até onde Lina estava – Eu não me importo com o que iam pensar! Era a sua vida! Sua vida! — ele apontou o dedo para ela – Acaso eu não tenho o direito de me importar com você?!
— Varian! Você não entende…
— Entendo! — exasperou-se ele jogando os braços para cima – Entendo muito bem! Mais do que você imagina! Eu sou o rei! Você é uma plebeia! Pela Luz, não há um dia que isso não venha na minha cabeça! Mas não deixaria você morrer para manter as aparências! E se eu não tenho direito de querer seu bem, querer te proteger, de que adianta tudo isso?!
Houve um momento de silêncio em que Varian a encarou demoradamente. Lina levantou-se devagar e Varian chegou a pensar que ela iria embora. Estava pronto para impedi-la, implorar, o que quer que fosse para tirar alguma palavra dos lábios dela. Mas não foi necessário. Ela caminhou até onde estava e segurou seu rosto com as duas mãos. Seus olhos brilhavam em lágrimas.
— Eu te amo, Varian.
Eram as últimas palavras que o rei esperava ouvir e sua expressão deixou aquilo claro.
— Eu te amo. — ela repetiu para depois dar uma risada – Demorou tanto para eu perceber isso que agora parece irreal que eu esteja falando.
— Lina…
— Não. — ela o cortou – Deixe-me falar. — ela respirou fundo – Eu te amo. — repetiu – Te amo tanto que dói. Te amo tanto que parece que vou me afogar dentro desse sentimento. Te amo tanto que, pela primeira vez na minha vida, eu arrisquei alto e estou pagando o preço.
Varian não acreditava que estava ouvindo aquilo. Sonhou tanto em dizer aquelas palavras que ouvi-las era mais do que poderia imaginar… E desejar. Queria falar algo, qualquer coisa, mas tinha medo de interrompê-la e perder aquilo que estava sendo lhe entregue com tanto desprendimento e dor.
— Te amo tanto – continuou, alheia aos sentimentos que borbulhavam dentro dele – que vou dormir todas as noites desejando estar ao seu lado, desejando pela primeira vez na minha vida um título que não tenho e que nunca me fez falta.
As lágrimas rolavam no rosto dela a medida que ia colocando seus sentimentos em palavras. Calou-se brevemente, engolindo a dor de admitir aqueles sentimentos e Varian colocou as suas mãos por cima das dela. Lina respirou fundo antes de continuar:
— Te amo tanto, tanto, que arrisquei tudo pelo qual passei a vida construindo para ter alguns momentos ao seu lado. Te amo tanto que desejei que você fosse só um homem, um homem do povo, com quem eu pudesse casar, ter filhos e satisfazer desejos que eu nunca pensei que teria.
Varian ficou ainda mais surpreso com aquela revelação. Filhos? Casamento? Lina realmente pensou naquilo? Porque ele pensava em todos os dias, como adoraria ter uma criança com ela, em tê-la ao seu lado a todo momento. Não como rainha, mas como companheira. Companheira para a vida toda. Ver esse sentimento retribuído o deixava em êxtase.
— Te amo tanto, que escondi esse amor de você, porque sabia que, depois que eu o colocasse em palavras, eu estaria irremediavelmente ligada a você, para sempre. — ela então tirou as mãos de seu rosto e segurou a roupa dele, como se temesse que ele sumisse a medida em que descarregava seus sentimentos — Eu te amo tanto, mais tanto, que tenho medo desse amor. Eu não queria te amar, mas amo. — a voz dela tremia e todo seu corpo também – E a única coisa em que pensei quando achei que minha vida estava chegando ao fim foi que eu morreria sem nunca ter falado a você o quanto eu te amava! E isso, foi isso que mais me deu medo. Que você nunca soubesse o que realmente se passava aqui. — e apontou para o coração.
Não queria sequer imaginar aquilo, pensou Varian. Saber de todos aqueles sentimentos, que todos estavam guardados dentro dela todo aquele tempo… Varian então colocou a mão no rosto dela e a acariciou, seus olhos presos um no outro.
— Eu não sou ninguém, Varian. — murmurou – Perto de você, eu não sou mais que uma plebeia vestida numa armadura. Não tenho nada a lhe oferecer além desse amor estranho e do corpo que o carrega.
A mente de Varian era um turbilhão após o fim de sua fala. Ele, que sempre se gabara de conhecer as pessoas a sua volta, estava diante de uma Lina que nunca conhecera. Uma Lina sincera, vulnerável e que, pela Luz, o amava tanto quanto ele a amava. Nada de armaduras ou deveres, apenas um coração sendo lhe oferecido, sem amarras. O medo estava lá, ele podia ver. O medo das consequências daquelas palavras. Porém, os dois haviam cruzado a linha e não havia mais como voltar atrás.
— Eu também te amo, Lina. — foi o que ele conseguiu dizer.
— Eu sei. — foi a reposta dela.
Ele então passou o braço na cintura dela, puxando-a para junto de seu corpo e a beijou apaixonadamente.
Os dois não sabiam, mas alguém ouvira a conversa intensa que tiveram aos gritos e apenas agora essa pessoa caminhava para longe. Era Anduin. O jovem príncipe fora atrás do pai pouco depois deste deixara a reunião com os generais com a expressão que mataria o próximo que cruzasse seu caminho. Sua meta era conversar com o pai e acalmá-lo. Porém, quando chegara à sua porta, ouvira a voz do pai exaltada e logo em seguida a de Lina. Ficara parado, em choque. Jamais imaginava que aqueles dois pudessem brigar. E logo em seguida, o desabafo dela. E a declaração dele. Achando que já havia invadido mais da privacidade dos dois que deveria, se afastou. Só que o desespero de Lina colocara um peso em seu coração, e o príncipe passaria os anos seguintes pensando em uma forma de fazer com que seu pai e a comandante pudessem ficar juntos, sem a necessidade de se esconder.
Foi a primeira noite que os dois dormiram juntos. Não o sexo apressado e intenso para depois se despedirem. Fizeram amor, calma e lentamente, saboreando o momento e desejando que ele nunca acabasse. Por fim, adormeceram abraçados um no outro, cansados e aliviados, por terem colocado todas as tensões, os medos e as angustias para fora. Dormiram como um homem e uma mulher que se amavam e não como o rei e sua comandante. E quando Varian acordou no dia seguinte, o sol batendo em seu rosto, pois não fechara as cortinas, e sentiu o corpo de Lina agarrado ao seu, sorriu. Teve medo de ser um sonho, mas aproximou o nariz dos cabelos dela e os cheirou. O mesmo cheiro floral de sempre. Era realmente Lina.
Com o coração leve, começou a pensar no que faria a partir dali. Mandaria a AVIN fazer uma pesquisa extensa da tentativa de assassinato dela junto com Horatio Lane. Depois, designaria proteção para a casa dela; Lina não gostaria, e ele usaria o argumento que ela tinha sobrinhos pequenos e irmãos para proteger. Depois, executaria a pessoa que deu as ordens pessoalmente. Com os boatos circulando sobre seus sentimentos por Lina, ninguém ficaria surpreso por sua atitude.
Lina se mexeu e abriu os olhos devagar. Sorriu ao ver que ela o olhava e ficou encantado; os olhos dela tinham um tom de verde lindo pela manhã.
— Bom dia… — murmurou ela abraçando-o mais.
— Bom dia… Dormiu bem? — perguntou Varian.
— Muito bem… Não tinha percebido que sua cama era tão confortável…
— Então você dormiu bem por causa da cama? — perguntou ele com um sorrisinho malicioso.
Lina deu uma risada.
— Meu travesseiro musculoso também é bem confortável… — disse passando a mão pelo peito dele.
Varian estremeceu.
— Tem mais um tempo para mim, comandante? — perguntou se inclinando sobre o corpo dela.
— Sempre… — murmurou antes de beijá-lo.
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Kayliel saiu da biblioteca pouco tempo depois de Arshe. A cidade estava adormecida e ele andou devagar pelas ruas, desfrutando o frescor do final da madrugada, voltando para a Cidadela Violeta. O baile ainda estava acontecendo, mas dava para ver que já tinha se esvaziado bastante. Pensou em entrar lá de novo e se mostrar para que Aethas e Vivithi não desconfiassem de nada, mas mudou de ideia. Iria para casa, dormir.
Estava procurando a pedra de regresso no bolso quando ouviu seu nome ser chamado por duas sentinelas de Luaprata. O sangue do sacerdote gelou.
— Kayliel! Onde estava? Te procuramos em toda a cidade! — a sentinela falava apressadamente, enquanto andava na direção dele.
— Na biblioteca. — respondeu e não era mentira – Aconteceu algo? — se perguntava se já tinha sido descoberto e se Arshe tiver ao mesmo destino.
— A princesa Luxuriah entrou em trabalho de parto. — disse o outro enquanto o primeiro já evocava um portal para Luaprata – Devíamos ter te encontrado horas atrás.
A gargante de Kayliel se apertou e ele não soube o que responder. Como assim Luxuriah entrara em trabalho de parto? Ele saíra e deixara ela bem, sem nenhum sinal que o parto seria naquela noite! Antes que pudesse perguntar qualquer coisa, o guarda o pegou pelo braço e passou com ele pelo portal. Assim que chegaram a sala anexa à sala do trono, onde todos que iam a Luaprata aportavam, ouviram uma cantoria baixa, comedida, mas, ainda assim, audível, vinda do pátio. As sentinelas pareceram tão confusas quanto ele, mas os três seguiram pela Torre Solfúria.
Após passarem pela sala do trono, encontraram Ash sentada no num dos sofás da sala, com uma xícara de chá na mão e tão pálida que Kayliel ficou espantado. Quando ouviu o barulho de passos e olhou quem entrara, Ash arregalou os olhos, largou a xícara na mesinha de centro e correu até ele. Kayliel sentiu o abraço apertado e temeu o que ouviria a seguir.
— Kayliel… — murmurou com voz de choro – Aconteceu tão rápido…
Sem saber o que dizer, ele apenas a abraçou.
— Chegamos tarde? — perguntou a sentinela.
— O bebê já nasceu. — disse a princesa com a voz rouca – Mas foi tão difícil…
— Nasceu? — ele sentiu uma tristeza profunda por ter perdido aquilo. Delicadamente, afastou o abraço de Ash e a encarou – Por que? Como? O que aconteceu?
Ash começou a contar o que tinha acontecido, a aparição de Grey, a luta dele com Tewdric, todos os acontecimentos pregressos. A medida que ouvia, Kayliel sentia as pernas fraquejaram. Enquanto a sua família sofria um golpe tão forte, ele estava traindo-a. Uma angústia imensa tomou conta de seu coração, e ele pensou que fosse cair no choro, tal como Ash. Porém, aquele alívio não foi concedido; apenas um nó na garganta e um peso em sua mente. Não conseguia sequer perguntar como Luxuriah e o bebê estavam.
— Kayliel! — ele ouviu outra pessoa lhe chamar.
Kassyeh desceu as escadas, quase correndo. Também estava pálida, mas sorria aliviada. A culpa dele lhe apertou ainda mais a garganta.
— Lux vai ficar muito melhor agora que você chegou! Estávamos tão preocupadas! Por que demorou tanto?
Como responderia aquela questão sem que seu mundo caísse naquele momento? Porém, foi poupado da resposta pela própria Kassyeh.
— Isso não importa. — disse a maga colocando a mão no ombro dele – Venha, vamos ver a Lux.
— Não, ele não vai.
A voz de Rommath veio da entrada e saiu rosnada, rasgada de raiva. Kayliel olhou para trás e encontrou o olhar do irmão e soube que, não importava o que dissesse, nada aplacaria a fúria dele. O mago se aproximou, segurando seu cajado com tanta força que o irmão pensou que ele seria usado para lhe atingir. Mas não. O que lhe atingia era a força da raiva no olhar do magíster.
— Rommath… — começou dizendo.
— Como você pôde… — disse Rommath entre os dentes, se aproximando dele – Você disse que estaria aqui! Disse que estaria aqui para ela! — gritou.
— Eu… — murmurou tentando achar palavras.
— Onde você estava?! Ninguém lhe achou no baile! — Rommath estreitou os olhos – Ou melhor, com quem você estava?
O rosto de Kayliel empalideceu e ele abriu a boca para tentar falar qualquer coisa, mas a voz ficou presa pela culpa que o assolava. Antes que o irmão exigisse uma repsosta, Ash interveio.
— Rommath! Isso é injusto! Nada do que aconteceu é culpa de Kayliel!
— Exatamente. — concordou Kassyeh – Se tem um culpado por tudo, esse alguém é Grey. E ele está morto.
Porém, o mago não queria dar razão às suas cunhadas. Lá no fundo de sua consciência sabia que elas estavam certas. Porém, o medo que enfrentara e a frustração de ver Luxuriah chamar por Kayliel sem resposta o deixava cego aos apelos racionais.
— Minha mulher e filha poderiam ter morrido! Por sua culpa! — gritou apontando o dedo para ele – Por que você estava se divertindo em algum lugar enquanto deveria estar aqui!
— A Lux mandou ele ir! — Ash fora em sua defesa mais uma vez – Ninguém esperava por isso! Seja racional, Rommath, pelo amor da Nascente!
— Devo te lembrar que você não é o único que quase perdeu a Lux. Nem ela foi a única que quase morreu hoje. — disse Kassyeh secamente – Eu quase perdia os três, Rommath, meu marido, irmã e sobrinha, e não estou descontando minha frustração em ninguém.
O arquimago recolheu o dedo que apontava para o irmão, atingido pelas palavras de Kassyeh. Kayliel olhou para a maga e viu a dor nos olhos verdes, uma dor tão grande quanto a do seu irmão, mas que estava sendo controlada como um pequeno dique segura uma inundação. A qualquer momento o dique romperia e a dor sairia. Mas não agora. Não ali. Kayliel admirou imensamente a resiliência de Kassyeh.
— F-foi… Tão ruim assim? — perguntou o sacerdote, conseguindo encontrar alguma voz dentro de si.
— Lor’themar disse que teve certeza que Tewdric estava morto. — murmurou a maga, lutando para controlar as lágrimas – Como Karen o trouxe de volta…
— Karen o trouxe de volta? — a perplexidade superou a dor de Kayliel – Ela é só uma criança!
— As pessoas agora estão dizendo que a própria Nascente do Sol falou com ela e lhe concedeu o desejo. — continuou Ash – Estão tratando-a quase como uma santa.
Por isso a cantoria, pensou Kayliel. Devia haver uma multidão no lado de fora da torre.
— Ainda assim! — gritou Rommath – A situação pode ter sido criada por aquele imbecil, mas a sua obrigação era com a Lux! Você devia ter pensando no que seus atos egoístas podiam gerar!
— Você quem está sendo egoísta agora! — retrucou Ash – Todos nós estamos exaustos, cansados e com medo, Rommath, mas você não deve tratar seu irmão assim!
— Eu trato porque sei mais coisas que você Ash! — gritou Rommath — Sei muito bem por causa de quem ele não foi achado!
— Você não sabe de nada! — gritou Ash de volta – Você estava lá tanto quanto eu! Não o julgue sem saber das coisas!
— Se ele não tivesse culpa, você não precisaria estar defendendo-o. Ele poderia fazer isso por si mesmo!
Aquela era uma verdade dolorosa. Kayliel, se não tivesse realmente estado na companhia de Arshe, se não estivesse traindo seu povo, sua família, sua facção na biblioteca de Dalaran, estaria indignado, gritando com seu irmão com a mesma indignação que ele lhe dirigia. Mas tudo que conseguia fazer era ficar de cabeça baixa, sentindo-se muito mal por toda credibilidade que Ash lhe dava e que não merecia. Queria dizer que merecia aquilo, que Rommath poderia fazer o que quisesse, que podia tratá-lo de qualquer maneira que ele merecia. Porém, não conseguia falar. Não conseguia confessar a Ash que não merecia defesa, que ele merecia ser executado por ter falhado miseravelmente com sua família. Queria chorar, ficar de joelhos e pedir perdão, mas não conseguia. Só conseguia escutar. Estava em choque.
— Não vamos colocar culpa nem exigir nada de ninguém agora, Rommath. — disse Kassyeh calmamente – Kayliel deve ir ver Luxuriah e Tinuviel.
— De jeito nenhum! — gritou o mago – Ele não vai chegar perto delas! E, se dependesse de mim, nem aqui ele estaria.
— Mas não depende. — retrucou Ash – E não cabe a você decidir o que é melhor para a Lux nesse momento. Você é o marido dela, não o dono.
Rommath apertou os lábios, contrariado.
— Rommath tem razão. — falou Kayliel finalmente.
Ash e Kassyeh o encararam, surpresas.
— Eu não tenho o direito de vê-las. — disse com a voz cortada – Eu… Eu devia estar aqui…
— Você não tinha como saber… — lembrou Ash.
— Ainda assim… — ele não disse mais nada. Mesmo naquele momento, seu instinto de preservação o mandava ficar calado.
Ainda que percebesse a dor do irmão, Rommath não se compadeceu. Continuou encarando-o, os olhos brilhando em fúria e o queixo tenso, como se estivesse se controlando para não lançar um feitiço mortal em Kayliel. E talvez fosse isso mesmo.
— Devo ir para casa. — disse o sacerdote finalmente.
— Não a minha casa. — retrucou Rommath – Você não é mais bem-vindo lá.
Aquilo foi surpreendente, até para Kayliel.
— É minha casa também! — exclamou, indignado.
— É mesmo? — perguntou o outro, provocando.
Kayliel não conseguiu responder.
O silêncio, cheio de tensão e mágoa, pairou entre os dois irmãos, os últimos sobreviventes de sua família e Kassyeh e Ash apenas se encararam, sem saber o que mais podiam fazer por Kayliel. Óbvio, ele não seria expulso da torre. Porém, as coisas estavam complicadas demais entre os irmãos para serem resolvidas naquele momento. Rommath realmente falara sério? Estava expulsando o irmão da casa que dividiram uma vida toda?
— O Keke vai ver a Lux, sim.
A voz de Karen assustou todos, pois era quase de manhã e a menina deveria estar dormindo. Mas ela não estava. Encarava a briga do alto da escada, em seu pijama preferido, os cabelos soltos e bagunçados. Kassyeh a tinha colocado na cama, algumas horas antes, quando a adrenalina da menina baixara. Ela e Saba dormiam com Tewdric no quarto da futura rainha, pois a menina se recusara a deixar seu pai sair de perto dela. Só que ela agora estava ali, encarando todos na sala e então desceu as escadas, coçando os olhos de sono, mas decidida.
— Karen… — murmurou Kayliel quando a viu de perto – Seus olhos…
A menina sorriu, segurando um bocejo.
— Ficou bonito? — perguntou animada demais para quem acabara de acordar.
— Sim, ficou. — disse sorrindo e sentindo-se imensamente melhor. Karen o deixara tranquilo, por algum motivo. Se ela realmente falara com a Nascente do Sol, seria os resquícios de poder dela que emanariam da menina e ele, como sacerdote da Luz, sentia as vibrações.
— Karen… — começou Rommath baixando o tom da voz, mas nem completou a frase. Karen levantou o dedo, interrompendo-o.
— Você ama a Lux, não ama, Romrom? — perguntou a menina.
Confuso com a pergunta, Romamth respondeu:
— Claro, claro que amo.
— Então você deve pensar no que ela quer agora e não no que você quer. — disse seriamente – Você acha realmente que a Lux ia querer essa briga pro causa dela?
Gaguejando, o mago se limitou a responder:
— N-não…
— Então tá resolvido! — a menina bateu uma mão na outra, satisfeita – O Keke vai ver a Lux e ninguém vai ser expulso de canto nenhum! — ela então pegou a mão do sacerdote e o puxou – Vamos, vou te levar lá. Depois, vou tentar dormir mais – ela bocejou de novo – A coroação é amanhã né? Saba disse que não posso estar com olheiras.
A bondade da menina fez os olhos dele se encherem de lágrimas, finalmente.
— Não, não pode… — murmurou com a voz entrecortada enquanto ela o escoltava, sem a interferência de Rommath, até o quarto de Luxuriah.
Ash e Kassyeh viram Rommath se esvaziar de sua dor, deixar o cajado cair e sentar-se pesadamente no sofá, as mãos apertando o rosto.
“Odiar cansa…” foi o que Kassyeh pensou quando sentou-se do lado dele e ofereceu seu ombro. O mago chorou copiosamente, colocando toda sua frustração para fora enquanto Ash pedia a uma serva mais um bule de chá e duas xícaras adicionais. A madrugada ainda não tinha acabado.
Lá em cima, quando entraram no quarto de Luxuriah, a primeira coisa que Kayliel sentiu foi o cheiro de sangue. Apesar dos lençóis ensopados já terem sido retirados, de terem vestido e limpado Luxuriah, de todo resquício do parto ter sido removido, o cheiro estava lá. E havia algo mais. Desespero. Dor. Medo. Mas também tinha esperança, alívio e o mesmo poder da Nascente do Sol que emanava de cura estava pelo quarto.
Karen o guiou pelo quarto, liderando o caminho e o levou até a cabeceira de Luxuriah. A elfa dormia, ainda pálida, mas já visivelmente melhor. A bebê descansava sobre o peito dela, agasalhada e com o tufo de cabelos ruivos se destacando na manta branca. Kayliel sentou-se ao lado da cunhada, colocou as mãos no rosto, tal como o irmão fizera momentos atrás e também desatou a chorar. Chorava pelo medo, pela culpa, pela tristeza que causara e que ainda causaria. Como diria agora para o irmão que iria embora? Como diria a Luxuriah que, depois de abandoná-la no parto, a abandonaria novamente? Antes de ser sua cunhada, era sua melhor amiga. Como admitir a traição e dizer que partiria para nunca mais vê-la ou à sua sobrinha? Como encararia Ash, que o defendera, Kassyeh, que ficara ao seu lado e Karen, que o ajudara, e diria que estava indo embora por causa de uma humana? Teria coragem? Conseguiria?
Imerso em sua dor, não percebeu que Luxuriah acordara brevemente e encarava sua dor. Com dificuldade, ela estendeu a mão e tocou. Surpreso, Kayliel parou de chorar e a olhou. Luxuriah deu um sorriso fraco.
— Lux! — exclamou Karen sentando na cama – Eu trouxe o Keke pra te ver! Ele tá preocupado.
Luxuriah sorriu para a irmã também e franziu um pouco a testa, olhando seu pijama.
— Eu vou já dormir de novo. — avisou a menina revirando os olhos – Vim só te ver e trazer o Keke. — e deu um beijinho no rosto da irmã, outro na cabeça do bebê e um abraço em Kayliel antes de sair do quarto.
Depois que Karen saiu, Kayliel segurou firme a mão de Luxuriah, mas com toda delicadeza possível. Se encararam alguns instantes, a elfa sorrindo, nitidamente feliz em vê-lo e Kayliel com os olhos molhados, chorando o que estava guardado desde a primeira fala de Ash. Ele queria falar tanta coisa, explicar-se, dizer que sentia muito, mas só conseguia chorar e segurar sua mão. Ficaram de mãos dadas, ele chorando e ela sorrindo, por um tempo, até que a luz da manhã entrou pela janela e iluminou o rosto do bebê que começava acordar.
Naquele momento, Kayliel percebeu que precisaria de muito mais que coragem para deixar Luaprata.
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Doroteya andou ao redor da mesa do café da manhã ansiosamente, alisando a toalha de mesa para tirar as pregas, verificando se não tinha formigas na geleia e se a manteiga não estava rançosa. Tommy observou-a por um momento e então disse:
— Calma, Doro. Vai dar tudo certo.
— E se ele não aceitar? O que faremos? — perguntou ela angustiada.
Quando chegara da mansão dos Hightower, todos tiveram uma conversa intensa sobre o que acontecera no casamento. Lina acreditava que fingir que nada acontecera era pior e que todos tinham que colocar para fora o que sentiam. Foi uma conversa tensa, mas que serviu para todos expressarem suas angustias, além de terem tomado precauções sobre idas e vindas para a casa e táticas de segurança nos quartos. E, apesar de já terem se resolvido no casamento de Cláudia, Tommy e Doroteya não tinham conversado ainda com Theo sobre eles. Uma conversa tensa era o suficiente e todos ainda estavam muito abalados com os acontecimentos. Desse modo, preferiram esperar um momento mais calmo para a conversa. Além das crianças precisarem descansarem, tiveram que lidar com Fey surtando após saber o que acontecera com Lina.
Para a proteção, Tommy instalara fechaduras e trancas novas em todas as janelas e portas. Também decidiram soltar os ajudantes de Lina durante a madrugada no quintal. Se alguém tentasse tentar entrar na casa por lá, teria uma bela surpresa. E só depois das coisas estarem calmas foi que a comandante fora falar com Varian. E, aparentemente, tudo ocorrera bem, pois Lina não dormira em casa na noite anterior.
A decisão de contar a Theo deixara Doroteya mais preocupada do que imaginara. Era essencial para a druidesa que seu filho aceitasse seu relacionamento com Tommy; não fazia ideia do que faria se o menino discordasse. Não forçaria uma situação que não fosse agradável ao menino, mas também não queria abrir mão de uma felicidade que decidira voltar a sua vida. Por isso, aguardava o menino descer para que pudessem conversar os três.
— Doro… — murmurou Tommy chegando perto dela e segurando sua mão – Vai dar certo.
Ele deu um selinho nos lábios dela, que sorriu.
— Espero que você esteja certo. — desejou Doroteya.
Naquele momento, começaram a ouvir vozes animadas, avisando que as crianças desciam. Doroteya voltou a ficar nervosa e foi para o fogão, esquentar o leite. Quando Theo entrou na cozinha empurrando a cadeira de Pietro e seguido por Pandora, não reparou no clima de tensão.
— Bom dia! — desejou o menino animado.
Todas as precauções tomadas no dia anterior claramente os ajudara a dormir bem e acordarem de bom humor. Doroteya respirou aliviada. O pior já passara.
— Bom dia, crianças. — desejou, e Pandora franziu o cenho – Bom dia, crianças e Pandora. — corrigiu ela sorrindo.
Pandora sorriu também.
— Bom dia, Doro! — desejou a menina – Esse café da manhã está reforçado, hein? Estou morrendo de fome.
— Você precisa de energia hoje. Vai visitar a Academia Militar, não é mesmo? — perguntou a druidesa.
Pandora enfiou um pedaço de bolo na boca e fez que sim com a cabeça.
— Eu e Pietro vamos dar uma volta pelos canais. — disse Theo ajustando a cadeira do amigo na mesa.
— E depois podem me ajudar com um projeto novo, que tal? — perguntou Tommy.
Os meninos ficaram muito animados e começaram a falar ao mesmo tempo.
Doroteya continuava nervosa e, quando se sentou a mesa com os demais, não conseguia comer. Beliscou o bolo e tomou uma caneca grande de chá, mas não conseguia se concentrar em nada mais.
Pandora percebeu.
— Algum problema, Doro? — quis saber.
— Não. — respondeu rapidamente.
— Tem certeza? — insistiu a garota.
Theo parou de conversar com Pietro e agora encarava a mãe, preocupado. Doroteya suspirou. Era péssima em esconder qualquer coisa, principalmente se o assunto tivesse a ver com seu filho.
— Bem, eu queria conversar algo com o Theo. — começou cautelosamente olhando para o filho – Falaremos depois que vocês comerem.
— Eu fiz alguma coisa? — perguntou o menino assustado.
— Não querido, claro que não. — respondeu Doroteya, para o alívio do filho – Não se preocupe, coma que depois conversamos.
— Tem certeza, mãe? Parece sério… — comentou o menino.
Imaginando exatamente o que seria aquela conversa, Pandora se levantou.
— Vou levar Pietro para tomar o banho de sol enquanto vocês conversam. — avisou.
— Adoro banho de sol. — disse o menino – Voltamos já!
E os dois foram para o quintal, enquanto Tommy e Doroteya olhavam para Theo.
Um aperto na garganta quase fez Theo engasgar com o pedaço de bolo que estava em sua boca. Deixou o resto da fatia no prato e encarou a mãe, temeroso. Em sua mente infantil, imaginava mil coisas que ela poderia dizer e nenhuma era boa. Que teriam que voltar para Darnassus. Que sairiam da casa de tia Lina. Que Pietro e Pandora iriam embora. Que Tommy não gostava mais dele e ia parar de treiná-lo. Que a mãe não ia deixar que ele treinasse espada. Ou tudo isso junto. Os olhos do menino já brilhavam em lágrimas quando a mãe falou:
— Meu amor, isso não tem nada a ver com você. — disse pegando na mão dele – Quer dizer, tem, mas não do jeito que você tá pensando…
— Theo… — começou Tommy atraindo a atenção do menino – Nós queremos falar uma coisa muito séria com você e precisamos que você ouça com atenção antes de dizer qualquer coisa, certo?
O menino fez que sim com a cabeça, amedrontado.
Tommy e Doroteya se entreolharam e deram as mãos.
— Fale você, eu não consigo… — pediu ela com o rosto ardendo de vergonha.
Tommy sorriu.
— Tudo bem… — disse ele e olhou para Theo – Eu e sua mãe estamos apaixonados e queremos ficar juntos.
Theo ficou boquiaberto.
— É sério?! — perguntou sem querer acreditar.
A reação do menino fez Doroteya arfar.
— Sim, é sério. — continuou Tommy – Eu quero que você saiba que gosto muito de sua mãe e que não tenho intenções de tomar o lugar de seu pai, mas eu e sua mãe-
Tommy foi interrompido pelo pulo de Theo levantando-se da cadeira. Tommy e Doroteya tiveram um susto, que foi substituído por confusão quando o menino correu até a porta da cozinha que levava para o quintal e gritou para Pietro e Pandora:
— Tommy e mamãe vão casar!
Tommy e Doroteya ficaram muito mais espantados com o anúncio que Pandora e Pietro.
— Que legal!! — exclamou Pietro do quintal – Vamos ter outro festão como aquele?
— Que nada, tem que ser maior. — falou Pandora – Pode não ser tão chique, mas tem que ser maior! E sem tentativas de assassinato, por favor!
Depois de dado o “anúncio”, o menino se virou para os dois adultos, que estavam petrificados nos seus assentos e se jogou em cima deles, num abraço apertado e contente.
— Eu sabia! Eu sabia! — dizia ele alternando os abraços entre a mãe e Tommy – Sabia que vocês combinavam! Achava que era só coisa de minha cabeça!
Isso deixou os dois ainda mais confusos e se encarando sem saber o que dizer. Era uma reação que eles, definitivamente, não esperavam em hipótese alguma.
— Eita, que felicidade é essa de manhã tão cedo? — perguntou Mel entrando com Fey na cozinha. Os dois tinham a cara de sono, mas estavam mais tranquilos do que no dia anterior.
— Tommy e mamãe vão casar! — anunciou Theo.
— Como é? — perguntaram os alfaiates ao mesmo tempo.
Saindo de seu estupor, Doroteya se levantou.
— Theo, calma. — pediu – Calma, acho que você entendeu errado.
O sorriso do menino morreu na mesma hora.
— Mas… Você e Tommy não estão apaixonados um pelo outro? — perguntou numa vozinha triste.
— Sim, meu amor estamos, mas-
— Estão?! — exclamou Fey surpreso.
— Sim, estamos, mas-
— Desde quando? — perguntou Mel colocando a mão no coração e interrompendo Doroteya mais uma vez.
— Há algum tempo, mas-
— Isso é MARAVILHOSO! — gritou Fey jogando as mãos para o céu – Mais um vestido de noiva! E dessa vez, eu irei ao casamento!
— Espero que não haja nenhuma tentativa de assassinato nesse. — desejou Mel coçando o pescoço.
— Eu disse a mesma coisa, tio. — falou Pandora voltando com Pietro para dentro da cozinha – E dessa vez, me façam um vestido mais adulto por favor. Com decote.
— Claro querida! Tenho certeza que você será uma das damas de honra não é? Faremos um vestido lindo para você e sua tia, combinando, o que acha? — sugeriu Mel.
— Não! Não quero vestir combinando com a tia Lina!
— O que tem eu? — perguntou Lina que chegara naquele exato momento.
— Estamos falando do casamento da mamãe com o Tommy! — falou Theo, novamente esperançoso com a possibilidade.
— Já?! — surpreendeu-se Lina – Por que não me contaram logo? — e franziu a testa para o irmão e Doroteya.
— Porque nós não vamos casar! — exclamou Doroteya agoniada – Estou tentando explicar para o Theo que sim, eu e Tommy estamos apaixonados, que sim, queremos ficar juntos, mas não iremos nos casar!
— Por que não? — perguntou o menino – Se vocês se gostam, por que não casar logo?
Doroteya engasgou, sem saber o que dizer ao menino.
Tommy estivera calado, chocado com a reação de Theo. Claro, ele tinha uma boa relação com o menino e acreditava que tudo ficaria bem. Mas Theo o surpreendera e muito. O mais surpreendente, todavia, era que, quanto mais o menino falava, mas Tommy percebia que aquilo fazia sentido. Ele e Doroteya estavam apaixonados e o sexo fora maravilhoso; já conviviam há meses e a rotina dos dois era harmoniosa. Além do mais, ele estava quase na casa dos quarenta. Por que perder tempo?
— É verdade. — falou ele se levantando – Por que não?
Theo abriu um sorriso imenso e Doroteya o encarou chocada. Os demais ficaram calados, esperando o desenrolar da situação.
— Tommy… — começou Doroteya – Você não precisa fazer isso só porque o Theo quer…
— Não é por isso. — esclareceu – Mas Theo tem razão. Por que não? Não somos elfos, não vamos viver para sempre. Eu tenho quase quarenta anos e nunca sabemos quando o mundo vai enlouquecer e tudo vai acabar. Vamos aproveitar a nossa vida! E também, já moramos juntos há meses e convivemos bem. Nosso… — ele pigarreou – Nosso entrosamento foi muito bom também. — Lina deu uma gargalhada e Doroteya sentiu o rosto queimar – A única diferença é que agora dormiríamos no mesmo quarto e o Theo teria que dividir um com o Pietro.
— Eu gosto da ideia! — falou Pietro.
— Eu quero um quarto só pra mim, então. — avisou Pandora levantando a mão.
— Vocês já fizeram as contas? Não temos tantos quartos assim. — avisou Lina.
— Pra isso eu tenho uma ideia, mas antes preciso ouvir o que Doroteya tem a dizer. — pediu Tommy.
Todos os olhares se voltaram para a druidesa.
— E… E se não der certo? — perguntou ela hesitante o encarando – E se você se arrepender depois?
— Porque eu me arrependeria? — rebateu ele se aproximando e segurando as duas mãos dela – Eu amo você.
— Ownnnnnn!!!! — exclamaram todos.
Esse definitivamente não era o rumo da conversa que Doroteya estava esperando. Queria convencer o filho a aceitar seu relacionamento e agora estava sendo pedida em casamento. Era tão estranho. Principalmente porque ela queria aceitar. Queria sim. Percebeu que conseguia se imaginar casada com Tommy, acordando todos os dias nos braços dele, construindo uma vida, juntos.
— Você tem certeza? — perguntou ela apertando as mãos dele.
— Absoluta. — respondeu convicto.
Ela olhou para a plateia curiosa que os observavam, envergonhada, mas sorrindo. Theo fez que sim com a cabeça efusivamente e Lina ergueu o polegar em aprovação. Mel e Fey estava com as mãos unidas como se rezassem e seus olhos brilhavam de emoção. Pietro e Pandora sorriam, animados.
— Eu…. — ela respirou fundo.
— Esperem! — gritou Fey de repente.
Todos o encararam, confusos.
— Tem que ter um anel! — avisou ele.
Mel prendeu o fôlego.
— É mesmo! — concordou – Um anel!
Tommy coçou a cabeça.
— Bem, como o pedido não estava nos planos, eu não tenho nenhum.
— Não precisa. — disse Doroteya.
— Claro que precisa! — exclamou Fey – Vou resolver isso agora! — o alfaiate tirou o anel que tinha no mindinho e jogou para o irmão. Tommy pegou o anel no ar – Pronto, continuem! — e voltou a posição de reza com os olhinhos brilhantes.
Tommy caiu na risada e olhou o anel. Mesmo sendo o menor anel de Fey, ainda ficaria folgado nos dedos pequenos de Doroteya. Ainda assim, sentiu uma enorme gratidão por Fey ter feito isso.
Chegara a hora.
Respirando fundo, Tommy se ajoelhou. Pandora deu um gritinho e deu pulinhos enquanto batia palmas. Os alfaiates já choravam. Pietro ria de todos e Theo aguardava ansiosamente. Lina cruzou os braços e aguardou, com um sorriso no rosto.
— Doroteya Finningan, aceita se casar comigo? — perguntou estendendo o anel para ela.
Doroteya começou a chorar e ficou surpresa com sua própria reação.
— Aceito! — disse sem conter a alegria.
Todos gritaram e bateram palmas enquanto Tommy colocava o anel no polegar de Doroteya o único dedo onde o anel não ficava caindo. Depois, ele se levantou e beijou-a com vontade. Os gritos aumentaram.
— Temos que começar a preparar o casamento! — anunciou Mel – Preparar o vestido de noiva, o vestido das madrinhas… — ele arfou – A princesa Arshe vai ser uma das madrinhas, não é? Temos que caprichar!
— Bem, não precisa de festa… — disse Doroteya sem jeito – Pode ser algo simples, só nós… E Arshe, claro. Ah, Rosa e Lasciva também. Vou escrever para elas...
— De jeito nenhum! — disse Fey revoltado – Tem que ter festa! Tommy casou sem festa da primeira vez, não vamos deixar isso acontecer de novo.
— Doro também não teve festa de casamento, não foi? — lembrou Lina.
— Verdade… — murmurou a druidesa – Mas… Festa é uma coisa cara…
— Sobre isso… — começou Tommy – Vou aproveitar que todos estão reunidos para dar uma notícia. Eu vendi minha casa e com o dinheiro, quero adicionar um andar a mais aqui. Assim, vai ter quarto para todos e ainda um para hóspedes.
— Sério? — perguntou Lina sem acreditar – A casa vai ficar ótima!
— Vendeu por um bom preço? Se vendeu, dá pra fazer a reforma e ainda bancar a festa! — comentou Mel animado.
Doroteya ficou preocupada com a ideia.
— Eu não quero que ninguém gaste dinheiro por minha causa. — avisou.
— Doro, você merece uma festa de casamento. — disse Lina sorrindo – Se tem alguém que merece um festão de casamento é você, Doro!
A druidesa ficou envergonhada.
— E depois do casamento, quero um irmãozinho! — anunciou Theo abraçando a mãe.
A risada foi geral e o rosto de Tommy ficou escarlate, enquanto Doroteya escondia o dela entre as mãos.
— Já deu pra perceber quem manda nesse relacionamento. É o Theo. — comentou Lina cutucando Mel com o cotovelo.
— Com certeza. — respondeu o outro.
— Filho, não prefere esperar a gente casar antes de falar em irmãozinhos? — perguntou a druidesa abraçando o filho.
— Só estou avisando! — disse o menino – Eu já ganhei tios, tia, irmãos mais velhos, quero um irmãozinho ou irmãzinha agora.
A forma como o menino falou deixou todos emocionados. Pietro e Pandora se entreolharam e sorriram. O pouco tempo que passaram com Theo fora o suficiente para o considerar um irmão sim, e a recíproca era verdadeira.
— Agora será que podemos comer? — perguntou Lina se aproximando da mesa – Estou morrendo de fome.
— Noite longa? — perguntou Fey malicioso.
— Você não faz ideia. — respondeu ela rindo.
— Argh, sem conversa nojenta no café da manhã, por favor. — protestou Pandora sentando e pegando outro pedaço de bolo.
— Em alguns anos a conversa não será tão nojenta assim… — provocou Lina.
Pandora apenas revirou os olhos.
Todos sentaram e começaram a comer animadamente, fazendo agora planos para o casamento. Doroteya e Tommy, os recém-noivos, não conseguiram opinar muito em como seria a festa; Fey e Mel tomaram as rédeas rapidamente e quando o noivo tentou dizer algo, foi bombardeado com olhares raivosos e preferiu se calar. Lina também se animou com o planejamento e, no final do café da manhã, já tinham tudo planejado.
— Arshe não vai gostar de ter sido colocada de fora do planejamento. — avisou Doroteya.
— Ah, com certeza vamos ouvir as opiniões dela. — disse Mel – A propósito, quando vocês forem para a bastilha, a convidem para um café aqui que vamos começar a organização.
— Ontem ela estava meio estranha… — disse Doro – Mas talvez fosse porque contei o que aconteceu com a Lina e tudo mais…. Não sei…
— Hoje conversamos com ela com mais calma. — disse a comandante.
— E ela vai nos ajudar com a organização! — comemorou Mel.
— Já que você e Fey já planejaram tudo, lembrem de nos avisar o dia, para que eu e Doro possamos estar lá. — brincou Tommy.
— Com certeza, será a única obrigação de vocês. — falou Fey animadamente.
— Quanto tempo vocês vão levar pra preparar tudo? — perguntou Theo animado – Eu quero logo meu irmãozinho ou irmãzinha!
— Eles não precisam realmente casar pra isso, meu amor. — disse Mel.
— Não? — se surpreendeu o menino.
— Mel! — protestou Tommy – Pode parar aí.
— O que, você nunca teve essa conversa com ele?
— Que conversa? — perguntou o menino.
— Depois, meu amor, depois… — falou Doroteya alisando o cabelo dele.
— Eu posso explicar! — se ofereceu Pietro levantando a mão – Vovô me contou tudo sobre bebês!
— Pela Luz… — murmurou Lina colocando a mão no rosto – É a história do cacho de uvas?
— Sim! — disse o menino animadamente.
Lina olhou para Pandora e a menina deu de ombros. Aparentemente ela tinha tanto interesse de contar a verdade ao irmão quanto Doroteya tinha em contar ao filho.
— Deixem isso pra depois, ok? Vamos comer. — sugeriu a comandante – Eu e Doroteya temos que ir para a bastilha. Temos uma princesa para atualizar.
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Com cuidado, ele terminou de pentear a barba que já estava quase totalmente grisalha e sorriu. Ajeitou a lapela da camisa e verificou os punhos. Deu uma última arrumada no cabelo e sentiu-se pronto. Respirou fundo, sentindo uma ansiedade que era desconhecida há um bom tempo, pegou um discreto buquê de flores e saiu.
O dia estava claro e morno em Ventobravo. Conseguira prolongar sua folga um pouco mais de tempo e usaria para procurar uma pessoa que talvez nem lembrasse mais dele. Estranhou que estivesse disposto a arriscar daquela forma. Não era do seu feitio. Porém, a Luz trabalhava de forma misteriosa e o que sentira desde daquele dia era mais misterioso ainda.
Não teve dificuldade em encontrar a casa. Ficava em uma rua bonita, em frente ao canal. A primeira coisa que viu foi um pinheiro, que fora plantado ao lado da varanda e sorriu. Era uma escolha estranha de árvore de entrada, mas pensou que, quando chegasse o Véu de Inverno, seria ideal para decorar. Subiu os degraus, o coração batendo descompassadamente e bateu à porta, uma batida firme e segura, completamente diferente de como se sentia.
— Já vai! — gritou uma voz infantil.
Um menino de cabelos muito ruivos atendeu a porta. Era uma criança linda, reparou, e tinha um olhar tão doce que o comoveu.
— Ah! — o menino exclamou – Eu lembro de você! Do casamento de Lady Cláudia!
O homem se surpreendeu. Lembrava de ter visto muitas crianças, mas não lembrava especificamente daquele. O que era normal, ele deveria ter ficado correndo e brincando a festa toda.
— Bom dia. — disse com educação o homem.
— Bom dia, quase tarde. — falou o menino alegremente – Tá quase na hora do almoço.
— Sim, está. — ele respondeu retribuindo o sorriso do menino – Poderia me informar se o senhor Mel Wood se encontra, meu caro…. — e não completou a frase, deixando que o menino falasse.
— Theo! Meu nome é Theo! — ele continuou alegremente.
— Então, Theo… Meu nome é Vincent. O senhor Mel está?
O menino sacudiu a cabeça em negativa, e o coração de Vincent se apertou.
— O tio Mel tá trabalhando, lá no ateliê dele. — e percebendo pela primeira vez as flores na mão do homem, aumentou o sorriso – Você dançou com o tio Mel, não foi? Essas flores são pra ele?
Sentindo o rosto ficar quente, o homem assentiu.
— Sim, são.
— Que legal! Tenho certeza que ele vai gostar! Ah, deixe eu te explicar onde é o ateliê! — Theo saiu pra varanda e começou a explicar o caminho para que Vincent chegasse lá.
— Muito obrigado, Theo. — agradeceu com sinceridade.
— De nada! Até mais! — e acenou antes de fechar a porta.
Vincent sorriu e desceu os degraus da varanda. O menino dissera ‘até mais’, como se tivesse certeza que o veria de novo. Uma família bem peculiar.
Caminhou até onde Theo havia dito que era o ateliê e se surpreendeu. Era um local discreto, meio escondido, e Vincent já havia passado em frente dele várias vezes sem reparar na sua existência. Sentiu o aperto no estômago de novo, antes de empurrar a porta e entrar.
Um sininho anunciou sua entrada e uma voz disse que estava indo. Enquanto isso, Vincent analisou o local. Era bem simples, mas tinha vários vestidos e conjuntos de calças e camisas em alguns manequins. Uma plana escrita “Trabalhamos apenas com encomendas” estava pendurada acima de um mostruário de roupas infantis. Estava analisando um dos ternos quando ouviu passos e Mel apareceu na porta lateral.
— Bom dia, seja bem… — o alfaiate perdeu a voz – Vincent?
— Ah, você lembra de mim. — falou sorrindo. Um de seus medos era que Mel nem lembrasse de sua existência.
Os dois se olharam por um momento, procurando novas palavras e Vincent lembrou das flores. Estendeu-as para Mel.
— Espero que você esteja se sentindo melhor. — disse suavemente.
Mel não conseguia acreditar no que estava vendo. O homem de verde, que dançara com ele no casamento, que Mel gostara tanto, e cujo encontro fora eclipsado pelo atentado de Lina estava bem ali. O alfaiate já havia perdido as esperanças de vê-lo de novo, justamente por causa das coisas que acontecera. Quem em sã consciência quereria se envolver com alguém com uma família conturbada daquela? Aparentemente, Vincent. Ainda em choque, Mel pegou as flores. Levou ao rosto e as cheirou. Eram bem perfumadas, exatamente como gostava. Sorriu, carinhosamente.
— Obrigado. — disse – Eu… Eu nunca recebi flores antes.
— Não consigo entender o porquê. — disse Vincent – Você parece alguém que combina com flores.
Mel deu uma risada e olhou para baixo. Usava uma camisa florida naquele dia.
— Estou combinando com a primavera. — disse mostrando o visual.
— Como os campos de Ventobravo. — brincou o outro.
Ficaram alguns instantes calados, um pouco envergonhados, e Vincent foi quem quebrou o silêncio.
— Como está sua irmã? — quis saber.
Mel revirou os olhos.
— Tá ótima! Já foi trabalhar, aquele traste! Deve tá lá na bastilha toda armadurada, esperando pra matar quem tentou matá-la. — ele suspirou – Ela vai matar, sim, vai ME matar do coração, você vai ver.
— Espero que não. Você me prometeu uma camisa que combinasse com meus olhos. — disse apontando para o rosto.
Mel deu um sorriso, petulante.
— Meu querido, posso te vestir dos pés a cabeça combinando com qualquer coisa que você queira.
Vincent se aproximou mais de Mel, antes de falar, com a voz rouca:
— Ou você poderia me despir.
Mel sentiu o coração bater mais rápido e o rosto ficar quente, como se estivesse com febre. Pensou em muitas coisas que poderia dizer, mas as palavras se perderam dentro dos olhos castanhos de Vincent. A situação era boa demais para ser verdade e o alfaiate se perguntava se não era um sonho e que acordaria a qualquer instante.
Antes que Mel pudesse dizer qualquer coisa, ouviu um arrastado de pés do quarto dos fundos e a voz de Fey chegando mais perto.
— Mel, você viu os botões branco-pérola? Tem uns que poderíamos usar no… — ele parou ao ver Vincent bem perto de Mel e entendeu na mesma hora o que estava acontecendo – Visita ou cliente? — perguntou mesmo assim.
— Fey, esse é Vincent. Foi com quem dancei no casamento de Lady Cláudia.
— Oh, ouvi falar de você, Vincent! — disse Fey estendendo a mão – É um prazer.
— Igualmente. — disse o outro apertando a mão oferecida – Também ouvi de você. Fey, o irmão alfaiate.
— Euzinho mesmo. — riu – Desculpe interromper a conversa, mas é que os botões não podem esperar!
— Estão na segunda gaveta da minha mesa. — disse Mel – Debaixo dos retalhos vermelhos.
— Certinho! — e olhando para as flores na mão dor irmão, ofereceu – Posso colocar num vaso de água se você quiser!
— Obrigada, Fey. — agradeceu Mel entregando as flores.
Fey saiu da sala, cantarolando e deixando-os sozinhos.
— Como você soube onde ficava o ateliê? — perguntou Mel curioso.
— Então… Seu irmão tinha me dito onde era sua casa. — começou Vincent mais uma vez – Fui até lá e seu sobrinho Theo me disse onde era o ateliê. Um menino muito simpático.
— Ah, Theo é um anjinho. A mãe dele também é um doce.
— Sua irmã? — perguntou Vincent.
Mel gargalhou.
— Não, nenhuma irmã minha é doce. Estão mais para bem azedas mesmo! Mas amo todas. São azedinhas, mas minha azedinhas!
Era exatamente por isso que Vincent tinha ido até ali. Mel tinha um jeito de falar e agir que o faziam rir e sua sinceridade transparecia em seus olhos. Era bom saber que não se enganara e que, naquele pouco tempo que falavam ali no ateliê, pode perceber que o álcool não havia nublado seus pensamentos.
— Gostaria de almoçar comigo? — perguntou Vincent – Eu volto ao trabalho amanhã, então é meu último dia de folga. Gostaria de aproveitar. O que acha?
Mel quase gritou sim no mesmo instante, mas depois lembrou que ele e Fey haviam combinado de não sair para almoçar naquele dia para começar a desenhar os vestidos do casamento de Doroteya. Tinham até levado comida de casa.
— Eu adoraria, mas eu e Fey combinamos de-
— Pode ir! — gritou Fey de dentro do ateliê – O casamento é só em alguns meses, dá tempo!
Sentindo o rosto arder ainda mais, Mel papaguejou:
— Aquele bisbilhoteiro, tava ouvindo a conversa o tempo todo!
— Nesse cubículo, você queria o quê? — gritou Fey de volta.
Vincent caiu na gargalhada.
— Então, vamos?
Feliz por ter o irmão do seu lado, Mel assentiu e acompanhou Vincent. Anotou mentalmente em dar alguma recompensa muito boa para o irmão, quem sabe um anel novo, já que dera seu favorito para que Tommy pedisse Doroteya em casamento.
Quando estavam do lado de fora do ateliê, Vincent se virou para Mel, sorrindo.
— Gostaria de fazer uma coisa antes de irmos. — disse.
— O quê? — perguntou Mel.
Vincent então se inclinou e deu um beijo cálido e suave nos lábios de Mel. O alfaiate achou que ia infartar.
— Estava com vontade de fazer isso desde o casamento. — confessou o outro – Precisava fazer logo ou não conseguiria pensar direito durante o almoço.
Respirando fundo para se recuperar, Mel falou:
— Poderia dar outro? Só por via das dúvidas?
— Claro… — murmurou ele antes de passar a mão na cintura de Mel e puxá-lo para um beijo mais profundo e quente.
Fey, da janela, observou tudo segurando os gritinhos e mal via a hora do irmão voltar para contar tudo, tudo! Com detalhes, claro.
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Chegara o dia. Karen respirou fundo, o coração aos pulos, enquanto encarava o vestido que pendia em uma ombreira. Era o vestido que escolhera para a coroação. Chegou a pensar que não o queria mais, assim como o vestido do baile, lembrando do que acontecera quando os escolhera, mas decidira que era também uma forma de lembrar como aquilo mudara tudo. Não apenas em relação ao parto adiantado de Luxuriah, mas principalmente entre ela e Anveena.
A Nascente do Sol não fala mais nada com ela, mas Karen podia senti-la. Sentia da mesma forma como senti ao calor do sol; ela estava sempre por perto. Aquilo a deixava tranquila e calma. Sorriu.
— Majestade. — chamou uma das servas – Está na hora.
Karen assentiu e deixou-se ser vestida.
Depois que colocou o vestido, os sapatos e que estava pronta, olhou-se no espelho. O cabelo estava preso para que a coroa pudesse se ajustar bem. Foi a concessão que fez; preferia ter o cabelo solto, mas tudo bem.
— Estão lhe esperando. — disse a serva.
— Tudo bem.
Karen saiu do quarto, mas não foi na direção do salão. Sua primeira parada foi no quarto de Luxuriah.
Depois do parto e de toda a tensão, o dia anterior da coroação fora corrido e tenso. Ninguém cogitou adiar o evento, muito pelo contrário. Os acontecimentos prévios parecera ser uma forma de validar a coroação dela, com a ressurreição de Tewdric e os olhos dourados de Karen. Poucos sabiam do parto difícil de Luxuriah e de como ela também quase morrera, mas o nascimento em si também fora visto como auspicioso. E por estar muito fraca ainda, Luxuriah decidira não ir a coroação, mas já estava bem melhor do que nos momentos após o parto.
Quando Karen entrou no quarto, este estava iluminado e bem-arrumado, uma atmosfera totalmente diferente de quando ocorrer ao parto. Luxuriah estava sentada na cama, com Tinuviel nos braços e sorriu ao ver a irmã. Levou o dedo aos lábios, pedindo silêncio e depois apontou para o lado. Kayliel dormia com a cabeça na mesinha do quarto. O sacerdote não saíra de perto desde que voltara.
— Estou bonita? — perguntou Karen sussurrando quando chegou bem perto da irmã.
— Fabulosa. — respondeu Luxuriah no mesmo tom – Eu queria ir, te ver recebendo a coroa.
Karen negou com a cabeça veementemente.
— Você precisa descansar. Vocês duas. — e alisou o rosto do bebê
Tinuviel bocejou e abriu os olhinhos. Eles também eram dourados. Karen sorriu.
— Quero que você se divirta bastante hoje. — pediu a irmã mais velha – Dance, dance muito. Até com Garrosh, se você tiver coragem.
Karen deu uma risadinha.
— Coragem eu tenho, não sei se ele tem. — disse risonha.
Luxuriah suspirou. Até aquela conversa curta a deixava cansada. Karen percebeu.
— Vou chamar alguém pra pegar o bebê enquanto você descansa. — disse a menina – Já deu a mamadeira?
Infelizmente, Luxuriah não estava produzindo nenhum leite e Kayliel dissera no dia anterior que poderia ter sido do choque do parto difícil. A elfa ficara muito triste, mas já estava aceitando que a menina fosse alimentada com mamadeira. Claro, até agora, Kassyeh dera todas. Além de ter dado o primeiro banho. A maga monopolizou tanto a sobrinha que Rommath teve que implorar para pegar na filha.
A tensão entre o mago e seu irmão tinham acalmado um pouco, principalmente com a interferência de Lor’themar e Halduron. Os dois conversaram com Rommath e o convenceram a não expulsar o irmão de casa, além de aceitar que não fora, em hipótese alguma, culpa dele o que acontecera. Fora difícil, e tanto Kayliel quanto Rommath trocaram apenas palavras e na presença de Luxuriah, mas não se falaram mais do que o necessário. Se a elfa notou a tensão, não comentara nada, mas se mostrava muito feliz em ter os dois por perto.
— Verei você assim que sair da coroação. — disse a menina – Quero te mostrar como ficarei bonita de coroa. — brincou.
Luxuriah sorriu.
— Tenho certeza que fica.
Karen então beijou a irmã e o bebê e saiu dando um ‘tchauzinho” com a mão. Luxuriah retribuiu. Quando a menina saiu e a porta bateu, Kayliel acordou, assustado.
— O que foi? — perguntou sonolento.
— Apenas Karen. — ela respirou fundo – Eu queria muito ver a coroação… — murmurou.
— Lor’themar vai gravar com aquele aparelho mágico dele. — lembrou Kayliel.
Luxuriah assentiu. Mas ainda era frustrante.
Karen seguiu, depois de visitar a irmã, até a antessala da sala do trono. Ouvia os burburinhos que vinham do outro lado da cortina e ficou com medo pela primeira vez. Quis que alguma de suas irmãs estivesse ali, ou Tewdric, mas todos estavam lá, do outro lado, aguardando-a. Lor’themar e os demais conselheiros também estavam lá. Karen ficou sozinha com a serva por alguns angustiantes instantes e depois Vivithi e Saba entraram, para o alívio da menina.
— Achei que ia ficar sozinha aqui. — reclamou.
— Nunca! — disse Saba abraçando a amiga – A gente veio te buscar.
Daquela vez Vivithi não estava em uma roupa linda, mas com sua linda armadura. Não ficaria sossegada se ela não estivesse no controle de tudo, principalmente depois do que acontecera com Luxuriah. Ela havia discutido fortemente com Halduron, culpando o elfo por não ter dado ordens para que Grey não entrasse em Luaprata. O general-patrulheiro revidara dizendo que ele não era um exilado, então não podia simplesmente proibi-lo de entrar na cidade. Vivithi retrucara que era obrigação dele manter as meninas em segurança em sua ausência; Halduron retrucara que fizera tudo que estava em seu controle. A discussão terminou com Lor’themar mandando os dois se acalmarem e com Aethas sugerindo que Vivithi ficasse no controle de tudo na coroação e após dela, para Halduron estar livre na cerimônia. O elfo detestou a sugestão; Vivithi adorara. Preferia não se divertir, mas garantir que tudo ocorresse de forma tranquila. E, afinal, já se divertira o suficiente no baile de Dalaran e se divertiria muito mais na longa temporada que Aethas dissera que passaria em Luaprata.
E, claro, estar no controle deixara Halduron com raiva. Ótimo.
— Lembra do ensaio de ontem? — perguntou Vivithi.
Depois que Karen acordara e comera, treinara para a cerimônia antes de se cansar e passar o resto do dia dividindo a atenção entre Luxuriah e Tewdric.
— Lembro de tudinho. — garantiu a menina.
— Certo. Vamos.
Saba e Karen trocaram um último abraço e a orquisa saiu para ocupar seu lugar entre os espectadores. Quando a amiga saiu, Karen fez questão de dar um abraço em Vivithi também.
— Vai dar tudo certo. — garantiu a elfa.
— E se eu tropeçar e cair de cara no chão na frente de todo mundo? — perguntou a menina angustiada – Ou se eu deixar a coroa cair?
— Aí você sorrir, acena e continua como se isso fosse parte do espetáculo.
Karen considerou a ideia por um momento e então assentiu.
— Certo! Vamos!
Elas caminharam pelo corredor que antecedia a sala do trono e pararam na porta, que estava fechada. Karen seria anunciada e entraria, caminhando lentamente entre os presentes. Estariam representantes de todos os povos da Horda, com quem ela se encontraria depois da coroação e antes do baile. Também estaria presentes representantes das casas nobres restantes de Luaprata, além dos representantes populares. Era esperado que todos, inclusive os Cavaleiros Sangrentos, lhe prestassem juramento de fidelidade. Seria estranho ter aquelas pessoas se ajoelhando. Também estariam as representantes de Dalaran. Essas eram as que Karen tinha mais curiosidade de conhecer. Nunca vira humanos antes.
— Espere aqui. — disse Vivithi antes de sair novamente.
Karen ficou parada, em frente a porta, o coração acelerado.
Ouviu uma agitação dentro do salão. Esperou um tempo, enquanto uma voz falava coisas para as pessoas que estavam lá dentro, mas Karen estava nervosa demais para prestar atenção. Então, finalmente, ouviu a voz potente de Lor’themar anunciar:
— Princesa Herdeira do Reino de Quel’thalas, Karensky Fendessol.
As portas foram abertas em sua frente. Era sua deixa. Respirou fundo e entrou.
Os convidados estavam sentados e se levantaram quando ela entrou. Karen sentiu suas pernas tremerem. Era diferente estar de frente pra tanta gente quando estava cara a cara com as pessoas. Quando estava sozinha com alguém era fácil, as coisas fluíam. Tantas pessoas eram muito mais difícil. Porém, se forçou a andar. E andou. Passou por todas aquelas pessoas, que a encaravam, a mediam. Sabia que pensavam que ela, pequena, magra e ainda uma criança, não poderia se pôr a frente do seu povo. Que era um erro, talvez. Ou uma esperança vã. Não os culpava por pensarem isso. Era o que ela era: uma criança inexperiente. Porém, não estava sozinha. Ia ajudar seu povo a se reerguer.
Lor’themar havia dito que ela andasse firme, sem olhar par aos lados, em direção ao trono. Foi o que fez. Pelo menos, na maior parte do tempo. Não conseguiu se conter e olhou para o lado esquerdo de seu caminho, onde três tronos menores foram postos para suas irmãs assistirem sua coroação. Ash estava lá e franziu a testa, mandando-a olhar para frente. Ela obedeceu. Só por um momento. Olhou de novo. Kassyeh estava lá, sorrindo, com Tewdric atrás dela, como um príncipe consorte deveria estar. Ele levantou o polegar para ela quando viu que o olhava. Ela levantou brevemente também, sorrindo. Ouviu o pigarro do seu lado e percebeu que passava por Halduron. Baixou a mão rapidamente e olhou para frente. Quando chegou finalmente em frente ao trono, virou-se para os especadores e sentou-se ereta. Olhou novamente para as irmãs e seu coração parou. Luxuriah estava lá. Pálida, segurando Tinuviel, mas estava. Abriu um imenso sorriso para a irmã. Luxuriah fez um sinal para a frente. Karen ficou séria e encarou a plateia mais uma vez.
Lor’themar começou a discursar ao seu lado. Contou das tradições, do nascimento do falcoztruz branco. Karen olhou ao redor, mas seu pedido que Galinha participasse da coroação não foi atendido. Ele adquirira o péssimo hábito de fazer coco em qualquer lugar quando irritado e agora era mantido fora da casa o máximo de tempo possível. E também, ele estava ficando grande demais para subir as escadas. Karen pensava em construir uma casinha pra ele do lado da torre.
O discurso de Lor’themar ficou um pouco tenso quando ele começou a contar sua genealogia. Falar sobre Dath'Remar Andassol, aquele que trouxera seu povo e a Nascente do Sol não fora problema. Só que falar do rei Anasterian causava um certo desconforto, pelo menos para ela. Sabia que seu avô tinha sido infiel à esposa e isso resultara em seu pai. Só que Lor’themar conseguira por aquilo da forma mais suave possível, falando de Dhomm, como um filho perdido e não bastardo. Falou sobre Kael’thas e, momento tenso, suas “más decisões”. O que ele queria dizer era óbvio, Kael’thas traiu o povo, que ficou perdido. Ou, como diria Tewdric, “se fodeu”. Depois, falou em como o documento sobre Dhomm foi achado, como elas receberam a notícias (ele fantasiou um pouco, não tinha sido bem como ele descreveu), e a decisão das irmãs que o trono seria de Karen, por ser mais jovem, por ter um nobre coração e estar disposta a aprender. Por último, ele acrescentou sua vocação como paladina e que tinha sido “tocada pela Nascente do Sol”. Todos os olhos se voltaram para ela. Os olhos dourados falaram por si próprio e a menina viu burburinhos ao redor dos que assistiam. Com muito custo, permaneceu quieta.
— Nunca vi Karen ficar tanto tempo parada antes. — cochichou Ash para Kassyeh, que concordou.
Depois do discurso, Rommath, que estava do outro lado, pegou a coroa e entregou a Lor’themar. Não era a mesma usada por seu avô; aquela se perdera na batalha contra Arthas. Era uma inteiramente nova, feita especialmente para ela. Para os padrões élficos, era bem modesta. Dourada, com poucas pedras. Passava a imagem de estabilidade e não de ostentação. Karen havia escolhido pessoalmente. Lor’themar se colocou atrás dela e, solenemente, baixou a coroa até sua cabeça.
Karen ouvira muitas vezes a expressão ‘o peso da coroa’ naqueles meses e nunca pensou que ele fosse literal. Mas era. Quando a coroa tocou sua cabeça e ela teve que fazer força para mantê-la erguida, lembrou de todas as agruras que seu povo passara. Pensou em tudo que lhe contaram e no pouco que vivera. Esperava fazer diferente. Queria fazer diferente. Entendia que não era apenas o ouro que pesava em sua cabeça. Eram vidas. Milhares delas.
Por fim, levantou-se. Ergueu-se ereta, a coroa presa entre seus cabelos. Não fazia ideia do que eles viam. Karen só via um mar de pessoas que dependia dela. E, entre estas, pessoas que a julgariam. Teria que navegar entre os dois, lhe dissera Lor’themar certa vez. Ele estava certo.
Após receber a coroa, foi a vez de Halduron entregar a Lor’themar a espada de Karen. A menina não quisera um cetro, então Lady Liadrin partira numa missão especial para recuperar a Quel'Delar, Poder do Fiel, uma espada magistral de seu povo. Lor’themar se ajoelhou, entregando a espada para Karen, que sorriu. Houve um burburinho entre os espectadores. A visão da menina de vestido dourado e com uma coroa talvez não combinasse com a espada que ela ergueu para que todos vissem.
— Apresento a vocês, a Rainha de Quel’thalas, Karensky Fendessol. — anunciou Lor’themar.
Houve uma salva de palmas dos elfos presentes e estes se curvaram. Os demais povos, com exceção de seus líderes, também fizeram uma curvatura respeitosa. Karen baixou a espada, a prendeu em sua cintura e deu um passo a frente. Olhou brevemente para suas irmãs. Elas lhe sorriram.
Chegara o momento em que o lorde regente, o título seria mantido a pedido de Karen, mais temia: a menina ia falar. Treinara com ela diversas vezes, dizendo o que ela podia falar ou não. Mas era Karen. Não dava para esperar que ela o ouvisse.
— Gostaria de agradecer a todos vocês por ter vindo, nesse momento tão especial de nossas vidas. — disse ela com a voz firme – Digo nossas, porque não é apenas minha vida que está mudando, mas a de todos nós, meu povo, nossos aliados, nossos visitantes. Até pouco tempo atrás, meu povo sentia-se desesperançoso, o mal que se abateu sobre nós nos fazendo questionar se tudo não estava perdido. Mas não estava. A Nascente do Sol renasceu e com ela, nossa esperança.
Até então, a menina seguia o roteiro proposto por Lor’themar. Surpreendente. O elfo se permitiu relaxar um pouco.
— Termos sido escolhidas para continuar o trabalho do nosso avô marcou todas nós. — ela continuou e olhou brevemente para as irmãs – Mais do que jamais esperávamos. Nossa linhagem poderia nunca ser descoberta, ter sumido sem ser notada, se a Nascente não decidisse que éramos dignas. Esperamos que ela continue nos abençoando.
Karen estava ansiosa tentando lembrar o que tinha que falar, tentando seguir o caminho que lhe fora mostrado. Afinal, era muitos líderes ali. Só que não lembrava o que vinha a seguir. Sentiu um momento de desespero, estava tão perto de terminar! Olhou ao redor e viu Saba, que a incentivou, balançando a cabeça afirmativamente e sorrindo. Então, decidiu dizer o que sentia em seu coração. Pediria desculpas a Lor’themar depois.
— Eu sei que sou jovem. Uma criança. Para os padrões do meu povo e de muitos que estão aqui. Sei sou inexperiente e que tenho muito que aprender. Talvez faça muita besteira antes de acertar. — deu uma risadinha – Mas há algo que sei, e que é fundamental para qualquer líder: sei que eu devo servir ao meu povo e não ele a mim. Sem a confiança de vocês, a coroa é só ouro fundido e pedras brilhantes. Espero honrar a confiança de vocês.
Lor’themar teve vontade de correr e bater a cabeça na parede. Ou dar umas palmadas em Karen. Por que ela fugira do discurso? Agora, ela parecia realmente uma menina alegre demais falando. Desmerecendo sua coroa? Deixando claro sua inexperiência? E agora? Porém, as pessoas ali ficaram encantadas com a sinceridade da menina e novas palmas foram ouvidas. Karen sorriu e acenou para todos. Lor’themar decidiu que era hora de avançar. Deu um passo a frente e olhou para Karen. Ela o encarou e acenou afirmativamente com a cabeça.
— Convidamos todos para permanecerem e aproveitarem o baile, enquanto a rainha se reúne com as demais lideranças. — e indicou o caminho para ela.
Karen desceu os degraus do trono devagar, pois a coroa e a espada pesavam. Andou entre todos, recebendo sorriso e acenos. Agora ela podia acenar e sorrir e fez isso muito. Seus olhos se encontraram brevemente os de Sylvana. A rainha banshee acenou com a cabeça para ela. Karen aumentou o sorriso.
Quando saiu da vista de todos, e estava de volta a antessala, a primeira coisa que Karen fez foi tirar a coroa e olhar para Lorthemar, séria, antes de dizer:
— Prefiro o peso do elmo do que o da coroa.
Lor’themar soltou uma gargalhada.
— Eu também, Karen. Eu também.
(CONTINUA)
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