Herdeiros da Guerra
27 Capítulo XXI – A Resposta (PARTE II)
Notas iniciais
— A Lina foi simplesmente o máximo! — exclamou Arshe deslumbrada.
Naquele dia, Varian ordenou à cozinha que o jantar fosse servido mais cedo. O rei queria que Arshe se alimentasse direito e pudesse descansar o resto da noite. E agora, enquanto dividia a refeição com a princesa, Anduin e Greymane, pode pensar um pouco em tudo que acontecera naquela manhã.
Quando Arshe chegara, carregada pela comandante, o rei percebeu que o ataque fora pior que o informado. Ficou irritado por um momento por não ter sido alertado de tudo, mas logo percebeu que Lina fizera aquilo para, justamente, evitar uma agitação maior. Por fim, decidiu que sua maior preocupação era com sua protegida. Depois de sua chegada, ela e Anduin passaram a tarde juntos, apesar dele ter dito ao menino que deixasse a irmã de criação descansar. Mas diante da insistência dos dois, desistiu. Agora, sua esperança era que o jantar antecipado pusesse aqueles dois na cama bem cedo naquela noite.
— Você gosta mesmo dela, não é maninha? — perguntou Anduin admirado.
— Muito! — exclamou a maga – Ela é tão… Tão.. Tão comandante! — e riu acompanhada do príncipe.
— Fico feliz de sua proximidade com a comandante. — falou o rei pegando a taça de água – Ela é conhecida por sua proteção àqueles a quem se afeiçoa.
Arshe concordou com a cabeça.
— A Lina, tipo assim, surtou quando o cara me deu uma facada. — e então ponderou – Não tanto quando a Doro, quero dizer. — se corrigiu – A Doro rasgou a garganta daquele guarda assim ‘arrrrgg’ como se fosse de papel!
Greymane pigarreou.
— Doro… — resmungou.
Aquilo atraiu a atenção de Arshe. A princesa fitou o rei dos worgens por um momento, pensando na melhor forma de mandar ele às favas sem ser indelicada.
— Sim, Doro. — disse suavemente – É o jeito que a Lina a chama. E tipo, a Doro é muito incrível! Se não fosse por ela, eu não estaria aqui agora.
Varian percebeu que Greymane não estava muito feliz com a forma carinhosa com a qual Arshe se referia à druidesa chamada Doroteya e aquilo o intrigou. Lembrou também mais cedo que o worgen não havia ficado entusiasmado com o fato de ser ela a ter salvo Arshe. E também houve aquela conversa, logo que os worgens chegaram, que Greymane a acusara de manipuladora e que estava influenciando negativamente a comandante. E agora provavelmente diria que ela fazia o mesmo com Arshe. Afinal, qual o problema que ele tinha com a moça?
— Tem algo a dizer sobre essa moça, Genn? — perguntou Varian – Percebe-se que você não tem muito apreço por ela.
Arshe parou de comer naquele momento e se endireitou na cadeira. Encarou Greymane e parecia em postura de defesa. Percebendo aquilo, o rei dos worgens colocou as mãos sobre a mesa e encarou a jovem com suavidade, antes de falar:
— Sei que deve estar muito agradecida por essa moça ter salvo sua vida… Eu também estou, acredite… Todavia… — ele deu uma pausa – Você deveria ser mais cuidadosa com relação a ela.
— E por que eu deveria? — perguntou Arshe seriamente.
Anduin e Varian se entreolharam. Conheciam aquele tom de voz da moça: Arshe estava se preparando para um embate. Ambos ficaram receosos.
— Eu conheço essa moça há muitos anos. — continuou o rei tentando manter a calma – E ela foi responsável por muitas tensões dentro de família.
Claro que Arshe sabia o motivo. Sabia toda a história. Até mais que o próprio Greymane. Mas dizer naquele momento que ela sabia boa parte da história não ajudaria Doroteya. Só serviria para o rei corroborar a ideia de que a druidesa era uma pessoa manipuladora, que já começara a espalhar sua versão da história. Por isso, decidiu atacar de outro lado.
— Que tipo de tensões, majestade? — perguntou elegantemente – Permita-me justificar minha pergunta: estive com Doro, ou “essa moça” como você a chama, e o que eu vi foi uma pessoa doce, dedicada, que não se poupou para cuidar de todos que precisaram. Até mesmo os Defias.
— Não nego que ela é dedicada no que faz. — concordou relutantemente Greymane – Mas é uma coisa infeliz que ela seja tão dedicada até mesmo em fazer mal.
— Vossa majestade ainda não respondeu o que ela fez. — alfinetou a maga.
Varian soube na hora que, o que quer que Greymane fosse dizer, Arshe já sabia. Ela não estava ansiosa pela resposta, quando acontecia quando estava curiosa. Não. Ela estava obrigando Greymane a dizer ele mesmo o seu problema com Doroteya. E se ela estava fazendo aquilo, queria dizer que, independente do que o rei de Guilneas fosse dizer, ela não acreditaria. Para o rei de Ventobravo, isso dizia muito sobre Doroteya. Aquela druidesa não só conquistara a confiança de Lina em apenas algumas horas, como agora fizera o mesmo com Arshe. Ou ela era uma pessoa muito verdadeira, transparente e pura, ou era uma mestre em mentira. E como ele conhecia e confiava no discernimento de Arshe, estava inclinado à primeira alternativa.
Greymane percebeu, enfim, que teria que revelar o motivo de sua raiva em relação à Doroteya. Varian se perguntou o porquê de ele hesitar tanto.
— Ela é o motivo pelo qual meu filho me odiava no momento de sua morte.
Anduin expressou bem a surpresa que Varian também sentiu. Arshe, ao contrário, permanecia séria e a única mudança em sua expressão foi um arquear de sobrancelhas. O que a princesa sentia no momento era um mistério para todos na mesa. Menos para ela mesma, claro.
“Cachorro pulguento e desgraçado, você está mentindo!”, era o que passava na cabeça de Arshe. Sim, claro, havia a possibilidade de ele e Liam terem brigado pouco antes da morte do príncipe por causa de Doroteya, mas isso não era culpa da druidesa. E pelo amor da Luz, Liam tinha morrido por ele! Quem morre pro alguém que odeia? O príncipe tinha deixado uma mulher e um filho para trás por causa daquele imbecil e ela nem podia jogar isso em sua cara! Arshe estava se contorcendo por dentro. Mas ela sabia jogar. E continuaria no jogo.
— Não se morre por quem se odeia, majestade. — disse calmamente.
Greymane a encarou, surpreso por não ter causado a mesma impressão nela que nos outros. E então entendeu.
— Vossa alteza já sabe não é? — havia um tom de raiva na fala dele – Ela já lhe contou a versão dela, não foi?
— Não sou uma pessoa incauta. — respondeu – Estou lhe dando a chance de me contar a sua versão.
O rei de Ventobravo estava sentindo algo que não sentia desde criança: uma imensa curiosidade de saber o que diabos tinha acontecido afinal. E como se suspeitasse do que Varian sentia, Greymane virou-se para ele.
— Varian, há alguns anos meu filho mudou. — começou seriamente – Estava mais distante de suas obrigações, não se interessava em escolher uma companheira… Nem parecia o mesmo. E foi então que eu descobri o que causava aquilo.
Varian então entendeu tudo.
— Doroteya. — disse.
Greymane assentiu.
— Ele simplesmente enlouqueceu por essa moça! — disse com ênfase – Queria, veja só, casar com ela! Uma plebeia que morava no meio do mato! Ninguém nem sabia de onde ela tinha vindo! E de repente, meu filho queria casar com ela! Casar! Ele a transformaria em uma rainha! — o rei parecia transtornado agora – E claro, eu me opus! Não fazia sentido! Meu filho não podia estar num estado normal ao propor essa insanidade!
— Claro que não estava. — concordou Arshe para a surpresa de todos – Ele estava apaixonado. Isso faz qualquer um perder a cabeça.
Anduin acompanhava a conversa sem parar de comer. Já tinha terminado todos seus pratos e agora esperava ansiosamente pela sobremesa, que pelo andar da carruagem, ia demorar. Arshe percebeu a impaciência do rapaz e lhe ofereceu suas batatas, que Anduin aceitou de bom grado.
— Princesa Arshe… — Greymane parecia estar se segurando para não perder a compostura – Acho que você não entendeu o que aconteceu…
— Claro que entendi. — retrucou gentilmente – Liam e Doro se apaixonaram e estavam vivendo um romance. Você não gostou e se opôs a isso. Estou certa?
Greymane gaguejou antes de responder:
— É uma explicação muito simplista! Há muito mais coisas envolvidas!
— Claro que há. — concordou Arshe – Muito mais coisas que até mesmo vossa majestade imagina.
Depois que falou isso, Arshe se arrependeu. Não podia deixar escapar nada. Se prejudicasse Doro, jamais se perdoaria. Porém, Greymane já percebera algo. Que ela sabia de mais coisas que dava a perceber. Agora, parecia que ele revidaria. Porém, Varian acabou entrando no meio do conflito.
— Você disse que eles se envolveram há muitos anos. — ponderou o rei de Ventobravo – E que Liam o odiava quando morreu. O que aconteceu durante esse período?
Para o alívio da maga, o worgen se voltou para Varian. Daria tempo de ela estruturar uma contrapartida naquela disputa.
— Quando Liam veio para mim com essa… — ele, com certeza, pensou em algo bem ruim para dizer, mas olhou rapidamente para Anduin antes de continuar – Essa insanidade, eu fui totalmente contra, claro. Houve uma grande discussão em minha casa. Mia adoeceu de tanta preocupação! Então eu procurei a moça.
Agora sim Arshe estava surpresa. Doroteya não havia contado aquilo.
— E como foi esse encontro? — perguntou Varian, também entregando suas batatas a Anduin.
— Eu disse a ela que sua presença na vida de Liam era prejudicial a todos nós. A ordenei a sumir da vida dele. — ele suspirou – E ela até fez isso. Por um tempo! Ficamos em paz! Então ela volta no período mais obscuro de nosso reino! E meu filho volta a essa loucura! Como se ela nunca tivesse acabado! — ele estava revoltado.
“Porque nunca acabou”, pensou Arshe. Liam nunca deixou Doroteya. Ele estava enganando o pai. Mas dizer aquilo pioraria as coisas. Ela preferiu outro caminho.
— Então Doro fez o que você pediu. Se afastou de Liam. — disse com um tom pensativo – E ela volta para lutar por seu povo, lógico, pois qualquer um que ame seu povo faria isso. E Liam descobre que nunca a esqueceu. — ela encarou Greymane – Onde está a culpa dela?
— Ela deveria ter rejeitado-o novamente! — afirmou o rei com convicção.
— Então ambos teriam que ser infelizes por causa de seus desejos. — completou Arshe sentindo a voz falhar. Por que estava emocionando-se? — Sufocar um amor de anos, apenas porque ele não cabe nas convenções. Coitado de Liam. Entendo porque ele se tornou tão… Insano…
Não tinha ela sido insana também ao se envolver com Kayliel? Não tinha ela passado pro algo semelhante? Imaginava o que teria acontecido com os dois se tivesse seguido o caminho escolhido por Liam e Doroteya. Será que estariam juntos agora? Estariam fugindo, se escondendo, vivendo seu amor, como aqueles dois fizeram? Melhor não pensar nisso, e se focar em defender Doroteya.
— Entendo que você pense nisso tão romanticamente. — Greymane continuou – Mas existem coisas-
— Arshe sabe disso, Genn. — cortou Varian – Ela conhece a vida da nobreza.
— Então deveria entender. — replicou o outro.
— Eu entendo. — disse Arshe calmamente – Por isso sinto pena de Liam. Por que eu o entendo.
Se houve algo que realmente surpreendeu o rei naquela conversa, foi a afirmação convicta de Arshe que entendia Liam. Será que ela…
— Ainda assim. — continuou Arshe interrompendo o pensamento de sue tio – Ainda assim, culpar Doroteya é um erro. Tratá-la da forma como vossa majestade a trata é um erro. Deixar que seu povo a trate do mesmo jeito é um erro maior ainda. Doroteya fez o que pode. Não merece sofrer as consequências das escolhas de Liam.
Greymane ficou lívido. As mãos dele tremiam em cima da mesa, e ele parecia prestes a perder a compostura. Varian percebeu que teria que intervir.
— Genn. — chamou com a voz calma – Eu sei que você tem seus motivos para desgostar dessa moça. Da mesma forma que Arshe tem motivos para gostar dela. — ponderou – E gostaria que isso não interferisse em nossas relações.
— O que você faria, Varian? — perguntou Greymane de repente – O que você faria se fosse Anduin apaixonado por alguma plebeia? O que faria se ele fosse contra você e começasse a ser irresponsável com suas obrigações?
Anduin parou de comer no mesmo instante e olhou para o pai. Varian se encostou à sua cadeira. Arshe também o fitava agora. Qual seria sua resposta? Talvez, o melhor fosse ser sincero.
— Sinceramente Genn, não faço ideia. — confessou – Acho que só saberei no dia em que isso acontecer.
Greymane apertou os olhos.
— Reze para a Luz para que isso nunca aconteça. — e retirando o guardanapo do colo, colocou em cima da mesa e fez menção de se levantar – Permita que eu me ausente agora. Estou sem fome.
— Até amanhã Genn. — respondeu Varian – Espero que possamos nos encontrar para discutir as nossas ações no Monte Hyjal amanhã.
— Com certeza. — ele fez uma reverência a todos e demorou um pouco mais olhando para Arshe e depois saiu.
Depois disso houve silêncio. Arshe olhava para a taça de água. Pensava em Doroteya. Ela decidira ir embora e abandonar Liam por causa do pai dele. Teria ela dito algo a ele? Teria explicado o porquê de ter ido embora? Ou teria feito como Kayliel? Precisava perguntar aquilo para Doroteya assim que pudesse.
E algo então passou em sua mente e deixou seu coração apertado: teria Kayliel a deixado porque alguém assim pediu? Para o bem dela?
— Acho que chegou a hora da sobremesa. — disse Varian sorrindo, tentando deixar o ambiente mais agradável.
— Oba, sobremesa! — exclamou Anduin. E vendo que sua irmã não se manifestou, ele achou melhor tentar desviar o foco dela da discussão – Continue contando sobre a missão, Arshe! Papai não ouviu tudo! Ah! Conte a parte da flecha! — pediu Anduin animado – Conte para papai!
Arshe se forçou a rir. Anduin e Varian não poderiam perceber o quanto aquilo havia afetado-a tanto.
— Claro Anduin! Bem, a flecha! — quando ela lembrou, franziu a testa – Como alguém esqueceu que levou uma flechada?!
Varian a encarou, preocupado.
— Não me diga que você levou uma flechada e não me contou?
— Ah, eu não! — disse displicente girando a mão – Foi a Lina.
— O quê?!
Varian falou tão alto que a serva que trazia os pequenos pudins quase derrubou a bandeja. Quando Arshe e Anduin o encararam, surpreso, ele pigarreou. A maga sorriu. Varian então se pegou pensando se ela também não já sabia sobre ele e a comandante. Tentou então desviar o foco.
— Não imagino que a comandante seja alguém que esqueça que levou uma flechada. — disse tentando parecer indiferente, pegando a taça de água.
— Ah, mas foi. — Arshe estava de repente se divertindo – Ela levou uma flechada, quebrou a haste e simplesmente esqueceu. Ficou uma noite toda com ela lá. — e então pensou um pouco – Na verdade, levando em consideração que ela também queimou metade do cabelo e não se preocupou, não deveria me surpreender.
Varian cuspiu a água que estava bebendo.
— Queimou o cabelo? — ele, com certeza, não conseguia ficar indiferente.
A sorte do rei era que Anduin estava mais preocupado em comer o pudim do que nas reações do pai. Mas Arshe estava se divertindo. Era bom desviar o pensamento da contenda com Greymane com as histórias com Lina.
— Deixe-me contar. — pediu.
E ela contou. Contou tudo que falara mais cedo a Anduin, excluindo, claro, a parte em que ela e as outras confessaram s segredos e forjaram sua aliança. Porém, ela desconfiava que Varian supunha de alguma forma o que acontecera. Se ela sabia sobre Doroteya, porque não saberia de Lina? Mas a maga não deu nenhuma indireta, não alfinetou, nem nada. Apenas contou o que acontecera diante do olhar atônito do tio. O máximo que fez foi o seguinte comentário:
— Tio, você não percebeu que o cabelo dela estava mais curto?
Varian pensou um pouco.
— Achei que estava preso ou algo assim. Estavam mais preocupado com você.
— Que fofo! — disse ela com sinceridade – Obrigada, tio!
— O que vocês farão amanhã? — quis saber Anduin já tendo destruído quase todo seu pudim – A comandante falou algo sobre vocês fazerem algo.
Arshe pegou seu pudim e então respondeu, enigmática:
— Coisa de menina. — e deu uma risadinha.
E Varian percebeu que a intimidade que foi gerada entre aquelas três durante a missão era mais profunda que ele imaginava. E percebeu então que não demoraria para Arshe descobrir sobre ele e Lina. Isso, se não já soubesse claro. Surpreendentemente, aquilo não o preocupou. E então, entendeu que jamais poderia responder a pergunta de Greymane sinceramente. O que ele faria se Anduin se envolvesse com uma plebeia? Ora, ele próprio não estava fazendo aquilo? E onde isso o levaria? Só a Luz sabia.
Por hora, devia se preocupar com outras coisas. Como em acalmar Arshe e mandá-la dormir cedo. E impedir Anduin de se entupir demais de pudim.
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Do outro lado da cidade, Lina e Doroteya preparavam a chegada de Theo sem saber o que acontecia na Bastilha. A druidesa se surpreendeu com a habilidade de Lina na cozinha. A comandante decidiu ajudá-la para que não ficasse sobrecarregada. Então, enquanto Doroteya batia a massa do bolo, colocava-o no forno e fazia os docinhos, Lina decidiu preparar a jantar. Precisou de algumas dicas sobre a comida de Doroteya, que não comia carne, mas logo estava no fogão.
A druidesa já havia mandando uma carta para sua amiga em Darnassus, avisando que no dia seguinte buscaria Theo. Se o correio mágico estivesse funcionando da forma apropriada, a outra worgenin receberia o recado ainda naquele dia.
Enquanto isso, Tommy trabalhava em um brinquedo para Tommy. Decidiu fazer uma pequena carruagem para o menino. Assim, ele podia atrelar animais de brinquedos a ela, caso tivesse. Se não tivesse, depois ele mesmo faria alguns cavalos.
Fey e Mel chegaram quando a noite caiu. Se surpreenderam ao ver Tommy trabalhando tão intensamente. E se surpreenderam mais ainda quando chegaram na cozinha e viram Doroteya e Lina lá. Mas a surpresa deles não foi se ver a irmã de avental.
— AHH!!!! — gritaram os dois quando a viram – O que é isso???!!! — perguntaram ao mesmo tempo.
Lina estava provando um pouco do molho com vinho que acabara de fazer para o macarrão, e olhou calmamente para os irmãos.
— Isso sou eu cozinhando. — respondeu.
— Não isso! — Fey bateu o pé e entrou na cozinha com Mel sem eu encalço – O que aconteceu com seu cabelo??!!!
— Ah, isso. — falou indiferente pegando no cabelo – Um cara tocou fogo nele e tive que cortar.
— Nãoooo!! — gritou Mel como se estivesse sentindo muita dor – Nós cuidamos tanto de seu cabelo para ele crescer!! — o alfaiate estava à beira das lágrimas.
— Ele estava tão bonito!!! — lamentou Fey pegando nos cabelos curtos de Lina. Os dois irmãos agora apalpavam o que restava do cabelo dia enquanto Lina continuava mexendo o molho,
— Vai crescer de novo. Tenham calma vocês dois.
Mas os irmãos estavam agora aos prantos, passando a mão na cabeça dela como se a irmã tivesse perdido a cabeça e não só o cabelo. Doroteya observou a cena e deu menos de um minuto para Lina explodir.
Foram exatamente trinta e seis segundos.
— Caiam fora vocês dois! — gritou afastando as mãos de sua cabeça – Estão me atrapalhando! — e chutou eles dois de lá.
Os dois alfaiates então foram para onde estava Tommy e continuaram o lamento. Quando perguntaram a ele o que tinha sentindo ao ver o cabelo da irmã destruído, o outro, sem tirar os olhos do que esculpia, se limitou a responder:
— Eu nem tinha percebido até vocês começarem esse show.
E é claro, os dois começaram a lamentar a falta de lamento de Tommy. E isso continuou até a hora do jantar e poderia ter durado mais se não fosse o ultimato de Lina:
— Ou param ou não vão jantar!
Então se forçaram a parar e passaram apenas a lançar olhares tristonhos para a irmã. Mas o humor dos dois logo mudou quando descobriram que a chegada de Theo seria no dia seguinte. E decidiram se dedicar a fazer uma faixa de boas vindas e também a costurar algumas roupas novas para o menino. Quando Doroteya protestou, dizendo que não precisava, Fey perguntou:
— Ele está vindo de Darnassus não é? — e quando Doroteya afirmou com a cabeça, ele completou – Não vamos deixar ele ficar parecendo um elfo noturno saído de dentro de uma árvore. Com todo respeito aos elfos noturnos, claro.
Isso arrancou risada de todos.
— Ainda bem que nenhum elfo noturno ouviu isso. Foi ofensivo. — disse Lina, mas ainda rindo.
Conversaram muito, e Lina contou tudo que acontecera na missão. Seus irmãos esqueceram imediatamente dos cabelos de Lina quando descobriram que Arshe quase morrera. E praticamente começaram a idolatrar Doroteya por ter salvo a vida da princesa. A conversa começou a se estender e então a druidesa pediu licença para decorar o bolo do filho, já que o mesmo provavelmente já tinha esfriado. Se levantou e saiu.
Na cozinha, Doroteya pôs-se a fazer o glacê e a pensar. Como se sentiria Theo numa cidade como Ventobravo? Ele crescera numa floresta, tendo apenas a mãe de companhia. Não era muito acostumado com muita gente e mesmo agora, vivia na floresta de Darnassus. Sim, seu filho fora criado exatamente como ela. E durante muito tempo, Doroteya teve medo de acontecer com ela o mesmo que acontecera com sua mãe: um dia ela simplesmente morrer e deixar Theo sozinho na floresta. Quanto tempo demoraria para Liam ir ver o filho? E depois? O deixaria ali ou o levaria para Guilneas? Não, Liam jamais abandonaria o filho. Mas e se o rei decidisse que não aceitaria o menino? O que acontecia com Theo? Depois que Rubrarosa aparecera, o medo passou. Sabia que a amiga cuidaria do menino. E ela fizera isso. Não fora Rubrarosa quem cuidara de Theo quando ela sumira nas florestas de Guilneas? Quem estava com ele agora? Bem, agora as coisas eram diferentes. Além de Rubrarosa, tinha Lina e Arshe. E algo passou por sua cabeça. Será que a cavaleira da morte a acompanharia até a capital da Aliança?
Com esse pensamento, se animou. Colocou o glacê num saco de confeiteiro e passou a enfeitar o bolo. Concentrada como estava e imersa em seus pensamentos, não notou quando Tommy entrou na cozinha. O homem a olhou por um momento e depois passou a vista na cozinha. Estava uma bagunça. Se adiantou então e pôs a mão delicadamente no ombro de Doroteya enquanto perguntava:
— Precisa de ajuda?
Doroteya tomou um susto. Deu um grito e se virou abrutadamente. Apertou o saco de confeiteiro com força e todo o glacê foi lançado no rosto de Tommy. Ele também gritou assustado e deu um passo para trás, batendo na parede. Lina e os outros correram, preocupados com o barulho e a cena que viram foi hilariante. Doroteya, com o saco de confeiteiro em riste e Tommy com o rosto coberto de glacê. A gargalhada foi unânime entre os três.
— Desculpe! — pediu Doroteya se adiantando e pegando um pano para limpar Tommy.
— Tudo bem. — disse ele tirando o excesso de glacê dos olhos – Eu que assustei você.
Lina se aproximou do irmão e passou o dedo em sua face, tirando um bocado de glacê e então pôs na boca.
— Tommy, você nunca foi tão doce! — e riu.
Os outros irmãos se aproximaram e passaram a fazer o mesmo: passar o dedo no rosto do irmão e provar do glacê. O próprio Tommy começou a fazer isso também.
— Ei, isso é bom! — disse ele – Melhor que ter a garganta estraçalhada.
Até Doroteya riu. Depois disso, Tommy lavou o rosto e se comprometeu a ajudar Doroteya com a cozinha. Lina adorou a ideia e logo voltou para sala, a companhada dos outros. E os dois ficaram na cozinha. E Doroteya fez mais glacê e continuou a decorar o bolo e Tommy passou a lavar os pratos. Eles fizeram todo o serviço em silêncio. De vez em quando eles acabavam se encarando e sorriam um para o outro.
— Então, o que achou? — perguntou Doroteya depois que terminou de enfeitar o bolo. Além do glacê, ela usara frutas vermelhas: amoras, framboesas, morangos.
— Está lindo. — respondeu Tommy sinceramente, enxugando as mãos num pano de prato – Ele vai adorar.
— Será que eu deveria ter feito o glacê vermelho também? — se questionou.
— Não, assim está ótimo. — afirmou Tommy – E se eu conheço bem as crianças, ele vai se importar muito mais com o sabor que com a aparência.
Doroteya riu.
— É verdade. — e encarando Tommy, pediu novamente – Desculpe mesmo. Pelo negócio do glacê.
— Ah, deixa disso. — respondeu o homem já um pouco envergonhado – A única coisa ruim daquilo foi ficar com vontade de comer esse bolo e ter que esperar até amanhã.
— Então isso não será um problema! — exclamou animada.
Sob o olhar curioso de Tommy, Doroteya tirou uma fornada de cupcakes de cima do armário, tocou neles para ver se estavam frios e rapidamente decorou dois deles com muito glacê. Colocou morangos fatiados e uma amora em cima e salpicou um pouco de açúcar de confeiteiro. E entregou os dois cupcakes prontos para Tommy.
— Para você. — disse com um sorriso.
Tommy sentiu o rosto queimar de vergonha diante da atitude carinhosa de Doroteya. A última vez que uma mulher fora tão carinhosa com ele foi quando sua esposa lhe costurara luvas novas. Segurou o choro, afinal não queria parecer um molenga na frente da worgenin, e sorriu.
— Puxa, muito obrigado. — e pegou os cupcakes.
— Vou fazer para Lina e os outros também. — disse e se pôs a fazer.
Doroteya enfeitou mais três cupcakes e foi até a sala entregar. Tommy a acompanhou, abocanhando os dois que recebera ao mesmo tempo. Quando Lina recebeu seu cupcake, seu olhar foi até o rosto de Tommy, que estava novamente sujo de glacê e perguntou chateada:
— Por que ele ganhou dois?
— Ah Lina, ele precisa ganhar peso! — justificou Doroteya.
A comandante encarou o rosto sujo do irmão que exibia um sorriso malandro e cuja boca estava cheia de cupcake. Ele parecia estar se divertindo.
— Sei…. Peso né? Espero que você não esteja se aproveitando da bondade de Doro. — disse com o dedo em riste para o irmão.
Tommy engoliu o que estava na bosa e disse alegremente:
— Ora, eu jamais faria isso! — e deu mais uma abocanhada nos cupcakes.
— Tomara que tenha uma dor de barriga! — desejou Lina.
E os irmãos passaram a se provocar, se xingar e a tentar roubar os cupcakes uns dos outros e Doroteya apenas assistiu, com um sorriso no rosto. Definitivamente, Theo gostaria muito de morar ali. E depois, decidiu ir a cozinha fazer mais cupcakes, antes que seus anfitriões se matassem por causa deles.
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Quando a noite caiu em Luaprata, tudo estava pronto para o casamento de Luxuriah e Rommath. Kassyeh cuidara de todos os detalhes: o jantar, a decoração e até conseguira alguém para tocar piano durante a cerimônia. Tanto é que só fora cuidar de sua aparência apenas em um horário bem próximo ao jantar. No caso, escolher um vestido e tomar uma poção de cura para sumir com a mão de Vivithi de seu rosto.
Ash e Karen se arrumaram juntas e decidiram usar os mesmos vestidos do casamento de Kassyeh. Ash, claro, poderia ter escolhido outro dos vestidos de sua avó, mas Karen não tinha uma outra opção, pois seus outros vestidos de festa já tinham ficado pequeno. Então, para sua irmã não ser a única a repetir o vestido, a acompanhou.
Luxuriah ficou maravilhada quando percebeu que Vivithi lhe trouxe muito mais que um vestido. Ficou tão encantada com tanta beleza que até demorou a escolher um para a cerimônia. Por fim, escolheu um vermelho intenso.
— Você usou um vermelho no casamento de Kassyeh também. — observara Vivithi.
— Mas esse é mais escuro. — respondera – E tem mais brilho que o outro.
Por fim, logo estava sendo arrumada para a cerimônia. Nunca pensara que chegaria o dia em que se casaria com Rommath. Na verdade, nunca pensou em que estaria grávida também. O mundo realmente dava voltas.
— Eu não fiz o amuleto. — disse de repente para Vivithi – Eu não fiz o sol. — e sentiu um aperto no estômago.
— Não se preocupe. — respondeu Vivithi. A elfa estava usando um vestido mais comportado que no casamento de Kassyeh. Provavelmente porque não dera tempo de encomendar nenhum – Kass fez para você.
Luxuriah ficou perplexa.
— A Kass fez? Mas, pela tradição eu-
— Você não está casando por amor, Lux. — respondeu Vivithi seriamente – E além do mais, com a falta de tempo hoje em dia, muitas noivas encomendam os seus.
Luxuriah encarou a amiga por alguns momentos e suspirou.
— Você tem razão. — admitiu – E eu ainda não te agradeci por ter conversado com a Kassyeh. Quer dizer, nem sei se foi uma conversa. Aquela mão na cara dela me incomodou.
— Ah, eu apenas a segurei para ela não lançar nenhum feitiço. — respondeu a patrulheira calmamente – Você sabe que se tivesse sido um soco, sua irmã estaria sem dentes.
— E você também. — retrucou a outra olhando seriamente para Vivithi. As duas se encararam e logo voltaram a rir – Sério, muito obrigada.
— Tá, tá. — disse Vivithi dando de ombros – Vá terminar sua arrumação.
No momento em que a noiva se sentou em uma cadeira e estava pronta para começar a ser maquiada, houve uma batida na porta. Era uma serva. Ela parecia confusa.
— Sim? — perguntou Luxuriah.
— Alteza… Tem um tauren lá fora querendo falar com a senhora e-
O estômago de Luxuriah revirou e ela sentiu a vista escurecer. Segurou com força na cadeira e Vivithi correu até ela. Talvez tenha ficado pálida, ou talvez simplesmente tenha desmaiado por um momento e não dera conta. Não sabia. Tanta coisa acontecera dentro dela que era difícil definir.
— Eu não acredito que ele teve essa coragem! — gritou Vivithi.
O coração de Luxuriah tinha disparado anormalmente e ela estava respirando com dificuldades. Será? Será que Huaru estava ali fora? Será que, depois de tudo, ele voltara? Será? E porque? Por que agora quando ela estava decidida a esquecê-lo? Por que agora, quando as coisas estavam entrando no eixo? Ele achava que podia voltar como se nada tivesse acontecido? Como se simplesmente pudesse ocupar seu lugar de novo? Como se não a tivesse despedaçado totalmente? Será que ele não entendia que agora não havia mais lugar para eles dois naquela existência? Tudo isso passava dentro da cabeça de Luxuriah, que já estava em prantos.
— Mande o Huaru ir embora! — gritou Vivithi – Não tem mais lugar para ele aqui!
A serva ficou vermelha e apertou as mãos.
— O nome dele é Mhuu. — murmurou – Ele disse que o nome dele era Mhuu.
A tontura de Luxuriah começou a sumir quando ela ouviu o nome. Mhuu. Não era Huaru. Uma mistura de decepção e alívio tomou conta de seu corpo.
— Sua idiota!
Por um momento Luxuriah achava que a elfa estava falando com ela, mas Vivithi se dirigia à serva.
— Por que você não disse logo o nome dele? — gritava enquanto a moça se encolhia – Viu o que causou à princesa?!
— Eu… Eu… — gaguejava a moça.
— Deixe-a Vivithi. — falou Luxuriah já recuperando sua voz – Ela não sabia que eu ia reagir assim. Eu sequer dei tempo de ela terminar a frase.
Na verdade, nem Luxuriah sabia que reagiria daquela forma. Só mostrava que, por mais que estivesse se casando com Rommath, seu coração ainda pertencia àquele tauren estúpido. Mas não duraria muito. Luxuriah iria esquecê-lo. Era só uma questão de tempo.
— Eu vou vê-lo. — disse se levantando – Volto já.
— Lux, tem certeza? — perguntou Vivithi preocupada – Quer que eu vá com você?
— Não. Não é necessário. — ela respirou fundo – Não demorarei. — E saiu.
Luxuriah teve o cuidado de não deixar que ninguém a visse sair da torre, principalmente Rommath. Sabia que ele estava se aprontando junto com Kayliel ali também. Não queria que ele soubesse de sua reação ao pensar que seria Huaru ali. Se pudesse, não queria nem que ele soubesse que Mhuu estivera ali. Mas essa parte sabia que seria difícil. Alguém contaria a ele. Decidiu que ela mesmo faria depois do casamento.
Seu estômago apertou. Se fosse Huaru ali, ainda haveria casamento? Chutou esse pensamento para o fundo de sua mente e continuou seu caminho.
Mhuu estava esperando-a do lado de fora da torre. Ele estava sentado em um banco num canto afastado, e se não fosse um tauren tão grande, teria passado despercebido. O xamã se levantou no momento em que a viu, e pela sua expressão, Luxuriah soube que ele não estava ali em nome de seu irmão.
— Lux… — murmurou ele – Você está tão linda.
— Obrigada Mhuu. — agradeceu. — Você parece muito bem também.
— Mas não estou. — respondeu o tauren, surpreendendo-a – Estou mal, muito mal.
A elfa apertou os lábios antes de perguntar:
— E porque está tão mal? Foi por isso que veio aqui? Há algo que eu possa fazer por você?
Para sua surpresa, o tauren começou a chorar. Lágrimas escorreram de sua face e ele se ajoelhou em sua frente. Luxuriah ficou tão surpresa que deu um passo para trás.
— Eu quero te pedir perdão. — disse entre as lágrimas – Perdão, por tudo que meu irmão fez!
Luxuriah ficou sem reação. Em nenhum momento esperara que Mhuu fosse aparecer ali por causa do que seu irmão fizera. Na verdade, já era surpreendente que ele soubesse o que acontecera. Na verdade, ela já deveria esperar por isso, não é? Ela aparecera em público com Huaru, os dois dividiram o quarto em vários lugares, eram inseparáveis. Até o momento em que ele a abandonara. Só que ela ficara tão ferida, que esquecera que aquele rompimento afetaria muito mais gente que sua família. Tinha a guilda. Tinha Mhuu. Tinha os pais de Huaru. E aquilo a fez chorar também.
— Você não precisa pedir perdão. — disse, por fim, em meio às lágrimas – Você não fez nada!
— Fiz. — garantiu o tauren ainda de joelhos e com a cabeça abaixada – Eu apresentei vocês dois!
— Mas eu me envolvi com ele porque quis. E ele me abandonou porque quis também. Você não tem culpa em nada. — garantiu limpando as lágrimas dos olhos.
Mhuu finalmente a encarou.
— Ele me disse… — murmurou envergonhado – Disse que você estava grávida. Que já estava quando se conheceram, mas que só descobrira agora. E que ele não conseguiria lidar com isso… — ele abanou a cabeça – Jamais imaginei que teria um covarde por irmão!
— Ele não é um covarde. — Luxuriah se surpreendeu ao defender Huaru – É apenas jovem demais para lidar com isso.
— Mas eu não acredito que ele a abandonou quando você mais precisava dele! — exclamou o tauren revoltado – E olhe, ele apanhou viu! Não de mim, ele me acertou com o martelo e eu desmaiei, mas a mamãe deu uma surra nele!
— Deve ter sido porque ele bateu em você, não por mim.
— Pelo contrário, ela ficou muito magoada com ele. Papai também. Papai não fala com ele desde que ele chegou lá em casa com a notícia.
Luxuriah se sentiu mal por aqui.
— Não, não quero que sua família brigue por minha causa! — exclamou revoltada – E se levante, por favor, você está me deixando constrangida!
Mhuu se levantou e os dois se encararam. Luxuriah estava ficando com as pernas bambas depois de tantas emoções e sugeriu a Mhuu que sentassem nos bancos. Foi o que fizeram. Depois que estavam acomodados, Luxuriah começou:
— Diga a seus pais que agradeço o apreço que ambos tem por mim, mas não devem tratar Huaru mal por isso. Isso não fará eu me sentir bem, pelo contrário. Fará com que eu me sinta muito mal.
— Mas ele precisa ser punido por isso! — protestou o xamã.
— Ele já foi. Ele me perdeu. Perdeu tudo o que tínhamos. Ele jamais terá algo assim de novo com outra pessoa.
Foi uma afirmação tão convicta que Luxuriah se surpreendeu a si mesma ao fazê-la. Seria verdade? Ela acreditaria mesmo naquilo? No momento, ela precisava acreditar. Mhuu precisava acreditar. A última coisa que queria era mais conflito por causa dela.
Mhuu a olhou por um tempo, admirado, e, por fim, falou:
— Ainda é pouco. Vou expulsá-lo da guilda.
— Mhuu! — exclamou Luxuriah, mas se calou quando ele ergueu a mão pedindo para continuar – Fale.
— Você é uma membro-fundadora. Você está conosco há mais tempo. Se você sair pro causa dele, e se eu te conheço bem você deve ter pensando nisso, a guilda toda vai persegui-lo e fazer churrasco dele. — e deu de ombros – Além do mais, agora ele vive enfurnado em Orgrimmar, andando com pessoas de outras guildas, então acho que ele nem vai sentir isso. — e dando uma pausa, acrescentou – Acho que ele não saiu ainda na guilda na esperança de te ver de novo.
O coração de Luxuriah bateu irregularmente.
— Ele não precisa me ver de novo. — disse com a voz firme – Ele tem que levar a vida dele. Eu estou fazendo isso. — e o encarou – Casarei com Rommath hoje.
Mhuu arregalou os olhos e depois passou o olhar por seu vestido. Agora entendia porque ela estava tão arrumada.
— Casar? — perguntou perplexo.
Ela ficou envergonhada por um momento.
— Desculpe por não ter chamado toda a guilda, mas foi uma decisão de última hora. E além do mais, não estou casando por amor, ou algo assim.
— Desculpe, Lux, mas nada do que você está em dizendo faz sentido. — e a encarou – Rommath é o pai do bebê?
Então, Huaru não tinha dito a Mhuu quem era o pai. Isso era bom. O que ia fazer agora era ruim, ela ia mentir para um amigo de longa data, mas precisava fazê-lo. Era uma forma de legitimar o casamento que aconteceria em pouco tempo.
— Sim, Rommath é o pai do bebê. — confirmou – No início pensei que pudesse ser Grey. — disse para o caso de ele conversar com Huaru depois – Mas depois refiz minhas contas e percebi que na verdade, o pai era Rommath. Ele é o Grão-Magíster de Luaprata. E, bem, ele me ama. — Luxuriah deu uma risada nervosa. Odiava mentir. – Eu tive essa coisa com Rommath, mas não estava apaixonada, sabe? Mas quando descobri a paternidade da criança e conversei com ele, decidimos casar. Para o bem da criança. E não preciso dizer o quanto ele ficou feliz, não é?
Depois de ouvir aquilo, Mhuu pareceu ficar mais aliviado. Luxuriah sabia que era por se sentir melhor ao saber que ela não ficaria desamparada por causa do irmão dele. E a mentira que contara passara a pesar ainda mais. Pensou em desmentir tudo, falar a verdade, mas então o tauren abriu um sorriso.
— Então… Apesar do meu irmão, nem tudo está perdido. — falou.
— Digamos que é isso mesmo. — confirmou ela.
Mhuu suspirou.
— Claro que eu preferia que você estivesse casando com alguém que amasse. — confessou envergonhado – Na verdade, eu preferia que seu casamento estivesse acontecendo no Penhasco do Trovão, com meu irmão. Eu… Realmente gosto de você, Lux. E estava muito feliz de ter você na minha família.
As lágrimas brilharam novamente nos olhos do tauren e nos da caçadora também.
— Eu também Mhuu. — confessou – Mas o destino tinha planos diferentes.
Ele concordou com a cabeça.
— Se é verdade que esse Rommath te ama, espero que você possa aprender a amá-lo também. E quando isso acontecer, faça um casamento de verdade e convide a todos nós. Vamos adorar celebrar com você.
Ela sorriu.
— Você tem minha palavra.
Então, Mhuu se levantou. Luxuriah se levantou também.
— Eu… — começou o xamã envergonhado – Eu posso contar o que você me disse para minha família?
Luxuriah entendeu que ele se referia especificamente a Huaru.
— Pode, Mhuu. Conte a todos. Conte a guilda também. Conte a quem você quiser. Todos saberão, uma hora ou outra. E não fique triste por mim. Eu ficarei bem.
Mhuu sorriu, mas era um sorriso triste. Ele se adiantou e a abraçou. Luxuriah retribuiu o abraço.
— Até mais, amiga. — disse após soltá-la.
— Até mais, amigo. — respondeu – E quando minha filha nascer, darei uma festa para todos conhecê-la.
— Ahh, será uma menina? — perguntou curioso.
— Tenho certeza que sim.
E foi assim que se despediram. E foi a última notícia que Luxuriah teve de Huaru pelos dois anos que se seguiram. Mas na época, ela não sabia. Na época, ela desejava jamais saber dele de novo. Por isso, voltou ao seu quarto, lavou o rosto e foi terminar de se preparar.
Afinal, seu noivo a esperava.
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— A Kass caprichou mesmo, hein?
Todos já estavam no salão quando Kayliel fez a pergunta a Ash. A moça estava ajudando-o a montar o altar e, àquela hora, o sacerdote já percebera os olhares raivosos que Lor’themar o enviava. Falara mais cedo com o irmão, que se limitara a dizer que era ciúmes e não entrara em detalhes. Só agora, vendo Ash linda em seu vestido, com o cabelo preso e o ajudando a ajustar sua roupa cerimonial, foi que entendera o que o irmão quisera dizer.
— Acho que você já pode sentar. — comentou meio sem graça – Posso terminar de ajeitar sozinho…
Ash franziu o cenho.
— O que foi? Não quer mais minha ajuda? — falou fingindo estar ofendida.
— Não é isso. — respondeu rapidamente – É que… — ele olhou rapidamente para Lor’themar – Seu namorado pode não gostar.
— Meu namorado? — perguntou ela seguindo o olhar dele. Lor’themar, quando a viu olhando para ele, desviou a vista – Ele não é meu namorado. — falou com a voz um pouco mais dura.
— Não? — Kayliel estava surpreso – Mas ele vem me matando lentamente com o olhar desde que você está aqui!
A jovem suspirou.
— Ele bem que poderia ser, mas não coopera…
Kayliel a fitou, confuso.
— Como assim?
Ash terminou de ajeitar a roupa dele e lhe entregou seu livro de cerimônias.
— Eu gosto dele. — confessou – E dizem que ele gosta de mim, mas se sente velho demais para qualquer coisa.
O sacerdote riu alto. Lor’themar, mesmo sem saber o que os dois conversavam tão animadamente, voltou a encará-lo com fúria.
— Sério? Meu irmão é muito mais velho que a Lux, e veja, estão casando hoje.
— Pois é! — concordou Ash – Ele quer uma elfa mais velha é? Vá atrás de Lady Liadrin! Não, pera.. Ele é velho demais para ela também!
Os dois caíram na risada.
— Meus caros. — a voz de Rommath chegou até eles – Mais um pouco e vocês farão o lorde regente explodir.
Rommath não estava com suas vestes habituais. Vestia uma roupa elegante, totalmente preta com fios prateados a adornando. Até Ash sentiu-se um pouco sem fôlego diante da beleza do Grão-Magíster. Nas mãos, ele trazia um pequeno cordão com uma lua pendurada. Bem, Ash pensou, aquele cordão fazia o que Tewdric dera a Kassyeh ainda mais grotesco.
— Você está bem elegante, meu irmão. — comentou Kayliel.
— Não, Kayliel. Estou lindo. — disse seriamente.
— Eu não vou admitir isso. — retrucou o mais novo.
— Não precisa. Eu sei. — afirmou convicto.
Ash riu com os dois. Ia ser bom tê-los na família. E talvez, aquele fosse o momento de dizer aquilo à Rommath.
— Rommath. — começou ela atraindo a atenção do magíster para si – Eu gostaria de lhe dizer que você é bem-vindo à nossa família. Vocês dois são. Espero que, no final de tudo, você e a Lux possam se amar de verdade e ser felizes por milênios.
A jovem caçadora se surpreendeu ao ver o grão-magister ficar enrubescido após sua fala. Kayliel aparentemente sentira o mesmo, pois agora encarava o irmão com uma expressão surpresa. Rommath então pigarreou antes de falar:
— Fico feliz por ouvir isso, cara Ashrial.
— Ash. — corrigiu ela – Agora, você será a coisa mais próxima de um irmão que terei. Pode me chamar de Ash.
— E o orc? — perguntou surpreso.
— Tewdric é como um pai. — e sorriu mais – Agora a família está completa né?
Todos os três riram.
— Um pai orc. — começou Kayliel – Um bebê a caminho e um irmão hein?
— Dois irmãos. — corrigiu Ash mostrando dois dedos – Você também está ligado a nós, Kayliel. Espero não se importar em ser um irmão também.
Foi a vez do sacerdote ficar sem jeito e enrubescer. Rommath riu e colocou a mão no ombro do irmão.
— Eu não te disse que as elfas dessa família são devastadoras, Kayliel? — e riu mais – Uma pena que você goste daquele velho ranzinza, Ash, porque você e meu irmão aqui formariam um belo par. — e bateu de leve no ombro do irmão.
Ash também ficou vermelha. Os três riram.
— É uma pena. Mas sim, eu gosto daquele velho ranzinza. — e franzindo o cenho, quis saber – Quem te contou?
— Eu descobri sozinho. — respondeu com simplicidade – Depois de uma certa idade, a percepção para as coisas fica apurada.
Após dizer isso, ele encarou o irmão, que ficou desconcertado. Ash se perguntou o que aquilo significava. E então lembrou dos rumores, que diziam que Kayliel já tivera um caso com uma humana. Será que o irmão dele estava o repreendendo com o olhar? Imaginava que descobriria isso em algum momento. Afinal, eles dois estariam mais perto agora.
Vivithi apareceu naquele instante e falou algo com Kassyeh. A maga estava fazendo os últimos ajustes e foi até eles rapidamente.
— Lux já vai vir. — avisou – Ash, vá sentar. Rommath, você fica aqui. Kayliel, você ali. — e saiu rapidamente, indo na direção do piano.
— Até mais, queridos irmãos. — disse divertida indo sentar.
Naquela sala, estavam poucas pessoas. Aethas, Tewdric e as mascotes de Kassyeh, Lor’themar, Halduron, Lady Liadrin, Salandria, Snetto e os servos da torre. Fora uma surpresa que Luxuriah tivesse chamado a matriarca dos Cavaleiros Sangrentos, mas talvez ela não quisesse que no final, a sala que Kassyeh preparou ficasse tão vazia.
Logo depois de falar com Kassyeh, Vivithi também sentou-se. Para a surpresa de muitos ali, ela resolvera sentar ao lado de Aethas. O mago ficou tenso, mas nada falou. Assim, restou para Ash sentar-se ao lado de Lor’themar. E ela tinha que lembrar do conselho de Luxuriah: agir normalmente. Por isso, lhe dirigiu um sorriso gentil antes de acomodar-se. Lor’themar pareceu surpreso, mas nada falou.
Quando o piano começou a tocar, Karen entrou primeiro. Ela estava sorridente e trazia Galinha em uma cesta cheia de pétalas de rosa. Ela e o pequeno animal jogavam as pétalas enquanto passavam, e a menina fez questão de jogar um punhado bem em cima de Ash, dar uma risadinha e acelerar o passo até ficar ao lado de Kayliel. Ash, pega de surpresa, sentiu a boca de encher de pétalas e acabou cuspindo todas em cima de Lor’themar e ficou praguejando contra a irmã. O lorde regente se limitou a limpar-se.
Então Luxuriah entrou. Seu vestido vermelho escuro cor de vinho destacava os vários diamantes que lhe adornavam o busto. Os cabelos estavam presos e ela usava a mesma tiara que dera a Kassyeh para usar em sua festa em Orgrimmar. Ela usava belas sandálias cor de prata que apareciam cada vez que ela dava um passo na direção do altar improvisado e em suas mãos, um buquê de botões-da-paz nos quais estavam enrolados o sol trançado pela irmã. Rommath teve vontade de chorar quando a viu vindo em sua direção. Por vários motivos. Por casar com a elfa que amava, por saber que ela não correspondia o mesmo sentimento, ou por já ver discretamente a barriga apontando dentro do vestido. Não importava o que houvesse, ele seria pai.
As passadas de Luxuriah eram acompanhadas pelo suave piano e pelo canto singelo de Kassyeh. A noiva ouviu a voz de sua irmã cantando uma de suas músicas favoritas e teve que se segurar para não chorar. Já chorara muito naquele dia. Não, estava farta de lágrimas. Queria sorrir agora. Por isso, quando chegou até o lado de Rommath, sorriu.
A cerimônia foi rápida. Kayliel enxugou seu discurso e falou mais em responsabilidades que em amor. Trocaram os colares e Luxuriah se surpreendeu com a beleza e delicadeza do dela. Ficou um pouco triste por Kassyeh, que tinha que usar um horroroso no pescoço. Depois disso, se beijaram. Não foi um beijo longo, ou apaixonado, foi um rápido selinho, para reafirmar seus votos. Mas ele foi coberto por palmas, de todos os presentes e de pétalas de rosa jogadas por Karen.
E então, foram para o jantar.
Kassyeh, como sempre, havia se esmerado. Todos os pratos preferidos de Luxuriah. E enquanto comiam, discutiam o futuro.
— Já pensou, Rommath, se Lux não tivesse renegado o trono, você seria rei. — disse Lor’themar.
— Ainda bem que ela foi sensata. — respondeu o elfo – Tendo nós dois como reis, esse povo não duraria muito. — e sua fala foi seguida por risadas.
— Que bom que você mudou de opinião, Kass. — disse Aethas, sentado ao lado da sobrinha – Se não fosse você, não teríamos esse jantar tão fabuloso.
— Graças a Vivithi. — disse a maga sorrindo envergonhada – Ela me fez ver que eu estava sendo infantil.
— Também, depois daquela mãozona na sua cara, se você não tivesse visto, não veria nunca! — gracejou Karen.
— Mãozona? Na cara? — perguntou Tewdric que tinha perdido a primeira parte da história tirando as mascotes de Kassyeh da mesa – Quem deu com uma mãozona na cara de minha Kass? — quis saber com raiva.
— Fui eu, porque? — perguntou Vivithi com a expressão de poucos amigos.
Tewdric virou-se para Kassyeh.
— Viu Kassyeh, amigos de verdade são assim, saem dando mãozona na cara da gente e a gente tem que aguentar.
Mais gargalhadas se seguiram.
— Está satisfeita? — perguntou Rommath a Luxuriah com a voz mais baixa. Ao redor da mesa, as conversas continuavam animadas.
— Mais que satisfeita. Estou feliz. — respondeu com sinceridade. — Estou vendo minha família reunida, amigos importantes aqui. — ela suspirou – Sinto falta da guilda, mas prometi a Mhuu que faria uma festa no nascimento de Tinuviel para eles.
— Mhuu? — estranhou Rommath – O líder de sua guilda?
— Ele mesmo. Ele veio aqui hoje.
— Ele não é irmão de-
— Sim. — respondeu a elfa sem dar abertura para ele falar o nome de Huaru – Ele mesmo.
Rommath a encarou por um momento, mas nada falou. A elfa então decidiu abrir o jogo.
— Ele veio me pedir perdão, pelas coisas que o irmão dele fez e disse que tinha expulsado-o da guilda. — ela deu uma pausa antes de continuar – Aparentemente, isso não repercutiu só aqui.
— E você? O que disse? — ele mantinha a voz firme, mas Luxuriah percebeu que ele estava preocupado.
— Que não havia nada a perdoar. Que as coisas estavam melhores do jeito que estavam. — e então ela pegou na mão dele – Que o destino quis que as coisas fossem de um jeito diferente. Falei também que estava casando hoje e ele me desejou boa sorte. Ficou feliz por mim.
Rommath apertou sua mão.
— Ele parece ser um bom amigo para você. — comentou o elfo.
— E é. Você vai conhecê-lo.
O jantar transcorreu calmo, sem incidentes. A sobremesa foi um belo suspiro com morangos, que encantou a todos. Luxuriah só comeu depois que disseram que eram morangos tirados do jardim de Rommath. Depois, voltaram todos para o salão, onde o altar tinha sido tirado e as mesas reorganizadas. Haviam vinho e licor para todos, chocolate quente para as crianças, e narguilé para quem quisesse. Depois de um dia tão cheio de emoções, Luxuriah decidiu se recolher logo. Se despediu das irmãs, dando um beijo mais demorado em Kassyeh e subiu com Rommath para seus aposentos.
O quarto também tinha sido arrumado. Haviam velas e flores por todo ele. Luxuriah riu. Kassyeh era realmente de extremos.
— Vou me trocar. — ela disse apontando para o banheiro.
— Esperarei aqui. — disse ele.
Enquanto Luxuriah trocava de roupa, se perguntou o que Rommath esperava dela naquela noite. Será que esperava que eles já… Bem, oficializassem o casamento? Bem, ela não se importaria. Mas o dia tinha sido uma gangorra emocional tão grande, que tudo que queria fazer era deitar e dormir. Por isso, tirou cuidadosamente a maquiagem, soltou o cabelo, pôs o pijama e voltou para o quarto. E ficou sem fôlego.
Rommath também tinha se aprontado para dormir. Ele soltara o cabelo, que caiam liso por sobre seu peito nu. Ele estava apenas de calça de pijama. Seus pés estavam descalços e ele a esperava em pé do lado da cama. Luxuriah pensou que teria que achar energia não sabia onde para passar a mão naquele peito.
— Eu trouxe algo. — anunciou ele – Acho que você lembra. — e agitou um pequeno frasco.
Era uma essência para massagens. Ele usara certa vez quando a caçadora voltara de uma missão nas Terras Pestilentas Ocidentais. Estava tão exaurida naquele tempo que só a massagem de Rommath fez seus músculos voltarem a funcionar.
— Eu preciso de uma massagem? — perguntou divertida.
— Você já viu seus pés?
Luxuriah olhou para baixo. Seus pés estavam tão inchados que as tiras da sandália estavam marcadas em linhas roxas neles.
— É, acho que agora sei porque eles estavam latejando. — comentou.
Rommath riu.
— Venha. Deixe-me cuidar disso.
Luxuriah deitou-se na cama e Rommath sentou-se aos seus pés. Começou a massageá-los cuidadosamente e Luxuriah percebeu o quanto realmente precisava daquilo. Deixou-se levar pela sensação boa de ser confortada e mimada e fechou os olhos.
— Você teve um dia cheio. — comentou a voz de Rommath.
— Tive… — murmurou ela em resposta.
— Então relaxe.
Ela murmurou algo em resposta e continuou aproveitando a massagem. E logo em seguida, adormeceu.
Quando percebeu que os pés já estavam em um estado muito melhor que antes, Rommath cuidadosamente os pôs de lado. Sabia que ela dormiria. Tinha consciência de tudo que acontecera com ela durante o dia, e sabia o quanto aquilo a afetara. A ida do tauren chamado Mhuu fora preocupante, não porque ele temia que o casamento fosse cancelado, mas temia pelo que aquela visita causaria ao emocional já abalado de Luxuriah. Porém, ela parecia ter lidado bem com aquilo. Ele sorriu. Poucas pessoas seriam capazes de suportar tudo aquilo que aquela menina estava suportando. Por isso estava ali, ao lado dela. Iria ajudá-la a passar por tudo que viesse pela frente. Não a deixaria cair pelo meio do caminho. E pensando nisso, inclinou-se e a beijou suavemente na testa. Puxou a coberta delicadamente sobre seu corpo e a deixou dormindo, quieta e profundamente. E apesar de toda a sua vontade a abraçá-la, se resignou a deixá-la a vontade. Pegou um lençol e travesseiro extra e se acordou em um dos divãs imensos do quarto. E, ainda assim, dormiu com um enorme sorriso no rosto.
**************
Kassyeh se recostou na parede da varanda com uma taça de vinho pela metade. Tudo dera certo, no final das contas. Não que ela tivesse aceitado Rommath em sua família, com Ash orgulhosamente anunciara que fizera, mas ela estava disposta a fazer o melhor para a sua irmã. Luxuriah estava grávida. E se, para o bem dela, tivesse que fingir que gostava do Grão-Magíster, assim faria.
Todavia, ela analisara toda a situação e chegara a conclusão que só havia um culpado do que acontecera e um único destino para seu ódio: Huaru. Sim, ele fora o responsável por todas as coisas saírem do eixo. E que aquele tauren estúpido torcesse para não cruzar o seu caminho, pois, se fizesse, não prometia se controlar e deixá-lo sair vivo do encontro.
— Ah, ai está você! — Tewdric apareceu na varanda com um imenso sorriso. O coração de Kassyeh disparou. Era ótimo que ele ainda pudesse causar aquelas sensações boas.
— Cadê os meninos? — perguntou se referindo as suas mascotes.
— Deixei no quarto. Eles comeram tantas sobras que estão com a barriga enorme. — então ele gargalhou.
Kassyeh deu um pequeno sorriso e chamou-o.
— Venha cá.
Tewdric foi. Ela o abraçou e beijou gentilmente seus lábios. Depois, o apertou com mais força, como se quisesse marcar a pele dele com seu corpo.
— Desculpe por hoje mais cedo. — pediu a elfa tristemente – Eu estava…
— Doida. — respondeu ele rindo.
Kassyeh riu também.
— É, acho que doida é a melhor palavra para definir o meu estado.
Ele a encarou, com aqueles enormes olhos azuis, que fazia todo o corpo de Kassyeh tremer sem que o orc precisasse fazer mais nada.
— Eu sei o quanto a Lulu é importante para você. — disse ele com sua voz rouca – E sei também que a raiva que você estava sentindo não era de mim, nem dela, nem desse elfo altão aí. Seu ódio é contra outra pessoa.
Kassyeh suspirou. Como sempre, Tewdric ia direto ao ponto, sem rodeios.
— É verdade… — afirmou colocando a cabeça no ombro dele – Então… Você me perdoa?
— Não há o que perdoar. — respondeu o guerreiro – Você não fez nada que me magoasse.
Ela afastou a cabeça do ombro dele e o encarou, assombrada.
— Tewdric, eu te tranquei dentro de um sarcófago de gelo!
— Ah!! — ele deu de ombros – Estava calor mesmo, então ajudou a refrescar.
— Eu te ataquei com uma lança de gelo! — continuou ela seriamente.
— A armadura protegeu, só fez um furinho na roupa, então tá tudo bem! — respondeu animadamente.
A elfa continuava sem acreditar nele.
— Eu fiz três projeções minhas que lhe atacaram e lhe perseguiram! — esbravejou a maga incrédula.
O orc gargalhou.
— Quatro Kassyehs para mim! É um sonho sendo realizado! — e riu mais ainda.
Por fim, ela desistiu.
— Você é impossível, Tewdric! — exclamou.
A resposta dele foi um beijo demorado.
— A única coisa que quero saber. — disse ele com a voz rouca após o beijo – É se vamos tentar nosso bebê hoje.
Por que Kassyeh não estava surpresa com a pergunta? Ela riu antes de responder.
— Sim, sim, vamos tentar nosso bebê hoje… — respondeu maliciosamente – E como estou em dívida com você… Faremos do jeito que você quiser…
O orc deu um enorme sorriso e a pegou pela mão.
— Ótimo. Venha. — e sem titubear, tirou a raça da mão dela, pôs em cima de uma cadeira e saiu puxando-a em direção do bosque. Ela não entendeu muito bem, até ele a encostar numa árvore e começar a beijá-la.
— Aqui?! — perguntou estarrecida após o término do beijo.
— Aqui. — disse ele se ajoelhando de frente a ela e levantando seu vestido. Ele parecia bem animado com seus planos
— Mas aqui qualquer um pode passar nos ver! — argumentou a elfa tentando impedi-lo de tirar sua calcinha.
Tewdric, como sempre, conseguiu ser mais ágil que ela e logo estava com a calcinha na mão. Ele a cheirou longamente e a pôs no bolso.
— Eu não me importo. — respondeu calmamente.
— Mas eu me importo! — protestou a elfa.
O orc a olhou, com aqueles olhos azuis imensos e meio magoados.
— Você disse do jeito que eu quisesse. — disse fazendo um muxoxo como uma criança.
Toda a resistência de Kassyeh caiu.
— Ok, tudo bem. — concordou a contragosto – Mas vamos ser rápidos.
O guerreiro apenas sorriu e Kassyeh soube que não seria rápido.
***************************
— Onde está Kassyeh e Tewdric? — perguntou Ash a Vivithi.
Quase todos os convidados já tinha ido embora. Estavam apenas Aethas, Lor’themar, Kayliel, ela, Vivithi e Karen na sala. Salandria e Karen se divertiram muito e agora a futura rainha estava deitada com a cabeça no colo da irmã, dormindo profundamente. A jovem caçadora esperava que seu cunhado orc aparecesse logo para ajudá-la a levar a menina para o quarto. Poderia não parecer, mas Karen era bem pesada de se transportar.
— Acho que eles devem estar fazendo as pazes. — falou Vivithi calmamente – O que no caso deles, significa que estão trepando loucamente em algum lugar.
Ash ficou vermelha, mas acabou rindo junto com os outros.
— E agora, como vou levar Karen para o quarto? — perguntou Ash – Ela pesa muito para uma menina tão pequena…
— Eu posso te ajudar. — respondeu Kayliel – Não sou muito forte, mas-
— Não.
A voz potente de Lor’themar cortou a fala do sacerdote, que ficou totalmente sem ação. Todos os outros encararam o lorde regente, meio constrangidos.
— A rainha é minha responsabilidade. — disse ele se levantando e indo até onde Karen dormia no colo de Ash.
Kayliel deu de ombros e ficou em seu lugar. Ash se inclinou para trás, para que o lorde regente pudesse pegar a menina adormecida em seus braços. Karen balbuciou ‘Galinha’, quanto era levantada, e Ash pegou a cesta que estava ao seu lado, onde o pequeno falcoztruz dormia, e decidiu acompanhar a irmã adormecida. Depois que eles saíram, Kayliel falou:
— Ele devia se decidir logo.
Vivithi riu alto.
— Concordo.
Aethas ficou sem entender.
Lá em cima, Ash acompanhava Lor’themar um passo atrás, com um sorriso indulgente no rosto. Bem, se aquilo não fosse ciúme, não sabia que nome dar. Então, apenas continuou o caminho, tendo cuidado para não acordar a ave adormecida.
Logo chegaram ao quarto de Karen. Ash abriu a porta e Lor’themar entrou com a menina no colo. A elfa então ajeitou a cama para a irmã, e tirou os sapatos dela quando o lorde regente a deitou lá. Ash decidiu também tirar Galinha da cesta e pô-lo ao lado da irmã antes de cobri-los. E conseguiu fazer tudo isso sem acordar nenhum dos dois. Por fim, saíram lentamente do quarto e fecharam a porta com cuidado. Já no corredor, se encararam. Lor’themar parecia sem jeito. Ash, tentava não mostrar seu nervosismo.
— Foi um dia agitado. — comentou a elfa – Acho que ela não vai acordar nem que um dragão passasse por aqui.
— Possivelmente não. — concordou o lorde regente.
Se encararam um tempo, e Ash pode ouvir a voz de sua irmã em sua cabeça: “aja naturalmente”.
— Então. — ela começou – Quando voltamos a treinar?
Lor’themar a encarou, atônito. Se perguntava o que aquele comportamento de Ash queria dizer. Até o dia anterior ela sequer o encarava sem demostrar toda a sua raiva e agora, agia naturalmente. Nem apaixonada. Nem com raiva. Normal. Como se nada nunca tivesse acontecido entre eles dois. Seria… Seria Kayliel? Estariam os dois já envolvidos? Qual seria a outra explicação para ela não demonstrar mais nenhum interesse nele?
— É isso que quer, alteza? — ele a chamara de seu título propositalmente, para ver a sua reação.
Ash limitou-se a sorrir.
— Claro que quero! — respondeu animadamente — A Lux vai ficar fora de combate por um bom tempo. Se a Kass engravidar, serão duas a menos no campo de batalha. Nós estamos aqui, mas nosso mundo lá fora treme. Quero ser útil. — e então perguntou novamente – Quando voltaremos a treinar?
Desnorteado, Lor’themar percebeu que não sabia o que fazer. Já havia se proposto a treiná-la e não havia motivos de recusar. Qual seria a explicação? Preferia ver você apaixonada por mim do que por outro? Aquilo não condizia com ele mesmo.
— Amanhã. — respondeu ele por fim. — No mesmo local.
Ash sorriu em resposta. E antes de ir para seu quarto, a jovem elfa teve seu momento de atrevimento. Ela se aproximou de Lor’themar, se esticou e deu um singelo beijo no canto de sua boca. O elfo ficou sem reação.
— Até amanhã. — disse ela indo embora e acenando para ela.
Lor’themar ficou um bom tempo parado, sem reação, tentando entender o que acontecera.
*********************
Não demorou para que Kayliel percebesse que estava sobrando na sala. Era bem perceptível os olhares lançados por Aethas a Vivithi enquanto a elfa fumava um narguilé, encostada em almofadas. O sacerdote, então decidiu que era hora de ir embora.
— Está tarde. — falou tentando parecer a vontade – Preciso ir. — e voltando-se para Aethas, disse – Boa viagem, arquimago. — e hesitando, comentou tentando parecer a vontade – Talvez eu apareça por Dalaran esses dias.
Aethas o encarou e franziu o cenho.
— Achei que você fosse cuidar de Luxuriah. — questionou.
— E vou. — respondeu rapidamente – Só irei se ela estiver bem. Você sabe, ver uns amigos. — completou sem jeito.
— Se aparecer por lá, me faça uma visita. — pediu o arquimago.
O sacerdote assentiu.
— Então, até mais Aethas. — e voltando-se para a elfa – Até amanhã, Vivithi. — e dizendo isso, saiu da sala.
Por um momento, a elfa continuou fumando seu narguilé, desfrutando o silencioso olhar de Aethas para seu corpo, até que ela afirmou, convicta:
— Ele está mentindo.
O arquimago ficou confuso.
— Quem? — quis saber.
— Kayliel. — disse o encarando – Ele não vai a Dalaran ver amigos, muito menos você. Ele vai atrás daquela humana. Tentar vê-la.
— Humana… — Aethas pensou um pouco – Refere-se a Arshe Fordragon?
— Essa mesma.
A surpresa era evidente no rosto de Aethas. Claro, ele fora um dos que primeiro ouvira os boatos sobre aqueles dois, mas não dera ouvidos. Afinal, eles eram uma facção neutra. Conviver com humanos às vezes acabava levando a isso. Só que aquela moça fora promovida a princesa; definitivamente ela não tinha como ficar neutra, nem se quisesse. E Kayliel havia abandonado os Fendessol desde então. Ouvir falar que ele ainda a queria o deixava confuso.
— Ele está louco se ainda pensa que tem alguma esperança com Arshe Fordragon. — falou Aethas – Ela não é apenas uma humana da Aliança. Ela agora é uma princesa. Recebeu o título após a morte do pai. Se algo acontecer a Varian e Anduin Wrynn, ela assumirá o trono.
Vivithi o encarou, sem acreditar no que ouvira.
— Isso é verdade? — ela se endireitou – Eu não sabia.
— Poucas pessoas fora da Aliança ou do Kirin Tor sabem disso. Inclusive, muitos foram contra essa decisão do rei Wrynn. Ou seja, mesmo que Kayliel tenha realmente a intenção de revê-la, duvido que ele consiga.
A fumaça do narguilé continuava saindo e Vivithi não estava mais interessada nele. Colocou a piteira de volta na base do objeto e voltou-se para questionar Aethas.
— Por que você não disse nada sobre isso antes? — quis saber.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Eu sou neutro. — respondeu serenamente – Não tenho a intenção de compartilhar informações entre as facções.
Ela se sentou ereta, sem tirar os olhos de cima dele.
— Sua sobrinha vai se tornar a nova rainha de Luaprata. Você conseguirá permanecer neutro depois disso?
Para a surpresa da elfa, ele deu um pequeno sorriso.
— Você está parecendo a Arquimaga Modera, com todos esses questionamentos.
Vivithi torceu o nariz.
— Está me comparando a uma humana?! — perguntou indignada.
— Claro que não. — retrucou bem-humorado – Estou dizendo que você está me fazendo as mesmas perguntas que me foram feitas em Dalaran. O que é bom, por sinal, porque amanhã provavelmente eu serei interrogado novamente da mesma forma que você está fazendo agora.
O verde dos olhos dela ficaram mais intensos.
— Por que? Por que você se subjuga a esses humanos estúpidos?
Aethas suspirou. Já ouvira aquela pergunta inúmeras vezes.
— O Kirin Tor é nosso aliado há mais de dois mil anos. Uma aliança muito mais antiga que as rixas entre as facções. Seria um erro jogar isso fora, principalmente se você levar em consideração o poder e conhecimento que aquela cidade possui.
— Para mim, isso é conversa fiada. — decretou Vivithi.
— Entendo. — foi o que Aethas se limitou a dizer.
Ficaram se encarando por um tempo e então ela se levantou. Depois de tudo que pensara durante aquele dia, estava na hora de parar de pensar e fazer. Caminhou com passos leves como de uma gata até ele e então estendeu a mão. Surpreso com o gesto, ele aceitou o oferecimento. A mão dela era o contraste da dele: enquanto ele tinha a mão lisa com uma pele fina e sensível, feitas apenas para virar páginas de grimórios, a dela era calosa, principalmente os dedos, que refletiam bem a rigidez militar na qual ela fora criada. Pertenciam a mundos diferentes, apesar de serem do mesmo povo. E ainda assim, havia aquela atração irremediável que tão repentinamente os unia. Não houve nenhuma conversa enquanto o mago se levantava e deixava Vivithi conduzi-lo até seu quarto.
Aethas sabia o que viria a seguir: uma despedida.
Mas a elfa não lhe deu tempo para palavras. Após a porta trancada, livrou-se rapidamente do vestido e deitou-se na cama, esperando-o como uma senhora espera que o escravo vá saciá-la. E era assim que ele se sentia no momento: um escravo dos desejos daquela impetuosa elfa, que agora o observava com os olhos brilhando intensamente à penumbra do quarto.
Daquela vez, Aethas não queria ser rápido. Não, queria aproveitar cada minuto do tempo que teriam. Não fazia ideia do que aconteceria depois, nem queria pensar. Só queria tomá-la em seus braços e esquecer Kirin Tor, Horda, Aliança, Azeroth. Só queria Vivithi naquele momento.
Os beijos foram longos e intensos. Vivithi deixou que ele explorasse sua boca antes de descer até seus seios. Ela sentia também que seria diferente daquela vez, e era difícil saber se gostava ou não daquilo. Mas seus pensamentos não duraram muito tempo. Quando a boca de Aethas tocou seus seios, ela soltou um profundo suspirou e esqueceu de tudo. Arqueou o corpo na direção dele, que passava suas mãos macias em todo o corpo forte e musculoso da elfa. Ela sentiu quando ele, suavemente, tocou seu sexo e começou a acariciá-lo, sem tirar seus lábios dos mamilos entumecidos. Ela gemeu e o apertou contra seu corpo sentindo o membro ereto dele roçando em suas coxas. Mas Aethas não tinha pressa. Nenhuma.
Ele beijou todo o corpo dela, lentamente. Passou a língua em sua barriga, beijou seu sexo, mas então desceu até suas coxas. Passou a língua no interior dela e foi descendo. Vivithi não entendia o ele fazia, mas a sensação era maravilhosa e ela não o interrompeu. Estremeceu quando ele passou a língua na parte de dentro de seus joelhos, e ficou extasiava quando sentiu os beijos em seus pés.
Sim, pensou ela com satisfação, aquele era o lugar dele. Aos seus pés.
Depois, Aethas puxou-a repentinamente e abriu suas pernas. Ela soltou uma risada. Sim, ali estava ele novamente. Mas ele não a penetrou, como esperava. Baixou sua cabeça até o meio de suas pernas e passou a acariciá-la com a língua. Vivithi estremeceu e gritou. Os movimentos dele começaram delicados e depois se tornaram mais rápido, e ela já estava gozando uma, duas, três vezes. Mas queria mais, muito mais.
Aethas sentiu no momento que Vivithi agarrou seu cabelo e puxou-o em sua direção. Ele gemeu com a dor, mas logo estava com os lábios nos dela novamente. Vivithi o empurrou para a cama e subiu em cima dele. Com a respiração acelerada, o mago permitiu. Então, ela o montou.
Nenhuma magia se comparava aquilo, pensou. Nada, nenhum tipo de poder era maior. E sabia que, se naquele momento, Vivithi pedisse que ele traísse tudo em que acreditava, ele o teria feito. Deixou-se levar pelos movimentos dos quadris dela, e agarrou seus seios com força. Ela gemeu mais ainda e intensificou os movimentos. Aethas logo estava gozando, sentindo aquela explosão dentro dele que sabia que não vinha só do sexo. E quando ela desabou ao seu lado, arfando e se preparando para uma nova tentativa, ele disse as palavras:
— Eu… Estou apaixonado por você. — murmurou languidamente.
Foi como se uma bomba de mana tivesse estourado.
— O quê?!! — gritou Vivithi.
Aethas ficou assustado. Vivithi ficara irreconhecível. O rosto estava contorcido em raiva, frustração, tristeza e mais muitos sentimentos que ele não soube explicar. Com um chute certeiro, ela o tirou da cama, fazendo-o cair no chão, enrolado nos lençóis.
— Vá embora! — gritava ela enraivecida – Vá embora!
— Vivithi… — ele se levantou com dificuldade, enrolado nos lençóis e tentava calmá-la – Calma, por favor.
— Vá embora, seu desgraçado! — ela agora jogava coisas nele – Vá e nunca mais dirija a palavra a mim.
— Mas-
Aethas parou de argumentar no momento em que ela pegou o arco. E já estava fora do quarto quando duas flechas passaram bem perto de sua cabeça.
— Nunca mais!- gritava ela – Nunca mais!
E ele fugiu, com o coração despedaço e a cabeça em parafuso, sem entender como a noite podia ter mudado do paraíso para inferno por causa de umas poucas palavras.
*****************
Mesmo estando cansada, se recuperando de um ataque, e com o apetite saciado após o jantar, Arshe não conseguia dormir. Não. O que Greymane dissera mexia com sua cabeça. Ele falara com Doroteya. Doroteya abandonara Liam. Lembrava que ela dissera que se recolhera à floresta para não prejudicá-lo, mas nunca que fizera isso por causa do pai do rapaz. Mas o que passava em sua cabeça era: teria alguém feito o mesmo com Kayliel?
Ela tentou dormir. Se revirou na cama. Se enrolou, chutou os lençóis. Se enrolou de novo. E percebeu que não descansaria até descobrir.
E só havia uma pessoa que podia responder sua pergunta.
Se levantou antes que aquilo parecesse uma má ideia. Até porque, era. Foi até sua escrivania e rabiscou rapidamente em um pergaminho.
Kayliel,
Só me responda essas perguntas:
1. Por que você me deixou?
2. Alguém lhe pediu para fazer isso?
Arshe
Depois, colocou em um envelope, marcou com o selo do Kirin Tor, que ela tinha ainda desde os tempos em que era aluna, e pegou uma capa preta. Àquela hora na Bastilha foi fácil passar despercebida até a caixa de correio mágica mais próxima. Pagou a mais para que a mensagem fosse enviada com urgência, mando-a para o selo Kirin Tor que pertencia a Kayliel e depois voltou para o quarto.
Na manhã seguinte iria se arrepender do que fizera. Mas no momento, fazer aquilo trouxe de volta seu sono.
E a princesa adormeceu no instante em que sua cabeça tocou os travesseiros.
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Enquanto nos Reinos do Leste, continente onde ficava Luaprata e também Ventobravo, já era noite avançada, a oeste, no continente de Kalimdor, onde ficava Orgrimmar, ainda era cedo da noite. Era naquele continente também onde ficava Darnassus, lar dos elfos noturnos e também dos refugiados worgens.
Lá, alheio ao que acontecia do outro lado de Azeroth, um menino lavava as mãos, sob o olhar atento de uma elfa noturna. Depois, a elfa o conduziu até uma mesa, onde fizeram uma prece à Eluna antes de começarem a jantar. O menino olhava ansiosamente para a cadeira vazia, e esse gesto não passou despercebido.
— Ela logo chegará. — disse a elfa com sua voz melodiosa – Não se preocupe, pequeno.
— O que ela foi fazer lá? — quis saber.
— Verificar o correio e comprar provisões. — respondeu com calma.
O menino assentiu com a cabeça, como se aquilo fosse o suficiente e voltou a sua refeição. Depois que terminaram de comer, ele a ajudou com a louça, sentaram um pouco na varanda onde ele ouviu histórias daquele povo milenar e então chegou a hora de dormir. O menino não estava muito feliz em deitar-se antes da chegada da outra pessoa, mas o fez, pois sabia que devia se obediente. Por isso, escovou os dentes, vestiu o pijama sozinho e já estava na cama quando o som da porta da frente abrindo o deixou elétrico.
— É ela! — gritou atirando os lençóis para fora da cama e correndo.
A mulher que entrara na casa parecia humana. Mas se alguém olhasse com cuidado, veria os olhos azuis gélidos, de brilho que sugeriria inumanidade. Repararia também que ela não respirava. Mas, para o menino, nada daquilo importava.
— Tia! — gritou se agarrando a ela – Você voltou!
A mulher riu, sua voz distorcida ecoando na velha cabana de madeira.
— Claro que eu voltei, meu querido. — respondeua mulher alisando os fartos cabelos dele – Espero que não tenha dado trabalho a sua outra tia.
— Não! — exclamou convicto. — Não é mesmo, tia Lasciva?
A elfa noturna sorriu serenamente.
— Claro que não. Ele só ficou ansioso com sua ausência, Rubrarosa.
A cavaleira da morte sorriu como se pedisse desculpas pela demora e entregou uma sacola de provisões para a outra. E quando se virou novamente para o menino, seu sorriso estava maior.
— Adivinha. Tenho novidades! — disse puxando uma carta.
Os olhos do menino brilharam.
— É isso mesmo que você está pensando, Theo. — disse ela, o sorriso aumentando mais – Sua mãe deu notícias. Ela virá te buscar amanhã.
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