Herdeiros da Guerra

19 Capítulo XVI - Despertar PARTE II


********************

As águas do mar eram cortadas suavemente pelo navio, enquanto a ilha de Quel’danas se aproximava cada vez mais. Apoiada na murada do navio, Ash observava o prazer de Karen e Saba, que estavam praticamente penduradas na amurada, com os olhos faiscando de empolgação. Rindo, pensou que em nada elas pareciam com as duas meninas acabrunhadas de mais cedo; toda aquela tristeza foi substituída por alegria no momento em que entraram no navio.

Kassyeh e Tewdric também estavam lá e pareciam muito ocupados em impedir que as duas meninas mergulhassem nas águas frias. Ao lado deles, Lady Liadrin e Huaru conversavam seriamente, provavelmente sobre o treinamento de Karen; a elfa não ficou muito satisfeita em saber que um tauren estava treinando a futura rainha. Ainda assim, não havia qualquer sinal de desentendimento. Provavelmente os dois paladinos estavam chegando pacificamente a algum acordo.

— Você estava muito tensa durante o almoço.

Ash olhou para o lado e não ficou surpresa em ver Luxuriah ali. Sua irmã não despregara o olho dela durante toda a refeição e provavelmente estava só esperando uma oportunidade de lhe interrogar.

— Apenas cansada. – disse olhando para as ondas – Tive treino mais cedo.

Luxuriah a encarou mais um pouco antes de perguntar:

— O que Lor’themar lhe fez?

Sem conseguir se conter, Ash caiu na risada. Luxuriah a acompanhou, mas logo colocou a mão no estômago e fez uma careta.

— O que foi? – perguntou a mais jovem.

— Enjoada. – disse suspirando – Não foi uma boa ideia vir logo depois de comer.

— Eu costumo enjoar. – falou Ash estranhando pela primeira vez o fato de não estar sentindo nada – Quase coloquei o estômago pra fora na viagem a Orgrimmar.

— Você está mudada.

— Sim, estou.

Elas se encararam, como cúmplices, cientes do que havia mudado em Ash. Mas nada falaram sobre aquilo.

— Você ainda não me disse o que Lor’themar lhe fez. – censurou a mais velha.

— Ele me fez raiva, muita raiva. – e relanceou os olhos pelo barco, para onde estava o lorde regente.

Lor’themar estava postado discretamente em um canto do barco, como se estivesse tentando aparecer. E quando seus olhos e o de Ash se cruzaram, ele rapidamente baixou a cabeça; a jovem poderia não perceber, mas continuava com o olhar de desprezo que o deixara totalmente sem ação.

— Você parece que vai comer o fígado dele. – comentou alegremente Luxuriah.

— É por ai. – concordou agora olhando para a irmã.

— Então, vamos, me conte o que a levou a estar com tanta raiva de seu salvador?

Ash respirou fundo e contou. A pior parte foi admitir para a irmã que ela e o lorde regente haviam se beijado. Mas Luxuriah não ficou nenhum pouco surpresa. Então contou sobre o treinamento, e o que ele tinha falado. Por fim, confessou que tinha saído da sala de treinamento chutando tudo que via pela frente e quase quebrou o pé em um pilar de mármore.

— Ele tratou o que aconteceu como se fosse nada! – terminou o relato com muito mais raiva do que estava antes – Como se tudo fosse uma brincadeira para ele!

Luxuriah ponderou um pouco antes de comentar:

— Confesso que estou surpresa.

— Por ele me tratar assim? – estranhou Ash.

— Não, por você não ter caído no choro depois que ele falou aquilo. – a caçadora tinha um sorriso de satisfação no rosto. – Estou orgulhosa.

— Acho que esgotei meu estoque de lágrimas, pelo menos por enquanto. – e encarando a irmã, indagou – O que você acha disso tudo?

— Primeiro, que ele é um idiota.

Ash concordou com a cabeça.

— Segundo, que tudo que o papai falou sobre ele é verdade.

— O que o papai falou sobre ele? – Ash franziu as sobrancelhas. O que o pai tinha a ver com aquilo?

Luxuriah relanceou mais uma vez a vista para onde estava Lor’themar, que continuava encarando o chão como se fosse a coisa mais interessante que já existiu e falou:

— Papai tentou arrumar namorada durante muito tempo para Lor’themar. Mas ele nunca ficava muito tempo com ninguém. Dizia que tinha muito trabalho, muitas responsabilidades, essas coisas. – a elfa então lembrou das horas passadas ao lado do pai, na oficina atrás da casa, enquanto ele contava histórias e mais histórias – Papai achava que na verdade ele tinha era medo de relacionamento e não tinha ainda encontrado uma mulher que batesse de frente com esse medo. – a elfa fez uma pausa, encarou o mar alguns instantes, antes de continuar – No caso de vocês dois, além disso, tem outras complicações.

— Que complicações?

— Bem, você é filha do melhor amigo dele e acho que ele pensa que papai jamais permitiria isso.

— Ele não permitiria. – afirmou Ash rindo.

— Não mesmo. – concordou Luxuriah rindo também – Porque era um ciumento. Mas a mamãe daria um jeito. Isso não seria um empecilho a longo prazo. Mas a mamãe não está aqui para fazer isso. Nem o papai para ceder.

Aquela constatação fez a conversa desandar um pouco. Ash percebeu que havia lágrimas brilhando nos olhos da irmã, mas Luxuriah rapidamente se livrou delas, tentando retomar o foco da conversa.

— E também tem o fato de você ser princesa agora. Se bem conheço o Lor’themar, ele deve estar pensando que vão dizer que ele se envolveu com você só pra poder ficar no poder.

— Isso é um absurdo! – protestou Ash – Eu nem vou ser a rainha!

— Mas Karen te ama, e com certeza daria ouvidos a você. E muitos podem pensar que Lor’themar usaria você para manipular a rainha.

— Karen não seria tão burra. E nem me daria ouvidos tão facilmente assim....

— Eu discordo. Karen ouviria você sim. Mas, como você disse, ela não é burra. Na verdade, é esperta até demais pro meu gosto...

Como se tivesse ouvido seu nome, Karen soltou um grito de pura excitação. Luxuriah e Ash olharam rapidamente e a viram praticamente se atirando da proa do barco.

— Estamos chegando! Estamos chegando! – gritava ela sendo acompanhada por Saba.

— Karen, pela Nascente do Sol, cuidado! – ralhava Kassyeh, mas a menina não lhe dava ouvidos.

Mas nada podia conter a animação da menina ao ver o porto de aproximando. Por fim, Tewdric achou por bem segurar firmemente na mão de Karen e Saba e mantê-las presas a ele enquanto o navio entrava em águas mais rasas. O balanço no convés aumentou a medida que a ilha ficava mais perto e Luxuriah segurou no ombro de Ash com força e fechava os olhos.

— Lux, você está bem?

Luxuriah sabia que se abrisse a boca ia vomitar, então apenas fez um movimento com a cabeça afirmando que sim. Quando o navio atracou, a elfa suspirou e soltou o ombro da irmã.

— Antes de descermos, quero lhe perguntar uma coisa. – disse Luxuriah enquanto assistia Karen e Saba saírem puxando Tewdric numa corrida acelerada.

— Diga.

Luxuriah relanceou os olhos para o lorde regente, que descia do barco logo atrás de Kassyeh e Tewdric.

— Você quer Lor’themar? – perguntou incisiva — Digo, você está apaixonada por ele e o quer realmente?

Ash não precisou pensar para responder.

— Sim, eu quero.

Luxuriah assentiu.

— Certo. Vá ao meu quarto hoje a noite quando voltarmos a Luaprata. Poderemos conversar mais à vontade. – e suspirando, comentou – Parece que hoje é o dia de eu dar conselhos amorosos.

Ash chegou a pensar em perguntar o que a irmã queria dizer com aquilo, mas logo Karen estava berrando por ela a plenos pulmões, e a elfa achou melhor atender a empolgada irmã antes que ela rompesse as cordas vocais.

Ela não tinha reparado que Vivithi e Aethas vieram a viagem toda de navio sentados lado a lado.

***********************

O ar da noite estava cálido e agradável. Sentada em um banco nas proximidades da Bastilha, Doroteya observava o céu estrelado, um pouco decepcionada por não poder ver tantas estrelas quanto via em sua pequena casa na floresta de Guilneas. E com tristeza lembrou que jamais estaria novamente em sua varanda admirando as estrelas com o filhinho no colo tendo o braço de Liam ao redor de seu corpo.

Liam.

Seu Liam.

Príncipe Liam Greymane.

Quando os dois se conheceram oito anos antes, não havia maldição, não havia renegados ameaçando suas terras e a única preocupação da druidesa era impedir que caçadores matassem os animais nas proximidades de sua casa. Foi em uma dessas abordagens que ela conhecera o príncipe, que se desgarrara de seu grupo de caça ao perseguir uma raposa. Naquele momento, Liam conheceu o pior lado de Doroteya, aquele que protegia todos os animais indefesos. Segundo ele lhe contara anos depois, ele se apaixonou imediatamente ao ver a jovem que fez o que ninguém fizera antes: confrontar o jovem herdeiro.

Foi um amor instantâneo, forte e puro. Demorou algum tempo, porém, para o príncipe vencer a tímida druidesa, mas logo estavam completamente envolvidos um com o outro. O que não foi nenhum pouco do agrado do rei, quando este soube do romance do seu filho com uma rústica camponesa. Os anos seguintes foram difíceis e Doroteya se negava a pensar nas agruras que passara quando rei descobriu que seu relacionamento com Liam não era uma simples brincadeira e assumia ares de seriedade. Não queria lembrar da fuga desesperada quando se vira grávida. Mas seu coração se encheu de ternura ao lembrar o casamento simples realizado às escondidas por um amigo em comum, falecido também pelas mãos dos renegados.

O rei Greymane não sabia do casamento.

Nem de Theodore.

Passara os últimos anos escondida do rei de Guilneas, recebendo visitas ocasionais de seu marido e só saíra do confinamento quando seu lar foi ameaçado. Eles tinham a esperança de falar do casamento e da existência do filho tão logo as ameaças dos inimigos fossem rechaçadas. Theo ficou na proteção de uma grande amiga e ela fora lutar pelo seu povo, que a desprezava por considera-la uma mentirosa e enganadora que envolvera seu príncipe em mentiras.

Com certeza todos teriam ficado muito felizes se a maldição que a atingira a tivesse levado às raias da loucura como fizera com dezenas de outros infelizes.

Os olhos se encheram de lágrimas ao lembrar da aceitação de Liam ao vê-la amaldiçoada. Ele segurou seu rosto entre as mãos e a olhou de baixo. Eles riram, pois ela sempre fora baixinha e agora, ficava uma cabeça mais alta que o marido. Depois de cessado o riso, ele lhe disse:

— Eu te amei desde que a vi e vou continuar te amando sempre. Porque amo seu lindo coração e não sua aparência.

E foi com a mesma delicadeza que Liam lhe fez um pedido, horas antes de sua morte:

— Dorô, se algo acontecer comigo, cuide de minha família. Eu sei que meu pai irá acolher você a Theo quando tudo isso se aquietar. – e quando viu os olhos cor de mel dela se encherem de lágrimas, ele fez o segundo pedido – Não chore por mim, certo? Eu amo seu sorriso.

Como, ela se perguntava, como não deixar as lágrimas rolarem soltas ao lembrar de seu querido e amado Liam? Como não se sentir a pior pessoa do mundo por não cumprir os pedidos que ele lhe fizera? Pois ela tentara sim se aproximar do rei e lhe contar sobre ela e Theo e fora rapidamente rechaçada, como se fosse uma criminosa. Depois disso, o medo que Greymane descobrisse sobre seu menino e o tirasse dela cresceu absurdamente. Com Liam vivo, tinha a segurança que seu marido impediria tal ato; com ele morto, tinha convicção que assim que o rei colocasse os olhos em cima da criança, saberia que era filho de Liam e o tomaria para si. Que poder tinha ela, uma pobre e singela camponesa contra o poderoso Greymane?

Mas, ainda assim, tentava pelo menos estar próxima ao rei, ajuda-lo mesmo contra sua vontade, protege-lo e também ao seu povo, pois seria o que Liam queria. E ainda que seu coração estivesse despedaçado por estar longe de seu filho, sabia que aquela era a melhor forma de atender o pedido do amado e manter seu filho a salvo.

E ainda assim, as lágrimas teimavam em descer.

— Você está bem?

A pergunta inesperada fez com que Doroteya praticamente pulasse do banco em que estava. Teve sorte de não ter-se transformado naquele momento, pois seu corpo de worgenin teria rasgado o belo vestido feito por Fey e Mel e ela não queria que isso acontecesse. E agora, encarando a pessoa que fizera a pergunta, percebeu que não estava em perigo. Era só uma jovem dama, em um belo vestido azul, que a observava, preocupada.

— Desculpe se a assustei. – pediu educadamente – Mas a vi chorando e fiquei preocupada.

— Desculpe-me ter causado preocupação, milady. – disse singelamente.

A jovem a encarou por um momento e Doroteya percebeu que ela não era totalmente estranha.

— Você é da comitiva de Guilneas? – ela lhe perguntou.

Doroteya afirmou com a cabeça.

— Ah, muito prazer, sou Arshe Fordragon, princesa emérita de Ventobravo. – disse com gentileza.

As bochechas de Doroteya ficaram vermelhas de vergonha. Tinha chorado em frente à realeza mais uma vez!

— O prazer é meu vossa alteza! – disse fazendo uma reverência – Sou Doroteya Finnigan.

Ela não podia usar o sobrenome do marido. Não enquanto o rei desconhecesse seu casamento.

— Ah, você é Doroteya? A que está trabalhando com a comandante Wood? – perguntou animadamente a princesa.

A druidesa não sabia se o fato da princesa saber quem era ela era bom ou ruim.

— Sim, sou eu. – respondeu com cautela.

Se a princesa Arshe percebeu o receio da outra, não esboçou qualquer reação nesse sentido.

— Ah, estão tem que entrar na festa o mais rápido possível! Daqui a pouco vai acontecer algo que você não pode perder! – disse com empolgação.

— Mas vossa alteza não está lá dentro... – comentou Doroteya pensando numa forma de dizer que não iria, de jeito nenhum, entrar no salão.

— Ah, vim tomar um ar, estava quente lá dentro. – e tomando a mão de Doroteya, puxou-a tão delicadamente que a druidesa não teve coragem de puxa-la de volta. Seria rude com alguém tão simpática. – Venha, você definitivamente não vai querer perder esse momento da comandante!

— O que vai acontecer? – perguntou timidamente enquanto era arrastada para a Bastilha.

— A comandante será homenageada pelo Rei! Vai receber uma medalha de honra das mãos dele!

***********************

Vivithi sempre soube que Luxuriah era muito rancorosa e vingativa. E desde que se tornaram amigas, ela sempre gostara desse traço da personalidade dela.

Até hoje.

Quando fora até o quarto dela, o fez por puro desespero. Luxuriah, que conhecia todo seu passado, sabia muito bem a que devia aquele sentimento que tomara de conta dela. Em outras circunstancias, Luxuriah com certeza teria uma palavra de apoio e uma forma de ajudá-la a lidar com aquilo. Mas as circunstâncias atuais não foram favorável à jovem Theron.

Sim, Luxuriah a tinha ouvido. Sim, ela a tinha aconselhado. Por um momento, antes do almoço, Vivithi acreditara que tudo ficaria bem. Até que, ao saberem que iriam até a ilha de Quel’danas, Luxuriah a puxara para um canto e lhe falara alegremente:

— Você e o titio vão sentados lado a lado no navio.

Sim, Luxuriah quando queria sabia ser muito má.

E agora, enquanto o barco cortava as águas do mar até a ilha, ela e Aethas estav sentados, tão próximos um ao outro que a todo momento que o barco cortava uma onda maior, seus corpos se tocavam.

Um verdadeiro suplício.

Eles não trocaram nenhuma palavra um com o outro durante a viagem. Mas aquilo realmente não significava nada, pois Vivithi podia sentir o olhar penetrante de Aethas sobre seu rosto o tempo todo. Às vezes arriscava olhá-lo com o rabo do olho, mas logo desviava a vista quando seus olhos se encontravam.

— Ignore-o. – dissera-lhe Luxuriah – Se quer manter seu orgulho e quer tê-lo de novo, ignore-o e não deixe que ele perceba seu interesse. Orgulhoso como meu tio é, ele fará de tudo para atrair sua atenção. Mas chegará uma hora em que ele voltará para Dalaran e te esquecerá por lá. Apenas aguente.

Mas tudo que Aethas fizera até o momento foi encará-la com uma voracidade que lhe era desconhecida.

“Apenas continue em silêncio e deixe-o pensar que a noite anterior não significou nada”, disse pra si mesma.

Mas era verdade? Realmente tinha sido apenas uma noite? Claro que não. Se fosse não estaria surtando como uma adolescente. Fora a melhor noite de sua vida. Nunca, nunca se sentira tão desejada antes e nunca o corpo de um elfo se encaixou tão bem ao seu. Nunca sentira tanto prazer antes e nunca se permitira dormir na presença de alguém.

Nem mesmo seu antigo noivo a fizera sentir assim.

A lembrança daquele maldito elfo fora suficiente para que Vivithi expulsasse aquelas sensações embaraçosas de sua mente e se concentrasse na viagem. Não se envolveria daquele jeito de novo nunca mais.

Quando o barco atracou, prontamente ficou de pé para seguir a comitiva. Iria se afastar de Aethas o quanto antes.

Foi quando ouviu a risada dele.

Rapidamente olhou para trás e viu um brilho malicioso em seus olhos.

— Tá rindo de quê? – perguntou asperamente.

“Droga” pensou logo em seguida “Eu deveria ignorá-lo!”

Só que tinha certeza absoluta que ele estava rindo dela e isso não poderia permitir.

— Bem... – respondeu Aethas com um sorriso no rosto – Estou rindo de você.

Vivithi sentiu uma raiva imensa percorrer seu corpo. Sim, ele rira dela e ainda admitia sem nenhum constrangimento! Quem esse idiota pensava que ela era.

— Como ousa rir de mim! – sibilou entre os dentes – Eu poderia arrancar todos esses dentes de sua boca!

— Poderia sim. – respondeu ele novamente com a voz suave e despreocupada – Mas não vai. Porque você me deseja.

E saiu caminhando tranquilamente na frente dela.

Foi tão chocante ouvir aquilo sair da boca dele de forma tão despreocupada e desprendida que a elfa ficou alguns segundos parada, sem nenhuma reação. A comitiva rapidamente se afastou, mas Aethas andava atrás, como se esperasse que ela o seguisse. E era exatamente o que ele queria.

Vivithi não fora a ´punica a receber conselhos, mas, diferente dela, Aethas não queria esquecer e fugir daquilo. Ele queria viver aquilo. Tal como a caçadora, ele nunca experimentara o sexo daquela forma, e estava decidido a tê-la de novo. Mas não saberia como fazer isso e manter a cabeça em cima do pescoço. Tewdric, por outro lado, sabia.

— Ela gostou e não vai admitir. – dissera o orc – Jogue isso na cara dela. Ela não vai esperar esse ataque frontal. Use o orgulho dela a seu favor. Diga que sabe que ela o deseja. Diga que sabe que ela gostou. E quando ela negar, diga que ela deve lhe provar o contrário.

E era isso que o elfo decidira fazer. Não sabia se surtiria efeito, mas quando viu o incomodo de Vivithi diante de seus olhares e o silêncio abrupto e chocado que se seguira a sua fala, ele sabia que seu mais novo sobrinho tinha razão.

Karen e os demais se afastaram rapidamente do porto usando uma carruagem e montarias. Aethas, ao contrário, dispensou o falcoztruz que lhe oferecido e se afastou do cais andando calmamente. Queria aproveitar o ar de Quel’Danas um pouco mais.

E dar tempo a Vivithi para ir ao seu encontro.

Não foi preciso ele esperar muito. Tão logo a estrada fez uma curva e o cais saiu de sua vista, uma mão forte lhe agarrou o ombro e o virou bruscamente. Vivithi estava irada e pareceu por um momento, que ela realmente lhe arrancaria os dentes.

— Não seja tão presunçoso arquimago! – exclamou com fúria – Não se sinta tão confiante apenas porque dormiu comigo. Muitos antes de você fizeram o mesmo!

Aethas sentiu uma pontada de ciúme, mas não se abalou. Presenteou-a com um sorriso singelo e lhe respondeu com a voz calma e suave.

— Sim, muitos o fizeram. Mas nenhum foi bom como eu, não é mesmo?

Vivithi pressionou os lábios, furiosa com a forma simples com o que ela o atingia. Como, se perguntava, como ele poderia saber.

— Você foi o pior de todos. – disse o encarando com desprezo.

— Não, não fui e você sabe. – Aethas deu um passo na direção dela e Vivithi se retraiu.

O plano de ignorá-lo falhara miseravelmente. Precisava tentar novamente.

— Você é muito presunçoso. Pense o que quiser. Não é verdade.

Aethas sorriu mais.

— Tenho como provar que você está mentindo. – disse ele.

Vivithi franziu a sobrancelha e fez a pergunta que a faria se arrepender depois.

— Como?

Era o que ele queria. Rapidamente passou o braço na cintura dela e a beijou. Vivithi, pega de surpresa, não teve como reagir. Ou simplesmente não tivesse forças. O beijo de Aethas lhe tirou toda a força das pernas e ela simplesmente se deixou ficar nos braços dele.

Quando seus lábios se separaram, ele a olhou fixamente. Vivithi queria arrancar os olhos dele e ao mesmo tempo que queria que o beijo continuasse. Para sua surpresa, Aethas a puxou para fora da estrada, em direção ao bosque próximo. Encostou-a então em uma das árvores, encostou-se em seu corpo e beijou-lhe o pescoço. Gemeu a contragosto e se agarrou ao corpo dele. Aethas passou a língua pela pele macia do pescoço delgado até chegar ao lóbulo da orelha, que mordeu delicadamente. Quando ela arfou de prazer, ele a beijou novamente.

Se fosse por sua vontade, Aethas teria parado naquele momento. Teria se afastado e ter-lhe dito que provara seu ponto e a deixaria ali. Então, ela lhe puxaria, como fizera naquele noite, e ele lhe diria não. Esse era o plano. Mas o corpo dele não queria aquele plano. Não queria largá-la. E foi por isso que arrancou sua capa com um puxão e se afastou rapidamente de Vivithi, apenas para estender o tecido pelo chão. Depois, agarrou-a e deitou-a sobre sua capa e beijou-a novamente. Vivithi, já esquecida de todo o receio, o despiu rapidamente e despiu a si própria também. Qualquer pensamento racional ficou esquecido quando eles se lançaram ao sexo selvagem e animal ali mesmo, em plena luz do dia, sob a cobertura de alguns arbusto e árvores. Esqueceram quaisquer medo, orgulho, ponderação ou receio. O desejo era mais forte. Logo estavam com os corpos nus, com as pernas entrelaçadas, arfando de prazer como nunca sentiram antes. Nem mesmo naquela noite. Ali, no calor da sobriedade era muito melhor.

Após atingiram ao ápice, ao mesmo tempo, ficaram deitados ouvindo o som de ambos os corações se acalmando. Por um momento, eles se encararam sem saber o que dizer. Todos os conselhos ouvidos naquele dia pareciam então inúteis.

— Hoje a noite, no meu quarto. – disse ela com firmeza.

— Após a meia-noite. – completou ele.

E sem mais nenhuma palavra, se vestiram rapidamente e se puseram a caminho da Nascente do Sol.

************************

Varian sabia que estava com grandes problemas.

Depois que Lina o deixara na biblioteca e que o calor do momento passara, o rei de Ventobravo se arrependera de deixar seus instintos falarem mais alto. Como, ele pensara, após anos fugindo das investidas das nobres interessadas em serem a próxima rainha, ele sucumbirá tão fácil a uma mulher?

Bem, verdade fosse dita, Lina não se mostrara uma mulher qualquer. Ela era esperta, inteligente, perspicaz, tinha uma mente afiada e era muito, muito bonita. Se fosse apenas a beleza, ele pensou, teria sido fácil dizer não. Mas havia algo nos olhos dela que o deixara fascinado. Era um fogo, uma voracidade, que ele via apenas quando se olhava no espelho. Sim, seria muito fácil se deixar envolver por ela.

Se ela tivesse falado a verdade e não fosse nobre, tudo estaria bem. Se ela não tivesse interesse no trono e na posição de rainha, ele não teria problemas. Vira por si próprio que ela realmente não era donzela, mas suas outras afirmativas bem que poderiam ser mentiras.

Nobres mentiam para conseguir o que queriam. Era algo com que Varian estava familiarizado.

Porém, se ela não fosse nobre, o que estaria fazendo no baile?

— Pai! – a voz de Anduin por trás da porta da biblioteca o fez sobressaltar. Havia ido rapidamente ao banheiro se alinhar e então voltara ali. Quais eram suas esperanças, que ela estivesse ali de novo? Provavelmente. Mas Lina não estava. Sumira tão rapidamente quanto aparecera.

Seria ela um anjo enviado dos céus? Ou um demônio vindo para atormentá-lo?

Talvez ambos, pensou seriamente enquanto abria a porta para seu filho.

O príncipe ficou aliviado quando viu o pai abrir a porta.

— Ainda bem, pai! Estávamos te procurando! Eu... – Anduin de repente parou bruscamente de falar e o encarou – Pai, está tudo bem?

Varian, cuja mente tinha se desprendido novamente em direção a Lina, respondeu.

— Claro. Por que não estaria?

— O senhor parece... estranho...

Ótimo, era só o que faltava. Ele permitira que uma mulher, por mais bela e cativante que ela fosse, o deixasse sem ação. Só podia culpar ao vinho bebido e a solidão que se abatera naquela noite tão fortemente. Fazia anos que não se sentia tão sozinho. Agora, precisava esquecer disso e ir cumprir seu dever. Depois, quem sabe, quando a noite chegasse ao fim ele não lembrasse dela apenas como algo bom que aconteceu, mas que não se repetirá novamente. Talvez ela se esvanecesse no ar como um sonho bom e nenhuma consequência daquela noite surgisse para lhe tirar a paz.

Pensar aquilo lhe deu uma pontada de tristeza.

— Apenas um pouco mais de vinho que o usual. – respondeu o rei voltando a sua confiança normal – Já está na hora?

— Sim. – respondeu Anduin ainda vacilante – O senhor precisa ir agora. Arshe já está fazendo o discurso.

— Certo, vamos. – disse ele.

Varian seguiu o filho pelos corredores até o salão. Arshe estava em frente ao trono, falando a uma plateia que ouvia atenta e embevecida a fala da garota. Varian não prestou muita atenção ao que ela dizia, mas sabia se tratar do valoroso trabalho do exército, em como aqueles homens e mulheres eram importantes para manter Ventobravo e a Aliança seguros e que, mais que nunca devíamos prezar pelo bom trabalho deles. Enquanto ela continuava a falar, um servo lhe estendeu uma bandeja com várias medalhas. Arshe então o olhou rapidamente, sorriu e começou a chamar os nomes dos homenageados.

O primeiro foi um rapaz que Varian conhecia vagamente como sendo um marinheiro. Colocou a medalha no rapaz, apertou sua mão e ele fez uma profunda reverência. A segunda foi em um senhor mais idoso, que Varian sabia ter perdido o filho para o exército do Lich Rei. Lhe deu um pequeno sorriso de conforto e colocou a medalha na roupa. Enquanto Arshe chamava os outros, pensou novamente em Lina. Ela lhe dissera que pertencia ao seu exército. Isso explicava o fato dele ele acha-la familiar, mas ainda não entendia como não conseguira reconhecê-la. Será que, em algum momento no passado, lhe entregara uma medalha como aquelas e não reparara em sua existência?

— Bem, — falou Arshe quando só tinha uma medalha na bandeja – Vou chamar uma pessoa que tem feito um trabalho memorável em nosso exército. Ver essa pessoa recebendo essa medalha e saber que meu pai a tinha em alta estima me deixa muito feliz e satisfeita. Sei que ela ainda chegará a postos bem mais altos e deixará meu pai muito orgulhoso, na Luz onde ele descansa agora.

O rei sentiu um aperto no coração. Bolvar não descansava na Luz, como pensava a jovem filha, mas assumira um fardo pesado e maldito, ao aceitar a coroa do Lich Rei. Mas ele prometera que a moça jamais saberia disso.

— Então, gostaria de chamar a Comandante do Exército de Ventobravo, para receber a medalha de honra. Por favor, comandante Wood, venha.

Os aplausos começaram e Varian se virou para pegar a medalha. Quando voltou-se, seus olhos se encontram com os olhos misteriosos que tirara-lhe a paz momentos antes. Lina, a dama de vermelho, se aproximava dele, não com um sorriso no rosto, mas com uma expressão austera e séria que ele finalmente reconhecera.

Lina era a comandante Wood.

O choque percorreu seu corpo e o deixou sem ação. A comandante? A mulher que o encantara era a comandante Wood? A mesma que estava há dez anos em seu exército, que fora discípula de Bolvar Fordragon, que lhe servira com esplendor em Nortúndria e que agora era a responsável pela segurança da sua cidade? A mulher a quem confiaria a sua vida e até mesmo a de Anduin?

Como, pela Luz, como não a reconhecera?

Seus olhos se encontraram e ele viu que ela também estava surpresa. Claro, ela sabia exatamente quem ele era, mas não esperava ser chamada para receber a medalha. Arshe fizera questão de manter segredo e Varian a odiava por isso agora. Se soubesse que ficaria frente a frente com o rei, Wood teria feito sexo com ele? Provavelmente não. Então não podia detestar Arshe. A culpa não era dela. A culpa era dele, que se deixara envolver daquela forma. E de Wood, claro. Por que, se perguntou, por que não disse quem era?

Mas, ponderou, se ela tivesse dito, tudo teria sido diferente?

— Pai? – chamou Anduin discretamente – A medalha.

Varian então percebeu que ele e Lina se encaravam intensamente sob o olhar de todos os convidados enquanto ele segurava a medalha. O rosto dela estava vermelho e Varian se perguntava se a vergonha que ela sentia era da demora dele ou do fato de ter descoberto quem ela era. O rei então se odiou, porque não queria que ela se sentisse mal por ele. Ela não deveria se sentir. Lina dera todas as mostras de quem era e ele não descobrira. E bastou encará-la para saber que, se não fosse aquela maldita medalha, ele jamais saberia quem era a misteriosa dama de vermelho.

Não, ela não iria lhe contar. Nunca. De alguma forma aqueles olhos verdes lhe diziam isso. Diziam que aquilo seria para sempre um sonho bom, que pertenceria só aos dois e que com o tempo se tornaria uma lembrança doce que serviria para embalar as noites frias e solitárias de ambos.

Seria assim, se não fosse a medalha na mão dele.

Como ele podia conhecê-la tão bem e não ter reconhecido o seu rosto?!

— Tio? – agora era Arshe quem lhe chamava. Ela parecia preocupada

O burburinho de vozes começaram a encher o salão e finalmente Varian se mexeu. Se aproximou de Lina/Wood e a encarou novamente. Quando foi por a medalha no vestido, próximo ao seio, lembrou da maciez da pele dela e estremeceu. A medalha então caiu no chão e houve muitos risos próximos, inclusive de Anduin e Arshe.

— Acho que meu pai exagerou no vinho. – brincou o príncipe atraindo a atenção para ele por um momento.

Rapidamente Varian se abaixou para pegar a medalha e a comandante fez o mesmo. Suas mãos se tocaram ao tentarem pegar na medalha e ambos estremeceram, como se tivessem levado um choque. Varian então pegou a medalha e levantou. Lina fez o mesmo. Rapidamente o rei pôs a medalha em sua roupa, enquanto as mãos ainda estavam firmes e Arshe puxou o coro de palmas.

— Todos os dias... – murmurou Varian acobertado pelas palmas – Agora entendo...

Lina não respondeu. Se limitou a fita-lo.

— Agora, vamos voltar às danças! – anunciou Arshe.

E antes que pudesse dizer alguma coisa, Lina fez uma reverência e se afastou rapidamente, sendo engolida pela multidão à sua frente. Varian pensou em segui-la, mas para quê? Então se limitou a ver seu vestido vermelho se misturar à turba de convidados até que Arshe o pegou para dançar e Lina sumiu de suas vistas.

O Rei de Ventobravo sabia que não dormiria naquela noite.

*********************

— Então... Essa é a Nascente do Sol? – murmurou Karen fascinada.

— Sim. – respondeu Lady Liadrin.

Luxuriah sabia exatamente o que a irmã estava sentindo. Ela mesma tivera essa sensação de segurança, completude e paz quando vira a Nascente pela primeira vez. E agora, depois de purificada, parecia que a Luz que ela emitia era ainda mais pura e forte. Todos ali presentes mantinham um respeitoso silêncio diante da poderosa fonte.

A jovem caçadora não esperava que a irmã estivesse tão cedo na presença da Nascente e a visita de Liadrin fora uma surpresa. Não imaginava que a matriarca iria querer pôr os olhos em cima da herdeira tão rápido; afinal, era conhecido o fato que a paladina renegara à casa dos Andassol. Ela não devia mais fidelidade àquela linhagem.

“Mas, pensando bem, não somos exatamente dessa linhagem”, pensou Luxuriah.

Não, elas tinham sido criadas como Fendessol e assim se sentiam. Se perguntou então se Karen mudaria seu sobrenome ao assumir o trono. Iria aconselhá-la que não fizesse. Deviam tudo que eram não aos Andassol, mas à família de sua avó Luelly e de sua mãe, Samanthah. Deveriam prezar por aquele nome e mantê-lo.

Só que essa conversa seria em outra hora. Ali, naquele momento, apenas desfrutaram da paz da Nascente do Sol.

Todos os membros da comitiva se sentaram no chão, ao redor da Nascente. Luxuriah ficou ao lado de Huaru e de Kassyeh, olhando Karen, que se sentara bem próxima à luz dourada que emanava do local. Ao lado da garota estava Saba, também embevecida pela magia que brotava ali. E junto a elas, Lady Liadrin.

— Posso tocá-la? – perguntou Karen num sussurro.

— Claro, majestade. – respondeu a matriarca.

Luxuriah sabia que normalmente não era permitido que se tocasse diretamente à fonte, mas parecia a Liadrin que uma criança pequena como Karen não causaria problemas ao entrar em contato com a Luz. Como que para concordar com o pensamento de Luxuriah, Liadrin a olhou e lhe deu um discreto sorriso.

— Ela tem te observado. – murmurou Huaru do seu lado – Desde que subimos no barco.

— Sério? – Luxuriah não havia percebido, pois suas atenções estavam em Aethas, Vivithi e Ash – Por que será?

— Talvez ela queira lhe falar algo. – opinou Kassyeh no mesmo tom de voz.

Dando de ombros, Luxuriah voltou a observar a irmã menor. Karen estava de mãos dadas com Saba quando tocou suavemente a borda da Nascente do Sol.

Foi quando aconteceu.

Uma luz ofuscante irrompeu na sala, como se o sol tivesse descido até ali. Todos procuraram proteger os olhos, mas Luxuriah só conseguia pensar no que estaria acontecendo com Karen.

— Karen! – gritou alarmada.

— Estou bem! – gritou a menina de volta – Lux, ela é linda!

Ninguém entendeu o que Karen estava falando até a luz diminuir e todos poderem ver. Da Nascente do Sol brotou um ser magnífico, dourado, com asas rosas, emitindo uma profunda luz enquanto emergia.

— A’lar! – exclamou Lady Liadrin abismada.

E ela não era a única. Todos os elfos sangrentos presentes estava abismados olhando a fênix dourada que pertencera ao príncipe Kael’thas e que todos achavam que estava perdida para sempre. Mas ela estava bem ali, surgida a partir do momento em que Karen tocara a fonte. Agora, o belo pássaro sobrevoava a fonte de luz, emitindo seu sagrado brilho, enquanto todos a encaravam perplexos demais para dizer algo.

Al’ar, porém, ainda tinha mais a fazer. Ela começou a girar velozmente e, para a surpresa de todos, dividiu-se em quarto. As fênix então mergulharam e cada uma pairou diante de uma das princesas.

— Elas são nossas! – exclamou Karen quando a sua se posicionou à sua frente – Elas vieram para nós!

A menina tinha razão. Ela ficou imediatamente de pé e tocou o bico da fênix a sua frente. Luxuriah, abismada demais para falar, levantou-se e fez o mesmo. Kassyeh, que jamais esperava que algo assim fosse acontecer, também se levantou e tocou a sua. Ash, embevecida com a luz, foi a última a levantar e estender a mão para o ser iluminado à sua frente. E quando as quatro princesas tocaram seus respectivos pássaros, os animais piaram juntos, como se cantassem uma melodia e envolveram as princesas com suas asas. Pouco depois, a luz esmoreceu, a Nascente voltou ao normal e as princesas sabiam, sem que ninguém precisasse lhe dizer, que Al’ar estava agora em seus corações e viria quando fosse solicitada.

Um enorme silêncio se abateu na sala e então Lady Liadrin levantou.

— Acho que todos nós tivemos a prova maior que a Nascente do Sol as escolheu para guiar nosso povo. Eu, a matriarca dos Cavaleiros Sangrentos, de hoje em diante, juro fidelidade a Casa Fendessol, à futura Rainha Karensky e às Princesas de Quel’thalas.

E se ajoelhou perante elas.

Um a um todos os presentes, até mesmo Huaru e Tewdric, se ajoelharam. E ficaram ali, as quatro em pé, tendo à frente Karen, enquanto todos lhe rendiam homenagens.

— Isso é estranho... – murmurou Ash vendo Lor’themar ajoelhado próximo a ela.

— Gente, não precisa. – disse Kassyeh timidamente.

— Deixe Kass, — a argumentou Luxuriah — o que ela falou é verdade. Somos princesas agora.

Karen não falou nada, apenas pegou Saba pela mão e a ergueu.

— Você não precisa se ajoelhar Saba, você é minha amiga.

Saba se ergueu, com lágrimas nos olhos e abraçou Karen. E então murmurou baixinho, apenas para sua amiga ouvir.

— Eu vi Karen. Eu vi você sentada no trono usando duas coroas.

Antes que pudesse perguntar o que a amiga queria dizer com aquilo, Karen foi inundada de atenção dos elfos que finalmente se ergueram. Todos queria prestar homenagens e jurar lealdade à pequena futura Rainha. E antes do dia terminar, Saba e Karen já teriam esquecido daquelas palavras.

Só anos depois, já adultas, as meninas saberiam que o que Saba vira fora uma visão dada pela Nascente do Sol. Pois naquele dia, Karen recebera a fênix, mas Saba recebera um dom. Um dom que seria revelado num futuro próximo e que poucos ligariam à visita da menina a Nascente do Sol.

E enquanto mais e mais elfos se ajoelhavam perante Karen, Luxuriah sentia o coração apertado. Sabia que, por mais que colocasse sua vida em cheque, jamais conseguiria fazer com que Karen estivesse totalmente segura. Ela não era apenas Rainha, era também um alvo. E doía saber que nem sempre todos seus esforços serviriam. Fechou os olhos e deixou as lágrimas escorrerem.

— Bebê?

Huaru estava do seu lado, com a mão em seu ombro, olhando-a com preocupação.

— Huaru, me prometa uma coisa. – pediu.

— Qualquer coisa.

— Mantenha Karen protegida. Não importa o que isso custe, nem que seja minha vida. – e olhando-o pediu – Prometa por favor!

O paladino hesitou um pouco. Não queria pensar na possibilidade da vida de Luxuriah ficar em risco. Mas sabia que, naquele momento, a promessa valia mais que tudo para ela.

— Sim, eu prometo.

Luxuriah lhe lançou um sorriso agradecido e fez um sinal com a cabeça para que ele fosse ficar ao lado de Karen. Calmamente o paladino deixou sua amada para trás e foi até onde estava sua jovem cunhada, e ficou ao lado dela, como um anjo protetor, enquanto os cavaleiros sangrentos viam até ela.

Com o coração aos pulos, Luxuriah percebeu que precisava de ar. Virou as costas à toda aquela solenidade e saiu do salão da Nascente do Sol. Percorreu o corredor até chegar à luz do lia e respirou fundo. De repente todos os outros problemas pareceram pequenos demais para o que tinha acontecido ali. Tocou o peito delicadamente, sentindo o pulsar de Al’ar dentro de si. Ali estava a prova que não era mais uma caçadora qualquer. Ali estava a prova que agora não era apenas as irmãs, mas era todo seu povo que precisava de proteção. E se perguntou se conseguiria ser mais que uma irmã mais velha.

Na verdade, perguntou se realmente queria ser mais que isso.

— Confusa?

Luxuriah não queria companhia, muito menos de Lady Liadrin. Mas não queria ser rude com alguém que tratara Karen tão bem.

— Qualquer um estaria. – respondeu.

— Imagino que si. – a matriarca a olhou bem e depois disse – Não imaginei que algo assim ia acontecer hoje.

— Ninguém imaginava. Todos pensávamos que Al’ar estava perdida para sempre. – e suspirando, completou – Devíamos ter lembrado que uma fênix nunca morre.

— Sim, devíamos. – concordou a paladina.

Luxuriah ainda estava incomodada com a presença dela.

— Posso ajuda-la em algo, matriarca?

Liadrin lhe deu um sorriso envergonhado.

— Sinto incomodá-la, mas estava preocupada. – e diante da expressão incrédula de Luxuriah, completou – Agora que juramos lealdade, é meu dever proteger você e suas irmãs. Principalmente você, que está nesse estado tão delicado.

Luxuriah franziu a testa.

— Estado delicado? – perguntou sem entender.

— Sim. — respondeu Liadrin – Você está grávida, não é mesmo?