Herdeiros da Guerra
38 Capítulo XXV – Ecos do passado (PARTE IV)
Notas iniciais
Phomiga e Potinhodemel mal podiam acreditar no que estavam vendo. Parada, na porta da casa deles, uma sorridente Lina, acompanhada de seu urso, exibia seu documento de alistamento do exército de Ventobravo como se fosse um troféu.
— Eu consegui! – disse a menina animada.
Foram necessários alguns segundos para que então os irmãos abrissem um sorriso e a abraçassem com força.
— Ah, nossa bebê conseguiu, Mel! – exclamou Fey, entre lágrimas.
— Eu sabia que ela ia conseguir! – Mel parecia que ai explodir de felicidade enquanto a apertava – Sabia sim! Ninguém rejeitaria essa cabecinha de bigorna fácil! – e afastando do abraço deu uma boa olhada nela – Argh! Você está podre de suja! Vai logo tomar um banho!
— Mas eu tô com fome! – protestou Lina.
— Primeiro banho, depois comida.
Lina ainda pensou em questionar, em fazer um escândalo daqueles que só ela podia dar e convenceria os irmãos, mas estava animada demais para isso. E também estava exausta. Deixou-se ser carregada para dentro da pequena casa, junto com Vicious e tomou um bom banho numa banheira improvisada com um barril, enquanto um de seus irmãos a esfregavam e o outro preparava sua comida na cozinha. Naquela época, dez anos antes de Doroteya entrar na vida dos irmãos, a casa, além de alugada, era bem simples. Não tinha o segundo andar e o quintal era apenas um jardim morto que Mel e Fey sempre diziam que iam arrumar. Só anos depois de Lina se mudar para lá foi que os irmãos a compraram e começaram as reformas.
— Pronto Quenguinha, a comida tá pronta! – anunciou Mel depois que a vestiu em um pijama rosa e a colocou sentada na mesa da cozinha.
— Sua sorte é que estou morrendo de fome, ou eu ia quebrar sua cara por me chamar assim! – ameaçou antes de começar a comer com vontade.
Os irmãos riram, sem levar a sério a ameaça dela. Logo, Lina já tinha comido um prato cheio de comida e começava o segundo, se empanturrando sem nenhum constrangimento. Quando ela parou um pouco para respirar, Fey franziu a testa e disse:
— Precisa melhorar seus modos à mesa, senhorita.
— Eu não preciso de modos. – disse ela depois de soltar um sonoro arroto – Sou uma soldado!
— E se um dia você for convidada a jantar com o rei? – questionou Mel – Vai comer assim?
— Eu nunca vou jantar com o rei. – riu-se ela – Me poupem.
Os três riram e Lina decidiu que era hora de partir para a sobremesa. Pegou um generoso pedaço do bolo de chocolate e comeu, enchendo a boca e dando um sorriso com as bochechas cheias.
— Agora nos diga, Quenguinha, como você convenceu o papai a deixar você se alistar? – quis saber Fey.
— Ele não deixou. – falou Lina com a boca cheia de bolo – Eu fugi de casa. – completou com simplicidade.
Por um momento os irmãos ficaram calados, esperando que Lina começasse a rir e dissesse que era uma piada. Porém, a jovem continuou massacrando o pedaço de bolo com os dentes e os irmãos perceberam que era verdade. E então gritaram.
— Aff, não precisa desse escândalo. – disse Lina coçando o ouvido com uma careta – Vão me deixar surda.
— Você fugiu de casa!? – Mel colocou as duas mãos no peito – Como você fez isso?
Animadamente Lina começou a contar seu feito, deixando os irmãos cada vez mais pálidos e angustiados. Quando ela terminou o bolo e o relato, parecia que Mel e Fey enfartariam a qualquer momento.
— Você vai matar nosso pai do coração! – exclamou Fey levando as mãos ao peito.
— Isso se o velho não já estiver morto! – completou Mel colocando as mãos no rosto.
Em outra ocasião, Lina ignoraria o drama dos irmãos, mas os acontecimentos daquele dia a deixaram com os nervos a flor da pele.
— E vocês queriam que eu fizesse o quê? – gritou Lina frustrada – Todos lá em casa puderam ter a vida que queria, porque só eu tenho que e contentar em ficar naquele fim de mundo?!
— Por que você é a princesinha do papai? – sugeriu Fey.
— Eu não pedi para ser! – retrucou Lina como rosto muito vermelho.
— Mas se beneficiou muito disso. – censurou Mel.
— É, mas se ele me ama tanto quanto diz, porque não deixa eu seguir meus sonhos?! – agora os olhos de Lina se encheram de lágrimas – Vocês acham que foi fácil? Fazer isso? Saber que eu machucaria o papai?! – ela fungou e as lágrimas escorreram – Pois não foi! Aí quando eu cheguei lá na Bastilha ainda fui presa…
— Você o quê? – gritaram os irmãos ao mesmo tempo.
E, entre lágrimas, Lina explicou o que acontecera. Até então tinha aguentado tudo. Só que ali, alimentada e relaxada, pode compartilhar com Fey e Mel o que sentira. Os irmãos ouviram tudo em silêncio, deixando que sua irmãzinha desabafasse. Quando Lina acabou e enxugava o rosto na toalha de mesa, eles se entreolharam. Ela poderia não ter feito a coisa que eles achavam certa, mas fez o que achou que era necessário. Essa era uma característica de Lina que Bolvar aproveitaria muito no futuro. Além do mais, ambos duvidavam que o pai ficaria muito tempo chateado com Lina. Por isso, trataram de acalentá-la, acalmá-la e depois a instalaram no quarto de Fey para que ela pudesse descansar e estar pronta para o dia seguinte. Ambos pensavam que teriam tempo para pensar no que fazer quando o pai decidisse ir até Ventobravo.
Ledo engano.
Lina acordou no dia seguinte com uma barulheira horrível vinda da cozinha. Esticou-se na cama, sentindo os pés passarem da cama de Fey e franziu a testa. Nem na capital encontrava uma cama que a cabia. Quando recebesse seu primeiro salário, compraria uma cama sob medida. Sorriu ao pensar nisso.
A barulheira continuava e Lina se perguntou se seus irmãos estavam brigando com os namorados, mas então ouviu uma voz que a fez gelar. Era a voz de sua mãe. Logo em seguida a voz de seu pai se fez ouvir. Gelou ainda mais. Olhou para Vicious, que estava deitado no chão, mas o urso dormia a sono alto. É, teria que enfrentar aquilo sozinha. Respirou fundo e saiu do quarto.
A primeira pessoa que a viu sair de pijama rosa do quarto não foi seus pais e nem seus irmãos.
— Tia Lina!
Uma linda menina de cinco anos gritou alegre e se atirou nas pernas da jovem. Surpresa e ao mesmo tempo feliz, Lina se abaixou e deu uma abraço apertado na menina. O silêncio se fez na sala.
— Pandora! – exclamou Lina passando a mãos nos cabelos castanhos da menina – O que veio fazer tão longe de casa?
— Eu tava com saudades! – disse a menina com simplicidade – E vovô e vovó disseram que vinham te pegar, aí vim junto! – e o sorriso abriu-se mais ainda.
Lina se esforçou para não fazer cara feia para os pais.
— Que bom que você veio me ver aqui, Pãozinho! – a menina riu diante do seu apelido – Porque, infelizmente, eu não vou voltar com vocês.
— Ah, mar vai sim sinhora! – grunhiu seu pai franzindo a testa – Podi si vistir que cê vai vortar pra fazenda!
Lina ficou de pé e encarou o pai.
— Pois eu não vou! Vou ficar aqui com Fey e Mel e vou começar meu trabalho como soldado!
O velho Sebastian olhou com ira para os outros filhos, que se encolheram de medo.
— Ocês tem coisa a vê cum isso? – perguntou com raiva.
— Claro que não, papai! – Lina foi em defesa dos irmãos – Eles ficaram muito surpresos com minha chegada! Não os culpe por nada!
Mesmo jovem, Lina tinha um senso de justiça apurado.
— Intão eles num diviam ter tumado seu partido! – continuou o velho bravo.
— E or mininu iam fazê u quê Sebastian? – Dona Mariana falava pela primeira vez e o fez calmamente – Colocá a minina pra durmi na rua? Pra casa du Tomilho é qui ela num ia.
— Vai ver ele prefere que eu more no alojamento do exército. – alfinetou Lina cruzando os braços – Onde só tem soldados…
O desconforto do velho foi visível. Não, jamais ele permitiria que Lina ficasse em um alojamento cheio de homens. Só de pensar nisso ele já se tremia.
— Bem, num importa puquê ecê volta cum nois.
— Eu já disse que não volto! – Lina bateu o pé.
— Vorta sim! – teimou Sebastian também batendo o pé.
Dona Mariana suspirou, enquanto o marido e a filha continuavam teimando um com o outro.
— Bem qui Tomilho pudia tá aqui… – murmurou a senhora com a mão no rosto – Mar a Aninha num deixô. Disse qui ele num ia consegui isculhê lado e ia piorá tudo…
— Nisso eu concordo com a Ana… – murmurou Fey vendo o volume de voz do pai e da irmã aumentarem – Os vizinhos vão reclamar…
— Só eu tenho a impressão que Pandora está se divertindo com a situação? — perguntou Mel.
A menina olhava para tia e para o avô e ria a cada grito que um dava no outro. Em sua cabeça infantil, os dois estavam disputando quem dava o grito mais alto e estavam empatados. A cada grito, ela ria alto. E chegou em um momento que a menina se pôs a rir tanto, que pai e filha se entreolharam, olharam para a menina e o riso dela fez com que os dois perdessem a fala por um só momento. Mas foi o tempo suficiente para que quem realmente mandava na família se impor.
— Tá certu, parô us dois. – disse dona Mariana se aproximando – Num quero mair nenhum grito nessa casa. Phumiga e PotinhodeMel tem vizinhu chatu. E num queru ninguém falanu de nossa famia. Quem fala da nussa famia é nois mermu!
A senhora pôs as mãos na cintura e olhou para o marido e para a filha. Os dois continuaram calados enquanto Pandora continuava esperando que os gritos continuassem.
— Quengacilina, minha fia. – começou dona Mariana – Tu já feiz o negócio lá nus exército?
— Fiz sim mãe. – apressou-se em dizer – Tá aqui. – e pegou a folha que estava em cima da mesa e mostrou a mãe.
— Tú sabe qui num sei lê minina. – ela fez um gesto com a mão para Lina baixar o documento – Num precisa mustrá, cunfio em ocê.
Lina sentiu o rosto ficar vermelho de vergonha. A mãe confiava nela? Quem diria!
— Mariana, meu amô... – começou seu Sebastian com a voz melosa.
— Nim vem, véi safadu. – cortou a idosa, arrancando risos dos filhos e também da neta – Já sei u qui ocê vai falá, puquê vei a viaji toda falanu. Inton, vai mi ouvi. – ela esperou o marido contestá-la, mas ele não o fez – Muito bem! A minina é di maió, e podi fazer o qui quizé...
— Mar, amô... – o velho ensaiou a fala, mas o olhar de sua mulher o metralhou – Discurpe.
— Si num deixa eu falá... – ameaçou ela levantando o punho. Pandora riu mais ainda – Vortandu, Quengacilina é di maió. Ela qué sê soldada. Eu tumbém num fico muito filiz naum, puquê é doir fio que podi morre pros orcs. – os olhos verdes da senhora, que todos os filhos e netos herdaram, se encheram de lágrimas – Minhas cumádi tudo perderum mininu e minina nas guerra aí pelo mundão da Luz, e num consigo imaginá a dó de ficá sem um dos meur fio...
— Mãezinha… – murmurou Lina também com os olhos marejados.
— Num me interrompa você tumbém não, Quengacilina! – ordenou ela com a voz voltando a ficar firme e Lina se encolheu. Dona Mariana tinha a paciência de um anjo e dificilmente ficava brava, mas quando ficava, todos corriam por suas vidas – U qui queru dizê é qui intendu ocê, meu véi, mar Quengacilina tem o direito di fazê a isculha dela! Tudim lá em casa teve. Tudim! A gente teve qui pinhorá a fazenda pra Quengalícia í pra Daralum.
Fey quase corrigia a mãe dizendo que o nome da cidade era Dalaran, mas mudou de ideia no último instante. Não era bom atrair a atenção da mãe naquele momento.
— Num é justu cum Quengacilina que tudim façam u que quizerim i ela num pudê! Oie pra minina. Ela tá filiz!
Para corroborar o que a mãe disse, ela abriu um grande sorriso para o pai e exibiu o documento de inscrição no exército. Como a mulher, Sebastian era analfabeto e só conseguia assinar seu nome, mas ele reconheceu o Wood assinado com a letra linda de sua filha. Seu coração então, vacilou.
— Mar eu tenhu medo di ela morrê! – confessou o velho e caiu no choro.
Lina não esperava essa reação do pai, mas logo que se recuperou do choque, foi até ele e o abraçou com força. Dona Mariana, então, abraçou os dois também. Pandora, que não queria ficar para trás, abraçou todos. Fey e Mel choravam abraçados também.
— Pai, eu não vou morrer. — disse Lina com carinho – Eu sou uma Wood! Nós somos que nem baratas: numerosos e difíceis de matar.
— Qui noju Quengacilina! – ralhou sua mãe – Cumparar nois ar barata!
— Tô brincando mãe! – se justificou – Só queria mostrar que está tudo bem. Vou em cuidar. E agora eu não vou par ao campo imediatamente. Vou treinar. Ficar de guarda na Bastilha… Vou ganhar experiência. E, um dia, vou ser general, vou ter dinheiro e vocês nunca mais precisarão se preocupar com nada!
— Ah, minha fia… – seu Sebastian a abraçou ainda mais.
Cansada da brincadeira do abraço, Pandora soltou as pernas da família e foi até onde Fey e Mel estavam e perguntou, franzindo a testa:
— Tem biscoito?
Naquela manhã todos tomaram café juntos, como se nada de mais tivesse acontecido no dia anterior. Sabiamente, Lina omitiu a informação que tinha sido presa no dia anterior e seus irmãos também não contaram nada. Foi com orgulho que Lina pôs sua farda de recruta e mostrou para os pais, sem segurar sua alegria. Seu Sebastian ainda resmungou alguma coisa, mas dona Mariana fez questão de ajeitar as dobras do uniforme e também criticar quem costurou a farda.
— Qui fêi, parece qui foi feitu cum us pé. — e franziu a testa tentando ajeitar a gola da camisa.
— É gratuito não é, mãe? Tem que se contentar com isso. — respondeu Lina.
— Vô dexá um dineiru cum seus irmãu prumode eles fazê uma ropa decenti! — decidiu a senhora com um sorriso.
— Não precisa, mãe! — tratou de dizer Lina. A última coisa que queria era que seus pais gastassem dinheiro com ela.
— Num discuta cumigo, Quengacilina, qui hoji eu num tô boa! — avisou.
Lina não disse mais nada.
— Tu tem qui tá bem-arrumada. — continuou sua mãe – U qui vaum dizê si verem ocê vê uma doida?
— A pessoa mais importante do exército já me viu lá, mãe. — disse – Quer dizer, a pessoa mais importante depois do rei, óbvio. — e diante do olhar questionador da mãe, esclareceu – O Grão-Lorde Fordragon foi quem fez meu alistamento ontem.
— I foi? — sua mãe agora estava impressionada.
— Foi sim. — sem querer se alongar na conversa e contar o motivo que levara Bolvar a inscrevê-la disse – Até vi a filha dele. Sabe mãe, ela é bem franzina pra idade. Parece ter uns dez anos em vez de treze. Nem peito tem!
— Mar nun vá dizê isso pro omi não, viu? — ralhou a mãe verificando o cinto dela – Ele podi num gustar.
Preferiu não dizer a mãe que já tinha feito esse comentário e recebera a segunda bronca de Bolvar daquele dia. Bem, aprendera que tinha que guardar seus comentários sobre Arshe Fordragon para sim mesma.
Depois de vestida e de posse de suas armas, Lina foi com seu Sebastian em direção à Bastilha. O velho fazendeiro fez questão de deixar a filha de carroça na frente da Bastilha, antes de voltar para a casa dos filhos e descansar. Ele, a mulher e a neta iriam embora apenas no dia seguinte, depois do velho vender alguns barris de vinho. Pandora, que amava a tia e amava também andar de carroça, foi junto. Sentada no colo de Lina, elas falava pelos cotovelos, enquanto a carroça avançava lentamente pelas ruas.
— Aí mamãe tá sempre cansada, com o barrigão assim. — e fez um gesto mostrando uma barriga grande – Aí vovó tá sempre comigo.
— Não dê trabalho à sua mãe nem a sua vovó, certo? – falava Lina com delicadeza – Sua mãe tá quase tendo bebê e vovó já é velha. Vá ficar com suas tias.
A menina fez uma careta.
— Elas são chatas! – decretou – Você é a única legal!
Lina e seu pai riram.
— Se não quer ficar com elas, tudo bem, mas não perturbe sua mãe. — Lina apertou a menina contra seu corpo e ela riu alto – Quando eu tiver uma folguinha aqui, você vem passar uns dias comigo, certo? – convidou a jovem.
O sorriso no rosto da menina encheu o peito de Lina de amor e alegria.
— Certo! – e jogou os bracinhos para o ar, feliz.
Quando a carroça chegou junto a bastilha, diversos novatos se amontoavam lá para o primeiro dia e alguns riram, apontando a velha carroça com um cavalo igualmente velho, mais seu condutor, que era mais velho ainda. Lina nunca dera bola ao que diziam da pobreza de sua família, e não seria agora que teria vergonha. Por isso, fez questão de beijar o pai, antes de descer e por Pandora de volta na carroça. Queria deixar claro o orgulho que sentia da família.
— Obrigada pela carona, papai. E descanse bem. O velho Chico aqui também precisa descansar. – e alisou o focinho do cavalo – Acho que ele vai dar conta do mato do quintal com alegria.
— Podi dexar fia, nois vai discansá bem muito. — garantiu o velho – Pegá istrada a noite foi cansartivu.
— E perigoso pai! Ainda mais com a Pãozinho junto! – e apertou a bochecha da menina, que riu – Por isso, vocês só voltam amanhã de manhã!
— Ocê falô iguar sua mãe. – riu-se o velho.
Ouviu-se uma comoção e um burburinho entre os novatos e os três Wood olharam. Bolvar Fordragon apareceu naquele momento junto à multidão. Os soldados começaram se agrupar, nervosos para causarem uma boa primeira impressão no Grão Lorde. Quando os olhos do paladino pousaram na carroça velha e antiga e viu Lina, ele deu um pequeno sorriso e se encaminhou até lá. Houve um silêncio sepulcral quando ele cumprimentou o idoso na carroça velha.
— Bom dia. — sua voz soou gentil e acessível – O senhor deve ser o pai da soldado Wood.
— Sou sim, sinhô. – disse igualmente solícito o velho Sebastian tirando o chapéu e cumprimentando o general – Um bum dia pru sinhô tumbém.
— O senhor deve ser muito orgulho de ter uma filha tão corajosa, senhor. – elogiou Bolvar – Queria eu que mais jovens em Ventobravo tivessem a disposição que ela tem.
Lina percebeu que seu pai corava.
— Vô lhi sê sinceru, mir lordi. — disse o velho recolocando o chapéu na cabeça – Eu num quiria. É pirigosu e tenhu medu di perdê minha minina. Mar tenhu orguio dela sim, puquê sei qui muito cabra pur aí num tem metade da coragi de minha Lina aqui.
Era a vez de Lina corar.
— Sou corajosa também! – gritou Pandora se metendo na conversa.
Os três riram.
— Claro que é, pequena. – Bolvar alisou a cabeça dela e Pandora abriu um imenso sorriso e olahdno para Lina, perguntou – Sua irmã?
— Sobrinha. — respondeu.
— Sou a sobrinha favorita dela! — exclamou a menina.
Riram ainda mais e Lina concordou:
— É sim, Pãozinho! — e notando o aumento de pessoas olhando a cena, disse – Papai, tenho que ir. Não quero atrapalhar o trabalho do Grão-Lorde.
— Apois vá, minha fia. — disse ele segurando as rédeas do cavalo com mais força – Nu jantá ocê mi conta como foi.
— Certo papai. A benção? – pediu timidamente entendendo a mão, ciente que Bolvar a observava.
— Qui a Luz ti abençoi minha fia amada. – ele segurou sua mão, beijou-a e depois beijou sua cabeça.
— Bença, tia Lina! – pediu Pandora.
— Que a Luz te abençoe, Pãozinho! – e segurou a menina e encheu-a de beijo.
Depois que a carroça se afastou, Lina olhou sem jeito para o Grão Lorde enquanto este lhe sorria.
— Que bom que já fez as pazes com seus pais. É muito triste quando uma briga separa a família. – disse ele.
— Como o senhor sabia que era meu pai? – perguntou, curiosa.
— Ora, soldado, estava na cara. — e fazendo um gesto, ordenou que ela o acompanhasse – Mas confesso que me assustei por um momento. Achei que a pequena era sua filha. Como você só tem dezoito anos, me perguntei quem teria se aproveitado de sua inocência.
Lina não pode deixar de rir, para a surpresa de quem acompanhava a volta dos dois à formação.
— Muitos pensam que sou a mãe dela, porque Pãozinho é minha cara. Meu irmão detesta isso. Minha cunhada acha graça. — e o olhando com o rabo do olho, acrescentou – E te garanto, Milorde, com treze anos eu já era esperta o suficiente para ninguém me enganar. Todos os Wood já nascem desconfiados.
Bolvar riu por um momento e depois ficou sério.
— Está pronta para seu primeiro dia, soldado Wood? — perguntou assim que voltaram à multidão.
— Sim! – e depois lembrou-se de completar – Sim, senhor!
E assim começara a escalada de Lina na direção ao que se tornaria toda a sua vida.
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Luxuriah decidira que não seria mais ignorada por Rommath. Ignorada sexualmente, pelo menos. Em questão de atenção, ele até que fora bem mais do que ela esperava. O ‘cortejo’, como chamou Vivithi, estava durando semanas e a elfa não sabia porque ele não dava o próximo passo. A única coisa que faziam era tomar chá e conversar. Apesar de gostar muito desses encontros, não fora para isso que o procurara. Por isso, quando sugeriu aquele jantar, tinha o plano de aproveitar o momento e fazer com que o arquimago tomasse alguma posição. Vestira uma roupa mais provocante, caprichara no visual e saíra quando as irmãs adormeceram.
Rommath a esperava, lindo como sempre. Naquela noite, ele também caprichara no visual e Luxuriah teve a sensação que seu coração ia sair do peito, tão forte que ele bateu quando o viu. Com o charme habitual, ele a convidou para entrar e pegou em sua mão. Habituada em ser tocada por ele, Luxuriah não se retesou ou se intimidou com seu toque e entrou na casa. Para sua surpresa, ele não a levou para o quintal, mas subiram as escadas onde um salão enorme surgiu, ricamente decorado, com uma mesa magnificamente decorada os esperava. Dois servos aguardavam discretamente em um canto.
— Que lindo… — murmurou.
— Quando você sugeriu o jantar, fiquei surpreso, mas depois, contente. Faz tempo que não tenho a oportunidade de arrumar um jantar caprichado. — disse ele sorrindo.
Os servos puxaram as cadeiras para os dois e os acomodaram. Depois, uma sucessão de pratos belos e deliciosos começaram a serem servidos enquanto eles bebiam um delicioso vinho.
— Antigamente. — começou Rommath vendo-a levar a taça de cristal aos lábios – Ninguém permitiria uma jovem beber vinho antes dos setenta anos. — ele sorriu balançando a cabeça – Sempre achei uma regra antiquada.
— E é. — concordou ela – Não imagino ter que esperar mais cinquenta anos para provar algo tão bom.
— Pois é. O Flagelo nos abriu os olhos para nossa própria finitude. — ele a viu franzir a testa e se recompôs – Perdoe-me. Hoje a noite não é para falar sobre isso.
E empreenderam outras conversas. Era fácil conversar com Rommath, pensava Luxuriah. Ele não ficava tentando se gabar de nada, nem afirmar nada. Porque ele era e ponto final. O Grão-Magíster tinha consciência de seu poder, de seu status e de sua própria grandeza, mas isso não o deixava com um ar de petulância, pelo contrário. A certeza de não precisar provar nada o fazia ser alguém que irradiava confiança e solidez. Talvez por isso Luxuriah se sentisse atraída por ele. Havia uma estabilidade no olhar de Rommath que não havia mais na vida dela. Ciente ou não disso, Luxuriah adorava a companhia dele e sabia que ele apreciava a dela. Se fosse um cortejo de verdade, estaria tudo bem, mas a elfa queria mais. Muito mais.
Depois de terminarem a refeição, os dois sentaram em uma varanda, cada um com um licor na mão, enquanto os servos limpavam tudo. Abaixo deles, o quintal estava todo iluminado e brilhava na noite. A jovem olhou aquilo, admirada.
— Está cada dia mais lindo. — comentou.
— Ter alguém o admirando me faz ter vontade de deixá-lo cada vez melhor. — disse ele sorrindo e levando a taça aos lábios.
Luxuriah sentiu as orelhas tremerem. Aquela beleza estava sendo feita para ela? Não… Devia ter entendido errado. Mas, mesmo assim, preferiu não encarar os olhos dele e continuou fitando o jardim.
— O príncipe perguntou por você, esses dias. — comentou o mago. Luxuriah teve a impressão de ouvir uma hesitação na voz dele – Vocês se conhecem pessoalmente?
— De vista apenas. — O rosto de Luxuriah se fechou. Falar do príncipe lembrava sua mãe e aquilo doía. — Por que?
— Nada, apenas estava me perguntando se uma jovem tão intensa quanto você não preferiria a companhia dele que a minha…
Ela virou a cabeça tão rápido que o licor pingou em sua roupa.
— A última companhia que eu quero é a do príncipe Kael’thas. — disse um pouco ríspida demais – Mas se quer me dispensar, não precisa usá-lo como desculpas. Eu vou embora. — e se levantou.
— Espere! — Rommath se levantou e a pegou gentilmente pelo braço – Desculpe, eu não quis ofendê-la, apenas…
— Apenas o quê? — perguntou com dureza.
— Apenas me surpreendo com uma jovem preferir a minha companhia do que a do cobiçado e solteiro príncipe. — ele sorriu fracamente – Na verdade, o próprio príncipe disse algo assim. Pensei que ele tivesse lhe procurando.
— Se queria saber se ele tinha me procurado, perguntasse diretamente. — retorquiu – Não invente desculpas. Odeio isso.
— Sinto muito, muitíssimo. — pediu com sinceridade – Não vá, por favor.
Talvez ele não fosse tão senhor de si, afinal. Se esse fosse o caso, talvez apenas o príncipe Kael’thas conseguia tirar o poderoso e seguro Rommath do eixo. Luxuriah saberia, mais cedo do que acreditara, que aquilo não era apenas verdade, como criaria uma ferida abissal no coração do mago.
— Se isso te importa – continuou ela sentando-se – Sempre achei você muito mais interessante que o príncipe. — e tomou mais um gole de seu licor – E mais bonito também.
Viu, com surpresa, Rommath corar.
— Esse é o melhor elogio que alguém já me fez, Luxuriah. — e piscou o olho para ela. O coração da elfa acelerou ainda mais.
— E é sincero. — disse desviando o rosto e corando.
— Sei que é.
Ficaram em silêncio por mais um momento, até que um servo veio discretamente e sussurrou algo no ouvido de Rommath. O elfo assentiu com a cabeça e depois que o servo saiu, levantou-se.
— Peço desculpas mais uma vez, Luxuriah, e agradeço que você tenha ficado. Eu havia preparado algo para nós. — e estendeu a mão.
Curiosa, Luxuriah aceitou a mão oferecida. Quando voltaram ao salão, ela percebeu que a mesa tinha sumido, e um reprodutor de música tinha sido colocado lá e tocava belas melodias. A luz também fora diminuída e haviam velas flutuando no teto.
— Gostaria de dançar comigo? — pediu ele com delicadeza.
Luxuriah teve vontade de dizer que queria muito mais que dançar, mas refreou a língua. Tudo estava lindo demais para ser desperdiçado.
— Claro.
O servo recolheu as taças de licor e os dois começaram a dançar.
Rommath era bem algo, então a cabeça de Luxuriah ficava no peito dele. Dançaram uma música atrás da outra, se olhando e sorrindo. Das mais dançantes até as mais lentas, quando a jovem colocou a cabeça no peito do elfo, fechou os olhos e se deixou levar pela melodia. Ela conhecia todas aquelas músicas, cantara algumas e tocava a maioria, então aquilo lhe dava a sensação de familiaridade, de conforto, que fazia algum tempo que não tinha. Além disso, pode escultar o coração de Rommath pela primeira vez. Ele batia compassado, forte, sem nenhuma alteração, enquanto o dela parecia pular no peito. Será que Vivithi se enganara? Será que ele realmente não tinha nenhum interesse nela?
— Por que você ainda não tentou nada? — questionou inesperadamente.
— Como? — perguntou ele confuso.
— Você não tentou fazer nada comigo. — repetiu com o coração ainda mais acelerado.
— Ora, eu estou fazendo. — disse Rommath calmamente – Estou dançando e conversando com você.
— Me refiro a sexo, Rommath! — explodiu finalmente agora tirando a cabeça do peito dele e o encarando – Você não tentou fazer sexo comigo e sabe eu foi para isso que vim!
O sorriso que ele lhe deu era tranquilo e complacente.
— Sim, eu sei. — esclareceu – Mas eu não costumo adiantar as coisas com donzelas.
O choque de Luxuriah foi tão grande que ela parou de dançar. A música continuou tocando, as velas continuaram bruxuleando e jogando sombras e luzes nos dois, mas a jovem agora o encarava com um misto de espanto e incredulidade.
— Eu não sou donzela. — disse ela com a raiva invadindo o peito novamente – Não me diga que você não sabe o que me aconteceu porque estará mentindo! — gritou.
— Eu sei sobre tudo o que você passou. — a tranquilidade dele a irritava e também a desnorteava – Mas isso não significa que você não seja donzela.
A fala dele foi tão absurda que a raiva dela oscilou e Luxuriah ficou apenas o encarando, a espera de uma explicação.
— Para mim, — começou – Você deixa sua virgindade de lado quando quer isso. Quando sente prazer. Quando é tocada e isso te faz querer mais e mais. Quando é verdadeiramente beijada e sente como se seus lábios fossem incendiar de tanto desejo. Qualquer coisa fora isso é apenas violência. — e a encarando com intensidade, quis saber – Responda-me Luxuria, você sequer foi beijada?
Beijo… Beijar… Não, Luxuriah nunca havia sido beijada. Os humanos tinham interesse em outras partes de seu corpo e não em seus lábios. Até mesmo os elfos com quem se envolvera queriam beijar seu pescoço, seus seios, mas nunca sua boca. Trêmula, ela levou os dedos aos lábios. Nunca havia pensando em si mesmo como donzela, mas Rommath a fazia se ver assim ao colocar os dedos sobre os lábios vermelhos.
— Não… — murmurou ela afastando os dedos dos lábios – Ninguém nunca me beijou.
Rommath sorriu.
— Dar-me-ia essa honra? — pediu fazendo uma reverência.
Espere. Ele estava pedindo permissão para beijá-la? A raiva de Luxuriah sumiu completamente e seu coração voltou a bater rápido. Aproximou-me se Rommath novamente, colocou as mãos em seu peito, fechou os olhos e ofereceu os lábios virgens ao elfo.
Luxuriah estava preparada para sentir nojo, se afastar e correr. Estava preparada para não sentir nada, a não ser o estranho toque de outra boca na sua. Só não estava preparada para o que sentiu. Primeiro, foi o gosto doce da boca de Rommath. E não era apenas o sabor do licor que ambos bebera. Era o gosto do próprio Rommath, misturado ao seu cheio e ao toque de suas mãos na cintura dela. Sentiu o gosto da profundidade de suas intenções, de seu coração bondoso e de sua alma antiga. Sentiu o gosto de todas as suas vivências e também o gosto da sua intenção, que era proporcionar a ela uma experiência única e gratificante, diferente de todas até então. Também sentiu o gosto do desejo. E Luxuriah saboreou cada um dos gostos de Rommath, absorvendo tudo o que ele podia oferecer.
O beijo acabou rápido demais, pleo menos foi isso que Luxuriah pensou quando os dois se afastaram. Aquela vez, sabia que o coração de Rommath não estava tão compassado e tranquilo, mas batia tão rapidamente quanto o seu. O elfo chegou a abrir a boca para dizer algo, mas a jovem, agora com seu desejo desperto, não queria ouvi-lo. Não. Queria prová-lo. Agora foi ela quem o beijou, pressionando seu corpo contra o dele, abraçando-o com força e mostrando para o arquimago que aprendia bem rápido quando lhe ensinavam algo. Rommath sentiu o impacto da vontade da jovem e não resistiu, deixando-se levar pelos anseios dela pela primeira vez. E seria a primeira vez de muitas.
Quando o beijo findou, os dois estavam ofegantes que Luxuriah agarrava as vestes dele com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos. Apesar da sua vontade de não querer apressar as coisas para a inexperiente elfa, Rommath percebeu que não poderia adiar mais. Luxuria, ao seu ver, não estava pronta, mas a hora chegara. Se a mandasse embora sem satisfazer sua vontade, não a veria de novo. E ele sabia que ela jamais encontraria alguém tão paciente quanto ele para ajudá-la naquele momento. Por isso, cedeu.
— Venha. — chamou.
Luxuriah foi.
O quarto dele ficava naquele andar, então não precisaram caminhar muito. Se não estivesse tão nervosa, Luxuriah teria reparado na beleza e no luxo daquele quarto, mas estava nervosa demais para isso. Não conversaram mais depois que ele fechou a porta. Beijaram-se mais uma vez e Rommath a levou com delicadeza até a cama. Deitaram-se um ao lado do outro e voltaram a se beijar. Rommath deslizava as mãos pelo corpo dela e Luxuriah sentia coisas que jamais havia sentido antes. Havia uma pressão em seu peito, um frio em seu estômago e um latejar no meio de suas pernas. Quando as mãos dele passaram pelos seus seios, suspirou. As carícias ficaram cada vez mais intensas, até que, em meio aos beijos, Rommath se esgueirou para cima dela, pressionando seu corpo contra o dela.
Foi quando tudo desandou.
Sentir um corpo pesado de alguém em cima dela fez o pânico de Luxuriah voltar na mesma hora e com força. Nem mesmo o beijo o impediu. A jovem afastou bruscamente o rosto do de Rommath e gritou, aterrorizada:
— Não!
Assustado, o elfo saiu de cima dela e Luxuriah sentou-se, com a respiração acelerada e os olhos arregalados de medo. Quando se tocou do que acontecera, os olhos dela se encheram de lágrimas e ela gritou, frustrada. Rommath se desesperou.
— Luxuriah… — murmurou tentando acalmá-la – Eu não farei nada que você não queira… Sinto muito, muito mesmo por tê-la assustado…
Entre soluços, a jovem explicou:
— Não estou com medo! — gritou – Estou com raiva! Com raiva porque quero fazer e não consigo! — e se pôs a chorar ainda mais e a socar a cama.
Rommath deixou que ela colocasse toda a frustração para fora, pensando no que fazer para ajudá-la. Percebera que ficar sobre ela seria impossível. Então teria que ser de outra forma. Quando o choro de Luxuriah foi diminuindo, o mago tocou em sua mão e ela o encarou:
— Venha… Vamos tomar um pouco de ar puro.
Sem forçar para protestar, a elfa o acompanhou. Rommath a levou até o quintal iluminado e decorado e Luxuriah imediatamente se sentiu melhor. Ao ver a tensão dela se esvair, ele sorriu. Sabia que fizera a coisa certa. Sentaram-se no chão, entre os morangueiros, e passaram a admirar a lua cheia que reinava no céu. Ficaram de mãos dadas por um tempo, até que ele perguntou:
— Quer ir para casa?
— Não. — ela respondeu.
Sorrindo com a resposta, ele descruzou as pernas e as esticou.
— Sente-se aqui. — e indicou o meio das pernas dele – Vou lhe fazer uma massagem pra que você se sinta melhor.
— Você sabe fazer massagem? — ela estava surpresa com o oferecimento dele.
— Sou um exímio massagista. — garantiu abrindo um sorriso.
Luxuriah então sentou-se no local indicado e logo sentiu as mãos quentes dele em seus ombros. Rommath começou a massageá-la lentamente, primeiro seu pescoço, depois os ombros, descendo pela coluna. A sensação era tão boa que ela fechou os olhos e foi aproveitando toque suave em seu corpo. Cada vez que Rommath a tocava em um local diferente, ela ofegava, deixando as sensações boas entrarem novamente em seu corpo. Então, sentiu os lábios dele em sua orelha, beijando-a e a mordiscando. Gemendo, ela se retesou entre as pernas dele, que a apertou mais contra seu corpo.
— Quer que eu pare? — perguntou ele com a voz rouca.
— Não… — murmurou a elfa, ainda de olhos fechados.
As mãos dele agora foram para seus seios, apertando-os de leve, antes de descerem por sua cintura. A essa altura, todo o desejo retornara a Luxuriah, que suspirava e gemia diante dos beijos e do toque de Rommath. E foi com delicadeza que ele voltou com as mãos para suas costas, mas dessa vez para desabotoar o seu vestido. Luxuriah não o impediu e logo seu vestido estava caído até a cintura. Nesse momento, Rommath segurou seu queixo com delicadeza e virou seu rosto na direção do dele, beijando-a delicadamente. As costas de Luxuriah pressionavam o peito dele, onde o coração batia tão descompassado quanto o dela. Mais uma vez as mãos dele estavam em seus seios, agora desnudos e sensíveis. Luxuriah gemeu alto quando ele massageou levemente seus mamilos. Agora, o latejar entre suas pernas era quase insuportável. Rommath desceu ainda mais o vestido e Luxuriah tratou de arquear os quadris, permitindo que ele tirasse toda sua roupa, que se tornara um incômodo. Nua, a jovem sentia todo seu corpo vibrar, como se fosse cordas de um violão e Rommath fosse o músico que a fazia produzir, não uma música, mas uma infinidade de sensações. Foi quando o momento aguardado chegou. Rommath pôs a mão entre suas pernas, tocando aquele ponto sensível que teimava em latejar. Luxuriah estremeceu e se agarrou nas pernas dele enquanto ele massageava seu sexo com uma mão, com a outra tocava em seus seios e com a boca beijava sua orelha. Eram várias sensações juntas que produziam a melhor coisa que ela já experimentara na vida. A mãos dele foi ficando cada vez mais rápida até que aconteceu uma explosão. Seu corpo tremeu e ela gritou, enquanto experimentava a melhor sensação de sua vida. Era indescritível. O toque de Rommath perdeu a força, até parar delicadamente e então virá-la de frente para si e a beijar. Luxuriah o abraçou fracamente, sem forças.
Aconchegando-a, Rommath deitou-se no chão enquanto ela deitava por cima de seu corpo. Ficaram em silêncio por um tempo, enquanto Luxuriah retomava o fôlego.
— Então… — falou ela depois de um tempo – É assim o sexo bom?
— Não, querida. — respondeu para a surpresa da jovem – Essas são apenas preliminares.
Ela ponderou sobre o que ele disse, e então ordenou:
— Quero tudo.
Rommath riu.
— Não acha que já fizemos muitos avanços hoje? — perguntou passando a mão no cabelo dela.
— Não.
Aquela resposta já era esperada.
— Então… — murmurou o elfo – Por que não tira minha roupa?
Era uma forma de deixar com que ela se sentisse no controle e funcionou. Luxuriah escorregou para o lado e começou soltando os cabelos dele. Passou os dedos pelos fios negros e sedosos, absorvendo todo o maravilhoso cheiro deles. Depois, desabotoou a sua camisa. Eram agora os toques dela que o fazia suspirar e a jovem gostou de perceber que tinha esse poder. Quando tirou toda a camisa se surpreendeu com as tatuagens que cobria seu peito.
— Pensei que eram apenas em seus braços. — comentou.
— Tenho por todo o corpo. — revelou.
Luxuriah observou o peito nu dele por um momento, então se inclinou e beijou-o. Rommath, pego de surpresa, gemeu alto. Luxuriah sorriu maliciosamente. Beijou todo seu peito até descer par ao cinto. Pensar que Rommath estava sentindo tudo que ela sentira antes lhe deixava extasiada. Então aquilo era o que acontecia em um sexo de verdade? Não era de se estranhar que gostavam tanto daquilo.
Quando se livrou do cinto e das calças dele, Luxuriah ficou cara a cara pela primeira vez com o órgão masculino que tanto lhe machucara antes. Porém, não pensou nisso nem por um segundo. Estava admirada demais. O pênis de Rommath erguia-se ereto, musculoso como o dono, mas ali não havia tatuagens. As marcas arcanas chegavam apenas até sua pélvis, como se fossem uma moldura para o órgão generoso do mago. Hesitante, ela o tocou. Rommath se retesou e gemeu alto. Ela retirou a mão, rapidamente.
— Dói? — perguntou.
— Não. — respondeu com a voz rouca e sussurrada.
Ainda sem saber o que fazer, Luxuriah sentiu quando ele tocou seu braço e então o encarou. Os olhos de Rommath estavam em chamas, de tanto desejo.
— Deite em cima de mim novamente. — pediu ele.
Quando atendeu ao pedido, ele colocou os dedos dentro do cabelo dela e a puxou para mais um beijo. Suas mãos voltaram a acariciá-la e todas as sensações voltaram ao corpo dela num piscar de olhos. Mas agora era muito melhor, porque podia sentir o corpo nu dele colado ao seu e os abraços eram mais íntimos, mais sensíveis. Eles se massageavam mutuamente e logo a elfa sentiu aquela sensação familiar no meio de suas pernas. Se acostumaria um dia com aquilo?
Rommath interrompeu o beijo brevemente e sussurrou no ouvido dela:
— Sente em minha barriga.
Sem entender o porquê do pedido, ela o fezu. Então, as mãos dele seguraram sua cintura e a deslizaram para seu órgão. Foi aí que ela soube o que aconteceria. Ele a ergueu com cuidado, ajustou seu órgão e a penetrou. Luxuriah explodiu novamente. Aquela sensação era tão intensa quando a outra, talvez ainda mais. Rommath começou a mexer embaixo dela e a sensação foi se tornando ainda melhor. Só que agora não era apenas ela quem a sentia. Podia ver, pelo rosto dele, que Rommath estava tão imerso de sensações quanto ela. Então, percebeu que podia tornar aquilo ainda melhor. Começou a se movimentar junto com ele e o prazer só aumentou. Uma das mãos de Rommath soltou seu quadril e apertou seu seio. Gritou de prazer diante do gesto. Continuaram com os movimentos, até que o elfo tornou tudo melhor. Com o polegar, pressionou aquele mesmo ponto no sexo de Luxuriah e o prazer foi multiplicado. Ela gritou e sentiu toda a explosão pela terceira vez, mas agora ela ia e voltava várias vezes, a medida que sentia que ele se derramava dentro dela. Foram momento que demoraram eras, mas, ao mesmo tempo, foi rápido demais. Quando terminou, Luxuriah desabou sobre ele, sorrindo. Estendeu a mão para um dos morangueiros, apanhou um morango e pôs na boca dele.
— Você foi o primeiro a fazer isso bom.
Ele já sabia daquilo, é claro. Mas vê-la ali, suada e satisfeita, sorrindo com aquele rosto de anjo que descobrira o paraíso, o atingiu de uma forma que jamais poderia supor. Ficou olhando-a, fascinado com cada detalhe do seu rosto e de sua alma, deixando-se tomar por um sentimento desconhecido e ao mesmo tempo arrebatador. Seu peito de apertou quando percebeu que a paixão estava tomando morada em seu coração na forma de Luxuriah. Perplexo, não ousou dizer nada, para não acabar com aquele momento.
Luxuriah não percebeu o que acontecera com Rommath, mas a expressão indecifrável do rosto dela a divertiu. Vendo que ele mantinha o morango entre os dentes, riu e se inclinou como se fosse beijá-lo, mas mordeu a metade da fruta, seus lábios encostando levemente nos dele e se afastou, mastigando sua parte do morango e sorrindo. O coração de Rommath caiu de vez aos pés da jovem elfa.
Quando anos mais tarde Vivithi alegara a Kassyeh que Luxuriah e Rommath tinha uma história, a maga não deu muito crédito porque nunca soubera realmente o que acontecera entre a irmã e o Grão-Magíster. Nunca soube que, por quase dois anos, os dois se encontraram regularmente na casa do mago, onde Luxuriah despertou sexualmente e aprendera tudo que sabia. Nunca soube também que Rommath tentara por várias vezes oficializar seu romance com a elfa, que sempre fugia. Como a própria Luxuriah admitiria no futuro, se não tivesse tão machucada, ela teria se apaixonado na mesma intensidade por ele que ele era por ela. Porém, seu coração despedaçado não permitia que tivesse mais que satisfação por estar com ele. Ciente disso, Rommath recuava diante das feridas dela. Teria continuado assim por muito mais tempo, se não fosse a traição do príncipe Kael’thas.
Kael’thas partira para Terralém para achar uma cura para o vício da magia dos elfos. Aliou-se à Legião Ardente e quando a sede de magia e poder no príncipe chegou ao máximo, ele atacou o próprio povo a mando de Sargeras. Para Rommath, melhor amigo do príncipe, aquilo não fora apenas uma traição de seu governante, mas de alguém que admirava e confiava. O Grão-Magíster ficou tão despedaçado, tão desesperado, que acabou fazendo de Luxuriah seu refúgio onde descansava de sua dor. Porém, a dor ficara tão forte, tão latente, que aquilo começou a afetar o relacionamento que tinham. Com medo de perder mais uma pessoa, Rommath tentou prender Luxuriah a si. A jovem, que não conseguia sequer lidar com suas próprias dores, não conseguia ajudar o elfo, por mais que tentasse. Quando, um dia, ele sugeriu que ficassem definitivamente juntos, Luxuriah tentou fugir mais uma vez, só que Rommath disse a frase que os separariam:
— Seus pais quereriam que ficássemos juntos.
Luxuriah surtou. Não suportava ouvir falar dos pais. Gritou com ele e foi embora de sua casa, voltando lá apenas anos depois, quando foi pedida em casamento.
Nesse meio tempo, Rommath procurou desesperadamente voltar com Luxuriah. A procurava em sua casa, em toda Luaprata, e foi aí que pegou a fama de apaixonado. Sofreu quando soube que Luxuriah tivera outros casos, mas com o tempo, seu coração fora se acalmando. Percebera seu erro e sabia que precisava se redimir, mas nunca tinha uma oportunidade. Claro, Luxuriah o procurou algumas vezes, quando não encontrava ninguém que a satisfazia da mesma forma que Rommath fazia. Chegaram a se encontrar em estalagens, tavernas e até em becos escuros da Travessa do Assassino. Ele pedia perdão e ela o perdoava, mas apenas para quando terminarem ela partir mais uma vez. Rommath então entendeu que precisava de calma e paciência. E esperou. Esperou. Grey apareceu e se fora. Huaru apareceu e se fora. Ele ficou.
E ele finalmente a teve.
E quando percebeu, tempos depois, que agora ela o amava também, fora o dia mais feliz de sua vida.
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— Eu sinto muito que isso tenha ocorrido, Cláudia. — disse Arshe, com sinceridade.
A tarde já estava avançada e o sol estava a pouco tempo de se pôr. No salão da Bastilha, Arshe recebia a General-Brigadeiro, Lady Cláudia, e também o tenente Horatio Lane. Ambos queriam notícias da comandante e chegaram quase ao mesmo tempo no castelo. Arshe então providenciara um chá da tarde para os três, enquanto conversavam sobre os acontecimentos da noite anterior.
— As pessoas ainda usam Claire para ferir a mim e a minha família. — a dor era evidente na voz de Lady Cláudia, enquanto ela encarava a xícara de chá que mexia metodicamente – Eles sabem o quão isso nos afetou.
— Ainda me sinto mal por nunca ter punido aquele desgraçado pelos boatos maldosos. — lamentou o tenente Lane.
— Era a palavra dele contra de um servo, ele jamais seria punido. — completou Arshe – Crowe não devia ter tocado no assunto com tanta leviandade! E posso dizer que meu desgosto por ele apenas aumentou!
— O meu também. — disseram a general e o tenente ao mesmo, e isso acabou levando-os a rir, espairecendo um pouco a tensão da sala.
A menina Claire, irmã de Cláudia, era uma jovem de pouco mais de quatorze anos que estudara em Dalaran. Um dia, conheceu um nobre, por quem se apaixonou. O homem, bem mais velho, tratou de encher a menina de promessas de casamento e amor eterno, na tentativa de fazê-la se entregar para ele. Muito tímida e casta, Claire resistiu aos avanços, mesmo apaixonada, pois era importante para ela chegar virgem ao altar. Enraivecido, o homem espalhou boatos a respeito da virtude da jovem, criando situações que não existiam e amantes falsos. Os boatos encheram Dalaran e Ventobravo. O enfurecido, o pai de ambas trouxe Claire de volta para casa, fazendo todo estardalhaço possível que um homem nobre com a honra manchada faria. Claire negou tudo, mas apenas sua irmã acreditou nela. Quando o pai disse que traria uma parteira para comprovar sua virgindade, a ultrajada Claire se recusou e foi trancada na torre da família. Desesperada, usou sua faca de cortar ervas para cortar os pulsos, deixando apenas um bilhete de mensagem para a família. O bilhete dizia: ‘pode fazer o exame agora, meu pai’. Assim, descobriram que a menina ainda era virgem e, com a informação, confrontaram o tal nobre, que jogou a culpa em um servo e acabou nunca pagando por ter destruído a honra e a vida de Claire. O pai de Lady Cláudia nunca se recuperou da culpa por não ter acreditado em sua caçula e, desde então, vivia recluso, como um monge.
— É difícil ser uma mulher nesse mundo. — murmurou a general, levando a xícara aos lábios.
— Por isso mulheres como vocês devem ser louvadas. — disse o tenente olhando para ambas mulheres presentes, que sorriram – E como a comandante também, é claro.
— Gostaria de falar com ela. — disse Cláudia pensativa – Deixar claro que os irmãos Jones vão pagar tudo que fizeram com juros bem altos. — ela sorriu maliciosamente – Mal posso esperar para que ela se recupere.
— Tenho certeza que será em breve. — garantiu a princesa – Hoje ela chegou a acordar. Um pouco confusa, claro, mas saiu do coma.
— Fico feliz em ouvir. — garantiu a general.
Conversaram durante mais um tempo, debatendo sobre como os irmãos Jones haviam conseguido o chumbo, cujo comércio era proibido, e o tenente garantiu que falaria com a AVIN para começarem as investigações. Enquanto estavam lá, Doroteya e Tommy chegaram.
A druidesa esperava encontrar Arshe no quarto, com Lina, e ficou surpresa ao ver que princesa tinha visitas. Quando o olhar de Lady Cláudia e de Horatio Lane recaíram sobre ela, a worgenin ficou sem jeito, pois era óbvio que eram pessoas importantes. Ao lado dela, Tommy também ficou desconfortável, mas por outro motivo. Quando começou as investigações para vingar sua família, ele havia pedido ajuda ao tenente Lane, que se comprometera a ajudá-lo. Todavia, Tommy sempre achava que ele não estava se dedicando o suficiente e, um dia, tiveram uma discussão acalorada. Ou melhor, Tommy gritou, perdendo o controle enquanto o tenente apenar observou. Soube depois, por Lina, que o homem nunca parara de investigar, até que ela dissera que já o haviam encontrado. Agora, que sentia-se outra pessoa, ficou envergonhado de encontrar alguém que fora tão solícito com ele e que tratara tão mal. Tentou se encolher atrás de Doroteya, mas, com a altura de ambos, aquilo era nitidamente impossível.
— Desculpe interromper. — pediu Doroteya – Achei que não estava ocupada.
— Ora, Doro, que história é essa de pedir desculpa! — reclamou Arshe se levantando – Venham vocês dois, tomem um chá conosco.
Tommy encarou a princesa como se ela estivesse louca. Ele, sentar na mesa com ela e com a Lady Cláudia? E com Horatio Lane? Além de nãos e sentir a vontade com nobres em geral, não queria que o tentente o reconhecesse. Porém, era tarde demais. Horatio tirou seus óculos escuros, o encarou e sorriu.
— Tommy Wood? — falou o tenente para confirmar – Há quanto tempo. — e se levantou e estendeu a mão para o engenheiro. Tommy sorriu pouco à vontade, mas apertou a mão do outro.
— Horatio Lane. — disse – Sinto que lhe devo desculpas pela última vez que nos encontramos…
— Você tinha todo o direito de estar naquele estado, Wood. — disse seriamente – Lhe garanto que nunca desisti de procurar os autores daquele crime.
— Lina me falou. — Tommy o encarou – Acredito que já sabe o desfecho de tudo.
— Sim, eu sei. -e olhou para Doroteya, que sorriu sem jeito.
— Doro me disse que você limpou o nome da minha irmã. — continuou o engenheiro – Serei eternamente grato por isso.
— Não havia o que limpar. — falou o tenente – O nome da comandante é límpido e transparente. Apenas esclareci as coisas.
— Sou grato de toda a forma. — e olhando para Arshe, perguntou – E minha irmã?
— A vi a pouco tempo. Ainda dormindo. — a princesa gesticulou para a mesa mais uma vez – Ora vocês dois, vamos, sentem e tomem chá conosco. Não se envergonhem! Já passamos por coisas demais para termos essa cerimônia toda. Acredito que conhecem Lady Cláudia. — e apontou para general, que se levantou.
— É um prazer. — e os cumprimentou com a cabeça.
Doroteya e Tommy fizeram uma reverência.
Arshe, vendo Tommy e Doroteya não saiam do lugar e ainda estavam hesitantes, revirou os olhos e começou a empurrá-los em direção à mesa.
— Setem logo e tomem chá conosco. Lina não irá para canto nenhum!
Aquilo acabou por convencê-los a sentar, para a alegria da princesa. Sentiram-se um pouco envergonhados de serem servidos pela própria princesa, mas logo estavam em uma animada conversa com os demais convidados. O que eles não sabiam, é que Arshe estava muito enganada.
Naquele mesmo instante, a comandante acordava.
Lina abriu os olhos e, por um momento, não fazia ideia de onde estava. Quando sua mente foi clareando, percebeu que se encontrava na bastilha, no quarto de Arshe. Franziu o cenho. Como viera parar ali? Tentou se levantar e sentiu uma pontada forte na cabeça. Deixou-me cair novamente na cama, tentando lembrar o que havia acontecido. Sua última lembrança era falar com Durão e pedir para cuidar do ursinho. Imediatamente começou a procurar o animalzinho. Vicious estava deitado no tapete da porta do quarto e veio correndo até ela quando ouviu seu assobio.
— Ei rapaz. – disse ela quando o bichinho se aproximou – Sabe o que aconteceu?
O urso grunhiu, mas aquilo não deu as respostas que a comandante queria. Sua mente voltou-se novamente ao passado e o barulho do tiro soou em sua mente. Sua mão foi imediatamente até o ombro. As feridas estavam curadas, mas havia algo estranho. O braço parecia dormente, como acontecia quando ela dormia em cima dele. Tentou mexê-lo, mas o movimento era lento e dolorido. O que teria acontecido, afinal? O tiro entrara tão fundo em seus músculos que os inutilizara? Sentiu um medo absurdo ao pensar nisso. Não, não poderia ser. Doroteya saberia curá-la. Olhou ao redor, esperando ver alguém em seu quarto, mas, exceto pelo ursinho, estava sozinha. Sua confusão aumentou. Por isso, fez um esforço e sentou-se com dificuldade na cama. Esperou sua cabeça parar de girar e então analisou sua situação mais uma vez.
Estava vestida um pijama que absolutamente não era seu. Ao lado de sua cama, uma injeção estava preparada, ao lado de um copo com água. Com dificuldade, ela esticou o braço e pegou o copo com água. O braço dormente não conseguiu segurá-lo e o copo caiu, derramando todo seu líquido. Lina xingou. Recolheu novamente o braço e respirou fundo. Tinha que achar alguém que lhe explicasse o que aconteceu.
Passou as pernas para fora da cama e esperou. Quando sua cabeça parou de rodar, ficou em pé; Vicious assistia a tudo quietinho, como se estivesse apreensivo. Depois de conseguir se levantar, Lina ensaiou o primeiro passo. Balançou um pouco para os lados, mas se firmou. Foi dando um passo por vez, até chegar à mesa de Arshe. Lá em cima, estava uma muda de roupa limpa, que Lina supôs que fosse para ela. Devagar e sempre mantendo a respiração controlada, a comandante trocou de roupa. Procurou suas botas, mas não as achou. Bem, sairia com as pantufas azuis de Arshe sem nenhum problema.
Com um braço segurando o outro, ela saiu do quarto, com Vicious a seguindo de perto. A luz difusa que entrava pelas frestas do telhado a fez perceber que era final do dia. Franziu a testa. Àquela hora era para ter guardas ali naquele corredor. Onde estariam Jon e Brianna? Não estavam mantendo a Bastilha em ordem? Começou então a caminhar em direção a sua sala, único lugar onde imaginava que teria respostas. Evitou as áreas mais movimentadas do castelo, pois não queria topar com ninguém. Andava devagar, cada passo um pequeno sacrifício, e já estava quase lá quando finalmente foi vista. Por coincidência do destino, fora o quarteto que conversa na taverna mais cedo, voltando para o turno que a encontraram.
— Comandante! — exclamaram os quatro apressando o passo e indo até onde ela estava.
Os olhos de Lina estavam caídos e, ao parar, ela perdera o equilíbrio que mantivera até então. Usara toda sua energia para caminhar até ali e a fraqueza voltou a tomar conta de seu corpo. Sua cabeça pesava e sua mente estava ainda mais confusa. Um calafrio percorreu sua espinha e ela encostou-se na parede ao mesmo tempo em que os soldados a rodearam, enquanto Vicious balia, preocupado. Sua respiração ficou mais pesada e, por entre a névoa que se esgueirava em sua mente, viu os rostos de Jon, Brianna e mais dois jovens que sabia quem eram mais não lembrava seus nomes naquele momento.
— Abandonaram… — murmurou a comandante tentando focar sua vista neles.
— Como, senhora? — perguntou Brianna se aproximando mais. Sabia que teriam que segurá-la caso a comandante desabasse. E, pela sua expressão, aquilo poderia acontecer a qualquer momento.
— Seus postos… — murmurou tentando apontar com o braço, mas ele caiu inerte ao seu lado.
Amara entendeu.
— Ela está perguntando se abandonamos nossos postos. — esclareceu aos amigos. E se dirigindo à comandante, explicou – Não comandante, não abandonamos. Estamos chegando agora, nosso turno começa em meia hora!
Lina sorriu satisfeita e afirmou com a cabeça.
— Bom… — murmurou.
Os soldados se entreolharam, sem saber o que fazer. Quem deveriam chamar para lidar com aquilo? A princesa Arshe? Ou um dos generais? E afinal, o que Lina estava fazendo pelos corredores usando sua farda e as pantufas azuis que, pelo estilo, só podiam pertencer à princesa Arshe? Eles ainda tentavam decidir quando a pessoa mais importante dentro daquela Bastilha se aproximou e, ao ver Lina em pé, sentiu o coração afundar.
Varian passara o dia atarefado, decindo as coisas osbre a investida da Aliança no Planalto do Crepúsculo. Pelo que soubera, a Horda já preparava uma ofensiva também. Sua mente então ficava presa aos cuidados de seus reino e ao mesmo tempo a Lina, que dormia profundamente desde que acordara agitada aquela manhã. E agora, que finalmente tivera um tempo para ir vê-la, a encontrou pálida, trêmula e vestida com seu uniforme em um dos corredores.
— Lina! — exclamou Varian apressando o passo e indo até onde estava a comandante e os soldados – Pela Luz, Lina, porque você está aqui e não no quarto de Arshe?!
Os olhos dela se arregalaram quando viu o rei e ela balbuciou algo incompreensível. Varian abriu caminho entre os soldados e pôs a mão na testa dela.
— Febre. — constatou preocupado – Venha Lina, vamos voltar para o quarto… — e tentou pegá-la pelo ombro.
— Não! — gritou ela com uma força surpreendente – Não majestade, não podemos…
Todavia, a voz dela foi sumindo e a força que a mantinha em pé se esvaiu. Lina não chegou a desmaiar, mas não tinha mais como se manter firme e Varian a amparou em seu peito. Colocou a mão na cintura dela e a outra em sua cabeça, com delicadeza. Depois, olhou para os quatro soldados ali e ordenou:
— Tragam Arshe, Doroteya ou Anduin até onde a comandante está hospedada. Agora.
— Sim senhor! — disseram os quatro.
Varian então pegou Lina mais uma vez nos braços, virou as costas e saiu andando rápido pelos corredores. Os quatro deveriam ter ido imediatamente cumprir a ordem do rei, mas estavam abismados demais. Tudo que Amara dissera pela manhã fazia total sentido agora. A garota então deu um grito de triunfo e começou a dançar entre os colegas. Colocou as mãos no joelho e passou a mexer o bumbum enquanto cantarolava:
— Eu sabia! Aham! Aham! Eu sabia! — e mexia mais ainda o bumbum.
Enquanto ela dançava e cantava, Jon e Mark tiravam moedas dos bolsos, contavam e depois se encararam.
— Não temos o dinheiro da aposta agora, Amara. — avisou Jon.
Brienna encarou os dois, sem acreditar.
— Espere aí! — gritou ignorando Amara que continuava rebolando animadamente – Vocês apostaram com Amara sobre esse negócio?! Pelo amor da Luz, Jon, você é um subtenente agora!
O jovem parecia envergonhado.
— Achei que seria um dinheiro fácil… — e Mark concordou tristemente.
— Ok, já chega Amara! — ralhou Brianna dando um tapa na bunda da outra, que parou de dançar – Você estava certa, afinal. Mas precisavam apostar?
— Claro! — disse a jovem recobrando a compostura – Agora, ganhei o salário do mês desses dois aí! — e diante o olhar desolado dos colegas, decidiu maneirar – Mas não precisam me pagar tudo de uma vez só não. Como sou legal, vou dividir em duas vezes! Metade do salário esse mês e metade mês que vem! — e fez um sinal de ‘ok’ para os dois.
Isso não melhorou a expressão dos dois.
— Certo, certo, esqueçam isso. — ordenou Brianna – Ainda precisamos cumprir a ordem do rei. — e começou a empurrá-los na direção do salão de jantar.
— O rei apaixonado… — lembrou Amara.
— Sim, o rei apaixonado, mas agora, mais que nunca, precisamos manter esse segredo. — esclareceu a subtenente – Entendido?
Os três concordaram e seguiram para cumprir a ordem enquanto Amara ainda ensaiava uns passinhos de vitória, pensando no que compraria de bonito com o dinheiro dos colegas. O problema foi que, enquanto dançava alegremente, Amara deixou cair o papelzinho com sua teoria, que logo fora pego por uma das servas enquanto limpava. Aquela serva não sabia ler, por isso, guardou o papel no bolso do uniforme, pensando que talvez fosse algo importante que alguém sentisse falta. Perguntaria a seu filho quando chegasse em casa. Ele era um dos soldados da Bastilha que acabara de sair do turno e ficaria feliz em ajudar a mãe a descobrir se aquilo era importasnte ou não.
Mesmo com a demora dos quatro jovens em avisar a Arshe o ocorrido, a princesa e aqueles que tomavam chá com ela, chegaram ao mesmo tempo que Varian à porta do quarto da princesa. Isso porque Varian foi impelido a ir até seu próprio quarto e colocar Lina lá. Chegou a ir até a porta e pegar na maçaneta, mas depois mudou de ideia. Não porque alguém pensaria algo dos dois, mas porque lembrou que Lina conhecia sua passagem secreta e poderia fugir por lá. Deu as costas ao seu quarto e voltou para o de Arshe.
Tão logo todos se encontraram, Tommy logo ficou abismado em ver a forma carinhosa com a qual sua irmã era carregada pelo rei. Pareciam dois amantes e não sua majestade e a comandante do exército. Sua surpresa foi compartilhada por Lady Cláudia e Horatio Lane, que se entreolharam.
— Ela acordou e fugiu. — esclareceu Varian quando Doroteya se adiantou para verificar Lina.
— Ah, minha irmã não toma jeito! — reclamou Tommy deixando Varian de lado em suas preocupações.
— Você fez a mesma coisa, dias atrás. — cortou Doroteya olhando para trás e o encarando.
— É de família. — justificou ele corando com a intensidade do olhar da druidesa.
— Vamos parar de conversar e entrar para cuidar de Lina?! — Arshe apontava para seu quarto, ansiosa que todos a seguisse.
Lady Cláudia e o tenente Lane ficaram para trás quando a turba de pessoas preocupadas entrou no quarto. Mais uma vez eles se olharam, mas nada falaram. Não foi necessário. Pensavam a mesma coisa.
— Ainda bem que fomos nós quem presenciamos isso. — murmurou a general – Se fosse Crowe…
— O rei teria um problema. — concordou o tenente – Então, melhor manter isso conosco, milady.
Cláudia riu, sem jeito.
— Nos conhecemos a tanto tempo, Horatio. — falou carinhosamente – Ainda não se habituou a me chamar de Cláudia?
— Resquícios de minha condição plebeia. — brincou ele com um sorriso de canto de boca. Depois, ficou sério, olhando para a porta do quarto de Arshe – Acho que não teremos notícias da comandante tão cedo. — ponderou – Acredito que devemos voltar amanhã. Que tal eu acompanhá-la até em casa?
— Acha que preciso de proteção, tenente? — provocou a nobre arqueando a sobrancelha.
— Não, Cláudia. Acho que precisa de companhia. — e sorriu.
A general abriu um sorriso quando ele a chamou pelo primeiro nome. Concordava que agora não era o momento de permanecer ali, então acenou afirmativamente com a cabeça.
— Vamos. Meu cavalo está no estábulo. — e dando uma pausa, convidou – Que tal jantar lá em casa? Papai ficará feliz em vê-lo novamente. — e sua voz ficou um pouco mais baixa quando completou – Ele tem estado mais deprimido que o normal…
— Jamais recusaria um convite seu, minha cara. — disse – Vamos.
E saíram juntos.
Dentro do quarto, Doroteya administrava a injeção para uma sonolenta Lina. Ficaram felizes em ver que ela estava fraca e confusa, mas não ao ponto que estivera mais cedo. Tommy esteve ao ponto de dizer que aquilo só acontecera porque Arshe insistira naquela besteira de chá, mas, quando abriu a boca, Doroteya o fuzilou com os olhos. Fechou a boca no mesmo instante. Como a druidesa sabia o que ele falaria? Talvez pensasse a mesma coisa e não achava que o momento era conveniente. É, ela estava certa. Por isso, cultivou o silêncio, até que viu os olhos da irmã entrarem em foco novamente.
— Ei! — disse ele se aproximando e sorrindo – Está me ouvindo?
Lina fez que sim com a cabeça, fracamente.
— Você nos deu um belo susto! — exclamou Arshe sentando ao lado dela na cama – Sair andando por aí! Ora, Lina! Que imprudente!
A comandante resmungou algo, mas Arshe deu de ombros.
— Não me importo com o que você diga, não deveria ter feito isso! — ralhou como se faz com uma criança pequena. Lina revirou os olhos.
— Concordo com Arshe. — disse Doroteya verificando a temperatura dela – Tenho certeza que essa febre foi do esforço. Se o rei não a tivesse encontrado…
Todos os olhos, inclusive o de Lina, foram na direção de Varian. O coração do rei se apertou. Se houvesse apenas Arshe e Doroteya ali, Varian poderia se abrir um pouco mais em sua preocupação com Lina. Sentaria na cama ao seu lado, passaria a mão sem eus cabelos e seria ele a ralhar com ela. Pegaria em sua mão também, sentindo os calos do longo período de treinamento da militar, lembrando da força que ela tinha não apenas em seu corpo, mas em sua alma. Porém, o irmão dela estava presente e não poderia fazer isso. De cabeça fria e calmo por ela já estar fora de perigo, percebera que a cena que fizera para os soldados e para Lady Cláudia e o tenente Lane já era algo que Lina não gostaria nem um pouco quando soubesse. Usando todo seu autocontrole, fez de tudo para parecer mais contido e menos ansioso do que realmente estava. Devia isso à Lina.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Foi imprudente de sua parte, comandante. — disse com a sua voz firme de rei – Arshe ficou muito preocupada com você e acredito que Anduin também ficará, quando souber. Por isso, eu te ordenou, que não saia desse quarto se não for acompanhada ou quando sua cuidadora achar que você pode.
Lina fechou os olhos por um momento e, quando os abriu, fez que sim com a cabeça. Todos respiraram aliviados.
— Obrigado, majestade. — agradeceu Tommy – Vossa majestade me permite ficar aqui um tempo com minha irmã?
— Quanto achar necessário. — Varian sabia que aquela era a deixa para ele sair, mas não queria. Mas devia. Seu peito estava rasgando ao meio – Preciso ir. Cuidem dela. — e, a contragosto, saiu da sala.
Doroteya e Arshe se entreolharam. Sabiam o quanto aquela decisão custara ao rei. Arshe teve vontade de seguir o tio, mas estava preocupada demais com Lina. Olhou para Doroteya em busca de apoio e a druidesa fez que sim com a cabeça. Lina estava bem acompanhada, mas Varian estava sozinho. Tomou então sua decisão.
— Volto num instante. — disse a princesa se levantando e saindo.
Apressou o passo assim que saiu do quarto e alcançou Varian no corredor mais a frente. Passou então a andar ao seu lado e observou a expressão do rosto dele. Era uma mistura de dor e frustração.
— O senhor fez certo, tio. — falou com delicadeza.
— Eu sei. — murmurou ele.
— Lina ficará orgulhosa de sua postura. — acrescentou.
Varian parou de supetão e levou a mão ao rosto, esfregando a testa.
— Eu sei. — repetiu angustiado.
— Talvez o senhor devesse procurar Anduin e conversar. — sugeriu, preocupada com a angustia que surgia no rosto dele – Tenho certeza que meu maninho vai ajudá-lo a lidar com isso.
— Tem razão. — disse Varian por fim, voltando a andar, agora tomando o caminho da biblioteca.
Arshe o viu se afastar, com o coração apertado. Mais do que ninguém, ela entendia a dor de Varian. Não poder estar ao lado de quem ama, ter que esconder esse sentimento… Não era fácil. E para um homem já tão sofrido como seu tio, aquilo deveria ser ainda pior. Quando as costas dele desapareceram no corredor ao lado, Arshe respirou fundo e voltou para seu quarto.
Naquele dia, Lina não conversou muito e havia caído no sono quando a princesa voltara para o quarto. Tommy mais uma vez insistiu em levar a irmã para casa e só mudou de ideia quando Arshe garantiu que haveria dois guardas a postos do lado de fora do quarto para qualquer eventualidade. Fora isso que o convencera. Ou pode ter sido o rosnar de Doroteya cada vez que ele teimava com a princesa.
Os dias então se passaram. Lina recuperou a consciência e a perdeu algumas vezes, mas com o tempo, seus períodos de lucidez aumentavam. Vicious estava sempre por perto e aquilo ajudava Lina a se distrair nos momentos em que estava acordada. O cuidado de Arshe e Doroteya a deixava comovida e às vezes irritada. Ficou surpresa quando finalmente se tocou que seu irmão recebera permissão para entrar no quarto de Arshe e, quando estava bem o suficiente, ralhara com ele e o proibira de voltar ali. Tommy disse que não faria isso. Lina disse que ele faria sim. Brigaram por horas a fio até o irmão se dar por vencido e prometer que a esperaria em casa.
— Não demorarei. — garantiu Lina.
E, na véspera do ano novo, Lina sentia-se bem o suficiente para tomar banho sozinha e pediu para usar a banheira luxuosa de Arshe.
— Nem precisava pedir, não é? — brincou a princesa.
Quando Lina mergulhou o corpo na água quente, suspirou de alívio, por dois motivos: primeiro, fazia dias que alguém a banhava e ela não tinha mais paciência para isso. Segundo: estava finalmente sozinha, para pôr os pensamentos em ordem. Durante seus períodos lúcidos, soubera tudo o que acontecera e o motivo de estar tão mal. Estremeceu. Envenenamento por chumbo era muito sério e podia levar a morte. Todos tinham razão em criticá-la. Nunca deveria ter feito o que fez com o chumbo no corpo. Teve sorte de não ter morrido. Suspirando, afundou-se mais na água.
Encostada na banheira, levantou e baixou o braço atingido pelas balas. Ele ainda a obedecia lentamente, mas estava melhor do que no primeiro dia em que acordara. Doroteya disse que assim que o chumbo saísse de seu corpo, seu braço voltaria ao normal. Acreditava na druidesa, mas o medo anda estava ali, rondando-a, como um tigre faminto. Como voltaria ao seu posto de comandante se ficasse com um braço inutilizado? Não adiantaria nada pensar naquilo, só a deixaria ainda pior. Por isso, fechou os olhos e aproveitou o calor da água para relaxar. Estava relaxada e tranquila quando ouviu passos entrarem no banheiro. Reconheceria aquele caminhar pesado em qualquer lugar.
— Varian. — disse abrindo os olhos e o encarando – Não devia entrar no banheiro de uma dama durante seu banho. — e sorriu.
Vê-la ali, corada, sorrindo e ainda fazendo graça a calmou o coração de Varian. Sorriu de volta para ela e pegou o banco de madeira usado pelas servas para ajudarem Arshe no banho. Sentou-se ao lado da banheira e tocou os cabelos molhados dela.
— Soube que está se sentindo bem melhor. — murmurou.
— Sim, estou.
— Eu gostaria de ter vindo lhe ver mais vezes, mas… — a voz dele sumiu.
Lina assentiu.
— Meu irmão. — Tommy praticamente não saíra do seu lado até que ela o expulsou – Fico surpresa que Fey e Mel não tenham aparecido também…
— Deviam ter ficado cuidando de Theo. — sugeriu o rei.
Lina arregalou os olhos e o encarou, incrédula. Varian não entendeu o motivo e perguntou, preocupado:
— Está sentindo algo?
— Trouxeram Theo aqui? — perguntou sem conter o pânico na voz.
— Não, não. — respondeu Varian sem entender a reação dela – Mas qual seria o problema de trazer seu sobrinho aqui? O pai dele não quer que ele visite a Bastilha?
A mente de Lina ficou dando círculos em sua cabeça até ela conseguir compreender que Varian pensava que Tommy era pai de Theo. Relaxou visivelmente e tratou de procurar uma desculpa para dar a Varian.
— Não queria que ele me visse naquele estado. — disse tristemente e era verdade. Jamais quereria abalar Theo com a imagem dela confusa e desnorteada.
— Ah, entendo. — Varian acreditou e Lina se sentiu aliviada e ao mesmo tempo com a consciência pesada. Não queria mentir para ele, mas era necessário – Quando você estiver bem, pode trazê-lo aqui. Gostaria de conhecê-lo. — Varian sorriu – Parece ser um menino adorável, pelo que seu irmão falou.
Infelizmente trazer Theo ali era a última coisa que Lina faria, mas, aproveitaria o oferecimento para cumprir a promessa que fizera a mãe.
— Claro. Trarei ele um dia. Porém, há mais pessoas da minha família que eu gostaria de trazer. — ela se ajeitou na banheira e seus seios ficaram expostos. Varian os olhou por um momento e depois desviou a vista para o lado, rindo – Pode olhar, Varian, você já viu várias vezes.
— Tem razão. — ele, contudo, fixou o olhar em seu rosto – Quem você gostaria de trazer?
— Meus pais. Eles querem visitar os túmulos do rei Llane e da rainha Tária. Eles os amavam muito.
Uma sombra de tristeza perpassou o rosto de Varian. Lina ergueu a mão olhada e segurou a dele.
— Eu também os amava muito. — ele fez silêncio por um momento e então sorriu – Traga seus pais, Lina. Será um prazer conhecê-los. E traga seus sobrinhos também. Creio que gostarão da visita.
A comandante caiu na risada, gerando curiosidade no rei.
— Algum problema?
— Eu tenho cinquenta e seis sobrinhos, Varian. — ela passou a mão molhada pelo rosto – E sete sobrinhos-netos! Seria um terror ter todos eles andando por ai pela Bastilha! Ah, quando os Wood se juntam, só sai confusão! — ela riu mais um pouco e então disse – Mas trarei alguns, sim. Sei de uma em especial que vai amar conhecer a bastilha. Ela me pede isso desde que tinha cinco anos!
— Pois traga a todos. Mandarei preparar uma refeição para eles.
Lina franziu o cenho diante da sugestão.
— Varian, meus pais são idosos e camponeses. Não saberiam se comportar à mesa com os requintes da nobreza.
— E desde quando acho isso importante? — questionou ele – Apenas os traga, que do resto, me preocupo eu. Ou Arshe. Ou ambos.
Lina o acompanhou no riso. Estava feliz de poder ter Varian ali. Sabia que não devia, que ali era o último lugar que ele deveria estar, mas, as favas com isso! Quem entraria no banheiro de Arshe além da própria Arshe? E se conhecesse bem a princesa, ela sabia que Varian estava ali e manteria qualquer um longe do seu quarto.
— Eu fiquei preocupado com você. — disse Varian por fim.
— Pelo que eu soube, havia motivos para isso. — pensou nas coisas que Doroteya lhe contou e se perguntou como fora capaz de tudo aquilo estando envenenada. Era uma barata mesmo!
— Você nos deu um belo susto. — e a encarando com intensidade, pediu – Não faça isso de novo, por favor.
— Eu sou militar, Varian. — lembrou arqueando as sobrancelhas – Correrei perigos bem piores que esses. Já corria antes e isso não mudará.
Claro que ele sabia disso, mas, ainda assim, doeu ouvir aquilo. Lina tinha razão. Jamais poderia evitar que ela corresse perigo.
— Pelo menos me prometa que não correrá riscos desnecessários. — pediu apertando a mão dela.
— Certo. Eu prometo.
Sorriram um para o outro.
— Você ficaria ofendido se eu te pedisse para pegar o sabonete e a esponja para mim? — perguntou ela olhando a distância em que os objetos estavam e sem querer sair do conforto de sua banheira.
— De forma alguma. — Varian levantou-se e trouxe o sabonete e a esponja – Na verdade, farei algo melhor.
Diante do olhar questionador de Lina, Varian tirou as luvas e esfregou o sabonete na esponja. Depois, começou a passar primeiro em sua mão, depois em seu braço e em seguida em seus ombros. Lina mal podia acreditar. Ele estava lhe dando um banho.
— O rei de Ventobravo me dando banho? — ela o olhou indulgente enquanto se inclinava para que ele esfregasse suas costas.
— Por que a surpresa? — perguntou ele passando a esponja pelas inúmeras cicatrizes dela – Já tomamos banho junto antes.
— Aquilo não foi banho. Foi sexo na banheira. — revelou.
Varian riu e deu de ombros.
— É quase a mesma coisa. — decidiu.
E o banho continuou. Depois de lavar suas costas, seus ombros e seus braços, Varian mergulhou os braços na banheira e passou a esfregar suas pernas. Lina se contorceu quando ele passou a esponja pelo interior de suas pernas, sentindo sua ânsia e seu desejo por ele a dominarem. Varian percebeu sua respiração acelerada e parou com o que estava fazendo. Voltou-se para ela e a beijou. Lina abriu a boca, sedenta pelo beijo dele e assim que suas mãos tocaram os seios dela, a comandante lembrou-se de algo que a fez se afastar.
— Não, Varian. — disse com a voz rouca e cheia de frustração – Não podemos.
— Por que? — perguntou ele sem afastar o rosto do dela – Está sentindo algo?
— A única coisa que sinto é vontade de te puxar para essa banheira. — revelou — Mas, não podemos.
— Por que? — insistiu o rei.
— Porque faz dias que não tomo minhas poções.
Varian finalmente se afastou e sentou-se no banco novamente.
— Poções? — perguntou, intrigado.
— Sim. Poções para não engravidar. — esclareceu – Não tomo há dias, então é melhor não arriscar.
— E isso existe? — era óbvia a surpresa dele.
— Claro que existe, Varian! — ela riu – Como você acha que as aventureiras e militares fazem para se divertir e não ter uma penca de filhos? Elas tomam poção! É ótimo porque isso também impede aqueles dias indesejados, que fariam as missões serem bem incomodas. — e diante do olhar mais do que confuso dele, entendeu – As rainhas não costumam tomar isso não é? Faz sentido. O ideal é dar o maior números de herdeiros possíveis ao rei…
Varian ainda estava se perguntando o que devia pensar diante da informação que acabara de receber. Encarou Lina.
— E você toma essa poção? — ao se ouvir, Varian percebeu o quanto aquela pergunta soou imbecil.
— Claro que sim. — disse pegando a esponja das mãos deles e passando pelo resto do corpo – As mulheres da minha família são extremamente férteis! Não posso deixar de tomar a poção um dia sequer! Não gosto de correr riscos!
— Você não quer ter filhos? — foi a única coisa que passou pela sua cabeça perguntar.
— Talvez um dia. Se eu chegar a me casar.
Foi só depois de falar isso, que Lina percebeu que cometera um erro. Varian se retesou, encarando-a agora com o rosto indefinido. Sua fala o afetara visivelmente e ela sabia porque. Eles nunca poderiam casar. Se Varian estivesse envolvido como pensava que ele estava, ouvir aquilo o machucara. Engolindo em seco, pensou desesperadamente em algo para dizer, e então lembrou de algo que suas irmãs costumavam falar para a magoar.
— Mas eu não sou uma pessoa casável! — disse tentando parecer engraçada – Sou muito rabugenta para alguém me aguentar! — e riu.
Varian continuou sério.
— Você não teria um filho comigo?
Chocada com a pergunta, Lina respondeu sem sequer pensar:
— Você sabe que não seria possível.
Os dois ficaram se encarando, com um pesado silêncio pairando entre eles. Lina sabia que o que dissera o magoara, mas também sabia que Varian compreendia que era verdade. Eles nunca poderiam ser mais que amantes. Ela nunca poderia apresentá-los aos pais como um pretendente e ele jamais a teria ao seu lado de outra forma que não fosse às suas costas, como comandante. O destino deles era imutável e ambos tinham consciência disso. Por isso as palavras machucaram. Machucaram os dois corações da mesma forma.
Sem dizer nada, Varian se levantou. Lina sentiu o coração bater descompassado.
— Vou deixá-la terminar o banho. — disse um pouco formal demais e se afastou.
Antes que ele pudesse chegar a porta, ela decidiu revelar logo sua decisão, pois nada que dissesse o magoaria mais do que já fora dito.
— Volto para casa hoje. — avisou encarando a água da banheira.
Varian parou por um momento, mas não se virou.
— Tudo bem. — disse. E depois de uma pausa, acrescentou – Cuide-se.
E saiu fechando a porta.
Quando ouviu as passadas dele se afastarem, Lina caiu no choro. Por que? Por que diabos tinha que se envolver com ele? Por que se arriscara tanto? Agora, jazia ali, apaixonada e sem nenhuma perspectiva. Sim, Lina tinha consciência que se apaixonara. Sabia isso desde que seus irmãos a interrogaram no celeiro, na véspera do Véu de Inverno. Sabia que se apaixonara, porque Varian era a primeira coisa que pensava ao acordar e a última antes de dormir. Ansiava por aquelas poucas horas juntos e tudo que mais queria era beijá-lo, sem medo de que ninguém os encontrasse, sem medo de ser destruída. Agora, o segredo cobrava seu preço. Até quando suportaria? Chorou e chorou, tanto tempo que perdeu a noção. Apenas quando Arshe bateu à porta, chamando-a, ela se acalmou. Disse que estava terminando. Terminou seu banho de forma letárgica, toda a tranquilidade a abandonando. Trocou de roupa no quarto, sozinha, e mesmo com o braço ainda ruim, conseguiu calçar as botas. Agora, tudo que queria, era sua cama, seus irmãos e Theo. Eram as únicas pessoas que a fariam se sentir melhor.
Lá fora, Varian sentia o mesmo que Lina, mas de forma bem mais intensa. Isso porque o rei já havia perdido coisas demais e sentia que estava perdendo Lina também. Caminhou a esmo pelo castelo, até que chegou nos jardins. A neve tinha sido removida e ele sentou-se em um dos bancos. O que faria? Pela Luz? O que faria? Aguentaria viver assim? No escuro? O desespero estava à porta de seu coração.
— Papai?
O chamado de Anduin trouxe Varian à tona. O menino estava andando pelo corredor e, ao ver o pai com a expressão angustiada, foi até ele.
— Está tudo bem? — perguntou o príncipe.
— Não meu filho. Não está. Mas é um fardo meu, não quero que você se preocupe.
O menino olhou para os lados e murmurou:
— É sobre a comandante, não é?
Varian apenas assentiu.
— Tudo bem papai. — Anduin pegou no ombro dele – Ela já está bem melhor e ficará forte de novo e logo estará aqui novamente.
Anduin pensava que a angústia de Varian era sobre o estado de Lina. Como não queria preocupar o filho, Varian deixou-o acreditar nisso.
— Eu sei meu filho e torço por isso.
— Veja, eu fiz um presente para ela. — ele trazia um embrulho nas mãos e mostrou ao pai. Era uma colagem de botões em uma tela de quadro e formavam o símbolo da Aliança – Sei que é bem simples, mas não sou muito bom em artesanato…
— Tenho certeza que ela vai amar, filho. E se apresse, pois daqui a pouco ela irá para casa.
— Já? — o príncipe se inquietou – Vou correndo então. Até o jantar, pai.
— Até. — e viu Anduin sumir pelos corredores.
E ficou sozinho com sua dor.
Quando o príncipe encontrou Lina, ela já estava inteiramente vestida, com o braço numa tipoia, e sendo examinada por uma concentrada Doroteya. Anduin sorriu para Arshe, que estava observando o exame e a jovem sorriu de volta para ele. Quando Doroteya deu-se por satisfeita, disse:
— É, você já pode ir para casa. — e sorriu.
— Graças a Luz… — murmurou a comandante.
Anduin achou-a um pouco pálida e desanimada.
— Está tão satisfeita em se vê livre de nós? — perguntou o príncipe rindo.
Lina só então notou a presença dele e sorriu. Não sabia porque, mas a presença de Anduin aquecia seu coração, da mesma forma que a de Theo.
— Vocês que nunca vão se vê livres de mim. — disse – Vou apenas me recuperar em casa. Meus irmãos já estão ficando loucos com a minha ausência.
— Eu também ficaria preocupado se a Arshe estivesse doente e longe de mim. — garantiu o menino.
— Ohhh!!! Que fofo!! — Arshe abraçou Anduin com força e apertou suas bochechas – Você é o príncipe mais fofo do mundo todo!
Todos riram e assim que foi libertado do aconchego de sua irmã, Adnuin se aproximou da comandante e estendeu seu presente. Curiosa, lina o abriu e lágrimas surgiram em seus olhos. Pela Luz, como queria bem àquele menino! E, teve que admitir para si mesma, que gostaria de ser mãe sim. Ser mãe de Anduin. Dar um irmão a Anduin. Sem conseguir segurar o choro, deixou as lágrimas rolarem pela face. Definitivamente estava ovulando. Era a única explicação para estar tão sensível.
— Está sentindo algo? — a mesma pergunta, dita no mesmo tom que o pai dissera, fez com que Lina chorasse ainda mais.
— Só fiquei feliz com a preocupação. — garantiu sorrindo para ele e enxugando as lágrimas – O chumbo em meu corpo deve estar me deixando meio doida.
Anduin riu, mas Doroteya e Arshe trocaram olhares. Sabia que Varian tinha visitado Lina e que depois a comandante estava cabisbaixa e se recusava a falar do problema.
— Poderei lhe visitar em sua casa? — perguntou o príncipe ansioso.
A primeira reação de Lina foi dizer um ‘não’, mas já magoara um Wrynn naquele dia e não magoaria outro.
— Pode. Desde que vá com uma comitiva de soldados que eu indicarei. — decidiu.
— Sim senhora comandante! — brincou o menino.
Uma serva bateu à porta, entrou e anunciou.
— A carruagem está pronta, alteza.
— Obrigada. — agradeceu Arshe – Vamos, Lina, te levarei em casa.
A comandante revirou os olhos.
— Não acredito que concordei com isso… — murmurou.
— Eu sei! — concordou a princesa empolgada. — Vamos?
Lina assentiu.
— Vou acompanhá-las até a carruagem. — avisou Anduin.
E assim saíram os quatro, Anduin conversando animadamente com a comandante. Quando ele soube que ela traria os pais e os sobrinhos para uma visita à bastilha ficou radiante. Lina então achou melhor não trazer suas sobrinhas adolescentes. Elas atacariam Anduin na primeira oportunidade, independentemente de suas ordens para ficar longe do príncipe. Com exceção de Pandora. A jovem aparentemente gostava de homens mais velhos. Suspirou. Por que as mulheres Wood tinham que ser tão intensas?
Lina se despediu do príncipe e entrou na carruagem, sendo seguida por Doroteya e Arshe. Acenou para o príncipe e a carruagem começou a andar. Quando já tinham se afastado da Bstilha, Arshe finalmente perguntou:
— Vai nos contar o que aconteceu?
Sabendo que não adiantava negar, a comandante limitou-se a dizer:
— Contarei. Mas não hoje.
Para sua surpresa, nenhuma das duas protestou.
Sua chegada em casa causou todo o alvoroço que Lina imaginara: Fey e Mel choravam, Tommy reclamava dizendo que finalmente ela estava ali, Theo a abraçara e não soltara mais. Vicious, o ursinho, foi muito bem recebido na família, principalmente por Theo, que logo o pegar ano colo e o enchera de carinho. Arshe ficou lá apenas tempo suficiente para comer bolo e fofocar um pouco com Fey e Mel, além de garantir que a visitaria todos os dias.
E foi exatamente o que aconteceu.
Mas a visita de Arshe não foi a única que recebera. Nos dias em que passara em casa, ficou bastante tempo na cama, por recomendação de Doroteya, e era lá que, com o braço ainda na tipoia, recebeu a visita de muita gente, alguns que eram esperados e outros nem tanto. Lady Cláudia a visitara duas vezes e em ambas as ocasiões, estava acompanhada de Horatio Lane. Lina teve a impressão que havia algo rolando entre aqueles dois, mas preferiu manter os comentários para si mesma. Também recebera a visita de Jon e Brienna, que sempre passavam lá para ver como ela estava e também mantê-la a par do que acontecia na Bastilha. Apesar do desagrado com Crowe ser evidente, os dois nunca reclamavam, para o orgulho de Lina. Era antiético falar mal de seus superiores. Várias outras pessoas a visitaram e Anduin a viu pelo menos quatro vezes. Lina pediu que sempre que o príncipe viesse, mantivessem Theo em outro lugar. Era apenas uma precaução. Porém, a visita que mais mexeu com ela aconteceu faltando poucos dias para seu retorno à Bastilha.
Varian não conseguia parar de pensar na conversa que tivera com Lina. Era insanidade ficar pensando isso, lhe dizia sua consciência. Vocês dois sabiam onde estavam se metendo, continuava ela. Porém, seu coração, teimava em lhe dizer que não esperava se sentir daquela. Que Lina conseguira despertar algo que estivera adormecido por tanto tempo dentro de seu coração. E, pela Luz, como sentia falta dela! Se pegara indo várias vezes na dos mapas e olhando a cadeira vazia, se maldizendo por estar ali e voltava na mesma hora para a sala do trono. Era onde estava agora. Sentado em seu trono, com a mão no queixo, pensando em quanta saudade sentia de Lina. Estava imerso em seus pensamentos quando o general Jonas entrou na sala, acompanhado de dois soldados. Endireitou-se e os encarou.
— Majestade. — disse o general fazendo uma reverência.
— General. — cumprimentou o rei – O que o trás aqui?
— Majestade, temos um problema grave, envolvendo esses dois jovens. — e apontou para um rapaz e uma moça que o acompanhava.
Varian estranhou.
— Essa não é trabalho seu, Jonas? Resolver problemas no exército?
‘Se Lina estivesse aqui’, pensou ‘ela jamais me procuraria para resolver coisas de simples soldados’.
Jonas hesitou um pouco antes de falar:
— O problema, majestade, é que esse problema envolve vossa majestade. — e dando uma pausa, completou – E a comandante Wood.
Varian ficou ereto no trono. Olhou para o rapaz, que tinha um olho roxo e estava visivelmente irritado e para jovem, que estava mortalmente pálida e a beira das lágrimas.
— Fale. — ordenou.
O general tirou um pedaço de papel do bolso e entregou para o rei.
— Peguei os dois brigando por esse papel, senhor. — e olhando com raiva para a jovem, completou – Essa jovem admite que o papel pertence a ela.
Varian leu o papel. E surpreendeu-se. Aquele simples pedaço de pergaminho iluminou a sua mente, como um farol iluminava o oceano escuro. Reconheceu-se em cada palavra, em cada frase escrita ali. Quem quer que tivesse escrito aquilo, era alguém que observava os mínimos detalhes de tudo e era, acima de tudo, um gênio. Quando terminou de ler, olhou par aos jovens.
— Aproximem-se. — ordenou e os dois deram um passo à frente – Digam-me seus nomes e seus cargos.
— Peter Stevens, majestade. — o rapaz bateu continência – Soldado.
— Amara Chase, majestade. — a voz da moça estava trêmula – Soldado também.
— Podem me explicar isso? — perguntou o rei levantando o papel. O rosto de Amara adquiriu uma cor arroxeada.
— Eu achei isso com os recrutas. — explicou o jovem – Quando tentei leva roa meu superior, essa… — ele engoliu o que pensava e continuou – Ela tentou tomar o papel de mim, dizendo que era a dona dele.
Varian olhou para Amara, que tremia.
— Foi isso que aconteceu? — quis saber o rei.
— N-não… — gaguejou a menina – E-Ele estava… Ele estava tentando vender o papel! — disse por fim, a raiva sobrepujando a vergonha – Ele ia vender para o jornal de Dalaran, eu ouvi!
— Mentira! — disse o rapaz.
— Eu ouvi! — retrucou Amara com os olhos em chamas.
— Veja, majestade, que a jovem não nega ter escrito o que está aí. — disse Jonas olhando reprovador para a jovem, que voltou a se encolher.
— Você o leu, General? — quis saber Varian.
— Sim senhor. — disse o general baixando a vista – Mas acrescento que não acredito nessas maluquices!
Mais uma vez, Varian leu o papel, com calma. Depois, encarou Amara mais uma vez.
— Diga-me, soldado Chase, foi você mesma que escreveu isso? — quis saber.
Amara fechou os olhos e rezou para a Luz. Sabia que estava à beira de ser expulsa do exército, mas jamais poderia mentir para o seu rei. Suportaria viver com a expulsão, mas não com a consciência pesada.
— Sim, senhor. Eu quem escrevi. — e sabendo que teria que ser o mais sincera possível, acrescentou – A teoria é minha. — e baixou os olhos.
— Teoria… — riu-se Jonas.
Uma ideia se instalou na mente de Varian. Era perigoso. Era extremamente perigoso. E Lina não gostaria, nenhum pouco. Mas de repente aquilo pareceu a solução de todos seus problemas. E o rei, sem conseguir se segurar, riu. Riu alto. Na verdade ele gargalhou. Primeiro, acreditavam que ele estava rindo por aquilo ser um absurdo, mas depois a risada dele era perceptivelmente autêntica, como de uma criança que foi pega fazendo traquinagens. Depois que o rei parou de rir, ele levantou-se. Todos o olhavam, sem entender o que estavam acontecendo.
— Soldado Stevens. — disse olhando para o rapaz – Se você ia entregar isso ao seu superior ou vender, jamais saberemos. Por isso, estou dispensando-o, com uma advertência pela briga, que o general Jonas providenciará. Dispensado.
— Sim, majestade. — o rapaz bateu continência, lançou um olhar vitorioso para Amara e saiu da sala do trono.
— Soldado Chase. — disse e Amara se encolheu – Acho que está perdendo seu tempo no exército. O general fará sua baixa hoje.
Os olhos da jovem se encheram de lágrimas que, sme que ela conseguisse conter, escorreram por seu rosto.
— Depois que ele fizer sua dispensa – continuou o rei dobrando o papel e colocando dentro da armadura – Ele a levará até Mathias Shaw, onde você passará a integrar a AVIN. — e sorriu para ela – Sei que a tempo Shaw busca alguém com suas habilidades de percepção.
Nãos e sabia quem estava mais perplexo, Amara ou o general Jonas que assistiam estáticos. O rei a mandava para a AVIN? Então significava…
— O que está fazendo ainda aqui, general? — falou o rei, aumentando o tom de sua voz – Ouviu o que eu disse? Leve a jovem até Mathias Shaw!
— Sim, senhor! — e fez uma reverência antes de ir.
— Obrigada majestade! — agradecia Amara se curvando várias vezes – Muito obrigada!
A jovem saiu quase saltitando e Varian sorriu. Então, seu olhar foi para Brianna, cujo coração parara diversas vezes naqueles momentos. Quando soubera que o rumor sobre a teoria que ela e os amigos tinham discutido na taverna, procurara cada um e inquirira quem falara. Foi quando Amara confessou ter perdido o papel. E então começaram a empreender uma busca desesperada pelo mesmo, que fora achado com aquele soldado que dia que ia vendê-lo para o jornal de Dalaran. Brienna ia pensar em um plano para recuperar a teoria, mas não conseguiu conter Amara, que pulou em cima do rapaz, como se fosse um lobo atacando uma ovelha. E no final, parecia que Amara sempre estivera certa. E o mais impressionante, o rei não se importara! Tudo isso passou por sua cabeça enquanto Varian a encarava.
— Subtenente Taylor! — chamou.
Ela deu um passo à frente.
— Sim, majestade.
— Prepare meu cavalo e uma escolta. Sairemos em instantes. — anunciou.
Brienna soube no mesmo instante qual seria o destino.
Se Lina sequer desconfiasse que naquela tarde Varian estaria em sua casa, ela teria saído de casa usando o pijama florido que Fey a obrigara a usar, calçando as pantufas combinando feitas por Mel e teria impedido a chegada dele ali, mesmo usando uma tipoia. Mas Lina não sabia e, no momento em que o rei chegou a sua casa, ela estava sentada na cama, ajudando Theo com alguns problemas de matemática que Tommy lhe passara.
— Tommy disse que para ser um engenheiro eu preciso saber muito de números. — disse o menino coçando a cabeça depois que Lina lhe explicou como fazia determinado cálculo.
— Tommy está certo. — disse Lina ajeitando o braço na tipoia – Se não fizer o cálculo certo, a casa vai cair. — e fez um barulho de explosão com a boca, arrancando risadas do menino.
— Quero construir coisas, igual ao Tommy. — os olhos do menino brilharam diante da perspectiva – Ele disse também que vai me dar aulas de espada, assim que estiver em forma.
— Ele já está em forma, mas insiste que ainda precisa melhorar. — Lina bufou – Que teimoso!
— Mamãe disse que ele é teimoso como você! — o menino riu.
— Pois é! — Lina riu também.
Estavam indo para o último problema quando houve uma batida na porta. Fey apareceu, pálido como um cadáver.
— L-Lina… — gaguejou apenas com a cabeça na porta – V-Você t-tem visita…
A primeira coisa que a fez perceber que havia algo muito errado não foi a palidez de seu irmão, mas o fato de ele tê-la chamado de ‘Lina’ e não de ‘Quenguinha’.
— Que é, Fey? — perguntou se ajeitando na cama.
A porta abriu e Varian apareceu atrás de seu irmão, segurando um buquê de rosas. Agora entendia porque Fey parecia que ia desmaiar. Ela sentia-se da mesma forma.
— Quem é esse, tia Lina? — perguntou Theo analisando Varian.
Os olhos do rei foram de Lina para o menino e então sorriu para ele. Theo retribuiu. Lina teve vontade de morrer mais uma vez. Mas antes gritaria muito com Varian. Assim que sua voz voltasse.
— Olá, você deve ser o Theo. — disse Varian dando um passo em frente e Fey saiu imediatamente do caminho dele – Eu sou Varian Wrynn, rei de Ventobravo.
— Ohhh!!! — exclamou o menino impressionado – Eu nunca conheci um rei antes!
Varian riu e estendeu a mão.
— Pois acaba de conhecer um. — e apertou a mão do menino, que retribuiu efusivamente o cumprimento de Varian – O que está fazendo Theo? -perguntou ele olhando o caderno do menino.
— Estou resolvendo problemas de matemática! — anunciou mostrando a folha a Varian – Tia Lina tá me ajudando para que eu possa ser um engenheiro muito bom!
— Ah, que bom! — disse o rei olhando os números escritos na letra hesitante da criança que estava aprendendo – Espero que você possa se tornar um excelente engenheiro e possa construir muitas coisas bonitas em Ventobravo.
— Sim, construirei! Mas também vou mandar plantar árvores! — Theo franziu o cenho – Não tem muitas árvores aqui.
Varian riu da ideia de Theo e passou a mão nos cabelos ruivos do menino, se perguntando se era porque ele morara na fazenda dos pais de Lina que achava que a cidade tinha poucas árvores.
— Theozinho… — chamou Fey hesitante – Venha com titio, venha. Deixe a tia Lina receber a visita dela.
— Claro! — disse o menino descendo da cama e levando o caderno – Mais tarde a senhora me ajuda com o resto, tia?
Lina só conseguiu mexer a cabeça afirmativamente, sem tirar os olhos de Varian.
— Tchau, senhor rei! — e o menino foi até Fey, pegou na mão dele, que fechou a porta devagar, como se a presença de Varian pudesse explodir o local, caso a porta batesse forte demais.
Quando se viu sozinha com Varian, Lina começou a recuperar a voz. Estava a beira de começar a gritar com ele quando o rei lhe entregou as rosas.
— Desculpe não ter vindo antes. — pediu sentando-se onde antes estava Theo – Seu sobrinho é tão fofo quanto imaginei que fosse.
Lina segurou as flores com o braço bom, sem acreditar que aquilo estava acontecendo. Por baixo de todo medo, achou as flores lindas. Muito mais bonitas que qualquer uma que já ganhara antes. Em outra situação, ficaria comovida com o gesto dele, mas, naquele momento queria esganá-lo.
Pelo menos ele não reconhecera os traços de Liam em Theo.
— Varian… — murmurou assim que sua voz voltou – Você não-
Mas não terminou sua fala. Varian a beijou. Toda a vontade de brigar com ele que ela estava reunindo se dispersou novamente. Foi só então que percebera a falta que sentira dele. Pela Luz, por acaso estava louca?! A qualquer momento alguém poderia abrir aquela porta, mas quem se importa! Varian estava ali! Depois de ela achar que tudo entre os dois estava acabado, ele estava ali, beijando-a! E levara flores! Aproveitaria o momento, antes de começar a gritar.
Para Varian, beijá-la era como beber água depois de atravessar o deserto. A ausência dela o deixara sedento, não apenas de seus beijos, mas de seu cheiro, de sua companhia. Estava pronto para o que quer que ela lhe dissesse. Tudo que precisava era ouvir sua voz.
Depois que o beijo acabou eles se olhara por um momento, até que Lina agarrou as flores que recebera e bateu nele com o buquê.
— Au! — exclamou ele surpreso passando a mão onde as flores o atingiram – Já fui atingido por muitas coisas, mas nunca por flores!
— O que você tá fazendo aqui? — sibilou ela, semicerrando os olhos.
— Já disse, visitando-a. — respondeu com simplicidade.
— Varian… — ela estava tentando manter a voz em um nível normal, para que nenhum de seus irmãos viesse bisbilhotar – Você não deveria estar aqui.
— Não, não deveria. — concordou – Mas estou. Porque quero estar.
Lina gemeu e levou a mão boa ao rosto.
— Pela Luz, Varian! O que as pessoas vão pensar?! — murmurou angustiada.
— Não vão pensar. Elas já sabem. — disse em tom definitivo.
Lina tirou a mão do rosto e o encarou, chocada.
— O que você quis dizer com isso, Varian? — perguntou com a voz falhando e o medo se alastrando em seu peito.
Em vez de responder, Varian lhe estendeu o papel que continha a teoria de Amara. Lina pegou-o e o leu. A cada linha lida, ela empalidecia mais. Depois que terminou, pousou a mão na cama e pensou que ia finalmente desfalecer. Escorregou pela cama, deitando-se e fechando os olhos em sofrimento.
— Pela Luz… Todos sabem… — murmurou com a voz entrecortada. O que faria? Sua carreira já era!
— É… — concordou ele calmamente – Todos sabem que eu sou apaixonado por você e que você não me quer…
Lina abriu os olhos repentinamente e o encarou.
— Como? — perguntou perplexa.
Varian riu.
— Releia o papel.
Lina sentou-se novamente na cama e releu. Releu várias vezes até as palavras de Varian começarem a fazer sentido para ela. Não acreditava no que estava lendo. Tudo estava ali! Tudo! Menos a parte em que ela e Varian tinham um caso. Sua confusão apenas aumentou.
— Poderia, por favor, me explicar o que está acontecendo? — pediu ela desistindo de tentar entender.
Varian então começou explicando tudo que aconteceu, desde a chegada de Jonas e os dois jovens até sua chegada na casa de Lina. Enquanto ouvia tudo, ela foi lembrando dos envolvidos. Peter Stevens era um mentiroso e egoísta, que estava no exército apenas para se gabar. Lina não confiava nele, por isso sempre o deixava o mais longe possível da Bastilha, patrulhando lugares que nem precisavam de patrulhamento. Quem diabos o trouxera para o castelo? Crowe, claro. Aquele desgraçado reconhecia um ser da mesma espécie dele há quilômetros. Já Amara Chase… Gostava daquela menina. Era amiga de Brienna e Jon e Lina sempre apostara que ela teria um futuro brilhante. Era esperta, atenta e prestativa. Sorriu ao pensar que ela seria da AVIN. A menina era realmente uma excelente aquisição para Mathias Shaw. Porém, a atitude de Varian resultara em uma situação que a preocupava.
— Com sua atitude, todos pensam agora que isso é verdade. — Lina disse e sacudiu o papel.
— E é verdade. — afirmou o rei categoricamente – Pelo menos será, a partir de hoje.
Lina respirou fundo.
— Varian, porque está fazendo isso? — perguntou angustiada.
O rei passou a mão no rosto dela, que estremeceu.
— Lina, você sabe o que eu sinto por você. Não! — exclamou quando ela abriu a boca – Não fale nada, por favor, apenas me ouça. — Lina assentiu com a cabeça – Sim, estou apaixonado por você. Não, eu não esperava por isso. Estou sabendo lidar com toda essa situação? Nenhum pouco. Lina, posso ser rei, ter estado em vários combates, mas tudo que sei sobre as mulheres e relacionamentos foi o curto período em que passei casado com Tiffin. Eu não sei esconder meus sentimentos. Não sei me manter discreto e inabalável como você.
— Eu não sou inabalável, Varian. — murmurou.
— Mas parece. — ele respirou fundo – Veja bem, se fosse numa batalha eu estaria me sentindo muito bem, mas esse terreno é novo para mim. Eu preciso mostrar o que eu sinto por você. Se não eu vou explodir, como quase aconteceu dias atrás. Por isso, quando vi esse papel, entendi o melhor caminho para nós.
— Você vai se mostrar como sempre quis em relação a mim e eu vou continuar com minha postura de militar durona que resiste aos apelos do rei? — perguntou sem querer acreditar que aquela era a ideia dele.
— Isso. É exatamente o que quero que façamos. — confirmou.
A primeira coisa que Lina pensou era que Varian só podia estar louco em pensar que aquilo ia funcionar. Todavia, quando mais pensava, mais sentido fazia. E foi algo que a fez decidir de vez: suas irmãs poderiam saber que o rei estava caidinho por ela. Começou a rir, imaginando a cena.
— Sabe de uma coisa, Varian. — falou entre as risadas – Isso pode dar certo!
— Vai dar certo. — garantiu aliviado que ela concordara.
O riso de Lina parou e agora ela o olhava com o mesmo olhar que usava para dar ordens aos seus soldados.
— Só que teremos que estabelecer alguns limites, Varian. — disse assumindo seu tom militar – E você deverá estar ciente que todas as minhas ações com vocês serão da comandante Wood, que, com certeza, não gosta da ideia de ter o rei apaixonado por ela. — e era verdade.Seu lado militar estava horrorizado com a ideia, mas Lina estava extasiada.
— Nessa missão, eu sei seu subordinado e você, minha comandante. — brincou ele passando o dedo na cicatriz do queixo dela.
— Pela Luz, Arshe vai amar isso aqui. — comentou a comandante olhando o papel – Se prepare, porque ela vai entrar no papel mais que nós dois e nem quero imaginar o que ela fará!
— Anduin também vai gostar. — lembrou Varian – E, sinceramente, acho que nós dois vamos nos divertir muito também.
— É. — admitiu ela por fim – Acho que sim. Pelo menos sei que Doroteya manterá a sanidade por todos nós…
Varian, aliviado, a beijou novamente. Não importava que agora teriam que ficar nesse jogo de fingimento, porque, o papel dele era o mais fácil. Ele não fingiria. Poderia demostrar o que sentia por Lina, sem prejudicá-la. Não era a saída que mais desejava, mas fora a que a Luz mostrara para os dois. E, quem sabe, não era o caminho para algo muito maior que estava por vir.
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Em Luaprata, sentada no piano, Kassyeh tocava uma canção calma, cujas notas se perdiam pelo imenso sal]ao da torre como borboletas em meio a floresta. Sozinha, Kassyeh tocava apenas para si mesma. Seus dedos dançavam pelo piano com a mesma agilidade com o qual conjuravam feitiços. Enquanto estudar alquimia a fazia se sentir perto da mãe, tocar a deixava mais próxima da lembrança de Dhomm. Sorriu ao pensar nos dois. Queria muito que eles estivessem ali para ver a chegada de mais um membro na família.
E quem sabe, quando a pequena Tinuviel nascesse, ela mesma não já estaria grávida?
A família Fendessol já passar apor desgraças demais, pensou a maga. Desde a trágica história de Lady Luelly, eles vinham sofrendo. A avó sofrera e morrera por amor. Seus pais morreram para proteger seu lar e sua família. Aethas estava confinado a uma cidade onde todos desconfiavam de suas atitudes. E as quatro… Cada uma tinha seus próprios fantasmas. Karen, ainda criança, ainda não tinha consciência do peso da coroa. Se dependesse de Kassyeh, sua irmã teria um reinado muito mias tranquilo que o rei Anasterian e o príncipe Kael’thas. Aqueles dois sucumbiram aos anseios do povo, mas não deixaria aquilo acontecer com sua pequena Karensky. O povo ficaria sem uma rainha antes que a coroa esmagasse os sonhos dela. Ash escondia uma dor profunda pela perda dos pais e teimava em fingir que estava tudo bem Kassyeh reparara que nos últimos tempos ela e Lux estavam mais próximas, e isso era bom. Ash precisaria de alguém para aconselhá-la no relacionamento com Lor’themar, afinal, Kassyeh só tinha experiência com orcs. Com um único orc. E havia, por fim, Luxuriah.
As feridas de sua irmã mais velha eram as mais profundas e doloridas. Kassyeh sabia que Luxuriah tinha muitos, muitos segredos. Kassyeh desconfiava que era melhor não saber deles. Se Luxuriah achava que esses segredos estavam melhores longe dela, tudo bem. Confiava na irmã. Além do mais, estava muito contente com a nova fase da vida dela. Apesar de tudo que acontecera, era perceptível que Luxuriah estava feliz. Mesmo sem amar Rommath, Luxuriah sentia algo por ele, pois seus olhos brilhavam em sua presença. Bem, podia ser apenas os hormônios da gravidez, mas a maga apostava que não. Talvez, o coração de sua irmã não estivesse longe de conseguir a cura para o que Huaru fizera a ela.
Pensar no tauren ainda despertava sua fúria, e ela errou as notas. Parou de tocar no meio da música, suspirando. Teria que começar de novo.
— Nunca vi você desafinar. — a voz de Luxuriah encheu a sala e Kassyeh levantou a cabeça – A não ser quando você tinha cinco anos.
A maga sorriu.
— Às vezes acontece.
Luxuriah foi até onde o piano e sentou-se no banco ao lado de Kassyeh.
— Veja, ainda caibo aqui. — riu-se.
— Por pouco tempo. — provocou a outra.
Riram juntas e Luxuriah pôs os dedos no piano. Logo estava tocando uma música que Kassyeh reconheceu na hora. Era um dueto. Sorrindo, Kassyeh se ajeitou e passou a tocar com ela. Com uma harmonia impressionante, as irmãs tocaram a melodia sem errar uma única vez, cada uma em seu compasso, até que a música atingiu seu auge depois seu fim. Ai final, Kassyeh suspirou e colocou a cabeça no ombro de Luxuriah, que alisou a cabeça da irmã.
— Eu te amo, Lux. — disse.
— Eu também te amo, Kass. — respondeu a outra.
Mesmo sem saber o que passava pela cabeça da maga quando chegara ali, Luxuriah apostava que sua irmã estava pensando demais, como sempre. Mas, gostava dela daquele jeito mesmo. Assim, sabia que Kassyeh estava sendo Kassyeh.
— Recebi a convocação para o Planalto do Crepúsculo. — informou a maga – Eu e Tewdric partiremos depois de manhã.
O coração de Luxuriah se apertou.
— Tomem cuidado. — pediu — E lembrem, o nascimento é em quatro meses.
Kassyeh riu.
— Eu não perderia isso por nada nesse mundo. — garantiu a maga.
— Vocês vão passar em Orgrimmar antes? — quis saber a patrulheira, agora batendo na mesma tecla do piano, repetidamente.
Kassyeh assentiu com a cabeça ainda no ombro da irmã.
— Aproveito e deixo Saba em casa. A mãe dela já deve estar morrendo de saudades.
— Ah, Karen não vai gostar nenhum pouco disso. — comentou a caçadora.
— Não vai mesmo. — concordou Kassyeh.
Luxuriah dedilhou mais algumas notas quando foi interrompida por risadas extravagantes. O riso de Karen e Saba já era tão comum na torre, que ambas sabiam que seria devastador o silêncio que se seguiria após a ida da orquisa.
— E não será apenas Saba. — lembrou a maga, hesitante levantando a cabeça – Tewdric não estará aqui também.
— Pela Nascente do sol, nem você. — Luxuriah pôs a mão no queixo – Ainda bem que tem Lady Liadrin para treiná-la. Teremos que direcionar a energia de Karen para os treinos.
O barulho no corredor revelou as duas irmãs que as meninas vinham chegando. Elas entraram correndo no salão e estacaram quando viram as dua são piano.
— Ah! Achei vocês! — gritou Karen animada.
— Oba, vamos mostrar a elas! — pediu Saba excitada.
As irmãs se entreolharam.
— O que vocês querem nos mostrar? — perguntou Kassyeh cautelosa.
— A versão melhorada de Ted! — e apontou para a porta fazendo uma pose dramática.
Tewdric entrou na sala, caminhando como se estivesse em um desfile de honra nas ruas de Orgrimmar. Luxuriah caiu na gargalhada na mesma hora, enquanto Kassyeh olhava para o marido, sem acreditar no que via.
— Tewdric! Esse é o vestido que eu trouxe de Ahn Qiraj? — perguntou estarrecida.
O orc estava usando um vestido rosa, que seria bem decotado e sexy em uma elfa, mas, nele estava todo puxado e parecia que ia se partir a qualquer momento. E não era só isso. Ele estava usando uma peruca rosa, colares e pulseira, além de brincos em suas presas. E estava maquiado. Além de se equilibrar em um salto alto.
— Eu nunca me senti tão lindo! — garantiu o orc para o delírio das meninas.
Luxuriah agora se contorcia de rir, quase perdendo o ar. Kassyeh olhou para a irmã, ainda incrédula e depois para o marido. Tewdric continuou a desfilar e as meninas o aplaudiam e vibravam. Quando seus olhos se encontraram com os do marido, ele piscou o olho para ela. Então, Kassyeh caiu na gargalhada também.
— Você me deve um vestido novo! — avisou rindo descontroladamente igual a Luxuriah.
— Quantos você quiser, minha Kass! — e mandou beijos para ela.
Luxuriah começou a aplaudir e vibrar por Tewdric da mesma forma que Karen e Saba, e restou para Kassyeh fazer o mesmo. O orc, pesado e musculoso, andava com cuidado sobre os saltos, até que ambos quebraram ao mesmo tempo, jogando-o no chão. As risadas tornaram-se ainda mais estridentes e o rosto de Luxuriah estava tão vermelho que aprecia que ela ia explodir.
— Lux? — Rommath entrou no momento em que Tewdric se levantava ajeitando a peruca – Tewdric? — perguntou arregalando os olhos. As risadas cessaram quando ele entrou, e o elfo analisou o orc por um momento antes de falar, com um sorriso – Você está fabuloso.
Luxuriah explodiu em gargalhadas de novo.
— Eu sei. — garantiu o orc jogando os “cabelos” para trás.
As meninas foram ao delírio.
Estavam todos às gargalhadas quando ouviram um grito ecoar pelos corredores.
— Karen!!!! — era Ash e ela parecia irritada.
— Eita! — exclamou a menina levando as duas mãos ao rosto.
— Deixa eu adivinhar. — disse Luxuriah já recuperada do ataque de risos – Você usou a maquiagem de Ash de novo.
— E os sapatos. — disse Saba apontando o sapato destruído no chão.
— E as joias. — acrescentou Karen com um sorriso – A peruca conseguimos com os servos.
Ash entrou naquele exato momento no salão, empurrando Romamth para o lado. Seus olhos acharam Karen e logo ela estava correndo atrás da irmãzinha, que gritava e corria fugindo dela, sendo seguida de perto por Saba. Quando passou perto de Tewdric, Ash foi agarrada pelo orc, que ria, e ele a levantou como se seu peso fosse nada.
— Ashzinha! Eu lhe dou tudo novo! — e rindo, acrescentou – As meninas pegaram para me deixar lindo! O que acha?!
Ash piscou os olhos, sem acreditar que aquele era Tewdric, e depois caiu na risada igual as irmãs.
— Você tá lindo, Ted! — e o abraçou, toda a raiva saindo de seu corpo.
Tewdric começou então a rodá-la pela sala, como se ensaiasse uma dança, e Karen começou a protestar dizendo que queria ser rodada também. Naquele momento, Lor’themar entrou no salão também e observou a cena, com a tetsa franzida. Olhou para Rommath em busca de explicação e este limitou-se a dizer:
— Aparentemente, Karen queria brincar.
Quando percebeu que Lor’themar estava na sala o observando, Tewdric colocou Ash no chão com delicadeza e encarou o elfo.
— O que foi? — rosnou o orc – Nunca viu um orc de vestido não?
Se o guerreiro não estivesse falando tão sério, com certeza a frase teria gerado mais uma rodada de risadas.
— Estava apenas pensando que você ficou muito bem-vestido. — apressou-se em dizer — Karensky tem um excelente gosto.
— Eu sei! — disse a menina.
Mas na verdade o que passava pela cabeça de Lor’themar, era “e ainda falam de nós, elfos...”
Todavia, era auspicioso que todos tivessem se reunido ali casualmente. Fazia dias que o lorde regente tentava reunir todos, para uma conversa séria. Apesar de que, uma conversa séria com Tewdric, vestido daquele jeito, era no mínimo estranho.
— Já que estamos todos aqui. — começou ele adentrando mais na sala – Há algo que gostaria de conversar.
— Lá vem ele… — foi dizendo Luxuriah – O que é dessa vez, Lor’themar?
— Gostaria de pedir a vocês… — começou.
— Não. — cortou Luxuriah.
Lor’themar piscou, surpreso.
— Mas eu nem falei ainda.
— Não vou deixar você casar com Ash. — sentenciou.
Tanto Ash quanto Lor’themar se encararam, sem jeito. Tewdric, ao contrário, rosnou.
— Isso mesmo, Lulu! — apoiou o orc – Não deixe!
Lor’themar levantou as mãos, tentando acalmar os ânimos.
— Não é nada disso! — exclamou
— Tá dizendo que não quer casar com minha irmã? — Luxuriah o encarou – Então está apenas enrolando a menina?
— Será que você poderia parar de por palavras na minha boca? — pediu o elfo visivelmente chateado
— Ei, Lor’themar. — Rommath o chamou, de braços cruzados e cara feia – Olhe como fala com minha Lux!
O lorde regente respirou fundo, numa tentativa de recuperar a paciência. Aqueles Fendessol ainda o deixariam louco. Abriu os olhos e viu que Ash o encarava e sorria, o encorajando. Com o coração aos pulos, decidiu que não era assim tão ruim enlouquecer. Pelo menos se fosse para enlouquecer por ela.
— Deixem-no falar. — pediu Ash se aproximando dele e segurando sua mão – É algo que interessa a todos nós.
— Então ele já falou para você. — constatou Luxuriah arqueando as sobrancelhas
Ash fez que sim.
— Pois etnão, fale, lorde regente. — permitiu Luxuriah antes de dedilhar a marcha fúnebre no piano. Tewdric caiu na risada.
Lor’themar pigarreou e encarou as irmãs. A proposta que faria poderia gerar um mal estar ou ser aceita; poderia partir a opinião delas ou uni-las. Não sabia o que esperar, mas era algo que pensara muito e decidira que não podia mais adiar.
— Eu poderia me deter falando das agruras de nosso povo, mas isso todas vocês já sabem. Também não vou falar da desesperança nem da melancolia que paira sobre nós. É de conhecimento de todo o mundo aquilo que nos atingiu com a morte do rei Anasterian e a queda do príncipe Kael’thas. — ao ouvir o nome de Kael’thas, as orelhas de Rommath tremeram – Com um chefe como Garrosh e novas dificuldades aparecendo, está na hora de nosso povo se reafirmar perante todos. — ele olhou para Karen – Está na hora de prepararmos a coroação de Karensky.
O silêncio pairou sobre o salão. Luxuriah fechou o teclado do piano e se levantou, segurando a barriga. Kassyeh levantou-se logo atrás. A elfa grávida caminhou até onde Lor’themar estava, mas não se dirigiu a ele. Encarou a irmã, ao lado do namorado, e perguntou:
— Qual foi sua opinião quando ele lhe propôs isso?
— Fui contra. — deixou claro Ash – Karen é pequena demais para isso.
Luxuriah balançou a cabeça afirmativamente.
— Sei qual a opinião desses dois. — apontou para Kassyeh e Tewdric – Eles apoiarão o que Karen decidir, então… — se aproximou da irmã menor e tocou seus cabelos dourados – O que você quer, Karen?
Karen pensou por um momento. Olhou para Saba e esta apertou sua mão. A mensagem estava clara: o que você decidir, estarei ao seu lado. Voltou a olhar a irmã.
— Eu farei tudo sozinha? — quis saber, hesitante.
— Claro que não. — quem respondeu foi Lor’themar – As coisas continuaram mais ou menos como estão. A diferença é que sua opinião será requisitada mais vezes. E suas aulas se intensificarão.
A menina ponderou por um momento e então deu sua resposta:
— Todo mundo já me trata por rainha, mesmo. — ela deu de ombros – Oficializem logo.
Luxuriah riu com a resposta da irmã.
— Tem certeza Karen? — quis saber Lxuriah. Era imprescindível que Karen compreendesse sua situação – Você representará nosso povo a partir de agora. É muita responsabilidade.
— Se vocês estiverem comigo, tudo estará bem! — garantiu a menina.
O coração de Luxuriah se aqueceu com a resposta. E Karen estava certa. Luxuriah sempre estaria lá. Jamais permitiria que nada nem ninguém machucasse sua irmã.
— Eu concordo com Ash. — disse a caçadora por fim – Não creio que esse seja o momento. Porém… — ela olhou para Lor’themar – A vontade de Karen vai prevalecer. Afinal, ela é a rainha.
O lorde regente lhe deu um sorriso satisfeito e aliviado.
— Porém! — exclamou a elfa com o dedo erguido – Eu e minhas irmãs seremos informadas de toda e qualquer coisa relacionado ao governo. Karen não lidará com esse fardo sozinha.
— E assim será. — garantiu o elfo.
A conversa que ele tivera com Ash sobre aquilo fora tensa. Lor’themar consultara a namorada naquela manhã e o clima esquentou. Ash era muito parecida com Luxuriah naquele aspecto: queria poupar a irmã. No final, Lor’themar a convencera a ouvir todas as irmãs, bem como Tewdric também. E agora, Ash não estava satisfeita, mas concordava com Luxuriah. E estaria sempre por perto de Karen e aquilo que importava.
— Para quando você quer marcar a coroação? — quis saber Luxuriah.
— Para a primavera. — revelou Lor’themar – Após as festividades do Jardinova.
Luxuriah deu um sorriso de canto de boca quando soube a data.
— Se tivermos sorte, Karen, sua sobrinha assistirá a coroação. — e alisou a barriga.
— Oba!! — comemorou a menina – E Saba, você bem não é?
— Claro!! — garantiu a menina — Não vou perder você virando chefa guerreira por nada no mundo!
As meninas começaram a comemorar e Karen abraçou Tewdric.
— Você também ficará perto de mim, não é, Ted?
O orc se derreteu com a menina e sua raiva de Lor’themar foi esquecida.
— Sempre Karenzita! Sempre!
— Ted, o que acha de ir vestido assim na minha coroação? — perguntou a menina quando foi levantada por Tewdric.
— Tudo que você quiser, me amor! — e a jogou para o alto.
E quanto ela e Saba se revesavam na brincadeira, os mais velhos se reuniram e começaram a discutir os detalhes da coroação. Quem convidariam? Onde seria o banquete? Que roupa Karen usaria? E, o mais importante de tudo, quem demoveria a futura rainha da ideia de levar Tewdric de vestido para a cerimônia?
A conversa durou o resto da tarde, se estendeu pelo jantar e entrou noite adentro. De madrugada, Halduron e Lady Liadrin se juntaram a eles nos preparativos. E, mesmo que estivessem preocupados com os detalhes estéticos, havia uma preocupação maior que pairava sobre eles: como o mundo receberia a nova rainha?
Nenhum deles estava preparado para o que viria a acontecer quatro meses depois.
FIM DO CAPÍTULO xxv
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