Herdeiros da Guerra
37 Capítulo XXV – Ecos do passado (PARTE III)
Notas iniciais
Uda era uma orquisa que dificilmente se surpreendia com algo. Seus anos passados pelo mundo, que lhe proporcionou a alcunha de “a Fera”, lhe mostraram coisas que levaria pessoas mais fracas à loucura ou, pelo menos, à uma grave crise nervosa. Então, ela sempre acreditou que nada em Dalaran pudesse lhe despertar qualquer sentimento mais forte que o tédio. E então descobriu que estava enganada.
Aethas bebeu um gole generoso da cerveja órquica, apreciando o gosto amargo e forte. Tewdric estava certo, nenhuma cerveja anã conseguiria aquele sabor tão distinto. O elfo então pensou que, se houvesse uma bebida que poderia representar os ideais de uma raça, seria aquela. Era forte e encorpada, como os orcs. Quando pousou a caneca na mesa e limpou a boca elegantemente com o guardanapo, viu que Uda o observava com uma expressão que só poderia ser descrita como perplexidade.
— Surpresa com um elfo tomando cerveja, Uda? — perguntou com um sorriso divertido.
— Elfos tomando cerveja tem aos montes por aqui. — disse a orquisa com sua voz rouca – Você tomando cerveja é outra história.
— E posso saber porque? — perguntou ele ainda rindo.
— Com todo respeito, arquimago, você é um almofadinha mimado e irritante. — respondeu com sinceridade.
Aquilo arrancou risadas de Aethas e Uda acabou o acompanhando. Sim, Aethas sabia que era verdade. Ele era exatamente aquilo que Uda lhe dissera ser, ou pelo menos, costumava ser assim. Porém, desde que conhecera Tewdric, desde que suas sobrinhas viraram princesas, pela Nascente do Sol, desde Vivithi, ele se sentia uma pessoa diferente. Era como se em seu coração houvesse uma tranca que mantivera o melhor de si preso durante todos aqueles anos e que agora inesperadamente se abrira. Poderia dizer que se prendera pelos pais, por Dalaran, mas não estaria sendo sincero. Aethas se prendera por puro orgulho. Queria ser o maior dos magos e agia como sempre imaginou que os magos deveriam agir. Mas percebera que aquilo era apenas um monte de bobagens. Ele era um dos melhores de sua raça e, depois do flagelo, não havia elfos velhos a quem impressionar. Pela primeira vez se sentia realmente livre.
E feliz. Aethas estava feliz como há anos não estava. A última vez que se sentira tão eufórico fora quando Kassyeh disse suas primeiras palavras: titio. Ah, Dhomm ficara desapontadíssimo e Aethas extasiado. A sensação de agora era parecida, mas muito, muito mais intensa. E não permitiria que nada estragasse sua felicidade.
— Talvez eu seja mesmo isso, Uda. — respondeu pegando novamente a caneca – Mas até um almofadinha mimado e irritante pode aprender a saborear uma boa cerveja. — ele tomou mais um gole.
— Mas não acredito que o Arquimago Aethas Fendessol saiu do bairro mais chique de Dalaran apenas para tomar uma cerveja n’O Animal Imundo. — falou a orquisa sabiamente.
— Você está certa. — admitiu pousando a cerveja na mesa – Pelo menos hoje está. Com certeza virei aqui com Tewdric um dia apenas para tomar cerveja e comer um caribu no hidromel. Mas, hoje, vim fazer negócios.
A taverna “O Animal Imundo” estava pouco movimentada naquele momento. Alguns orcs bebiam generosas canecas de cerveja enquanto diziam gracinhas para Umbiwa, a garçonete trollesa. Aethas achava que ela só ainda não os esganara porque eles estavam lhe dando sempre boas gorjetas para dançar um pouco para eles. A outra garçonete, Mimbihi se aproximou da mesa onde Aethas e Uda estavam sentados, serviu mais cerveja ao elfo e dançou um pouco para ele. Aethas lhe deu umas moedas, como sempre fazia e ela lhe deu um sorriso. Depois que a trollesa se afastou, Uda se inclinou e perguntou em um sussurro:
— São negócios da Horda?
Em outros tempos aquela pergunta o ofenderia, mas não mais. Suas sobrinhas eram realezas, todos o veriam como um possível aliado da Horda e inimigo da Aliança, não importando o quanto ele alegasse neutralidade.
— São negócios pessoais. — disse a encarando – Mas que podem ser confundidos com negócios da Horda, se o Kirin Tor souber.
A orquisa franziu a testa, sem entender.
— Eu tenho uma… — ele deu uma pausa, procurando a melhor palavra para definir Vivithi – um interesse romântico – disse por fim – que não pertence aos Fendessol. Na verdade, ela é tão Horda de coração quanto você, Uda. E preciso de um lugar discreto para que possa vê-la, sem que meus colegas do conselho saibam e decidam que minha vida pessoal é do interesse deles também.
Uda abriu um sorriso, exibindo todas suas presas. Aethas já conhecia orcs o suficiente para saber que aquele sorriso era bem mais que alegria. Era satisfação.
— Pela primeira vez você parece realmente um representante da Horda, arquimago, e não um lambe botas dos humanos. — disse ela, o sorriso aumentando.
A sinceridade de Uda era chocante, mas Aethas não se irritou com suas palavras. Há muitos anos Luxuriah lhe dizia a mesma coisa, mas sem a delicadeza de Uda.
— Então, você quer um ninho de amor. — continuou a orquisa – Certo?
Aethas assentiu sem nenhum constrangimento.
— Seu melhor quarto. — pediu – Estou disposto a pagar por mês, o quanto você quiser, para que você o deixe reservado apenas para mim. Quero exclusividade. Ninguém além de mim e ela o usando. Quero que você o mantenha sempre limpo e arejado, para que possamos usá-lo a qualquer momento. Qualquer momento mesmo. — e tomou mais um gole da cerveja.
Uda analisou o pedido por um momento. Sua melhor suíte era disputada aos tapas pelos elfos que visitavam Dalaran. Aos tapas mesmo. Uma vez ela teve que separar duas elfas que queriam alugá-lo por uma semana e que, sem chegar a um acordo, trocaram tapas durante um bom tempo na hospedaria, até que Uda as separou quando parou finalmente de rir. Porém, não podia negar que era um bom negócio. Se tivesse uma renda fixa do quarto, poderia mandar construir mais uma suíte e até expandir a hospedaria. Uda podia não ser uma goblina, mas ela sabia reconhecer um bom negócio quando via um. O dinheiro seria muito bem-vindo.
E passar a perna nos humanos do Kirin Tor era um bônus muito atrativo.
— Antes de fecharmos, quer conhecer o quarto? Você pode querer fazer umas modificações. Que serão inclusas no preço, claro. — ela sorriu.
— Vamos. — concordou Aethas se levantando.
Com um grito, Uda chamou Abohba, uma orquisa mais jovem que cuidava dos quartos. Abohba trouxe a chave que abria a suíte, que ficava no primeiro andar. Enquanto a maioria das acomodações eram coletivas, com redes espalhadas pelo andar, aquele quarto ficava fechado e quando Uda o abriu, Aethas entendeu porque.
O local era totalmente destoante do resto da taverna. Era confortável, bonito, e tinha cortinhas nas janelas que davam para os fundos da taverna. A vista não era bonita, mas dava privacidade. Para a surpresa do mago, tinha um banheiro bom, com uma banheira bonita esculpida em pedra. Apesar de não ter o conforto de sua casa, nem das pensões de Luaprata, era excelente para os padrões da taverna.
— E então? — quis saber Uda.
Aethas assentiu com a cabeça.
— Vou querer. — afirmou – Mas, já que você permitiu que eu fizesse umas mudanças…
— … Se você pagar…
— Se eu pagar… — acrescentou – Quero pedir umas coisas.
— Não quer saber quanto ficará a mensalidade? — quis saber a orquisa.
— Não. O quanto você cobrar eu pagarei.
“Ele quer mesmo comer essa elfa”, pensou Uda com um sorriso.
— Certo. E quais as mudanças?
A lista foi menor do que Uda esperava. Lençóis novos, essências perfumadas no banheiro e alguns vasos de flores no quintal, para ficar a vista da janela do quarto. Uda, depois que Aethas foi embora, decidiu dar uns mimos a mais para o Arquimago. Mandaria trocar o colchão, os travesseiros e perguntaria ao Magíster Hathorel as coisas que os elfos acham que não devem faltar numa boa suíte. Sim, faria isso. Não apenas porque Aethas nem piscou com o valor que ela lhe dera e ainda lhe pagara adiantado, mas também porque não era todo dia que via alguém na posição dele assumir tanto risco por amor a outra pessoa.
E porque ele lhe dissera que a pessoa que ele aguardava era Vivithi Theron.
O Arquimago Aethas não estava apenas correndo um risco. Corria um risco muito grande. Afinal, não estava se envolvendo apenas com uma elfa, mas com a sobrinha do Lorde Regente. Uda nunca pensou que fosse admitir isso, mas aquele elfo era muito macho. Ou muito idiota. Era provável que fosse os dois.
Enquanto Uda admirava a coragem e a falta do bom senso de Aethas, o mago caminhou de volta para sua casa. Diferente do que Uda achava, Aethas nem era ‘muito macho’, nem ‘muito idiota’. Ele apenas sabia que aquela era a única maneira de se encontrar com Vivithi de forma segura. E, mesmo com todas essas precauções que tomava, sabia que sempre haveria o risco, porque, mesmo que se sentisse livre, Aethas tinha consciência que não o era. Enquanto caminhava para sua casa, observava a vida em Dalaran. Comerciantes, aventureiros, Horda e Aliança, todos cruzando as ruas com calma e sem sequer levantar os olhos um para o outro. Como queria que o mundo fosse assim! Como queria que não houvesse aquela rixa maldita que levara sua irmã à morte e que o forçava a viver em uma balança, entre a espada e a fogueira, medindo cada passo, cada palavra, cada gesto! Sentiu-se de repente muito cansado de tudo e de todos e apressou o passo para sua casa, se perguntando se não era muito cedo para usar o orbe e pedir para que Vivithi viesse.
Mal havia chegado à sua porta, ouviu alguém chamar seu nome:
— Aethas?
Um arrepio percorreu a espinha do elfo. Era Rhonin, líder do Kirin Tor. O que diabos ele estava fazendo ali? Aethas virou-se e forçou um sorriso.
— Olá Rhonin. — cumprimentou – O que faz por aqui?
Como líder do Kirin Tor, Rhonin morava na Cidadela Violeta, junto com Vereesa e seus dois filhos. Então era realmente estranho o ver chegando em seu cavalo, do outro lado da cidade, onde não tinha parentes nem amigos. Isso significava que ele fora ali exclusivamente ver o morador que fazia parte do Kirin Tor: ele próprio. Aquilo não podia ser um bom sinal.
— Eu lhe procurei em seu gabinete e a sua jovem aprendiz disse que você não foi hoje. — disse Rhonin desmontando do cavalo – Por isso, vim até aqui.
O que levara o líder do Kirin Tor até a sua casa? Teria sido Modera que abriu a boca sobre Vivithi? E mesmo que fosse, o que eles tinham a ver com isso? A liberdade que Aethas sentira mais cedo escorria de sua alma.
— Tudo bem, vamos entrar e conversar. — sugeriu o elfo, demonstrando mais calma do que sentia. Ele abriu a porta da casa e fez um gesto para que Rhonin o acompanhasse.
Rhonin amarrou o cavalo na varanda da casa e entrou. Aethas então o convidou a sentar-se. Depois que o humano e ele estavam acomodados, Aethas perguntou:
— Posso lhe servir uma água, um chá, café ou vinho?
— Não, obrigado. — dispensou Rhonin educadamente. E olhando ao redor, elogiou – Você tem uma casa muito bonita, Aethas.
— Obrigado. — o desconforto de Aethas só aumentava.
— Eu e Vereesa não conseguimos deixar a nossa assim, tão organizada. — ele riu – Por causa dos meninos, sabe? São duas pestinhas.
— Imagino. — ele forçou uma risada.
Se Karen pudesse visitá-lo em Dalaran com certeza a casa dele não estaria tão organizada. Nem enfeitada. Talvez nem inteira.
— Então… — começou o elfo encostando na poltrona – O que me deu a honra de ter o líder do Kirin Tor na minha humilde casa? — Aethas tentou não soar sarcástico, mas foi impossível não deixar de soltar uma pontinha de sarcasmo em sua fala e Rhonin a percebeu rapidamente.
— Não vou me ater a desculpas, Aethas. — começou ele – Vim pela preocupação que Modera me expressou ao ver uma elfa sangrenta que não pertence aos Fendessol na sua casa.
Fora mais rápido do que Aethas previra, mas aquilo não o surpreendeu.
— Acho que tenho direito a uma vida privada, Rhonin. — falou secamente – Sei que tem elfos que preferem humanos, mas esse não é meu caso.
O comentário foi infeliz e desnecessário, mas Aethas sentiu-se bem ao ver que deixou Rhonin desconfortável. Casamentos inter-raciais também não eram bem-vistos pelos humanos.
— Você tem todo o direito de se relacionar com quem quiser, Aethas. E foi isso que eu disse a Modera. — aquela fala de Rhonin surpreendeu Aethas, mas o elfo ficou impassível – Na verdade, eu realmente tenho me incomodado com a forma como os membros do Kirin Tor tem bisbilhotado a sua vida. Eu acho que a desconfiança só gera mais desconfiança e se você quisesse nos trair, já o teria feito quando sua irmã morreu.
A menção a Samanthah deixou Aethas desconfortável e o elfo desejou estar usando suas vestes do Kirin Tor e seu capuz. Não queria que Rhonin visse a dor da saudade em seus olhos.
— Então por que está aqui? — quis saber o elfo, decidido a não mais esconder seu incomodo.
— Porque eu vim pessoalmente lhe dizer que você não precisa mais pedir permissão para ir ver suas sobrinhas. — revelou Rhonin – Nem para ver quem quer que seja. O Kirin Tor não é uma prisão. Você não precisa se submeter a regras diferentes apenas porque seu povo está na Horda. Não é justo.
Aethas não disse nada. Estava chocado com a notícia. Porém, o choque foi logo seguido pela desconfiança. Aquilo parecia ser bom demais para ser verdade.
— Sei que você está desconfiado. — foi logo dizendo Rhonin – E tem todo direito de estar. Mas é verdade. Não quero mais que ninguém se indisponha com você por isso.
— E todos no conselho concordaram com sua decisão? — perguntou o elfo curioso.
— Sim, claro.
Aethas pensou por um momento e então sorriu.
— Muito obrigado, Rhonin. — disse com sinceridade – Você não sabe como me sinto aliviado que você tenha esclarecido as coisas.
O líder do Kirirn Tor ficou visivelmente aliviado com a reação de Aethas. Provavelmente ele achou que encontraria mais resistência e desconfiança, mas o elfo parecia realmente feliz com a notícia.
— Fico feliz, Aethas. — Rhonin se levantou – Que bom que as coisas se esclareceram.
— Sim, claro. — Aethas se levantou também. — Também fico feliz.
O elfo acompanhou o humano até a porta e, sorrindo se despediu deste. Assim que fechou a porta, seu sorriso morreu. Voltou até a poltrona e observou o local onde Rhonin sentara. A partir daquele momento tinha que considerar sua casa como um local não seguro. Era possível que o líder do Kirin Tor tivesse posto algum feitiço de espionagem ali. Se Aethas tentasse procurar por um, isso chamaria a atenção. Talvez Rhonin até estivesse sendo honesto, mas isso não impedia os outros membros de terem colocado um feitiço nele que se desprendesse assim que o humano entrasse em sua casa. Sim, fora sincero quando disse que se sentia aliviado com o esclarecimento. Sim, estava claro. Muitas coisas ficaram claras.
Primeiro: o conselho se reuniu sem ele, para falar dele. Isso nunca acontecera com nenhum outro membro.
Segundo: a liberação servia para saber o quanto ele era chegado a suas sobrinhas. Provavelmente pensariam que ele correria no mesmo instante para ver as suas meninas, o que confirmaria para eles que era apenas as ordens do Kirin Tor que o mantinham na linha.
Terceiro: ele era espionado. De que outra forma eles saberiam que Vivithi não era dos Fendessol?
E agora, mais do que nunca, Aethas tinha que medir seus passos. Contudo, a visita de Rhonin lhe despertara uma raiva pulsante e dolorida, como a que ele não sentia a muito tempo. E, sem saber, na tentativa de aproximá-lo mais do conselho, a atitude de Rhonin fizera com que Aethas se sentisse mais afastado ainda. E aquele sentimento teria complicações graves no futuro de ambos.
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O céu estava clareando quando a tropa que fazia a segurança da Bastilha de Ventobravo durante a madrugada foi dispensada. Cansados, os soldados saíram em uma marcha lenta enquanto eram substituídos pelos companheiros escalados para o turno do dia. Entre os que agora saiam, estavam os novos subtenentes Jon e Brianna que, acompanhados de mais dois amigos soldados, se dirigiram a Taverna do Javatusco Saltitante, único local que servia café da manhã naquele horário.
O local estava bem movimento. Soldados que saíram de seus turnos dividiam espaço com os que comiam antes de assumir seus postos. Claro, nem todos os soldados de Ventobravo ganhavam o suficiente para bancarem um café da manhã ali; a maioria comia nos alojamentos. Mas, naquele dia, Brianna e seus amigos decidiram que precisavam se afastar um pouco da bastilha e comer uma comida mais saborosa, para poder lidar com os últimos acontecimentos. Por isso, contaram suas moedas, viram com satisfação que podiam bancar aquela refeição, e decidiram subir para o primeiro andar, onde estavam as mesas mais afastadas. Sentaram em uma mesa cuja janela dava para uma rua transversal com casas pequenininhas. Logo que Eliane, a garçonete, foi lhes atender, os soldados pediram canecas de café e o café da manhã clássico para quatro. Quando a moça saiu, se recostaram em suas cadeiras e se entreolharam, sem saber por onde começar a falar.
— Espero que a comandante volte logo. — quem começou foi Jon – Se eu precisar aguentar o general Crowe mais um dia, vou me jogar da torre da Bastilha.
— Se eu precisar aguentar o general Crowe mais um dia, vou jogar ELE da torre da Bastilha. — murmurou Brianna sem nenhum humor – Eu odeio aquele homem.
— E quem gosta dele? — perguntou Amara, uma das soldados que os acompanhavam.
— O pai dele. — respondeu o rapaz de nome Mark – Minha família trabalhou para os Crowe um tempo e saímos das terras dele quando o general começou a perseguir minhas irmãs. Vocês acreditam que ele teve a audácia de perguntar por elas esses dias?
Todos começaram a resmungar ao mesmo tempo quando a comida chegou. A conversa deu uma pausa e todos devoraram os ovos, queijos, pães e outras delicias que foram servidas. Por um tempo, só se ouviu o barulho das canecas batendo na mesa e dos talheres nos pratos. Quando todos terminaram, o sol já brilhava lá fora.
— Alguém ouviu alguma coisa sobre o estado da comandante? — perguntou Mark de repente.
— Eu soube que ela acordou em algum momento essa madrugada. — respondeu Brianna – Mas teve que ser sedada por estar confusa.
— É por causa do chumbo. — disse Jon sem esconder a preocupação – Eu já vi pessoas que quase enlouqueceram pelo contato com ele.
— Eu ouvi dizer que a comandante passou o dia com as balas no corpo, cavalgando, andando e voando. — havia um sincero espanto e respeito na voz de Amara – Eu não teria conseguido dar três passos.
— A comandante é especial. — disse Brianna com os olhos brilhando, cheios de admiração – Aquela mulher é capaz de dar uma surra no Crowe com as mãos amarradas para trás e pulando de uma perna só.
Todos na mesa começaram a rir e a tensão da madrugada foi se dissipando. Nenhum deles precisou perguntar por que Crowe era general e Lina apenas uma comandante; todos já estavam dentro do exército tempo o suficiente para verem o quão desigual era o tratamento dado a quem era nobre e quem não era. Soldados mais antigos disseram que a divisão era muito pior antes; fora Bolvar Fordragon que possibilitou uma maior igualdade, mas, mesmo assim, cargos como o de general eram para os privilegiados e não para os capacitados. Isso fazia com que a maioria dos soldados nem se interessasse em se promover, afinal, seu crescimento era limitado. Mesmo a comandante Wood era refém disso. E o fato daquela mulher, que era um espetáculo de soldado, não podia chegar a general enquanto um bosta como Crowe o era, só alimentava a sensação de injustiça no exército.
Enquanto tomavam a última xícara de café antes de irem para suas casas descansarem até o próximo turno, Amara, a mais jovem dos quatro, tinha algo que queria dividir com os outros, mas estava com medo. Era uma desconfiança que já alimentava a algum tempo e que aumentara sensivelmente na noite anterior. Porém, tinha medo de ser mal interpretada. Por isso, esperou que todos estivessem mais relaxados e então começou:
— Sabe gente, eu andei pensando numa coisa…
— Ihhhhh!!!! — exclamou os outros três antes de caírem na risada. Sempre faziam isso porque diziam que as ideias da jovem eram muitas vezes absurdas demais.
— É sério! — defendeu-se ela sentindo o rosto arder de vergonha – É sobre a comandante. E o rei.
Todos imediatamente se calaram e a olharam, intrigados.
— A comandante sempre disse para a gente para não nos envolver com o alto-comando. — começou a jovem – Ela diz…
— Onde se ganha o pão, não se come a carne. — completou Brianna, que já ouvira o discurso várias vezes.
— Isso mesmo! — se empolgou Amara – Mas isso não significa que alguém do lado de lá não tenha o interesse no lado daqui.
Os três continuavam a olhá-la, sem entender. Amara suspirou.
— Eu estou tentando dizer para vocês que tenho motivos para acreditar que o rei está apaixonado pela comandante.
Houve um momento de silêncio estarrecedor e então os três começaram a gargalhar.
— É sério! — exclamou a jovem com um misto de vergonha e raiva – Eu tenho reparado muito nos últimos tempos! Até fiz uma lista com minhas desconfianças!
A risada dos três pararam, mas não por causa da raiva de Amara, mas porque a jovem puxou um pedaço de pergaminho amassado do bolso e o agitou na frente dos amigos. Eles se entreolharam, sem querer acreditar que a jovem, além de realmente acreditar no que dissera, também escrevera. Todos a encararam, incomodados.
— Amara, isso que você disse é muito sério. — falou Brianna em tom sombrio – Se alguém além de nós ouvir que você acha que a comandante…
— Aff, vocês não me ouviram?! — Amara estava exasperada – Não é a comandante! É o rei! Vocês querem ouvir minha teoria ou não?
— Você tem uma teoria? — perguntou Mark incrédulo – Sobre o rei?
— Exatamente. E aí? Vão ouvir?
Todos sabiam que não era prudente falar sobre coisas que envolviam o rei, principalmente se fossem as ideias absurdas que Amara costumava ter, mas a curiosidade e a certeza no olhar dela, além do misterioso pedaço de pergaminho em suas mãos, fez com que os outros decidissem lhe dar uma chance de falar.
— Vai, Amara. — disse Jon – Comece.
A jovem sorriu animada e baixou os olhos para o pergaminho aberto em suas mãos.
— A primeira vez que notei algo estranho foi no baile em que a comitiva de Guilneas chegou. — começou – Tipo, todos vimos que a comandante estava absurdamente linda e irreconhecível. E o rei, quando a viu na hora da entrega da medalha, teve uma atitude muito, muito estranha…
— Todos nós ficamos chocados com a aparência da comandante. — refutou Brianna – Isso não significa nada.
— Ai, ai, você não entendeu? — Amara revirou os olhos – Não foi só o susto, mas foi a intensidade do susto. Tipo, como se ele a tivesse visto antes e pensando ‘que mulherão’ e depois ‘pela Luz, a mulherão é a comandante!’. A reação dele foi muito intensa e muito estranha. Na minha teoria, ele se apaixonou por ela ali.
— Ah, ela estava realmente apaixonante… — comentou Jon sonhador antes de levar um soco de Brianna no braço – Ai!
— Continue. — pediu Brianna querendo ver até onde iam as doidices de Amara.
— No dia seguinte, a comandante recebeu um monte de rosas. — continuando a olhar seu pergaminho – E eu estava na sala do rei quando Mathias Shaw sugeriu que ia convidá-la para sair. O rei ficou muito, muito furioso e mandou Mathias não incomodá-la. — ela levantou os olhos para os colegas – Ciúmes, na minha opinião.
— Espere. — interrompeu Mark – Eu estava com você nesse dia. Realmente o rei mandou o Shaw ficar longe, mas pelo que entendi, era pra não atrapalhar o trabalho da comandante.
— Era a única desculpa que ele podia usar. — justificou a jovem – E, além do mais, talvez ele nem tivesse reparado que estava apaixonado por ela. — e olhando no pergaminho, continuou – Depois disso, o rei começou a ir pelo menos três vezes por dia na sala da comandante, enquanto a média de visitas antes era de uma a cada dois dias.
— Como diabos você tem certeza disso? — questionou Brianna incrédula – Você não pode ter tanta certeza!
— Eu sei porque eu sempre fico de vigília na sala dos mapas ou na sala do rei. — explicou – E vocês sabem, ficar de vigília é um saco. Aí eu fico reparando em tudo.
Ninguém questionou aquilo. Todos sabiam como era chato ficar horas parado esperando alguma coisa acontecer. E, além do mais, Amara era conhecida pela memória excelente que tinha. Todos soldados recorriam a ela para lembrar o horário das trocas de postos, as folgas dos colegas
(ela lembrava de todas as folgas dos trinta e sete soldados de sua ala da bastilha), dos aniversários e até era usada como testemunha em empréstimos de dinheiro e troca de horários.
— Continuando. — Amara estava cada vez mais animada com a atenção que sua teoria recebia – Eu me toquei do que estava acontecendo no dia em que foram abertas as festividades do Véu de Inverno. A comandante e o rei ficaram sozinhos conversando e, quando ele saiu, parecia chateado e ela, nervosa. Eu acho que ali ela já tinha percebido. Talvez ele até tivesse se declarado ou coisa assim.
— Não poderia ser algo relacionado ao trabalho? — quis saber Mark desconfiado.
— Se fosse do trabalho, não haveria motivos para o rei ficar chateado, porque a comandante faz tudo que ele manda. — lembrou Amara – Ou vocês, que estão a mais tempo que eu, já a viram ficar contra o rei alguma vez?
Nenhum deles nunca tinha visto porque aquilo nunca acontecera. Pela primeira vez desde que a história começara eles se entreolharam. A dúvida havia se instalado.
— Então, no dia 23, a véspera da véspera do Véu de inverno, o rei deu um presente para a comandante. — leu Amara.
— Espere! — interrompeu Brianna – Como você sabe disso?
— Eu vi a comandante chegar na bastilha com roupas civis. Ela sumiu um tempo e depois reapareceu e estava usando um colar de ouro lindo.
— Ela poderia ter ganho o colar de Arshe. — retrucou Mark.
— Eu vi o mesmo colar da comandante em um quadro da rainha Taria. — replicou Amara com simplicidade.
Silêncio.
— E então, ontem. — Amara estava feliz de ter a atenção total de seus amigos – Ontem a comandante apareceu daquele jeito e o rei simplesmente surtou.
— Todos nós surtamos! — protestou Jon – Todos nós nos preocupamos com a comandante!
— Mas o rei a chamou de ‘Lina’. Várias vezes. — salientou – Antes de pegá-la no braço e levá-la para dentro da bastilha. Quem mais o rei chama pelo primeiro nome além das pessoas mais próximas a ele?
O choque no rosto dos três era evidente agora porque disso eles lembravam. Não haviam se tocado até então, mas o rei chamara a comandante pelo primeiro nome sim. Agora, diante do que Amara expusera, começaram a relembrar a noite anterior e Brianna, relutantemente, falou:
— O rei me pediu para levá-lo até onde os Jones estavam. — ela bateu os dedos na mesa, nervosa – Quando um dos irmãos fez uma piada com a comandante, o rei mandou eu abrir a cela e quase estrangulou o cara. E disse que eles rezassem para que ela vivessem, os eles desejariam ter sido capturados por Grito Infernal.
— Ahá! — exclamou Amara feliz – Mais uma coisa pra minha teoria! — e puxou um lápis do bolso da frente do uniforme e pôs a escrever furiosamente no papel.
Quando a jovem terminou, olhou com ansiedade para os colegas e perguntou:
— Então? Vocês acreditam em mim?
Os três se entreolharam novamente.
— Faz um pouco de sentido. — admitiu Brianna a contragosto – E condiz com a reação que eu vi o rei tendo ontem nas celas do subsolo. Mas uma coisa você não disse, Amara. E a comandante? Como ela fica nessa sua teoria?
Amara apertou os lábios, pensativa.
— Acho que a comandante sabe, mas, se ela sente o mesmo, esconde muito bem. Ela sempre está se afastando dele. Tenho a impressão que, mesmo que ela sentisse algo, nada aconteceria entre os dois. Ela ama o exército mais do que qualquer coisa. — respondeu com convicção.
— Então você acha que eles não tem um caso? — perguntou Mark.
— Não. Acho que ele é apaixonado por ela e ela o mantêm distante. — havia uma pontada de tristeza na fala da jovem.
Aquilo condizia muito bem com a comandante que eles conheciam. Porém, ainda não estavam convencidos da teoria de Amara. Parecia mais coisa de romance, daqueles que tinham na biblioteca de Ventobravo e que as adolescentes liam com voracidade.
— Não precisam acreditar em mim. — disse Amara dobrando o papel e o guardando de novo – Apenas me deem o benefício da dúvida. E prestem atenção a partir de agora.
— É, acho que isso posso fazer. — disse Brianna.
— Eu também. — concordou Jon.
— E eu. — disse Mark também.
A jovem soldado abriu um sorriso, satisfeita. Ser ouvira e ter, pelo menos, a sua teoria considerada era suficiente para ela. Tinha certeza que, mais cedo ou mais tarde pelo menos um dos três amigos perceberiam que sua teoria era verdadeira. Depois de um breve silêncio, os quatro deram por encerrado o café da manhã, pagaram tudo, se despediram e foram para suas casas descansar. Porém, nem mesmo a otimista Amara poderia suspeitar que, antes do final daquele dia, seus amigos não apenas dariam crédito a sua teoria, mas acreditariam nela piamente.
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Lor’themar manuseou o objeto com delicadeza. Fazia décadas que não o via e ficava feliz por lembrar onde o guardara. Tinha certeza que seria uma surpresa muito boa para Ash e Karen, mas não tinha tanta certeza quanto a Luxuriah e Kassyeh. Talvez devesse mostrar primeiro para as mais jovens. Na verdade, o mostraria para Ash e pediria a opinião dela.
Era estranho como se sentia feliz com esse simples pensamento, de pedir a opinião dela. Estava acostumado a ser sozinho, a arcar com o peso de todas as suas decisões, até a mais simples como aquela. Poder ter alguém que poderia, ao menos, lhe dar outra perspectiva das coisas, era reconfortante. Pegou um pano de seda e cobriu o objeto. Então, foi até onde Ash estava.
Ash não estava sozinha. Ela dividia um enorme prato de biscoito com Karen e Saba, enquanto tomavam chocolate quente e jogavam algo em um tabuleiro bem colorido, em frente a lareira do salão principal. Devia ser um dos jogos que Karen ganhara no Véu de inverno. Não havia nenhuma outra pessoa a vista.
— Olá, meninas. — falou ele se aproximando – Posso me juntar a vocês?
Quando Ash levantou os olhos e sorriu para ele, o coração de Lor’themar deu uma volta de 360 graus dentro de seu corpo. Era simplesmente forte demais as sensações que aquela jovem elfa despertava em sua alma velha. Sorriu de volta e desejou que ela sentisse pelo menos um terço do que ele sentia.
— Você pode jogar a próxima partida conosco. — convidou sua namorada enquanto ele sentava ao seu lado no chão.
— Mas se vocês começarem a se beijar, eu taco esse tabuleiro na sua cabeça! — ameaçou Karen franzindo a testa.
Saba caiu na risada.
— Karen tá com ciúme! — provocou a pequena orquisa.
— Tô mesmo! — admitiu a menina antes de olhar para Lor’themar e apontar os dois dedos para os olhos e depois para o elfo.
Foi impossível não cair na gargalhada depois disso. Porém, para respeitar a vontade de sua futura rainha, Lor’themar se manteve respeitosamente ao lado de Ash, jogou uma partida sem que o tabuleiro voasse em sua cabeça e, por fim, viu as duas meninas se entediarem e partirem em busca de outra coisa para fazer. Até lá, o prato de biscoito e as canecas estavam vazios.
— Onde estão suas outras irmãs? — perguntou o lorde regente.
— Kass está no laboratório e a Lux no quarto. — respondeu Ash guardando o jogo numa caixa – Por que?
— Quero lhe mostrar uma coisa. — confidenciou ele em voz baixa – Apenas para você.
Se Lor’themar soubesse o quão sensual sua voz saiu, talvez usasse o tom mais vezes. Ash sentiu-se perder o fôlego e seu rosto ficou rubro como o tabardo de Luaprata. Não entendia bem porque, mas sentiu uma expectativa excitante diante do convite.
— O que é? — perguntou num fio de voz.
— Venha comigo. — chamou.
Ash foi. Pela Nascente do Sol, ela iria até o inferno com ele se o pedido fosse feito da forma como este o fora. Lor’themar a tomou pela mão e a levou escada acima e, por um momento, Ash pensou que ele fosse a levar para o quarto. Seu coração ficou em disparada até que o elfo tomou o caminho da sala de estar que ficava no último andar da torre. Foi impossível não ficar um pouco desapontada, mas, ao mesmo tempo, aliviada. Eram sentimentos contraditórios, mas a jovem elfa deixaria para pensar nisso depois. Agora, sua atenção estava voltada para o meio da sala, onde um objeto que parecia uma mesa estavam cobertos com uma toalha de seda.
— Sente-se. — pediu Lor’themar apontando uma imensa poltrona em frente a estranha mesa – A temperatura está boa para você ou quer que mande pôr mais lenha na lareira?
— Está boa. — respondeu ela. Depois de falar, pensou que, se fosse tirar a roupa, talvez fosse mais interessante estar mais quente. Aboliu esse pensamento rapidamente enquanto se sentava. O que ele pensaria dela se soubesse que essas coisas estavam tomando sua mente?
— Eu tenho isso há séculos. — começou Lor’themar olhando para a mesa – Fiquei surpreso que tenha sobrevivido à invasão do flagelo e a tudo que se seguiu depois. Confesso que, depois da morte de seu pai, evitei pensar sobre isso. Só que, depois de… — ele a olhou e sorriu um pouco – nós… Eu achei que estava na hora de ver se ainda funcionava. Queria lhe dar um presente digno de você.
— Você já me deu um presente maravilhoso, Lor’themar. — disse ela corando – Você me deu seu coração.
O elfo ficou sem jeito por um momento, mas logo recuperou a compostura.
— Esse presente é maior do que eu, pequena Ash. — ela praticamente se derreteu quando ele a chamou daquela forma – Você vai entender.
Ele puxou o pano e Ash reconheceu o objeto. Era uma mesa receptora de imagem e som. A maioria era usada para transmitir mensagens entre os membros da Horda, através de magia. A jovem franziu o cenho. Lor’themar queria lhe dar a mensagem de alguém?
— Sei o que parece, mas não é uma mesa receptora. — esclareceu – Ela é reprodutora. Reproduz imagens e sons gravados a tempos.
— E o que você vai reproduzir? — perguntou curiosa.
Ele sorriu, enigmático.
— Você verá.
Sob o olhar atento e curioso de Ash, Lor’themar mexeu em alguns comandos que a elfa não entendeu. Depois, pegou uma caixa dourada e de lá tirou um cristal reluzente. Inseriu na mesa, acionou uma alavanca e então foi para o lado de Ash, no sofá.
Demorou alguns segundos e então a mesa se acendeu em uma suave luz azul. Uma figura foi se formando, do mesmo tamanho que as imagens de mensagens (que era de apenas dois palmos), mas bem mais nítida e de contornos definidos. Foi com espanto que Ash viu seu próprio rosto surgir no holograma e depois começar a cantar com a voz mais linda que a jovem já ouvira na vida.
Foi preciso alguns instantes para que Ash percebesse de quem se tratava. E quando o fez, seus olhos se encheram de lágrimas. Lor’themar a aconchegou no ombro e Ash deixou-se aninhar nele, enquanto ouvia sua avó, Lady Luelly, cantar uma doce música sobre amores perdidos, numa voz melodiosa, que há séculos estava presa naquele cristal. Embalada naquela canção, Ash lembrou de todas as histórias que ouvira sobre aquela elfa e percebeu que nenhuma dela fazia jus ao que ela realmente era. E se, um simples holograma mágico causava uma impressão tão forte, como teria sido conviver com aquela magnífica criatura? Não era por menos a devoção que seu pai tinha por ela. E agora conseguia compreender como, mesmo grávida e sozinha, ela conseguiu manter sua posição dentro da sociedade élfica. Lady Luelly não era apenas encantadora; era uma mesmerizadora, que fazia com que todas as coisas saíssem de sua cabeça ao cantar. Ash sentiu-se atraída por aquela imagem com tanto ardor que, quando a música acabou e a imagem sumiu, ela sentiu um vazio imenso.
— Quê… — foi a única coisa que conseguiu murmurar.
— Eu sabia que você ia gostar. — murmurou Lor’themar limpando as lágrimas de Ash – Essa era sua avó, em todo seu esplendor.
Ash não falou nada por um tempo. Lor’themar se levantou, tirou o cristal da mesa com cuidado e depositou-o com cuidado de volta na caixa. Depois, ele voltou para o seu lado e passou o braço em seus ombros. Ash se aconchegou novamente.
— Você tem outros? — perguntou em um fio de voz – Outros cristais desses?
— Sim, tenho muitos. — respondeu – Meus pais eram fãs dela, você sabe. Então…
— Por que você nunca nos mostrou isso? Durante esses anos? — o tom de Ash saiu um pouco acusatório, mas Lor’themar já esperava por isso. Passou os dedos no cabelo dela antes de responder:
— Depois que sua avó morreu, seu pai se recusou a ouvir qualquer cristal que contivesse a imagem e voz de sua mãe. Eu respeitei sua vontade.
— Da mesma forma que a Lux não queria falar deles… — murmurou a jovem.
Lor’themar assentiu.
— E depois que seu pai morreu… — ele não precisou falar mais nada, pois já tinham tido essa conversa.
— Entendo… — murmurou ela e realmente entendia. Por isso, deu um beijo simples, mas apaixonado em seus lábios – Obrigada. Obrigada por me mostrar a vovó Luelly.
Com um sorriso galanteador nos lábios, Lor’themar disse:
— E se eu te dissesse que tenho alguns do seu pai?
Os olhos de Ash se arregalaram e ela, linda como uma ninfa, gritou:
— O quê?!
— Tenho seu pai gravado cantando. — confirmou Lor’themar, satisfeito com a reação dela – Ele detestava se ver e se ouvir, então sua mãe me dava os cristais que ele gravava pra que depois ele não pudesse quebrá-los num acesso de autocrítica.
O coração de Ash batia descompassadamente e sua mão estava fria quando ela segurou com força o braço de Lor’themar. Seus olhos estavam arregalados e ansiosos.
— Mostre-me! Agora! — ordenou.
A ordem não era necessária, pois Lor’themar já estava pronto para isso. Ele levantou-se e, com cuidado, pôs mais um cristal na mesa. Agora que sabia o que esperar, Ash sentou-se na ponta do sofá, apertando as mãos e olhando com ânsia para a mesa. Logo, uma imagem azulada de um elfo sentado de pernas cruzadas apareceu. Seu pai. Mais jovem do que ela lembrava, com os cabelos soltos e um violão no colo.
— Já está gravando? — ele fala olhando para frente.
— Sim, está. — uma segunda voz se fez ouvir.
Ash estremeceu. Era Samanthah.
Dhomm, na imagem mágica, franziu a testa.
— Você tem certeza que é uma boa ideia? Eu não gosto disso, você sabe. — reclamou.
— Eu gostaria de gravar essa música. — falou a voz fantasmagórica de Samanthah – Você sabe como isso é importante para mim.
Resmungando, Dhomm ajeitou o violão no colo e suspirou.
— Tudo por você. — disse antes de começar a cantar.
Ouvi-lo era muito melhor do que Ash se lembrava. Ela bebeu todas as notas, com os olhos úmidos e um sorriso no rosto. Aproveitou todas as estrofes, todas as rimas, e se deleitou com a imagem de seu pai, ainda que mágica e perdida no tempo. Seu coração se aqueceu e Ash sabia que nada, nada, poderia tirar aquela sensação boa de dentro dela. Quando a música acabou, seu pai sorriu. Ash sorriu de volta e desejou por um momento, poder falar com ele, dizer o quanto o amava. Mas era apenas uma lembrança e logo a imagem se desfez. Lor’themar retirou o cristal e, sem falar nada, colocou outro. Logo, outra imagem de Dhomm apareceu, mas dessa vez ele estava com o cabelo preso, roupas elegantes e estava de pé. Não houve conversa dessa vez, apenas música. Ash se surpreendeu quando Lor’themar se aproximou e estendeu a mão.
— Concede-me essa dança? — perguntou.
Ash olhou para a imagem de seu pai e depois novamente para Lor’themar, afirmou com a cabeça e aceitou a mão. E, enquanto Dhomm cantava a música que fizera para Samanthah, os dois dançaram lentamente, abraçados, o elfo mais velho sentindo o coração acelerado da jovem em seus braços. Por um momento, Ash imaginou que seu pai estava vivo, cantando para ela, embalando e abençoando seu relacionamento.
“Seria assim em nossos casamentos?”, pensou a jovem entristecida. “Ele cantaria dessa forma quando nos uníssemos aos nossos amados?”.
O pensamento a fez colocar a cabeça no peito de Lor’themar e chorar silenciosamente. Ele a aconchegou mais em seus braços, embalando-a em meio da dança, e derramando discretas lágrimas. Sim, Lor’themar também sentia a falta de Dhomm, e também se emocionara ao ouvir sua voz de seu amigo morto. Evitara ouvi-lo por anos, mas proporcionar aquilo a Ash era mais importante que seus sentimentos. E, mesmo que ela estivesse chorando, sabia que fizera a coisa certa.
A música acabou. Lor’themar decidiu que, por aquele momento, era suficiente. Em outro dia, eles ouviriam mais. Ash sentou-se enquanto Lor’themar retirava o cristal e o guardava com os outros. Depois, a caixa foi fechada definitivamente, pelo menos por aquele dia. Não trocaram nenhuma palavra até que ele sentou-se ao lado dela.
— Eu gostaria de mostrar às suas irmãs. — disse ele com cuidado – O que você acha?
Ash pensou por um momento.
— Karen vai amar. Kass também. — então ela hesitou um pouco – Não sei a Lux… Há algum tempo eu nem cogitaria mostrar isso a ela, mas hoje em dia… — Ash o encarou – Talvez ela queira ver, pelo menos os da vovó Luelly.
Lor’themar assentiu.
— Tudo bem. Falaremos com elas na primeira oportunidade. — sugeriu ele.
— Certo.
Ficaram em silêncio mais algum tempo e então ele passou os dedos nos cabelos dourados dela. Ash o encarou.
— Sabe o que você precisa? — perguntou Lor’themar com um sorriso no rosto – Uma boa taça de vinho.
A jovem sorriu de volta.
— Concordo.
Lor’themar então se levantou e ofereceu a mão novamente para Ash, que aceitou. Saíram então da sala, em direção ao salão principal, de mãos dadas, mas cada um imerso em seus próprios pensamentos.
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Um Lor’themar diferente, menos traumatizado e sem imaginar que um dia se tornaria lorde regente e se apaixonaria pela filha de seu melhor amigo, bateu à porta da nova casa de sua sobrinha amada, preocupado e um pouco furioso. Não com Vivithi, claro. Aquela menina jamais despertaria tal sentimento no elfo. Sua fúria era direcionado a Annatar.
Pela primeira vez, Lor’themar fora sincero ao admitir para si mesmo que nunca gostara do noivo da sobrinha. No início, atribuiu aquele desgosto pelo elfo altivo e orgulhoso ao ciúme de tio, afinal, amava Vivithi como se fosse sua própria filha. Porém, depois de conversar com Samanthah, ele refletiu sobre seus próprios sentimentos e chegou à conclusão que sua hesitação em relação a Annatar era seu instinto lhe alertando que ali havia alguém sem caráter e maldoso. Se tivesse dado ouvidos aos alertas de seu coração, estaria sua sobrinha naquela situação? Sim, ele agora sabia em que Vivithi estava mergulhada. Em nenhum momento duvidara do relato de Samanthah. Confiava na elfa, não apenas porque ela não tinha motivos para mentir sobre aquilo, mas porque, tal como ele, Samanthah tinha instintos afiados. E gostava de Vivithi.
Quando a porta foi aberta, Lor’themar tomou um susto. Sua sobrinha estava diferente. Abatida, pálida e mais magra que da última vez que se viram. Nem parecia a elfa imperiosa que o deixava transbordando de orgulho. O elfo precisou de uns segundos para se recuperar da surpresa desagradável.
Tal como o tio, Vivithi tivera um susto. Porém, este foi motivado pela surpresa de ver o tio ali parado à sua porta. Normalmente Lor’themar sempre avisava que apareceria e Vivithi poderia dizer se estava ocupada ou não. A aparição repentina deixou o coração da elfa aos pulos por dois motivos: primeiro, estava muito feliz de vê-lo. Segundo, temeu que algo tivesse acontecido. Porém, o primeiro pensamento a dominou e, quando deu por si, Vivithi estava com os braços envolvendo o pescoço de Lor’themar numa mistura de alívio e apreensão que não soube explicar.
— Tio! — exclamou sem entender porque de repente lhe batera uma vontade imensa de chorar – Que saudades!!!
Lor’themar devolveu o abraço, apertando-a bem a si. Por um momento lembrou de quando ela era pequena e se pendurava em seu pescoço, pedindo beijos. Como sentia falta daquele tempo!
— Olá, querida. — disse ele agora sorrindo – Também estava morrendo de saudades.
Vivithi o soltou e olhou bem em seus olhos, ficando agora um pouco preocupada.
— Aconteceu algo? — quis saber – Com papai ou mamãe?
— Não, não. — tranquilizou-a – Estão bem. Vim porque quero conversar um pouco com você. Pode ser?
— Claro! Entre!
Lor’themar entrou e olhou ao redor. O apartamento era bom, mas não estava à altura de Vivithi. Muito simples, na opinião dele. A decoração era minimalista, nada parecendo com a exuberância do quarto da garota na casa dos pais. Pela Nascente do Sol, até o quarto dela em sua casa era mais bonito que ali. Definitivamente não parecia a casa de Vivithi, mas de outra pessoa.
— Gostou? — perguntou ela ansiosa.
— É bonito, mas não parece você. — respondeu com sinceridade – Quem decorou?
Vivithi hesitou um pouco, sem entender o porquê, e respondeu timidamente:
— Annatar.
Lor’themar não disse nada, apenas levantou as sobrancelhas.
— Vocês estão morando juntos? — quis saber o elfo.
— Claro que não, tio! — respondeu esbaforida – Você sabe que eu não moraria com alguém antes de casar! Quer dizer, ele passa um tempo aqui, mas não mora!
— Então por que ele decorou seu apartamento e não você? — indagou.
Sem jeito, a elfa respondeu:
— Ele acha meu estilo ostensivo demais…
Ali estava a prova de que tudo que Samanthah lhe dissera era verdade. Mesmo que não duvidasse de sua amiga, aquela confirmação deixou o coração de Lor’themar apertado. Uma parte dele ainda torcia para que a maga estivesse enganada, mas, pelo visto, não estava.
— Querida! — ouviu-se uma voz vinda do quarto – Com quem você está falando?
Annatar apareceu na sala e se surpreendeu ao ver Lor’themar parado ali. Por um momento, o elfo mais velho teve a certeza de ver uma raiva pulsante no olhar do outro, mas esta logo foi contida e substituída por uma falsa alegria.
— Meu caro Lor’themar Theron! — saudou ele com um entusiasmo forçado – Há quanto tempo!
— Annatar. — disse Lor’themar, um pouco seco – Há quanto tempo mesmo. Estava quase achando que você queria manter minha sobrinha longe da família. — alfinetou.
— Tio! — exclamou Vivithi assustada – Claro que não é isso!
— Eu sei, querida. — disse ele olhando para a sobrinha e rindo – Estou brincando.
Vivithi ficou aliviada, mas Annatar estava visivelmente incomodado com a presença do elfo. Decidido a não sair dali sem conversar com a sobrinha, sorriu ainda mais para ela e perguntou:
— Não vai me convidar para sentar?
— Ah, tio! Desculpe! Sente! Sente! — Vivithi estava tão feliz com sua presença ali que Lor’themar ficou comovido. O quão sozinha ela estava se sentindo?
Annatar também sentou-se, sem deixar de encarar o patrulheiro. Lor’themar o ignorou sem problemas.
— Faz tanto tempo que não conversamos. — disse ele sem esconder a tristeza por aquele fato – Você deve ter muita novidade para me contar.
— Nem tanto. — falou Vivithi – A vida segue a mesma.
— E o teste para patrulheira? — perguntou – Sylvana não quer me dizer de forma alguma como foi.
Com esta deixa, Vivithi pôs-se a falar animadamente do teste e como estava esperando ansiosa ser convocada. Enquanto ela falava do trabalho que queria executar, Lor’themar observava discretamente Annatar com o canto do olho. O elfo parecia desconfortável com o discurso de
Vivithi e até com raiva. Lor’themar deixou que sua sobrinha falasse à vontade, vendo o brilho no olhar dela pela primeira vez desde que entrara ali. Enquanto ela falava, ele segurava uma das mãos dela e percebeu que os calos estavam bem menos evidentes que antes.
— Você tem treinado? — perguntou virando a mão dela e olhando a palma – Sua mão está um tanto quanto lisa.
— Menos do que eu gostaria. — admitiu sem jeito – Muita coisa para fazer.
— O que seria mais importante que seu treinamento? — questionou franzindo a testa.
— Arrumando os detalhes do nosso casamento. — cortou Annatar secamente – É a prioridade dela nesse momento.
Lor’themar o encarou, serenamente.
— Minha cunhada me disse que era sua mãe quem estava cuidado dos detalhes. — comentou com suavidade – Com tanto empenho que Celebrian acha que sua mãe não acredita que nossa família tem capacidade para tratar desse assunto.
— Minha mãe disse isso? — Vivithi estava chocada.
— Disse. E ainda completou que está se sentindo mais uma convidada que a mãe da noiva.
O desagrado de Annatar era evidente agora. Ele se inclinou para a frente e falou, visivelmente irritado.
— Minha mãe tem um bom gosto excelente. — sibilou – Ela cuidará de tudo e nosso casamento será maravilhoso!
— Ah, então já que sua mãe cuidará de tudo, Vivithi poderá treinar. — falou Lor’themar animadamente – O que acha de treinar comigo todas as manhãs? — perguntou à sobrinha.
O rosto de Annatar estava agora rubro de raiva, mas Vivithi não reparou. Estava animada demais com a proposta do tio.
— Claro! Seria ótimo! — concordou sem pestanejar.
— Ótimo! — Lor’themar bateu as mãos – E sabe, deveríamos comemorar, mas está cedo demais para abrir um vinho, então que tal um chá?
— Claro, farei agora mesmo! — disse Vivithi empolgada se levantando e indo até a cozinha – Mas estamos sem nenhum doce, tio. Sinto muito.
— Ora, Annatar pode ir comprar alguns. — sugeriu o elfo sorrindo para o noivo da sobrinha – Seu pai sempre diz que ele é prestativo, então não vai se importar.
O elfo mais jovem parecia que ia explodir de raiva, mas assentiu com a cabeça e se levantou.
— Não vou demorar. — disse entre os dentes.
Lor’themar ofereceu-se para pagar os doces, mas, é claro, Annatar negou. E assim que o elfo saiu, Lor’themar deixou o sorriso morrer e foi até a cozinha, onde sua sobrinha colocava água para ferver.
— Tio, pode esperar na sala. — disse ela procurando algo no armário – Tenho aqui aquele chá que você ama! Forte e com creme, certo?
Porém, ele não respondeu. Colocou a mão no ombro dela e Vivithi se virou para encará-lo, segurando um pote com chá. Havia uma tristeza tão profunda nos olhos dele que a elfa ficou sem reação.
— Vivi. — ele a chamou pelo apelido de infância, coisa que não fazia há anos – O que está acontecendo? — perguntou preocupado.
Por um momento, Vivithi sentiu-se como criança de novo. Lembrou-se de quando quebrara o arco de Lor’themar durante uma brincadeira e como se sentira culpada quando ele lhe perguntou se fora ela. Aquilo era uma besteira, disse para si mesma. Por que deveria se sentir culpada naquele momento? Não devia, mas era assim que se sentia. Como se tivesse feito algo muito errado.
— Como assim, tio? — perguntou, mas tinha medo da resposta.
— Eu conversei com Samanthah. — foi tudo que ele disse – Ela me contou tudo.
Imediatamente Vivithi caiu no choro. Lor’themar, que não esperava aquela reação, ficou sem saber o que fazer. A chaleira começou a apitar no fogão e o elfo correu para apagar o fogo. Depois, tirou o porte com chá das mãos de sua sobrinha e a fez se sentar em uma cadeira. Coube a ele fazer chá para ambos e então sentar-se à sua frente, ali mesmo na cozinha, enquanto os raios de sol entrava pela janela e os iluminava. Vivithi, em meio às lágrimas e naquela luminosidade, parecia bem mais jovem do que era.
— E-Eu não q-queria magoá-la… — balbuciava.
Lor’themar tomou sua mão e a apertou.
— Eu sei. — disse com tom reconfortante – Mas, querida, preciso saber por você o que está acontecendo.
Vivithi começou a falar. Só então a elfa percebeu como queria conversar com alguém sobre aquilo. Contou tudo, desde as conversas com Samanthah, até o que tinha reparado de Annatar, a conversa que tiveram, como tinha medo de a família dele não aprová-la por ter amizade com Samanthah, tudo. Contou do caderno dourado também. Quando terminou de falar, sentiu-se aliviada e ao mesmo tempo, preocupada. O olhar de seu tio lhe dizia que Lor’themar não gostara nem um pouco do que ouvira.
— Posso ver o caderno? — pediu ele.
— Joguei fora. — admitiu Vivithi envergonhada.
Lor’themar suspirou. Segurou a mão de Vivithi com suas duas mãos e a encarou com intensidade.
— Vivithi. — começou com a voz firme – Você é mais do que a noiva de Annatar. Você é Vivithi Theron. Você tem que lembrar que, independente dele, você tem a sua vida. Já tinha antes dele, e continuará tendo. Por favor, não deixe que ele a faça esquecer disso.
— Tio… Eu amo Annatar. — murmurou.
— Mas você deve se amar em primeiro lugar. — retrucou com suavidade – Veja só você, abrindo mão de tudo que gosta por causa dele. E ele? Do que abriu mão?
Vivithi não tinha resposta para aquilo.
— Não estou pedindo para você terminar com ele. — afirmou Lor’themar apesar de desejar exatamente o contrário: porém, se o fizesse, não seria muito diferente do outro elfo – Apenas se imponha, ok? Não se deixe dominar.
— Ok… — sussurrou a elfa sem muita convicção.
— E lembre que a família de Annatar não manda em suas amizades. E você não precisa da aprovação deles. Quem vai casar com você é ele e não a mãe dele.
Vivithi deu um sorriso tímido diante da fala dele.
— Isso mesmo, sorria! — disse ele animado – Não quero ver você tristonha por ai.
A jovem assentiu.
— Vou ferver mais água. — avisou ela.
Enquanto tomavam mais chá, Lor’themar percebeu que Annatar ainda não tinha voltado. Com certeza era de propósito, para que ele fosse embora logo. Bem, não seria a falta de alguns doces que o fariam sair dali cedo. Só o chá e a companhia de Vivithi eram o suficiente. E como os dois conversaram! Depois que o tema mais espinhoso fora deixado de lado, os dois se puseram a falar de muitos assuntos e a jovem descobriu que seus pais tinham finalmente terminado a reforma da casa de campo e estavam passando uma temporada lá.
— Como a mamãe não me avisou?! — reclamou Vivithi indignada – Eu estava louca para passar uns dias lá, tomando banho no mar e pegando um bronze!
— Se não me engano, Celebrian disse que tinha mandado uma carta para você. — estranhou Lor’themar – E reclamou que você não respondeu.
— Eu não recebi essa carta.
Os dois se encararam, ambos com o mesmo pensamento brotando.
— Ele não faria… — começou Vivithi, mas foi interrompida pelo barulho da porta da frente. Annatar acabara de chegar.
— Andei por toda Luaprata e não achei nada que valesse a pena. — foi logo ele dizendo – Por que estão na cozinha? — e encarando a noiva, questionou – É assim que você recebe as visitas?
— Eu não sou visita. — cortou Lor’themar – Sou o tio dela. — e diante do olhar raivoso de Annatar, ele se levantou. Era melhor ir embora antes que quebrasse a cara dele – Conversamos mais amanhã, querida. O que acha de começarmos o treino às oito?
— Perfeito! — exclamou ela se levantando também. — Deixe-me acompanhá-lo até a porta.
Sob o olhar frio de Annatar os dois Theron foram até a porta. Lor’themar então lhe deu um beijo na testa, como sempre fazia com ela desde que era pequena e falou, carinhosamente e com uma pitada de preocupação:
— Cuide-se.
— Pode deixar. — foi a resposta.
Quando a porta fechou-se, colocando Lor’themar longe dela, Vivithi sentiu-se sozinha e desamparada. E, pela primeira vez, não quis ficar sozinha com seu noivo.
Naquele momento, Annatar não disse nenhuma palavra da visita, só perguntou o que jantariam. Vivithi respondeu que ia preparar algo e foi para a cozinha. Ficaram em silêncio a maior parte do tempo, até que ela preparou a mesa da sala de jantar de forma primorosa, abriu um vinho e comeram. Só quando haviam terminado a sobremesa, foi que ele falou.
— Você e seu tio são bem apegados… — comentou quase displicentemente.
Vivithi, que segurava uma taça de vinho, assentiu.
— Ele é como meu segundo pai. Eu o amo muito.
— Sei… — murmurou ele – Mas ninguém nunca lhe disse que esse apego todo é estranho?
A elfa, que estava concentrada em seu vinho, o encarou, franzindo a testa.
— Estranho como? — quis saber.
Annatar tomou toda sua taça de vinho e pôs mais. Vivithi teve a impressão que ele estava dando uma pausa dramática.
— Eu tenho tias e elas nunca me trataram com tanta… Afetividade – ele disse aquela última palavra com uma pontada de malícia – E alguns amigos meus têm sobrinhas e nem por isso eles ficam com tanta intimidade com elas…
Vivithi apertou a taça em sua mão, tentando compreender o que seu noivo estava insinuando. Seria...
— Querido, acho vinho me deixou um pouco lenta. — mentiu lhe dando um sorriso – Poderia ser mais claro?
— Ah, tão burrinha e ingênua essa minha Vivithi. — ele apertou sua bochecha – Estou dizendo é que, você nunca desconfiou que talvez seu tio se sentisse atraído sexualmente por você?
O choque foi tão grande que ela não falou nada. Ficou encarando-o, com a boca aberta e os olhos arregalados, com uma imagem que, com certeza, condizia com o que o ser patético que ele imaginava que era. Annatar, em vez de se preocupar com a surpresa dela, caiu na gargalhada.
— Sério, Vivithi? Você nunca reparou? Esse amor todo, as visitas, os toques, os beijos, a preocupação… — ele negou com a cabeça – Já vi acontecer antes! Com certeza ele quer te comer desde que seus peitos saíram. — ele riu mais – Seja sincera, tem certeza que ele nunca te tocou de uma forma mais indiscreta?
A resposta de Vivithi foi jogar todo o vinho na cara de Annatar, antes de jogar a taça no chão e se levantar, bufando de raiva. Ah, ele fora longe demais! Podia chamá-la de burra, de idiota, e achar o que quer que achasse dela, mas nunca, jamais deveria ter dito algo tão baixo com seu tio Lor’themar! Annatar, encharcado de vinho, a encarou, perplexo demais como o ato de rebeldia da sua submissa noiva.
— Meu tio é o elfo mais decente que conheço! — gritou ela, sem medo do que ele pensaria dela – Não ouse falar dele desta forma, seu imbecil!
Aconteceu tão rápido que Vivithi não conseguiu se preparar. O punho fechado de Annatar atingiu seu nariz e Vivithi gritou com a dor aguda que sentiu. Ela deu dois passos para trás e se apoiou na parede. Levou a mão até o rosto, sentindo o sangue escorrer abundantemente, e constatou que ele quebrara seu nariz. Não sabia o que era maior: sua dor ou perplexidade.
— Sua puta! — lhe gritou Annatar – Olha o que você fez! Minha roupa nova! — e trincando os dentes, acrescentou – E ninguém fala assim comigo! Entendeu? Ninguém! — e lhe deferiu mais um golpe, dessa vez no olho.
Vivithi foi lançada no chão e agora sua vista estava turva. Tateou em busca de um apoio, mas foi Annatar quem a pegou pelo braço, levantou e a sacudiu.
— Nunca mais grite comigo, está ouvindo?! — ele gritava e a sacudia freneticamente – Nunca mais!
Com uma força que não sabia que tinha, Vivithi se desvencilhou dele.
— Bá embora! — falou ela enrolada, segurando o nariz quebrado – Baia da binha casa!
— Não! Eu não vou embora! — gritou ele se aproximando dela.
— Bois eu bou! — disse se precipitando para a porta.
Annatar ainda tentou contê-la, mas Vivithi foi mais rápida. Saiu pela porta e correu, com a vista embaçada pela dor e pelo soco que ele lhe dera. Ainda ouviu o gritar e xingar, mas sua vontade de estar longe dele era tanta que não parou, mesmo diante do olhar que as pessoas na rua lhe dirigiam. Ela caminhou sem rumo, tonta e com dor, segurando o nariz quebrado e chorando copiosamente. Como ele pudera fazer aquilo com ela? Como pudera falar aquelas coisas absurdas de Lor’themar e depois socá-la daquela? Se seus pais soubessem… Pela Nascente do Sol, se Lor’themar soubesse! Não poderia ir para a casa de seu tio daquele jeito e seus pais estavam longe. Quem poderia ajudá-la então?
Quando deu por si, estava em frente à casa de Samanthah e Dhomm. Enquanto ainda tinha coragem, bateu à porta e torceu para ter alguém em casa. Ela jamais teria coragem de ir até o Hospital de Luaprata daquele jeito.
Àquela hora, Samanthah e Dhomm já tinham jantado e se preparavam para dormir, quando a campainha tocou. Se entreolharam, estranhando, e Dhomm se adiantou para abrir. Quando viu Vivithi, parada à sua porta, no estado em que se encontrava, ele não conseguiu se segurar e exclamou:
— Vivithi! Pela Nascente do Sol, o que aconteceu?!
Samanthah se adiantou e quando a viu, soltou um grito angustiado.
— Vivithi! — e se lançou para a elfa.
— Desculba… — disse Vivithi entre lágrimas e sangue – Desculba Sabanthah… Eu dum queria…
— Querida, não fale nada. — pediu a maga a puxando para dentro de casa – Venha, sente-se! Deixe-me ver esses ferimentos…
Vivithi cambaleou para dentro da casa, amparada por Samanthah e por Dhomm. Eles a sentaram no sofá e a elfa acabou vendo, de relance, seu rosto no espelho da parede. Sua aparência era terrível: o nariz estava achatado e torto, seu rosto e roupas estavam cobertas de sangue e um de seus olhos estava preto e um pouco fechado. Seu choro aumentou, pois ela parecia patética, tal como Annatar achava que ela era.
— Calma, querida, calma… — murmurou Samanthah – Dhomm, querido, trás meu kit de primeiros socorros e algumas poções de cura, por favor.
Sem dizer uma palavra Dhomm fez o que a esposa pediu. Logo a elfa estava cuidando de Vivithi, com tanto cuidado e amor quanto uma mãe faria. Aquilo a fazia se sentir ainda pior, pela forma que tratara Samanthah, logo quando esta estava em um estado tão delicado. Vivithi olhou para a barriga avantajada e pensou no quanto aquela criança era sortuda de ter uma mãe tão maravilhosa.
— Vou ajeitar seu nariz agora. — avisou Samanthah – Vai doer um pouco.
Vivithi assentiu. A dor quando Samanthah pôs seu nariz no lugar foi tanta que sua vista nublou e ela sentiu-se desfalecer. Dhomm ajudou a segurá-la enquanto a esposa fazia a elfa machucada beber generosas doses de poção de cura. Em poucos instantes Vivithi sentiu a dor diminuir e a vista clarear. Quando os dois elfos que a acolheram entraram em foco de novo, a jovem apalpou seu nariz. Estava normal novamente.
— Sente-se melhor? — perguntou Samanthah carinhosamente.
— Sim… — murmurou em resposta.
Só que havia outra pergunta a ser feita e Dhomm estava ansioso para fazê-la.
— Quem fez isso com você, Vivi? — havia uma fúria incontida nas palavras do elfo.
A hesitação da jovem em responder à pergunta foi o suficiente para que Dhomm descobrisse o culpado. Seu corpo tremia de indignação e de raiva e tanto Vivithi quanto Samanthah perceberam o estado de espírito dele. Dhomm não conseguia sequer imaginar que tipo de elfo poderia fazer aquilo. Bater em fêmeas era coisa de humanos e mesmo assim ele era contra! Sua mente então lhe apresentou o pior cenário possível: e se ele e Samanthah tivessem uma filha? E se alguém um dia se atrevesse fazer aquilo com ela?! Pela Nascente do Sol, Vivithi tinha idade para ser filha de ambos! Sem conseguir mais se conter ele foi até a parede, onde seu arco e aljava estavam e já se encaminhava para a porta quando a voz potente de Samanthah o parou:
— Dhomm Fendessol, volte já aqui! — ordenou imperiosa.
A contragosto Dhomm se voltou e a encarou.
— Sam, veja o que aquele miserável fez com essa menina! — gritou ele indignado – Deixe-me ir lá resolver isso!
— Isso não cabe a você. — lembrou a maga calmamente.
— Pois irei atrás de quem se interessará muito por isso. — alertou – Tenho certeza que Lor’themar vai querer empepinar esse imbecil de flechas!
— Não! — o pedido dessa vez partiu de Vivithi – Por favor, não envolvam meu tio nisso!
Samanthah não estranhou o pedido, mas era nítido que Dhomm ficara chocado.
— Vivithi! É seu tio! — argumentou o patrulheiro – Ele precisa saber e dar o troco naquele idiota!
— Não! Não quero envolver meu tio nisso! — reforçou.
— E por que não? — Dhomm não parecia disposto a ceder.
— Porque eu estou com vergonha! — confessou a elfa com os olhos marejando novamente – Eu estou com vergonha e não terei coragem de olhar para o titio!
Vivithi então desabou. Colocou a cabeça entre as mãos e chorou copiosamente. Aquilo desarmou Dhomm completamente. Samanthah o encarou e fez um gesto com a cabeça para o lugar das armas. O que ela queria estava claro: esqueça a raiva, Vivithi precisa de nós. Então, ele guardou o arco e foi para o sofá e, juntamente com sua esposa, consolou a jovem. Enquanto acalmavam Vivithi, Samanthah se contorceu um pouco, incomodada: o bebê estava agitado, como se também estivesse perturbado com a situação. Dhomm então colocou a mão no ventre da esposa e o bebê se aquietou.
Foram necessários longos minutos para que Vivithi finalmente se acalmasse. Depois que o choro dela arrefeceu, Dhomm lhe preparou um chá que a jovem aceitou sem protestos. Samanthah ainda analisou mais seu rosto, com medo de ter deixado algo passar, mas logo se deu por satisfeita. Sorriu para Vivithi, tranquilizando-a.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Está sentindo dor? — quis saber.
Vivithi fez que não com a cabeça.
— Ótimo. — e olhando para o marido, pediu – Querido, arrume o quarto de hóspedes para Vivithi.
— Não precisa! — protestou a elfa imediatamente.
Samanthah a encarou.
— Quer voltar para casa?
A pergunta fora essa, mas seu real significado fora: é seguro voltar? Vai arriscar vê-lo novamente? Vai se pôr em perigo? E Vivithi sabia que era verdade. Annatar poderia estar lá, ainda furioso. E se ele fora capaz de estraçalhar seu nariz, o que mais poderia fazer com ela? Ir para casa de Lor’themar estava fora de questão, ainda que seu nariz já estivesse no lugar de novo. O que dissera a Dhomm era uma verdade dolorosa: depois do que seu tio lhe dissera e da forma como Annatar falara dele, não conseguia o encarar. Como diria a ele as coisas sujas que seu noivo dissera? E como diria que o resultado de sua indignação fora aquela agressão? Não… Precisava de um tempo para se preparar. Olhou para Samanthah, que ainda esperava uma resposta.
— Não vou incomodar? — perguntou em um fio de voz,
A elfa abriu um sorriso doce, que no futuro seria herdado por sua filha Kassyeh.
— Claro que não, querida. Venha. — ela a pegou pela mão – Você vai tomar um banho e tirar essa roupa ensanguentada. Vou lhe dar um pijama meu. Um dos antigos. Os de hoje a faria sair voando pela janela. — e riu dando tapinhas na barriga avantajada.
Vivithi riu, mesmo a contragosto e não contestou mais a elfa. A única coisa que disse antes de subir foi direcionado a Dhomm.
— Por favor, não procure meu tio. — pediu.
O elfo suspirou.
— Tudo bem.
Vivithi sorriu agradecida. Porém, o elfo fez um pedido à esposa apenas com um olhar e Samanthah fez que sim com a cabeça. Sim, ela conversaria com Vivithi e a convenceria a entrar em contato com Lor’themar. Mas não naquele momento. Vivithi precisava de tranquilidade.
O quarto em que Vivithi ficou acabou sendo o que, no futuro, ela sempre usaria naquela casa. Samanthah foi pegar uma roupa limpar enquanto a jovem tomava banho. Foi a primeira vez que Vivithi se esfregou no banho até a pele ficar vermelha e irritada. Era como se estivesse tentando tirar Annatar de dentro dela. Demorou um bom tempo debaixo do chuveiro e, quando saiu, Samanthah a esperava pacientemente. A elfa não lhe perguntou nada, a que Vivithi fora grata. Não queria falar. Vestiu o pijama e deixou que Samanthah penteasse seus cabelos. Depois, deitou-se na cama e a maga lhe dera mais uma poção, dessa vez para ajudar-lhe a dormir. Vivithi tomou sem protestar e logo caía num sono profundo, sem sonhos.
Ao acordar no dia seguinte, Vivithi precisou de alguns segundos para se situar. Estava confusa, se perguntando porque não estava em sua casa. Foi quando a realidade a atingiu com a mesma intensidade do soco que recebera no dia anterior. Ela virou-se na cama e se encolheu. Não derramou nenhuma lágrima porque sentia-se vazia, como a casca de um ovo depois de quebrado. Não queria acreditar no que acontecera no dia anterior, mas a roupa suja de sangue no chão deixava claro que o pesadelo fora bem real.
O que faria agora? Bem, era óbvio: não podia mais ser noiva de Annatar. Pela Nascente do Sol, não deveria ser nem amiga dele! Porém, além da raiva, Vivithi tinha que admitir que ainda gostava dele. Aquilo lutava contra seu orgulho, em pé de igualdade. No fundo, queria que ele voltasse a ser o elfo que era quando eles apenas namoravam.
Sem querer cultivar aqueles pensamentos, ela levantou-se e notou uma muda de roupa dobrada cuidadosamente em cima do criado-mudo. Sorriu ao pensar em Samanthah tendo todo aquele cuidado com alguém que a ignorara dias atrás. Isso não a ajudou nenhum pouco. Balançou a cabeça, como se pudesse sacudir aquelas ideias para fora de sua cabeça e pôs-se a vestir-se. Depois, saiu do quarto e desceu as escadas, gesto que repetiria ao longo dos anos seguintes. Lá embaixo, Samanthah estava sentada na mesa de jantar, onde o café da manhã estava posto e cheirava muito bem. A elfa estava sozinha e lia uma carta. Quando viu Vivithi, dobrou a carta com cuidado e sorriu para sua convidada.
— Bom dia, Vivithi! — desejou com sinceridade – Está ainda com alguma dor?
— A única dor que sinto é no meu coração… — murmurou, mas depois se arrependeu. Parecia dramático demais, algo que Annatar diria.
— Depois de tudo que você passou, seria estranho se não sentisse isso. — confortou a outra – Venha, sente-se, tome café comigo. Dhomm teve que sair cedo.
Vivithi sentou-se e seus olhos relancearam para o envelope que descansava em cima da mesa. O selo do Kirin Tor reluzia nele.
— Meu irmão está ansioso para saber quando o bebê nasce. — comentou Samanthah vendo o olhar dela no envelope – Ele não ficou muito satisfeito quando eu disse que em breve voltarei para o campo.
— Não terá o bebê em Luaprata? — estranhou Vivithi.
— Eu terei o bebê onde der. — ela disse – A questão é que estou um pouco enjoada de Luaprata. — a grávida fez uma careta – Às vezes tenho vontade de chorar só em pensar em sair de casa.
Era estranho, mas Vivithi sabia que grávidas faziam coisas estranhas. Não comentou nada e pôs-se a comer tudo que Samanthah lhe oferecia. Depois de tudo que acontecera, era esquisito que ela estivesse com tanta fome, mas talvez fosse seu corpo tentando compensar a tristeza com comida. Já acontecera outras vezes, por isso apenas comeu tudo que deu vontade, tentando se preencher de sensações boas. E talvez tenha sido a quantidade de açúcar em seu sangue que a fez começar a falar tudo que acontecera no dia anterior de forma repentina, sem que Samanthah sequer tivesse tocado no assunto. Falou também de como Annatar fizera com que ela decidisse não vê-la mais e como se arrependia disso. A futura mamãe deixou que a elfa desabafa-se e, no final, suspirou.
— A atitude de seu noivo…
— Ex-noivo. — corrigiu Vivithi.
— Ex-noivo. — concordou Samanthah sem deixar de sorrir – A atitude dela com relação a Dhomm e, por consequência, a mim não é novidade. Nem meus pais falam direito comigo! Veja, estou a dois meses de ter esse bebê e sabe quantas visitas minha mãe me fez? Duas! Estou aprendendo tudo sobre bebês com Luthien. Mas, quer saber? Não me arrependo. — o sorriso dela ficou maior – Sou mais feliz hoje do que jamais fui. E não fique se martirizando. Não tenho raiva de você. Tenho raiva desse seu ex-noivo abusivo!
Vivithi lhe deu um sorriso grato.
— Obrigada… — murmurou.
As duas elfas deram as mãos por um momento.
— Permite que eu lhe dê um conselho? — perguntou Samanthah, agora com cautela.
— Depois de tudo que você fez por mim? Claro.
Samanthah suspirou.
— Eu sei que é difícil, mas você deve procurar seu tio. Eu sei que você está envergonhada. — acrescentou rapidamente – Mas tenho certeza que Lor’themar gostará de saber o que aconteceu por você. Ou você acha que Annatar não contará a própria versão dele por aí?
Vivithi não tinha pensando nisso. O pânico a invadiu por um momento e ela apertou a mão de Samanthah com força.
—Ai, minha Nascente do Sol, ele pode contar coisas aos meus pais! — exclamou – Coisas que não são verdades!
— Eu não duvidaria. — falou com sinceridade a maga.
Era algo que ela não podia admitir. Porém, isso a levá-la ao fato que teria que falar com Lor’themar o mais cedo possível. E seu tio já tivesse ouvido alguma coisa? E se não acreditasse nela? Bem, Samanthah e Dhomm acreditavam, porque viram-na na noite anterior. E porque seu tio não acreditaria nela se no dia anterior ele próprio a alertara com relação a Annatar? Ele podia ficar com raiva porque ela não lhe dera ouvidos. Mas o que poderia fazer naquele momento? A mente em conflito de Vivithi a deixou um tempo calada, mas no final olhou para Samanthah e fez que sim com a cabeça.
Não demorou muito para que Samanthah entrasse em contato com o marido e que este trouxesse Lor’themar até ali. Aquilo não fora fácil: Dhomm tivera que apelar para o lado “família” de Sylvana, falando para sua chefe que a sobrinha de Lor’themar precisava dele. O elfo, ao ouvir o amigo falar que Vivithi precisava dele, não fez cerimônia e foi logo perguntando:
— O que aquele desgraçado fez?
— Apenas venha comigo, Temma. — pediu Dhomm, sem nenhuma surpresa que o outro tivesse chegado àquela conclusão sozinho.
Lor’themar foi. E quando viu sua sobrinha soube que algo muito ruim acontecera, ainda que seu rosto já estivesse curado. Afinal, ele a conhecia como ninguém e pode ver, em seus olhos, sua alma machucada. Abraçou-a com força e ficaram um bom tempo assim.
— Ah, tio… — murmurou ela antes de começar a chorar mais uma vez.
— Vivi… Querida, eu estou aqui para você…
Ficaram um tempo abraçados e só quando se sentia segura, puderam sentar-se e Vivithi contou o que acontecera depois que ele saíra de seu apartamento no dia anterior. No primeiro momento, Lor’themar não acreditou no que ouvira. Não porque duvidava de Vivithi, mas porque não imaginava jamais que alguém pudesse ter um pensamento tão pérfido sobre Vivithi e ele. E depois, quando ela contou do que Annatar fizera com ela, o sangue fugiu de seu rosto e a fúria tomou conta de seu coração. Com a veia da testa pulsando como se fosse estourar, Lor’themar levantou-se, sem nem ouvir o resto da história, e se dirigiu para a porta. Seus instintos mandavam-no caçar o maldito e matá-lo. Porém, Dhomm estava lá para impedi-lo, já que os gritos de Vivithi não foram o suficiente.
— Sei o que você está sentindo amigo, mas não posso deixar você fazer isso. — falou Dhomm segurando Lor’themar.
— Você viu o que ele fez com ela! — gritou-se Lor’themar – Por que está me impedindo?!
— Porque o que Vivithi precisa agora é de amor e não de vingança. — respondeu.
Aquilo parou Lor’themar. Enquanto ele tentava controlar sua raiva, sentiu os braços de Vivithi abraçando-o por trás e sua voz sair balbuciante, da mesma forma como acontecia quando ela era pequena e se machucava.
— Titio… — murmurou – Quero ir pra casa.
Vivithi não estava falando de seu apartamento e Lor’themar soube disso na hora. Ele virou-se para ela e segurou em seu rosto com carinho.
— Tudo bem. — disse – Eu te levo para casa.
O sorriso dela o fez perceber que aquela fora a melhor decisão. Não que ele tivesse esquecido o que Annatar fizera. De forma alguma. Aquele elfo ia pagar, cedo ou tarde. Mas Vivithi era sua prioridade.
Contudo, precaução sempre fora o forte de Lor’themar. Sabia que, no momento que visse o ex-noivo de sua sobrinha, poderia perder o controle. Então, o ideal era que os dois saíssem de Luaprata o mais rápido possível. E discretamente também. Como ambos tinham roupas na casa de campo dos Theron e não precisavam se preocupar com bagagem, o patrulheiro pediu a Dhomm para que contratasse, em seu nome, uma carruagem para levá-los até o campo. Isso foi providenciado e, em pouco tempo, Vivithi se despedia de Samanthah com um abraço apertado. O máximo que a barriga da futura mamãe permitia, claro.
— Mande-me notícias. — pediu Samanthah.
— Mandarei. — prometeu Vivithi – E faça o mesmo certo? Me avise assim que esse bebezinho nascer.
— Avisarei. — comprometeu-se a outra.
As duas se separaram e Vivithi embarcou na carruagem. Seu tio esperou que ela estivesse acomodada e falou com Dhomm em um sussurro para que ninguém ouvisse:
— Quero que você fique de olhos e ouvidos abertos para aquele miserável. — pediu – Se ele disser alguma coisa dela…
— Você ficará sabendo. — completou Dhomm assentindo – Pode ficar sossegado meu amigo. Você sabe que sou a pessoa certa para saber esse tipo de coisa.
Os dois apertaram as mãos e Lor’themar segurou a mão de Dhomm com as suas duas.
— Nunca poderei agradecer à altura o que você fez, amigo. — disse com sinceridade.
— Um dia você me retribui, cuidando da minha cria. — riu-se o outro.
— Farei isso, com certeza. — afirmou.
E, dito isso, Lor’themar soltou as mãos do amigo e subiu na carruagem.
A casa de campo dos Theron ficava na direção oposta da casa dos Fendessol, mas, ainda assim, em um local lindo. A viagem transcorreu tranquilamente apesar do silêncio dentro da cabine. Vivithi não queria falar e Lor’themar não a obrigaria. Deixou que ela se perdesse nos pensamentos, dando-lhe o espaço que ela precisava para se sentir a vontade. Quando a casa entrou na visão dos dois, Vivithi suspirou, aliviada. Mal podia esperar para se refugiar nos braços de sua mãe.
A chegada dos dois causou um nítido alvoroço nos servos e Lor’themar teve um mal pressentimento. Quando a carruagem parou, ele saiu e ajudou sua sobrinha a fazer o mesmo. Pagou ao cocheiro e logo estavam se dirigindo à entrada da casa. Não demorou muito e Celebrian e Thalion, pais de Vivithi, saíssem da casa na direção de ambos.
Thalion, irmão mais novo de Lor’themar, era bem parecido com primogênito da família. Cabelos longos e prateados e um corpo alto e forte. Apesar de ser um típico aristocrata, que não tinha a habilidade com as armas como seu irmão, Thalion gostava de se manter em forma. Naquele momento, seu rosto, normalmente sereno e confiante, demostrava apreensão. Celebrian, sua esposa, era uma elfa que poderia ser considerada de uma beleza comum, se não fosse a intensidade e sagacidade em seu olhar. Quando a conheceu, Lor’themar se perguntou porque seu irmão havia escolhido uma elfa de aparência mediana se haviam beldades incríveis aos seus pés. Bastou que ele empreendesse poucos minutos de conversa para ele entender o fascínio de seu irmão. Celebrian tinha uma das mentes mais afiadas que ele jamais vira e uma paixão avassaladora por tudo aquilo que fazia. Ficou tão encantado com Celebrian que Thalion chegou a ficar com ciúmes certa vez. Foi a primeira vez que Lor’themar percebeu que a beleza ia muito além daquilo que se via.
Agora, o casal caminhava apressado até os recém-chegados. A fúria de Celebrian estava tão evidente em seu rosto que Lor’themar logo soube que as notícias já haviam chegado por ali.
— O que aquele menino mimado fez?! — foi logo perguntando, antes de falar qualquer outra coisa.
— Querida, acalme-se. — pediu Thalion, numa atitude que dizia que ele já repetira aquilo várias vezes – Deixe-os chegar e-
— Não me peça calma, Thalion! — vociferou a elfa, cortando o marido – Eu conheço a filha que pari!
Vivithi e Lor’themar se entreolharam, o medo estampado no rosto da jovem.
— Amor, você está assuntando a menina… — pediu mais uma vez o pai de Vivithi, deixando sua voz o mais doce possível.
— Quem está assustada sou eu! — continuou ela exasperada – Olhe para nossa filha! Olhe! Está magra, pálida e parece um coelho assustado! Nem estou vendo os peitos dela! E olhe que ela herdou um par de peitos muito bom! — e ajustou o corpete com orgulho.
— Você tem os peitos mais lindos, querida. — elogiou ele com sinceridade.
— Eu sei. — ela sorriu, mas logo o sorriso morreu, ao olhar novamente para a filha. Logo a indignação voltou, com força total – Olhe para ela! Não me diga que você não vê nada de errado!
Thalion suspirou.
— Sim, amor, vejo sim. — ele realmente via e estava preocupado, mas no momento, tentava manter a fúria de sua amada sob controle – Mas pode não ser bem o que você está pensando… — insistiu o elfo.
— Claro que é! — insistiu – Se o noivado terminou tão mal ao ponto daquela família horrorosa mandar aquela carta despeitada, tenho certeza que a culpa não foi da minha Vivithi! — a indignação da elfa era mais do que nunca evidente – Eu pari uma elfa de verdade e não um projeto de lesma!
Ao ouvir a fala de sua mãe, Vivithi ficou chocada. Como ela já sabia? Porém, mais do que isso, ficou comovida e ao mesmo tempo se sentindo culpada pelo que ouvia. Ah, se sua mãe soubesse a pessoa que ela tinha se tornado! Mas, ainda assim, era tão bom perceber que eles ainda a amavam e ainda a viam como a pessoa que costumava ser! Ainda mergulhada em todas as emoções das últimas horas, Vivithi se pôs a chorar ali mesmo, na entrada da casa, chocando seu pai e mãe com a atitude inesperada.
— Meu bebê! — a indignação de Celebrian sumiu e agora a preocupação de mãe tomou lugar. Abraçou sua filha com força, acalentando-a como quando ela era pequena – Meu amor, mamãe tá aqui! — murmurou carinhosamente – Me diga o que aquele imbecil fez que mamãe vai lá arrancar os olhos dele…
— Ah, m-mãe… — soluçou Vivithi.
Thalion então olhou para seu irmão, preocupado e perplexo. Lor’themar suspirou e fez um gesto para a casa.
— Vamos entrar. — disse – A conversa é longa e Vivithi precisa descansar.
Celebrian rapidamente encaminhou-se com a filha para dentro de casa, sendo seguida por Lor’themar e Thalion. Quando cruzaram a porta da mansão, Lor’themar logo viu em cima da mesa de centro um envelope dourado com o nome da família escrito em letra elegante. Devia ser a carta que sua cunhada mencionara. Teve uma vontade avassaladora de lê-la, mas seguiu junto com o irmão e a cunhada até o segundo andar.
— Você precisa de um banho quente agora, meu amor. — disse a elfa carinhosamente para sua filha – Vou mandar preparar a minha banheira para você.
Desde que era criança, Vivithi cobiçava a banheira da sua mãe. Era imensa, de borda infinita, e se precipitava para a varanda como se fosse alcançar o mar que se avistava. Além disso, a água era sempre quente e movia-se preguiçosamente por magia, massageando quem dela se aproveitasse. Vivithi só tivera poucas vezes permissão de usá-la, apesar de sempre dar um jeito de usar escondida. Ser mimada daquele jeito, quando estava se sentindo tão mal, era a melhor coisa que poderia lhe acontecer.
— Vamos esperar lá embaixo? — chamou Thalion.
Lor’themar pensou um pouco e assentiu. Deixou Vivithi nas melhores mãos que existia e voltou com o irmão para a sala de estar. Thalion pediu aos servos que preparassem a comida favorita de Vivithi para o jantar e também que trouxessem vinho. Os dois não falaram nada por um tempo e só depois que estavam com as taças cheias, foi que Thalion perguntou:
— O que aconteceu?
— O que diz a carta? — perguntou Lor’themar de volta.
— Eu perguntei primeiro, irmão. — retrucou Thalion.
— É uma longa história e não quero repeti-la mais que o necessário. — confessou abatido – Prefiro esperar Celebrian vir e reviver isso uma vez apenas.
A resposta deixou Thalion mais angustiado. Ele passou a mão no rosto, sua expressão mostrando tudo o que Lor’themar também sentia, mas que sabia disfarçar. Thalion sempre foi o mais transparente dos dois. Não conseguia mentir, nem enganar e a única vez que conseguira surpreender Celebrian foi quando a pedira em casamento no meio de Luaprata, na frente de todos. Ninguém esperaria isso do tímido Thalion. Seu rosto estava tão vermelho quando fizera o pedido, que Lor’themar, observando a distância, achou que ele fosse ter um ataque cardíaco. Depois disso e por algum tempo Lor’themar o perturbara, dizendo que Celebrian só dissera sim porque não queria que ele morresse de vergonha. As brincadeiras pararam quando a elfa descobrira e dissera com seu jeito carinhoso e ameaçador que ele deveria parar antes que alguém se machucasse. Lor’themar nunca duvidou que o alguém fosse ele.
— Ele machucou minha menina? — perguntou Thalion com a voz embargada.
— Tudo ao seu tempo, irmão. — respondeu Lor’themar mantendo o rosto o mais impassível que conseguia.
Voltaram a se calar e já estavam na segunda garrafa de vinho quando Celebrian desceu, sozinha. Ela sentou-se ao lado do marido, tomou a taça de vinho de sua mão, bebeu tudo em um gole e estendeu a taça vazia para Thalion. Em vez de pegá-la de volta, o elfo encheu novamente a taça e Celebrian a esvaziou mais uma vez. Só então ela olhou para o cunhado.
— Dei uma poção para que ela dormisse. Isso vai tirar o cansaço da viagem e deixá-la mais calma ao acordar. Ela não me falou nada. — disse numa mistura de preocupação e incredulidade – Parecia envergonhada. O que nesse mundo poderia deixar a minha Vivithi daquele jeito?!
— É uma longa história… — murmurou Lor’themar.
— Eu não estou com pressa. — retrucou Celebrian secamente.
A reação da elfa fez Lor’themar rir.
— Eu sei que não. — disse – Mas eu gostaria de saber o que dizia na carta que você recebeu. Por favor. — completou.
Celebrian considerou o pedido por um momento e então assentiu.
— Pois bem. — ela estendeu a taça vazia para o marido, que a encheu prontamente – Nós estávamos tendo uma manhã maravilhosa na nossa cama, quando…
— Querida, sem detalhes… — pediu Thalion ficando com o rosto vermelho.
— Ah, por favor! — exclamou ela tomando um pouco de vinho – Estamos casados há séculos e você acha que seu irmão não sabe que transamos como coelhos?! — ignorando a risada do cunhado e a vergonha do marido, ela continuou – A manhã estava maravilhosa, como eu dizia, quando a serva bateu à porta, dizendo que havia um mensageiro alvoroçado querendo falar conosco. Um mensageiro! Acredita? A megera queria a resposta logo, por isso mandou um mensageiro! — Celebrian bufou de raiva e tomou um gole do vinho. Lor’themar não precisou perguntar quem era a megera – Pois bem, saí da minha cama deliciosa para atender o tal mensageiro e ele me dá aquela carta! — ela apontou para a carta como se fosse uma criatura grotesca – A megera disse que minha Vivithi tinha envergonhado o filho dela, terminando o noivado sem motivos e que agora ela queria ressarcimento dos gastos do casamento! Ressarcimento! Por isso mandou o mensageiro, queria que mandássemos dinheiro!
— Uma quantia absurda. — comentou Thalion.
— Dane-se o dinheiro, eu pagaria o dobro para me ver livre daquela família! — vociferou Celebrian – Eu não gostei da forma como ela se referiu à minha menina!
— E o que você disse ao mensageiro? — perguntou Lor’themar segurando o riso. Apesar do assunto sério, ele conseguia imaginar bem o que a cunhada fez.
— Eu o pus para correr, o que você acha?! — ela tomou mais um gole do vinho – Se a megera quer falar mal da minha filha, que venha falar na minha cara!
— Eu não concordei com a abordagem, é verdade. — falou Thalion em seu tom conciliatório de sempre – Mas eu não me importaria de pagar o que foi pedido. Confesso que, apesar de Annatar ser um bom rapaz, a família dele me incomoda um pouco.
Incomodado ficou Lor’themar ao ouvir o que o irmão achava de Annatar. Mas, é claro, o elfo maldito havia enganado não só a sua sobrinha, mas toda a sua família.
— Annatar está longe de ser um bom rapaz. — falou Lor’themar demonstrando mais raiva do que pretendia.
— Foi ele não foi? Quem terminou? — perguntou Celebrian – Por isso Vivithi está tão devastada? Ela gosta tanto dele…
Chegou o momento mais difícil para Lor’themar. Como contar ao seu irmão e a sua cunhada o que acontecera? Os dois certamente ficariam não apenas chocados como também furiosos. Podia imaginar Celebrian pegando o primeiro falcoztruz que visse e indo para Luaprata tirar satisfação pessoalmente com Annatar. Apesar de não ser treinada em combate, Celebrian tinha fúria o suficiente para fazer um bom estrago no ex-noivo da filha antes de ser contida. Tinha que dar a notícia e ainda garantir que ninguém da sua família fosse preso por assassinato.
— Foi Vivithi quem o deixou. — disse Lor’themar – Mas posso garantir que ela teve excelentes motivos para isso.
Os pais da jovem se entreolharam, surpresos. Ambos sabiam o quanto Vivithi era apaixonada por Annatar.
— E quais seriam os motivos? — quis saber Thalion.
Lor’themar então começou a contar toda a história, desde o momento em que Vivithi fora morar sozinha até aquele momento. Enquanto contava, via a perplexidade e a raiva tomar conta do rosto dos dois ouvintes. Quando chegou na parte em que Annatar insinuou que ele sentia desejo sexual por Vivithi, ele ficou com o rosto vermelho de raiva e precisou respirar fundo para recuperar a calma. E após contar a agressão à Vivithi e como ela se refugiara na casa de Dhomm e Samanthah, pode ver, pela primeira vez, a mesma fúria de Celebrian, só que dessa vez a via em seu irmão. Thalion tremia quando se levantou, com as mãos crispando de raiva.
— Não… — murmurou rouco – Ele não se atreveu…
— Pelo visto, se atreveu sim. — falou Celebrian num fio de voz. Ela estava pálida como um cadáver.
Lor’themar estava assustado, pois nunca vira nenhum dos dois tão trastornados. E quem podia julgá-los? Não estava ele próprio sentindo o mesmo?
— Eu sei o que vocês estão sentindo. — disse encarando os dois – Eu mesmo quis acabar com aquele desgraçado, mas Vivithi queria vir para casa o mais rápido possível.
— Você fez bem. — disse Celebrian, para a surpresa dos dois elfos – Minha filha é mais importante que tudo. — a elfa se levantou e Lor’themar temeu por ela. A palidez estava mais evidente agora – Mas esse assunto não está acabado. Aquele elfo e sua família vão pagar por isso. Mas não hoje. — ela olhou para o marido – Não faça nenhuma besteira, Thalion. Vamos discutir isso depois, quando não estivermos com tanta sede de sangue. — ela respirou fundo, como se aquilo fosse muito difícil e engoliu em seco. As lágrimas surgiram em seus olhos e ela falou, agora com a voz trêmula – Vou ver minha filha. — e se retirou da sala com a mão cobrindo a boca.
Thalion continuava em pé, com os punhos fechados. Sua respiração estava ofegante, como se tivesse corrido uma milha. Lor’themar sabia exatamente o que se passava na cabeça dele, pois o mesmo passara na sua.
— Matá-lo não vai ajudar Vivithi. — disse o patrulheiro – Tive que repetir isso para mim mesmo a viagem toda.
— Ele machucou minha menina… — rosnou Thalion entre os dentes – Como você pode me dizer uma coisa dessa?!
— Porque Vivithi não quereria ver o pai amado atrás das grades por algo que ela ainda acredita ser sua culpa. — explicou o mais velho – Ele bagunçou demais a cabeça dela, Thalion. Vivithi agora precisa de nós três aqui para ajudá-la a voltar a ver a si mesma como a elfa maravilhosa que ela é. E você não poderá fazer isso se for preso por matar Annatar.
Para a surpresa de Lor’themar, Thalion deu uma risada seca.
— Quem diria, irmão. Você me mandando ficar calmo? Uma troca de papéis interessante. — falou com amargura.
— Não é para isso que servem os irmãos? — Lor’themar levantou-se – Para nos colocar nos trilhos? — ele colocou as mãos nos ombros do outro e o olhou bem dentro de seus olhos – Vamos cuidar da Vivi por agora, certo? Depois, eu mesmo lhe ajudarei a fazer justiça.
E foi apenas por saber que o irmão estava falando sério e não apenas tentando mantê-lo calmo que Thalion decidiu conter a fúria que borbulhava dentro dele. Porém, não conseguiu evitar as lágrimas por toda a dor passada por sua filha. Lor’themar lhe deu um abraço e consolou o irmão. Depois, subiram para conferir o estado de Celebrian. Ficaram mais tranquilos ao verem que a cor estava voltando ao rosto dela. Ficaram então os três velando o sonho de Vivithi por um bom tempo, em silêncio, cada um perdido em seus pensamentos, mas os três sabendo que compartilhavam o mesmo desejo: fazer Annatar pagar pelo que Vivithi passara.
Nenhum dos três imaginaram o que acontecera nos dias posteriores.
Para Vivithi, os dias que se seguiram foram estranhos, como se estivesse imersa em uma bolha cálida de segurança. Sentiu voltar-se à infância, quando era cuidada e mimada por todos, tendo seus desejos e vontades atendidas. Não houve um só dia em que não preparam todas suas comidas favoritas; ganhara massagem e tratamento para as olheiras que se destacavam no rosto pálido; sua mãe fazia questão que se bronzeassem na praia todos os dias, no final da tarde, vendo o sol se pôr na imensidão do mar. Todavia, mesmo sentindo todo o amor de seus pais e do seu tio, Vivithi não entendia porque estava tão infeliz.
Tempos depois, mais velha e mais madura, Vivithi entendeu que havia um duelo dentro dela. A Vivithi antiga, dona de si e cheia de confiança que tentava imergir daquela dor e a Vivithi criada por Annatar, submissa e apaixonada, que ainda sentia falta do noivo. Apesar de tudo que passara, ela não conseguia esquecê-lo e havia momentos em que desejava que tudo não passasse de um pesadelo e que, um dia, acordasse na cama com seu noivo e ele voltasse a ser o elfo maravilhoso que era. E foi essa Vivithi, a que desejava uma volta ao passado, que entendeu o quão os desejos são perigosos quando realizados.
Annatar voltou à vida de Vivithi duas semanas depois de sua chegada à casa dos pais, sem avisar e acompanhado de sua mãe. Àquela hora, Vivithi estava com Lor’themar, treinando sua perícia com o arco na parte de trás da casa, quando ouviram uma confusão vinda do interior da residência. Os gritos de Celebrian eram tão altos que os dois largaram o que estavam fazendo e correram, pensando que algum desastre tinha acontecido.
Era realmente uma forma de desastre. Quando viu o ex noivo, Vivithi estacou. Sentiu uma mistura de raiva, medo e felicidade que a deixaram ainda mais confusa do que já estava. Quando ele a olhou, o coração de Vivithi se acelerou, pois viu na expressão dele o arrependimento que tanto desejara nas semanas anteriores.
— Vivithi… — ele murmurou quando a viu.
Todos se voltaram para olhá-la e Vivithi sentiu-se corar. Engoliu em seco e tentou assumir uma postura mais defensiva quando respondeu.
— Annatar. — odiou-se porque a voz soou trêmula – O que faz aqui?
— Vim conversar. — falou com um pouco de hesitação.
— Você não tem nada para conversar com ela! — gritou Celebrian, furiosa. Dava para ver que a elfa ainda não pulara no pescoço do jovem elfo porque seu marido lhe segurava com firmeza o ombro – Seu covarde! Você bateu na minha menina!!!!
A mãe de Annatar, uma elfa de cabelos loiros e queixo quadrado, que parecia estar sempre com a testa franzida de desgosto, ficou visivelmente incomodada com a acusação, mas nada falou. Ao ouvir o que Celebrian dissera, Annatar baixou a cabeça e seus olhos se encheram de lágrimas. O elfo estava desprovido do seu orgulho e altivez usual.
— Eu sei… E me odeio por isso… — ele disse deixando uma lágrima escapar – Eu deixei-me levar pelo álcool e pelo ciúme e acabei cometendo o maior erro de minha vida… Por isso estou aqui… Para pedir seu perdão, Vivithi… O perdão de todos vocês…
— Você devia estar na cadeia, isso sim! — continuou a elfa mãe, enfurecida – Devia ser punido pelo que fez!
— Concordo com o que dizes senhora Theron. — continuou Annatar, ainda mais constrangido – E concordarei em ir à guarda de Luaprata e assumir meu erro, caso assim queiram.
Aquilo era algo que a mãe de Annatar não podia suportar.
— Querido, não sejamos tão radicais… — disse a elfa tocando o ombro do filho – Vamos tentar resolver tudo entre nós. Tenho certeza que a família Theron não quer um escândalo…
— Ah, eu quero sim! — gritou Celebrian querendo avançar sobre Annatar – Quero um escândalo bem grande, para que seu filho não machuque a filha de mais ninguém!
Thalion apertou mais a mão no ombro da esposa e a puxou para seu lado. Também havia fúria nos olhos do elfo, mas ele conseguia se conter mais que sua esposa. Olhou para Annatar e depois para a mãe deles e falou, com a voz calma e fria:
— Seu filho, Lizeth, cometeu uma falha horrível com nossa filha. Vivithi foi criada com muito amor e carinho por nós. É nossa única filha. Você deve ter consciência de como é difícil para nós lidarmos com essa situação toda. Annatar, eu definitivamente não tenho a menor vontade de lhe perdoar ou permitir que você se aproxime de nossa filha.
Lizeth revirou os olhos diante da fala de Thalion.
— Convenhamos, Thalion, isso é uma coisa que eles dois têm que resolver. Deveriam conversar sobre essa briga que saiu do controle. Tenho certeza que houve culpa dos dois lados!
Até então Lor’themar permanecera calado, observando a cena. Após a fala da mãe de Annatar, ele deu um passo à frente e encarou os dois.
— Minha sobrinha não tem culpa nenhuma, de nada. — disse secamente.
— Que eu saiba, ela jogou vinho no rosto de meu filho. — retrucou Lizeth.
— O que é bem proporcional a um soco no nariz, não é mesmo? — rebateu Lo’themar com ironia.
O rosto de Lizeth ficou vermelho.
— Não estou dizendo que Annatar não agiu mal. — respondeu com altivez – Apenas que não podemos culpar ele pelo início da briga!
— Por acaso ele lhe disse o que provocou a reação de Vivithi? O que ele insinuou?
— Sim, minha mãe sabe… — murmurou o rapaz – E eu sinto muito, lorde Theron, pelo meu comentário indecoroso. Se há uma explicação para tal coisa, eu lhe digo que foi culpa do meu ciúme de Vivithi e da bebida…
Havia um tom de sinceros pêsames em suas palavras, porém, quando os olhos de Lor’themar se encontraram com os de Annatar, o patrulheiro jurou perceber uma certa malícia por trás das lágrimas de arrependimento.
— Admito que meu filho passou dos limites, mas saibam que é apenas porque ele ama tanto a Vivithi que não sabe se controlar. — justificou Lizeth – Já contratei um sacerdote para dar aulas de autocontrole a ele. Também está proibido de beber. E, obviamente, está arrependido. Por que não deixamos que eles dois se resolvam, em vez de ficar nessa discussão interminável?
— Se você pensa que vou deixar meu bebê perto desse…. — Celebrian não terminou a frase, mas todos entenderem o sentido.
— Acho que a decisão cabe a ela e não a você. — retrucou a mãe de Annatar.
Todos os olhares se voltaram para a Vivithi ao mesmo tempo novamente. A jovem estava perturbada demais com a presença de Annatar para conseguir tomar uma decisão sensata. Por isso, falou a primeira coisa que veio em sua cabeça:
— Ouvirei o que ele tem a dizer e só.
Seus pais e tio deixaram seu desagrado bem nítido em suas expressões. Porém, Vivithi sentia que estava fazendo a coisa certa. Se queria mesmo se ver livre de Annatar, precisava ser forte e deixar que ele falasse tudo e sumisse. Era esse seu plano; ouvi-lo e dispensá-lo. Todavia, pensar nisso lhe provocava uma incômoda dor na alma.
Os dois foram para a sala do lado, separada por uma parede de vidro, a fim de terem uma conversa privada. Celebrian não tirou os olhos de Annatar, pronta para partir em socorro da filha se assim achasse necessário. Pela postura da mãe, Vivithi teve a impressão que ela saltaria da cadeira, atravessaria o vidro e esganaria Annatar se percebesse algo de errado
Ficar sozinha com Annatar deixou o coração de Vivithi disparado. Havia um misto de raiva e saudades que só a deixava ainda mais confusa. Sim, confusa, pois sabia que deveria sentir apenas ódio dele. Mas aquela alegriazinha de vê-lo se recusava a abandoná-la.
— Vivithi… — começou ele com os olhos cheios de lágrimas – Quero que você saiba que eu te amo muito! Sou apaixonado por você desde a primeira vez que a vi! Sei que errei, mas quero que saiba que foi por te amar demais!
Ele continuou falando o quanto a amava e o quanto estava sofrendo por um bom tempo. Vivithi deixou que ele falasse. No início, pensava em apenas ouvir e ir embora, sem dar respostas, mas Annatar começou a relembrar tudo de bom que eles viveram, todos os planos que tinham, todas as experiências pelas quais passaram, que eram maiores do que os momentos ruins. Disse o quanto seria feliz em ter uma filha como ela, uma menininha corajosa e espevitada. Elogiou sua inteligência e coragem, e pediu desculpas pelas vezes que a chamara de burra. Ele disse exatamente o que a Vivithi medrosa e apaixonada queria ouvir. E, naquele momento, fragilizada e sofrendo com a saudades do noivo, acreditou nas palavras dele. E só não o perdoou na hora porque viu o rosto rígido da sua mãe do outro lado da parede.
— Não sei… — foi o que ela disse.
Para sua surpresa, Annatar se jogou nos pés dela, chorando:
— Por favor, Vivithi, eu imploro! Me perdoe! — e agarrou suas pernas e as beijou.
Celebrian não atravessou o vidro como a filha imaginou, mas se lançou para a sala, furiosa.
— Já chega! — ela pegou a filha pela mão e a tirou de perto de Annatar.
— Devo concordar. — Lizeth ajudava o filho a levantar com uma expressão desgostosa – Annatar, acho que você já passou dos limites. Vamos embora.
— Só irei quando Vivithi prometer pensar no que eu disse! — exclamou o choroso rapaz.
— Vou pensar. — foi a única coisa que ela disse.
E com essa resposta, os dois foram embora.
Como era de se esperar, após a saída de Annatar e Lizeth, houve uma explosão de Celebrian. A elfa gritava o quanto o elfo era atrevido e petulante de ter ido à casa deles; Thalion concordava com a esposa e endossava seu discurso. Enquanto isso, Lor’themar observava sua sobrinha. Vivithi permanecia em silêncio. Aquilo era preocupante.
— Vou me retirar. — disse a jovem depois de algum tempo.
— Vá meu amor. — disse a mãe beijando sua testa – E não se preocupe com nada, ok? Mamãe vai te proteger!
Vivithi sorriu sem jeito e foi para seu quarto. Lor’themar ficou ainda mais preocupado.
E tinha motivos.
As coisas que Annatar dissera ficaram martelando na cabeça de Vivithi. Agora, o conflito entre as duas pessoas em sua alma se intensificava: de um lado, a fraca Vivithi queria desesperadamente voltar para Annatar. As promessas dele de mudar, de tudo voltar a ser como era antes, de respeitá-la eram como um bálsamo para seu amor ferido. E vê-lo chorando, se humilhando, o tão imponente e orgulhoso Annatar, era prova de que ele estava sendo sincero. A outra Vivithi, a Theron orgulhosa, não queria saber dos apelos dele. Queria se livrar daquele que machucara seu corpo, alma e estima e nunca mais vê-lo. Porém, a luta estava injusta: a Vivithi submissa estava mais forte. Depois de tanto tempo enclausurada, a orgulhosa não estava pronta para resistir aos desejos da outra. Aqueles dias com a família foram preciosos, mas não o suficiente para deixá-la no controle. Por isso, prevaleceu a vontade da elfa apaixonada.
E tomara a decisão da qual mais se arrependeria na vida.
Dois dias depois da visita de Annatar e de ter adotado um incômodo e perturbador silêncio, Vivithi anunciou para a família que reataria o noivado com Annatar. A notícia gerou um choque e descontentamento entre todos, além de várias tentativas de convencê-la do contrário. Porém, Vivithi estava resoluta. Disse a todos que pensara muito e decidira que não jogaria tanto tempo de relacionamento fora, um relacionamento a que ela se dedicara tanto.
— Ele te bateu Vivithi, caso você tenha esquecido. — falou Lor’themar, com um tom de reprovação.
— Ele está arrependido e não fará de novo. — garantiu.
Quando perceberam que não poderiam demovê-la de sua decisão, coube aos frustrados pais aceitarem a decisão, não antes de dizer a ela que tomasse cuidado e que sempre estaria lá para ela. E quando a jovem saiu para fazer as malas, Lor’themar garantiu aos angustiados irmão e nora:
— Ficarei de olho nela.
A volta a Luaprata foi no dia seguinte e logo Vivithi já estava nos braços de Annatar de novo. Porém, para voltar, a elfa decidiu fazer algumas exigências, que sabia que deixaria sua família mais aliviada: ele não falaria jamais sobre sua relação com Lor’themar; ele não se meteria em sua amizade com Samanthah; ele não impediria seu trabalho e treino como patrulheira. Annatar aceitou tudo alegremente e a paz retornou.
Durante semanas Vivithi acreditou que fizera a escolha certa dando uma segunda chance a Annatar. Era exatamente como nos tempos de namoro: iam a festas; ele a apresentava com orgulho a todos; parou de ir beber com os amigos solteiros e passou a fazer programas com casais conhecidos dos dois; nunca implicou um só momento com seu treino com Lor’themar; aceitou de bom grado suas visitas a Samanthah e as visitas desta ao apartamento da noiva. Além do mais, estava sempre a fazendo rir e se sentir bem. Por um momento, Vivithi acreditou mesmo que tudo que acontecera fora apenas um pesadelo, fruto de sua mente ansiosa e insegura. Tudo voltara ao normal e o casamento foi marcado para o início da primavera, após as festividades do Jardinova.
Foi quando o castelo de cartas das ilusões de Vivithi ruiu.
Tudo começou com uma carta. Vivithi pegara o correio, como sempre fizera e sorriu ao ver uma carta da mãe. As duas se falavam praticamente todos os dias. No meio das demais correspondências, um envelope com o selo real se destacou. O coração de Vivithi ficou aos pulos. Ela largou as demais cartas no sofá e abriu o envelope com os dedos trêmulos. Quando leu o que tinha escrito, deu um pequeno grito de alegria.
— O que foi, amor? — Annatar veio correndo da cozinha, onde preparava o almoço para os dois.
— Chegou Annatar! — ela agora pulava abraçando a carta – Minha convocação para ser patrulheira!
A primeira expressão dele fora de surpresa. Depois, ficou indefinida. Por fim, ele abriu um grande sorriso.
— Você merece, amor! — e a abraçou.
— Preciso contar a todos! — disse ela antes de se desvencilhar dele e ir escrever cartas para o tio, a mãe e Samanthah.
— Vamos marcar uma comemoração! — sugeriu ele – Convidamos todos para cá!
— Excelente ideia! — concordou animada – Vamos festejar!
E festejaram. Muito. Na festa, amigos e família dos dois se misturaram. Tudo parecia bem, e apenas as pessoas próximas a Vivithi se sentiam desconfortáveis com a situação. Nem mesmo a otimista Samanthah conseguia acreditar que aquilo teria um desfecho bom e compartilhou isso com Lor’themar e Dhomm.
— Eu concordo, mas não podemos fazer nada. — disse Lor’themar tentando não demostrar todo seu desgosto – Foi uma decisão dela, cabe a nós respeitá-la.
— Se fosse minha filha, estava trancada numa torre e bem longe desse imbecil. — rosnou Dhomm.
— Se fosse sua filha, você estava fazendo a mesma coisa que Thalion, porque você quereria que ela fosse feliz. — retrucou Samanthah calmamente.
Dhomm caiu na risada e beijou a esposa.
— Não posso negar, minha Sam, não posso negar mesmo! — riu-se Dhomm.
— Então vamos apenas torcer para que todos nós estejamos errados e que a Vivi esteja certa. — desejou a maga alisando a barriga.
Mas não foi o que aconteceu.
Com sua entrada nos patrulheiros, Vivithi começou a ficar fora cada vez mais tempo. E cada vez menos via Annatar. Quando ela pedia desculpas, ele apenas sacudia a cabeça, sorria e dizia:
— Está tudo bem, meu amor. Vá trabalhar.
E ela o fez. Até que começou a sentir-se desanimada. Lentamente, os dias começavam cedo demais, ela tinha dificuldades para sair da cama e, quando saia, fazia um trabalho horrível. Uma estranha palidez, pior que a de antes, tomou conta de seu rosto e Sylvana, preocupada, acabou dispensando-a.
— Apenas até você ficar boa. — garantiu a chefe dos patrulheiros.
Quando souberam da doença de Vivithi, seus pais e Lor’themar foram visitá-la e insistiram para que ela voltasse para casa.
— O ar do campo te fará bem. — garantiu a mãe.
— Cuidaremos de você em tempo integral. — reforçou Thalion.
— Posso pedir para a sacerdotisa Lorena te analisar. — ofereceu Lor’themar – O príncipe Kael’thas não vai se importar de emprestar sua médica particular para nós.
Vivithi, deitada em sua cama, sorriu para os três.
— Eu estou bem melhor. — garantiu para os dois – O médico disse que é uma virose e que ficarei boa logo. Annatar está cuidando de mim.
Os três fizeram um esforço imenso para não se entreolharem.
— Tudo bem então. — disse Celebrian, ainda não convencida – Voltaremos do campo para casa, assim ficaremos perto de você.
— De jeito nenhum! — protestou Vivithi antes de começar a tossir. A tosse durou longos segundos e então a elfa retomou a fala – Faz anos que vocês não tiram férias! Aproveitem! Eu estou bem! Mesmo!
— Você definitivamente não está bem. — sentenciou Thalion.
— Mas vou ficar. — mesmo doente, Vivithi não deixava a teimosia de lado – Se vocês voltarem antes só por causa de uma gripezinha, ficarei muito chateada!
Celebrian e Thalion se entreolharam por um momento e então Lor’themar procurou acalmá-los.
— Podem deixar que passarei aqui todos os dias até ela estar bem.
Porém, Vivithi não ficava bem. Mas também não piorava. Estava em um limbo que se sentia cansada, exausta, tossia, mas, ao mesmo tempo, conseguia disposição de vez em quando para se levantar e passar bons momentos com Annatar. Depois, caia na exaustão de novo. Lor’themar chegou a cogitar levar Samanthah para ver a elfa para saber as melhores poções para melhorar seu estado, mas Vivithi fora terminantemente contra: o que quer que tivesse, não podia correr o risco de passar para Samanthah e o bebê.
Fora num dia em que Annatar decidira visitar a mãe que Vivithi descobriu tudo. Depois que ele lhe deu o xarope, a beijou e saiu, Vivithi tivera uma náusea imensa. Vomitou todo o xarope no tapete e se odiou por isso. Com dificuldade, se levantou da cama e limpou a sujeira. Depois, percebeu que tinha forças para tomar um banho e o fez. Depois do banho, começou a procurar uma roupa confortável para vestir, pois estava cansada de suas camisolas ‘de doente’. Num arroubo de paixonite, decidiu que queria vestir uma das camisetas de Annatar. O cheiro de seu amado a faria se sentir próxima a ele até que voltasse da visita aos pais. Começou então a remexer nas roupas deles e topou sem querer com uma caixa. Era estranho, parecia um dos estojos de alquimia de Samanthah, mas Annatar não era alquimista. Dando de ombros, deixou a caixa de lado. Começou a procurar novamente e viu uma das camisas favoritas dele e a puxou. Quando a camisa veio, trouxe também diversas cartas, que estavam enroladas no tecido. Eram as cartas de Celebrian para a filha, supostamente perdidas há meses. O coração de Vivithi gelou.
“Não…” pensou. “Não é possível…”
Mas era. As cartas que nunca chegaram em suas mãos, no período em que Annatar estava magoando-a.
— Deve ter uma explicação… — murmurou Vivithi para si mesma, segurando as cartas com as mãos trêmulas.
Ele devia ter pego e esquecido de falar, pensou. Mas, se era verdade, porque não dera depois? E porque elas estavam escondidas nas coisas dele? A mistura de mágoa e raiva começaram a borbulhar dentro dela. Num ímpeto, começou a rasgar todos os envelopes e ler. Sim, eram exatamente as cartas perdidas, informando o fim da reforma da casa e convidando ela e Annatar a irem até lá. Depois, as cartas foram assumindo um ar de revolta pela falta de respostas, raiva e depois desespero de sua mãe pela falta de notícias. Vivithi começou a chorar, imaginando tudo que a mãe passara naquelas semanas sem suas notícias. Ah, Annatar teria muito que explicar quando chegasse em casa!
Com raiva, ela desistiu de pegar uma camisa dele e se levantou. Cega de raiva, não viu o estojo de alquimista que pegara na gaveta e acabou chutando-o. As lágrimas de dor se misturaram às lágrimas de raiva enquanto ela levantava o pé e massageava os dedos, proferindo uma série de palavões que, com certeza, Lady Lizeth desaprovaria. E foi por entre as lágrimas que Vivithi visualizou um frasco negro rolando para longe da caixa onde antes repousava.
— Droga! — exclamou.
Mancando, ela limpou as lágrimas e foi até o frasco. O guardaria e vestiria algo para confrontar o noivo sobre as cartas. Porém, quando pôs os olhos sobre o frasco, as cartas foram momentaneamente esquecidas, pois o frasco, aquele que segurava e estava dentro da gaveta de Annatar, era veneno.
Sua mente voou a um dia em que fora com o tio visitar Rommath. Ela era pequena e começou a mexer nos vidros do mago, até que pegou um frasco semelhante àquele e tentou abrir. Rommath rapidamente lhe tomara o frasco e advertira:
— Não, pequena Vivithi. Isso é perigoso.
— Vou morrer se tomar? — perguntara, curiosa.
— Não imediatamente. — dissera o mago – Você ficará doente por um bom tempo. Algumas pessoas levam anos para morrer ao serem envenenada por isso.
— Então posso brincar com ele? — perguntou com os olhos brilhando.
— Claro que não. — o elfo guardou o frasco numa pratilheira alta, onde ela não poderia pegar – Se tomar muito de uma vez só, morrerá bem rápido.
Veneno. Veneno. Annatar a estava envenenando.
O corpo de Vivithi de repente ficou sem força e ela deixou o frasco cair de novo.
— Então… Você descobriu.
A voz de Annatar a tirou de seu torpor. Virou-se na direção da porta e olhou para ele com os olhos arregalados, como se encarasse um desconhecido perigoso, e não seu noivo.
— Você… — murmurou.
— Ah querida, foi o único jeito de manter você um tempo comigo. — disse com a voz doce – Esse trabalho de patrulheira… — ele fez uma careta – Achei que você desistiria depois de umas semanas tendo aquela insuportável Correventos como chefe, mas você sempre foi tão teimosa…
Ele deu um passo em sua direção e, instintivamente, Vivithi deu um passo para trás. De repente era como se nunca o tivesse conhecido, como se fosse um total e completo estranho.
— Veja bem, fiz isso apenas porque te amo. — justificou ele dando mais um passo a frente – Se eu não te amasse tanto, eu não faria isso. Além do mais, querida, você me obriga a fazer essas coisas. Se você fosse um pouco menos independente…
Vivithi virou-se de costas e correu para o quarto seguinte. Porém, ainda debilitada, foi logo pega por Annatar. Ele deu uma mata-leão em seu pescoço e, por um momento, Vivithi achou que ele a mataria. Quando acordou, tempos depois, sem noção de quanto tempo passara na cama, percebeu que ele apenas a desacordara. Sentia um misto de raiva e decepção imenso, que, junto com a dor em seu pescoço, a fazia se sentir traída e desamparada. Olhou para si mesma e percebeu que ele a vestira com um de seus pijamas. Tentou se levantar, mas duas coisas a impediram: uma tosse monstruosa que se apoderou de seus pulmões e uma queimação nos pulsos, que lhe mostrou que estava presa a cama.
— Você ficará aí até se sentir melhor. — ouviu a voz de Annatar dizer.
Ele estava sentado numa poltrona, a encarando com uma expressão tenra e preocupada.
— Você está me deixando doente… — murmurou Vivithi fracamente – Como me sentirei melhor?
— Ah querida, estou me referindo a essas ideias que você acha que tem, que acha que representam sua vida. Seu tio, aquela Fendessol, os patrulheiros… Você precisa entender que eles não são necessários em nossa vida… — ele sorriu docemente – Quando você entender isso, eu lhe deixarei ir!
Vivithi estremeceu.
— Esse veneno me matará aos poucos… — sussurrou tentando despertar os sentimentos de piedade dele.
— Querida, você não morrerá… Pelo menos não se mudar de ideia rápido… — ele se levantou e se encaminhou até onde ela estava e Vivithi se encolheu – Vou cuidar muito bem de você… — e lhe deu um beijo na face.
Vivithi tentou repeli-lo, mas não tinha forças para isso.
— Durma um pouco. — aconselhou ele a cobrindo com o cobertor delicadamente – Você se sentirá melhor pela manhã.
Porém, aquilo só era o início dos piores dias que Vivithi Theron teria em toda sua vida. Algemada à cama, ela não podia se levantar, comer sozinha, nem se mover direito. Era obrigada a permitir que Annatar a alimentasse e sabia que era naquele momento em que ele a envenenava, pois, após cada refeição, Vivithi piorava. E era nessas horas, sem forças para revidar, que ele a levava para o banheiro e permitia que ela fizesse suas necessidades e se lavasse. Só que estava ficando tão fraca, que após uns dias era ele quem a banhava. Quando tentou se recusar a comer, ele lhe dissera, gentilmente:
— Prefere que eu pegue o vidro de remédio e despeje ele em sua garganta?
Vivithi então comeu. Sabia que ele era perfeitamente capaz de fazer aquilo.
O envenenamento progredia. E enquanto ele debilitava seu corpo, sua mente trabalhava agilmente, pensando em uma forma de escapar. Só que, sem forças, como poderia? Estava fadada a morrer ali, definhando, sob o julgo do elfo que afirmava com veemência amá-la? E onde estava Lor’themar? Seus pais? Samanthah? Bem, eles acreditavam que ela estava sendo bem cuidada. Sim, acreditavam porque ela pedira para eles acreditar. Ela decidira voltar e agora pagava por isso. Desesperada, Vivithi entendeu que se colocara naquela situação por acreditar em um amor doente e malicioso. Por que o fizera? Porque o amava. Maldito amor! Era ele o fruto de todos os males pela qual passava agora! Começou a odiar a si mesma por ter sido fraca, odiar a Annatar pelo que fazia com ela naquele momento, e a odiar aquele sentimento que ela julgava tão bom a ponto de perdoar uma ofensa ao seu corpo e à sua alma. Naqueles dias, em que passara presa à cama, sendo alimentada e envenenada por alguém que declarava seu amor a todo momento, Vivithi passou por uma transformação interna que matou todo e qualquer traço da Vivithi apaixonada que existia dentro dela. A jovem elfa sufocou aquele sentimento, deixou-o perecer e depois o enterrou no fundo de seu coração, no lugar mais sombrio, de onde jamais poderia ressuscitar. Passou a odiar tudo em Annatar: seu rosto, sua voz, sua existência. A Vivithi orgulhosa se erguia agora, mais letal, mais cínica e muito, muito mais vingativa. Já decidira: ela não morreria. Mas Annatar, sim.
Sua oportunidade surgiu quando Lor’themar fora visitá-la. Sem que soubesse, Annatar lhe dera outro remédio, para que sua consciência apagasse e que ela não conversasse com o tio. Quando o corpo de Vivithi se paralisou e seus olhos fechou, a elfa ficou surpresa de ainda poder ouvir tudo, mesmo que não conseguisse mexer seus músculos. Ouviu quando Annatar tirou-lhe as algemas e a ajeitou na cama. Depois de um tempo, ouviu passos pela casa e a porta foi aberta. Seu coração se acelerou quando ouviu a voz do tio:
— Ela está tão ruim assim?
— Ah, Lor’themar! — exclamou um choroso Annatar, fazendo o peito de Vivithi borbulhar de ódio – Eu não sei mais o que fazer! Os médicos da minha família já vieram olhá-la, mas não descobrimos o que ela tem! — e ouviu-o chorar.
— Não fique assim, Annatar. — consolou Lor’themar – Vou trazer Lorena aqui o mais rápido possível. Ela foi até Dalaran com o príncipe, mas, assim que voltar, fará uma visita.
— Agradeço, Lor’themar… — a voz do elfo parecia se acalmar agora. Que excelente ator ele era! — Sei que tivemos nossas divergências, mas ambos queremos o melhor para Vivithi…
“Mentiroso desgraçado!”, pensou Vivithi tentando se mexer e avisar ao tio.
— Celebrian virá visitá-la amanhã. — falou Lor’themar se mexendo pela sala – Ela queria ter vindo antes, mas também não se sente bem. Mandou agradecer a garrafa de vinho que você enviou e diz que assim que a virose dela e de Thalion melhorar, retribuirá o presente e todo cuidado que você está tendo com a Vivi.
Espere… Seus pais estavam doente… Esse maníaco envenenara seus pais também?! O ódio de Vivithi fora tão grande que ela conseguira emitir um murmúrio abafado com os lábios, como se tivesse sentindo uma dor.
— Oh! — exclamou Lor’themar se aproximando – Será que ela está acordando? — e se ajoelhou ao seu lado na cama.
— Espero que sim! — a voz de Annatar parecia animada, mas Vivithi sabia que era apenas fingimento – Ela dorme desde que tomou o remédio.
— Querida? — chamou Lor’themar baixinho – Você me ouve?
“Sim, tio!” gritou ela em pensamento “Te ouço! É ele! Ele quem tá fazendo isso! E eu vou matá-lo!”. Todavia, nenhuma palavra saiu da boca da elfa. Lor’themar suspirou, frustrado.
— Bem, vou visitar Dhomm e Samanthah. — avisou Lor’themar parecendo triste – Voltarei por aqui para vê-la novamente mais tarde. Espero que ela esteja acordada.
— Ah, com certeza estará! — disse Annatar esperançoso – Venha mesmo! Vou preparar um chá para nós!
“Não venha tio! Ele vai te adoecer também!” mais um murmúrio foi ouvido da garganta dela, mas seus olhos continuavam fechados.
— Talvez ela esteja tendo um pesadelo… — ponderou Lor’themar – Vou acordá-la…
— Não! — exclamou Annatar – Ela quase não dormiu essa noite tossindo! Vamos deixá-la descansar!
Vivithi ouviu o suspiro de Lor’themar.
— Tem razão. — um barulho de tecido a fez perceber que ele se levantou – Vou deixar o arco e a aljava aqui. Ela vai ficar animada quando vê-los.
— Sim, ela vai adorar o presente. — concordou Annatar – Ela me disse que sempre quis o seu arco e aljava, desde criança.
— Sim, queria mesmo. — comentou o patrulheiro com o tom carinhoso – Por isso decidi dá-los a ela. Assim espero animá-la para que ela melhore logo para usá-lo. Vou deixá-los aqui.
Um barulho a informou que seu tio deixou o arco e a aljava perto de sua cama. Ah, se Vivithi tivesse forças para usá-los!
— Até mais, Annatar. — disse Lor’themar andando em direção à porta – Cuide bem de minha sobrinha.
A esperança de Vivithi minguou quando ouviu a porta ser batida e seu tio ir embora. Agora, mais que nunca, estava ardendo em ódio. Annatar, não apenas estava envenenando-a, mas fazia o mesmo com sua família! O que ele pretendia? Matar todos os Theron até que ela ficasse sozinha no mundo, a mercê dele? Ela precisava fazer algo, mas como o faria, fraca e imobilizada como estava? — Por que ela murmurou? — ouviu a voz de Annatar falando consigo mesmo – Será que foi a mistura dos dois remédios? Será que ela pode ouvir? Não, não… Me garantiram que ela não podia… — os passos deles andavam de um lado para o outro – Acho que está na hora de levá-la daqui…
Levá-la? Para onde ele ia levá-la?
Annatar continuou falando consigo mesmo, mas Vivithi não ouvia mais. Estava concentrada em seu corpo, tentando fazê-lo mexer, acordar e reagir. Mas era como se uma tonelada de pedras a esmagasse contra a capa. Cada vez mais desesperada, sentiu quando a náusea a atingiu fortemente e o conteúdo de seu estômago foi empurrado para fora. Sem poder virar de lado, percebeu que estava se afogando, sem nada poder fazer.
“Vou morrer afogada em meu próprio vômito?!” pensou sentindo o ar faltar em seus pulmões.
— Maldição! – Annatar gritou.
Os braços rudes dele a agarraram e a colocaram de lado e Vivithi sentiu o ar fresco encher seus pulmões de novo. Tossiu sofregamente, lutando para abrir os olhos, enquanto era sacudida por seu noivo.
— Acorde! – gritava ele – Você vai limpar isso.
Depois de pôr a maior parte do remédio para fora, Vivithi semi abriu os olhos. Havia uma névoa que cobria seus olhos, e a paisagem estava pastosa. Annatar a pegou pelo braço e a arrastou pelo chão até o banheiro, onde foi jogada e trancafiada.
— Só abrirei quando você estiver limpa de novo! – ele gritou-lhe.
A mente dela de repente ficou clara. Sim, sim, era sua chance! Da primeira vez, vomitar a ajudou a pôr o remédio para fora e se sentir melhor e o mesmo acontecera a pouco. Claro, depois de tomar o veneno por tanto tempo estaria fraca, mas o importante era estar forte o suficiente para reagir. Com dificuldade, se arrastou até o vaso e forçou-se a vomitar o resto do remédio que estava em seu estômago. Depois, arrastou-se até a banheira e passou a mão pelo globo mágico que a encheu instantaneamente. Lavou a boca, cuspiu a água no vaso e depois tomou goles generosos de água. Enjoada com o que fazia, acabou vomitando de novo. Porém, não podia desistir. Tomou novamente água e sentiu-se melhor. Passou a mergulhar a cabeça várias vezes, na tentativa de se manter lúcida e, quando achou que já tinha controle sobre o corpo, ficou de pé, tirou o pijama sujo e banhou-se demoradamente. Precisava de tempo. Cada minuto passado longe de Annatar e do seu veneno era precioso para sua revanche. E quando achou que estava bem o suficiente e para enfrentá-lo, pôs o robe do banho e bateu à porta com uma batida fraca, de propósito, para enganá-lo. Era agora ou nunca.
Não muito longe dali, após resolver alguns compromissos de família e comprar remédios para seu irmão e sua cunhada, Lor’themar dirigiu-se a casa de Dhomm e Samanthah. Quando chegou lá, percebeu que havia uma comoção na casa e que os servos deles estavam lá, aparentemente tentando mediar algum conflito. Será que tinha chegado em má hora? Bem, como presenciara a maioria das brigas do casal amigo, tocou a campainha despreocupadamente e a porta foi aberta por um esbaforido Hobbs.
— Menino Theron, graças a Nascente do Sol, é você! Entre!
O velho elfo praticamente o arrastou para dentro da casa, onde Samanthah. Luthien e sua filha tentavam conter Dhomm, que, assim que pôs os olhos no amigo, abriu um sorriso aliviado e, ao mesmo tempo, raivosos.
— Olha só, nem precisei procurar por ele! Viu Sam? Ele está aqui! Agora você vai ter que contar!
— Contar o quê? – perguntou Lor’themar sentindo um frio no estômago.
— Dhomm, eu disse que era só uma desconfiança… – murmurou a elfa aparentemente cansada – Talvez estejamos nos preocupando a toa.
— O que está acontecendo? – Lor’themar estava cada vez mais ansioso – E porque vocês estavam brigando? Pelo amor da Nascente, Dhomm, sua mulher está grávida, às vésperas de ter o bebê!
— Não estávamos brigando! – contestou o elfo ficando rubro de vergonha pela bronca – Eu estava argumentando! – e olhando para a esposa, falou, mas dessa vez com a voz mais calma e carinhosa – Por favor, Sam, conte…
Samanthah suspirou.
— Eu estava me reabastecendo de reagentes para meu laboratório…
— Contra minha vontade, ela não deve trabalhar. – cortou Dhomm.
Samanthah o ignorou.
— Quando vi o servo de Annatar comprar isso. – e mostrou o mesmo frasco negro que Vivithi achara nas coisas do noivo – Fiquei intrigada pois sei que nem ele nem ninguém em sua família é alquimista, então perguntei ao vendedor. Ele disse que o servo vem levando o veneno há semanas, pois tinha uma requisição especial. – a elfa deu uma pausa – Os efeitos desse veneno são os mesmos sintomas que a Vivi vem mostrando… Há semanas… – e olhado rapidamente o marido, completou – Mas isso não prova nada!
— Você realmente acredita nisso, Sam? – perguntou ele tristemente.
A elfa não respondeu, mas sua resposta era óbvia.
Lor’themar pegou o frasco, incrédulo, e o observou. Sim, conhecia o veneno. Sabia que ele já fora usado para cometer muitos crimes. Sua ação era imperceptível, pois se confundia com uma pneumonia. Suas mãos seguraram o vidro com força. Thalion e Celebrian tinham sido diagnosticados com pneumonia, depois de receberem um vinho de Annatar. Ele próprio levara o vinho, que não tinha lacre.
“Vinho artesanal”, dissera Annatar com um sorriso amigável.
— Esse veneno tem gosto, Sam? Cor? — quis saber.
— Não. Ele pode ser posto até na água. Por isso sua venda é restrita a alquimistas credenciados.
— Ninguém na família de Annatar é alquimista credenciado. – falou o patrulheiro ainda olhando para o frasco.
Houve um momento de silêncio, enquanto Lor’themar encarava o vidro negro. Depois, com cuidado, ele depositou o frasco na mesa da sala e virou as costas para os amigos, se encaminhando com calma até a porta. Dhomm e Samanthah se entreolharam e prontamente o seguiram.
— Milorde! Milady! – protestou Hobbs.
— Voltamos já, Hobbs! – falou Dhomm sem diminuir a passada.
E foram os três na direção do apartamento onde Vivithi estava lutando por sua vida. A elfa, vestida com apenas o robe de banho, tinha um plano. Fingir que ainda estava mal, até chegar no arco e flecha que seu tio deixara. Claro, ainda não estava bem, mas, pelo menos, conseguia se mexer, ainda que lentamente, e suas mãos pareciam estar preparadas o suficiente para puxar a corda do arco. Contava com a inaptidão de Annatar como lutador para se safar. Caso contrário, morreria tentando. O que ele diria a sua família se, quando Lor’themar chegasse ali mais tarde, ela estivesse com o rosto desfigurado da luta e morta? Diria que ela alucinara e ele se defendera? Ou a manteria viva o suficiente para que uma poção de cura curasse seu rosto e seu cadáver ficasse bonito? Bem, especulações como aquela não a levariam a lugar nenhum, por isso, bateu novamente na porta, ainda fracamente e se preparou.
— Finalmente! – ouviu Annatar dizer – Pensei que havia morrido ai!
Ele abriu a porta e todo o plano, cuidadosamente e pensado de Vivithi foi por água a baixo. Isso porque, quando viu aquele rosto que aprendera a odiar, que lhe causara pesadelos, e saber o quanto ele a enganara, o quanto brincara com seus sentimentos e o mal que fizera a ela e aos seus pais, seu cuidado e noção sumiram. Vivithi pulou sobre Annatar praticamente rosnando, e o elfo, pego de surpresa, tropeçou e caiu no chão, com a noiva raivosa por cima.
Vivithi queria esganá-lo, sufocá-lo com suas próprias mãos, mas viu que não tinha forças. Por isso, tratou de levantar e correr até onde estava a arma do tio. Porém, recuperado do ataque inesperado, Annatar segurou a faixa do robe e Vivithi tropeçou na roupa de banho e caiu. Enquanto ele se levantava, segurando firmemente o que a mantinha presa, Vivithi se desvencilhou do robe e correu, nua, para o quarto.
— Não! – ouviu ele gritando – Você não vai escapar!
Respirando com dificuldade, a jovem chegou até seu quarto, mas sua cabeça rodava e suas pernas começavam a ficar pesadas. O veneno daquele dia podia ter saído do seu corpo, mas a deixara debilitada. Seus braços pareciam de chumbo quando ela pegou o arco e uma flecha, e começou a chorar quando viu que não tinha forças para puxá-los. Nesse momento, Annatar chegou no quarto e a viu, segurando o arco debilmente. Soltou uma risada e se aproximou dela, tomando a arma com um puxão. Vivithi não teve forças para manter o arco em suas mãos.
— Você é muito burra mesmo! Devia estar feliz de alguém como eu querer você! Acha que pode manusear esse arco ridículo nesse estado? Se ficar quietinha e fazer o que mando, não a castigarei por isso!
Vivithi o encarou, com o olhar em chamas.
— Eu te odeio… – murmurou.
Annatar sorriu.
— E o que é o ódio senão o irmão gêmeo do amor? – ele gargalhou – Vamos querida, seja boazinha… Você não tem forças para lutar comigo e eu detestaria estragar sue rosto lindo mais uma vez…
Vivithi estava sem escolha. A não ser.... Seus olhos foram para a janela do quarto, que permanecia aberta. Annatar acompanhou sua vista e ela aproveitou aquele momento para correr até lá.
— Não! – ele gritou.
Ela teria chegado lá, com certeza, se seus pés nãos tivessem enroscado no robe que deixara para trás. Caiu pesadamente no chão, sentindo seu corpo fraco doer ainda mais e logo Annatar estava em cima dela.
— Vadia! – ele gritou a virou de frente – Você não aprende! Precisa aprender! – e começou a apertar seu pescoço com força.
Mais uma vez Vivithi se viu lutando para respirar, enquanto encarava o rosto alucinando do elfo que um dia amara e que agora queria drenar sua vida. Suas mãos se apertaram e ela percebeu que ainda tinha a flecha em sua mão. No instante que percebera isso, houve uma batida forte na porta.
— Annatar! – era Lor’themar, gritando – Abra essa porta, agora!
Seu noivo relanceou a vista até a porta e, por um instante, afrouxou o aperto. Foi nesse momento em que Vivithi pôs toda sua frustração, raiva e ódio na mão. Quando, encurralado, Annatar percebeu que não tinha outra saída a não ser matá-la, Vivithi estava preparada. Assim que ele virou o rosto em sua direção, ela cravou a flecha em seu olho, com toda a força que conseguiu reunir.
O elfo gritou e a largou. Vivithi procurou respirar fundo, mas começou a tossir sofregamente. Annatar gritava e Vivithi lançou-se novamente sobre ele, empurrando ainda mais a flecha, até que esta entrasse totalmente em seu crânio, enquanto o sangue jorrava da cavidade ocular do elfo.
Diante dos gritos e com receio do que acontecia, Dhomm e Lor’themar arrombaram a porta. Encontraram Vivithi caída no chão, nua, coberta de sangue e respirando com dificuldade enquanto segurava o pescoço com as duas mãos. Annatar jazia morto no chão, a flecha perfurando seu crânio a partir de um olho, enquanto o outro fitava, incrédulo, o teto.
A cena deixou os três estarrecidos e Samanthah foi a primeira a agir. Fechou a porta bruscamente e correu o máximo que sua barriga permitia até Vivithi. Os vergões roxos no pescoço eram bem nítidos e a traqueia da moça estava seriamente comprometida. Puxando da bolsa a poção de cura que sempre carregava para emergências, Samanthah despejou o conteúdo na boca de Vivithi, que logo voltou a respirar.
— Eu o matei… – murmurou ela olhando para Samanthah com os olhos arregalados – Eu o matei… – e começou a rir histericamente.
— Ela está em choque. – falou a maga preocupada.
Lor’themar se ajoelhou onde ela estava e segurou gentilmente sua cabeça entre as mãos.
— Querida? – chamou docemente.
Vivithi o encarou, os olhos injetados e confusos.
— Eu o matei…? Matei? – e começou a rir e a chorar ao mesmo tempo.
“Pela Nascente do Sol,” pensou Lor’themar “o que aquele desgraçado fez com a mente dela todo esse tempo?!!”
— Não querida, eu matei. – murmurou Lor’themar – Eu o matei.
— Matou? – perguntou balbuciando.
— Matei.
Vivithi apenas sorriu e balançou a cabeça afirmativamente antes de desfalecer de choque e exaustão nos braços do tio. Lor’themar a abraçou com carinho, a carregou ternamente até o sofá e a pôs lá. Samanthah trouxe uma manta e a cobriu. Dhomm continuava a olhar com asco o corpo do elfo que causara tudo e se perguntava como pessoas como Annatar existiam.
— Dhomm. – Lor’themar falou, atraindo sua atenção – Chame a guarda. Vamos reportar a morte dele.
— Você vai chamar a guarda?! – exclamou o outro, surpreso.
— O que quer que eu faça? Isso precisa ser reportado. – sua voz era de uma cansada constatação.
— Mas e a Vivi? – perguntou Samanthah – Ela não tem condições de encarar um julgamento nesse estado!
— Vocês não me ouviram antes? Eu o matei. – sentenciou o patrulheiro, que caminhou até onde estava seu arco e sua aljava. Eram suas armas, afinal. Aquilo facilitaria tudo. – Eu o matei. – falou mais uma vez, agora de posse das armas.
— Você o matou. – afirmou Dhomm com convicção para o amigo.
Samanthah relanceou a vista para Vivithi, que jazia desacordada no sofá e se perguntou o quanto daquele dia ela se lembraria no futuro.
— Você o matou. – repetiu a elfa.
E essa foi a história contada no tribunal, meses mais tarde. Muitos elfos depuseram a favor de Lor’themar, bem como muitos depuseram contra. Vivithi fora proibida de participar das audiências por está psicologicamente debilitada com os acontecimentos. Seus pais foram as únicas pessoas além de Dhomm e Samanthah que descobriram a verdade. A mente de Vivithi, confusa e exausta depois de tudo, tinha falhas e ela acreditou piamente que o tio a protegera no último minuto. Apesar de sempre sonhar que era ela quem enfiava a flecha no olho de Annatar, a jovem nunca questionou a veracidade da versão de Lor’themar. No final do julgamento, a família Theron e a de Annatar chegaram a um acordo: Lor’themar não seria acusado de nada, em troca de se manter o sigilo das ações de Annatar que levaram à sua morte, além do servo da família não ser penalizado pela compra do veneno.
Vivithi voltou para a casa dos pais, onde se recuperou. Lor’themar, com a ajuda de Dhomm, levara todas as coisas da moça de volta ao seu quarto e o apartamento foi reformado e vendido. Durante anos Vivithi se recusara a passar naquela rua, e foi um alívio quando o prédio ruiu durante um experimento malfadado de um engenheiro que fora morar lá. Demorou muito para que a elfa voltasse a sair com outros rapazes e, quando o fez, percebeu que perdera algo muito importante: a capacidade de confiar nos sentimentos dos outros. Porém, aquilo não lhe fazia falta, constatou. No que dependesse dela, aqueles sentimentos ficariam para sempre perdidos naquela época obscura e jamais ressuscitariam dentro de seu coração.
E isso foi verdade, até que Aethas Fendessol a beijou com paixão no casamento de Kassyeh e Tewdric.
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