Herdeiros da Guerra
33 Capítulo XXIV – Pendências (Parte I)
Notas iniciais
Capítulo XXIV – Pendências
As ruas de Luaprata estavam vazias na manhã do Véu de Inverno. A maioria das pessoas ainda dormia após uma noite intensa de comemoração. Ainda era possível ver alguns resquícios da festa de algumas casas, com fitas e confetes em frente às suas portas, mas a neve que caíra na noite anterior cobrira quase todos os rastros da festa. E enquanto o falcostruz vermelho avançava em meio a uma Luaprata adormecida, Lor’themar permitia-se observar aquela tranquilidade e sorrir. Como desejava possuir aquela paz que Luaprata transparecia!
Depois da intensa conversa com Ash na noite anterior, o lorde regente simplesmente não dormira. Ficara observando a noite pela janela, vendo a neve cair lentamente, imerso em suas dúvidas e medos. Quando o céu começar a clarear, ele se levantara e agora estava a caminho de um lugar onde não ia há uma década. Saiu da cidade e atravessou a Floresta do Canto Eterno seguindo sempre ao norte. Passou ao longe da casa de campo da família Fendessol e relanceou a vista até o local. Alguns servos já limpavam a neve acumulada, mas nenhum olhou para a estrada nem prestaram atenção no cavaleiro solitário que passava ao longe. Voltou à atenção ao seu caminho. Estava quase lá.
Quando chegou ao fim do caminho terrestre, Lor’themar amarrou sua montaria em uma árvore e colocou uma manta sobre ela. Não queria que o falcoztruz congelasse. Depois, procurou um pequeno barco que normalmente ficava na areia da praia. Ele continuava lá e, apesar dos muitos anos passados desde que aquela pequena embarcação fora posta ali, continuava belo e inteiro tal como no dia em que Dhomm o construíra. Lor’themar subiu nele e o barco começou a se mover sozinho. O elfo sorriu. A magia de Samanthah também continuava forte.
O pequeno barco o levou até uma ilhota que ficava perto da enseada. Lá, uma bela estátua de uma elfa de vestes esvoaçantes com uma das mãos estendida em direção ao céu como se cantasse ao infinito, o saudava. Era Lady Luelly. O coração do elfo se apertou diante da semelhança entre a barda e a neta. Assim que chegou à ilha, o barco parou e Lor’themar desceu. Suas botas afundaram na água gelada e ele estremeceu. Encolheu-se dentro de sua capa e se dirigiu até o mausoléu. Havia muita neve na entrada e ele precisou de um pouco de força para abrir a pesada porta de mármore. Quando finalmente abriu e entrou no mausoléu, seu coração se apertou. Ali, dentro da imponente construção, descansavam seu grande amigo Dhomm, a incrível Samanthah e a estonteante Lady Luelly. Os três túmulos estavam um do lado do outro e cada um trazia o busto daquele que dormia sob sua proteção. O túmulo de Dhomm era o do meio, sua mãe estava do seu lado direito e Samanthah do seu lado esquerdo. Lor’themar percebeu que o lugar estava limpo e preservado. Ficou surpreso; não achava que nenhuma das filhas de Dhomm visitaria o túmulo com frequência, mas estava enganado. Havia iluminação mágica no local. Kassyeh. Sim, claro, ela jamais deixara de visitar os pais e tomara a precaução de colocar velas mágicas que nunca se consumiam ou apagavam no local. Será que Luxuriah sabia daquilo? Bem, não importava. Era bom ver que uma delas conseguia visitar os túmulos. Mas quem era ele para julgá-las? Não era a primeira vez que ia até ali após o sepultamento de seu amigo? Sentia-se péssimo por isso.
A luz do dia entrava timidamente pela réstia de luz da porta. Lor’themar então caminhou até os túmulos. De sua capa, tirou três singelos botões-da-paz.
— Para você, velho amigo. — disse depositando a flor em cima do túmulo de Dhomm – Outro para você, Sam. Sinto falta de suas tortas. — e depositou outra no túmulo da elfa – E, milady, a mais bela voz que essa terra jamais viu. Sei que adoraria saber que suas netas cantam tão bem quanto você cantava. — e depositou a última flor no túmulo de Lady Luelly.
As lágrimas já escorriam no rosto do elfo e ele rapidamente as limpou, temendo que elas congelassem. Ficou em pé de frente ao túmulo de Dhomm, olhando o busto que tinha a aparência do seu amigo, mas que jamais transmitiria toda a força do olhar que ele tinha. Suspirou, vendo sua respiração se condensar em sua frente. Encolheu-se ainda mais dentro da capa e começou a falar:
— Desculpe-me, Dhomm. Eu deveria ter vindo antes. Se me permite explicar a ausência, sou sincero em admitir que não estava pronto para voltar aqui depois de tudo que aconteceu. Pois eu me sinto culpado por tudo que aconteceu. Sim, a culpa é minha. Eu deveria ter previsto algum ataque da Aliança depois do anúncio de nossa adesão a Horda. Eu deveria ter posto alguns patrulheiros nessa região. Eu poderia ter evitado tudo que aconteceu e falhei. Mil desculpas Dhomm. Mil desculpas Samanthah. Falhei com vocês. — o elfo respirou fundo e olhou para cima. A abóboda era feita por mosaicos que mostravam notas musicais e diversos elfos dançando – Se é possível encontrar algo bom nesse desastre todo, é que não baixei a guarda de novo. Ninguém mais morreu por causa de ataques surpresa da Aliança. Consegui evitar todos.
Lor’themar se perguntou o que o amigo diria se pudesse respondê-lo. Talvez lhe jogasse um ‘não fez mais que sua obrigação’ se estivesse irritado ou um ‘sabia que você conseguia, Temma’, se estivesse de bom humor. Jamais saberia.
— Eu também falhei com suas filhas. — continuou – Eu me afastei delas. Deixei-as lidar com tudo sozinhas. Talvez fosse a culpa. Talvez eu seja apenas um covarde. A questão é que em vez de me aproximar para ajudá-las a lidar com a perda dos pais, eu me afundei nas questões de Luaprata e deixei o fardo para minha sobrinha. Eu sequer reconheci Karensky quando a vi. Nem Ashrial. — seu coração se apertou – Nem elas me reconheceram. Apesar de todas as vezes que ajudei vocês com elas, sequer lembrava seus rostos. Sinto muito. Sinto muito mesmo.
Por que fizera aquilo afinal?, perguntava-se Lor’themar. Por que praticamente abandonara as filhas de seus amigos? Fora as questões de Terralém? A traição do Príncipe Kael’thas? Illidan? Arthas? Sylvana, que agora era a Rainha Banshee? Ou era o medo de ver a acusação nos olhos das quatro irmãs?
— Em minha defesa, posso lhe dizer que estou tentando reparar tudo. Principalmente agora, que a coroa fora jogada nelas sem nenhuma preparação. Acredito que agora, onde você está, já sabe quem é seu pai. Espero que não guarde mais rancor dele. E apesar de tudo, as coisas estão entrando no eixo. Duas de suas meninas estão casadas e você será avô. — ele riu alto – Pela Nascente do Sol, eu daria tudo para ver sua cara diante disso tudo! — e olhando para o túmulo do lado completou – E Sam, você ficaria abismada com seu irmão. Eu quase caí para trás quando minha sobrinha me confessou que ele era o amante secreto dela. Foi ontem, pouco antes do jantar de Véu de Inverno. Eu já tinha desistido de insistir pra ela me contar quem era e então a menina chegou e disse: meu amante é Aethas Fendessol, lide com isso. — ele riu mais – E estão apaixonados um pelo outro, olha só! Você teria ficado eufórica com isso e provavelmente já planejaria o casamento dos dois. — e olhando par ao terceiro túmulo, disse agora com o tom mais pomposo e educado, guardado para as pessoas mais velhas e queridas – Lady Luelly, milady ficaria encantada com sua neta mais jovem. Ela tem seu charme, a impetuosidade de seu filho e o coração doce de sua nora. A menina é maravilhosa. Será nossa rainha. Milady deve estar muito orgulhosa.
Desde que o falcoztruz branco nascera e Karensky Fendessol fora anunciada como futura rainha, havia um clima de esperança e expectativa que o lorde regente jamais imaginaria. O povo normalmente melancólico e introspectivo vibrara diante da ascensão daquelas meninas como família real e agora não se viam mais tão perdidos ou abandonados quanto antes. Claro, depositar toda sua esperança em uma única pessoa, e ainda mais alguém tão jovem, não era uma coisa que Lor’themar concordasse, mas os elfos sangrentos estavam tão dilacerados com todas as coisas que aconteceram com eles em tão pouco tempo que precisavam de um fôlego novo para poderem continuar suas vidas. E a pequena elfa caçula de seu amigo estava se mostrando toda a beleza e vivacidade que seu povo precisava. Esperava que, onde estivesse Lady Luelly, tivesse orgulho de sua neta.
Apesar de iluminado, o túmulo era muito frio e Lor’themar tremia. Mas não podia ir embora sem dizer o que queria. Era uma insanidade, pensava. Estava conversando com os túmulos onde repousava pessoas importantes para ele, mas que jamais poderiam responder suas perguntas. Tinha esperança que eles, pelo menos, estivessem ouvindo suas palavras e entendessem seus sentimentos.
— Sou um covarde mesmo, Dhomm. — disse por fim – Estou aqui tremendo de frio e jogando conversa fora, quando uma única questão me trouxe aqui. — respirou fundo, o vapor condensando bem à sua frente – Eu estou apaixonado, amigo. Perdidamente apaixonado. Do jeito que você sempre quis que eu ficasse. O problema, Dhomm, é que estou apaixonado por uma de suas filhas. Estou terrivelmente apaixonado por Ashrial.
Por um momento Lor’themar achou que algo ia acontecer. Que o túmulo ia tremer ou ouviria a voz de seu amigo o mandando ficar longe de sua menina, mas o silêncio continuou sepulcral e a única coisa que quebrava aquela paz era o barulho de sua própria respiração.
— Eu sei que não devia. Ela só tem dezoito verões, pela Nascente do Sol! Ela acabou de amadurecer! Que tipo de pervertido eu sou? Que tipo de amigo eu sou? — ele deu uma pausa, ouvindo sua respiração apenas e depois continuou – Tentei lutar contra isso Dhomm. Juro que tentei. Tentei me manter afastado, tentei mantê-la afastada, mas tudo que consegui com isso foi machucá-la. Porque Ashrial também gosta de mim. E gosta daquele jeito que apenas os Fendessol sabem: com intensidade e furor. Você sabe do que estou falando. Você sentia o mesmo pela Sam. Eu vejo nos olhos dela o mesmo fogo que via no seu. E isso me assusta. Porque sei que vocês podem odiar na mesma intensidade.
Lembrou-se da noite de ontem e do ultimato que Ash lhe dera. Estava na hora de decidir.
— Por isso estou aqui hoje. Desculpe demorar tanto para te visitar, e quando vim foi para dizer algo que, temo, faça você me odiar. — ele deu um suspiro – Dhomm, eu não vou mais resistir. É um sentimento forte demais para eu lutar contra. E se o fizesse, só faria com que eu e Ashrial sofrêssemos. Eu quero ficar com ela. Ela quer ficar comigo. Então, será isso que acontecerá. Eu pretendo dizer isso a ela hoje, mas não ficaria com meu coração tranquilo se eu não viesse aqui primeiro e falasse com você. Pedir sua autorização. Sei que não é possível, mas… Eu precisava disso. Não me odeie, por favor. — e ele pôs a mão no peito antes de continuar – Eu prometo que farei o que estiver ao meu alcance para protegê-la e fazê-la feliz. Quero viver com ela o que você queria tanto que eu vivesse com alguém. Espero que você me entenda.
Naquele momento, uma rajada de vento entrou pela fresta da porta, fazendo com que Lor’themar estremecesse. Porém, o vento não era frio, mas morno e cálido. O elfo ficou surpreso com aquilo, mas ainda mais surpreso ao ver que o vento fizera a flor do túmulo de Dhomm flutuar. Apenas a flor do túmulo de Dhomm. O botão-da-paz dançou elegantemente no ar e flutuou delicadamente até Lor’themar. Abismado, o elfo abriu a mão e a flor caiu exatamente lá. E ele entendeu. Dhomm estava dando a permissão dele. Estava depositando sua confiança no amigo. Acreditava nele. Deixou que lágrimas de alegria e alívio rolassem por seu rosto.
— Obrigado amigo. — disse com a voz embargada – Obrigado por tudo que você foi e sempre será na minha vida. Não irei te decepcionar. Nunca mais.
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Tommy sentiu um baque no peito e sua mente o levou automaticamente até a noite anterior e, por um momento, achou que estava sendo atacado novamente e que, daquela vez, Doroteya não o reconheceria. Se debateu nessa ideia, até que finalmente acordou, abriu os olhos e percebeu que era apenas Theo quem pulara e agora o encarava com um imenso sorriso no rosto.
— Tommy! — disse o menino animado – Você dormiu aqui com a gente!
Levou alguns segundos para que ele se situasse e então sorriu.
— Bom dia campeão… — falou com a voz sonolenta – Sim, dormi aqui… Era mais quentinho.
O menino riu e o abraçou. Ainda estava vestido com as roupas do dia anterior, pois nem Tommy nem Doroteya quiseram correr o risco de acordá-lo colocando o pijama. O menino estava animado e agora praticamente pulava de um lado para o outro no colchão de Tommy. O homem passou a mão pelo rosto para espantar os últimos vestígios de sono.
— Sua mãe já acordou? — perguntou.
O menino fez que não com a cabeça.
— Então melhor falar baixo pra não acordá-la. — avisou.
Theo fez que sim e colocou o dedo nos lábios como se pedisse silêncio. Tommy sorriu e se sentou no colchão. De onde estava era possível ver a massa de cabelos cacheados de Doroteya se destacando em meio aos lençóis. Tommy então lembrou da noite passada. Fora uma aventura e tanto. Não apenas sua fuga da fazenda, mas também o tempo em que passara com aqueles dois. Sorriu lembrando os momentos e de como se sentira feliz e em paz. Theo ainda o olhava com ansiedade e Tommy admirou-se da energia que as crianças tinham logo de manhã.
— Que tal fazermos o café da manhã? — sugeriu Tommy em voz baixa passando a mão na cabeça do menino.
— Vamos! — exclamou Theo animado e depois cobriu a boca e olhou a mãe. Doroteya ainda dormia. Ele então falou com a voz baixa – Vamos!
Tommy se levantou com cuidado e calçou as pantufas que Fey fizera pra ele. Apesar da lareira e de já ser dia lá fora, ele sentiu frio ao se livrar das cobertas. Pegou mais madeira e colocou na lareira, atiçando o fogo. Já estava de saída com Theo quando ouviu uma voz sonolenta:
— Pra onde vocês vão?
Doroteya acordara tão furtivamente que pegou os dois de surpresa. Ela ainda estava sonolenta, sentara na cama e coçava os olhos enquanto os encarava. Seus cabelos estavam mais rebeldes que de costume e Tommy achou que eles ficavam ainda mais lindos assim. Theo então voltou até a cama e se jogou em cima da mãe.
— Ah, mãe! Estragou a surpresa! — reclamou – Nós íamos fazer o café da manhã!
Doroteya sorriu.
— Ora, não vou impedir vocês de fazerem. — disse sorrindo.
— Eba! — O menino se levantou – Vamos Tommy! — e pegou o homem pela mão.
— Escovem os dentes primeiro. — alertou Doroteya antes de voltar a se deitar – Vou cochilar cinco minutinhos…
Os dois então fizeram toda a higiene matutina e Tommy ajudou o menino a trocar de roupa e fez o mesmo antes de descerem pra cozinha. Então, pôs o avental e colocou o outro em Theo. O menino riu, pois o seu avental ficava quase arrastando no chão. Doroteya deixara pão pronto, então ele decidiu fazer umas torradas, com ovos, bacon (pra ele e Theo) e café. Tommy também sentiu vontade de fazer um bolo de banana, fazia tempo que ele não fazia um e ainda lembrava a receita. Era o bolo favorito de seus filhos. Pegou as frutas e começou a fazer. Doroteya entrou na cozinha quando ele estava pondo a forma no forno.
— Fazendo um bolo? — perguntou surpresa.
— Bolo de banana. — disse com um sorriso – Vocês vão adorar! Fica ótimo com café.
— Mal posso esperar. — comentou a worgenin.
Eles então sentaram e passaram a comer.
— Quais os planos de vocês para hoje? — perguntou Tommy.
— Nenhum. — respondeu Doroteya – Planejávamos apenas ficar em casa.
Ele pensou um pouco e então sugeriu:
— Como ontem nevou forte, acho que hoje o Lago de Olívia deve estar congelado e abrirá para patinação. Podemos ir lá o que acham?
— Patinação? — estranhou Theo.
— As pessoas colocam sapatos especiais e deslizam no gelo, querido. — disse a mãe – Mas, não é perigoso para Theo?
— Claro que não! — exclamou Tommy se animando – Lá é cheio de crianças e nunca vi um acidente mais grave que uma queda de bunda ou duas. — ele riu e Theo o acompanhou – Ensino os dois a patinarem que tal? Podemos passar um tempo lá, depois voltamos e construímos uns bonecos de neve, o que acham?
Os olhos do menino já brilhavam em expectativa e olhou ansioso para a mãe.
— Não temos patins. — avisou a druidesa – Como patinaríamos?
— Podemos alugar lá mesmo. Eu pago! É meu agradecimento por vocês terem me proporcionado o melhor Véu de Inverno em anos! — e piscou o olho para Doroteya.
A worgenin sentiu o rosto ficar quente e sorriu sem jeito.
— Não fizemos isso por prêmio nenhum. — respondeu – Foi um bom Véu de Inverno para nós também.
— Por favor, faço questão! E Theo pode brincar com outras crianças lá também. — e vendo a relutância no rosto dela, algo passou por sua cabeça. Talvez o medo dela fosse outro – Olhe, nunca vi ninguém importante lá. Normalmente só o povo. Os nobres não costumam se misturar, sabe?
Isso pareceu convencer Doroteya. Ela fez que sim com a cabeça e Theo deu gritinhos de alegria. E enquanto mãe e filho se trocavam para sair, Tommy verificava o bolo. Seria um bom lanche para quando voltassem. Isso se não se entupissem das besteiras que normalmente eram vendidas por lá. Decidiu levar um dinheiro a mais. E foi naquele momento que lembrou novamente de sua casa. Ela era no caminho para o lago. Decidiu passar lá na volta do passeio. Se fosse antes, poderia ficar emocionado e estragar o passeio. Ele não tinha mais a chave, mas Lina tinha uma reserva. Deveria estar em algum lugar do quarto dela. O bolo já estava bom. Tirou-o do forno e o pôs em cima da mesa. Era hora dele se vestir.
Depois de devidamente vestido, Tommy deu uma olhada no quarto da irmã. Não precisou procurar muito, a chave estava no mesmo lugar que Lina guardava todas as chaves. Pegou-a, sentindo o coração acelerado e então desceu.
Doroteya e Theo já o esperavam. Tommy estacou. Doroteya estava… Diferente. Ela normalmente estava sempre de vestido, com seus berloques e de cabelo rebeldemente solto, mas naquela hora ela parecia ter rejuvenescido uns dez anos. Ela vestia um colete muito bonito, com detalhes brancos azuis e dourados e uma calça preta. Seus cabelos tinham sido presos em uma trança que caia do lado de sua cabeça, onde um gorro estava enfiado.
— Nossa Doro, você está ótima! — disse se aproximando.
Ela sorriu, encabulada.
— Mel fez essa roupa para mim, disse que era mais prática para levar Theo para brincar na neve.
— Ele está certo. — concordou – Assim ficará mais fácil patinar e brincar. — sorriu – Então, estamos prontos?
— Estamos! — gritou Theo animado.
Tommy e Doroteya caíram na risada e então saíram de casa. O Lago de Olívia ficava na parte leste de Ventobravo, pouco depois do Distrito dos Anões. Aquela hora não havia muito movimento e eles decidiram ir andando devagar. Theo ia no meio dos dois, segurando na mão de ambos e começou a encher Tommy de perguntas quando começou a ver pessoas de outras raças. Até então, Theo vira apenas elfos noturnos e agora, no caminho para o lago, a vista fora tomada por anões e gnomos, que viviam naquela parte da cidade.
— Ele também não tem sua cidade? — perguntou o menino a certa altura.
— Os anões têm a cidade deles, Altaforja. — explicou Tommy – Mas os gnomos perderam a deles, Gnomeregan.
— Foram os mortos-vivos também? — questionou Theo.
— Não, foram alguns gnomos que não eram bons que estragaram a própria cidade.
— Que absurdo! — exclamou o menino e Tommy fez força para não rir da indignação do pequeno.
— Vejam, estamos quase lá! — avisou Tommy.
Havia um portão logo depois da Casa de Leilões do Distrito dos Anões, que levava a uma escada paralela à muralha. De lá, era possível ver o lago Olívia. Aquele lago era formado pela água que caia das duas cascatas vindas do Lago de Ventobravo, que ficava ao lado da Bastilha. Enquanto lá em cima era um local reservado para os mais nobres, o Lago Olívia era circundado por algumas casinhas e uma fazenda de abóbora. Já havia movimento àquela hora, apesar do feriado e Tommy acertara em cheio: o lago estava aberto para patinação. E enquanto se aproximava, tanto Theo quanto Doroteya mostravam seu espanto e não era por menos. O local era lindo. A neve que caíra formava elegantes montes perto das árvores, que estava brancas e com as folhas esbranquiçadas.
— Trarei você aqui na primavera, Theo. — disse Tommy – Tudo fica ainda mais lindo verdinho e cheio de flores.
— Oba!! — comemorou o menino.
Eles se aproximaram mais e puderam ver uma pequena draeneia que saltitava ao redor do lago. A menina acenou para Theo que acenou de volta. Logo a pequena havia se distanciado antes que pudessem trocar uma palavra. Quando finalmente chegaram à beira do lago, havia uma mulher com diversos patins para alugar.
— Aqui, patins! — anunciava ela – Patins para aluguel!
— Três por favor. — pediu Tommy.
A mulher analisou os três e então separou três pares.
— Por mais uma pequena quantia, mantemos seus sapatos guardados. — disse ela ao entregar os patins.
— Aceitamos.
Em pouco tempo os três estavam com seus patins no lago congelado. Tommy deu as primeiras instruções de como se equilibrar e se deslocar e mostrou como fazia. Apesar dos anos afastados, ele ainda sabia se mover com destreza e agilidade na superfície congelada. Theo o olhava admirado enquanto Doroteya concentrava suas forçar em permanecer de pé.
— Acho que não consigo. — disse trêmula para Tommy – Vou me espatifar no gelo.
— Consegue, claro que consegue. — disse animado – Venha, segure minha mão.
E enquanto Theo dava seus primeiros passos no gelo sem medo e animado, Doroteya segurava com duas mãos o braço de Tommy e era praticamente puxada.
— Vamos Doro, você consegue!
A druidesa deixou-se ser levada por um tempo, até que decidiu arriscar. Soltou-se de Tommy e tentou deslizar da mesma forma que via as outras pessoas fazendo. Deu um, dois passos e então perdeu o equilíbrio, caindo de bunda no chão. Theo e Tommy caíram na risada, até ver o olhar de raiva da druidesa. Pararam no mesmo instante. Tommy ajudou-a a se levantar e mostrou novamente como fazia. Doroteya tentou de novo e novamente caiu. Enraivecida, ela decidiu que era uma questão de honra: aprenderia a andar naquilo. Ainda caiu mais duas vezes antes de entender onde colocar o peso do corpo e se equilibrar. Então, começou a deslizar, um pouco instável ainda, mas já conseguia se mover desengonçadamente. Tommy sorriu e aplaudiu. Theo veio e pegou na mão da mãe. Ele já estava patinando tão bem que parecia que já nascera sabendo. O menino começou a patinar de mãos dadas com a mãe e Doroteya finalmente percebeu porque as pessoas pagavam para fazer aquilo. Era divertido quando se pegava o jeito.
— Muito bem! — disse Tommy batendo palmas – Você é o máximo Doro!
Ela sorriu e acenou. Theo então a soltou e começou a patinar com vontade, fazendo círculos no gelo. O menino estava se divertindo muito e a mãe soube que fizera o certo em ir ali. Havia muita gente, claro, mas havia guardas para garantir a ordem e nenhum sinal de ninguém de Guilneas. Permitiu-se relaxar um pouco e até fez uma brincadeira. Em determinado momento, se transformou em um imenso urso e passou a deslizar de barriga no gelo. As pessoas ao redor riram e bateram palmas. Theo gritou animado e subiu na mãe. Doroteya se impulsionou para a frente e girou, arrancando risos do menino. A velocidade levou os dois até a margem do lago e então se chocaram com um monte de neve. Doroteya teve o focinho enfiado na neve e quase não conseguia tirar a cara de lá. Precisou tirar a forma de urso e sentou-se pesadamente na neve. Theo não ria mais, olhava para a mãe, preocupado.
— Mãe! Seu nariz tá sangrando! — exclamou preocupado.
Tommy, que vira toda a brincadeira, agora se aproximava patinando muito rápido até onde os dois estavam.
— Acho que me empolguei demais. — disse ela segurando o nariz sangrando e com um sorriso tímido quando ele se aproximou.
— Com certeza. — confirmou ele – Deixe-me dar uma olhada nesse nariz. — pediu.
— Não precisa. — Doroteya conjurou uma magia e logo o sangramento parou – Não foi nada. Desculpe o susto, filho.
— Ah, mãe, você foi genial! — ao ver que a mãe estava bem, Theo se animara de novo – Vamos fazer de novo!
— Melhor não. — Doroteya já se levantava – Vamos nos manter nos patins.
E assim fizeram. Passaram mais de uma hora patinando e decidiram sair do lago quando o número de pessoas aumentou substancialmente. Criados em floresta e sem costume de estar em multidões, tanto Theo quanto Doroteya começaram a dar mostras de incômodo e Tommy achou por bem encerrar o passeio. Entregaram os patins e pegaram os sapatos deles. Estavam calçando quando a pequena draeneia apareceu de novo, acenando para Theo. O menino então olhou para a mãe.
— Posso ir falar com ela? — perguntou.
Doroteya pensou um pouco antes de responder:
— Desde que você se mantenha a vista, tudo bem.
O menino sorriu e foi em direção à menina.
— Está tudo bem. — disse Tommy tranquilizando-a — Aqui é seguro.
— Mas e se ele se perder? — perguntou preocupada.
— Aquela menina vive aqui no lago. Ela não se perderia.
Poucos minutos depois, Theo se aproximava com a menina, muito animado.
— Mãe, mãe, essa é Olívia! — apresentou – O lago é dela, sabia?
A pequena draeneia apenas sorriu e acenou para Doroteya.
— Olá. — disse com um forte sotaque típico dos draeneis.
— Olá Olívia. — cumprimentou a worgenin – Esse lago imenso é só seu? — perguntou carinhosamente.
A draeneia fez que sim.
— Mãe, posso ir pro outro lado do lago com ela? — pediu Theo – Olívia quer me se mostrar algo.
O primeiro impulso de Doroteya foi dizer não, mas hesitou diante do olhar animado de Theo. Olhou para Tommy, como se perguntasse a opinião dele, afinal, ele conhecia Ventobravo melhor que ela. Tommy assentiu e se abaixou para falar com aqueles dois:
— Olívia, Theo não é daqui, então você não pode deixar ele sozinho, ok?
A menina assentiu.
— E Theo, se por acaso você se perder, procure um guarda e diga que você é sobrinho da comandante Wood. Estaremos aqui, perto das barraquinhas, naquele banco ali. — e apontou um banco – Não sairemos de lá.
— Certo! — disse o menino antes de olhar para a mãe – Posso ir mesmo, não é mãe?
— Vá com Eluna, filho. — disse ainda preocupada.
O menino deu um rápido abraço na mãe e logo sumiu acompanhado de Olívia. Tommy então levou Doroteya até onde as barraquinhas estavam. Havia chocolate quente, mas também tinha diversas outras comidinhas. Antes de comprarem qualquer coisa, contudo, sentaram-se no banco. Ambos estavam com o corpo dolorido do esforço.
— Não se preocupe. — disse Tommy – Eles ficarão bem.
— Você deve me achar superprotetora. — comentou ela franzindo a testa.
— Você tem motivos para isso. — retrucou – Mas não precisa se preocupar. Está tudo bem. — e sorriu.
Doroteya sorriu de volta.
A druidesa se acalmou porque jamais poderia imaginar que o rei Genn Greymane sairia da Bastilha, naquela manhã fria e se juntaria a uma turba de camponeses patinadores. Porém, foi exatamente o que ele fez e logo seus olhos encontraram Theo novamente.
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Luxuriah não estava preparada para o que aconteceu naquela manhã de Véu de Inverno. Por mais que tivesse ouvido falar sobre aquilo e tivesse até mesmo visto, a sensação foi aterrorizante e assustadora.
Estava dormindo profundamente em sua cama, abraçada com Rommath. Aquela era uma coisa que, meses atrás, ela sequer cogitaria. Porém, agora só conseguia adormecer se sentisse o braço forte de seu marido ao redor de seu corpo. Era uma mudança tão grande que às vezes a própria elfa não acreditava. Não sabia se tinha pego gosto pela coisa ou se era apenas a carência causada pela gravidez. Talvez fosse os dois. E fora ali, naquele momento tranquilo, que sentira a pontada.
Assustada, Luxuriah acordou. No primeiro momento achou que não era nada, havia sido apenas um sonho. Foi quando sentiu de novo. Uma pontada ainda mais forte. Sentou-se na cama, aterrorizada e olhou para a barriga. Uma terceira pontada, mais forte. Foi quando entrou em pânico. Tentou gritar, mas não conseguia. Estava assustada demais. Pensamentos horríveis começaram a passar por sua mente, pensamentos de que perderia sua bebê naquela manhã, que jamais veria o rostinho dela, que tudo fora em vão. Sua respiração acelerou e sentiu outra pontada. Lágrimas começaram a brotar em seus olhos e ela continuava parada, em choque, sem conseguir reagir.
Apesar de não conseguir falar, Luxuriah se remexia em sua agonia e isso acordou Rommath. Quando o arquimago viu sua esposa sentada e tensa, a chamou, ainda sonolento:
— Luxuriah?
Luxuriah virou a cabeça em sua direção e o pânico no rosto dela o despertou de vez. Sentou-se rapidamente, em alerta.
— O que foi?! O que você está sentindo?!
— Minha barriga… — foi tudo que ela conseguiu falar – O bebê...
Rommath então colocou as duas mãos na barriga de Luxuriah, preocupado. E então ele sentiu. Olhou para a esposa, que o encarava assustada demais para falar e então sorriu.
— Ela está se mexendo… — disse maravilhado – Nossa bebê está se mexendo!
A expressão da futura mamãe era uma mistura de alívio e apreensão. Ela pôs a mão em cima da barriga no momento que uma nova pontada veio. Sim, A pontada era um belo chute de Tinuviel. As lágrimas que antes ameaçavam descer agora escorriam no rosto de Luxuriah e ela pôs as duas mãos na barriga.
— Está doendo? — perguntou Rommath preocupado.
— Eu… Não sei… É tão… Estranho… — e o encarando profundamente, admitiu – Achei que eu estava perdendo-a…
— Deve ser estranho mesmo. — concordou o mago – Mas se não tiver nenhuma dor forte e aguda, não tem problema.
— Tem certeza? — ela não parecia totalmente satisfeita.
— Sim, tenho, lembre-se que acompanhei toda a gravidez da minha mãe. Mas, se te deixar mais tranquila, vou chamar o Kayliel. — sugeriu.
— Seria melhor mesmo. — afirmou ansiosa.
— Volto em um instante. — e deu um rápido beijo na testa dela antes de sair.
Enquanto aguardava a volta de Rommath com Kayliel, Luxuriah encostou-se com cuidado na cama e pôs a mão na barriga. Nada. Nenhuma pontada. Teria sido apenas um susto mesmo? Por mais que quisesse acreditar, não ficaria satisfeita até que Kayliel lhe examinasse. Não queria correr nenhum risco. Mas agora, que o aguardava, entendeu que se houvesse algo errado, haveria muita dor e as pontadas teriam piorado e não parado. Tranquilizou-se mais um pouco.
Pouco tempo depois Kayliel chegou, com um robe por cima do pijama, junto com o irmão. O elfo sorriu para ela enquanto se aproximava.
— Bom dia, Lux. — disse animado – Soube que minha sobrinha finalmente mexeu…
— Quero ter certeza que foi só isso mesmo. — foi logo dizendo ela.
Kayliel riu.
— Pois vamos ver.
O exame foi rápido e apenas constatou o que já desconfiavam: as pontadas nada mais foram que poderosos chutes dados pela pequena elfa dentro a barriga de Luxuriah. Como mãe de primeira viagem e o histórico dela, não era estranho que Luxuriah ficasse tão assustada. Porém, Kayliel lhe garantiu, jurando pela Nascente do Sol, que tudo estava bem. Então, finalmente Luxuriah relaxou.
— Tinuviel, você deu um susto na mamãe! — reclamou Luxuriah olhando para a barriga.
— Eita querida, a primeira bronca que levou da mamãe, hein? — brincou Rommath passando a mão no ventre proeminente dela.
Todos riram e Luxuriah olhou para Kayliel.
— Desculpe por te arrancar da cama cedo. — pediu a elfa sentindo mais um chute e fazendo uma careta.
— Não tem que se desculpar, é a obrigação dele cuidar de você em qualquer horário. — disse Rommath batendo de leve na cabeça do irmão.
Kayliel fez uma cara feia, mas não discutiu com o irmão.
— Vou voltar para o quarto. — disse o sacerdote – Qualquer coisa me chame. — e deu um tapa na orelha de Rommath antes de praticamente sair correndo para o corredor.
Luxuriah riu dos dois e se aconchegou novamente na cama. Rommath logo se deitou ao seu lado e a abraçou. Ficaram algum tempo em silêncio, sentindo o bebê se mexer, agora com menos força que antes, até que, por fim, ela se aquietou.
— Será que dormiu? — perguntou Luxuriah.
— Talvez esteja cansada da agitação de antes. — supôs Rommath.
— Será que vai ser assim todo dia? — questionou-se mais uma vez.
— É possível.
— Se isso significar que está tudo bem, então não me importo.
Deixaram-se ficar mais tempo na cama, sem nada falar, aproveitando apenas a tranquilidade e a certeza que tudo estava bem. Rommath chegou a pensar que Luxuriah adormecera novamente, até que a elfa falou:
— Tewdric disse que hoje teria uma surpresa para mim. — ela franziu a testa – Ele vem falando isso desde o dia do nosso casamento e tenho até receio do que aquele orc aprontou.
— Tenho certeza que é algo que você vai gostar. — ele deu uma pausa – Ou que Tewdric acha que você vai gostar.
Luxuriah revirou os olhos.
— É disso que mais tenho medo. — ela se calou por um momento, pegou uma mecha de cabelo dele e ficou revirando entre os dedos – O que você acha? Da Kass e do Tewdric?
— Do casamento deles? — quis saber. E quando ela afirmou com a cabeça, ele pensou um pouco – Não tenho muito o que pensar. É a vida deles.
— Mas qual a sua opinião? — insistiu.
Rommath ponderou e então falou:
— Como todo elfo, não vejo com bons olhos os casamentos inter-raciais. Mas, aqueles dois se completam de um jeito tão único que é impossível não termos certeza que foram feitos um para o outro. E eu gosto daquele orc. — ele deu uma risada – É o orc mais gente boa e engraçado que conheço. Não dá pra não gostar dele. — e a encarando, quis saber – Por que você perguntou isso?
Ela deu de ombros.
— Curiosidade, eu acho. — E jogando a manta que a cobria para o lado, anunciou — Estou morrendo de fome. Será que a Kass já mandou fazer o café da manhã?
— Só vamos descobrir ao descer.
Não demorou muito e os dois já estavam vestidos e prontos para o café da manhã. E assim que chegou ao alto da escada, onde tinha uma boa visão da sala de estar, Luxuriah viu que Tewdric já estava lá próximo a árvore de Véu de Inverno, e remexia em algo que ela não pode ver. Os servos já haviam limpado tudo da noite anterior e a mesa para o café já estava posta. Porém, a curiosidade da elfa era maior que sua fome, então ela foi direto aonde o conspirador estava.
— Então, — disse já se aproximando – o que você está tramando, Tewdric?
Tewdric se virou, soltando risadinhas. Ele procurava cobrir a visão de Luxuriah de alguma coisa.
— Você vai adorar Lulu. – garantiu o orc animado.
— Um dia eu ainda arranco sua língua por me chamar assim. — sibilou a elfa cruzando os braços.
— Faça isso não a Kassyeh não vai gostar. — e soltou uma risada rouca, antes de completar. — E você não sabe o trabalhão que foi manter isso em segredo. — garantiu Tewdric entre as risadas.
— O que diabos você aprontou hein? — Luxuriah já estava perdendo a paciência quando Tewdric deu um passo para o lado, revelando finalmente a tal surpresa.
No começo Luxuriah não entendeu. Era uma pilha de presentes, com várias cartas presas aos pacotes. A elfa não entendeu porque aquilo era uma surpresa, afinal, era Véu de Inverno. As pessoas ganhavam presentes. Mas porque Tewdric estava lhe dando tantos? Ele já não a presenteara no dia anterior? Olhou sem entender para ele e o orc fez um gesto para que ela pegasse alguma das cartas. Ela se abaixou, pegou uma e leu.
— “Que sua moleca seja forte e bata muito como você. Isso é pra dar sorte. Hödör e Hermenegilda”. — a carta estava presa a uma pequena boneca de vodu.
Hödör e Hermenegilda eram um casal de irmãos trolls, gêmeos e ambos eram druidas. Quando os dois se transformavam em luniscante, era impossível diferenciar um do outro. Ambos faziam parte de sua guilda. O coração de Luxuriah disparou.
— Isso é…
— Eu mandei carta pra todo mundo na guilda. — disse Tewdric com orgulho – Avisei do seu bebê e como você passaria um tempo sem cair no mundo com a gente. Eles então me garantiram que fariam você se lembrar do quanto é querida por todos.
As lágrimas voltaram rapidamente aos olhos da elfa, mas não eram as mesmas lágrimas de mais cedo. Eram lágrimas de alegria. Pegou outra carta, que estava presa a um pequeno amuleto com o símbolo da Luz.
— “Que seus ancestrais protejam você e sua criança. Talukar” — leu em voz alta.
Talukar era um paladino, tauren (quem diria), que fazia parte da guilda. Ele era uma ótima pessoa e fez Luxuriah perceber que nem todo tauren paladino seria um completo imbecil.
E então ela foi abrindo uma por uma das cartas e vendo os presentes que eles enviavam não para ela, mas para sua filha. A grande maioria era amuletos de proteção ou símbolos sagrados. Se dependesse de todo aquele cuidado, teria a gravidez mais tranquila que toda a Azeroth já viu. Mas não era aquilo que importava. Não eram os inúmeros presentes recebidos. Era o cuidado e o carinho que todos transmitiam em suas cartas. Podiam ser bilhetes curtos (e a maioria foi) ou cartas gigantescas (recebera uma de três páginas da goblina Nabby), mas todas diziam a mesma coisa: estamos torcendo por você e queremos o melhor para seu bebê. Nenhum deles citou que ela era uma princesa agora. Para todos, ela ainda era Luxuriah, a caçadora mais forte e querida de sua guilda.
— Então? — perguntou Tewdric – O que achou?
Luxuriah o encarou profundamente por um momento. Estava entre os sentimentos de amor profundo e ódio verdadeiro pelo orc. Amor, porque ele fora capaz de proporcionar a melhor manhã de Véu de Inverno que ela já teve e ódio, por ter armado tudo debaixo do nariz dela. Se fosse a Luxuriah sem Tinuviel na barriga, teria dado uns bons tapas nele pelo segredo, mas quem comandava seu corpo e seus sentimentos agora era sua filhinha, quer no momento parecia querer abraçar e apertar bem muito o tio Tewdric. Então foi o que ela fez. Deu um apertado abraço no orc.
— Obrigada Tewdric. — disse com sinceridade – Muito obrigada.
Ele deu uma risada alta e devolveu o abraço.
— Eu sabia que você ia gostar. — afirmou convicto.
— Sim, eu gostei. — admitiu – Mas se você inventar qualquer outra surpresa para mim, pode ter certeza que arranco seu couro. — completou com delicadeza, mas com a voz firme.
Tewdric riu mais ainda, porque sabia que era verdade.
E naquele momento, Tinuviel voltou a se mexer, com mais força que antes, para lembrar a mãe que, se ela estivesse no controle na próxima surpresa, o couro do tio Tewdric ficaria um bom tempo grudado à pele dele. E Luxuriah também riu, porque sabia era verdade.
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O vapor subia lentamente e parecia dançar enquanto se lançava ao ar. Lina segurava a caneca com as duas mãos, adorando o aroma do café naquela manhã tão fria. O dia mal tinha amanhecido, mas não conseguia se manter na cama muito tempo. Nem queria. A última coisa que precisava era se acostumar a acordar tarde e depois demorar a se acostumar de novo com a rotina do trabalho. Olhando para fora da janela, aquela imensidão branca, ficava imaginando como estaria Tommy, Doroteya e Theo àquela hora. Esperava que seu irmão tivesse chegado bem. Tomou um gole de sua bebida. Bem quente e amargo, como gostava.
Àquela hora era a única na cozinha da casa. Os vestígios da festa ainda estavam por lá e Lina pensou como era bom ter muita gente em casa para poder limpar toda aquela confusão. Se as coisas seguissem o curso normal de todo Véu de Inverno, em pouco tempo ela brigaria em breve com as irmãs enquanto tentavam ajeitar aquilo, perderia a paciência e sairia para algum lugar. Suspirou. Deveria fazer algo diferente aquele ano e sair antes de arrumar brigas. Era uma boa alternativa.
Tomou mais um gole de café. O que Varian estaria fazendo aquela hora? Será que ainda dormia? Difícil. O rei também não era de ficar na cama até mais tarde. Não foram poucas às vezes em que ela chegara quase com o nascer do sol na Bastilha e já o encontrara por lá. Quem provavelmente ainda estava apagada para o mundo era Arshe. Aquela ali gostava de dormir. Lina sorriu. Como era estranho sair de Ventobravo e de repente ter todas aquelas pessoas de quem sentia falta. Normalmente era só o trabalho que preocupava só que agora havia mais, apesar de isso não mudar o fato de que ela ainda se sentia mal por ter largado o trabalho e viajado. Havia tanta instabilidade no mundo que era até egoísmo fazer aquela pausa. Só o fazia pelos pais.
Lina era consciente que no dia que eles falecessem (e que a Luz garantisse que ainda demorasse muito) era provável que jamais pusesse os pés ali novamente. Não que odiasse os irmãos. Mentira, às vezes odiava. Só não odiava o tempo todo. Nem queria o mal deles. Mas eram pessoas muito diferentes, apenas com o sangue em comum. Sentia-se muito mais próxima de Doroteya e de Arshe do que de suas irmãs. E sabia que elas tinham amigas com as quais se sentiam da mesma forma. Então não havia por que se sentir mal por isso. Era apenas uma consequência da vida.
Já tinha terminado seu café e estava pondo mais na xícara quando ouviu passos na escada. Os Wood começavam a descer. Lina se perguntou quanto tempo aguentaria naquela manhã antes de sair porta afora, mas quando viu que seu pai e sua mãe desceram junto com a trupe, ficou feliz. Era bom ver que os dois idosos ainda tinham os hábitos de quando tocavam o vinhedo.
— E essi café cheroso? — perguntou seu pai com um sorriso.
— Eu que fiz, papai. — respondeu Lina retribuindo o sorriso – Quer?
— Mar é claro! — respondeu.
Seus pais pareciam não estar preocupados com a bagunça e sentaram na mesa ainda suja. Lina rapidamente limpou o lugar onde os dois estavam e serviu café para eles, além de buscar algo para que eles comessem.
— Fia, sua mãe qué pidir uma coisa. — disse seu pai depois de um tempo.
— Diga, mãe. — falou Lina, curiosa.
A velha senhora olhou para a filha, timidamente. Lina sabia que sua mãe relutava em pedir as coisas para ela, talvez por vergonha. Dona Mariana nunca escondeu que preferia as filhas mais femininas. Por anos tentara pôr vestidos e laços em Lina, que os arrancava e depois corria para brincar na lama. Todavia, as duas nunca haviam discutido por isso e a velha senhora acabou aceitando que a sua caçula era mais chegada às coisas do pai. E fora ela quem convencera o velho Sebastian a aceitar a filha no exército. Ainda assim, toda vez que sua mãe queria algo, preferia pedir a Linda ou a Lícia. O que será que ela pediria a comandante?
— Eu quiria conhecê a Bastilia. — disse sua mãe relutante – E visitá os túrmulo do rei e da rainha.
— Quero ih tumbém e dá um vinhu pro menino deles. — acrescentou seu pai
Levou alguns momentos para Lina entender que os reis a quem sua mãe se referia eram os reis Llane e a rainha Taria, os pais de Varian. E o menino que seu pai falava era Varian. Conteve a risada ao pensar em Varian como um menino, pois não queria parecer desrespeitosa com seus pais. Seu Sebastian e Dona Mariana tinham uma adoração quase religiosa por aqueles dois e nunca se cansavam de falar de um episódio em que os reis visitavam aquela região, muito antes do Flagelo ou da Horda, nos “tempos bons” como eles se referiam, e que seu pai dera uma garrafa de vinho ao rei Llane. Dias depois eles receberam pelo correio uma mensagem do rei dizendo do quanto gostara do vinho e os agradecendo. O bilhete ainda existia, emoldurado e pendurado na sala de estar.
Se fosse o pedido de qualquer outra pessoa, Lina provavelmente diria não, a Bastilha não é um lugar para visitas. Mas eram seus pais. E eles estavam velhos. Que outra oportunidade teriam para conhecer a Bastilha e visitar os túmulos? Duvidava que Varian dissesse não para aquele pedido, mas era melhor checar antes.
— Não vejo problema. — disse Lina – Porém, primeiro vou pedir permissão ao rei para levá-los lá, mas duvido que ele negue. Acho que vossa majestade ficará encantado de ver pessoas que admiram tanto os pais dele.
Sua mãe abriu um sorriso lindo e puxou Lina para um beijo. Era um gesto tão raro que a comandante ficou sem saber o que fazer. Fingiu que ia limpar mais alguma coisa, para que a mãe não visse sua face em brasa. Era estranho receber aquela atenção toda da mãe e esperava que aquilo não causasse ciúme nas irmãs e piorasse o humor delas. Como não houve nenhuma piadinha ou comentário maldoso, supôs que todos queriam que aquele desejo dos pais fosse atendido, independente de quem o faria.
O barulho já estava bem significativo quando Lina decidiu que era hora de fazer uma caminhada. Aproveitaria que nenhuma briga fora desencadeada para dar uma manhã de Véu de Inverno tranquila aos seus pais. Lembrou que sua capa e coisas estavam no celeiro e decidiu ir lá primeiro.
— Pai, mãe, vou dar uma caminhada. — avisou – Volto para o almoço.
Seus pais assentiram e Lina já se dirigia à porta traseira quando Alan, seu décimo irmão, falou:
— Ei, já que vai caminhar, dê uma olhada nas armadilhas que meus meninos colocaram. — pediu.
— Armadilhas? — perguntou – Para que lado?
— Perto do rio. Espero que os Jones não tenham pego nossa caça. — o irmão franziu a testa preocupado – Eles gostam de pregar peças, você sabe.
Lina odiava os Jones. No entendimento da comandante, eles não gostavam de pregar peças, eles eram maus mesmo.
— Estão competindo para ver quem pega mais coelhos de novo? — riu-se Lina pensando em pegar alguns a mais apenas para não dar o gosto dos vizinhos ganharem a aposta.
— Claro que não. São armadilhas para urso.
O sorriso de Lina morreu na mesma hora. Ela olhou para o irmão sem acreditar no que ouvia.
— Alan! Você deixou seus filhos colocarem armadilhas para ursos?! — perguntou sem querer acreditar.
— E qual o problema? — respondeu o outro na defensiva.
— A caça a ursos é proibida no inverno há três anos! — disse se controlando para não começar a gritar – Eu já disse isso um milhão de vezes isso!
— Ah, mas ninguém segue isso por aqui… Todos caçam ursos no inverno. — disse ele dando de ombros.
Lina ficou furiosa. Não sabia se por saber que ninguém ali seguia uma regra ditada por Ventobravo ou se pelo seu irmão ir na onda dos outros. Caminhou com os passos pesados até o irmão e o encarou com ferocidade.
— Não importa se os outros fazem! — disse ríspida – É crime! E eu não quero ninguém aqui envolvido nisso!
Seu irmão deu uma risada desdenhosa e Lina teve uma vontade imensa de enfiar o punho fechado na cara dele. Isso deve ter ficado bem claro na expressão dela, porque ele logo parou de rir.
— Ora vamos, Lina. — disse ele pondo a mão no ombro dela – Você é a comandante. Se der algum problema, você alivia para o seu irmão, não é mesmo?
— Não. — disse ela tirando a mão dele de seu ombro – Eu não ‘alivio’ para ninguém Alan e é por isso que eu estou onde estou. Eu vou até lá, mas é para desarmar todas as armadilhas e trazê-las de volta. E se você ou seus filhos as colocarem de novo, eu mesma faço a denúncia e você terá que pagar a multa estabelecida pela capital! — ela tremia de raiva – Então torça, torça bastante, para que eu encontre aquelas porcarias vazias!
E sem esperar resposta, saiu pisando duro e batendo a porta com força. Todo o bom humor da manhã se fora com aquela amostra de imbecilidade do irmão. Como ele fora fazer algo tão estúpido?! Quantas vezes já não dissera das pesadas multas para caça ilegal? Enquanto se afastava ouviu os burburinhos e as reclamações, mas não deu ouvidos. Sabia o que falavam, mas aquilo não importava. Que a criticassem! Preferia as críticas de sua família a ter sua reputação manchada por que ‘aliviou’ para o irmão a multa. Se a lei falava que não se caçassem ursos no inverno, cacete, que não caçassem! Ninguém ali estava morrendo de frio ou de fome! Além do mais, era uma covardia tentar pegar os bichos enquanto eles estavam letárgicos e prontos para hibernar. E se tinha mais alguém fazendo aquilo, se preparasse, pois ela não deixaria aquilo continuar.
Chegou ao celeiro para pegar sua capa e viu que Fey e Mel estavam terminando de se ajeitar para irem até a casa. Bem, eles se irritariam em breve com os comentários que ouviriam ao seu respeito, por isso, foi logo falando:
— Briguei com Alan e vocês ouvirão muitas reclamações. — disse se dirigindo até onde deixara suas coisas.
— Com o Alan? — estranhou Mel – Você não costuma brigar com ele…
Lina então contou o que o estúpido irmão fizera junto com os filhos enquanto vestia a capa. Decidiu levar seu arco e sua aljava também. Se tinha gente por ai caçando ursos das duas uma: ou ela encontraria os bichos bem nervosos ou pessoas armadas bem nervosas. Com os ursos ela conseguiria lidar sem a arma, com as pessoas, não.
— Ás vezes penso que o Alan é retardado. — disse Fey com uma careta – Ele sabe muito bem que é proibido, ouvi papai falar disso ontem!
— O problema é que ele vai na onda daqueles irmãos Jones, que são três imbecis. — retrucou Mel fazendo uma careta de desgosto.
Os Jones, seus vizinhos, moravam na fazenda depois do rio e eram três irmãos extremamente esnobes, cruéis e manipuladores. Lina sabia que o mais velho já tinha dito coisas bem desagradáveis aos seus irmãos alfaiates e que os outros viviam caçoando não apenas deles, mas de todos os Wood. Alan gostava de se imaginar amigos daqueles idiotas, mas Lina sabia muito bem que gente daquele tipo não tinha amigos.
— Vou lá. — avisou ela – Tentem falar com o papai e a mamãe para eles convencerem Alan a não fazer mais isso ou eu mesma mando fazer a multa para ele.
— Pode deixar. — disse Mel.
— Cuide-se. — pediu Fey.
E Lina saiu para a manhã fria, torcendo para não precisar cumprir as ameaças contra o irmão nem para dar de cara com os irmãos Jones, ou eles aprenderiam que nem todo o Wood é compassivo quanto Fey e Mel nem tão imbecil quanto Alan.
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Dalaran não amanheceu coberta de neve como Luaprata ou Ventobravo. Sua proteção mágica tornava todas as manhãs iguais, amenas e ensolaradas. Toda neve ficava fora do escudo arcano. Dessa forma, quem visitava Dalaran naquele feriado provavelmente estranharia as ruas limpas e cálidas.
Vivithi e Aethas se surpreenderam quando o sol nasceu naquela manhã de Véu de Inverno. Nenhum dos dois dormira, havia três garrafas de vinho vazias na mesa e ambos ainda sentiam a conversa da noite passada pairando entre os dois. Àquela altura Vivithi vestia um dos pijamas de Aethas, já que em determinado momento o mago achava que não conseguiria prestar atenção na conversa se continuasse vendo o corpo nu da elfa. Ele também conjurara uma vassoura mágica para limpar os restos de sua taça, para que nenhum deles se cortasse novamente por acidente. E depois, ele ouvira. Ouvira tudo.
Se, àquela altura de seu envolvimento com Vivithi, já houvesse repensado a forma como via a elfa, aquela conversa o mudara ainda mais. Encarava a elfa com um visível respeito, guardado apenas para aqueles que sofreram graves agruras na vida e sobreviveram. Se fosse ele, Aethas, naquela situação em que ela descrevera, não teria retomado sua vida tão rápido quanto Vivithi o fizera. As cicatrizes estavam ali, óbvio, mas, se Vivithi não tivesse lhe contado tudo, ele jamais imaginaria que ela passara por tudo aquilo.
O mais impressionante de toda a conversa na noite anterior era que Vivithi não chorara. Não derramara uma lágrima sequer durante toda a narrativa. Seu rosto ficara tão seco como sua voz e as vezes parecia que ela falava de outra pessoa e não de si própria. Sim, pois Aethas não reconhecia Vivithi na pessoa que ela descrevera que fora um dia.
— Então? — ela lhe perguntou com a voz rouca.
Aethas não sabia o que dizer. O que poderia ele lhe pedir depois de tudo que ela contara? O que poderia fazer por ela depois de tudo que ela vivenciara? O arquimago era orgulhoso e confiante, como a maioria de seu povo sempre se mostrara, mas diante da situação se sentia pequeno, insignificante e relutante. Olhava para Vivithi, pálida dentro de seu pijama, cujo cabelo prateado refletia a luz do sol destacando ainda mais seus olhos verdes. Ela era um paradoxo: seu rosto refletia uma vulnerabilidade que ela não tinha e uma força que lhe custava a alma. Passara pelo inferno na vida e agora encarava tudo de cima de uma muralha construída por ela mesma, para conter toda a sensibilidade e inocência que lhe fora roubada e da qual sobrara apenas vestígios diáfanos. Aethas queria colocá-la no colo e protegê-la de toda dor, mas Vivithi jamais aceitaria tal coisa. Ela não precisava de um protetor. Precisava apenas de alguém que a compreendesse. E era isso que ele tensionava fazer.
— Eu lhe entendo. — disse por fim – Eu entendo porque você não consegue aceitar meus sentimentos.
— Nem os seus, nem os de ninguém. Nem mesmo os meus. — confessou.
— Então… Ainda que você se apaixonasse… — começou ele.
— Isso não vai acontecer. — cortou com dureza.
Porém, ao dizer aquilo, Vivithi desviou a vista para as garrafas de vinho. Não, pensou Aethas, ela não estava imune a paixão, contudo, jamais admitiria tal sentimento ou sucumbiria ao mesmo. Lutaria com todas as forças para se libertar de quaisquer armadilhas que seu coração tentasse lhe lançar. O elfo então sentiu seu coração pesar, não por si próprio, mas por ela. Vivithi se condenara a uma existência solitária por causa dos erros de outra pessoa.
O que faria então? Se relegaria a aceitar aquela situação e se conformar que jamais ficaria com a única pessoa que tocara seu coração?
— Aethas… — ela o chamou com um olhar questionador.
Ele ainda não sabia o que dizer, por isso se levantou.
— Está com fome? — perguntou – Passamos a noite bebendo mas não comemos nada…
Vivithi fez que não com a cabeça.
— Não estou com fome, mas gostaria de lhe pedir uma coisa. Duas na verdade. — se corrigiu.
— Peça. Se eu puder fazer…
— Um banho quente. — pediu desconfortável – Essa história toda eu… — ela comprimiu os lábios – Preciso de um banho.
Vivithi não precisou dizer com palavras para que Aethas entendesse como ela se sentia. Suja. Impura. Maculada.
— Claro. Vou preparar um banho para você. E o que mais?
— Você tem narguilé? — quis saber – E cristais de mana?
Banho quente e narguilé. Vivithi queria se sentir limpa e arejar a mente para lidar com todas as lembranças que desencavara durante a noite.
— Tenho sim. Posso prepará-lo enquanto você toma banho. — e depois insistiu – Tem certeza que não quer comer algo?
— Tenho.
E isso encerrou a conversa. Aethas encheu sua banheira com água morna e várias loções de banho perfumada, deixou uma toalha e um robe limpo para ela e saiu. Enquanto ele preparava o narguilé, a elfa se despiu e entrou na banheira com água morna, sentindo como se submergisse em uma bolha cálida de proteção. Por um momento achou que finalmente choraria, mas não o fez. Ficou encarando seu reflexo na água pensando em como tudo dera errado na noite anterior.
Seu tio estava certo desde o começo. Vir até Dalaran tinha sido um grande erro. Esperava achar Aethas sensibilizado com a solidão, carente depois dos meses sem vê-la e desesperado por tocá-la e possuí-la. Porém, ele não era apenas mais um elfo bobo apaixonado. Aethas tinha orgulho. Quando se recusara a se subjugar até ter sua resposta, destroçara os planos de Vivithi e a fez relembrar quando ela própria dissera um não pela primeira vez. Não fora sua reação ao não de Aethas um reflexo da reação da pessoa que recebera seu não? Talvez… Vivithi desejava que nunca tivesse repetido o comportamento que tanto a magoara, mas parecia que tudo aquilo estava mais entranhado nela do que imaginava. Isso apenas reforçava sua decisão de não se deixar levar pelos sentimentos de Aethas. O que faria então? Sufocaria seu desejo por ele? Correria novamente atrás de outros amantes para achar o que quer que aquele elfo tinha de diferente? Procuraria seus beijos em outras bocas? Ou então simplesmente tentaria…
Não! Nunca! Isso estava fora de questão!
Confusa e tensa, Vivithi mergulhou na água morna como se ela pudesse controlar o turbilhão de seus pensamentos. Depois, passou a se esfregar com vigorosidade, como se quisesse apagar as lembranças da noite anterior. Não queria ter contado a Aethas. Não queria que mais alguém soubesse do quanto fora fraca e covarde um dia. Porém, algo a fizera se abrir com o elfo. Não era justo que ele continuasse cultivando aquela paixão que jamais teria retorno sem saber porque aquele sentimento estava condenado. É verdade que nunca tivera a mesma reação com os outros que se disseram apaixonados por ela, porque, no fundo, ela sabia que não era verdade. Todos os sentimentos que já lhe ofereceram pareciam falsos e provisórios. Os de Aethas não. Pela primeira vez sentiam que lhe era oferecido algo verdadeiro e forte. E isso lhe amedrontava. E lhe amedrontava mais ainda que ela, por um segundo, tivesse considerado a hipótese de aceitá-lo.
Quando sua pele já estava doendo e seus dedos já se enrugavam da água, ela se levantou, tirou rapidamente a espuma com o chuveiro, secou-se com a toalha e vestiu o roupão que ele lhe deu. Ao sair do banheiro já sentia o cheiro da magia arcana pairando sobre a casa e encaminhou-se até sua origem. Era uma sala luxuosa, decorada apenas com almofadas e tapetes com um magnífico narguilé, mais pomposo até mesmo que os da Torre Solfúria. Aethas estava lá, sentado, esperando-a. Havia um pouco mais de vinho e alguns pãezinhos ao lado das piteiras. Ele aparentemente não desistira de fazê-la comer algo e diante desse pensamento, não conseguiu evitar um pequeno sorriso.
Aethas, tal como Vivithi, também mergulhara em seus pensamentos enquanto aprontava a sua sala de Narguilé. Era um local que ele já não usava mais com tanta frequência, pois preferia fazê-lo na companhia de outros elfos e nunca sozinho. Todavia, eram raras as vezes que ele se dignava a chamar alguém para acompanhá-lo. Aquele ritual era algo de tempos passados, quando seu povo estava no auge e ele tinha pessoas que podia chamar de amigos para compartilhar o momento. Mas teriam sido amigos de verdade, ou apenas colegas que, depois de todos os acontecimentos envolvendo os elfos sangrentos, viraram-lhe as costas? Bem, isso não importava. Estava mesmo feliz em poder compartilhar um pouco daquilo com Vivithi.
Enquanto esperava pela volta da elfa, Aethas pensara. Pensara e muito, sobre tudo que ela lhe falara. E pensara mais ainda em como ficaria depois daquilo tudo. Não podia nem queria exigir dela algo que ela não pudesse oferecer. Também não estava disposto a fazer promessas que não poderia cumprir. Da mesma forma, não queria perder aquele sentimento bom que brotara em seu peito pela primeira vez em sua vida. Queria viver aquele sentimento. Todavia, só havia uma forma de fazê-lo de forma que Vivithi não sofresse. Se questionou várias vezes se estava disposto a encarar aquela situação e se suportaria vivê-la, mas todas suas dúvidas sumiram quando a patrulheira entrou na sala, com os cabelos molhados e o corpo nu envolto em seu rode e deu um pequeno sorriso diante do que ele providenciara para os dois.
— Eu disse que não estava com fome. — lembrou ela caminhando até as almofadas e deitando-se.
— Para caso mude de ideia. — justificou sentando-se próximo a ela – Os cristais de mana às vezes abrem o apetite.
— A mim eles saciam. — disse – A propósito, você tem uma bela sala aqui.
— Obrigado. Faz anos que não a uso. — e ele acendeu o narguilé e ofereceu uma piteira a Vivithi, que aceitou.
— Por que não usa? — perguntou curiosa.
— Não tem com quem. — revelou Aethas pegando uma piteira também.
Por um momento Vivithi quisera desmenti-lo, afinal a cidade estava cheia de membros dos Fendessol que, com certeza, não negariam uma rodada de mana, mas então ela entendeu. Aethas não queria partilhar aquele momento com qualquer um. Isso incomodou Vivithi, pois, pela primeira vez, ela percebeu o quão solitário deveria ser a vida de Aethas. Preso a uma cidade por suas responsabilidades, impedido de estar sempre com suas sobrinhas, relegado a seguir ordens e viver por elas. Bem, foi escolha dele, pensou Vivithi. Mas… Teria sido mesmo? Talvez no começo. Antes da traição de Kael’thas. Antes da morte de Samanthah. Antes de suas sobrinhas serem declaradas princesas. E agora, preso àquela vida, Aethas estava sempre sozinho.
Vivithi tragou um pouco do narguilé e deixou a mana tomar conta de seu corpo. A magia encandeceu seus olhos e acalmou sua alma. Ela recostou-se nas almofadas e fechou os olhos, soltando a fumaça verde aos poucos. Seu robe entreabriu e Aethas pode ver com clareza a curva de seus seios e suas longas e torneadas pernas. Desviou a vista e tragou um pouco da mana também. Antes, quando ainda estavam presos ao vício, aquilo dava uma sensação muito mais inebriante e até mesmo dolorosa. Agora, a sensação era menos potente, mas o arquimago preferia assim. A dor da abstinência era horrível e agora os elfos sangrentos podiam aproveitar aqueles momentos apenas por prazer e não por necessidade. Com os nervos acalmando, Aethas também se recostou e fechou os olhos. Dessa forma evitava encarar Vivithi, deixando que ela relaxasse sem que se sentisse pressionada por seu desejo. E teria ficado assim até o fim, se não ela não tivesse o tocado.
A mana pode ter acalmado a alma de Vivithi, mas seu corpo ainda ardia de desejo. Tragou o narguilé mais uma vez e olhou para Aethas. Ele tinha os olhos fechados e a fumaça verde saia lentamente de seus lábios. Uma vontade indescritível de tocá-lo se apossou dela. Estendeu a mão e tocou os cabelos vermelhos dele. Sempre gostara daquela cor. Parecia fogo, sangue, paixão. Correu os dedos pelos fios sedosos até que ele abriu os olhos e a encarou. Seus olhos estavam brilhando intensamente, da mesma forma que os dela. Vivithi levou a piteira a boca e tragou mais mana. Aethas então levou os dedos até o rosto dela e a tocou também. Enquanto percorria a sedosa pele com a ponta de seus dedos ela soltava mais daquela fumaça verde, lentamente. Aethas então se deteve nos lábios dela, sentindo o ar saindo de sua boca e a textura dos mesmos. Pela Nascente do Sol, como queria beijá-la! Vivithi o encarou enquanto ele ainda tocava seus lábios e ela mordeu suavemente a ponta dos dedos dele. Aethas estremeceu. Vivithi então se debruçou delicadamente sobre ele, abrindo seu robe. Aethas pegou a piteira dele e levou até os lábios dela, que puxou a mana para depois soltá-la lentamente no rosto do elfo. Ele fechou os olhos, com um sorriso de prazer no rosto, como se a mana que ela liberava fosse muito melhor do que a que ele inalara.
Lentamente, Vivithi tirou o pijama dele. A fumaça verde da mana tomara de conta do quarto e os dois estavam em outro estágio de consciência, um estágio onde todos os medos e traumas foram esquecidos e só havia os dois. Apenas eles. O resto do mundo fora repentinamente apagado. Vivithi deslizava as mãos pelo corpo de Aethas como se ele fosse a corda de seu arco e precisasse testá-la. Aethas deixou que ela explorasse seu corpo, enquanto tocava seu cabelo com carinho. Ele adorava o contraste do prateado dos fios com os intensos olhos verdes. E quando ela o encarou de novo, desejou que aquele momento não acabasse nunca mais. Vivithi colou seu corpo no dele e finalmente o beijou.
A sensação fora melhor do que qualquer mana para os dois. O beijo não fora como os outros que eles compartilharam. Não fora cheio de fúria, com raiva e apenas tensão sexual. Não. Fora diferente. Calmo, tranquilo, profundo. Nenhum outro beijo, na vida de ambos, teve a mesma intensidade. Aquele simples beijo os saciava mais do que todo o sexo que outras pessoas lhes dera, mas também os fazia querer mais. Aethas passou as mãos pelas costas dela, sentindo a pele marcada em muitos lugares por cicatrizes. Ela enfiou os dedos nos cabelos dele, acariciando-o suavemente sua cabeça. Depois, desceu a boca até o pescoço dele, passando a língua por toda sua extensão e mordendo suavemente sua orelha. Aethas gemeu. Ele então também beijou-lhe o pescoço, enquanto a abraçava com vontade. Vivithi segurou o cabelo dele afastou sua cabeça, oferecendo-lhe os seios em seguida. Aethas passou suavemente os dedos pela auréola rosada, como se tocasse a coisa mais sagrada do mundo, antes de beijá-lo repetidas vezes e então sugá-los. Vivithi gemeu alto. Aethas então segurou-a pela cintura e a fez se deitar ao lado dele. Continuou beijando e sugando seus seios, até que desceu os lábios pela barriga dela, passou a língua em seu baixo-ventre e então abriu delicadamente suas pernas. Beijou o interior de suas coxas repetidas vezes até que finalmente foi até onde queria. Passou a língua por seu sexo delicadamente, ouvindo-a ofegar. Parou por um momento, apenas para sorrir e depois continuou a massageá-la com sua língua. Vivithi gemia e se contorcia de prazer a cada movimento seu, até que ela atingiu o auge rapidamente, tremendo sensualmente. Aethas então voltou a beijá-la. Vivithi o envolveu com suas pernas e o puxou para dentro de si. Ele então a penetrou e ambos sentiram que de repente que aquilo era tão certo que jamais deveria ter se negado aquele prazer. E enquanto ele se remexia dentro dela, devagar, aproveitando cada movimento, Vivithi pegou a piteira novamente. Tragou um pouco e colocou na boca dele, para que Aethas fizesse o mesmo. Depois, os dois soltaram a fumaça lentamente, deixando que o ar exalado por ambos se misturasse e os envolvessem. Em pouco tempo, atingiam o ápice, juntos, olhando um nos olhos do outro e finalmente percebendo que estavam inegável e irremediavelmente unidos por aquele sentimento.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Depois de saciados, Vivithi deitou-se ao lado dele, abraçando-o, ainda com os efeitos da mana sobre sua mente. Em instantes, estava dormindo. Aethas passou o braço em volta dela e a aconchegou em seu peito. Aonde quer que aquilo iria os levar, não importava. Poderia ficar para depois. Tudo que importava era que, naquele momento, estavam juntos. Fechou os olhos e também adormeceu. A noite passada parecia estar a milhões de anos distantes e deixaram se levar pela saciedade e pela fumaça de mana que ainda perfumava o ambiente.
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Ash dormira bem demais para alguém que esperava ansiosamente a manhã seguinte. Talvez tivesse sido o alívio de finalmente falar tudo ou o fato de que decidira que, independente da resposta de Lor’themar, se recusava a continuar sofrendo. Fosse o que fosse, não a impediu de dormir rápida e profundamente, agarrada com Bolota. O problema da jovem elfa, fora a forma com que acordara na manhã seguinte.
Um jato frio e molhado atingiu o rosto de Ash enquanto ela sonhava com Bolota colocando coleiras em humanos antes de trancá-los em uma jaula. Por um momento, sonho e realidade se confundiram, e a elfa gritou, pensando que os humanos tentavam sufocá-la com neve. Gritou algo e se debateu, até ouvir risadas altas e estridentes.
— Karen!!!! — foi seu grito matinal.
A pequena elfa junto com sua amiga orquisa decidiram que seria legal testar o novo brinquedo, uma espingarda de jato de neve e o alvo, claro, era a irmã que ela mais amava e que dormia tranquilamente. As duas desejaram o jato gelado em Ash, que acordou gritando e com muita raiva, antes de pegar um travesseiro e meter nas duas meninas. Karen e Saba gritaram diante do ataque, mas não deixaram de rir. Começaram então a correr, para se livrar dos poderosos golpes de travesseiro de Ash, que borbulhava de raiva e as perseguiu sem piedade, tacando o travesseiro repetidas vezes nas duas encrenqueiras. A perseguição, que começou no quarto, se estendeu pelos corredores e chegou até a sala de refeições, onde as duas irmãos mais velha e os cunhados, assistiram a luta das meninas, lançando jatos de neve em Ash que as açoitava com o travesseiro, enquanto Bolota pulava em volta, animado com a brincadeira nova.
— Meninas? — chamou Kassyeh – Meninas?
— Ei vocês três! — Luxuriah chamou mais alto – Parem com isso!
Só que Karen e Saba continuavam lançando jatos de neve em Ash, que continuava revidando com o travesseiro, agora todo molhado e que ficara mais pesado, tornando seus golpes mais fortes nas suas duas pequenas adversárias. As meninas riam, mas Ash não parecia achar graça nenhuma e nenhuma das três atendera o pedido de Luxuriah.
— Já chega! — gritou a primogênita energicamente.
Ash parou com o travesseiro ainda no ar e as meninas com as pistolas em riste e as três a olharam, como se só então percebessem onde estavam.
— O que diabos vocês estão fazendo? — perguntou Luxuriah irritada.
— Elas quem começaram! — acusou Ash apontando-as.
— Estamos só brincando! — se defendeu Karen.
— Elas me acordaram com água fria na cara! — protestou a jovem caçadora.
— Foi bem engraçado! — disse Saba arrancando mais risos de Karen.
Ash grunhiu e deu outra travesseirada nas meninas, que gritaram e acertaram a elfa novamente com jatos de gelo. Tudo recomeçou de novo por um momento, até que Luxuriah gritou com mais raiva ainda:
— Se continuarem, as três estão de castigo!
Houve um momento de protesto, mas elas logo pararam a briga e as reclamações.
— Subam as três e só voltem aqui quando estiverem secas e prontas para o café da manhã. — ordenou Luxuriah cruzando os braços – Vão logo! E ai de vocês se eu ouvir um grito ou risadinha sequer!
Sem dizer uma palavra, as três subiram. Quando já estavam fora das vistas de Luxuriah, Ash deu uma poderosa travesseirada em Karen e Saba e correu na direção dos quartos. Sufocando o grito, as duas meninas deram mais dois tiros de neve em Ash, que conseguiu se livrar dos ataques a tempo e fechou a porta do quarto. No primeiro momento ela praguejou algo contra aquelas duas pestinhas, mas logo estava rindo enquanto se enxugava e ia se preparar para o café da manhã. Sua cama estava toda molhada e sabia que aquilo ia render pelo menos uma bronca feia para aquelas duas. Sabia que as meninas tinham que se divertir enquanto ainda podiam ficar juntas, mas porque sempre ela era a escolhida para ser a vítima? Bem que podiam ir encher o saco de Tewdric, por exemplo.
Em pouco tempo, Ash já estava seca e pronta para a refeição. Pegou a maçaneta da porta, mas não abriu de imediato. Aquelas duas poderiam aprontar algo. Abriu bem devagar e deu uma olhada no corredor. Nada. Saiu então do quarto, mas logo as meninas estavam ao seu lado, dando risadinhas.
— Vocês duas bem que podiam ir pegar no pé de outras pessoas. — reclamou Ash franzindo a testa – Como Tewdric por exemplo.
— É que eu amo te amo muito e gosto muito de brincar com você! — respondeu Karen com sinceridade.
Ash suspirou. Não conseguia ficar com raiva de sua irmãzinha caçula.
— Certo, certo, mas da próxima vez esperem eu acordar, ok?
— Ok! — responderam Karen e Saba ao mesmo tempo.
— E depois do café, podemos ir brincar na neve. — completou a jovem.
As meninas gritaram animadas e agarraram Ash. A elfa quase caiu, disse uma série de impropérios com as duas, mas ria junto com elas. E quando finalmente chegaram no café da manhã, rindo juntas, Luxuriah ficou satisfeita. Era assim que gostava das coisas.
O café da manhã foi animado, mas logo Ash estava imersa em seus pensamentos. Onde estava Lor’themar? Será que ele ia sumir sem lhe dar nenhuma satisfação? Impossível, ele tinha responsabilidades com Karen e Luaprata, não podia simplesmente sumir. E se, por acaso, aquele elfo velho e cabeça dura decidisse evitá-la, mostraria pra ele que não conseguiria. Ash teria sua resposta naquela manhã, fosse qual fosse, independentemente de ter que perseguir Lor’themar por toda Azeroth.
Depois do café, decidiu deixar aqueles pensamentos guardados enquanto brincava com Saba e Karen. Se era para ficar esperando, que esperasse se divertindo com as meninas. Saba, que nunca brincara na neve, ficara impressionada com a ideia de fazer um boneco com todo aquele gelo. As três foram para a parte de trás da Torre e, com Bolota no encalço, começaram a construir o boneco.
— É tipo construir um castelo na praia. — comparou Saba – Só que a neve é mais durinha e beeem mais fria. — a menina riu.
— Como vamos chamá-lo? — perguntou Karen.
— Podemos dar nome ao boneco? — surpreendeu-se Saba.
— Claro. — disse Ash – Vamos fazer bracinhos, olhinhos e por um cachecol e um gorro nele!
A pequena orquisa ficou maravilhada com a ideia.
Então, elas trabalharam vigorosamente na construção do boneco. No primeiro momento, iam fazer um de tamanho médio, mas Karen insistira para fazer um do tamanho de Ash. Todas concordaram e passaram a trabalhar com mais afinco. Com o boneco pronto, elas colocaram galhos para criar braços, uma cenoura como nariz, duas nozes como olhos e o envolveram com um cachecol. Quando terminaram finalmente o boneco, estavam orgulhosas e felizes.
— Vou chamar ele de Astrogildo! — anunciou Karen em tom pomposo com as duas mãos na cintura.
— OHH!!! — exclamou Saba batendo palmas.
— Astrogildo? — Ash franziu o cenho – Que nome horroroso, Karen!
— Não é não! — discordou a menina – Ele será Astrogildo, primeiro boneco oficial de Luaprata! — e apontou o boneco com autoridade – Será minha primeira ordem como futura rainha!
Ash não segurou a risada.
— Você só poderá dar ordens quando for rainha. — revelou Ash – E mesmo assim, terá que ouvir os conselheiros, eu, Kass e Lux.
— Não estrague o momento Ash! — reclamou Karen.
A jovem riu mais ainda.
— Certo, certo. — ela pigarreou – Eu o saúdo o primeiro boneco oficial de Luaprata, Astrogildo! — e fez uma continência para o boneco.
— Muito melhor! — aplaudiu Karen animada.
— Loktar Ogar, Astrogildo! — cumprimentou Saba entrando no clima.
Bolota deu uma cheirada em Astrogildo e deu um longo uivo, como se cumprimentasse o boneco também. Karen se animou e correu até a torre de onde saiu com um tabardo de Luaprata. Ash não fazia ideia a quem pertencia aquele tabardo, mas imaginava que algum soldado por ai perdera parte de sua farda entregando-a à empolgada futura rainha. Elas então vestiram Astrogildo com o tabardo de Luaprata, e ele ficou ainda mais legal.
— Será que devo arrumar uma arma para ele? — perguntou Karen.
— Acho que o poder de Astrogildo é controlar a neve, Karen. — disse Ash na tentativa de dissuadir a irmã de ir em burca de uma arma. — Ele deve convocar nevascas, como a Kass.
— É mesmo! — concordou a menina com os olhos brilhando.
— Puxa, Astrogildo, você é forte! — exclamou Saba também com os olhos iluminados.
Aquelas duas tinham uma imaginação e tanto, pensou Ash.
As meninas ainda mexeram mais um pouco em Astrogildo, até decidirem que ele tinha que “trabalhar” e ficar como guarda ali no quintal. Ash achou que a brincadeira estava encerrada e chamou Bolota para que pudessem entrar na torre. Só que Saba e Karen ainda tinham muita energia para gastar. E assim que Ash deu as costas, chamando-as para voltar para a sala, foi atingida nas costas por uma bola de neve. Ela se virou, surpresa, apenas para ser atingida no peito por mais uma. Karen e Saba estavam rindo e criando mais bolinhas para lançar na elfa. Ash estreitou os olhos e se abaixou fazendo uma bola rapidamente lançando nas duas. A bola pegou em Karen que, surpresa, caiu sentada para trás. Saba riu da amiga e logo Karen tinha outro alvo. Fez uma bolinha e jogou em Saba. Saba revidou. Logo, as três estavam, cada uma em um forte de neve improvisado, atacando umas as outras com bolinhas de neve, enquanto riam de Bolota, que corria cada vez que uma bola era lançada, caçando-a, só para esquecer dela quando uma nova bola vinha.
Ash decidiu então fazer uma superbola de neve. Juntou bastante neve e colocou na mão, esperando apenas o momento de lançar. Quando as meninas estavam muito distraídas uma com a outra, Ash ajeitou a bola, colocou o braço bem para trás, e a atirou com toda a força. Porém, ela colocou efeito demais na bola e, em vez dela atingir uma das meninas, subiu rapidamente, atingindo alguém que acabava de sair da floresta com um baque alto e surdo. Karen e Saba olharam para trás para ver onde a bola tinha atingido.
— Ash acertou o Temma! — comemorou Karen caindo na risada.
— Bem no meio da cara! — completou Saba acompanhando a amiga na risada.
A jovem ficou sem reação por um momento, ainda na posição em que lançara a bola. Bolota correu em direção a Lor’themar, que agora tirava a neve do rosto e passou a correr em volta do elfo, como se esperasse que ele lançasse uma bola também. Por um momento, Ash sentiu-se tomada pelo pânico: se Lor’themar sempre fizera questão de enfatizar a diferença de idade dos dois, o que diria agora vendo-a brincar como uma criança na neve? Porém, sua raiva logo fez esse medo esvanecer. Ele sabia quem ela era, que sempre brincava com a irmã. Se considerasse isso uma infantilidade, problema dele.
— Vejo que estão se divertindo. — disse o lorde regente enxugando o rosto na manga da camisa.
— Muito!!!!! — disse Karen animada.
— Estamos fazendo guerra de neve! — falou Saba como se isso não fosse óbvio.
— Sua pontaria está excelente, Ash. — disse ele sorrindo.
Ash. Ele a chamara de Ash. Não de Princesa Ashrial. Nem Ashrial. Nem pequena Ash. Apenas Ash. Como todos faziam. Sem saber porque, aquilo lhe deu uma esperança arrebatadora.
— Temma! Temma! — Karen se levantou e se espendurou na roupa do elfo – Venha conhecer Astrogildo!
Karen praticamente arrastou Lor’themar até onde estava o boneco de neve com o tabardo de Luaprata. Se o elfo achou aquilo esquisito ou inútil, não deu a perceber. A futura rainha então anunciou pomposamente apontando para o boneco:
— Esse é Astrogildo, primeiro boneco oficial da Futura Rainha Karensky Fendessol! — e olhou com ansiedade para Lor’themar.
O elfo ficou sem saber o que fazer até que Ash lhe sussurrou:
— Saúde o boneco!
Lor’themar pigarreou e então fez uma continência ao boneco.
— Selama ashal'anore, Astrogildo de Luaprata! — disse no mesmo tom pomposo usado por Karen.
A menina ficou em êxtase e abraçou o elfo com vontade.
— Eu sabia que você ia aceitar o Astrogildo! — comemorou.
Lor’themar a abraçou, rindo com a felicidade tão inocente da menina.
— Vamos brincar de guerra de neve? — convidou Karen depois que o soltou.
Em outra ocasião, o lorde regente não se importaria em se juntar a uma inocente brincadeira com as meninas. Porém, vendo Ash tão perto, percebeu que não suportaria mais adiar aquela conversa. Abaixou-se até a altura de Karen e Saba e então falou:
— Adoraria brincar com vocês, meninas, mas eu e Ash já havíamos combinado um passeio para essa manhã, não é mesmo, Ash?
Confusa, Ash procurou na memória se tinha combinado algo com ele, até perceber que Lor’themar estava justificando sua ausência na brincadeira e também a dela. Por que, finalmente, conversariam. Seu coração se acelerou.
— F-foi… — gaguejou um pouco.
Bolota, sentindo a tensão repentina de sua dona, começou a rosnar na direção de Lor’themar e se aproximar com os dentes a mostrar.
— Bolota, não! — gritou Ash segurando o lobo pela coleira.
— Viu, o Bolota quer que vocês brinquem também, e até ficou com raiva porque vocês vão passear! — reclamou a futura rainha.
— Voltaremos logo. — garantiu Lor’themar colocando a mão no ombro da menina – E quando voltarmos, podemos fazer uma boneca de neve, namorada para Astrogildo, o que acha?
Os olhos de Saba e Karen brilharam e elas colocaram as mãozinhas no rosto, como se a sugestão fosse a coisa mais maravilhosa do mundo. E, para elas, talvez fosse mesmo.
— Uma namorada pra Astrogildo! — disse Karen encantada – Como não pensei nisso?!
— Podemos chamá-la de Astrogilda! — sugeriu Saba.
— Perfeito! — concordou a pequena elfa.
Lor’themar riu, satisfeito consigo mesmo.
— Então, nos esperem, certo? Nada de criarem a Astrogilda sem nós! — avisou com um sorriso no rosto.
As meninas concordaram animadamente e logo estavam empurrando tanto Lor’themar quando Ash na direção do bosque.
— Vão logo! — reclamava Karen – Quanto mais rápido forem, mas rápido voltam!
— Vão, vão! — concordava Saba.
Sem conseguir se conter, Ash caiu na risada. Bolota então se acalmou e a jovem achou por bem deixá-lo com as meninas. Se a conversa com Lor’themar fosse tensa, não queria seu lobo tentando rasgar a garganta dele. Talvez até quisesse, mas isso poderia esperar para depois de ele ajudar sua irmãzinha a construir Astrogilda.
— Bolota, fique. — ordenou com ênfase ao lobo – Cuide de Karen e Saba.
O lobo uivou em concordância e sentou-se do lado das meninas. Ash se despediu delas e então foi para o lado de Lor’themar. Seu coração estava aos pulos.
— Vamos? — perguntou o elfo sorridente lhe oferecendo o braço.
— Vamos. — concordou a jovem elfa.
E em pouco tempo eles dois sumiam bosque adentro enquanto Karen e Saba decidiram pegar mais alguns tabardos com os guardas da torre com a ideia de agora construir um exército de Astrogildos quando aqueles dois voltassem.
***********************
A iluminação do globo de luz em sua mão não dava muita visibilidade do caminho, mas era suficiente para que caminhasse em segurança. Com uma pesada capa ao redor de seu corpo, Arshe descia as escadas da Bastilha em direção ao porão, vendo sua respiração se condensar a sua frente. Claro, ela poderia ter pedido para qualquer outra pessoa fazer aquilo para ela, mas sabia que era sua obrigação depois de tantos anos ir em busca daquele baú.
O baú de seu pai.
Havia uma porta no final da escadaria e Arshe colocou uma grande chave de ferro na fechadura e a girou com dificuldade. A porta demorou um pouco a abrir, mas logo a princesa adentrara na sala. Era mais escuro e frio que a escadaria e Arshe se concentrou, aumentando a luminosidade de seu globo de luz. Não demorou muito e viu o imenso baú de ferro que estava no canto da sala. Caminhou até lá, conjurou uma magia e o baú passou a flutuar. Assim, sem muita dificuldade, voltou seu caminho, com o imenso baú a seguindo até chegar em seu quarto. Trancou a porta, tirou a pesada capa e depositou o baú no meio do cômodo.
Quando seu pai morrera, Arshe herdou tudo que lhe pertencia, mas a princesa nunca se importou com as propriedades e o dinheiro. O que sempre vinha a sua mente era sobre as coisas que seu pai guardava naquele baú, que evitara olhar por todos aqueles anos. Sabia que ia sofrer, que ia chorar, mas agora achava que estava pronta para isso. Pegou a chave que estava guardada em seu porta-joias e se aproximou do baú. Ali eram onde estavam os bens mais pessoais de Bolvar Fordragon, bens esses que, pelo testamento, apenas sua filha teria acesso. Arshe respirou fundo, pôs a chave no cadeado e o abriu.
Sua decisão de fazer aquilo fora repentina. Arshe acordara cedo naquela manhã com essa ideia na cabeça, ciente que era um passo importante em sua recuperação pela perda do pai. Até então, evitara aquelas lembranças, pois sabia que a morte de Bolvar lhe pareceria muito mais vívida e definitiva se olhasse aquele baú, mas já era hora de fazê-lo.
O baú era imenso, mas não estava totalmente cheio. Sentou-se no chão e então o analisou. A primeira coisa que atraiu a atenção de Arshe foi uma boneca de pano velha e desgastada, da qual ela lembrava muito bem. Adeline, sua primeira boneca. Pegou com carinho o brinquedo, que aquela altura já estava amarelado pelo tempo, e viu que faltava um olho dela. Lembrava-se do motivo, o olho havia caído durante uma viagem que fizeram juntos e Arshe chorara por dias. Bolvar prometeu lhe comprar uma boneca nova, mas ela se recusava a deixar Adeline. Então, o próprio Grão-lorde costurara um novo olho para a boneca, que depois caíra também. Arshe decidiu então que não se importava e manteve Adeline. A boneca só se separou dela quando Arshe fora estudar em Dalaran. Depois disso, não a vira mais. Então, Bolvar a guardara. Arshe abraçou a boneca com força, sentindo seus olhos se encherem de lágrimas. É, começara a chorar antes do esperado.
— Olá, Adeline. — disse acariciando a boneca – Há quanto tempo hein?
Arshe a analisou e percebeu que apenas uma boa lavagem e Adeline estaria novinha em folha. A pôs no colo com carinho e voltou sua atenção novamente ao baú. Havia uma pequena caixinha dourada no canto e a pegou. Quando abriu, franziu a testa com estranheza. Eram dentes de criança.
— Sério pai? — disse em voz alta – Guardou todos meus dentes de leite?
Virou a caixa pra ver o fundo e lá, esculpido no metal, estavam as datas da queda de todos os dentes guardados ali. Balançou a cabeça em negativa, mas sorria. Foi para a próxima coisa. Havia uma bolsinha de tecido que já tinha sido branca um dia, mas agora estava amarelada. Arshe a abriu e viu flores ressequidas amarradas a uma fita dourada. Soube o que era na mesma hora.
— O buquê de casamento da mamãe… — ela tocou nas flores com carinho – Ah, pai…
O casamento de Bolvar Fordragon com Melinda Warren estava envolto em comentários, a maioria bem maldosos. Arshe sabia que seus pais eram prometidos desde a infância, mas, ao contrário da maioria dos casamentos arranjados, eles eram muito apaixonados um pelo outro. Seu pai lhe contara que, desde que entrara na adolescência, vinha esperando seu casamento. Quando os dois fizeram quinze anos, passaram a cobrar dos pais o casamento o mais rápido possível. De acordo com Bolvar, eles tinham medo que um ou outro morressem nos conflitos com os invasores orcs. Os pais, contudo, queria esperar mais. Porém, depois de um verão que passaram juntos, os pais de ambos repentinamente aceitaram o casamento que foi realizado poucos dias depois. Meses mais tarde, Arshe nascia e sua mãe morria. Muitos diziam que, para apressar seu casamento, os jovens decidiram que Melinda ficaria grávida e que só por isso a permissão seria dada. Arshe se perguntava era verdade aquilo. Se fosse, será que seu pai se arrependia daquela decisão? Afinal, fora o parto que matara o amor de sua vida. Será que, em algum momento, ele a culpara?
Deixou o buquê de lado e pegou um pequeno retrato pintado a óleo. Era sua mãe. Na imagem, ela sorria e estava grávida. Arshe nunca vira uma pintura de sua mãe grávida. As que tinha era de sua infância e a do casamento dos pais. A princesa olhou para a figura e pode ver, através da tinta e do tempo, que sua mãe estava realmente feliz. Segurou com firmeza o quadro, as suas lágrimas caindo bem no rosto de sua mãe e pensou que, se fosse verdade os boatos de sua origem, Melinda arriscara tudo. Arriscara sua reputação, o amor de seus pais, apenas para ficar com seu amado. Limpou com delicadeza as lágrimas da tela e falou:
— Ah, mãe… Somos tão parecidas não? Agindo sem pensar nas consequências… Pelo menos você conseguiu ficar com o papai… E eu… — ela se calou e deixou o quadro de lado. Não era hora de pensar em Kayliel.
Como Arshe suspeitara, a maioria das coisas ali eram lembranças dela e de sua mãe. O vestido de apresentação à Luz de Arshe estava lá, bem como um tufo de cabelo seu, dentro de um cilindro dourado. O convite de casamento de seus pais, uma cópia dos proclamas e até mesmo o cardápio do que fora servido na festa. Se sua mãe não tivesse sido enterrada com seu vestido de noiva, provavelmente ele estaria lá também. Arshe foi tirando coisa por coisa, seus olhos sempre marejados, imersa em todo o passado de seu pai. Conseguia ver perfeitamente Bolvar, anos após ano, guardando suas memórias ali, talvez revivendo todas elas a cada novo acréscimo. Teria ele chorado cada vez que abrira o baú? Era possível. O Grão-lorde não era um homem frio e sem sentimentos. Apesar da postura firme, seu coração era bom e sensível.
Arshe também achara suas próprias cartas, mandadas ao pai durante o tempo em que ficara em Dalaran. A maioria dos alunos da cidade flutuante passava o ano todo lá, mas Arshe sempre procurava uma desculpa para ver o pai. Feriados, aniversários, ou simplesmente quando estava com saudades. E quando estava longe, escrevia enxurradas de cartas. Vendo agora os bolos de papel cuidadosamente amarrados, percebeu que talvez toda aquela sua carência fosse um pouco exagerada e até custasse a Bolvar ter que parar o que estava fazendo para respondê-la. Ainda assim, nenhuma carta sua ficara sem resposta. Nunca.
Colocou o bolo de cartas do lado e continuou sua busca. Muitas lágrimas e tempo depois, o baú estava vazio. Arshe olhou para o fundo de madeira e respirou fundo. Era injusto que um homem tão maravilhoso quanto seu pai estivesse agora resumido a um baú cheio de coisas velhas. O que ele fizera para merecer aquela morte horrível que tivera? Arshe sentia falta dele todos os dias, todos os momentos e se culpava pelo fato de que, enquanto seu pai morria, ela estava pensando em se encontrar com Kayliel. E durante eu luto, sofria por Bolvar e sofria pelo elfo também. Que tipo de filha ela fora afinal? Uma filha terrível, sua mente respondeu. Com raiva, socou o baú, apenas para grunhir de dor e se encolher. Limpou as lágrimas e já ia começar a colocar tudo de volta quando viu que seu soco afastava um pouco das tábuas. Curiosa, ela colocou o dedo lá e afastou a tábua. Era um fundo falso. Com uma exclamação de espanto, Arshe puxou a madeira, que cedeu com facilidade. E lá, no fundo do baú, vários cadernos foram colocados, um ao lado do outro. Arshe pegou um deles e abriu. Tinha o nome de seu pai e uma data. Era um diário.
Arshe encontrara os diários de seu pai.
Com cuidado, ela tirou um por um do baú. Depois, recolocou todas as coisas que havia tirado, com exceção de Adeline, o retrato de sua mãe e os diários. Trancou novamente o baú e se levantou. Suas pernas doíam. Pegou os diários e levou até sua mesa. Por um momento ficou encarando-os, decidindo se deveria lê-los ou não. Afinal, eram os segredos de seu pai. Deveria respeitar a privacidade dele. Mas Bolvar os deixara para ela, certo? Afinal, em seu testamento ele especificava que só quem poderia abrir o baú era Arshe. Então porque escondeu os diários em um fundo falso? Bem, ele sabia que, curiosa como era, sua filha remexeria no baú até que, em algum momento, encontraria os cadernos. Talvez a proteção não fosse para ela, mas para o caso de alguém mais pôr as mãos naquilo. Bem, nunca saberia. A questão agora era: ela leria os diários? Arriscaria saber os pensamentos mais profundos de seu pai? E se descobrisse algo que não gostasse? Só havia uma forma de saber: lendo.
A primeira coisa que decidiu fazer foi colocá-los em ordem cronológica. Empilhou os diários, seis no total, por data e pegou o do topo e abriu. A primeira página datava de exatos vinte e três anos atrás. O coração de Arshe acelerou. Seu pai começara a escrever quando ela nascera. Por qual motivo? Embaixo da data, reconheceu a letra de seu pai.
“Hoje faz sete dias que Melinda morreu.”
Era assim que começava as memórias de seu pai? Com a morte da esposa? Arshe fechou o diário por um momento, sem saber se seria capaz de continuar. Respirou fundo e abriu de novo.
“Uma página.”, pensou. “Lerei uma página e decidirei se devo continuar ou não.”, decidiu.
“Hoje faz sete dias que Melinda morreu. Houve uma cerimônia na capela e minha mãe a presidiu. Eu preferia não ter ido. Não importa o que digam ou façam, nada vai trazer Melinda de volta. Além do mais, o templo estava quente e sei que isso incomodou Arshe. Ela não parava de se remexer em meus braços. A mãe de Melinda se ofereceu para dar uma volta com ela, mas recusei. Eu sei que, no momento em que ela tirasse minha filha dos meus braços, eu desabaria. Não aguentaria aquilo tudo se não pudesse olhar para Arshe e ver que meu amor e o de Melinda não morreu, apenas assumiu outra forma. Passei a maior parte da cerimônia olhando o bebezinho em meus braços e prometi a mim mesmo e a Melinda, que nunca deixaria ninguém a machucar. Nunca.”
Arshe limpou o rosto mais uma vez. Seria um desafio e tanto ler tudo aquilo. Em breve ficaria constipada de tanto chorar. Porém, não se importou. Seu pai falava com ela através do diário e ela queria ouvir o que ele tinha a dizer. Continuou.
“Depois da cerimônia, fomos para casa. Papai está tentando arrumar uma ama de leite para Arshe, mas parece que nenhuma mulher dessa região teve filho nessa época. Apesar de saber que é melhor para Arshe mamar em uma mulher, admito que prefiro eu mesmo dar a mamadeira a ela. Sei que ninguém, além de mim, vai ter o mesmo cuidado. Minha mãe tentou conversar comigo de novo, sobre a morte de Melinda, mas eu a ignorei. O que ela pode dizer que vai mudar o que sinto? Que não foi minha culpa? Que mulheres morrem todos os dias no parto? Que Melinda era jovem demais para engravidar? Que a culpa era minha por tê-la convencido a embarcar nessa loucura? Eu não preciso que ninguém me diga isso, porque já ouço minha mente martelar essas palavras todos os dias, todas as horas, todos os minutos. Apenas quando estou com minha filhinha eu me acalmo. Por isso ela me deu esse caderno. Acha que devo me expressar de alguma forma. Até que não é ruim, posso escrever enquanto Arshe dorme e fico olhando o rostinho dela. O pai de Melinda disse que Arshe é muito parecida com a mãe quando bebê. Eu não vi Melinda Bebê, mas basta olhar para ela para saber que será a cara da mãe. Isso me deixa muito feliz. Eu sou feio pra burro.”
E assim terminava o primeiro relato de Bolvar. Arshe não conseguiu segurar o riso. Seu pai sempre dizia isso. Sou feio pra burro. E não era, claro, era o homem mais lindo de Azeroth, mas ninguém conseguia o convencer a isso. Com um sorriso triste, Arshe passou os dedos no papel. Seu pai não a culpava pela morte de sua mãe. Culpava a si próprio. Bolvar começara a escrever porque não queria falar com ninguém. Talvez nem pudesse. Todos sempre disseram que ele era um homem reservado, cuja maior amizade estava no rei Varian. Se Arshe bem lembrava, Varian era um menino ainda naqueles dias e dificilmente entenderia a situação do seu pai. Porém, seu pai era um menino ainda também. Quando Arshe nasceu, ele tinha dezesseis anos. Como era ser tão jovem e ter a vida afetada daquela forma? Bem, só havia uma forma de saber. Arshe passou para a página seguinte e se surpreendeu.
“Eles querem tirar Arshe de mim! Como pode meus pais concordarem com isso?! Os pais de Melinda estão usando o argumento da ama de leite, mas sei que não é nada disso. Eles me culpam pela morte dela e querem tirar minha filha de mim como castigo! Não vou permitir isso nunca! Papai disse que era o melhor, que eu poderia me dedicar totalmente aos treinos, que não teria esse fardo sobre mim. Gritei com ele. Disse que Arshe não era um fardo, era minha filha. E era minha responsabilidade também. Melinda jamais me perdoaria se eu permitisse tal coisa. Me recusei terminantemente. Se querem tanto que essa mulher que eles arrumaram seja a ama de leite de Arshe, quem a mandem para cá. Posso até permitir isso, pelo bem da minha filha, mas será sob meus olhos e minha vigia. E se por acaso tentarem algo para levar meu bebê de mim, se preparem, pois sou capaz de recorrer ao rei Terenas e fazer valer meu direito de pai!”
Nunca ninguém dissera que aquilo acontecera. Arshe sabia que seus avós maternos não tinham se dado muito bem com seu pai, mas sempre achou que foi pelo fato da morte precoce da filha. Arshe conhecera muito pouco seus avós e eles morreram na invasão de Arthas a Lordaeron. A família de sua mãe pertencia àquela terra. O que teria acontecido se Arshe tivesse sido dada aos avós? Teria perecido também diante do Flagelo? Estremeceu só de pensar. Mas ficou feliz em ver que seu pai poderia ter escolhido um caminho mais fácil, mas não o fizera. Continuou.
“Hoje foi a primeira vez que eu e o príncipe Varian treinamos. Ele é muito bom. No começo, estranhou que a ama de Arshe estivesse sempre por perto, mas depois eu expliquei que eu preferia assim, pois sabia onde estava minha filha. Ele me olhou como se eu dissesse o maior dos absurdos e disse que aquele não era um lugar para bebês. Argumentei que ele saberia do que eu estava falando quando tivesse filhos. Ele deu de ombros, mas não disse mais nada. Acho que ele pensava que Arshe começaria logo a chorar e atrapalharia o treino, mas minha filha é um anjo e nunca atrapalhou. Terminamos todo o treino e nenhum choro. Assim que embainhei minha espada fui ver como ela estava. Arshe riu para mim e eu a peguei. Perguntei ao príncipe Varian se queria tentar segurá-la mas ele disse que não. Então, Arshe riu para ele e foi a coisa mais fofa do mundo. Acho que isso amoleceu o príncipe, pois logo depois disse que poderia tentar e ensinei a ele como pegar um bebê. Arshe riu mais e acho que ela gostou dele.”
A risada foi inevitável. Então, Varian não resistia aos seus apelos nem quando ela era bebê! Bem, pelas pinturas dava para ver que Arshe tinha sido um bebê extremamente fofo, então não poderia culpá-lo por isso. E quem diria, o hoje tão protetor com o filho rei Varian, quando criança achava aquilo um absurdo. As coisas mudavam mesmo com o tempo.
A medida que ia lendo, Arshe percebeu que seu pai falava cada vez menos de sua mãe e que a maior parte de seus relatos eram relacionados a ela. Talvez a dor dele estivesse se curando aos poucos. Ou, o grão-lorde, que na época era apenas um jovem lorde, tenha se refugiado na filha para esconder a dor. Fosse qual fosse o motivo, era ótimo ler os relatos de seu pai. Apesar de saber que, à época de sua infância fora uma época turbulenta para os humanos, para Arshe foi como se seu pai criasse um mundo a parte apenas dos dois. Ele quase não falava nada sobre conflitos ou outras coisas.
“Finalmente Arshe desmamou e está comendo de tudo. Não dispensei a mama de leite porque sei que ela gosta muito de Arshe e precisa do dinheiro que lhe pago, então decidi deixá-la como babá. Se bem que, quando não estou treinando, estou com minha filha, então acho que é um dinheiro fácil de se ganhar. Hoje, Arshe experimentou purê de cenoura. Ela cuspiu tudo para fora no começo, mas depois da terceira colherada, comeu. Fiquei todo sujo de cenoura, mas ri um bocado. Acho que amanhã vou tentar mais saboroso para o meu bebê, nem mesmo eu gosto de cenouras.”
Seu pai odiava cenouras, lembrou Arshe. Será por causa de suas cuspidas? Riu consigo mesma. Ela também não gostava.
“Os dentes de Arshe estão nascendo e ela não para de chorar. Dispensei hoje o príncipe Varian e passei o dia com minha filhinha. Ela teve febre e eu quase enlouqueci. Minha mãe disse que era normal, que eu tive quase a mesma coisa, mas isso não me acalmou. Ela então deu um chá de ervas para Arshe que a deixou sonolenta e a febre baixou. Ainda assim, estou aqui acordado, indo a todo momento no berço ver se ela está respirando. Percebi que ela pôs a mãozinha na boca e fica mordendo. Acho que as gengivas estão coçando. Amanhã vou deixar ela morder meus dedos, talvez isso a acalme. Espero que esses dentes saiam logo.”
Entretida na leitura, Arshe deu um pulo quando ouviu uma batida na porta. Fechou rapidamente o diário, com o coração disparado.
— Quem é? — perguntou.
— Vossa alteza, sou eu. — era uma das moças que a servia – O rei Varian está lhe chamando para o almoço.
Almoço? Já? Arshe não vira o tempo passar.
— Diga a ele que já estou indo. — respondeu.
Depois disso, pegou todos os diários e trancou no baú de novo. Usou sua magia para colocá-lo junto às suas coisas e o cobriu com um cobertor. Olhou para seu vestido e viu que estava todo sujo de poeira. Trocou de roupa o mais rápido que pode e logo estava a caminho do almoço. Esperava que Anduin não se importasse se ela saísse logo depois de comer. Queria voltar aos pensamentos de seu pai o mais rápido possível.
Caminhou até o salão de refeições e viu que todos já a esperavam. Se fosse apenas Anduin e Varian ela não ficaria tão preocupada, mas a rainha Mia e a princesa Tess estavam lá também. Ficou um pouco envergonhada e fez uma breve reverência.
— Desculpem-me o atraso. — pediu com delicadeza.
— Soube que você pegou o baú de Bolvar. — disse Varian – Está tudo bem?
Seu tio estava visivelmente preocupado. Com certeza ele sabia o quanto aquelas memórias a atingiriam. Ou talvez estivesse apenas vendo seu nariz e olhos vermelhos.
— Tudo bem, só estou emocionada. — explicou.
— Já terminou de ver tudo? — quis saber Anduin.
— Ainda não. — respondeu pensando nos diários.
— Bem, vamos sentar e comer? — sugeriu o rei.
A sugestão foi aceita e todos sentaram. Só então que Arshe percebeu que Genn Greymane não estava a mesa. Sem saber porque, aquilo acendeu um alerta em sua mente. Onde estaria o rei metamorfo? Ele nunca perdia uma refeição, principalmente com sua esposa e filha presentes. Como Lina havia pedido para ficar de olho nele, era bom saber por onde ele andava. Discretamente, claro.
— Rainha Mia, vossa majestade está gostando de Ventobravo? — perguntou singelamente.
A senhora sorriu para ela e assentiu:
— Uma cidade linda e calma, tem me feito muito bem. — respondeu – Também amei Darnassus, mas aqui me sinto um pouco mais perto de casa.
— Logo estaremos em casa, mamãe. — disse Tess com firmeza – Tão logo a Aliança nos ajude a recuperarmos Guilneas. — e olhou sugestivamente para Varian.
— Em breve, princesa Tess, em breve. — disse Varian polido – Enquanto isso, aproveitem o feriado e a tranquilidade.
Tess o olhou brevemente com incredulidade, mas nada falou. Não havia dúvidas que a jovem compartilhava muito mais os pensamentos do pai que os da sua mãe.
— Vejo que o rei Greymane não está conosco. — comentou Arshe com simplicidade – Algum problema? Ele está se sentindo bem?
A expressão da rainha Mia entristeceu-se um pouco.
— Ele sonhou com Liam ontem. — falou baixando a vista – E decidiu sair um pouco para arejar a cabeça. — ela suspirou – Genn fica muito comovido quando se trata de nosso filho.
— Sinto muito. — disse Arshe em tom de desculpas.
E ela sentia mesmo. Liam era uma boa pessoa, não merecia o fim que teve. Podia ter sido relapso quanto a Doroteya e Theo, mas Arshe sabia que as pessoas boas às vezes faziam coisas estúpidas apenas por serem boas demais. Era o caso do príncipe.
— Tudo bem querida. — a rainha sorriu para ela – Genn é assim mesmo. Acredito que esteja de volta mais tarde.
E assim o assunto foi deixado de lado. Ainda assim, Arshe decidiu que faria uma breve visita mais tarde a Doroteya, apenas para ter certeza que estava tudo bem. Duvidava que houvesse problema, pois a druidesa afirmara que passaria o dia em casa com Theo, mas Arshe preferia ter certeza. Cuidado nunca era demais.
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Theo detestava multidões. O barulho das pessoas falando ao mesmo tempo, seus passos no chão, a sujeira que deixavam quando passavam, tudo aquilo e muito mais o deixava nervoso. Naquela manhã de Véu de Inverno não foi diferente: quando o número de pessoas começou a aumentar, a patinação perdera a graça. Ficou muito feliz que Olívia tivesse chamado-o para sair, pois ela conhecia o lugar muito bem e poderiam fugir um pouco da aglomeração. Ficou mais feliz ainda por sua mãe ter deixado e a seguiu.
Apesar de só ter sete anos, Theo tinha consciência da sua situação e a da sua mãe. Doroteya nunca escondera do menino sua condição de filho de um príncipe e o porquê dos dois não morarem com seu pai. Seu avô tinha problemas por sua mãe ser camponesa e não a aceitava. Todavia, para menino, aquilo não fazia sentido. Porque ser um camponês não era bom? O rei dependia deles para plantar e colher, certo? Então o que fazia um rei ou um príncipe ser melhor que eles? Ele era filho de um príncipe e não se sentia melhor que ninguém. E como alguém poderia achar que sua mãe não era boa o suficiente? Ela era a melhor mãe do mundo. A mais linda, a mais gentil e a que cozinhava melhor! Ele podia não conhecer as outras mães do mundo, mas tinha a absoluta certeza que a sua era a melhor.
Com relação a seu pai, Theo tinha sentimentos conflituosos. Quando via sua mãe chorar, tinha raiva dele. Só que ai ele chegava e sua mãe ficava feliz. Então ele também ficava. Seu pai era muito legal, mas tinha umas manias muito estranhas. Como usar talher pra comer tudo, até pão. Theo achava que o pão sempre ficava melhor comendo com a mão, mas quando seu pai estava em casa, tinha comer de talher. E ele sempre falava de tudo que Theo teria quando fosse pra Guilneas. Ora, Theo achava que já tinha tudo. A mãe, uma casa e a floresta toda pra brincar, o que mais poderia querer? A única coisa que faltava, de verdade, era ter seu pai ali o tempo todo. Quando disse isso uma vez, seu pai alisara sua cabeça e disse que um dia Theo entenderia. Esse dia ainda não tinha chegado, mas o menino continuava esperando. E ainda que houvesse essa pendência entre os dois, seu pai estava sempre disposto a lhe ensinar muitas coisas e Theo era ansioso para aprender. E quando Liam ia embora, Theo sempre ficava sonhando que, da próxima vez que ele viesse, ficaria de vez. Esse sempre fora o sonho do menino: não ir para Guilneas, mas que seu pai ficasse. A cidade não interessava ao menino, era feliz ali. Era o suficiente.
Ir para Darnassus foi difícil. Não queria deixar sua casa na floresta nem sua mãe. Sua tia Rosa lhe explicara que sua mãe ficara doente, mas já tava boa, só que agora teriam que fugir, pois os mortos-vivos estavam por ali. Só depois Doroteya se reuniria com eles. No começo ele estranhou, pois tia Rosa era morta-viva e ela era boa, então ela lhe explicara que eram mortos-vivos maus. E então fugiram. Depois disso, quando chegaram lá, esperaram sua mãe chegar e depois ela teve que ir de novo. Ia cumprir algo que prometera ao pai. Tinha que cuidar do avô dele. Theo entendeu menos ainda. Se o avô não gostada de sua mãe, porque sua mãe se preocupava com ele? Tia Rosa dissera que era porque sua mãe era boa. Isso Theo entendeu. Seu avô podia não ser bom, mas sua mãe era e isso era o suficiente. Ele tinha que ser bom também.
Agora, em Ventobravo, Theo já estava mais conformado que não voltariam para a casa na floresta. Ele se perguntava o que os mortos-vivos fariam com os brinquedos dele. Não pode levar nenhum, nem suas roupas, nem a comida…. O menino ainda chorava pensando na casinha onde ele a mãe plantaram lírios que nem viram abrir… Mas agora quase não chorava mais. Gostava da casa da tia Lina, dos tios Fey e Mel e gostava especialmente de Tommy. Não sabia bem porquê, mas se sentia protegido e seguro com o engenheiro. Era como estar com seu pai, só que melhor, porque Tommy comia pão com a mão e deixava ele fazer o mesmo. Gostava do que estava aprendendo com ele e gostava da forma como a mãe sempre sorria quando estava perto de Tommy. Se Theo pudesse escolher um segundo pai, com certeza seria ele. E nem precisava morar na floresta, ali estava bom. Ventobravo era legal. Só precisava de mais árvores.
E agora, caminhando com Olívia, Theo percebeu que Ventobravo não precisava de mais árvores, o problema era a distribuição. Onde estavam, tinha muitas. Lá na casa de tia Lina, tinha menos. Se conseguissem replantar o pinheiro do Véu de Inverno, teria uma árvore a mais na rua e isso deixava o menino feliz.
— Para onde estamos indo, Olívia? — quis saber depois que se afastaram das pessoas.
— Ali. — disse e apontou para cima.
Havia uma elevação próximo a entrada do lago e foi para lá que as crianças andaram. Com as botas prontas para andar na neve, Theo não teve dificuldades de acompanhar Olivia, mas a menina era bem mais ágil que ele, apesar de não usar botas, só seus cascos. Ela saltitava caminho acima, parava e esperava por ele, e saltitava mais. Não demoraram muito e chegaram a um lago menor, que ficava acima do lago grande lá embaixo. Theo olhou para cima e viu que a água caia de um terceiro lago, mais acima ainda. Se ele focasse bem a vista, poderia ver guardas pequeninos lá em cima.
— Ali fica a bastilha? — perguntou.
— É. — respondeu Olívia – O lago de lá é grandão e cai aqui. — ela apontou para onde estavam – E depois cai ali – e apontou para baixo, onde as pessoas patinavam.
Tanto aquele pequeno lago quanto as cachoeiras estavam congeladas, porém não havia ninguém patinando ali. Theo estranhou, mas achou melhor assim. Estava cheio demais lá embaixo.
— Você sempre vem aqui? — quis saber ele – E é sempre tranquilo assim?
— É sim. — respondeu a menina – As pessoas não costumam vir aqui por causa delas, então sempre venho visitá-las.
— Quem são elas? — quis saber Theo.
Olívia então o chamou até uma árvore. Ela sentou-se e afastou a neve que caíra, revelando duas sepulturas. Havia uma flor congelada em uma e uma boneca cheia de cristais de gelo em outra. Theo se entristeceu.
— É sua família? — perguntou e viu, com surpresa, Olívia negar com a cabeça.
— Elas já tinham morrido quando cheguei aqui. — disse a pequena draeneia – Mas eu soube da história e fiquei triste. Ninguém vem visitar elas há anos, então decidi vir sempre vê-las.
— Você sabe quem são? — quis saber Theo.
Ela assentiu.
— É Olívia e sua mãe.
E então a menina contou a história. Olívia, originalmente, era aquela menina que estava enterrada ali. Em uma noite de verão, ela e a mãe decidiram mergulhar no lago para se refrescar, mas Olívia começou a se afogar. Sua mãe tentou salvá-la, mas acabou se afogando também. Só acharam o corpo das duas no dia seguinte. Ambas foram enterradas ali, juntas, embaixo da árvore e durante muito tempo houve o rumor que os espíritos delas estavam ali. O xamã que acompanhava a pequena draeneia quando chegaram ali, dez anos atrás, ajudou os espíritos a ficarem em paz, e, em homenagem da menina, ela adotara o nome de Olívia e passou a guardar o lago e as sepulturas.
— Você está aqui há dez anos? — o menino estava assombrado – Mas você parece ter minha idade?
— Draeneis envelhecem devagar. — disse a menina sorrindo – Eu sou assim há mais tempo que sua mãe vive.
Theo arregalou os olhos, surpreso e fascinado.
— Como vocês chegaram aqui? — quis saber.
— Navegando pelo céu. — e apontou para cima.
Nos minutos seguintes, Olívia lhe falou da Exodar e de como fugiram da Legião Ardente. Contou como foram para Draenor e que ela lembrava bem daquela terra, que era bem bonito, mas tiveram que fugir de novo porque um demônio chamado Kil’jaden enganara e corromperam os orcs que havia lá. Disse também que seu povo havia chegado a Azeroth há pouco tempo. Theo ficou triste. Tal como ele, Olívia tivera que fugir de sua casa.
— Como é seu nome de verdade? — perguntou o menino.
— Isso não importa. — respondeu a menina – Sou Olívia agora.
Por alguma razão, Theo entendia muito bem o que ela queria dizer.
— Você tem raiva dos orcs? — quis saber – Por terem feito vocês fugirem de draenor?
Para sua surpresa, ela fez que não.
— Os orcs também são vítimas da Legião, como nós. — ela o olhou com tanta profundidade, como se fosse uma adulta e disse com convicção – Todos nós somos vítimas da Legião. O problema, é que as pessoas não querem entender isso. Preferem culpar outros e guerrearem entre si. Eles não entendem que apenas fortalecem a Legião assim.
— Meu pai foi morto pelos mortos-vivos. — revelou o menino – Mas minha mãe disse que não devo guardar rancor. Que isso faria eu ficar tão mal quanto eles.
— Sua mãe tá certa. Os mortos-vivos foram vítimas de Ner’zul, que também foi vítima da Legião. Estamos todos na mesma situação, Theo. Mas ninguém quer ver.
— Eu quero. — disse o menino resoluto – Eu vou crescer e lutar contra essa Legião. Aí você vai voltar para casa e eu também!
A menina sorriu e desejou que aquilo fosse verdade. Apesar de ser criança para sua raça, já vivera bem mais que Theo e sabia que os humanos tendiam a esquecer a pureza da infância. Porém, nunca vira aquele brilho nos olhos de nenhuma criança humana e a esperança se instalou em seu coração. Pegou a mão de Theo e pediu:
— Vamos rezar para a Luz? Para que ela cuide de Olívia, de sua mãe e de nós todos?
— Vamos!
Os dois rezaram sob os túmulos e Theo pediu proteção para todos e que a Luz aliviasse a dor das pessoas que sofriam pelas coisas feitas pela Legião. Depois, ele e Olívia desceram do morro e começaram a voltar para onde sua mãe e Tommy disseram que o esperariam. Quando estavam se aproximando, Olívia perguntou:
— Aquele homem não é seu pai, não é?
Theo fez que não.
— Mas parece. — a menina sorriu e o encarou – Quando vi vocês três juntos, pensei que fosse.
O menino abriu um imenso sorriso.
— Eu queira que fosse. Tipo, um segundo pai. Eu gosto muito dele.
Olívia voltou seus olhos para Doroteya e Tommy, que riam juntos e sorriu.
— Talvez ainda seja. — e diante do olhar confuso de Theo, ela se despediu – Até mais Theo, venha me visitar. — e sapecou um beijo na bochecha do menino, antes de ir embora, saltitando.
Sorrindo, Theo tocou na bochecha e apressou o passo até onde estava Tommy e sua mãe. Os dois riam e comiam algo e Theo ficou muito feliz. Adorava quando sua mãe sorria. Mesmo com a pouca idade que tinha, Theo percebeu que sua mãe estava bem mais feliz em Ventobravo do que era quando morava em Guilneas. Um pouco mais nervosa, talvez pela ausência de árvores, mas mais feliz. E quando viu que ele se aproximava, o sorriso dela aumentou ainda mais.
— Theo! — exclamou estendendo os braços para abraçá-lo – Como foi o passeio?
Theo se deixou aconchegar nos braços da mãe e sentou-se do lado dela. Só percebeu que tava com frio quando sentiu-se aquecido pelo abraço.
— Muito legal. Olívia sabe muita coisa. Posso vir brincar com ela qualquer dia desses? — quis saber.
— Só se eu ou alguém puder trazê-lo. — disse Doroteya – Não quero você andando sozinho pela cidade.
— Ta certo. — disse o menino – O que vocês estão comendo? — quis saber.
— Aqui, prove. — Tommy lhe deu um prato de papel – Antes que sua mãe coma tudo.
Doroteya fez uma careta para Tommy, que apenas riu. Logo, Doroteya estava rindo também. O menino olhou para o prato e viu o que ele achava que era algum legume cortado em palitos com algo vermelho em cima. Ele pegou um e colocou na boca com receio. Deu a primeira mordida e seu olhar brilhou.
— É batata! E que batata boa! — e colocou todo palito na boca.
— É a melhor comida do mundo! — disse Doroteya animada – Eu nunca provei nada tão bom!
— Eu ainda não acredito que vocês dois nunca tinham comido batata frita! — surpreendeu-se Tommy.
— Eu sempre fiz batata assada, mas nunca pensei em fritá-la. — afirmou Doroteya.
— Bem, e se eu disser que sei fazer uma batata melhor do que essa aqui? — questionou o homem provocando a druidesa.
— Eu diria então que você fará o jantar de hoje. — respondeu enfaticamente.
Ambos começaram a rir e Theo olhou de um para o outro enquanto comia. Talvez fosse coisa de sua cabeça, mas Theo começou a questionar a forma com a qual eles se encaravam. Tommy sempre olhava sua mãe como se ela fosse a coisa mais interessante do mundo e Theo concordava perfeitamente com ele. Mas Theo era filho dela. Tommy não. Será que… O coração de Theo disparou. Será que Tommy queria namorar com sua mãe ou algo assim? E sua mãe? Será que queria namorar Tommy? Por que ela sempre estava rindo com ele e ficava encabulada, como quando seu pai estava em casa e a elogiava. Se os dois namorasse, Tommy seria como um pai para ele, certo?
— E então Theo? — Tommy colocou a mão na sua cabeça – Tá aprovado?
O menino fez que sim vigorosamente.
— Só que acabou. — ele virou o pratinho de cabeça para baixo e balançou – Aquela coisa em cima era boa também.
— Catchup. — disse o homem – E também sei fazer um molho melhor que ele.
— Não precisa dizer mais nada, Tommy, o jantar é por sua conta. — brincou Doroteya.
Eles riram de novo e Theo teve certeza que havia algo ali.
— Quero mais. — disse o menino com o pratinho – Quero um montão de batata frita!
— Certo, eu vou comprar. — disse Tommy se levantando.
— Posso ir sozinho? — disse o menino pulando do banco e ficando de pé – Deixa mãe?
Doroteya olhou para trás, onde estavam as barracas de comidas. Não era longe e dava para ver Theo. Então, fez que sim com a cabeça.
— Mas, lembre do que sempre digo.
— Nunca fale com estranhos, nem aceite nada. — recitou o menino.
Doroteya sorriu.
— Muito bem.
Tommy deu uma moeda para Theo que logo foi em direção as barraquinhas.
— Ele está ficando mais independente. — comentou Doroteya assim que o filho saiu – Não sei se fico feliz ou triste com isso.
— Ele é seu único filho, é compreensível a dúvida. — ele puxou carinhosamente o gorro de Doroteya para baixo cobrindo mais suas orelhas. Ela sorriu. — Só não deixe isso dominar você. Fará mal para vocês dois.
— Você tem razão. — Doroteya suspirou – Não quero ser o tipo de mãe que sufoca o filho. Queria que ele tivesse mais liberdade de ir e vir sabe? Como tinha na nossa floresta…
Tommy a analisou por um momento, antes de perguntar:
— Ele parece tanto assim com o pai? Tanto que, se o avô dele o ver, vai perceber?
Doroteya afirmou tristemente com a cabeça.
— Se o ver nas ruas, vai ficar chocado com a semelhança. Talvez se o ver sozinho, não pense nada demais, mas se o ver comigo… — a voz dela morreu.
Tommy pegou a mão enluvada de Doroteya e apertou delicadamente.
— Então pode deixar que eu o trago aqui para ver Olívia. Ou para onde ele queira ir. Duvido que qualquer um se aproxime dele comigo por perto. — e fez cara de mau.
Emocionada, Doroteya abraçou Tommy com força. Ele ficou sem reação por um momento, mas logo retribuiu o gesto. Por um momento, ele teve vontade de alisar sua trança e acariciar seu rosto, mas se conteve. Doroteya logo se separara dele.
— Tommy, preciso lhe pedir uma coisa. — disse ela de repente.
Sem saber porque, o coração de Tommy se acelerou.
— Peça. — disse.
Ela o olhou, muito envergonhada.
— Me diga, onde posso fazer xixi por aqui?
Tommy a encarou por um momento e depois caiu na gargalhada.
— É sério! — disse Doroteya sentindo o rosto em brasa – Estou muito apertada! Eu poderia virar um cervo e ir pra floresta, mas tem gente demais por aqui! Saberiam que é um druida!
Tommy riu mais ainda e recebeu um olhar misto de raiva e vergonha. Logo ele se controlou apontou para a pequena casa que havia perto da entrada do lago.
— Celestine é a dona da casa e normalmente cobra poucos cobres para o pessoal usar o banheiro dela. Mas, se você disser que é amiga de Lina, ela não cobra nada. Lina a ajudou muito certa vez.
— Certo. — disse a druidesa – Fique de olho no Theo. — e saiu praticamente correndo na direção da casa.
Tommy esperou ela se afastar para cair na gargalhada de novo. Tentou imaginar Doroteya virando cervo e indo fazer xixi no mato e riu ainda mais. Ah, como gostava dela! Doroteya o fazia sempre se sentir tão bem e aquele jeito sincero dela só a tornava ainda mais especial. Ainda estava rindo quando olhou na direção das barraquinhas. Seu sorriso morreu. Theo havia sumido de sua vista.
Quando Theo pedira para ir comprar a batata frita sozinho, tinha o feito por dois motivos. Primeiro, queria muito comer mais daquilo. Segundo, queria deixar a mãe e Tommy sozinhos. O menino agora tinha certeza que havia algo entre os dois, um sentimento que podia levar eles a namorarem. Teve vontade de falar, mas lembrou que quando sua tia Rosa conhecera sua tia Lasciva e começou a rolar aqueles olhares, ele tentou falar algo, mas sua mãe lhe dissera que os adultos as vezes demoravam pra entender seus sentimentos e que Theo não deveria constranger ninguém perguntando sobre namoro. Ela disse também que tudo tinha seu tempo e que em algum momento as pessoas percebiam e ficavam juntas. E sua mãe estava certa. Suas tias ficaram juntas. Então, ele devia esperar a mesma coisa. Mas estava tão feliz, que foi dando pulinhos até o carrinho de batata. Seria tão bom se eles namorassem! Ai depois casariam. E Theo poderia ter um irmão ou irmã! Seria muito, muito, muito bom!
O menino ainda sorria largamente quando foi atendido. Sua fofura extrema o fez ganhar mais batatas que o normal que ele começou a devorar ferozmente com muito catchup. Estava voltando para o banco quando viu Olívia passar ao longe. Será que ela já provara batata frita alguma vez? Ele a chamou, mas ela não ouviu. Então decidiu ir até onde Olívia estava, no meio das árvores ali perto.
O problema de Theo começou porque tinha gente demais. O menino teve que pedir muitas licenças e dizer muitos obrigados até sair da aglomeração. E quando o fez, já tinha perdido Olívia de vista. Caminhou um pouco, tentando encontrá-la, mas não a achou. Triste, meteu mais batata na boca e fez menção de voltar ao banco. Andou, andou e não achou o caminho. Não achou sequer o carrinho da batata frita. Começou a ficar nervoso. Teria se perdido? Se tivesse, sua mãe ficaria muito brava e triste com ele. Começou a andar mais, mas a quantidade de pessoas o deixava agoniado e ele não conseguia ver para onde ia. Foi quando percebeu que precisava de um lugar alto para ver para onde ir. Olhou em volta e viu um monte de neve. Com cuidado, subiu nele, ainda sem largar a batata frita. Conseguiu ver pra que lado ficava o banco, mas não viu ninguém lá. Seu coração começou a bater muito forte e ele tentou descer o mais rápido possível, mas escorregou e caiu. Deu um grito e fechou os olhos.
Theo sentiu quando braços fortes o pegaram, no momento em que suas batatinhas caíram no chão. Pensou que fosse Tommy e sorriu para ele, até ver que um homem completamente estranho o segurava.
— Cuidado, menino. — disse o homem – Você poderia ter se machucado.
Theo fechou o rosto para o homem e mexeu os pés, querendo ir para o chão. O homem entendeu seu desejo e o pôs no chão com cuidado. Theo deu dois passos para trás, analisando o homem que o ajudara. Estava em um dilema. Sua mãe dissera para não falar com estranhos, mas aquele estranho o ajudara. E agora?
Vendo o receio do menino, o homem se ajoelhou, ficando na sua altura. Theo deu mais um passo para trás, ressabido e o homem sorriu.
— Não se preocupe, menino. Não farei nada com você. — disse carinhosamente.
— Minha mãe disse para eu não falar com estranhos. — recitou Theo com a cara fechada.
— Então deixe-me me apresentar. — ele sorriu – Sou Genn Greymane.
Theo teve a impressão de já ter ouvido esse nome em algum lugar, mas não teve certeza.
Naquela manhã, Greymane saíra da bastilha decidido a encontrar aquele menino. Tivera um sonho perturbador com Liam na noite anterior e acordou lembrando da criança que vira dias atrás. No início, a ideia do que fazer não estava clara, até que ouviu dois soldados comentando sobre como o Lago Olívia estaria cheio de crianças patinando aquela manhã e tinham pena de quem fora designado para a área. Tivera a certeza então de onde precisa ir. E sua busca não fora infrutífera. Nos primeiros momentos apenas vagara por ali, olhando para toda e qualquer criança que pudesse ser o menino que vira, mas não achara nenhuma. Já estava perdendo as esperanças e tendo a certeza que estava enlouquecendo quando o vira mais uma vez, subindo em um monte de neve. Seu primeiro pensamento foi que aquilo era perigoso e o menino ia se machucar. E realmente, enquanto parecia procurar alguém, o menino escorregara e cairia se não tivesse pegado-o. E agora, frente a frente com ele, o menino parecia ainda mais com Liam. Quase… Quase como se fosse uma cópia dele. Se não fosse os cabelos cacheados e os lábios carnudos, seria idêntico ao seu filho. Quem seria aquela criança afinal?
Theo continuava o encarando, temeroso e olhava para trás. Greymane sorriu, tentando tranquilizá-lo.
— Não precisa ter medo de mim, pequenino. Eu te salvei não foi?
Theo não respondeu, apenas continuou olhando-o.
— Vejo que você derrubou sua batata frita. — observou o rei de Guilneas – Se quiser, posso te pagar uma.
— Não posso aceitar nada de estranhos. — disse cauteloso.
— Já me apresentei não foi? E porque não me fala seu nome? Assim nos apresentamos direito e não serei um estranho – Greymane estendeu a mão e ofereceu um grande sorriso ao menino.
Ainda sem saber o que fazer, Theo continuava o encarando. Greymane estendeu a mão para mais perto do menino, que se perguntava o que deveria fazer, quando ouviu-se uma voz raivosa atrás deles.
— Theodore!
Tommy chegara pisando duro e já encarando Greymane com raiva. Na visão de Tommy, Theo estava encolhido, com medo demais para correr, enquanto um homem tentava intimidar o menino. E essa visão se confirmou quando Theo saiu do seu estupor e correu para trás de Tommy, se agarrando em sua roupa. Greymane se levantou e bateu a neve dos joelhos, enquanto olhava para o imenso homem a sua frente.
— O que você está fazendo com meu filho?! — perguntou enfurecido.
Greymane então sentiu-se muito decepcionado ao ouvir aquilo. Sem saber quem era o pai do menino, ele poderia até mesmo sonhar, não? Sonhar que seu filho havia lhe dado um neto.
— Eu apenas o ajudei. — disse educadamente – Ele ia cair e o apanhei.
— Ele estava com os dois pés bem no chão, pelo que eu vi. O que você queria com ele? — Tommy perguntou ameaçadoramente.
— Apenas querendo saber se podia ajudá-lo. Ele parecia perdido. — desconversou. A verdade era que queria saber mais do menino. Descobrir sua origem. E era óbvio que o pai da criança não acreditava nele.
— Você estava constrangendo-o. — retrucou Tommy – E espero não vê-lo mais perto do meu filho, senhor, ou prestarei uma queixa junto a guarda!
E se abaixando, pegou Theo no braço e saiu dali. Greymane ainda ficou observando os dois se afastarem e o menino chegou a olhá-lo, antes de enterrar a cabeça no ombro do pai. Greymane sentiu-se mal. Estava sendo confundido com um pervertido por causa da ideia obsessiva que tinha com a imagem do filho. Respirou fundo, torcendo para que Mia não soubesse daquilo, pois não saberia como explicar. Se transformou então em worgen e saiu correndo no caminho oposto no qual pai e filho seguiam.
Depois de afastar Theo dali, Tommy verificou que aquele homem estranho não estava pro perto e pôs Theo no chão. Se assustou quando viu que o menino chorava.
— O que foi, filho? — perguntou preocupado – Aquele homem te fez algo?
O menino balançou a cabeça negativamente.
— Então porque está chorando?
— V-você d-disse que e-era meu pai… — gaguejou o menino.
Tommy engoliu em seco. Quando se intitulara pai dele, não pensava muito no momento. Apenas dissera o que sentia. Jamais imaginaria que Theo ficaria daquele jeito.
— Desculpe… — murmurou constrangido – É que eu fiquei tão trastornado com aquele homem te ameaçando que eu… Sabe, gente assim tem medo de pais… Não fique chateado comigo…
Theo fez que não com a cabeça.
— E-eu não to chateado…. E-eu queria que fosse verdade… — admitiu envergonhado.
Sem saber o que fazer, Tommy o abraçou. Pensou em qualquer coisa pra falar, mas nunca nada assim acontecera antes em sua vida. Por isso, limitou-se a abraçar o menino com força, até ele se acalmar.
— Agora… — disse Tommy se afastando do abraço, relutante – Me conte o que aconteceu.
E Theo contou tudo, desde a batata até a busca por Olívia e como se viu perdido. Contou como o estranho o ajudara, mas depois passou a agir estranho e como ele ficou com medo. Tommy ouviu tudo e assentiu antes de perguntar:
— Quer outra batata frita?
O menino o encarou, ainda envergonhado.
— Você vai contar pra mamãe? — quis saber.
Tommy ficou em um dilema. Não queria preocupar Doroteya, mas também não queria deixar aquilo passar. Por isso, encarou Theo com firmeza e perguntou:
— Isso vai se repetir? Você vai se afastar de novo sem avisar?
O menino fez que não vigorosamente com a cabeça.
— E se aquele homem te abordar de novo, o que você fará? — questionou.
— Vou correr para um guarda e dizer que sou sobrinho da comandante e tem um estranho atrás de mim.
Tommy sorriu, satisfeito.
— Se você me prometer que vai ser assim, não conto a sua mãe. Não queremos que ela fique triste e preocupada, não é?
O menino sorriu, aliviado.
— E sobre eu dizer que sou seu pai… — continuou Tommy ainda constrangido – Não vamos dizer nada também, ok?
— Ok!
E, juntos, voltaram para o carrinho de batata frita, onde Theo ganhou outra porção generosa cheia de catchup e logo o estranho homem já havia sumido da mente do menino.
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