Herdeiros da Guerra

29 Capítulo XXII – Família (PARTE II)


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— Vamos, tome um pouco de chá, vai te fazer se sentir melhor.

Segurando um pires com uma xícara de chá fumegante, Lor’themar tentava fazer com que sua sobrinha melhorasse. Porém, Vivithi continuava deitada, com o rosto pálido, enfiada dentro dos lençóis do tio, se recusando a beber qualquer coisa, até mesmo um copo de água. Suspirando, Lor’themar pousou a xícara na mesa de cabeceira e fitou mais uma vez a jovem.

Quando Vivithi chegara, aos prantos, usando somente um roupão sobre o corpo nu em seu quarto de madrugada, o primeiro impulso dele foi pegar seu arco e sair em busca de qualquer um que parecesse suspeito para enchê-lo de flechas. Só que Vivithi o segurou e a única coisa que pediu foi consolo. O lorde regente então, a atendeu. Vestiu-a com um dos seus pijamas mais confortáveis e a deixou dormir em sua cama, enquanto ele ficava acordado, sentado, remoendo a situação. Mas claro, Vivithi não teve um sono bom. Remexeu-se na cama, chorou e falou durante o sono. Quando Lor’themar foi tentar acordá-la, percebeu que a sobrinha estava com febre. A primeira coisa que pensou foi em chamar um sacerdote, mas então lembrou-se de algo muito comum, mas que há muito tempo não acontecia da sua sobrinha: desde criança, quando extremamente estressada ou triste, Vivithi tinha febres emocionais. Por isso, se relegou a esperar para que ela pudesse conversar sobre o que a afligia.

Tão logo abriu os olhos, Vivithi viu seu tio, sentado em uma cadeira a beira da cama, com uma toalha molhada que logo pousou sobre sua testa. A elfa sentia seu corpo dolorido e se perguntava se fora por causa do sexo ou pela febre, que agora tomava conta de seu corpo.

— O que aconteceu? — quis saber Lor’themar.

Por um momento, ela pensou em não contar. Mas, depois de ter perturbado seu tio daquela forma durante a madrugada, o mínimo que devia fazer era ser sincera com ele.

— Ele me disse… — começou com a voz rouca – Que estava apaixonado por mim…

Lor’themar enrijeceu na cadeira e se aproximou mais dela.

— Você sonhou com aquele canalha? — perguntou preocupado.

Seu tio se referia ao seu ex-noivo. O elfo que destruíra a vida e a alma de Vivithi muito tempo atrás. Aquele que lhe deixara a tal ponto abalada, que sua existência ainda repercutia na vida da elfa, mesmo décadas após sua morte.

— Não tio. — respondeu – Não sonhei com ele… Mas isso tem a ver com ele, acredito.

Lor’themar a olhou, sem entender e Vivithi se encolheu mais ainda na cama.

— Lembra do meu amante? O que você disse que me fazia bem?

— Lembro. — confirmou o elfo.

— Foi ele… Foi ele quem disse que estava apaixonado por mim. — confessou.

Lor’themar nada falou, apenas passou mais uma vez a toalha molhada na testa dela. Depois disso, pediu um bule de chá a uma serva e tentou fazer Vivithi beber um pouco e quem sabe falar um pouco mais do que acontecera. Mas a elfa só ficava encolhida na cama, com a febre pulsando dentro de si, revivendo todos os acontecimentos passados de sua vida, e estremecendo diante deles. Coube a Lor’themar ficar ao seu lado, em silêncio, segurando sua mão, esperando o momento certo de falar. O elfo também não estava isento das lembranças. Reviveu também aqueles tempos sombrios e como quase perdera a maravilhosa sobrinha para um crápula que, graças a Nascente do Sol, não existia mais. Bem, não existiam fisicamente. Ali estava a prova que ele deixara sequelas mais profundas que imaginavam.

— Tio… — chamou Vivithi em determinado momento.

— Diga, querida.

— Eu… Eu estou quebrada, não é?

Lor’themar apertou mais a mão dela e a encarou, carinhosamente.

— Você não está quebrada, querida. Você não é um objeto que quebra ou algo assim. Você foi machucada e não está totalmente curada, apenas isso. Você só precisa de tempo.

— Já faz vinte e oito anos. — retrucou.

— Viu, não passou quase nada de tempo. — ele acariciou a cabeça dela – Esqueça isso, ok?

Vivithi assentiu.

— Acho que você deveria tomar um pouco de chá. — tentou ele mais uma vez – Que tal?

Relutantemente, Vivithi aceitou. Sentou-se na cama, recebeu a xícara de chá e passou a tomar. Lor’themar a observou, com um misto de alegria e tristeza. Alegria, pois ali estava uma pessoa que ele amava como uma filha, uma menina que ele ajudara a criar e que tanto lhe serviu de consolo durante a vida; e tristeza, por não poder fazer nada para aplacar a dor que ela sentia no momento. E vendo-a agora, já com o rosto corado, enquanto tomava o chá lentamente, algo passou pela cabeça de Lor’themar. Vivithi dissera que seu amante havia confessado estar apaixonado por ela. Bem, não era a primeira vez que isso acontecera. Mas, apenas agora, Vivithi teve essa reação tão extrema. Por que?

— Vivi. — chamou ele carinhosamente.

Vivithi o olhou, pousando a xícara no pires. Ele tinha que ter cuidado no que ia falar. Não queria despertar outra reação extrema que a deixasse pior do que já estava.

— Querida… Estou muito preocupado com essa sua reação… Eu sei, que tudo o que aconteceu foi muito doloroso, mas… Por que agora? — ele mantinha a voz suave, sem nenhum tom de acusação – Eu sei que outros já se declararam para você e você nunca… Nunca reagiu assim. Então, me preocupa reação de hoje… Há algo a mais?

A confusão no rosto da sobrinha o fez entender que nem mesmo Vivithi havia percebido isso. Ela pousou o pires no colo, com os olhos encarando o vazio, como se estivesse olhando para dentro de si mesma em busca da resposta. Preocupado, Lor’themar se arrependeu da pergunta.

— Esqueça querida, esqueça. — pediu tirando o pires do colo dela e pondo novamente na mesa de cabeceira – Isso não importa, o que importa é que eu-

— Importa. — disse ela de repente – Importa. — ela deu uma pausa e depois continuou – Eu nunca agi assim. Você tem razão eu… Eu não tinha reparado… Eu normalmente apenas ria… Eu nunca… Nunca me senti assim.

— Assim como? — quis saber o tio.

— Ameaçada. — respondeu de imediato – Eu nunca havia me sentindo ameaçada pelos sentimentos de ninguém.

Então, ela entendeu. Entendeu o que a ameaçava.

— Pela Luz… — murmurou se encolhendo novamente na cama.

— O que foi, Vivithi? — Lor’themar perguntou aflito – O que foi?

Sua sobrinha o encarou, com os olhos arregalados, e por um momento ela voltou a ser a criança a qual Lor’themar tinha que garantir que não havia monstros debaixo da cama. O peito de Lor’themar se encheu de angústia e culpa, pois imaginava exatamente o que via a seguir.

— Tio… — murmurou em uma voz estrangulada – Acho… Acho que também estou apaixonada por ele…

E caiu em prantos.

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Kayliel não esperava de nada diferente daquela manhã. Mesmo depois do casamento de Rommath na noite anterior, acreditava que a vida dele não estaria sujeita a nenhuma grande mudança. Iria em breve se mudar para a torre para cuidar de Luxuriah e seu irmão estaria lá também. E apesar da carta que mandara para Arshe, sua esperança que a mesma fosse respondida era muito pouca. E mesmo que fosse, se perguntava, em que direção aquele contato o empurraria caso ela respondesse? Por isso, quando desceu para tomar e café e conferiu a caixa de correio, quase caiu para trás ao ver a carta com o selo do Kirin Tor.

Com as mãos tremendo, ele segurou o envelope como se este fosse explodir. Tentou controlar suas emoções, dizendo a si mesmo que poderia ser de outra pessoa, que não necessariamente era Arshe que o respondia, mas a esperança, aquele sentimento teimoso, estava ali, latejando dentro de seu peito. A primeira coisa que pensou foi em abrir a carta naquele momento, ali mesmo no meio da rua, mas resistiu ao impulso. Tinha que ler com calma, e pensar numa resposta com mais calma ainda.

Enquanto ainda segurava a carta, imerso em seus pensamentos, Kayliel não viu a aproximação de seu irmão com as princesas. Para sua sorte, eles ainda estavam longe o suficiente quando Ash o chamou:

— Kayliel! — e acenou para ele.

Rapidamente, a carta sumiu dentro de sua roupa, presa no cós da calça que usava por baixo das vestes e ele acenou de volta. Percebeu que Rommath franzia a testa enquanto se aproximava, e logo ele estava pensando em uma boa desculpa para estar ali do lado de fora da casa.

— Bom dia! — disse animado quando eles chegaram – Estou feliz e surpreso! Esperava que meu irmão nunca mais voltasse aqui.

Rommath fechou a cara, mas os outros riram.

— Bem, ele precisa fazer a mudança, não é? — brincou Luxuriah – A menos que eu decida mantê-lo nu no quarto.

Agora o Grão-Magíster também ria e todos começaram a apear das montarias e guardá-las na entrada da casa. Ash olhou com admiração para a mansão, Se perguntando se Kayliel e Rommath se sentiam solitários naquele local tão grande. Bem, pelo menos agora ambos iam se mudar para um local que, graças a Karen, iria ter muito barulho.

— Venham, vamos entrar. — chamou Kayliel.

Após entrarem na casa e antes do sacerdote começar a mostrar a casa às novas ‘irmãs’, Rommath o puxou levemente para seu lado.

— Que estranho, você em pé em frente a caixa de correios quando estávamos chegando… — comentou desconfiado.

— Eu vi vocês pela janela. — disse Kayliel tentando parecer tranquilo – Decidi esperá-los lá fora.

— E porque parecia que você estava recebendo cartas? — insistiu.

— Como você disse, eu estava ao lado da caixa de correio. Que, a propósito, fica em frente a nossa casa. — e dando de ombros, completou – E afinal, qual o problema nisso?

Rommath o olhou, irritado. Seu irmão sabia muito bem qual era o problema, mas parecia estar disposto a se fazer de desentendido. O mago ainda abriu a boca para insistir, mas logo foi chamado por Luxuriah, que queria mostrar o quintal para as irmãs.

— Onde está a rainha? E Tewdric? — perguntou o sacerdote.

— Karen foi começar o treinamento com Lady Liadrin. Tewdric disse que teve uma ideia e foi fazer uma “surpresa”. — disse Luxuriah fazendo aspas com os dedos.

— Tewdric tendo ideias. — Kayliel franziu a testa – Com certeza será uma grande surpresa. — e olhando para as três elfas, teve uma ideia – Almocem comigo. — convidou – Será um prazer fazer um primeiro almoço em família, que tal? Podemos buscar Karen na hora da refeição e mandar alguém avisar ao Tewdric. Assim, todos estariam reunidos.

— Eu acho ótimo! — concordou Luxuriah – Mas não está um pouco em cima da hora para preparar tudo?

Kayliel fez que não com a cabeça.

— Rommath pode ir mostrar tudo a vocês enquanto eu falo com os servos. Não demorará. Com licença. — e saiu ainda sentindo os olhos do irmãos em suas costas.

Como imaginara, os servos ficaram empolgados ao saber que as princesas e a futura rainha almoçariam ali e começaram os preparativos imediatamente. Kayliel sugeriu que servissem um pouco de chá e doces enquanto elas estivessem no quintal, pois assim ficariam mais saciadas e poderiam esperar um pouco mais. Com a sugestão atendida e tudo encaminhado, o elfo espiou discretamente onde seu irmão estava e depois subiu apressadamente ao seu quarto e trancou a porta. Com o coração aos pulos, tirou a carta de dentro da roupa, sentou-se na cama e a abriu.

Era realmente de Arshe. A letra corrida dela, tão delicada e linda, destacava-se no pergaminho. Kayliel teve a sensação que podia sentir o perfume dela no papel e até mesmo ouvir sua voz enquanto lia suas palavras:

Kayliel,

Só me responda essas perguntas:

1. Por que você me deixou?

2. Alguém lhe pediu para fazer isso?

Arshe

Seu coração apertou-se. A primeira pergunta era o que ele sempre temera responder. Sabia que, no dia que Arshe soubesse seus motivos, ela ficaria com ainda mais raiva dele. O que o surpreendeu foi a segunda a pergunta. De onde Arshe tirara a ideia de que o que ele fizera fora pedido de alguém? Será que alguém lhe contara alguma mentira? Alguém a jogara ainda mais contra ele? Agora, Kayliel estava ainda mais angustiado. Sentia-se um idiota ingênuo por nunca ter cogitado a possibilidade que a ausência de suas explicações abriria espaço para as mentiras de alguém. Até porque, jamais imaginou que Arshe falaria deles dois para qualquer pessoa. Porém… E se falara? E se fizera alguma amiga e acabara confidenciando? Não era uma situação absurda, ela era princesa agora, devia ter muitas nobres que a procuravam para uma amizade. E se a princesa houvesse achado finalmente uma amiga e que esta a enchera de explicações equivocadas? Isso explicaria a segunda pergunta.

Todavia, o pior de tudo era: como responderia? Arriscaria contar tudo através de uma carta? Não, cartas podiam ser desviadas facilmente. Teria que ser pessoalmente. Pela Nascente do Sol, era aterrador ter que contar tudo cara a cara, mas devia isso a Arshe. Fora covarde uma vez, mas não seria de novo. Releu a carta novamente, absorvendo a beleza das linhas escritas pelas mãos suaves da maga e então, rapidamente, sua mão foi tomada por uma sombra que destruiu a carta. Os pedaços de papel logo foram levados pelo vento da janela e ele estava mais aliviado. Nem Rommath nem ninguém a encontraria.

Não responderia agora. Faria sala para sua nova família, ter um belo almoço, e quando se despedissem e ele estivesse só, escreveria.

E assim o fez. O almoço, devido a hora avançada que aos servos foram avisados, foi um pouco mais tarde que o habitual, e isso acabou se provando uma coisa boa. Pois Karen foi liberada bem tarde por Lady Liadrin, apesar de o treinamento ser limitado naquele primeiro dia à introdução de Karen nas leis e costumes dos Cavaleiros Sangrentos. Tewdric também chegou um pouco atrasado, e não parecia ter bebido nada. E no fim, o almoço foi bem animado, como Kayliel imaginou que seria.

As elfas foram embora logo depois do fim do almoço. Rommath levou algumas coisas e ficara acertado que os dois manteriam a casa tal como estava e que Kayliel, quando Luxuriah estivesse bem, poderia dormir ali alguns dias por semana, desde que se comprometesse a passar o dia na Torre. E, com tudo acertado, o elfo foi deixado sozinho.

Seu primeiro impulso foi subir as escadas correndo e começar a escrever a carta. Porém, sabendo que seu irmão estava desconfiado, se controlou e aguentou a necessidade de escrever por algum tempo. Apenas o suficiente para se convencer que Rommath não voltaria inesperadamente e o pegasse de surpresa. Então, quando se sentiu seguro, subiu até seu quarto, pegou papel e tinta e respirou fundo.

Querida Arshe,

Gostaria eu de responder suas questões por meio dessa missiva, mas ambos sabemos o quão perigoso isso é. Por isso, pensei muito em uma solução para nos vermos sem chamar atenção.

Em dois meses, teremos o Véu de Inverno. Sei que sua principal alegria é fazer compras em Dalaran nessa época. Sei também que você tem evitado fazer isso nos últimos anos, por minha causa. Pois então, essa é a oportunidade de você voltar a fazer algo que gosta e também para que nós possamos nos ver. O dia ideal para nós será o dia 15, nove dias antes da véspera do Véu de Inverno, pois o fluxo de pessoas em Dalaran será grande, mas não congestionado como nos dois dias que antecedem o feriado, nem pouco, que permita que nos destaquemos na cidade. Podemos nos encontrar no nosso lugar, ele continua tao discreto quanto antes.

Não responda essa carta. É perigoso. Apenas esteja lá, dia 15, no nosso local, ao meio-dia. Se você não for, vou supor que você não se interessa mais em ouvir o que tenho a dizer e prometo que não a perturbarei mais.

Ou talvez eu encontre guardas da Horda, prontos para me prender por traição.

Isso foi uma tentativa de piada, você riu? Espero que não, foi horrível mesmo.

Esperarei ansiosamente pelo dia 15, daqui a dois meses.

Sempre seu,

Kayliel

E assim, a carta foi posta no correio. Kayliel não sabia, mas a sua sorte e a de Arshe fora ocasionada pela confissão de Aethas. Se Vivithi não estivesse naquele momento desesperada diante dos sentimentos que descobrira, o sacerdote seria descoberto; provavelmente não corria o risco de ser levado à corte para julgamento por traição, mas teria toda sua liberdade cassada pelo seu irmão mais velho e receberia duras críticas da amiga e agora cunhada, Luxuriah. Porém, com a patrulheira fora de combate naquela manhã, seus espiões acabaram se dispersando sem suas ordens e não vasculharam o correio etéreo em busca daquela carta, que chegou e foi respondida sem ser interceptada por ninguém, nem da Horda nem da Aliança.

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Já era fim da tarde quando Doroteya, acompanhada de Theo e de Tommy, foi até a feira da cidade comprar verduras frescas para a sopa que faria para o jantar. As nuvens que antes tomavam o céu tinha ido embora e o sol brilhava. O ideal para a druidesa era ter ido à feira no começo do dia, onde a variedade de verduras é bem maior, mas acreditava que encontraria o suficiente para fazer uma refeição nutritiva e saborosa.

Sua primeira preocupação, lógico, era Theo. O menino estava com a roupa com a qual viera de Darnassus e com o cabelo cheio de confete. Doroteya tentou tirar um por um, sem muito sucesso e por fim, passou a usar o pente. O problema era que o pente se enroscava nos cachos de Theo, o que tornava o trabalho lento e penoso. Enquanto isso, Tommy foi buscar algo no quarto dos irmãos e depois mostrou a druidesa.

— Fey e Mel fizeram uma roupa para Theo. — disse estendendo uma muda de roupa limpa e dobrada – São roupas típicas de Ventobravo, assim ele vai poder se misturar às outras crianças.

— Não sei como agradecer a vocês. — disse a druidesa emocionada – Estão fazendo tanto por nós…

— Se eles estivesse aqui, diriam que é só uma roupa. — Tommy deu de ombros – E deixe para agradecer depois que descobrir se ela serve.

A roupa serviu. Serviu tão bem, que Doroteya ficou com pena, pois na velocidade com a qual Theo estava crescendo, não demoraria para que as peças ficassem pequenas demais. Porém, no momento ela servia e isso que importava. E depois de Theo está devidamente livre dos confetes e na roupa nova, o menino estava pronto para conhecer Ventobravo mais a fundo.

— Vamos mãe! — chamava ele ansioso – Vamos Tommy!

— Só mais uma coisa. — disse Tommy antes de pôr uma boina na cabeça de Theo, escondendo os volumosos cabelos ruivos – Agora estamos prontos.

Doroteya lhe lançou um sorriso agradecido e Tommy sorriu de volta. Logo, os três saíram em direção a feira, que ficava nas proximidades da Catedral da Luz. Caminharam devagar, com Theo pegado na mão da mãe e olhando para a cidade com um assombro cada vez maior. Afinal, ao chegar ali, vira apenas os prédios próximos a casa de Lina; agora, ele via os prédios maiores e também a Catedral da Luz, o enorme templo da capital da Aliança.

— Uau! Que lindo! — exclamou o menino – Mãe, em Guilneas tinha prédios assim?

— Tinha sim, filho. — confirmou – Uma pena que você nunca teve a chance de ver.

— Theo não chegou a ir até a cidade de Guilneas? — perguntou Tommy intrigado.

— Não. Quando Rubrarosa precisou fugir com ele, fez por uma área menos povoada. — respondeu a druidesa.

Tommy imaginou que os motivos eram os mesmos de eles falarem a qualquer um que o menino era um Wood: protegê-lo de sua família paterna. O homem agora se perguntava quanto poder essa família poderia ainda ter, diante a destruição de seu reino. Bem, era o suficiente para Doroteya continuar cismada.

A feira estava quase no fim quando chegaram. Doroteya então teve de correr para assegurar as verduras que queria. Tommy então ficou responsável por Theo e levou o menino até a praça da catedral, mostrando a ele a estátua de Uther e contando a história da cidade. E apesar de gostar de ter saído um pouco de casa, Tommy começava a sentir os efeitos do feito: suas pernas tremiam levemente e ele estava sem fôlego. Temia não conseguir voltar para casa. Porém, fez de tudo para que Theo nada percebesse.

— Tem crianças ali! — disse Theo apontando um bando de crianças tagarelas saindo de um prédio, acompanhados por uma mulher.

— Ali é a escola de Ventobravo. — e diante do olhar confuso de Theo, explicou – É um lugar onde as crianças vão aprender com uma professora. Elas passam o dia ali, estudando e brincando.

— Sem as mães? — perguntou o menino.

— Sem as mães. — confirmou Tommy.

Depois de um momento de silêncio, Theo perguntou:

— Eu vou pra lá? — pela expressão que ele fez, Tommy percebeu que não era uma ideia que o menino ia aceitar com facilidade.

— Não. Conversei com sua mãe e com minha irmã e elas decidiram que, por enquanto, você vai estudar comigo.

Um enorme sorriso se abriu no rosto de Theo.

— Que bom! Eu gosto de você, Tommy!

A frase, dita com simplicidade e sinceridade, mexeram com o coração do homem. Ele olhou para o lado, para que o menino não visse as lágrimas em seus olhos e então falou:

— Você deveria ir para a escola em algum momento. Sua mãe vai trabalhar o dia todo, não é? Você não estará sempre com ela. E é bom você conhecer outras crianças…

Theo não estava muito convencido.

— Posso conhecer outras crianças em outros locais. — resmungou – Prefiro ficar com gente que eu conheço. — Tommy achou graça dessa fala, pois Theo só o conhecia há algumas horas.

Tommy ainda pensou em dizer mais coisas para convencer o menino que a escola era uma coisa boa, quando Doroteya chegou onde eles estavam, esbaforida, mas segurando um grande pacote pardo.

— Consegui! — exclamou vitoriosa – Comprei todas as verduras que preciso e até um bom pedaço de costela, por um preço ótimo, já que eles estavam fechando! Ah, e comprei algumas frutas também!

— Que bom! Quer que eu te ajude a levar?

Mesmo tendo oferecido ajuda, Tommy não sabia se poderia realmente servir para alguma coisa. Suas pernas pareciam ser feitas de gelatinas e ele estava arrependido de ter ido; alguém que não conseguia sequer subir e descer as escadas, não deveria ter entrado naquela jornada. Devia ter imaginado que, o máximo que conseguiria, era ir até a feira.

— Não precisa Tommy, eu levo. — disse a druidesa – Vamos?

Theo logo se adiantou a mãe e começou a falar tudo que tinha visto e ouvido sobre a Catedral e seus heróis. Tommy foi andando devagar, logo atrás deles, ordenando que suas pernas não parecem e continuassem o caminho. No começo, ele até que conseguiu, porém, quando estavam passando perto da escadaria que levava ao proto, ele parou. Não aguentava mais. Suas pernas tremiam e ele estava coberto de suor. Rezou para que Doroteya continuasse andando e não sentisse sua falta até chegar em casa. Quem sabe, até lá ele já conseguiria andar.

Todavia, não demorou até que Doroteya notasse que Tommy não os seguia. Ela e Theo se viraram e viram o homem, apoiado em um muro, curvado, como se sentisse dor.

— Tommy! — exclamou Doroteya, voltando até onde ele estava,

— Está tudo bem… — murmurou quase inaudível – Só… Preciso de um tempo…

— Você precisa sentar. — disse a druidesa – Venha, se apoie em mim.

Lentamente, Doroteya o levou até as escadarias do porto. Chegando lá, o ajudou a sentar nos degraus e fez o mesmo. Theo sentou-se entre os dois, também preocupado com o mal súbito de Tommy, que até então não tinha dado mostras de que estava tão fraco.

— Desculpem… — pediu ele – Eu… Não devia ter vindo…

— Tommy, eu quem tem que pedir desculpas. — falou Doroteya – Eu devia saber que você ainda não tinha forças para isso…

— O Tommy tá doente de quê? — quis saber Theo.

— Fraqueza, filho. O Tommy ficou sem comer direito muito tempo. Ele ainda está se recuperando.

— Ahhh… — o menino o olhou – Mas você vai ficar bom logo, viu Tommy?

Tommy queria, mais que nunca, acreditar no menino. E ainda que estivesse um pouco envergonhado, admitiu que era melhor se recuperar com uma boa companhia do que sozinho. E para completar, o sol começava a se pôr, mergulhando no mar, bem na frente da escadaria onde estavam, proporcionando uma cena belíssima e que logo atraiu a atenção de Theo e Doroteya.

— Mãe, olhe que lindo! — comentou o menino apontando – Em Darnassus não dava pra ver o sol se pondo desse jeito!

— Então vamos aproveitar o espetáculo. — sugeriu a druidesa.

Ela então colocou a sacola parda do lado e tirou lá de dentro três laranjas. Habilmente descascou todas elas e entregou uma a Theo, outra a Tommy e ficou com a terceira. E os três passaram a assistir o pôr do sol no mar de Ventobravo, sentados nas escadarias, saboreando a fruta doce e suculenta, em silêncio. Tommy então desejou ter mais tardes como aquela. Tardes, em que pudesse apenas ver um pôr do sol, em uma boa companhia e onde todas as suas dores pudessem ser esquecidas. Desejou, por um momento, que sua vida fosse bela como aquele resto de dia, e que pudesse novamente dividi-la com pessoas tão maravilhosas como as que estavam sentadas com ele naquele momento. Fechou os olhos e desejou isso de coração.

Quando o sol terminava seu mergulho no mar e a noite já se instalava ao redor deles, Doroteya levantou-se abrutadamente. Entregou o pacote pardo a Tommy que, surpreso, viu a druidesa se transformar em um imenso cervo.

— Oba! — gritou Theo animado – Passeio de cervo!

O cervo-doroteya se abaixou e permitiu que o menino subisse em suas costas. Depois, olhou para Tommy e fez um gesto com a cabeça. Ele apenas continuou fitando-a, sem se mexer.

— Mamãe quer que você suba. — explicou o menino – Ela vai te levar.

O rosto de Tommy ficou vermelho de vergonha.

— Não precisa. Tenho certeza que já posso caminhar. — e levantou-se, com muita dificuldade.

Theo e Doroteya o olhavam com censura. E antes que Tommy pudesse dizer algo, o servo meteu a cabeça em meio às suas pernas e o jogou em cima de seu lombo. Pego de surpresa, Tommy só não derrubou o conteúdo do pacote porque Theo o tomou dele no último minuto. E logo estava todo esparramado, em cima do lombo do cervo, que começou a correr sem dar chance dele se ajeitar.

— Vai mãe! Vai mãe! — gritava Theo se acabando de rir enquanto Doroteya cavalgava.

O jeito encontrado por Tommy foi se segurar com força no pelo de Doroteya e rezar para não se espatifar no chão. O caminho foi mais curto que ele imaginava, mas muito atribulado. Pensou várias vezes que cairia e pode ver os olhares estupefatos da pessoa diante de sua passagem. Por fim, chegou vivo e inteiro em casa. Desceu de Doroteya com o corpo todo dolorido e não sabia se tinha sido da caminhada ou da cavalgada. Theo desceu da mãe ainda se acabando de rir e logo Doroteya era humana de novo.

— Não faça mais isso! — pediu Tommy com o dedo em riste.

Doroteya sorriu e bateu com um dedo no dedo dele.

— Então da próxima vez aceite a carona. — e pegando o pacote das mãos do filho, sugeriu – Porque não toma um banho antes da janta? Vai fazer bem aos seus músculos.

E subiu calmamente pelos degraus, como se fosse a coisa mais normal do mundo trazer pessoas doentes contra a vontade em suas costas e entrou na casa. E enquanto ele ainda estava li, em pé de frente pra porta, procurando em sua cabeça alguma resposta a Doroteya, Theo puxou sua camisa, pedindo atenção. Tommy o olhou.

— Regra número um. — começou o menino – Nunca contrarie a mamãe.

Instintivamente, Tommy levou a mão ao pescoço.

— Melhor eu entrar e tomar um banho. — disse o homem ainda segurando o pescoço.

— É verdade. — concordou Theo.

E entraram na casa, sem perceber que, perto dali, Lina os observava de longe, quase como se não quisesse ir para casa.

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Sem cavalos, a volta de Lina e Arshe para a Bastilha foi feita a pé. A princesa não pareceu se importar e tagarelou todo o caminho de volta. Falava de com achara Theo fofo e como queria frequentar mais a casa de Lina, se ela não se importasse, obviamente.

— Claro que não me importo. — disse a comandante – Mas vou designar alguém que lhe acompanhe no caminho da Bastilha até lá.

— Quanta desconfiança! — exclamou a outra.

— Eu desconfio até da minha sombra. E isso tem me mantido viva. E espero que mantenha você, Doro e Theo também.

Arshe sorriu para a comandante, que retribuiu o sorriso. Em pouco tempo, estavam entrando na Bastilha e vários soldados começaram a vir na direção de Lina todos com questões a serem resolvidas. Porém, a comandante levantou a mão, pedindo silêncio e todos calaram.

— Todas as demandas serão resolvidas. Vão para minha sala. Vou acompanhar a princesa Arshe até o interior da Bastilha.

Todos se dispensaram e elas continuaram a subir a escadaria. Por um momento, Lina achou que teria que carregar Arshe de novo, mas a princesa conseguiu cumprir todo o caminho, apenas reclamando de leve. Lina achava que era por causa de todo o açúcar que ela havia consumido no almoço.

— Você vai comer esse bolo? — perguntou Arshe quando elas estavam dentro do castelo apontando para o bolo que Doroteya entregara à comandante.

— Por quê? — perguntou a outra desconfiada.

Os olhos de Arshe brilharam.

— Se não for comer, você pode me dar! — exclamou alegre.

— Arshe, você se empanturrou de bolo e ainda tem um pedaço enorme aí! Quer morrer de dor de barriga é?

— Seria uma dor de barriga muito feliz! Mas o bolo não é pra mim! — justificou a princesa – É pro Anduin!

O primeiro impulso de Lina foi dar o bolo, mas ela se segurou e observou a maga por um tempo, antes de perguntar:

— Promete?

— Prometo! — disse Arshe revirando os olhos.

— Prometa olhando para mim! — exigiu a outra.

Arshe bufou irritada, como uma criança, mas encarou a comandante.

— Prometo que vou dar o bolo a Anduin! — recitou sem tirar os olhos de Lina – Satisfeita?

— Não. — respondeu a comandante antes de dar o seu pedaço de bolo à princesa – Vou perguntar ao príncipe viu? Nada de tentar me enrolar.

Arshe recebeu o bolo com um grande sorriso e falou:

— Eu não vou roubar o pedaço do Anduin! E a Doro me prometeu fazer um bolo daqueles, todinho só pra mim!

Definitivamente aquele amor todo por açúcar era estranho a Lina. Sim, ela gostava de coisas doces, mas não a ponto de querer comer um bolo todo sozinha! Ela aguentava uma fatia, no máximo. E graças a isso, nunca precisara passar por nenhum curador-dentista. Todos seus dentes eram perfeitos, branquinhos e sadios. Imaginava se Arshe já havia encarado aquelas cadeiras horríveis dos quais seus irmãos falavam.

— Mais uma coisa antes de nos separarmos. — falou Lina agora com a expressão bem séria – Quero que você fique atenta a uma pessoa. – ela olhou para os lados, e viu que ninguém as ouvia – Greymane. Qualquer comportamento estranho que indique que ele desconfie de algo, me avise.

Arshe ficou muito empolgada, pois sentia-se como uma agente secreta da AVIN. Espionar de dentro e prever os movimentos do inimigo.

— Sim senhora! — disse animadamente.

—Agora, vá. Tenho coisas a fazer.

— Tchauzinho Lina! — despediu-se animadamente Arshe, virou-se e foi saltitando castelo adentro.

Contra a vontade, Lina começou a rir. Aquela menina era mesmo uma figura. Em um dia estava a beira da morte e no outro fazia uma maratona de comer bolo até não aguentar. Balançando a cabeça, Lina voltou para sua sala. As demandas estavam acumulando, mas ela queria logo interrogar os prisioneiros. Sentia que a resposta que Tommy precisava para continuar a vida estava bem perto e não tinha tempo a perder. Mas seu senso de responsabilidade apitou alto quando viu a quantidade de trabalho acumulado em sua mesa.

— Pela Luz… — murmurou diante do que viu.

Sem perder tempo, sentou-se em sua mesa e procurou separar as demandas por urgência. Mas mesmo isso demorava mais do que queria. E quanto mais agoniada ficava, mas tempo demorava. Já estava para pegar todos aqueles papéis e jogar no fogo, quando alguém entrou na sala. Ela não levantou a cabeça, pois supunha que era mais trabalho chegando.

— Comandante. — falou a voz potente de Varian.

Lina sentiu todos os pelos de seu corpo se arrepiarem. Levantou a cabeça devagar, como se não acreditasse no que ouvia e deu de cara com o rei, vestido em sua habitual armadura e parecendo mais másculo e sexy que nunca. O coração de Lina acelerou-se e seu corpo começou a implorar pelas mãos dele. Procurando ignorar os desejos que tentavam lhe arrebatar, ela ficou de pé e bateu continência.

— Majestade. — disse.

Varian deu um sorriso canto de boca, como se achasse a situação engraçada.

— Pode descansar, comandante.

Desfazendo a continência, Lina passou a encará-lo. Ele era ainda mais lindo do que sua mente lembrava. E depois de todos os dias de estresse que teve, tudo que queria era tirar a roupa e se lançar nos braços dele. Porém, uma rápida vista em sua mesa, a lembrou que isso estava fora de cogitação.

— Posso ajudá-lo, majestade? — perguntou sem esconder a pressa em sua voz.

Varian olhou para sua mesa e levantou as sobrancelhas.

— Vejo que está muito ocupada.

— Muito. — confirmou mexendo nos papéis – E ainda há os prisioneiros para serem interrogados.

— Então porque não está lá no cárcere? — quis saber intrigado – Qualquer coisa que eles possam dizer que evite novas vítimas é mais importante do que quer que esteja nessa mesa.

— Bem… — Lina pigarreou – Não são informações para o reino que quero, majestade. — e diante do olhar surpreso dele, explicou – Há dois anos, minha cunhada Ana e seus filhos foram assassinados. Desde então, meu irmão Tommy não consegue seguir a vida. Gostaria de informações sobre quem os matou, majestade, e dar alguma justiça ao meu irmão.

Varian sempre fora um rei justo. Ainda assim, por um momento, Lina temeu que ele a proibisse de seguir com seus planos. Afinal, era uma demanda totalmente pessoal e ela deixaria suas responsabilidades de lado para consegui-la. Por isso esperou, aflita, que Varian falasse qualquer coisa. O rei apenas continuou encarando-a, e então colocou a mão na mesa, em cima dos papéis. O coração de Lina apertou-se.

— Família sempre é prioridade. — disse – Vá em busca de sua resposta, comandante. Deixe isso para amanhã.

Respirando aliviada, Lina então pegou todos os papéis e colocou em uma gaveta. Depois, o encarou sorrindo.

— Não sei como agradecê-lo, majestade.

— Não é necessário. — garantiu.

Os dois se encararam por um momento e Lina sentiu-se corar diante da intensidade do olhar que Varian lhe dirigia.

— Mas, então, majestade. — disse tentando recuperar a postura – Veio em busca de algo?

Varian sorriu e então olhou discretamente para os lados. Ninguém estava a vista.

— Queria apenas vê-la, Lina. — revelou.

O coração de Lina voltou a pular descontroladamente dentro do peito, quase como se quisesse sair e se jogar em cima do rei. Não seria uma cena bonita de se ver.

— É bom vê-lo também, Varian. — e também olhou para os lados, garantindo que ninguém os ouvia – Irei àquele lugar que me mostrou, assim que resolver esse problema.

O sorriso dele agora tomou todo seu rosto e Lina percebeu que ele conseguira ficar ainda mais lindo.

— Apenas se puder, Lina. Mas, confesso que ficarei ansioso por sua visita àquele local.

Trocaram mais um sorriso e Lina se forçou a quebrar aquele contato visual e começar a se encaminhar para a porta. Tinha a sensação de que se não fosse ela a agir, Varian ficaria olhando-a intensamente até que todos na Bastilha soubessem o que se passava na mente do rei. Lina sabia. Porque pensava exatamente a mesma coisa.

— Boa sorte, comandante. — desejou o rei.

— Obrigada, majestade. — agradeceu ela.

Depois desse encontro, a ida até o cárcere ficou mais fácil. Enquanto caminhava, ostentava um sorriso bobo, lembrando da forma como se olharam, das palavras dele. Parecia até… Parecia que… Xingando a si mesma, Lina procurou banir aqueles pensamentos. Tinha que lembrar que, no final, era apenas sexo. A história de Doroteya estava ali para provar que o envolvimento de pessoas comuns, como ela, com pessoas da nobreza, estava fadada ao fracasso. Restava para ela apenas aproveitar enquanto podia, mas sempre mantendo em mente que era apenas uma diversão.

Quando chegou no cárcere de Ventobravo, Lina já ostentava seu usual semblante sério. Os guardas imediatamente abriram caminho para e logo ela caminhava por entre as câmaras escuras e frias. Lina detestava aquele lugar. Era frio, úmido e estava cercada das piores pessoas que já andaram pelo reino. Muitos dos que estavam no Cárcere foram mandados para lá pela própria Lina, então, não foi surpresa que a comandante ouvisse muitas ofensas e ameaças enquanto andava até as celas dos Defias.

Os prisioneiros estavam acorrentados e se encolheram quando a viram. Um deles ainda tinha um dos olhos enfaixados, mas Lina admirou o trabalho de Doroteya ao reconstruir o outro olho do homem. Sorriu de leve e se aproximou das grades.

— Boa tarde, rapazes. — disse animadamente – Vim conversar de novo com vocês.

Os homens se encolheram e murmuraram coisas que a comandante não sabia se eram súplicas ou ameaças.

— Se forem bonzinhos e colaborarem, posso arrumar para vocês uma cela maior e refeições um pouco melhores. E, claro, isso vai contar quando forem a julgamento.

— Nós vamos te entregar! — disse o com o olho tapado – Nós falaremos o que você fez.

— Claro que falarão. — disse sem demonstrar medo – Mas em quem eles acreditarão?

Isso os fez ficarem ainda mais temerosos. Lina pensou em qual seria a solução mais fácil: interrogar todos ali, ou um por um. Bem achou melhor um por um. Interrogaria todos individualmente, e eles não se encontrariam até o final do interrogatório. Assim, poderia ver se eles dariam a mesma resposta.

— Guardas. — chamou – Tragam aquele para o interrogatório. — e apontou para o homem com o olho enfaixado.

O Defia uivou de raiva e medo. Lina acompanhou os guardas o pegarem e o levarem até uma sala, no final do cárcere, onde uma cadeira com algemas permitia o interrogatório sem perigo para o interrogador. Quando o Defia foi devidamente algemado e Lina foi deixada sozinha com ele, o homem tremia.

— Não lhe farei mal. — disse ela em uma voz quase amorosa – Só quero respostas.

— Já dissemos tudo que sabíamos! — protestou ele.

— Não. Quero uma informação específica. — e se aproximou dele – E acho que você me dará.

As correntes tilintavam devido ao tremor das mãos do prisioneiro. Lina estava bem em frente a ele quando perguntou:

— Já ouviu falar de Tommy Wood?

O som das correntes pararam. O Defia agora a olhava, com o olho bom arregalado e entendeu o porquê de ter sido levado até ali.

— Acho que isso é um sim. — disse ela antes de continuar – Há dois anos, vocês assassinaram uma mulher e duas crianças. Duas crianças. — ela levantou dois dedos – Dois pequenos seres que nada tinham a ver com quaisquer coisas que acontecessem dentro da Aliança. A família de Tommy Wood. — a voz dela se tornou mais dura – E eu sei porquê. Vocês o queria fora de ação. Ele era um excelente engenheiro e as máquinas e armas que ele produziam estavam dando uma vantagem à coroa. Covardes como vocês são, em vez de irem atrás dele, foram atrás da família dele. — Lina agora estava com o rosto a poucos centímetros do prisioneiro e ele podia ver a fúria nos olhos verdes – Vocês mataram duas crianças inocentes e uma boa mulher e mãe. E agora eu quero saber: qual de vocês fez isso?

Por um momento o homem continuou olhando-a, sem nada falar. Depois, para a surpresa de Lina, ele começou a rir. E enquanto a comandante eu observava, atônita, o prisioneiro continuava a rir. Aquela risada despertou a fúria dela, que, sem pensar duas vezes, socou a gargante dele. O Defia engasgou e a sua risada cessou. Ele agora a encarava com o único olho visível cheio de ódio e dor.

— Responda logo. — ordenou ela com a voz repleta de fúria – Ou, juro pela Luz, que dessa vez ninguém vai curar seus olhos.

O Defia pensou em blefar. Ele sabia que o posto dela corria risco se novamente o torturasse. Era algo contra as leis de Ventobravo. Sim, podia se safar dessa apenas dizendo isso, que ela perderia tudo se tocasse nele mais uma vez. Porém, a expressão da comandante dizia apenas uma coisa: não me importo. O homem percebeu que estava diante de uma mulher mais que disposta a perder sua carreira para obter aquela resposta. E por mais que fazê-la perder o cargo seria ótimo para sua irmandade, do que adiantaria se ele estivesse cego e de nada servisse mais para os seus? Por isso, decidiu falar. E logo ela saberia o motivo de seu riso.

— Eu sei quem fez. — disse com um grande sorriso.

Um arrepio perpassou o corpo de Lina. Aquele sorriso não significava boa coisa.

— Fale então! — ordenou.

O Defia continuou sorrindo.

— Ele é seu irmão, não é? Tommy Wood? Sei que esse não é o nome dele. Vocês tem nomes bizarros e por isso se escondem com esse pseudônimos não é? — ele riu mais um pouco, mas parou quando o punho de Lina se aproximou de sua garganta – Chega, eu falo! — ela parou com o punho a poucos centímetros do pescoço dele e esperou – Ele quer vingança não é? Você também, não é? Pois bem, vocês não a terão. Porque o homem que matou sua família está morto.

Era isso que Lina temia. Baixou o punho e se perguntou se ele realmente falava a verdade. Se fosse, queria saber exatamente em que condições o homem morrera. Porém, não foi necessário perguntar. O próprio Defia falou:

— Sabe o mais interessante? Você o viu morrer. — ele riu – O homem que assassinou sua família foi o mesmo que sua amiga cadela comeu a garganta. Nós o chamávamos de Jack Açougueiro. Que ironia não é? Morrer com a garganta mastigada…

Após sua fala, o Defia procurou sinais de surpresa ou raiva em Lina, mas ela se mantinha impassível. Bem, era algo que ele tinha que admirar, a mulher era durona mesmo. Do jeito que todos comentavam. Ele sempre achou que era exagero que não tinha como uma mulher ser como falavam. Mas era, e muito mais. Por isso que ela tinha chegado tão longe. E se ela subisse mais na hierarquia, pensou, os Defias estavam com os dias contados.

Lina manteve o rosto sem expressão pois era treinada para não deixar os prisioneiros saberem o que se frustrara ou magoara. E se ela pudesse expressar toda a frustração que sentia, gritaria e se contorceria naquele momento. O homem que matara a família de Tommy já estava morto. E fora Doroteya quem o matou. No início podia soar como uma boa notícia, mas não era. O que seu irmão diria ao saber que sua vingança fora negada? Que não poderia ele mesmo cumprir a promessa que ele fizera? Como agiria diante de Doroteya dali para a frente? Não conseguia nem mesmo imaginar. Claro, o homem podia ter mentido. Só que Lina acreditava nele. Sim, pois era o tipo de situação onde um Defia falaria a verdade espontaneamente. Para machucar. Por isso, foi até a porta e chamou os guardas que estavam no corredor.

— Levem-no daqui. — ordenou – E tragam o próximo.

Apesar de ter decidido dar continuidade ao interrogatório, Lina sabia que todos falariam a mesma coisa. E foi exatamente o que aconteceu. Mesmo sem contato entre si, os homens falaram a mesma história. Inclusive um deles quis dar detalhes do assassinato de sua cunhada e sobrinhos e só não o fez porque ela o calara com um bom soco na garganta. Já ouvira demais. Tinha suas respostas. Só não sabia o que fazer com elas.

Caminhou de volta até em casa, surpresa com o sol que ainda brilhava. Não chovera e o dia nublado tinha se transformado em um dia de sol. Era estranho, pois dentro do cárcere era sempre noite. E também, após aquela revelação, o dia ensolarado não parecia adequado a tudo que acontecera.

Quando Lina se aproximou de casa, sentou-se em um banco. Não sabia como encarar o irmão. Ficou um bom tempo sentada e viu quando Tommy, Doroteya e Theo voltaram da feira. Seu coração se apertou. Qual seria a reação do seu irmão? Odiaria Doroteya por ter tirado a chance de sua vingança? A agradeceria? Não tinha como saber. Só torcia para não ter que expulsá-lo de casa. Doroteya não ficaria feliz com isso e poderia pegar Theo e voltar para Darnassus. Suspirando, sabia que de nada adiantava especular e só tinha uma forma de saber as consequências da verdade.

Tinha que encarar seu irmão e revelar tudo.

Tommy estava na cozinha cortando legumes junto com Theo quando ouviu a porta de abrir. No primeiro momento pensou que fossem Fey e Mel, e se surpreendeu quando Lina apareceu na porta, afinal a irmã disse que demoraria.

— Lina? — disse franzindo a testa – Já em casa?

— Lina! — exclamou Doroteya quando a viu – Você…

Mas as palavras morreram na boca da druidesa. O semblante de Lina era sério e mórbido, de quem traz péssimas notícias. Tommy estremeceu.

— Tommy. — disse Lina – Precisamos conversar. Venha.

Tommy olhou rapidamente para Doroteya e então levantou-se. Theo observou a cena, ciente de que havia algo errado. O menino então rezou rapidamente para Eluna, pedindo que não fosse nada ruim e que não piorasse a doença de Tommy. Sua mãe também rezava intimamente pedindo a mesma coisa.

Lina levou Tommy até seu quarto e fechou a porta. Os dois sentaram na mesa que a comandante matinha e se encararam. O estômago de Tommy se revirava.

— Fale logo. — pediu – Não me poupe. O que você descobriu?

Não havia um jeito menos doloroso de falar, então Lina despejou tudo. Contou de como chegara no cárcere, de como assustara os homens que ela havia torturado antes, de como o homem com apenas um olho bom falara até com alegria o que pedira. Falou tudo. Não poupou nenhum detalhe. Guardou para si apenas os medos que os relatos lhe despertara e de como agora temia que sue irmão se descontrolasse e regredisse ao estágio de desespero ou que culpasse Doroteya e a odiasse. Isso deixou de fora. De resto, contou tudo. Todas as palavras. Depois, esperou.

Tommy não disse nada por um tempo. Era difícil para Lina dizer o que ele sentia. Talvez, nem ele mesmo soubesse como lidar com aquelas informações. Passado um tempo, em que só irmãos apenas compartilharam o silêncio, Tommy levantou-se e se dirigiu a porta, sem falar uma única palavra. Lina o viu deixar o quarto e entendeu a intenção dele. Iria até a cozinha.

— Tommy! — gritou indo atrás dele – Tommy!

O que seu irmão faria? Simplesmente não conseguia imaginar. Por isso, tentou pará-lo em seu caminho, mas Tommy usou suas últimas forças para se manter longe da irmã e chegar até a cozinha. E logo que entrou, se encaminhou diretamente para Doroteya. A druidesa ouvira os gritos de Lina e encarou Tommy no instante em que ele entrou na cozinha, sem entender o que se passava. Por um momento, Lina se perguntou se teria que atacar o próprio irmão.

Então, Tommy fez o que seu coração mandou. Ele foi até Doroteya e a abraçou. E não foi apenas uma abraço, como os que ela já lhe dera. Não. Ele se abaixou, a pegou por baixo dos braços, e a ergueu, num apertado abraço de urso. Sem entender, Doroteya apenas retribuiu o abraço, enquanto seus pés balançavam suspensos no ar.

— Obrigado! — disse ele entre lágrimas – Muito obrigado! — e sapecou um beijo em uma de suas bochechas.

Doroteya olhou para Lina em busca de resposta, mas a comandante nada disse, apenas chorava. Sim, Lina estava chorando, com silenciosas lágrimas escorrendo pelos olhos. E Doroteya deixou-se ficar nos braços de Tommy, sem entender o motivo da emoção. E foi Theo quem expressou a surpresa da mãe.

— O que tá acontecendo? — perguntou a Lina – Por que o Tommy tá agradecendo a mamãe?

— Sua mãe o vingou. — respondeu a comandante.

— Como assim? — quem indagou foi Doroteya, ainda nos braços de Tommy.

Tommy colocou Doroteya delicadamente no chão, mas continuou segurando suas mãos.

— Você vingou minha família, Doroteya. — falou Tommy emocionado – Eu… — ele baixou a vista – Por um momento achei que eu não suportaria não ser eu a acabar com quem fez isso com Ana e com as crianças… — então ele voltou a encará-la – Mas foi você… E foi o suficiente. Você fez justiça para nós e… — ele suspirou, com os olhos marejados – E eu só posso agradecer.

Doroteya continuava o olhando, confusa. Lina então se aproximou.

— O homem que atacou Arshe… O mesmo que você matou… Foi o responsável pela morte da família de Tommy. — revelou.

A druidesa encarou Tommy com os olhos marejados.

— Desculpe… — murmurou com a voz falhando – Devia ser você a matá-lo…

— Eu percebi que não importa. — Tommy sorriu – Por que você… Você é igual a mim, Doro. Você sabe o peso de perder quem se ama… — ele passou a mão no rosto dela, limpando suas lágrimas – Se eu fosse escolher alguém para me vingar seria você. — e ele a abraçou novamente.

— Obrigado por me esquecer. — reclamou Lina, mas ela não parecia ofendida nem com raiva, ela apenas ria.

— Então aconteceu uma coisa boa? Temos que comemorar! — exclamou Theo animado.

Tommy finalmente soltou Doroteya. Ele sorria abertamente, como fazia anos que não sorria. Mesmo não tendo sido ele a matar o assassino de sua família, estava finalmente em paz. Aquele homem jamais faria mal de novo a alguém. E bem morrer com a garganta destroçada por uma worgenin enfurecida era um bom castigo. Melhor até do que o que Tommy planejara para ele.

— Você realmente não está chateado comigo? — perguntou Doroteya com os imensos olhos castanhos marejados.

— Jamais. Estou tão feliz que poderia te encher de beijos.

— E porque não faz isso? — perguntou Theo.

Tommy gargalhou.

— Tem razão. — e pegou o rosto dela e passou a dar beijos por todo ele.

Foi a vez de Lina gargalhar.

— Eiei, tem uma criança presente! — avisou a comandante.

Todos agora riam, e Doroteya estava totalmente encabulada pelos muitos beijos no rosto que recebera. Pelo menos Tommy não beijara sua boca. Se o tivesse feito, ela teria ficado muito sem jeito.

— E aí, vamos comemorar ou não? — insistiu Theo.

— Já estamos comemorando Theo. — disse Lina passando a mão na cabeça do menino – Mas, não custa nada abrir um bom vinho.

Tommy concordou e Lina finalmente pode suspirar aliviada. Estava tudo bem por ali. Jantaria com a família, tomar um bom vinho, e quando todos estivessem se recolhendo, sairia na direção da Bastilha e visitaria Varian. Depois de todos os estresses dos últimos dias, tudo que ela precisava era sentir aquelas mãos em seu corpo. Sim, era o que precisava.

Ninguém sabia, mas aquele dia marcou um novo começo, não somente para Tommy, mas para todos que agora moravam naquela casa e para toda a Família Wood.

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— Alguém faz ideia de onde está Lor’themar e Vivithi?

A pergunta foi feita por Luxuriah após Karen ficar entediada demais esperando pelo elfo para as aulas de política e ela mandar Tewdric e Kassyeh levar a irmã caçula para passear.

A questão era que ninguém vira Lor’themar nem Vivithi durante todo o dia. As servas comentaram que o lorde regente pedira chá mais cedo e que passa o dia no quarto na companhia da sobrinha. Ao que parece, disseram, a caçadora se sentira mal e o tio estava cuidando dela. Luxuriah achou estranho. Até o dia anterior, Vivithi parecia muito bem.

— Talvez seja uma desculpa para me evitar. — disse Ash franzindo a testa – Ele deveria me dar aulas de combate hoje de manhã, mas não deu nem notícia.

— Lor’themar não faria algo assim. — retrucou Luxuriah – E se há algo acontecendo com Vivithi, eu quero saber. Vou até o quarto de Lor’themar. — avisou a caçadora – Vou saber o que tá acontecendo.

— Vou junto. — anunciou Ash.

As duas elfas então subiram a escada em direção ao quarto de Lor’themar. Sem entender porque, o coração de Ash disparou. Xingou-se por isso, pois não era como se ela estivesse indo por convite dele, mas porque havia algo errado. Mas elas sequer chegaram a bater à porta. Lor’themar estava saindo no exato momento em que elas se aproximaram. Quando as viu, ele ficou um pouco surpreso, mas depois deu de ombros. Lógico que ele tinha que supor que alguém o procuraria, depois de um dia de sumiço.

— Ela está bem. — foi dizendo assim que as elfas se aproximara. Ele mantinha a voz baixa, para que a sobrinha não ouvisse nada – Conseguiu finalmente dormir.

— O que Vivithi tem? — perguntou Luxuriah.

— Um pouco de febre e náusea. — respondeu – Mas acredito que amanhã ela estará ótima.

— Mas o que causou isso? — quis saber Ash – Ontem ela parecia tão bem…

Lor’themar a olhou e Ash percebeu que o elfo estava cansado e preocupado. Quaisquer outras coisas provavelmente foram expulsas de sua mente. E agora, ele pensava como poderia dizer as duas irmãs qual o mal de Vivithi. Luxuriah entenderia; Ash provavelmente não. Deixaria então as explicações a cargo de Luxuriah.

— Vivithi teve uma crise por conta das lembranças do ex-noivo. — disse olhando para Luxuriah – Acredito que, quando ela estiver melhor, lhe procure em busca de conselhos.

Ash não sabia que Vivithi já tivera um noivo. E pela expressão que Luxuriah fez diante da fala do elfo, o relacionamento não deveria ter sido muito bom.

— Por isso então ela está com febre… — Luxuriah bateu o dedo no queixo – Ela tá bebendo bastante água? Você levou algo para ela comer?

— Sim para as duas questões. — ele suspirou, visivelmente exausto – Eu não ficarei tranquilo até que minha sobrinha fique bem. — e olhando diretamente para Ash, pediu um pouco envergonhado – Sei que falhei hoje com você, princesa Ashrial, mas amanhã treinaremos sem falta.

A primeira reação de Ash foi mandar ele à merda por tê-la tratada de forma pomposa, de novo. Porém, não podia negar que estava com pena de Lor’themar; ele não estava apenas visivelmente cansado, mas também aéreo, distraído e preocupado. Definitivamente não poderia ensinar nada a ela daquele jeito.

— Se as coisas não melhorarem amanhã, não precisa ir. — disse calmamente – O importante aqui é a Vivi.

Lor’themar a presenteou com um sorriso singelo que mexeu com o coração de Ash, não porque fora amoroso ou sensual, mas porque foi sincero e profundo.

— Me dê notícias. — pediu Luxuriah preocupada — Quero saber assim que ela melhorar.

— Pode deixar. — garantiu o lorde regente – Peçam desculpas a Karen por mim também. Não queria falhar com a rainha. Agora, vou pegar um pouco mais de água.

Com um leve aceno de cabeça, ele as deixou. Ash achou que Luxuriah ia entrar no quarto de Lor’themar para ver Vivithi com os próprios olhos, mas a elfa virou-se e voltou para a sala. Ash a seguiu de perto, morrendo de vontade de perguntar um monte de coisas a sua irmã, mas sem nenhuma coragem. Quando chegaram ao fim da escada, Luxuriah repentinamente se virou para ela e perguntou:

— Você sabe o que é um relacionamento abusivo, Ash?

Pega de surpresa, a elfa balançou a cabeça.

— Nunca ouvir falar, Lux. Mas não soa como algo bom.

— E não é. — ela respirou fundo., depois olhou para os lados para garantir que ninguém as ouvia – Sabe Ash, eu tive meu corpo violado por desconhecidos. Mas sabe o que é pior? Ter sua alma violada pela pessoa que você mais ama. — e sem dar mais nenhuma explicação, foi na direção de Rommath, que se aproximava delas com um sorriso no rosto.

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Karen estava sentada na praia, brincando na areia enquanto o sol mergulhava no mar próximo a Luaprata. A menina estava molhada do mergulho que dera com Tewdric e agora tentava reconstruir o castelo Grommash de areia molhada. Quando o prédio começou a ganhar forma, ela lembrou do sonho de Saba. E então, derrubou toda a construção e passou a tentar retratar a Torre Solfúria. Ao seu lado, Galinha bicava a areia, numa tosca tentativa de ajuda.

Kassyeh e Tewdric estavam sentados em cima de uma toalha, bebendo um pouco de vinho e observando a uma curta distância as tentativas de Karen na areia. A elfa sorriu, suspirou longamente e colocou a cabeça no ombro do orc.

— Tewdric? — chamou.

— Diga, Kass.

— Faz pouco mais de um mês que a gente casou, sabia?

O orc a olhou, surpreso.

— Só isso? — questionou incrédulo.

— Só. — confirmou ela sorrindo – Há pouco mais de um mês nós estávamos sentados embaixo daquela árvore em Durotar, olhando esse mesmo mar, e então você me marcou. — ela se aconchegou mais nele – Até aquele dia, Ash e Karen nunca tinham ido a Orgrimmar; minha irmãzinha caçula ia ser sacerdote. Luxuriah estava com o Grey e ninguém sabia. Nós éramos apenas as sobrinhas de Aethas Fendessol. E Saba, só a filha da estajadeira. E então, tudo aconteceu muito rápido. As meninas chegaram a Orgrimmar. Nós nos casamos. Lux se separou de Grey. — a expressão de Kassyeh ficou sombria – Aquele tauren apareceu. Viramos princesa. Karen será paladina. Lux está grávida e casada. — a elfa suspirou – E tudo se desenrolou tão intensamente, que eu sinto que vivi três anos dentro desse mês e meio.

Tewdric passou o braço pelos ombros de Kassyeh e a puxou para mais perto.

— Tenho a mesma sensação. — confessou ele – Mas sabe de uma coisa? A vida não teria graça se tudo fosse calmo sempre.

— Verdade. — concordou – Mas às vezes, tudo que eu queria era uma tarde como essa. Quente, mas fresca, vendo minha irmãzinha brincar e na companhia do meu amado marido. Sim, às vezes eu desejo que essa tranquilidade dure para sempre.

O guerreiro a afastou um pouco, o suficiente para encará-la intensamente. Kassyeh se sentiu corar diante do olhar que ele lhe dirigiu.

— Eu te juro, minha Kass, que lutarei todas as batalhas que forem necessárias para realizar esse seu desejo.

O coração de Kassyeh pulou loucamente no peito, e ela soube que, não importasse o que acontecesse, quantas reviravoltas a vida trouxesse, quantos títulos e responsabilidades jogasse em suas costas, Tewdric sempre, sempre estaria ali ao seu lado. Deu um beijo singelo nos lábios do orc, que sorriu encabulado, e voltaram a olhar Karen e sua construção. E quando o sol se pôs, eles chamaram a menina e voltaram pelo caminho iluminado até a Torre Solfúria, sem saber o que os próximos dias trariam para a Família Fendessol, mas com a certeza que estariam prontos para qualquer coisa, pois tinham uns aos outros.