Herdeiros da Guerra

18 Capítulo XVI - Despertar PARTE I


Antes mesmo de abrir os olhos, Wood sabia que alguma coisa estava errada. Rapidamente procurou sua espada e sentou-se na cama já com a lâmina em riste. Só que não havia nada de diferente em seu quarto. Pelo menos não aparentemente. Mas ela sentia que havia algo diferente. Levantou-se devagar, sem fazer nenhum barulho. Seus olhos relancearam em direção ao seu arco, sua arma preferida mas, se havia alguém em casa, a espada seria a melhor a solução. Então, portando a lâmina curta de obsidio, abriu a porta de seu quarto e saiu silenciosamente.

O dia estava clareando e aquele frio de fim de madrugada já estava se esvaindo. Ainda assim, a comandante precisou cerrar os dentes para que eles não batessem de frio. Seu cobertor de peles era o suficiente para protege-la do frio na cama, mas sua fina camisola de seda (que seus irmãos haviam feito e insistiam que ela deveria usar) deixava a umidade penetrar facilmente. Bem, pelo menos se houvesse uma luta, o combate a iria esquentar devidamente.

Quando terminou de descer as escadas, um barulho na cozinha chamou sua atenção. Com cuidado redobrado, se dirigiu ao cômodo. Abriu a porta devagar e viu quem estava provocando o distúrbio.

Era uma moça que nunca tinha visto antes, mas que lhe era estranhamente familiar. Ela era bem mais baixa e mais cheinha que Wood.Tinha um cabelo volumoso e bem cacheado que estava preso em um rabo de cavalo, mas ainda assim parecia indomado. Tinha o rosto redondo, bochechas rosadas e proeminentes, e lábios carnudos que fariam metade das mulheres da nobreza chorarem de inveja. Ainda estava analisando-a quando a moça levantou a cabeça e sorriu ao vê-la.

– Bom dia Lina! – disse com a voz aguda e melodiosa, como a de um passarinho.

– Doroteya? – perguntou finalmente reconhecendo os olhos cor de mel que lhe cativaram no dia anterior.

Doroteya assentiu e então viu a espada.

– Oh, eu lhe assustei? – perguntou preocupada.

– Não exatamente. – respondeu Wood baixando a arma – Só acordei e senti algo... Diferente.

Ao falar aquilo percebeu o que havia de errado e que tinha lhe acordado. Cheiro de café. Café e comida fresca. Estranhou pois, nem ela e muito menos seus irmãos, cozinhavam.

– Tomei a liberdade de preparar o café da manhã. — disse Doroteya. E vendo que Wood ainda a analisava, explicou – Essa é minha forma humana. Sabe, de antes da maldição. – ela falou aquilo com um grande desprendimento, como se ter sido amaldiçoada fosse apenas um detalhe irrelevante – Eu prefiro cozinhar assim, evita cair pelo na comida. – e sorriu — Espero que não se importe por eu ter invadido sua cozinha.

Wood fez que não com a cabeça.

– A verdade é que ninguém cozinha aqui, por isso estranhei. Mas o cheiro está delicioso.

Doroteya abriu ainda mais o sorriso e foi em direção do fogão a lenha.

– Fiz café e também chá. — disse animadamente — As panquecas estão prontas, mas não achei nada além de manteiga para acompanhar. Elas ficam melhores com geleia. – a worgenin franziu a testa como se a falta de geleia fosse um problema imenso – Também passei ovos e um pouco de presunto. Você pode ir provando enquanto o pão fica pronto. – e ela meteu a cabeça no forno para verificar se o pão estava indo bem.

Wood não sabia o que dizer.

– Doroteya... – ela começou e a moça risonha a olhou – Você não precisava ter se incomodado...

– Ah, claro que precisava! – disse voltando sua atenção novamente ao forno – Você está me dando abrigo, faço questão de compensar de alguma forma. – ao constatar que o pão não ficaria pronto mais rápido se ficasse olhando, Doroteya fechou o forno – E eu acordo bem cedo e fico entediada com facilidade. Por isso decidi cozinhar. – e colocando a mão na cintura, falou preocupada – Mas você precisa abastecer essa despensa. Está praticamente seca.

Pousando a espada na mesa, Wood se aproximou da despensa e deu uma olhada lá dentro. Ela não estava apenas seca, estava bem limpa e arejada. Se perguntou se fora Doroteya que a limpara enquanto preparava o café da manhã.

– Bem, como praticamente não cozinhamos aqui, não há razão de uma despensa cheia. — disse voltando para a mesa.

– Nem você nem seus irmãos sabem cozinhar?

No dia anterior, Wood falara a Doroteya que dividia a casa com dois de seus irmãos. Ambos eram alfaiates e passavam mais tempo fora de casa que dentro dela.

– Eu sei cozinhar. Mas não gosto. — admitiu.

– Eu amo cozinhar! — falou a druidesa como se aquilo não fosse óbvio — Meu marido gostava de tudo que eu fazia, mas principalmente de batatas recheadas. — seus olhos brilharam de saudades — Theodore também gosta, mas prefere a torta de morango e amora.

– Theodore é seu filho? — a comandante decidiu se sentar e comer. A cozinha estava quente e aconchegante e ela estava faminta.

– Sim, sim. — afirmou Doroteya pegando a comida e o café e colocando na mesa — Mas prefiro chamá-lo de Theo. Acho que combina mais com ele.

Wood deixou que Doroteya borboleteasse pela cozinha falando de seu filho, enquanto servia café em duas xícaras e verificava constantemente o pão.

– Ele é a cara do pai. — falou — Ruivo, olhos verdes. A única coisa que ele herdou de mim foi essa boca grande. — e apontou os lábios carnudos.

– Uma beça herança. — disse Wood sincera.

Ambas riram.

– Qual idade de seu filho? — quis sabera comandante colocando café numa xícara.

– Sete anos.

Wood estava surpresa. Doroteya parecia alguém que tinha acabado de sair da adolescência.

– Você deve ter sido mãe muito jovem. — comentou — Para ter um filho dessa idade.

– Ah, tenho vinte e oito anos! — revelou enquanto cortava generosos pedaços de queijo e servia à sua anfitriã.

Todavia, Wood estava boquiaberta demais para comer naquele momento. Doroteya tinha sua idade?! Como era possível?!

– É alguma magia de druida ficar assim, tão jovem?! — indagou sem esconder o espanto.

Doroteya soltou uma límpida gargalhada e foi novamente até o fogão. Ficou satisfeita em constatar que o pão estava bom e o levou até a mesa.

– Não, não. Sem magia. — ela tirou o pão da forma e colocou numa bandeja de madeira.

– Então me explique esse seu rosto de adolescente. — Wood recebeu com bom grado as fatias de pão fumegante que Doroteya lhe serviu.

– Acho que é porque não guardo rancor de ninguém. Prefiro amar as pessoas a odiá-las.

A comandante de Ventobravo duvidava que esse fosse o motivo, mas achou bonita a forma como ela falou. Realmente a druidesa era alguém de bom coração, levando em consideração como reagiu ao isolamento que sofrera de seu próprio povo. Havia uma aura de paz e tranquilidade que rodeavam Doroteya, como se nada no mundo pudesse abalá-la.

– Ah, e eu também sou vegetariana. — completou.

– Uma worgenin vegetariana? — Wood caiu na gargalhada sendo acompanhada pela outra — Você é um caso raro mesmo Doroteya!

Elas retomaram o café da manhã e Wood estava impressionada em como a comida de Doroteya conseguiu ser tão boa apesar dos ingredientes escassos que ela encontrara. O pão estava macio e suculento, além de bem quente. Quando colocou uma fatia de queijo sobre ele, o queijo começou a derreter e exalar um aroma irresistível. A última vez que comeu um pão tão bom foi no último Véu de Inverno, na casa de sua mãe.

– É muito bom você acordar cedo. — disse a comandante cortando mais um pedaço de pão — Gosto de começar a trabalhar logo que o sol nasce.

– Tudo bem. — assentiu a outra.

– Hoje eu quero ir novamente ao lugar onde uma patrulha foi morta e tentar descobrir mais dos assassinos.

– Não foi a Horda? — quis saber a worgenin. Apesar da sugestão, não havia sequer um traço de ódio em sua fala, como era comum na esmagadora maioria dos povos da Aliança.

– Tentaram por a culpa na Horda. — revelou — Mas sei que foram os Defias. Só resta saber como eles conseguiram acabar com toda uma tropa de forma tão violenta sem chamar a atenção da vila próxima. Eu acredito que...

A frase se perdeu de repente, abafada por um grito estridente que chegara à cozinha.

– Quengacilina!!!!!! — gritava a voz.

Doroteya viu o queixo de Wood se enrijecer e ela pegar a espada. Quando um homem de uma vasta cabeleira ruiva entrou na cozinha, se deparou com uma lâmina empunhada e que estava bem no caminho de sua garganta. Se ele não tivesse parado tão prontamente, teria ficado sem a cabeça.

– Eu já disse para não me chamar assim! — rosnou Wood.

– Mas querida irmãzinha, Quengacilina é seu nome! — disse o homem de forma bem afetada.

– Um nome que eu detesto e você sabe bem! — havia raiva na voz dela — E eu já te falei que, se você me chamasse assim na frente de alguém, eu iria falar para seus clientes que seu nome não é Fey e sim Phumiga!!!

– Mas... — foi quando ele notou Doroteya na cozinha — Oh, não sabia que tínhamos visita! — e estreitando os olhos disse de forma maliciosa para a irmã — Querida, você trouxe uma menina pra casa! Não sabia que você tinha decidido ter novas experiências sexuais e-

A frase ficou no ar porque Wood acertou um soco bem forte no meio das pernas do irmão. Phumiga ou Fey, se curvou de dor e caiu no chão encolhido. Doroteya olhou preocupada para ele, mas Wood deu de ombros.

– Não tenha pena dele, meu irmão é um imbecil. — e lançou um olhar de súplica para a druidesa — Por favor, não comente com ninguém sobre o meu nome.

– Ah, não se preocupe. — Doroteya sorriu carinhosamente — Vou continuar te chamando de Lina ou comandante, o que você preferir. — Wood relaxou e a outra então decidiu perguntar — Mas esse nome... Como...?

Wood suspiroue pegou a xícara de café. O irmão continuava gemendo no chão, mas ela o ignorou.

– Minha amada e sem noção mãezinha. Todos nós temos nomes estranhos. Nunca entendi porque papai deixava, mas acredito que ele seja tão sem noção quanto ela.

– Então você e seus irmãos têm nomes estranhos? — Doroteya agora lançava olhares preocupados para o homem no chão que continuava choramingando.

– Todos os dezoito filhos receberam nomes esdrúxulos. — lamentou colocando mais pão na boca e engolindo rapidamente.

Agora Doroteya estava realmente surpresa.

– Dezoito? Você tem dezoito irmãos?!

– Dezessete. — corrigiu — Comigo são dezoito.

Phumiga grunhiu algo e apontou o dedo para Wood.

– O que ele disse? — perguntou Doroteya.

– Que eu sou a caçula. — como ela tinha entendido aquilo, era um mistério — Mas todos têm idade próxima, uns dos outros. A diferente entre eu e Varão, que é o primogênito, é de vinte anos.

Doroteya fez a conta mentalmente e dava mais ou menos um filho por ano. É, aparentemente os pais dela eram bem apaixonados.

– Todos vocês moram aqui em Ventobravo? — quis saber.

– Não. Apenas eu, Phumiga — Phumiga grunhiu mais ainda quando ela o chamou por seu nome, mas Wood ignorou e continuou — e Potinhodemel. Os outros estão espalhados por aí. Alguns ainda vivem na fazenda com papai e mamãe e tem aqueles que se mudaram para outros lugares. — e fazendo uma careta, acrescentou — Tenho uma irmã até no Kirin Tor.

– Qual nome dela? — perguntou Doroteya sem conseguir se conter.

– Quengalícia. — a comandante não conseguiu esconder o risinho debochado. — Pelo menos não fui a única a sofrer.

– E Wood, vem de onde?

– É nosso sobrenome. — quem falou foi Phumiga que, ainda no chão, começava a se recuperar.

– Ah, você está vivo? — perguntou Wood sem preocupação — Então deixe-me avisá-lo que Doroteya é minha hóspede e que espero que você e Mel tratem ela muito bem.

– Eu ouvi meu nominho sendo dito em vão? – disse uma voz tão afetada quanto a de Phumiga vindo da sala.

Um homem vestido um chamativo robe de seda vermelha enfeitado com plumas entrou na cozinha. Ele era careca e tinha a pele mais escura que a de Wood e seu outro irmão. Na hora em que o homem viu Doroteya, colocou a mão no coração como se estivesse tendo a maior surpresa do mundo e então correu para a druidesa.

– Pela Luz, que criatura linda e exótica é essa?! – ele pegou Doroteya pela mão e a levantou num movimento rápido – Que cabelos, que rosto, que boca l-i-n-d-a!!! – e olhando para Wood, perguntou inquisitorialmente – Por que não nos apresentou antes?

Diferente de sua hóspede, a comandante não estava nem um pouco aturdida com o comportamento do homem de robe vermelho. Pelo contrário, fez cara de entediada, como se aquele ataque de deslumbramento fosse comum.

– Doroteya chegou ontem de Darnassus. Ela é uma druidesa de Guilnéas e vai trabalhar comigo. – e suspirando, alertou – Você não vai transformá-la em uma de suas bonequinhas, Mel.

Todavia, Mel parecia não está ouvindo, pois agora analisava Doroteya com um interesse cada vez mais crescente. Ele rapidamente soltou o cabelo dela e ficou deslumbrado com as ondas de cachos que caiam graciosamente. Girou-a mais de uma vez, vendo os ângulos de seu corpo e seus olhos brilhavam como os de um joalheiro que encontra uma pedra rara.

– O senhor está me deixando sem jeito... – murmurou a worgenin com um sorriso tímido no rosto.

– Não tem porque ficar assim! – repreendeu Mel – Você é tão linda!!! Deveria estar por ai desfilando meus modelitos e não embrenhada no mato!

Wood sentiu o sangue ferver e já ia dar uns tabefes no irmão pela fata de respeito, mas Doroteya acenou para ela, dizendo que estava tudo bem, antes de falar com a voz doce para seu novo admirador.

– Aprecio seus elogios, mas não fui feita para isso. E além do mais, posso perder o controle e.... – ela não disse mais nada, apenas se afastou um passo para trás e voltou a sua forma de worgenin.

Para sua surpresa, Mel deu um outro gritinho animado e parecia ainda mais interessado nela que antes.

– Ah, posso fazer toda uma coleção inspirada em Guilneas tendo você como modelo!

– Não. – quem falou com a voz decidida foi Wood, que já se levantara – Doroteya aprecia sua admiração, mas temos mais o que fazer. – e passando por cima de Phumiga, se dirigiu a porta da cozinha e chamou Doroteya com a mão. – Temos assassinatos para investigar Mel.

Mel pareceu tão decepcionado que quase Doroteya mudou de ideia. Foi então eu Phumiga/Fey grunhiu algo no chão e o rosto de Mel se iluminar.

– É mesmo! Tem o baile! Farei um vestido lindo para o baile para nossa querida worgenin!

Doroteya olhou para Wood pensando que a comandante iria estar irritada com o irmão, mas ela parecia considerar a proposta uma boa ideia.

– Eu não posso ir para o baile. – disse Doroteya com a voz triste – Estou de luto pelo meu marido.

– Sem problemas, farei o vestido preto mais bonito dessa cidade! – Mel então pegou o pé de Fey e saiu arrastando-o – Licença meninas, temos mais um vestido fabuloso para fazer!

Wood cruzou os braços e começou a rir. E diante do semblante preocupado de Doroteya, falou calmamente:

– Não precisa ir para o baile. – Wood ainda sorria – Mas apenas deixe meu irmão teimoso lhe fazer o vestido. Ele fica feliz vestindo todos.

– Você vai? – perguntou Doroteya gostando de ver um sorriso tão despojado no rosto normalmente sério de Wood.

– Irei. A princesa Arshe quer me homenagear ou algo assim. – e apontando para a escada com o queixo, continuou – Esses dois quase morreram do coração quando eu disse que ia para um baile na Bastilha e precisava de um vestido. Vai ser bom para o negócio deles se o vestido for elogiado pela nobreza.

Wood lhe dirigiu um sorriso e Doroteya retribuiu. E enquanto se ajeitavam para ir ao local onde começariam as investigações e Wood falava sobre seus inúmeros irmãos e irmãs, a druidesa pensava nos irmãos que Theo nunca teria. Queria ter tido quantos filhos pudesse com seu Liam, mas as circunstâncias nunca o permitiram. Mas não era o momento de pensar aquilo. Era o momento de agir. E assim que tudo estava pronto, as duas jovens mulheres partiram pelas ruas de Ventobravo em direção ao sul e ao mistério que as aguardava.

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Ash abriu e fechou a mão para ajustar a luva vermelha da forma mais confortável possível. Depois, conferiu se todo seu equipamento estava em ordem. Por último, verificou se seu longo cabelo loiro estava preso firmemente, pois uma coisa que não queria era lidar com fios soltos durante o treinamento. Por fim, respirou fundo e deu uma última olhada em seu novo quarto antes de sair.

Luxuriah não havia esperado para acomodar a todos na Torre Solfúria. Na verdade, ela sequer esperara os convidados bêbados do casamento do Kassyeh e Tewdric acordarem; tão logo se recuperou da conversa que tiveram, saiu chamando todos e dando ordens. Quando deu por si, Ash já estava sendo apresentada ao seu novo aposento em Luaprata. Ele era imenso, muito maior que seu quarto na casa de campo ou mesmo o da mansão de Lady Luelly. Tinha uma lareira, uma imensa cama, uma penteadeira feita de carvalho e banhada em ouro, além de um closet tão grande que Ash duvidava que um dia iria enchê-lo. E seu quarto nem mesmo era o maior de todos. O de Luxuriah tinha o dobro do tamanho. O de Kassyeh idem. E o de Karensky... Bem, a futura rainha herdara o quarto que pertencera ao Rei Anasterian e que fazia o quarto da jovem caçadora parecer um cubículo. Ash não queria nem imaginar os usos que sua irmã caçula daria para todo aquele espaço.

No início, Ash pensou que se sentiria pouco à vontade ali. Mas em menos de vinte e quatro horas, já considerava a Torre seu lar. E aquele quarto, ainda que meio vazio, parecia muito mais seu que o quarto rosa da mansão, e ela sabia exatamente o porquê.

O dia anterior havia mudado Ash. Se a mudança era para melhor ou para pior, não saberia dizer. Saber do segredo de Luxuriah havia mexido com sua mente de tal forma que ela se sentia uma pessoa completamente diferente de antes. E essa nova pessoa não se sentiria mais à vontade no quarto cor de rosa da infância. Não. Aquele passado não existia mais. E se quisesse cumprir o que prometera à sua irmã e vingá-la, era assim que deveria ser. Ash sabia que, para isso, precisava se apoderar de si mesma e se reconstruir a partir dali.

O quarto rosa da mansão pertencia à menina Ash. O quarto grande e vazio pertencia à Princesa Ashrial Fendessol de Quel’thalas. Cabia ao seu novo eu preencher aqueles espaços vagos e moldar seu mundo à sua nova mente. E começaria naquele mesmo dia, se dedicando inteiramente ao seu treinamento e melhorando suas técnicas de batalha.

Pegou o arco e a aljava, colocou a espada curta na cintura, assobiou chamando Bolota e então saiu do quarto. Apesar das mudanças pelas quais tinha passado, Ash ainda se sentia incomodada ao sair do quarto e olhar para aqueles guardas postados à sua porta. Talvez demorasse um pouco para aceitar que aquilo era apenas protocolo e que ela não precisava se preocupar com um ataque iminente. Então se perguntou o que Luxuriah estaria pensando daquilo.

Tinha visto muito pouco a irmã depois da conversa das duas. Ambas estavam ocupadas com a mudança e Luxuriah ainda parecia um pouco abatida com as circunstâncias. Ash decidiu então que, após seu treinamento, chamaria a irmã para dar uma caminhada pelos jardins do palácio e perguntaria o que ela achava de todos aqueles guardas postados do lado de fora de seus quartos.

Enquanto caminhava e alimentava seus pensamentos, Ash viu Karen e Saba sentadas nos degraus em frente ao corredor que dava à área de treinamento. As meninas pareciam acabrunhadas e tristes.

– Karen, Saba, o que houve? – perguntou preocupada.

Karen levantou a cabeça para encarar a irmã e por um momento pareceu confusa. Olhou Ash de cima a baixo e a jovem caçadora percebeu que Saba fazia o mesmo.

– Nossa Ash, parece que você vai para guerra. – comentou a elfa mais jovem.

Ash não pode deixar de rir.

– Vou para o treinamento com Lor’themar. – revelou – Tenho que está vestida apropriadamente, não acha?

Karen balançou a cabeça como se concordasse, ainda que relutante, apesar de parecer estar considerando alguma outra hipótese.

– Você tá diferente. – quem falou foi Saba.

Ash deu de ombros.

– Você nunca me viu assim Saba. Por isso acha diferente.

– Não, Saba tá certa. – observou Karen — Tem algo estranho em você.

Será que sua mudança tinha sido tão grande e transparecia tanto que até mesmo as duas meninas percebia? Não, ponderou Ash, não poderia ter sido tanto. Com certeza elas estavam apenas confusas por verem-na naqueles trajes.

– É a roupa do treino. – insistiu a caçadora – E por falar em treino, por que você não está com o Huaru? – quis saber encarando a irmã caçula.

Karen e Saba se encararam e pareceram ainda mais tristes. Ash estava começando a ficar preocupada.

– O que aconteceu? – inquiriu incisivamente.

Karen franziu as sobrancelhas e olhou para a espada na cintura de Ash. Foi quando Ash percebeu que havia institivamente pegado no cabo da espada e o apertava com força.

– A mãe de Saba mandou uma carta... – disse a menina desviando os olhos da irmã.

– Ela quer que eu volte amanhã pra casa. – completou a orquisa tristemente.

Agora a tristeza das duas estava bem explicada. Karen e Saba haviam se apegado muito durante o pouco tempo que se conheciam. A separação seria muito difícil e Ash desconfiava que sua irmã seria a que mais sofreria com ela. Saba pelo menos teria com quem brincar em Orgrimmar; sua irmã estaria confinada a seu treinamento de paladina e à aprendizagem para se tornar rainha. E mesmo em seu tempo livre, Karen não teria com quem brincar; elfos da idade dela eram raros e a todos já estavam engajados em seus próprios aprendizados. O coração de Ash se apertou pela situação da irmã.

– Não fiquem assim meninas. – disse tentando animá-las – Não vai demorar muito e Kass vai ter que ir em Orgrimmar. Então, ela vai levar Karen e vocês vão poder se ver.

As meninas não pareceram se animar com a ideia.

– Ah gente, vamos lá. Vocês vão passar o último dia de Saba em Luaprata sentadas aí com nessa desanimação? Vocês é que estão diferentes assim! – e apontando para a janela, tentou motivá-las – O dia está lindo e aposto que a cidade está cheia de gente para vocês pregarem peças.

Aquela observação fez com que Karen e Saba se entreolhassem e concordassem silenciosamente que não queriam passar o último dia juntas naquele desânimo. Se levantaram apressadamente e saíram correndo na direção do jardim. Porém, Karen estacou antes de chegar a porta, deu meia volta e postou-se na frente da irmã antes de dizer:

– Você tá diferente. – e abrindo um largo sorriso, completou – Mas eu gostei.

E deu um rápido abraço em Ash antes de sair correndo novamente atrás de Saba.

Foi impossível não se emocionar com aquele gesto. Apesar das desavenças e picuinhas, havia muito amor entre ela e Karensky. Os aborrecimentos nada mais eram que a personalidade extrovertida de sua irmãzinha, aliado ao fato que a menina era extremamente sincera, ao passo que Ash era introvertida e preferia guardar seus pensamentos para si. Eram diferentes, mas aquilo não importava.

A jovem caçadora então percebeu que deveria se esforçar não somente por Luxuriah, mas também por Kassyeh e principalmente por Karen. O mundo era um local perigoso e perverso e tanto suas irmãs como seu povo precisavam de sua força para ajudar a se defender. Era nisso que deveria manter seu foco.

Encaminhou-se novamente para a sala de treino e ficou surpresa ao ver que Lor’themar já estava lá, esperando por ela. Seu coração de um salto mortal dentro do seu peito e Ash se esforçou para não deixar nada transparecer. Apesar de tudo que tinha acontecido, seus sentimentos por ele não mudaram. Todavia, não poderia se deixar levar por aquela distração. Haviam coisas mais urgentes no momento.

Quando percebeu a chegada da princesa, Lor’themar lhe dirigiu um reservado sorriso.

– Você me parece disposta hoje. – comentou – A armadura ficou perfeita.

Ash tinha certeza que seu rosto estava em chamas, mas nada falou.

– Pronta? – perguntou o lorde regente indicando a área de treinamento.

– Vamos começar. – disse resoluta.

E Ash ficou satisfeita ao perceber que sua voz soara firme e confiante.

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– Fique quieto criatura dos infernos! – esbravejou Tewdric.

Kassyeh suspirou e soltou momentaneamente a escova com a qual limpava as cinzas das costas de Littleflame. Talvez não tivesse sido uma boa ideia pedir que seu marido a ajudasse a escovar suas mascotes; Tewdric, porém, insistira. E agora ele estava atracado com Hotch, que mordia e arranhava o orc enquanto esse tentava passar a escova em seus pelos.

– Você não deve passar com força, Tewdric. – disse a elfa calmamente se aproximando – Passe suavemente na direção que cresce os pelos. –e fez um movimento com a mão, explicando como se fazia.

Tewdric prestou a atenção nos movimentos dela e tentou mais uma vez. Só que o pequeno tigre não queria mais saber das tentativas do guerreiro em escová-lo. Então, assim que Tewdric passou a escova novamente, Hotch chiou alto, deu um pulo, mordeu a mão do orc e saiu em disparada para debaixo da cama.

Enquanto ouvia todos os palavrões disponíveis na língua órquica proferidas pelo seu furioso marido, Kassyeh pensou que a melhor coisa a fazer era terminar de tirar os cascões de cinza presas nas costas de seu cãozinho de magma e depois fazer ela mesmo o serviço com os pelos de Hotch.

– Deixei-o em paz Tewdric. – disse voltando a passar a escova com cuidado em Littleflame – Eu o escovo depois.

O orc franziu a testa e não parecia disposto a desistir. Foi em direção à cama, abaixou-se e tentou pegar a mascote rebelde.

– É questão de honra agora. – grunhiu – Como vou cuidar de meus filhos senão consigo escovar o diabo de um tigrinho?

Kassyeh riu alto e virou Littleflame para limpar seu rabo. O cãozinho de magma parecia muito feliz com a atenção.

– Nossos filhos não irão tentar arrancar seu rosto quando você for penteá-los. – disse a elfa risonha.

– Quem garante? – o orc deu de ombros – As crianças órquicas podem ser tão selvagens quanto esse tigrinho!

Tewdric enfiou o braço mais fundo debaixo da cama e agarrou o rabo de Hotch. O tigrinho grunhiu alto e abocanhou a mão do guerreiro. Sem esboçar nenhuma reação diante da dor, Tewdric puxou o braço de volta e mostrou a mascote com as garras enfincadas em sua mão.

– Veja, peguei! – ele parecia triunfante.

Kassyeh riu e foi até onde o marido estava, tirou a mascote com cuidado da mão dele e o colocou com cuidado numa almofada. Hotch sibilou para Tewdric antes de se enroscar e começar a cochilar.

– Acho que vou ter que arrumar outro meio de treinar minha paternidade. – falou o orc franzindo as sobrancelhas.

A elfa riu alto e o abraçou.

– Você não precisa treinar. – ela sapecou um beijo em sua bochecha — Será um pai perfeito.

– E as fraudas? As mamadeiras? O choro insuportável à noite? – quis saber o orc preocupado.

– Vamos nos preocupar com isso quando o momento chegar.

O orc passou as mãos na cintura de Kassyeh a beijou profundamente. Queria leva-la novamente para a cama, mas sabia que ambos tinham afazeres naquele dia. Kassyeh iria fazer alguma coisa lá de princesa e ele precisava se despedir do pessoal da guilda que ainda estavam por ali. Talvez, se sua elfa terminasse logo o que tinha que fazer, poderia convencê-la a ir à taberna tomar uma boa cerveja, rever os amigos e esticar a noite em um dos quarto para relembrar a primeira vez dos dois.

– Sabe... – começou Kassyeh um pouco envergonhada – Já pensou como serão nossos filhos?

– Como assim? – perguntou o orc confuso.

– A aparência deles. – ela respirou fundo antes de dizer — Eu acho que eles terão a pele verde, como a sua.

– Todos os quinze? – quis saber o guerreiro.

– Quinze?! – Kassyeh jogou a cabeça para trás e gargalhou – Sério? Quinze?!

Tewdric franziu a sobrancelha, com uma expressão de seriedade no rosto.

– Sim, quinze. – reafirmou – Não acha suficiente? Dezesseis então.

A maga riu mais ainda e o abraçou com mais força.

– Na verdade, eu acho que é um pouquinho demais.

– Tem certeza? – quando ela acenou com a cabeça afirmativamente, ele ponderou um pouco e então falou – Que tal doze?

Abrindo mais o sorriso, Kassyeh pensou que ter uma penca de filhos talvez fosse bom. O que não faltava era espaço ali na Torre. Se quisesse que as coisas ficassem mais animadas, doze filhos era a saída.

– Tudo bem, doze filhos. – concordou.

– E espero que eles sejam parecidos com você. – desejou o guerreiro.

– Se serão doze, pode ser meio a meio. – sugeriu ela mesmo sabendo que isso não cabia a eles decidirem. Tewdric com certeza sabia daquilo também, mas ficou animado com a ideia.

– Sim, meio a meio parece bom!

O casal riu e com certeza ficariam bastante tempo ali fazendo planos para o futuro se não fosse uma discreta batida na porta.

– Kassyeh? – era a voz de Aethas.

– Tio! – respondeu animada – Pode entrar.

Aethas entrou e sorriu para a sobrinha e seu marido. Diferente do que Kassyeh esperava, ele não estava vestindo suas roupas pomposas de viagem para voltar a Dalaran; pelo contrário, ele estava com uma calça e camisa de linho vermelha simples, o mesmo tipo de roupa que usava em seus raros momentos de folga e quando decidia passar um tempo com Karen.

– Você não vai viajar hoje tio? – perguntou a elfa surpresa ao dar um abraço apertado no arquimago – Pensei que o senhor deveria voltar a Dalaran o mais rápido possível!

– Preciso ficar e resolver algumas coisas. – explicou com um sorriso torto no rosto – Talvez demore mais alguns dias.

– Que bom que o senhor decidiu ficar! – Kassyeh exclamou feliz – Mal pudemos conversar esses dias!

Aethas queria falar para sua amada sobrinha que não fora decisão dele ficar em Luaprata. E sim, ele deveria voltar o mais rápido possível a Dalaran, ou isso poderia comprometer o status da Horda naquela facção. Todavia, precisava ficar. Ou perderia o amor de uma de suas sobrinhas para sempre.

Quando Luxuriah o procurara com os olhos em chamas no dia anterior, Aethas poderia imaginar tudo que poderia ter feito para irritar a primogênita de sua irmã. Ou quase tudo. Ele jamais, jamais, imaginaria que Ash ouvira sua conversa com Vivithi e agora sabia a única coisa que nunca deveria saber em sua vida. E foi quando recebeu o ultimato:

– Iremos conversar sobre isso, mas não hoje. – dissera Luxuriah com fúria –O senhor vai ficar em Luaprata até resolvermos tudo. – e quando ele abriu a boca para protestar, ela foi incisiva – Ou isso, ou esqueça que somos parentes!

Apesar dos muitos defeitos que Aethas tinha (e ser ambicioso era um deles), ele jamais faria algo que acabasse por cortar as relações que tinha com a única família que lhe restara. Por isso, se resignara a esperar pelo pior em Dalaran e esperar pacientemente o momento que Luxuriah ia derramar sua fúria sobre ele.

E claro, havia Vivithi. Mas esse era um problema que ele tinha uma ideia de como poderia resolver.

– Como eu pensava que o senhor ia hoje, – Kassyeh continuou sua narrativa, sem imaginaro que se passava na cabeça de seu tio – já deixei o estoque dos frascos anti-magias preparados. Fiz mais que da última vez. Acho que vamos conseguir um bom dinheiro com eles.

– Com certeza. – concordou o arquimago – Todos os sin’dorei se matam para ter uma amostra de sua poção. – e com um sorriso malicioso, se inclinou e completou – E alguns quel’doreis também.

Kassyeh deu de ombros.

– Não me importo que aqueles imbecis comprem minhas poções, desde que paguem bem mais por elas que nosso povo.

Aethas riu e passou a mão na cabeça de Kassyeh.

– Você falou igual a sua mãe agora. – e dando de ombros, sugeriu – Mas seria uma excelente ideia eu ficar logo com os frascos. Assim, se eu tiver que partir de repente e você estiver ocupada, não haverá problema.

– Claro! Sente-se enquanto vou pegá-los! – concordou Kassyeh animada antes de se voltar para Tewdric e dizer – Volto já!

Aethas se acomodou em uma das confortáveis poltronas enquanto Kassyeh saia apressadamente. Assim que os passos da elfa se distanciaram no corredor, o arquimago olhou para Tewdric, que tinha passado toda a conversa cutucando o cãozinho de magma da esposa e falou:

– Tewdric, poderia me ajudar com uma questão?

O orc sorriu mostrando todas as suas presas e sentou-se em uma poltrona em frente a Aethas.

– Vivithi. – o guerreiro não perguntou, afirmou com convicção.

Aethas sentiu o rosto corar. A última coisa que imaginou que faria na vida era pedir conselhos a um orc sobre uma elfa. Mas levando em consideração que o orc em questão conseguira conquistar o coração de sua mais tímida sobrinha, ele era a pessoa certa.

Não que quisesse conquistar o coração de Vivithi, claro. Queria apenas recuperar seu orgulho, disse para si mesmo.

– Isso. Vivithi. — confirmou.

– O titio quer saber como levar ela pra cama de novo. – afirmou novamente.

É, o orc era bom naquilo.

– Bem, é. – admitiu sentindo seu rosto ainda mais corado – Sabe, é questão de orgulho. Ela disse... – ele colocou a mão fechada na boca e pigarreou um pouco – Bem... Que eu não era bom...

– E o senhor acreditou. – o orc riu mais ainda. Parecia estar se divertindo.

– Sim, claro que acreditei. – o elfo ficou confuso – Ela disse com todas as palavras que... – e como se então uma luz se acendesse, ele exclamou – Oh!

– Tio, claro que ela vai dizer que foi ruim. Ela diz que não gosta do senhor. O senhor diz que não gosta dela. Mas vocês parecem que tem tesão um no outro. – e dando uma gargalhada, completou – Depois do que o senhor disse lá na taverna, duvido que admitisse pra ela que gostou.

– Claro que não!

Então tudo fazia sentido. Quando Vivithi admitiria que sentira prazer com ele? Jamais. A elfa mentira descaradamente. Aethas tinha que ser sincero consigo mesmo e aceitar que também não admitiria que sentira prazer em estar com ela. É, estavam num impasse.

– E outra – continuou o orc — Pelo que entendi o senhor dormiu agarradinho com ela, né?

Fora bem mais que isso, admitiu Aethas para si mesmo. Ela dormira, e o mago passara um bom tempo admirando as feições adormecidas. Estava revoltado consigo mesmo por permitir que ela o atingisse dessa forma.

– Sim, dormimos. – era a única coisa que podia admitir em voz alta.

– Então, ela gostou, o senhor gostou, mas são dois orgulhosos pra admitirem. – o orc riu – Isso parece muito divertido

– Você diz isso porque você não está em meu lugar. – reclamou Aethas.

O orc riu ainda mais.

– Bem, tio, se bem conheço essas elfas aí, a Vivithi não vai querer papo com o senhor, não é?

Aethas suspirou e colocou a mão na testa.

– É mais fácil o rei de Ventobravo tomar chá com Grito infernal. – essa era uma verdade cruel.

– E o senhor quer ter outra noite daquelas com ela, não é?

Não apenas uma, mas muitas. Tantas quanto pudesse aguentar. Queria ouvi-la gemer novamente e fazê-la gritar seu nome.

– Sim. – foi tudo que disse a Tewdric.

O guerreiro então se inclinou para frente com as mãos cruzadas, malícia nos olhos e um sorriso maligno no rosto.

– Pois ouça o que vou dizer titio, e essa elfa não vai conseguir pensar em mais ninguém além do senhor.

*************************

Luxuriah jogou água fria em seu rosto e rezou para que aquele mal estar passasse o mais rápido possível. Não aguentava mais sentir aquele enjoo e aquela sensação de inchaço e peso no corpo. A única explicação que achara para aquilo era que o estresse acumulado nas últimas semanas estava cobrando seu preço e drenando sua saúde. Se era realmente isso, iria se sentir mal ainda por uns dias, enquanto determinados assuntos estivessem pendentes.

Sentira um prazer mórbido no dia anterior em colocar seu tio contra a parede. Sim, ele teria que escolher entre sua preciosa Dalaran e sua sobrinha. Iria prendê-lo ali o máximo que pudesse, sem é claro, prejudicar seu povo. Não seria tão inconsequente. Mas sabia que um simples dia a mais em Luaprata colocaria Aethas em estado de pânico, que cresceria a medida que as horas fossem passando.

Era um castigo a altura.

Com Vivithi a coisa era um pouco diferente. Dissera que queria conversar e contara o que ela e Aethas fizeram. O horror na face da patrulheira fora o suficiente para Luxuriah perdoá-la, mas ainda assim fora fria ao dizer que precisava de uns dias para pensar e então ter uma conversa séria. Com os dois. Juntos. Mais um castigo à altura.

Só que agora pensava que talvez fosse melhor resolver tudo de uma vez e relaxar, para que toda aquela sensação ruim que teimava em acompanha-la pudesse ir embora de vez. Talvez voltasse à Casa de Campo assim que suas irmãs estivessem adaptadas. Iria ter uma lua-de-mel apropriada com seu jovem e másculo tauren, permitir que as mãos dele explorassem todo seu corpo e esquecesse tudo que lhe perturbava.

Sim, uma excelente ideia. Mas deixaria Aethas e Vivithi sofrerem pelo menos um dia.

A mudança apressada fora um motivo mais que suficiente para manter aqueles dois longe. Lor’themar, é claro, amara a ideia. Queria todas sob sua tutela o mais rápido possível. Nenhuma das irmãsprotestou e agora estavam vivendo oficialmente na Torre Solfúria.

Será que em algum momento de sua vida, Lady Luelly imaginou que finalmente seu filho seria reconhecido e suas netas estariam na residência real e que uma delas seria a próxima governante do seu povo? Pelo que havia lido do diário, sim, com certeza sua avó sabia que esse dia chegaria. E foi pensando nela, que Luxuriah finalmente sorriu.

Houve uma batida na porta do banheiro e a voz de Huaru soou preocupada:

– Bebê? Você está bem? Já faz mais de uma hora que você tá ai.

– Estou! – respondeu enxugando o rosto e saindo.

A expressão do tauren dizia o que Luxuriah temia: ele havia percebido que ela continuava se sentindo mal, apesar de suas constantes afirmações que estava bem.

– Você precisa ver um curandeiro. – sentenciou o paladino.

– É só estresse, amor. – disse a elfa abraçando-o – Vai passar.

– Você disse isso ontem à noite. – apesar da voz séria, ele a abraçou de volta.

– Exato, ontem à noite. Não deu tempo aliviar todo o estresse.

Huaru a olhou com o cenho franzido.

– Não fui bom o suficiente? – perguntou mais preocupado ainda.

Luxuriah riu alto e o abraçou ainda mais forte.

– Você é sempre bom, muito mais que o suficiente. – disse com a voz sedutora – E se não fosse você, eu já teria sucumbido a tudo isso... – e passando a mão lentamente pelas costas dele, propôs – Mas talvez você queria tentar de novo agora de manhã, que tal?

Uma coisa que deixava a elfa aliviada apesar do mal estar, era que ele não lhe tirara o apetite sexual. Na verdade, parecia ainda mais sedenta por prazer. Por isso, colou o corpo em Huaru e o beijou com ansiedade. O tauren correspondeu o beijo e a tirou do chão logo em seguida, para então coloca-la confortavelmente na cama. Quando Luxuriah passou as pernas pelos quadris dele e já se preparava para tirar a camisola, uma batida na porta quebrou o clima dos dois.

– Vá embora! – gritou Luxuriah enfurecida.

Mas as batidas continuaram insistentes.

– Atenda bebê. – disse Huaru saindo de cima dela – Pode ser importante.

A caçadora bufou e levantou-se da cama. Quem quer que fosse não iria pegá-la no melhor dos humores. E quando abriu a porta, sua raiva só fez aumentar.

– Vivithi! – exclamou Luxuriah estreitando os olhos – O que você está fazendo aqui?!

Sua voz soou ríspida e gelada. Vivithi, contudo, não se mexeu.

– Precisamos conversar. – seu tom era de urgência.

– Eu já te disse, conversarei com você e tio Aethas em outra oportunidade. – e fez menção de bater a porta na cara da outra.

Vivithi, contudo, não ia se dar por vencida. Colocou o pé na porta, impedindo que Luxuriah a fechasse completamente. Pega de surpresa, a jovem princesa não pode evitar que a patrulheira empurrasse de volta a porta e quando deu por si, ela já estava no quarto.

– Sério isso?! – exclamou Luxuriah furiosa – Além de atrapalhar minha manhã com o meu tauren, você invade meu quarto?!

– Por favor Luxuriah, eu preciso muito, muito falar com você! – Vivithi estava praticamente suplicando.

Aquilo fez com que Luxuriah titubeasse um pouco. A expressão de Vivithi evidenciava muito mais que preocupação: a elfa estava em pânico. Luxuriah então notou que sua pele, normalmente rosada, estava mortalmente pálida e havia profundas olheiras marcando sua expressão. Sim, definitivamente alguma coisa estava errada.

Huaru também notou o mesmo que Luxuriah, pois logo que deu uma boa analisada em Vivithi, foi se encaminhando para sua namorada e colocou a mão no ombro dela.

– Converse com ela, bebê. – aconselhou em seu tom calmo e compreensivo de sempre – É óbvio que ela está precisando de você.

Todo o gelo que havia em Luxuriah se derreteu diante do pedido dele. Ela respirou fundo, relaxou e balançou afirmativamente a cabeça.

– Certo, certo. – e com o dedo em riste na direção da amiga, avisou — Mas que seja rápido!

Vivithi ficou visivelmente aliviada. Huaru então deu um beijo rápido no rosto de Luxuriah e saiu do quarto. A caçadora não convidou a outra para sentar, apenas cruzou os braços e esperou.

Apesar de ter invadido o quarto da amiga e estar precisando desesperadamente desabafar, Vivithi não sabia por onde começar. Não sabia sequer se deveria falar. Tinha consciência que deveria estar sentindo aquele desespero todo diante do fato de Ash ter descoberto o segredo de Luxuriah por causa de sua briga com Aethas, mas não era aquilo que a fizera perder o sono. Nem mesmo era o que a estava deixando desesperada. Tudo o que sentia era exclusivamente porque não conseguia tirar Aethas da cabeça.

Mas como diria isso para Luxuriah?

– Vamos! – disse a caçadora impaciente – Estou esperando!

Vivithi respirou fundo.

– Eu transei com Aethas.

Luxuriah piscou várias vezes, tentando entender o significado daquelas palavras. Por um momento o silêncio imperou no quarto, enquanto as elfas se encaravam.

– Você fez o quê? – perguntou finalmente Luxuriah.

– Transei com Aethas. – já era ruim falar uma vez, duas então era um suplício.

Silêncio.

Luxuriah então gargalhou.

Não foi uma gargalhada divertida, engraçada, mas uma gargalhada alta e histérica, como se ela tivesse sido exposta à coisa mais absurda possível. Foi uma gargalhada longa, que deixou a elfa sem forças e a fez procurar a poltrona mais próxima, onde se afundou enquanto ainda ria descontroladamente. Vivithi permaneceu calada e pálida enquanto a amiga continuava e continuava a gargalhar.

Quando a gargalhada de Luxuriah foi perdendo a força, ela olhou na direção de Vivithi, ainda com um sorriso no rosto, mas agora esse exibia malícia.

– Então... – ela disse se ajeitando confortavelmente na poltrona – Você transou com meu tio...

– Foi. – afirmou Vivithi num fio de voz.

– Aquele mesmo que você, durante anos, disse que seria o último elfo com quem você dormiria?

– Sim.

– Aquele que você disse que preferia dormir com um humano do que ir pra cama com ele? – continuou.

– Esse mesmo.

– E tudo isso aconteceu, suponho, na mesma noite em que vocês dois, imprudentemente, discutiram aos gritos coisas sobre mim que ninguém deveria saber. – concluiu ainda com o sorriso no rosto, mas ele se tornara gelado.

– Sinto muito. – a elfa disse num sussurro.

As duas elfas se encararam e o silêncio voltou a reinar no quarto e só foi quebrado quando uma batida discreta na porta se ouviu.

– Quem é? – perguntou Luxuriah sem tirar os olhos da amiga.

– Vossa Alteza, seu café da manhã. – disse uma serva do outro lado da porta.

– Pode entrar. – permitiu.

A serva entrou, fez uma profunda reverência a Luxuriah, acenou com a cabeça para Vivithi e pôs-se a arrumar rapidamente a comida na fabulosa mesa que enfeitava o quarto real.

– Minhas irmãs já foram servidas? – perguntou ainda encarando Vivithi.

– Sim vossa alteza. – respondeu a elfa – Café da manhã no quarto, como vossa alteza ordenou.

– Ótimo.

Quando a serva terminou, fez outra reverência e saiu apressadamente do quarto. Luxuriah não fez nenhuma menção de ir até a comida.

– Se isso era tudo que você queria me dizer, – falou a princesa – acho que pode ir.

– Luxuriah, por favor! – Vivithi se aproximou dapoltrona – Eu realmente preciso de sua ajuda!

A caçadora arqueou uma das sobrancelhas.

– Minha ajuda? Eu deveria mandar executar você e meu tio por terem feito a única coisa que jamais poderiam fazer, e você quer minha ajuda?! – sua voz era agora ríspida e cheia de rancor.

– Se você quiser me punir depois, não vou reclamar, mas eu realmente preciso de sua ajuda nesse momento.

Apesar da raiva, da frustração e da tristeza que Luxuriah estava sentindo, ainda gostava de Vivithi. Querendo ou não, era a única amiga que tinha, e ela havia ajuda muito suas irmãs quando quase morreu no aborto. E por isso, apenas por isso, decidiu ouvi-la.

– Certo. – aceitou por fim – Sente-se.

Vivithi apressadamente sentou numa poltrona em frente a Luxuriah.

– Você dormiu com meu tio, certo? – perguntou. Quando Vivithi afirmou com a cabeça, continuou – Sei que vocês não se gostam e não se toleram, mas não vejo o porquê de você precisar da minha ajuda. A menos que ele tenha forçado você.

Apesar de dizer isso, Luxuriah sabia que seu tio jamais faria algo do tipo. Mesmo assim, sentiu alivio quando Vivithi negou com a cabeça.

– Não, claro que não! Eu o teria matado se ele ousasse fazer isso!

– Então porque precisa de minha ajuda? – questionou.

Vivithi respirou profundamente.

– Porque não consigo tirar Aethas da minha cabeça.

****************************

Apesar da madrugada fria, o dia ficou rapidamente ensolarado e Wood gostou disso. Enquanto cavalgava ao lado de um imenso tigre espectral de olhos profundamente azuis, Doroteya ia um pouco mais a frente, em forma de cervo, trotando elegantemente.

Estavam indo ao local onde ocorrera a matança. A AVIN já tinha estado lá, mas a chuva do dia anterior impediu seus esforços. Como já tinha visto a cena do crime antes, Wood saberia encontrar pistas que o pessoal de Matias Shaw podia ter deixado passar. E com Doroteya ali, com certeza iria contar com um apoio extra para desvendar a matança.

O que não saia da cabeça de Wood era como os Defias tinham facilmente subjugado toda uma tropa. Mesmo com um financiador, não tinha como eles terem juntado tantos mercenários em tão pouco tempo para aniquilar tantos soldados sem chamar a atenção do vilarejo próximo.

A menos que...

Doroteya parou abruptamente quando um pensamento muito absurdo passou pela cabeça de Wood.

E se o vilarejo fosse controlado pelos Defias?

Como se tivesse ouvindo os pensamentos de Wood, a druidesa andou agitada em volta do cavalo da comandante antes de assumir sua forma de worgenin.

– Foi aqui que aconteceu o massacre, Lina? – perguntou com a voz grave que tinha quando adotava aquela forma.

– Sim, foi. – confirmou – Você notou alguma coisa?

Doroteya assentiu antes de farejar o ar.

– Tem cheiro de morte aqui.

Wood respirou fundo, mas só sentiu os cheiros da floresta. Definitivamente, trazer Doroteya tinha sido uma excelente ideia.

– Vamos investigar. – disse a comandante apeando de seu cavalo.

Enquanto Wood amarrava o animal numa árvore, Doroteya assumiu sua forma felina e passou a farejar o local. Como lembrava muito bem da cena, a comandante apontava e direcionava a druidesa para onde os corpos foram achados, além de verificar constantemente qualquer coisa no chão e nas árvores que pudesse ser uma evidência.

– A chuva de ontem não foi boa para nós. – comentou Wood pensativa – Se houvesse um rastro mínimo que pudesse ser seguido, ele se foi.

Ainda assim, as duas mulheres continuaram com a busca ao longo do dia, verificando cada buraco, cada folha, qualquer coisa que indicasse onde a investigação pudesse andar.

– Venha Doroteya. – chamou Wood quando o sol estava a pino – Vamos comer algo e descansar.

A druidesa concordou e assumiu sua forma de worgenin, antes de se sentar com a outra à sombra de uma árvore. Elas dividiram a comida e a água e fizeram a refeição em silêncio.

– Não vi marcas de lutas. – comentou Doroteya depois de um tempo – A chuva deve ter sido forte nessa região.

Para surpresa da druidesa, a comandante negou com a cabeça.

– Mesmo antes da chuva a cena da batalha era estranha. Apesar dos corpos estarem mutilados, parecia que a luta tinha sido mínima, ou mesmo que não tivesse existido. – ela deu mais uma mordida no seu sanduiche – Foi por isso também que eu descartei a Horda como autora do crime.

Olhando para o topo das árvores, sem contudo enxergá-las, Doroteya ponderava sobre as palavras de Wood e tentava montar o quebra-cabeças em sua mente.

– Eles poderiam ter sido mortos em um local longe e ter sido arrastados para cá? – perguntou.

– Eu teria percebido as marcas. – retrucou Wood.

Doroteya pensou mais um pouco.

– E se eles foram envenenados? Faria sentido não ter tido luta.

Wood meneou a cabeça, considerando a hipótese.

– Faria sentido. Mas ainda assim falta um detalhe. O envenenamento poderia ter sim retardado os movimentos dos soldados, mas não explicaria totalmente a falta de rastros. – Wood se encostou no tronco da árvore que usava como sombra – Envenenamento... – ela bateu com um dos dedos no queixo – Você poderia sentir o cheiro de um veneno forte?

– Acredito que sim. – disse a druidesa.

Um sorriso largo se abriu no rosto da comandante.

– Pois termine logo sua comida. Vamos nos afastar um pouco da clareira.

Logo que elas acabaram o almoço, Wood levou Doroteya um pouco mais adentro da floresta. No dia anterior, antes da chegada da comitiva de Guilnéas, ela havia despachado uma carta a respeito dos corpos dos soldados mortos: os que não fossem identificados, deveriam ser enterrados no interior da floresta. Depois, eles entrariam em contato com as famílias dos que não foram identificados e o reino iria construir um belo mausoléu em homenagem a essas vítimas.

Se houvesse veneno, os corpos poderiam dizer.

Não demoraram a chegar no lugar que fora usado de túmulo. Mesmo Wood, que não tinha o faro aguçado de Doroteya, pode sentir que havia um leve cheiro repugnante no ar. A worgenin passou a mão no nariz, incomodada.

– Está tudo bem? – quis saber a outra.

Doroteya fez que sim e se aproximou mais do túmulo. Assumiu novamente a forma de felino e passou a cavar com a pata a terra molhada. Não demorou muito e uma mão apodrecida surgiu. O cheiro nauseante ficou ainda mais forte e Wood institivamente colocou a mão sobre o nariz. A druidesa, ao contrário, parecia está aguentando bem o mal cheiro, pois continuou sua análise, cutucou a mão, cheirou-a e depois a enterrou novamente. O cheiro deu uma trégua.

– Então? – quis saber Wood.

– Veneno. – confirmou Doroteya voltando a sua forma de worgenin – Feito a partir de sangue de demônios.

O queixo de Wood caiu. Era pior, muito pior do que imaginava.

– Tem certeza?

– Absoluta. – a worgenin apontou para o tumulo – Gostaria de levar aquela mão pra analisar.

Wood estremeceu.

– Isso é necessário?

– Não seria se eu tivesse sangue contaminado. Mas não sei se tem. – Doroteya passou as mãos nervosamente pelo vestido – Seria bom, eu poderia até tentar fazer um antídoto para esse veneno...

Wood respirou fundo. Se era o que deveria fazer, fariam.

– Tenho uma ideia. – revelou – Venha.

As duas voltaram onde estava o cavalo e os equipamentos. Pegaram pedaços de ataduras embebidas em óleos curativos e amarraram ao redor da cabeça. Depois voltaram no túmulo improvisado e, com uma pá, Wood ajudou Doroteya a abrir a vala. Foi nauseante ver aqueles corpos já em decomposição, mas mesmo assim ambas aguentaram firme. O veneno era evidente agora: todos os corpos estavam com a coloração esverdeada da magia vil e alguns deles soltavam um líquido viscoso e preto. A druidesa pareceu muito animada com aquela descoberta e logo encheu um frasco de sangue e guardou firmemente tampado em sua bolsa. Depois elas cobriram novamente os corpos e se afastaram rapidamente.

– Ficarei fedendo por dias. – reclamou Wood ao tirar as ataduras do rosto.

– Não, não. – disse Doroteya sorrindo – Tenho uma receita de um sabonete que vai tirar todo esse cheiro. E ainda é medicinal!

– Você por acaso não tem três quilos desse sabonete ai não? – brincou Wood.

– Três quilos não, mas tenho um pedaço generoso.

Para surpresa da comandante, Doroteya tirou de sua mochila um sabonete verde muito perfumado e entregou em suas mãos.

– Perfeito! – exclamou animada – Tem um lago aqui por perto, podemos lavar nossas mãos lá!

A outra assentiu e elas recolheram as coisas e foram na direção do lago.

– Acho que podemos encerrar as buscas por hoje. – disse Wood quando chegaram ao lago – Ainda temos uma bela estrada pela frente e não quero estar aqui quando a noite cair.

– Tudo bem. – concordou a druidesa.

Assim que Wood se ajoelhou às margens do lago e tocou em suas águas, algo aconteceu. Doroteya foi a primeira a sentir.

– Lina, cuidado!

Wood pulou para trás no exato momento que um tentáculo verde gosmento acertou o lugar onde estava. A comandante puxou seu arco e seu ajudante logo estava ao seu lado. Sentiu ondas de magias percorrerem seu corpo e quando olhou de relance para a worgenin, ela tinha assumido uma forma que parecia um híbrido de coruja com urso e lançava magias sobre sua cabeça.

Logo em seguida, uma besta horrenda e verde saiu do lago. Ele parecia uma bolha gigante cheia de tentáculos, com uma bocarra imensa de onde gotejava o que Wood suspeitou que fosse veneno ou magia vil e vinha com dentes afiados e arreganhados em sua direção.

– Parece que o dia ainda não acabou. – comentou Wood antes de atacar.

Seu tigre espectral assumiu a dianteira e cravou os dentes num dos tentáculos. A besta uivou, mas não diminuiu os ataques. Chicoteava o ar enfurecido, tentando acertar Wood ou o tigre, sem contudo ser bem sucedido. Enquanto isso, Doroteya conjurava magia de ataque sobre o bicho e Wood o enchia de flechas. Mas ele era resistente, bem resistente.

– Foi você quem matou os soldados hein? – gritou Wood para a besta – Fez o trabalho sujo para os Defias!

Urrando, a besta acertou um ataque em Wood, que caiu pesadamente no chão. Aproveitando o momento de fraqueza da inimiga, a besta enrolou-a nos tentáculos e a levou em direção à sua boca.

Doroteya então conjurou um poderoso raio que, vindo do céu, rasgou o tentáculo que agarrava a amiga. E Wood, com seus longos anos de treinamento, largou o arco, puxou a espada e aproveitou a descida brusca para fincar a lâmina bem dentro da boca do bicho. O demônio gritou de dor e, como se fosse uma bola de encher furada, murchou até virar uma gosma sobre a água. Depois do ataque, Wood acabou caindo no lago, bem do lado da gosma e o que viu a deixou com o coração aos pulos. Haviam pedaços de armas e armaduras no fundo do lago

Elas tinham achado o campo de batalha.

**********************

Apesar de quilômetros de distância e uma guerra de fações separando-as, Ash tentava naquele momento fazer a mesma coisa que a comandante do Exército Real de Ventobravo fizera: aprender como usar a espada quando o arco era inútil.

E não estava sendo muito bem sucedida.

Quando chegara na área de treinamento, tinha certeza que sua primeira aula já seria com a espada e os alvos, mas para sua surpresa, Lor’themar lhe entregou uma espada e um arco de madeira, com o peso muito semelhante aos dos seus equipamentos, e disse que iriam treinar a troca de armas.

– Não adianta saber usar a espada e não conseguir puxá-la a tempo em um combate. – justificara.

E agora fazia horas que ela repetia o mesmo movimento: lançar uma flecha, soltar o arco e puxar a espada. Foi a mesma coisa durante toda a manhã, sob o olhar atento de Lor’themar.

– Vamos! – dizia ele com a voz autoritária – Você pode fazer melhor que isso!

Ash queria protestar, dizer que seus braços doíam, que estava cansada e queria pelo menos um copo de água. Em outros tempos teria realmente feito aquilo, mas sua mente estava em um turbilhão de emoções e uma delas era a vontade de querer fazer aquilo. Então, durante todo aquele tempo, ela fez e refez todos os movimentos, sem reclamar, até seu braço começar a latejar de tanta dor. Foi então que Lor’themar ordenou uma pausa, como se tivesse sentido o desconforto da jovem princesa.

– Pare um pouco. – disse – Descanse.

Sentindo um imenso alívio, Ash colocou ambas as armas em um cavalete e se dirigiu aonde estava Lor’themar. Havia uma mesa com diversas frutas e uma jarra de água cristalina. Ash estava sedenta e foi direto para a água. Para sua total surpresa, não conseguiu levantá-la da mesa. Seu braço direito estava tão mortalmente cansado que já não tinha forças.

– Acho que exageramos um pouco. – comentou o lorde regente.

O rosto de Ash queimou de vergonha e ela teve vontade de sumir. Logo depois, porém, a vergonha foi substituída pela raiva de sua fraqueza e ela começou a massagear o braço, para recuperar a força perdida.

– Deixe que eu a sirva. – sugeriu Lor’themar se dirigindo à mesa.

– Não!

A negação dela foi tão contundente que o elfo parou a mão a meio caminho da jarra e a olhou surpreso.

– Eu mesma colocarei água. Eu consigo! – disse resoluta.

Lor’themar então se afastou da mesa, dando espaço para a jovem se aproximar novamente. Ash segurou a jarra com as duas mãos e, respirando fundo, começou a erguê-la devagar. Lentamente conseguiu direcioná-la ao copo e colocar água bem devagar. Quando o copo estava na metade, Ash voltou com a jarra para a mesa e então pegou o copo, novamente com as duas mãos, e bebeu sofregamente.

Observando-a fazer um esforço tão grande para beber água, quando ela podia permitir que ele a ajudasse e tornasse as coisas mais fáceis, fez o lorde regente pensar no quanto saber o segredo de Luxuriah havia modificado a jovem. O brilho ingênuo nos olhos dera lugar a um brilho resoluto, forte, ainda que ostentasse a beleza de seu coração. Aquela mudança também mexia com Lor’themar. Observando-a agora, com toda aquela determinação enquanto tomava um simples copo de água, o fez se sentir ainda mais atraído pela menina.

E o fez se detestar ainda mais.

Ela era filha de seu melhor amigo, pensava. Não podia, não devia pensar nela de outra forma. Tinha que manter isso em mente. Dhomm o odiaria para sempre se estivesse vivo e soubesse dos sentimentos que nutria por Ash. Ora, ele tinha trocado as fraudas dela! E não apenas isso, tinha tirado-a daquele porão, tirado-a de um lugar seguro para jogá-la numa realidade onde seus pais estavam mortos e sua irmã mais velha despedaçada. Que direito tinha ele de se meter em sua jovem vida, com o peso dos séculos de frustração que pesava sobre seus ombros?

Lor’themar sempre soube que não era o melhor dos companheiros. Aquelas com as quais ele se envolveu, e foram bem poucas, podiam confirmar perfeitamente. Ele não era atencioso; pensava demais no trabalho; colocava seu povo e seus ideias acima de qualquer coisa; sempre, sempre esquecia datas especiais; não era romântico; e, é claro, tinha a paciência de um orc com dor de dente. Tudo que uma elfa delicada como Ash não precisava.

E é claro, havia outras coisas em questão, não apenas o bem estar sentimental da jovem elfa. Ela era uma princesa agora. Podia não ser cotada para o trono, mas mesmoassim sua posição política agora era superior a dele. Se houvesse um envolvimento, ainda que passageiro, entre os dois (e Lor’themar duvidava muito que seria passageiro se eles se envolvessem), haveriam comentários. Comentários que o deixariam furioso. Comentários que ele havia se acostumado tanto com o poder que agora estava seduzindo uma das jovens princesas para manter aquele posto. Sim, tinha certeza absoluta que haveriam esses comentários. Não, jamais iria expor Ash a isso. Não iria expô-la a nada. Principalmente a ele mesmo.

– Lor’themar?

A voz aveludada e melodiosa o chamou e fez seu coração disparar. O lorde regente levantou os olhos e lá estava Ash, a pequena Ash, o olhando curiosa, com as sobrancelhas franzidas e os lábios levemente contraídos, demonstrando sua preocupação com o silêncio dele.

Ah, os lábios... Belos, vermelhos e pequenos, que ele não conseguia tirar da cabeça.

– Algum problema? – perguntou ela.

Sim, havia. Vários. Mas aquele não era o momento.

– Nenhum. – disse tentando manter a voz firme — Podemos continuar?

Ash fez que sim e pegou novamente as armas.

Ela treinou por mais algum tempo, até Lor’themar perceber que a jovem já atingira o limite. Seus movimentos estavam lentos e havia dor em seu semblante cada vez que movia o braço. O melhor a fazer era encerrar por aquele dia, dar tempo de ela se recuperar e também dele espantar aqueles pensamentos de sua cabeça.

– Muito bem. – disse ele – Pare.

Ash deixou o arco e a espada caírem no chão, aliviada e ao mesmo tempo frustrada. Como, pela nascente do sol, como podia ser tão fraca???

– Aguento mais um pouco. – disse.

– Não, não aguenta. – retrucou Lor’themar – Você começou bem. Se insistir, amanhã não conseguirá sequer levantar o braço. Não vamos forçar. Se fizermos isso, só iremos lhe prejudicar.

Relutantemente Ash concordou. Seus braços estavam pesados e achou que um bom banho quente e uma pomada feita por Kassyeh ajudaria a ela estar bem no dia seguinte para continuar.

Foi quando ela percebeu que Lor’themar tinha se aproximado dela. Seu coração disparou quando ele pegou sua mão direita. Será que ele pretendia beijá-la novamente? Abraçá-la? Seu estômago revirou, até que o elfo fez algo inesperado. Ele colocou rapidamente a outra mão embaixo de seu braço e o puxou com força. Ash gritou, suas pernas cederam e ela viu pontinhos pretos em sua vista. Sentiu a dor do braço diminuir a medida que percebeu que Lor’themar a segurava.

– Essa é uma técnica que usamos para estirar músculos cansados dos arqueiros. É bem eficiente. – disse ele.

Ash não respondeu nada coerente, apenas uns resmungos. Quando sua vista e sua cabeça clareou novamente, percebeu que realmente seu braço doía menos.

– Dá próxima vez... Me avise... – murmurou Ash.

– Sinto muito. Devia tê-la avisado. – disse – Mas por experiência própria sei que a dor é maior quando esperamos por ela.

Só então perceberam que ainda estavam abraçados. Seus olhos se encontraram e Lor’themar sentiu o desejo crescer novamente dentro dele. Soltou-a com delicadeza, para que ela não notasse sua ânsia por afasta-la. Sabia que não resistiria se continuasse com as mãos em volta daquele corpo quente e suave.

Ash tomou aquele movimento como uma forma dele preservá-la de algum curioso que estivesse passando por ali. Mas sabia que ambos tinha gostado do contato. E agora que a exaustão do treino e a dor do braço mostravam que ela estava fazendo algo para acabar com aquela sua detestável fraqueza, ela podia se dar ao luxo de admirá-lo e desejá-lo novamente. Será que Lor’themar sabia que o beijo que trocaram duas noites atrás, fora o primeiro beijo dela? Será que ele sabia do sentimento bom e caloroso que tomava conta do coração dela cada vez que o encarava?

– Pequena Ash. – falou ele repentinamente, interrompendo seus pensamentos – Tem algo que preciso lhe falar.

Novamente o coração dela disparou e suas bochechas ficaram vermelhas.

– Sim? – quis saber ansiosa.

Eles se encaram por um momento e então Lor’themar falou:

– Sinto muito sobre aquela noite. Eu não deveria tê-la beijado. Foi errado. – e depois de uma curta pausa, acrescentou — Isso não vai se repetir de novo.

Lor’themar esperava muitas reações de Ash. Choque, tristeza, até mesmo lágrimas. Sim, ele estava preparado para as lágrimas. Mas o que ele viu naquele rosto belo e jovem foi algo totalmente inesperado e que o deixou totalmente surpreso.

Desprezo.

Havia desprezo no belo rosto.

Desprezo dirigido único e exclusivamente para ele.

E ele já vira aquele desprezo antes. No rosto de Dhomm. No rosto de Lady Luelly. Mas nunca havia percebido o quão forte aquilo poderia atingir alguém. Porque, pela primeira vez, o desprezo estava sendo dirigido a ele.

Houveram outras reações que acompanharam aquele olhar mortífero. O rosto de Ash perdeu o a cor rosada. Uma palidez súbita a tingiu. Os olhos, antes brilhosos, ficaram secos. Ela comprimiu os lábios. E depois ergueu o queixo, com altivez, antes de falar com a voz fria:

– Era só isso que você tinha a me dizer?

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Lor’themar ficou desconcertado e sem reação. Engoliu em seco, desviou os olhos para o chão e quando a encarou novamente, respirou fundo.

– Sim, era isso. – respondeu com a voz vacilante.

– Ótimo. – respondeu ela no mesmo tom frio e altivo de antes – Preciso descansar. Estarei aqui amanhã para o treinamento no mesmo horário. Não se atrase.

E virou as costas para ele, caminhando elegantemente como uma leoa que deixa uma presa ferida viva por puro capricho.

O lorde regente ficou parado, olhando-a ir embora, totalmente abismado com a reação de Ash. Não apenas abismado, estava extremamente consternado. Então, sua mente voou então há muito tempo atrás, quando ele e Dhomm tinha mais ou menos a mesma idade que Karen.

Foi quando percebeu o quanto tinha magoado Ash. Sentou-se no banco e colocou as mãos no rosto.

E se odiou mais que nunca.

****************

Era uma manhã quente e ensolarada. Um dia perfeito para brincadeiras e caçadas na vasta floresta que circundava Luaprata. Lor’themar cavalgava um falcoztruz muito grande para sua pouca idade, com uma singular habilidade. Ouvira várias vezes seu pai se gabar para os amigos que seu filho era um prodígio: com pouca idade já cavalgava como um adulto, sua perícia com o arco era invejável e tinha uma mente afiada e perspicaz. O pequeno elfo então se empertigava de orgulho e se esforçava cada vez mais para impressionar o pai.

Mas hoje não era dia de treino ou estudo. Era dia de se divertir.

Puxou delicadamente as rédeas da montaria quando chegou em frente à mansão dos Fendessol. Desceu com agilidade e amarrou o Falcoztruz no pilar em frente à varanda. Depois, ajeitou o arco sobre os ombros, se encaminhou paraa porta e bateu com força na argola dourada.

Quase que imediatamente a porta foi aberta por um velho elfo.

– Olá Hobbs! – saudou Lor’themar.

– Olá Temma.

Hobbs era o fiel servo de Lady Luelly. Ele era velho até mesmo para os padrões de sua raça. Ele fora servo dos avós da barda, de seus pais, dela e possivelmente seria de Dhomm. Lor’themar às vezes imaginava que Hobbs estaria fazendo chá quando chegasse o fim dos tempos.

– Quem é, Hobbs? – perguntou uma voz melodiosa vinda de dentro.

– O pequeno Theron, milady. – respondeu. E para Lor’themar disse – Vamos, entre Temma.

Lor’themar entrou na sala de estar enorme, na qual entraria séculos depois, como Lorde Regente, para escolher a nova Rainha de seu povo. Mas ali, naquele tempo, ele era apenas um menino elfo, sem grandes preocupações com o futuro. Na verdade, a única preocupação era que seu cabelo estivesse devidamente apresentável quando visse Lady Luelly.

– Ora, ora, o que temos aqui? – disse a elfa pousando uma xícara de chá na mesinha central da sala e sorrindo – Esse elfo bonito veio me visitar?

O menino enrubesceu drasticamente e ficou sem fala. Lady Luelly tinha aquele efeito sobre os elfos, não importava a idade. Nos mais velhos, ela despertava desejo e paixão; nos mais jovens, como era o caso de Lor’themar, uma devoção e admiração quase sobrenatural. Para o jovem Lor’themar, se a Nascente do Sol tivesse um avatar, seria Lady Luelly.

– Bom dia milady. – disse ele fazendo uma reverência.

Lady Luelly soltou uma gargalhada suave e límpida.

– Ora Temma, deixe de formalidades. Eu troquei suas fraudas! – e fazendo um gesto com a mão, chamou-o para mais perto – Venha, deixe-me lhe dar um beijo.

O menino se adiantou e recebeu um beijo suave no rosto corado. A bela elfa passou a mão no cabelo dele, num gesto maternal.

– Que cabelo lindo e bem cuidado. – elogiou – Quando estiver comprido, até eu ficarei com inveja.

– É impossível existir um cabelo mais belo que o seu, milady. – disse sincero.

Ela gargalhou de novo e apertou sua bochecha.

– Você é um galante, Temma. – e olhando para Hobbs, que estava em pé próximo as escadas, pediu – Hobbs, veja porque Dhomm está demorando.

Porém, antes que o servo assentisse, ouviu-se um grito lá de cima e um corpo se jogando contra a escada. Dhomm, portando um arco como o do amigo, pulou em cima do corrimão e desceu escorregando enquanto dava gritos satisfeitos. Hobbs levou a mão ao peito, como se tivesse tendo um ataque cardíaco, pelo medo de seu jovem amo se estatelar no chão. Lady Luelly, ao contrário ria e batia palmas para o filho.

– Meu jovem mestre, você vai acabar caindo de cara no chão! – ralhou Hobbs quando Dhomm desceu agilmente do corrimão.

– Que nada Hobbs! – disse o menino dando uma tapinha nas costas do velho elfo – Eu tinha tudo sobre controle! – e olhando para o amigo recém chegado, saudou – Diga ae Temma!

– Oi Dhomm! – cumprimentou o outro – Está pronto?

– Desde que nasci! – respondeu. E se dirigindo a mãe, deu um beijo na bochecha dela – Estamos saindo mãezinha.

Lady Luelly não ficou satisfeita com um único beijo. Agarrou seu filho com força e começou a enchê-lo de beijos. Lor’themar caiu na risada enquanto Dhomm tentava se livrar do excesso de amor de sua mãe.

– Para mãe!! – pedia o menino – Não sou mais um bebê!

– É sim! Sempre será meu bebê! – disse entre os beijos – E se você não quiser, eu vou dar esses beijos no Temma.

– Não! – respondeu o ciumento Dhomm quase instantaneamente.

Todos caíram na risada e Lady Luelly libertou o filho.

– Bem meninos, divirtam-se. Estejam aqui para o almoço. – e se virando para Hobbs, pediu – Hobbs, faça aquela torta de amora que o Temma tanto gosta.

– Não precisa se preocupar comigo milady. – disse o menino enrubescendo novamente.

A elfa o ignorou.

– E também o bolo de carne com queijo para meu bebê.

– Oba, bolo de carne! – comemorou Dhomm – Vamos Temma, temos que correr para voltarmos morrendo de fome!

Antes que eles saíssem, a neta de Hobbs entrou na sala com um lindo buquê de cardossangues. A moça parecia meio constrangida, assim como Hobbs quando viu as flores. Hoje, o Lor’themar adulto saberia o porquê daquilo quando a jovem elfa falou:

– Chegou flores para a senhora, milady. Com cumprimentos do rei por sua apresentação de ontem. — ela parecia estar pedindo desculpas.

Lor’themar lembrava nitidamente do olhar de desprezo que Lady Luelly lançou àquelas flores. Parecia que o buquê havia feito um mal muito grande a ela. Lembrava também de ter pensado o quanto Lady Luelly parecia detestar aquelas rosas e que se um dia fosse dar flores a ela, nunca seria cardossangues.

– Coloque em qualquer lugar. – disse com a voz fria e indiferente.

Dhomm parecia não ter notado nada, já que abraçou novamente a mãe.

– Estamos saindo! – anunciou.

O olhar de desprezo de Lady Luelly sumiu e ela beijou-o calorosamente.

– Tenham cuidado!

Os meninos então se despediram e saíram porta afora. Como Lor’themar, Dhomm montava muito bem para um menino de sua idade. Então, eles pegaram suas montarias e saíram de Luaprata.

O percurso era tranquilo e seguro. Naqueles tempos, ninguém pensava que algum dia aquela bela floresta teria uma mancha fétida e escura maculando-a. A única coisa que os meninos precisavam se preocupar era não entrar demais floresta adentro e dar de cara com garrataques famintos. Mas eles eram cautelosos e espertos. Deixaram as montarias num lugar seguro e foram até o lugar que normalmente usavam para brincar.

A manhã foi tranquila. Atiraram contra muitos alvos várias vezes até se cansarem. Caçaram uns coelhos, algumas mariposas e foram até mesmo à praia tentar pegar peixes com as flechas. Subiram em árvores para pegar os melhores galhos para fazer novas flechas e depois passaram um tempo modelando-as com pequenas adagas. Era assim que eles gostavam de passar os dias de folga. Fingindo ser elfos adultos ao caçar, fazer armamentos enquanto Dhomm divertia Lor’themar com os casos que aconteciam nas inúmeras festas de sua mãe.

Lor’themar sabia que era o único amigo que Dhomm tinha. Isso porque seus pais pouco se importavam com o fato do menino não ter um pai legítimo. Seu pai, na verdade, dizia que era hipocrisia se importar com algo tão pequeno, visto que muitos que apontavam Lady Luelly tinham “o rabo preso”. E isso era bom, porque Lor’themar gostava muito de Dhomm.

– Ei, olhem ali, é o bastardo!

Os dois meninos levantaram a cabeça instantaneamente. Haviam alguns garotos chegando e eles estavam apontando e rindo para Dhomm. O menino segurou um galho com tanta força que o partiu no meio. Lor’themar colocou a mão em seu ombro.

– Deixe-os pra lá, Dhomm. – murmurou.

Mas os meninos pareciam que não queria ser deixados para lá.

– Ei Theron, você não acha que devia procurar uma companhia melhor? – perguntou um deles e os outros caíram na risada.

– Ignore-os. – repetiu.

– A mãezinha dele deve tá pagando os Theron pra esse aí ser amigo dele. – disse outro.

Ouvir a mãe ser mencionada fez Dhomm se levantar com o arco preso em sua mão. Ele tinha aquele olhar de desprezo profundo que Lor’themar receberia da filha dele muito tempo depois. Era um olhar cruel e poderoso que fez os meninos recuarem simplesmente de vê-lo.

– Minha mãe não precisava pagar para eu ter amigos. – disse com a voz fria e altiva – Mas já seu pai precisa meter a mão no bolso para poder frequentar os altos círculos não é? Ou você não sabe que ele teve que pagar milhares de peças de ouro para conseguir um simples convite para o jantar com o rei do qual minha mãe foi convidada de honra? – e sorrindo malignamente — Ah, devo dizer que foi minha mãe quem emprestou o dinheiro a ele, ou seu paizinho não lhe contou? Não contou que a mãe desse bastardo aqui pode tomar a casinha de vocês quando ela quiser?

O menino ficou lívido de raiva e fez menção de avançar. Os outros meninos o contiveram. Isso porque sabiam muito bem que Lady Luelly sabia segredos. E pelo visto, Dhomm também. Os meninos lançaram a eles um olhar de raiva e foram embora. Lor’themar estava impressionado. Nunca vira Dhomm assim.

Quando os meninos sumiram de vista, Dhomm sentou novamente. Ficaram em silêncio um tempo e então Dhomm falou com aquele mesmo tom de voz e aquele mesmo olhar:

– Eu o odeio.

Qualquer um poderia pensar que ele se referia àquele menino, mas Lor’themar sabia que não. Só havia uma pessoa que Dhomm odiava assim.

O pai.

– Eu te digo uma coisa, Temma. – falou com seriedade – Se um dia eu souber quem é meu pai, eu mato ele.

Lor’themar acreditou naquelas palavras.

E agora, mais velho, se perguntou se Ash também não o queria ver morto.

******************************

Igual às lembranças de Lor’themar, o dia estava quente e agradável em Luaprata. Mas ali não haviam dois meninos élficos em meio a um mundo idílico, e sim duas meninas, de raças diferentes, que mesmo naquela pouca idade já sabia que viviam em um mundo em guerra.

Sentadas em frente a fonte da Torre Solfúria, Karen e Saba tomavam sorvete enquanto observavam o movimento daquela manhã. Apesar do conselho dado por Ash, as meninas não conseguiram se animar muito em correr ou brincar aquela manhã. Limitaram-se a vaguear pela cidade, onde bem poucos reconheceram Karen como sendo a futura Rainha. O engraçado, e essa foi uma das poucas coisas que as fizeram rir naquela manhã, foi que a maioria dos elfos que reconheceram Karen o fizeram por causa de Saba.

Afinal, ela era a única menina élfica que se tinha notícia com uma amiga orquisa.

Diante disso, os elfos que não ligariam aquela menina de calça e camisa de linho folgadas à pequena damabrilhante e futura rainha da festa de casamento, o fizeram porque ao seu lado estava uma pequena orquisa de vestido rosa que todos viram dois dias atrás.

Foi assim que elas ganharam sorvete. Quando entraram na sorveteria, o velho elfo quase enfartou ao reconhecer Saba e, consequentemente, Karen presenteando-as então com duas enormes taças com diversos tipos de sorvete totalmente de graça. Karen protestou, tentou pagar, mas quando o velho começou a chorar de emoção, ela desistiu.

– Será que devemos devolver as taças? – perguntou Karen enquanto derrubava a pilha imensa de sorvete com uma colherzinha.

– Acho que aquele elfo morre se você fizer isso. – ponderou Saba.

– É, acho que você tem razão...

Continuaram a comer em silêncio, saboreando o sorvete e a tristeza do momento. Aqueles poucos dias fizeram com que Karen e Saba adquirissem um elo forte e profundo, como se sempre tivessem se conhecido. Saba ponderava que aquela sensação boa que sentia ao lado da amiga devia ser a mesma que ter uma irmã; como filha única, passava a maior parte do dia entre os adultos que frequentavam a estalagem dos seus pais, cuidando das montarias deles e, no tempo livre, frequentando a Academia Militar de Orgrimmar, onde era a menor da sala e constantemente sofria por isso. Karen, que era a caçula, via em Saba como seria ter uma irmã de sua idade; sim, amava muito suas irmãs, em especial Ash, mas a diferença de idade entre elas, fez com que Ash começasse a treinar cedo e nem sempre pudesse brincar o tanto quanto Karen queria. Por isso gostava de provocar a irmã, era sua forma de conseguir a atenção dela. Ao lado de Saba, isso não era necessário, pois a sintonia delas era perfeita.

Aquele era o motivo da tristeza naquela manhã quente e agradável regada a bastante sorvete: a iminente separação e a falta de perspectiva de quando se veriam novamente.

– Quando você vai a Orgrimmar? – perguntou Saba apesar de ter uma ideia da resposta.

– Não sei... Com o treinamento de paladina e as aulas de rainha, pode ser que demore... – Karen enfiou a colherzinha em mais uma bola de sorvete, tirou uma boa quantidade e enfiou na boca — E você? Quando você acha que sua mãe vai deixar você voltar?

– Não faço ideia. Depende do movimento da estalagem.

Ficaram novamente em silêncio. Quando sorvete estava quase chegando no fim e as meninas já pensavam numa desculpa para evitar o almoço, viram uma comoção grande na entrada da praça. Um grupo grande de elfos, vestidos em armaduras vermelhas com detalhes pretos e usando o mesmo tabardo, entravam montados em cavalos, sendo liderados por uma elfa ruiva de postura imponente.

– Quem é? – perguntou a pequena orquisa.

– Não faço ideia. – respondeu a pequena elfa.

O grupo andou através da praça e pararam em frente à Torre. Um dos guardas se adiantou e trocou palavras com a ruiva. Para surpresa das meninas, ele apontou para onde elas estavam, a elfa as olhou e assentiu. Depois, apeou do cavalo, entregou-o ao guarda e se dirigiu até onde estavam sentadas.

– Majestade. – cumprimentou quando chegou em frente às meninas.

– Ainda não sou rainha. – foi a única resposta que passou pela cabeça de Karen.

A elfa arqueou a sobrancelha, surpresa com a resposta.

– Pode me chamar só de Karen. – completou sorrindo.

Houve um momento de silêncio enquanto a elfa ponderava aquele pedido e por fim, falou:

– Muito bem, Karen. Eu sou Liadrin, matriarca dos Cavaleiros Sangrentos. É uma honra conhecê-la. – e fez uma profunda reverência.

Saba se perguntou para que aquela pompa toda se a elfa estava falando com duas meninas sentadas num banco de praça tomando sorvete. Mesmo que uma delas fosse se tornar uma chefa guerreira.

Karen também parecia não saber lidar com aquela estranha apresentação, por isso limitou-se a dizer:

– Quer sorvete? – e mostrou a taça quase vazia entre as mãozinhas cheias de cobertura de chocolate.

O espanto da matriarca apenas aumentou e limitou-se a sacudir a cabeça em negativa.

– Vossa majestade sabe quem eu sou? – perguntou.

– A elfa que gosta de elfos novinhos. – respondeu singelamente Karen, relembrando os comentários ouvidos na mesa do jantar de sua casa.

Lady Liadrin ficou tão surpresa e envergonhada com a fala de Karen, que enrubesceu a ponto de seu cabelo ficar pálido diante da vermelhidão de seu rosto. Depois, sentiu uma raiva imensa queimar seu peito, imaginando quem poderia ter dito aquelas coisas à futura rainha. Por fim, reconheceu que não havia maldade na fala de Karen e que a culpa não era da menina. Tossiu um pouco, respirou fundo para se recompor e falou novamente:

– Sou a responsável pela Ordem dos Cavaleiros Sangrento. Cuidamos da Nascente do Sol, em Quel’danas, após a sua restauração. Estive até bem pouco tempo na cidade de Shatrath, em Terralém, lutando contra a Legião Ardente.

– Ah!! – exclamou Karen lembrando das aulas que tivera com a sacerdotisa do templo – A senhora é quem manda nos paladinos elfos!

– É uma forma de se colocar as coisas. – comentou a matriarca sem conseguir evitar o sorriso.

– É um prazer conhecê-la! – disse Karen empolgada estendendo a mão suja de sorvete.

– Sua mão tá suja, Karen. – observou Saba que não estava nem um pouco impressionada com Lady Liadrin. Se a elfa fosse líder de um grupo de xamãs, talvez houvesse empolgação na pequena orquisa.

– É mesmo! — a menina então passou as mãos na calça de linho tentando limpa-las sem muito sucesso, e estendendo-a depois.

Sem muita alternativa, Lady Liadrin apertou a mão grudenta de Karen, enquanto encarava o rosto sorridente. Para sua surpresa, a paladina foi invadida por uma simpatia imensa, como nunca havia sentido antes por alguém da família real.

– A senhora veio se reunir com o Temma? – perguntou Karen depois que apertaram as mãos.

– Temma?

– O elfão regente. – esclareceu Saba, se perguntando como a líder não sabia que era o lorde regente.

– Ah, sim, Lort’hemar Theron. Sim, vim me encontrar com ele. E conhecê-la, naturalmente. – disse sorrindo para Karen.

– Bem, então fique pro almoço! – convidou Karen animada – Eu não vou comer muito porque me entupi de sorvete, mas você come e me conta da Nascente do Sol. – e olhando pra Saba, explicou – Dizem que é lindo, tipo, quase o paraíso lá!

– Oh! – exclamou Saba surpresa.

– Posso fazer melhor majestade. – Lady Liadrin não percebeu, mas tinha um sorriso imenso no rosto – Posso leva-la lá após o almoço.

Os olhos de Karen brilharam.

– E a Saba pode ir também? – perguntou pegando na mão da amiga – Porque eu só vou se ela for!

– Mas é claro. Será uma honra levá-las lá.

Então, diante da novidade, o dia das duas meninas ficou imensamente melhor. E alegremente elas acompanham a matriarca até a Torre Solfúria, onde esta pediu delicadamente que as meninas não mencionassem mais suas preferências com relação a elfos para ninguém.

********************

O caminho até o palácio não foi difícil. Não sofreram nenhum ataque, seja de pessoas ou animais selvagens. O difícil foi fazer o percurso toda molhada, fedendo como um ogro bêbado e escorregando a todo momento da sela do cavalo por causa da gosma da coisa que matara no lago.

– Eu juro que tenho vontade de matar todos os Defias só por esse banho terrível que me proporcionaram! – vociferou Wood enquanto cavalgava de volta a Ventobravo.

Doroteya só emitiu um som em sua forma de cervo, como se concordasse com a amiga.

Logo que acharam o campo de batalha, fizeram o apanhado do que viram, levaram algumas amostras de armaduras e armas, além de demarcaram o local para que a AVIN pudesse achá-lo com facilidade. Depois disso, arrumaram suas coisas e partiram de volta à capital da Aliança.

Mas algo não saía da cabeça da comandante. Era improvável, impossível na verdade, que toda essa comoção não tivesse sido ouvida da vila mais próxima; afinal, eles estavam próximos à clareira e ao lago. Seria realmente a vila um posto dos Defias? Bem, só tinha uma forma de saber. Iria até lá. Mas não hoje. Em breve escureceria e ela não iria expor Doroteya a esse perigo. Iriam nos próximos dias e levaria mais pessoas para acompanha-la.

Intimidação nunca era demais.

Quando as duas chegaram a Ventobravo, foram direto para a Bastilha. E logo que chegaram lá, Wood soltou um palavrão raivoso e preocupado ao ver os dois irmãos esperando-a próximos à fonte, com expressões desoladas no rosto. Teria acontecido algo com sua família? Era a única explicação plausível; Fey e Mel jamais sairiam de seu precioso ateliê no meio da tarde sem um bom motivo.

Sem esperar que alguém viesse pegar seu cavalo como de costume, ela saltou da montaria e puxou as rédeas para onde estavam os irmãos. Por um momento eles pareceram transtornados com a aparência dela, mas isso não importou.

– O que aconteceu? – foi perguntando sem rodeios – Qual o problema?

– O que aconteceu com VOCÊ! – retrucou Mel com sua voz afetada – Você está com uma aparência horrível!

– E fedendo! – completou Fey tapando o nariz.

– Ossos do ofício! – respondeu sem se incomodar com os comentários – Mas porque vocês estão aqui? Aconteceu algo com papai? Mamãe? Com alguma das crianças?

Seus pais eram dois idosos vinicultores que moravam próximo aos limites da floresta de Elwynn e bem longe da vila mais próxima, que era a Vila D’ouro. Metade de seus irmãos ainda viviam na fazenda, junto com seus cônjuges e filhos. Pela última contagem feita no Véu de Inverno, Wood tinha exatos cinquenta e seis sobrinhos, dos quais vinte e nove moravam na Fazenda Wood.

Os dois a olharam sem entender por alguns segundos e então levaram a mão ao peito como se tivessem tendo um ataque.

– Você esqueceu!!! – disseram ao mesmo tempo, horrorizados.

– O quê?! – perguntou exasperada.

– O baile! – responderam juntos.

O baile. Wood repassou mentalmente os dias. Era hoje então? Pelas suas contas seria no dia seguinte. Mas como estava preocupada demais com os Defias, poderia sim ter se enganado. Então, voltou os olhos ao palácio e percebeu que ele estava sendo enfeitado por um número imenso de servos. Havia flores em todos os lugares, um tapete vermelho foi estendido na entrada, flâmulas com o leão dourado da Aliança foram penduradas... É, realmente o baile seria hoje.

– Oh! – exclamou como se finalmente tivesse entendido.

– Oh?! Isso é tudo que você diz?! – Fey estava revoltado – Temos um vestido maravilho te esperando e você nos chega assim! Como iremos te transformar na mulher mais bonita do baile se você não nos ajuda?!

– Deixe Fey, daremos um jeito. – disse Mel com lágrimas nos olhos e expressão de mártir no rosto – Nós conseguiremos!

Wood lutou contra a vontade de rir. Doroteya não conseguiu. Mas, por sorte, os grunhidos que ela emitiu em sua forma de viagem não poderiam ser entendidos como risada a menos que você fosse uma domadora de animais experientes como Wood.

– Bem, vocês vão ter que esperar mais um pouco. – disse Wood fazendo um sinal para o cavalariço mais próximo – Preciso dar um relatório ao rei e isso não pode esperar.

– Você vai ver o rei assim?! – perguntou Mel mais balado que nunca.

– Vá por mim, ele já me viu em situação pior. – disse Wood lembrando de quando o que restou de seu esquadrão regressou à Bastilha da Valentia, depois de semanas cercados pelos servos do Lich Rei. Ela estava com dez quilos a menos, os cabelos tinham sido queimados em várias partes, mal conseguia andar e suas mãos e pés estavam roxos do frio. Se não fosse os excelentes cuidados de Brina Wilson, ela não teria condições de comandar nada agora. Teria perdido membros do seu corpo e morrido de infecção.

Quando seus irmãos começaram a protestar, dizendo que ela não podia ser vista assim, ela ordenou com sua voz potente:

– Calados! – eles se calaram – Sentem! – todos sentaram — Você não Doroteya!

Seus irmãos haviam sentado rapidamente no banco da fonte e Doroteya, ainda como cervo, também sentara diante da ordem de Wood.

– Volte a sua forma normal e vamos! – e a comandante se encaminhou em direção da Bastilha, sob o olhar arrasado de seus irmãos.

Doroteya, já em sua forma de worgenin, a acompanhou apressadamente pelos corredores. Sua admiração por Wood só crescia cada vez mais. A comandante era incrível como militar e como pessoa.

Liam a teria adorado.

As duas mulheres passaram por inúmeras pessoas carregando castiçais, flores, pratos, taças e diversas outras coisas até chegarem ao salão real. O enorme salão estava sendo enfeitado, logo o Rei Varian não estava lá. Mas Wood sabia exatamente onde ir. Caminhou resoluta até a sala de reuniões e não se decepcionou. Varian estava lá, bem como Greymane. Wood sentiu Doroteya se encolher um pouco ao seu lado.

– Majestade. – disse ela batendo continência.

O rei não pareceu nenhum pouco surpreso com a aparência da sua comandante, apenas questionou:

– O que descobriu comandante?

Wood contou tudo, em detalhes. Contou sobre o veneno, o monstro, a suspeita de magia vil e fez questão de enfatizar o bom trabalho feito por Doroteya. Greymane pareceu incomodado com a forma como ela falou, mas sinceramente, cada vez mais Wood desgostava daquele rei que tratava uma pessoa tão boa quanto Doroteya de uma forma tão odiosa que os próprios guilneanos passaram a detestá-la.

– Pretendo continuar as investigações o mais rápido possível, majestade. – disse ela concluindo o relato – Pretendo levar alguns soldados até a vila mais próxima e realizar alguns interrogatórios.

– Então, você desconfia das pessoas da vila próxima.

– Sim, majestade.

– Então faça o que achar melhor, comandante. Confio em seu julgamento. – e olhando para Doroteya, completou – E bom trabalho druidesa. Com certeza o rei Greymane está orgulhoso de sua participação.

Greymane nada falou.

– Peço permissão para me retirar, majestade. – pediu Wood pensando que os irmãos deviam estar morrendo de raiva do lado de fora da Bastilha.

– Você a tem comandante. – e num raro sorriso, ele comentou – Você deve se apressar ou se atrasará para o baile. Arshe ficará muito desgostosa comigo se isso acontecer.

Wood bem que queria sorrir de volta para o rei, mas seu senso militar não permitiu. Então, ela e Doroteya fizeram uma reverência e se retiraram apressadamente. Antes de sair, a comandante entreouviu:

– Gostaria de lhe falar seriamente, Rei Varian.

Esperava de todo coração que não fosse com relação a Doroteya. Por que se fosse... Bem, o rei de Guilneas com certeza não gostaria de medir forças com ela.

Ninguém nunca saia ileso quando isso acontecia.

– Acho que nossa parceria está com os dias contados... – suspirou Doroteya do seu lado, parecendo infeliz.

A druidesa também ouvira o rei Greymane. E também foi rápida em saber que aquela conversa teria como centro ela. Doroteya com certeza vivia com essa constante ameaça sobre sua cabeça.

– Nossa, você cuspiu no caixão do filho dele ou algo assim? – comentou Wood franzindo a sobrancelha.

Doroteya de repente parou de andar. Wood se virou rapidamente e a viu com um sorriso triste ao mesmo tempo que lutava contra as lágrimas. Pela Luz, pensou, o que aconteceu entre aqueles dois?

– Doroteya... – disse se aproximando com uma ideia surgindo – Por acaso o rei e você... Digo, ele te forçou a algo?

A surpresa da outra foi tão grande que as lágrimas que ameaçavam vir simplesmente sumiram. As duas ficaram se encarando alguns momento, enquanto os atarefados empregados passam por ela sem reparar o momento delicado que viviam.

– Ele nunca me machucou... Não fisicamente. – disse a worgenin cautelosamente.

– Mas ele te machucou de alguma forma. – afirmou a outra.

Doroteya assentiu.

– Ele me forçou um exílio para que eu ficasse longe de quem eu amava. – confessou num murmúrio.

– Mas por quê? – insistiu.

– Por que eu amei. – respondeu com simplicidade.

Quando Wood abriu a boca para pedir que ela fosse mais clara, ouviu os gritos de seus irmãos do lado de fora, quase desesperados.

– Irmãzinha, se você não vier, começaremos a chamar pelo seu nome!! – gritou Fey.

– O verdadeiro nome! – completou Mel.

Wood enrijeceu e estreitou os olhos. Para sua surpresa, Doroteya colocou levemente a mão em seu braço e a conduziu em direção a porta.

– Contarei tudo a você Lina. Eu confio em você. – e sorriu mostrando as presas delicadas – Mas não hoje. Você tem um baile para ir.

– Você também. – retrucou a outra.

Sacudindo a cabeça em negativa, Doroteya explicou:

– Não posso e nem quero. Se eu viesse... Isso forçaria um encontro... com ele. – ela engoliu em seco – Posso vestir o vestido que seus irmãos fizeram, mas me sentarei em um banco em frente a Bastilha e verei os fogos de artificio. – então abriu um sorriso – Me sentirei mais feliz assim.

Talvez fosse melhorassim, pensou Wood ao sair da Bastilha e encontrar os irmãos agradecendo aos céus por isso. Não queria que Greymane pegasse Doroteya sozinha em nenhum momento e pudesse magoá-la. Apesar do pouco tempo que passaram juntas, Wood se sentia mais próxima dela do que de todas as irmãs que tivera. E se o rei deposto queria a cabeça de sua amiga, teria que passar por ela. Pois, além do sentimento que nutria pela worgenin, sua intuição lhe dizia que a jovem nada fizera para sofrer aquela segregação e seu senso de justiça berrava que deveria agir. Então, senhor rei Greymane, se o senhor podia ter uma audiência com o rei, ela também teria.

E sua intuição lhe dizia que o senso de justiça do rei Varian era tão aguçado quanto o seu.

Mas, por hora, deixaria o rei metamorfo achar que tinha vantagem. Iria para o baile e se divertiria. Quem sabe, arrumaria um amante para levar para casa no final da festa e poderia encarar o dia seguinte com mais leveza depois de uma boa dose de sexo. Sim, tudo poderia ocorrer de bom naquela noite.

Por isso, deixou que os irmãos a banhasse quando chegaram em casa. Eles a colocaram dentro de uma banheira, com água morna, ervas e muito das loções aromáticas que Doroteya tinha.

– Pela Luz, nunca conseguiremos tirar toda essa sujeira! – choramingava Mel.

Só que eles conseguiram, apesar de que os dois precisaram de duas horaspara se convencer que a irmã estava limpa e cheirosa. Depois, usaram toalhas quentes e um pouco da magia de vento de Doroteya para lhe secar o cabelo, que foi devidamente massageado com creme de erva doce. Depois, eles a vestiram no que Doroteya chamou de ‘mais belo vestido que já viu em toda sua vida’. E bem, o vestido realmente era. De um vermelho brilhante e vivo, o vestido deixava à mostra o colo moreno da comandante, permitindo que as curvas do seus seios ficassem levemente expostas. As mangas, compridas, se abriam suavemente nos punhos, como se fosse uma flor desabrochando. O corselete, que apertava delicadamente a cintura, também era vermelho, mas com bordados prateados em toda sua extensão, como se afrescos tivessem sido esculpidos nele. E então, a volumosa saia caia em cascatas de tecidos, tão suavemente como o orvalho da primavera. Wood estava sinceramente impressionada. Nem os vestidos de noivas de suas irmãs tiveram aquele zelo.

– Meninos... – murmurou embasbacada quando se viu no espelho, devidamente vestida – Vocês criaram uma obra-prima!

Fey e Mel sorriram orgulhosos.

– É seu primeiro baile como convidada! – disse Fey – Acha que colocaríamos você em qualquer trapo?

– E é nossa oportunidade de fazer clientela entre a nobreza. – concluiu Mel – Mas não pense que acabamos com você mocinha!

Não, eles não tinham acabado. Colocaram sapatos, também vermelhos, em seus pés e ela agradeceu pelo salto não ser muito alto ou se cansaria rápido de dançar. O cabelo foi cuidadosamente preso em um coque e enfeitado com uma tiara de flores vermelhas miudinhas; eles não tinham dinheiro para uma tiara de diamantes. A única joia que usou foi um medalhão de prata antigo, que tinha sido de sua avó e que ganhara da mãe quando fora promovida a comandante (o que despertara a ira de suas irmãs). Para completar, maquiagem e um perfume borrifado em seu corpo.

Estava pronta.

– Céus, essa não sou eu! – murmurou ao se olhar novamente no espelho.

– Conseguimos Mel! – murmurou Fey com a mão no coração – Ela parece uma mulher agora!

– E uma mulher muito bonita!

Wood jogou a cabeça para trás e gargalhou. Sim, parecia uma mulher agora. E não apenas qualquer mulher, mas uma daquelas nobres de nariz empinado que andava por Ventobravo como se mandassem no lugar.

– Ah, veja Doroteya como ficou. Venha Dorô!

Doroteya, que tinha sido arrumada muito mais rapidamente que Wood, entrou em sua forma humana, um pouco constrangida, mas com um pequeno sorriso nos lábios. Os irmãos de Wood tinham conseguido fazer um vestido preto muito bonito para a worgenin, mesmo com o curto tempo. Não era tão elaborado quanto o da comandante, mas era muito bonito. Sua gola era alta, sem decotes, e as mangas longas e justas. Com certeza Fey e Mel lembraram que ela estava de luto. Colocaram alguns bordados e um laço discreto na cintura e deixaram a saia pouco volumosa. Os cabelos dela também estavam presos, mas diferente dos de Wood, que estavam firmes em um coque, o dela deixava soltos inúmeros cachos ao redor da cabeça, como se o cabelo fosse se rebelar a qualquer momento.

– Uau! – Wood sorriu e bateu palmas – Temos a viúva mais sexy da Aliança!

– Obrigada... – agradeceu constrangida — Eu... Me sinto mal por estar assim...

– Não se sinta. – disse Mel rapidamente – Tenho certeza que, se seu marido estivesse aqui, iria dizer que você estava fabulosa!

– Sim, ele diria. – afirmou com um sorriso triste.

– E acho que ele diria que queria ver você feliz, correto? – completou Fey.

Ela apenas assentiu.

– Então, minhas queridas damas, venham que a carruagem já deve estar chegando! – disse Mel de forma teatral.

– Carruagem? – perguntou Wood espantada – Vocês alugaram uma carruagem?

– E você acha que deixaríamos você estragar NOSSO vestido numa cela de cavalo? – questionou Fey irritado.

– Pela Luz, estou devendo a vocês quantos milhares de ouro depois dessa noite? – perguntou rindo.

– Arrume um nobre rico para casar e ficamos satisfeitos! – gracejou Mel antes de levá-las para a sala.

Talvez fosse impressão sua em virtude do que acontecera mais cedo, mas Wood tinha quase certeza que vira um estranho brilho de tristeza nos olhos de Doroteya quando Mel disse aquilo.

A carruagem chegou e levou embora quaisquer impressões que Wood teve. Pela primeira vez desde que soubera do baile estava nervosa e muito ansiosa. Subiu os degraus com a ajuda dos irmãos e Doroteya veio a seguir.

– Cuidado meninas! Juízo! – disse Mel ao se despedir.

– Não façam nada que eu não faria! – completou Fey.

Elas riram, acenaram e a carruagem pôs-se em movimento.

E então, como se uma lâmpada se acendesse na cabeça de Wood, ela compreendeu que o Rei Varian a veria assim. O que ele pensaria a respeito? A acharia atraente? Balançando a cabeça, espantou aqueles pensamentos; ele provavelmente diria que ela estava bonita e depois voltaria a tratá-la como comandante. Ainda assim, esperava que ele notasse seu decote e passasse alguns segundos admirando-o. Esse pensamento a fez rir.

– O que foi Lina? – perguntou Doroteya.

– Pensamentos bobos, apenas isso. – comentou.

Doroteya continuou a olhá-la com curiosidade, e Wood acabou falando:

– Pensando no que o rei vai dizer quando me ver assim.

– Acho que ele não irá reconhecê-la. – falou.

Aquilo não havia passado por sua cabeça. Wood se endireitou na poltrona.

– Você acha? – indagou.

Doroteya fez que sim com a cabeça.

– Bom... – Wood estava sorrindo com malícia – Isso abre um leque de oportunidades. – e soltou uma risada.

Doroteya, contudo, não a acompanhou. Continuou com as mãos cruzadas sobre o colo e falou em um tom triste:

– Tome cuidado Lina. Se envolver com pessoas da realeza pode ser perigoso e doloroso.

Aquelas palavras pareceram um bloco de gelo descendo goela abaixo da comandante. Apesar de terem sido ditas com sinceridade e preocupação, fez com que Wood se sentisse mal. Não por ela, mas por Doroteya. Pois, finalmente, ela pareceu compreender a situação.

– Doroteya... – começou com cautela – Como era mesmo o nome do seu marido?

Doroteya foi poupada de responder pela parada brusca da carruagem. Elas estavam de frente a Bastilha, no ponto em que as carruagem não podiam passar. A porta foi aberta por um soldado, que estendeu a mão para Wood. Ela conhecia aquele rapaz e o deu um singelo sorriso.

– Boa noite milady. – disse ele com formalidade – Deixe-me ajudá-la a descer.

Não havia qualquer sinal de reconhecimento da parte dele.

– Eu disse. – ouviu Doroteya atrás de si.

Elas se encararam e em silêncio, apenas com o olhar, combinaram de terminar a conversa depois. Doroteya rapidamente sumiu em meio às sombras da noite e Wood foi acompanhada pelo soldado até a porta da Bastilha.

– Obrigada Jon. – agradeceu.

O soldado pareceu aturdido.

– Como milady sabe meu nome?

Ela apenas sorriu enigmática e adentrou a Bastilha.

O baile já havia começado. Ela sabia que estava atrasada e isso não era educado de sua parte. Mas sentiu um prazer imenso quando adentrou o salão e praticamente todas as cabeças viraram para admirá-la.

Sim, essa seria uma noite memorável.

O salão estava mais lindo que jamais vira. Arshe realmente caprichou na decoração. Flâmulas, flores, cristais, cortinas... Tudo parecia perfeito. Se seus irmãos estivessem aqui, estariam tendo um colapso cerebral diante de tanta beleza. Um servo, vestido a rigor, ofereceu uma taça de vinho quando passou por ela e Wood aceitou. Provou um pouco, tal como um bom profissional fazia, e viu que também tinham escolhido bons vinhos. Imaginou como estaria a comida.

– Com licença milady. – ouviu alguém falar. – Me daria a honra de uma dança?

Wood se virou e viu Mathias Shaw, líder da AVIN, olhando-a.

– Olá Mathias. — disse sorrindo. – Adoraria dançar com você.

Mathias a encarou, surpreso, e depois arregalou os olhos em descrença.

– Comandante?! – perguntou.

– A própria. – respondeu sem conseguir conter o riso.

– A senhora está tão... – ele parecia procurar palavras que descrevesse e Wood suspeitava que ele estava tentando não dizer linda, maravilhosa ou fabulosa – Diferente. – disse por fim.

– Obrigada. – agradeceu sinceramente.

Agora que a tinha reconhecido, o chefe da AVIN parecia receoso em dançar com ela. Wood então se perguntou porque algumas pessoas se sentiam tão intimidadas em sua presença. Ou talvez ele simplesmente estivesse muito mais interessado em olhar seu decote.

– E a dança? – perguntou por fim.

– Sim, a dança! – ele pareceu acordar de um transe e estendeu a mão.

Wood colocou sua taça em uma bandeja qualquer que estava de passagem e foi até o meio do salão com Mathias. Eles dançaram brevemente, uma única música e logo em seguida, um nobre muito velho tocou no braço de Mathias.

– Posso tirar a dama para dançar? – perguntou.

Mathias pareceu relutante, mas concordou mesmo assim.

Depois de uma dança com o velho, Mathias a pegou novamente para dançar.

Em pouco tempo Wood tentava não cair na risada com a disputa que estava para ver quem ia dançar com ela. Aparentemente ninguém, além de Mathias, a reconhecera. Mas estava chamando a atenção, principalmente das jovens nobres, que lhe lançavam olharem deslumbrados e invejosos.

Todavia, não havia nenhum sinal do rei.

Foi quando viu Arshe pelo salão. Ela estava ao lado de Anduin e usava um vestido azul com a saia tão volumosa quanto a sua. Todavia, o decote era bem mais discreto e não havia o corpete e as mangas eram curtas. Era um vestido muito bonito, mas seus irmãos diriam que era mais condizente com uma menina de dez anos que com uma princesa já adulta. Pelo menos, pensou Wood, a maquiagem que lhe aplicaram tirara aquele ar pálido e fantasmagórico de sua face e ela parecia luminosa e radiante. Nas orelhas, brincos reluzentes de safira, combinando com o colar, e uma bela tiara de diamantes em sua cabeça.

Anduin, que estava ao lado de Arshe, pareceu ficar muito animado de repente, falou alguma coisa com a irmã de criação e se dirigiu rapidamente a uma mulher mais velha que acabara de chegar. Wood reconheceu Jaina Proudmore e franziu a testa. Não simpatizava com a governante de Theramore e achava que seu pacifismo exacerbado não era bom pra Anduin. Contudo, aproveitou que o jovem príncipe saíra e foi falar com Arshe. Quando se aproximou mais, viu que a princesa, apesar da pompa e do brilho que a cobria, parecia triste e apagada.

Por um instante, ela parecia ostentar a mesma tristeza de Doroteya.A tristeza de uma viúva.

– Vossa Alteza? – chamou.

Arshe a olhou sobressaltada, como se tivesse sido pega cometendo algum delito. E apesar da surpresa, levou menos tempo para reconhece-la que Mathias Shaw.

– Comandante?! – a expressão que ela fez foi tão teatral que Wood acabou soltando uma risada.

– Eu mesma. – e elogiou – Você está muito linda, princesa.

– Eu estava! – disse com ênfase – Antes de você chegar! – isso provocou mais risadas em Wood, enquanto ela analisou-a de cima a baixo – Pela Luz! Quem fez esse vestido maravilhoso? Não me diga que foi Georgio Bolero, pois se ele tinha um modelo lindo assim e não me mostrou, eu nunca mais faço nenhum vestido com ele!

– Pode ficar tranquila alteza, quem fez meu vestido foram meus irmãos. Eles são alfaiates e tem um pequeno estúdio. Se chama “Fey e Mel Style”.

– Ah, já ouvi falar deles, mas eu não sabia que eram tão bons!! – a princesa continuava boquiaberta, e Wood pensou que agora ela realmente parecia ter dez anos – Por favor, me passe o endereço deles!

Como já previa reações assim, Mel lhe dera alguns cartões rebuscados que ela colocara na pequena bolsa prateada que levava (também feita por eles). Logo em seguida, Arshe a pegou pela mão e saiu levando-a por todo o salão, apresentando-a (na verdade apresentando seu vestido) a todas as nobres que eram conhecidas. Logo Wood ficou sem cartão e imaginou que Fey e Mel teriam semanas longas de trabalho pela frente.

Além do seu vestido, o que impressionou as damas da nobreza, foi quem estava usando o vestido. Acostumadas a vê-la de cara lavada e com armadura, ficaram incrédulas quando Arshe dizia quem era a senhorita que estava roubando os olhares de todos os homens. Mas Wood não se importou, muito pelo contrário, estava gostando.

“Sintam inveja da camponesa, miladies!”, pensou com uma certa maleficência.

E quando achou que já tinha exibido-a a todas as mulheres do salão, Arshe a levou para perto do trono, para que pudessem conversar.

– É sério, você ficou fabulosa! Quase não a reconheci! – repetiu Arshe pela milésima vez.

– Vou começar a ficar constrangida, princesa. – comentou sabendo que estava longe de ficar constrangida.

– Desculpe-me é que é tão empolgante te ver assim já que mais tarde... – ela se interrompeu colocando as mãos na boca – Ah, deixa para lá.

Wood arqueou uma sobrancelha, mas nada falou.

– Vossa alteza... – começou de repente ao olhar o trono vazio – Onde está o rei?

Arshe revirou os olhos, parecendo irritada.

– Entocado como um coelho em algum lugar. – disse exasperada – Eu tenho esse trabalho todo para organizar a festa e ele vem, diz ‘oi’ para meia dúzia de gatos pingados e escapole. Sério, o codinome dele não devia ser Lo’Gosh, e sim Co’elhosh!

Foi impossível não rir dessa parte da conversa. Porém, Wood ficou desanimada. Queria muito que o rei a visse daquela forma. Seria engraçada a sua expressão quando finalmente a reconhecesse. Ainda assim, era de se esperar. O rei Varian era conhecido por ser avesso a reuniões como aquela.

Com certeza elas teriam ficado mais algum tempo falando sobre as inexistentes aptidões sociais do rei, se dois rapazes não aparecessem ao mesmo tempo para convidá-las para dançar. Eram os filhos gêmeos de um dos Almirantes e ambos os rapazes pareciam nervosos ao fazerem o convite, que foi prontamente aceito.

A comandante se viu em mais uma rodada de danças, com um salão cada vez mais cheio, mas tinha que admitir que seu ânimo minguara bastante. Durante uma das muitas danças, seu par, um velho soldado com a mão um pouco boba, pisou em seu pé com a força de um elekk. Wood sufocou o grito, mas se afastou dele quase imediatamente.

– Milady, sinto muito. – lamentou ele.

Não, ele não sentia. Era ela quem sentia. Muito!

– Não tem problema. – respondeu num fio de voz – Mas acho que vou me sentar um pouco.

Ele não a contestou e Wood saiu do salão rapidamente, tentando não mancar. Apanhou mais uma taça de vinho de uma bandeja qualquer e se afastou da multidão. Queria poder sentar, tirar o sapato e ver o estrago, mas ali não teria privacidade para isso. Teria que procurar outro lugar e ela sabia onde queria ir.

Havia uma varanda no corredor que levava à biblioteca e pretendia se refugiar um pouco lá até seu pé se recuperar. Olhou em volta e viu que ninguém a seguira. Abriu a porta da varanda e fechou-a logo em seguida. Se encaminhou mancando até o parapeito e se encostou lá enquanto tirava o sapato e verificava o estrago com uma mão enquanto com a outra equilibrava o copo de vinho. Talvez precisasse usá-lo para desinfetar algum ferimento.

– Foi o velho Clay, suponho. – disse uma voz vinda das sombras.

Wood teve um susto tão grande que deixou cair a taça de vinho. Naquele momento, a lua saiu de trás de uma nuvem e iluminou toda a varanda.

O rei Varian Wrynn estava sentado em uma discreta mesa no canto e a olhava com atenção.

O coração de Wood disparou no peito. Esperava encontra-lo no salão ou mesmo não encontra-lo, mas vê-lo ali, naquela varanda iluminada apenas pela luz da lua, com aqueles faiscantes olhos azuis mirando-a intensamente, a deixava sem forças para falar.

“Idiota, fale alguma coisa!”, ordenou a si mesma “E solte esse pé, já!”.

Com cuidado, ela colocou o pé no chão, enquanto apertava o sapato na mão, com ansiedade. O rei ainda esperava uma reposta sua, e como não obteve, falou novamente:

– Desculpe se a assustei. – e sorrindo um pouco, completou – Se isso a consola, milady também me assustou um pouco quando entrou.

Milady. Ele não a reconhecera afinal.

“Fale!” ordenou novamente a si mesma.

– Sim, foi o velho Clay. – murmurou sem tirar os olhos dele. – Ele tem o peso de um elekk.

Varian jogou a cabeça para trás e deu uma gostosa risada. Wood estremeceu, mas não de frio ou de medo; a risada dele era calorosa e, tinha que admitir, um pouco sexy.

– Bem, deixe-me ajuda-la. – e para total surpresa de Wood, ele se levantou e foi até onde ela estava.

Quando o rei chegou mais perto, ela pode ver que na mesa que ele estava tinha uma garrafa de vinho e a taça dourada que ele costumava usar. Seria por isso que ele estava tão comunicativo? Estaria bêbado?

Bem, bêbado ou não, o rei se abaixou e pegou gentilmente seu pé. Enquanto analisava-o à luz da lua, Wood agradecia mentalmente a Mel por ter esfoliado seus pés com furor mais cedo.

– Sem sangue. Nada esmagado. Talvez lateje um pouco amanhã, mas nada que uma boa poção de cura não dê jeito. – comentou seriamente.

Não, ele não estava bêbado. Talvez um pouco mais solto por causa do vinho. Ou por achar que ela era uma desconhecida.

– Bom saber que meu pé sobreviverá ao Velho Clay. – comentou recolocando o sapato.

Varian sorriu novamente e levantou-se. Agora estavam frente a frente, e o coração de Wood voltou a palpitar. A lua entrou novamente em uma nuvem, lançando sombras sobre os dois. O olhos de Varian perscrutavam seu rosto e Wood tinha certeza que ele tentava lembrar de onde a conhecida. Mas duvidava que ele conseguisse fazer a ligação entre a comandante que passava os dias com um rabo de cavalo segurando o cabelo, sem ao menos um batom nos lábios e cuja face ele mal encarava, com a dama bem vestida e maquiada a sua frente.

– Sinto que a conheço. – disse ele finalmente – Mas não sei exatamente de onde.

– Sim, vossa majestade me conhece. – respondeu com a voz rouca – Apenas nunca prestou atenção em mim.

Ele franziu a sobrancelha, mas logo sorriu.

– Apenas um dos meus muitos defeitos. – falou em tom de quem pedia desculpa – Poderia então me dizer seu nome?

– Lina.

– Lina o quê?

– Apenas Lina, por favor. – de repente ela não queria dizer seu sobrenome. Não queria que ele soubesse quem era. Queria apenas que ele a continuasse olhando com aqueles profundos olhos azuis.

– Muito bem, Lina. – ela estremeceu um pouco quando ele disse seu nome – Por que não senta um pouco? Ficar em pé não irá ajudá-la a melhorar. E também, poderia fazer um pouco de companhia a esse solitário rei.

Wood, que estava se sentindo muito mais como ‘Lina’ naquele momento, franziu o cenho.

– Achei que gostasse da solidão, majestade.

– Às vezes sim. Mas depois da terceira taça de vinho, ela fica meio insuportável.

Então ele também era capaz de se sentir solitário? Jamais imaginara tal coisa.

Varian estendeu a mão e Wood aceitou. Ele a ajudou a andar até a mesa, e puxou a cadeira para que pudesse se sentar. Foi um pouco difícil acomodar toda aquela saia na pequena cadeira, mas no final gostou do efeito da saia caindo por todos os lados ao seu redor. Parecia que ela estava flutuando. O rei também pareceu reparar naquilo.

– Não entendo como vocês mulheres conseguem andar com tanto tecido.

– Nem eu. – admitiu – Não costumo usar esse tipo de roupa com frequência. Calças e camisas são muito mais confortáveis.

– Então não costuma frequentar bailes?

– Não. – e se sentindo bem a vontade, comentou com um sorrido malicioso – Nem vossa majestade, pelo que vejo.

Sorrindo, ele encheu a taça de vinho. Depois, pegou uma taça de cristal, que estava disposta com outras quatro perto da garrafa, encheu-a e entregou a ela.

– Não gosto de aglomerações. Nem de formalidades. – e levando a taça as lábios, completou – Nem de pompa.

Sem se conter, ela soltou uma risada.

– Está numa situação difícil, majestade. O senhor acabou de listar três coisas que um rei não pode evitar.

– Verdade. – ele suspirou – Não posso evitá-las, mas não me sinto na obrigação de gostar.

– Ninguém é obrigado a gostar de nada. – disse lembrando-se de uma de suas irmãs – Nem de ninguém.

O rei a observou por um momento e depois apontou para a taça.

– Vai me deixar beber sozinho, Lina?

Novamente seu nome naqueles lábios. Tentou permanecer impassível.

– Claro que não. – ela tomou um pouco do vinho, ficou pensativa um momento, depois falou – Vinho dos elfos noturnos. Uva selvagem. Deve ter passado pelo menos três anos maturando. Estou certa?

Colocando o cotovelo na mesa, ele aproximou-se mais dela. Por um momento, Wood achou que ele finalmente a reconhecera. Mas o brilho que vira em seus olhos eram outro.

– Entende muito de vinhos pelo que posso ver. – disse parecendo satisfeito – Muito raro. As damas normalmente preferem bebidas mais doces e espumantes.

– Não sou uma dama qualquer, majestade. – e sorrindo enigmática, continuou – O senhor se surpreenderia do que eu sei.

– É mesmo? – perguntou interessado – Dê-me mais um exemplo.

Pensando no que poderia dizer, ela percorreu o lugar com os olhos. Mesmo estando com pouca luminosidade, ela viu a espada real descansando no colo dele. Bem, se ele não a reconhecesse depois do que faria, não reconheceria mais.

– Poderia me emprestar sua espada, majestade? – perguntou com a mão estendida.

Agora sim Varian parecia surpreso. Analisou-a por um momento. Wood sabia exatamente o que ele pensava. Estava medindo se, mesmo desarmado, conseguiria dominá-la caso usasse a espada contra ele. Por um momento pensou no corpo dele apertado contra o seu, tentando dominá-la e sentiu um arrepio percorrer seu corpo.

Quando se convenceu que mesmo desarmado não teria como ser morto por aquela dama de vermelho empunhando sua espada, Varian a entregou. Wood recebeu a espada com ambas as mãos, ficou em pé com um pouco de dificuldade e então se afastou um pouco da mesa. Sob o olhar atento de Varian, segurou-a com força e a ergueu até os olhos. Depois, tentou segurá-la só com uma mão. Era muito pesada. Segurou com as duas e girou-a com habilidades para os lados. Depois, deu um passo à frente e cortou o ar, como se estivesse diante de um inimigo. Recuou e segurou-a perto dos olhos de novo.

– Aço enânico. – falou concentrada – Tem magia imbuída nele, magia arcana. Essa espada tem quinze anos ou mais e nunca foi quebrada. – passou os dedos devagar pela lâmina –Já deve ter perdido o fio uma ou duas vezes, mas nada que prejudicasse o combate.

Quando voltou seus olhos para Varian, notou que ele parecia fascinado. Seus olhos agora brilhavam como dois faróis. A lua saiu novamente das nuvens e o aço da espada brilhou forte. Por um momento, a imagem que dominou a visão do rei foi daquela bela e misteriosa mulher segurando uma espada, parecendo ameaçadora e ao mesmo tempo sensual.

Notou, com surpresa, que a desejava.

– Milady... Lina... – murmurou quando ela voltou para a mesa e lhe entregou a espada – Estou profundamente admirado por seu conhecido.

Ela o encarou por alguns segundos e então perguntou:

– Realmente não me reconhece majestade?

– Gostaria de dizer que sim, mas estaria mentindo.

Wood então se sentiu um pouco infeliz. Ela fizera uma demonstração memorável, tinha certeza, com a espada, e mesmo assim Varian não tinha ideia de quem ela era. Isso só provava que o rei nunca prestara atenção nela.

“Mas que diabos!”, pensou exasperada “Por que ele deveria me ver como mulher? Sou sua soldado, apenas isso! Se ele vivesse por ai olhando para as mulheres do exército, não seria o rei que conheço!”

– Está magoada comigo, milady? – perguntou apreensivo.

– Não, de jeito nenhum. – respondeu pegando novamente a taça de vinho – Apenas triste pelo fato de não ser uma pessoa que cause uma grande impressão.

– Discordo totalmente. – retrucou – Há anos ninguém me causa tão grande impressão quanto a senhorita. – e depois de um momento de incerteza, perguntou – Senhorita ou senhora?

– Senhorita. – respondeu suavemente – Nenhum homem consegue lidar comigo. Bem, eles motivos para isso — e apontou a espada com os olhos.

Ambos riram e provaram do vinho antes dele falar:

– Talvez a senhorita apenas não tenha achado o homem certo.

Wood riu alto. O rei adorou o som de sua risada.

– Vossa majestade falou igual a minha mãe. Ela ainda reza todos os dias pelo homem que vai me colocar dentro de casa cuidando de filhos, lavando roupa e cozinhando – um estremecimento percorreu seu corpo somente de pensar nessa possibilidade.

– Com sua habilidade com a espada, seria um crime deixa-la relegada a esse destino! – falou Varian seriamente – Deveria pensar em fazer parte do exército.

Ela riu novamente, dessa vez com mais vontade.

– Eu já faço parte de seu exército. – disse com simplicidade e bebeu mais vinho.

Agora ela realmente parecia ter deixando-o aturdido. Novamente ele perscrutou seu rosto em busca de reconhecimento, mas a lua novamente entrou nas sombras e Wood agradeceu. Não queria que aquela conversa tivesse fim quando sua identidade fosse revelada.

– Meu exército está muito bem então. – falou sorrindo um pouco.

Balançando a cabeça em afirmativa, ela terminou a taça de vinho. Varian prontamente a encheu novamente. Os olhos deles se encontraram por cima da borda das taças e ficaram presos um ao outro por um momento.

– Estava esperando visitas a sua varanda? – quis saber ela mudando repentinamente de assunto e apontando a bandeja com outras taças.

– Não, mas o servo trouxe mesmo assim. Às vezes Anduin ou Arshe conseguem me achar, mas ele não gosta muito de vinho e ela é muito fraca para bebidas alcoólicas. – ele riu – Aquela menina consegue beber poções de mana concentrada sem sentir um embrulho no estômago, mas já fica com as bochechas vermelhas e os olhos turvos com uma taça de vinho.

Ambos riram.

– Princesa Arshe é uma moça delicada. – comentou Wood – Pelo menos fisicamente. É pálida como uma vela e magra como um graveto, mas tem uma persistência invejável.

Varian concordou com a cabeça.

– Arshe cresceu dentro desse castelo e nunca gostou muito do ar livre. Por isso aquela palidez. – ele analisou sua taça por um momento – Não sei o que seria de Anduin se não tivesse aquela menina para chamar de irmã. Talvez fosse mais retraído do que já é.

– Não considero príncipe Anduin retraído. – discordou – Ele apenas sabe a hora de falar. — e completou, com sinceridade – Ele será um excelente rei.

– Assim espero.

Aproveitando a recém adquirida intimidade, Wood se permitiu perguntar:

– Por que não casou de novo, majestade?

Varian meneou com a cabeça.

– Não sei.

Apesar de achar a resposta nenhum pouco satisfatória, Wood não perguntou mais. A última coisa que queria naquela noite era invocar a lembrança da rainha morta. Varian também parecia não querer.

– A senhorita sabe muito sobre mim, mas eu só sei seu nome.

– É tudo que vossa majestade precisa saber. – e lhe lançou um olhar malicioso.

– Não acho justo. – protestou ele, mas sorrindo.

– Porque gostaria de saber algo? – questionou retribuindo o sorriso.

Ele deu de ombros.

– Gostaria de saber mais sobre a mulher tão excepcional que é você, Lina.

– Não tenho nada de excepcional, majestade. – disse, mas não sem se sentir extremamente feliz com o comentário.

– Deixe que eu decida isso. Mais vinho? – perguntou ao ver a taça dela vazia.

– Claro.

Então, eles enveredaram por caminhos menos espinhosos. Falaram sobre diversos assuntos, desde cavalaria até a reforma do porto da cidade. Varian estava cada vez mais fascinado como aquela bela dama podia conhecer tantos assuntos de seu interesse. E Wood se sentia à vontade com ele como nunca se sentiu antes com nenhum homem. Acabou deixando escapulir algumas informações sobre ela própria, mas nada que pudesse denunciá-la. Falou da imensidade de irmãos, da vinícola da família e da infância no campo. Foi quando alguém bateu na porta fechada da varanda, fazendo com que eles dois se sobressaltassem.

– Pai! – era Anduin – Está ai?

Varian fez sinal de silêncio para Wood e ela teve que colocar a mão na boca para não rir. O garoto chamou mais uma vez e, como não obteve resposta, foi embora.

– Acho melhor nos refugiarmos em algum outro lugar. – disse ele em voz baixa.

– Concordo. – respondeu Wood feliz por ele tê-la incluído em sua nova fuga.

Varian andou até a porta da varanda, abriu-a com cuidado e deu uma espiada. Depois, fez um gesto para que ela o acompanhassem. Wood se sentiu como uma adolescente fugindo dos pais com o namorado quando eles cruzaram o corredor a passos largos e silenciosos. Foram até a biblioteca e o rei abriu a porta, colocou-a para dentro e fechou logo atrás.

– Espero que não tenha forçado o pé. – disse ele preocupado.

– Não, acho que o vinho que tomei acabou por anestesia-lo.

Riram e se entreolharam. Na biblioteca estava bem mais iluminado que na varanda. Haviam bastões mágicos que proporcionavam luz para quem quer que quisesse ler quando o sol não estivesse entrando pelas janelas. Com aquela iluminação, Varian pode analisar o rosto dela melhor. Tinha o rosto redondo, com as maçãs do rosto do tamanho certo para lhe dar uma beleza clássica. O rei sabia que a conhecia, mas com a quantidade de maquiagem que lhe aplicaram, entendeu que seria difícil. Mas os olhos... Onde tinha visto olhos tão profundos e decididos antes?

– Milady é muito bonita. – falou com sinceridade.

– Obrigada majestade. – respondeu sem conseguir desviar o olhar dele.

Havia tensão no ar. Tensão sexual. Diferentemente de quando estavam na varanda, ali havia quatro paredes e a possibilidade de alguém aparecer era bem remota. E eles havia tomado toda a garrafa de vinho. Haviam adquirido intimidade. E agora parecia que uma corrente elétrica unia os dois.

– Acho que não deveria tê-la trazida aqui. – murmurou ele com a voz rouca — Deve haver algum acompanhante ansioso por sua presença.

Wood se aproximou mais.

– Não há nenhum.

Eles se encaram novamente. A comandante podia sentir o desejo dele, a forma como ele a olhava e tinha certeza que Varian a queria nos braços dele. Mas ele não daria o passo a seguir. E Wood sabia porquê. Ele não a reconhecia, por isso a tomava por uma dama da nobreza. Talvez até donzela. Alguém que ele não poderia tocar sem gerar um grande mal-estar político. Mas ela sabia que não havia nada disso. Era uma mulher experiente, independente, dona de seu próprio corpo. Se ele temia tocá-la, o mesmo não se aplicava a ela.

Vencendo o resto da distância que os separava, Wood o beijou. Varian foi pego de surpreso, relutou no início, mas logo se entregou ao beijo. E que beijo! Os lábios dele eram grossos, fortes e não tinham medo de explorar a sua boca. Em poucos instantes os braços dele rodearam sua cintura e Wood foi apertada contra o peito forte do rei. Ele não usava armadura, apenas uma roupa de festa e ela pode sentir todos os músculos das costas dele quando o acariciou.

Momentos depois, quando o beijo findou, os olhos azuis de Varian perscrutaram com ânsia os seus.

– Milady... – murmurou com a voz rouca – Lina... Eu...

– Eu não sou milady. – disse suavemente – Não tenho título de nobreza. Não tenho pais influentes e poderosos. Nem sou donzela. Não há com o que se preocupar.

Surpreso, o rei se perguntou como ela conseguira chegar no âmago das dúvidas dele, mas outro beijo lhe fechou os lábios e a mente. Sim, já não pensava mais. Uma onda de desejo como há anos não sentia, percorreu seu corpo. Talvez pudesse ter resistido se não tivesse bebido vinho, se não tivesse se sentindo tão solitário, se ela não fosse tão extraordinariamente desejável...

O segundo beijo foi bem mais ardoroso e intenso. Seus corpos apertavam-se um contra o outro como se desejassem moldar-se, e talvez fosse exatamente isso que quisesse. Tropeçando e sem ver exatamente o que fazia, Varian a conduziu pela biblioteca, sem que seus lábios se desgrudasse, até atingirem uma mesa. Não demorou para que ele a suspendesse e a sentasse ali. Wood rapidamente passou as pernas ao redor do quadril dele e o apertou.

Era loucura, pensou Wood. Sim, o que aconteceria quando ele descobrisse quem ela era? Isso poderia colocar um fim a sua carreira militar? Esses pensamento passaram rapidamente pela sua cabeça, mas foram repelidos no instante que os lábios de Varian tocaram seu pescoço. Foda-se a carreira, quero ele dentro de mim, seu corpo gritava. E parecia que ele a ouvia, pois do pescoço desceu os lábios até o decote e baixou a curva de seus seios.

Rapidamente, Wood baixou o decote do vestido e expôs os firmes e volumosos seios. O corpete desceu só um pouco, mas foi o suficiente. Por um instante se perguntou se seus irmãos imaginaram que ela poderia aprontar algo assim e fizeram o vestido de modo a permitir aquele ato. Talvez, mas isso não importava.

Nada importava.

Pois a boca de Varian estava em seus seios e a sensação era incrível.

Para Varian, ter aqueles seios exuberantes em sua boca era quase como dar comida a um faminto. Sim, era assim que se sentia. Faminto. Apertou os seios entre suas mãos, tocava-os com a língua, ouvindo o suspirar de Lina ao mesmo tempo que sentia o estremecimento do belo corpo. Há quanto tempo não se sentia tão vivo assim? Há quanto tempo o sangue não corria tão rápido em suas veias, a ponto dele achar que iria explodir a qualquer momento? Há quanto tempo uma mulher não o tirava completamente de seu eixo? Suspeitava que a dama de vermelho o tirara do seu eixo no momento em que entrou na varanda.

Enquanto Varian se perdia em seus seios, Wood desejava se livrar do vestido. Queria sentir seu corpo contra o dele, mas sabia que não podia. Então, suas mãos percorreram o corpo dele, até chegar no membro ereto entre suas pernas. Varian gemeu, ainda com o seio em sua boca, quando ela o tocou lá. Rapidamente, Wood abriu sua calça, colocou as mãos lá e tirou o membro de dentro.

– Vossa majestade tem outra bela espada aqui. – murmurou com um sorriso sacana no rosto.

Varian riu e a beijou de novo. Wood então meteu rapidamente a mão dentro das muitas saias do vestido e tirou com agilidade sua calcinha. Depois, ergueu o amontoado de tecidos de modo a suas pernas ficarem nuas e se entrelaçarem no quadril do rei. Varian estremeceu quando sentiu a pele macia da coxa dela roçar em seu membro. Puxou-a mais para si e, em um instante, entrou dentro dela.

Wood tinha certeza que nunca sentira aquela sensação antes. O membro dele penetrou e logo ele estava completamente em cima dela, sugando seus seios e se movimentando com velocidade. Naquele mesmo momento, seu corpo começou a tremer e uma sensação maravilhosa se apoderou do corpo dela. Nunca havia gozado tão rápido. Mas Varian estava apenas começando. Colocou os dedos dentro do cabelo dela, desfazendo seu coque, puxou a cabeça em direção a dele e beijou-a com voracidade. Segurou-a firmemente entre seus braços e penetrava-a cada vez mais rápido, cada vez mais forte, como se ela fosse sumir se ele afrouxasse o abraço.

Quando seus olhos se encontraram brevemente no meio daquela dança sensual que faziam, Wood pode ver um brilho selvagem em seus olhos. Como se fossem olhos de um lobo. Como se ele fosse o predador e ela a presa, e ele estivesse devorando-a. E estava. Wood se sentia tomada, levada, arrebatada. Sempre quando fazia sexo, ela quem controlava tudo, quem dava as cartas, mas naquele momento estava mercê dele.

E gostava daquilo.

Novamente seu corpo foi sacudido por um orgasmo, e Varian continuava penetrando-a, cada vez mais fundo, cada vez mais rápido, hipnotizado pelo corpo dela, por seu cheiro, por seus gemidos. Sentia-se completamente enfeitiçado, fascinado e se, naquele momento, Lina pedisse sua alma, ele oferecê-la-ia com prazer. Sentiu que ela era levada por ondas e mais ondas de prazer e gostava daquilo. Gostava de sentir seu corpo se contorcendo debaixo do seu. Gostava de sentir a carne macia e úmida que apertava seu membro. Gostava de ver aqueles seios subindo e descendo a cada estocada que ele dava e os lábios... Sim, os lábios. Não conseguia ficar afastados dele.

O tempo perdeu o significado quando eles mais uma vez se beijaram. Mas Varian já estava no limite. Seu desejo explodiu quando, pela terceira vez, ela foi arrebatada pelas ondas de prazer. Deixou-se derramar-se dentro dela, enquanto apertava seu corpo com ânsia e beijava sua boca com voracidade. Ficaram assim durante um bom tempo, enquanto o prazer percorria os corpos dele. E quando finalmente tudo acabou, ele afastou os lábios, contra a vontade e encarou-a novamente.

Ela lhe ofereceu o sorriso mais lindo do mundo.

“Estou perdido.” Pensou Varian.

E para sua surpresa, isso não o deixou amedrontado.

Ficaram abraçados um tempo e então o relógio da catedral pode ser ouvido. Doze badaladas.

– Acho que precisamos voltar ao baile. – murmurou Wood contra a vontade.

– Tem razão. – concordou com a expressão tão insatisfeita quanto a dela.

Relutantemente, ele se afastou. Com cuidado, ajeitou a roupa enquanto ela fazia o mesmo. Quando viu-a colocar os seios dentro do vestido novamente, foi assaltado por outra onda de desejo. Queria tocá-los de novo, queria beijá-los de novo. Mas tinha um compromisso. Tinha um discurso para fazer e medalhas para entregar.

Para sua surpresa, ela estava pronta antes que ele conseguisse terminar de se recompor.

– Preciso ir ao toalete. – disse olhando-o – Vossa majestade fez esse baile ser memorável. – e sorriu.

Antes que conseguisse conter a língua, perguntou:

– A verei de novo?

Wood não pode deixar de dar uma risada sem graça.

– Todos os dias, majestade.

E saiu sem dar mais explicações, deixando-o sozinho na biblioteca.