Herdeiros da Guerra

34 Capítulo XXIV – Pendências (Parte II)


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Com um conta-gotas, Kassyeh colocou uma pequena parte de um líquido vermelho em um frasco com um líquido verde que fervia a fogo baixo. O líquido verde borbulhou, emitiu uma fumaça prateada e então se tornou translúcido. Satisfeita, a maga apagou a chama.

Trabalhar nas suas encomendas de poção em plena manhã de Véu de Inverno não era uma coisa que Kassyeh costumava fazer. Porém, os pedidos estavam todos acumulados e agora ela tinha que dar conta de tudo o mais rápido possível. Pelo menos, essa foi a desculpa que dera para se trancar no laboratório da Torre naquela manhã.

Tewdric estava ocupado ajudando Luxuriah a responder todas as cartas de quem mandou presentes para ela naquela manhã. Karen brincava com Saba e Ash no quintal. Fora o momento ideal para que a maga pudesse estar ali, sozinha, com suas poções e seus pensamentos. Só que, os pensamentos de Kassyeh estavam turbulentos e agitados há um bom tempo.

Com cuidado, ela usou um pegador de metal para pegar o frasco com o líquido transparente e dividir seu conteúdo em frascos menores. Depois, tapou todos com uma rolha especial, que manteria as propriedades mágicas das poções. Pousou o frasco maior na bancada novamente e suspirou. Aquele lote estava pronto. Suspirando, tirou o avental e se aproximou do livro imenso que mantinha por perto. Acariciou o livro com carinho e abriu-o na primeira página. Escrito em uma letra elegante, estava uma assinatura. Samanthah Fendessol. Kassyeh comprimiu os lábios com força, sentindo as lágrimas nublarem sua visão e abraçou o livro. Caminhou até a poltrona perto da janela e sentou-se lá. Estava sendo um dia ruim.

Kassyeh não era de compartilhar suas dores com ninguém, nem mesmo com Tewdric. Preferia que todos vissem seu lado positivo, animado e apaixonado, certa que de que ninguém precisava ver o que escondia sobre camadas e camadas de sorrisos: aqueles sentimentos ruins que às vezes afloravam de repente e dos quais ela tentava se livrar constantemente.

A dor pela perda da mãe era o pior de todos. Kassyeh amara o pai, claro, e sentia muita falta dele, mas a saudade da mãe beirava o insuportável. A maga tivera um relacionamento com a mãe tal qual o que Luxuriah tivera com o pai. Kassyeh admirava Samanthah como um devoto venera sua divindade e o que mais desejava no mundo era ser como ela. Desde que se lembrava, passava os dias seguindo os calcanhares de Samanthah, imitando seus movimentos, vestindo suas roupas em segredo e querendo aprender todas as coisas que ela tinha para ensinar. Por isso, desde cedo estudara a magia. Ficou feliz de ela ter manifestado a habilidade arcana desde cedo, pois, com certeza, ficaria muito frustrada se não conseguisse conjurar feitiços e tivesse que aprender a lidar com o arco, mas, para seu total deleite, tinha talento naquilo. E estudava com afinco, desde que aprendera a ler até aquele dia, porém, em sua mente, jamais conseguiria transpor Samanthah.

Diferentemente de Aethas, Samanthah aperfeiçoara sua magia ao redor do mundo, depois que fugira com Dhomm e aquilo aumentou sua capacidade arcana de forma que um mago de Dalaran jamais faria. Lógico, a elfa nunca se gabou disso, mas era algo que Dhomm adorava repetir na mesa de refeição. Falava também das inúmeras anotações que a esposa possuía de todos esses feitiços e encantamentos. E fora por essas anotações que Kassyeh estudara. Aquela altura da vida, sabia todas de cor. Ela mesma havia desenvolvido técnicas novas em suas andanças e lhe doía profundamente que jamais a mostraria para sua mãe.

As duas tinham uma relação muito especial. Samanthah uma vez disse que queria que aquela tivesse sido a relação com sua própria mãe e que todos os dias se prometia que jamais repetiria só erros da senhora Fendessol. Kassyeh achava exagero, sua mãe não precisava se esforçar. Ela era perfeita. A melhor mãe do mundo. Tinha tanto amor para dar que a menina jamais sentiu ciúmes das irmãs. Sabia que Samanthah tinha amor para todas. Claro, havia um pouco de egoísmo infantil em Kass que ficava satisfeito em saber que ela e a mãe tinham uma coisa só delas: a magia.

O dia da morte dos pais ainda estava bem fresco na mente de Kassyeh. Por mais que tentasse e quisesse esquecer, ele ainda se esgueirava em seus sonhos e a perturbavam em dias como aquele. Lembrava da ordem de ficar no sótão, de como temeu por todos, de como queria que Luxuriah ficasse com elas. E lembrava dos gritos. Pela Nascente do Sol, os gritos. Os gritos de sua irmã ainda ecoavam em seus ouvidos cada vez que as lembranças a assaltavam. Ela se sentia culpada por aquilo. Culpada porque, em um breve momento, ela ficara satisfeita por estar segura. Porém, logo em seguida, se odiou por pensar aquilo. Por que Luxuriah tivera que sofrer e ela não? Começou a culpar-se então por se sentir assim e tudo aquilo só piorou sua dor. Até aquele dia, não sabia o que os humanos haviam feito com sua irmã, mas suspeitava. E suas suspeitas eram tão horríveis que ela dizia para si mesma que jamais quereria saber a verdade. Já bastava o medo e a dor que sentia vindo de sua voz. E temia, porque só ouvia os gritos dela. Seu pai e sua mãe se calaram. E sabia porque. Mas ali, naquela escuridão, desejou estar errada. Mas não estava.

Os dias posteriores foram terríveis para todas. Porém, Kassyeh se culpava por sofrer. Era visível que ela era a que tinha mais consciência do que acontecera e de como isso as afetaria. Luxuriah estava em um estado de torpor que nada falava e parecia alheia ao mundo. Ash estava assustada demais com tudo e parecia confusa sobre as coisas. E Karen apenas chorava e chamava pela mãe.

No dia posterior ao enterro de seus pais, Kassyeh lembrava bem, sua irmãzinha mais nova teve um ataque de choro tão grande que Aethas não conseguia acalmá-la. Ash, angustiada com o choro interrupto, pôs-se a chorar também. Luxuriah continuava no mesmo lugar de antes, imóvel, com os olhos mortos. A jovem maga então, pegou a menina em seu colo, e a embalou, da mesma forma como vira sua mãe fazer tantas vezes. Depois de um tempo, Karen se calou e adormeceu. E foi ali que Kassyeh decidiu que se tornaria a mãe. Que decidiu engolir todas suas dores e se recusou a sofrer. Guardou tudo em algum lugar na sua alma e secou os olhos. As irmãs precisavam que ela as consolassem.

Kassyeh nunca parou para pensar que ela também precisava ser consolada.

A vida sem sua mãe era cinza e opaca, mas Kassyeh não parava para pensar nisso. Tinha muito trabalho a fazer. Quando Luxuriah melhorou e assumiu a chefia do lar, Kassyeh se contentou em manter todas o mais feliz possível, seguras e bem alimentadas. Suas ambições de seguir os passos de sua mãe e sair pelo mundo foram postas de lado e ela passou a apenas ler e reler as anotações de sua mãe e praticar no tempo livre. Por muito tempo pensou que seria sempre assim e se conformou com isso. Na época, o amor para ela era apenas uma lembrança do que seus pais tiveram, mas que a própria jamais teria. Ainda sonhava em casar e ter filhos, mas eram sonhos difusos e inconsistentes. Mesmo que não fosse consciente disso, algo em Kassyeh sabia que ela e as irmãs não se contentariam com nada menos do que seu pai fora, e ela jamais conseguiria pensar em alguém, em algum lugar no mundo, que pudesse ser tão extraordinário quanto Dhomm fora.

Até conhecer Tewdric.

Arrebatada. Não havia outra palavra para definir o que Kassyeh sentiu quando o conheceu. Até então, os dias ruins eram muito frequentes e precisava de muito esforço para que eles não a dominassem. Quando estava mal, se trancava no banheiro para chorar escondida e só depois sair com um sorriso para suas irmãs. Porém, quando conheceu Tewdric, os sentimentos ruins praticamente sumiram. O que se apossou do seu coração fora um sentimento tão bom quanto o que sentia pela sua mãe. E foi o surgimento desse sentimento que a fez juntar coragem para seguir com Tewdric e ao mesmo tempo realizar seu sonho de sair pelo mundo. Claro, sentiu-se uma traidora, uma péssima irmã por fazer aquilo, mas sabia que se não o fizesse naquele momento, jamais faria. E prometeu a si mesma que não seria para sempre. Toda vez que podia, ia até Luaprata, passava um tempo em casa, às vezes com Tewdric, e então caia na estrada de novo. Não tivera nenhum dia ruim por muito tempo.

Talvez, se tivesse explicado para Luxuriah o bem que Tewdric fazia a sua machucada alma, sua irmã não tivesse tido tantos problemas no início para aceitar o orc. Mas as duas, há muito tempo, não falavam de sentimentos. Luxuriah se fechara desde a morte dos pais e Kassyeh jamais tentaria fazê-la reviver aquele dia contando o que ela própria sentia. Então, seus sentimentos continuaram enterrados, ainda que vivos. Mas tudo bem, Tewdric os continha.

A última vez que tivera uma crise como aquela fora quando Lyndonna lhe dissera que Tewdric a deixaria se não tivessem filhos. Aquele dia fora horrível. Kassyeh sabia que não conseguiria lidar com outra perda como aquela sem que sua alma se esmigalhasse. Sequer havia se recuperado da perda dos pais, como se recuperaria da perda de seu amado? Por muito tempo, a maga se iludiu achando que sabia lidar com seus sentimentos muito melhor do que suas irmãs lidavam, mas a partida de Huaru a fez entender que estava errada. Luxuriah se recuperara mais rápido do que imaginava. Karen e Ash também. Mas o rancor ainda rasgava o coração de Kassyeh como um verme rasga a carne de um cadáver. Era um sentimento tão ruim que fazia todos os outros parecerem sombras. Porém, para o bem de Luxuriah, ela conseguira conter aquele também.

Então, houvera a noite anterior. Kassyeh acordara no meio da noite com um pesadelo. Era a morte de seus pais e os gritos de Luxuriah. Assustada, se levantara no meio da noite, sem Tewdric perceber. Fora até a cozinha, bebeu água e voltou para seu quarto. Mas não conseguia dormir. Passou a observar seu marido dormindo. Imaginava se a mãe amara seu pai na mesma intensidade que ela amava Tewdric. Sim, tinha certeza que sim. Então, ficou triste por saber que sua mãe jamais o conheceria e jamais conheceria seus filhos. Se chegasse a tê-los, óbvio. Kassyeh ainda não descartara a possibilidade de não ter filhos e não só por causa da diferença de raças. Os orcs já provaram que podiam ter filhos com quase qualquer raça humanoide. Haviam os que tiveram filhos com humanos, draeneis e até ogros. O que poderia acontecer era que Tewdric poderia não ter a capacidade de gerar. Ou ela. Se perguntou então o que aconteceria a ambos se não tivessem filhos. Provavelmente eles não parariam de tentar. Sorriu imaginando-se dali há muitos anos naquela mesma labuta de fazer um bebê, mesmo que ambos, intimamente, soubessem que não o fariam. Bem, teriam tempo. Rommath não dissera que sua mãe tivera um filho bem tarde? Então, se dispusessem de tempo…

Tempo.

Ela teria tempo.

Tewdric não.

A brevidade da vida de seu marido lhe caiu como uma montanha em cima de sua cabeça. Até então, algo em Kassyeh havia sublimizado aquela possibilidade. Claro, a elfa sabia que os orcs viviam pouco, que a existência dele era ínfima perto da dos elfos, mas até então sua própria consciência não havia deixado-a perceber o óbvio: Tewdric viveria menos que ela. Sua mente, ainda não recuperada de suas perdas, não haviam permitido que ela simplesmente imputasse uma brevidade à vida de seu amado, tomando-o por um ser acima daquilo. Não era um orc, era Tewdric. Essa negação se manteve todo esse tempo e apenas naquele momento de fragilidade, sentada à noite, em uma madrugada de um emotivo feriado, a percepção da sua situação se impôs às suas fantasias estilhaçando-as. Se Kassyeh tivesse conseguido gritar, teria acordado todos com seus gritos. Teria amedrontado-os com a dor que invadia sua alma. Mas ela sofreu em silêncio. Deixou-se ficar, em pânico, paralisada pelo medo toda a noite. Tremia. Teve vontade de vomitar, mas sabia que se abrisse a boca, gritaria. Ficou naquele estado de agonia silenciosa até o nascer do sol. Então, mais uma vez, engoliu tudo e sorrira para todos.

Mas agora, ali, sozinha, ela não aguentara. Tentara enganar sua mente com a alquimia, como sempre fizera, mas nem mesmo os cálculos e as medidas eram suficientes para manter o terror afastado. Por isso, chorava desesperada agarrada ao livro da mãe. Como desejava a presença de Samanthah ali! Sua mãe saberia como fazer. Saberia consolá-la. Saberia o que dizer. Mas não a tinha. Restava apenas sofrer e sofrer, tentando novamente engolir suas dores e empurrá-las de volta ao fundo da sua mente, mas sem forças para isso.

Tewdric morreria e a deixaria sozinha.

Era só nisso em que pensava.

Seria por isso que se lançara naquela corrida para ter bebê desde seu casamento? Seu subconsciente lhe dizia que um filho era a solução? Se houvesse uma criança fruto do amor dos dois, poderia viver em paz. Teria um pouco de Tewdric para si, algo do seu amor para confortá-la. Um meio-elfo vivia quase tanto quanto um elfo comum, então teria seus filhos por praticamente toda sua vida. Conseguiria viver assim, como sabia que, se sua mãe tivesse sobrevivido, ela também conseguiria viver sem Dhomm. Por causa das filhas.

Porém, sem nenhuma criança, o que faria? Havia um caminho óbvio. A morte. Aquela altura Karen já estaria crescida. Ash já teria encontrado seu lugar no mundo. E Lux.. Bem, ela tinha uma filha. E alguém que a amava e que viveria tanto quanto ela. Suas irmãs conseguiriam lidar com a perda. Conseguiriam? Seria egoísmo tirar a própria vida e deixá-las para trás para lidar com a mesma dor que ela procurava evitá-la? Seria justo com elas? Claro que não. Mas e ela? O que aconteceria com ela? Se relegaria a passar a vida cheia de dor e angústia para morrer aos poucos como sua avó fizera?

Tudo isso girava e girava na mente de Kassyeh enquanto, aos prantos, continuava agarrada ao livro da mãe. Tinha que se controlar. Aquilo tinha que passar. Mas Kassyeh não conseguia empurrar tudo de volta a sua mente como sempre fizera. A dor se recusava a abandoná-la. Continuava ali, estática diante de tudo, apenas chorando.

E fora a demora nada usual de Kassyeh que levou Luxuriah a pedir para Rommath chamar a irmã. A caçadora não queria interromper sua atividade, mas estava preocupada. Algo dentro dela lhe sussurrava que havia algo errado. Kassyeh estivera diferente naquela manhã e Tewdric confirmara que não era impressão sua. Talvez fosse só preocupação com o trabalho acumulado, mas não custava pedir para o marido conferir se estava tudo bem no laboratório e chamar Kassyeh para voltar para a sala de estar.

Rommath foi, um pouco preocupado que Kassyeh lhe lançasse um olhar enraivecido se atrapalhasse seu trabalho. Por isso, em vez de bater, e correr o risco de fazer a elfa errar as poções, ele testou a fechadura, viu que a porta estava aberta e a empurrou delicadamente, no intuito de ver se estava tudo bem. E o que viu foi que não, não estava.

— Kassyeh! — chamou preocupado abrindo totalmente a porta – O que houve?

A mente de Kassyeh tinha certeza que trancara a porta, mas fora só mais um truque. A maga, pega de surpresa no meio da sua dor, soltou uma exclamação e passou a chorar ainda mais. O primeiro impulso de Rommath fora descer e ir em busca da esposa, mas o estado de sua cunhada era tão ruim que ele não o fez; Luxuriah provavelmente surtaria por vê-la daquele jeito. Kassyeh estava… Como ele poderia descrever… Em choque? Em pânico? Ambos?

Fechando a porta com cuidado, ele se dirigiu até onde ela estava. Agarrada ainda ao livro, com o rosto molhado e vermelho, Kassyeh o encarava com um olhar desesperado e ao mesmo tempo raivoso, mas ela não conseguia emitir nenhum som além dos seus soluços.

— Kassyeh… — murmurou ele mais uma vez se aproximando – Kassyeh… O que está sentindo?

Ela soltou um gemido e enterrou a cabeça no livro.

Rommath a analisou: ela não estava machucada visivelmente. Então era sua alma que sofria. Preocupado com o desenrolar daquilo, ele olhou em volta. Já usara aquele laboratório várias vezes e tinha poções guardadas em alguns armários. Passou a procurá-las e ficou aliviado em ver que tinha algumas que acalmavam em frascos bem tapados. Destampou-os e cheirou levemente a poção, para ter certeza que ela estava usável e depois se aproximou de Kassyeh como alguém se aproxima de um animal ferido: com calma e cuidado.

— Kassyeh… — chamou-a mais uma vez – Você está sentindo dor?

Ela não respondeu, apenas chorou mais.

— Pegue… — disse com a voz tranquila – Tome isso… A dor vai passar…

Finalmente, Kassyeh levantou a cabeça e o olhou.

— V-vai pa-passar? — perguntou em uma voz débil e infantil.

— Vai. — garantiu com segurança.

Ela então largou o livro no chão e pegou a poção com as mãos trêmulas. Tomou a poção em um só gole, ainda derramando algumas gotas em sua roupa. Rommath apanhou o livro no chão, viu o nome na primeira página e entendeu parte do problema.

Luxuriah sempre lhe dissera, com orgulho, o quão centrada era Kassyeh. Também lhe dissera, dias atrás, como a irmã sempre lidara melhor com toda a situação da morte de seus pais que todas. Aparentemente, Luxuriah estava errada.

Em outra ocasião, Rommath não tentaria resolver nada ou se meter em um assunto de família. Porém, mesmo que Kassyeh não aceitasse bem, ele era da família agora. Primeiro, deveria esperar que a respiração dela voltasse ao normal e as lágrimas parassem de cair. Sentou-se na poltrona ao seu lado e esperou.

Após beber a poção, Kassyeh sentiu a pressão no seu peito diminuir. A dor estava lá, mas pouco a pouco começou a perder a intensidade. A maga respirou fundo, na tentativa de recobrar o autocontrole e a consciência. E quando finalmente sentiu-se menos angustiada, percebeu que estava numa situação complicada e estranha. Rommath a vira no seu pior momento. Até então, Kassyeh conseguira evitar que qualquer um a visse assim. E, pela Nascente do Sol, porque tinha que se ele?

Rommath agora a olhava como se decidisse o que fazer. A última coisa que Kassyeh queria era que Luxuriah ou Tewdric soubesse de seu surto. Claro, ela poderia inventar alguma coisa, mas achava difícil que alguém acreditasse. Afinal, ele a vira em prantos agarrada com o livro da mãe. Se o Grão-Magíster decidisse contar essa parte, nada do que ela dissesse convenceria a irmã ou o marido.

— Eu também sinto falta da minha mãe. — disse Rommath de repente.

Kassyeh o olhou, confusa. Era a última coisa que esperava ouvir. Esperava que ele perguntasse os motivos da crise, que tentasse tirar alguma informação dela, mas não, ele apenas dissera que sentia falta da mãe.

— É diferente. — Kassyeh se viu rebatendo-o.

— Por que é diferente? — questionou Rommath suavemente – Eu amava minha mãe. Ela morreu em uma situação trágica. Por que então seria diferente do que você sente?

Desviando a vista, Kassyeh encarou a janela e apertou os lábios com força antes de responder:

— Você não amava sua mãe como eu amava a minha.

— Como você pode saber? — perguntou mais uma vez, com o mesmo tom tranquilo – Você não tem como medir meu amor e minha dor, Kassyeh, como eu não tenho como medir a sua.

Por mais que quisesse refutá-lo, Kassyeh sabia que Rommath tinha razão. Seria injusto tentar comparar a dor da ausência de alguém tão importante e, por mais que ela ainda não concordasse com o casamento dele com sua irmã, desprezar a dor que ele sentia era maldade. Por isso, limitou-se a se calar e continuar encarando a janela. Rommath a analisou por um momento e olhou para o livro em suas mãos.

— Não é só isso, não é mesmo? — perguntou – Há algo mais em sua angústia.

Kassyeh virou a cabeça muito rápido e o encarou, abismada. Não, ele não tinha como saber o que se passava em seu coração. Então, como havia tanta certeza em suas palavras? Teria ela deixado, em algum momento, transparecer algo em seu comportamento? Impossível. Luxuriah e Tewdric teria reparado muito antes que Rommath.

Vendo a incredulidade no rosto dela, o elfo depositou o livro de lado e ponderou se devia se arriscar na tentativa de conversar e ajudar Kassyeh. Chegou logo a conclusão que dificilmente ela o detestaria mais do que já detestava se dissesse o que pensava naquele momento.

— Eu sou bem velho, Kassyeh, você sabe. Há muito tempo eu aprendi a ler as pessoas, e venho prestando mais atenção nelas depois da traição de Kael’thas. — por um momento os lábios dele se crisparam, mas quando voltou a falar, o fez no mesmo tom calmo de sempre – O que vi em seu rosto quando cheguei era bem mais que saudade da mãe. Sinto que há muito mais coisas dentro de você que talvez nem você própria saiba. — ele deu uma pausa e a encarou – Eu não direi a Lux ou a Tewdric o que eu vi aqui. Mas sugiro que você procure alguém para conversar, para desabafar. Provavelmente você não falará com nenhum deles porque não quer preocupá-los. Eu entendo. Pelo que vi, você prefere cuidar a ser cuidada. — ele deu uma risada – Não muito diferente do que eu mesmo costumo a fazer. — e se levantou – Se precisar de mais alguma poção para se acalmar, pode pegar no meu armário. Vou descer e dizer para Lux que você derramou alguma poção, se sujou e foi tomar um banho. Sugiro que faça isso mesmo. Assim, já não haverá resquícios do choro quando você descer.

Rommath fez uma pequena mensura e já se preparava para sair quando ouviu Kassyeh falar, insegura:

— Ele viverá menos que eu.

A elfa não soube o que a levou a dizer o que sentia logo a Rommath. Talvez fosse justamente o fato de ele não ser seu amigo, não ser ninguém íntimo e principalmente, que ele dificilmente diria a Luxuriah qualquer coisa que fosse preocupá-la naquele momento. Ainda assim, ficou surpresa de revelar tão facilmente algo assim. E ela não foi a única. Rommath também se surpreendeu com a inesperada revelação. E por causa disso, voltou até a sua poltrona, sentou-se e esperou.

Kassyeh falou. Falou tudo. Em outra ocasião, que não tivesse tão fragilizada, jamais se abriria daquela forma, mas ela o fez. Rommath limitou-se a ouvir tudo, em silêncio. Quando Kassyeh acabou o relato, limpou as lágrimas que caíam novamente e suspirou. Sentia-se estranhamente vazia, mas aliviada.

— Eu entendo tudo que você está sentindo e fico surpreso que você tenha conseguido suportar tanta coisa sozinha. — disse Rommath – E mais surpreso ainda que você manteve Luxuriah e Tewdric alheios a seus sentimentos.

— Não foi fácil. — admitiu a elfa.

— Imagino que não. — concordou. Ele deu uma pausa antes de continuar – Infelizmente a maior parte de seus problemas está fora do alcance da minha ajuda. Porém, há algo que sei que posso fazer. Como você sabe, minha mãe teve Kayliel bem tarde. Normalmente as elfas dessa idade tem sua fertilidade reduzida, então eu a ajudei.

— Como assim? — perguntou confusa.

— Eu criei uma poção que estimula a fertilidade, tanto de elfas quanto de elfos. Fiz isso depois que minha mãe passou anos tentando engravidar e estava frustrada por não conseguir. — ele deu uma pequena risada – Acho que foi por isso que eu aceitei de bom grado criar Kayliel, por saber que eu tive uma participaçãozinha no seu nascimento.

O coração de Kassyeh começou a bater mais forte e ela segurou o braço de Rommath com força.

— É verdade? Você tem essa poção?!

— Tenho a receita. — disse sem se importar com o aperto da elfa – É uma poção complicada de fazer e que não tem efeito imediato. Você deve começar tomando-a em pequenas doses e ir aumentando aos poucos. Percebi isso depois de fazer uma bem forte para minha mãe e isso ter efeitos… — ele pensou um pouco antes de completar – Efeitos colaterais meio esdrúxulos.

Ele preferiu na falar para Kassyeh que a poção forte colocara sua mãe e padrasto em um estado de tesão tão louco que ele passou dias dormindo na estalagem porque não aguentava os gritos dos dois. E após o efeito passar, ambos ficaram sem força por semanas.

— Quanto tempo para fazer efeito? — perguntou Kassyeh ainda o apertando.

— Depois que consegui atingir o grau certo da poção, minha mãe passou três anos tomando. Claro, isso deve variar de elfa para elfa.

Três anos era um tempo que ela poderia esperar.

— Você… — ela começou mas não precisou sequer concluir.

— Claro. Eu lhe dou a receita. — respondeu com suavidade – Se isso vai ajudá-la e a deixará em paz, faço questão. E não contarei para ninguém, se você não quiser.

Devagar, Kassyeh soltou o braço de Rommath, encarando-o sem saber o que dizer. Estaria ele fazendo aquilo apenas para que ela o aceitasse na vida de Luxuriah? Acreditava que não. Havia nele uma sincera vontade de ajudá-la. Talvez, no passado, a mãe dele tenha tido uma reação bem forte sobre sua fertilidade e Kassyeh o lembrou disso. Não importava agora. Se aquela poção pudesse ajudá-la, nada mais importava.

— Obrigada… — foi o que conseguiu dizer.

— Não precisa agradecer. — ele se levantou – E agora, sugiro que siga meu conselho. Tome um bom banho de banheira. Direi a Lux que houve um pequeno acidente no laboratório. Nada grave, mas precisei ajudá-la a resolver e depois você decidiu tomar um banho. Não é nenhuma mentira, não é mesmo? — perguntou sorrindo.

— Não. — e Kassyeh se viu retribuindo o sorriso.

— Então, até daqui a pouco.

O elfo então acenou com a cabeça e saiu do laboratório. Kassyeh pegou o livro da mãe, abriu novamente na primeira página para ver seu nome e dessa vez sorriu. Talvez Rommath não fosse de todo mal, afinal. E abraçando o livro, se levantou e foi na direção do quarto. Um tempo na banheira seria realmente muito bom naquele momento.

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A neve se estendia por todo o caminho como se fosse um grande cobertor branco. Àquela hora, não havia nenhuma pegada, nem nenhum sinal de que alguém ou algum bicho tivesse maculado a imensidão branca com suas pegadas. Lina gostava daquilo. Sentia um prazer inexplicável de ser ela a primeira a marcar a passagem com seus passos. Por isso gostava de caminhar nas manhãs de Véu de Inverno nas proximidades da fazenda. Sentia-se como uma exploradora de um mundo desconhecido. Porém, naquela manhã, não pode aproveitar o caminho com a mesma tranquilidade de sempre, pois a raiva ainda fervia dentro de si.

Ainda não conseguia acreditar que seu irmão havia permitido que seus filhos fizessem algo que estava proibido pela coroa. E usar a desculpa que eles faziam porque todos faziam o mesmo a deixava com ainda mais raiva. O fato de todos fazerem não tornava o ato permitido, apenas aumentava o número de infratores. Soltou um grunhido e chutou a neve. Quando voltasse para Ventobravo, reveria quem estava responsável por fiscalizar as áreas onde os ursos viviam e veria a melhor forma de impedir a caçada no inverno ou, em alguns anos, não haveria mais ursos naquelas redondezas.

Ao chegar ao rio, Lina passou a procurar as armadilhas deixadas por seus sobrinhos. Para sua sorte, aqueles meninos eram péssimos em camuflagem e ela conseguia facilmente identificar os imensos dentes de metal abertos mesmo com toda a neve. Desarmar era muito fácil, Lina usava pedras e galhos. Quando a bocarra de ferro estava fechada, ela pegava o objeto e amarrava ao seu cinto. Já havia desarmado cinco quando viu os primeiros sinais de outras pessoas por ali.

Por instinto, Lina puxou seu arco e o segurou com força. Apalpou as flechas em suas costas, apenas para certificar que estavam à mão e foi seguindo os rastros. Não demorou muito tempo para que presenciasse a cena que mais temia: três homens com um urso morto no meio deles. O animal estava sendo esfolado. Foi com mais pesar ainda que Lina viu três filhos ao redor, dois deles já morto e um preso por uma corrente. Sem conseguir se conter, se dirigiu ao local, seus pés fazendo o maior barulho possível, querendo deixar claro para os caçadores que estava ali.

Eram os irmãos Jones, claro. Os três levantaram a cabeça e a encararam quando chegou mais perto. Lina logo analisou a armadilha ensanguentada que estava a vista e, com alívio, percebeu que não se tratava de nenhuma das que os Wood usava. Depois, encarou só homens um por um, sem medo.

— Ora, ora, se não é a Quengacilina. — disse um deles em tom de deboche – Há quanto tempo… Veio se juntar aos meros cidadãos do reino?

Mesmo de onde estava, Lina pode sentir o cheiro de bebida. Não era novidade para ninguém que aqueles três eram beberrões inveterados e o fato de já mostrarem sinais de embriaguez a fez ficar um pouco mais cautelosa, mas não intimidada. Apenas segurou mais forte o arco.

— Não me misturo com qualquer um. — disse em tom firme – Muito menos com caçadores ilegais.

Os irmãos se entreolharam por um momento e um segundo irmão falou:

— Vejo que também tem armadilhas com você, minha cara.

— Sim, as tenho. Mas como podem ver, elas não tem nenhuma mancha de sangue. Estou justamente retirando-as para evitar que minha família cometa o mesmo crime que vocês estão cometendo nesse momento.

Os três riram e um terceiro debochou:

— Claro, a nova comandante de Ventobravo com certeza pretende ajudar o irmãozinho a se livrar da culpa…

O interior de Lina ferveu de raiva, mas o sentimento não chegou ao seu rosto. Ela encarou o terceiro irmão sem expressão e disse com firmeza:

— Meu irmão pagará a multa por colocar as armadilhas da mesma forma como qualquer outra pessoa. E se vocês conhecem bem a lei, saberá que ela é bem menor do que a multa de uma caçada comprovada, como a que vejo aqui. — e olhou para o urso grande morto e os três menores – Uma fêmea, suponho. Sabem que isso significa uma multa mais grave, não é?

O ar de deboche sumiu da face do terceiro irmão, que encarou os outros dois. Por um momento eles não disseram nada, mas então o primeiro voltou a falar:

— Você não pode nos multar, Quengacilina. — ele dizia o nome dela de propósito, para irritá-la – Você não está a serviço do exército que eu sei. Alan me disse que você está de férias. Então, você não pode fazer nada, minha querida. — e caiu na gargalhada, sendo acompanhada pelos irmãos.

Ser chamada de ‘minha querida’ por aquele imbecil a deixou com mais raiva do que a constatação de que ela mesma não poderia fazer nada oficialmente. Porém, sabia quem podia fazer. Por isso, sorriu.

— Vocês tem razão, eu não posso fazer nada. Mas sei quem pode. — seu sorriso aumentou – Vamos ver o que o delegado Durão diz a respeito disso.

O ar de deboche dos irmãos desapareceu e a raiva tomou conta de suas expressões. Lina apertou ainda mais o arco.

— Em quem você acha que ele vai acreditar? — disse o primeiro irmão tentando manter a pose – Nós somos importantes aqui, sabia?

— Levando em consideração que vocês já tem uma fama questionável e provavelmente um histórico de multas e advertências, acredito que saibamos em quem ele vai acreditar. — e olhou para os ursos mortos – Além de outros fatores existentes, não é? Agora, se me dão licença…

Lina então virou as costas para os Jones e tomou a direção da Vila d’Ouro, onde falaria pessoalmente com o delegado Durão sobre as práticas daqueles três. E foi só quando ouviu o clique de uma arma sendo engatilhada foi que se deu conta que subestimara a covardia e a maldade dos irmãos Jones.

O barulho do tiro soou alto por entre as árvores da floresta e Lina conseguiu evitar o pior se jogando na neve. Porém, o atirador usara pequenas balas de chumbo, que se dispersavam no ar quando a arma era acionada. Se tivesse sido um tiro único, a comandante não teria sido atingida, mas não pode prever a dispersão de várias balinhas de chumbo e sentiu o ombro arder quando algumas a atingiu. Logo, os três irmãos começaram a atirar, mas ela conseguira cobertura atrás de uma árvore. Podia ouvir as balas assobiando pelo ar e também atingindo a árvore. E quando os tiros cessaram, ela colocou uma flecha no arco, virou-se para trás saindo por um momento de sua proteção e atirou.

Um grito agudo a alertou que acertara o alvo. Escondeu-se rapidamente atrás da árvore de novo e preparou outra flecha. Tinha que ter cuidado. Aquelas armas eram perigosas. Xingamentos chegavam aos seus ouvidos e a alertavam que os homens se aproximavam. Analisou rapidamente o caminho a frente se se precipitou. Os tiros ressoaram mais uma vez, mas ela conseguiu chegar até uma pedra alta que lhe dava maior cobertura sem ser atingida. Então, deitou-se na neve e atirou outra flecha. Outro grito.

Mesmo com a pouca visibilidade, a experiência de Lina a ajudou a direcionar as flechas de forma que não matassem aqueles idiotas. Ah, não. Fazia questão de levar os três à justiça e faria aquilo com prazer. Na posição em que estava, Lina conseguiu fazer mais dois disparos e atingiu mais uma vez o alvo. O homem cambaleou, pois as flechas tinham acertado as pernas, mas atirou mais uma vez. O tiro passou bem perto da cabeça de Lina, mas ela não se intimidou. Mais uma flecha, dessa vez mirando no braço dele. Quando foi atingido, o homem soltou um grito e a arma. A comandante então esperou mais um momento, temendo mais tiros, mas eles não ocorreram. Então, ela saiu de seu esconderijo e foi até onde os três estavam.

Um estava bem próximo a Lina, com duas flechas nas pernas e uma no braço. Quando a viu, ele a xingou de todas as formas possíveis, ofendendo desde a reputação de sua mãe até a masculinidade de seu pai e irmãos. Lina o ignorou. Pegou a corda que trouxera por precaução e o amarrou, sem se importar com os insultos. Depois, o arrastou até onde estava o próximo irmão. Esse tinha sido atingido no joelho e sangrava mais que o irmão. Ele também a xingou quando Lina o amarrou e foi arrastado também. O terceiro estava choramingando próximo aos ursos com uma flecha que transpassara sua mão. Mais xingamentos. Por fim, Lina amarrou os três em uma árvore, pegou suas armas e as colocou fora do alcance deles. Teve vontade de dar uma boa cuspida naqueles imbecis, mas se controlou. E sob uma chuva de ameaças, os deixou lá e foi em direção à vila.

Foi uma caminhada de duas horas, nas quais Lina desejou ter vindo em seu cavalo. Para sua sorte, o delegado Durão estava bem a vista na entrada da aldeia.

— Comandante! — ele a saldou animado – Feliz Véu de Inverno!

O sorriso do homem morreu quando ela se aproximou e ele pode ver o sangue em seu ombro. Até então, Lina não sentia nada mais de que uma comichão no local e nem sabia que o ferimento tingira sua roupa de vermelho.

— O que houve comandante? — perguntou preocupado – Você está machucada!

Sem delongas, Lina resumiu toda a situação, falando inclusive do irmão e entregando as armadilhas de seus sobrinhos. O delegado ouviu tudo com a expressão de desagrado e, assim que ela terminou o relato, falou:

— Não é só um caso de caça ilegal, comandante! Eles tentaram te matar! A senhora sabe a pena para aqueles que atentam contra a vida de militares!

— Eu estou de folga, Durão. — disse com a voz cansada – Eles não poderão ser acusados disso.

— Ainda é uma tentativa de homicídio. E pelas costas! — o delegado estava indignado – Tenho certeza que isso será levado em consideração.

Lina deu um sorriso triste.

— Se eles forem punidos pela matança que fizeram na floresta, já estarei satisfeita. — comentou começando a sentir um leve latejar no ombro.

— Serão punidos por bem mais. Faz tempo que tento enquadrar aqueles três e eles sempre se safam. Quero ver eles se safarem agora! — e fazendo um gesto chamou os guardas da vila – Vou em busca deles agora mesmo. Onde você disse que eles estão mesmo?

Lina disse novamente, apontando para a direção. Sugeriu que ele levasse mantimentos de primeiros socorros, pois os três estavam feridos. O delegado concordou, mandou vir uma diligência e em pouco tempo já se dirigia para onde a comandante havia apontado.

Por um momento, Lina pensou em voltar logo para casa, mas seus instintos de comandante a disseram para ficar ali e ver a chegada dos infratores. Queria ter a certeza que eles não ficariam impunes daquela vez. Enquanto isso, poderia tomar algo na taverna e arrumar alguém que a curasse do ferimento.

Para o azar de Lina, todos os curadores que estavam por ali na Vila D’Ouro eram aprendizes e nenhum deles tinha poder suficiente para fechar sua ferida. Então, Lina arrumou umas ataduras com o estalajadeiro e fez ela mesma um curativo improvisado. Quando chegasse em casa, se tivesse piorado, talvez pedisse a Linda que a curasse. Talvez. Pensou em escrever para Jon ou Brienne contado sobre o ocorrido, mas se deteve. Esse trabalho era de Durão e não dela. Por isso, se relegou a pedir uma bebida e ficou esperando que o delegado voltasse com os prisioneiros.

Quando a diligência chegou, trazendo os irmãos Jones, houve um rebuliço na vila. Algumas pessoas ficaram revoltadas, mas a maioria parecia feliz por ver os três bem presos. Lina acompanhou a passagem deles, olhando com pesar a ursa e os filhotinhos mortos e um dos soldados trazendo o que ainda estava vivo. Assim que os irmãos a viram, voltaram a proferir insultos e ameaças e dessa vez entremeteram com acusações. Depois de colocá-los na cadeia, o delegado a procurou.

— Eles estão lhe acusando de atacá-los sem motivo e por isso revidaram. — disse.

— Por que não estou surpresa? — indagou Lina sem demonstrar preocupação.

— Acredito que o pai deles conseguirá que seja feita uma acareação entre vocês, mas como os pegamos com os ursos e vivos, duvido que alguém na capital acredite neles.

Lina também duvidava. Todavia, uma acareação era estressante e seria muito mais uma forma de o pai daqueles três conseguir tempo para tentar denegrir a imagem da comandante numa tentativa de salvar os filhos imbecis. E por mais que a maioria das pessoas não acreditassem naqueles três, sempre haveria alguém que acreditaria e poria em cheque a credibilidade dela. Então, ela entendeu que precisava de algo mais que sua palavra e a de Durão para acabar de vez com os irmãos Jones.

Precisava de Horatio Lane.

Horatio Lane era um tenente que servia em Cerro Oeste e era perito em buscar e analisar provas dos mais diversos crimes. O tenente tinha uma fama impecável e era bem quisto em todo o reino. Pensando nisso, Lina voltou até a estalagem e escreveu uma breve missiva, pedindo que ele viesse até a Vila D’Ouro para fazer uma análise da cena do combate, dos ursos e dos ferimentos dos irmãos. Mandou-a no início da tarde e só então, decidiu voltar para casa. Dispensou a carona do delegado e voltou a pé.

Se Lina soubesse o que a aguardava na fazenda, teria ficado na Vila D’Ouro. Assim que pôs os pés na sala, com o ombro latejando tanto que ela mal conseguia carregar o arco, seu irmão Alan a interpelou com raiva.

— O que diabos você fez com meus amigos? — gritou.

— Parece que as notícias correram rápido. — foi o que ela disse batendo a neve dos pés.

— Você tentou matá-los! — gritou Alan.

— Eu não tentei matá-los, eu me defendi! — falou já aumentando o tom – Eles atiraram em mim primeiro!

A confusão começou a atrair os outros Woods, inclusive os pais de Lina, que acompanhavam a discussão em silêncio.

— O que me disseram é que você atirou primeiro, e, com certeza, é verdade!

— Peraí, como é? — a raiva começou a tomar conta de Lina mais uma vez – Alguns estranhos começam a dizer coisas e você prefere acreditar neles antes de ouvir o que tenho a dizer?!

— Eu conheço você! Sei do que é capaz!

Lina deu um passo a frente, se segurando para não meter a mão na cara do irmão.

— Você não conhece ninguém, Alan! — retrucou com ferocidade – Aqueles retardados vivem rindo de você pelas suas costas e você os considera amigos! Nem ouse me dizer que você me conhece, pois, se me conhecesse de verdade, não estava falando uma merda dessas!

— Ah conheço sim! — ele apontou o dedo para ela – A única coisa que você dá valor é aquele exército de merda do qual você faz parte! E você não está nem aí para sua família!

Lina deu um tapa na mão dele, tirando o dedo que estava apontado para ela.

— Isso mesmo, imbecil, menospreze quem mantêm a Horda e os bandidos longe e protegem seu rabo e de seus filhos! — as mãos de Lina tremiam, tão grande era a sua fúria – E só porque não vou encobrir os seus erros, não significa que não me importo!

— Meur fí, parem cum issu! — pediu dona Mariana se aproximando.

— Mãe, ela tentou matar nossos vizinhos! — protestou Alan.

— Ela fez os certu. — disse o pai, olhando feio para Alan, que ficou ainda mais com raiva.

— Você sempre defende ela, pai! Apesar de tudo de errado que ela faz! — gritou.

— Não grite com o papai! — Lina sentiu o ombro doer mais ainda – E quem é você para dizer o que fazer com filhos? Os seus são umas pestes, igual a vocês!

A discussão piorou com a menção dos nomes dos filhos de Alan e logo todos os irmãos brigavam. Só que daquela vez, não eram as discussões usuais dos Wood, era uma briga feroz e ferrenha. Vendo o quanto aquilo começava a afetar seus pais, Lina decidiu que bastava. Abriu a porta e gritou antes de sair:

— Acreditem no que vocês quiserem. Eu não me importo. — e bateu a porta com raiva.

O ombro agora parecia em brasa viva quando ela entrou no celeiro. Sem esperar por mais nada, arrumou rapidamente as suas coisas. Estava se encaminhando para o estábulo quando foi alcançada por Fey e Mel, cujas expressões mostrava que também haviam se envolvido na briga que ela deixara para trás.

— Lina, você está bem? — perguntou Fey tocando-a no ombro.

Lina emitiu um gemido alto e se livrou do toque do irmão. Quando Fey sentiu algo molhado na mão, olhou e soltou um pequeno grito.

— Você está sangrando!

Mel levou a mão na testa, como se fosse desmaiar, mas apenas arfou antes de falar:

— Vou chamar Linda para curar isso.

— Não! — exclamou a comandante – Ela estava lá apoiando Alan! Não quero a magia de cura dela, não quero nada de nenhum deles!

— Lina… Por favor… — pediu ele.

— Não! Estou voltando para casa! — avisou decidida – Diga a papai e a mamãe que enviarei uma carta sobre a visita à Bastilha. Assim, os verei sem esses imbecis tóxicos que chamo de irmãos por perto!

Os alfaiates se entreolharam, preocupados. Nunca um Véu de Inverno havia terminado daquela forma. Tinham brigas, claro, mas tudo aquilo ultrapassava as desavenças habituais dos Wood.

— Você vai cavalgar por cinco horas com o ombro assim? — Mel não conseguia aceitar a partida da irmã.

— Devemos ir com ela, Mel. — sugeriu Fey – Ela não vai aguentar viajar assim.

— Não, fiquem! Quero que vocês façam companhia a papai e mamãe. Ainda vou ficar um dia na Vila D’Ouro para resolver algo. — revelou – Acredito que haverão sacerdotes por lá. Ficarei bem.

A comandante não disse a eles que provavelmente os sacerdotes que perambulavam pelo local não tinham poderes suficientes para curá-la, mas ao ver o alívio no rosto dos dois, soube que fizera o certo. Quando terminou de amarrar suas coisas ao cavalo, abraçou os irmãos rapidamente, subiu com um pouco de dificuldade no cavalo e tomou o caminho da vila. Ainda pode ver olhares desgostosos aparecendo pela janela, mas os ignorou. Respirou fundo e acelerou o passo do cavalo. Queria chegar na vila antes que a noite caísse.

Enquanto cavalgava, Lina se deu conta que realmente tentaram assassiná-la a sangue frio naquela manhã. Aquilo não era novidade para ela, mas seria para Doroteya e Arshe. As duas provavelmente surtariam quando soubessem da história toda. E se chegasse machucada em casa, o surto seria maior ainda. E havia Tommy. Quando o irmão soubesse do acontecido, era provável que quisesse pegar o cavalo e ir até a fazenda para ter uma boa conversa com Alan. Era algo que não deixaria acontecer. Tommy deveria se focar em ficar bom de vez e se meter naquilo tudo não seria bom para ele. Então, assim que chegasse em Ventobravo, iria logo até a Bastilha, pediria a revogação de suas férias e encaminharia o caso para alguém de patente maior que a dela, para que ninguém a acusasse de interferir no caso. Assim, poderia pedir logo a autorização a Varian para que seus pais visitassem a Bastilha.

Algo então passou rapidamente por sua mente. O que o rei diria do que acontecera? Não achava que ele fosse se preocupar muito, já havia passado por coisas bem piores. Varian provavelmente não se daria muita atenção ao caso, o que era bom. Arshe faria drama suficiente por todos seus dezessete irmãos e Doroteya.

Quando finalmente chegou à vila, a dor no ombro de Lina era quase insuportável. Ela direcionou o cavalo até o estábulo e apeou com dificuldade, escorregando quando pôs os pés no chão e se apoiou na parede para não cair. Sua vista escureceu por um momento e Lina achou que desmaiaria e ficaria ali largada na neve até alguém encontrá-la. Porém, logo conseguiu forcar novamente a visão e amarrou o cavalo com dificuldades. Respirando com arquejos, entrou na estalagem torcendo para que Fábio, o estalajadeiro, tivesse alguma poção de cura no estoque.

— Comandante. — ouviu uma voz rouca dizer.

Horatio Lane estava logo na entrada da estalagem, falando com Fábio sobre o ocorrido quando ela entrou. O tenente recebera sua carta e partira imediatamente assim que soubera das circunstâncias da situação. Lina ainda não sabia, mas Horatio também tinha uma questão pendente com os irmãos Jones e agora via a oportunidade de fazê-los, finalmente, responder por seus atos. Por isso, ele não tardara a ir até ali e já havia visto e analisado o lugar onde ocorrera a morte da ursa e de seus filhotes e também o conflito. A comandante ficou contente por vê-lo e satisfeita por perceber que ele já estava fazendo levantamentos do caso.

— Tenente. — ela se surpreendeu em como sua voz saiu fraca – Vejo que já está se pondo a par do que aconteceu.

Ele não respondeu de imediato. Tirou os óculos escuros e analisou seu ombro atentamente.

— Foram eles, suponho. — disse seriamente.

— Sim. — respondeu – Ainda não consegui quem tirasse as balas e curasse isso aí.

— Isso é ruim, mas também é bom. Mandarei um dos meus subordinados fazer um desenho do ferimento e tirar as balas, para compararmos com as das armas dos Jones.

— O que for preciso tenente. — ela suspirou – Eles estão fazendo acusações contra mim.

— Vamos ver quem as evidências acusam. — falou com sobriedade – Agora, comandante, pode me dizer o que aconteceu?

Lina recontou toda a história. O tenente ouviu tudo atentamente, fez diversas perguntas e depois fez um sinal para uma moça loira que estava próxima para que ela analisasse o ferimento de Lina. Os três foram então para uma sala reservada, onde a moça desenhou o ferimento de Lina, sob o olhar atento do tenente, e depois tirou as balas de chumbo uma por uma.

— Já estão inflamando. — avisou a moça – Precisa cuidar disso logo.

— Cuidarei. — garantiu Lina.

— Você foi atingida por chumbo e passou amanhã toda com ele no corpo. Isso pode envenená-la. — insistiu ela.

— Tomarei uma poção de cura quando isso acabar. — reforçou a comandante.

O tenente se aproximou das duas e olhou o ferimento de Lina bem de perto. Depois, passou a analisar as roupas que ela usava.

— Você estava usando essas roupas pela manhã? — perguntou Horatio.

— Sim.

— Vamos precisar delas. — avisou.

Depois que a moça tirou todas as balas, cinco no total, passou um unguento que aliviou um pouco da dor de Lina, antes de enfaixar novamente o ferimento. Lina vestiu uma roupa limpa e entregou a usada a Horatio. Depois, falou com Fábio e pediu uma poção de cura, mas ele só tinha das mais fracas, usadas por aventureiros iniciantes. Lina não se importou e comprou várias. Tomou uma, sentindo que ela apenas diminuiu um pouco o latejar do ombro e foi em direção ao quarto que tinha alugado. Deitou na cama de bruços, tentando não bater no local ferido e fechou os olhos. Dormiu rapidamente, exausta e dolorida, sem sequer se dar conta que nada comera naquele dia e que a falta de apetite já era um indício que algo não ia bem no seu corpo.

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Um barulho alto e agudo tirou Aethas do sonho maravilhoso que ele sonhava. Acordou assustado e sobressaltado, até ver que seu sonho era, pelo menos em parte, realidade. Vivithi estava dormindo sobre seu peito, abraçada ao seu corpo, e não acordou com o repentino barulho. Ele sorriu, passou a mão delicadamente no cabelo dela, desejando que seus sonhos sempre virasse realidade assim tão rápido. Sim, era com ela que Aethas sonhava e, a única diferença de seu sonho, era que em seu mundo onírico Vivithi estava acordada, sorria e lhe dizia que estaria sempre ao seu lado. No mundo real, infelizmente, o mago sabia que não seria tão simples.

O barulho soou mais uma vez e Aethas percebeu que era a campainha de sua casa. Irritado, desvencilhou-se suavemente de Vivithi, com cuidado para que ela não acordasse, pegou a calça do seu pijama, vestiu-a e saiu do quarto, decidido a ser bem grosso e mal educado com quem quer que estivesse atrapalhando seu feriado. Quem, pela Nascente do Sol, teria a audácia de lhe incomodar daquela forma? Desceu as escadas rapidamente, ainda descalço, e abriu a porta de supetão, com a cara de poucos amigos.

Modera estava parada na frente de sua porta, com a mão estendida para apertar a campainha mais uma vez e ficou visivelmente constrangida ao perceber os trajes nos quais seu colega de Kirin Tor estava.

— Aethas! — exclamou ela corando e tentando olhar apenas para seu rosto – Eu estava quase desistindo, toquei tantas vezes e você não veio!

O elfo passou a mão no rosto, tentando espantar o sono e a raiva e perguntou sem muita paciência:

— O que você quer Modera? Hoje é feriado, o conselho não se reúne!

A mulher ficou perplexa com a forma que fora tratada. Aethas nunca fora rude ou deselegante com ela antes e aquela reação lhe causava muito espanto.

— Vejo que se esqueceu do almoço dos conselheiros hoje. — disse com um certo grau de frieza em sua voz.

Por um momento Aethas não soube a que ela estava se referindo, e então lembrou. O líder do Kirin Tor, Rhonin, tivera a ideia de marcar um almoço especial com o conselho para o feriado do Véu de Inverno. Sua proposta era que usassem aquele momento para se confraternizar e também esquecer as diferenças que haviam entre eles. Na opinião de Aethas se configurava apenas em um mecanismo de controle por parte dele, já que, se houvesse esse evento, os demais conselheiros se viam na obrigação de ir em vez de visitarem suas famílias em suas respectivas facções, ou, pelo menos, encurtar a visita, restringindo-a à véspera do feriado. O elfo havia confirmado que compareceria, mas a aparição de Vivithi na noite anterior havia abolido tal coisa de sua mente.

— O almoço… — murmurou perdendo um pouco da postura defensiva – Esqueci completamente.

— Esqueceu? — surpreendeu-se Modera franzindo a testa – Ora, Aethas, você nunca esquece os compromissos com Kirin Tor! Por acaso aconteceu algo que demandou sua atenção? Uma viagem para fora da cidade, talvez?

A desconfiança na voz da arquimaga pôs fim a qualquer sono que Aethas sentisse naquela hora. Era óbvio que Modera imaginava que ele estivera em Luaprata na noite anterior e por isso evitara o evento na casa de Rhonin e Vereesa. Talvez supusesse que os evitara para que eles não vissem nenhum resquício de magia de transporte em sua aura. Por um momento, ele teve vontade de xingá-la e mandá-la embora, mas respirou fundo e pôs um frio sorriso no rosto.

— Não, Modera, eu não sai de Dalaran na noite anterior. Se estiver desconfiada, pode fazer o rastreamento de magia na minha casa, não me importo. — e abrindo mais o sorriso, continuou – Lamento ter perdido o almoço, mas eu tive contratempos.

Modera estreitou os olhos.

— Que tipo de contratempos o impediu de se reunir a nós?

Aethas abriu a boca para dizer que não era da conta dela, mas nem precisou. Algo às suas costas chamou a atenção de Modera, que ficou ruborizada imediatamente. Ele nem precisou olhar para trás para saber o que era. Ou melhor, quem era.

Vivithi acordara pouco depois da saída de Aethas e seu primeiro pensamento fora que ele a deixara jogada ali. Xingou-o mentalmente por tê-la deixado sozinha e já planejava como chutaria sua bunda até Luaprata por ter feito isso, quando ouviu vozes lá embaixo. Lembrou de ter ouvido algo parecido com uma campainha e percebeu que alguém fora até a casa de Aethas. Foi até a porta do salão, abriu-a e aguçou os ouvidos. Alguém falava com Aethas e a voz era feminina. Sentindo uma raiva inexplicável tomar conta de seu íntimo, pegou o roupão que usara mais cedo, vestiu-o e foi até a sala. Queria ver quem era a tal que estava na casa dele em pleno feriado.

Quando viu a elfa seminua na escada, Modera ficou sem voz. Não apenas porque era uma das elfas mais bonitas que já vira, mas também pela forma como ela a encarava. Havia uma raiva contida e um nítido ciúme que deixaram a arquimaga sem saber o que fazer. E o fato de ela estar praticamente nua. Sem nenhum traço de constrangimento por seus trajes ínfimos, Vivithi se aproximou da porta. O robe estava precariamente amarrado na sua cintura e mostrava a curva dos seios e as pernas bem torneadas dela, além de deixar bem claro a nudez por baixo da seda. A elfa caminhou languidamente até a porta e, sem demostrar nenhum constrangimento, abraçou Aethas e encostou o queixo no ombro dele.

— Algum problema? — perguntou ela com a voz de sono.

— Ainda não sei. — respondeu Aethas sentindo o rosto corar – A propósito, Vivithi, está é Modera. Modera, esta é Vivithi.

— Prazer. — disse Vivithi em um tom desinteressado, estendendo a mão para Modera, mas sem largar Aethas.

— Prazer… — murmurou a arquimaga pegando de leve na mão da elfa e soltando-a em seguida.

— Eu deveria ter ido a um almoço. — explicou o elfo enquanto pensava que nunca passara por um momento tão constrangedor e ao mesmo tempo feliz antes – O líder do Kirin Tor me convidou e eu acabei esquecendo.

— Então ela veio para conferir se você não tinha fugido para Luaprata? — perguntou a elfa com um leve tom crítico na voz.

Aethas riu porque não conseguiu pensar em uma resposta que pudesse dar sem gerar um conflito diplomático. Para sua sorte, a própria Modera respondeu:

— Claro que não foi por isso! — exclamou sentindo-se insultada – Apenas vim conferir se Aethas estava bem! Ele não costuma se ausentar dos compromissos do Kirin Tor!

— Posso lhe garantir, com toda certeza, que ele está muito bem. — Vivithi passou a mão pelo peito de Aethas, que estremeceu – Não precisa se preocupar.

— Percebe-se… — murmurou a arquimaga.

Perguntando-se como chegara naquela situação tensa e embaraçosa em pleno Véu de Inverno, Aethas entendeu que tinha que dar um jeito naquilo. Pigarreou educadamente e colocou a mão sobre a de Vivithi, antes de encarar sua colega.

— Transmitirei minhas sinceras desculpas a Rhonin o mais rápido possível. — disse educadamente – Peço desculpas a você também, Modera, se fui rude mais cedo. Eu realmente não estava esperando visitas.

A postura de Modera relaxou um pouco.

— Desculpas aceitas, Aethas.

— Bem, se vocês já terminaram… — disse Vivithi impaciente – Podemos voltar para o quarto, Aethas? — e deu um beijinho no ombro dele.

O rosto do arquimago ficou da cor de seus cabelos e ele gaguejou ao perguntar:

— M-mais alguma coisa, M-Modera?

Com a expressão de quem queria sair correndo dali, a arquimaga fez que não com a cabeça.

— Até mais, Aethas. — e acenou com a cabeça para Vivithi – Senhorita. — e virou as costas, saindo andando o mais rápido que a educação permitia.

Sentindo um alívio imenso, Aethas fechou a porta. Pensando que estava tudo tranquilo, ele virou-se para Vivithi com um sorriso no rosto, que morreu ao ver a expressão da elfa. Ela havia mudado totalmente de uma lânguida calma para uma raiva explosiva. Cruzou os braços e ergueu o queixo, desafiadora.

— Quem era aquela lambisgoia? — questionou sem rodeios.

— Modera. — respondeu se sentindo acuado – Arquimaga Modera. Uma das conselheiras do Kirin Tor.

— E o que diabos ela veio fazer na sua casa em pleno feriado?! — Vivithi estava muito mais que irritada, ela estava uma fera.

— Eu já disse, esqueci do almoço na casa de Rhonin. — justificou-se apressado – Ela provavelmente veio bisbilhotar se eu tinha ido a Luaprata. Só isso.

— Então você dá liberdade para suas amiguinhas do Kirin Tor virem quando bem entenderem a sua casa, Arquimago Aethas?!

Não demorou para que Aethas percebesse que todo aquele questionamento de Vivithi era puro e simples ciúmes. Teve que se segurar para não sorrir que nem um bobo e manter a expressão séria. Se começasse a rir do questionamento de Vivithi, era provável que ficasse sem dentes.

— Eu estou tão surpreso quanto você. — disse conciliador – Modera só veio uma vez na minha casa e foi quando os elfos entraram na Horda. Se ela veio até aqui, não foi por iniciativa própria. Alguém a enviou.

Aquela explicação bastou para aplacar um pouco a fúria de Vivithi. Apenas um pouco. A elfa o olhou de cima abaixo e descruzou os braços. Satisfeito, Aethas estendeu a mão para Vivithi que, relutantemente, a aceitou. Então, ele a puxou para um profundo e demorado beijo. Depois, a afastou com delicadeza e colocou uma mecha de seu cabelo prateado atrás da orelha. Ficou satisfeito por não levar um murro no nariz.

— Está com fome agora? — perguntou carinhosamente.

— Estou. — admitiu Vivithi a contragosto – Eu comeria você.

— Posso ficar para a sobremesa. — brincou sorrindo – Quer comer algo aqui ou quer sair?

A elfa franziu a sobrancelha.

— Minha roupa se restringe à capa que usei ontem. Há algum lugar que possamos ir que me deixe entrar naqueles trajes?

— Melhor eu fazer alguma coisa. — decidiu o mago – Venha.

A despensa da casa de Aethas sempre estava cheia e ele logo achou tudo que precisava para fazer uma refeição rápida e deliciosa para Vivithi. Para que ela relaxasse de vez e parasse de lhe lançar olhares desconfiados, abriu mais um vinho e serviu com torradinhas e queijo para a arisca patrulheira. Vivithi passou a bebericar a bebida enquanto Aethas preparava a refeição habilmente. Apenas no segundo gole foi que Vivithi percebeu o quão incomum era aquela situação. Jamais sentara na cozinha de nenhum elfo e esperara ser alimentada. Depois do sexo, apenas ia embora. Tomou mais um gole da bebida, se perguntando se não devia se levantar e sair, mas seu estômago reclamou. E depois de tudo que revelara na noite anterior, aceitar uma refeição de Aethas não era nada.

Recorrendo de suas habilidades arcanas para animar facas, panelas e ingredientes, Aethas não demorou para preparar uma refeição rápida, porém saborosa para sua faminta visita. Eles não conversaram durante o processo de preparo nem quando ele pôs os pratos na mesa e começaram a comer. Tinha que admitir, acertara em cheio no ponto da carne e tudo estava saboroso. Vivithi provavelmente achara a mesma coisa, pois não reclamou nem um só momento. Comeram tudo e o elfo lembrou que comprara uma torta de chocolate no dia anterior. Serviu uma generosa fatia junto com uma bola de sorvete a Vivithi, cuja tensão sumira completamente. Foi quando repetia novamente a sobremesa que o assunto Kirin Tor veio a tona.

— Isso será um problema para você, não é mesmo? — perguntou ela.

— Não vejo porque. — respondeu tranquilamente – A minha vida sexual nada tem a ver com o Kirin Tor.

Vivithi pegou mais uma colherada da sobremesa antes de falar:

— Talvez não, se eu fosse dos Fendessol, mas eu não sou.

— Isso continua não sendo da conta deles. — retrucou suavemente – Quer mais sorvete?

— Quero. — ela esperou que ele colocasse mais uma bola de sorvete em sua taça e tornou a falar – Sendo pau no cú como o Kirin Tor é, essa humana feia e velha provavelmente vai correndo contar a alguém sobre a elfa misteriosa com o poderoso Aethas Fendessol. — ela não se importou com a risada que ele deu e continuou – Não será difícil descobrir que não sou daqui. Isso será apenas munição contra você.

— Eles já tem munição suficiente contra mim só pelo fato das meninas serem realeza agora.

— Verdade, mas duvido que eles se restrinjam a isso. Vão atrás de algo para lhe incriminar, tenho certeza.

Aethas a olhou por um momento antes de perguntar:

— Está preocupada com minha segurança? — seu tom era divertido.

Se ainda estivesse com fome e irritada, provavelmente Vivithi teria enfiado sua colherzinha de sobremesa no olho dele. Porém, estava bem alimentada e comendo chocolate e sorvete, então ela se restringiu a girar os olhos, irritada.

— Se você cair, a Horda não terá mais um representante aqui dentro. Por mais que eu deteste esses humanos, nossa posição aqui é importante para manter o equilíbrio.

Recostando-se à cadeira, Aethas suspirou, sabendo que ela tinha razão. Ainda assim, não via motivos para se preocupar. Na verdade, duvidava que Modera fosse dizer para qualquer um o que vira. Dificilmente admitiria para alguém que o flagrara quase sem roupa. Além do mais, apesar das desavenças, os dois tinha muito respeito pelo trabalho um do outro e Modera sabia da importância de manter a Horda ali. Melhor ter o inimigo a vista do que escondido.

— Eu não cairei porque Modera te viu comigo aqui uma vez. — respondeu.

— E se ela me ver aqui mais vezes? — perguntou.

O coração do mago acelerou e ele prescrutou os olhos de Vivithi por um momento. Será que… Será que ela pretendia ir vê-lo mais vezes? A possibilidade o encheu de alegria e ao mesmo tempo de apreensão. Se Vivithi ia visitá-los, isso os deixava como? Afinal, ela fora clara ao dizer que eles não poderiam ter um relacionamento. Então, o que ela queria?

Vivithi não precisava ler mentes para saber exatamente o que Aethas estava pensando, nem que queria uma posição dela. Estava claro para os dois que um relacionamento estava fora de questão, então, o que seria?

— Se você vier mais vezes aqui, continuará não sendo um problema. — falou ele por fim – Prefiro enfrentar o Kirin Tor e manter minha vida pessoa fora do alcance deles.

Ficaram em silêncio por um momento e Vivithi voltou a comer sua sobremesa. Ficaram assim por um tempo, até que Aethas decidiu deixar as coisas claras entre os dois.

— Eu não me importo de não termos um relacionamento convencional. — disse ele por fim – Eu só… Só quero poder lhe ver.

Sentindo-se atingida por aquelas palavras. Vivithi desviou a vista para suas mãos e a esperança de Aethas murchou.

— Aethas… — começou – Você sabe que não poderei retribuir seus sentimentos. Que, se continuarmos a nos ver, será apenas sexo e nada mais.

— Eu sei.

— E mesmo assim você quer? Mesmo… Mesmo que isso possa magoar você?

— A dor de não poder lhe ver será muito maior do que qualquer coisa que você faça. — respondeu com tranquilidade – Eu já estou acostumado a ficar sozinho, Vivithi. Se eu puder ter, pelo menos, a esperança de lhe ver, de ficar com você só um pouco, isso já me fará muito feliz.

Por um momento Vivithi o encarou, mas depois olhou novamente para suas mãos. Viu os calos e as cicatrizes nelas e lembrou de todas as batalhas que já enfrentara. Nunca, em nenhuma delas, se sentiu tão exposta, tão vulnerável. A melhor saída para ela e Aethas seria não se encontrarem mais, ela sabia. Ele também sabia. Mas, tinha que admitir, era algo que nenhum dos dois queria. Levantou os olhos e o encarou novamente.

— Como posso fazer para vir te visitar sem levantar suspeitas?

Uma alegria imensa se apossou do peito de Aethas, mas ele apenas sorriu de leve, para não assustá-la. Se fosse dar vazão a tudo que sentia, iria pegá-la nos braços, beijá-la e sair dançando com ela por toda Dalaran. Por isso, limitou-se a sorrir brevemente.

— Você tem uma pedra de retorno, suponho. — falou ele.

— Tenho.

— Vincule-a à estalagem “O Animal Imundo”. Uda nunca entregaria a vinda de ninguém da Horda ao Kirin Tor. Lhe darei um orbe de comunicação e você poderá me avisar quando virá. Nos encontraremos na estalagem. Eu costumo passar sempre por lá para resolver alguma pendência, então ninguém estranhará. Depois, é só abrir um portal para você voltar a Luaprata. — ele deu de ombros – Eu preferiria te encontrar aqui em casa, mas será mais seguro para nós dois assim.

— O Animal Imundo, hein? — Vivithi fez uma careta – Que nome horroroso! Espero que as acomodações sejam melhores que o nome.

— Nunca ouvi ninguém reclamar de nada, a não ser do nome. Coisa de orc. — Aethas deu de ombros – O único que eu conheço com bom gosto é Tewdric.

— Seu amigo do peito. — ela riu.

— Meu amigo do peito. — concordou.

Sorriram um para o outro, meio sem jeito, percebendo o quão estranha era a situação de ambos. Porém, não discutiriam sua situação naquele dia. Nem por um bom tempo. Somente três anos depois, em uma situação tensa e complicada, é que os dois voltarão ao assunto, bem longe dali, em Luaprata. Só que aquele momento ainda demoraria e muita coisa mudaria entre eles e dentro deles. Por enquanto, tudo o que pensavam era em voltar para o quarto e continuar o que haviam começado mais cedo.

— Ainda tem cristais de mana? — Vivithi perguntou.

— Tenho. — respondeu Aethas.

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— Vamos lá para cima então? — propôs a elfa abrindo levemente o robe.

Aethas sorriu.

— Claro. Vamos.

Os dois deram as mãos e seguiram para o salão no primeiro andar, tirando totalmente o Kirin Tor e Modera de seus pensamentos.

*******************************

Arshe estava em um pequeno dilema: deveria voltar a ler os diários de seu pai ou visitar Doroteya? Dividida entre a curiosidade de saber o que seu pai escrevera durante aqueles anos e a vontade de ver Theo e Doroteya, a princesa hesitou um pouco, mas, por fim, decidiu fazer a visita. Os diários estariam no mesmo lugar quando voltasse e seria bom dividir a alegria de ter um pouco mais do pai com alguém. Por isso, a tardinha, quando não precisava mais fazer sala para as convidadas de Guilneas, ela abriu um portal e foi parar bem perto da casa da comandante. Se estivesse ali, Lina diria para ir a cavalo e levar guardas para protegê-la, mas Lina não estava e Arshe achou que seria uma perda de tempo fazer isso já que podia simplesmente se teleportar.

A neve na rua da casa da comandante não havia sido tirada como fora a da Bastilha e Arshe chegou a escorregar algumas vezes enquanto tentava chegar ao seu destino. Conseguiu chegar até a varanda sem cair e respirou fundo. Reclamaria ao seu tio que o serviço de colocar sal na neve não estava muito eficiente por aquelas bandas e bateu à porta com vontade. Em pouco tempo a porta se abria, mas não era Doroteya nem Theo quem a abrira.

— Vossa alteza! — disse Tommy alegremente – Que surpresa!

Pela expressão de Arshe, quem estava surpresa era ela.

— Vocês já voltaram? — perguntou esticando o pescoço para ver além dele – Cadê a Lina?

— Só eu voltei. — explicou um pouco envergonhado – É uma longa história. Entre. Está frio aí fora.

A princesa entrou, bateu os pés para tirar a neve e Tommy a ajudou a tirar a capa. Logo Theo apareceu na sala para ver quem chegara e abriu um imenso sorriso ao ver Arshe.

— Tia Arshe! — e correu para abraçá-la.

— Theo!!! — ela se abaixou e deu um apertado abraço no menino – Que saudades! Gostou do meu presente?

— Eu adorei! — disse com sinceridade – Eu e Tommy vamos fazer as pipas mais tarde!

— Que bom! — ela o apertou mais uma vez – E sua mãe, cadê?

— Na cozinha!

Agarrada ao menino, Arshe foi até a cozinha, onde um cheiro maravilhoso de café dominava. Doroteya sorriu quando a viu e largou a chaleira para lhe dar um abraço.

— Feliz Véu de Inverno! — disse a druidesa.

— Feliz Véu de Inverno! — respondeu a princesa – Que cheiro bom de café!

— Espere só um segundinho que já sirvo!

— Tia, tia! Vem ver o que ganhei! — chamou Theo puxando pela mão de Arshe.

— Ah, claro, vamos, vamos!

E enquanto Theo mostrava tudo que ganhara a Arshe, Tommy e Doroteya ajeitavam a mesinha da sala para que pudessem tomar café nela, perto da lareira. Depois, se sentaram no sofá, cada um com uma xícara fumegante, e passaram a conversar sobre a noite anterior e a misteriosa aparição de Tommy.

— Nunca vou entrar aqui de mansinho, nem que esteja preparando uma surpresa. — afirmou Arshe convicta, arrancando risos de Tommy – É perigoso.

— Eu tomei um susto grande. — garantiu Tommy.

— Eu quem tomei um susto! — defendeu-se Doroteya – Imagine, eu sozinha aqui com meu filho e vejo um vulto suspeito andando pelo quintal!

— Minha culpa. — admitiu o homem – Eu devia ter chamado na porta e só quando visse que vocês estavam dormindo ter me aventurado no quintal.

— Eu não me aventuraria nem se ela estivesse dormindo! — Arshe franziu a testa – Imagina se ela é sonâmbula!

Isso arrancou mais risadas de todos.

— Tenho uma coisa maravilhosa para dizer. — anunciou a princesa colocando a xícara de café na mesa – Eu finalmente abri o baú de meu pai.

Doroteya e Lina já tinham ouvido falar do baú de Bolvar Fordragon e como Arshe tinha receio de abri-lo. As duas, inclusive, a incentivaram muito a perder aquele medo e se reencontrar com as lembranças do pai. Por isso, a druidesa ficou muito feliz quando ouviu que a princesa havia perdido o medo e conseguira enfrentar os fantasmas do passado.

— Não gosto muito de admitir, mas vocês estavam certas. — Arshe fez uma careta, mas ria – Eu chorei muito, mas foi bom. Principalmente, porque encontrei os diários de meu pai.

— Sério? — perguntou a druidesa.

— Isso. Eu nem sabia que ele fazia diários. — ela suspirou – Tudo que ele escreveu sobre mim é tão lindo… Gostaria de ter visto a mais tempo…

Os olhos azuis brilharam em lágrimas e Theo logo correu para pegar um lenço e dar para sua tia postiça. Arshe aceitou, enxugou os olhos e passou a mão na cabeça do menino.

— Obrigada, querido.

— Papai também tinha diários, mamãe? — quis saber.

— Não querido. — respondeu Doroteya – Seu pai preferia guardar os segredos dele para ele mesmo.

— Ahh… — o menino parecia decepcionado – Queria ver o que ele tinha a escrever de mim…

— Bem, provavelmente teria lá o quanto ele te amava. — disse Tommy sorrindo para o menino – E o quanto amava sua mãe.

Theo sorriu animadamente e se jogou em cima de Tommy, que percebeu que Doroteya e Arshe talvez precisassem de um momento só delas. Por isso chamou:

— Ei, vamos construir aquele boneco? Atrás da casa ainda tem muita neve.

— Na frente também. — disse Arshe – Escorreguei várias vezes até chegar aqui.

— Vou dar um jeito nisso daqui a pouco. — garantiu Tommy.

— Oba!! Boneco!! — Theo animou-se logo com a perspectiva da brincadeira.

Logo os dois saíram e deixaram as amigas a sós. Doroteya ofereceu um pedaço de bolo a Arshe, que aceitou.

— Está uma delícia! — elogiou devorando-o em pouco tempo.

— Foi Tommy quem fez hoje de manhã. — Doroteya pegou um pedaço para ela própria.

— Você o assustou mesmo ontem. — a maga se serviu de mais um pedaço de bolo – Mas isso não será nem perto do medo que ele vai sentir da Lina quando ela voltar. Nossa, essa fuga dele foi meio louca.

— Foi sim, mas no final, até gostei. Theo ficou muito feliz e hoje ele nos levou para patinar.

Arshe parou com o pedaço de bolo bem perto da boca e o baixou, apreensiva.

— Vocês foram patinar onde? — perguntou tensa.

— No lago Olívia. — explicou Doroteya ficando tensa também – Por que?

Mas ao ouvir o nome do lago, Arshe relaxou.

— Ah, então está tudo bem. — e diante do olhar aflito da outra, explicou – É que hoje mais cedo, Greymane saiu de casa também e ninguém sabe para onde ele foi. Ele tinha sonhado com Liam ou coisa assim. Fiquei um pouco preocupada, mas está tudo bem. Nenhum nobre vai no Lago Olívia.

Doroteya nem precisa perguntar o porque. Vira o lago pela manhã e percebeu que ali eram onde os camponeses e as pessoas comuns iam. Um nobre jamais estaria lá. Além do mais, passara toda a manhã no lago e nada aconteceu. Ela, Theo e Tommy voltaram são e salvos para casa, e como tinha começado a nevar, Tommy deixara para ver sua casa em outro momento. Comeram as sobras do jantar e se divertiram. O fato de Greymane ter saído mais cedo e ela não o ter visto reforçava a ideia que trazer Theo para ali não era tão perigoso quanto pensava. Aquilo lhe dava um alívio. Estava aprendendo a amar Ventobravo.

— Por que nenhum nobre vai ao Lago Olívia? — perguntou Doroteya curiosa – É desde sempre ou é só porque não querem se misturar?

— Sei lá, um pouco dos dois, acho. — Arshe deu de ombros – Eu posso lhe garantir que eu não tive esse problema, meu pai me levou várias vezes lá. Dizia que eu devia conhecer crianças de todas as classes e que não era problema nenhum ser camponês.

— Seu pai parecia ser um homem maravilhoso. — disse Doroteya – Gostaria de tê-lo conhecido.

— Era sim. — a jovem deu um sorriso triste – Ele teria gostado de você. Teria gostado também de me ver fazendo amizades. Eu sempre tive um problema com as nobres, sabe, muita futilidade. Quer dizer, eu tive minha fase fútil, mas passou logo depois de umas boas broncas. — ela riu – Mal posso esperar para voltar a ler os diários…

— Então, porque não ficou na bastilha lendo? — perguntou confusa – Poderia nos visitar depois.

Arshe balançou a cabeça em negativa.

— Queria ter certeza que estava tudo bem. — explicou – A saída de Greymane me deixou com um pé atrás. Eu não ficaria satisfeita se não conferisse vocês dois.

Doroteya sorriu com doçura e segurou a mão de Arshe, que a apertou com delicadeza. As duas se olharam e sorriram.

— Obrigada. — agradeceu a druidesa – Pela preocupação. Se quiser, pode ir ler os diários de seu pai.

Para sua surpresa, Arshe fez que não com a cabeça.

— Agora que estou aqui, quero é aproveitar esse café e esse bolo ai. E depois, acho que vou me juntar a Theo e construir um boneco de neve. Faz anos que não faço isso. — os olhos dela brilharam, em uma expectativa quase infantil – Os diários podem esperar.

— Tudo bem. Mas quando você for, eu vou te deixar em casa. Você sabe o que a Lina vai dizer quando souber que você veio aqui sem escolta?

Arshe deu um imenso sorriso para Doroteya

— Só vai saber se você contar… — disse batendo as pestanas.

Doroteya riu.

— E todos os guardas da Bastilha, por acaso eles não vão dizer que você saiu sozinha por teleporte e ninguém conseguiu convencê-la do contrário? — Doroteya bateu as pestanas também para Arshe.

— Droga! — a princesa bufou – Não tinha pensando nisso! — depois, deu de ombros – Bem, já estou aqui mesmo, e cheguei inteira, ela vai levar isso em consideração. — deu uma pausa onde continuou a comer o pedaço de bolo que ainda estava na sua mão, mas logo disse – Poxa, só faz dois dias que a vi mas já estou morrendo de saudades!

— Eu também. — confessou Doroteya – Lina faz falta.

— Aquela Bastilha parece imensa sem ela. — a princesa suspirou – Bem que ela podia fugir que nem o Tommy e vir embora, né?

A druidesa sacudiu a cabeça, em negativa.

— Lina jamais faria isso. — garantiu convicta – A não ser que algo muito grave acontecesse.

— É mesmo. — concordou – Então é melhor ela ficar por lá. Faltam só mais três dias, dá pra aguentar a saudade. E quando ela voltar, teremos muita coisa para conversar, tenho certeza. — a princesa levou o dedo ao rosto e bateu no queixo – Será que meu pai fala da Lina nos diários hein?

— Deve falar, ela foi pupila dele, não é? — perguntou.

— Verdade.

E depois passaram a conversar sobre como deveria ser Lina na juventude, antes de decidirem se juntar aos dois meninos, um grande e um pequeno, lá fora, na construção do boneco de neve. Nenhum deles, nem no mais profundo pesadelo, imaginava o que acontecera com Lina naquela manhã. Jamais poderiam supor que, aquela hora, ela dormia um sono agitado, dominado pela dor e que uma estranha febre tomava conta de seu corpo a medida que o chumbo se infiltrava em sua corrente sanguínea.

*************************

O bosque da Torre Solfúria parecia um cenário saído dos contos de fadas: o chão estava branco pela neve, as árvores sem folhas lançavam seus galhos ao céu e a luz do sol os faziam parecer prateados. Um coelho saltou inesperadamente para depois sumir na neve. Ash estava encantada em como o inverno transformara aquela parte de Luaprata em um lugar de sonhos ao mesmo tempo que torcia para que ali não se tornasse o local de seus pesadelos.

Lor’themar andava ao seu lado, mas ainda não tinha dito nenhuma palavra. Ash se perguntava o que ele estava esperando para dar a resposta, mas não conseguia pedir que lhe respondesse logo. A raiva da noite anterior tinha se aplacado um pouco e agora havia um pouco de medo dentro do coração da jovem elfa. Poderia estar a um passo de sua primeira decepção amorosa na vida ou a um passo de uma alegria e conquista imensurável. E por mais que quisesse abreviar a espera, sua boca estava seca e tudo que conseguia era andar junto a Lor’themar e aguardar sua fala.

— Há um local por aqui que quero lhe mostrar. — disse ele inesperadamente – Espero que ainda esteja de pé.

Ash nada falou, apenas afirmou com a cabeça. Agora, além de nervosa, estava curiosa.

Andaram um pouco mais até que chegaram em uma clareira no meio do bosque. No centro dessa clareira, um belo coreto repousava coberto pela neve. Ele era dourado, mas já estava bem castigado pelo tempo. Lor’themar se aproximou dele e tirou a neve do corrimão. Ofereceu a mão para Ash, para ajudá-la a subir os degraus congelados e a jovem aceitou. Dentro do coreto havia pouca neve e Ash passou a observar toda sua estrutura, admirada com a perfeição dos detalhes de sua construção. Como nunca tinha visto aquele lugar durante o tempo em que estava ali?

— Era nesse local que sua avó fazia as apresentações para o rei, a rainha e uns poucos privilegiados. — revelou Lor’themar – Esse coreto foi construído especialmente para ela. — o elfo deu uma risada sem graça – Depois de tudo que sei, fico impressionado com a cara de pau do rei Anasterian.

— Ele construiu antes ou depois do papai nascer? — quis saber a jovem.

— Antes.

Balançou a cabeça, como se aquilo não fizesse sentido.

— Será que a rainha nunca desconfiou? — perguntou Ash admirada.

— Nunca saberemos a resposta. — disse dando de ombros – Mas acho difícil de ela saber, nunca houve sequer um boato sobre os dois. Acredite, meus pais teriam comentado algo. Se bem que… — ele colocou a mão no queixo – Lembro de eles terem reclamado em uma ou outra ocasião que os consertos do coreto ficaram cada vez mais raros depois do nascimento de Dhomm. — ele a olhou – Talvez sua avó tenha se cansado de se apresentar para o rei, depois de tudo que aconteceu.

Ash se aproximou da abertura do coreto e imaginou sua avó ali, centenas de anos atrás. Imaginou ela gesticulando enquanto cantava, tal como seu pai fazia, e vendo o amor de sua vida ao lado de outra pessoa. Talvez o rei e a rainha tenham se beijado durante alguma de suas músicas. Não tinha ideia de como ela suportou tudo por tanto tempo. Era uma elfa e tanto.

— Você acha que ela morreu de tristeza mesmo, como todos dizem? — questionou.

— Acho que a tristeza contribuiu muito para a morte dela. — supôs o elfo – Dhomm me disse certa vez que fora a tristeza quem atacara os pulmões dela e que ela não lutou contra a doença. A aceitou e deixou-se ser consumida. Eu conheci Lady Luelly e não a vejo desistindo de viver. Porém, eu não vivi sua dor. Não sei o que é viver ano após ano amando alguém, sabendo que esse alguém a ama mas não podendo ficar juntos. — ele suspirou – Deve ter sido enlouquecedor. Talvez se não fosse Dhomm, ela tivesse morrido antes. Quem sabe?

— O amor pode machucar. — disse ela o encarando.

Lor’themar sustentou o olhar dela por um tempo e depois concordou com a cabeça.

— Está certa. — disse – Pode sim.

Ficaram em silêncio e Ash se encostou no coreto. Lor’themar se postou ao seu lado e ela teve certeza que ele podia ouvir o seu coração batendo forte.

— Hoje eu visitei o túmulo de seus pais. — revelou.

Ash virou-se bruscamente para ele, com os olhos arregalados e incrédulos. Lor’themar continuava impassível.

— Você sabe onde é? — perguntou num misto de curiosidade e ansiedade – Pode me levar lá?

Aparentemente a revelação de Lor’themar esvaziara sua mente para qualquer outra coisa.

— Como assim? — estranhou ele – É bem próximo a casa de campo. Nunca te levaram lá?

— Só no enterro, mas não consigo lembrar de muita coisa. — admitiu – E lembre que passamos anos sem ir na casa de campo. Lux não queria voltar lá.

— Havia velas mágicas lá e estava limpo. Acho que Kassyeh o visita regularmente.

No primeiro momento Ash ficou com raiva de Kassyeh por ter escondido isso dela, mas lembrou que até bem pouco tempo atrás, Lux sequer queria falar dos pais. Talvez sua irmã não quisesse levá-la com medo das reações que teria ou das reações que Lux teria se soubesse que a levara até lá.

— Quer que eu a leve lá agora? — perguntou Lor’themar.

Ash queria e quase pediu que fossem. Mas desistiu em seguida. O mausoléu podia abrigar os corpos de seus pais, mas eles não estavam realmente lá. Talvez fosse, um dia, quando a neve não caíssem pelos campos e houvesse mais luz. Se fosse visitar seus pais, seria em um dia luminoso de verão, como os dias felizes em suas memórias.

— Não. — respondeu por fim – Eles… Eles não estão realmente lá… Mas eu gostaria de ir um dia, mas não hoje.

Ele lhe deu um sorriso compreensivo antes de falar:

— Quando quiser ir até lá, eu a levarei.

Ash assentiu.

— Mas porque você foi até lá? — quis saber a jovem – Tipo, é um costume, você sempre vai?

— Eu queria que fosse. — disse com um tom triste – Mas sinto dizer que, como você, não fui lá desde o funeral. Porém, diferente de você, não tenho a infância e a ignorância como motivo. Eu estava com vergonha.

— Vergonha? — estranhou Ash.

— Vergonha por ter permitido que isso ocorresse. Eu… Eu deveria saber que a Aliança poderia atacar… Eu deveria… — a voz dele ficou embargada e Lor’themar se calou por um momento. Ash esperou que ele se recuperasse e então, já de controle de suas emoções, ele continuou – Eu deveria ter evitado o que aconteceu. — concluiu, por fim.

Era estranho que, no dia que Lor’themar tinha que lhe dar a resposta, ele decidira visitar o túmulo de seus pais. Ash não sabia que significado tinha isso e se perguntava o quanto aquela emoção que ele demonstrara ao falar sobre a visita afetaria sua decisão.

— Não é sua culpa. — disse ela por fim – Você não empunhou as armas que os mataram. Os humanos são culpados. — e dando uma pausa, completou – E você os vingou não é? Você matou os assassinos. Se não fosse você, eles teriam matado a Lux depois de… De… Você sabe… — a voz dela morreu.

— Eu me agarro a isso para continuar dormindo a noite. — revelou o elfo.

Se encararam por um tempo e Ash sentiu que estava na hora de pôr um fim a sua espera. Cobraria sua resposta. Abriu a boca, mas Lor’themar levantou a mão, pedindo para falar algo. Ash apertou os lábios e assentiu.

— Você deve estar se perguntando porque eu te trouxe aqui e estou contando essas coisas. — começou.

— Porque eu lhe exigir uma resposta e você deve me dá-la. — retrucou ela, interrompendo-o – E agora está apenas me enrolando.

Para sua surpresa, Lor’themar riu alto. Ash estreitou os olhos, irritada, e ele logo parou de rir.

— Você não sabe como fica parecida com a Lux quando faz essa cara. — disse ele um pouco impressionado.

— Temos o mesmo gênio ruim. — se defendeu a jovem elfa.

— Oh, tem mesmo. — concordou – Mas, o que eu quis dizer é: eu poderia ter conversado com você na Torre, mas decidi vir aqui. Isso não lhe parece estranho?

Ash pensou um pouco e balançou a cabeça negativamente.

— Você queria evitar a possibilidade de eu começar a chorar e Tewdric decidir te partir no meio. — respondeu.

O elfo riu novamente.

— Confesso que isso não me passou pela mente. — admitiu – Principalmente porque não pretendo fazê-la chorar.

O coração de Ash começou a bater descompassadamente no peito e ela percebeu que suas mãos tremia. Colocou-as nos bolsos e tentou manter sua expressão neutra, mas sabia que não conseguia. Sabia que estava olhando para Lor’themar com expectativa e esperança.

— Eu lhe trouxe aqui para lembrar a mim mesmo o quanto o egoísmo e o medo pode fazer uma pessoa amada sofrer. — disse colocando a mão no coreto – O rei construiu isso para sua avó por amá-la, mas não teve a coragem necessária para lhe dar o mais importante: si mesmo. No diário de sua avó, ela fala o quanto sofria cada vez que o via, e não era apenas isso. Ela sofria por saber que o rei sofria também. As convenções sociais mantiveram duas pessoas que se amavam longe uma da outra e, pela Nascente do Sol, tudo teria sido tão diferente se o rei tivesse ao menos assumido seu pai…

Ash nada falou. Continuou encarando-o, com o coração aos pulos e a alma em chamas.

— Ash… — ela estremeceu pela forma com a qual ele a chamara – Tudo que eu sentia ontem ainda sinto. Sim, eu me acho velho para você. Sim, me sinto traindo seu pai por sentir o que sinto por você. Também me sinto culpado por permitir a morte de seus pais. E mais ainda, por ter abandonado você e suas irmãs todos esses anos.

— Você não nos abandonou. — cortou Ash.

— Sim, abandonei. Você não lembra, mas antes eu estava sempre na sua casa. Eu ajudei seu pai com suas irmãs e com você. — ele soltou uma risada – Troquei muitas fraudas suas. Muitas mesmo.

O rosto de Ash ficou intensamente vermelha e ela colocou as mãos no rosto.

— Você já me viu nua! — exclamou chocada.

Agora foi impossível não cair na gargalhada. Lor’themar ria enquanto Ash continuava encabulada e extremamente constrangida.

— Você era um bebê, Ash. — disse ele – Na minha cabeça eu não estava vendo você nua, eu estava vendo um bebê sem roupa. Pra mim ainda é difícil imaginar que aquele bebê tão pequeno hoje é você.

Ash ainda não parecia convencida e franziu a testa.

— Você acabou de dizer que se acha velho e se acha traindo meu pai, mas diz que não consegue me ver como aquele bebê.

— Exatamente. — confirmou serenamente.

E foi quando Ash entendeu. Lor’themar podia sentir todas aquelas coisas, mas ele conseguira desvincular ela da sua imagem de infância. Por isso ele poderia se sentir atraído por ela, porque ela não era aquele bebê. Embora sua consciência lhe dissesse que ela era, ele não a associava ao bebê cujas fraudas trocara. A esperança voltou a crescer dentro de Ash e aumentou quando ele pegou a sua mão e a apertou.

— Eu deixei vocês à própria sorte durante esses dez anos. — seu tom era envergonhado e penalizado – Lembra quando fui até a casa de vocês falar sobre a escolha da rainha e você abriu a porta? Eu não lhe reconheci. Claro, a sua semelhança com Lady Luelly era imensa, mas mesmo assim, não fiz a relação. O mesmo quando vi Karen. Não a reconheci apesar de sua semelhança com Samanthah. Eu, que as vi nascer e ajudei a cuidar, não as reconheci mais. Isso me deixou muito mal. — ele baixou a cabeça e apertou ainda mais sua mão – Eu penso que, se eu não tivesse me afastado, talvez não tivesse me apaixonado tão desesperadamente por você.

O estômago de Ash parecia que estar cheio de borboletas imensas se debatendo lá dentro.

— Isso é tão ruim? — perguntou num fio de voz – Estar apaixonado por mim?

Lor’themar a encarou intensamente.

— Não mais. — com a mão livre, ele tirou o botão-da-paz de dentro de sua capa. Com suavidade, colocou-a no cabelo de Ash e depois segurou seu queixo com delicadeza e ergueu seu rosto – Eu não vou lutar contra esse sentimento Ash. Nunca mais.

E antes que a jovem pudesse processar suas palavras, ele a beijou.

O beijo não fora como o da noite no casamento de Kassyeh. Não. Aquele fora um beijo leve, medroso, envergonhado e muito rápido. O beijo que Lor’themar lhe dava agora era quente, intenso, e livre. Ele soltou sua mão e a abraçou com força, aprofundando o beijo. Por um momento Ash achou que suas pernas fossem falhar e ela cairia no chão, por isso também se agarrou a ele, com ansiedade. Os lábios de Lor’themar eram ávidos e ela correspondeu àquela avidez. A língua dele explorava o interior de sua boca e Ash se permitiu fazer o mesmo com ele. Sim, aquele era um beijo de verdade. O seu primeiro beijo real. Não aquele selinho tímido de meses atrás. Um beijo como os que Kassyeh e Tewdric davam. Havia desejo real ali. Desejo e paixão.

Quando o beijo acabou, Lor’themar nada disse nem a soltou. Ficou encarando-a intensamente e só depois perguntou:

— Essa resposta é satisfatória para você? — seu tom era divertido, mas com um leve tom de preocupação.

— Sim. — respondeu Ash ofegante – Uma resposta clara e concisa.

Ele sorriu.

— Acho que devo repetir a resposta, só para não ficar nenhuma dúvida. — propôs.

— Concordo.

E os lábios deles novamente se colaram e Ash teve a sensação que fora melhor que a primeira vez. Os dois se beijaram intensamente por um longo momento, até que um vento forte jogou neve neles, que se separaram, um pouco assustados. Uma nevasca estava começando e nenhum dos dois haviam percebido.

— Ah, não! — exclamou Lor’themar vendo o céu escuro e os trovões ressoarem – Venha, vamos!

Saíram correndo em disparada em direção a Torre Solfúria. A neve começou a cair, primeiro apenas alguns flocos leves, que flutuava ao redor deles, até que foi se tornando cada vez mais intensos, até que o mundo era apenas um borrão branco. Lor’themar segurava a mão se Ash com força, com medo de perdê-la naquela maré branca e gelada. Se xingou várias vezes por não ter notado a tempestade chegando e só ficou aliviado quando viu as luzes da torre a sua frente. Astrogildo estava prestes a desabar com o vento e Ash olhou em volta, se perguntando onde estaria Karen, se ela estava em segurança dentro da torre. Ficou com pena ao ver o boneco desabar sobre a forte neve e nesse momento sentiu o braço de Lor’themar em sua cintura, puxando-a para a porta de vidro da torre. O elfo abriu a porta e praticamente os jogou lá dentro antes de fechar a porta.

— Você está bem? — perguntou encarando-a, afobado.

— Estou. — disse ela ofegante – Só estou congelando.

Lor’themar a abraçou com força e a beijou novamente. Eles estavam no meio do beijo quando um pigarro alto foi ouvido. Os dois congelaram. E não fora por causa da neve. O beijo acabou e os dois olharam ao mesmo tempo para o lado. Todos estavam lá. Karen e Saba os encaravam, com as bocas abertas, como se não acreditassem naquilo. Luxuriah estava com uma xícara de chá na mão e o líquido já tinha passado da borda e escorria pelo pires, pois Kassyeh, que era quem a servia, estava boquiaberta, olhando os dois. Rommath estava com um sorriso debochado no rosto e Kayliel, ao seu lado parecia surpreso, mas satisfeito. Mas foi a expressão de Tewdric que mais chamou a atenção dos dois. O orc estava atônito e tinha derrubado a xícara que estava em sua mão. Foi ele também o primeiro a se mexer. Sua mão foi direto no machado, o ergueu e deu um urro alto e raivoso.

— Eu vou matar esse elfo! — gritou avançando.

Imediatamente Ash colocou Lor’themar para trás, protegendo-o com o corpo.

— Não, Ted!

O orc estacou, ainda com o machado em punho e deu um passo para o lado, procurando uma abertura, mas Ash o acompanhava cada vez que ele tentava achar uma brecha. Com a mão levantada, a jovem tentava apaziguar seu cunhado.

— Ted, Ted! Não o machuque! Eu gosto dele!

— Ele tá se aproveitando de você! — gritou o orc ainda procurando uma abertura.

— Não está não! — garantiu ela – Ele gosta de mim, Ted, e eu gosto dele.

— É verdade. — falou Lor’themar.

— Cala boca elfo, não estou falando com você. — rosnou o guerreiro – E você só tá vivo ainda porque a Ashzinha tá na frente!

Aquela cena poderia ter continuado por um bom tempo se a voz imperiosa de Luxuriah não se fizesse ouvir:

— Chega Tewdric! Largue o machado! — ordenou.

Tewdric parou de ficar tentando achar uma brecha e baixou o machado. Ele resmungava olhando para Lor’themar e ainda segurava o cabo de sua arma com força. Ash, ainda com a mão erguida, olhou para a irmã mais velha.

— Lux, por favor. — pediu em tom de súplica.

A primogênita olhou para Kassyeh, que ainda estava na mesma posição de antes e que já havia derramado todo o chá e segurava apenas o bule vazio. No chão, uma poça enorme da bebida se formara.

— Kassyeh, controle seu marido ou eu vou lá controlá-lo. — ameaçou.

A maga saiu de seu estupor, pôr o bule em cima da mesa de centro e se dirigiu até onde o marido estava.

— Tewdric, meu amor, venha. Lor’themar não está fazendo nada de mal a Ash. — e ela olhou para o elfo – Bem, ainda não. Vamos ver o que ele tem a dizer.

— Isso mesmo, Kassyeh. — concordou Luxuriah se recostando na cadeira e passando a mão na barriga – Vamos ver o que ele tem a dizer.

Lor’themar definitivamente não esperava aquela situação. Sim, sabia que teria que pedir permissão a Luxuriah para namorar Ash, como era o costume dos elfos sangrentos. Um relacionamento só era oficial quando o chefe da família autorizava. Mas não imaginava que essa conversa se daria na frente de todos após o flagra do beijo dos dois. A reação de Tewdric era esperada, mas contava que já teria a autorização de Luxuriah aquela altura. É, as coisas se complicaram. Porém, se estava certo, a primogênita não negaria o desejo de sua irmãzinha. Torcia agora para estar realmente certo.

Pigarreando, ele saiu de trás de Ash e se postou ao seu lado. Segurou sua mão e começou a falar:

— Luxuriah. Sei que você está ciente dos meus sentimentos por sua irmã e os dela por mim. Desejo tornar meu relacionamento com Ashrial oficial e gostaria de sua permissão.

Ash o olhou um pouco surpresa. Esperava saber a resposta dele, claro, mas ainda não tinha atentado para o que faria depois que soubesse. Era provável que o medo de ser rejeitada a fez desconsiderar qualquer futuro junto a Lor’themar. Mas ele não. Ele sabia o que queria e agora dizia na frente de todos, inclusive de sua superprotetora irmã e ciumento cunhado, que queria ficar com ela. Encarou a irmã com expectativa.

Luxuriah já esperava aquilo. Não daquela forma, mas sabia que mais cedo ou mais tarde, Lor’themar cederia ao encantos de sua irmã. Fora bem divertido ver Tewdric avançar sobre ele com o machado, apesar do visível pânico de Ash. Passou a mão pela barriga, impondo um pesado suspense na sala. A tensão era tanta que Karen e Saba ainda estavam caladas. Depois de um tempo que, para Ash, pareceu uma eternidade, Luxuriah encarou a irmã.

— É isso que você quer? — perguntou.

— É. — respondeu Ash – É o que mais quero.

Suspirando, a elfa encarou Lor’themar.

— Machuque minha irmã e eu não vou impedir Tewdric de lhe partir em dois. — ameaçou com os olhos brilhando.

— Estou ciente disso. — afirmou ele convicto.

Luxuriah então balançou a cabeça, satisfeita com a resposta.

— Vocês tem minha autorização. — disse por fim.

Ash abriu um imenso sorriso e logo ela e Lor’themar estavam se beijando novamente, agora em comemoração. Tewdric ainda resmungou um pouco, reclamando e evitando olhar para a cena.

— Ei Lulu! — chamou ele – Por que você não me deu permissão pra ficar com a Kass quando a gente começou a ficar junto?

— Porque você nunca pediu. — respondeu com raiva – Porque você acha que eu tinha tanta raiva de você?

— Porque eu tirei a Kass de casa? — indagou confuso,

— Principalmente por isso. — a elfa revirou os olhos – Mas se você tivesse tido a dignidade de me pedir, eu não teria desgostado tanto de você.

— Então você teria dito sim? — perguntou o orc animado.

— Claro que não! Mas já era um começo.

Apesar da resposta, o orc deu uma risada gostosa, mas fez careta ao olhar para Lor’themar e Ash, que ainda se beijavam. Pegou o machado e o alisou, como se o consolasse por não ver sangue de elfo.

— Agora vocês dois, deixem de agarrado e sentem perto da lareira. Estão congelando! — ralhou a mais velha.

Ash e Lor’themar sorriram um para o outro. O frio não importava, pois o coração deles estava aquecido como nunca.

*******************

Lina acordou repentinamente, como se algo a tivesse sacudido. Sua cabeça doía, sua mente estava nublada e seu ombro latejava incessantemente. Com dificuldade sentou-se na cama e passou a mão no curativo. Estava empapado de sangue. Olhou para a cama e viu a grande mancha vermelha no lençol. Em algum momento do seu agitado sono, a ferida abrira ainda mais e sangrara bastante. Talvez por isso estava tão zonza e com um zumbido irritante nos ouvidos. Precisava das poções em cima da mesa.

Levantou-se devagar, tomando cuidado de se apoiar na cômoda para não desabar. Seus passos foram hesitantes até que chegou à mesa e tomou sofregamente todas as pequenas poções vermelhas que comprara. Achou estranho o gosto metálico que elas tinham, mas não se importou. Sentiu-se bem o suficiente para se apoiar totalmente nos próprios pés e ficou contente que não caíra. Olhou mais uma vez para a cama com a mancha de sangue e franziu a testa. Teria que pagar um extra para Fábio por aquele inconveniente. Mas, no momento, precisava trocar o curativo.

O banheiro do quarto era bem melhor do que tinha na fazenda e Lina teve vontade de tomar um banho quente. Estava com muito frio. Ajustou o orbe mágico que fez fluir a água e o vapor tomou conta do ambiente. Lina se livrou das roupas e do curativo e entrou no chuveiro. Sentiu a água cair em seu corpo como se fosse mil agulhas e sufocou o grito. Apoiou-se na parede, com os olhos fechados e ofegou. Admitiu, pela primeira vez em anos, que não estava bem e precisava de ajuda. Porém, a ajuda mais perto era a de sua irmã e ela não pediria. Restava voltar urgentemente a Ventobravo.

Desligou o chuveiro e pegou a toalha. Enxugou-se lentamente e limpou o vapor do espelho para poder ver o ferimento. Estava muito vermelho e a borda de algumas feridas estava amarelada. Lina já tinha levado tiros antes, alguns até mais graves, mas nunca se sentira tão mal. Talvez o tempo que a ferida estava aberta a deixara daquele jeito. As poções que tomara não as diminuiu nem um milímetro e a comandante se surpreendeu em como mudara. Antes, aqueles pequenos frascos vermelhos curavam todos seus ferimentos em instantes e agora apenas a faziam se sentir um pouco melhor. Aparentemente, ficar mais forte tinha seu preço.

Voltou ao quarto e refez, com muito custo, o curativo. Vestiu roupas limpas e deu preferência ao preto, assim ninguém veria o sangue, caso aquele curativo voltasse a abrir. Pegou as roupas sujas e pôs na bolsa. Respirou fundo e saiu do quarto, o latejar em sua cabeça voltando a aumentar.

Descer as escadas foi um sacrifício a parte e logo ela procurava Fábio, para tratar do pagamento. Quando a viu o estalajadeiro arregalou os olhos, surpreso com algo, mas anda falou. Lina dirigiu-se a ele.

— Tem mais daquelas poções? — perguntou com a voz cansada.

— Tenho. — e, titubeante, perguntou – Quer que eu mande chamar sua irmã, comandante? Você não parece nada bem.

— Não. — respondeu incisiva – Tem algum sacerdote que não tenha acabado de pôr o vestido por aí?

— Não, senhora. — respondeu sem conter um pequeno riso – Todos novatos.

— Merda.

Com dificuldade, ela tirou o ouro da bolsa e o pagou. Comprou mais algumas poções, tomou metade e colocou as demais encaixadas em seu cinto.

— Tenente Lane já foi? — quis saber.

— Já, senhora. E o capitão Durão disse que gostaria de vê-la assim que possível. — e conferindo o pagamento, franziu a testa – Comandante, isso é o dobro do que cobramos. — e tentou devolver o excedente.

— Fique com ele. Sujei um pouco seus lençóis de sangue. É pelo inconveniente.

Fábio ficou um pouco indeciso, mas, por fim, aceitou o dinheiro. A maioria dos aventureiros ali deixava tudo uma bagunça e as vezes nem se desculpava. Era bom saber que alguém tinha noção do trabalho que dava tirar sangue de tecido.

— Obrigado, comandante.

Com custo, Lina lhe sorriu e saiu da estalagem. Tomou um susto quando percebeu que a noite já havia caído, e caminhou até onde ficava o posto do Capitão durão. Agradeceu o fato de não ter nevado e o chão está bom para caminhar. Não sabia se aguentaria atravessar montes de neve do jeito que estava. Chegou até o quartel e bateu à porta. O próprio Durão atendeu a porta e sorriu para ela.

— Comandante! Entre!

Assim que adentrou a porta, o sorrido do capitão se esvaneceu. Agora, ele a olhava com preocupação e espanto.

— Comandante, a senhora está tão pálida! Já curou seu ombro?

— Ainda não. — era impressão sua ou sua voz estava mais fraca do que quando falara com Fábio – Por isso estou voltando para Ventobravo agora. Não há nenhum sacerdote por perto, e preciso que alguém feche os buracos do meu ombro.

— A senhora vai enfrentar cinco horas de cavalgada desse jeito? — surpreendeu-se ele, sem saber se ela era corajosa ou apenas incauta.

Lina abriu a boca para responder, mas o resfolgar de um urso chegou aos seus ouvidos. Olhou para a fonte do barulho e viu o pequeno urso sobrevivente na sala do capitão. Ele ainda estava amarrado, mas fazia força para se livrar da corrente.

— O que fará com ele? — quis saber se aproximando do filhote.

— É uma situação difícil, comandante. — disse Durão, penalizado – Ele não vai sobreviver sozinho esse inverno. Acho que o melhor seria sacrificá-lo.

Os olhos do ursinho se encontraram com os de Lina, que lembrou do primeiro animal que domara, um urso pardo que colocara o nome de Vicious. Ele a acompanhara em sua fuga para Ventobravo e estiveram juntos por muitos anos, até ele perecer em uma luta, para lhe salvar a vida. Aquele ursinho lhe lembrava muito Vicious e Lina tomou uma decisão. Tirou a coleira do bichinho e o pegou com o braço bom.

— Vou levá-lo. — anunciou – Posso cuidar dele.

— Tem certeza, comandante? Ele sobreviverá em Ventobravo? — indagou Durão.

— Terá mais chances que sozinho na floresta. — falou, convicta – Fábio me disse que você queria falar comigo.

Como se só lembrasse disso agora, Durão soltou uma exclamação e caminhou até a mesa.

— Os irmãos Jones foram levados para Ventobravo essa tarde. Já devem estar chegando por lá. Mandei uma carta para o General Jonas. Acredito que ele quem deve pegar o caso, não é?

A comandante fez que sim com a cabeça.

— Eu respondo apenas ao rei, mas na ausência deste, é o General Marcus Jonas que comanda. Então, como não pegarei esse caso por fazer parte dele, o general estará a frente. Preciso assinar algo?

— Aqui, por favor.

Colocou o ursinho no chão e pegou a caneta. Por um momento, as letras ficaram desfocadas e precisou piscar muitas vezes para que elas entrassem em foco. O capitão a olhava com preocupação, mas Lina respirou fundo e assinou seu nome. Voltou a pegar o ursinho no braço.

— Obrigada, Durão. — agradeceu com sinceridade – Pelo apoio.

— Não precisa agradecer, comandante. — disse envergonhado, mas sorrindo – E não acho seguro a senhora cavalgar até Ventobravo assim e ainda levando o ursinho. Use, por favor, o grifo da cidade. Assim, chegará mais rápido e terá logo atendimento médico.

— Agradeço o oferecimento, mas e meu cavalo? Já perdi um recentemente, não queria perder outro.

— Mandarei até a fazenda de seus pais e seus irmãos podem levá-lo quando voltarem a Ventobravo.

Era uma excelente oferta, tinha que admitir. Em vez de cavalgar cinco horas, levaria no máximo uma se fosse de grifo. Sabia que podia confiar seu cavalo a Durão e realmente era fundamental que chegasse logo em Ventobravo. O gosto metálico voltara a sua boca e a dor de cabeça estava cada vez mais forte. Para piorar, sentia calafrios percorrendo seu corpo e um embrulho no estômago. Era óbvio que estava piorando.

— Aceitarei sua oferta, Durão. — disse com a voz cansada – Será bom dormir hoje ainda em minha própria cama.

O capitão ficou visivelmente aliviado por ela ter aceitado a oferta e a acompanhou até o mestre de grifos. Lina pensou em tomar as poções que estavam em seu cinto, mas só de pensar em beber algo seu estômago se revirou. Prometeu a si mesma que tomaria quando chegasse à cidade. Entregou o ursinho ao capitão para poder montar o grifo. A dor que sentiu no ombro ao fazer o esforço para subir escureceu sua vista e por muito pouco não caiu no chão. Durão a ajudou a se segurar e perguntou, já ficando aterrorizado:

— Comandante, tem certeza que deve ir? E se a senhora cair?

— Estou bem, Durão. — respondeu tentando parecer firme, mas sua voz cansada a denunciava – Será um voo rápido. Pode me dar o ursinho.

Hesitante, o capitão entregou o filhote. Viu a comandante fazer uma careta de dor ao acomodar o pequeno urso em seu colo e levantar voo. Por um momento, ele pensou em segui-la, para ficar de olho se algo acontecesse, mas sabia que, se o fizesse, Lina se sentiria muito ofendida. Então, só restava a ele rezar para que a Luz a fizesse chegar sã e salva em Ventobravo.

O voo foi o mais difícil da vida de Lina e foi a primeira vez que teve medo de desabar das alturas. Além da dor escruciante no ombro, o latejar incessante de sua cabeça e o revirar de seu estômago, sua vista escureceu várias vezes. Teve que fazer força para permanecer com as rédeas do grifo firmes em suas mãos ao mesmo tempo que evitava a queda do filhotinho de urso. Porém, ele ficara bem quietinho em seu colo, como se entendesse que era o melhor a fazer. Agradeceu mentalmente a ideia de Durão, pois, se já sentia todas aquelas dores em um suave deslizar no ar, o que cinco horas de terreno difícil não faria a ela? Quando melhorasse, enviaria uma carta de agradecimento e uma garrafa de vinho.

Nunca ficou tão feliz ao ver as luzes de Ventobravo. A cidade se erguia iluminada em meio a noite e parecia que a saudava a sua volta. Pegou-se rindo sozinha. Definitivamente, havia algo errado.

O grifo pousou com suavidade na torre de voo, mas isso não evitou que as dores sentidas pela comandante piorassem com o impacto de suas garras no chão. O mestre do voo segurou as rédeas do bicho e ela desceu. Sentiu uma tontura imensa e, por uns instantes, tudo ficou escuro. Quando sua vista clareou, o mestre de voo a segurava, com a expressão alarmada.

— Comandante? Está tudo bem?

Lina percebeu que derrubara sem querer o ursinho e que ele agora resfolgava a sua volta, assustado.

— Está tudo bem… — disse, mas sua voz soou pastosa – Só… Enjoo… da viagem…

O homem ainda a olhou, apreensivo, mas Lina conseguiu, a algum custo, se firmar nas pernas e agradecê-lo. Outro viajante chegou e o mestre de voo teve que voltar sua atenção para ele. Lina sabia que o grifo seria bem cuidado e devolvido à Vila D’Ouro, por isso, abaixou-se, pegou o filhote e seguiu seu caminho.

Quando desceu as escadas da torre, percebeu que precisava, com urgência, tomar as poções que trazia na bolsa. Sua vista entrava e saia de foco, além das dores estarem escruciantes agora. Pousou o ursinho no chão, pegou as poções e bebeu todas. Porém, mal elas chegaram em seu estômago, sentiu uma vontade incontrolável de vomitar. Se inclinou para o arbusto mais próximo e vomitou toda a poção de cura ingerida. Ouviu alguns passantes rirem dela, mas não se importou. Tudo que queria, era chegar em casa. Pegou novamente o ursinho e voltou a caminhar.

Sua mente estava nebulosa e Lina nem se deu conta de para onde ia. Andou aparentemente a ermo, até que percebeu que seus pés a levaram até a Bastilha e não a sua casa. Talvez fosse melhor assim. Tinha excelente curandeiros ali e não precisaria preocupar Doroteya nem assustar Theo chegando em casa daquele jeito. Se Tommy a visse também, pegaria o cavalo e voltaria correndo para casa e encheria Alan de porradas. Talvez até brigasse com Linda por não curá-la. Não, não, melhor se curar ali mesmo.

As escadas, porém, se mostraram um desafio muito grande. Em determinado momento, Lina pôs o ursinho no chão e falou, olhando bem no fundo de seus olhinhos negros:

— Consegue me acompanhar?

O ursinho emitiu um som e se pôs ao seu lado. Lina sorriu, feliz por conseguir encantar os animais até naquele estado. Depois disso, ficou um pouco mais fácil subir e seu novo amiguinho a acompanhava. Ainda assim, sua respiração estava cortada e sua cabeça parecia que ia explodir. Seu ombro ardia como se estivesse queimado à carne viva. Além do estranho gosto na boca e do estômago revirado. Quando parou no fim das escadas se encostou ao muro, fechando os olhos e respirando fundo. Sua vista continuava entrando e saindo de foco. Passou a mão para limpar o suor e percebeu que estava quente. Seria febre? Ficou alguns instantes ainda ali e então voltou a andar.

— Comandante! — ouviu uma voz distante a chamar – É a senhora?

Era Brienne. A moça vinha das escadas também e correu até ela assim que a viu, num misto de preocupação e alegria.

— Todos já sabem o que aconteceu, que tentaram matá-la! — disse afobada – Os criminosos já estão presos!

— Que bom… — murmurou fracamente.

— Está tudo bem? — perguntou franzindo a testa.

Lina apenas acenou com a cabeça e apontou para dentro da bastilha. Brienne então acompanhou-a, contando como os Jones chegaram lá, como a acusaram e como todos ficaram revoltados com isso.

— O rei… — era difícil pra Lina falar – Sabe?

— Ainda não, comandante. Eu estava indo avisá-lo.

Isso deixou Lina satisfeita, pois poderia ser curada antes que Varian a visse daquele jeito. Naquele momento, as duas passaram por baixo de um globo de luz e Brienne viu seu rosto com clareza pela primeira vez. A moça exclamou e levou a mão ao rosto, assustada.

— Comandante! A senhora está tão pálida!

Lina apenas meneou com a cabeça, como se dissesse que ela não devia se preocupar.

— Devo chamar um curandeiro? — perguntou apreensiva.

— Seria bom… — murmurou.

Assim que Lina falou isso, Brienne começou a correr à sua frente, o que fez Lina compreender que sua aparência, com certeza, não era das melhores. Continuou caminhando, suas pernas parecendo pesar uma tonelada e tinha como objetivo chegar em sua sala, sentar lá e esperar Brienne levar algum sacerdote, druida, o que quer que fosse que fechasse os buracos em seu ombro. Porém, não concluiu o seu objetivo. Tinha acabado de chegar a sua mesa quando ouviu a potente voz do rei a chamar:

— Comandante!

Varian estava visivelmente alarmado. Passara o dia tranquilamente até aquele momento, quando encontrara a substituta de Lina andando apressadamente pelo corredor e ouvira da jovem que alguém tentara assassinar Lina e que a mesma chegara na Bastilha com uma aparência preocupante. E assim que colocou os olhos na comandante, ele viu que a moça não fora completamente sincera. O rosto de Lina estava muito pálido, seus lábios estavam roxos e parecia que ela estava com a máscara da morte em seu rosto. O rei estremeceu diante do pensamento.

— O que aconteceu? — ele foi perguntando – Pela Luz, você está péssima!

Lina abriu a boca para falar, mas sua boca estava seca demais e o gosto metálico era insuportável agora. Sentiu seu estômago se revirar mais uma vez e se apoiou na mesa, antes de vomitar em cima dela. Porém, nada saiu, apenas uma bile verde e pegajosa. Sua vista agora estava totalmente desfocada.

— Lina! — a chamou sem se preocupar com os inúmeros guardas por perto que os olhavam, sem reação – Lina!

Varian a segurou pelos ombros e a comandante deu um agudo e perturbador grito de dor. Assustado, Varian a soltou e viu, aterrorizado, sangue vermelho vivo na sua mão.

— Anduin! — gritou o rei – Alguém traga o meu filho aqui, agora!

Por um momento, Lina tentou dizer a ele para não se preocupar, que tudo estava bem. Mas não estava. Sua vista escureceu de vez e sentiu as pernas perderem totalmente as forças. A comandante então, desabou no chão, com um baque surdo, abrindo a ferida e fazendo com que o sangue espirrasse pelo chão. Varian gritou novamente, chamando seu nome e sua voz foi ficando cada vez mais longe, até sumir por completo. Lina caiu na escuridão no instante que seu corpo começava a tremer e entrava violentamente em uma convulsão.

Ajoelhando-se ao lado dela, Varian sabia que tinha que fazer algo, mas sua mente ficou totalmente em branco. Já vira e ajudara pessoas antes naquela situação, mas naquele momento, parecia que todo seu conhecimento simplesmente sumira. Só conseguia ficar ali, parado, vendo-a tremer violentamente. Para seu alívio, um dos soldados se adiantou e colocou a cabeça de Lina de lado e abriu sua boca, permitindo que ela pudesse respirar. Uma moça se ajoelhou também e afrouxou as roupas de Lina e um terceiro colocou uma almofada em sua cabeça. Depois restou a eles esperar que a convulsão passasse.

Foram os segundos mais longos da vida de Varian.

Finalmente, o corpo de Lina foi se acalmando e ouviu a respirar profundamente. Esperou que ela abrisse os olhos, mas isso não aconteceu. Varian finalmente saiu de seu estupor e colocou a mão em sua testa. A comandante ardia em febre. Sem pensar duas vezes, pegou-a em seus braços e saiu em direção aos aposentos da Bastilha. Aflito, não percebeu que um pequeno urso os seguia e só ficou aliviado quando viu Anduin e Arshe correndo em sua direção.

— Anduin! — chamou Varian – Graças a Luz!

— O que aconteceu?! — perguntou o rapaz preocupado.

— Lina! — Arshe arfou antes de colocar a mão na boca e seus olhos se encherem de lágrimas.

— Eu não sei o que houve, mas ela teve uma convulsão. — explicou o rei sem diminuir os passos – Você precisa curá-la! Venha, vamos ao meu quarto.

— Não! — Arshe exclamou e segurou o braço do rei – Tio, não!

Contra a vontade, Varian parou e a olhou. Não entendia o que Arshe queria dizer com aquilo, sua cabeça só pensava em Lina.

— Leve-a ao meu quarto. — pediu – Lina ia preferir assim.

Sem muito tempo pra pensar, Varian assentiu. O quarto de Arshe era o mais próximo mesmo, e assim Lina ficaria mais rapidamente acomodada. Entraram os três no aposento da princesa e o séquito de soldados preocupados que vinham atrás estacou na beira da porta. Nenhum deles tinha permissão para entrar ali e não o fariam nem pela comandante. Ou a própria comandante os castigaria, quando estivesse boa.

— Ela tem um ferimento no ombro. — foi dizendo Varian ao filho enquanto colocava Lina em cima da cama de Arshe – Acho que ela já perdeu muito sangue.

O jovem assentiu e começou a conjurar uma magia de cura. A luz envolveu o corpo de Lina por um momento e depois apagou-se. Varian tirou-lhe a capa e puxou a roupa para revelar o ferimento, que continuava lá.

— Minha magia é fraca… — lamuriou-se o rapaz – E agora?

— Vou buscar Doro! — avisou Arshe e começou a conjurar um feitiço de teleporte.

— Não há tempo! — gritou o rei – Onde está Brienne e o sacerdote?!

— Aqui, meu rei! — a moça entrou rapidamente no quarto, acompanhada de uma anã em vestes brancas – A sacerdotisa da comitiva de Altaforja.

A anã nada disse, apenas começou a conjurar um feitiço e a Luz novamente envolveu o corpo de Lina. Dessa vez, o ferimento da comandante sumiu completamente, para o alívio de todos os presentes. Contudo, a sacerdotisa franziu a testa e quando terminou a cura, se aproximou de Lina e a analisou.

— Ela ainda está com febre! — disse a anã no forte sotaque de Altaforja – Como é possível?

O alívio abandonou Varian tão rápido quando chegara e ele trocou olhares com o filho e com Arshe. Os dois pareciam tão pálidos quanto Lina e tinha a mesma expressão de medo no rosto. Voltaram sua vista para a anã, que agora olhava dentro dos olhos de Lina, de sua boca e apertava o estômago da comandante. Por fim, ela encarou o rei, apreensiva e confirmou todos os temores de Varian.

— Ela foi envenenada. Não consigo ir além disso. — e olhando para Lina, sentenciou – Se nada for feito, ela morrerá a qualquer momento.

E Varian sentiu-se despencar em um abismo sem fim enquanto ficava o rosto da mulher enferma que acabara de descobrir amar incondicionalmente.

Notas finais
Olá, pessoal! Só pra avisar: o personagem Horatio Lane existe no jogo e ele inicia uma série de quests para personagens da Aliança em Cerro Oeste. E qualquer semelhança com um certo personagem de CSI Miami não é mera coincidência. :D http://pt.wowhead.com/npc=42558/tenente-horatio-laine