Herdeiros da Guerra

25 Capítulo XX – A proposta (PARTE II)


Notas iniciais
Música do capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=uo2Bq7kdApQ

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Rommath não dormira na noite anterior e insônia não era bom para magos. Uma noite sem dormir significava pensamentos confusos, pouca concentração para magias e uma propensão imensa para tomar decisões erradas. Porém, ele se sentia bem, apesar de cansado. Passara a noite pensando em Luxuriah e em como a vida dela mudaria. Há muito tempo desistira de tentar encontrar um caminho rápido para coração dela e se resignara a esperar. Contudo, ela nunca estivera tão próxima. E tão distante. Suspirou e sorriu. Decidira que iria vê-la naquele dia.

Primeiramente ele cuidara da aparência. Banho, boas vestes e um pouco do perfume que sabia que ela amava quando usava. Depois, a parte principal: morangos. Seu quintal estava cheio deles. Era uma fissuração de sua mãe, quando esta era viva, e depois de sua morte, ele e Kayliel decidiram preservá-los. E como eram aquelas belas plantas e seus frutos que o faziam lembrar da majestosa elfa que Lady Tinuviel fora um dia, Rommath as tratava com esmero, como se fossem pequenas crianças que precisavam de afeto, carinho e cuidado todos os dias. Talvez isso os fizessem ter um gosto tão distinto dos outros. Talvez por isso Luxuriah os adorava.

Colheu uma pequena, mas generosa cesta de morangos e então teleportou para a Torre Solfúria. Chegou lá no exato momento em que Lady Liadrin e um jovem cavaleiro sangrento adentravam no local. A elfa o avistou, olhou para a cesta de morangos e sorriu maliciosamente.

— Grão-magister Rommath. — saudou com pompa – Como sempre, não perde tempo em ir atrás de seus interesses.

— Matriarca dos Cavaleiros Sangrentos, Lady Liadrin. — disse e fez reverência. — Como sempre, acompanhada de um elfo muito mais jovem e que poderia ser seu neto.

O jovem elfo ficou vermelho de vergonha e baixou a cabeça. Lady Liadrin, ao contrário, gargalhou sem constrangimento. Rommath sorriu também. Quando se é um dos poucos elfos remanescentes dos mais antigos, uma intimidade estranha surge. Foi o que acontecera com ele, a matriarca e o lorde regente. Logo, estavam os dois elfos mais velhos caminhando a frente, tendo o jovem elfo caminhando alguns passos mais atrás.

— Fui pega de surpresa com as notícias. — confidenciou a elfa – Achei realmente que o tauren era uma boa pessoa.

— Não é questão de bondade. É questão de maturidade. — refletiu o mago.

Lady Liadrin arqueou uma sobrancelha.

— Parece até que o está defendendo, Rommath.

— Estou apenas relatando um fato. — disse incisivo – Não duvido que ele gostasse dela como afirmava, mas obviamente apenas o amor nem sempre é o suficiente para fazer um relacionamento florescer.

— Parece também que você andou pensando bastante nisso. — completou.

Rommath deu de ombros.

— E quem nesta torre não está?

A elfa não respondeu e continuaram andando. Um servo informou-lhes que as princesas tinham acabado de terminar o café da manhã e se reuniram na sala de estar, onde conversavam com o lorde regente e outros. Rommath sentiu o coração disparar um pouco, mas nada demonstrou. Se encaminharam e logo chegaram a sala.

Luxuriah foi a primeira coisa que Rommath viu. Ela estava em pé, próxima à varanda, e o sol banhava sua pele morena. Só havia uma palavra que expressava o que elfo sentiu naquele momento. Deslumbre. Luxuriah estava deslumbrante. Fazia tempo que ele não a via tão perto, excetuando-se quando a vira desmaiada. Mas ali estava ela, com toda sua exuberância. E não pode deixar de notar que a gravidez apenas a deixara mais linda. Sua pele estava radiante, suas bochechas

rosadas e proeminentes e seu corpo adquirira ainda mais curvas. O mago chegou a engasgar diante da visão da princesa. E foi o somente quando Karen falou, que ele saiu de seu torpor.

— Olha! Chegou o Romrom e a Lili!

Foram alguns segundos para que Rommath e Liadrin percebessem que eram deles que a futura rainha estava falando. O mago esperou que houvessem risadinhas, mas ninguém o fez. Com certeza, estavam acostumados com a espontaneidade da futura rainha. Sorriu para a pequena elfa que, de pronto, veio ao seu encontro e, para sua surpresa, o abraçou forte.

— Obrigada Romrom! Você fez a Lux ficar melhor!

Rommath olhou para Luxuriah novamente e viu que ela também o olhava. E, para a sua surpresa, ela sorriu. Com o coração aos pulos, o mago voltou sua atenção a Karen.

— Não precisa agradecer, majestade. Foram apenas alguns morangos.

Karen fez um bico, contrariada.

— Mas eles deixaram a Lux bem, então não foram “só” morangos! — e soltando o mago, viu a cesta – Olha Lux! Ele trouxe mais!

Rommath nunca se sentia constrangido em ser o centro das atenções, mas estava naquele momento. Talvez fosse Karen que o deixava daquele jeito, ou fosse Luxuriah, que fixou seus olhos nos dele. Ou talvez fosse Tewdric, que apanhara o machado do chão e agora alisava sua lâmina, sem tirar os olhos dele.

Lady Liadrin então se adiantou e fez uma reverência a Karen.

— Majestade. Estou satisfeita em vê-la tão animada.

— Estou animada porque a Lux tá melhor. — disse a menina sem nenhum constrangimento.

— É um excelente motivo.

Foi então que Karen percebeu o elfo um pouco atrás da matriarca.

— É seu namorado, Lady Liadrin?

— Karen! — ralhou Ash.

Dessa vez houve alguns pigarros constrangidos, mas a matriarca os ignorou.

— Majestade, esse é Snetto, um dos melhores Cavaleiros Sangrentos da nova geração. — falou tranquilamente como se a menina não tivesse dito nada — Gostaria de solicitar que ele fizesse parte de sua guarda pessoal.

Snetto deu um passou a frente e fez uma profunda reverência a Karen.

— Seria uma honra para mim servi-la em sua guarda pessoal, majestade. — disse o elfo formalmente.

A pequena elfa franziu a testa. Por um momento Snetto achou que ela não gostara dele e ficou apreensivo.

— Eu não tenho guarda pessoal. — revelou por fim.

Ambos paladinos ficaram chocados com a informação e o olhar de Lady Liadrin foi direto para Lor'themar.

— Sem guarda pessoal? — perguntou a elfa erguendo a sobrancelha.

Lor'themar então se levantou.

— Não achei necessário. — disse seguramente – Ela nunca sai sem companhia e tinha alguém que estava sempre com ela e era confiável.

Rommath viu o momento em que Luxuriah estremeceu.

— Sim, mas caso você não tenha reparado, Lor'themar, essa pessoa foi embora e ela agora está sem guarda e sem professor. — falou a paladina com tom de censura.

Luxuriah sentiu que aconteceria mais cedo do que imaginava. Sabia de quem eles falavam. Huaru. Pensara que já tinha chorado tudo, mas sentiu as lágrimas querendo aparecer. Sim, doía. Da mesma forma que acontecia quando Kass, quando criança, batia sem querer em seus machucados não cicatrizados. Deu as costas a confusão e olhou o jardim lá fora. Queria fugir. Mas não sabia como.

— Luxuriah.

A voz de Rommath a chamou. Ela virou a cabeça e viu que ele estava bem perto.

— Gostaria de dar uma caminhada? — convidou em um tom mais alto que a voz de Lady Liadrin – Acredito que precise de um pouco de ar fresco e uma caminhada matutina.

O alívio foi imediato.

— Claro. — e olhando para Karen, disse rapidamente – Comporte-se. — e virando para Tewdric, avisou – Comporte-se você também. — e para as irmãs, aconselhou – Controlem esses dois. Volto logo.

E praticamente fugiu da sala com Rommath em seus calcanhares.

Lor'themar encarou Lady Liadrin com fúria.

— Viu o que você fez? Falou de quem não devia.

Não foi necessário que a matriarca respondesse. Uma voz se elevou em sua defesa.

— Foi você quem falou nele primeiro. — Ash se levantou e caminhou até Karen – Para alguém tão velho, você deveria ser mais cauteloso, lorde regente. — e puxou a irmã para seu lado.

A risada de Tewdric reboou na sala e Kassyeh lhe deu um beliscão de aviso. O orc imediatamente se calou, resmungando.

Lor'themar encarou Ash e ficou sem saber o que falar. Lady Liadrin sorriu, satisfeita de ter uma aliada tão poderosa. Karen olhou para os adultos ao seu redor e bufou:

— Ash, o Temma não fez por mal. Não é, Temma?

— Longe de mim magoar sua irmã de propósito. — disse baixando a cabeça – Peço desculpas, Lady Ashrial.

Ash apertou os lábios. Ele sabia como ela detestava que a chamasse assim. E aquilo, com certeza foi de propósito. O que Lor'themar queria com aquilo? Alheia ao clima entre a irmã e o lorde regente, Karen continuou falando:

— Eu não preciso de guarda pessoal. Minhas irmãs são fortes. E tem o Ted! — e apontou para o orc.

Como que para ratificar o que a menina dissera, Tewdric colocou o machado com um grande estrondo no chão. Contudo, Lady Liadrin não ficou impressionada.

— Ainda assim, acho necessário ter alguém sempre com ela.

— E terá. — concordou o lorde regente – Karen precisa de um novo professor para continuar seus estudos.

— Não preciso! — disse a menina resoluta – Já tenho um!

Houve um mal estar na sala e Ash sentiu uma tristeza grande por Karen e um alívio maior ainda por Luxuriah que não estava ali para ouvir aquilo.

— Karen… — começou a caçadora – Huaru não vai voltar…

A pequena elfa a olhou, como se ela fosse louca.

— É claro que ele não vai voltar! Eu estava falando de Lady Liadrin! — e sorriu para a paladina – A Nascente do Sol me sussurrou essa noite que você me treinaria.

A elfa ficou sem reação. E para ela, com a sua idade, isso era bem raro de acontecer. Ficou impressionada com as palavras da futura rainha e com meiguice com que estas foram ditas. De repente, a imagem do rei Anasterian veio a sua mente. Sim, ela era realmente sua herdeira. Muito mais que Kael'thas fora. Sentiu uma onda de admiração e amor por aquela tão jovem e bela criatura, que se ajoelhou em frente a ela, com devoção. Baixou a cabeça e disse, com sua voz potente:

— Seria uma honra ensiná-la. Vossa majestade não imagina a alegria que me concede por ter sido escolhida por você.

— Não fui eu que escolhi. — respondeu com simplicidade – Foi a Nascente do Sol. Ela me disse que era pra ser o Huhu, mas ele escolheu outro destino. Espero que não se sinta magoada por não ser a primeira escolha. — pelo tom de voz, Karen realmente temia magoar a paladina.

— Jamais tal coisa passaria por minha cabeça, majestade. — Sinto-me extremamente honrada por ter sido uma escolha.

— Eu gosto de você. — disse a menina alegremente – E gostei de seu namorado também.

Snetto teve um pequeno acesso de tosse, mas Lady Liadrin permaneceu impassível.

— Levante, por favor. — pediu a menina. Quando a elfa o fez, perguntou – Quando começamos as aulas?

A matriarca sorriu.

— Que tal agora?

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A manhã estava do jeito que Luxuriah amava: morna e ensolarada. Ao lado de Rommath, ela caminhou pelo bosque por trás da torre, o mesmo bosque que, no dia anterior, presenciou a partida de Huaru. O grão-magíster teve o cuidado de levar a jovem grávida por um caminho totalmente diferente do tomado pelo tauren no dia anterior e acabaram saindo dos limites da Torre Solfúria. Como conhecia aquele caminho como a palma da manhã, Rommath mostrou uma trilha a Luxuriah que levava até a praia por trás de Luaprata e que era inacessível por outro caminho. Enquanto caminhavam, a elfa provava os morangos e entre eles pairava um silêncio solene.

— Obrigada. — disse ela de repente.

— Não há de quê. — respondeu – Sempre haverá morangos para você. — e sorriu.

— Não falo com relação aos morangos. Falo sobre ter me tirado de lá. — disse apontando com o queixo na direção da torre. Não sei se aguentaria aquele falatório.

— Se você começasse a chorar, deixaria suas irmãs mais preocupadas.

— É verdade.

Logo chegaram à praia. E quando estavam passando por algumas pedras, que ficavam em baixo de uma frondosa árvore, Luxuriah decidiu sentar um pouco. Rommath a acompanhou. Ficaram sentados vendo as ondas baterem delicadamente na areia. A calma com que acordara voltara para Luxuriah, livrando-a da angústia dos momentos anteriores. Enquanto a elfa observava as ondas, Rommath a observava. Ela estava realmente magnífica. Teve vontade de apertar suavemente as bochechas dela, para saber se estavam tão deliciosamente macias quanto pareciam. Mas, em vez disso, pegou um dos morangos da cesta, bateu levemente com o dedo, esfriando-o apenas o suficiente para que ficasse um pouco crocante, como se fosse um picolé natural.

— Experimente. — sugeriu.

Intrigada com o gesto, ela provou. Seus olhos fecharam em êxtase e ela sorriu.

— Maravilhoso! — disse colocando o resto na boca – Muito bom e refrescante.

— Perfeito para uma manhã na praia. — comentou o mago sorrindo.

— Com certeza! Faz outro?

E ele fez. E após comer todos os morangos daquele jeito inovador que ele lhe mostrara, ela recostou-se na árvore e fechou os olhos, feliz. Rommath sentiu-se realizado por ter tido a oportunidade de compartilhar aquele momento com Luxuriah. Fazia pelo menos três anos desde a última vez que eles ficaram juntos e a despedida não foi exatamente agradável. Então, aquela oportunidade de estar ali naquela manhã, era como um presente da Nascente do Sol. E sabia que tinha que aproveitar cada instante, pois jamais saberia se haveria outro como aquele.

— Sonhei com meu bebê essa noite. — comentou Luxuriah ainda de olhos fechados e com um leve sorriso no tosto.

— Foi? — perguntou o mago, surpreso – E como foi o sonho?

O sorriso de Luxuriah aumentou.

— Sonhei que ela estava em um campo de morangos.

— Ela? — Rommath sorriu – Era uma menina?

Luxuriah abriu os olhos, o encarou e fez que sim.

— Uma linda menina de cabelos vermelhos. — a elfa deu uma risadinha – Titio Aethas adoraria.

— Com certeza. — Rommath pensou que a menina ficaria muito mais linda se tivesse os cabelos escuros como os da mãe – O que mais?

— Ela devia ter uns quatro anos no sonho. — continuou com os olhos brilhando — Usava um vestido dourado e tinha uma pequena coroa na cabeça. Ela estava colhendo morangos. Os cabelos dela eram tão vermelhos que os morangos pareciam pálidos… — sem entender porque, Luxuriah sentiu as lágrimas rolando no rosto – Pela Nascente do Sol, eu não deveria chorar! Foi um sonho bom!

Rommath pegou um lenço dentro do bolso e entregou a ela. Luxuriah rapidamente enxugou as lágrimas.

— São lágrimas de alegria, tenho certeza. — disse, tranquilizando-a – Depois de tudo que você passou, não é surpresa você estar emocionada.

Apertando o lenço na mão, Luxuriah olhou novamente para o mar. Lembrou de todas as manhãs que passara com as irmãs quando eram crianças, se divertindo sob os olhos atentos dos pais.

— Eu nunca imaginei que ficaria grávida um dia. — confessou.

— Eu sei. — disse ele se, tirar os olhos dela — Depois de tudo que você passou, é um milagre poder gerar uma criança.

Um sorriso triste se apossou do rosto da elfa e seu coração se apertou.

— Um milagre sim… — ela baixou a cabeça — Deveria ser um momento de apenas alegria, não é? Sem dor. Sem incertezas. Apenas alegria…

Rommath sabia do que ela estava falando, mas não estava surpreso. Sabia que demoraria muito tempo até que a sombra do amor que ela sentia por Huaru se dissipasse.

— Nem todos conseguem entender os milagres que a vida nos dá. — falou na tentativa de tirar aquele olhar triste do rosto belo.

— Um paladino deveria entender. — retrucou secamente.

Só então percebeu que tinha soado um pouco rude.

— Desculpe. — pediu desviando os olhos para o mar – Não quis ser rude.

Para sua surpresa, Rommath riu.

— Você pedindo desculpas por ser rude? — ele fez questão de dar um tom de incredulidade à sua voz — Nossa, essa criança é um milagre mesmo!

E mesmo contra a vontade, Luxuriah riu também. Ambos riram por alguns momentos. E ela continuou rindo, mesmo quando Rommath parou. E riu até que seu riso se transformou em um choro doloroso, e teve que esconder o rosto no lenço em sua mão, envergonhada de estar se sentindo novamente tão triste e desamparada.

O que Luxuriah não sabia era que Rommath entendia exatamente sua mudança brusca de humor. Afinal, já era velho quando sua mãe decidira ter Kayliel. Acompanhara a gravidez mais que o jovem marido de sua mãe. E sabia exatamente o que fazer. Com delicadeza, a puxou para junto de si, colocando a cabeça dela em seu peito. Passou a confortá-la passando a mão em suas costas e permitiu que ela chorasse o quanto quisesse. E ficaram bastante tempo assim, com Luxuriah dando vazão a sua tristeza, enquanto ele a consolava. O gesto a lembrou de quando Huaru a consolara quando Grey a deixara e isso fez com que seu choro aumentasse. Porém, nada daquilo abalou a serenidade do mago. E ele não a largou nem mesmo quando o choro foi sumindo e a respiração de Luxuriah foi voltando ao normal. Não. Ele ficaria ali com até ela se sentir pronta para sair de seus braços. E ficou muito surpreso quando ela não o fez e continuou com a cabeça apoiada em seu peito.

— Sou uma pessoa horrível. — falou com a voz ainda rouca e ainda abraçada a Rommath

— Ora, porque diz isso? — questionou delicadamente.

— Porque eu sei de seus sentimentos por mim e ainda assim estou aqui, em seus braços, chorando por outro. — havia tristeza e arrependimento na forma com que ela falara e Luxuriah não pode ver o sorriso triste que surgiu no rosto do mago diante daquelas palavras.

— No momento a prioridade é você, e não meus sentimentos. — disse resoluto.

— Queria que ele tivesse pensando assim. — confessou Luxuriah – Que eu fosse prioridade para ele.

Rommath estreitou mais o abraço.

— Lux. — fazia tempo que ele não a chamava daquela forma – Gostaria de ser sincero com você a respeito disso. Posso?

— Uma das coisas que gosto em você, Rommath, é sua sinceridade. — respondeu – Eu jamais a negaria.

— Pois bem. — ele respirou fundo – Eu fui procurar Huaru depois que Karensky falou com ele.

Luxuriah ficou tão surpresa que se afastou do abraço e o encarou.

— Como? — ficou muito confusa com o que ele lhe revelara.

— Fui levar as coisas dele e fazer um pedido. — ele a encarou fixamente.

— Que pedido? — perguntou num fio de voz.

Rommath respirou fundo antes de responder:

—Eu pedi que ele ficasse.

A caçadora arregalou os olhos, incrédula. Quase disse que não acreditava naquilo, mas os olhos do mago lhe informavam que não havia mentira ali. Sim, ele o fizera. E Luxuriah sabia exatamente o porquê.

Como ela nada falou, Rommath prosseguiu:

— É óbvio que ele não me deu ouvidos. Mas vou lhe falar o que eu compreendi nos poucos momentos que passei com ele. Huaru não mentiu ao dizer que lhe amava. — diante do olhar incrédulo que Luxuriah lhe lançou, continuou – Sim, acredito que ele lhe amava. Do jeito dele, claro. O problema não foi a falta de amor, mas a falta de maturidade. — o elfo deu de ombros – Ele era só um menino grande, que não estava pronto para lidar com algo tão importante, como criar um filho. E o mais difícil, o filho de outro. Talvez, se ele já soubesse que você estava grávida quando vocês se conheceram, a história tivesse sido diferente. Não sei. Ninguém nunca saberá. A questão é que ele a amava, mas não estava preparado para arcar com todas as consequências desse amor.

O rosto de Luxuriah era uma máscara indecifrável após a fala do mago e Rommath se perguntou se havia feito bem ao expor a sua opinião.

— Se você não está preparado para arcar com todas as consequências, – retrucou Luxuriah friamente – não é amor de verdade.

Eles se encararam e o mago sabia que não a convenceria do contrário. Bem, nem tentaria. Com o coração machucado e uma criança no ventre, a última coisa que faria bem a Luxuriah era ser contrariada quando o assunto era Huaru. Por isso, apenas deu de ombros.

— Mas agradeço por me contar. — falou abrindo um leve sorriso – E por ter pedido para ele ficar. Deve ter sido muito difícil para você.

Rommath nada disse, apenas continuou olhando-a.

— E eu tenho muitas coisas no que pensar agora para ficar sofrendo por ele. — ela suspirou – Como o fato de que serei uma nobre solteira com uma filha.

Essa era uma preocupação que também já passara pela mente do mago. Ambos sabia que, apesar de a sociedade élfica ter evoluído e passado a aceitar certas coisas que não aceitavam antes de serem quase aniquilados, um filho fora do casamento não era uma delas. Rommath achava uma imensa hipocrisia. Eles deveriam pensar em ter o maior número de crianças possíveis e livrar seu povo da extinção, e não no modelo familiar ao qual aquela criança pertenceria. Mas enquanto essa época não chegava, seria difícil para Luxuriah lidar com aquela situação. E foi pensando nisso, que algo passou pela cabeça do mago, deixando-o um pouco apreensivo.

— Você não pensa em voltar com-

— Não! — Luxuriah o cortou antes que ele terminasse a frase – Grey faz parte do meu passado e ficará lá! Ele não saberá jamais que pôs uma criança no meu ventre! Ele não merece!

A curiosidade quase o fez perguntar o motivo pelo qual ela se separara de Grey, e porque parecia tão avessa a ele, mas achou melhor não fazê-lo. E devia admitir que era um alívio saber que não precisaria se preocupar com a concorrência do pai da criança.

Ficaram em silêncio mais alguns instantes e Rommath viu ao longe algumas nuvens cinzas se aproximando. Uma chuva de verão estava a caminho.

— O que você faria? — perguntou Luxuriah inesperadamente.

— Como?

— O que você faria se estivesse no lugar de Huaru? Se estivesse comigo e descobrisse que eu estava grávida de outro. O que você faria?

Surpreso com a pergunta, Rommath ficou sem ação por alguns instantes, apenas olhando-a com os olhos arregalados. Depois, desviou a vista.

— É uma pergunta injusta. — murmurou.

— Mas eu gostaria que você respondesse. — insistiu ela.

— Eu tenho séculos a mais que o tauren. — disse continuando a se esquivar da pergunta – Não há comparação.

— Responda. — exigiu inflexível.

Rommath deu um sorriso amarelo.

— Não há como negar que você está grávida. — falou em tom divertido – Nesse pouco espaço de tempo em que estamos aqui você já riu, chorou de alegria, chorou de tristeza e agora parece familiarmente irritada.

Ela não disse nada, apenas continuou a encará-lo com firmeza. Sabendo que não sairia dali antes de dar uma resposta, resignou-se.

— Eu adoraria ser o pai dessa criança. — respondeu com sinceridade, olhando-a nos olhos – Independentemente de ter sido eu ou não a colocá-la em seu ventre.

O silêncio de abateu entre os dois. Eles ficaram se encarando por um tempo, até que um vento mais forte soprou. Nuvens cinzas agora estavam mais próximas. O mago então se levantou e estendeu a mão para Luxuriah.

— Vamos. Vai chover. Não podemos correr o risco de você pegar um resfriado.

Luxuriah aceitou o oferecimento e refizeram o mesmo caminho de antes, cada um imerso em seus pensamentos. E foi somente quando retornaram à Torre Solfúria e pingos de chuva já caiam sobre Luaprata que perceberam que vieram o caminho todo de volta de mãos dadas. Rapidamente a elfa puxou sua mão de volta, como se estivesse envergonhada. Se Rommath incomodou-se com aquele gesto, não deu a perceber.

— Obrigada. — agradeceu ela mais uma vez – Pelos morangos, pelo carinho e pela sinceridade. — e sorriu.

O grão-magíster fez uma profunda reverência.

— Estarei sempre à disposição.

E quando ela já estava se retirando, ele a chamou novamente.

— Luxuriah.

Ela virou-se.

— Gostaria de tomar um chá da tarde comigo hoje?

O sorriso voltou ao belo rosto.

— Adoraria. Que horas?

O elfo retribuiu o sorriso.

— Ás cinco. Venho buscá-la.

— Não precisa. — recusou com suavidade – Irei cavalgando. Estou com saudades de montar Debonzi e acho que ele está com saudades também.

— Como preferir. — disse ele sem conseguir conter a felicidade – Até mais tarde.

— Até. — e ela entrou na torre, sumindo escada acima, no exato momento em que Rommath tomou a maior decisão de sua vida.

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Saba acompanhou sua nova professora até a casa dela, onde seriam suas lições a partir daquele dia. O local ficava fora dos muros de Orgrimmar, na parte oeste, perto do rio que dividia Durotar dos Sertões Setentrionais. Eram quase duas horas de caminhada e Saba se perguntou se devia pedir aos pais um lobo jovem para realizar o trajeto.

Logo que chegaram, Shikrik a tocou para dentro da casa, que quase não tinha móveis. Elas sentaram no chão enquanto a xamã preparava um chá e tagarelava animadamente de como era bom ter um aluno novamente.

— Meu último aluno me deixou há poucos meses. — disse colocando um punhado de ervas na chaleira – Um bom rapaz. Chama-se Nanto. Já ouviu falar dele?

Saba fez que não.

— Mas ouvirá. — havia certeza na fala da xamã – Como com certeza falarão de você.

A menina queria ter tanta confiança nela mesma quanto a orquisa tinha.

— Não duvide de você mesma. — falou Shikrik como se tivesse escutado os pensamentos da menina – Nunca vi os ancestrais tão animados com alguém. Eles não me disseram o porquê, mas acho que você fará grandes coisas.

— É muita responsabilidade… — murmurou Saba.

— Claro que é. A vida em si é uma grande responsabilidade. — e apontando para o único armário da casa, pediu – Traga duas canecas para que possamos tomar esse chá.

Saba assim o fez. E quando sentou novamente no chão, a xamã a serviu primeiro e então encheu a própria xícara.

— É importante que você esteja aqui bem cedo, Saba. — avisou – Normalmente eu preferiria tê-la morando aqui comigo, mas os ancestrais disseram que você deve ficar em casa por enquanto. — a orquisa deu de ombros – E quem sou eu pra discutir com eles, não é? — e riu.

A menina riu também e provou um pouco do chá. Era um pouco amargo, mas ela não reclamou. Continuou bebendo enquanto a xamã falava empolgada do treinamento, até que a vista dela começou a escurecer.

— Senhora Shikrik… — chamou a menina com a voz um pouco enrolada – Tem algo acontecendo…

— Oh, os espíritos te chamam! — falou surpresa e também feliz — Não imaginava que seria tão rápido! Não lute contra a sensação. Relaxe. Deixe-os vir.

Antes de cair no meio dos sonhos novamente, Saba pensou que não conseguiria resistir àquela sensação mesmo que tentasse. Por isso, logo foi levada por túneis de luzes estranhas e então estava em Orgrimmar novamente.

A Orgrimmar do sonho da noite passada.

No sonho, ela já deixara a infância. Pode ver os pequenos seios sobressaindo de um vestido de couro e seus cabelos estavam muito longos, na altura dos quadris, presos numa trança. Ela era uma jovem adolescente.

O céu estava vermelho e havia uma pesada névoa sobre a cidade. Isso era estranho. Nunca antes aquilo acontecera. Com cautela, começou a andar até que seu pé pisou numa poça funda. Seus olhos foram imediatamente para o chão e viu que não era uma poça de água.

Era uma poça de sangue.

Seu coração disparou e a névoa começou a se dissipar. E Saba começou a ver os corpos espalhados por todo o chão da cidade. E não apenas no chão. Todos os cravos ao redor da cidade estavam com corpos ou parte de corpos fincados neles. E todos os mortos eram de raças da Horda.

Saba estava aterrorizada e não era pelo sangue. Era o fato de saber Karen estava ali em algum lugar. E seus pais também. E Kassyeh. E muitas outras pessoas que amava.

Não queria ver mais. Começou a gritar e jogou-se no chão. O sangue manchou sua roupa mas ela não se importou. Queria sair dali. Não queria ver. E por isso gritou. Gritou muito. Gritou até começar a ouvir ao longe a voz de sua nova professora.

— Volte Saba! Volte! — dizia Shikrik desesperada.

Aos poucos a visão foi ficando turva e Saba foi voltando a consciência. Quando acordou o sol já estava se pondo e sua professora estava com uma expressão muito preocupada.

— Meus ancestrais, para onde levaram essa criança?! — mesmo confusa, Saba entendeu que a pergunta não era para ela – Querida, você está bem?

— Estou… — murmurou com a voz trêmula – Estou…

— Você precisa me contar o que você viu! — exclamou a professora alarmada – Parece muito grave!

— Não... — gemeu Saba se encolhendo – Não quero...

A xamã a olhou, compreensiva e ao mesmo tempo exasperada.

— Você precisa compartilhar suas visões, querida.

— Quero falar com Karen! — disse sem pensar a menina – Só com ela!

Saba não sabia se sua professora já ouvira falar de Karen, mas parecia que sim, já que a orquisa se levantou e foi até o armário e pegou papel e uma caneta-tinteiro e estendeu para ela.

— Então escreva para Karen.

E foi o que Saba fez. Escrever o que tinha visto na noite anterior e o que tinha visto na visão. E depois que escreveu tudo, aos prantos, pegou um envelope para endereçar a carta à sua amiga. E antes de pôr a carta no envelope, sua nova professora ordenou:

— Agora, leia para mim.

Seu tom fora tão incisivo que Saba não contestou. E quando voltava para casa mais tarde, e colocou a carta no correio, percebeu que se sentia melhor. Escrever foi bom. Ler para sua professora também. Recebera algumas ervas para tomar um chá naquela noite para relaxar. E teve certeza que dormiria profunda e tranquilamente.

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O dia já estava chegando ao fim quando Lina acordou. Com certeza dormira bem mais do que imaginara e isso a deixou chateada. Sequer almoçara. Talvez por isso estivesse tão grogue. Levantou-se e percebeu que estava sozinha no quarto. Também percebeu que sua armadura estava lá, em cima de uma cadeira, completamente limpa e reluzente, junto com seu tabardo e uma roupa ambos limpos também. Vestiu-se rapidamente e saiu do quarto. Precisava ver se tudo estava em ordem.

Os soldados pareceram aliviados quando a viram. Aparentemente a história da flecha se espalhara. Bem, pelo menos fora só a flecha. Como dissera a Arshe, ninguém ficaria sabendo sobre seus seios. Sorriu consigo mesma diante disso.

Com a noite chegando e a temperatura caindo, não se espantou ao ver uma fogueira bem grande sendo feita na praça. O que a surpreendeu foi o caldeirão gigante próximo a ele e Doroteya e mais dois soldados cortando legumes e carnes.

— Lina!! — exclamou a worgenin em sua forma humana quando a viu – Que bom que você acordou!

— O que é isso? — quis saber a comandante olhando toda a parafernália ao lado da fogueira.

— Decidi fazer um sopão. Como a comida ainda está sendo dividida e muitas pessoas estão assustadas demais para ficarem em casa, decidi cozinhar para o vilarejo todo! — e apontou para a estalagem – Usei o forno de lá para fazer pão e tem um menino verificando para quando ficar pronto. Vou colocar esse caldeirão para cozinhar assim que a fogueira tiver pronta! — e só então Doroteya perguntou – Fiz bem?

Lina deu um pequeno sorriso.

— Claro que fez. É importante mostrar para o povo que não somos os vilões. — e olhando para os lados, perguntou – Cadê a princesa?

Doroteya apontou na direção da capela e a comandante se dirigiu até lá. E a cena que viu a deixou muito espantada. Arshe estava sentada nos degraus da capela, rodeada de algumas crianças, que riam enquanto a princesa fazia algumas pequenas magias. Era estranho, nunca pensara que Arshe se desse bem com crianças, mas era claro que se enganara. Ela fazia um truque após o outro e as crianças estavam adorando. Então achou melhor não interromper. Voltou onde estava Doroteya e passou a conversar com os soldados por perto para saber como estavam as coisas.

Os prisioneiros estavam devidamente acorrentados e foram curados para não morrerem devido aos ferimentos. Os soldados passaram a tarde ajudando aos aldeões a dividir a comida e ajeitar os prédios que foram danificados pelos Delfias. E Brienne já tinha ido até Ventobravo para trazer a diligência para levar os criminosos e a carruagem para Arshe.

— Ótimo. — disse a comandante após o relatório – Estou satisfeita que vocês consigam tomar boas decisões mesmo sem minha presença.

O soldado deu um sorriso encabulado, mas logo voltou a postura séria. E logo Lina permitiu-se relaxar um pouco enquanto assistia os soldados ajudarem Doroteya a pôr uma mesa para servir o pão. E quando a sopa ficou pronta e a noite já havia caído, todos os aldeões fizeram uma fila com suas tigelas enquanto eram servidos de sopa quentinha direto do caldeirão por uma sorridente Doroteya. Alguns soldados se encarregaram de distribuir os pães. Em pouco tempo, a comandante estava sentada em um banco, com uma tigela cheia de sopa, um pão do lado e ouvindo Arshe tagarelar de o quanto as crianças ali eram inteligentes.

— Acredita que os Delfias mataram as professoras daqui?! — disse pasma – Vou falar para meu tio mandar logo outras! Essas crianças não podem ficar sem professores!

Lina assentiu com a cabeça.

— Precisamos fazer uma lista de coisas que o vilarejo precisa. — acrescentou – Vou deixar Brienne aqui por uns dias com alguns soldados para fazer um levantamento do que será necessário para que Ventobravo possa enviar. Nós voltaremos assim que a sua carruagem chegar.

A princesa deu um sorriso triste.

— Desculpe…

— Deixe de besteira. — cortou Lina – Apenas coma e obedeça minhas ordens.

A risada foi inevitável.

— Tudo bem comandante. Tudo bem.

Elas comeram mais um pouco e viram várias pessoas voltando para repetir o prato. Aparentemente Doroteya já previra isso, pois serviu a todos novamente com alegria. Lina então lembrou de sua promessa.

— Precisamos buscar o filho de Doroteya. — disse a Arshe – Ele está em Darnassus. Vou precisar de alguns dias de folga para pegar o navio.

— Ah, não precisa! — disse a maga animada – Posso abrir um portal, pegamos o menino e voltamos! Rápido e seguro!

Lina a olhou por uns momentos e então riu.

— Como é bom ter uma maga por perto!

Arshe a companhou no riso.

— E eu adoro Doroteya. — falou a princesa – Se isso a fizer feliz, tudo bem. — e olhando para a comandante, perguntou – E como vai ser com uma criança na sua casa?

— Vá por mim, todos lá em casa temos muita experiência com crianças.

— Mas e o fato dele ser filho de você sabe quem? — Arshe parecia preocupada.

Lina pousou a colher na tigela e pensou um pouco.

— Acho melhor deixar para pensarmos isso depois que ele estiver lá. — disse dando de ombros – Há outras coisas para me preocupar no momento. Como, por exemplo, interrogar novamente os Delfias.

— Pensei que você já tivesse tirado todas as informações deles. — e dando uma pausa, acrescentou – E os olhos também.

Lina deu uma gargalhada e voltou a comer da sopa. Percebeu que logo que também repetiria o prato. Estava delicioso.

— Eu preciso de informações pessoais. — explicou – Da minha família. — a imagem de Tommy voltou a sua mente – Acho que o rei não vai se importar.

Arshe a encarou por um momento.

— Por que ainda o chama de rei? — quis saber – Por que não Varian? Já que vocês dois…

— Ele ainda é meu rei. — cortou Lina – E continuarei a chamá-lo assim. — Lina limpou o prato e se levantou – Vou comer mais. Me dê seu prato que pego para você também.

— Ah, um prato só está bom. Estou satisfeita.

— Não, não está. — contestou Lina tomando o prato da mão dela – Você precisa engordar. Vai comer mais. E não reclame.

E saiu em direção ao imenso caldeirão de sopa.

Arshe sorriu enquanto observava Lina falar com Doroteya. Sorriu também quando Doroteya acenou para ela e acenou de volta. Sorriu novamente quando viu Lina voltar triunfante com o segundo prato de sopa. É, pensou a princesa, talvez a época de tristeza tenha passado e a época do sorriso tenha finalmente chegado em sua vida.

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Apesar da quantidade de vezes que chorara ao lado de Rommath naquela manhã, Luxuriah passara o dia tranquila. Acompanhou a conversa de Karen com Lady Liadrin, acompanhada de Ash e Kass. Almoçaram juntas e passaram a tarde fazendo planos para o bebê na companhia de seu tio Aethas. Ele parecia querer aproveitar todos os momentos restantes com suas meninas. E quando Lux contou do sonho, achou ter visto lágrimas nos olhos dele. Suas irmãs ficaram radiantes também, apesar de Ash comentar:

— Queria um menininho. Talvez seja Kass que vá ter um para nós.

E passaram a falar de como seria bonitinho ter um elfinho verde com presas.

Quando a tarde foi chegando ao fim, ela pediu licença a suas irmãs pois precisava se arrumar para seu compromisso.

— Rommath me convidou para tomar chá da tarde com ele. — explicou enquanto escolhia uma roupa.

Kassyeh estreitou os olhos, desconfiada.

— Espero que ele não esteja tentando se aproveitar de sua fragilidade. — falou duramente

— Kass. — Luxuriah usou um tom reprovador – Rommath não faria isso.

— Sei não… — murmurou a maga.

— É mais fácil ele sair machucado desse chá que eu. — disse a caçadora lembrando daquela manhã – Além do mais, gosto da presença dele. Me acalma.

— Você já namoraram né? — perguntou Karen. Ela estava limpando cuidadosamente as penas de Galinha. Não fizera isso no dia anterior por causa dos acontecimentos e agora tentava compensar o mau humor de seu falcoztruz dando muitos beijinhos e petiscos.

— Namorar? — a elfa riu antes de responder – Acho que podemos colocar nesses termos.

— Por que vocês se separaram? — agora quem perguntou foi Ash, que estava com a incumbência de impedir as mascotes de Kassyeh de pularem em cima de Galinha – Se ele era legal e, convenhamos, bem mais que aquele Grey, porque não ficou com ele?

Luxuriah não lembrava direito. Só sabia que ficara com muita raiva. Mas não tinha tempo para discutir aquilo com as irmãs.

— Falamos depois, ok? Kass, me ajude aqui com essa blusa.

A maior parte das roupas de Luxuriah estavam ficando apertadas, mas ela achou uma blusa com um corpete que antes ficava folgado e agora estava bem justo, e uma de suas calças de cavalgar, que antigamente eram bem folgadas. Escovou rapidamente os cabelos, pôs uma bota com um pequeno salto e se sentiu pronta. Antes de sair, Ash correu e borrifou um pouco de perfume nela. Luxuriah estranhou.

— Já que você não vai passar nenhuma maquiagem, pelo menos vá perfumada.

Luxuriah gargalhou.

— Ash, não vou seduzi-lo. É só um chá. Estarei logo de volta.

— Não coma demais ou vai estragar o apetite pra janta. — avisou Kassyeh um pouco mais tranquila. Com certeza a gargalhada da irmã surtira um efeito sobre ela.

— Você dizendo para eu não comer muito? Que estranho! — e rindo, acrescentou – Eu comeria sua comida, Kass, mesmo depois de devorar um protodraco.

Aquilo deixou a maga ainda mais relaxada. Aethas apenas observou tudo e nada comentou. Em sua opinião, Rommath estava sendo indelicado em investir em Luxuriah no dia seguinte de sua separação, mas talvez fosse melhor assim. Se estivesse ocupada dando foras em Rommath e controlando a superproteção de Kassyeh, não teria tempo para pensar no tauren.

— Divirta-se. — disse o tio quando ela estava saindo.

— Mande um beijão por Romrom! — disse Karen.

Luxuriah acenou com a cabeça e siau do quarto. Logo estava montada em Debonzi, cavalgando pelas ruas de Luaprata. Pode ver alguns guardas seguindo-a de perto, mas não ficou chateada. Já se conformara que aquela seria uma rotina. E, pensando agora, seria bom quando tivesse sua bebê. Poderia mandar os guardas vigiá-la para impedir qualquer pessoa de chamar a menina de bastarda. E quem fizesse, teria sua língua cortada pela princesa mais velha.

Quando chegou em frente a casa de Rommath, percebeu que Debonzi ficara animado. Foi quando lembrou que havia alguns pés de amora no jardim da frente e que seu falcoztruz adorava. Deixou solto para que ele pudesse aproveitar as várias árvores, mas antes disse:

— Não saia daqui, ok? Nada de correr atrás de nenhuma fêmea!

Debonzi piou, como se concordasse.

Satisfeita, Luxuriah bateu à porta, usando a grande argola dourada nela. Uma serva atendeu, fez uma reverência e a guiou até o jardim dos fundos.

A casa de Rommath era mais distante do centro da cidade, mas ficava numa bela área. Depois da mansão de Lady Luelly, aquela era a casa mais bonita que restara na cidade. Luxuriah já tinha ouvido falar que a mãe de Rommath era amiga de seu bisavô e que adorava os concertos de sua avó. Se perguntou pela primeira vez se Rommath conhecera pessoalmente Lady Luelly ou se só a vira cantar.

Quando saiu pela porta em direção ao jardim de trás, ficou boquiaberta. Ele estava muito mais lindo que antes. Além dos morangueiros haviam outras frutas frutíferas, apesar da predominância do primeiro. Alguém, provavelmente Rommath, construíra um corredor com arcos, onde diversas trepadeiras se agarravam e abriam em flores perfumadas. Caminhou, encantada com o lugar, até chegar a alguns degraus. Lembrava dessa elevação e como ela deixava o jardim mais bonito, pois ele se abria para o mar e para o pôr do sol, sem dar mostras que a casa estava na cidade e não no campo. Era uma vista maravilhosa.

Rommath estava ajeitando algo quando ela chegou, e o escondeu rapidamente. Luxuriah franziu a sobrancelha mas nada disse. Era provável que o mago fosse dar algum presente ao bebê. Ele gostava de ser o primeiro nessas coisas. Bem, Kassyeh não gostaria.

— Cheguei cedo? — perguntou ela quando o mago se aproximou.

— Não. No horário correto. — e lhe estendeu a mão – Com fome?

Luxuriah aceitou a mão estendida.

— Sim, muita.

Eles se acomodaram de forma que ficaram de frente para a vista. O sol já estava baixando e Luxuriah sabia que logo presenciariam o mais belo pôr do sol dos últimos tempos.

— Você fez melhorias aqui. — comentou – Ficou muito bom.

— Tenho passado bastante tempo aqui. — disse ele – Me acalma.

— E com as tensões que a Horda anda, acho que todos precisamos nos acalmar.

— Principalmente você. — ele a encarou – Não vai poder se envolver em missões até o bebê nascer.

Ela o olhou, surpresa.

— Não havia pensando nisso. — e fazendo uma careta, completou – Que droga! Logo agora que o Martelo do Crepúsculo está tão ativo!

— Terá que deixar nas mãos de outros.

— Odeio isso!

— Eu sei. — respondeu ele com um sorriso – Bem, vamos comer.

Rommath fez um gesto e a serva que atendeu a porta apareceu novamente. Luxuriah não havia notado que a moça a seguira. E havia um rapaz também. Eles começaram a servi-la, com um saboroso chá feito na hora e trouxeram tortas de diversos tipos para a mesa, além de vários tipos de pãezinhos. A jovem caçadora percebeu a delicadeza dos talheres e da louça e sorriu lembrando das que sua mãe usava nos jantares de domingo.

— Está tudo muito lindo, Rommath. Muito élfico. — ela riu – Faz tanto tempo que estou em meio a outros povos que as vezes esqueço que sou uma elfa.

— Acho que todos nós temos essa sensação desde que entramos na Horda. — comentou.

Ela fez que sim com a cabeça.

— Talvez eu não tivesse percebido antes porque, bem, meu pai não era muito élfico. — ela tomou um gole do chá. Estava delicioso – Ele odiava todas essas pompas. Mas a mamãe obrigava a termos pelo menos uma refeição tradicionalmente élfica por semana. Para não perdemos nossa identidade, ela dizia.

Após sua fala, percebeu que Rommath a olhava genuinamente surpreendido. Sua boca estava meio aberta e a xícara do chá estava parada a um palmo de seu rosto.

— O que foi? — perguntou.

— A última vez em que seus pais foram mencionados nesse jardim, você saiu por aquela porta e só voltou agora. E eu me arrependo até hoje de tê-lo feito.

Então fora esse o motivo, pensou ela. Parecia agora tão ridiculamente pequeno que Luxuriah se perguntou porque o fizera. Então lembrou. Até um mês atrás aquela era a reação normal. Mas agora… Parecia que não doía tanto. Teria sido porque agora compartilhara com Ash sua dor? Ou… Ou por causa de Huaru?

— Por favor, não fique assim. — Rommath estava preocupado – Não mencionarei mais esse incidente.

— Não, não é por isso. — ela deu um sorriso triste.

— E por que é? — quis saber ele cautelosamente.

Luxuriah respirou fundo e tomou um gole de chá. O sabor adocicado da maçã a fez relaxar.

— Huaru. Ele me ajudou a lidar melhor com a perda dos meus pais. Só percebi isso agora.

De todo o coração, Luxuriah esperava não ter magoado Rommath falando sobre o paladino. Todavia, o mago apenas deu de ombros, visivelmente aliviado.

— Imaginava que ele exercera alguma influência boa em sua vida, apesar de tudo. — e bebendo o chá, pediu – Se atenha a essas coisas. Esqueça as partes ruins. Assim fica mais fácil superar.

— Foi assim que você me superou? — perguntou Luxuriah tentando fazer uma piada.

— Eu nunca lhe superei. — respondeu ele calmamente.

Certo. Sem piadas. Não levo jeito para isso, pensou a princesa.

— Prove esse pãozinho com polvilho salgado. — ofereceu ele mudando totalmente de assunto – É uma receita de minha família.

E eles mudaram de assunto e começaram a falar de comida. Depois falaram de política. Criticaram o Kirin Tor. Insultaram a Aliança. Depois começaram a falar de suas famílias. Luxuriah comentou como estava tranquila de ter Lady Liadrin como tutora de Karen.

— Lady Liadrin saberá lidar com Karen. — disse Luxuriah agora provando as tortas doces. Começando pela de morango, claro. — Minha irmãzinha é muito agitada, você sabe.

O grão-magíster riu e depois comentou, um pouco chateado.

— Gostaria que meu irmãozinho fosse agitado. Assim eu saberia o que esperar dele. — ele também estava comendo uma torta de morango, mas colocou todos os morangos no prato de Luxuriah, que sorriu satisfeita – Ele sempre fica calado, na surdina e sempre tenho medo que ele faça alguma besteira.

— Como o quê? — quis saber, curiosa. — Não imagino Kayliel fazendo besteira.

— Como procurar a humana de novo.

Foi a vez de Luxuriah ficar boquiaberta e surpresa.

— Como assim?! — sua voz aumentou e sua irritação também – Ele ainda gosta dela? Falou com ela?!

Rommath deu de ombros.

— Eu suspeito que ele goste dela sim. E que tenha entrado em contato com ela também. — deu uma pausa batendo levemente com o garfo na torta – Como esse interesse voltou repentinamente, não sei. Acredito até mesmo que o interesse nunca foi embora realmente.

A jovem caçadora agora estava com muita raiva. Como Kayliel podia ainda sentir algo por um membro de uma raça tão detestável?!

— Não fique assim. — pediu Rommath – Eu já acionei meus contatos para ficar de olho nele. E agora, com ele cuidando de você, ficará mais fácil mantê-lo longe de qualquer contato que possa ter com ela.

Isso a fez relaxar.

— Tem razão. Eu ficarei de olho nele, pode deixar. — e ela realmente pretendia fazer isso.

— Eu agradeço imensamente. — e lhe deu um sorriso.

— Me agradeça com morangos. — avisou antes de enfiar um enorme morango na boca.

Rommath gargalhou.

— Não precisa nem pedir! — e sorrindo, continuou – E é bom que ele esteja lá também para você. Um médico vinte e quatro horas por dia a ajudará a passar por essa gravidez.

Uma sombra de tristeza se apossou novamente do rosto de Luxuriah.

— Eu me sinto mal ao ver Kass e Karen tão animadas com o bebê e tão seguras que vai dar tudo certo… Elas sequer imaginam que só a existência desse ser já é inesperado…

— Não se sinta mal. — disse em tom de consolo – Pense que talvez elas tenham razão. Que tudo ocorra bem. Não se martirize pensando no que pode ou não acontecer. É mais fácil a preocupação excessiva prejudicá-la do que o acontecimento de quase dez anos atrás.

Luxuriah não disse nada, apenas continuou comendo. Rommath também não insistiu no assunto, preferindo falar de coisas que a deixassem feliz. E o que a deixava feliz no momento era o bebê.

— Bem, você tem certeza que será uma menina. — disse sorrindo – Então, já pensou em um nome para a futura princesinha?

O sorriso voltou ao rosto dela.

— Sim! Tem um nome lindo que ouvi quando era criança e que sempre disse que, se tivesse uma filha, escolheria ele. — ela tomou um gole de chá – É um nome tão lindo e que remete imediatamente ao nosso povo.

— Estou curioso. — confessou Rommath – Vai me dizer qual é?

— Tinuviel. — revelou.

O rosto de Rommath de repente ficou sério. Ele baixou a cabeça e Luxuriah pode ver lágrimas surgindo nos olhos dele. Ficou sem entender a reação, até que ele falou:

— Luxuriah… Está me punindo por ter falado a verdade de manhã? — quis saber com a voz embargada.

— Hã?! — exclamou confusa – Do que você está falando?

— F-foi… Foi Kayliel quem lhe disse? — continuou no mesmo tom.

Luxuriah não estava entendendo, mas a expressão dele e suas frases sem sentido a fizeram o perder a paciência.

— Do que você está falando Rommath? — ela praticamente gritou — O que diabos quer dizer com isso? Se vai ficar me acusando de sei lá o que, eu vou embora! — e fez menção de se levantar.

— Espere. — pediu ele segurando levemente em sua mão. Se encararam um momento e então ela tornou a sentar-se – Parece que você realmente não sabe…

— Não sei o quê? — perguntou enraivecida.

Rommath respirou fundo antes de responder.

— Tinuviel era o nome de minha mãe…

A expressão surpresa de Luxuriah o fez perceber que ela realmente não sabia. Sentiu-se um imenso idiota, acusando-a daquele jeito. Envergonhado, torceu para que ela não fosse embora. Quando já estava abrindo a boca para falar, ela o fez primeiro.

— Tudo bem, pensarei em outro nome… — murmurou tristemente – Você fez tanto por mim hoje que eu não me sentiria bem em fazer algo que lhe magoasse mais ainda.

— Não! — exclamou ele de repente a assustando um pouco – Não, não! Eu ficaria honrado em saber que sua filha terá o nome de minha mãe! — e apertando a mão dela, falou – Desculpe a minha reação, eu apenas… Desculpe, apenas achei que poderia ter sido ideia de Kayliel… Foi bobagem minha. Aceite minhas sinceras desculpas. E por favor, coloque esse nome magnífico em sua filha.

Ele foi tão sinceramente fofo que a raiva de Luxuriah simplesmente se esvaio. Normalmente ela negaria e desejaria arrancar a pele dele, mas o perdoou rapidamente. Com certeza esse amolecimento todo não era obra dela, mas de Tinuviel, que já colocava suas garrinhas élficas de fora.

— Tudo bem, não precisa implorar. — disse divertida – Fico feliz de não ter que escolher outro nome. Sempre gostei desse.

— Não é um nome comum. — confessou o mago – Então acredito que o nome que você ouviu quando criança era o da minha mãe.

— O que me lembra de fazer uma pergunta. Você chegou a conhecer minha avó pessoalmente?

Rommath assentiu.

— Quem não conhecia a fabulosa Lady Luelly? — falou em tom pomposo – Minha mãe era fã dela. Não perdíamos uma apresentação e sempre estávamos em suas festas. Todos os rapazes de minha idade eram apaixonados por ela.

— Até você? — quis saber ela maliciosamente.

— Não, eu não. — ele lhe deu um belo sorriso – Acho que eu estava esperando pela neta dela.

Luxuriah sentiu suas bochechas ficarem vermelhas e sorriu sem jeito. Sim, realmente Tinuviel era quem estava mandando em suas emoções.

— Eu quero essa receita. — falou a elfa apontando para a torta de morango, porque não pensara em mais nada pra falar – Quero que Kassyeh faça para mim.

— Claro. Mas prove dessa outra.

Ele então ofereceu uma bela torta de amora. Contudo, a elfa parecia que não conseguia comer nenhum outro doce que não contivesse morangos, o que fez o mago rir.

— Talvez essa menina saia mesmo ruiva, apenas pela quantidade de morangos que você está comendo.

Luxuriah riu também.

— Não seria ruim. Como eu disse, tio Aethas adoraria. — então algo passou por sua cabeça — Só espero que ela não saia com os cabelos prateados… — comentou fazendo uma careta.

— Ah, Grey…. — murmurou Rommath sentindo-se incomodado. Aquele elfo o deixava mais enciumado que o tauren – Já pensou no que fazer quando ele aparecer?

— Aparecer? — indagou ela muito surpresa – Ele não vai aparecer!

Franzindo a testa, Rommath estranhou que Luxuriah não tivesse pensado naquela possibilidade.

— Lux. — começou cauteloso – A notícia que você está grávida logo irá se espalhar. A última pessoa com quem se tem notícia que você ficou foi ele. Você acha mesmo que ele não achará que a criança é dele e te irá te procurar?

Uma palidez mórbida começou a tomar conta do rosto de Luxuriah. A elfa logo sentiu a vista escurecendo e o corpo perdendo as forças.

— Lux! — Rommath se levantou preocupado – O que houve?

Mas ela não conseguiu responder. Sua boca estava seca e parecia que não queria abrir. Sua mente só conseguia gritar 'não, não!'. Não queria Grey em sua vida de novo. Não depois das coisas que ele disse, da rapidez com que a deixara depois que soubera da verdade. Não queria ele voltando apenas porque agora ela conseguira conceber e poderia ter um filho. Não. Queria que ele tivesse aceitado-a naquela época. Não queria alguém que a procurasse só por causa da gravidez. E enquanto sua mente girava e girava nessas considerações, seu corpo desfalecia. Mal sentiu quando Rommath a tomou nos braços e a levou até um banco no meio do jardim. Ele a deitou lá e tirou sua capa para forrar a cabeça dela. E enquanto Luxuriah procurava respirar, o mago gritou instruções para os servos e estes trouxeram uma toalha molhada morna, que colocou na testa da princesa. Rommath ficou lá, segurando a mão dela e se perguntando se devia chamar seu irmão imediatamente.

— Vou chamar Kayliel. — disse se levantando – Volto logo.

— Não… — murmurou Luxuriah apertando a mão dele – Não…

Rommath então se abaixou novamente, ainda segurando a mão dela. Os minutos se passaram lentamente e o mago só ficou mais tranquilo quando a cor começou a voltar ao rosto dela.

— Sinto muito… — murmurou ele – Sinto muito mesmo.

Luxuriah balançou a cabeça lentamente.

— Não é sua culpa… — murmurou de volta – Eu… Eu devia ter pensando nisso…

Era surpreendente que ninguém tivesse lembrado, pensou Rommath. Mas todos pareciam tão preocupados com a partida de Huaru que, com certeza, Grey não se constituía em um problema.

E era verdade. Com toda a confusão de sentimentos, Luxuriah não havia parado para pensar que logo Grey saberia da existência da criança. Que iria procurá-la. E que mesmo dentro da torre, ela não teria paz. A mera existência daquele paladino espreitando por fora dos muros a deixaria em pânico. Principalmente quando sua filha crescesse. O que diria para mantê-la longe do pai? Teria que dizer o que ele fizera antes? Teria que revelar seu segredo a sua menina?

— Não quero ele perto de mim… — as lágrimas desciam por seus olhos – Não quero…

— Lux… O que ele fez que a magoou tanto?

Sem rodeios, Luxuriah começou a contar a conversa que tivera com ele. Contou daquela noite, que Karen quase morrera. Da discussão deles. De como ele lhe virara as costas quando soubera de seu segredo. Contou da forma como Huaru a consolou. Contou tudo. E foi graças a essa revelação que Rommath pode entender o por quê do tauren ter chegado tão rápido ao coração da esquiva elfa a sua frente.

Depois que falou todas as coisas, Luxuriah se sentiu melhor. Respirou fundo e fez menção de levantar. Rommath a ajudou e ordenou que os servos trouxessem água para Luxuriah. Ela bebeu devagar e foi se sentindo cada vez melhor. Quando achava que ela já estava estável o suficiente, ele a chamou delicadamente:

— Vamos ver o pôr do sol?

Em outra ocasião, ela teria dito que não. Teria gritado, insultado-o, diria que ele era insensível que não via que ela tinha problemas nos quais pensar e não queria ver merda nenhuma de pôr do sol. Porém, estava grávida. Já não era mais a mesma. Era uma amálgama dela mesma com a pequena Tinuviel em seu ventre. E começava a desconfiar que seu pequeno bebê puxaria a tia Kassyeh.

— Vamos. — concordou.

Caminharam até a elevação novamente e Luxuriah viu que os servos haviam posto um bando bem perto da amurada, depois da mesa. Sentaram-se lá e, em silêncio, assistiram ao sol se pôr lentamente. Rommath não largou a mão dela. E quando o alaranjado do céu deu lugar ao azul escuro do início da noite, o mago fez um gesto com a mão e todo o jardim se iluminou. Luxuriah adorou o efeito das luzes sobre as rosas e os morangos.

— Você tem se esforçado mesmo por esse jardim. — comentou já mais calma.

— Sim, tenho. Tenho me esforçado por muitas coisas. — e apertando a mão dela, respirou fundo – Luxuriah… Preciso falar algo. — deu uma pausa – Sabe, nunca escondi meus sentimentos por você.

— Rommath… — começou ela, mas parou quando ele ergueu a mão.

— Por favor, deixe-me falar. — pediu.

Ela assentiu e esperou.

— Eu tenho te amado há muito tempo. Nunca me senti assim por ninguém. Minha mãe costumava dizer que eu era tão frio que jamais me apaixonaria. Bem, hoje acredito que era apenas o fato da pessoa especial não ter nascido ainda. — e deu uma risadinha.

O coração de Luxuriah estava aos pulos. A última coisa que desejava era magoar Rommath recusando seus sentimentos naquele dia. Mas, por algum motivo não quis forçá-lo a parar. Talvez sua carência estivesse falando mais alto. Talvez seu coração tivesse tão ferido que desejasse desesperadamente ouvir que alguém a amava. Era muito egoísmo. Muito mesmo. Mas era assim que ela se sentia e deixou as coisas acontecerem. Precisava daquilo mais do que qualquer outra coisa.

— Desde que eu soube de sua gravidez eu tenho pensado nisso. Principalmente após a partida do tauren. — ele deu uma pausa – Acredito que eu possa ter a solução para seus problemas. Todos eles.

Não fazia ideia do que ele estava falando. E estranhou quando Rommath se levantou e foi até a mesa, onde pegou o pacote que tinha escondido anteriormente. Era uma caixa de tamanho médio e o mago a entregou em suas mãos quando voltou ao banco.

— Abra. — pediu.

Luxuriah abriu. Um lindo par de sapatinhos repousava dentro da caixa. Eles eram feitos totalmente de pérolas tão alvas que chamá-las de branco seria injusto. Uma fita vermelha e dourada saia delicadamente das pérolas e, com certeza, serviriam para firmar o sapatinho nos pequenos pés do bebê. Era a coisa mais linda que Luxuriah vira em sua vida.

— Rommath… — começou, mas não conseguiu terminar.

— Queria ser o primeiro a presentear sua filha. E estou feliz que ela se chamará Tinuviel. — ele passou os dedos no sapatinho – Eu mesmo fiz. Essas pérolas pertenceram a minha mãe. Sei que ela adoraria saber que transformei seu antigo colar em algo tão lindo para alguém tão especial para mim.

Os olhos dela se encheram de lágrimas.

— Eu… Eu não sei o que dizer… — murmurou.

— Não diga nada ainda. — pediu Rommath – Há algo mais que quero falar. — ele deu uma pausa, como se estivesse buscando coragem – Como eu disse, pensei sobre tudo e tenho uma proposta para lhe fazer. — ele a encarou profundamente – Case comigo.

A surpresa foi tamanha que Luxuriah só conseguiu ficar de boca aberta, o encarando incrédula.

— Veja bem. — o tom dele se tornou analítico – Isso resolveria todos os seus problemas. Tinuviel não seria considerada bastarda, pois ela teria um pai: eu. Grey não lhe incomodaria, pois diríamos a todos que a criança é realmente minha. — ele deu de ombros – Todos sabem que gosto de você e que já ficamos juntos muitas vezes, diferentemente de você e Grey, que poucas pessoas sabiam e, acredito, você não via como um relacionamento sério. E para completar, a menina vai ter o nome de minha mãe. Ninguém poderá duvidar depois disso. Só as pessoas de sua confiança saberiam a verdade. — e a encarando, perguntou – E a verdade, nesse caso, realmente importa?

Quando Luxuriah viu que ele falava sério, perguntou:

— E você? Como você ficaria nessa situação?

— Eu ficaria perto de você. Para mim isso é o suficiente. — e sorriu – E teria uma filha. Sempre quis ser pai.

Realmente não esperava por isso. Quando viera ali, jamais imaginava que receberia um pedido de casamento. Talvez algum presente para sua filha, mas nada mais que isso. Olhou novamente para o sapatinho. Era tão lindo que lhe dava vontade de chorar. Mas não sabia o que dizer.

— Por favor, não pense que estou tentando me aproveitar de você. — pediu Rommath preocupado – Eu jamais faria isso. Mas também jamais a deixaria nessa situação sem lhe oferecer uma saída.

Luxuriah abriu a boca para falar algo, mas Rommath, delicadamente, colocou o dedo em cima de seus lábios.

— Por favor, não responda agora. Quero que você analise. Pense. Pondere. Converse com suas irmãs, se assim preferir. E só me responda quando você chegar a uma conclusão do que é melhor para você e para a pequena Tinuviel.

Mesmo que ele não tivesse dito aquilo, Luxuriah duvidava que conseguisse responder qualquer coisa. O silêncio se abateu sobre eles por um tempo, até que ela olhou para ao céu que estava ficando cada vez mais escuro e levantou-se. Rommath se levantou também.

— Tenho que ir. — avisou – Kassyeh ficará chateada se eu chegar atrasada ao jantar.

Ele assentiu.

— Tudo bem. — disse com um sorriso – Vou acompanhá-la até a torre.

— Não precisa. — falou apressadamente

— Você pode passar mal de novo. — comentou o mago preocupado.

— Não passarei. — garantiu Luxuriah – E vou aproveitar o caminho para começar a pensar.

Rommath não insistiu mais.

— Foi um prazer, recebê-la, Lux. — disse pegando sua mão e beijando-a – Leve isso como um segundo presente. — e entregou uma cesta de morangos que uma serva discretamente trouxe.

— Obrigada por ser tão maravilhoso, Rommath – agradeceu – E vou pensar bem e lhe trazer uma resposta assim que estiver segura.

Ele sorriu.

— Não espero outra coisa de você.

E foi assim que se despediram. Luxuriah pegou Debonzi e voltou à torre, agarrada com a caixa com o sapatinho e com sua cesta de morangos. Guardaria ambos no seu quarto assim que chegasse e agiria normalmente no jantar. Não contaria nada a suas irmãs. Tomaria aquela decisão sozinha. Seria uma longa noite imersa em seus pensamentos, mas lá no íntimo, ela sabia qual seria sua decisão desde o momento em que ele lhe apresentara sua proposta.

Notas finais
Comentem pessoal!!!