Herdeiros da Guerra

24 Capítulo XX – A proposta


Notas iniciais
Música do capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=uo2Bq7kdApQ

Capítulo XX – A proposta (PARTE I)

Saba pegou o balde cheio mais uma vez e encheu a última tina de água do estábulo. Depois, depositou o objeto no chão e sentou-se em um banco de madeira próximo. O dia estava muito quente e a menina enxugou o suor com as costas da mão. Nem parecia que na noite anterior havia chovido sobre a cidade de Orgrimmar. Era sempre assim: chovia e fazia frio a noite e no dia seguinte o clima já estava escaldante de novo. Mas o calor excessivo não era o motivo do semblante cansado de Saba.

A noite anterior fora horrível. Apesar de ter sido recebida em casa com festa pelos pais e ter tido o dia de folga para matar a saudade, não conseguira dormir a noite. Quando se deitara, ficara triste pensando na saudade que sentia de Karen e chorara em silêncio por um bom tempo. Depois, quando o barulho da chuva batendo no teto a embalara no sono, fora aterrorizada por um terrível pesadelo. Acordou gritando e assustou os pais. Estava tão desconcertada que não falou o que sonhara e, apesar de garantir aos pais que estava tudo bem, não pregou o olho no resto da noite. E agora, estava cansada e bocejando, desejando faltar a aula na Academia Militar. Duvidava que fosse conseguir fazer qualquer coisa.

E queria escrever para Karen. Tinha certeza que, para ela, conseguiria falar.

— Saba! — ouviu sua mãe gritando da estalagem – Venha aqui! Rápido!

A pequena orquisa gemeu, já prevendo o trabalho pesado que viria e se levantou. Caminhou o mais devagar que pode, tentando retardar o que quer que tivesse que fazer.

Quando chegou ao salão da estalagem, notou que seus pais estavam sentados com uma terceira pessoa que ela nunca vira. Era uma orquisa usando um longo vestido de couro, com os cabelos em dois coques cheios e o resto da cabeça calva. Em sua mão ostentava uma clava branca e ao lado da cadeira havia um escudo. Saba a reconheceu como uma xamã. Seria alguma parente de seus pais?

— Ai está ela! — exclamou a mãe de Saba, ansiosa.

A menina franziu a testa e se aproximou lentamente. Nunca vira seus pais a olharem tão apaixonadamente. E quando seus olhos cruzaram com a da xamã, sentiu um arrepio percorrer sua espinha.

— Que menina robusta e forte! — elogiou a xamã – Quantos verões?

— Nove. — disse seu pai com o peito estufado de orgulho – Mas parece ter mais, não é?

— Sim, é verdade. — concordou a xamã e Saba, sem entender porque, tinha certeza que ela estava falando a verdade. E se dirigindo a ela, perguntou – Seu nome é Saba, não é?

Saba apenas confirmou com a cabeça.

A xamã riu.

— Não tenha medo, criança. Aproxime-se.

Saba aproximou-se lentamente, sem entender porque seus pais pareciam tão felizes. Quando estava de pé em frente a xamã, esta segurou seu rosto delicadamente e olhou dentro de seus olhos. A menina sentiu como se ela estivesse analisando sua alma.

— Sim, sim. É ela.

Seus pais bateram as mãos e os pés de felicidade e Saba apenas os olhou, sem entender.

— Diga-me, Saba. – falou a xamã atraindo a atenção da menina – Você tem tido sonhos estranhos?

As imagens da noite anterior voltaram a sua mente e Saba deu um passo para trás e cobriu o rosto. Não, não queria lembrar. Ouviu as cadeiras onde seus pais estavam sendo afastadas, mas então eles pararam. Provavelmente a xamã pedira calma aos dois, pois logo em seguida ela colocou as mãos nos ombros da menina.

— Não precisa ter medo, pequenina. Só me responda: o de ontem foi o único?

Saba fez que não com a cabeça.

— Sim, sim, tal como os ancestrais disseram. — e disse, se dirigindo a Gryshka e Morag – Saba foi tocada pelos espíritos de nossos ancestrais com o dom do xamanismo.

Enquanto os pais comemoravam avidamente a confirmação, Saba tirou as mãos do rosto e olhou para a xamã sem entender.

— Como? — perguntou.

— Os espíritos a abençoaram, criança. — disse a xamã – Os sonhos que você tem são o prenúncio disso. E ontem, recebi a visita de um deles que me falou de você. Disse-me que eu tenho que ensiná-la sobre o caminho dos elementos.

Agora entendia o motivo da alegria de seus pais. Só havia uma honra maior entre os orcs que ser um poderoso guerreiro: ser abençoado pelos elementos e pelos ancestrais com o dom do xamanismo. Claro, os atos gloriosos dos guerreiros eram louvados, mas estar em contato com os espíritos supremos significava que você fora especialmente escolhido. Não era algo que dependia apenas de esforço pessoal. Precisava do toque místico da terra, que era concedido a bem poucos. E agora aquela orquisa estava dizendo que Saba era um desses poucos. Era estranho.

— A senhora tem certeza? — perguntou a menina ainda sem acreditar.

— Saba! — ralhou sua mãe – Não duvide da xamã!

Mas a orquisa apenas acenou com a mão que estava tudo bem.

— É normal as crianças ficarem assustadas quando são escolhidas. É uma responsabilidade muito grande. — e encarando Saba, continuou – Mas você já senti algo não é, Saba?

Era verdade. Desde que tocara a Nascente do Sol se sentia diferente. Teria sido por isso que a xamã estava ali? Saba estranhava porque sabia que a Nascente do Sol era uma fonte de magia arcana. Os xamãs lidavam com magia da natureza. Uma coisa não teria a ver com a outra. Teria?

— Eu senti… Quando toquei na Nascente do Sol…

A xamã assentiu com a cabeça.

— A descarga de magia arcana liberou seus dons que provavelmente demorariam mais um ano ou dois para surgir. — disse como se aquilo fosse totalmente corriqueiro – Você tem tido sensações também, não é? Viu alguma coisa?

Saba fez que sim e começou a relatar suas sensações em relação a Karen e sua família e a visão de Karen com duas coroas. Seus pais a olhavam com um carinho desmedido e a xamã apenas com uma simples curiosidade.

— E os sonhos? — insistiu a xamã.

Saba apertou os lábios.

— Não tenha medo de falar sobre seus sonhos, Saba. Na maioria das vezes, eles são apenas isso: sonhos. E a interpretação pode ser bem diferente do que achamos a princípio.

Talvez devesse falar, pensou Saba. A xamã poderia lhe dizer que não era nada ruim, e podia ser até mesmo apenas um pesadelo normal. Mas tinha sido tão terrível… E ela só queria falar com Karen.

— Certo, tudo a seu tempo. — disse a xamã carinhosamente e acariciou a cabeça da menina.

— Senhora Shikrik, – chamou Morag respeitosamente – a senhora pretende ensinar Saba?

— Se vocês permitirem, seria uma honra. — respondeu.

Os pais de Saba mal conseguiam conter sua felicidade.

— Claro, claro que permitimos! — disse Gryshka alegremente – Nós que nos sentiremos honrados!

— E a estalagem mamãe? — perguntou Saba – Quem vai te ajudar?

— Vamos contratar alguém. — respondeu ela – Não é Morag?

— Sim, sim! — respondeu veementemente o orc.

Saba ainda estava um pouco perdida com tudo o que estava acontecendo. A poucos minutos estava pensando em como não queria ir para a Academia Militar e agora estava sendo recrutada como aprendiz por uma xamã que, a julgar pela forma como seus pais a tratavam, era muito respeitada. Então uma luz se acendeu na cabeça dela. Se fosse uma xamã, se treinasse bastante e se tornasse a melhor, poderia ajudar Karen. Seria sua companheira de batalha e poderia falar com os ancestrais dela. Não existia nenhum elfo xamã. Ela poderia dar o apoio que nenhum outro elfo ou elfa daria. O sorriso dela se abriu imediatamente.

— Então, a senhora vai mesmo me treinar? — perguntou.

— Se você quiser, Saba. – disse Shikrik – Você será minha aprendiz. Terá que ir todos os dias a minha casa, fora da cidade, ao amanhecer e poderá retornar ao pôr do sol. Mas lhe darei um aviso: não será fácil como na Academia Militar.

A menina abriu um enorme sorriso.

— Não espero que seja. — respondeu com convicção, fazendo com que seus pais ficassem ainda mais felizes.

E o terrível pesadelo fora esquecido por enquanto. Só que logo Saba descobriu que não poderia escondê-lo de sua exigente mestra.

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Arshe não lembrava da última vez que acordara se sentindo tão mal. Todo seu corpo doía, sua boca estava seca e sua cabeça parecia dez vezes mais pesada. Pensou em se mexer, mas esse simples pensamento a fazia ficar cansada. Não, definitivamente não estava em condições de se mover.

Quando sua mente clareou um pouco mais, ela passou a notar que o seu quarto estava estranhamente menor e mais escuro. Percorreu com os olhos o teto e percebeu que não estava em casa. As lembranças da noite anterior começaram a voltar, mas se perdiam no momento em que voltaram a estalagem. Teria se machucado e por isso estava em algum lugar descansando? Com dificuldade, mexeu o pescoço para ver mais do quarto. E assustou-se ao ver que a comandante estava sentada ao lado de sua cama, com os olhos fechados e possivelmente adormecida. Virou para o outro lado, onde um microlaboratório emitia uma leve fumaça e viu um animal grande dormindo no chão. Não, era apenas Doroteya em sua forma de worgenin, enroscada em si mesma. O que teria acontecido afinal?

Arshe respirou fundo e tentou se mexer mais uma vez. Ao seu lado, a comandante acordou sobressalta, com a mão à procura da arma. Quando percebeu que era apenas a princesa acordando, se acalmou.

— Então, – começou Lina – como está se sentindo?

A princesa abriu a boca para responder, mas sua garganta seca só emitiu um chiado. Prontamente, a comandante encheu um copo de água de uma moringa e ajudou Arshe a beber. Nunca, desde que se lembrava, fora tão difícil beber um copo de água. E ainda estava com sede. Sinalizou para Lina, que lhe deu mais um copo. Depois, recostou-se nos travesseiros, exausta, mas sentindo-se estranhamente melhor.

— O que aconteceu? — sussurrou com a voz rouca.

— Você não lembra? — quis saber a comandante.

Arshe fez que não com a cabeça.

Lina então passou a contar os acontecimentos da noite passada, excluindo, claro, os delírios da moça. Não achava que aquele era o melhor momento para abordá-los. Na verdade, não imaginava se seria correto fazê-lo. Ela e Doroteya podiam simplesmente fingir que nada sabiam. Porém, a angústia de Arshe na noite anterior a tocara. A jovem não tinha ninguém com quem desabafar, com quem se abrir. E Lina, mas do que ninguém, sabia como aquilo era ruim. Seu único confidente sempre fora Tommy, e fazia dois anos que eles não se falavam. Era terrível ter que lidar com o mundo sozinha. E se a comandante, que já estava endurecida das batalhas da vida, tinha momentos angustiantes, o que dirá daquela menina criada no castelo, a quem nada nunca fora negado?

— Então… — murmurou Arshe depois que ouviu o relato da comandante – Está tudo terminado?

— Não exatamente. — Lina cruzou os braços – Preciso fazer algumas buscas para garantir que tudo está limpo. Devemos reorganizar a vila. Então, mandarei dois soldados trazerem uma diligência para levar os criminosos e uma carruagem para você. Não quero surpresas desagradáveis no caminho de volta.

Um barulho no canto do quarto alertou-as que Doroteya acordava. A druidesa se espreguiçou no chão, rolou um pouco como se estivesse se decidindo se devia levantar ou não e, por fim, se sentou no chão, com a cara sonolenta.

— Finalmente. — disse Lina, mas em tom bem-humorado – Achei que teria que te acordar com um balde de água ou algo assim.

— Desculpe. — disse Doroteya notando que haviam dois frascos cheios de remédio – Você trocou os frascos quando eles encheram?

Lina fez que sim com a cabeça.

— Acho que está na hora de Arshe tomar mais uma dose.

A worgenin se levantou e foi até a bancada, Pegou um dos frascos e levou até a cama. Arshe a encarou por um momento, pensando em como Doroteya ainda parecia tão delicada e humana mesmo naquela forma bestial. Talvez, aquela maldição apenas colocasse para fora a selvageria das pessoas, e que Doroteya fosse uma daquelas poucas pessoas que eram essencialmente boas.

— Obrigada. — disse a princesa antes de receber mais uma dose do remédio – E desculpem-me. Eu apenas causei problemas.

— Você não causou problemas. — retrucou Doroteya delicadamente – Você não se jogou naquela adaga porque quis. Essas coisas acontecem no campo de batalha.

— Doroteya está certa. — concordou Lina – Quando se vai a campo, deve-se estar preparada para tudo. Até para a morte.

Talvez aquela não fosse a vida para ela afinal, pensou Arshe enquanto tomava o remédio dado por Doroteya. Detestava ser um fardo para os outros, mas era isso que sempre acabava se tornando. Não fora um fardo para o pai, que a criara sozinha? Não fora um fardo para Kayliel, que por fim a abandonou? Com certeza era um fardo para seu tio Varian, que nem mesmo era tio de verdade. E agora se tornara um para a comandante. Quando viria a ser útil?

— Ei, ei! Não precisa chorar! — exclamou Lina alarmada.

Arshe nem mesmo percebera que chorava. Estava envergonhada demais.

— Eu… — sua garganta doeu novamente e ela levou a mão ao pescoço – Eu…

— Não fale. — pediu Doroteya – Você já forçou muito sua garganta ontem.

— Forcei? — se surpreendeu Arshe.

Doroteya e Lina se entreolharam e a druidesa parecia envergonhada. A comandante então respirou fundo e fez um gesto com a mão que estava tudo bem. Arshe olhou para uma e depois para outra, sem entender o que estava acontecendo.

— Você teve alucinações durante a febre. — revelou Lina por fim – E gritou bastante. Por isso sua garganta está doendo. Mas, quanto ao veneno, não precisa ficar preocupada. Doroteya fez o antídoto e você está respondendo muito bem.

— Acho que farei uma sopa para você. — Doroteya colocou o frasco na mesa e se levantou – Você precisa se nutrir. E vou trazer mais água também. Você está bem desidratada.

A worgenin e a comandante trocaram mais um olhar e então a druidesa saiu. Arshe achou por um momento que elas lhe escondiam alguma coisa, mas estava cansada demais para pensar no momento. Suas forças já estavam se esvaindo e ela pediu mais um copo de água antes de cair no sono de novo.

Foi durante esse sono, já mais tranquilo que algumas lembranças voltaram. Mas não as lembranças do que acontecera na noite anterior na estalagem. Ela sonhou novamente com seu pai e com Kayliel. Sonhou que chamava por eles. Esses sonhos não tinham a intensidade das visões da noite anterior, mas, mesmo assim, a assustou. E quando acordou, sobressaltou-se. Tentou reter as lembranças dos sonhos, mas elas sumiram rapidamente. Depois, ficou deitada, com a certeza que havia alguma coisa errada. O que a estava angustiando-a? Parecia que havia algo a lembrar, mas não sabia o que era.

Dessa vez estava sozinha no quarto. O elixir de Doroteya era muito bom, porque a maioria das dores tinham ido embora. Arshe conseguiu se sentar na cama e servir-se de um copo de água. O quarto estava mais claro e ela imaginou que já fosse meio dia. Mexeu a cabeça de um lado para o outro, e se esticou. Seus músculos protestaram, mas sentiu-se mais animada. Pensava se conseguiria se levantar da cama e sair do quarto. Queria conversar com a comandante e fazer algumas perguntas. Mas não precisou fazer isso. Já estava jogando só lençóis para o lado quando ouviu vozes vindo do corredor. Percebeu que o tom das palavras diminuiu sensivelmente quando as pessoas se aproximaram da porta, o que fez com que ela acreditasse que era o assunto da conversa. Elas estariam apenas preocupadas ou esconderiam algo? Arshe passou a mão pelo rosto. Ele parecia normal. Seus braços e pernas estavam funcionando bem. Não era algo com seu corpo então. Então… Deveria ser algo que gritara durante a febre. Seu coração se acelerou. O que exatamente teria dito? Tentou se lembrar novamente do sonho daquela manhã, mas não conseguiu. A porta então abriu-se e Lina e Doroteya entraram. As duas pareceram muito surpresas em vê-la acordada e sentada na cama. E a forma como a olharam fez Arshe ter certeza que falara algo durante suas alucinações.

— Então, — começou Lina – melhor?

Arshe fez que sim.

— Precisa de ajuda para comer? — perguntou Doroteya, que trazia uma bandeja com um prato fumegante de sopa e colocou na sua frente.

Arshe fez que não.

Lina estranhou o silêncio.

— Sua garganta está doendo? — quis saber a comandante.

Arshe fez que não.

— Mas há algum problema? — indagou a druidesa.

Arshe fez que sim.

— Se você não nos falar, não teremos como ajudar. — a comandante parecia ficar incomodada com o silêncio.

— Eu quero saber o que foi que eu gritei durante a febre. — falou por fim a princesa – Quero saber o que eu disse para deixar vocês duas tão cautelosas.

Pela forma como Doroteya e Lina se olharam, Arshe sabia que tinha acertado em cheio. Dissera algo. A expressão delas dizia isso. Mas… teria falado de Kayliel? Seu estômago se apertou. Será… Será que tinha revelado seu segredo?

— Então? — insistiu Arshe.

— Coma primeiro. — disse a comandante por fim – E então conversaremos.

Arshe pensou em dizer não, em insistir em só comer quando elas falassem. Mas o olhar da comandante deixava claro que era ela quem mandava ali, e não Arshe. Agora a princesa sabia o porquê dela ser promovida. Porquê a comparavam com seu pai. Simplesmente não se podia se sobrepujar à comandante se ela não o permitisse. Talvez a única pessoa a quem a comandante baixasse sua cabeça seria a Varian. E vendo aquele olhar, Arshe duvidava até mesmo disso. Por isso comeu. E quando colocou a primeira colherada na boca, percebeu que estava faminta. Tomou toda a sopa, acompanhada de um delicioso pãozinho que viera na bandeja. Depois que limpou o prato, Lina fez com que ela bebesse mais água e mais da poção de Doroteya.

— Vão me contar agora? — perguntou por fim.

— Doroteya, veja se temos privacidade. — pediu Lina.

Doroteya levantou-se e saiu rapidamente. Voltou logo em seguida, fazendo que sim com a cabeça. E trancou a porta.

— Antes de lhe contar – começou Lina – quero que você saiba que estou do seu lado. Seu pai fez muito por mim. Quero retribuir à altura, fazendo o mesmo por você.

O coração de Arshe se acelerou. Lina não precisava dizer mais nada. A comandante não falaria algo tão forte levianamente. Seus olhos se encheram de lágrimas e ela respirou fundo.

— Pela Luz… — murmurou assustada – Eu… falei dele?

— Kayliel. — foi o que a comandante disse – Esse é o nome dele, não é?

Arshe então desabou. Colocou as mãos no rosto e começou a chorar copiosamente. Doroteya e Lina foram pegas de surpresa, pois não esperavam aquela reação. E enquanto Doroteya se aproximava da princesa e murmurava palavras de conforto apertando delicadamente seu ombro, Lina apenas ficou sentada, de braços cruzados, observando. Era péssima em confortar e em ser confortada.

Levou algum tempo até Arshe conseguir falar novamente, e quando fez, foi para perguntar o que a afligia.

— V-vocês… v-vão…

— Não. — cortou Lina rapidamente – Não entregaremos você. Nem ao rei, nem a ninguém.

A surpresa foi tamanha que as lágrimas de Arshe secaram rapidamente.

— Seu segredo está seguro conosco. — afirmou Doroteya convicta.

A princesa olhou para Lina e depois para Doroteya. Será que elas realmente sabiam? Doroteya guardar seu segredo ela até entenderia, mas a comandante Wood? A obrigação dela era entregar à justiça todo aquele que ameaçasse ou traísse Ventobravo ou a Aliança. E porque diabos ela dissera que iria contra seus próprios princípios?

— Comandante. — começou a princesa – O que eu exatamente lhe contei?

Para sua surpresa, Lina riu.

— Exatamente o que você está pensando. Você teve um caso amoroso com um elfo sangrento pertencente à facção Fendessol, em Dalaran, na época em que estava lá a mando de seu pai. Vocês ficaram um tempo juntos e ele lhe abandonou sem nenhuma explicação no dia da morte de Bolvar. Você estava se recuperando e então ele reapareceu de alguma forma em sua vida. — e olhando fixamente a princesa, perguntou – Faltou algo?

Arshe a fitou, pasma, e fez que não com a cabeça.

— Sim, eu sei que na minha posição eu deveria contar isso ao rei. — continuou Lina – Mas não irei. E vou lhe falar meus motivos. — ela levantou um dedo – Primeiro: seu pai não o faria. — levantou um segundo dedo – Segundo: já faz tempo, e isso não trouxe nenhum prejuízo a Aliança. — e levantou o terceiro dedo – Terceiro: ninguém manda no coração. — por fim, deu de ombros – Temos o direito de fazer alguma merda em algum momento de nossa vida.

— Eu sei bem sobre isso. — falou Doroteya inesperadamente – Tive meu amor proibido também…

— E eu estou em uma situação muito complicada… — confessou Lina.

— Mas… — Arshe estava totalmente sem argumentos pela primeira vez na vida – Vocês… — ela se esforçava para pensar algo -Vocês não se envolveram com ninguém da Horda, não é?

— Não. — respondeu Lina – Nem você. Ele era de uma facção neutra, não era?

— Sim, mas-

— E mesmo que fosse da Horda, – continuou a comandante – já acabou. Não há necessidade de prejudicá-la por algo do passado.

Arshe desviou a vista. Queria falar para a comandante que era muito mais complicado do que ela fazia parecer. Mas como confessar isso sem parecer realmente uma traidora?

— Você ainda gosta dele.

A afirmação partiu de Doroteya, não da comandante. Arshe a encarou, com os olhos arregalados e assustados. Mas a worgenin apenas pegou em sua mão e sorriu.

— Gostar de alguém não é crime. — disse.

— Doro tem razão. — concordou Lina – Imagino que deve ser difícil lidar com um sentimento assim, tão conflitante com seus princípios. — e suspirou. Não era o que ela mesma estava fazendo? — A questão que eu gostaria de saber, princesa Arshe, é: você tem intenção de procurar Kayliel novamente? Preciso dessa resposta para saber se terei que amarrar você na Bastilha ou não.

Apesar da fala dura, Lina sorria. Arshe então sentiu um enorme alívio. Era a primeira vez que falava abertamente sobre Kayliel e, de repente, aquilo era libertador. E nem Lina nem Doroteya estavam julgando-a ou criticando-a. Elas, de alguma forma entendiam sua situação plenamente. Arshe apertou a mão de Doroteya, que ainda segurava a sua, e respirou fundo.

— Depois que ele me abandonou, nunca pensei em voltar. — disse por fim – Mas meu coração parecia que ia explodir quando o vi novamente. — Arshe olhou para a comandante – Foi em Dalaran, quando fui negociar com Aethas Fendessol.

— Depois de três anos. — Lina colocou a mão no queixo – Isso explica porque você parecia doente desde que voltou de lá.

— Ele usava o símbolo de Luaprata e eu percebi que ele deixara de ser neutro. Ele me disse… Me disse coisas… Depois, teve uma carta... — Arshe então calou-se. Não queria falar sobre aquilo. — Por isso pedi para vir nessa missão. Queria tirar Kayliel da minha cabeça, antes que eu fizesse uma besteira.

— Então foi por isso. — as coisas faziam sentido para Lina agora – Bem que achei estranho seu interesse súbito por missões de campo.

— Desculpe-me. — pediu a princesa.

— Há males que vem para o bem. — citou Doroteya – Apesar de tudo que aconteceu, agora você pode contar conosco. Ajudaremos você a lidar com essa situação. — e dando uma pausa, perguntou – Você nunca teve com quem conversar, não é?

— Nunca. — confirmou.

— Agora tem. — Doroteya sorriu – Não é Lina?

— Lógico. — respondeu a comandante.

Arshe não sabia o que falar. Sempre tivera medo de alguém descobrir seu relacionamento com Kayliel por medo de ser julgada, exposta e expulsa de seu lar. Mas estava ali, em uma vila afastada, em um quarto escuro e estranho, na companhia de uma militar e uma guilneana que sabiam seu segredo e simplesmente não a julgavam, nem a condenavam. Era como se elas sempre se encontrassem por aí com princesas envolvidas em casos com elfos de uma facção oposta.

— Você parece surpresa. — comentou a comandante.

— E não era para estar? Nunca pensei que encontraria alguém que… Como posso falar…

— Lhe entendesse? — sugeriu Doroteya.

— É.

A druidesa deu de ombros.

— Como eu disse, nós temos experiências com relacionamentos complicados.

— Isso é algo difícil de acreditar… — admitiu a jovem maga.

Lina considerou por um momento. Involuntariamente, Arshe lhes confidenciara um segredo. Sim, ela seria punida se aquela história tivesse sido ouvida por outras pessoas. Mas elas não o fariam. Com certeza Arshe agora se veria em débito com elas. E isso era algo que Lina não queria. Não entendeu bem porque, mas, de repente, quis que Arshe confiasse nela, e não apenas a temesse. Por isso, decidiu revelar.

— Princesa Arshe, – a princesa a olhou – eu transei com seu tio, o rei, na biblioteca no dia do baile. E no quarto dele, no dia seguinte. Somos amantes agora.

O queixo de Arshe caiu como se ela tivesse perdido o controle sobre os músculos de seu rosto. Seu olhar era de incredulidade. Pensou que a princesa fosse acusá-la de mentir, mas Doroteya não deu tempo para ela se recuperar.

— Eu casei em segredo com o príncipe Liam Greymane e tivemos um filho. — ela suspirou – O rei Greymane não sabe que tem um neto.

O queixo de Arshe caiu ainda mais. Ela olhou de uma para outra, esperando que em algum momento as duas caíssem na risada e dissessem que estavam apenas zoando com seu segredo. Mas como as duas permaneceram serias, Arshe entendeu que era verdade. Ela fechou a boca, mas continuava surpresa. Então era por isso. Elas a entendiam porque estiveram e ainda estavam em uma situação de relacionamento complicada.

— Pela Luz… — murmurou Arshe – Você está em um caso com meu tio? — perguntou olhando para Lina.

— Sim. — respondeu Lina. — Quando transamos na biblioteca durante o baile, ele não sabia que era eu.

— Oh! — exclamou Arshe – Por isso ele ficou sem ação quando foi te dar uma medalha?!

— Isso. — e achando que devia ser totalmente sincera com a princesa, acabou contando do dia seguinte, como pensara que ia perder o emprego, como o rei a abordara, como transaram na sala dele e depois ele a levou para seu quarto por uma passagem secreta. Tinha certeza que, de posse daquelas informações, Arshe ficaria mais tranquila em relação ao próprio segredo e a comandante.

— E você… — murmurou apontando Doroteya.

A worgenin contou para ela a mesma história que contara a Lina. De seu amor proibido por Liam. Seu casamento secreto. Seu filho. Como tinha medo que Greymane o tomasse dela. E como estava feliz que, quando aquela missão acabasse, iriam buscá-lo e ela estaria com Theo novamente.

— E por isso o rei Greymane te odeia. Porque você se relacionou com o filho dele e isso levou a um desentendimento entre os dois.

— Isso. — respondeu Doroteya.

— Uau! — exclamou Arshe se recostando nos travesseiros – Por essa eu não esperava.

— Nem nós. — disse Lina.

As três ficaram em silêncio por algum tempo. Arshe estava digerindo tudo que ouvira e as outras esperavam para ver sua reação. Nem Lina nem Doroteya temiam pelos seus segredos com Arshe, porque eles foram compartilhados para que a princesa percebesse que não deveria temê-las. E logo viram que fizeram a escolha certa. Depois de um tempo, Arshe sorriu. Pegou na mão de Lina e também na de Doroteya.

— Obrigada. — disse com sinceridade – Muito obrigada. Por guardarem meu segredo. Por compartilharem o de vocês.

— Não precisa agradecer. — disse Doroteya.

— Sim, preciso. — retrucou Arshe – Vocês duas… Vocês duas não tinham que fazer isso por mim. E fizeram. E mesmo que você tenha dito que é por gratidão ao meu pai, – disse olhando especificamente para Lina – sei que é bem mais que isso. Ele a tinha como filha. E você me mostrou hoje que é como minha irmã.

Lina não pode deixar de rir.

—Se você soubesse o tipo de irmãs que tenho, você não diria isso.

— Então serei uma irmã legal. Como você foi como seu irmão Tommy. — e olhando para Doroteya, afirmou – Espero que você não tenha rancor pela realeza e possa aceitar minha amizade.

— Não aceito sua amizade. — disse Doroteya séria – Quero uma irmã também.

Arshe gargalhou e Lina também.

— Então você a tem. — e apertou as mãos das duas – Tenho duas irmãs. — ela riu com lágrimas nos olhos – Sempre quis ter irmãs.

— Não se arrependa depois. — avisou Lina, mas com a voz suave e um sorriso – Sou uma irmã chata.

— Nunca fui irmã de ninguém. — disse Doroteya rindo – Acho que vou descobrir que tipo de irmã sou.

— Digo o mesmo. — falou Arshe abrindo mais o sorriso.

E assim a irmandade delas fora selada. Na dor, na empatia, no segredo. O tipo de irmandade mais poderosa que existe. Uma irmandade que, elas ainda não sabiam, duraria para toda a vida das três e as modificaria totalmente. Uma irmandade que salvaria suas vidas e também as colocaria em risco. Mas que nunca, jamais, seria quebrada.

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Karen acordou sentindo o braço forte de Tewdric protegendo-a. Do outro lado, Kassyeh mantinha o braço delicadamente pousado sobre ela, como se a confortasse. E era assim que Karen se sentia naquele momento: protegida e confortada. E depois do dia anterior, sentir-se assim era surpreendente e calmante também.

A partida de Huaru tivera um efeito imenso sobre a menina. Não na mesma intensidade que sobre Luxuriah, claro, mas era a primeira vez que Karen lidava com o abandono. E agora, pensava enquanto se encolhia entre a irmã e o cunhado, conseguia compreender melhor as suas irmãs e a preocupação delas. Dhomm e Samanthah as tinham deixado, não por vontade própria, mas, ainda assim, se foram. A dor deve ter sido muito maior que a sentida por ela naquele momento. Por isso elas se esforçavam tanto para preservá-la. Estava feliz de apenas Tewdric ter visto seu choro no dia anterior; achava que iria deixá-las bem pior se a vissem como estava antes. Ainda assim, Kass pode perceber que havia algo de errado quando eles voltaram à Torre, mas nada perguntou. Apenas fez uma refeição quente, servira e depois a levara para dormir com eles. Ash também estava na mesa e parecia mais animada. Disse que Luxuriah conseguira comer algo. Kass então se animou e pensou em mandar um prato para a irmã, mas Ash achou melhor não. Não era bom forçar a Lux, dissera. E ninguém a questionou. Karen se perguntou, então, se aquele clima tenso demoraria a se esvair. Esperava que não. Queria poder respirar alegria de novo com suas irmãs. Queria Lux de volta. Fechou os olhos novamente e fez uma prece à Nascente do Sol. Por favor, que tudo se resolvesse logo.

Como já tinha perdido todo o sono, achou melhor se levantar logo. Seu coração se apertou ao lembrar que não teria mais treinamento com Huaru, mas Lor'themar garantira que arrumaria um professor excelente para ela. Mas não precisava, ela já sabia quem era. Já estava se levantando da cama quando um braço forte a agarrou e a puxou de volta.

— Cócegas matutinas! — gritou Tewdric antes de começar a fazer cócegas nela.

Karen começou a rir alto enquanto tentava escapar de Tewdric e toda aquela algazarra acabou acordando Kassyeh. A maga, ainda sonolenta, sorria enquanto a bagunça continuava na cama. Suas mascotes, que dormiam aos seus pés, ficaram estressadas com aquela confusão toda e pularam da cama pra o chão e se esconderam embaixo da cama. A maga estava feliz que ela e Tewdric estivessem ali para acalmar sua irmãzinha mais nova e lhe dar consolo.

Kassyeh sabia que Karen chorara. Ninguém precisou lhe dizer. Bastou olhar para o semblante de sua irmã caçula para ver que a partida de Huaru a afetara muito. Depois de Luxuriah, com certeza Karen fora mais atingida. Isso fez a raiva de Kassyeh aumentar, só que, por hora, tinha que aprender a controlar aquele sentimento e focar nas irmãs.

— Certo, chega Tewdric. — disse se levantando – Se ela fizer xixi em cima da cama, você quem vai limpar.

Tewdric parou as cócegas.

— Eu não faço mais xixi na cama! — protestou Karen fazendo bico.

— Vai fazer se continuar rindo assim. — Kassyeh se espreguiçou – Vamos lá, vamos nos preparar para o café da manhã. Espero que a Lux saia do quarto.

— Todos esperamos. — disse Tewdric.

Enquanto Tewdric e Kassyeh andavam pelo quarto se ajeitando, Karen continuou na cama. E estava lá, sentada, quando a irmã a chamou para se arrumar. Porém, a menina não se moveu.

— Kass. — chamou timidamente.

— Diga. — a elfa estava agora empenhada em tirar suas mascotes debaixo da cama.

— O que vai acontecer agora com a Lux? — perguntou com a voz fraca — E conosco?

Kassyeh olhou primeiro para o marido antes de voltar a encarar a irmã menor. Depois, foi até a cama e sentou-se, enquanto Tewdric assumia o dever de tirar as mascotes debaixo da cama. Karen a olhava ansiosa, com os enormes olhos verdes arregalados e a maga odiou ainda mais Huaru. Aquele tauren simplesmente chegara, mexera totalmente com a dinâmica de sua família e fora embora deixando apenas caos para trás. Porém, aquele sentimento ruim deveria ficar apenas dentro dela; sua irmãzinha já tinha sofrido demais para sua tenra idade. Sua obrigação era tranquilizar a menina e garantir que seu mundo voltasse ao eixo o mais rápido possível.

— Vamos continuar vivendo. — respondeu com sinceridade – Vai doer um pouco agora no início, mas um dia a dor vai passar.

— Até a Lux? Até a dor dela vai passar? — questionou preocupada.

— Sim, passará. A Lux é uma sobrevivente. Ela vai lidar com isso até melhor que nós! — e riu – E logo, logo, ela estará com outra pessoa, que aceitará o bebê dela.

Karen apertou os lábios.

— Se for para alguém magoar ela de novo, quero que ela fique sozinha! — disse fazendo beicinho.

Kassyeh suspirou e Tewdric deu uma imensa gargalhada, segurando as mascotes pelas caudas no ar.

— Concordo Karensinha, concordo! — e balançou Littleflame e Hotch, que protestaram.

— Tewdric! Pare de balançar os meninos e ponha-os no chão! — ralhou Kassyeh – E Karensky, você deve desejar o melhor para sua irmã, independente de tudo. O amor as vezes machuca sim, mas não podemos simplesmente preferir a solidão de quem amamos! Se a Lux, por vontade própria, decidir ficar só, tudo bem. Mas e se ela não quiser? E se ela quiser arriscar depois? Você não torceria por ela?

Karen fitou o chão, um pouco envergonhada. Contudo, Kassyeh passou a mão em sua cabeça, confortando-a.

— Eu entendo o que você está sentindo. A necessidade de proteger a Lux. Mas não vamos nos preocupar com isso agora, ok? Vamos dar um tempo para que ela se recupere, que se sinta bem de novo. E, principalmente, vamos ajudá-la com o bebê que vem por ai. Essa deve ser nossa prioridade.

A menina então sorriu. Kassyeh então apertou a bochecha da irmã, satisfeita que tinha ajudado a clarear um pouco mais os pensamentos da pequena.

— Agora, que tal se ajeitar para o café da manhã? — perguntou a maga se levantando.

— Claro! — Karen pulou da cama e já estava correndo para a porta, para ir até seu quarto quando parou de repente e voltou-se, com uma expressão preocupada – Vocês vão me amar menos, agora que vem um bebê?

Tanto Tewdric quanto Kassyeh a olharam, estupefatos, e então o orc se lançou para a menina, pegando-a de surpresa e a erguendo do chão em um apertado abraço.

— Você sempre será o meu bebezinho!! — exclamou o orc com a menina nos braços.

— Ai Ted, sua barba faz cócegas! — gritou a menina, rindo alto.

E Kassyeh percebeu que tudo ficaria bem.

*****************************

Ash não sabia se treinaria aquela manhã, mas como não conseguira dormir direito, se arrumara assim que o céu clareara e já estava na área de treinamento, encostada na amurada, vendo o sol nascer. Sentia-se estranhamente calma depois da noite insone. Depois dos problemas do dia anterior, as coisas pareciam que melhorariam. Luxuriah comera. O jantar fora tranquilo. E apesar dos olhos vermelhos e inchados de Karen, sua irmã estava comendo e rindo com Tewdric antes do fim da noite. No entanto, havia uma nuvem de tensão sobre Kass e isso a preocupava. Sua irmã era muito amorosa, só que podia odiar na mesma intensidade que amava. E pode sentir toda a raiva contida na maga na noite anterior. Esperava que isso passasse logo, não gostava da negatividade ao redor de alguém tão gentil.

Estava distraída quando uma voz a tirou de seus pensamentos.

— Vossa alteza?

Ao virar para ver quem a chamava, Ash viu Kayliel segurando uma enorme caixa. Sorriu para o elfo que retribuiu o sorriso. Kayliel estava sendo um excelente suporte naquela confusão toda.

— Oi Kayliel! — ela chamou ele com uma mão — E pode me chamar de Ash!

O sacerdote se aproximou, sorrindo.

— É difícil chamá-la de Ash, agora que você parece tão madura. — comentou.

— Pareço? — perguntou surpresa, mas satisfeita.

— Sim. Desde que vocês vieram para cá, notei isso. — seu tom era de um sincero respeito.

Era verdade, Ash se sentia diferente. Mas não desde que se mudara para ali, mas desde que descobrira o segredo de Luxuriah. Talvez por isso ela estivesse conseguindo lidar melhor que Kass com aquela situação. Sabia que Lux sobrevivera a algo bem pior. Conseguiria sobreviver aquilo também. E aquela criança era um milagre. Se, para gerá-la, a elfa tivera que perder alguém que supunha amá-la, acreditava que era uma troca justa. Uma criança sararia as feridas do passado de sua irmã muito mais rápido que um novo amor. E sempre havia a possibilidade dela encontrar outra pessoa. Afinal, ela era linda, estonteante e deslumbrante. Luxuriah não ficaria sozinha muito tempo.

— Deve ser toda essa situação. — respondeu um pouco sem jeito – Ou aprendo a lidar com isso ou serei engolida.

— Tem razão. — concordou – Mas porque acordada tão cedo?

— Não sei. — mas ela sabia – E você?

Kayliel não esperava a pergunta. A verdade era que ficara a noite toda sonhando com Arshe. Sonhava que ela estava em apuros, que clamava por sua ajuda e ele estava preso em uma jaula de vidro apenas vendo-a sofrer, sem poder salvá-la. Depois que acordara desse pesadelo, não quisera mais dormir. Por isso recolheu algum material sobre gravidez, recém-nascidos e tudo que pudesse ajudar Luxuriah. O ideal seria que ela focasse agora em seu bebê. Faria de tudo para ajudá-la.

— Estava trabalhando. — disse com um sorriso tímido – Separei todo esse material para a Lux. Quer ver?

— Claro!

Kayliel colocou a caixa no chão e passou a mostrar o material para Ash. Acabaram sentando os dois no chão, divertindo-se com toda a sorte de coisas trazidas pelo sacerdote.

— Isso é um bebê? — perguntou Ash pegando uma boneca muito realista da caixa.

— É uma réplica. Para ajudar mamães de primeira viagem.

A boneca era muito fofa e Ash achou-a parecida com Karen. Até os cabelinhos eram loirinhos como o de sua irmã. Pegou a Karen de plástico com habilidade a embalou. Kayliel bateu palmas.

— Nossa, muito bom! Você sabe pegar em um bebê.

— Eu pegava muito em Karen, apesar de ser bem pequena. Acho que nunca esqueci como se faz. — e enquanto ninava a boneca, lembrou como achava sua irmãzinha linda e como queria ter muitos bebês tão adoráveis quanto ela. Hoje, pensava se teria coragem de colocar um pequeno ser naquele mundo terrível – Vou adorar ninar o bebê da Lux.

— Aqui, tente trocar a frauda dela. — sugeriu o elfo lhe dando algumas fraldas tiradas da caixa.

— Acho que para isso vou precisar de ajuda. — riu-se a elfa.

E foi assim que Lor’themar os viu naquela manhã. Os dois jovens elfos sentados no chão, trocando a fralda de uma boneca bebê, rindo enquanto se ajudavam naquela tarefa. Uma raiva imensa tomou conta do lorde regente, porque ele conseguia ver perfeitamente aquilo como o futuro de Ash. Um jovem elfo nobre como marido e um belo bebê como fruto desse casamento. Alguém com o coração bom como Kayliel seria perfeito para Ash. E era isso que o deixava irado. Por que era exatamente aquilo que dissera que Ash merecia. Era exatamente aquilo que ele, como melhor amigo do pai da moça, deveria desejar. Contudo, estava enraivecido. Queria entrar naquela área e chutar Kayliel para longe de Ash. Não queria nem ele nem nenhum outro perto de sua pequena Ash. E quando percebeu o tipo de pensamento que estava passando por sua cabeça, deu meia volta e saiu dali, antes que percebessem sua presença.

Entretida como estava com a boneca, Ash só levantou a cabeça quando Lor’themar não estava mais lá. E franziu a sobrancelha.

— O que foi? — perguntou Kayliel erguendo a boneca, já de fralda trocada.

— Sei lá, tive a sensação de ser observada…

— Você é uma princesa agora. Sempre será observada. — comentou Kayliel.

Ash concordou com a cabeça.

— Tem razão… — e olhando novamente a caixa, suspirou – Espero que isso anime a Lux.

— Animará. — ele colocou a boneca novamente na caixa – Pensei em colher uns morangos para ela, mas Rommath não permitiu. Disse que eu não saberia escolher os morangos que a Lux mais gostaria. Então está lá, colhendo morangos.

A jovem caçadora sorriu.

— Ele gosta mesmo dela, não é?

— Gosta.

— Seria bom se pudéssemos escolher de quem gostar, não é? — Ash olhou para a caixa, mas seu pensamento estava longe.

— Seria. — o sacerdote pensou em Arshe, chamando seu nome e se arrepiou – Mas será que daria certo? E se a pessoa que escolhêssemos, não nos escolhesse?

Eles se encaram e depois riram.

— Acho que o amor nunca será fácil. — disse Ash por fim.

— Não, nunca. — concordou Kayliel.

Eles ficaram em silêncio um momento. Ash estava começando a pensar em Kayliel como um tipo de irmão mais velho. Uma versão masculina e mais madura de Kassyeh. Será que, se elas tivessem um irmão, seria como o sacerdote? Bem, era algo que jamais saberiam. Todavia, isso não impedia que o sacerdote fosse aceito na família como um irmão postiço. E foi pensando nisso, que uma ideia veio a sua mente.

— Você deveria morar aqui na Torre. — disse de repente.

— Como?!

— Morar aqui. — disse abrindo os braços – Cuidar da Lux em tempo integral. Ela vai precisar.

Pego de surpresa, Kayliel ficou sem ter o que responder. Ficar ali em tempo integral cuidando de Luxuriah o afastaria ainda mais de Arshe. Não poderia voltar aos Fendessol. Não poderia ir quando quisesse a Dalaran nem mandar cartas com o selo do Kirin Tor sem que todos soubessem. Estaria ainda mais afastado da neutralidade e embrenhado dentro da Horda. Era isso que queria?

A resposta era não. Contudo, ao ver a ansiedade de Ash por sua resposta, percebeu que não teria como escapar daquilo por dois motivos: primeiro, seria suspeito ele se negar a cuidar de Luxuriah, que não era apenas uma princesa, mas uma amiga de longa data. Segundo, ele não se sentiria bem abandonando-a aos cuidados de outra pessoa. Lorena poderia cuidar de Luxuriah tão bem ou melhor que ele, mas sabia que a elfa se sentia melhor com ele. Porque Luxuriah confiava nele. Fora esse o motivo que o procurara ao desconfiar da gravidez. Fora por isso que permitira que ele cuidasse dela, quando ela negava a ajuda de todos. Seu coração, que escolhera o sacerdócio, jamais o permitiria abandonar alguém que confiava nele tanto assim. Foi então que decidiu ficar, por, pelo menos, um ano. Sim, um ano seria o suficiente.

Em um ano, ele procuraria Arshe novamente.

Quem sabe, até lá, ela não responderia sua carta.

Ash ainda esperava sua resposta. Kayliel então sorriu e fez uma mensura com a cabeça.

— Seria uma honra. — respondeu.

E diante do sorriso aliviado da garota, percebeu que tinha tomado a decisão certa.

**********************************

Aethas acordara com um bom humor que não combinava com a situação em que sua família se encontrava. E o motivo, para a seu total desespero era Vivithi.

O arquimago achou que a partida de Huaru deixaria o clima muito pesado, mas a inesperada atuação de Rommath, que trouxe morangos para Luxuriah e a fez comer, deixou todos com um humor melhor. E apesar de o sentimento que aquele elfo sentia por sua sobrinha o incomodasse, sabia que não se importaria com o fato de Rommath ser muito mais velho se por acaso aqueles dois se envolvessem. Depois do tauren, duvidava que alguém pudesse fazer mais mal a sua sobrinha.

A questão foi que, após tudo se acalmar, ele visitara Vivithi em seu quarto. Tiveram momentos maravilhosos na cama da elfa, que o expulsou logo que o sexo chegou ao fim. Apesar de incomodado com aquela situação, se permitira dormir sem se importar muito com aquilo. Haveria tempo para analisar aquilo depois.

E era isso que fazia agora. Deitado na imensa cama do quarto de hóspedes, pensava nela. Seus sentimentos estavam confusos e conflituosos. Havia algo na elfa que o deixava louco de desejo, ao mesmo tempo que ainda sentia vontade de incinerá-la quando ela o insultava. Se pegava olhando para ela e desejando-a, mas quando seus olhos se encontravam, parecia que uma tempestade se formava. E quando a tocava… Tudo desaparecia. Talvez fosse essa dualidade de sentimentos que o fazia fincar zonzo. Por vezes a desejava e por vezes a odiava. Mas tudo era esquecido quando se tocavam. O que diabos significava aquilo?

De repente, ele se sentou na cama, em alerta.

Será que….

Será que estava apaixonado por Vivithi?

Impossível. O sexo poderia ser excelente, o melhor que já provara, mas isso nunca fora suficiente para que ele se apegasse a alguém. E Vivithi era tão… Tão… Tão Vivithi! Sequer conseguia achar uma palavra para defini-la! Ela era um caldeirão das mais explosivas substância e parecia existir apenas para que ele perdesse o controle. Jamais poderia se apaixonar por alguém que o deixasse numa posição tão fragilizada como aquela.

Uma batida na porta o assustou. Pela delicadeza da batida, com certeza, não era ninguém de sua família.

— Quem é? — perguntou se levantando e colocando um robe sobre o pijama.

— Carta para vossa excelência. — disse um servo do outro lado da porta.

Um mau pressentimento percorreu o corpo de Aethas. Todas as pessoas com quem se correspondia estavam naquela Torre. Exceto… Os temores do arquimago se confirmaram quando abriu a porta e viu diante de si um envelope com o selo roxo e brilhante de Dalaran e a assinatura de Modera, escrita naquela rebuscada e irritante letra. Pegou o envelope com cuidado, como se este pudesse arrancar seus dedos. Acenou com a cabeça para o servo e fechou a porta. Quando sentou-se a mesa, abriu o envelope e leu o conteúdo, colocou a mão na testa, sem saber o que fazer. Porém, algo lhe dizia que enfrentaria um conflito em breve.

Se seria com sua família ou com o Kirin Tor, só saberia mais tarde.

*******************************

Vivithi, assim como Aethas, também recebeu uma visita naquela manhã, mas não era um servo com uma carta. Era seu tio, Lor’themar, mas pela expressão do rosto dele, as notícias que trazia talvez fossem tão bombásticas quanto a da carta do Kirin Tor.

O lorde regente se espantou após bater à porta e entrar no quarto quando sua sobrinha permitira. Esperava encontrá-la sonolenta, talvez, usando um daqueles muitos pijamas confortáveis que ela jamais admitiria usar na presença de um elfo macho que não fosse da família. Todavia, ela não estava na cama. Estava bem próxima a varanda de seu quarto, recostada entre muitas almofadas no felpudo tapete vermelha, vestida com uma sensual camisola quase transparente, com os cabelos prateados soltos emoldurando seu rosto suave enquanto tragava lentamente lótus negra e glória-sonhadora de um luxuoso narguilé. Ela parecia feliz e relaxada, totalmente diferente do clima que se abatera naquela torre desde a noite anterior. A elfa sorriu carinhosamente para o tio, quando este se aproximou.

— Aceita um pouco, tio? — ofereceu ela soltando um pouco de fumaça cor de esmeralda pela boca.

Lor’themar a observou por um momento. Era impressionante como sua família era bela!

— Quem quer que seja seu novo amante, — começou – posso garantir que ele está lhe fazendo muito bem.

A elfa deu uma pequena risada que apenas deixou seu tio muito curioso.

— Posso perguntar quem é? — o elfo se sentou e pegou uma das piteiras e aspirando um pouco da fumaça. Aquilo o acalmou um pouco.

— Pode. — Vivithi abriu um enorme sorriso malicioso.

— Mas você não vai me dizer. — sugeriu o tio.

— Não. — confirmou com um sorriso ainda maior – Não é necessário.

Lor’themar poderia perguntar mais algumas coisas, mas achou melhor não. Sua sobrinha não era muito de falar das pessoas com quem ela saia. Nem ele era muito de perguntar, mas a expressão que ela ostentava despertava sua curiosidade.

— E você, tio? — Vivithi se espreguiçou nas almofadas – Por que essa expressão tão desgostosa?

O elfo tragou um pouco mais do narguilé, antes de falar:

— Está tão evidente assim?

— Para mim que o conheço desde sempre, sim. — e arqueando uma sobrancelha, arriscou – É sobre a bela e jovem Ashrial Fendessol, não é mesmo?

O lorde regente, que estava tragando um pouco mais naquele momento, engasgou-se. Começou a tossir fortemente, enquanto sua sobrinha explodia em gargalhadas.

— Sabia! — disse a elfa entre risadas – Eu sabia! — e continuou a rir até seu tio se recuperar do acesso de tosse.

Afastando o excesso de fumaça com a mão, Lor'themar focou seus olhos em sua sobrinha. Vivithi era uma elfa independente e de personalidade forte desde criança. Os dois sempre se deram muito bem. No início Lor'themar fora o herói dela, depois o tutor, o melhor amigo, e por fim, o segundo pai. Ainda lembrava do período negro pelo qual ela passara com um imbecil que Lor'themar fizera questão de fazer sofrer com as próprias mãos. Um tempo em que aquele sorriso fácil a abandonou. Mas ela se recuperara e estava ali, maravilhosa novamente. Se havia alguém em que ele poderia confiar seus mais profundos sentimentos, esse alguém era Vivithi.

— Antes de chegar aqui… Vi Ashrial e Kayliel na área de treinamento. — por um momento toda a raiva dele voltou.

— Eles estavam se beijando? — perguntou a elfa sem rodeios.

— Não! — a negativa expressiva dele fez sua sobrinha esboçar um pequeno e malicioso sorriso. Ambos sabiam que se tivesse sido isso, Lor'themar não estaria ali tendo aquela civilizada conversa. Provavelmente estaria, naquele momento, cavando a cova do jovem sacerdote – Eles estavam brincando de boneca.

— Como?! — Vivthi achou que ouvira errado.

— Acho que não era exatamente brincando… — o lorde regente pensou – Eles estavam trocando a frauda de uma boneca, ou algo assim.

Vivithi então entendeu.

— Ouvi Kayliel falando ontem que traria algumas coisas para ajudar Lux na gestação. Livros e utensílios. Acho que a boneca deve ser para treinar troca de fraudas e outros cuidados. Não que ela precise. — Vivithi deu de ombros – Ela ajudou a cuidar das irmãs. — e olhando mais atentamente para o tio, continuou – Devo supor que sua irritação vem do fato de ter se sentido incomodado em vê-los de uma forma tão próxima.

A jovem definitivamente tinha as melhores características de sua família. Como ela era brilhante! O peito de Lor'themar se encheu de orgulho por ter ajudado a formar tão maravilhosa criatura.

— Você está certa. Isso me incomodou. E não deveria ter incomodado. Tal sentimento é inaceitável.

Ajeitando-se nas almofadas e jogando o cabelo para trás, a elfa perguntou incisiva:

— E o que seria aceitável?

Lor'themar pensou um pouco.

— A jovem Ashrial merece alguém mais jovem. — começou olhando para a piteira – Alguém para compartilhar a vida, ter filhos. Não posso oferecer isso a ela.

Vivithi arqueou as sobrancelhas.

— Espere. — disse levantando a mão – Quando foi que seu pinto caiu e você não me contou?

A gargalhada foi inevitável. Uma resposta digna de Vivithi. Seria a mesma coisa que o pai da garota diria se estivesse ali.

— Meu pinto continua preso ao meu corpo e ainda funciona, graças a Nascente do Sol. — ele deu uma tragada no narguilé ainda sorrindo – A questão não é essa.

— E qual a questão?

— Questão é que aquela menina é um bebê ainda. — ele parecia falar consigo mesmo – Eu vi Samanthah gestá-la. A vi quando nasceu. Ajudei a trocar suas fraudas. Cheguei a acalentá-la mais de uma vez! — ele respirou fundo – Eu a tirei daquele porão no dia em que meus amigos morreram.

— Baseado em suas palavras, não vejo nenhuma razão para você a evitar. Pelo contrário. Você já vem cuidando dela desde sempre. Esse cuidado só se tornaria mais… — Vivithi deu uma tragada no narguilé e soltou a fumaça lentamente – Íntimo.

— Pelo amor da Nascente do Sol, Vivithi! — Lor'themar se exasperou – Tenho idade para ser o pai dela!

— Mas não é. — retrucou calmamente sua sobrinha.

— Dhomm jamais aprovaria. — continuou.

— Dhomm está morto. — a voz de Vivithi se tornara um pouco mais fria e menos relaxada. Ela também gostara muito de Dhomm e de Samanthah, e aquelas palavras doeram até mesmo nela. — E se ele estivesse vivo, pelo que eu conhecia dele, acho que ele preferiria que sua filha se envolvesse com alguém conhecido. — ela deu de ombros – Pelo menos ele saberia onde te encontrar. E a Samanthah… Ela apoiaria o que a filha quisesse. E sabe minha opinião? A Ash te quer. E muito.

O elfo parecia ainda resistir àquele fato.

— Mas-

Vivithi levantou a mão, o interrompendo.

— Ouça bem tio, porque só vou dizer essa vez. Ela te quer. Se você continuar negando, ela vai desistir. E quando ela desistir, outro aparecerá. Alguém que talvez não tenha o mesmo repeito por ela e sua família como você tem. E que provavelmente não terá nenhum escrúpulo em se envolver com uma elfa muito mais jovem. E será esse cara que deflorará sua pequena Ash, que estará dentro dela, gozando. — Vivithi tragou mais um pouco do narguilé, deixando suas palavras fazerem efeito antes de concluir – E você, ficará se sentindo um velho perdedor se deixar isso acontecer.

Por um instante, Lor'themar desejou que sua sobrinha não tivesse herdado a língua ferina de sua família. Mas sabia que ela tinha razão. Pela Nascente do Sol, aquela menina tinha razão. Se não fosse ele, seria outro. Ash poderia levar algum tempo para esquecê-lo, mas eventualmente o faria. E então ele teria que se resignar a ver alguém cortejá-la. Alguém tocá-la. E se mal pudera suportar vê-la apenas conversando com Kayliel, era de supor que não aguentaria ver alguém fazer algo mais.

— Acalme-se titio. — o tom de Vivithi voltou a ficar suave – Não vá fazer nada precipitado, como correr e cortar a cabeça de Kayliel. Pense no que eu disse. Você verá que eu tenho razão.

O sorriso foi inevitável.

— Você é assombrosamente maravilhosa, menina. — disse ele carinhosamente.

— Eu sei. — falou singelamente – E não se preocupe com Kayliel. Sabemos que ele ainda ama a humana.

Silêncio.

— Ela já respondeu a carta dele? — quis saber o lorde regente após uns instantes.

Vivithi negou com a cabeça.

— Assim que a carta chegar aqui, você saberá.

Ele confirmou com a cabeça.

— Temos que ficar de olho em Kayliel. Para seu próprio bem. — e dando uma última tragada, o lorde regente se levantou – Com ele cuidando de Luxuriah ficará mais fácil mantê-lo na linha.

— Rommath ficará nos devendo essa. — Vivithi também deu suma última tragada e se levantou – Espera eu me arrumar? Vou descer com você.

— Claro, querida. — ele sorriu – Vou aproveitar para procurar vestígios de seu amante secreto no quarto.

Vivithi gargalhou.

— Os lençóis já foram trocados.

E piscou o olho para o tio, que de repente achou que tinha recebido uma informação totalmente dispensável.

*********************

Bebês e morangos. Foram essas as imagens que dominaram os sonhos de Luxuriah. Ela sonhou com uma bela menina de cabelos tão ruivos que os morangos que ela colhia pareciam pálidos. A menina tinha os olhos de Karen e sorriu quando a viu. A pequena elfa, que no sonho devia ter uns quatro anos, não disse nada, mas Luxuriah sabia que era sua filha. Acordou com um aperto na garganta e lágrimas nos olhos. Mas não era de tristeza. Era a emoção de ter tido o primeiro vislumbre de seu bebê. Será que ela teria mesmo aqueles cabelos vermelhos? Seria o primeiro Fendessol ruivo desde seu tio Aethas. Ele ficaria encantado.

A luz do sol entrava graciosamente por entre as cortinas de seda e a elfa sentiu-se estranhamente em paz. Depois de todas as intensas emoções do dia anterior, sonhar com sua filha lhe dera uma calma inesperada. Sim, tinha certeza que seria uma menina. E, como se tivesse sido sussurrado em seu ouvido, sabia qual seria o nome dela. Mas o guardaria por enquanto apenas para si mesma. Seria o primeiro segredo entre elas duas.

Luxuriah suspirou, pôs a mão em seu ventre e sorriu. A dor da perda recente ainda estava lá, mas o amor que brotara em seu coração ao ver, ainda que em seus sonhos, aquele luminoso ser que crescia dentro dela, lhe dera forças para parar de chorar. Levaria algum tempo até se recuperar, se é que um dia se recuperaria, mas até lá, poderia devotar todo seu amor a alguém e nada esperar em troca. E isso seria o suficiente. Ver seu pequeno milagre vivo e feliz. Aquilo seria suficiente por milênios.

Inevitavelmente pensou em seus pais e na reação que eles teriam sobre a sua gravidez. Samanthah ficaria radiante; era possível até que estivesse grávida também e mãe e filha dividiriam a experiência juntas. Dhomm surtaria, ameaçaria, caçaria e tentaria matar quem engravidara sua pequena Lulu, mas, por fim se, renderia ao papel de avô e seria o elfo mais feliz do mundo. Infelizmente eles não estavam lá para se alegrar junto a ela. Então, compartilharia sua alegria com suas irmãs e Tewdric. E no fim, tudo ficaria bem.

Porém, uma pequena semente de preocupação começou a se fincar com afiadas garras nos recantos da mente da caçadora. Ela era uma princesa agora. E uma princesa solteira e grávida. Se ainda estivesse apenas com o título de Lady Fendessol, que herdara da avó, já estaria preocupada. Os elfos sangrentos não eram muito acessíveis quando se tratava de filhos ilegítimos. Tanto é que só passaram a respeitar a memória de seu pai quando ele fora reconhecido pelo rei. Seria sua filha forçada a passar pelo que seu pai passara? Não, não queria pensar naquilo agora. Queria se focar em conseguir se levantar daquela cama, tomar um longo e relaxante banho, e depois encarar o mundo.

Estava na hora de Luxuriah Fendessol voltar à luta.

*************************

As servas já haviam posto a mesa de café da manhã quando Kassyeh, Tewdric e Karen desceram. No dia anterior, a maga tinha dado ordens às servas que cozinhassem aquela refeição, pois ela não sabia como seria a manhã seguinte. E foi com surpresa que viu sua irmã Ash acompanhada de Kayliel já degustando da refeição quando chegaram à sala de jantar.

— Ei… — falou Ash colocando a mão na cabeça de Karen assim que a irmã sentou-se ao seu lado – Como você está?

— Bem. — disse a menina olhando-a com um sorriso mais leve que no dia anterior.

Ash olhou discretamente para Kassyeh, que apenas acenou com a cabeça. Não havia motivos para preocupação, Karen apenas precisara de um tempo. A maga então cumprimentou Kayliel e sentou-se à mesa junto com Tewdric. O orc estava incomodado, olhando para Kayliel fixamente. O elfo, contudo, não reparara.

Pouco tempo depois, Aethas chegou. Kassyeh logo percebeu que havia algo de errado com seu tio. Ele ostentava uma pequena ruga de preocupação entre as sobrancelhas, mas sorriu abertamente quando as viu. O arquimago se aproximou da sobrinha mais jovem e sentou-se ao lado desta.

— Como estamos hoje? — perguntou ele com uma empolgação fora do comum.

— Eu estou bem. — respondeu Ash – Mas a Karen vai ficar com fome, pois vou roubar a comida dela, caso ela continue apenas brincando com os talheres. — e para ratificar o que dissera, tirou um pedaço de panqueca do prato da menor.

— Ei! — protestou a menina, tentando pegar de volta sua comida.

Todos riram. Karen parecia realmente bem melhor do que na noite anterior.

— Sei de uma coisa que poderia ter animar. — Aethas abriu o sorriso – Que tal um passeio em Dalaran?

Foi como se o mago tivesse invocado uma tempestade de gelo na sala.

— Não. — Ash e Kassyeh falaram ao mesmo tempo, assustando o tio.

O arquimago entendia os motivos para Luxuriah ser contra ir a Dalaran, mas não imaginava que as outras pudessem se opor com tanta veemência. Ficou se perguntando se era a hora certa de dizer que teria que partir o mais rápido possível de volta para a cidade flutuante, que sua estadia já havia a muito se alongado e que sua presença em Luaprata começara a ser questionada. Mas, apenas em encarar Ash e Kass, Aethas pensou que era melhor deixar a discussão para outra hora.

Naquele momento, Lor'themar e Vivithi entraram na sala de estar. O coração do arquimago disparou ao ver Vivithi. O de Lor'themar disparou ao ver Ash. E o lorde regente estreitou os olhos ao ver Kayliel na mesa, como se pertencesse à família.

— Bom dia para todos. — cumprimentou o lorde regente. E se dirigindo até onde estava Karen, perguntou preocupado – Majestade, como está hoje?

— Tio Aethas quer me levar para Dalaran. — disse a menina sem nenhuma cerimônia.

— Você está louco?! — perguntou Vivithi já com a voz alterada – Você não vai levar essa menina para lugar nenhum, principalmente aquele!

Aethas foi pego de surpresa pela intensidade da negativa de Vivithi. O arquimago chegou a engasgar tentando achar uma resposta.

— Foi apenas uma proposta. — acabou dizendo, sem entender porque não conseguia articular um insulto de forma coerente para a elfa.

— Uma proposta bem bosta, devo dizer. — a elfa se sentou pesadamente na mesa, de frente para Karen.

— Concordo com minha sobrinha, apesar do palavreado. — disse Lor'themar e, encarando Aethas, perguntou – Você sabe o risco que ela correria lá?

O arquimago percebeu que estava sozinho naquela discussão, por isso nem mesmo respondeu. Apenas levantou as mãos, em sinal de desistência e se calou. Quando seus olhos se encontraram com os de Vivithi, viu um pequeno sorriso de vitória nos lábios dela. Será que seria assim a partir de agora? Ele não teria mais forças para enfrentá-la? Esperava que fosse apenas uma consequência de toda a tensão que pairava sobre a torre.

— Por que ressuscitar esse assunto agora? — quis saber Kassyeh, ainda incomodada com a resposta do tio – O senhor saber que a Lux jamais permitiria. Quer incomodá-la agora?

— De forma nenhuma! — defendeu-se Aethas, triste pelo fato de ser confrontado logo por Kassyeh – Foi apenas uma sugestão boba, esqueçam.

— Por acaso essa sugestão tem a ver com o fato de que você recebeu uma carta de Dalaran mais cedo? — quis saber Lor'themar.

Todos viraram a cabeça para Aethas com olhares inquisidores. O arquimago suspirou.

— Não. — e realmente não tinha – Como eu disse, foi apenas uma sugestão boba.

— O que foi uma sugestão boba?

Todos se assustaram ao ouvir a voz de Luxuriah. Ela estava de pé, na porta da sala de jantar, com uma de suas roupas de cavalgada mais confortáveis. O cabelo preso em um rabo de cavalo e, incomumente, havia abandonado o salto. Sua face estava um pouco pálida, mas as olheiras haviam sumido.

— Lux! — gritou Karen se levantando de sua cadeira e correndo até a irmã.

Luxuriah retribuiu o abraço de Karen com a mesma intensidade e depois guiou a menina de volta para a mesa. Sentou-se na cabeceira, ao lado de Karen e Ash, que ostentava um enorme sorriso. E não eram as únicas. Todos estavam felizes de vê-la ali.

— É bom te ver toda bonitona pela manhã, Lulu. — disse Tewdric com um sorriso animado.

— Eu sempre estou bonitona. — respondeu a elfa com o tom provocativo, mas sorrindo.

Todos sorriram, aliviados. A elfa parecia bem melhor do que no dia anterior.

— Quer que eu faça algo para você? — perguntou Kassyeh já se levantando.

— Não. Sente. — falou apontando para a cadeira e Kassyeh sentou-se — Não quero ninguém preocupado comigo. Vamos apenas comer, enquanto nosso tio me explica o que está havendo.

Aethas desejou ter ficado calado. Onde diabos estava com a cabeça ao fazer aquela proposta ridícula? Claro que não poderia simplesmente levar Karen para Dalaran. Havia uma grande probabilidade de ser mal interpretado pelo Kirin Tor, além da fúria que despertaria em sua sobrinha mais velha. E Luxuriah não já estava numa gangorra emocional grande demais para que ele lhe trouxesse mais problemas? Só podia ser culpa do que Vivithi fazia em sua cabeça nos últimos dias. Era a única explicação. De que outro modo ele, sempre tão ponderado, falaria algo tão absurdo depois da situação do dia anterior? O olhar de Luxuriah se mantinha sobre ele e Aethas pigarreou antes de falar.

— Recebi uma carta do Kirin Tor hoje pela manhã. — disse cautelosamente.

A elfa arqueou as sobrancelhas.

— Onde eles diziam que sua estadia estava longa demais e que isso era suspeito? — perguntou Luxuriah enquanto uma serva enchia seu copo de suco. — Que você não devia ficar mais tempo aqui ou seria de alguma forma julgado? É isso?

O arquimago ficou pasmo.

— Como você…

— É fácil de deduzir. — explicou a caçadora dando de ombros – Isso é bem típico dos humanos.

Aethas não era o único impressionado com a fala de Luxuriah. Suas irmãs e os outros na mesa estavam igualmente surpresos. Esperavam uma explosão de Luxuriah, mas ela não ocorrera. Então a mais nova achou melhor contar logo toda a situação.

— Ele quis me levar. — disse Karen sem rodeios.

Luxuriah o encarou novamente, agora com os olhos em chamas e segurando o copo com muita força.

— Foi uma ideia idiota! — falou o arquimago rapidamente levantando as mãos – Esqueça.

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Isso pareceu aplacar a ira dela. A elfa bebeu um pouco de sua taça e beliscou um pouco do pão que estava à sua frente.

— Quando o senhor vai? — perguntou a elfa olhando diretamente para o tio.

Ninguém notou quando Vivithi se mexeu incomodada na cadeira. Ela ainda não havia ponderado sobre a partida de Aethas e não entendeu porque aquilo a incomodou tanto.

— Lux... — começou Aethas cauteloso – Eu quero que você saiba…

— Não precisa explicar. — cortou a elfa – Eu sei da importância da sua posição em Dalaran. Não concordo com nossa presença lá, mas sei que é necessário. Para a Horda. Para nosso povo. Então, não ficarei chateada com você, tio.

Aethas sentiu um alívio imenso. Achou que teria mais problemas para convencer Luxuriah de sua partida, mas a sobrinha aceitara, sem nenhuma resistência. Podia não concordar, mas entendia. E isso era o suficiente. Será que isso já era por causa de sua gravidez? Será que Luxuriah teria posicionamentos mais ponderados, levando em consideração que, em breve seria mãe? Ou seria fruto de sua ascensão a princesa? Ele não sabia nem se atreveria a perguntar. E, apesar da urgência da carta de Modera, ele ficaria ali mais um dia. Queria ter certeza que tudo estaria bem com Luxuriah. Com o Kirin Tor, ele se entenderia depois.

— Partirei amanhã. — disse o arquimago — E voltarei novamente assim que possível.

Com essas palavras, se estabeleceu a paz durante o café da manhã.

Todos comeram bem, e a refeição foi permeada de algumas conversas, a maioria entre Kayliel, Ash e Kassyeh. Luxuriah se limitou a responder algumas perguntas e observar que tanto Tewdric quanto Lor'themar estavam incomodados com a presença do sacerdote. Ela entendia o incomodo de Tewdric: o elfo estava sentado ao lado de Ash e eles pareciam ter ficados bem amigos desde o dia anterior. A atitude do orc era motivada obviamente por ciúme paternal. E quanto a Lor'themar… Bem, tudo que ela conseguia imaginar era que o lorde regente estava com ciúmes também, mas o ciúme dele era bem diferente daquele sentido por Tewdric. Luxuriah sorriu.

Ver Kayliel ali a fez lembrar do dia anterior. Sabia que um dos motivos de estar se sentindo melhor tinha sido os morangos de Rommath. Talvez não tanto pelos morangos, mas pelo gesto preocupado dele. Luxuriah gostava de Rommath. Não da forma como ele queria, mas tinha simpatia pelo mago.

— Kayliel. – chamou ela – Onde está Rommath? Gostaria de agradecer a ele por ontem.

— Acredito que ele aparecerá aqui em breve, Lux. — disse o sacerdote – Ele estava colhendo mais morangos para você hoje.

A boca de Luxuriah se encheu de água e ela ficou animada.

— Ah, espero que ele não demore então. – comentou – Essas panquecas ficaria ótimas com morangos.

— Quer que eu mande pegar morango na cozinha? — perguntou Kassyeh.

Luxuriah fez que não com a cabeça.

— Os morangos da casa de Kayliel são diferentes. São mais saborosos. — ela sorriu – Acho que Rommath deve por algum encanto neles ou algo assim.

— Não duvido nada. — concordou Kayliel sorrindo também – Ah, Lux, depois do café gostaria de examiná-la. Quero ver se estar tudo bem.

Por um momento todos pensaram que Luxuriah negaria o exame, mas, surpreendentemente, a elfa concordou imediatamente.

— Claro. É bom mesmo. É melhor ficarmos atentos a qualquer coisa.

— Ah, mas estará tudo bem. — quem falou foi Kassyeh – A Lux é saudável, essa gravidez vai ser muito tranquila.

Claro que essa opinião de Kassyeh era apenas porque a maga nada sabia sobre o que acontecera com sua irmã. O mesmo valia para Karen, que agora discutia alegremente com a irmã o quanto brincariam com o bebê quando este nascesse. Ash e Luxuriah se entreolharam rapidamente, se sentindo um pouco culpadas pro esconder aquilo de suas amadas irmãs. E para Ash, era um problema a mais: como ela sugeriria que Kayliel morasse ali sem que Kass desconfiasse de nada.

O socorro veio de onde menos se esperava.

— Eu estou um pouco preocupado. — Tewdric falou seriamente – Sei que para os padrões de sua raça, vocês são muito jovens. E fêmeas muito jovens que engravidam costumam a ter muitos problemas na primeira vez. — ele balançou a cabeça – Temos que ter muito cuidado com a Lulu. É muito importante que ela tenha um médico perto tempo todo.

Ash viu que ali estava sua oportunidade. Como amava Tewdric!

— Exatamente Ted! — concordou animada – A Lux precisa ser acompanhada o tempo todo. Ela sofreu emoções demais nesse primeiro momento. Por isso, sugiro que Kayliel se mude para cá, para cuidar da Lux em tempo integral.

Lor'themar ficou tão surpreso com a fala de Ash que apertou a taça de suco com tanta força que a partiu ao meio. Para disfarçar, ele a derrubou no chão antes que alguém percebesse. Ninguém, além de Ash, olhou para o elfo. Seus olhos se encontraram por um momento e depois ela desviou a vista, como se a presença dele fosse simplesmente incômoda. O coração de Lor'themar se apertou. Ele então limpou a mão em um lenço. Não havia cortado a mão, mas parecia que havia cortado o coração.

Enquanto uma serva limpava os restos da taça no chão, havia uma nova empolgação na mesa.

— Acho uma excelente ideia! — concordou Kassyeh entusiasmada. — Assim se a Lux sentir qualquer coisa, terá uma assistência imediata.

Karen assentiu com empolgação.

— Se o Keke vai tá sempre por perto para a Lux quando ela precisa, é bom se mudar logo mesmo.

— Keke? — estranhou Kayliel.

— É seu novo apelido. — comentou Karen singelamente.

— Fico lisonjeado, majestade. — apesar de sua fala, Kayliel parecia muito mais envergonhado que lisonjeado com o apelido.

— Humm… Desde que ele esteja aqui e faça apenas seu trabalho, tudo bem. — disse o orc olhando fixamente para Kayliel, que não estava entendendo muito bem o que Tewdric queria dizer.

— Também concordo. — Aethas finalmente falou – Eu ficaria mais tranquilo em Dalaran se soubesse que minha sobrinha terá suporte a qualquer momento.

— Claro, porque sua tranquilidade é mais importante, não né? — provocou Vivithi.

Aethas já estava abrindo a boca para responder quando Luxuriah bateu com o copo na mesa, atraindo a atenção de todos.

Para Luxuriah, ter alguém a todo momento verificando seu bem-estar seria muito perturbador. Não estava costumada com o cuidado que todos queria agora dispensar a ela. Contudo, sabia que tinha muito mais coisas em jogo do que seu orgulho. Lembrou de sua pequena elfa colhendo morangos e decidiu.

— Gostei da ideia. — respondeu ela para o alívio de sua família – Você estaria disposto, Kayliel?

Kayliel pensou em Arshe. Era inevitável. Se perguntou se ela se sentira da mesma forma quando lhe fora oferecido o título de princesa e a linha de sucessão em Ventobravo. Pela primeira vez se perguntou se ela não teria hesitado, da mesma forma como ele hesitava agora, enquanto pensava nos dois. Bem, se havia algum culpado daquela situação, era ele próprio. Nunca deveria ter ido embora. Nunca deveria ter desistido dela. Seria tarde demais?

— Estou mais que disposto, Lux. — respondeu com reverência – Não apenas porque você agora é uma princesa, mas porque é minha amiga e confia em mim. Ficarei feliz de cuidar de você e de sua criança.

Quem não parecia muito feliz com a resposta de Kayliel era Lor'themar, e sua sobrinha discretamente o chutou por baixo da mesa. Era óbvio o que ela queria dizer: se controle. Então, o lorde regente fez um esforço para parecer satisfeito como os demais.

— Ótimo! — comemorou Luxuriah – Lor'themar, pode verificar com os servos um quatro para o Kayliel?

— Claro. — o elfo deu um sorriso que não a convenceu – Farei o possível.

E então Luxuriah percebeu que a estadia de Kayliel, além de útil, seria bem divertida também.

********************

Se havia uma coisa que Lina desejava, naquele momento, era sua cama. Depois da noite em claro e agora que sabia que Arshe estava fora de perigo, sua adrenalina baixou significativamente, o que a deixava lenta e sonolenta. Então mandou que lhe fizessem um café bem forte, tomou tudo sem açúcar e foi andar pelo vilarejo, verificando tudo mais uma vez. Tinha a sensação que estava se esquecendo de alguma coisa, e era isso que a impedia de se deitar no tapete da prefeitura e tirar um cochilo.

Depois que deu uma milésima volta pelas redondezas sem achar nada de estranho, resignou-se a dormir um pouco, deixando aqueles que já estavam descansados de prontidão. Talvez, se dormisse um pouco, poderia lembrar aquilo que estava lhe escapando.

Decidiu dar uma olhada em Arshe antes de procurar um lugar para se encostar. Foi em direção ao quarto, após dar mais algumas ordens e viu que ele estava vazio. Ficou sem ação por um momento, até ouvir um barulho de vozes vindo da porta ao lado. Bateu lá.

— Doro? Arshe?

— Pode entrar. — disse a princesa.

Era uma sala de banho. Logo que entrou, Lina foi atingida por um perfume delicioso de erva doce e fechou a porta para não deixar o vapor de água escapar. Arshe estava dentro de uma bela banheira branca e Doroteya lavava seu cabelo. Lina não segurou a risada. Arshe, mais que nunca, parecia uma menininha de doze anos sendo banhada pela mãe.

— Doro está me ajudando a tomar um banho. — disse a maga como se aquilo não fosse óbvio – Eu estava fedendo a doença.

— Coloquei algumas ervas aromáticas para desintoxicar o corpo dela também. — disse a druidesa, que estava em sua forma humana. Lina acreditava que isso era para não deixar o ambiente com cheiro de cachorro molhado.

— Se isso vai fazer você se sentir melhor, está ótimo. — disse a comandante – Vou mandar que venha alguém trocar seus lençóis enquanto você termina.

— Obrigada Lina! — agradeceu a princesa antes de perguntar – Mas ainda vamos ficar muito tempo aqui?

— Assim que eu estiver ciente que está tudo bem, voltaremos. — respondeu — Vou mandar trazer uma carruagem para que você volte com conforto para casa.

Os olhos de Arshe brilharam como de uma criança.

— Muito obrigada Lina! O que seria de mim sem você?

— Provavelmente você estaria morta ou presa nesse momento. — falou a comandante sem nenhum arrodeio. — Então esteja agradecida mesmo.

Arshe e Doroteya riram. Por fim, Lina as acompanhou.

— Vou pedir que preparem o quarto. E depois vou colocar Jon no comando. — ela respirou fundo e massageou o pescoço – Acho que preciso de um cochilo rápido.

Doroteya franziu a testa.

— Você não precisa de um cochilo rápido, você precisa de uma noite de sono. — corrigiu ela.

— E de ajeitar o cabelo. — completou a princesa – Já viu como ele está?

Lina passou a mão pelos cabelos e entendeu o que Arshe dizia. Seu longo cabelo negro agora estava ralo e chamuscado nas pontas. Por sorte, o couro cabeludo escapara do fogo da noite anterior. Seus irmãos iam surtar quando vissem aquilo.

— Acho que vou ter que cortar. — comentou depois da análise. — Peço pra Fey ou Mel fazerem isso quando eu chegar em casa.

A princesa fez uma careta.

— Deveria cortar logo. — opinou Arshe – Você não vai querer que meu tio te veja assim, não é?

A jovem parecia sinceramente preocupada com essa hipótese. Lina riu sendo acompanhada por Doroteya.

— Ele já me viu pior. — disse lembrando de Nortúndria e depois do confronto com a gosma demoníaca dias atrás.

— Mas antes você não era… — ela baixou a voz e gesticulou com a mãos – Você sabe…

— Sei, sei… — era impossível não ficar impressionada com Arshe. Ao que parece, depois que revelara seu segredo, a princesa tirara um peso enorme das costas e parecia mais relaxada e feliz. Havia um brilho nela que Lina não notara antes. Talvez, esse brilho estivesse apagado há muito tempo. — Tudo bem, tudo bem. Poderia cortar meu cabelo, Doro?

— Claro! — agora a druidesa enxaguava os cabelos de Arshe – Quer que eu prepare um banho para você também? Vai ajudá-la a relaxar.

Relaxar era a última coisa que a comandante queria. Ainda tinha algo que a incomodava. Mas talvez um banho a fizesse lembrar.

— É uma boa ideia.

Arshe terminou o banho e se levantou da banheira, recebendo uma toalha de Doroteya. Lina se surpreendeu com a magreza da moça. Ela precisava urgentemente ganhar peso.

— Você precisa comer mais. — como se lesse os pensamentos de Lina, Doroteya foi a autora do comentário – Você está muito magra. Seus seios estão quase sumindo!

— Não tive vontade de comer nos últimos dias. — se justificou enquanto enxugava o corpo.

— Pois terá que comer agora. — sentenciou Lina seriamente – Ganhar um pouco de corpo e perder essa aura de doença. E tomar um pouco de sol também, pela Luz! Quer ser confundida com um morto-vivo?

Arshe abriu um enorme sorriso.

— Estou gostando dessa história de irmã. — ela falou empolgada como uma criança – Faz tempo que não ouço uma bronca tão carinhosa.

— Vai ouvir muitas broncas a partir de agora. E a maioria não será carinhosa. — alertou Lina.

— Estarei preparada. — garantiu a outra.

— Veremos.

A maga não parecia intimidada, mas sim muito feliz. Lina não pode deixar de compará-la a Mel e Fey. Ela parecia muito com aqueles dois. Talvez tenha sido por isso que elas conseguiram firmar aquela ligação. Doroteya parecia muito satisfeita com tudo e Lina teve a impressão que ela seria muito mais como mãe de Arshe do que como irmã. É, no final das contas, talvez a Luz tivesse feito a princesa sofrer o ataque com o plano de uni-las: era óbvio que Arshe precisava de suporte emocional. Apesar de ela ter Varian e Anduin, que a amavam muito, ter alguém para se revelar, sem medo, era um diferencia grande na vida de alguém como Arshe.

Agora, que estava devidamente banhada, Arshe sentou-se um banco de madeira no banheiro, e Doroteya passou a pentear lentamente os cabelos. A comandante saiu da sala de banho por um momento, gritou por alguém lá fora e deu ordens para que o quarto fosse limpo. Foi o tempo de Doroteya, usando suas magias de druidesa e após pentear Arshe, dar um sumiço na água usada e encher a banheira de água límpida e cristalina. Depois, a encheu de óleos e ervas e esquentou a água com um pouco de magia natural. O perfume logo se espalhou novamente pelo ambiente.

Lina então começou a tirar a armadura. Era impressionante como sua indumentária estava imunda e ela não reparara. Havia até mesmo manchado seu tabardo de sangue e se perguntava de quem seria. Tirou também as luvas, vendo suas mãos vermelhas pelo esforço. E foi quando tirou o peitoral e a camisa de algodão que descobriu o que a estava incomodando.

— Ah! — gritou Arshe assustada – Lina! — ela apontou – Tem um pedaço de flecha em seu ombro!

Então era isso que ela tinha esquecido.

— Oh! — exclamou calmamente a comandante tocando levemente com o dedo no pedaço de madeira cravado em sua carne.

Doroteya e Arshe estavam chocadas com a tranquilidade da outra.

— Pela Luz, porque não me contou?! — Doroteya veio ligeira em sua direção, profundamente preocupada.

— Eu esqueci. — disse casualmente.

— Como você pode esquecer que levou uma flechada?! — Arshe estava visivelmente assombrada.

— Ah, eu tinha tirado a haste e, como não a vi, esqueci. — justificou.

Nesse momento, a porta do banheiro se abriu com um estrondo. Dois guardas, com as armas em riste apareceram, alarmados. Arshe gritou novamente e se encolheu atrás da banheira. Lina simplesmente virou-se e os olhou, irritada.

— O que vocês pensam que estão fazendo?!

Os soldados ficaram sem voz. Doroteya se perguntou se isso se devia ao fato da irritação da comandante, da ponta da flecha em seu ombro, ou se era porque seus seios estavam a mostra.

— E então?! — perguntou ela de novo.

Os rapazes bem que tentavam responder, mas pareciam estar mais preocupados em tentar não olhar os seios da comandante. Doroteya então pegou uma toalha e levou até Lina, que a enrolou nos seios. Os rapazes pareceram sair do estupor.

— O grito… — murmurou um deles vermelho até a raiz do cabelo.

— A princesa gritou e achamos que tinha acontecido algo… — murmurou o segundo, tão vermelho quanto o outro.

Bem, não era de se estranhar, pensou a comandante. O clima ainda estava tenso e era óbvio que seus soldados estavam a postos para qualquer eventualidade. Ficou satisfeita em ver que eles agiram tão rápido.

— Não aconteceu nada. — disse a comandante – Ela só se assustou com isso. — e apontou para a flecha em seu ombro.

A vergonha dos seus soldados se transformou rapidamente em preocupação.

— Comandante, como isso aconteceu?! — perguntou um deles preocupado

— A senhora precisa se cuidar! — completou o outro ansioso.

— Farei isso assim que vocês saírem daqui. — respondeu – Vocês estão assustando a princesa. — e apontou para Arshe encolhida atrás da banheira.

Não foi preciso mais nada para que só rapazes pedissem mil desculpas, implorassem perdão e saíssem rapidamente do banheiro. Doroteya se adiantou e trancou a porta. Arshe se levantou de seu esconderijo, com o rosto em brasa.

— Eles viram seus seios! — falou a princesa alarmada.

— E daí? — quis saber a comandante enquanto era posta em um banco e examinada pela worgenin.

— Eles não vão sair por ai falando que viram? — a princesa estava, com certeza, muito preocupada com a reputação da comandante. Porém, Lina caiu na gargalhada.

— Meus soldados não são como os nobres que você conhece, princesa. Eles são honrados. Não falarão nada. E se falarem... — ela deu uma pausa e sorriu – Eles sabem o que os esperam.

Arshe se aproximou de onde estava a comandante, enquanto Doroteya analisava o ferimento.

— Você não lembrou da flechada que levou... — a princesa simplesmente não conseguia acreditar – E não está doendo?!

— Todo meu corpo dói. — respondeu a comandante com simplicidade – Mas já estou acostumada com essa sensação.

— Preciso cuidar disso logo, está inflamando já! — Doroteya estava alarmada – Vou pegar minhas coisas!

E saiu da sala do banho intempestivamente. Ela voltou logo em seguida, com sua maleta e passou a trabalhar no ombro de Lina. Limpou a ferida, analisou a profundidade em que a flecha entrara na carne e, por fim, falou:

— Vou ter que arrancar ela daí de uma vez só. — alertou a worgenin pegando um alicate enrolado em algumas ervas – Já está esterilizado. Vou apenas preparar um anestésico para você.

— Não precisa de anestésico. — falou Lina impaciente – Só arranque isso logo.

— Sem anestesia?! — Arshe parecia ainda mais impressionada.

— Já fiz isso antes. — explicou a comandante como se estivesse falando de uma coisa casual como cortar as unhas.

Doroteya hesitou um pouco, mas, por fim, colocou o alicate na ponta de madeira e a puxou com força. Lina grunhiu um pouco enquanto uma quantidade significativa de sangue espirrou e começou a jorrar da ferida. Arshe, ao ver aquilo, simplesmente sentiu suas pernas fraquejarem e apagou completamente.

— Acho que ela desmaiou. — comentou Lina fazendo uma careta. Doroteya não sabia se era de dor ou de consternação pelo desmaio de Arshe.

— Cuido dela daqui a pouco. — disse a worgenin – Vou primeiro limpar e fechar isso.

Quando Arshe acordou, com uma forte erva em seu nariz, o ombro de Lina já estava devidamente curado e não havia mais sinal de sangue no banheiro.

— Olá, dorminhoca. — brincou a comandante – Não consegue ver um pouco de sangue? — e riu.

— Um pouco? — Arshe se levantou, respirando fundo – Era praticamente um rio de sangue!

Lina riu mais um pouco, acompanhada por Doroteya. Depois de um tempo, Arshe riu também. E foi a vez da comandante ser ajudada no banho. Arshe observava enquanto Doroteya lavava os cabelos de Lina e percebeu a quantidade de cicatrizes que a comandante tinha. Havia sinais de queimadura, de mordidas, de cortes… Quantas batalhas aquele corpo já não enfrentara antes? Sentiu-se de repente muito pequena e insignificante perto daquela mulher.

— Você já passou por muita coisa, não é Lina? — perguntou a princesa timidamente.

— Você nem imagina quanta. — e sorrindo, completou – Um dia te conto.

— Pela quantidade de cicatrizes, acho que não levara apenas um dia. — retrucou.

Lina riu antes de concluir:

— Provavelmente.

Ficaram um tempo em silêncio, enquanto Doroteya terminava de lavar os cabelos de Lina. Logo depois, pegou uma tesoura em suas coisas e passou a cortar fora todo o cabelo queimado. Arshe sentiu um aperto no peito e passou a mão nos próprios cabelos. Eles eram mais longos e mais escuros que os da comandante e ela os amava. Teria se sentindo péssima se algo tivesse acontecido com eles. Para Lina, porém, não parecia haver nenhum problema com as mechas sendo cortadas fora e caindo ao redor da banheira. E depois que Doroteya terminou, o cabelo da comandante estava pouco abaixo das orelhas, cortados uniformemente e inesperadamente lhe davam um ar muito mais juvenil que antes. Quando recebeu um espelho e viu sua aparência, Lina suspirou.

— Pareço ter dezoito anos de novo. — disse melancólica.

— Não é fantástico? — exclamou Arshe satisfeita.

— Não muito. — a comandante baixou o espelho – Parecer mais jovem atrapalha meu serviço.

— Deixe disso, Lina. — ralhou Doroteya – Sua autoridade vem de seus olhos e não de seus cabelos.

— E cabelos sempre podem crescer de novo. — completou a princesa.

Lina deu de ombros, mas estava sorrindo. E terminado o banho, se ofereceu pra ajudar Doroteya a limpar tudo, mas tanto ela como Arshe foram postas para fora do banheiro, com a ordem de descansarem um pouco. Como não estava muito a fim de discutir com alguém que podia se transformar em uma besta destroçadora de gargantas, a comandante assentiu e acompanhou Arshe ao quarto. Quando chegaram lá, não apenas os lençóis de Arshe haviam sido trocados, mas o quarto estava limpo e haviam duas camas de armar montadas. O peso do que acontecera nas horas anteriores pesaram pensadamente sobre Lina, que se atirou em uma das camas, sem se importar de vestir uma roupa e se enrolou nos lençóis.

— Só um cochilo… — murmurou a comandante.

— Bom sono Lina. — disse Arshe vestindo seu pijama.

Mas a comandante já adormecera.

Notas finais
Desculpem a demora! Espero que gostem!!!