Herdeiros da Guerra
28 Capítulo XXII – Família (PARTE I)
Por que?, se perguntava Arshe, por que fora tão idiota?
No instante que acordou, a princesa sentiu um imenso arrependimento pelo que fizera na noite anterior. O sentimento caíra sobre seu coração como se fosse um imenso bloco de gelo que a fez perder o fôlego. Sentia-se como se tivesse quebrado o acordo que fizera com Lina e Doroteya. Lembrava-se claramente de ter dito a comandante que não tinha interesse em manter contato com Kayliel e o fato de ter enviado a carta, aquela maldita carta, a fazia se sentir mentirosa e traidora das primeiras amigas que teve em toda sua vida e que, com certeza, ficariam com muita raiva do que ela fizera. Sim, estava muito arrependida. Não queria ser ela a responsável por quebrar a tão bonita aliança formada pelas três. Por isso se sentia a pior pessoa de todo o mundo. Por ter sucumbido àquele desejo incontrolável de questionar e acusar Kayliel.
Depois do arrependimento, veio o medo. Sim, o medo era palpável e cruel, como uma sombra tomando conta de sua alma, mesmo com o sol brilhando em seu quarto. O medo de alguém descobrir o que fizera. O medo de ser considerada traidora e ser afastada de todos que amava. O medo de Lina e Doroteya se sentirem traídas por ela e se afastarem. Então ela ficaria sozinha novamente, imersa em remorso e autoflagelação.
Esses dois sentimentos eram tão fortes e dolorosos que a última coisa que ela queria era ficar na cama, imersa neles. Então levantou-se rapidamente e nem esperou que as servas chegassem para arrumá-la. Vestiu-se da melhor forma que pode, o que não foi fácil, levando em consideração que quase nunca o fazia só. Por fim, decidiu vestir uma das roupas de cavalgadas em vez dos vestidos volumosos e foi logo estava pronta e dirigiu-se para a entrada da Bastilha.
Arshe estava ansiosa para encontrar as amigas, mas não sabia de onde vinha essa ansiedade. Se era da expectativa de conhecer Theo e reuni-lo à mãe ou do fato de que, quando Lina a olhasse, a comandante saberia exatamente o que aconteceu e a acusaria e, então, tudo teria fim. Por isso, sentou-se em um banco, ao lado da fonte real e passou a contar os minutos e as batidas de seu coração.
Para a sorte (ou azar) de Arshe, Doroteya estava muito ansiosa para ver o filho. A worgenin acordara com o nascer do sol e preparava rapidamente o café da manhã para os que ficariam, quando Tommy entrou na cozinha.
— Bom dia Tommy! — cumprimentou animadamente – Sente-se aí que já ponho o café! E quero ver você comer tudo!
— Bom dia, mamãe. — resmungou o homem, mas sorrindo – Vejo que está bem animada.
— Estou sim! — ela estavam quase quicando de felicidade, percebeu ele – Vou dar um último retoque no bolo, parece que alguém passou o dedo nele. — e o olhou de forma acusatória.
— Juro que não fui eu! — defendeu-se levantando as mãos – Eu jamais faria isso no bolo de Theo!
— Jamais faria o quê? — Lina, que também já estava pronta, entrou na cozinha.
— Alguém passou o dedo no bolo de Theo. E não fui eu. — foi logo dizendo Tommy.
Os olhos verdes de Lina brilharam de raiva, mas ela não disse nada. Pegou apena suma caneca, encheu de café e passou a tomá-la, ainda em pé, enquanto Doroteya ajeitava o bolo.
— Vou ter um dedinho de prosa com aqueles dois depois. — comentou a comandante – Arranco os dedos dos dois se for o caso.
— Deixe pra lá, Lina. — pediu Doroteya assim que terminou o ajuste – Pronto, deu certo. Isso só prova que o bolo está muito bom!
A comandante ainda praguejou um pouco, mas não passou disso. Doroteya rapidamente deixou a mesa pronta para o café da manhã e se despediu de Tommy. Quando a druidesa saiu da cozinha, Lina perguntou ao irmão antes de acompanhá-la:
— Está tudo bem? — era óbvio que ela se referia à chegada de Theo.
— Tudo, irmãzinha. Não se preocupe. — e seu um sorriso que teria sido muito mais bonito se Tommy estivesse em plena forma.
E sem pensar muito, Lina fez o que não fazia há anos: sapecou um beijo na bochecha do irmão e saiu porta afora, ignorando a surpresa e felicidade dele.
Como ainda estava sem cavalo, Lina aceitou a oferta de Doroteya e a cavalgou até a Bastilha. O dia já estava claro quando chegaram lá, mas isso apenas significava que em Darnassus era madrugada ainda. Lina expôs essa preocupação e Doroteya a tranquilizou:
— Elas acordam cedo e Theo também. Além do mais, vamos atravessar a ilha até a casa de Rubrarosa, então já será dia claro quando chegarmos.
Foram até a frente do local e logo puderam ver Arshe já esperando-as. A princesa estava sentada em um banco do lado da fonte real, com o olhar vago e uma expressão que misturava ansiedade e culpa. Imediatamente a comandante se perguntou se alguma coisa acontecera. E quando Arshe as avistou e sorriu, visivelmente aliviada, teve certeza. O que diabos a princesa fizera ou dissera na noite anterior?
— Que bom que vocês chegaram! — disse com alegria quando elas se aproximaram. -Eu mal podia-
— O que aconteceu? — perguntou Lina sem rodeios.
O sorriso da princesa morreu na hora.
— C-como assim? — gaguejou.
— Aconteceu alguma coisa. — falou Lina incisivamente – Dá para ver na sua cara.
Definitivamente, falar o que fizera para Lina não estava em seus planos. Pelo menos não naquele momento. E agora, olhando a forma como ela a encarava, esperando uma resposta, sentiu-se como uma criança, diante da mãe, pronta para admitir que fora ela a quebrar o vaso preferido que pertencera a avó. Seu único alento era que, com certeza, não levaria umas palmadas.
— Fale logo. — insistiu Lina.
Talvez houvesse palmadas, no final das contas. Arshe respirou fundo.
— Eu fiz uma besteira imensa. — confessou.
Doroteya e Lina a encararam.
— Mas veja bem, eu estava angustiada! — se defendeu – Depois que eu ouvi o que Greymane disse…
Doroteya ficou pálida, perdeu o fôlego e levou as mãos ao peito.
— Não! — gritou Arshe agitando as mãos – Não foi nada sobre você ou… Ou você-sabe-quem! Eu… eu… — a voz dela baixou para um sussurro – Eu mandei uma carta para Kayliel…
— O quê?! — gritou Lina.
Arshe se encolheu.
— Eu não acredito que você fez isso!! — continuou gritando a comandante com o rosto vermelho de raiva – Pelo amor da Luz, depois de tudo que nós falamos!
— Calma Lina! — pediu Doroteya, já recuperada do susto – Vamos ouvir o que ela tem a dizer.
O movimento da Bastilha àquela hora já era considerável e muitas pessoas que passavam começaram a encarar aquele estranho trio, discutindo quase à porta do castelo. Lina percebeu a situação e respirou fundo. Por mais que quisesse arrancar o couro de Arshe naquele momento, não deveria chamar a atenção e também tinham uma obrigação primeiro a cumprir.
— Abra logo o portal para Darnassus. — mandou – Conversaremos lá. É mais seguro.
Aliviada por poder adiar a bronca (ou as palmadas) mais um pouco, Arshe começou a conjurar um portal. Em poucos instantes, as três mulheres já o cruzavam e a visão da exuberante e arborizada Darnassus se abriu aos seus olhos. Ventobravo se esvaneceu atrás delas no momento em que o portal se extinguiu. Agora, estavam em Kalimdor, onde o dia ainda estava nascendo e o ar frio da manhã trazia o aroma das flores e frutas do local.
— Árvores! Árvores! — exclamou uma empolgada Doroteya, se transformando em worgenin e correndo até uma delas.
— Ei, Doro! — Lina chamou a amiga, mas ela já tinha se afastado.
Suspirando, Lina fez um gesto para Arshe e seguiram até onde Doroteya estava cheirando empolgadamente uma árvore roxa imensa.
— Ei, ei! — chamou a comandante pegando Doroteya pelas orelhas caninas e afastando-a do tronco – Temos que buscar seu filho, lembra?
A druidesa pareceu muito envergonhada diante da bronca e Arshe ficou um pouco aliviada. Se Lina extravasasse um pouco de raiva em Doroteya, talvez não sobrasse tanto para ela.
— Eles moram no interior. — disse Doroteya voltando a forma humana e se afastando com relutância da árvore – Teremos que viajar um pouco.
— Certo. — disse Lina – Vamos pegar montarias da guarda da Aliança para nós e, no caminho, Arshe explica porque de repente seu cérebro derreteu e foi substituído por gosma de demônio estragada.
Arshe deu uma risada, mas Lina a encarou com dureza. Definitivamente não fora uma piada.
Logo estavam montadas em tigres brancos cedidos gentilmente pelas elfas noturnas. Doroteya, no entanto, preferiu ir em sua forma de cervo. Deixaram o centro de Darnassus para trás e entraram na exuberante floresta em tons violetas. O sol ainda levantava preguiçosamente no horizonte, lançando seus primeiros raios e colorindo ainda mais o caminho. Era, sem dúvida um belo lugar para estar. Por um momento, Lina achou que Doroteya ia surtar e sair correndo atrás das árvores, mas a druidesa se controlou perfeitamente. Então, estava na hora de resolver o primeiro dos problemas daquele dia.
— Parem. — ordenou Lina depois de um tempo.
Arshe e Doroteya pararam. A comandante então direcionou sua montaria para a beira da estrada e desmontou. Adentrou um pouco na floresta e então esperou as outras. Logo, Arshe e Doroteya a acompanharam.
— Aqui é seguro. — afirmou a comandante depois de analisar o entorno – Agora pode começar a falar, Arshe.
Seu tom era incisivo.
A princesa engoliu em seco.
— Não é melhor a gente pegar logo o Theo? — quis saber tentando se esquivar da ordem – Podemos deixar para depois e-
— Não. — a comandante cruzou os braços – Fale logo.
Em busca de apoio, Arshe olhou para Doroteya. A druidesa, porém, deu de ombros, deixando claro que naquele momento nem ela poderia fazer nada. Vencida, Arshe respirou fundo e começou a contar. Contou do jantar, de como Greymane fez pouco de Doroteya, de como Varian ficara intrigado com tudo e como a conversa chegou no relacionamento de Liam com a druidesa.
— Ele se ressente, e muito, de tudo que aconteceu. — afirmou Arshe – Ele acha que… Que Liam morreu o odiando por sua causa. — completou olhando Doroteya.
Doroteya franziu o cenho, obviamente ofendida com aquele pensamento de Greymane.
— Isso não é verdade. — disse convicta – Liam sempre amou o pai. Ele jamais o odiaria. Se ele não amasse… — a voz da druidesa tremeu um pouco – Não teria… Feito o que fez...
— Foi o que eu disse. — concordou a maga – Mas depois ele disse coisas… — Arshe deu uma pausa e olhou para o céu que clareava acima de sua cabeça – Disse coisas que me deixaram abalada… — ela voltou a encarar as amigas – E foi por isso que mandei a carta.
— Que coisas? — quis saber Lina.
Em vez de responder a pergunta, Arshe olhou diretamente para Doroteya. Precisava saber. Precisava perguntar.
— Doro, antes de tudo, gostaria que você me respondesse algo. — seus lábios tremiam – E, por favor, faça isso com sinceridade. Promete?
Doroteya afirmou com a cabeça.
— Quando você deixou Liam, a pedido de Greymane, você se despediu dele? — questionou – Você disse a ele os motivos de fazer isso? Você deu alguma pista do porquê havia tomado aquela atitude? — seus olhos brilhavam de lágrimas e de expectativa.
Lina então entendeu tudo. Trocou olhares com Doroteya, que também pareceu compreender a atitude da princesa. A comandante lembrou das coisas que Arshe havia proferido enquanto delirava e sabia que o fato de ela ter sido abandonada sem nenhuma explicação era pior que o próprio abandono em si. E perceber que alguém que ela gostava havia feito o mesmo, havia mexido com sua cabeça. Não era atoa que tinha feito o que fez.
Doroteya suspirou. No primeiro momento, ela não falou nada. Passou os braços em si mesma e baixou a cabeça. Era visível que o assunto não era fácil para ela.
— Eu nunca soube como o rei Greymane me achou. — começou – Na época, eu estava morando numa vila próxima a capital, porque assim era mais fácil me encontrar com Liam. Quando o rei me conheceu disse coisas… — a druidesa respirou fundo, as lágrimas já brilhando nos imensos olhos castanhos – Coisas que me convenceram que eu era um erro na vida de Liam e que o melhor que eu podia fazer era me afastar. E eu fiz. — ela então olhou diretamente para a princesa – Não, Arshe, eu não o avisei. Não lhe dei motivos. Não dei nenhuma explicação. Um dia eu estava lá e no outro não. Foi assim que aconteceu.
— Mas por que?! — perguntou a princesa aflita – Não pensou na dor que ele sentiria? Não pensou em o quanto ele sofreria? Você não levou em consideração os sentimentos dele?!
Era óbvio que Arshe estava tomando as dores de Liam como se fosse as delas. Talvez, aquelas perguntas não fossem exatamente para Doroteya, pensou Lina.
— Claro que pensei em tudo isso! — a voz de Doroteya elevou-se e isso surpreendeu as outras – Eu sabia de tudo isso! — depois da explosão, sua voz tornou-se um sussurro – Mas se eu falasse… Se eu dissesse… — as lágrimas corriam fartas no rosto redondo – Se eu o visse de novo, não teria coragem de partir… Eu não conseguiria dizer “adeus”… Porque… — ela baixou a cabeça e pôs o rosto nas mãos e falou, com a voz abafada – Porque eu o amava demais para por um fim a tudo!
O pior daquela cena para a comandante, era a impossibilidade de fazer alguma coisa. Arshe chorava, talvez pela dor de Liam, talvez pela de Doroteya e talvez pela sua própria. Doroteya estava finalmente colocando para fora algo que guardara durante muito tempo para si mesma. E restava para Lina apenas observar. Ela não era boa em consolar ninguém e no momento haviam duas para consolar. Por isso, limitou-se a esperar que o choro cessasse.
A druidesa nada disse por um tempo, apenas soluçou e chorou, até que, por fim, se acalmou. Deixou que sua respiração voltasse ao normal, antes de continuar:
— Liam jamais me deixaria partir se soubesse o motivo e eu não conseguiria mentir. Por isso, achei melhor ir embora, sem dizer nada. Achei que estava fazendo o melhor para o reino. Para ele.
— Mas não para você. — cortou Lina.
— Eu não era importante. — respondeu a outra.
— Claro que era! — quem falou foi Arshe, já com o choro controlado – E você não devia ter ouvido Greymane! Deveria ter lutado!
— Era o meu rei falando, Arshe. — explicou Doroteya com simplicidade – Eu acreditava nele. Fui criada para amar meu rei e meu povo. Eu era apenas uma camponesa. Não se pode fazer muito, quando se está nessa posição.
— Doroteya tem razão. — concordou Lina – Nascer na nobreza é uma coisa Arshe. Nascer como povo, é diferente.
— Liam não viu diferença! — insistiu a maga – Nem meu tio!
— Liam nunca a assumiu como esposa. — retrucou Lina com a voz seca – E seu tio definitivamente não fará isso comigo. Essa é a diferença.
Arshe ficou muda. Apertou os lábios, procurando uma resposta, mas não achou nenhuma. Por que, no fundo, ela sabia que era verdade.
— Mas ele foi atrás de você, não foi? — continuou Arshe, com a voz mais controlada.
— Ele sabia onde era minha floresta. Nos conhecemos lá. E mesmo que ele, até então, não tivesse ido até minha casa, não foi difícil achá-la. E, como eu disse, não soube esconder nada dele. — Doroteya riu nervosamente – Ele queria me tirar ali na hora, me levar para Guilneas. Mas estávamos no meio de uma guerra civil, não achamos que era o momento adequado. Decidimos esperar. — e ela deu de ombros – E estou esperando até hoje.
Aquele era o momento da irmandade que elas prometeram umas as outras, por isso, Lina decidiu perguntar algo que a incomodava:
— Quando ele queria te levar para Guilneas nesse momento, era para afrontar o pai?
Ao ver o rosto de Doroteya ficar vermelho após a pergunta, Lina soube que acertara em cheio.
— Não exatamente. — respondeu a outra um pouco envergonhada – Era para ficar escondida até surgir o momento. — e diante do olhar incrédulo das duas, ela acrescentou – Mas nós nos casamos! Fomos até um amigo sacerdote e casamos! Então, não é como se ele quisesse realmente me esconder para sempre.
— Quantas vezes durante esses anos você repetiu isso para si mesma? — indagou Lina, cética.
— Ele teria afrontado o pai mais cedo. — afirmou Doroteya convicta – Eu não permiti. As coisas que o rei Greymane disse ainda estavam em minha cabeça e eu não podia… — ela deu de ombros – Eu não podia…
Arshe se aproximou de Doroteya e pegou em sua mão. A princesa já ouvira o suficiente. Doroteya não fizera tudo por maldade ou para ver o sofrimento de Liam. Ela fizera porque era difícil demais deixá-lo. Isso ela poderia entender. Isso ela poderia perdoar. Agora, se perguntava se Kayliel teria deixado-a sem respostas pelo mesmo motivo.
— Eu te entendo, Doro… Você… Você não tem culpa de nada, ok? As coisas aconteceram de um jeito que você não soube controlar…
— Claro que a culpa não é dela. — a comandante falou asperamente – A culpa é de Liam!
Arshe e Doroteya a olharam, espantadas.
— Ora, não me olhem assim! — disse sem paciência – Doro era uma moça camponesa criada na floresta. Ela jamais teria a iniciativa de lutar contra um rei! Ela não foi criada para isso! Quem deveria tê-la arrancado de lá, mesmo contra a vontade dela e encarado o pai era Liam! Ele deveria ter colocado você em cima do cavalo, levado até o pai e dito “pronto, casei, conforme-se” e resolvido tudo! A culpa é dele! — encerrou, incisiva.
Para a surpresa da comandante, Doroteya riu.
— Lina, você soou tão romântica agora! — disse ainda sorrindo.
— Não é romantismo, é praticidade. — retrucou Lina.
— Não, Doro tem razão. — Arshe também ria – O príncipe chega, te põe no cavalo e te leva pra que você se torne rainha dele. Parece um conto de fadas! — e olhando para Doroteya, continuou – Parece que nossa Lina também guarda um pouquinho de romantismo dentro dela.
— É sim! -concordou a outra.
Lina então explodiu.
— Vão se foder vocês duas! — gritou.
Mas em vez de fazerem o que a comandante mandou, as duas se encararam, e como se tivessem conversado por pensamento, fizeram a mesma coisa: correram e abraçaram Lina. A outra protestou um pouco, mas logo participava do abraço coletivo. Pelo menos tudo estava resolvido.
Ou quase.
— Certo, chega. — Lina afastou as duas – Já sabemos os motivos de Arshe ter feito a merda que fez e sabemos também o que aconteceu com Doroteya. — ela olhou para a princesa antes de continuar – Eu entendo o porquê de você ter feito o que fez, mas tenho uma pergunta: o que você fará quando ele responder sua carta?
Arshe não tinha pensado nisso.
— Não sei. — disse com sinceridade.
— Pois eu vou lhe dizer o que fazer. Você vai nos procurar. — ordenou a comandante incisivamente – Você não vai responder a carta nem fazer nada sem nos consultar, está entendendo?
— Sim senhora. — respondeu a princesa, um pouco assustada com a ênfase dada a última palavra por sua amiga.
— Porque quando se trata desse elfo, você faz coisas estúpidas. — afirmou, antes de perguntar – Como alguém pode ser tão inteligente para umas coisas e tão burra para outras?
— Por que as coisas do coração não são resolvidas com a cabeça. — respondeu singelamente Doroteya. Arshe sorriu para ela, agradecida.
Lina colocou as duas mãos na cabeça.
— Estou presa a duas românticas inveteradas! Que a Luz me ajude! — e antes que as duas dissessem mais alguma coisa sobre seu suposto romantismo, ela logo ordenou – Vamos embora! Temos uma criança para pegar!
E então voltaram ao caminho.
Quando Doroteya disse que as pessoas que procuravam estavam mais para o interior de Darnassus, Lina não achava que era tão para o interior. Elas cavalgaram um bom tempo, por trilhas quase sem uso, passando por riachos e árvores caídas e a comandante achou que não demoraria muito e elas estariam totalmente perdidas. Porém, nesse momento, Doroteya parou repentinamente. Tomou a forma de worgenin e passou a cheirar o ar. Arshe e Lina se entreolharam. Doroteya viraria a louca da árvore novamente?
— Tem alguém vindo. — afirmou a druidesa e depois abrindo um sorriso – É ela!
Foi só então que elas viram uma mancha marrom se aproximando. Logo a mancha se revelou um worgen, que corria sobre seus quatro membros. O worgen então se levantou e também cheirou o ar. Lina percebeu então que não era um worgen, mas uma worgenin, que voltou a sua postura de corrida e se aproximou mais ainda delas. Quando já estava perto o suficiente para que pudessem vê-la, a worgenin assumiu a forma humana e veio caminhando lentamente.
— Rubrarosa! — gritou Doroteya alegremente, correndo para abraçá-la.
Quando a mulher chegou mais perto, Lina foi a primeira a perceber. Seus ombros ficaram tensos e sentiu seu maxilar travar. Arshe demorou um pouco mais para perceber, e quando o fez, não conseguiu ser tão discreta quanto Lina.
— Ela é uma cavaleira da morte! — exclamou horrorizada.
Cavaleiros da Morte. Os servos mais fortes do Flagelo. Grandes heróis mortos em combates que foram revividos pela Gélido Lamento, a espada amaldiçoada do Lich Rei. Caídos que lutaram contra o domínio de seu mestre e que, enfim, se libertaram e passaram a lutar contra aquele a quem serviram. Lina encontrara muitos cavaleiros da morte em sua jornada por Nortúndria. Uns lutaram contra ela, outros ao seu lado. E apesar de não se importar com o fato deles terem feito parte do exército do Lich Rei, desde que agora lutasse ao seu lado, a comandante ainda tinha calafrios quando via algum. Trazia a lembrança de quando quase morrera no continente gelado.
Para Arshe, ver um cavaleiro da morte tão de perto deveria ser pior. Pois fora na mão do Flagelo que seu pai perecera. Pelo menos era o que princesa acreditava. Arshe não sabia que Bolvar, seu pai e mentor de Lina, era agora o próprio Lich Rei.
— Desfaça essa cara de assustada, Arshe. — murmurou Lina enquanto descia da montaria e as duas worgenins se aproximavam – Ela não é nossa inimiga.
Mas ainda assim Lina teve que segurar vontade de puxar o arco quando estava frente a frente com Rubrarosa.
— Meninas! — começou Doroteya quando chegou com a outra – Essa é minha amiga, Rubrarosa!
As duas já estavam na forma humana. Rubrarosa era mais alta que Doroteya, tinha os cabelos longos e pretos, naquela cor opaca que ficam os cabelos dos cavaleiros da morte. Em vida, eles deviam ter sido brilhosos e sedosos. Os olhos eram azuis gélidos e seu sorriso era tão desconfiado quanto sua atitude. E foi com surpresa que Lina percebeu que Rubrarosa tinha tanta ressalva com relação a ela e a Arshe quanto as duas tinham em relação a ela.
— É um prazer conhecê-las. — quando Rubrarosa falou, foi naquela voz distorcida dos cavaleiros da morte – Doroteya falou muito bem de vocês na carta.
— Doroteya não falou muito a seu respeito. — disse Lina sem se conter – Não falou por exemplo que você era uma morta-viva.
— Lina! — reclamou Doroteya.
Rubrarosa gargalhou.
— Ótimo, essa aqui fala o que pensa. — e bateu palmas – Isso é bom! Muito bom! — e olhando diretamente para Arshe, falou – Não vou lhe morder, menina. Não precisa ficar tão assustada.
— Desculpe. — pediu Arshe ficando corada – Eu apenas… Não esperava.
A cavaleira da morte deu de ombros.
— Típico de Doroteya não se apegar a esse tipo de detalhes. Por exemplo, ela não disse que suas amigas eram a capitã das forças da Aliança em Nortúndria e a filha de Bolvar Fordragon.
— Você nos conhece?! — Arshe retratou bem a própria surpresa e a de Lina.
— Quem não conhece? — perguntou Rubrarosa dando de ombros – Mas isso não importa. — e olhando para Doroteya, falou – Vamos? Temos duas criaturinhas impacientes a nossa espera.
— Vamos! — e olhando para as amigas, perguntou – Vamos?
Então, apesar de surpresas, elas continuaram o caminho. Doroteya se transformou novamente em cervo e continuou o caminho, seguindo Rubrarosa, que corria sobre suas patas. Lina e Arshe deixaram as duas se afastar um pouco e a princesa perguntou, ansiosa, para a comandante:
— Você não está preocupada?
Lina pensou um pouco.
— Vamos confiar no bom senso de Doroteya. Ela não teria deixado o filho dela com alguém que não fosse confiável.
Isso encerrou o assunto.
Descobriram o motivo pelo qual demoraram tanto para achar o local. A casa ficava numa pequena colina rodeada pela imensa floresta, cujas as copas das árvores impediam sua visão. Havia um pequeno riacho por perto, e o barulho da água corrente também escondia qualquer barulho vindo da casinha. Quem quer que tivesse escolhido aquele local queria mesmo se esconder.
— Por aqui. — falou Rubrarosa quando elas entraram no terro da casa – Há um lugar onde vocês podem guardar os tigres.
Elas desceram dos tigres e estavam amarrando-os no local indicado por Rubrarosa, quando ouviram o grito.
— Mãe! Mãe!
Doroteya voltou a sua forma humana e abriu um imenso sorriso. Lágrimas escorriam novamente em seu rosto quando ela abriu os braços para o menino que vinha correndo em sua direção.
— Mãe! — gritava Theo se aproximando da mãe – Mamãe!!! Eu quase morri de saudades! — e pulou em cima de Doroteya.
Por um momento, Lina achou que Doroteya fosse cair com o impacto, mas ela logo se equilibrou, abraçando o filho. E, pela Luz, ele era enorme! Ele realmente só tinha sete anos?
Para a worgenin, aquele momento era o melhor que já tinha vivido há tempos. Ter seu menino novamente em seus braços era uma felicidade sem tamanho. Não dava um abraço apertado aquele em Theodore desde que o deixara aos cuidados de Rubrarosa e fora lutar por Guilneas. E agora, saber que não iam mais se separar, que o veria todos os dias e poderia continuar acompanhando seu desenvolvimento, era a maior benção que Eluna poderia lhe dar.
— Mãe, você está chorando? — perguntou o menino, preocupado.
— Estou meu amor. — disse afastando um pouco o abraço e segurando o pequeno rosto com as duas mãos – Mas é de alegria. É por ver você.
— Eu também estou muito feliz em te ver! — disse ele com um sorriso enorme.
— E, pela deusa, olhe como você cresceu. — Doroteya o afastou e analisou-o – Logo ficará maior que eu!
— Isso não é difícil, não é mãe? — brincou o menino.
Doroteya fingiu ter ficado brava, mas logo o abraçou de novo. E só quando a dor da saudade tinha aliviado um pouco mais, foi que ela lembrou que não estava ali sozinha.
— Venha cá Theo, quero lhe apresentar umas pessoas.
E, finalmente, Lina e Arshe conheceriam o filho de Doroteya. O menino que era o motivo de ela temer Greymane. A criança que era herdeira do trono de Guilneas. Theo que, a partir de agora, seria apresentado como um dos muitos sobrinhos de Lina. E quando os olhos de Lina se encontraram com o do menino e ele sorriu, a comandante soube que o amaria mais do que amara qualquer criança até então.
— Pela Luz! — exclamou Arshe levando as mãos ao rosto – Ele é a cara de Liam!
Theo era ruivo, como dissera Doroteya quando se conheceram. Ele tinha os olhos verdes escuros, como a copa das árvores. Seu cabelo, como o da mãe, era bem cheio e formava lindos cachos nas pontas. A boca que sorria abertamente também era como a da mãe, carnuda e bem vermelha. E ele seria alto. Apenas de vê-lo ali ao lado da mãe era perceptível que em uns quatro ou cinco anos ele já seria maior que ela. E que, quando adulto, talvez fosse da altura de Lina ou mesmo de Tommy. Aquilo era bom. Todos sabiam que os Wood eram grandes.
— Essas são as novas amigas de mamãe. — começou Doroteya, que abraçava o filho por trás – Lina Wood e Arshe Fordragon.
— Oi. — disse ele abrindo um enorme sorriso que mal cabia no rosto – Sou Theodore Finnigan. É um imenso prazer conhecê-las.
— Pela Luz, ele é muito fofo! — Arshe mal conseguia se conter – Posso te dar um abraço Theo?
— Claro! — e ele se desvencilhou gentilmente da mãe e se adiantou para Arshe.
A princesa agarrou o menino e o apertou com força. E quando o soltou, disse animada:
— Eu conheci seu pai quando criança. E você é muito parecido com ele!
Os olhos de Theo brilharam de alegria.
— Você conheceu meu pai? — havia expectativa em sua voz – Como ele era quando criança?!
Arshe apertou os olhos e falou como se fosse um segredo:
— Ele era meio chato, como só os garotos podem ser.
Isso arrancou gargalhadas de Theo.
— Meu pai era meio chato mesmo, apesar de já ser grande! — disse o menino e caiu na gargalhada. Depois, olhou para a mãe, apreensivo, como se esperasse que ela reclamasse de alguma coisa.
— Seu pai era chato de verdade, Theo. — concordou Doroteya.
O menino ficou aliviado. Lina ergueu uma sobrancelha, curiosa.
— Olá Theo. — a comandante se adiantou e abaixou-se para ficar da altura de Theo – Eu sou Lina. É lá na minha casa que você e sua mãe vão morar.
— É mesmo?! Obrigada, moça!
Lina sorriu e fez um não com o dedo indicador.
— A partir de agora, eu sou tia Lina, viu? — disse e depois cutucou a ponta do nariz dele com o dedo – Você e sua mãe agora são parte de minha família.
Theo sorriu e a abraçou com força. Uau, o menino era forte também, pensou Lina. Daria um excelente guerreiro. Talvez devesse falar com Tommy para que treinasse Theo. Se Doroteya permitisse, claro.
— Agora me conte uma coisa Theo. — Lina o afastou e olhou-o bem nos olhos. Ele também tinha olhos parecidos com os de sua família – Sua mãe briga quando você reclama de seu pai?
O menino apertou os lábios e fez que sim com a cabeça. Lina olhou com repreensão para Doroteya, que abaixou a cabeça, envergonhada.
— Não tem nada de errado em reclamar de nossos pais, Theo. As pessoas não são perfeitas. Seu pai foi um bom homem quando era vivo, mas nem mesmo a morte encobre seus defeitos. Que no caso de seu pai, parece ter sido a chatice. — e piscou o olho divertida para Theo.
Theo, tal como sua mãe, imediatamente confiou plenamente em Lina. Sabia que ali estava alguém com quem poderia contar totalmente.
— Nós fizemos um piquenique para vocês. — avisou o menino animado olhando para todas as mulheres presentes – Lá na beira do rio!
Lina se levantou. E quando Theo apontou o caminho para a mãe e saiu correndo na frente, a comandante chegou-se ao lado da druidesa e falou:
— Desculpe me meter na educação que você dá a Theo, Doro, mas não acho certo você endeuse Liam a ponto de reprimir o menino por criticá-lo. Isso não é saudável.
— Rubrarosa já disse a mesma coisa para mim. — revelou Doroteya, um pouco envergonhada – Mas ela nunca disse isso na frente de Theo.
— Eu sou mais descarada que ela. — Lina deu de ombros.
— E tem cinquenta e seis sobrinhos. — lembrou Arshe se colocando do outro lado de Doroteya – Isso lhe dá muita experiência para opinar sobre crianças.
— Nem me fale… — resmungou a comandante.
Seguiram caminhando pela floresta, vendo Theo correr, parar, chamá-las e correr de novo. Chegaram então à beira de um riacho, onde Rubrarosa as esperava com outra pessoa. Era uma elfa noturna, que se levantou quando as viu chegar e se encaminhou até Doroteya com um enorme sorriso.
— Lasciva! — gritou Doroteya abraçando a amiga.
Lina franziu a testa, pensando que finalmente encontrara alguém cuja mãe era tão criativa quanto a sua. Criativa no mal sentido, claro.
Foram então apresentadas à elfa noturna, Lasciva, que parecia ainda mais alta do que o normal de sua raça ao lado de Doroteya, que não passava de sua cintura. Pelas roupas e colares que ela usava, Lina supôs que ela, tal como Doroteya, fosse druidesa. E se perguntou qual seria a relação da elfa noturna druidesa com a cavaleira da morte.
— Meninas, essa é Lasciva. Lasciva, essas são Arshe e Lina, minhas amigas. – a elfa fez uma reverência para elas, que retribuíram – Conheci Lasciva durante a invasão a Guilneas. — explicou a worgenin – Ela é druidesa, como eu, e foi quem explicou o que causou toda a maldição dos worgens. — ela deu um sorriso triste – Uma época difícil, mas que trouxe uma coisa boa. — e abraçou ainda mais a amiga.
— Vocês são muito bem-vindas aqui. — disse Lasciva com aquela voz etérea dos elfos noturnos – Planejamos um pequeno piquenique para vocês. Venham, por favor.
O local do piquenique era a beira do rio, onde uma linda toalha xadrez estava estendida, cheia de sanduíches, frutas, bolinhos e garrafas de suco. Theo já estava sentado na toalha xadrez em cima da grama, atacando a comida. Quando as viu se aproximando, pegou um sanduíche de cima de uma pilha, correu e entregou para a mãe.
— Olha mãe, sem carne pra você. — disse de boca cheia.
— Querido, já falei que é falta de educação falar de boca cheia. — censurou Doroteya – Você pode se engasgar também. — e então sorriu – Mas obrigada.
O menino fez que sim com a cabeça e puxou a mãe pela mão até a toalha. Era muito fofo ver os dois ali, juntos. Mesmo que Theo parecesse fisicamente com o pai, ele tinha o mesmo olhar cálido e gentil da mãe. Todas então se acomodaram na toalha e Lasciva distribuiu sanduíches e suco. Theo sentou-se perto da mãe e grudou-se nela de um jeito que fez Lina lembrar de como fazia o mesmo com o pai. Doroteya apenas riu e passou a mão na cabeça do menino. A felicidade dele era evidente.
— Como vocês se conheceram? — foi a primeira pergunta feita por Rubrarosa assim que estavam todas acomodadas.
— Eu encontrei Doroteya perdida por Ventobravo quando a comitiva de Guilneas chegou. — começou Lina – Ela tinha ido comprar um presente pro Theo e não soube achar o caminho de volta.
— Foi o cavalinho que a senhora me mandou, mãe? — perguntou Theo com os olhos brilhando.
— Sim, querido. — respondeu – E foi graças a ele que conheci a Lina.
— Depois disso, — continuou a comandante – vi que ela não era muito bem-aceita pelos seus conterrâneos e a convidei a ficar em minha casa.
Rubrarosa arqueou uma das sobrancelhas, desconfiada.
— Você é do tipo que dá abrigo para qualquer um que encontra perdido? — questionou com um tom ácido.
— Rosa! — censurou Lasciva.
A cavaleira da morte apenas pegou a mão da elfa carinhosamente e pôs em seu colo. Arshe e Lina então entenderam a relação delas.
— Não é do meu feitio. — a comandante deu de ombros – Mas assim que bati os olhos em Doro, vi que ela era confiável. Que era diferente dos outros. Você deve saber do que estou falando.
Rubrarosa nada disse, apenas coçou o queixo.
— E você? — indagou a Arshe.
A princesa se sobressaltou por um momento, derramando um pouco de suco na toalha. Ainda não tinha se acostumado com uma cavaleira da morte tão perto e ainda falando com ela.
— Foi no baile de recepção da comitiva de Guilneas.
Tanto Rubrarosa quando Lasciva olharam surpresas para Doroteya, que corou um pouco.
— Você foi para um baile? — a worgenin caiu na risada.
Resumidamente, Doroteya falou da insistência dos irmãos de Lina, que fora com um vestido preto e que ela passou mais tempo olhando o céu e conversando com Arshe do que qualquer outra coisa. Rubrarosa balançou a cabeça, desaprovando.
— Se foi para um baile, deveria ter se divertido. — e apertando a mão de Lasciva, continuou – Liam já morreu há meses, talvez seja hora de você pensar em um namorado, quem sabe?
Doroteya, que estava bebendo um pouco de suco, engasgou com a fala da amiga e começou a tossir. Rubrarosa riu da reação, enquanto Lasciva ia até a outra e batia com as mãos em suas costas.
— Não pretendo ter um namorado ou algo assim, Rosa. — disse Doroteya depois que a tosse passou – Tenho um filho para criar e um mundo para proteger. E além do mais, já encontrei o amor de minha vida e ele se foi.
— Ele se foi, você não. — retrucou a outra – Você mesma me disse que eu deveria dar outra chance ao amor quando conheci Lasciva. Por que você não pode seguir o mesmo conselho? — e olhando para Arshe e Lina, perguntou – E vocês, o que acham?
Lina tomou aquela pergunta como um teste. Era perceptível que Rubrarosa era superprotetora com Doroteya e que se sentia responsável por ela e por Theo. A comandante ficou um pouco mais tranquila sabendo que não apenas ela e Arshe, mas também outras pessoas estavam dispostas a cuidarem da worgenin e de seu filho. E ainda que Rubrarosa a visse como uma ameaça no momento, ela não fingiria ou se mostraria uma pessoa que ela não era.
— Eu acho que Doro deve seguir a vida. — respondeu convicta – Se isso levar ela a se relacionar com alguém, ótimo, ela tem mais é que fazer isso. Eu tenho um irmão viúvo e sei como é difícil para alguém que perdeu o seu amor recomeçar, mas sei também que não é impossível.
— Concordo com a Lina. — disse Arshe – Você viveu um grande amor, mas isso não te impede de viver outro.
Doroteya olhou para amigas e disse, taxativa.:
— Não quero falar sobre isso.
Um silêncio constrangedor se seguiu, mas não durou muito tempo. Theo olhou para a mãe e disse, inocentemente:
— Se você tiver um namorado, ai posso ter um irmãozinho?
A gargalhada foi geral e quebrou totalmente a defesa de Doroteya. A druidesa olhou carinhosamente para o filho e perguntou:
— Você não se importaria de mamãe ter um namorado?
Theo fez que não com a cabeça.
— Desde que ele não te faça chorar como o papai já fez, tudo bem.
Doroteya ficou sem reação diante da fala do filho. Sim, era verdade que ela já chorara por Liam várias vezes, mas sempre achou que o filho estava a salvo, dormindo, enquanto ela derramava as lágrimas de solidão pela ausência do marido. O momento constrangedor durou um pouco, e então Rubrarosa continuou com seu interrogatório.
— Então… — recomeçou Rubrarosa olhando novamente para as visitantes – Se Doroteya trouxe vocês aqui, vocês devem saber de toda a história do Theo.
Lina e Arshe assentiram.
— Então sabem que levá-lo para Ventobravo é uma opção arriscada. — censurou.
— Rosa… — falou novamente Lasciva.
— Sim, sabemos do risco. — quem respondeu foi Lina, encarando Rubrarosa sem medo – Mas já temos um plano para deixar Theo seguro.
— Duvido que ele esteja mais seguro do que está aqui. — rebateu a cavaleira da morte.
— Talvez você tenha razão. — concordou Lina para a surpresa da outra – Mas estará perto da mãe. E acho que, nesse momento é a coisa certa a fazer. Por ele e por Doro.
— Eu quero ficar perto da mamãe. — disse Theo agarrado com Doroteya.
— Viu? — Lina começou a desembrulhar o sanduíche dela. A conversa estava deixando-a faminta – Por mais que aja o risco com o cachorro louco por perto, mantê-los afastados só fará mal para o menino.
Levou alguns segundos para Rubrarosa entender quem era o cachorro louco. E então, soltou uma sonora gargalhada. Apesar da reação positiva, Arshe arrepiou-se ao som daquela risada distorcida. Se algo podia por medo em qualquer pessoa, esse algo ser ao som de um cavaleiro da morte gargalhando.
— Eu sei da importância de manter Theo com a mãe. — Rubrarosa agora pegava um sanduíche da pilha maior – Por isso sempre falei que ela deveria estar aqui e não em Ventobravo – e olhando diretamente para Doroteya, insistiu – Você não deveria ter vindo buscar o Theo. Você deveria ter vindo para ficar. Você sabe que amaria esse lugar.
— Rosa, você sabe que não é assim. — a druidesa olhou para o filho com carinho antes de se voltar para a amiga – Eu quero lutar por nosso povo.
— Um povo que te odeia.
Lina apontou para Rubrarosa e disse:
— Nisso ela tem razão.
Lasciva colocou a mão no rosto, e encarou tanto Rubrarosa quanto Doroteya.
— Eu não acho que isso deva ser discutido na frente de Theo. — opinou a elfa.
— Por que não? — reclamou o menino – É minha vida também!
Não se sabe se foi à ênfase com que Theo falou ou se a fofura com que a frase foi dita. Ou apenas a mistura dos dois. As mulheres exclamaram um ‘ohhh’, sorriram para o menino, que passou a receber a atenção de todas. Depois de muito carinho, Theo já tinha esquecido o que tinha falado e já estava com outro sanduíche na mão.
— Eu não quero discutir isso. — sentenciou Doroteya – A decisão já está tomada. Vocês sabem que sou eternamente grata por cuidarem de Theo e o quero perto de mim. Mas também quero lutar. E não apenas pelo meu povo, mas pelo futuro do meu filho.
Rubrarosa e Lasciva não pareceram bravas com a fala de Doroteya, pelo contrário. Sabiam o quanto estar com Theo era importante e também que a druidesa não deixaria de lutar por um mundo melhor. Então, o assunto foi deixado de lado. Passaram a ouvir Theo, que começou a contar a mãe como foi morar aquele tempo com as ‘tias’, e ele falava e comia ao mesmo tempo. Lina se espantou com o apetite do menino. Tava explicado o fato de Doroteya gostar tanto de cozinhar. Ela tinha um pequeno esfomeado para alimentar.
Depois de terem destruído a pilha de sanduíches e bolinhos, Theo pegou uma vara de pescar e chamou a mãe para ir pro riacho.
— Tia Cici me ensinou a pescar. — disse o menino com orgulho – Quer ver?
— Claro! — Doroteya se levantou.
— Vamos também? — Theo chamou Arshe e Lina.
A comandante dispensou o convite com a mão, mas a princesa se levantou empolgada.
— Eu adoro pescar! — disse ela acompanhando Theo – Meu pai que me ensinou! Já peguei um peixe desse tamanho – e abriu os braços arrancando uma exclamação de assombro de Theo.
E foram para o rio, deixando apenas Lina e Rubrarosa na toalha xadrez.
Por um momento, elas duas não falaram nada, e Lina pegou, curiosa, um dos sanduíches vegetarianos de Doroteya. Cheirou-o e mordeu, e então ergueu as sobrancelhas de surpresa.
— Não é que isso é bom? — e continuou comendo.
— É impressionante como essas druidesas sabem fazer comida boa mesmo sem carne. — comentou a cavaleira da morte – Apesar de que nada é melhor do que um bom churrasco cheio de gordura.
— Com certeza! — concordou a comandante.
Rubrarosa avaliou um pouco a outra, que comia o sanduíche vegetariano, e então falou:
— Você não ficou surpresa comigo e Lasciva.
— E porque ficaria?
— Algumas pessoas ficam chocadas. E até mesmo, violentas.
Lina deu de ombros.
— Não me meto na vida de ninguém. A não ser que a pessoa esteja tentando destruir Ventobravo ou o mundo. — e olhando para Rubrarosa, esclareceu – E também tenho dois irmãos gays. Sei o que eles sofrem e prometi a mim mesma que jamais seria uma dessas pessoas ignorantes.
A cavaleira da morte sorriu. Lina percebeu que um pouco de sua resistência foi vencida.
— Poderia me contar qual o plano? — pediu – Para manter Theo a salvo?
— É simples. Vamos dizer que ele é um dos meus sobrinhos.
O plano não convenceu muito Rubrarosa. Parecia simples demais, falho demais. Quando percebeu a incredulidade na face da outra, Lina então explicou:
— Tenho cinquenta e seis sobrinhos. Nem meus pais reconhecem todos, quem dirá o povo da cidade.
— Uau! — agora a outra estava chocada – Cinquenta e seis sobrinhos?! Quantos irmãos você tem?!
— Dezessete. — respondeu – Somente eu, Fey e Mel não temos filhos. — ela deu uma pausa e apertou os lábios – Na verdade, desses cinquenta e seis, dois estão mortos. — ela sentiu um nó se formando na garganta – Mas eu jamais os tiraria da contagem. — e ela baixou o sanduíche, perdendo a vontade de comer.
— Você está certa. — as últimas resistências da cavaleira da morte estavam caindo – A morte não anula a pessoa da sua vida. Vá por mim, eu sei disso.
Lina concordou com a cabeça e olhou para o rio, onde Theo levantava um peixe recém-pego e mostrava a Arshe. A princesa gritou um pouco quando o peixe se debatendo bateu em seu rosto, deu dois passos para trás e caiu sentada no rio. Todos gargalharam menos Arshe, que passou a jogar água nos outros.
— Você conheceu Liam, não é mesmo? — perguntou de repente a comandante.
O rosto de Rubrarosa endureceu.
— Isso.
— Como ele era?
A outra deu de ombros.
— Um bom pai, um bom marido… — e não falou mais nada.
Lina a encarou por um momento e comentou:
— Parece que você não gostava dele.
A worgenin se remexeu, incomodada.
— Eu o odiava. — admitiu.
Não foi a resposta que surpreendeu Lina, mas a forma veemente com que ela foi feita. Sim, Rubrarosa odiava Liam. E era um ódio bem profundo, dava para se ver.
— Por que? — quis saber – Você disse que ele era bom Doro e Theo…
— Sim, era. Liam os amava. Os amava muito, isso tenho que admitir. Mas ele… Como posso dizer… — Rubrarosa gesticulava como se procurasse palavras – Ele era acomodado demais para meu gosto entende? Às vezes, eu achava que, se dependesse dele, Doroteya e o menino morreriam naquela floresta sem que Greymane nunca soubesse. E isso me tirava do sério! — Rubrarosa grunhiu um pouco antes de continuar – Veja o que Theo falou. Até ele entendia que o pai não fazia as coisas como deveria! A sorte daquele príncipe é que ele morreu com esse menino pequeno! Porque eu tenho certeza que, quando Theo crescesse, ele não seria complacente como a mãe. Porque não existe nada pior para um filho do que ver sua mãe chorar!
— Doroteya o idolatra. — lembrou Lina – Não acho que ela deixaria o Theo se rebelar contra o pai.
— Sim, é verdade. Mas será, que depois de mais de uma década, ela não se cansaria? — Rubrarosa bufou – Meu sonho sempre foi que Doroteya conhecesse outra pessoa, sabe? Que largasse de Liam. Mas ela não quer largá-lo nem mesmo depois de morto!
— Concordo com você, mas acho que não devemos pressionar. — Lina olhou para o sanduíche pela metade na mão e voltou a comer – Uma hora, Doro vai conhecer alguém e dar o passo seguinte por si mesma. E isso pode demorar. Vá por mim, meu irmão é viúvo há dois anos e não recomeçou a vida ainda.
— Espero que você esteja certa. — Rubrarosa deu uma pausa e depois a encarou – Doroteya gosta de você. Confia em você. Em vocês duas. — se corrigiu quando Arshe deu mais um grito e caiu novamente na água, dessa vez levando Doroteya junto – Ela é boa em encontrar pessoas boas. — e dando de ombros, acrescentou – Liam foi só uma pedra no caminho.
— Uau, você o odeia mesmo! — exclamou Lina.
Rubrarosa apenas riu.
E pouco tempo depois, chegou a hora da despedida. Lina sabia que tinha coisas para fazer, mas em nenhum momento quis interromper a despedida de Doroteya e de Theo das amigas de Darnassus. Por isso, deixou o tempo passar e somente quando a druidesa chamou, foi que se levantou. Ajudou Rubrarosa a empacotar o resto da comida e voltaram para a cabana na colina.
A mala de Theo estava pronta e esperando na sala quando elas voltaram. O cavalo de madeira que a mãe lhe dera estava de fora e o menino logo o pegou e o abraçou. Era obvio que era seu brinquedo favorito. Doroteya se ofereceu para ajudar com a lousa suja, mas Lasciva negou veementemente.
— Imagino que vocês têm outras coisas para fazer em Ventobravo. Então, não demorem mais.
Theo abraçou forte as duas ‘tias’, que estavam emocionadas e a beira das lágrimas com a partida do menino.
— Continue um bom menino Theo. — disse Lasciva enxugando os olhos – Não dê trabalho a sua mãe.
— Certo!
Rubrarosa se abaixou para ficar na altura dele e disse, emocionada:
— Vamos sentir sua falta. Fique de olho em sua mãe, ouviu? Qualquer coisa mande uma carta que vou lá socorrer vocês dois.
— Pode deixar tia Rosa. — e a abraçou.
— Tem certeza que vocês não querem vir comigo? — perguntou Doroteya quando Theo voltou para seu lado – Há muito trabalho em Ventobravo. E assim não ficariam longe de nós.
Rubrarosa e Lasciva se olharam e depois sacudiram a cabeça, em negativa.
— Ainda não estou pronta para isso. — confessou a cavaleira da morte.
— E eu não vou deixá-la. — completou a elfa.
— Se mudarem de ideia, nos procurem – disse Lina – Estaremos na Bastilha. E a linha de frente da Aliança sempre precisa de soldados.
— Lembraremos disso. — a cavaleira da morte sorriu – E não precisam se preocupar com os tigres, eu mesmo os entrego em Darnassus. Podem ir direto daqui se quiserem.
— Ah, isso é muito melhor! — Arshe se animou – Todos prontos?
Depois de mais uma rodada rápida de despedidas, a maga conjurou o portal para Ventobravo e logo eles sumiam em meio a poeira arcana do portal. Rubrarosa e Lasciva se abraçaram certas que iam sofrer com a falta do menino, mas agora cientes que ele estaria feliz com a mãe e seguro com a comandante Lina. E, claro, que daria ótimas risadas com a princesa Arshe.
O futuro de Theo parecia realmente luminoso.
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Rommath foi acordado na manhã após seu casamento com uma pequena batida nos ombros. Até então, o elfo estava sonhando com sua amada Luxuriah, agora sua esposa, em uma época em que Luaprata estava em seu auge e os elfos sangrentos ainda não tinham sangrado até a alma. Um tempo bom, do qual ele tinha saudades, e que ele desejara ter vivido com sua amada. E quando acordou, viu bem a sua frente o rosto de Luxuriah e logo percebeu, pela sua expressão, que o sonho acabara e que ele estava em maus lençóis.
— Você pode me explicar o que você pensa que está fazendo? — e apontou para ele, deitado no divã.
— Hã… — a mente dele ainda estava enevoada, onde as imagens do sonho se confundiam com as imagens do quarto à luz da manhã – Eu… Estava dormindo?
— Sim. — respondeu ela enraivecida cruzando os braços – Dormindo. Em um divã. Não na cama.
A mente do magíster foi clareando e então lembrou. Luxuriah havia adormecido e ele não se sentiu no direito de compartilhar o leito com ela. Afinal, o motivo do casamento não fora aquele. Porém, ela agora o olhava como se tivesse cometido um crime.
— Rommath. — ela o fuzilava com os olhos – Eu não casei para dormir na cama sozinha.
Era estranho ouvir aquilo. Quando se envolvera com a elfa a primeira vez, ela não queria dividir a cama após o sexo. E mesmo depois de um tempo e com mais intimidade, ela mantinha a postura de reservar sua privacidade se recusando a dormir com as pessoas com as quais se envolvia. E por esses motivos, ele tomara aquela atitude no dia anterior. Porém, como diria aquilo a Luxuriah sem parecer que estava acusando-a?
Luxuriah ainda esperava uma resposta. Viu Rommath sentar-se no divã e passar os dedos pelos cabelos. Apertou os lábios, tentando ignorar a beleza dos movimentos dele, a forma como os cabelos negros e lisos caiam suavemente pelos ombros. E se perguntou como se deixara levar por alguém de outra raça, cujos movimentos não eram tão fluídos, belos e sedutores.
— Desculpe-me. — ele disse por fim – Eu usei memórias de tempos passados para tomar uma decisão sem levar em conta que as coisas mudaram. Que você mudou. – e a encarando, deu um sorriso envergonhado – Prometo nunca mais deixá-la sozinha na cama.
Toda a raiva de Luxuriah esvaneceu rapidamente. Seus ombros relaxaram e ela descruzou os braços. Claro, ela nunca gostara de dormir junto, abraçada com outro corpo. Achava íntimo demais, profundo demais. Quando se envolvera com Rommath jamais dormira exatamente com ele. Fora algo que aprendera com Huaru. Sentiu-se mal por pensar no tauren e mal por ter acusado Rommath de fazer algo que ele já fizera antes. E o mago tinha razão. Ela era outra pessoa. Eram outros tempos. O mago teria que saber o que mudara nela e como reagir a isso. O relacionamento deles estava apenas começando e havia muito a aprender.
— Certo. Desculpas aceitas. — disse sem perder a pose. Afinal, ele podia não ter culpa, mas ela ainda estava um pouco chateada – E a partir de hoje, você dorme comigo. Lembre, sou uma grávida carente. Preciso de amor, carinho e atenção.
Rommath jogou os cabelos para trás e deu uma gargalhada que Luxuriah não entendeu. Ela apertou os olhos, desafiando-o a dizer o motivo da gargalhada. E que não fosse ela, ou se tornaria uma elfa viúva muito cedo.
— Eu jamais pensei que você fosse me pedir qualquer coisa, principalmente sentimentos. — disse com um enorme sorriso no rosto – Desculpe, foi tão estranho, mas tão maravilhoso, ouvir isso saindo de sua boca que não aguentei.
Os últimos resquícios de raiva da elfa sumiram e ela acabou rindo com Rommath. Ele ofereceu a mão e ela aceitou. Ele a puxou para o divã, onde a abraçou com força e beijou seus cabelos. Luxuriah encostou a cabeça no ombro dele, aspirou ao aroma másculo que saia de seu corpo e sentiu o rosto ficar quente e corado. Não pode deixar de se perguntar por que nunca se sentira assim antes com ele.
— Estou realmente perdoado? — quis saber.
— Está. — respondeu ainda com o rosto no ombro dele.
— Então… — ele passou as mãos no cabelo dela – Que tal descermos para o café da manhã tranquilamente? Não quero que sua irmã sequer sonhe que você brigou comigo hoje de manhã. Não quero dar mais motivos para ela tentar me congelar ou algo do tipo.
Foi a vez de Luxuriah gargalhar. Sim, a última coisa que queria era que Kassyeh sequer desconfiasse do que acontecera ali. Já estava tudo resolvido, certo? Então por que complicar as coisas?
— Então vamos. — chamou ela se levantando e pegando-o pela mão – Estou morrendo de fome.
***********************
Aethas já estava no salão principal. Suas malas estavam prontas e postas ao lado do sofá em que o mago sentava. E enquanto esperava suas sobrinhas, pensava no que acontecera na noite anterior.
Sim, ele nunca se dera bem com Vivithi. E, até o casamento de Kassyeh, jamais a imaginara de outro jeito que não fosse uma elfa promíscua que era uma má influência para suas jovens sobrinhas. Então, inesperadamente conhecera o porquê de inúmeros elfos se curvarem aos pés daquela bela e misteriosa caçadora. Conhecera seus beijos, sua pele, seus suspiros… E agora, sabia que estava perdida e irrevogavelmente apaixonado por ela. Porque Vivithi não era apenas o que ele pensara que ela era. Sua visão diminuta da realidade custara a ver que a criatura maravilhosa que ela era e o imenso bem que sempre fizera a suas sobrinhas. Sim, Aethas por fim admitiu que Vivithi é e sempre fora boa com suas meninas, mais até que ele próprio, pois ela sempre estivera lá para suas sobrinhas, diferentemente dele, que vivia em uma cidade distante, lidando com coisas que muitas vezes o impedia de ser a família que elas precisavam.
Só que agora era tarde. Ver tudo aquilo, naquele momento, era um grande desperdício, pois Vivithi o enxotara de sua vida e agora ele jazia infeliz, sentado naquele sofá, esperando a hora de voltar para uma cidade onde as coisas jamais seriam as mesmas.
— Titio! — ouviu alguém lhe chamar.
Era Tewdric, que chegava junto com Kassyeh. Os dois pareciam bem depois da discussão do dia anterior. Estavam de mãos dadas e o rosto de sua sobrinha transmitia aquele brilho de felicidade apaixonada que sempre vira em sua irmã Samanthah. Seu coração apertou-se, mas ele se levantou e forçou um sorriso.
— Vai ficar conosco par ao café da manhã, não é? — já foi perguntando Kassyeh, ao abraçá-lo.
— Sinto muito, querida, mas dessa vez não será possível. — respondeu recebendo o abraço sincero de sua sobrinha – Quero chegar a Dalaran o quanto antes.
— Ela não vai sair voando por ai se você se atrasar um pouco. — reclamou a elfa – Vou agora mesmo pedir para as servas agilizarem tudo. — e sem esperar resposta do tio, saiu em direção à cozinha.
Tewdric riu e se aproximou de Aethas.
— Ela não vai deixar você escapar, titio! — exclamou o orc dando uma risada.
— Percebi. — o elfo suspirou – Então melhor aceitar logo, não? — e sentou-se novamente no sofá.
O orc deixou seu sorriso morrer quando analisou o rosto do elfo e então sentou-se ao seu lado.
— O que foi titio? Você tá bem triste! Já é saudade antecipada? — e catucou Aethas com o cotovelo.
O arquimago se inclinou para a frente e pôs as mãos na testa. A desolação dele então se tornou visível para o orc.
— Antes fosse, Tewdric, antes fosse. — e baixou mais a cabeça.
— Foi a Vivithi? — perguntou, mas já sabendo a resposta.
— Foi. Ah, Tewdric, se foi. — ele levantou a cabeça e se jogou de costas no sofá – Eu estraguei tudo que poderia haver entre nós.
Tewdric franziu as sobrancelhas,
— Nossa, tio, isso foi tão… Dramático.. — o guerreiro pensou mais um pouco antes de completar – Dramaticamente élfico.
Era a última coisa que Aethas esperava ouvir. Olhou para Tewdric, surpreso, e viu que o orc falava sério. E fez a única coisa que passou por sua cabeça naquele momento. Gargalhou. E gargalhou muito! Gargalhou e logo Tewdric se juntou a ele. Gargalharam tanto que Kassyeh colocou a cabeça para fora da cozinha, se perguntando o motivo de tanto riso. Gargalharam até que o elfo ficou sem ar.
— Ah, Tewdric! — disse ainda entre risos, e acenou para Kassyeh, sinalizando que estava tudo bem – Só você mesmo para me fazer rir! Drama! — ele abriu os braços ao dizer aquela palavra — É, você tem razão, estou sendo dramático demais! E sabe, tenho motivos para ser! Você não faz ideia do que ela fez comigo!
— Então conte. — pediu o orc.
Aethas então contou tudo que acontecera na noite anterior e ainda contou mais. Desabafou sobre como se sentia, sobre como mudara sua visão sobre Vivithi, e como agora não sabia o que fazer, que estava sem chão e, pasme, sem vontade nenhuma de voltar a Dalaran. Aethas abriu seu coração para Tewdric, que ouviu tudo em silêncio, em respeito a dor do outro. E quando Aethas terminou de falar, virou-se para o marido de sua sobrinha, e perguntou:
— O que você acha, Tewdric?
O orc pensou um pouco antes de responder, com sinceridade:
— Eu acho que você está fudido, titio.
A sinceridade do orc gerou uma nova rodada de gargalhadas.
— É, acho que você tem razão. — disse o mago, derrotado – Estou fudido.
— Há algo que eu possa fazer? — quis saber o guerreiro.
Aethas olhou para o rosto sincero de Tewdric. Se algum dia alguém tivesse lhe dito que ele teria um orc na sua família, e esse orc seria uma das pessoas mais sinceras e verdadeiras que ele conheceria, ele teria chamado esse alguém de louco.
— Continue cuidando de minhas sobrinhas. — foi o que pediu – E, por todos os titãs, não magoe-as como aquele tauren fez.
O rosto de Tewdric endureceu à menção de Huaru.
— Jamais. — foi o que disse – Jamais farei nada parecido. E que aquele idiota reze muito para a Luz dele para não cruzar meu caminho. Eu não o perdoei e não vou perdoar. Não sem antes lhe deixar uma bela cicatriz.
— Deixe duas. Faça uma por mim. — pediu.
— Pode deixar, titio. — ele deu uma tapinha no ombro de Aethas, que sacudiu o elfo por inteiro – E quanto a Vivithi… Acho que você deveria conversar com a Lulu. Tipo, foi uma reação tão estranha… A Lulu deve saber o motivo.
Aethas fez que não com a cabeça.
— Ela tem que se concentrar em colocar esse novo relacionamento para funcionar e pensar no bebê que vai nascer. Não vou colocar mais esse problema nas costas dela. — ele deu de ombros – Vou deixar pra lá, esquecer… Só vou precisar de tempo.
Para Tewdric, Aethas ia precisar de muito mais que tempo para superar aquilo. Ele precisaria de um coração novo, pois Vivithi já estava enraizada demais no que batia em seu peito agora. Só que nada adiantava falar com ele naquele momento. Era algo que Aethas tinha que decidir por si só, da mesma forma como acontecera com ele. Tewdric entendeu que não podia viver sem Kassyeh de repente, em um momento de lucidez, sem precisar que ninguém dissesse nada para ele. Desde então, fizera de tudo para estar do lado do amor de sua vida. E ao vê-la, naquele momento, caminhando na direção deles com um enorme sorriso no rosto, entendeu que jamais se arrependeria daquela decisão.
— Do que vocês estavam rindo tanto? — perguntou curiosa.
— Estávamos rindo dos idiotas que existem em Dalaran. — respondeu prontamente Tewdric.
Aethas ficou na dúvida se Tewdric estava se referindo a ele também.
— Bem, então vocês tinham muito do que rir. — concordou a maga – Tio, o café da manhã já vai ficar pronto, não se preocupe porque-
— TIOO!!!! — o grito de Karen interrompeu a fala e os pensamentos de Kassyeh.
A menina vinha correndo, descendo as escadas com tanta velocidade que Tewdric levou a mão ao peito, de tanta preocupação. Mas a menina não caiu, e logo pulava em cima dos dois que estavam sentados no sofá. Tewdric riu quando o impacto o atingiu; Aethas ficou roxo e sem fôlego.
— Karen! — ralhou Kassyeh – Quer matar nosso tio?!
Karen olhou para o rosto do tio, que apesar de roxo, sorria.
— Ah, ele aguenta. — disse simplesmente.
— Karenzita!!!! — Tewdric puxou a menina para o seu colo – Está bem animada hoje!
A menina fez que sim com a cabeça.
— Hoje começo a treinar com Lady Liadrin e começo a ter aulas de coisas de rainha! — disse a menina sem conter a empolgação.
— Mas não esqueça que tem a hora de brincar. — lembrou Kassyeh – O momento do lazer é importante.
— Seria mais legal se Saba estivesse aqui. — a menina fez um bico, amuada – É chato brincar sozinha…
— Eu brinco com você! — exclamou Tewdric começando a fazer cócegas na menina.
Karen começou a rir e a tentar se livrar de Tewdric, e Aethas, já recuperado do ataque da sobrinha, sorria já saudoso. Como sentiria falta daquilo! E pela primeira vez em sua vida, Aethas começou a questionar se o Kirin Tor valia aquele sacrifício todo. Quanto já não perdera de sua vida por causa do conselho? Olhou para Karen e lembrou-se de Samanthah e no quanto queria que as duas tivessem passado mais tempos juntas…
— Uma bela animação logo cedo.
Luxuriah disse a frase ainda no alto da escada, rindo para a cena onde Karen e Tewdric agora tentavam fazer cócegas um no outro. Rommath estava logo atrás e viu que Kassyeh estreitou os olhos em sua direção quando o viu. Porém, foi apenas isso. O casal desceu e se juntou ao grupo, no momento em que Ash também aparecia para o café da manhã.
— O tio já vai embora? Não vai tomar o café conosco? — perguntou a jovem caçadora.
— Ele vai comer conosco sim, Ash. — respondeu Kassyeh antes que Aethas falasse qualquer coisa – Não é, tio?
Sem saída, o mago apenas concordou com a cabeça e logo a família estava sentada na mesa de refeições. Karen começou bombardear todos com todos os planos para aquele dia e com sua animação de treinar com Lady Liadrin; Kassyeh comentou que retomaria a produção de frascos e poções, pois os pedidos de seus clientes estavam acumulando. Luxuriah perguntou ao tio qual seria a primeira coisa que ele faria quando chegasse em Dalaran e o elfo deu de ombros.
— Acredito que o conselho me convoque assim que eu colocar os pés lá. — ele tomou um gole de chá – Eles estão loucos para me bombardear de perguntas, tenho certeza.
— Você acha que farão uma investigação ou algo assim? — quis saber Kassyeh.
— Com certeza. — Aethas sabia exatamente qual seriam os procedimentos e estava pronto para eles – Ronin não fará muitas perguntas, mas Modera e os demais, com certeza o farão.
— Mas o que exatamente eles vão querer saber? — Ash perguntou – Digo, porque durante todos esses dias, você só ficou conosco, tio, não teve nada de política ou algo assim.
— É exatamente isso que precisarei provar. — o mago suspirou.
Rommath encarou Aethas por alguns instantes e então comentou:
— Cuidado. O Kirin Tor não é confiável.
Aethas lançou um olhar irritado para o outro.
— Você não perde uma oportunidade de criticar, não é, Rommath.
— Não sou eu quem está lamentando ser investigado, Aethas. — respondeu o outro serenamente – Só o fato de você sequer poder ver suas sobrinhas sem isso suscitar uma desconfiança de traição deveria ser motivo o suficiente para questionar a posição dos membros do Kirin Tor em relação a você.
Aethas abriu a boca para responder, mas Luxuriah levantou a mão, pedindo silêncio.
— Não quero essa discussão na mesa. — disse incisiva – É a nossa última refeição com o titio por não sei quanto lá tempo, então vamos deixar a política de lado.
— Ué, ele não vem pro Véu de Inverno? — perguntou Karen após a fala da irmã – Faltam só dois meses!
— É provável que ele não possa vir. — quem falou foi Ash – Por ter passado um bom tempo fora.
— É verdade. — concordou Aethas. E diante do olhar desolado de Kassyeh e Karen, ele tentou remediar — Meninas, eu poderia vir, claro, mas gostaria de deixar minha próxima visita para o nascimento do bebê de Luxuriah. Se eu demorar um pouco mais a vir, passarei mais tempo também.
Luxuriah, que estava bebendo um pouco de suco, baixou o copo, surpresa com o que o tio dissera.
— Titio, você vem… Pro nascimento? — sem entender porque, Luxuriah estava sentindo uma imensa vontade de chorar.
— Claro! — exclamou animado – Não perderia o nascimento do meu primeiro sobrinho-neto por nada!
— Sobrinha. — corrigiu Luxuriah contendo as lágrimas – Será uma menina.
— Muito bem, quero ver minha sobrinha-neta assim que ela nascer. — e deu um imenso sorrido.
E então Luxuriah, para a surpresa de todos, começou a chorar. Suas irmãs se entreolharam, sem saber o que fazer. Era uma atitude totalmente estranha à pessoa de Luxuriah. Aethas deu um pequeno sorriso, pois sabia do que se tratava; sua irmã, quando grávida, sempre ficava muito sensível. Tewdric sabia que era coisa de elfa grávida, então continuou a comer. Rommath era o único que sabia exatamente o que fazer: pegou a mão de Luxuriah com delicadeza, inclinou-se até que sua boca estivesse bem perto do ouvido dela e passou a sussurrar palavras de consolo e tranquilidade. Logo a elfa estava mais calma, e enxugou as lágrimas, um pouco envergonhada.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Esse negócio de gravidez está me fazendo deixar de ser eu. — disse franzindo a testa, com um ar de reprovação.
— Acho que vamos ter que nos acostumar com essas mudanças de humor. — comentou Kassyeh.
— Não tem remédio para isso? — quis saber Karen.
— Talvez Kayliel saiba. — ponderou Ash – A propósito, onde está ele?
Rommath deu de ombros.
— Ontem, ele falou algo sobre umas coisas para resolver em casa. — disse o Grão-Magíster – Acredito que ele virá mais tarde.
— A propósito, — Luxuriah, já recuperada, notou pela primeira vez outras ausências na mesa – Onde estão Lor’themar e Vivithi?
Aethas e Ash se crisparam diante da menção daqueles nomes. O mago relembrou a noite anterior e desejava mais que nunca que Vivithi não aparecesse durante a refeição; Ash queria muito ver Lor’themar, tentar descobrir o que ele estava sentindo diante da forma como ela agora o tratava e também saber do seu treinamento. Afinal, ele assumira aquela responsabilidade e Ash já sentia que se atrasaram em demasia devido aos acontecimentos recentes que tumultuaram a vida de todos ali.
— Será que tão resolvendo coisa de família? — perguntou Karen.
— Deve ser. — respondeu Kassyeh.
Todavia, Rommath e Luxuriah se entreolharam. Ambos desconfiavam que algo tinha acontecido. E quando a elfa trocou olhares com Tewdric e viu a preocupação no rosto do orc, teve certeza que havia algo e que o guerreiro sabia. Porém, o assunto foi logo deixado de lado, pois Luxuriah não queria que o foco da despedida de Aethas fosse desviado. Comeram, conversaram, riram e fizeram planos para a próxima visita do tio. Apesar de ter dito que não viria no Véu de Inverno, o arquimago garantiu que todas seriam lembradas e receberiam seus presentes. Karen perguntou se faltava muito para o bebê de Luxuriah nascer, assim saberia quando veria novamente o tio. E as conversas fluíram de forma agradável até a hora da partida de Aethas.
De pé, na sala de estar, junto com suas bagagens, os Fendessol se despediam emocionalmente.
— Vou sentir falta de todas vocês. — garantiu Aethas abraçando todas as sobrinhas – Não deixem de me mandar notícias.
— Vai sentir falta de mim também, titio? — perguntou Tewdric dando um abraço apertado no elfo.
Aethas ficou sem ar e respondeu apenas afirmando com a cabeça. Quando Tewdric o soltou, ele respirou fundo, se perguntando se sobreviveria a um outro abraço do orc.
— Tenha cuidado, Aethas. — avisou Rommath.
— Terei. — garantiu.
E após um último olhar em sua aumentada família, o elfo conjurou um portal, acenou para todos, pegou suas malas e voltou para a cidade flutuante.
Durante alguns segundos, ninguém disse nada. Karen e Tewdric eram visivelmente os mais tristes pela partida de Aethas. E Luxuriah, a mais preocupada. A elfa sabia que, a menos que acontecesse algo muito grave que colocasse em risco a vida dela ou das irmãs ou a do próprio Aethas, ele não abandonaria o Lirin Tor. E ela temia que essa devoção toda colocasse em risco a vida de seu tio.
— Não se preocupe. — ouviu Rommath lhe sussurrar – Se alguém consegue lidar com o Kirin Tor, esse alguém é Aethas.
Luxuriah lhe deu um pequeno sorriso, ainda preocupada, mas mais calma.
Uma serva se aproximou da aglomeração ainda calada, com uma bandeja dourada aparentemente vazia.
— Carta para vossa majestade. — disse.
Demorou alguns segundos para Karen perceber que a serva falava com ela. E quando a elfa estendeu a bandeja e ela viu o nome de Saba escrito no envelope, a pequena futura rainha deu um grito agudo muito alto, que fez todos se encolherem. A menina pegou o envelope animadamente, colocou-o contra o peito e começou a correr em direção a escada.
— Karensky! — gritou Luxuriah – Para onde você vai?
— Ler a carta de Saba! – gritou a menina já quase no alto da escada – Com privacidade!
E sumiu porta adentro.
As demais irmãs se entreolharam e riram.
— Privacidade… — Luxuriah riu – Bem, parece que Lor’themar não está a vista para seu treinamento, não é, Ash?
Ash revirou os olhos, chateada.
— É o que parece. — comentou.
— Então, que tal irmos na casa de Rommath? — sugeriu – Karen provavelmente vai ler e reler a carta e depois respondê-la. É o tempo que nos ajeitamos e a deixamos no salão dos Cavaleiros Sangrentos. Ele precisa pegar algumas coisas, eu quero morangos e encontramos Kayliel lá e o trazemos. — e olhando para Rommath – Que tal?
— Por mim, está tudo bem. — respondeu o elfo – Minha casa é sua casa agora, não se esqueça. — e delicadamente pegou sua mão.
— Vou passar na taverna rapidinho. — disse Tewdric – Encontro vocês na casa do elfão ai.
— Não vá beber logo de manhã. — pediu Kassyeh.
O orc abriu um sorriso.
— Não é bebida. É uma surpresa. Tive uma ideia muito boa essa manhã. — e presenteou sua esposa com um imenso sorriso onde todas suas presas ficaram a mostra, antes de lhe dar um rápido beijo e sumir porta afora.
— Não gosto quando esse orc tem ideias… — comentou Luxuriah erguendo as sobrancelhas.
— As ideias dele são boas. — defendeu Kassyeh.
— Para você sempre são. — retrucou Ash, mas sorrindo.
— Surpresas a parte, vamos nos ajeitar. — Luxuriah sorria – Mal posso esperar para mostrar o jardim dele a vocês. Quero fazer algo parecido aqui na torre.
E logo as irmãs começaram os preparativos para sair, sem fazer ideia do que Tewdric estava aprontando ou do que Karen estava lendo na carta de Saba.
*********************
Estava nublado em Ventobravo quando Lina, Arshe, Doroteya e o pequeno Theo chegaram a cidade. A maga conseguira fazer com que o portal de volta surgisse bem perto da casa da comandante, então elas tiveram que andar apenas poucos passos para chegar ao destino e Theo não cruzou com ninguém de Guilneas. Isso deu a Lina a certeza que seria fácil manter o menino a salvo.
Theo ficou abismado com a visão que teve da cidade. Afinal, para ele, criado na floresta de Guilneas desde o nascimento e tendo vivido os últimos meses em Darnassus, tantas casas e prédios juntos era uma imensa novidade.
— Uau… — murmurou ao ver uma diligência passando.
— Essa é Ventobravo, Theo. — disse Arshe passando a mão na cabeça da criança – Capital da Aliança e cidade mais bonita de Azeroth! — e abriu os braços, mostrando a cidade como se fosse um espetáculo.
— Guilneas é bonita também. — defendeu Doroteya, com um sorriso saudoso no rosto.
— Não está bonita agora, cheia de morto-vivos. — retrucou a comandante – Mas não se preocupe Theo, um dia vamos recuperar o reino da sua mãe e poderemos fazer uma disputa justa de cidade mais bonita. — e dando uma pausa, sorriu provocativa – Mas concordo com Arshe, Ventobravo ganha.
Todas riram e logo chegaram a casa da comandante. Theo estranhou a casa bem no centro da cidade, mas gostou do banco na varanda e de a casa ficar em frente ao canal.
— Poderei pescar aqui? — perguntou apontando para o canal.
— Claro! — disse Lina – Nosso canal é limpo e cheio de vida. Você vai poder pescar os peixes que quiser.
O menino abriu um enorme sorriso satisfeito. Esperava pegar peixes enormes para a mãe fritar na manteiga para o jantar.
— Chegamos! — anunciou Lina ao abrir a porta.
Quando Theo colocou os pés dentro da casa, foi saudado por um monte de confetes e serpentinas que espocaram na sala e caíram sobre o menino. Mel e Fey seguravam rolinhos nas mãos, já estourados, de onde saíram toda a sorte de papelzinho laminados e coloridos.
— Bem-vindo Theo! — gritaram ao mesmo tempo.
O menino se assustou um pouco no começo, mas logo já estava rindo, com o cabelo ruivo cheio de confetes. Sua atenção foi atraída para o enorme bolo e os diversos cupcakes em uma mesa bem no centro da sala, onde uma faixa onde estava escrito ‘Bem-vindo Theo’, fora pendurada.
— Nossa! — exclamou o menino – É pra mim mesmo mamãe? — perguntou tão feliz que estava difícil de acreditar no que via.
— Sim querido, tudo para você. — respondeu.
— Que bolo lindo!!! — exclamou Arshe com as duas mãos no rosto – Eu não sabia que teria bolo!
— Tem sim. — riu Doroteya – Espero que você goste, Arshe, fui eu quem fiz.
Os olhos da princesa brilharam de alegria. Parecia que Theo não era o único a amar doces.
— Venha Theo, venha conhecer meus irmãos. — chamou Lina pegando na mão do menino.
Theo foi então levado até onde Fey e Mel estavam. Os dois alfaiates tiveram uma reação muito parecida com a de Arshe quando vira o menino pela primeira vez: eles ficaram absolutamente encantados.
— Olá, eu sou Theodore. — disse o menino com um sorriso no rosto – Theodore Finnigan.
— Ele é muito fofo!!! — gritaram os dois homens com as mãos no rosto.
Theo apenas continuou a sorrir, acostumado com aquele tipo de reação.
— Olhe que cabelo mais lindo! — Mel pegou um dos cachinhos de Theo, puxou-o delicadamente e o soltou – Quer cor maravilhosa, que cachos enroladinhos!
— E olhe os olhos dessa criança!! Tão verdes! Parece com os do nosso pai! — Fey estava surpreso e maravilhado – Todos vão pensar que é um Wood!
— Esse é o plano. — disse Lina – Agora, duas perguntas: qual de vocês passou o dedo no bolo mais cedo e onde está Tommy?
Os dois irmãos gaguejaram diante da primeira pergunta, se acusaram mutuamente e por fim, levaram um cascudo cada um. Para a segunda pergunta, eles apontaram para trás.
Tommy estava sentado na escada, calado, apenas observando toda a movimentação. Tentara não chamar a atenção, torcendo para que a irmã não lembrasse de sua existência e o deixasse de fora das apresentações. Não que não quisesse conhecer o filho de Doroteya, até queria sim, mas não estava mais tão certo se estava pronto para lidar com uma criança tão perto dele depois de tanto tempo. Porém, para variar, Lina não deixava passar nada e logo estava levando Theo até onde ele estava inutilmente escondido. O menino arregalou um pouco os olhos ao vê-lo e Tommy, pela primeira vez, ficou com vergonha da aparência que agora ostentava.
— Esse é meu outro irmão, Theo. Ele se chama Tommy. — disse a comandante para Theo.
O menino o olhou por um momento, como se decidisse se falaria com ele ou não e então, inesperadamente, falou:
— Oi Tommy! Sou o Theodore Finnigan e espero que você fique bom logo! — e abriu um largo e sincero sorriso.
Tommy sentiu a garganta fechar e os olhos se nublarem de lágrimas. Tentou falar alguma coisa, mas só conseguia emitir alguns grunhidos e balançar a cabeça. Theo olhou então para Lina, em busca de uma explicação, e a comandante apenas suspirou.
— Ele está apenas triste, Theo. Quando melhorar, falaremos com ele.
Então, fez menção de sair com Theo de volta aonde estavam os outros. Tommy se sentia envergonhado da situação e não desejava que aquela fosse a primeira impressão que o menino tivesse dele. Por isso, antes que a irmã o levasse, ele conseguiu arrancar algumas palavras de seu peito.
— Espere! — pediu Tommy. Lina o encarou, surpresa, mas parou – Desculpe-me, eu… Eu já estou melhor. — e olhando para Theo, respirou fundo e disse – Seja bem-vindo Theo. Eu…. Eu estou um pouco doente, como você pode ver, mas estou melhorando. — deu um pequeno sorriso ao menino antes de completar – Sua mãe tem ajudado a cuidar de mim.
Os olhos de Theo brilharam de alegria antes dele dizer animadamente:
— Se minha mãe tá ajudando, você vai ficar bom logo, logo!
Lina e Tommy sorriram da explosão de felicidade e o homem continuou:
— Espero que sejamos amigos. Eu fiz um presente para você.
O embrulho estava ao seu lado e ele o entregou para Theo. Animado, o menino desembalou rapidamente e deu um grito agudo de alegria ao ver a carruagem de madeira, bem esculpida e cheia de detalhes.
— Vai ficar perfeita com meu cavalinho! — exclamou com os olhos brilhando de alegria – Obrigado, Tommy! — e deu um apertado abraço no outro.
Tommy sentiu aqueles bracinhos o circundarem e sua emoção aumentou. Deu graças aos titãs que sua irmã percebeu que ele não aguentaria mais muito tempo e chamou:
— Venha Theo, vamos mostrar a sua mãe.
O menino assentiu, deu mais um rápido abraço em Tommy e correu em direção à mãe. Ciente que precisava escapar da sala, ele foi ao lugar mais perto e reservado que havia nas proximidades: a cozinha. Lá, Tommy se apoiou na pia e deixou seus sentimentos transbordarem. Chorou. Chorou, porque sabia que jamais receberia novamente um abraço daqueles de seus filhos. Chorou, porque não havia cumprido a promessa de vingar sua família. Chorou, porque veria Theo crescer, quando não teria jamais a oportunidade de ver suas crianças crescerem. E chorou, principalmente, pela pessoa vazia e doente que se tornara nos dois últimos anos.
Tommy não soube quanto tempo ficou na cozinha, dando vazão a todos os sentimentos que borbulhavam em seu íntimo há tanto tempo e que, finalmente, explodiram. Ficou lá, deixando as lágrimas rolarem, até sentir uma mão tocando em seu ombro. Ele se virou e viu Doroteya, com um ar de preocupação no rosto.
— Há algo que eu possa fazer por você? — quis saber ela.
Instintivamente, Tommy sorriu. Qualquer outra pessoa teria feito a velha pergunta do ‘você está bem?’, que ele detestava. Pois estava muito claro que não, ele não estava bem. Mas Doroteya tinha uma sensibilidade incrível e agora o olhava com aqueles imensos olhos castanhos, talvez se culpando um pouco pela sua dor e querendo uma forma de remediar a situação. Por isso, ele se obrigou a pensar por um momento, o que o faria se sentir melhor.
— Eu… — ele ficou um pouco envergonhado com o que realmente queria – Eu acho que preciso de um abraço…
Doroteya sorriu e o abraçou. Tommy se espantou ao ver o quanto realmente precisava daquilo. Apesar de Doroteya ser pequena e sua cabeça ficar no peito dele, sentiu-se abraçado como um todo e confortado. Baixou a cabeça em direção a ela e sentiu o cheiro maravilhoso de seus cabelos; parecia erva doce ou algo assim. Deixou-se então ficar perdido naquele abraço por alguns momentos, e então lembrou que haviam outras pessoas na casa e que logo iriam até ali em busca da druidesa. Relutantemente afastou-se do abraço e sorriu para ela.
— Obrigado. — agradeceu com sinceridade – Eu realmente estava precisando disso.
Doroteya sorriu, um pouco envergonhada.
— Eu sinto muito por-
— Não. — interrompeu – Não sinta. Seu filho é um menino maravilhoso, pelo que vi. Meus problemas são meus problemas e eu jamais impediria que uma mãe ficasse longe de seu filho por minha causa. Então, não ‘sinta muito’. Eu vou melhorar. — ele respirou fundo – Na verdade, acho que já me sinto melhor. — e deu um pequeno sorriso a ela.
Doroteya sorriu de volta, espantada com a mudança de Tommy em apenas alguns dias. Rezava a Eluna para que a dor de Tommy fosse sanada e ele pudesse ser feliz novamente no futuro. E faria tudo ao seu alcance para ajudá-lo. Não apenas por ser irmão de Lina, mas porque Doroteya não gostava de ver ninguém sofrer.
— Vamos cortar o bolo agora. — anunciou ela – Me ajuda com os pratos?
— Claro.
Tommy e Doroteya pegaram os pratos e também copos e levaram para a sala. Lá, a conversa estava animada e eles mal perceberam a volta de Tommy. Afinal, Theo agora era o centro das atenções e todos queriam agradá-lo e conversar com ele um pouco.
— Hora do bolo! — anunciou Doroteya, atraindo a atenção de todos.
Logo, o bolo estava sendo repartido e os elogios à aptidão culinária de Doroteya rodava a sala. Tommy sentou-se novamente na escada, servindo como plateia à comemoração e espantou-se quando a druidesa, ao terminar de servir a todos, pegou um pedaço de bolo e sentou-se ao seu lado.
— Não acredito que estou dando bolo ao meu filho no meio do dia. — confidenciou com um tom de voz culpado – Ele deveria comer arroz, vegetais e, por Eluna, até carne e não bolo cheio de chantili.
Tommy não aguentou e deu uma risada.
— É só por hoje. Não custa nada abrir mão da rotina por um dia só. Te garanto que isso ficará na lembrança dele para sempre, mais do que todos arros com vegetais e carnes de almoço. E isso é o que importa, não?
A contragosto, Doroteya assentiu.
— Além do mais, — continuou ele – você pode caprichar na janta. Que tal uma sopa? Acredito que a noite vai ser um pouco fria, com esse tempo nublado como está.
— Excelente ideia! — aprovou a druidesa – Posso levá-lo no mercado, para que ele conheça a cidade! — porém, logo a animação dela sumiu – Melhor não… Alguém pode vê-lo comigo…
— Eu vou junto. — se ofereceu Tommy – Qualquer pergunta, digo que é meu filho. — e depois, vendo os olhos dela arregalados, se corrigiu – Sobrinho. Digo que é sobrinho. — e sentiu o rosto ficar quente.
Doroteya o encarou por um momento, como se analisasse-o e depois assentiu com um sorriso no rosto.
— Você pode dizer que é seu filho, se alguém perguntar. — Tommy obviamente não sabia, mas Doroteya estava sentindo o rosto arder tanto quanto ele – Não vejo nenhum problema.
Os dois ficaram alguns segundos em silêncio e então ele sorriu, ainda envergonhado.
— Então está combinado. — concluiu Tommy – Iremos a feira no final da tarde para você fazer uma bela sopa bem nutritiva. Espero que não chova.
— Se chover, não tem problema. Nos molhamos. — disse ela rindo.
Sem entende porque, Tommy corou ainda mais diante da última frase dela. Em sua cabeça, Doroteya tinha soado um pouco… Pela luz, ele não queria pensar isso, mas era quase sensual. Desviou a vista para a festa, se sentindo o pior homem no mundo por pensar aquilo de uma mulher, viúva como ele e com um filho pequeno.
— Ei, vocês dois. — Lina, sem saber da conversa e do que se passara na cozinha, chegou onde eles estavam – Estou indo para a Bastilha. O trabalho não vai esperar. E tenho que devolver a princesa. — disse apontando para Arshe, que estava dando risadinhas, entre Fey e Mel – Não me espero hoje para a janta, Doro. Vou comer algo por lá.
— Tem certeza Lina? — o semblante da druidesa ficou preocupado – Eu vou fazer uma sopinha.
— Então guarde algo para mim. Porque só saiu de lá com as informações que eu quero. — e olhando par ao irmão, acrescentou – Seja bonzinho com Doro, ok? Não dê trabalho a ela.
O rosto de Tommy corou mais ainda, sem ele entender porque.
— Certo. Farei isso.
Lina pareceu satisfeita com a conversa e virou-se para Arshe.
— Arshe! Temos que ir!
Arshe, Fey e Mel protestaram do aviso.
— Ela volta aqui depois, outro dia. Agora, temos que ir.
Logo a comandante já tinha saído com Arshe, não antes de Doroteya convencê-las a levar, cada uma, um pedaço generoso de bolo. Lina relutou em aceitar, já Arshe o fez sem pensar duas vezes. Theo deu um abraço em cada uma e despediu-se delas. Pouco depois, era a vez de Fey e Mel terem que voltar para o ateliê deles e, por fim, apenas Tommy, Theo e Doroteya ficaram na casa. O menino, que se empanturrara de bolo, em pouco tempo cochilava no sofá da sala. Tommy se levantou e foi imitado por Doroteya. Ele sorriu para ela.
— Hora de arrumar essa bagunça, não acha? — perguntou ele sem saber porque estava tão animado.
— Concordo. — disse a druidesa – Só não vamos fazer muito barulho. Não quero que Theo acorde agora. Vou deixá-lo cochilar um pouco. — ela deu de ombros – Conhecendo-o como eu conheço, não deve ter dormido anda ontem, de tão empolgado que estava.
— Tudo bem. — e ele sorriu – Pode deixar que lavo os pratos. Você já fez demais.
E o sorriso que ela lhe deu foi o suficiente para rechaçar todos os resquícios de tristeza que restavam no coração sofrido de Tommy.
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Querida Karen,
Está difícil pensar no que vou escrever para você. Nesse momento, eu estou chorando muito, sentada no chão da casa da minha nova mestra. Ela disse que tenho que escrever o que estou sentindo agora nesse momento para você.
E sabe, só de pensar que estou, de certo modo, conversando com você me deixa mais tranquila. As coisas parecem menos ruim. Melhores. As coisas parecem melhores. Minha mestra disse que “menos ruim” não existe.
Você deve tá se perguntando onde estou agora e quem essa mestra de quem estou falando né? É difícil explicar… Muitas coisas aconteceram desde que voltei. A pior delas foi o pesadelo. Você não faz ideia de como foi ruim o pesadelo, Karen! Eu lembro dele e já fico me tremendo. E ter vivido ele de novo na visão foi mais ruim! Pior. A mestra disse que o certo é pior. Então foi pior, bem pior! Mas minha mestra disse que eu deveria contar a você. Sim, deveria.
Bem, o pesadelo… É difícil falar sem a letra tremer. Vou tentar. Eu tava em Orgrimmar. Só que eu não era eu, entende. Era, tipo, eu crescida, com peitos, como a mamãe e suas irmãs têm. É, eu lembro de ter peitos. E eu tava assim, em pé, logo na entrada da cidade, de frente pro Castelo Grommash. E Orgrimmar tava vermelha. Tipo, muito vermelha. De sangue. A cidade tava cheia de sangue. Como se tivesse chovido sangue, sabe? E tinha gente morta. Muita. Espalhadas pelo chão e também espetadas nos espinhos de ferro daqui. E era só gente nossa, da Horda. Tinha toda nossas raças lá, mortos. Vi.. Vi papai e mamãe também… Desculpa a letra torta. Pera, vou chorar um pouquinho.
Voltei, to melhor. A mestra me deu um pouco de água. Então, todo mundo morto, até meus pais. E o Uivo Sangrento, o machado do chefe guerreiro tava espetado na frente do castelo, e tinha sangue e uma coisa preta saindo dele. Era terrível.
O pior… O pior era saber que você estava lá, entende. Estava lá e eu não sabia se você estava bem, nem nada. E a Kass também. E a Lux. Todo mundo ai de sua casa! Todos estavam em algum lugar daquela Orgrimmar horrível e eu não sabia onde nem se vocês estavam vivos nem nada!
Aí eu acordei gritando. Mamãe e papai ficaram preocupados. Aí não consegui mais dormir. E quando eu tava dando água pros bichos chegou a minha mestra que não era minha mestra ainda, dizendo aos meus pais que os espíritos falaram com ela e que eu era pra ser xamã. Papai e mamãe ficaram tipo, muitoooooo felizes, porque ser xamã é uma honra pro meu povo. Tão felizes que não vou mais precisar ajudar na taverna, só me dedicar aos estudos, uhuul!! Uma coisa boa pra comemorar.
Então, depois vim aqui na casa da mestra. Ela fez eu beber um chá muito doido e eu tive uma visão, sabe. A visão era uma versão mais nítida do meu pesadelo. Eu tipo, sofri muito mais na visão. Acho que a pior parte era não saber de você, sabe? Você é minha melhor amiga do mundo todo e eu não sabia se você estava viva. Foi tão doloroso!! Aí eu não queria falar para a mestra e ela mandou eu escrever para você. E estou escrevendo. Não sei se terei coragem de falar pra ela ou pra outra pessoa o que tou falando pra você agora… Ah, ela está falando algo. Ela disse aqui agora que eu e você temos uma ligação especial e isso me deixa muito feliz. E sabe, só de escrever isso aqui eu já me sinto muito melhor. Ela também tá dizendo aqui que nós nos veríamos em breve. E que você vai precisar de mim.
Karen, já estou morrendo de saudades de você! É tão estranho voltar para casa e ficar sozinha de novo, sabe? Tenho a impressão que eu não sou daqui, sabe? Como se eu sempre tivesse sido daí da cidade dos elfos e não de Orgrimmar. Estranho, não?
Agora to lembrando, e a briga da Lux com o Huhu? Está tudo bem? Eles fizeram as pazes? E você, como está? Me avisa, ok?
Responda logo, to ansiosa já.
Mil beijos, pra você e pro Galinha
Saba
Karen leu e releu a carta de Saba, aproveitando cada palavra. Também estava morrendo de saudades da amiga. Ficou muito surpresa ao saber que Saba seria xamã, pois Lux dissera que a menina era muito boa com o arco. Bem, ela poderia aproveitar a pontaria para atirar uma maça, quem sabe. Mas o que mais chamou a atenção da futura rainha fora realmente o pesadelo e a visão.
Uma coisa incomum que Karen agora reparara era que nunca havia tido um pesadelo. Verdade. Nem quando mais pequenininha acordara com medo ou algum sonho ruim. E também nunca tivera uma visão. Não conseguia então imaginar o quão assustador fora para Saba vivenciar aquilo que ela descrevera no sonho e também na visão. Levantou-se da cama, onde lera a carta e foi até a escrivaninha, sentou-se e pegou papel e tinta para responder. Releu mais uma vez a carta de Saba e então escreveu:
Querida Saba,
Também estou morrendo de saudades!! Você não sabe a falta que vocês faz aqui! Desde que você foi embora eu e Galinha estamos mais solitários e hoje eu acordei com a certeza que você tava aqui, ai quando virei pro lado, você não tava, que triste.
Nossa, seu sonho parece terrível mesmo! E você ainda teve que rever tudo numa visão! Que horror! Eu acho que eu teria feito xixi na cama se tivesse sonhado algo assim ou tido uma visão dessas. Eu só fui a Orgrimmar uma vez, mas só de imaginar ela do jeito que você falou, me dá um calafrio…
Sobre o que você sentiu vendo a cidade e pensando em nós.. Você disse que eu tava lá né? E que você não sabia de mim, né? Pois tenha certeza que eu estava bem vivinha e estava procurando você, viu? Então, quando você lembrar desse pesadelo, imagine que eu tava chegando pra lutar com você contra quem fez essas coisas horríveis, viu? Não precisa se preocupar.
Uma coisa que to me perguntando agora, se você tava com peitos, acho que eu também estaria né? Apesar de a Lux dizer que os peitos das orquisas crescem mais rápido, que triste, mas tenho certeza que quando eu aparecesse no seu sonho ia ter peitos também.
E sim, sobre as coisas que aconteceram aqui. O Huhu, digo, o Huaru, ele e a Lux se separaram. Foi horrível. Aquela briga toda foi porque a Lux descobriu que vai ter um bebê, mas como ela já tá grávida de um tempinho já, não é do Huaru sabe? Aí ele disse que não podia ficar com ela e… Aí, to chorando também, pera.
Galinha subiu no meu colo e fiz carinho nele até eu me acalmar. Então, o Huaru foi embora. Chorei muito. A Lux ficou muito mal. Só que tem um elfo aqui, o nome dele é Romrom, aí ele era apaixonado pela Lux e já tinha namorado com ela. Aí ele pediu pra ficar com ela e cuidar dela e do bebê. Aí eles casaram ontem. Sim, estranho né? Você saiu daqui com a Lux com o Huaru, ai quando vier de novo ela vai tá casada com outro. Os adultos complicam mesmo as coisas.
Eu também tenho uma mestra agora. Já que o outro foi embora, quem vai me treinar é a Lady Liadrin, lembra dela? A que gosta de elfos novinhos? Pois é, e ela tá cuidando de outra menina, o nome dela é Salandria. Ela é mais nova que eu. Você vai gostar muito dela, tenho certeza.
Ah, e sobre sua vinda, venha nos visitar no Véu de Inverno! Você pode passar a semana de festas aqui! Vai ser muito legal! A gente sempre monta árvore, Kass faz um monte de doces e o Ted se fantasia de rena! Vou pedir pra Lux pedir pros seus pais, tenho certeza que eles vão gostar! E aqui, você não vai ter pesadelo nenhum, prometo.
E sobre a ligação especial, sua mestra só disse algo que a gente já sabia né?
Espero que essa carta chegue logo aí.
Mil beijos.
Galinha tá mandando beijos também.
Karen
Mesmo preocupada com todas as coisas que a amiga falara, Karen sorria. Sabia que sua carta deixaria Saba muito mais feliz e com menos medo. Depois que releu sua carta e se deu por satisfeita, Karen pôs o papel no envelope com o destino e a origem, antes de sair do quarto saltitando, com Galinha no colo e a carta na mão. Lá embaixo, suas irmãs já a esperavam junto com Tewdric e Rommath, prontos para a ida até a casa do elfo.
— Pronto! — anunciou a menina – Preciso de uma caixa de correios agora! — disse animadamente.
— O que a Saba falava na carta, Karen? — perguntou Ash.
— Deixe de ser curiosa! — protestou a menina.
— O quê? Por que não posso perguntar? Que segredo todo é esse? — reclamou a irmã apertando os olhos.
— Não tem segredo, só que a carta é pra mim, e não pra você! — e depois de ver a cara irritada de Ash, Karen começou a rir e falou – A Saba vai virar xamã, uma orquisa foi lá na casa dela e disse que os espíritos disseram que ela tem que ser xamã.
Ash olhou com raiva para a irmã, que a provocara de propósito e depois balançou a cabeça, sem acreditar que caíra de novo. Porém, era bom ver Karen sendo… Karen. Cada dia mais que ela se comportasse assim, mais longe estaria a dor que Huaru provocara na menina.
— Uma xamã! — Tewdric exclamou com um enorme sorriso no rosto – Isso é uma honra muito grande! Morag e Gryshka devem estar muito, muito felizes.
— Estão sim! — confirmou Karen – Ela foi até dispensada do trabalho em casa para estudar.
— Isso é muito bom! — Kassyeh deu um pulinho e bateu palmas – Sempre soube que Saba era uma menina fantástica!
— Acho uma pena. — disse Luxuriah – Ela tinha uma pontaria tão boa…
— Vamos logo!! — chamou Karen indo até a porta – Quero mandar logo a carta pra receber outra! E Lady Liadrin me espera!
Todos riram, mas foram na direção da porta. Em pouco tempo, a carta já havia sido depositado na caixa de correio mais próximas da Torre Sólfuria, e todos estavam em suas montarias, Karen dividindo Toblerone com Kassyeh e Galinha no colo, na direção da Ordem dos Cavaleiros Sangrentos. De lá, as irmãs iriam para a casa de Rommath, onde Kayliel, sem saber da visita de seu irmão e da cunhada, também recebia uma carta, que mexeria com ele tanto quanto a carta de Saba mexera com Karen.
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