Herdeiros da Guerra
30 Capítulo XXIII – Véu de Inverno (PARTE I)
Notas iniciais
Capítulo XXIII – Véu de Inverno
A lâmina passava suavemente pela pele dele, empurrando a espuma e tirando com eficiência os primeiros resquícios da barba negra que nascia. Jogou então água no rosto e o enxugou antes de se olhar no espelho. O reflexo sorriu para ele e Tommy ficou feliz por finalmente começar a se reconhecer novamente.
Fazia quase dois meses que Tommy voltara ao convívio de seus irmãos e nunca pensara que a readaptação fosse tão fácil. Por que, pensava ele, se acostumar com a alegria era muito mais fácil do que se acostumar com a dor. E, pela Luz, não foram os últimos tempos felizes como não imaginava que seria de novo?
A saudade de sua família ainda estava lá, claro. Às vezes, sonhava com eles e levantar da cama na manhã seguinte era difícil. Porém, o som de um pequeno punho batendo na porta e chamando “Tommy, Tommy” era capaz de tirá-lo da letargia e fazer com que pudesse encarar o dia novamente, pois o pequeno Theo estaria do outro lado da porta, com sua meiguice e esperteza, pronto para banir quaisquer pensamentos ruins que ainda pudesse estar na cabeça do homem.
Jamais imaginava que fosse se apegar tão rapidamente a uma criança daquela forma, principalmente depois de perder os filhos tão jovens, mas Theo tinha um encanto que simplesmente era impossível de se resistir. E Tommy fora facilmente fisgado pelo menino, que agora o considerava parte da família. Não apenas ele, mas também a pessoa de quem Theo herdara todas aquelas qualidades. Doroteya não apenas o alimentara e cuidara, mas também o vingara e agora fazia parte de seus dias com a mesma intensidade que o filho. Tommy jamais admitiria para sua irmã, mas tinha certeza que, se não fosse aqueles dois, sua volta ao mundo dos vivos teria sido bem mais dolorosa e talvez nem tivesse acontecido.
Suspirando, Tommy voltou a olhar seu rosto. Os dois anos passados na busca da vingança cobraram seu preço: havia muito mais fios brancos em seus cabelos negros do que nas cabeças de Fey e Mel, seus irmãos mais velhos. E havia rugas também ao redor dos olhos verdes, que o faziam parecer bem mais velho do que seus trinta e oito anos. Pelo menos as olheiras haviam ido embora e continuava com todos seus dentes brancos e saudáveis. Não conseguiria suportar a ideia de ficar banguela.
Passou agora os olhos pelo seu corpo. Já não estava esquelético, mas também não voltara a ter os músculos de outrora. Levara pelo menos duas semanas para voltar a ganhar resistência e agora corria todos os dias junto com Theo até a feira, comprava a comida do dia e voltava. No começo o menino o seguia, mas agora Tommy insistia em levá-lo nas costas, para ganhar mais resistência. Theo adorava e ele também. Começara também a se exercitar nos fundos da casa onde tinha improvisado alguns pesos e outras coisas. Porém, ele calculava que levaria talvez um ano ou mais para voltar ao corpo que tinha. Levantou um braço fazendo um ‘muque’ para espelho e se decepcionou. Faltava muito ainda.
O que o mais preocupava agora, porém, seria a reação de sua mãe ao vê-lo. Agradeceu a Luz por ninguém de sua família ter aparecido por ali em seu pior período, pois tinha certeza que a dona Mariana sairia de sua fazenda e viria pessoalmente amarrá-lo na cama e enchê-lo de comida da mesma forma como se ceva um porco. Não, não, jamais! Amava a mãe, mas com certeza o tratamento de Doroteya fora muito melhor. Bem, a velha senhora falaria algo mais cedo ou mais tarde e ele não sabia se estava pronto para ouvir. Na verdade, sabia que não estava. Nem queria. Mas o Véu de Inverno estava chegando.
A última coisa que Tommy desejava era ir para a fazenda no Véu de Inverno. Porém, sua querida irmãzinha caçula lhe dera um ultimato: ou você vai ou te obrigo a ir. Tentara argumentar de todas as formas que não se sentia pronto, que não seria agradável, que faria a mãe deles sofrer e até usou o argumento que não comprara presente pra ninguém, nem tinha dinheiro para isso. A esse argumento, Lina respondera:
— Papai e mamãe querem você lá, e não os presentes.
Por fim, ele concordara. Não estava feliz, sabia que seria sofrível, mas discutir com Lina na época das festas era impossível. Não que ela gostasse das comemorações de fim de ano, pelo contrário: sempre fora Tommy que a arrastara. Até hoje, a caçula da família guardava rancor contra as irmãs, especialmente Lícia e era recíproco. As festas muitas vezes acabavam em tumultuadas brigas, com os irmãos se xingando, os sobrinhos berrando, os menores chorando e seus pais tomando vinho, assistindo aquela algazarra com um sorriso no rosto, comentando de como era bom reunir a família.
Coisas da família Wood.
Mas não era apenas o medo da mãe que o fazia relutar em ir para a fazenda no feriado. Ele não queria deixar Theo e Doroteya sozinhos em Ventobravo. A druidesa e seu filho, lógico, foram convidados a irem até a fazenda dos Wood para o feriado, mas ela declinara o convite gentilmente.
— Eu e Theo não passamos um Véu de Inverno juntos desde que tudo acontecera em Guilneas. Quero proporcionar um feriado de família para nós dois.
E Lina, lógico, aceitara. Como sempre aceitava as coisas de Doroteya. Por que para ele, que era o irmão, será só patada e com a amiga era só corações. Sim, Tommy tinha inveja da relação das duas. Talvez até um pouco de ciúmes. Tá, muito ciúmes. Mas não da forma ruim. Só queria ser bem tratado, era pedir demais?
Conhecendo sua irmã, era sim.
Cansado das reflexões, decidiu que era hora de sair. Tinha um trabalho muito importante para fazer naquele dia. Era o dia de caçar árvores. Pegou a camisa que pendurara no cabide, mas pensou um pouco e não a vestiu. Segurou-a nas mãos e saiu do banheiro.
A cozinha não estava movimentada aquela manhã. Tommy se perguntou se todos já haviam saído, mas depois viu Doroteya sair da despensa com um queijo redondo imenso nas mãos, que parecia que podia esmagá-la a qualquer momento. Era difícil acreditar que uma mulher tão pequena tivesse tanta força.
— Tommy! — exclamou ela pondo o queijo na mesa – Bom dia!
Ele tinha que admitir que esse era o melhor momento do dia. Sempre que Doroteya o saudava, parecia que o tudo ficava mais leve, mais luminoso, mais feliz. Talvez fosse a sinceridade de suas palavras, ou da alegria com que eram ditas, ele não sabia. Só sabia que era uma das coisas pelas quais mais ansiava todas as manhãs.
— Bom dia. — respondeu sorridente – Onde está o Theo?
— No banheiro de Lina. Ele estava apertado, mas não queria te atrapalhar.
— Ah! Acho que demorei demais fazendo a barba…
— Não se preocupe, deu tudo certo. — e olhando-o de alto a baixo, perguntou preocupada – Não vai sair assim, não é? Está frio lá fora.
Frio era uma forma sutil de falar que esfriara tanto em Ventobravo que havia pessoas usando magia de fogo para que a água não congelasse nos canos. Ainda não nevara de fato, mas ele sabia que era só questão de tempo até que as ruas estivessem cheias de neves. Tommy detestava a neve. Não totalmente, quando ela caia e estava branquinha e limpa era bonitinho. O problema era quando ela começava a derreter e as carruagens passavam por cima, gerando lama gelada que depois congelava novamente, fedia e era difícil de limpar.
— Não pretendo sair assim. — disse tranquilizando-a – Só queria uma opinião sua.
— Opinião? — perguntou.
— Sim. — ele abriu os braços – Como estou?
Ela inclinou levemente a cabeça, sem entender.
— Como assim?
— Pelo meu corpo, como estou?
— Saudável. — foi a resposta.
Tommy deu uma risada, mas manteve a pose de braços abertos.
— Não é isso. Quero saber… Eu pareço… Forte? — ele pigarreou – Bonito?
A druidesa sentiu o rosto corar e deu uma risadinha nervosa diante da pergunta. Ela caminhou até onde ele estava e tocou levemente o braço dele. Tommy ficou vermelho instantaneamente.
— Eu acho que você está se fortalecendo aos poucos. Vai demorar pra ter os músculos que um soldado que não passou pelo mesmo que você tem, mas, acho que já avançou bastante. — ela tirou a mão e sorriu – E bonito… Você sempre foi. Mesmo daquele jeito. Era uma beleza triste, mas existia.
Chocado com a resposta, Tommy a encarou fixamente. Doroteya desviou a vista e voltou sua atenção novamente ao queijo. Ele tentava assimilar o que ela dissera quando a voz de sua irmã chegou aos seus ouvidos.
— Que exibicionismo gratuito é esse na cozinha, Tommy?
Lina vinha acompanhada de Theo, cujos olhos brilharam ao ver Tommy. O homem então vestiu rapidamente a camisa, sentindo o rosto quente tamanha era sua vergonha. Não sabia porque, mas sua irmã chegar ali naquele momento o deixou totalmente sem jeito.
— E aí, Tommy? — insistiu ela sentando à mesa – Para que esse peito de fora na cozinha? Quer me deixar sem apetite?
— Ele estava perguntando sobre o progresso dele. — disse Doroteya socorrendo-o – Eu acho que ele está muito melhor.
— Com certeza! — concordou a comandante – Falta muito para voltar ser o cara sexy de antes, mas está no caminho.
— O que é um cara sexy? — quis saber Theo.
— É um homem muito, muito, muito bonito e que todas as mulheres querem agarrar. — respondeu Lina.
— Ah, não parece bom! — exclamou o menino – Você vai querer andar na rua e toda mulher ficar agarrando, deve ser perigoso, não? Elas podem te machucar! Não queira isso, Tommy!
A gargalhada foi geral diante da fala do menino. Em sua inocência, Theo obviamente achava que ser agarrado era uma coisa ruim. E como ele continuou não entendendo o motivo da risada geral diante de seu comentário, Doroteya falou:
— O agarrar que a Lina fala é no bom sentindo, filho. Significa que um homem sexy faz as mulheres quererem namorar com ele.
— Ah!!!!!!! — exclamou o menino, por fim, entendendo – Mas o Tommy quer arrumar uma namorada?
Pego de surpresa pelo garoto, Tommy instintivamente olhou para Doroteya. Depois, riu sem jeito e se acomodou à mesa também.
— Não sei, Theo, não sei. É muito cedo para pensar nisso.
Lina observou o irmão por uns momentos. Tommy obviamente estava muito melhor do que ela imaginara que ele ficaria em tão pouco tempo. Sabia que um dos principais motivos para aquilo era, sem dúvida, a presença de Theo na casa. No início, seu irmão ficava constantemente emocionado com a criança, mas agora, dos dois estavam tão apegados um ao outro que ela se perguntava se Doroteya não ficava com ciúmes.
— Então, vocês vão fazer o que hoje? — perguntou a comandante.
— Caçar árvores! — bradou Theo animado.
Doroteya fez uma careta de desaprovação.
— Ainda não concordo com essa ideia de derrubar uma árvore só pra enfeitá-la… — comentou desgostosa.
— Não se preocupe, Doro. — disse Lina – Para cada árvore que eles derrubam, plantam duas.
A druidesa ainda parecia chateada.
— Mas mãe, a gente nunca teve uma árvore de Véu de Inverno! — falou Theo fazendo bico – Não seria legal ter uma?
Toda a relutância de Doroteya se evaporou diante do pedido do filho. Suspirando, passou a mão nos volumosos cachos de Theo e por fim, falou:
— É verdade, nunca tivemos… Bem, se eles realmente replantam os pinheiros depois, tudo bem. Agora, comam bastante para terem forças para trazer essa árvore para casa! — e apertou a bochecha do filho, que sorriu.
E eles comeram. Tomaram café da manhã juntos e depois Doroteya deu instruções específicas tanto para Theo quanto para Tommy no que vestir, enquanto Lina também ia se aprontar para ir para a Bastilha.
— Roupas quentes, por favor, não quero ninguém doente aqui. — avisou a druidesa — Tommy, troque essa camisa, está muito fina. Vista algo mais grosso. E você Theo, venha aqui que vou lhe ajudar.
Logo estavam os dois, homem e menino, devidamente vestidos, com casacos, e gorros, prontos para a ‘caçada’. Lina ainda estava no quarto e Doroteya aproveitou para dar mais instruções.
— Peguem, levem esses lanches. — e entregou dois pacotes a eles – Tommy, não esqueça de comprar algo aquecido para vocês tomarem lá. Lina disse que devem vender chocolate quente por perto. E quando chegarem, limpem bem os pés, nada de lama pela sala.
— Algo mais, mamãe? — perguntou Tommy divertido.
Doroteya riu.
— Não, acho que só isso. — e olhando para o filho – Agora, me dê um beijo, Theo.
Theo deu um beijo na mãe e saiu correndo porta afora. Para a surpresa de Doroteya, Tommy se inclinou e também deu um beijo em sua bochecha. Ela sentiu o rosto arder quando ele riu e saiu pela porta também.
Pouco tempo depois, Lina voltou do quarto, devidamente vestida para o frio que fazia lá fora. Doroteya, sem entender porque, ficou aliviada de Lina não ter visto o beijo que Tommy lhe sapecara no rosto. Tinha a impressão que a amiga poderia fazer um mal juízo do gesto.
— Eles já foram? — perguntou a comandante.
— Já sim. Espero que não neve. Não quero que os dois peguem friagem.
Lina apenas riu.
— Você fala como se fosse mãe dos dois. — e depois, comentou – Eles estão bem unidos, não é?
Doroteya fez que sim.
— No início, confesso que achei que seria um problema. — admitiu Doroteya – Mas agora, parece a melhor coisa que fizemos. Nós saímos e chegamos e eles estão sempre ali, juntos, escrevendo, lendo, brincando, passeando…
— Tommy era um excelente pai. — contou Lina – Acho que ele encontrou em Theo a forma de dar todo o amor que ele tinha dentro de si pelos filhos que se foram. E quanto a Theo… Bem, desculpe-me a sinceridade Doro, mas parece que pela primeira vez ele tem uma figura paterna de verdade.
Doroteya não tinha como ficar chateada com o comentário de Lina pois também pensava a mesma coisa. Era verdade. Liam via o filho muito pouco. Toda a educação de Theo fora dada por mulheres e a figura masculina na vida dele era muito difusa. Ás vezes Doroteya temia que seu filho desenvolvesse uma ideia errada do que era ser homem. E se ele associasse a ideia de masculinidade com fugas, mentiras, segredos? Não era isso que Rubrarosa acusava Liam de fazer? E se seu filho acreditasse? Porém, Theo sempre foi um menino sincero e honesto e Doroteya deixou de se preocupar. Só agora, vendo toda a admiração e amor que Theo tinha por Tommy foi que percebeu que o menino precisava de um herói em quem pudesse se enxergar. Um homem em quem ele pudesse se espelhar. E Tommy estava se tornando esse homem. Toda vez que os olhos de Theo brilhavam enquanto observava Tommy falar deixava aquilo claro. Mesmo com todos os seus problemas no início, ele nunca deixou de ser bom e gentil com Theo e a medida que se recuperava, ensinava coisas ao menino, brincava com ele e estavam tão próximos quanto pai e filho deveriam ser. E ela não tinha ciúmes; se era daquilo que seu filho precisava, fazia questão que ele tivesse.
Só uma coisa agora preocupava Doroteya.
— Mas Lina, — quis saber enquanto elas saiam para o frio lá fora – e quando Tommy conhecer alguém? Arrumar uma namorada? Se ele formar uma nova família e deixar o Theo de lado? Eu não aguentaria ver meu filho sofrer.
— O Tommy nunca faria isso. — comentou a comandante resoluta.
— Como você pode ter certeza? — insistiu a outra.
Lina a encarou antes de responder:
— Porque ele já considera vocês dois da família. E Tommy jamais deixaria sua família de lado. — e então completou – Agora vamos, cadê minha carona Doro-cervo-fofinha? Temos que organizar a abertura da Árvore da Bastilha e também falar com Arshe. O dia para ir em Dalaran é depois de amanhã. Temos que deixar nosso plano a prova de falhas.
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Em Luaprata, a organização do Véu de Inverno também estava bem adiantada. O pinheiro recém-cortado fora colocado em um vaso e, naquele momento, as quatro irmãs o decoravam com inúmeros enfeites, a maioria deles mágicos, que foram trazidos de suas casas. Excepcionalmente naquele ano outros enfeites foram admitidos na Árvore dos Fendessol, no caso, os que Rommath trouxera de sua casa. Kassyeh não aceitara a princípio, mas bastava dar uma olhada na barriga de Luxuriah para que qualquer resistência sua fosse vencida. Ninguém contrariava a elfa desde o momento em que sua barriga começou a aparecer.
Enquanto as três mais velhas colocavam os últimos detalhes no pinheiro, Tewdric estava sentado no chão, com bolinhas em sua roupa, uma estrela na cabeça enquanto Karen dava voltas ao seu redor, colocando um fio cheio de pequenas lâmpadas enquanto cantava:
— Dingo bell, dingo bell, acabou o papel! Não faz mal, mal, não faz mal, limpa com jornal!
— Karen! Pare de cantar essa música horrível! — reclamou Ash.
A menina passou a cantar mais alto enquanto dava voltas ao redor de Tewdric, envolvendo-o com mais fios ainda, e o orc quase já não aparecia por trás dos enfeites.
— Já chega, Karensky. — disse Luxuriah em uma voz suave, mas firme – Daqui a pouco você mata Tewdric sufocado.
O orc levantou o polegar, dizendo que estava tudo bem. Ele poderia ter falado, mas Karen colocara uma bengala doce em sua boca.
— Mas é minha árvore! — disse ela apontando Tewdric – É o Ted de Véu de Inverno!
— Não é porque ele é verde que você tenha que decorá-lo! — ralhou a mais velha – Agora, tire tudo isso dele e venha nos ajudar de verdade.
Fazendo bico, Karen começou a ‘desmontar’ sua árvore Ted, que logo comeu a bengala que estava na sua boca e ajudou Karen a tirar tudo de seu corpo. Depois, já livre, ele gritou ‘caça à elfas fofinhas’ e passou a correr atrás da menina. Karen gritou de alegria e passou a fugir de Tewdric, que fingiu a perseguir por toda a sala. Depois, ele a agarrou, levantou, fez cócegas nela e a levou até o pé do pinheiro. A menina ria tanto que seu rosto estava vermelho como brasa.
— Às vezes não sei qual deles é a criança… — resmungou Luxuriah colocando mais uma bola dourada na árvore.
— Pelo menos a Karen tem com quem brincar. — defendeu Kassyeh colocando bengalas doces no pinheiro – A Saba só chega dia 23.
— Por que Saba chega tão tarde? — perguntou Ash que estava ajoelhada, procurando bonequinhos de Papai Inverno em uma grande caixa cheia de bolas – Alguém viu os bonequinhos? Não acho nenhum.
— Aqui Ash. — respondeu Rommath entregando outra caixa a ela – Eu vi muitos nessa caixa.
— Obrigada Rommath.
— Eu acho que ela não vem antes por causa de seu treinamento. — quem falou foi Kassyeh – Gryshka me contou, quando fui a Orgrimmar, que a mestra de Saba é muito exigente. Eu não pude conhecê-la, estava apressada, mas ouvi falar que ela é uma xamã muito respeitada.
— É sim. — afirmou Tewdric ainda segurando Karen nos braços – A senhora Shikrik foi pupila de Drek’tar ainda em Draenor. Ela é bem seletiva em escolher pupilos e se ela foi até Orgrimmar só buscar Saba, é porque viu algo grande pra ela.
— Claro que viu! — exclamou Karen – Saba é especial!
Durante o período em que passaram longe uma da outra, Karen e Saba trocavam cartas toda semana. E quando chegava a carta de Saba, Karen parava qualquer coisa que estava fazendo, até mesmo as brincadeiras com Tewdric, e ia ler o que a amiga escrevera. Suas irmãs achavam aquilo tudo muito positivo, pois agora com treino com Lady Liadrin e as aulas com Lor’themar, o tempo de diversão de Karen estava bem curto. Tudo que pudesse a fazer feliz era bem-vindo. Por isso, no dia de montar a árvore, ninguém treinava nem estudava.
Isso incluía Ash também.
A jovem caçadora voltara a ter aulas com Lor’themar depois que as coisas se acalmaram. Porém, ela percebera um certo distanciamento dele em relação a sua pessoa desde o dia em que Vivithi ficara doente. Ash sabia que Luxuriah fora ver a elfa depois daquele dia, mas não lhe falou nada sobre essa suposta doença da patrulheira. Ash achou melhor não perguntar; tinha seus próprios problemas para resolver. Como, por exemplo, continuar perto de Lor’themar gostando tanto dele e tendo que lidar com seu distanciamento. Nem mesmo os ciúmes que Luxuriah dizia que ele sentia de Kayliel conseguia visualizava agora. Era como se aquela noite em que passara cuidando de sua sobrinha tivesse feito algo na cabeça dele, algo que agora o mantinha o mais profissional possível com a princesa. Ash até pensou em conversar novamente com Luxuriah, mas de que adiantaria? Não importava o que fizesse, se Lor’themar não tivesse mais nenhum interesse nela, estava tudo acabado. Por isso, gostou de estar ali com as irmãs, enfeitando a árvore. Quanto menos visse Lor’themar, melhor.
— Achei os bonequinhos! — disse ela por fim com vários bonequinhos de Papai Inverno nas mãos – Vamos colocar juntas, Karen?
A menina, ainda nos braços de Tewdric, fez que sim com a cabeça e o orc a pôs no chão. Logo, estavam as duas distribuindo os bonequinhos enquanto as últimas bolinhas vermelhas eram colocadas. Poucos minutos depois, todos se afastavam para admirar a primeira árvore de Véu de Inverno feito pela família com seus dois novos membros. Três, se contassem com o bebê na barriga de Luxuriah.
— E pensar que no próximo ano teremos um bebê aqui conosco! — falou Kassyeh animada abraçando a barriga de Luxuriah – Poderemos colocar um gorrinho nela e fazê-la brincar com as bolinhas!
— Você deveria estar empolgada com esse Véu de Inverno e não com o próximo. — riu-se Luxuriah, passando a mão na cabeça da irmã.
— Eu estou animada. — defendeu-se Kassyeh – Principalmente porque você deixou eu fazer as compras em Dalaran.
A expressão de Luxuriah fechou-se um pouco, mas ela falou tranquilamente:
— Só porque você vai ver como está tio Aethas e dar nossos presentes a ele. — a elfa bufou – Ainda acho que você podia ter achado tudo em Orgrimmar, como faz todo ano.
— Lux, os goblins tão cobrando os olhos da cara por tudo! — reclamou a outra – E em Dalaran tem coisas diferentes! Principalmente coisas para crianças. Lá tem uma loja de brinquedos linda!
— Eu quero brinquedos! — exclamou Karen.
— Viu? — disse apontando a irmã.
— Karen quer qualquer coisa que deem a ela. Nossa querida irmãzinha e futura rainha ficaria feliz se você desse um clipe de papel de presente.
— Eu vou ganhar um clipe de papel?! — perguntou com os olhos brilhando – Preciso de um para segurar as cartas de Saba!
— Viu? — foi a vez de Luxuriah apontar – Mas, já que você quer tanto ir, dê uma boa olhada em titio Aethas.
— Eu vou dar uma boa olhada em titio Aethas! — comentou Tewdric animado – Estou pensando em passarmos a noite lá e sair com ele pra tomar umas cervas!
Kassyeh achou que Luxuriah ia achar demais eles irem para Dalaran e ainda passar a noite lá, mas a elfa apenas afirmou com a cabeça, concordando. Tewdric sabia o porquê da complacência de Luxuriah, ainda que para Kassyeh aquilo fosse só efeitos da gravidez. O orc e a elfa dividiam um segredo que as demais não sabiam. O motivo pelo qual Aethas andava triste pelas ruas de Dalaran e só ter mandado uma carta para as sobrinhas naquele período.
Aethas estava apaixonado por Vivithi.
No início, Tewdric relutou em conversar com Luxuriah a respeito daquilo. Porém, a caçadora logo soube pela própria Vivithi o que seu tio lhe falara. E não fora uma conversa fácil. Durante dias a elfa perseguiu a amiga, desde a sua suposta doença ter acabado e não sossegou enquanto Vivithi não contou o problema. Depois, sabendo da intimidade surgida entre o orc e seu tio, fizera o mesmo com Tewdric. E aquilo a preocupara e muito. Em outra situação, ela teria rido do tio, brincado que ele tinha pago com a boca tudo que dissera com Vivithi, mas Luxuriah não tinha motivos para isso. Por mais que achasse irônica aquela situação, ela sabia muito bem que Vivithi não teria condições de corresponder aos sentimentos de Aethas. O que tinha acontecido com Vivithi há muito tempo, antes mesmo da própria Luxuriah nascer, ainda afetava a vida da elfa. E era pedir demais que tudo mudasse de repente.
Então, sua preocupação estava com o tio. No caso de Vivithi, ela estava sempre ali pela amiga, poderia ajudá-la de perto. Mas seu tio estava naquela cidade horrível rodeada de humanos. E humanos era a última coisa que Luxuriah queria ver enquanto carregava Tinuviel dentro dela. Por isso, quando Kassyeh veio com a ideia de fazer compras em Dalaran e visitar o tio, ela não se opusera, desde que levasse o marido junto. Afinal, cuidado sempre era pouco. Não ia deixar a irmã naquela cidade horrível sem o machado de Tewdric por perto.
— Desde que você cuide para que minha irmã não fique ao alcance de nenhum humano idiota, pode beber quantas cervas quiser. — disse Luxuriah – E não demorem mais que um dia, certo?
— A Lux anda tão boazinha, não é, Ash? — perguntou Karen toda sorridente – Tá até deixando a Kass ir a Dalaran…
— É a gravidez. — explicou a outra – Lux anda sensível…
— Vocês sabem que estou ouvindo vocês, não é? — perguntou Luxuriah franzindo a testa – E agora que terminamos, porque vocês não vão dar uma volta antes que esfrie?
— Podemos ir ver a Árvore que está sendo montada no bazar? — perguntou Karen animada.
— Infelizmente não, Karen. — quem falou foi Kassyeh – Você só vai poder ir lá no dia da inauguração. Sua primeira aparição oficial como herdeira do trono.
Karen fez um bico, chateada.
— Que tal vocês irem lá em casa, buscar o Kayliel? Ele ficou de pegar alguns enfeites de mesa e toalhas festivas mas ainda não voltou. — e olhou bem para Karen antes de completar – Você pode flagrar ele tentando esconder seu presente em algum lugar.
Os olhos da menina brilharam.
— Eu sempre acho meus presentes! — disse animada – Quero ir, quero ir! Vamos Ash?
— E o jeito? — disse dando de ombros.
— Eu vou junto! — anunciou Tewdric – Para o caso de alguém querer mexer com as meninas.
Todos sabiam exatamente quem era o ‘alguém’ a quem Tewdric se referia, mas ninguém acreditava que Kayliel pudesse realmente mexer com Ash. E por via das dúvidas, Kassyeh decidiu que tinha que ir também.
— Irei para ficar de olho nos três ai. — e revirou os olhos.
Em pouco tempo, os quatro saíram em direção a casa de Rommath, com Karen tão animada que falava a plenos pulmões que ia conseguir achar os presentes de Kayliel também. Luxuriah riu e sentou-se em um dos sofás da sala, a que ficava em frente a árvore. Rommath sentou-se do seu lado e ela se aconchegou a ele.
— Cansada? — perguntou.
— Muito. — admitiu a elfa – Mas é tão bom esse momento com minhas irmãs que vale a pena.
— Verdade.
Luxuriah então o olhou com um sorriso intrigado no rosto antes de perguntar:
— Você mandou eles na sua casa de propósito não foi? Para a Ash vê-lo?
— Claro. — admitiu – Queria tê-lo trazido aqui para montar a árvore. Eles dois têm uma boa intimidade, mas admito que falta algo.
— Falta química, Rommath. E não acho que Ash e Kayliel sejam algo mais que amigos. Eu queria, mas acho improvável. — ela suspirou – Ash ainda gosta de Lor’themar.
— E meu irmão… — o mago não terminou a frase. Sua expressão ficou sombria, mas Luxuriah sabia o que ele queria dizer.
Todos sabiam que Kayliel não esquecera a humana. Rommath pedira para que Vivithi ficasse de olho nele, que avisasse se alguma carta do Kirin Tor chegara. Queria ser o primeiro a saber se seu irmão tentara retomar o contato com ela e estava disposto a tudo para impedi-lo de cometer o maior erro de sua vida. A última coisa que Rommath precisava naquele momento era que seu irmãozinho fosse executado por traição. Todavia, a Vivithi garantira que nada chegara até o sacerdote, só que Rommath não estava muito certo disso. Talvez estivesse sendo paranoico, mas desde que Kayliel externara a pretensão de ir a Dalaran fazer umas compras de Véu de Inverno, ele tinha sensação que Vivithi e seus patrulheiros deixaram passar algo. Então, quando Kassyeh disse que também iria até a cidade flutuante e Luxuriah concordara, ele ficara exultante, pois poderia mandar Kayliel junto e pedir para a cunhada ficar de olho em seu irmão. Esperava apenas o momento certo para fazer o pedido e torcer para Kassyeh atendê-lo.
O relacionamento de Rommath com sua cunhada não estava mais tão tenso, mas também não era o exemplo de amor familiar. O mago tinha a certeza que Kassyeh ainda o via como um intruso, alguém que estava interferindo na vida de sua irmã, de modo a impedi-la de achar o verdadeiro amor, mas a elfa nunca lhe dissera nada diretamente. E desde que a barriga de Luxuriah começara a parecer e a deixá-la mais sensível, Kassyeh assumira o lado de tia babona e vivia em função de deixar a irmã relaxada e feliz. E isso estabeleceu uma trégua de sua raiva de Rommath.
Só que Kassyeh não era a única empenhada em fazer Luxuriah feliz. Rommath, ciente da sorte que tivera em agora estar com sua amada, procurava estar sempre por perto para atender todas as demandas de sua adorada esposa. Depois da primeira noite, passara a dormir sempre ao lado dela, deixando que o abraçasse e dormisse apoiada em seu peito. Às vezes ela murmurava e chorava enquanto dormia, mas isso estava se tornando cada vez mais raro com o passar dos dias. E agora, com a chegada das festas, praticamente cessara.
— Você tem dormido melhor. — comentou ele passando a mão por seus cabelos.
— Verdade. — concordou – Mas sabe, acho que há um jeito de eu dormir ainda melhor, sabia?
— Sabia. Quando faço massagem em suas pernas. — respondeu fingindo não entender a indireta.
A verdadeira que, apesar de Luxuriah ter deixado claro que pretendia consumar o casamento, aquilo ainda não acontecera. Em parte por causa de Luxuriah em parte por causa de Rommath. Da parte da elfa, fora o cansaço imenso que sucedeu todos os acontecimentos da família. Após todo o estresse dos dias anteriores ao casamento, Luxuriah entrou em uma letargia imensa. Dormia muito, comia pouco e passou a preocupar todos. Kayliel, já um morador da torre, disse que era uma forma do corpo dela se recuperar de toda a tensão que sofrera e que, em alguns dias, passaria. E aquilo realmente aconteceu. Aos poucos, a elfa foi voltando ao normal e retomou seu ritmo. Àquela altura, a barriga já estava visível e a futura mamãe teve que encomendar todo um guarda-roupa novo. Nesse tempo, ela começara as investidas contra o marido.
Rommath desejava Luxuriah, claro. Há anos sonhava em beijar novamente seu corpo nu e tê-la em seus braços. Porém, não havia como não se sentir um aproveitador, cada vez que ela o procurava. Até então, conseguira fugir de suas investidas, dando massagens até que ela dormisse, demorando no banho, enfim, usando uma série de artifícios para que nada se iniciasse. Pois ele, sabia que quando o fizesse, não conseguiria parar.
Do outro lado, Luxuriah ardia de desejo. Sendo já uma elfa de vida sexual ativa, agora, com os hormônios da gravidez, ela queria mais que nunca uma boa noite de sexo com seu marido. Só que Rommath estava escapulindo como uma moreia de mana.
Por pouco tempo.
Luxuriah tinha um plano.
— Rommath. — começou – Quero fazer algo antes que fique frio demais para isso.
— Diga.
— Lembra quando fazíamos piqueniques no meio dos morangueiros? Gostaria de um. Eram tão divertidos!
Sim, Rommath lembrava muito bem. Fora nesses piqueniques que se apaixonara perdidamente por Luxuriah e onde também eles dois fizeram sexo pela primeira vez. Por um momento, ele desconfiou do pedido, mas ela o olhava de forma tão sincera e animada, que ele achou que fosse coisa da sua cabeça. Além do mais, esfriara a um ponto de ninguém querer sair de casa sem um casaco, quanto mais ficar sem roupa.
— Claro! — disse já se animando também – Você só não vai poder tomar vinho, por causa da bebê.
— Tudo bem. — concordou – Podemos levar chá em vez de vinho.
— Sim, bebidas e comidas quentes.
— E um cobertor. Podemos ver o pôr do sol de novo, enrolados em um cobertor, o que acha? — perguntou com os olhos brilhando.
— Excelente! Assim você não corre o risco de ficar gripada e eu não corro o risco de ser morto por sua irmã por permitir isso.
Luxuriah deu uma gargalhada e Rommath amou aquele som.
— Tem razão. A Kassyeh não lhe perdoaria nunca. — e colocando a mão na barriga, disse – Não quero nem pensar na possibilidade de ficarmos doente, não é, Tinuviel?
O hábito de falar com a barriga era algo característico de sua mãe, lembrava Luxuriah. As vezes Samanthah empreendia uma conversa tão longa, que ela e seu pai achava que ela realmente estava ouvindo a opinião do bebê. Durante a gravidez de Karen, as conversas se misturavam em pequenas brigas também, pois a mãe queixava-se que o bebê não parava quieto, que se mexia demais, obrigando-a a ir ao banheiro muito mais vezes do que antes. A agitação era tanta que podia-se ver quando a criança se mexia. Luxuriah lembrava de certa vez que sua mãe levantar a blusa e mostrara os movimentos para as filhas. Luxuriah ficou impressionada, Kassyeh em êxtase e Ash gritou com medo. Dava para ver claramente a mão do bebê batendo na barriga da mãe, como se quisesse sair logo. Samanthah e Dhomm então tiveram a certeza que viria um menino daquela vez. E quando Karen nasceu, ficaram pasmos e preocupados. Tinham uma pequena elfa com um espírito livre e intenso. Luxuriah sorriu diante da lembrança. Queria que os dois tivessem visto que tinha sim muitos motivos para se preocupar.
— Será que vai demorar para ela se mexer? — perguntou de repente – A essa altura, já era pra eu sentir, não?
Rommath tocou sua barriga.
— Alguns bebês demoram a mexer. Kayliel só foi dar sinais de vida no sétimo mês. Minha mãe já tinha chorado muito, achando que não vingaria. — ele suspirou – Devagar até antes de nascer.
Luxuriah riu e colocou a mão em cima da dele.
— Espero que não tenha nada de errado. — comentou preocupada.
— Não tem. — garantiu ele – Tinuviel é apenas tranquila. Deve estar dormindo agora e sonhando com a mãe maravilhosa que vai ter.
Não havia como não sorrir e se tranquilizar com as palavras de Rommath. Luxuriah tinha certeza que fizera a coisa certa ao se casar com ele e cada dia que passava essa certeza aumentava cada vez mais. Claro, se ele parasse de tentar fugir dela e finalmente pudesse ter um pouco de sexo seria ótimo, mas sabia que era só uma questão de tempo. Pensando nisso, se aconchegou ainda mais nele e fechou os olhos. Adormeceu em pouco tempo, e sonhou que mostrava a barriga a sua mãe e sua bebê dava piruetas da mesma forma que Karen fazia. Foi um sonho breve, mas lindo, que a fez sorrir enquanto dormia. E Rommath velou seu sono enquanto admirava seu belo rosto refletindo as luzes da Árvore de Véu de Inverno.
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A lista de presentes de Arshe havia aumentado aquele ano e isso a deixava muito feliz. Desde a morte de seu pai, a tendência foi o encolhimento das pessoas próximas a ela até só restar apenas Anduin e Varian no ano anterior. E agora, quando terminou de colocar o nome de Theo por último, sorriu ao ver que era a primeira vez que daria um presente a uma criança que não fosse seu irmão de criação. Na verdade, se sentia quase como se tivesse presenteando um sobrinho pela primeira vez. Para ser perfeito, só se Theo fosse menina e ela pudesse lhe dar uma boneca de porcelana de vestido rosa.
Não que não pudesse, mas pelo que conhecia do menino, ele não ficaria muito empolgado.
Na nova lista de Arshe estavam, obviamente, seu tio postiço, o rei Varian e Anduin. Logo em seguida vinha Lina e Doroteya. Arshe decidiu também presentear seus novos amigos Fey e Mel e também dar algo para animar Tommy. O irmão de Lina estava nitidamente bem melhor, quase outra pessoa, e talvez um presente o animasse mais. E claro, havia Theo. O menino mais fofo do mundo cujo presente a princesa ainda não escolhera, mas que fazia questão de ser o presente mais legal que ele ganharia aquele ano.
Terminada a lista, Arshe foi se arrumar para a inauguração da Árvore da Bastilha. Enquanto as servas lhe ajeitavam, ela olhou diretamente para o calendário próximo a cama, onde o número 15 daquele mês fora circulado com uma tinta vermelha. Sentiu o coração se acelerar, ao lembrar que seria dali a dois dias. Claro, para todos a sua ansiedade era baseada na sua expectativa de compras (afinal, Arshe adorava ir às compras), e apenas Lina e Doroteya sabiam do verdadeiro motivo. Só elas entendiam porque comer lhe dava um aperto no estômago. Só elas entendiam porque suas noites estavam se arrastando longas e insones. Só elas entendiam o quanto aquele dia era importante.
Seria o dia em que teria finalmente sua resposta.
Receber a carta de Kayliel a deixara em tal pânico que ela ficou vários minutos segurando a carta sem saber o que fazer. Depois, saiu correndo em busca de Lina pela Bastilha e foi uma sorte enorme que ninguém tivesse percebido a carta roxa do Kirin Tor nem feito perguntas a respeito. E quando chegara no pátio da Bastilha, onde Lina dava ordens a novos recrutas, balançou a carta para que a comandante pudesse ver. Definitivamente tivera sorte e Lina lhe passara um longo sermão sobre não perder a compostura e falou novamente que tinham que trabalhar aquele travo em seu cérebro quando se tratava de Kayliel. Afinal, como alguém tão inteligente, que negociava com grandes nomes da política, ficava que nem uma criança de cinco anos diante de algo tão arriscado? Arshe gostaria de saber, mas no momento a segurança que Lina lhe dava era o suficiente para não entrar em parafuso.
Naquela tarde, as três leram a carta, juntas. Sentadas na casa de Lina, um lugar neutro, e ouvindo as risadas de Theo, que brincava com Tommy no quintal, leram a curta missiva e discutiram o que seria feito. Arshe logo deixou claro sua intenção de ir a Dalaran. Lina deixou claro que não concordava. E coube a Doroteya fazer as outras chegar a um meio termo. Por fim, decidiram que o melhor para Arshe seria ir. A moça jamais se sentiria plenamente satisfeita se não o fizesse. Só que ela não iria sozinha. Lina iria com ela. E estava disposta a arrancar a cabeça do elfo se fosse necessário. Doroteya também se ofereceu para ir. Acreditava que poderia servir como balanço para que nenhuma das duas fizessem coisas que se arrependessem depois. E assim ficou. Dia 15, as três iria a Dalaran. Arshe com o pretexto de compras; Lina como escolta; e Doroteya… Bem, porque Doroteya agora estava conhecida como comedora de gargantas e isso era um excelente motivo para Lina a manter por perto.
Arshe já fizera seu cronograma. Realmente iria às compras, passaria na Cidadela Violeta para fazer uma social e depois encontraria com Kayliel. Por Lina, Arshe não falaria com ninguém e entraria e sairia de Dalaran na surdina. Porém, todas chegaram em um consenso que a melhor forma de esconder aquilo era fazer de uma forma como se nada tivessem a esconder. E se tratando de Dalaran, quanto mais se tentava esconder algo, mas fácil seria que a coisa fosse descoberta.
Já estava em cima da hora da inauguração quando Arshe terminou de se aprontar. Levara um bom tempo fazendo o máximo para esconder suas olheiras, mas estava bem difícil. A jovem já se conformara que não dormiria direito até obter todas as respostas que queria, então simplesmente dera de ombros à roxidão embaixo dos olhos. Como seu pai dizia, o que não tem remédio, remediado está.
No pátio da Bastilha, uma multidão se formava. Estava bem frio e Arshe se encolheu dentro do vestido. Esquecera de pôr um casaco, mas já era tarde. Se voltasse para o quarto, atrasaria o evento.
Varian estava de pé, na sacada do castelo, ao lado de Anduin. Quando a viram chegar, sorriram e ela devolveu o sorriso. Se postou ao lado do irmão de criação e esperou o início da cerimônia. Olhou rapidamente lá embaixo e pode ver claramente Lina andando de um lado para o outro, acompanhada de Doroteya em sua forma de worgenin. Ficou com um pouco de inveja da amiga que podia se transformar e ter um casaco de peles natural para o frio. Então, um sino tocou e todos que esperavam ao redor da árvore se calaram. Varian deu um passo a frente.
— Cidadãos de Ventobravo! — falou com sua voz potente – Hoje, relembramos novamente nossa tradição e celebraremos juntos o início das festividades do Véu de Inverno. Essa data sirva para nos lembrar que, acima de presentes e festas, devemos celebrar nossa união e irmandade.
Uma explosão de palmas se seguiu as palavras do rei, que fez um gesto para que Anduin também falasse. O menino, um pouco trêmulo, deu um passo a frente.
— Que a Luz possa abençoar a todos nós. — falou nervoso – E declaro aberta a Árvore do Véu de Inverno de Ventobravo.
Mais palmas e vivas. O céu então se encheu de fogos e luzes que os magos conjuravam ao lado da árvore. Os três se retiraram da sacada e agora receberiam alguns nobres para um chá. Arshe, pela primeira vez, não queria servir de anfitriã para o evento. Estava louca para se encontrar com as amigas e conversar sobre a viagem. Nos últimos dias, conversar com elas era a única forma que encontrara de ficar mais calma. Por sorte, ela fora responsável por montar o evento e colocara Lina e Doroteya na guarda do local. Assim, podia conversar discretamente com elas.
Ledo engano. Do momento em que entrara na sala até que a última pessoa saísse, Arshe fora requisitada em todas as conversas. Chegou a ver Lina e Doroteya várias vezes próxima a ela, mas não teve oportunidade de falar e lhe restou esperar pacientemente ficar livre dos protocolos.
Quem teve a oportunidade de conversar com Lina, e o fez, fora Varian. O rei, que se livrava muito mais facilmente de pessoas inoportunas, conseguiu ficar livre o suficiente para procurar por Lina. Na verdade, nos últimos tempos, era apenas o que tinha vontade de fazer: procurar por Lina. Varian tinha ciência que estava muito envolvido. Sim, tinha. Porque todos os momentos em que não estava pensando em seu povo ou no seu filho, se pegava pensando nela. E quando a via, nos corredores da Bastilha, nos pátios dando ordens, trabalhando até que o sol sumisse e a noite ficasse escura, mais a desejava. Por algum tempo, culpou seu longo período de abstinência pela fixação que tinha na comandante, afinal, depois de anos solitários, encontrar uma mulher que parecia saber exatamente o que ele queria na cama era como estar morrendo de fome e ser convidado para um banquete: poderia morrer por não saber a hora de parar. Só que agora, já faziam quase dois meses que se encontravam secretamente e o desejo parecia que aumentava cada vez mais. E sempre que ela ia embora, sentia um vazio tão grande que teve que se controlar para não pedir que ela ficasse. Porque, se pedisse, sabia que receberia um não. Lina estava lidando melhor com aquilo que ele. Ela sabia separar as coisas. Como tinha inveja dessa habilidade dela!
— Comandante. — foi o que disse quando a encontrou sozinha com Doroteya.
— Majestade. — respondeu séria.
— Está tudo em ordem? — quis saber.
Claro, era uma desculpa. Tudo sempre estava em ordem. Lina era metódica e não havia nada que ela não pudesse contornar. Exceto, talvez, ele próprio.
— Tudo em ordem, majestade. — continuou no mesmo tom profissional – A árvore esta funcionando perfeitamente e há soldados controlando o fluxo de visitantes. E aproveitando sua presença, majestade, há algo que gostaria de lhe solicitar de antemão.
— Fale. — ele pediu.
Antes de falar qualquer coisa, Lina olhou rapidamente para Doroteya. A worgenin fez que sim com a cabeça, se transformou em uma pantera e se afastou dos dois.
— Varian. — ela falou o nome dele quase sussurrado e isso o fez ter um arrepio. Adorava a forma como ela pronunciava seu nome – Você tem que parar de ficar me abordando pelos corredores! Daqui a pouco as pessoas vão começar a comentar!
— Eu sempre falei com você pelos corredores. — defendeu-se – E nunca falaram nada.
— Mas está ficando muito recorrente. E você não apenas fala comigo, você… — ela se interrompeu quando alguns soldados passaram e fizeram continência para eles dois. Lina devolveu a continência e Varian apenas acenou com a cabeça – Você fica me olhando! Daqui a pouco vão começar a reparar!
— Sua amiga já reparou? — falou se referindo a Doroteya.
Era uma pergunta que Lina não esperava. Até porque, Doroteya já sabia. Mas não queria que o rei tomasse conhecimento daquilo, ou por consequência ele concluiria que Arshe também sabia.
— Se percebeu, ela não comentou comigo. — disse por fim. Não era uma mentira, afinal.
— Acho que você se preocupa a toa. — falou Varian.
Lina poderia estender aquela conversa infinitamente, mas não queria. Pelo menos não ali. Deixaria para discutir aquele problema quando estivesse no quarto dele. Se conseguisse. Porque, toda vez que entrava lá, sua cabeça ficava vazia e seu corpo nu. Tinham tão pouco tempo juntos, que Lina procurava deixar os problemas de fora daquelas paredes. Mas aquele em específico deveria ser discutido.
— Falamos isso depois. — disse por fim – E nem era isso que eu ia pedir. Há uma promoção que enviei a sua sala essa semana que gostaria que fosse feita antes do Véu de Inverno. Brienne e Jon merecem ela há algum tempo e seria bom colocá-los no comandado enquanto eu estiver de férias e-
— Férias? — se surpreendeu Varian – Que férias?
Claro, ele não sabia. Se algum tempo atrás ele sequer a reconheceu sem a armadura não poderia saber que sempre ela tirava cinco dias por ano para passar com sua família e costumava ser justamente no período de Véu de Inverno.
— Não chega a ser verdadeiras férias. — explicou – Eu tiro uns dias do ano para ver minha família. Cinco dias. Do dia 23 ao dia 28.
— Então… Você ficará cinco dias fora da cidade. — ele concluiu.
— Sim. — e diante da expressão de tristeza dele, ela falou – Não fique assim Varian. Prometo visitá-lo antes de ir e quando voltar. — e olhando para os lados constatou que não tinha ninguém por perto e disse – Tenho uma surpresa para você.
Naquele momento, Varian quase esqueceu que era rei. Queria dizer a ela que não queria surpresas. Que queria que ela passasse a noite do dia 24 com ele. Sim, a véspera do Véu de Inverno, porque sempre era a pior noite do ano. Era a noite em que seus fantasmas pareciam gritar com mais força, como se todas as coisas que o magoaram na vida fizessem questão de atormentá-lo. E quando nevava era bem pior. Às vezes, ia até o quarto do filho e ficava olhando-o dormir, numa tentativa de aliviar seus temores. Esse ano, ele ia pedir que Lina ficasse com ele.
Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, Arshe finalmente chegou.
— Ah Lina, te achei! Eu estava… — ela parou quando viu o tio lá – Estou atrapalhando?
— Não. — respondeu Lina – Eu e o rei estávamos falando sobre sua ida a Dalaran, alteza.
Arshe sabia que era uma mentira. Dava para ver no rosto dos dois. Porém, como seu tio não sabia que ela sabia, a mentira era mais para ele que para Arshe.
— Era sobre isso que eu queria falar também. — disse a princesa.
Pelo menos isso não era uma mentira total. Sim, Arshe queria falar sobre a viagem de Dalaran, mas não por ser uma viagem de compras, mas por ser uma viagem decisiva em sua vida. Se não estivesse tão angustiada, teria deixado eles dois resolvendo o que quer que fosse, mas sua veia egoísta e mimada queria um pouco da atenção de Lina naquele momento.
Varian então concordou com a cabeça.
— Vou deixá-las a sós. — disse.
Lina bateu continência e Arshe viu uma tristeza ainda maior nos olhos azuis de seu tio. Ele sorriu brevemente para ela e então se retirou.
Quando Varian desapareceu da vista delas, Arshe se virou para Lina e perguntou preocupada:
— Vocês estavam brigando?
— Não. — respondeu Lina – Mas acho que ele não gostou do que eu disse. — e diante do olhar intrigado de Arshe, Lina sacudiu a cabeça – Esqueça isso. Resolvo depois. O que você queria? Espere, já sei. Você está angustiada demais não é? Quer conversar?
— É. — a princesa suspirou – Não consigo dormir…
— Percebe-se.
Arshe deu um sorriso triste antes de continuar:
— Mandei separar comidinhas da recepção e montar uma mesa para nós três podermos comer e conversar um pouco. — e olhando para os lados – Cadê Doro?
Lina não respondeu. Levou dois dedos a boca e emitiu um alto e poderoso assobio. Logo, uma águia apareceu voando velozmente e caiu perto delas já na forma humana de Doroteya.
— Você e o rei brigaram? — foi a primeira pergunta feita pela worgenin.
— Não, não brigamos! — respondeu Lina já encabulada – Agora, vamos comer que estou morrendo de fome.
As três sentaram em uma mesa improvisada, no salão de festas, enquanto os servos cuidavam de limpar o local. Lina não quis ficar ali, pois sentia que estava atrapalhando o serviço dos outros, mas foi convencida pela própria senhora que limpava que lhe disse que gostava muito da comandante e que era mãe de um dos soldados. Então, sentaram-se e passaram a comer o que Arshe mandara guardar e a falar da viagem.
— Estou ansiosa demais. — a princesa disse algo que estava bem óbvio – Não consigo parar de pensar no que ele vai me dizer… Fico imaginando nossa conversa de diversas formas, o que ele poderia dizer e o que não, penso também que ele pode não aparecer….
— E no final, não consegue dormir. — completou Doroteya.
Arshe afirmou com a cabeça, tristemente.
— De nada adianta você sofrer por antecipação. — decretou Lina – O que quer que ele tenha para lhe dizer você saberá depois de amanhã. E se ele não aparecer, bom para você. Saberá que a resposta dele é que ele nunca realmente sentiu nada do que dizia sentir por você. E então, você poderá seguir em frente.
A comandante quase se arrependeu das palavras duras ao ver as lágrimas brilhando nos imensos olhos azuis de Arshe. Quase. Lina sabia que a jovem jamais conseguiria pensar de forma racional diante daquele problema e deveria ser ela a pô-la de volta à realidade sempre que precisasse. Essa atitude, porém, não mudava o fato de Lina já odiar o tal de Kayliel antes mesmo de conhecê-lo. Afinal, como ele ousava fazer aquilo com a filha de Bolvar?! Melhor que ele falasse tudo que Arshe precisasse saber, ou se arrependeria. Ah, e como se arrependeria.
— Arshe. — quem falou foi Doroteya, pegando carinhosamente na mão da maga – Eu sei que é difícil. Mas estaremos lá com você. Não importa o que ele diga, não importa o que ele faça, faremos de tudo para que você esteja protegida. Sei que não podemos proteger você das desilusões, mas podemos-
— Matá-lo. — cortou Lina.
A fala fora dita com convicção e seriedade, mas gerou o efeito contrário do que queria a comandante. Tanto Arshe quanto Doroteya começaram a rir e Lina ficou olhando-as, com a testa franzida.
— Eu falei sério. — defendeu-se a comandante.
— Nós sabemos. — falou Doroteya entre risos – Mas foi… Foi como você disse Lina.
Arshe concordou com a cabeça, antes de continuar:
— Sei que você pode fazer isso, mas não quero. Não quero matá-lo. Quero respostas. — e depois de uma pausa, confessou – E quero dormir também!
Prontamente Doroteya tirou de sua bolsa dois frascos da poção dourada que dera a Arshe quando a conheceu. A maga se recordou e quase chorou de felicidade ao pegar aqueles frasquinhos. Eles a ajudaram a dormir maravilhosamente bem da outra vez.
— Eu trouxe porque notei suas olheiras há dias. — disse a druidesa – Como você está ansiosa, fiz um pouco mais forte. Tome já deitada, ok? Você vai dormir rapidinho.
— Obrigada Doro! Você me salvou! De novo!
A druidesa apenas sorriu, um pouco envergonhada.
— Certo, já cuidamos das olheiras de Arshe. Agora, quero repassar os planos com vocês duas. — Lina olhou para os lados – Não quero nenhuma de nós com o pescoço na forca por causa de traição. Então, me escutem bem.
E elas escutaram.
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Tommy guiou Theo pela mão durante todo o caminho até o vendedor de pinheiros, tomando sempre o cuidado de mantê-lo afastado das ruas movimentadas e longe de quaisquer carruagens desgovernadas. Caminharam a maior parte do tempo em silêncio, sendo este quebrado apenas quando o menino fazia alguma pergunta sobre a cidade.
Sempre era bom estar com Theo. O menino era inteligente, meigo e sincero. Tommy já elogiara Doroteya várias vezes, dizendo que ela fizera um trabalho excepcional, já que o fez praticamente sozinha. A druidesa então ficava encabulada e dizia que o filho tinha apenas uma alma boa. Sim, ela estava certa. Mas até as melhores plantas murcham se não tiverem os cuidados adequados. Theo, já bom por natureza, pudera florescer naquele menino incrível graças a mãe. Agora, enquanto iam pegar a árvore que Theo tanto queria enfeitar, Tommy se perguntava se podia juntar os desejos da criança e da mãe dele em um só.
Quando finalmente chegaram no local dos pinheiros, o sol tinha aparecido e esquentara um pouco. Animado, Theo começou a ver os pinheiros que ainda estavam na terra, com empolgação, enquanto Tommy continuava com sua cabeça funcionando a mil.
— O que acha dessa aqui, Tommy? — perguntou o menino empolgado.
Ele analisou a planta antes de responder:
— Muito grande. Não vai caber na sala.
Theo não desanimou e começou a procurar outra.
— E essa? — perguntou apontando.
— Pequena.
Os dois caminharam por entre os pinheiros um bom tempo antes de acharem o que Theo gostou e Tommy disse que era apropriado. Era uma planta linda, bem verde e que exalava um cheiro incrível. Theo ficou muito animado.
— Wood? — alguém o chamou – É você?
Tommy olhou para quem o chamara e viu um senhor gordinho e baixinho que não lhe era estranho, porém, não lembrava o nome dele.
— Olá. — cumprimentou de volta, tentando lembrar o nome do outro.
— Faz tempo que você não vem aqui! — disse o homem animado – Esse é seu menino? — perguntou apontando para Theo.
Sentindo um aperto grande na garganta, Tommy negou com a cabeça.
— Sobrinho. — foi tudo o que disse.
— Oi, eu sou Theodore! — exclamou o menino em sua habitual apresentação – Mas pode me chamar de Theo.
— Que menino bonito e simpático! — elogiou antes de perguntar – Então, vai querer um pinheiro hoje?
— Sim, com certeza. — Tommy agradeceu mentalmente o senso de comércio do homem que o fez mudar de assunto – Mas eu queria algo diferente.
O homem franziu a testa.
— Diferente como? — perguntou desconfiado.
— Teria como você me vender um pinheiro com raiz? — quis saber
— Com raiz? — agora ele parecia surpreso.
— Sim, com raiz. Para que eu pudesse replantar depois. — e diante da expressão do homem, tentou explicar – A mãe do Theo é druidesa, sabe? E ela ficou um pouco chateada com o corte do pinheiro e-
— Ah, druidas! — o homem bufou – Todo ano é a mesma reclamação. E eu já disse que replanto todas as árvores! Mas continuam não me ouvindo!
— Então, eu gostaria de um pinheiro com as raízes inteiras, para que possamos mantê-lo vivo no vaso e depois replantá-lo em frente da casa. Acha que é possível?
— Tommy!- exclamou Theo com os olhos brilhando – Vai fazer isso pela mamãe?
— Vamos tentar Theo. — e depois, perguntou preocupado – Acha que sua mãe vai gostar?
— Com certeza! — garantiu o menino.
O homem, que nunca tinha recebido um pedido tão inusitado, pensou por um momento, com a mão no queixo. Tommy e Theo aguardaram ansiosamente a resposta e sorriram quando ele balançou com a cabeça afirmativamente.
— Acho que é sim, mas você vai precisar de um vaso bem grande para colocá-lo. Acho que tenho um aqui que pode servir. — e então balançou a cabeça – Mas, não garanto que o pinheiro fique vivo até depois das festas. Talvez você não consiga replantá-lo.
— Tudo bem, o importante é tentar. — disse Tommy sem preocupação.
— E vai ficar mais caro. Vou ter cobrar mais pelo esforço extra de tirar o pinheiro pela raiz, pelo vaso maior e pelo transporte, que ficará bem mais difícil.
Tommy queria dizer que não tinha problema, mas tinha. Fey, Mel e Lina estavam pagando pela árvore e cabia a ele só o trabalho de ir escolhê-la e buscá-la. Sentia-se horrível por depender dos irmãos, mas fazia dois anos que estava sem trabalhar e não tinha nenhuma peça de cobre no bolso. Talvez ainda tivesse um pouco de dinheiro no banco, mas não era certeza. Durante o tempo que desejara sua vingança, gastara indiscriminadamente o dinheiro que poupara por anos e agora não fazia ideia do quanto tinha. O homem ainda esperava sua resposta e Tommy pensou na quantidade de ouro em seu bolso.
— Quanto ficaria? — perguntou por fim.
Quando ouviu o valor, ficou mais triste. Sim, o dinheiro dava exatamente para comprar a árvore como queria, mas ficaria sem nenhum dinheiro para comprar um chocolate quente para Theo. A não ser… A não ser que fosse no banco. Poderia finalmente ver se já podia entrar em desespero ou não.
— Vamos querer a árvore com raiz. — disse por fim, para a alegria total de Theo – Pode entregar na casa de minha irmã?
Depois do negócio feito, os dois voltaram a andar. Theo quase não conseguia segurar sua empolgação, mas Tommy estava preocupado. Agora que estava recuperando a saúde, tinha que arrumar um emprego. Achava que era muito cedo para voltar ao exército, então deveria procurar algo na área da engenharia. Ele era bom com medições e construções de máquinas e prédios. Não fora ele mesmo quem construíra a casa dos irmãos e a sua própria? Poderia oferecer… Espere. Sua casa. Sim, ele ainda tinha a casa. O que teria acontecido com ela?
— Tommy? — chamou Theo – O que foi?
Ele então percebera que parara de andar e o menino o olhava, preocupado.
— Desculpe Theo. — pediu – São só coisas na minha cabeça.
— Coisas de adultos? — perguntou.
— É. Coisas de adulto. — e como o menino ainda o olhava, intrigado, começou – Você sabe, andei bem doente. Agora, estou preocupado porque não tenho dinheiro.
— Eu e mamãe nunca precisamos de dinheiro vivendo na floresta. — disse ele – Mas tia Rosa falou que agora a gente ia precisar. Eu não entendo dinheiro. Nós não comemos essas moedinhas. Como elas podem valer mais que a comida?
Tommy riu e passou a mão na cabeça de Theo. Sim, o menino tinha toda razão. Porém, como podia explicar a ele como funcionava o dinheiro?
— É difícil explicar, Theo, mas prometo que tento depois, certo. Vamos nos apressar, porque temos que chegar a casa cedo.
Como a maioria das pessoas estava na bastilha, Tommy não teve problemas de espera no banco. Logo, ficou sabendo que tinha míseras dez moedas de ouro no banco. Sacou tudo. Pelo menos, poderia comprar o chocolate para Theo e ainda sobrava para as compras da semana. Queria ajudar mesmo que fosse com pouco.
Depois de sacado o dinheiro, ele comprou dois chocolates quentes e eles sentaram em um banco em frente a fonte do distrito comercial, desembrulharam os sanduíches que Doroteya fizeram e comeram. O lugar estava bem esvaziado e Tommy gostou. Assim, podiam comer em paz e aproveitar o momento.
— Tommy. — disse Theo de repente – Posso lhe fazer uma pergunta?
— Claro que pode.
— Você tem filhos?
Tommy parou de comer e olhou para Theo. O menino parecia ansioso e ao mesmo tempo assustado pela pergunta que fizera. O homem então suspirou.
— Tive. — disse com a voz triste – Uma menina e um menino. Eles morreram há dois anos.
— Foi por isso que você ficou doente?
— Foi. Eu fique tão triste que eles morreram que adoeci. Minha esposa também morreu, então eu me sentia muito sozinho…
As lágrimas começaram a brotar nos olhos dele, mas rapidamente as limpou. Não queria que Theo o visse chorando e se sentisse culpado por isso. Por isso, respirou fundo e se controlou. Porém, Theo também se entristecera. Colocou a mãozinha em cima da mão de Tommy e disse:
— Meu pai também morreu. Eu amava muito meu pai e sei que ele me amava. Eu não o via muito, mas sinto a falta dele aqui dentro. – e apontou para o peito antes de olhar para Tommy – Então, quando eu for rezar hoje a noite, vou pedir que ele cuide de sua família lá na Luz. Acho que ele vai me atender, porque sei que ele tá vendo você cuidar de mim.
Sem conseguir se conter diante da fala do menino, Tommy chorou. Com as lágrimas lavando seu rosto, sentiu quando Theo o abraçou com força, consolando-o de toda a dor. Ele retribuiu o abraço, pois o menino também perdera uma pessoa amada. E naquela hora, Tommy prometeu que cuidaria e protegeria Theo como se fosse seu próprio filho. Ficaram um tempo abraçados e depois se separaram, sorrindo um para o outro. Voltaram a comer e logo haviam acabado com os sanduíches e as bebidas. O tempo fechara novamente e estava nublado. Tommy viu Theo se encolher dentro do casaco e então perguntou:
— Quer mais um chocolate quente?
— Quero! — aceitou animado – Posso eu mesmo comprar? — quis saber o menino.
Tommy olhou para a barraquinha de chocolate quente e calculou a distância. Como ela ficava em sua zona de visão, Theo poderia ir e voltar sem que o perdesse de vista. O único problema era que ele teria que atravessar uma rua sozinho.
— Você pode ir. — disse – Mas, quando chegar ali, olhe para os dois lados antes de atravessar. Faça isso na ida e na volta. E quando estiver com o copo, volte com cuidado para não se queimar. — e lhe deu o dinheiro.
— Obrigado! — e então foi.
Theo era um menino muito obediente. Andou com cuidado, olhou para os lados várias vezes antes de atravessar. Pediu o chocolate quente e o dono da barraquinha o achou tão fofo que deu o maior chocolate pelo preço do pequeno. Feliz, Theo agradeceu e pegou o copo com cuidado. Quando foi atravessar novamente, viu que uma carruagem vinha e esperou pacientemente que ela passasse. Depois, voltou a caminhar com cuidado até onde estava Tommy.
— O senhor me deu o maior pelo preço do pequeno! — anunciou animado – Disse que eu fui muito educado com ele e mereci.
— Claro que mereceu! — e Tommy assanhou seus cabelos.
Naquele momento, flocos de neve começaram a cair. Theo olhou preocupado para sua bebida, com medo que ela esfriasse.
— Vamos entrar ali na estalagem. — propôs Tommy vendo a preocupação do menino – Conheço a dona de lá e podemos ficar sentados em um lugar quentinho até você terminar, certo?
— Vamos!
Então os dois foram até a estalagem, onde a estajadeira Cristine cumprimentou Tommy feliz, indagando por onde ele andara. Afinal, ele era o melhor engenheiro da cidade e ela odiara fazer trabalhos com outras pessoas. Ela reclamou que teto projetado por alguém que ele não conhecia estava cedendo e quis saber se ele poderia projetar outro. Afinal, o inverno estava aí e ela não queria que seus hóspedes corressem risco. Tommy então ficou feliz em pegar seu primeiro trabalho após dois anos afastado. Combinou com Cristine que viria no dia seguinte fazer as medições e perguntou se poderia levar Theo. Com a resposta positiva da dona, Tommy esperou que Theo terminasse sua bebida, sentados próximos à lareira, enquanto a neve lá fora caia lentamente.
O que Tommy nunca soube fora o quão perto Theo esteve de seu avô, Genn Greymane. A carruagem que passara por Theo quando ele estava voltando da barraquinha de chocolate quente levava o rei até o porto, onde receberia mais pessoas de seu povo que estavam chegando de Darnassus. Greymane olhava distraído pela janela quando o rosto do menino surgiu de repente, fazendo coração do rei disparar. Pois, no momento em que vira Theo, Greymane viu também a versão infantil de seu filho Liam, morto por Sylvanna Correventos meses atrás. Quando o choque inicial passou, ele gritou:
— Pare a carruagem! Pare!
Assustado, o cocheiro parou abruptamente o veículo. Greymane abriu a porta e saiu correndo. Não sabia se tinha sido uma visão, uma ilusão ou loucura, mas tinha certeza que havia visto o filho ainda criança ali em Ventobravo. Era impossível, tentava dizer seu cérebro. Liam estava morto e morrera adulto. Mas a semelhança era tão grande, e o menino tão vívido, que ele não se aguentou e voltou até onde o tinha visto. Naquele momento nevava. Greymane olhou por toda a praça e não o achou. Se tivesse perguntando ao homem da barraquinha de chocolate quente se vira um belo menino ruivo de olhos verdes, teria sabido que Theo estava dentro da estalagem, junto com Tommy (que o homem garantiria ser o pai do menino), mas o rei não perguntou. Ficou andando a esmo pelo lugar até se convencer que fora uma miragem. Com o coração apertado, voltou para a carruagem e seguiu seu caminho.
Pouco tempo depois, Tommy e Theo saíram da estalagem, felizes. Tommy conseguira arrumar um trabalho. Pequeno, mas poderia comprar presentes para seus irmãos, Doroteya e Theo. Animado, pegou o menino e o colocou nos ombros.
— Quem tal fazermos o jantar hoje, Theo?
— Oba! Vamos fazer!
E rindo, voltaram felizes para casa, onde a árvore possivelmente já os esperava.
******************
O dia 15 chegou mais rápido do que Kayliel esperava. Isso se deveu em grande parte ao fato do sacerdote está morando na Torre Solfúria, onde sempre havia algo para fazer. Luxuriah agora estava bem melhor do que antes, mas ele ainda tinha receio dessa gravidez. Ele preferia não dividir seus medos com a futura mamãe nem com seu irmão, pois tudo estava tão tranquilo e feliz que se sentiria péssimo se estragasse isso. Assim, passava horas estudando e se preparando para estar pronto, caso qualquer coisa desse errado.
E havia Arshe.
Kayliel procurava não mostrar sua ansiedade e nervosismo que cresciam a medida que o tempo passava. Se perguntava constantemente se ela iria. Pois, apesar de saber que Arshe era extremamente curiosa, não sabia até onde o orgulho dela era maior que a curiosidade. Só que ela queria resposta. Isso seria o suficiente para acreditar que ela iria. Mas e se ela resolvesse que não importava mais? Que, independentemente das razões dele, já decidira não o perdoar? Essas coisas giravam e giravam dentro da cabeça do elfo enquanto ele tentava manter uma postura normal para seu irmão e cunhadas.
Contudo, algo lhe dizia que Rommath desconfiava. Talvez fosse o jeito do mago de lhe olhar, ou simplesmente porque ele parecia decidido a juntá-lo com Ash sempre que possível. Aparentemente ele queria fazer outro casal na família, mas Kayliel via Ash apenas como uma irmãzinha, da mesma forma que via Karen, mas isso não o impedia de tentar. A certeza da desconfiança veio quando, no dia 14, jantava com todos e Rommath perguntou:
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Kayliel, vai mesmo amanhã para Dalaran?
— Sim. — disse tentando não parecer nervoso – Quero rever uns amigos e comprar algumas coisas.
— Também irei a Dalaran. — disse Kassyeh animada – Mas ainda não decidi o dia…
— Por que não vão juntos? — sugeriu o Grão-Magíster.
O coração de Kayliel deu um salto tão grande que teve a sensação que ele sairia por sua boca. Kassyeh analisou um pouco a sugestão, e, para o desespero de Kayliel, afirmou com a cabeça.
— Seria muito bom! — disse – Só que irei um pouco mais tarde, já que vamos dormir lá. E você Kayliel, pretende ir que horas?
Ele tomou um pouco de vinho antes de responder:
— Queria ir cedo, pois não sei se meus amigos terão o dia todo para me receber.
Ficou feliz ao perceber que sua voz não saíra trêmula como pensar a princípio. Ficou aguardando a resposta de Kassyeh, sentindo os nervos a flor da pele, quando Ash veio em sua salvação:
— Vocês podem marcar de se encontrar lá. — sugeriu – Já que Kayliel quer ir mais cedo e Kassyeh quer demorar um pouco mais…
— Podemos jantar, juntos! — sugeriu Kassyeh – O que acha?
— Perfeito! — disse animado. Afinal, teria então o dia todo para encontrar Arshe.
Por um momento, achou que seu irmão fosse insistir, dizer mais alguma coisa, só que duvidava que ele fosse pressionar Kassyeh. Ou pressionar ele na frente de Kassyeh. Seu irmão estava em uma situação de trégua com a cunhada e a última coisa que queria era contrariá-la. Talvez, até mesmo contrariar Kayliel na frente dela não fosse uma boa ideia. Por isso, o mago se calou, o que deixou Kayliel aliviado.
No dia seguinte, o fatídico dia, amanheceu nublado e o elfo se sentia cansado e nervoso. Não pregara o olho na noite anterior e sua aparência não era das melhores. Tomou um longo banho quente para relaxar, se arrumou com esmero e usou uma antiga pedra de transporte que tinha, a pedra do retorno, para ir mais rápido a Dalaran. Poderia ter pedido para Rommath abrir um portal para ele, mas seu irmão já estava desconfiado o suficiente sem vê-lo com olheiras e mãos trêmulas. Além do mais, a sua pedra nunca fora desvinculada de Dalaran, então, porque não usá-la?
Com a pedra na mão, Kayliel se perguntou pela primeira vez porque nunca tinha vinculado a pedra em outro lugar. Como ia sempre a Orgrimmar, seria mais fácil tê-la vinculado lá, ou mesmo em Luaprata, o que facilitaria muito suas viagens. Só que nunca tivera vontade de fazê-lo. Talvez tenha sido sentimentalismo barato, ou simplesmente esperanças vãs de que se a mantivesse lá seria como manter uma parte de Arshe dentro de si…
O que ela diria quando se encontrassem? Jogaria acusações em sua face e depois o deixaria sozinho? Ou só pediria explicações? Deixaria ele falar e explicar tudo sem o interromper e depois o acusaria de ser mentiroso? Ou ouviria tudo e iria embora sem dizer nada? Eram tantas as possibilidades que o deixava tenso e com o estômago embrulhado. Lamentou mais uma vez a decisão que o levara até aquela situação, mas sabia que fizera o melhor para os dois. Só que… Se a distância era a solução, porque a procurara de novo? Porque, quando a vira em Dalaran, simplesmente não a deixara em paz? Por que mandar a carta? O que, afinal de contas, ele pretendia? Reatar? Duvidava muito que ela o quisesse. E se quisesse? Ele estaria disposto a correr o risco? Se não estivesse, por que diabos recomeçara tudo de novo?
Bem, aquilo não importava agora. Apertou a pedra e começou a conjurar o feitiço de transporte que havia nela. Pouco tempo depois, seu quarto esmaecia e a cidade de Dalaran tomou forma.
A cidade estava igual à última vez que fora lá. Por ser uma cidade mágica, protegida por um escudo, a temperatura lá estava bem mais alta que em Luaprata apesar de ela estar situada em Nortúndria, o continente gelado. Desceu os degraus do Portão Violeta, lugar onde os viajantes sempre aportam, e passou a andar pelas ruas da cidade.
Havia muito movimento em Dalaran já àquela hora. Não era de se espantar afinal, o Véu de
Inverno estava chegando e muitas pessoas iam fazer as compras lá, principalmente se fosse brinquedos. Pensando nisso, decidiu logo comprar o que estava em sua lista, pois se chegasse em casa de mãos vazias daria ainda mais certeza para seu irmão que havia algo errado. E já que tinha pensando em brinquedos, decidiu também que a loja Reinações seria a primeira parada.
Gepete Fazquebrinca era o gnomo dono da loja. Cumprimentou Kayliel com efusividade e então o arrastou para a sessão de novidades. O sacerdote disse que queria um presente para uma menina agitada e para um bebê que estava para chegar. Saiu de lá com Robô-foguete de corda azul para Karen e com uma bonequinha de trapos azuis para sua futura sobrinha. Já estava quase saindo quando lembrou de Saba e então comprou um controle remoto de carrinhos bate-bates para ela. Esperava ter acertado nas escolhas.
Em seguida, foi até os Fios do Destino, loja de roupas que ficava vizinha à loja de brinquedos. Deu uma boa olhada nas roupas e decidiu levar um vestido para Luxuriah. A cunhada reclamava constantemente que seu guarda-roupa estava muito limitado por causa da gravidez. Assim, comprou algo que ela pudesse usar mesmo quando sua barriga já estivesse bem grande. Não encontrou nada que lembrasse Kassyeh e Ash, por isso saiu de lá. Andou mais um pouco e olhou em mais algumas lojas, até escolher um kit de escovação para mascotes para Kassyeh e uma bela aljava para flechas para Ash. Para o irmão, comprou um relógio solar e para Tewdric uma vara de pescar nova, pois ouvira falar que Karen quebrar a última. Com os presentes comprados e o coração na mão, se dirigiu até o local de encontro onde ele e Arshe já haviam se encontrado tantas vezes.
O Memorial a Antônidas poderia ser o último lugar que alguém pensaria em propor um encontro secreto. Porém, a experiência dizia a Kayliel que a maioria das pessoas deixava passar coisas bem a sua vista, enquanto percebiam com facilidade algo que se tentava esconder. Se alguém passasse e o visse sentado em um banco ao lado de uma humana bem ali em plena luz do dia no memorial, passaria reto, pois ele seria facilmente confundido com um dos membros do Pacto de Pratas, os Altos Elfos que não aceitaram o nome dos sindo’rei e renegaram seu povo. Porém, se o vissem em um beco ou canto escuro com Arshe, poderia ser mais facilmente reconhecido pelos olhos verdes intensos e isso levaria a falatórios. E a última coisa que ambos precisavam eram falatórios.
Então, com suas compras nas mãos, ele se dirigiu até o memorial. Quando passou pelo carrinho de flores, pensou em comprar algumas para Arshe. Só que logo desistiu. Seria um erro, pois alguém vê-lo dar um presente a uma humana chamaria muito mais a atenção do que estar sentado ao lado dela. E Arshe também poderia simplesmente não aceitar. Pensou com tristeza sobre o quanto queria dar um presente de Véu de Inverno para ela e então pôs-se a caminhar. Ainda se lamentava quando viu a banca de frutas e teve uma ideia. Comprou a maçã mais bonita que encontrou e a levou até o memorial. Pegou uma das muitas fitas que as vendedoras lhe dera para embrulhar os presentes e enfeitou a maçã. Estava longe de ser um presente digno de Arshe, mas era o que podia fazer. Agora restava apenas esperar e rezar para que ela aparecesse e o ouvisse.
Qualquer coisa que acontecesse depois, estaria nas mãos da Nascente do Sol.
**********************************
Arshe agradecia suas duas últimas noites de sono a Doroteya. Se não fosse a druidesa e sua poção maravilhosa tinha certeza que não teria pregado o olho, estaria com a aparência terrível e poderia levantar suspeitas de seu tio. Porém, no momento estava sem nenhuma olheira, sentia-se bem e até mesmo calma. O dia finalmente chegara e estava satisfeita de não ter enlouquecido.
Para aquele dia, Arshe escolheu uma roupa bonita e confortável, um vestido azul-turquesa, que deixavam seus olhos ainda mais destacados. Em vez dos habituais saltos, colocou uma sapatilha, pois assim estaria preparada para muitas horas de compras. Ou para uma fuga desesperada. Escovou o cabelo, colocou uma maquiagem discreta, seu perfume favorito, e estava pronta para quaisquer coisas.
Era surpreendente como ficara calma, pensou Arshe, enquanto se dirigia ao ponto de encontro que combinara com as amigas. E não era apenas por causa da poção que tomara. Lina e Doroteya passaram os últimos dias acalmando-a e confortando-a e a princesa entendeu que muito de seus problemas estavam relacionados à solidão. Varian e Anduin a amavam, sem dúvida, mas estavam sempre envolvidos com o reino, ou então discutindo a relação conflituosa de pai e filho, e Arshe admitia que muitas vezes se sentia solitária. Agora, com as duas maravilhosas amigas que conseguira, seu estado emocional estava mais balanceado e tranquilo.
Lina e Doroteya já estavam lá quando ela chegou. A comandante mostrou que não brincava em serviço; estava toda aparamentada com sua armadura, o tabardo de Ventobravo e seu arco nas costas. Ao lado dela, um imenso urso espectral descansava tranquilamente. Doroteya também estava com o tabardo de Ventobravo, mas usava por baixo um vestido simples e tinha um cajado em suas costas. A princesa se perguntou se as duas iriam mesmo fazer compras com ela ou participar de um combate. Talvez as duas coisas. Só que em vez de a preocupar, a visão a deixava mais tranquila. Deu um sorriso aliviado e as cumprimentou:
— Bom dia!
Antes de responder, a comandante a analisou de cima a baixo.
— Não se fico aliviada ou preocupada por ver você tão bem.
— Eu estou aliviada. — disse Doroteya – É bom vê-la melhor.
Arshe alargou mais o sorriso.
— Suas poções me ajudaram, Doro, mas acho que estou me sentindo mais segura porque vocês vão comigo. — ela passou as mãos pelo vestido – Estou nervosa e ansiosa, mas também estou tranquila. Faz sentido para vocês?
— Não. — respondeu Lina – Mas é um bom começo.
Arshe então olhou com curiosidade para o imenso urso espectral e comentou:
— Nunca te vi com esse urso…
— Quando estou pela bastilha não faz muito sentido andar com meus ajudantes. Mas situações como essa exige os melhores. Esse rapaz aqui foi domado lá em Nortúndria. — ela alisou a cabeça do urso – Então achei uma boa ideia levá-lo até lá.
— Estamos indo passear Lina, não lutar. — disse a princesa.
— Nunca se sabe. — retrucou a comandante – Melhor prevenir do que remediar. Vamos?
Arshe assentiu e começou a conjurar o portal. Logo, as três estavam nas ruas de Dalaran.
Assim que colocou os pés na cidade flutuante, o coração de Arshe disparou. Kayliel estava por ali, em algum lugar. Será que já estava no local do encontro? Será que realmente iria ou Arshe só perderia tempo? A princesa então respirou fundo, para manter a calma.
— Parece que sua tranquilidade ficou em Ventobravo… — comentou Lina franzindo a testa.
— É que… — a maga apertou as mãos – Agora ele está tão perto…
— Onde é o local que vocês costumavam a se encontrar? — quis saber Doroteya.
— No Memorial de Antônidas.
— Sério?! — a comandante a olhou, incrédula – Não tinha um local mais exposto não?
— Costumávamos nos encontrar para conversar. — frisou a princesa – Não para outras coisas. Kayliel costumava dizer que o melhor lugar para esconder uma árvore era dentro de uma floresta. Se as pessoas nos vissem sentados em lados opostos do banco chamaríamos menos a atenção do que nos encontrar nos esgotos, por exemplo. — um arrepio percorreu a espinha da princesa – Fora que eu nunca colocaria meus pés nos esgotos de Dalaran!
Lina e Doroteya se entreolharam e deram uma risada. Ao que parece, Arshe sempre tivera espírito de princesa.
— Certo, não vamos ficar paradas aqui no meio da cidade. Vamos logo fazer suas compras, Arshe.
— Será que… — Arshe olhou ansiosa na direção do memorial – Não era melhor eu ir logo lá?
— Não. — negou a comandante – Vamos seguir os planos.
Resignada, Arshe assentiu. Tirou a lista de presentes da delicada bolsa de mão que carregava e analisou.
— Quero começar pelo presente de Theo. — disse animando-se novamente – Doro, me ajude a comprar o presente mais legal que ele já ganhou!
— Theo não liga muito para presentes. — comentou a druidesa – Ele sempre foi uma criança simples…
— Ora, todo mundo gosta de ganhar presentes! — protestou a princesa – Vamos, vamos lá na Reinações.
E as compras começaram. Lina ficou satisfeita em ver que comprar era uma coisa que colocava Arshe nos eixos. Enquanto escolhia um presente para Theo, ela sequer parecia se lembrar da existência de Kayliel. Ficaram um bom tempo nessa loja, até ela escolher, por sugestão de Doroteya, um kit para fazer pipas.
— Ele pode montá-las junto com Tommy. — foi o que a druidesa falou.
Depois, Arshe foi a procura dos demais. Comprou os presentes de Fey e Mel na loja de alfaiateria (novos kits de costura), comprou uma caixa de ferramenta para Tommy (Lina disse que a dele há muito se perdera), uma coleção de livros para Anduin e um par de abotoaduras para Varian.
— Detesto dar presentes para o tio. — reclamou quando saiam da joalheria – Ele não gosta de nada.
— Bem, eu sei de uma coisa que ele gosta muito. — disse Lina maliciosa para então cair na gargalhada com a expressão de nojo de Arshe.
Para comprar o presente de Doroteya, Arshe a fez ficar do lado de fora da loja, para que a outra não soubesse o que ia ganhar, e lhe comprou um belo vestido.
— Ela precisa de umas roupinhas melhores. — sussurrou para Lina enquanto olhava por cima do ombro para garantir que Doroteya não a ouvisse – É bom estar preparada caso arrume um encontro com alguém…
— Duvido que Doro vá se interessar por alguém tão cedo. — sussurrou Lina de volta – Mas é uma boa ideia.
E então, foi a vez de Lina ficar fora da loja enquanto tinha seu presente escolhido. Ficou imaginando o que Arshe iria lhe dar e se Doroteya a impediria se a princesa decidisse exagerar no presente. Suspirou. Não entendia como alguém podia gostar tanto daquilo. A comandante até tinha pensando também em comprar algumas coisas em Dalaran, mas logo deixou a ideia de lado. Tudo que precisava estava em Ventobravo e era fácil de conseguir. Até porque, Lina não costumava a comprar muitos presentes. Normalmente, passava o ano economizando e preferia dar dinheiro vivo para seus familiares. Para os pais, pegara o hábito de sempre pagar os impostos anuais. Para as crianças pequenas, uma moeda de prata, com a qual podiam comprar muitos doces. Os adolescentes ficavam com os olhos brilhando com moeda de ouro que recebiam. Claro, ela sempre dava um pouco a mais para os sobrinhos já casados. Já para seus irmãos, deixou de dar após uma grave discussão que tivera sobre presentes inúteis. Claro, apenas Fey, Mel e Tommy ficaram do seu lado, e desde então apenas eles, os pais e os sobrinhos ganhavam algo.
Aquele ano compraria mais presentes do que em qualquer ano. Normalmente, apenas seus três irmãos favoritos ganhavam algo escolhido especialmente por ela. Agora, além deles, teria também Doroteya, Theo, Arshe e Varian. Sim, ela decidira dar um presente ao seu amante e rei. No início pensara em deixar para lá, afinal, o que ele poderia querer além do seu corpo? Só que ela queria dar algo. Esperava que ele gostasse do seu presente.
Arshe ainda não tinha saído da loja quando Lina ouviu um grito infantil bem próximo:
— Tia Lina! Mãe, olha! É a tia Lina!
Sabia exatamente quem encontraria quando ergueu a vista. Uma mulher muito bonita e bem-vestida acompanhada de dois meninos. Lícia, uma de suas irmãs. A mesma que deixara a marca em seu queixo. E enquanto a irmã a encarava, surpresa, os meninos correram em sua direção, muito felizes e a abraçaram. Relutante, Lícia se aproximou.
— Tia!! — disse o menino maior – Que saudades!
— Estou com saudades de vocês também. — disse com um sorriso no rosto – Vejam vocês dois, como estão imensos! Estão tomando porção de altura?
Os meninos riram e negaram com a cabeça.
— Olá Lina. — disse a mãe dos garotos quando finalmente estava em frente a irmã.
— Olá Lícia. — respondeu.
Se alguém olhasse aquelas duas mulheres, que tinham apenas dois anos de idade de diferença, não perceberiam que elas eram irmãs. Lina tinha os cabelos negros e era alta e magra. Lícia era loira, mais baixa e tinha ganhado alguns quilinhos desde que tivera filhos. A única coisa em comum que tinham eram os olhos verdes profundos. A marca dos Wood.
De todas as irmãs, Lícia era a que Lina menos gostava. Era sempre Licía que reclamava que Lina recebia mais atenção. Era sempre Lícia que a dedurava em tudo. E fora também por causa dos estudos de Lícia em Dalaran que os pais quase perderam a fazenda. Sim, havia muita animosidade entre as duas, mas a comandante sempre fizera questão de que nada disso passasse para os sobrinhos.
— O que está fazendo em Dalaran? — perguntou a irmã – Você sempre deixou claro que detesta esse lugar.
— Estou a trabalho. — respondeu – Escolta.
— Escolta? — Lícia deu uma risada desdenhosa – Achei que comandantes não se rebaixavam a simples missões de escolta.
Lina teve vontade de pegar a cabeça da irmã e bater na parede. Mas isso faria seus sobrinhos chorarem, então ela se segurou.
— Faço o que o rei manda, Lícia. Se ele pedir para eu escoltar um gato de rua até a capital da Horda, eu o farei. — falou com a expressão séria.
Pensou que a irmã fosse fazer mais alguma piada, mas Lícia calou-se. Talvez preferisse não fazer nenhum comentário jocoso com a figura do rei de Ventobravo. O que ela diria se soubesse que sua detestada irmã caçula costumava dividir o leito com o Alto-Rei em determinadas noites?
— Wooo, tia Lina, esse urso enorme é seu? — perguntou o menino menor – Posso passar a mão nele?
— Não! — quem disso foi Lícia, puxando o menino para perto dela – Não sabemos por onde esse bicho andou, querido.
— Sim, o urso é meu. — respondeu ignorando a irmã e olhando para o sobrinho – E ele é manso e está mais limpo que muita gente que anda por essa cidade. Mas se sua mãe disse não, obedeça-a.
O menino ficou triste e os olhos de Lícia a fuzilaram, como se fosse culpa dela que o menino estava triste. Lina então desejou está dentro da loja e não na rua.
— Eu soube que Tommy reapareceu. — comentou a outra, para surpresa de Lina – É verdade?
— Sim. Ele voltou há uns dois meses.
— E como ele está? — perguntou preocupada.
Se havia uma coisa boa a dizer sobre Lícia era que ela gostava realmente de Tommy. Na verdade, o único de seus irmãos que não tinha conflito com nenhum dos outros era ele. Claro, Lina gostava de saber que ela sempre fora a favorita do irmão, e talvez esse fosse mais um motivo para a raiva das irmãs, mas Tommy sempre tratara todas com muito carinho. Lembrava que Lícia fizera de tudo para ficar amiga de Ana, a falecida esposa de Tommy e assim estar um pouco a frente de Lina, contudo, Ana era uma pessoa muito difícil. Logo, Lícia a criticava também. Outro ponto em comum que tinham.
— Ele está bem melhor. — Lina cruzou os braços – Estava muito acabado quando nos reencontramos, mas passou por um tratamento intensivo de muita comida e agora já parece gente de novo. Precisa ganhar mais alguns músculos, mas está saudável.
— Estou ansiosa para revê-lo. — disse Lícia sorrindo pela primeira vez desde que chegara – Vou convidá-lo para passar uns dias aqui conosco. Tenho uma amiga solteira que acho que faz o tipo dele, vou adorar apresentá-los.
Havia muitas coisas que Lícia poderia ter dito que a deixariam com raiva, mas aquela, inesperadamente, fez a comandante explodir.
— Olha aqui, Lícia! — falou alterando o tom da voz – Você não vai apresentar seu ninguém para o Tommy! Ele está se recuperando e a última coisa que precisa é de uma dondoca do Kirin Tor na vida dele!
No primeiro momento, Lícia ficou surpresa com a explosão da irmã, mas logo se recuperou e partiu para o ataque.
— Olhe aqui você Lina! — gritou – Eu apresento quem eu quiser para o Tommy, que você querendo ou não, é meu irmão também! E não fale assim das pessoas do Kirin Tor, você não sabe nada sobre eles!
— Sei que eles cobram uma fortuna para ensinar uns truquezinhos e isso quase levou nossos pais à falência! — retrucou aumentando mais ainda a voz.
— Truquezinhos?! — Lícia estava muito ofendida – Eu sou uma maga! De elite! E eu ajudei papai e mamãe a pagarem a dívida com meu trabalho!
— Não fez mais do que sua obrigação! Eles tiraram comida da nossa mesa para por nessa cidade de merda!
— Olhe como fala na frente de meus filhos! E que eu lembre, pelo menos eu fiz algo que deu orgulho a nossos pais em vez de fugir na calada da noite e me envolver sexualmente com todos os homens de Ventobravo!
Elas continuaram a bater boca, insultando uma a outra a plenos pulmões, enquanto os meninos se encolhiam no canto. Muita gente passava e ficava observando a briga, mas quando as duas os olhavam, raivosas, seguiam seu caminho apressadamente. E quando Arshe e Doroteya saíram da loja, ficaram surpresas ao ver que a briga que ouviam era da amiga que ficara do lado de fora.
— Lina! — exclamou Arshe, assustada – O que está acontecendo?
Foi quando a comandante se tocou do que estava realmente fazendo ali. Ela parou de brigar imediatamente e pigarreou. Seu rosto estava vermelho de fúria, mas quando sua voz saiu estava controlada.
— Desculpe-me Arshe. — pediu – Acho que me excedi.
— Acha? — perguntou a princesa – Eu tenho certeza!
Demorou apenas alguns segundos para que Lícia reconhecesse a mulher linda que falava com tanta intimidade com sua irmã, e quando o fez, ficou pálida e levou a mão ao peito.
— Arshe? Princesa Arshe Fordragon? — perguntou quase sem voz.
— Sim, sou eu. — respondeu Arshe com a testa franzida – Você é do Kirin Tor?
— Essa é minha irmã, Lícia. — apresentou Lina a contragosto – E esse são meus sobrinhos. Lícia, essa, como você já viu, é a Arshe Fordragon. É ela quem estou escoltando hoje.
— Escoltando? — a princesa olhou para Lina e riu – Ah Lina, sempre tão profissional. Estamos fazendo compras juntas, como amigas, não? — e acenando com a cabeça cumprimentou – É um prazer conhecer uma das irmãs da Lina.
— Amiga? — Lícia parecia mais chocada ainda – Da Lina?
— Sim, sim! Somos todas, nós três. A Doro também! — e apontou Doroteya que estava apenas observando – Eu sei que a Lina é assim, meio bruta, mas é uma pessoa maravilhosa, não acha?
Lina duvidava que sua irmã achasse aquilo e provavelmente só acenou com a cabeça porque era Arshe falando.
— Vocês não se parecem muito. — comentou Arshe olhando de uma para a outra – E porque estavam brigando?
— Lícia parece mais como nossa mãe. E não estávamos brigando. — cortou Lina – É assim que os Wood conversam.
— Nunca vi você conversar assim com os outros.
— Você não mora lá em casa, Arshe. — retrucou.
Pela expressão de Lícia, a comandante achava que a irmã iria ter um colapso pela forma como falara com alguém da nobreza. Talvez achasse que Arshe fosse repreendê-la, ou algo do tipo, mas a jovem apenas deu de ombros.
— Se importa se irmos, Lina? — pediu Arshe – Quero passar na barraca de doces.
— Claro, vamos. Já acabou nessa loja?
— Já sim! Seu presente está bem aqui! — disse agarrando uma das sacolas – Não vale olhar, viu?
— Certo, certo. — disse a comandante dando de ombros – Então, meninos, a tia vai ganhar um beijo de despedida?
Os meninos, ainda assustados com a gritaria se aproximaram, beijaram abraçaram a tia. Lícia, ainda em choque diante da intimidade da irmã com a princesa emérita de Ventobravo, murmurou um ‘até depois’, para a irmã e saiu arrastando seus filhos. Lina respirou fundo e passou a mão na testa. Começou a caminhar e as outras a seguiram.
— Por que vocês estavam brigando? — insistiu Arshe.
— Não estávamos. — resmungou.
— Eu moro com você e definitivamente não é assim que os Wood conversam. — falou Doroteya.
A comandante se virou para as duas, sentindo-se cansada. Era sempre assim que suas irmãs faziam ela se sentir.
— Vocês sabem que não me dou bem com minhas irmãs. — começou – E Lícia é a pior delas. Ela é esnobe, arrogante e se acha melhor que os outros. Só vê-la já me deixa estressada, mas ela inventou de meter o nome de Tommy na conversa e acabei perdendo as estribeiras! — e olhando para Arshe, pediu – Desculpe-me, acho que chamei a atenção demais. Toda a cidade deve ter visto ou ouvido nossa discussão.
— Mas isso é ótimo. — falou Arshe animada – Assim, todos só vão lembrar de sua briga e não vão nem reparar em mim!
Lina achou que ela tinha razão, mas mesmo assim estava se repreendendo por ter se deixado levar pelas palavras da irmã.
— O que ela disse sobre Tommy? — quis saber Doroteya.
Lina cerrou os punhos, com raiva.
— Ta querendo empurrar uma mulher qualquer para cima do meu irmão! — vociferou enraivecida – Como se eu fosse permitir que alguém dessa cidadezinha de merda chegasse perto de Tommy!
— Ela quer arrumar uma namorada para Tommy?! — Doroteya levou as mãos ao peito, se sentindo tão chateada quanto Lina – Tommy não está recuperado ainda! Não pode se envolver com ninguém agora!
— Mesmo que estivesse, não seria com uma amiguinha dela! — Lina continuava soltando faíscas pelos olhos – Eu não permitiria!
Arshe deixou que Lina reclamasse o quanto quisesse enquanto comprava doces. Tinha que admitir que estava surpresa com a sempre tão ponderada Doroteya que agora estava tão irritada quanto a comandante. Ela comeu devagar alguns biscoitos e quando as duas pararam de resmungar, ela ofereceu:
— Querem?
Elas aceitaram. Arshe continuou comendo os biscoitos e ponderou que deveria visitar a Cidadela Violeta antes de encontrar com Kayliel. Talvez Modera estivesse lá e pudessem trocar algumas palavras. Talvez até tomar um chá. Cogitou se deveria levar alguns biscoitos. Chegou a olhar novamente para a barraca de doces e, inesperadamente, não quis voltar lá. Na verdade, também não queria socializar com ninguém. O que queria mesmo era se encontrar com Kayliel. Olhou na direção do Memorial e decidiu que seria agora. Não esperaria mais. Apenas torcia que suas amigas não decidissem descontar a raiva que estavam de Lícia no elfo sangrento.
E foi ali, segurando ainda um biscoite de gergelim inacabado que Arshe se tocou que estava próximo o momento. Que finalmente saberia de tudo. Que iria ver Kayliel. Que olharia nos olhos dele e perguntar porque a deixara. Que resposta ela receberia? E o que faria depois? Toda a ansiedade que sentira nos últimos tempos voltou como uma avalanche para seu coração. Suas mãos tremeram um pouco e ela sem querer derrubou o biscoito no chão. Um gato que estava por perto avançou e pegou a guloseima antes de desaparecer. Com a respiração entrecortada, olhou para suas amigas.
— Meninas. — chamou a princesa – Eu não quero ir a Cidadela Violeta. Não quero socializar. Sei que esse era o plano mais… — ela olhou na direção do memorial – Acho que essa é a hora. — sua voz soou trêmula – Podemos esquecer um pouco a outra Wood?
A aparência de Arshe havia mudado. A calma e tranquilidade de mais cedo dera lugar a um medo bem visível nos imensos olhos azuis. Com o rosto pálido, a princesa as encarava assustada como uma criança pequena. A comandante se xingou por ter deixado a irmã afetá-la tanto. A prioridade ali era a amiga.
— Desculpe-me, Arshe. — pediu Lina com sinceridade – Acredito que não há problema mudar os planos. Eu já chamei a atenção demais mesmo...
— Quer beber alguma coisa antes de ir? — perguntou Doroteya também se sentindo culpada – Uma poção para acalmar? Uma água?
— Não.. — murmurou Arshe – Só quero… — ela respirou fundo – Só quero que vocês fiquem por perto.
Era uma coisa que Arshe nem precisava pedir. Nem Lina, nem Doroteya sequer cogitaram a possibilidade de deixá-la sozinha naquele momento. Por isso, caminharam com ela, lado a lado, até as proximidades do Memorial de Antônidas. Quando o local estava no campo de visão das três, Arshe estacou. Tinha os olhos arregalados e as mãos tremiam.
— E-ele… E-le está lá… — murmurou.
Lina olhou e soltou uma pequena exclamação. Não era a toa que Arshe havia se apaixonado desesperadamente. Ali, sentado em um banco junto ao memorial, estava o elfo mais bonito que Lina já viu em toda sua vida. Não apenas elfo. A criatura mais linda que já vira. Quer dizer, depois de Varian. Apesar que era impossível comprar os dois. Varian tinha a beleza máscula e forte de um guerreiro. O elfo, tinha uma beleza mais sofisticada, mais glamorosa. Era praticamente impossível achar uma beleza daquelas em meio aos humanos.
Doroteya concordava com Lina, apesar de não saber o que se passava na cabeça da outra. Kayliel não era apenas bonito, era lindo. A druidesa o comparou a uma noite de lua cheia: belo, melancólico e misterioso. Agora entendia porque a princesa ainda pensava nele. E se, além de lindo, ele fosse gentil e amoroso, tinha certeza que Arshe jamais se apaixonaria por outro. É, parecia que tinham um problema grande ali.
— Vamos, Arshe, coragem. — disse a princesa para si mesma e se aproximou.
******************
Fazia mais de duas horas que Kayliel estava sentado no memorial. Porém, o sacerdote havia decidido que ficaria até o dia seguinte se possível. Esperaria por Arshe. Sim, esperaria.
Estava divagando, com os olhos fitos na maçã com a fita em sua mão, quando ouviu uma voz exclamar seu nome com muito entusiasmo.
— Kayliel!
Quando levantou a cabeça, viu Arshe. Ela não estava sozinha. Duas outras mulheres a ladeavam. Mas não fora Arshe quem o chamara. A princesa estava parada, com uma máscara de medo no rosto e a pessoa que o chamara passou por ela, sem lhe dar muito atenção e se dirigiu até ele.
— Kassyeh… — murmurou o sacerdote com um sorriso forçado no rosto. E ela não viera só. Ao seu lado, Tewdric se aproximou com os braços cheios de sacolas.
Ele ainda arriscou olhar para sua amada. Uma das mulheres que a acompanhava rapidamente a pegou pelo braço e a puxou discretamente para mais perto de uma loja vizinha ao memorial. Agradeceu mentalmente quem quer que fosse e voltou sua atenção para a cunhada. Forçou-se a ficar de pé, torcendo para suas pernas não estarem tremendo.
— E ai? — perguntou a maga animada – Já comprou tudo?
— Quase. — disse tentando manter a voz normal – E você?
— Falta muito ainda! — ela olhou para o marido, cheio de sacolas e franziu a testa – Acho que me empolguei comprando roupinhas para o bebê!
— A elfinha vai ter que ser pequena por um bom tempo pra usar tudo isso! — falou o orc antes de soltar uma risada rouca.
— Tenho certeza que ela poderá usar tudo. — garantiu o sacerdote.
— Se você ainda não terminou, pode nos acompanhar! — chamou Kassyeh com um sorriso – Que tal?
Era a pior coisa que poderia acontecer, pensou ele. O que diria para a cunhada que não levantasse suspeitas? Sua mente ainda trabalhava freneticamente quando Tewdric disse:
— Kass, acho que o Keke tá esperando aqueles amigos dele. Melhor a gente terminar isso aqui e ir para casa do titio.
Aliviado com a sugestão, sorriu em agradecimento para o guerreiro.
— Vocês se importariam de me aguardar mais tarde? — ele tentou não parecer feliz demais com isso – Meus amigos estão um pouco atrasados, mas tenho certeza que virão… Espero que vocês não fiquem chateados.
— Claro que não! — exclamou a expansiva Kassyeh com um enorme sorriso – Temos muitas lojas para ir e não queremos atrapalhar seus planos! Olha, jantaremos no Salão da Destreza, às sete! Acha que pode estar lá?
— Claro. — garantiu.
— Então, até mais! – Kassyeh lhe deu um rápido abraço.
— Até mais! — disse Tewdric e deu uma tapinha no ombro do elfo que o fez tremer.
Quando os dois foram embora, Kayliel se sentou novamente. Seu coração estava aos pulos e ele não teve coragem de olhar para onde Arshe estava. Teve medo de não vê-la e seu coração parar de tanta tristeza. Porém, não muito tempo depois, alguém sentou no mesmo banco que ele, mantendo uma distância que não sugeriria intimidade. Kayliel reconheceu o perfume. Ainda sentia-o em todos os seus sonhos.
— Arshe… — murmurou sem levantar os olhos.
Da mesma forma que Kayliel, Arshe tomara um susto com aquela elfa desconhecida. Agora, estava com uma mistura de ansiedade e raiva. Quem era aquela bela elfa que parecia tão íntima dele?
— Kayliel. — respondeu ela com a voz seca, também sem olhá-lo.
Ficaram em silêncio alguns instantes antes que ele falasse:
— Desculpe-me pelo susto. Eu não sabia que a Kassyeh apareceria.
As mãos de Arshe se fecharam sobre a saia do vestido.
— Kassyeh…. Que nome bonito… Quem é ela? — a princesa tentou não parecer acusatória, mas não conseguiu.
— Kassyeh é minha concunhada. — revelou – E aquele orc é o marido dela. — se apressou em acrescentar.
Surpresa, Arshe não conseguiu evitar se olhá-lo.
— Uma elfa casada com um orc! — surpreendeu-se – Então aquela é…
— Sim, uma das princesas de Luaprata. — ele levantou os olhos e a encarou – Meu irmão casou com a mais velha, Luxuriah. Ela está grávida, terei uma sobrinha em breve.
Kayliel não entendeu porque falou aquilo. Poderia ter desviado do assunto, deixado sua família de fora, mas pareceu importante esclarecer aquilo para Arshe.
— Então… Você também é da realeza agora… — murmurou ela.
O elfo negou com a cabeça.
— Meu irmão é. Eu não. Sou apenas cunhado e amigo. Nada mais.
Era com certeza uma maneira estranha de começar uma conversa sobre sentimentos, pensou o sacerdote.
— Você veio sozinha? — quis saber.
Arshe fez que não.
— Vim com Lina e Doro. Elas estão ali ao lado da loja.
Ambos olharam naquela direção, por motivos diferentes. Kayliel estava curioso, pois Arshe nunca tivera amigas antes e Arshe porque procurava um pouco de apoio na visão das duas.
A impressão que o sacerdote teve das duas foi muito forte. Uma das mulheres o encarou, com uma expressão ameaçadora e alisou a cabeça do urso que estava ao seu lado. A outra parecia analisá-lo com cuidado, mas ao ver que era observada, deu um passo para trás e se transformou num imenso worgen. Definitivamente elas não estavam ali para brincadeiras.
— Suas amigas parecem… Simpáticas… — desconversou.
— Não parecem não. — retrucou Arshe – E eu prefiro assim. Me sinto segura com elas.
— Fico feliz. — disse ele com sinceridade – Você sempre reclamou que era difícil ser aceita entre as outras nobres por causa da proximidade de seu pai ao rei… Parece que você encontrou pessoas que não são invejosas.
— Na verdade, elas não são nobres. — Arshe sorriu para as amigas – Lina é a comandante das forças de Ventobravo e é filha de camponeses. Doro é uma druidesa de Guilneas, que acabou de chegar.
Surpreso com a revelação, Kayliel olhou uma última vez para aquelas duas. Sim, elas não pareciam nobres. Tinham a voracidade no olhar de quem enfrentara as agruras da vida e chegaram até ali pelos próprios esforços. A mulher com o urso franziu a testa para ele e Kayliel desviou a vista. Ela o intimidava. E, sem saber porque, lembou-se de Luxuriah. Talvez porque a intensidade do olhar fosse semelhante nas duas.
Decidido a começar a falar, Kayliel a encarou. Porém, quando seus olhos se encontraram, ele perdeu a linha de raciocínio. Arshe estava muito mais bonita que da última vez que a vira. Talvez porque houvesse algo a mais. Algo que ele não sabia bem o que era, mas estava ali. O que teria mudado em Arshe que ele ainda não percebera?
— Você está muito bonita. — disse ele – Não achei que isso seria possível, mas você está.
Arshe sentiu o rosto ficar vermelho, mas não sorriu.
— Você está do mesmo jeito. — falou ela para depois discordar de si mesma – Não. Não está. Você está muito cansado.
O que poderia falar diante do que ela disse, ponderou. Que sim, estava cansado porque não dormia direito pensando nela? Que estava afogando em ansiedade dentro de si mesmo cada vez que pensava naquele encontro? Poderia ter dito tudo isso, mas soaria piegas, como se estivesse implorando para que ela tivesse pena dele.
— Tenho trabalhado demais. — justificou.
— A Horda tem exigido muito, pelo visto. — falou asperamente.
— Não é a Horda. — ele deveria ter ficado irritado pela forma como ela falara, mas não ficou. — Minha cunhada é muito jovem para engravidar. Ela só tem vinte oito verões e isso exige que eu tome conta dela, para que nada de errado aconteça.
Para sua surpresa, Arshe riu. Olhou-a sem entender.
— Vinte e oito verões… Para vocês isso é tão jovem, não é? Para nós, com essa idade muitas estão parando de ter filhos…
Kayliel apertou as mãos, sentindo uma leve irritação.
— Lembro que nós tínhamos um trato, de não comparar nossas raças quando estivéssemos juntos… — foi impossível não dar um tom de crítica a sua fala.
— Eu também lembro de muitas coisas que você me disse Kayliel. — retrucou ela com a voz ficando rouca – E você não cumpriu nenhuma delas.
Definitivamente não era assim que ele queria começar a conversa. Porque diabos ele fora falar de Luxuriah? Estava se sentindo tão culpado assim de estar ali que sequer conseguia empreender a conversa sem que seu irmão e cunhada ficassem voltando a sua mente? Respirou fundo para apagar quaisquer traços de raiva ou dúvida que pudesse existir na sua mente. Não. Ele fora ali com um objetivo e o cumpriria.
— Você tem razão. — admitiu o elfo – E é por isso que estamos aqui não é? Você quer que eu simplesmente fale ou quer perguntar?
Arshe queria sair correndo dali. Desde que sentara e começara a ouvir sua voz, uma pressão começou a crescer dentro de seu peito e estava com medo de simplesmente explodir. Doía. Doía estar perto dele. Doía sentir o cheiro dele. Doía olhá-lo e não poder mergulhar em seus braços. E essa dor estava se estendendo por todo seu corpo e Arshe temia não conseguir mais se mover. E agora, ele lhe lançara em mãos a decisão de conduzir aquilo. Como poderia fazê-lo? Por um momento, ela teve vontade de simplesmente se levantar, deixá-lo para trás e correr para os braços de Lina e Doroteya. Pedir que elas conseguissem as respostas. Pedir que elas a salvassem de novo. Mas já havia envolvido-as demais naquela história, não era justo. Se era ela quem queria resposta, seria ela a obtê-las. E havia uma coisa muito importante que gostaria de saber.
— Você… — começou e parou. Iria realmente fazer aquela pegunta? Sim, faria – Você está se relacionando com alguém agora?
Com certeza não era a pergunta que Kayliel esperava. Deveria mentir? Não. Depois de tudo que fizera com ela, o mínimo que devia era a verdade.
— Não. — respondeu – Não me relaciono com ninguém desde nosso rompimento.
— Rompimento? — ela deu um sorriso cínico – Nós não rompemos, Kayliel. Você me abandonou. É diferente.
A verdade o atingiu como um soco no estômago, mas ele não revidou.
— E você? — quis saber – Está relacionada com ninguém?
— Sou eu quem faço as perguntas aqui. — cortou Arshe.
— Desculpe-me. — pediu ele sentindo o coração mais pesado. Teria ela alguém em sua vida agora? Se tivesse, ele saberia da existência do elfo? Teria concordado em Arshe ir atrás de respostas?
Talvez fosse desnecessária a forma como respondeu a ele, pensou Arshe, mas sua dor estava se transformando em raiva. Isso era bom, ela lidava melhor com raiva do que com a dor e o medo.
— Há algum tempo, eu estive bem perto da morte. — revelou Arshe – Eu fui atacada por um grupo rebelde e fui envenenada. Se não fosse pela Doro e pela Lina, eu estaria morta. Foi quando decidi responder sua carta e fazer aquelas perguntas. Não quero morrer sem saber o porquê de você ter feito tudo aquilo e da forma que fez. Depois de tudo que passamos, acho que mereço pelo menos a sua honestidade.
Um nó se formou na garganta do elfo diante da fala de Arshe. Apertou com força a maçã na mão, com mil perguntas rodando sua mente: como assim que ela estivera a beira da morte? Onde diabos ela fora se envolver? Arshe não era uma aventureira ou coisa assim; ela era uma dama cuja principal habilidade era a diplomacia. Mesmo sendo uma maga forte, como princesa não deveria se meter em conflitos. Teria ido ela negociar algo e fora traída? E como ficara tão exposta assim? Mas o pior de tudo era saber que ela estivera próximo de morrer e ele não estaria lá para salvá-la e quando soubesse de sua morte, se soubesse, já teria passado tanto tempo que… Não, não queria pensar nisso.
— V-você… — a voz dele falhou um pouco e Kayliel pigarreou para controlá-la – Você envolvida em um conflito… Eu jamais imaginaria….
Arshe apenas deu de ombros.
— Minhas respostas, Kayliel. — exigiu.
Ele respirou fundo. Estava na hora.
— Lembra como estavam as coisas na época que o Lich Rei voltou? — começou – Como tudo parecia tão desesperador, principalmente aqui em Dalaran? Lembra de como nós víamos o medo e a desesperança no rosto de cada pessoa aqui?
— Lembro. Mas o que-
Ele levantou a mão e a interrompeu.
— Por favor, deixe-me falar. — pediu. E quando ela fez que sim com a cabeça, continuou – Naquela época nós, os sin’dorei, estávamos nos recuperando de Terralém, e mesmo assim viemos para cá. Eu estava empolgado, querendo mostrar que também queria ajudar. Eu nunca lhe disse, mas eu estava aqui contra a vontade de meu irmão.
— Grão-Magíster Rommath. — falou.
Kayliel assentiu.
— Veja bem, minha relação com Rommath é muito mais paternal que fraternal. Foi Rommath quem praticamente me criou. E eu o afrontei pela primeira vez vindo para cá e me aliando aos Fendessol. Ele detesta Aethas Fendessol. E ficava falando ‘você não é mago, não faz sentido colaborar com os Fendessol’, mas para mim fazia. — ele riu um pouco antes de continuar – Eu queria ser útil ao meu povo. Eu, um elfo considerado jovem demais para as linhas de frente, queria fazer a diferença. Consegue me entender?
Sim, ela entendia. Não fora o mesmo que fizera? Mal tinha saído da adolescência e pegara um grifo para Dalaran, deixando um preocupado pai para trás e um choroso Anduin? Só não entendia o porquê de ele resgatar aquela história quando o foco da conversa deveria ser eles dois. Ainda assim, deixou que Kayliel continuasse.
— Assim que eu coloquei os pés aqui eu me surpreendi. As pessoas de ambas as facções não apenas não se atacavam, mas até se respeitavam! — ele sorriu – Fiquei chocado por dias e então entendi que toda essa guerra entre Horda e Aliança poderia ter um fim. Eu nunca fui alguém que odiasse tanto os humanos quanto meu irmão ou a Lux, e esse pensamento, que tudo poderia ser resolvido, ficou profundamente marcado em mim. E então, eu lhe conheci.
Quando Kayliel falou isso, encarou-a com intensidade, da mesma forma que fizera quando a conhecera. Arshe lembrava bem. Fora tão por acaso que ela se perguntava se não foram os deuses quem armaram tudo com o objetivo de se divertir com seu sofrimento posterior.
— Estávamos na biblioteca. — ela falou – E quando me viu você disse que eu era mais bonita que qualquer elfa jamais poderia ser.
Ele riu, envergonhado.
— Foi uma cantada terrível, admito. Hoje eu falaria algo diferente.
— Eu gostei. — admitiu Arshe com o rosto vermelho – Eu gostei quando você disse aquilo.
— Mas me ignorou na hora. — retrucou.
— Você me pegou de surpresa, apenas isso.
Mantiveram o olhar fixo um no outro por um tempo e então ela desviou a vista.
— Eu… — ele recomeçou – Eu nunca menti sobre meus sentimentos. — disse por fim – Eu sei que é difícil de acreditar, mas eu nunca menti. Eu…
— Sim, difícil de acreditar. — rebateu Arshe – Você falou tudo isso das facções e de Dalaran, mas ainda não respondeu minha pergunta.
— Arshe, eu percebi que eu estava enganado. — ele suspirou – Depois dos eventos do Portão da Ira, percebi que o ódio estava muito mais arraigado do que eu pensava e que se nem mesmo uma catástrofe como o do Flagelo conseguia nos unir, nada mais uniria!
A maga continuou calada, esperando ele falar, mas já sabia o que viria. Então, a guerra entre Aliança e Horda era mais forte que os dois. Bem, não era um segredo tão grande assim afinal. Então porque não dissera logo três anos atrás? Queria questionar aquilo, mas esperou que ele falasse. Não era para isso que estava ali?
— Arshe. — ele recomeçou – Eu ia te pedir em casamento no dia em que soube da morte de seu pai.
De todas as coisas que Arshe poderia ouvir aquela era a mais improvável. Ela arregalou os olhos e tentou falar algo mas a voz não saia. Ele… Ele ia pedi-la em casamento? Casamento? E em vez disso sumiu?! As coisas embrulharam então na cabeça da maga e nada mais fazia sentido.
— Sim, eu ia. — disse sabendo que ela possivelmente pensava que era mentira – Eu já tinha tudo pronto. Peguei um dos anéis de minha mãe escondido. Se Rommath desconfiar que fiz isso, serei um elfo morto. — ele riu nervosamente – Eu… Eu fui até a biblioteca… Aquela sala no fundo onde ninguém ia… Preparei tudo lá. Vinho, flores… E então fui buscar você. Eu já tinha até ensaiado o discurso!
— E… e o que você dizia no discurso? — perguntou ela quase sussurrando.
Kayliel a encarou.
— Eu ainda sei ele de cor. — murmurou – Quer que eu fale?
Sabendo que aquela era pior coisa que deveria fazer, Arshe fez que sim. Kayliel pigarreou e começou olhando para a frente, sem coragem de encará-la.
— Arshe. — ele respirou fundo – Nós somos de raças diferentes. Isso por si só já seria um problema, mas também somos de facções diferentes. Eu posso agora usar o tabardo dos Fendessol e me autointitular como neutro, mas sabemos que, aos olhos de todos, sempre serei um membro da Horda. Você pode ser diplomata, mas sempre será considerada um membro da Aliança. Nós temos tudo para dar errado, mas eu quero apostar que isso não acontecerá. Não será fácil, não acontecerá sem dor. Seu pai provavelmente me odiará. Meu irmão provavelmente te odiará, mas o que eles não sabem é quão forte é meu sentimento por você. — nessa hora, Kayliel a encarou – Você me disse certa vez que envelhecerá antes de mim. Me disse que eu continuarei jovem e belo, mas que você será velha e terá rugas. Mas eu te digo, isso não importa para mim. Porque eu posso ter me atraído por sua beleza, mas foi sua alma quem me conquistou. É sua forma empolgada de falar sobre as coisas que gosta. É a forma como você fica irritada quando está com raiva. É o brilho de sua alma que reflete em seus olhos que me fez ver que você é a pessoa que quero ter comigo. Então, não me importo que o tempo passe diferente para nós, porque para mim, o que preciso é ter você ao meu lado. Quero comemorar com você todos meus aniversários e Véus de Inverno. Quero pregar peças em você na Noturnala. Quero comemorar a Festa da Fartura com você em volta de uma pequena mesa. Quero eu mesmo construir os berços onde nossos filhos dormirão. — nesse momento, lágrimas começaram a brotar nos olhos dele – Quero ensiná-los que, mais importante que raça, está o amor. Que eles não serão inferiores por serem mestiços, não. Eles terão o melhor de nós dois. E vamos acompanhá-los em cada passo que eles derem. Veremos as estações irem e voltarem, juntos. E quando seu rosto começar a envelhecer, vou continuar te amando. Vou beijar cada ruga sua como beijei seu rosto jovem. Cuidarei de você quando suas forças faltarem e seu corpo humano te trair. Estarei ao lado no momento em que a Luz te chamar, segurando em sua mão e dizendo que todos esses curtos anos humanos valeram a pena. E depois, pretendo te acompanhar. Porque ficar nesse mundo sem você nunca fez parte dos meus planos.
Arshe colocou as mãos no rosto e começou a chorar alto. A mulher com o urso fez menção de ir até onde eles estavam, mas a worgenin a segurou. Kayliel queria que ela deixasse-a vir. Porque sentiu, naquele momento, que desejava morrer. Era um covarde sem tamanho que planejara tudo aquilo e simplesmente depois sumira. Merecia ser comido por aquele urso ou sofrer qualquer que fosse a punição que aquela mulher raivosa tinha para ele. Mas ela não foi até ele. Se conteve e aguardou.
— Por que?! — gemeu Arshe com o rosto ainda entre as mãos – Por que você está me dizendo isso se nunca teve intenção de cumprir?!
— Eu tinha. — ele limpou as lágrimas – Mas ouvi uma gritaria e sai para ver. As tensões na própria cidade ficaram evidentes. As notícias eram que Bolvar Fordragon tinha sido morto pela Horda. Eu fiquei em choque.
Naquele momento, lembrava ele, tudo desmoronou. As pessoas se xingavam na rua. A milícia foi chamada para conter os descontentes. Tudo ficou tão tumultuado que ele só queria saber o que tinha acontecido.
— Você estava na Tundra Boreana quando tudo aconteceu, lembra? Eu temi que você chegasse e ouvisse as coisas que estavam gritando pelas ruas. As coisas estavam tão tensas que desejei que você não viesse. E então ouvi seu nome ser sussurrado. As pessoas começaram a lamentar por você. Lamentar o que a Horda fez. Falar o quanto você deveria odiar todos daquela facção. — ele soava envergonhado agora – Eu tentei não dar ouvidos a isso, mas tudo foi crescendo. As histórias de como seu pai tinha sido morto só pioravam as coisas para nós. Então, alguém disse que Varian lhe dera o título. Que você era princesa agora. Acho que foi aí que eu surtei. Voltei para dentro da sala em choque. Quando olhei tudo aquilo me perguntei o que diabos eu estava fazendo. Eu já tinha desistido de tudo, mas obrigaria você a fazer o mesmo? Agora não havia mais Bolvar, mas ainda existia Anduin e o Rei Wrynn. Eles eram sua família agora. Eles não aceitariam. Eu faria você abrir mão deles por mim? Não era justo.
Arshe levantou a cabeça e o encarou. Seus olhos estavam muito vermelho se ainda haviam lágrimas em suas bochechas.
— Essa decisão era minha! — esbravejou ela entre os dentes.
— Sim. Era. — concordou — Mas na minha cabeça, sensível com a morte de seu pai, você não tomaria uma decisão racional. E além do mais, agora, você tinha muito mais do que abrir mão. Você não era apenas Arshe agora. Você era Arshe Fordragon, princesa emérita de Ventobravo.
— E por isso você me deixou, sem uma palavra?! — falou com a voz alterada — Quando eu era só nobre eu podia deixar tudo e agora não, é isso? Eu daria mais valor a um título?!
— Você não daria valor a esse título! — retrucou ele aumentando o tom de voz – Eu tinha certeza! Você não se importaria com isso, mas se importaria com Anduin e o rei! Porque eles eram sua família também! Com seu pai vivo ele poderia mediar! Ele podia dar um jeito! Mas agora, sem ele, se você decidisse ficar comigo seria o mesmo que matar seu pai de novo para aquelas pessoas! Você morreria para elas! E você os ama! Eu nunca quis que você tivesse que tomar essa decisão!
— Você não tinha o direito de tomar essa decisão por mim! — gritou ela.
Lina e Doroteya começaram a ficar nervosas. Gritaria atraia pessoas. Kayliel pensou a mesma coisa, por isso respirou fundo e tentou aclamá-la.
— Você tem razão. Eu não tinha esse direito. Mas eu sabia… Eu sabia… Sabia que não podia te pedir isso. — ele baixou a cabeça – E sabia que eu não teria coragem de acabar com tudo… Se eu te visse… Eu não conseguiria ser racional. Eu… Jamais teria coragem de dizer a você que estava desistindo. Porque eu não queria desistir. Eu queria você. Mas não queria que você abrisse mão do que restara de sua família por mim. Então eu fugi. Porque sou um covarde. Achei que assim você teria tanto ódio de mim que me esqueceria.
Com os lábios trêmulos, ela retrucou:
— Para quem morreria depois de mim, foi muito fácil me abandonar.
— Não foi fácil. — Kayliel estava cansado, esgotado emocionalmente, mas precisava falar – Eu fiquei dias naquela sala. Quando me encontraram, eu estava desacordado. Me mandaram para Luaprata. Quando voltei lá, tudo tinha sumido. Não sei o que aconteceu com o anel ou com o que eu arrumei. Não consegui descobrir. Acho que… Se você tivesse me encontrado lá, teria sido diferente. Mas você estava de luto. Eu estava de luto. E quando me dei conta, já estava feito. — ele baixou a cabeça – Acho que isso respondeu tudo.
O silêncio se abateu sobre eles depois disso. Não se olharam nem se falaram por um bom tempo. Arshe estava assimilando tudo o que ele dissera, provavelmente se perguntando se era verdade ou não. Não soube quanto tempo ficaram ali, calados, revivendo todo o passado. Demorou um tempo até que a princesa retomasse:
— Eu te esperei aqui. Como o combinado. Mesmo depois da morte de meu pai, eu vim. Porque eu precisava te ver, precisava que você me consolasse… E você nunca veio… — ela riu sarcasticamente — E agora devo acreditar que você me amou. — levantou os olhos para o céu, para não ter que encará-lo – Me amou tanto que decidiu me proteger desse amor.
— Eu não te amei, Arshe. — murmurou antes de completar – Eu ainda te amo.
Dalaran estava sob uma cúpula. Fora dela, havia neve. Era possível ver os flocos baterem na proteção arcana e se desintegrarem antes de chegar a cidade. Era isso que a vida de Arshe. Viver sob uma cúpula. Uma redoma que mantinha a neve do lado de fora. Seria realmente uma proteção ou uma prisão? Todos aqueles anos se perguntou porque ele a deixara, e agora sabia que Kayliel a deixara para manter a neve do lado de fora, sem nunca se perguntar se ela não queria a neve caindo em seus cabelos admirando sua beleza mesmo que sentisse o frio.
— Eu não estou em nenhum relacionamento. — respondeu com a voz rouca do choro – Como você, desde aquela época, estou sozinha.
— Eu sinto muito. — disse o sacerdote.
— Não, não sente. — rebateu – Você se sente aliviado, da mesma forma como me senti quando você disse o mesmo.
Não havia nada que ele pudesse dizer depois daquilo, pois era a mais absoluta verdade.
— Em que exatamente nos transformamos, Kayliel? — quis saber Arshe ainda olhando para o céu.
— Eu não sei. — respondeu com sinceridade.
— Eu acho que sei. — ela suspirou – Nós nos tornamos iguais a eles. As pessoas de Dalaran. Assumimos lados. Sufocamos o que sentimos. E tentamos levar a vida alimentando o ódio das facções mas fingindo que somos superiores a ele. E não somos. — ela finalmente o encarou – Eu ainda te amo Kayliel. Da mesma forma que você nunca esqueci esse sentimento. Mas depois de todo esse tempo, depois de tudo que você me disse, tenho a certeza que não há futuro para nós. Na verdade, nunca houve.
Ouvir aquilo da boca dela fora a pior coisa que poderia acontecer. Fora ali com medo que a fizesse sofrer, mas agora era ele quem sofria. Enquanto aquela verdade crua e visceral estava em seu interior, ele se recusava a ver. Lá no fundo, admitiu, que havia um resquício de uma esperança vã que houvesse um jeito. Que ela poderia lhe dar uma saída. Mas não havia. Sim, Arshe estava certa, nunca houvera. E agora aquilo se tornava real. Despedaçando-se por dentro, Kayliel tentou se conter. Não queria desmoronar novamente na frente dela.
— Então esse é o fim? — perguntou em um sussurro.
Arshe o olhou longamente antes de responder:
— O fim foi há três anos, Kayliel. Esse é apenas o ponto final. — ela levantou-se, alisou a saia de seu vestido e o encarou uma última vez – Obrigada pelas respostas. Espero que agora tudo fique mais fácil, para nós dois. Adeus, Kayliel. Espero que seja feliz.
Seu tom era o mesmo que usava na política. Suave, mas decidido. Envergara ali o manto de princesa que nunca pediu, mas se viu obrigada a aceitar. E agora, pela primeira vez, odiava esse fardo e tudo que ele trazia.
Kayliel não se levantou. Observou-a subir em seu pedestal, o mesmo no qual ele a colocara e que agora a prendia lá e se odiou profundamente por tudo. Queria voltar no tempo, desfazer aquele momento. Se encontrar com ela ali como o combinado e levá-la até a sala secreta. Queria voltar no tempo e resolver tudo. Mas era impossível. Ele fez menção de se levantar, mas desistiu. Talvez não contivesse o desejo de tocá-la mais uma vez e aquilo só tornaria as coisas mais difíceis.
— Adeus, Arshe. — sua voz quase não saia, mas ele se forçou a falar – Você será feliz, tenho certeza.
Ela não respondeu. Fez uma mensura para ele e se retirou. Kayliel observou-a ser recebida pelas amigas. A mulher do urso lhe direcionou mais um olhar mortífero e então começou a conduzir a princesa para longe dali. Kayliel então baixou os olhos para os ladrilhos da praça e chorou. Foi só então que lembrou que ainda segurava a maçã em sua mão. Não entregara. E jamais entregaria nada a Arshe. Jogou a maçã longe, colocou a cabeça no meio dos joelhos e deixou que toda a dor saísse pelos seus olhos, enquanto soluçava. Estava vivendo um inferno e não havia a quem culpar a não ser a si próprio.
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