Herdeiros da Guerra

17 Capítulo XV – Caminhos tortuosos


Capítulo XV – Caminhos tortuosos

Lor’themar contemplou a floresta verdejante e sorriu. Tudo estava quieto e tranquilo, exatamente da forma como ele mais apreciava. Vestido com seu uniforme de patrulheiro, ele vigiava a parte sul de Quel’danas, sendo o principal responsável pela proteção da Nascente do sol. O rei Anasterian o havia imbuido pessoalmente do serviço, recomendado por Sylvana. Agora, tinha sob seu comando os melhores arqueiros, todos comprometidos em defender o maior tesouro de seu povo.

– Temma! Temma! – gritou alguém perturbando a calma e placidez daquele lugar.

Sorrindo, Lor’themar voltou sua atenção para o patrulheiro que chegava correndo, com um enorme sorriso no rosto e os cabelos negros presos em um rabo de cavalo. Dhomm estava vestido com o mesmo uniforme que ele e Lor’themar percebeu que o amigo já estava de volta ao trabalho.

– Parabéns. – disse o patrulheiro quando Dhomm se aproximou – Mais uma filha hein?

Dhomm sorriu, aquele sorriso bobo que ele sempre tinha quando falava de suas filhas.

– Sim, mais uma vez contribuo para deixar nosso povo mais belo. – disse orgulhoso — Mais uma elfa linda nasceu!

– Como esta vai se chamar? – perguntou apontando para o caminho, para que Dhomm o seguisse.

– Karensky. – disse animado seguindo o amigo – Ela vai se chamar Karensky.

– Você e sua criatividade para os nomes de suas filhas... -Lor’themar riu e balançou a cabeça.

– Elas devem ter nomes únicos, como elas. – Dhomm abriu ainda mais o sorriso – E obrigado por interceder para que Sylvana me desse esses dias de folga. Foi bom ficar ao lado da Sam e das meninas.

– Se ela não desse essa folga, você faltaria de todo jeito. – sentenciou Lor’themar – Só disse que ela se poupasse da dor de cabeça e lhe dispensasse logo.

Dhomm caiu na risada, sendo acompanhado por Lor’themar.

– Eu faria realmente isso! – confirmou sem pestanejar – Por nada ficaria longe da Sam nesse momento. E você devia ver, o choro da Karensky é...

– Mais afinado que todos os bardos de Luaprata. – completou o outro – Você sempre diz isso de todas suas filhas.

– Não tenho culpa se aqueles bardos não sabem cantar. – e fez uma careta – Você viu aquele que adora se exibir na praça? Ele assassina as músicas de minha mãe!

Coçando o queixo, o responsável pela Nascente do Sol apenas balançou a cabeça em concordância. Continuaram andando, sem muita preocupação, pois tudo estava tão tranquilo que jamais imaginaram que algum dia aquela paz iria acabar. Pelo menos a paz do povo, pois a de Lor’themar já estava com os minutos contados.

– E você hein Temma? – perguntou Dhomm com o tom zombeteiro – Quando vai ter sua família?

– Eu tenho uma família. – respondeu o outro fingindo não entender o amigo – Tenho meu irmão, meus pais e uma sobrinha linda.

– Sua própria família Temma! – disse o outro exasperado — Esposa e filhos!

Uma das coisas que Lor’themar mais admirava em Dhomm era a vontade que ele tinha que todos fossem felizes como ele e a forma como se esforçava para ajudar os amigos a alcançar essa felicidade. Só que esse era também seu pior defeito, pois na cabeça dele, felicidade era ter uma família e Lo’themar sabia que o amigo não desistiria enquanto não o visse casado e com uma penca de filhos.

– Não tenho tempo para pensar nisso agora Dhomm. – o patrulheiro apontou na direção onde ficava a Nascente do Sol – Tenho responsabilidades.

– Responsabilidades... – resmungou Dhomm incrédulo. E abrindo os braços, enfatizou – Não estou vendo ninguém tentando nos matar agora. – Dhomm então baixou os braços e balançou a cabeça — Você devia aproveitar essa paz e construir uma família...

– Cada coisa a seu tempo meu amigo. – respondeu Lor’themar torcendo para o outro mudar de assunto.

Dhomm suspirou e balançou a cabeça em negativa.

– Pelo menos me diga como foi o encontro com Sylvana. – e dando um sorriso malicioso, perguntou – Vai me dizer que não rolou nada?

O tal encontro, pensou Lor’themar cansado, tinha sido arranjado depois da insistência de Samanthah e Dhomm. Tudo porque um dia eles presenciaram uma troca de olhares mais demorada entre os elfos. Lor’themar tinha que admitir, Sylvana era uma criatura linda, mas tinha um gênio dos infernos. Só topara a iniciativa porque pensava que talvez, sem armadura e num lugar menos formal, a elfa se mostraria mais agradável, quem sabe.

Tinha se enganado imensamente.

– Fomos ao teatro. – respondeu Lor’themar ignorando a expressão ansiosa do amigo – Depois jantamos e a deixei em casa.

– Vocês transaram? – perguntou Dhomm sem nenhum constrangimento.

– Não.

Dhomm pareceu decepcionado.

– Rolou uns pegas? – insistiu.

– Não.

Lor’themar estava se segurando para não rir da expressão desolada do amigo.

– Um beijo pelo menos? – Dhomm não queria perder as esperanças.

– Não Dhomm. Nos despedimos e pronto. -e deu de ombros – Não somos nada mais que colegas patrulheiros.

O outro parecia que entraria em colapso mental.

– Temma, qual o seu problema? – perguntou exasperado — Sylvana é linda! E loira! -e apontou o dedo para Lor’themar – Eu sei que você gosta de loiras!

Sim, ele adorava, mas aquela não era a questão.

– A questão Dhomm, é que não quero uma pessoa simplesmente para dizer que tenho alguém. Quero sim, um dia sentir por alguém o que você sente pela sua esposa, mas essa pessoa não é a Sylvana. – e levantando as mãos, completou – Nem nenhuma que eu já tenha conhecido.

Parecendo decepcionado, Dhomm deu de ombros. Em sua mente já tinha casado os amigos e eles já tinham uns cinco filhos. Mas Lor’themar tinha razão, não dava para se obrigar a gostar de alguém. Se gostava, simplesmente.

– Entendo você. – suspirou conformado — Mas relacionamentos são legais.

– Quero ver se você achará relacionamentos legais quando todos os elfos do reino começarem a querer sair com suas lindas filhas. – e riu da cara de desesperado do amigo.

– Nem brinque com isso! – Dhomm parecia desesperado — A Lux vai atingir a maturidade em dois verões e ainda não descobri um veneno poderoso o suficiente para matar em segundos! A Sam não quer me ajudar!

– Dezesseis verões? – admirou-se Lor’themar ainda rindo – Como cresceu rápido a menina. — diante do olhar desolado de Dhomm, colocou a mão em seu ombro e o confortou – Não se preocupe amigo, nenhum elfo com um pingo de bom senso iria se envolver com uma elfa antes de ela ter pelo menos cinco décadas.

Dhomm não parecia convencido disso.

– Minhas filhas são lindas demais para qualquer um com bom senso espera-lás tanto tempo! Você vai ver, vão cair em cima delas como abelhas no mel e eu estarei lá com minhas flechas envenenadas para contê-los!

Lor’themar não se aguentou e caiu na risada.

– Falou o elfo que fugiu com a esposa!

Dhomm acabou caindo na risada também.

– Não é? Acho que entendo meu sogro um pouco agora! – e riram mais ainda.

Continuaram a caminhada por Quel’Danas, sentindo a brisa quente do clima ameno das terras dos altos elfos e chegaram à praia. Passaram a caminhar pela areia fofa, observando o movimento das ondas do mar e voo dos pássaros.

– Convenhamos meu caro amigo, — continuou Dhomm depois de um tempo — quando vi a Sam pela primeira vez, colhendo aquelas flores, eu sabia que estava apaixonado. E tudo que eu queria era impressioná-la!

– Você jogou uma moto em cima da pobre garota e estragou seu vestido. – disse Lor’themar arqueando as sobrancelhas — Ela te odiou instantaneamente.

– Ela ficou impressionada, não ficou? – defendeu-se o outro – O resto foi graças ao meu charme!

Foi impossível não rir. E estavam no meio das risadas quando um movimento perto do início da floresta chamou a atenção dos patrulheiros. Imediatamente as mãos foram até os arcos e já estavam prontos para atacar quando uma figura pálida saiu trôpega dos arbusto e quase caiu de cara na praia.

– Dar’Khan! – exclamou Lor’themar aliviado – Que susto vocês nos deu!

O elfo ajeitava as vestes desajeitado, com um sorriso encabulado no rosto.

– Eu estava à sua procura Lor’themar. Acho que fui pego pelas defesas da ilha...

Lor’themar baixou o arco e foi em direção ao amigo. Dhomm, ao contrário, continuou com o arco em riste, desconfiado.

– Olá Dhomm. – cumprimentou o elfo percebendo a animosidade do patrulheiro.

– Dhomm, esse é Dar’Khan, lembra dele? – e fazendo um gesto, pediu – Abaixe o arco, ele é de confiança.

Relutantemente, Dhomm baixou a arma. Durante algum tempo ficou observando os dois elfos conversarem animadamente.

– Vou te ensinar como entrar aqui em segurança. – garantiu Lor’themar – Assim você não precisa se preocupar.

– Ah, obrigado! – agradeceu Dar’Khan – Sempre que tenho que vir aqui é esse sufoco...

– Então deveria esperar para falar com o Temma em Luaprata. – disse Dhomm secamente.

Um olhar de censura foi lançado por Lor’themar ao outro amigo. Dar’Khan, ao contrário, não pareceu incomodado.

– Talvez eu devesse mesmo. – disse Dar’Khna parecendo envergonhado – Mas estou com um sério problema e preciso de sua ajuda Lor’Themar...

– E sempre estarei pronto para te ajudar. – garantiu o patrulheiro – Agora venha, caminhe conosco. Me conte o que te aflige.

Sem muitas alternativas, Dhomm acompanhou os dois enquanto Dar’Khan contava seu problema a Lor’themar. Mais tarde naquele mesmo dia, tentou chamar a atenção do amigo, dizendo que por mais que fosse íntimo de Dar’Khan, esse não deveria saber tanto sobre a Nascente do Sol. Lor’Themar o tranquilizou, garantindo que o elfo era de inteira confiança. Dhomm ainda tentou argumentar, mas quando viu que o outro estava decidido, acabou desistindo.

Tempos depois, Lor’themar se martirizou por não ter ouvido Dhomm. Se tivesse levado em consideração suas palavras, Dar’Khan não teria entregue a Arthas as informações de como desfazer as defesas do lugar.

E quem sabe, não teria que ter assistido a quase extinção de seu povo pelas mãos do flagelo.

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O som dos cascos do cavalo batendo contra a estrada de terra se sobrepujava a todos os outros sons sua volta. O sol já estava quase no alto do céu, mas a floresta deixava o clima mais ameno e o vento que batia em seu rosto durante a cavalgada aliviava qualquer desconforto. Acima de sua cabeça, uma águia de coloração esverdeada, quase transparente, voava na mesma velocidade quase desaparecendo entre as copas das árvores. Apesar de estar cavalgando há algum tempo, não sentia nenhum desconforto e sua montaria não parecia nenhum pouco cansada. Por isso, mantendo aquela marcha, conseguiu chegar ao seu destino antes do previsto.

Os soldados estavam aglomerados, mas abriram espaço logo que a viram chegar. Um deles se adiantou e segurou as rédeas do cavalo enquanto ela descia. Agradeceu ao rapaz e se dirigiu aonde havia uma maior aglomeração.

– Comandante. – falou um senhor de cabelos já ficando grisalhos ao bater continência – Que bom que a senhora pode vir tão rápido.

– Cabo. – e bateu continência — Onde eles estão? – perguntou prescrutando o lugar com os olhos.

– Por aqui senhora. – e ele indicou o caminho.

Seguiu o cabo por entre os soldados na direção onde estava o motivo de sua ida. Enquanto passava entre os mais jovem, não pode de deixar de notar os olhares espantados e risinhos indiscretos que muitos davam. Deviam estar surpresos pela nova comandante do exército real ser uma mulher tão jovem. Para a sorte deles, ela não estava nem um pouco preocupada com seus comentários; um dos motivos de ter chegado àquele posto tão jovem foi justamente sua capacidade de concentração e empenho em resolver os problemas que surgiam.

E aquele era um problema bem grande.

Os corpos estavam destroçados. Não havia uma palavra melhor. Membros espalhados por toda campina, cabeças empaladas em estacas de onde escorria sangue e massa cinzenta, que se acumulavam atraindo um grande número de animais de rapina. Nas árvores ao redor, o símbolo da Horda fora pintado nos troncos com o sangue dos mortos. A cena era simplesmente estarrecedora.

Enquanto os soldados faziam caretas e tapavam o nariz, a comandante avançou sem nenhuma alteração em sua expressão e passou a analisar meticulosamente todo o lugar. Foi em cada amontoado de membros e analisou cada um cuidadosamente. Não se importou com o cheiro, nem com as moscas, nem com as reclamações de muitos soldados que começaram a ser ouvidas. Eles estavam loucos para sair dali o mais rápido possível.

– Esses monstros horrendos! – exclamou o cabo que a levara ali – Matou toda a patrulha sem dó! E ainda estamos em território da Aliança! Monstros! – e muitos concordaram com ele.

A comandante não disse nada e continuou sua observação. E foi recompensada. Ao notar um brilho estranho em um dos corpos, algo que não se encaixava, chamou o cabo.

– Me ajude a remover essa perna da pilha. – ordenou.

Ele fez uma careta, mas respondeu:

– Sim senhora.

O cheiro pirou ainda mais enquanto braços, pernas e torsos caiam como mulambos na grama. Após ver aquilo, o cabo se afastou e passou a vomitar sofregamente atrás de uma moita. Ela continuou sozinha e quando pegou a perna que queria, removeu de lá uma fina e trabalhada lâmina, quase imperceptível a olho nu. Arqueando a sobrancelha, ela a enrolou num lenço e guardou no cinto. Depois, foi imediatamente na direção da árvore mais próxima e passou a estudar o símbolo da Horda.

– O Rei deve ser informado imediatamente! – o cabo voltara para seu lado com o rosto pálido – Isso é uma declaração de guerra!

Todos os soldados concordaram e passaram a falar em voz alta, pedindo justiça. A comandante, ao contrário, continuava plácida e nem quando se voltou para o grupo eles se calaram.

– Não seja tão rápido em julgar, cabo. – disse calmamente – Não há razão para guerra nenhuma. Não foi a Horda que fez isso.

O silêncio caiu pesadamente sobre o grupo, que a olharam como se ela tivesse dito que havia feito a matança.

– Como não? – gritou o cabo se exasperando – Veja isso ai! – e apontou para o símbolo da Horda. – É tão óbvio! Não vê?!

– Sim, é óbvio. – respondeu se aproximando – Por isso posso afirmar que não foram eles. – e ficando cara a cara com o cabo, sibilou – E fale baixo comigo cabo, eu sou a comandante aqui.

O homem abriu a boca para protestar até sentir o cano da arma em sua barriga. Ele engoliu em seco enquanto encarava os olhos profundamente verdes da mulher à sua frente.

– Vamos às explicações que mostram porque eu sou a comandante e não você. – falou ela alegremente tirando o cano da barriga dele e se encaminhando para a árvore – Primeiro, não estamos em território em disputa. Para que um grupo pudesse fazer isso, eles teriam que ter atravessado nossos pontos de controle. E há meses não temos notícias de movimentação da Horda.

– Apenas um orc poderia ter feito isso. – retrucou o homem, mais corajosamente agora que não tinha uma arma em sua barriga.

– Os talhos são diferentes. –respondeu – Mais de uma pessoa fez isso. E os orcs mais perto que temos notícias estão na Cidade Baixa. Se fosse eles a atacar, não atacariam sozinhos. E se os renegados estivesse envolvidos não teríamos corpos. Estes pobres coitados estariam servindo à Dama Sombria agora.

O cabo olhou em volta. Fazia sentido o que ela falara.

– Poderiam ser os trolls. – continuou.

– Que também estão a quilômetros daqui. Tente outra. – ela parecia estar se divertindo com a cara que homem fazia.

Todos os soldados pareciam esperar o desenrolar do embate.

– Os elfos também habitam os Reinos do Leste.

A comandante soltou uma gargalhada.

– Elfos? Sério? Vocês acham que os elfos deixam esse tipo de bagunça? – e apontou para o cenário – Meu caro, os elfos sangrentos tem esse nome, mas eles gostam de mortes limpas. E são muito mais elegantes nos assassinatos que isso aqui. – e riu fazendo os outros rirem também. Não, ninguém acreditava que os elfos podiam fazer aquela bagunça.

– Até agora a senhora apenas nos deu suposições. – O homem tentava não se incomodar com os risos dos outros – Não há provas que os inocente. Apenas que os incriminem! – e apontou o símbolo de sangue,

– Sim, há provas. – falou ainda mais animada. Parecia que ela estava esperando por aquilo. – Veja o símbolo que você mesmo em apontou. Veja bem. Não há nada de errado nele?

O cabo olhou, mas foi um soldado que não devia ter mais que dezoito anos que disse:

– Está ao contrário!

O jovem foi presenteado com um sorriso caloroso da comandante e enrubesceu.

– Exato, está ao contrário. Espelhado. A Horda não seria tão descuidada assim.

Mas o cabo ainda tinha algo a dizer:

– Eles são bárbaros ignorantes. Duvido que saibam que erraram.

– Se eles fossem bárbaros ignorantes não teríamos uma Horda contra a qual lutar. – a comandante deu de ombros – Gosto tanto deles quanto você cabo, mas não foi a Horda quem promoveu esse massacre. Fizeram para que eles fossem culpados, mas não foram eles. – e desenrolando a fina lâmina que tirara da perna, mostrou-a a todos o símbolo gravado nela – Foram os Defias.

Os burburinhos estarrecidos tomaram de conta do local e o cabo estava visivelmente constrangido. Tinha sido humilhado por uma mulher mais jovem que ele e que estava em um posto mais alto. E não podia dizer mais uma palavra. Os olhos verdes o fuzilavam, ameaçando fazer aquilo com uma arma se ele não a respeitasse. E se todas as histórias que já ouvira sobre ela fossem verdade, era bom se desculpar logo.

– Minhas desculpas senhora. – e baixou a cabeça – Eu não queria ofendê-la.

– Claro que não. – concordou a comandante com um sorriso alegre no rosto – Imagino que estava apenas revoltado com tudo isso. E com razão. – e olhando para os corpos, ordenou – Quero que vocês recolham os corpos. Tentem juntar os pedaços dos pobres coitados para entregarmos às suas famílias. Eu vou ver o Rei. – e fez um sinal para trazerem seu cavalo.

A viagem de volta pareceu mais lenta que a de ida. Talvez porque ela quisesse chegar o mais rápido possível. Ou talvez porque ainda estava irritada com o comportamento do cabo. Era óbvio que se o comandante fosse homem e mais velho, ele jamais o teria gritado. Mas como uma jovem de 28 anos que acabara de ascender para esse cargo, sabia que iria encontrar resistência. E teria que se esforçar para não matar todos que o fizesse. Não queria se respeitada assim. Esperava que a humilhação do cabo fosse o suficiente para controlar os engraçadinhos do sul. Ou da próxima vez não seria tão simpática.

Ver os portões de Ventobravo foi um alívio para seu coração. Queria encontrar logo o Rei e relatar tudo. Ele não ficaria nenhum pouco feliz com a notícia que os Defias voltaram a agir. Menos ainda que eles queriam colocar a culpa na Horda. E muito menos por saber que muitos acreditariam naquilo. É, vossa majestade não teria um dia muito bom.

Mas ela sim. Afinal adorava por os olhos naquele pedaço de mau caminho que era Varian Wrynn. Pela Luz, como um homem podia ser tão atraente?

Chegou aos estábulos e entregou sua montaria a um cavalariço antes de seguir para a entrada do castelo. Os guardas bateram continência à sua presença e ela retribuiu. Caminhou pelo enorme corredor que levava à sala do trono e arqueou a sobrancelha quando a viu vazia. O Rei devia estar então na sala de reuniões.

Ela acertara. O Rei estava lá. Mas não estava só.

A Princesa Arshe estava na sala e parecia muito animada. Suas bochechas, sempre pálidas, apresentavam um rubor que denunciavam seu estado de espírito. O Rei, ao contrário, parecia preocupado e quando a comandante bateu discretamente na porta aberta, para anunciar sua presença, ele falava:

– Tente não esvaziar os cofres reais, Arshe. Não precisa ser algo muito luxuoso. – e ao ouvir a batida na porta, a olhou e falou – Comandante Wood. Entre.

A sala de reuniões era imensa. No meio dela, uma mesa cujo tampo era coberto por um mapa de Ventobravo. Em frente à mesa havia uma cadeira de espaldar alto, onde o Rei costumava sentar. Nos cantos, pequenas mesas com cadeiras eram ocupadas ocasionalmente por aqueles que queriam planejar algo ou estudar táticas sem ser incomodado por outros. Ela própria tinha uma mesa ali na sala de reuniões, no canto direito logo ao lado da porta. Um canto discreto e bem escondido, onde podia fazer as escalas dos soldados, distribuir equipes, redistribuir os encrenqueiros e até mesmo ler e responder as cartas de sua família. Por isso o local lhe era bem conhecido.

Quando entrou no ambiente, foi presenteada com um olhar surpreso da princesa emérita, seguida por um sorriso curioso.

– Comandante? – perguntou olhando para ela e depois para o Rei.

– Majestade. – ela fez uma reverência para Varian – Vossa alteza. – e fez outra para Arshe.

Varian a cumprimentou com um aceno de cabeça e então se voltou para Arshe.

– Lembra-se da Comandante Wood, Arshe? – perguntou.

– Lembro dela como Capitã Wood, tio. Nos conhecemos em Nortúndria.

A comandante Wood estremecia só de lembrar daquilo. Odiara imensamente o tempo que passara no continente gelado. Não apenas pelo próprio perigo em si, com hordas de mortos-vivos, o Lich Rei, nerubianos, mas pelo frio do lugar, a falta de comida que afetou sua guarnição em alguns casos e, lógico, a morte de muitos companheiros.

Sempre admirara Bolvar Fordragon. E ainda sentia falta dele pelos corredores da Bastilha. O Grão-lorde sempre fora gentil com ela e nunca a subestimara por ser mulher, plebeia e vinda de família camponesa. Ele lhe dera oportunidade e ela retribuíra com respeito e lealdade. Quase tanta quanto a que tinha ao rei. Por isso, achara mais que justa a homenagem feita ao morto ao dar o título de princesa à sua única filha. Sabia que ela era uma excelente negociadora e constantemente era embaixatriz de Ventobravo.

O único problema da princesa, ao seu ver, era a necessidade urgente que ela tinha de tomar um pouco de sol. Arshe era tão pálida quanto um cadáver!

– Agora a Wood é Comandante do Exército Real. – comunicou Varian – Foi empossada a pouco tempo.

– Meus parabéns Capitã, digo, Comandante! – Arshe se adiantou e a abraçou inesperadamente.

Constrangida pela atitude expansível da princesa, restou para a comandante abraçá-la de volta, de forma mais contida. Por sorte, logo Arshe sentiu o cheiro do sangue que estava em seu corpo e a soltou elegantemente.

– Está machucada? – perguntou parecendo preocupada – Senti cheiro de sangue...

– Não é meu, alteza. – e se afastou discretamente da princesa. Contato físicos desse tipo a deixava incomodada – E é por causa disso que venho falar com o Rei.

Varian imediatamente ficou tenso.

– Notícias da patrulha do sul? – indagou, mas com a expressão de quem já esperava o pior.

– Mortos. Todos eles. – disse com pesar.

Varian sentou-se pesadamente na cadeira em frente à mesa que continha o enorme mapa de Ventobravo e colocou a mão na testa.

– A Horda? – perguntou parecendo cansado.

– Dessa vez não majestade.

E para a surpresa tanto de Varian quanto de Arshe ela depositou em cima da mesa a fina lâmina tirada do meio dos corpos.

– Foram os Defias, majestade.

E passou a relatar tudo que acontecera mais cedo. O símbolo da Horda, a fúria dos soldados, os erros cometidos e aquela pequena pista, responsável por evitar uma guerra de proporções globais.

– Eles queriam por a culpa na Horda e causar instabilidade, majestade.

A mão fechada de Varian bateu com fúria na mesa, assustando Arshe. A comandante, ao contrário, não se mexeu um milímetro e continuou encarando o Rei. Varian empurrou a cadeira para trás e levantou-se de supetão, derrubando a cadeira com um estrondo no chão e passou a andar de um lado para o outro. Parecia um lobo enfurecido dentro de uma jaula.

– Eles de novo? – vociferou – Pensei que tínhamos desbaratado essa ralé!

– Ao que parece eles só precisavam de um tempo para se reagrupar. – falou a comandante.

– Eles não tinham como fazer isso tão rápido. – questionou Arshe – Tinham?

– Se tiverem um financiador, sim. – respondeu Wood – Alguém pode ter ajudado os remanescentes a se reagruparem.

– Um financiador? – Arshe parecia horrorizada – Quem faria isso?

Quem respondeu foi Varian:

– Há muitos nobres que adorariam ver a Família Wrynn pelas costas, Arshe. Você sabe disso.

– Mas chegar a esse ponto? – a princesa não queria acreditar naquela possibilidade.

O Rei caminhou até a janela e olhou para fora, na direção onde ficava o memorial de sua esposa, morta por aquele grupo.

–Sim a esse ponto. — Varian ficou um momento em silêncio e depois falou com a voz decisiva – Comandante, reforce as defesas da cidade. Principalmente nas regiões fronteiriças e nos arredores da Bastilha. Não quero nem pensar na hipótese deles se aproximarem de meu filho.

A comandante Wood assentiu.

– Sim, majestade.

– E avise a Mathias Shaw para vir falar comigo. Quero a AVIN em peso na investigação.

– Imediatamente majestade.

Arshe então soltou uma exclamação e levou amão à boca.

– Isso significa o fim do Baile? – perguntou preocupada.

– Baile? – estranhou a comandante.

– Receberemos a comitiva de Guilnéas nos próximos dias. – explicou a princesa mostrando o motivo de sua animação – O Rei Genn Greymane vem conferenciar com o tio sobre a entrada deles na Aliança. – ela sorriu animada – Eu vou cuidar do baile de recepção. – e olhando para Varian, perguntou – Vou?

Varian pensou por um momento.

– Não vejo porque cancelar. – disse para o alívio de Arshe e preocupação de Wood – O povo de Guilnéas merece essa nossa atenção. E além do mais, Greymane me garantiu que permitirá a incorporação de sua guarda ao nosso exército.

Ótimo, pensou Wood, teria agora que cuidar da segurança de DOIS reis.

– Então, devo garantir a incorporação do povo de Guilnéas ao Exército Real? – perguntou a comandante.

– Sim. Eles serão de grande ajuda. Daqui a uma semana eu e Arshe iremos receber a comitiva e quero que você nos acompanhe, Comandante. Assim, pode ter contato imediatamente com todos.

Não era a melhor coisa a se ouvir naquele dia, a certeza de mais trabalho, mas Wood não se incomodou. Sabia que havia excelentes druidas entre os guilneianos e isso sim, seria uma excelente ajuda no rastreamento na floresta.

– Peço permissão para sair e começar a execução de suas ordens, majestade. – pediu.

– Você a tem Comandante Wood. – e voltando para a mesa, sentou-se pesadamente – Arshe querida, poderia chamar Anduin para mim?

– Claro tio! – ela estava muito feliz em saber que o baile estava de pé e não parecia muito preocupada com as outras coisas.

A comandante Wood fez mais uma reverência a ambos e então saiu. Em sua mente já fazia a divisão das equipes, colocando aqueles mais confiáveis ao redor da Bastilha e os melhores rastreadores nas regiões fronteiriças. Iria esperar ver quantos de Guilnéas chegariam para ver onde eles se encaixariam melhor. E iria conversar pessoalmente com Mathias e pedir alguns agentes da AVIN para patrulhar os corredores da Bastilha e a região da Cidade Velha, onde sabia que haviam muitos mercenários que poderia engrossar as fileiras dos Defias.

Já estava nos degraus da Bastilha quando ouviu a princesa Arshe chamando-a:

– Comandante Wood! Comandante Wood!

Ela parou e esperou que a princesa a alcançasse. Arshe continuava animada e Wood se perguntou se ela tinha noção da situação de perigo que não somente o Rei e o príncipe, mas ela própria se encontrava.

Arshe parou em sua frente e sorriu.

– Pois não alteza?

– Eu estava pensando.... Sabe, seu nome é conhecido, muitos querem te ver pessoalmente... – e deu uma pausa como se esperasse pra ver a reação dela.

A comandante permaneceu em silêncio, esperando que a princesa terminasse.

– Bem... – Arshe ficou um pouco encabulada com a falta de reação da outra – Então, pensei, seria bom que você estivesse no Baile... Como convidada. Para que todos pudessem te ver.

– Vossa alteza que me exibir como um cachorrinho em exposição? – perguntou erguendo uma das sobrancelhas.

– Sim! Quero dizer, não! – Arshe começou a bater um dos pés, nervosamente – Gostaria que a comandante, assim, — ela parecia procurar as palavras – pudesse aproveitar a festa, sabe?

– Posso aproveitar mais a festa cuidando da segurança de todos. – a comandante se perguntava como aquela menina era embaixatriz se ela tropeçava tanto nas palavras.

– Mas seria ótimo se você participasse do Baile! – insistiu Arshe – Coloque alguém de confiança na segurança.

Depois de um momento encarando a princesa, a comandante não aguentou e se viu comentando:

– Para uma negociadora, vossa alteza não está se mostrando muito eloquente comigo.

Sem se sentir ofendida, Arshe lhe presentou com um sorriso envergonhado.

– Comandante, você me deixa mais intimidada que qualquer líder da Aliança ou da Horda. – confessou com sinceridade.

Foi inevitável não se sentir orgulhosa diante da confissão. Arshe já tinha negociado com todos os líderes da Aliança, com enviados da Horda em Nortúndria, com membros do Kirin Tor, sempre com resultados excelentes e agora se sentia intimidada por ela. Aquilo era muito bom para o ego.

– Muito bem alteza, eu irei ao Baile como convidada. – garantiu sem conter um pequeno sorriso.

– Ótimo! – Arshe estava radiante – Mal posso esperar para vê-la num belo vestido!

– Bem, vossa alteza verá. – garantiu ainda sorrindo – Agora se me der licença, vou cumprir as ordens reais. E se vou mesmo a esse baile, tenho que adiantar tudo.

– Sim sim! Mal posso esperar. Até mais comandante Wood. – e Arshe voltou para a Bastilha praticamente saltitando.

E ela teve que se concentrar para também não saltitar. Nunca fora num baile real antes e seus irmãos ficariam loucos de emoção quando pedisse que eles fizessem seu vestido. Abrindo mais o sorriso, imaginou que cara sua irmãzinha do Kirin Tor faria quando descobrisse que iria a uma festa daquele porte enquanto ela apenas sonhava com aquela oportunidade.

De repente, o dia tinha melhorado muito.

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Era muito incomum Tewdric acordar antes de Kassyeh. Apesar de o guerreiro gostar de levantar cedo e começar seus treinos logo que o sol nascia, sua elfa sempre já estava acordada com um sorriso no rosto. Por isso, naquela manhã quando abriu os olhos e viu que Kassyeh ainda dormia profundamente, deu um sorriso satisfeito.

Estavam ambos nus na cama, sem nenhuma coberta por cima de seus corpos. Kassyeh dormia aconchegada ao seu peito e Tewdric afastou com o dedo os cabelos que caiam sobre seus olhos. Sorriu ao contemplar a expressão serena da elfa. Era um merecido descanso depois da noite anterior.

Os noivos só foram dormir quando o último convidado sóbrio partiu. Os que estavam bêbados ainda ficaram com o objetivo de beber mais, e ele insistira com Kassyeh que não precisavam se preocupar com aqueles ali. Por fim, a convencera a deixar a festa e continuar com a comemoração no quarto.

Tewdric soltou uma risada enquanto percorria o corpo de Kassyeh com uma mão. Ele adorava o contraste de cor entre suas peles; o rosado do corpo esguio élfico e o verde de seus músculos. Imaginava qual tonalidade de corpo seus filhos iam herdar, quais habilidades seriam semelhantes às dos pais e se saberiam compreender quão únicos eles seriam. Mas no fim, pensou, aquilo não importava. Seriam filhos dele e Kassyeh. Isso era o bastante.

Com cuidado, separou-se do abraço dela. Por mais que quisesse ficar ali o resto do dia, Luxuriah lhe dera ordens expressas para fazer naquela manhã: servir o café na cama a sua esposa. Parecia ser outro tipo de tradição, e ele não se importava nenhum pouco em cumprir. Na verdade, seria interessante poder dividir comida na cama e depois, quem sabe, prová-la no corpo de sua elfa.

Já estava de saída quando lembrou que não devia andar sem roupa ali. Por isso, procurou uma cueca e vestiu. Já ia saindo novamente quando lembrou que Kassyeh pedira pra ele não andar só de cueca. Voltou e vestiu a calça. E como já estava se vestindo mesmo, colocou uma camisa e, por cima, o colar do Sol, sua aliança de casamento. Sorriu ao tocar no objeto e o pôs para dentro da roupa para então finalmente sair do quarto.

Lá embaixo, os servos ainda trabalhavam freneticamente para organizar a casa após a cerimônia. Tewdric se perguntou se eles tinham dormido ou se eram outros elfos que foram ajudar. Não saberiam dizer, pois, para ele, todos ali tinham a mesma cara. Então deu de ombros e foi à cozinha.

A bandeja já estava pronta e Tewdric imaginou que Luxuriah não queria mesmo que ele esquecesse aquilo. Como se ele fosse deixar isso acontecer. Mesmo assim riu da preocupação de sua cunhada, pegou a bandeja e se dirigiu para a escada. Ao passar na janela, ele olhou para fora e soltou uma risada. Como na cerimônia em Orgrimmar, havia convidados bêbados por todo o local e alguns servos tentavam arrastá-los para debaixo das árvores.

– Ei! – gritou da janela chamando a atenção dos servos – Podem deixá-los ai mesmo!

– Mas eles vão se queimar no sol! – argumentou um dos elfos.

– Deixem queimar! – e soltou uma gargalhada – Pelo menos eles terão mais essa lembrança da festa!

Os elfos deram de ombros, soltaram os convidados e passaram a varrer ao lado deles e espaná-los antes de seguirem para tirar as mesas.

Satisfeito consigo mesmo, Tewdric voltou para seu caminho e passou a subir as escadas com cuidado, para não derramar nem derrubar nada que estava na bandeja. Ficou pensando em qual seria a expressão de Kassyeh quando visse a comida de aparência tão apetitosa e elegantemente arrumada. Ela saberia de cara que não fora feito por ele, mas aquilo não importava. Iriam comer tudo juntos. Ou quase tudo, ele pretendia usar a geleia de uva para outros fins...

Quando chegou ao corredor, começou a ouvir gritos e ficou imediatamente tenso. Seu senso guerreiro já estava ativado e ele pensava qual o estrago que a faquinha de manteiga faria em quem tivesse atacando de alguma forma alguém ali na casa. Mas antes que pudesse pro em prática qualquer tática de guerra com a faquinha de manteiga, a porta de um dos quartos se abriu e Vivithi saiu de lá, aos berros, parecendo furiosa e usando uma roupa muito comprida, bem diferente da que usara no casamento. Tewdric achou a roupa estranhamente familiar.

– Como você pode ter feito isso seu imbecil?! – gritava ela a plenos pulmões apontando o dedo para alguém que ainda estava dentro do quarto – Você vai se arrepender amargamente de ter me.... me... – ela parecia que ia explodir tamanha era sua raiva – Ter feito isso comigo!!

Ela jogou os cabelos brancos para trás, deixando-os ainda mais soltos e fez menção de seguir pelo corredor a passos pesados. Foi quando uma figura saiu do quarto, usando apenas um travesseiro entre as pernas como cobertura.

– Como assim eu fiz?! – gritou-lhe Aethas usando o braço livre para segurar Vivithi – Você quem me agarrou! Se transamos, a culpa é sua!

– Minha?! – ela gritou de volta dando um passo para trás e se soltando dele – Você começou! Você me beijou primeiro!

– Você me provocou! – acusou o mago – Você disse que eu não seria capaz de lhe dar um arrepio!

– Eu poderia ter lhe chamado de castrado, de brocha, de bicha, mas você não devia ter feito isso! – ela estava com lágrimas de raiva brilhando nos olhos.

– Você trepou com metade dos elfos de Luaprata e vem fazer queixa de mim? – devolveu ele perplexo.

Vivithi o olhou abismada, como se não acreditasse no que ouvia.

– E quem falou em trepar seu mago burro?! – ela apontou então para o quarto – Estou falando que você me trouxe para dormir com você no seu quarto! Nós dormimos juntos! Como um casal!

O horror estava estampado na cara dela na mesma proporção que o espanto estava na dele.

– Peraí! – falou Aethas levantando a mão livre – Você está tendo um chilique porque eu trouxe você pro meu quarto e dormimos juntos?

– Juntos! Abraçados! Como a porra de um casal! – as lágrimas de raiva escorriam pelo seu rosto – Você não tinha o direito de fazer isso comigo!

Aethas estava perplexo.

– E você queria que eu deixasse você nua no chão do escritório?! – perguntou arqueando as sobrancelhas.

– Sim! – gritou-lhe ela avançando e lhe dando tapas no braço – Mil vezes ser deixada lá que dormir com você!

Aquilo foi realmente duro, pensou Tewdric vendo a expressão chocada de Aethas enquanto se esquivava dela.

Vivithi o empurrou contra a parede, e lhe apontou o dedo antes de gritar de novo.

– E você me deve um vestido novo! Fico com suas amadas vestes do Kirin Tor até você me pagar!

Dizendo isso, virou a cara e se encaminhou para a saída. Foi então quando ambos viram Tewdric, parado no meio do corredor com uma bandeja de café da manhã, esperando placidamente que os dois desobstruíssem o caminho. Percebendo que tinham sidos pegos no meio da discussão, os elfos ficaram envergonhados e encararam o orc em silêncio.

– Aceitam uma maçã? – perguntou Tewdric pegando a fruta na bandeja e oferecendo com um sorriso conciliador.

Respirando fundo, a patrulheira procurou recuperar a compostura.

– Obrigada Tewdric, mas não fico mais um segundo perto deste mago! – e saiu pisando duro com as vestes do Kirin Tor esvoaçando ao redor de seu corpo.

Depois que a elfa passou por ele, Tewdric focou sua atenção em Aethas, que ainda segurava o travesseiro entre as pernas.

– Boa titio, boa! – disse o guerreiro abrindo um grande sorriso.

Aethas deu um sorriso amarelo.

– Não sei se foi tão bom assim... – murmurou antes de dar as costas e entrar no quarto.

A única coisa que Tewdric pensou daquela situação era que agora sabia de quem Kassyeh herdara a bunda tão bonita.

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Saba acordou com um peso caindo em cima de seu corpo. Assustada, abriu os olhos e viu Karen em cima dela, com um sorriso animado.

– Já é manhã? – perguntou sonolenta.

– Sim, sim! – respondeu a outra – Vamos Saba, tenho grandes planos que precisam ser postos em prática agora! – e começou a puxar as cobertas de cima da outra.

Galinha estava lá junto com sua dona e piava incessantemente dando círculos pelo chão. Ele também parecia animado.

– Que planos? – quis saber. E olhando atentamente a outra, estranhou – Por que ainda ta com a roupa da festa?

– Porque ainda não dormi. – respondeu Karen elétrica – Vamos, tire o pijama e se vista.

Saba não se lembrava de ter trocado de roupa, mas aquilo era normal. Às vezes estava com tanto sono que era automático se vestir para dormir. Mas agora a animação de Karen e de Galinha a estava deixando desperta e logo a menina colocara a roupa do dia anterior e prendia os cabelos volumosos em um pequeno rabo de cavalo.

– O que vamos fazer? – perguntou a pequena orquisa ao terminar de se vestir.

– Brincar com os convidados! – disse Karen com um sorriso travesso.

– Como assim? Não foram todos embora?

Em vez de responder, Karen chamou a amiga para se aproximar da janela e apontou para baixo. Havia inúmeros corpos estendidos pelo chão do jardim.

– Estão bêbados?

– Sim, todos eles. – Karen então mostrou a cestinha que trazia na mão – Vamos embelezá-los um pouco. – Galinha piou em concordância.

Saba então entendeu.

– O que você tem aí? – a menina já se animara com a ideia da brincadeira.

– Pasta de dente, laços de fita, gel pro cabelo e a maquiagem de Ash que eu peguei ontem depois que ela se arrumou. – revelou parecendo orgulhosa de si mesma.

– E sua irmã não vai achar ruim? – a outra ficara de repente um pouco receosa.

– Por que ficaria se ela nem usa? – argumentou.

Balançando a cabeça, Saba concordou que havia sentido no que a outra dissera.

– Dá pra comer algo antes? – perguntou quando seguiu Karen e Galinha até a porta – Estou com fome.

Dando um grande sorriso, Karen tirou um pedaço de bolo enorme de dentro da cestinha.

– Bolo do casamento. Sobrou um monte. – ela colocou o pedaço de bolo na mão da amiga e sorriu – Você come enquanto descemos. Em silêncio.

Enquanto Saba devorava com alegria o pedaço de bolo, elas caminharam lentamente pelos corredores, sempre andando rente a parede, parando e se escondendo quando ouviam algum barulho. E mesmo com Galinha piando irritado quando era deixado para trás, conseguiram chegar ao jardim sem serem vistas e logo correram em direção às árvores.

– Muito bem – disse Karen olhando a cestinha – você quer a pasta de dente ou a maquiagem?

– A pasta. – respondeu Saba rapidamente – Assim, se sua irmã brigar por causa da maquiagem, vai brigar só com você!

Em vez de ficar chateada, Karen riu.

– Bah, é só a Ash. Ela não dá medo. – mas mesmo assim a menina pegou um batom e abriu até o final, antes de sorrir entusiasmada – Vamos!

Não foi difícil se esquivar dos servos que estavam pelo jardim. Eles estavam ocupados em recolher mesas e limpar o chão e ignoravam os convidados bêbados na maior parte do tempo, só os movendo ocasionalmente para limpar embaixo deles. Mesmo assim, Karen preferiu começar pelos convidados mais afastados.

A primeira vítima foi um renegado. Karen passou batom no que restava dos lábios dele, Saba encheu os buracos da pele de pasta de dente e depois elas amarraram fitas rosa nos ossos expostos. Depois, foi a vez de um orc. As meninas decidiram redesenhar as tatuagens dele com delineador preto, fazendo florezinhas e coraçõezinhos onde havia símbolos de guerra. Na orquisa ao lado, elas fizeram uma maquiagem exagerada e escreveram “eu gostu de umanos” na língua comum. Quando Saba percebeu o erro de ortografia, Karen disse que deixasse pra lá, a intenção era zoar mesmo e a futura rainha ainda estava aprendendo a gramática daquela linguagem. Depois, viram um troll e imediatamente desenharam pássaros e um sol na pele azul, além de pintarem suas presas de vermelho com batom. E assim foram indo, de convidado em convidado, criando uma arte diferente em cada vítima e se aguentando para não acordá-los com suas risadas.

Já estavam bem perto da casa quando viram o tauren desacordado. Karen abriu um sorriso reconhecendo uma vítima reincidente.

– Aquele é Mhuu, irmão do Huhu! – disse animada – Eu já enchi ele de lacinhos uma vez!

– O que faremos agora? – perguntou Saba empolgada.

– Vamos chegar mais perto e decidimos!

Quando as meninas se aproximaram mais, viram que havia algo estranho com o tauren. Ele estava totalmente nu e havia apenas um capacete cobrindo o meio de suas pernas. As meninas chegaram mais perto e começaram a analisar o capacete.

– Acho que sei de quem é. – disse Saba – É daquela goblina que tava seminua.

– O que o capacete de Nabby tá fazendo em cima do Mhuu? – Karen franziu as sobrancelhas – E porque ele tá sem roupa?

– Devia tá com calor. – sugeriu a pequena orquisa.

– Também, com tanto pelo! –concordou a pequena elfa.

– O que será que tem embaixo do capacete? – Saba olhava com interesse para a peça – Será um ferimento?

– Ou a Nabby pode ter feito uma brincadeira com ele também...

Elas se olharam, riram uma para a outra, e decidiram sem palavras que queriam ver. Afinal, não há nada mais forte que a curiosidade infantil. Logo Saba pegou um galho e com cuidado levantou o capacete.

– Oh! – exclamou Karen surpresa – Ele tem um rabo frontal!

As meninas estavam admiradas.

– Eu não sabia que os taurens tinham um rabo na frente. – ponderou Saba.

– Eles devem ter vergonha, o rabo de trás é mais bonito. – e balançando a cabeça continuou – Esse é feio, olha, murcho!

Galinha se aproximou com curiosidade do ‘rabo frontal’ e começou a bater o bico, como se pedisse permissão para algo.

– Não Galinha, isso não é uma minhoca. – disse a futura rainha — É um rabo. Você não pode comê-lo.

O falcoztruz branco piou chateado e se reaproximou de sua dona.

– O que faremos agora? – quis saber Saba – Quer enfeitar o rabo frontal?

Karen fez uma careta.

– Eu não, quero pegar naquilo não, parece nojento.

– Muito nojento. – concordou Saba.

Elas ainda estavam ponderando o que faria quando ouviram vozes se aproximando. Saba soltou o galho rapidamente, fazendo o capacete de Nabby rolar pelo chão e deixando Mhuu totalmente nu e elas saíram correndo, com Galinha em seu encalço, até as árvores mais próximas.

Mais servos chegaram e logo estavam por todo lado. Eles riram do tauren e colocaram o capacete de Nabby novamente no lugar de antes, e então começaram a limpeza.

– Aqui não dá mais. – murmurou Karen chateada – Vamos para o outro lado da casa.

Saba assentiu e elas correram em meio às árvores.

Até o final daquela manhã, a maioria dos convidados bêbados inconscientes receberam uma maquiagem das meninas, que só pararam quando viram que poderiam ser descobertas. Então, entraram pela porta lateral da casa, correram para o quarto que dividiam, vestiram seus pijamas e caíram na cama, certas que iriam convencer todos que nunca haviam saído dali.

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Kassyeh acordou se sentindo a pessoa mais feliz do mundo. Espreguiçou-se lentamente e estendeu a mão para o outro lado da cama, a fim de achar o corpo de Tewdric para aconchegar-se nele mais uma vez. Quando tateou o vazio, olhou surpresa e constatou que seu marido não estava lá. Preocupada, levantou-se rapidamente. Tewdric nunca acordava antes dela ou saia de seu lado quando estavam juntos.

Teria acontecido algo?

Vestiu então rapidamente o robe de seda branco e foi até a janela. Tewdric não estava à vista. Lá fora, contudo, estendidos por toda a extensão do jardim, estavam os convidados bêbados. Percebeu que alguns servos tentavam limpar o local, mas era difícil com o número de ébrios pelo chão. Não pode deixar de rir. Tal como em Orgrimmar, sua festa de casamento havia sido épica. Tewdric com certeza ficaria muito feliz. Ainda estava observando lá fora quando viu duas pequenas criaturas correndo em meio aos convidados. Do primeiro andar não dava para distinguir muita coisa, mas suspeitou que fossem Saba e Karen. O que elas faziam acordadas àquela hora? Com a empolgação da noite passada era de se esperar que só acordassem à tarde.

Mas onde estava seu marido?

Foi então que a porta do quarto então abriu e o coração de Kassyeh se aqueceu ao ver Tewdric entrando com uma bandeja de café da manhã na mão. Presenteou-o com um sorriso enorme, mas o orc apenas franziu o cenho.

– Não, não. Era pra você estar deitada. — reclamou — Café na cama! — e apontando pra cama falou incisivo — Vamos, pra cama!

Dando uma gostosa gargalhada, Kassyeh se dirigiu para a cama. Deitou-se lá e esperou que Tewdric, agora satisfeito, se aproximasse. Quando ele colocou a bandeja na cama, ela sentou-se e olhou admirada pra bandeja.

– Nossa, que linda! — exclamou vendo que ali tinha de tudo que ela gostava de comer pela manhã — Você quem fez?

– Se eu tivesse feito não ficaria tão bonito. — admitiu ele sincero — Foi a Lulu.

Kassyeh abriu um largo sorriso.

– Amo a minha irmã. — e já se preparava par a atacar a comida quando Tewdric deu uma tapinha em sua mão — Ai! O quê? — perguntou surpresa.

– Não! Eu lhe dou de comer!

Tewdric encheu a xícara de chá, entregou a Kassyeh e passou a dar um pouco de todas as guloseimas na boca da elfa. Achando aquilo muito excitante, Kassyeh o provocava, lambendo seus dedos cada vez que ele levava algo à sua boca. Tewdric estava gostando daquilo e já estava quase desistindo do café da manhã, quando sua esposa pediu:

– Queria um pedaço de maçã.

O orc pegou a fruta, olhou-a e começou a rir.

– O que foi? — quis saber Kassyeh.

– Seu tio e Vivithi. No corredor! — e continuou a rir.

Sem entender, a maga olhou para a maçã e tentava imaginar a relação que ela tinha com os elfos citados.

– Como assim? — perguntou confusa.

Tewdric então começou a narrar bem animado a cena que tinha visto. Enquanto falava, via a surpresa estampar o rosto da elfa, que não conseguia acreditar no que estava ouvindo.

– Titio e Vivithi fizeram sexo?! — realmente ela parecia não acreditar.

– E parece que também dormiram juntinhos e abraçadinhos! — gargalhou o orc — O titio me deixou orgulhoso!

–E me deixou abismada. — confessou a elfa — Eu sempre achei que eles se detestavam!

– Há! Essa raiva todinha deles era tensão sexual! — riu-se o orc cortando a maçã em fatias e dando a Kassyeh.

Bem, fazia sentindo, ponderou a maga. Aqueles dois sempre se insultando, sempre brigando, sempre lançando aqueles olhares de desgostos um para o outro. Talvez Tewdric tivesse razão e tudo não passasse de um desejo profundo e mútuo que eles tinham, mas que, por algum motivo, tinham demorado tanto para assumir. Ficou muito feliz em pensar que finalmente seu tio poderia se apaixonar e casar. A festa poderia ser ali, na casa delas e Vivithi ficaria linda de noiva. E então haveriam os filhos. Sempre quisera priminhos. E poderia ajudar Vivithi com as crianças. Seria tão lindo!

– Você já tá casando seu tio e Vivithi não é? — perguntou o orc divertido.

– Seria lindo não? — a elfa tinha um brilho sonhador nos olhos — Eles se casariam e o titio poderia morar definitivamente aqui com a gente!

– Você não gosta que seu tio more em Dalaran?

Kassyeh meneou com a cabeça.

– Ele é nosso único parente vivo né? Queria ele perto da gente... — e suspirando, voltou os olhos para abandeja — Mas quem sou eu pra falar? Em breve voltaremos a Orgrimmar e deixarei minhas irmãs aqui...

Tewdric estava passando geleia numa panqueca e quando ouviu isso imediatamente parou com a ação. Encarou então Kassyeh e disse tacitamente:

– Então não voltamos para Orgrimmar. Problema resolvido. — e então voltou sua atenção para a panqueca, cortando um pedaço generoso e espetando em um garfo.

– Não voltar para Orgrimmar? — Kassyeh estava chocada com a fala dele e recusou o pedaço de panqueca que ele lhe ofereceu com o garfo — Você não quer voltar para Orgrimmar?

– Você quer voltar para Orgrimmar? — devolveu ele ainda segurando o garfo em frente ao rosto de Kassyeh.

– Bem... — ela titubeou — Eu gosto de Orgrimmar. Temos uma casa lá. É seu lar não é?

O guerreiro então baixou a mão e depositou o garfo na bandeja enquanto sua esposa o olhava com ansiedade.

– Orgrimmar nunca foi meu lar. — disse sem sentimento na voz — Eu nunca tive um lar. — então ele pegou a mão esguia e suave da maga e apertou-a delicadamente — Até conhecer você. Você é meu lar. Para onde você for, eu irei.

Um nó apertou a garganta de Kassyeh e ela se esforçou para não começar a chorar. Tewdric não gostava de lágrimas, não importava se fossem de alegria. Para ele, lágrimas eram sinônimos de tristeza, apenas. Por isso, respirou fundo e acariciou a mão dele.

– Você não faz ideia do quanto me faz feliz ouvir isso...

– Posso ter uma ideia, se você sentir o mesmo. — respondeu abrindo um sorriso e mostrando os dentes.

– Tewdric... — Kassyeh apertou mais a mão dele como se quisesse, com aquele gesto, impedir o choro. Como dizer tudo o que sentia para ele sem irromper em lágrimas? Poderia dizer que ele era muito mais que aquilo, que ele era como sua própria alma. O quanto se sentia perdida sem ele. O quanto significava para ela que ele agora usasse o sol em seu pescoço... Poderia dizer muito, mas sabia que ele só queria ouvir uma — Sim, eu sinto o mesmo...

O sorriso dele aumentou e ele pegou novamente o garfo. Contudo, antes que ele pudesse alimentá-la de novo, Kassyeh perguntou:

– Então... Você não se importa se ficarmos aqui não é?

– Claro que não. — respondeu franzindo a testa e estranhando a pergunta. Será que ele não havia sido claro o suficiente?

Aparentemente não, já que Kassyeh continuou:

– Mas o que o Chefe Guerreiro vai dizer ao saber que o Campeão da Horda vai ficar em Luaprata? Por que vamos nos mudar para a Torre Solfúria. — e de repente como se só lembrasse daquilo naquele momento, levou a mão ao rosto de preocupação — Você é um príncipe-consorte agora! Isso vai te prejudicar junto aos orcs?

Foi então que Tewdric deu uma risada que estremeceu a cama.

– Príncipe-consorte? — disse alegremente — Tipo, sou um príncipe dos elfos? — e continuou a rir — Os elfos devem estar muito irritados!

O tom dele não era de zombaria, mas de puro divertimento. Todavia, Kassyeh continuava preocupada.

– Não é a opinião dos elfos que conta agora. — falou exasperada — Não quero que Grito Infernal te prejudique por minha causa!

– Não me importa nem um pouco o que Grito Infernal pode fazer.

Kassyeh não soube dizer se estava mais surpresa com o que ele dissera ou a forma como dissera. Tewdric mudara de uma postura totalmente relaxada para tensa e furiosa.

– Mas... — a maga estava cada vez mais preocupada — Ele é o Chefe Guerreiro...

– Para mim, o Chefe Guerreiro sempre será Thrall. — o orc parecia inflamar de orgulho ao pronunciar àquele nome — Ele foi escravo, desafiou a Aliança e forjou a Horda não em sangue, mas em companheirismo. — e franzindo a testa, completou — Seu único erro foi colocar Grito Infernal no controle.

– Pensei que você gostasse de Grito Infernal. — Kassyeh agora ponderava que talvez eles devessem conversar mais e fazer menos sexo.

– Não gosto nem desgosto. Grito Infernal é um bom guerreiro. Mas não é um líder. Ele gosta de guerra. E acho que merecemos um pouco de paz não é? — e diante da expressão surpresa da elfa, ele deu de ombros — Amo batalhas. Amo o combate. Amo a luta. Mas quero um mundo onde eu possa viver e ver meus filhos crescerem. Que eles não sejam órfãos como eu fui.

– Como eu fui. — repetiu Kassyeh.

De repente Kassyeh se sentiu um pouco envergonhada. Estava tão focada em gerar uma criança, em ter um filho, que esqueceu de pensar no tipo de mundo que estaria entregando às suas crianças. Pela primeira vez passou por sua cabeça que poderia sim, ter filhos mas nunca ser realmente mãe. Poderia morrer em um ataque da Aliança, como seus pais. Ou morrer para algum monstro. Tantas coisas poderiam acontecer e deixar seus filhos sozinhos... Tewdric, ao contrário já pensara em tudo. E parecia disposto até mesmo a ir contra o líder de seu povo para criar um mundo pacífico, onde ele não se sentiria encaixado, mas daria oportunidade de estar com seus filhos. E com ela.

– Você é o melhor orc do mundo. — disse sinceramente.

– Sou não. — respondeu ele — Mas quero ser o melhor pai e o melhor marido.

– Você já é. — garantiu apertando novamente a mão dele.

Feliz com o que ouvira, o orc passou novamente a dar de comer à sua elfa. Mas Kassyeh ainda tinha uma pergunta a fazer.

– Quem você acha que seria um bom Chefe Guerreiro? Para trazer a paz?

Para sua total surpresa, ele respondeu:

– A Karenzinha. Quando tiver um pouquinho mais velha. Mas vamos deixar isso pra lá. Quero você alimentada para que a gente possa usar essa geléia aqui de forma mais proveitosa.

Kassyeh riu alto e permitiu que seu marido continuasse mimando-a, para então provar as outras utilidades da geléia na bandeja.

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Arshe estava quase arrependida de ter escolhido o fino vestido de seda azul para a recepção da comitiva de Guilnéias. Quase porque apesar do vestido ser lindo, apenas insinuar as formas de seu corpo e combinar perfeitamente com a cor de seus olhos, estava com tanto frio que tinha que se conter para não tremer. Claro, ninguém esperava aquela tempestade tão forte, e mesmo com diversos servos segurando guarda-chuvas impedindo que ela e Anduin se molhassem, o frio se infiltrava pela seda finíssima e parecia lhe congelar até os ossos.

– Devia ter trazido um casaco. — murmurou Anduin ao seu lado.

– Isso estragaria o modelo do vestido. — rebateu tentando parecer tranquila.

– Você está ficando azul. — brincou o rapaz.

– Ótimo, pelo menos não vai contrastar com a roupa. — disse altiva.

O príncipe riu, tirou a pesada capa dourada de cima dos ombros e colocou em sua irmã de criação. Arshe quase chorou de alívio, e percebeu que pouco importava se não estava combinando, ela estava se sentindo ótima.

– Não vou agradecer, ficarei toda amassada. — ela não ia dar o braço a torcer.

– Certo, certo. — Anduin apenas deu de ombros.

O barco finalmente apareceu no horizonte, para o alívio de todos. O Rei estava um pouco à frente de Arshe e Anduin e não tinha nenhuma proteção contra a chuva. A água escorria pela armadura real e a princesa se perguntava como ele estava aguentando. E ele não era o único. Ao lado deles, a comandante Wood estava usando sua armadura mais bonita e também a que deixava entrever muito de seu corpo. Arshe não teria coragem de usar algo naquele estilo. Pra falar bem a verdade, nem poderia.

Era irônico pensar em como as plebeias ansiavam pela nobreza, levando em consideração as restrições que a vida nobre dava às mulheres. Arshe não tivera muitos problemas porque seu pai nunca dera ouvidos para as fofocas da nobreza e a criara para ser independente. Mas ouvia constantemente casos de meninas de sangue nobre que tinham excelentes habilidades e não podiam treiná-las por causa de sua posição. Eram então treinadas apenas para casar e serem mães.

O interessante era que essas mesmas meninas, podadas de sua liberdade, adoravam falar mal da comandante, uma mulher independente e conhecida não somente por sua habilidade e inteligência, mas também pelo fato de não se envergonhar nenhum pouco de sua vida sexual. É claro que esses comentários eram feitos a sussurros, dentro das alcovas e nenhuma delas teria coragem de falar abertamente contra a jovem que enfrentara pessoalmente o Lich Rei. No final das contas, pensou Arshe, era apenas inveja.

Uma inveja que ela admitia que também tinha.

Se fosse apenas uma camponesa, uma plebeia, sem responsabilidades com a Aliança e com sua família do coração, teria seguido seu impulso de abandonar tudo e ir atrás de seu antigo amor?

Nunca pensou que um encontro com Kayliel pudesse abalá-la tanto. Achava que a raiva que sentia do elfo sangrento tinha sido suficiente para matar o amor que sentira outrora por ele. Afinal, ela fora abandonada, sem nenhum aviso prévio, sem nenhum adeus ou nenhuma explicação, depois de ouvir as mais lindas declarações de amor do sacerdote e ter se entregado totalmente àquele sentimento.

Ele a deixara no mesmo dia que soubera da morte de seu pai.

Fora difícil esconder os sentimentos conflitantes de seu tio. Varian percebera que algo acontecera com a jovem em sua viagem à Dalaran, mas nada comentou. Talvez relacionasse a tristeza à falta de resposta de Aethas Fendessol, afinal não era comum Arshe não conseguir uma resposta afirmativa. Deixou que o rei pensasse assim, pois conseguira alguns dias de folga e poderia então se recuperar de todos àquelas sensações que vieram à tona. Depois, com os preparativos do baile, conseguiu que os pensamentos sobre Kayliel desaparecessem. Pelo menos durante o dia. Quando deitava para dormir em sua enorme cama de dossel, adornada com lençóis de seda azul, não conseguia manter aqueles pensamentos longe de sua mente.

Por que diabos ele agira como se não houvesse feito nada? Como se não tivesse despedaçado-a? Ele não pensou no quanto ela arriscara ao se envolver com alguém da facção oposta? Será que não pensara que ela arriscara o nome de sua família e que se sentia mal cada vez que olhava o anel de sua avó que brilhava em seu dedo? Será que não pensara que ele fora seu primeiro amor? Será que ele pensara alguma vez nela? Será que tinha amado-a?

Enquanto aquelas lembranças voltavam à sua mente naquele inoportuno momento, seus olhos se encontraram com os da comandante Wood. O brilho verde escuro daquele olhar a fez rapidamente desviar a vista. Temia que a perspicaz caçadora pudesse reconhecer os sinais de fraqueza de sua alma e de sua lealdade.

– O barco está atracando! — disse Anduin animado.

O navio a tirou de seus pensamentos e a princesa fincou sua vista no barco noctiélfico que atracava. Após a tomada de Guilnéas pelos Renegados, o povo daquele reino, maculados com uma terrível maldição metamórfica, encontraram refúgio na terra dos elfos noturnos. Contudo, ainda precisavam estabelecer algumas diretrizes de sua entrada na Aliança. Arshe chegara a pensar que a adição de mais uma raça iria dar uma vantagem a Ventobravo sobre seus inimigos, até descobrir que os goblins, que já ajudavam discretamente a Horda, haviam se unido de vez a ela.

Equilíbrio, pensou Arshe, o mundo tentava sempre ficar em equilíbrio.

Será que um dia conseguiria que o equilíbrio voltasse ao seu coração?

– Greymane parece cansado. — ouviu seu tio comentar.

A comitiva estava descendo do navio. À sua frente, o rei Genn Greymane liderava os guilneanos. Arshe se surpreendeu com o semblante do rei: ele não estava apenas cansado como Varian apontara, ele parecia devastado. Da última vez que o vira, há muito tempo atrás quando ainda era criança, a jovem maga havia admirado o porte altivo de Greymane e de sua família. Tinha se dado muito bem com a princesa Tess e tivera uma paixonite infantil pelo príncipe Liam, paixonite esta que rapidamente acabou quando descobriu que o passatempo favorito deste era se embrenhar no meio do mato, fazer longas trilhas e que o príncipe sonhava em morar numa casa de campo afastada da vida industrial de Guilnéas. Arshe detestava mato e amava a vida urbana.

Junto ao rei, expressões igualmente abatidas na comitiva. Arshe percebeu que embora muitos mantivessem sua forma humana, como o rei, todos tinham aquele brilho no olhar que lembrava uma matilha analisando um novo território. Os demais tinham sua forma de metamorfo, o que não ajudou naquela chuva. Em pouco tempo, um cheiro estranho pairava no ar.

– Cheiro de cachorro molhado. — murmurou a comandante Wood quando o rei se afastou para saudar Greymane. Arshe comprimiu os lábios, mas Anduin acabou dando uma risadinha, que rapidamente abafou com uma disfarçada tosse.

A conversa dos dois reis foi curta. Talvez pela chuva ou talvez pelo cansaço mostrado pela comitiva. Varian apontou uma carruagem para Greymane e Arshe percebeu pela primeira vez que nem a rainha Mia nem a princesa Tess estavam com ele. Deviam ter ficado em Darnassus, afinal a ida do rei ali não era por diversão, mas por motivos militares. Talvez as mulheres preferissem um pouco de paz depois da destruição de seu lar e da morte de Liam.

Varian então fez um gesto para que Arshe e Anduin se apressassem e entrassem na mesma carruagem que ele e Greymane. Os jovens se entreolharam; não esperavam ficar cara a cara tão cedo com o rei de Guilnéas. Quando eles se adiantaram para subir, Arshe notou que a barra de seu vestido estava toda molhada e ela precisaria levantar o vestido para subir o degrau. Procurou por uma mão que a ajudasse e encontrou a da comandante Wood.

– Aqui princesa. — disse Wood com um sorriso divertido no rosto.

– Obrigada comandante. — respondeu pegando na mão oferecida e subindo na carruagem. Notou que a mão da comandante era calejada e grossa, apesar de ser bem cuidada, com unhas muito lindamente pintadas e bem feitas. Arshe não deixou de se surpreender com aquele detalhe.

– Comandante. — disse o Varian quando faltava apenas ele subir na carruagem — Cuide para que todos guilneanos tenham pousada confortável nos alojamentos da Bastilha.

– Sim majestade. — e ela bateu continência.

Varian assentiu rapidamente com a cabeça e entrou na carruagem. A comandante fechou a porta e fez um sinal para o cocheiro sair.

Lá dentro, Arshe e Anduin dividiam um banco, sentados de frente para Greymane e Varian. Enquanto o rei de Ventobravo vestia armadura e pingava água dentro da cabine, o rei de Guilnéasvestia suas melhores vestes e não estava molhado. Talvez algum druida o tivesse mantido dentro de uma bolha, protegido da chuva.

– Ah príncipe Anduin! — disse Greymane sorrindo — Da última vez que o vi era apenas um bebê. Pelo que vejo, está se tornando um homem!

– Obrigado majestade. — agradeceu o rapaz acenando discretamente com a cabeça.

– E essa moça tão bonita... Arshe não é? — perguntou ele olhando para Varian que assentiu — Como cresceu! Seu pai com certeza estaria muito orgulhoso do bom trabalho que a senhorita tem feito. — e baixando um pouco o tom, falou pesaroso — Sinto muito pelo Grão-Lorde Fordragon. Ele era um homem esplêndido.

– Obrigada majestade. — respondeu serenamente.

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– Pensei que a rainha Mia viria acompanhando-o. — comentou Varian.

– Houve um problema em nossa viagem para Darnassus. — a voz do rei ficou um pouco rouca, como se ele estivesse reprimindo alguma coisa — Mia acabou ferida e concordamos que ela não deveria se arriscar em outra viagem. Tess ficou para cuidar da mãe.

Ninguém falou sobre Liam, mas não foi necessário. O olhar do rei era triste, e seu semblante entregava seu luto. O resto da viagem foi em silêncio e Arshe se perguntou se o baile que ela custara tanto em organizar e que aconteceria em dois dias seria realmente tão animado como desejava.

Enquanto isso, a comandante que ficara para organizar a hospedagem da comitiva de Guilneas, composta por guerreiros, druidas, caçadores e outros, os levou pelas ruas de Ventobravo até a Bastilha. Vieram em um ritmo lento, pois Wood queria que todos se familiarizassem com a paisagem e com os caminhos da cidade. Ela, vinda do campo, sabia muito bem a primeira impressão que se tinha da capital da Aliança: um grande e confuso labirinto. Mas era só questão de tempo para entender e amar a cidade. Ela esperava que seu tour ajudasse os guilneanos a passarem pela adaptação da melhor forma possível.

Ao chegarem aos alojamentos da Bastilha, a chuva já tinha parado de cair. Um soldado lhe entregou uma lista com o nome de todos aqueles que tinham vindo e seriam incorporados pelo exército. Uma rápida olhada nos nomes a fez ficar um pouco decepcionada: não havia muitos druidas, apenas três. Queria mais deles, pois precisava logo começar o rastreamento e estava contando com uma ajuda extra de quem conhecia bem a natureza. Suspirando, reagrupou mentalmente as patrulhas e decidiu que deveria escolher logo o druida que iria acompanhá-la nas investigações.

– Bem, mandei preparar essas acomodações para vocês. — disse ela mostrando o cômodo comprido cheio de camas, mesas e com duas lareiras bem posicionadas. — Cada cama tem um baú onde vocês podem colocar suas coisas. Os banheiros ficam lá fora, após aquela porta. — e apontou a direção — Aqui nesse quadro tem o horário em que as refeições são servidas. Vocês comerão no mesmo horário dos meus soldados. Qualquer reclamação vocês podem se reportar diretamente a mim. Alguma dúvida?

A comitiva fez que não e a comandante continuou:

– Vou precisar de um druida que me acompanhe numa missão amanhã, então gostaria de conhecer os que vieram, por favor.

Dois druidas deram um passo a frente, um rapaz e uma moça, ambos em sua forma de metamorfo. Wood franziu a testa.

– Aqui diz que vieram três. — falou verificando novamente a lista.

Todos se entreolharam e deram risadinhas.

– Falta Doroteya. — disse o rapaz druida debochado como se não tivesse surpreso com a falta — Ela sempre se perde, é uma desmiolada. — e todos o acompanharam no riso.

A risada geral acabou no momento em que eles cruzaram o olhar com a comandante. Ela não parecia dada a piadas.

– Por que então vocês não me avisaram que um membro de sua comitiva ficou para trás? — seu tom era duro e os guilneanos, mesmo os em forma de metamorfo, se encolheram um pouco diante de suas palavras.

– Bem, é só Doroteya. — respondeu a druidesa — Ninguém a leva muito a sério...

A comandante dobrou a lista lentamente, sem tirar os olhos deles.

– E isso diz muito sobre o sentimento de irmandade de seu povo. — falou calmamente guardando a lista e gerando grande desconforto na comitiva. Eles parecia envergonhados. — Bem, meus soldados vão acomodá-los. Eu vou em busca da druidesa perdida. — e se virou para sair.

– Não precisa se incomodar comandante. — disse o rapaz druida — Uma hora ela aparece.

A comandante Wood se virou rapidamente e encarou o rapaz de forma tão dura que por um momento pensou-se que ele iria colocar o rabo entre as pernas e sair ganindo. Mas ele apenas engoliu em seco e baixou os olhos.

– Se vocês não levam sério suas responsabilidades uns para com os outros, eu levo muito a sério a minha, que é deixar todos vocês bem acomodados e em segurança. — e lançando um último olhar desafiador, se retirou.

Que pessoas egoístas, pensou quando pegou seu cavalo e saiu pelas ruas da cidade. A moça poderia sim ser desmiolada, mas mesmo que fosse, ainda era obrigação deles cuidarem uns dos outros, não era? Onde estava o senso de fraternidade daquele povo? Se era assim que eles agiam entre si após a ruína do seu lar, que deveria tê-los unidos, não queria imaginar como era antes.

Não demorou muito para ela achar a druidesa perdida. A worgenin era visivelmente jovem e, para sua surpresa, era bem menor que os outros worgens que tinha visto naquele dia. Seu pelo não era totalmente preto, mas também tinha um tom castanho muito bonito. Ela estava em uma rua comercial segurando um pacote entre os braços. Aparentemente parara para comprar alguma coisa. Wood poderia até ficar chateada com a garota, por ter lhe dado todo esse trabalho apenas porque queria comprar algo, se não estivesse presenciando uma cena que ferveu ainda mais seu sangue. Um bando de pirralhos estava rindo e jogando pedrinhas na druidesa, chamando-a de "cachorro fedido". A druidesa não parecia se importar com aquilo, mas em determinado momento, acabou tropeçando numa das pedras jogadas contra ela e o pacote caiu no chão molhado. De dentro saiu um brinquedo, um belo cavalinho de madeira pintado com as cores de Ventobravo, e os olhos dos pirralhos brilharam de ambição.

– Ei moleques! — gritou a comandante antes que eles pudessem fazer qualquer coisa — É assim que vocês tratam os convidados de seu rei?

A simples visão da comandante do exército real chegando em seu cavalo armadurado com uma expressão de poucos amigos foi o suficiente para que os meninos corressem tão rápido que pareciam voar. Para o azar deles, a comandante reconheceu o uniforme que eles usavam e teria uma conversa séria com o diretor da escola da cidade sobre seus pupilos.

– Você está bem? — perguntou Wood ao descer do cavalo.

A druidesa fez que sim e se levantou lentamente, ajeitando a saia do vestido, antes de se inclinar e pegar o brinquedo caído.

– Obrigada. — disse ela com sua voz rouca de worgenin.

– Você é Doroteya? — perguntou Wood.

A outra fez que sim.

– Eu sou a comandante Wood. Vim buscá-la para ir até as acomodações. — e lhe lançando um olhar severo, continuou — Não deveria ter saído da formação.

Doroteya lhe deu um sorriso encabulado e coçou a cabeça.

– Eu sei, sinto muito. — pediu educadamente — Mas quando vi esse cavalinho, não resisti. Meu filho vai adorar!

– Filho? — a comandante não escondeu a surpresa que teve. A primeira coisa em que pensou foi em um filhotinho de cachorro abanando o rabinho. — Você trouxe seu filho?

– Não, não. — negou a outra — Ele ficou em Darnassus. Mas vou mandar pelo correio, ele vai ficar tão feliz!

Toda a raiva de Wood se evaporou. Pessoas gentis tinham aquele efeito nela. E apesar da aparência selvagem, Doroteya tinha um olhar meigo e gentil. Um olhar de mãe mesmo. Uma mãe sem noção que acabara se perdendo numa cidade desconhecida apenas para comprar algo para seu filho, mas ainda assim, uma mãe gentil. Suspirou então e falou num tom mais suave:

– Venha, vou te levar até uma caixa de correio para mandar o presente. Depois, te levo até a Bastilha. — e endurecendo novamente, completou — Mas não faça mais isso, ficar andando por aí sem conhecer nada. Pode ser perigoso.

Diante dessa fala, Doroteya apenas riu.

– Você falou igual ao meu marido agora! — ela soou tão animada que a comandante imaginou se o rabo dela estava balançando — Acho que vou gostar muito de você comandante!

– Seu marido também ficou em Darnassus? — quis saber. Aquela afinal era a opção mais viável, pois duvidava que se o marido dela estivesse na comitiva, ele teria esquecido-a.

– Não, ele não está em Darnassus. — respondeu — Os Renegados o mataram no cerco a Guilnéas.

A comandante Wood não sabia se ficava surpresa pela informação ou pelo sorriso que o acompanhava. Era um sorriso saudoso, triste, mas ainda sim um sorriso. Ali estava alguém que sabia lidar com a dor da perda, pensou.

– Bem, vamos. — a comandante achou melhor não estender a conversa — A chuva pode voltar.

Doroteya lhe deu um enorme sorriso e apertou o cavalinho ao peito. E sem dizer mais uma palavra, seguiu obedientemente a comandante pelas ruas de Ventobravo.

*******************************

Vivithi pensou em todos os insultos que conhecia nas línguas que falava, mas nenhum deles chegava nem perto de abarcar toda a raiva que sentia naquele momento de Aethas Fendessol. Caminhando em direção ao estábulo, passou por convidados desmaiados que exibiam estranhas decorações, por servos limpando e pelos guardas que a acompanhavam, que olharam com interesse para as vestes do Kirin Tor que ela vestia.

– O que é? – perguntou ríspida para os elfos.

– Nada senhora. – disseram rapidamente antes de se afastarem o mais discretamente possível. Nunca era saudável interagir com a patrulheira quando ela estava naquele humor.

Tudo que a elfa mais queria era ir pra longe dali. Assim, as chances dela cometer um assassinato eram bem menores. Sua montaria, porém, estava sem os arreios e dormia tranquilamente ao lado da do seu tio. Pronto, era só o que faltava. Como no dia anterior eles tinham vindo de carruagem, as montarias seguiram com patrulheiros que as deixaram ali para a volta no dia seguinte.

– Ei, você! – gritou ela com o elfo mais próximo – Por que minha montaria não está pronta?

O elfo se aproximou devagar, com receio da raiva que a patrulheira emitia.

– A senhora disse que só iria embora hoje à noite, lembra? – ele respondeu com cautela e da forma mais suave possível – A senhora falou que se comprometera com as princesas de...

– Certo, já lembrei! – falou rispidamente cortando o outro que estava quase correndo dali – Minhas coisas, presumo, estão em um quarto de hóspedes. – completou fuzilando o incauto patrulheiro que rapidamente assentiu.

Ótimo, pensou, mais um dia vendo aquele imbecil. Sorte dele que não havia trazido seu arco.

Se Aethas desconfiasse da raiva que Vivithi sentia dele, nunca teria sequer cogitado a possibilidade de leva-la para dormir no quarto. Claro, ele não sabia o quanto ela se sentia vulnerável e exposta dormindo ao lado de um elfo. Ele não desconfiava do medo que a patrulheira tinha ao lembrar que aquele simples ato levava a coisas muito mais perigosas. Levava à intimidade, à liberdade, levava ao simples fato de se aproximar mais do que Vivithi permitia a qualquer um. Pois da última vez que se permitira tal coisa, acabou com o coração em pedaços e sua lucidez por um fio. Não, nunca, jamais poderia chegar àquele nível novamente.

O pior de tudo, e a elfa relutava em admitir, foi que gostara da sensação dos braços dele. Quando acordou, a saciedade que o sexo lhe proporcionara a deixou, por um momento,com vontade de se deixar levar e aproveitar mais daquilo. Até que percebeu o que estava realmente acontecendo. Não, não permitiria que ninguém chegasse tão perto dela novamente.

Respirou fundo e se dirigiu mais uma vez em direção a casa. Estava decidida a ignorar completamente a existência de Aethas Fendessol quando o mesmo saiu no exato momento em que ela chegou à entrada. Com certeza Vivithi ainda estava com os hormônios à flor da pele, pois quando o viu, sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Aethas não usava vestes e sim uma calça de linho marrom, bem ajustada em seu corpo e uma camisa branca, que deixava à mostra parte de seu peito. Os cabelos ruivos estavam charmosamente em desalinho e era nítido que ele se vestira às pressas. E mesmo assim, estava fabulosamente lindo.

Sim, ela tinha que tomar um banho frio se quisesse encarar o dia com dignidade.

– Precisamos conversar. – disse ele assim que a viu.

– Não, não precisamos. — respondeu ela rispidamente passando direto por ele e entrando na casa – No momento eu preciso de um banho que tire seu cheiro de mim.

– Isso foi ofensivo. – retrucou Aethas a seguindo.

– Ótimo, cumpriu meu propósito.

E continuou seu caminho sem olhar para o mago, até que ele segurou em seu braço e a forçou a encará-lo.

– Tire as mãos de mim! – falou rispidamente puxando o braço de volta.

– Eu só quero conversar! – disse Aethas exasperado.

– Conversar, conversar, o que diabos você quer conversar?! – perguntou ela com tanta raiva que estava quase trincando os dentes.

Aethas então pareceu encabulado e suas bochechas ficaram levemente vermelhas.

– Bem, ontem... – ele pigarreou – Nós dois...

– Sim, trepamos, e daí? – cortou Vivithi rapidamente. Não podia estender aquela conversa, pois somente de olhar para o rosto dele se enrubescendo tão lindamente, lhe deu vontade de beijá-lo novamente. Sim, precisava com urgência daquele banho!

Sua resposta, no entanto, não foi muito bem aceita pelo arquimago. Ele franziu a testa e pareceu recuperar a compostura do dia anterior.

– É isso que é pra você? Trepamos e só? Você fez um escândalo e está tudo bem? É assim que você lida com as coisas? Ignorando-as?

– E você quer que eu faça o que? Peça a donzela em casamento?

Levou um momento para Aethas perceber que a donzela em questão era ele.

– Gostaria que você ao menos me tratasse com o devido respeito! – respondeu – Não como algo que você deixe para lá depois a diversão!

Vivithi ficou tão surpresa com o que ele disse que não respondeu de imediato. Depois, arqueando as sobrancelhas, falou em tom debochado:

– Nunca lhe tratei com respeito antes e não vou fazer agora só porque você me viu nua! – e dando um sorriso malicioso acrescentou – Se pelo menos você tivesse feito as coisas direitinho, quem sabe... Mas sinceramente, você foi a pior transa da minha vida!

E saiu deixando Aethas perplexo demais para dizer qualquer coisa a mais.

Quando ela subiu as escadas, Aethas sentou-se no sofá da sala e passou a mão pelos cabelos. Certo, o que ele acabara de fazer? Correra atrás dela como um idiota apaixonado exigindo um pouco de atenção. E porque fizera isso? Ele definitivamente não estava apaixonado por ela. Fora uma excelente noite, nada mais. Só que ver o desprezo com o qual ela lhe tratara na manhã seguinte o havia atingido de forma muito mais brutal do que ele jamais imaginara que alguém pudesse atingi-lo. E agora... O que realmente esperava que Vivithi dissesse ou fizesse? Não sabia. Mas mesmo assim fora atrás dela, exigindo uma conversa que, logicamente falando, não tinha cabimento. A patrulheira se comportara tal como esperava. Mas e ele? Se comportara como um moleque fascinado. E o pior, o pior de tudo, era que realmente se sentia daquele jeito.

Nunca imaginara que o sexo pudesse ser tão bom. Vivithi o fizera experimentar sensações que ele nem imaginava que existisse. Depois daquela noite, ponderou, voltar ao sexo que conhecia antes seria tão difícil quanto comer migalhas depois de provar o melhor dos banquetes.

Vivithi era o melhor dos vinhos, pensou deprimido, tal como haviam dito Huaru e Tewdric. E, para ela, ele fora o pior dos vinagres.

Sim, Aethas sentia que estava na pior situação de sua vida.

Mal sabia ele que Vivithi, naquele mesmo momento embaixo do chuveiro, pensava praticamente a mesma coisa que ele, e se odiava por considerar aquela noite a melhor de sua vida.

***********************

Vivithi e Aethas não eram os únicos naquela casa a amaldiçoar a noite anterior, ainda que ela tivesse sido tão maravilhosamente boa. Lor’themar fazia o mesmo no momento em que acordava. Não que o que vivera com Ashrial, o medo e as lágrimas que tivera que sanar fora bom, mas o momento em que beijara aqueles lábios suaves e que adormecera sentindo o perfume dos cabelos dela tinha sido excepcionalmente inebriante.

Quando abriu os olhos e viu a imagem de Ashrial placidamente adormecida em seus braços, seu coração disparou. Todavia, o lorde regente sabia que não podia se deixar levar por aquelas sensações. Afinal, Ashrial era apenas uma menina. Dezoito verões. Uma criança para seu povo! Ainda que nos últimos tempos os elfos tenham relutantemente deixando jovens que acabara de atingir a maturidade ingressar nas suas fileiras, em virtude da baixa população resultante da quase extinção de seu povo, em suas mentes estavam nada mais que mandando crianças à guerra. Era duro, mas era necessário.

Só que ali, entre ele e a jovem princesa, não havia a necessidade de seu povo, e sim de um sentimento que nem mesmo ele sabia explicar. Sim, tinha que admitir, estava se sentindo atraído por ela da mesma forma que uma abelha por mel. E sim, seu beijo era doce como o mais puro mel. Sua pele cheirava a flores e despertava nele o mais profundo desejo de prova-la.

Ashrial era como uma maçã recém-amadurecida que despertava uma fome até então desconhecida por Lor’themar.

Mas, pela Nascente do Sol, ela era filha de seu melhor amigo! Não podia se permitir sentir aquelas coisas!

– Confortável Lor’themar?

A voz fria penetrou em sua mente como uma lâmina afiada e o fez relutantemente tirar seus olhos da jovem adormecida para aquela que falara. Luxuriah estava ali, sentada confortavelmente no sofá em frente à cama com Bolota sentado obedientemente ao seu lado. A caçadora passava os dedos carinhosamente no pelo do enorme lobo, e o olhava como se o patrulheiro fosse uma presa a ser caçada.

E era realmente assim que ele se sentia naquele momento.

– Luxuriah... – começou Lor’themar.

– Me poupe de suas palavras Lor’themar. – cortou Luxuriah asperamente – Eu achava realmente que podia confiar em você, mas veja só, na primeira oportunidade você seduz minha irmãzinha!

– Eu não seduzi Ash! – respondeu ele tomando cuidado com o tom de voz. Não queria acorda-la naquele momento. O pior é que não poderia sair dali sem mexer com ela. Estava nas mãos de Luxuriah.

– Você quer me dizer então que foi ela que te seduziu? – perguntou com uma risada maligna.

– Quero dizer que não é nada disso que você está pensando! – retrucou pensando em um jeito de se levantar que não acordasse Ash. – Se você me deixar explicar...

Mas ele não conseguiu terminar a frase. Com um comando de Luxuriah, Bolota se atirou em cima de Lor’themar tão rapidamente que ele não teve como reagir. O imenso lobo armadurado pulou pesadamente sobre o peito do patrulheiro, que perdeu o fôlego com o impacto. Bolota rosnava e mostrava os dentes e, por um momento, Lor’themar achou o lobo ia comer seu rosto ali mesmo.

Porém, com o intempestivo ataque de Bolota, Ash acordou. Assustada com o despertar repentino, ela não processou o que estava acontecendo. Tudo que viu foi Bolota prestes a comer o rosto de Lor’themar, e então se desesperou.

– Bolota! Bolota, não! – Ash se desvencilhou dos braços de Lor’themar e agarrou o lobo – Não! Não! – e o puxou para seus braços.

– Deixe-o Ash. – falou Luxuriah com um sorriso frio nos lábios – Bolota sabe quem está tentando fazer mal à dona dele.

Ash assustou-se com a presença de Luxuriah, e por um momento pensou que Lor’themar a tivesse chamado ali para que elas pudessem conversar. Mas bastou ver o olhar de ódio de sua irmã e a expressão abismada de Lor’themar para compreender o que havia realmente acontecido. Sua irmã mais velha, acostumada a entrar no quarto de todas sem bater, encontrara ela e Lor’themar dormindo juntos. E é claro, pensara o pior. Ash enrubesceu só de pensar o que Luxuriah tinha imaginado que acontecera entre os dois na noite anterior. E depois, entrou em pânico. Claro que sua irmã mais velha e superprotetora iria querer arrancar o olho bom do lorde regente pelo que ela suponha que havia acontecido.

– Lux... – começou Ash ainda segurando Bolota – Não aconteceu nada entre nós... – na verdade, pensou ela, houvera o beijo, mas o melhor naquele momento era Luxuriah não saber daquilo.

Luxuriah suspirou e encarou a irmã.

– Você quer que eu acredite que vocês dois dormiram juntinhos simplesmente porque deu vontade e que nada, nada mesmo aconteceu ontem à noite?

Ash olhou rapidamente para Lor’themar e ele a encarou como se aconselhasse cautela. Claro que Luxuriah entendeu a troca de olhares da forma errada, e sem mais esperar levantou-se de um pulo e avançou para o lorde regente, com a fúria brilhando em seus olhos.

– Como você ousa!! – gritou a jovem caçadora cheia de ódio.

– Lux, não!

Na tentativa de deter a irmã, Ash pulou da cama e tentou se firmar rapidamente para impedir o pior. Só que ela havia esquecido o machucado no tornozelo, fruto da noite anterior. E no momento em que colocou todo o peso do corpo sobre os pés, o tornozelo machucado estalou alto, a jovem deu um grito de dor, e caiu pesadamente no chão.

Foi o suficiente para que a atenção de Luxuriah se desviasse de Lor’themar e fosse para sua irmã. Ash agora estava caída no chão, e com dificuldade sentou-se segurando o tornozelo, enquanto pesadas lágrimas rolavam de seus olhos. A mais velha correu então em direção à mais jovem e se ajoelhou ao seu lado. Lor’themar fizera o mesmo, e recebeu todo o ódio que ainda pulsava nela.

– Se afaste de minha irmã! – vociferou quando o elfo fez menção de tocar Ash.

Lor’themar então se afastou.

– Lux! – gritou Ash em meio às lágrimas e à dor – Por favor, ele não fez nada!

A elfa olhou para o tornozelo ferido da irmã e a encarou enraivecida.

– Não fez nada? Não fez nada?! Então me explique isso!

Sem pensar nas consequências, Ash simplesmente deixou que as palavras saíssem como torrentes de sua boca:

– Eu sei o que os humanos fizeram com você!

Luxuriah enrijeceu como se tivesse sido atingida por um raio, mas Ash continuou:

– Eu ouvi tio Aethas e Vivithi brigando ontem e eles... — ela hesitou um momento, tentando controlar as lágrimas e os soluços, mas sem conseguir – Eles falaram... Eu ouvi e... – o choro dela piorou e ela levou às mãos ao rosto, cobrindo-o de vergonha e dor – Eu sinto muito! Sinto muito que você tenha passado por isso!

Bolota grunhiu e passou a circular sua dona, tocando-a levemente com o focinho, como se a consolasse. E enquanto Ash se encolhia de dor e de vergonha de encarar a irmã, Luxuriah voltou sua atenção novamente a Lor’themar, que assentiu com a cabeça.

– O que ela ouviu? – perguntou com a voz cortada ao lorde regente.

Resumidamente, Lor’themar explicou toda a situação da noite anterior. Explicou aquilo que Ash sabia, como tinha achado-a na floresta e o pedido dela para não dormir sozinha. Claro, ele teve o cuidado de não citar o beijo. Luxuriah ficou um momento em silêncio e então quis saber.

– Foi isso?

Lor’themar sabia a verdadeira intenção daquela pergunta. Luxuriah queria saber se sua irmã sabia de sua gravidez e do que acontecera depois. Quando os dois se encararam, ele falou convicto.

– Isso foi tudo que aconteceu. Nada mais.

Por um momento achou que viu certo alívio na jovem à sua frente, mas pode ter sido apenas impressão. O fato foi que, depois de saber de tudo, Luxuriah se levantou calmamente e apontou com o queixo para Ash. Lor’themar então se aproximou da garota e a abraçou.

– Vou chamar Huaru para curar o tornozelo dela. – disse sem emoção na voz.

– Lux... – chamou Ash já aninhada nos braços do lorde regente-
Por favor...

Mas sua irmã não a olhou, nem atendeu ao seu chamado. Apenas saiu do quarto lentamente e fechou a porta sem fazer nenhum barulho. E para Ash, aquele silêncio foi pior que mil tempestades.

**************************

Doroteya gostou da comandante Wood instantaneamente. Não que isso fosse incomum, a druidesa tinha o dom de gostar de todas as pessoas, mesmo daquelas que não mereciam. Era uma das coisas que seu marido mais reclamava, mas que também mais admirava, essa capacidade de amar e perdoar praticamente ilimitada que ela tinha.

Ainda assim, a empatia que sentira com a comandante fora maior que o normal. Talvez pelo fato de sua postura e sua expressão lembrarem tanto seu falecido e amado Liam. Wood parecia ser do tipo honesta, justa e dedicada, características muito apreciadas pela worgenin e tão escassas no mundo.

Seria uma pena, pensou, quando a jovem militar se afastasse dela como todos sempre faziam.

Até lá, podia desfrutar da vista de Ventobravo, cidade que Doroteya achou imponente. Claro, não como Guilnéas, mas era tão grandiosa quanto. Mesmo assim, achou que ela deveria ter um pouco mais de árvores, assim como Darnassus. E menos carruagens enlouquecidas também.

– Esses cocheiros... Parece que a mãe deles está morrendo lá dentro. — a comandante franziu o cenho para o veículo que passou rápido demais por elas — Preciso urgentemente conversar com os guardas que não estão multando esses apressadinhos.

Doroteya apenas riu e continuou seguindo-a.

Como estava sem nenhuma montaria, a druidesa preferiu dispensar a carona no cavalo da comandante e seguiu viagem na forma de um belo cervo. E foi assim até chegarem à Bastilha, onde a comandante apeou, deixou o cavalo com um guarda e a guiou pelos corredores até o alojamento. Quando chegaram lá, Wood apontou para dentro do cômodo. Esperava sinceramente que os guilneianos tivessem deixado um lugar para Doroteya, ou ela teria que jogar algumas pessoas pela janela para mostrar seu descontentamento.

– Espero que você fique confortável, as camas são meio duras, mas...

– Aqui está ótimo!

A frase não foi dita em referência ao alojamento, mas a uma bela árvore que estava próxima a ele. Doroteya, já em sua forma de worgenin, olhava admirada para o belo carvalho, com galhos frondosos e cheios de ninhos. Ela assobiou animada e vários passarinhos desceram voando até ela e pousaram em seus braços. Encantada, se dirigiu à comandante, que a encarava sem entender.

– Aqui está ótimo! — repetiu — Dá para passar a noite sem nenhum problema!

– Você está se referindo...

– À arvore, claro! — e sorriu imensamente mostrando as presas delicadas — Vou ficar muito bem nela!

Wood piscou várias vezes, como se estivesse tentando processar o que ela havia dito. Por fim, suspirou e franziu o cenho.

– Olha, não sei como é o humor de vocês guilneianos, mas aqui em Ventobravo as pessoas tendem a ser mal humoradas e não entender muito de piadas. E eu sou a pior delas.

Doroteya não pareceu ofendida com a frase e apenas balançou a cabeça.

– Não é piada não. — disse animada — Eu vou ficar na árvore! Obrigada!

Wood cruzou os braços e baixou a cabeça, tentando entender a pessoa que estava sua frente. Sem conseguir, a encarou e fez a única pergunta plausível naquela situação.

– Por que diabos você prefere uma árvore a uma cama?

Talvez a pergunta tenha soado rude demais ou simplesmente Doroteya não soubesse o que responder. O fato é que a druidesa puxou sua trança para a frente, fazendo todos os passarinhos voarem assustados, e passou a alisar nervosamente os fios soltos da ponta.

– Eu... — disse titubeante — Apenas não quero causar mal estar a ninguém...

A comandante então se lembrou da forma com a qual os outros guilneianos trataram a ausência da druidesa, como se ela fosse um incomodo. Entendeu que a jovem preferia acampar no topo de uma árvore que dividir um cômodo com seus compatriotas, apenas para que eles não se sentissem mal com sua presença. Ela não sabia se entrava e batia em todos lá dentro ou se dava uma surra só em Doroteya mesmo.

– Não os julgue mal. — pediu a worgenin docemente ao ver o olhar duro da comandante — Eles têm motivos para não gostar de mim.

– E quais seriam esses motivos? — quis saber a outra.

Doroteya baixou os olhos e encarou a ponta da trança.

– É complicado... — murmurou.

E enquanto a worgenin continuava encarando sua trança, Wood se perguntava o que a outra havia feito de tão grave para ser tratada daquela forma. Não conseguia olhar para Doroteya e ver alguém que representasse algum tipo de perigo para seus aliados. Na verdade, não conseguia ver nada que representasse algum perigo nela para ninguém. E não era por seu porte ligeiramente menor que os outros worgens, nem pela coloração mais clara de seus pelos. Não era nem mesmo pela beleza exótica que a druidesa tinha; sim, pois, apesar da aparência selvagem, a jovem conseguira conservar traços claros de beleza que não havia em outras mulheres de sua espécie. E apesar de todos esses elementos tornarem Doroteya diferente, não era nada disso que despertara a simpatia de Wood.

Eram seus olhos.

Doroteya tinha olhos cor de mel, amendoados, que exibiam um brilho pouco comum nas pessoas de Azeroth. Era tranquilidade, calma, bondade... Todos os atributos das almas superiores que faziam falta naquele mundo em guerra. E não era somente isso. Havia uma pouco de inocência que levava a druidesa a ser considerada sem noção, meio louca. Wood conhecia aquilo, pois era a mesma inocência que percebia nos olhos de sua mãe. Ah, sua mãe louca, que dera nomes absurdos aos seus filhos, mas que quase morrera diversas vezes de fome por preferir que suas dezoito crias estivesse bem alimentadas, ao custo de sua própria saúde. Sim, era aquilo que mexia com Wood. Olhava para Doroteya e via sua mãe. Imaginava que seu pequeno filho também tinha o mesmo amor fanático que ela e seus irmãos tinham pela sua sem noção, mas muito amada, mãe.

E era por isso, muito mais que por sua obrigação como comandante, que não deixaria Doroteya dormindo em uma árvore ao relento.

Wood respirou fundo e fez um gesto para Doroteya.

– Venha. – disse.

– Mas comandante, a senhora...

– Eu disse: venha! – ordenou.

Doroteya pegou rapidamente suas coisas e a seguiu obedientemente.

Ambas entraram na Bastilha e foram diretamente à sala onde a comandante gostava de despachar seus soldados. Havia alguns esperando por ela e Wood rapidamente deu algumas ordens, assinou alguns papeis que lhe foram estendidos e logo fez sinal para que a druidesa a acompanhasse novamente.

Quando estavam caminhando pelos corredores da Bastilha, elas ouviram uma voz potente chamar.

– Comandante!

O chamado do rei de Ventobravo fez com que as duas parassem e se voltassem. Varian Wrynn vinha acompanhado do rei de Guilnéas, Genn Greymane e Wood bateu continência enquanto Doroteya fez uma profunda reverência.

– Tudo em ordem comandante? – perguntou o rei.

– Sim majestade. Os guilneianos estão devidamente acomodados e escalonados nas forças de Ventobravo. – respondeu com precisão militar.

– Excelente. – e vendo Doroteya, perguntou – Essa é a druidesa que escolheu para ajudá-la nas buscas?

– Sim senhor. – respondeu Wood sem pestanejar – Essa é Doroteya. Acredito que ela será uma ajuda valiosa na minha missão amanhã.

Não foi apenas Doroteya que encarou Wood como se ela tivesse falado o maior dos absurdos. De repente a comandante notou que Greymane lançava um olhar duro e frio na direção da druidesa, que baixou a cabeça em respeito.

– Acredito que fez uma escolha equivocada, comandante. – disse Greymane apertando os olhos na direção de Doroteya – Nossos outros druidas são bem mais preparados que essa jovem que escolheu.

Franzindo o cenho, Wood encarou o rei de Guilnéas sem se deixar intimidar.

– Com todo respeito vossa majestade, eu confio nas minhas escolhas. E se não soubesse fazê-las, não estaria nesse posto.

A frase foi dita em um tom calmo, respeitoso, mas firme. E foi o suficiente para Greymane parecer desconfortável. Doroteya continuava encarando os pés e o rei Varian trocou olhares com a comandante. Aquilo era extremamente raro, mas fora nesses poucos contatos visuais que eles estabeleceram um laço de confiança inabalável, que o rei só comparava ao que havia tido com Bolvar Fordragon. E mesmo tendo um forte sentimento de companheirismo e solidariedade com o rei deposto, não iria deixar que ele interferisse no trabalho de sua melhor soldado.

– A comandante Wood é de inteira confiança, Genn. – disse em tom conciliatório – Não se preocupe com a segurança dos seus. Se existe alguém que os deixará seguro, será a comandante.

Wood sabia bem que aquele olhar de Greymane nada tinha a ver com preocupação com o bem estar de Doroteya. Mas ele não diria isso na frente de Varian.

– Se a comandante tem sua confiança, Rei Wrynn, também tem a minha. – e acenou com a cabeça para a jovem.

– Venha, deixe-me lhe mostrar o resto da bastilha antes do jantar. – e se dirigindo a Wood, falou – Está dispensada por hoje comandante. Fez um bom trabalho.

A jovem bateu continência e fez um gesto para que Doroteya a acompanhasse. Antes de sair, porém, flagrou um último olhar de desprezo lançado por Greymane a Doroteya, que apenas se encolheu, parecendo muito triste e seguiu sua nova companheira de missão.

Quando chegaram ao estábulo, Wood se dirigiu ao cavalariço e quando estava com as rédeas de sua montaria, disse:

– Agora sei por que sua comitiva não gosta de você. – e encarou fixamente a druidesa.

– Sabe? – Doroteya pareceu muito assustada.

– É porque seu rei não gosta de você.

Doroteya baixou a cabeça e não respondeu.

– Estou certa, não é?

– Não o entenda mal, vossa majestade tem seus motivos. – disse no mesmo tom conciliatório em que defendera seus conterrâneos.

As duas mulheres ficaram alguns segundos em um silêncio tenso, até que Doroteya falou num murmúrio:

– Acredito que a comandante não vai querer mais minha companhia...

Wood arqueou uma única sobrancelha, incrédula com aquela frase.

– E porque eu não iria querer sua companhia? – perguntou.

Doroteya raspou o chão com o pé, fazendo suas garras levantarem um pouco de poeira antes de responder:

– Você não iria querer estar com alguém que nem seu próprio rei gosta...

– Greymane não é meu rei. – respondeu secamente – E eu ainda tenho vontade e opinião própria. – e diante do olhar surpreso que Doroteya lhe dirigiu, não aguentou e indagou exasperada — O que você fez de tão grave Doroteya, pra ter esse ódio todo dirigido a você? – e decidindo ser sincera, completou – Porque a impressão que eu tenho, é que você não merece essa hostilidade.

Contudo, a comandante não obteve resposta.

– Bem, não precisa falar se não quiser. – e subindo no cavalo, ordenou – Apenas me siga.

E mais uma vez Doroteya a obedeceu sem questionar. Andaram por uns bons minutos até chegarem a uma bela casa de dois andares, à margem de um dos canais que cortava Ventobravo. Wood acomodou sua montaria e fez um sinal para que a druidesa entrasse com ela.

O queixo da worgenin caiu quando viu o interior da residência. Era simples, mas muito lindo. Havia quadros enfeitando as paredes que Doroteya percebeu que não eram pinturas, mas tapeçarias belíssimas, que exibiam paisagens igualmente lindas. Havia uma lareira na sala, que já estava acesa e belas poltronas convidavam a se sentar perto dela. Uma escada com o corrimão decorado levava a um segundo andar, onde supôs que estavam os quartos e uma porta discreta mais a frente indicava uma cozinha. A casa era aconchegante e bela.

– Comandante? – chamou a worgenin sem jeito.

Wood, que tirara as luvas e as colocara num aparador, a olhou.

– Sim?

– Eu não tenho dinheiro para pagar uma hospedaria assim. – e apressadamente se justificou – Meu filho, sabe... Eu mando dinheiro para mantê-lo e...

– Aqui não é uma hospedaria. – disse Wood sem conseguir conter um pequeno sorriso – É minha casa. Você ficará hospedada aqui. E já que vai ser minha companheira de missão, posso assim controlar seus horários. – e franzindo a testa completou – Detesto esperar.

Wood esperava muitas reações de Doroteya, mas nunca a que ela teve. A worgenin levou às mãos compridas aos olhos e os cobriu enquanto chorava como uma criança pequena. Wood ficou paralisada; nunca soubera lidar com o choro de ninguém. Não sabia se dava uma tapinha no ombro da worgenin, se a abraçava ou se coçava suas orelhas e oferecia um osso. Na dúvida, ficou parada enquanto a outra se debulhava em lágrimas antes de falar, entre soluços:

– Desde Li-Liam, nin-ninguém foi-foi tã-tão bom comigo...

– Certo, não precisa chorar. – Wood levantou as mãos, mas logo as baixou, pois não sabia o que fazer – Um ‘obrigada’ serve.

Doroteya fungou, puxou a barra do vestido e limpou lá o nariz molhado e depois sorriu para Wood.

– Obrigada. – disse com a voz mais rouca ainda.

– Me agradeça trabalhando bem amanhã. – retrucou a outra.

Doroteya ficou novamente sem jeito.

– Sabe comandante, talvez o rei tenha razão e eu não seja a pessoa mais indicada para lhe acompanhar... – era nítido que a autoestima de Doroteya não era lá grande coisa.

– Vamos deixar algo claro, Doroteya. – disse Wood recuperando a compostura – Eu nunca, nunca, me enganei com uma pessoa. Tenho certeza que você não será meu primeiro erro. Sei que você dará conta do serviço. – e com as sobrancelhas franzidas, acrescentou – Se não fosse, o rei Greymane não teria dito nada. A atitude dele foi de quem teme que descubram o quão boa você é.

Abrindo um grande sorriso, a worgenin falou:

– Você é muito gentil comandante.

– Certo, mas não espalhe isso, ok? Não quero estragar minha fama. – e sorrindo, acrescentou – E pode me chamar de Lina.

****************************

Quando Luxuriah acordou naquele dia, sabia que algo estava incrivelmente errado. Primeiro, ela acordou tão enjoada que mal deu tempo chegar ao banheiro e por tudo que comera no dia anterior para fora. Por sorte, Huaru não acordou, o que deu tempo para que ela pudesse se recompor, tomar um banho e apagar os vestígios do vômito. Depois do banho, ela sentou em sua penteadeira e quando se olhou no espelho, tomou um susto. Estava anormalmente pálida, como se todo o sangue tivesse sido drenado de seu corpo. E também havia o cansaço. Estava tão cansada que tudo que queria fazer era voltar pra cama e dormir o resto do dia. Ao mesmo tempo, estava enjoada de estar no quarto, o que era uma contradição, visto que queria voltar para cama. Balançou a cabeça em negativa. O casamento de Kassyeh aparentemente a afetara mais que tudo.

Se soubesse o que a aguardava do outro lado do corredor, talvez tivesse ficado na cama e dormido para sempre.

Todavia, ela não voltou para cama, ainda que Huaru ainda estivesse lá dormindo profundamente. Levantou-se, vestiu-se e se encaminhou para fora do quarto. Primeiro foi na cozinha onde acabou comendo um grande pedaço do bolo de casamento de Kassyeh, que não tinha provado na noite anterior. Ignorou as possíveis consequências de comer algo tão doce depois de quase por o intestino para fora de tanto vomitar e comeu mesmo assim. Estava tão delicioso que ela repetiu três vezes o imenso pedaço. Foi quando soube que Tewdric já havia estado ali e já pegara a bandeja para Kassyeh. Bom orc.

Depois, subiu pacientemente pelas escadas, lambendo os dedos ainda açucarados e entrou no quarto de Karen e Saba. As meninas estavam deitadas na cama, mas Luxuriah pode ouvir risadinhas e som de empurrões por baixo do cobertor. Sorriu e fechou a porta. E foi então que entrara no quarto de Ash.

Encostada na parede do corredor, Luxuriah e respirou fundo.

Ash sabia.

Após anos tentando esconder aquele terrível acontecimento, sua irmãzinha soubera. Primeiro sentiu um ódio intenso de Aethas e Vivithi por terem sido tão relapsos. Depois começou a se perguntar por que diabos eles estavam discutindo para abordarem seu passado, aquele do qual ela se envergonhava e que ambos sabiam que trazia tanta dor, aos berros no escritório. E por último, sentiu um grande vazio dentro do peito.

Ash sabia.

Era estranho. Pensar que uma de suas irmãs sabia seu segredo não a deixava envergonhada, nem com raiva, nem histérica. Apenas vazia. Cansada.

Caminhou lentamente de volta para se quarto, como se suas pernas estivessem recobertas de chumbo, abriu a porta, fechou-a, encostou-se a ela e desceu lentamente até sentar no chão.

Ash sabia.

Com a cabeça entre os joelhos, Luxuriah esperou que as lágrimas viesse e estranhou que seus olhos se mantivessem secos. Seria o choque talvez? Não sabia. Ficou ali naquela posição, esperando que o pânico e a raiva tomassem de conta dela, mas tudo que sentiu foram duas mãos fortes tocando seus ombros.

– Bebê? — chamou Huaru — Você está bem?

– Não. — respondeu com a voz rouca — Não estou nenhum pouco bem.

Huaru então pegou-a delicadamente nos braços e a levou até a cama. Preocupado, passou os dedos pelo cabelo dela e sentou-se ao seu lado.

– O que aconteceu? — perguntou.

– Ash sabe... — murmurou colocando a mão sobre a dele.

E em poucas palavras explicou o que havia acontecido. O tauren escutou atentamente a narrativa, segurando com delicadeza a mão da caçadora. Quando ela concluiu o relato, ele apenas balançou a cabeça e indagou:

– Como você está se sentindo?

– Vazia.

Arqueando as sobrancelhas, ele a encarou sem dizer nada. Luxuriah então continuou:

– É estranho não é? Passei os últimos anos escondendo isso a todo custo para a Ash, logo a Ash, saber porque meu tio e Vivithi não conseguem manter a cabeça no lugar. — e suspirou desviando a vista para o lado.

Ponderando sobre o que acabara de ouvir, Huaru apertou levemente a mão de Luxuriah e quando ela o olhou, o paladino disse:

– Talvez esse vazio seja apenas alívio. — quando viu a surpresa estampada no belo rosto, prosseguiu com um sorriso — Esse fardo é pesado demais para se carregar sozinha, bebê. Em seu íntimo, você sabe disso. E está aliviada.

– Você não conta? — sem saber porque, Luxuriah sentiu um aperto no peito.

– Claro que sim bebê. — ele deu um sorriso tranquilizador — Mas é diferente. Eu entrei na sua vida sabendo de tudo. Uma irmã sua, sangue do seu sangue, sabendo de tudo é diferente. Você escondeu, mas ela agora sabe. Isso é, de certa forma uma alívio.

– Ela não sabe de tudo. — retorquiu a elfa.

– Sabe o suficiente para entender sua dor.

Provavelmente ele tinha razão, pensou a elfa ainda segurando a mão dele. Ash saber seu segredo poderia ajudá-la a manter Kass e Karen alheias a ele. E agora sua irmãzinha sabia exatamente porque odiava os humanos com tanta fúria e poderia se juntar a ela em seu ódio. Mesmo assim, lhe incomodava vê-la envolvida nisso.

– Você precisa ir curá-la. — disse por fim.

Huaru se levantou.

– Vamos.

– Eu? Não posso ir lá agora! — a elfa estava assustada com a possibilidade.

– Claro que pode. Na verdade, deve. Vocês precisam conversar.

– É justamente por isso que não quero ir lá. — sentenciou.

Franzindo a testa, Huaru falou:

– Bebê... — seu tom era reprovador.

Revirando os olhos, Luxuriah acabou se levantando também.

– Certo, certo, eu vou. — e com o dedo em riste, acrescentou — Mas não garanto que vou ter conversa nenhuma.

Sorrindo, o tauren não disse nada, apenas abriu a porta do quarto, esperou ela sair e então acompanhou.

Ambos sabiam que aquela conversa aconteceriam naquela manhã, mas não falaram mais nada.

**********************

– A Lux me odeia.

Lor'themar levantou os olhos e encarou Ash quando ela disse aquelas palavras. O elfo estivera verificando novamente a extensão dos danos no tornozelo da jovem, se perguntando se apenas uma magia de cura seria suficiente. Apesar de não ser sacerdote ou paladino sabia por experiência própria que alguns danos eram tão sérios que a pessoa poderia levar sequelas mesmo após uma excelente magia de cura. Contudo, para seu alívio, aquele não parecia ser o caso da jovem princesa.

A pergunta de Ash, contudo, mostrou que o tornozelo ferido não era nem de longe a sua principal preocupação.

– Sua irmã não tem porque te odiar. — respondeu ele soltando o delicado pé com cuidado — Se tem alguém que Luxuriah odeia no momento seriam Aethas e Vivithi.

– Eles não fizeram de propósito. — disse Ash.

– Mas foram relapsos. Eles não deveriam estar discutindo um assunto tão delicado aos berros no meio de uma festa de casamento. — Lor'themar balançou a cabeça — Com certeza Vivithi devia estar muito bêbada para cometer um erro desses.

– Bêbada e furiosa. — Ash suspirou.

– Aethas tem esse dom de deixar minha sobrinha furiosa. — e colocando a mão no queixo, ponderou — Ele é a única pessoa que consegue deixá-la assim.

Eles se calaram por um momento. Os olhos do lorde regente foram novamente para o pé de Ash que estava pousado sobre a cama. Apesar da tonalidade de roxo no tornozelo, aquele pé ainda era um belo exemplar da anatomia élfica. Era pequeno e delicado, com unhas rosadas e arredondadas, sem nenhuma marca ou mancha. O tipo de pé que ele passaria horas beijando...

Tão rápido como esse pensamento veio, Lor'themar o empurrou de volta para o fundo de sua mente. Aquilo era a última coisa que ele deveria fazer: desejar Ash. A reação de Luxuriah provou que estava certo desde o começo. Não deveria alimentar nenhum sentimento que não fosse paternal com a menina. Deveria respeitar a memória de Dhomm e Samanthah e não macular a filha deles com seus desejos insanos. Seria difícil, muito difícil, principalmente depois de ter se oferecido para treiná-la. Agora era tarde para voltar atrás, principalmente porque Ash precisava realmente de um treino mais aprofundado. Luxuriah aparentemente estava muito ocupada com seu tauren para notar que as habilidades de sua irmã já tinham amadurecido e que o treinamento básico que dera precisava ser aprimorado.

Sim, ele precisaria de todo seu auto controle para manter-se firme e afastado de Ash.

– Horrível não? — indagou Ash percebendo o interesse dele.

– De jeito nenhum, você tem um belo pé.

Ash ruborizou e Lor'themar percebeu que havia se entregado de bandeja à princesa. Ele colocou o punho em frente a boca e tossiu, tentando disfarçar.

– Digo, é um belo pé, apesar do machucado. Perfeito para uma patrulheira.

A jovem elfa estava tentando digerir o que ele havia dito quando a porta de seu quarto foi aberta. Involuntariamente, Lor'themar se afastou um pouco mais de Ash, o que a entristeceu, mas logo a sentimento foi substituído pela ansiedade. Luxuriah entrou junto com Huaru e trocou um rápido olhar com a irmã. Mas logo a caçadora se voltou para Lor'themar e chamou ele com um dedo enquanto o paladino se aproximava da cama da garota.

– Como você está Ash? — perguntou o tauren se sentando na cama ao lado dela.

– Com dor. — disse.

– Só no pé?

– No coração também. — respondeu sinceramente e olhou para a irmã que se afastava com Lor'themar para um canto distante do quarto.

Huaru seguiu seu olhar e depois a encarou.

– Sua irmã está lidando com isso da melhor forma que pode.

Ash não disse nada. O paladino pegou em seu pé e mexeu um pouco o tornozelo. Ash prendeu a respiração com a dor, mas não reclamou ou gritou. Huaru então assentiu com a cabeça.

– Só uma torção. Nada grave. Apenas uma cura rápida e você estará nova em folha.

Sem conseguir se conter, a elfa perguntou:

– Você sabe não é?

Huaru a olhou longamente antes de assentir.

– Como você, eu também descobri por acaso.

Ash não esperava por aqui. Estupefata, perguntou sem conseguir se conter:

– Como assim?

Huaru ponderou e achou que não faria mal que Ash soubesse a situação em que descobrira o segredo de Luxuriah.

– Ela contou para aquele elfo, Grey, seu segredo. E ele não conseguiu lidar com isso. Acho que de alguma forma ele a culpou por isso.

O rosto de Ash ficou imediatamente vermelho, mas não era de vergonha, era de fúria. Fechou os punhos com força, lutando para não gritar e chamar a atenção da irmã.

– Como ele pode pensar isso?! Minha irmã foi uma vítima!

– Sim, ela foi uma vítima das circunstâncias, mas nem todos tem esse discernimento. — e dando de ombros, acrescentou com um tom mais leve — Bem, melhor para mim. Se ele não fosse um imbecil total, eu não estaria com bebê agora. — e sorriu para a menina.

Se antes Ash já gostava de Huaru, agora o tauren tinha um lugar mais que especial em seu coração. Tewdric era o protetor de Kassyeh. Huaru era o curador de Luxuriah. Suas irmãs tinham pessoas incríveis ao seu lado. Será que ela um dia teria essa sorte? Será que Lor'themar viria a ser alguém especial em sua vida?

Enquanto Huaru e Ash conversavam e o paladino começava a curá-la, Luxuriah e Lor'themar também estavam envolvidos em um diálogo. Só que diferente do outro, esse era bem mais tenso.

– Tem certeza que ela não sabe do aborto? — perguntou.

– Absoluta. Ela não deixaria de mencionar algo tão sério.

– Dos males, o menor. — ponderou a caçadora cruzando os braços. — Se ela já surtou com o que sabe, não sei o que ela faria com essa outra informação.

– Talvez você devesse contar. — sugeriu o lorde regente. E diante do olhar estupefato de Luxuriah, explicou — Ash compreenderia. Ela é mais forte do que você pensa.

– Forte? — a elfa deu uma risada seca — Ela andou metade da floresta tendo alucinações porque soube de uma parte do segredo!

– Creio que isso se deve ao fato de ter sido algo inesperado. Se você a preparasse e contasse...

– Não. — cortou Luxuriah — De jeito nenhum. Já basta isso.

Lor'themar não retrucou. Deu de ombros e voltou sua atenção para Ash. Ela agora estava envolta numa luz dourada tão forte que até mesmo ele sentia a paz e a tranquilidade irradiada pela sala. Luxuriah aparentemente também sentia os efeitos, pois relaxou sua postura e descruzou os braços.

– Você está lidando bem com a situação. — elogiou o elfo — A essa altura eu esperava que você já tivesse executando minha sobrinha e seu tio.

Apesar do tom de brincadeira do lorde regente, Luxuriah sabia que ele estava discretamente perguntando o que ela faria com os dois fofoqueiros acidentais.

– Aqueles dois mereciam com certeza serem executados. — vociferou a elfa — Mas aí eu teria que contar às minhas outras irmãs o porquê das execuções. Então eles estão livres dessa sentença.

– Porém... — começou Lor'themar.

– Porém, terei uma conversa séria com os dois. Muito séria.

Uma solução melhor do que ele esperava, pensou o lorde regente.

– Só que antes, há outra conversa te esperando. — e Lor'themar apontou para a cama, onde Huaru se levantava e Ash mexia o pé sem dor.

– É, eu sei. — murmurou ela.

Luxuriah esperou que Huaru se afastasse da cama para se aproximar. Trocou um olhar com seu namorado e ele assentiu com a cabeça, confirmando que estava tudo bem. Depois, voltou sua atenção para Ash, que a encarou hesitante.

– Miladys. – disse Lor’themar curvando-se respeitosamente ignorando o olhar duro que Luxuriah lhe lançou – Estarei esperando-as lá embaixo. – e olhando uma última vez para Ash, se retirou.

– Eu também vou, bebê. – falou Huaru colocando a mão no ombro dela – Tudo bem?

– Tudo bem. – confirmou a elfa. – Logo estarei lá embaixo.

E o tauren saiu depois de dar um sorriso encorajador para Ash.

Assim, ficaram as duas irmãs sem saber exatamente o que dizer uma a outra naquela situação. Luxuriah queria sair correndo do quarto e não encarar aquela conversa, mas sabia que isso era impossível. Ash já sabia, restava agora saber como sua irmã iria lidar com aquela situação a partir de agora.

– Lux... – começou a mais jovem – Poderia se sentar?

Luxuriah pensou seriamente em dizer que estava muito bem em pé e que a última coisa que queria era sentar, mas ser rude com Ash depois de tudo seria uma grande injustiça. Por isso sentou na cama, cautelosamente, como se esperasse que uma cobra pulasse dos lençóis.

Só que Luxuriah não era a única a estar temerosa daquela conversa. Pensar que a irmã poderia odiá-la fazia Ash querer deixar de existir. Luxuriah sempre fora muito mais que uma irmã: era seu exemplo, sua inspiração. E a última coisa no mundo que gostaria era que essa ligação de alguma forma se rompesse ou mesmo enfraquecesse. Por isso, foi a primeira a falar.

– Desculpe. – disse tentando manter a voz firme – Desculpe.

– Pelo que? – perguntou a outra.

– Por tudo. – respondeu – Principalmente pelo vestido.

A barra do vestido que fora de Lady Luelly estava em frangalhos. Ainda havia pedaços de galhos presos entre os fios e manchas de lama subiam quase até o joelho. Luxuriah olhou para o estrago que Ash lhe apontara e deu de ombros.

– Isso é fácil de resolver. Qualquer alfaiate bom pode deixá-lo novinho. Não precisa se preocupar.

O silêncio se abateu novamente entre as duas. Enquanto Ash cutucava uma folha seca que estava presa no tecido, Luxuriah sabia que o próximo passo deveria ser seu. Mas não sabia como começar. Então decidiu que o melhor era evitar que o estrago fosse maior.

– Gostaria de lhe pedir um favor.

Ash a encarou.

– Peça.

Suspirando, a caçadora mais velha encarou os longos dedos da mão, antes de voltar sua atenção para a mais jovem.

– Não quero que Kassyeh ou Karensky saibam.

– Mesmo que você não me pedisse, eu jamais teria coragem de falar algo assim para elas... Principalmente para Karen – Ash pensou em sua irmãzinha irritante, mas tão amada e inocente, e no que aconteceria com seu mundo cor de rosa se ela fosse exposta a algo assim – Se depender de mim, elas jamais saberão.

– Se dependesse de mim nenhuma de vocês jamais saberia. – desabafou Luxuriah.

– Mas eu sei. – retrucou Ash.

– Sim, você sabe. – o tom de Luxuriah era de pesar – E eu deveria encher tio Aethas e Vivithi de flechas até eles ficarem parecendo duas almofadas de alfinete!

– Eles não fizeram por mal. Não faziam ideia de que eu estava ouvindo...

Luxuriah balançou a cabeça em negativa.

– Eles jamais deveriam falar de algo assim numa festa como aquela! Eles me desrespeitaram! Desrespeitaram meu pedido de silêncio! E desrespeitaram você também! – Luxuriah a encarou – Você nunca deveria ter sido exposta assim a algo desse tipo.

Ash sorriu tristemente e colocou a mão em cima da mão de Luxuriah.

– Sabe, apesar de tudo, eu estou feliz que isso tenha acontecido.

Por um momento Luxuriah achou que ela estava brincando ou que continuava tendo alucinações, mas logo percebeu que Ash estava sendo sincera e verdadeira.

– Por que você diz isso? – quis saber sem esconder seu estranhamento.

– Porque agora eu conheço mais você. – esclareceu – Sei o que você passou e como deve ter sido difícil conviver com esse pesadelo. Entendo mais também sua superproteção com a gente... Você não queria que corrêssemos o risco de passar a mesma coisa...

Um arrepio de terror percorreu as costas de Luxuriah só de imaginar alguma de suas irmãs vivendo aquele inferno.

– Eu preferia morrer a deixar vocês sofrerem um terço do que passei.

– Eu sei. – ela apertou a mão da irmã – Mas... – e parou de falar.

– Mas...

Ash não sabia como falar aquilo sem parecer presunçosa ou dura, só que não havia um jeito fácil de admitir o que estava sentindo.

– Eu não acho justo você ter carregado isso tudo sozinha, durante todos esses anos.

Por um momento, Luxuriah sentiu raiva da irmã.

– E o que você queria que eu fizesse? Que contasse a vocês, crianças na época, o que tinha acontecido? – perguntou exasperada.

Ash tirou rapidamente a mão de cima da dela.

– Na época não. Mas depois... – e respirando fundo, deixou que tudo que estava em seu coração saísse – Lux! Me dói saber que você não confiou na gente para te ajudar com essa dor! Que teve que depender de estranhos para isso!

– Era a única ajuda que eu precisava. – Lux sabia que estava sendo cruel, mas não evitou a resposta ácida.

Ash titubeou um pouco, mas logo se recompôs:

– Não, era a ajuda que você achava que precisava. A ajuda de um desconhecido nunca será como a de uma pessoa amada. Me diga, alguém que realmente te ama já pode te ajudar a aliviar essa dor? – e antes que a irmã respondesse, acrescentou rapidamente – Huaru não conta.

Apesar do momento tenso, Luxuriah não pode deixar de rir. Ash acabou rindo também, ainda que de forma mais contida.

– Claro que ele conta! – e ainda com um sorriso no rosto, falou – Ele foi a primeira pessoa a fazer eu me sentir bem, apesar disso tudo. E não foi porque eu quis, ele descobriu por acaso quando... – e Luxuriah rapidamente se calou.

– Quando você contou para Grey seu segredo. – completou Ash.

Luxuriah ficou tão transtornada com o que acabara de ouvir que se calou e encarou a irmã boquiaberta. Ash sentiu as bochechas ficarem vermelhas e se deu conta que talvez não devesse ter dito aquilo. Será que sua irmã ficaria com raiva de Huaru por ele ter te contado?

– Huaru lhe contou. – falou Luxuriah quando sua voz voltou.

– Não fique com raiva dele, tá? – pediu Ash.

– Será que esse povo não consegue ficar de boca calada?! – vociferou se levantando de um pulo e andando pelo quarto, enfurecida.

– Calma Lux! – Ash levantou-se também e passou a seguir a irmã — Ele me falou porque eu perguntei como ele tinha descoberto!

– Foi só isso que ele lhe falou?

Quando Luxuriah terminou de fazer essa pergunta, soube que tinha se entregado. Ash a olhou, desconfiada e deu um passo a sua frente. Instintivamente, Luxuriah recuou. Então a jovem teve certeza. Havia mais por trás do segredo de sua irmã.

– Há algo mais. – disse convicta — Aconteceu algo mais.

– Esqueça Ash. – Luxuriah começou a se caminhar novamente pelo quarto – Vamos por um ponto final nisso. Você soube o que me aconteceu. É o suficiente. Vamos encerrar essa conversa. – e se encaminhou para a porta do quarto.

Ash queria saber. Não por curiosidade, mas porque sentia que só poderia realmente compreender e ajudar Luxuriah se tivesse acesso ao mais profundo de seu íntimo. Nunca ficaria em paz se deixasse as coisas ficarem do jeito que estavam. Foi por isso que, sem temer represálias, segurou firmemente o braço de Luxuriah, impedindo ela de sair.

Chocada com a atitude da irmã, Luxuriah tentou soltar-se, mas Ash segurou ainda mais firme. As duas se encaram e a elfa mais velha reconheceu o brilho nos olhos da outra. Era o mesmo brilho de determinação e teimosia que costumava ver no espelho todas as manhãs.

– Eu sou sua irmã! – disse Ash com uma firmeza na voz que surpreendeu até ela mesma – Nós compartilhamos o mesmo sangue! Fomos geradas no mesmo útero! Não é justo que eu seja privada de tentar lhe ajudar, quando tantos por aí que não tem a mesma ligação que nós, pode!

– Ash... – começou Luxuriah, mas logo foi interrompida.

– Não é justo Lux! Eu te amo! Eu quero lhe ajudar! Eu quero lhe conhecer! Eu não quero mais que segredo nenhum nos separe! – havia um brilho de lágrimas nos olhos de Ash, mas a elfa se recusava a deixa-los sair.

Luxuriah parou de fazer força para soltar o braço e Ash relaxou.

– Você não entende... – a voz de Luxuriah era quase uma súplica – O que aconteceu depois... – ela balançou a cabeça – Você já sofreu tanto sabendo o que passei... Não quero que sofra mais.

Mas a jovem caçadora não desistiria fácil.

– Eu quero que você confie em mim, confie na sua irmã. Se a confiança vier através de um pouco de sofrimento, eu não me importo.

Luxuriah deu um sorriso triste.

– A questão Ash, é que você talvez até me odeie quando souber a história completa.

– Isso é impossível. – disse com convicção — Eu jamais odiaria você.

Luxuriah arqueou as sobrancelhas.

– Será mesmo? – duvidou. – E se a culpa da morte de nossos pais fosse minha? E se eu tivesse colaborado com o ataque?

Lógico que aquilo era um absurdo, mas Luxuriah queria demover Ash de sua vontade. Estava apostando que a irmã se acovardaria diante das possibilidades, mas logo soube que, apesar dos segredos, Ash realmente a conhecia. Pois a sua jovem irmã não pareceu abalada, apenas ergueu um pouco mais o queixo e disse confiantemente:

– Eu sei, com tanta certeza como o sol brilha todas as manhãs, que nenhuma dessas coisas é verdade. – e respirando fundo, disse com a maior coragem que conseguiu reunir — Então Lux, pare de me enrolar. Eu quero saber. Não importa o que seja. Deixe que eu lide com isso.

Não havia como fugir. Luxuriah sabia que desde o momento que soubera que Ash agora conhecia seu segredo, que era apenas uma questão de tempo para que ela tomasse conhecimento de tudo. Então, não havia mais como adiar. Com o coração apertado, apontou para a cama. Ash a soltou e ambas se sentaram de novo. Ash estava ansiosa e Luxuriah devastada. A muralha que a elfa mais velha construíra com tanto cuidado ao redor de suas irmãs estava prestes a desabar. Pelo menos a de Ash. Respirou fundo e começou hesitante:

– O... Ataque... Que eu sofri... Não foi a pior parte.

Esperou que Ash dissesse alguma coisa, mas a jovem continuou em silêncio.

– Semanas depois daquilo... Eu descobri que estava grávida.

– Grávida? – Ash estava mais confusa – Como você pode ter ficado grávida se você não tem nenhum... – e então ela entendeu – Oh! – e levou a mão à boca. – Oh!

Aquela era a pior que qualquer coisa que já havia passado, ponderou Luxuriah. Mas já começara, tinha que ir até o fim.

– Eu jamais teria um filho dos meus estupradores. Dos assassinos de meus pais. – a voz de Luxuriah estava calma e contida, para a surpresa da própria – Então eu procurei ajuda. E abortei. – dando um suspiro, ela continuou – Eu estava abalada demais, era jovem demais, e a poção forte demais. Acabei com minhas chances de ser mãe naquele momento. – ela passou as mãos em volta do corpo, da mesma forma que fizera quando contara a Grey – Por isso Grey me deixou. Porque, segundo ele, eu tinha matado meu filho. E tinha matado a esperança de ele construir uma família comigo. – Luxuriah fechou os olhos por um momento e quando os abriu, encarou a irmã — É isso. Esse é o resto do meu segredo. Agora você sabe de tudo.

Foi uma surpresa para Luxuriah perceber que não sabia o que esperar de Ash. Sua irmã era muito inconstante; às vezes agia como um coelhinho assustado e chorão e às vezes demostrava uma força incrível. Mas desejava, do fundo do coração, não ter que lidar com mais um abandono. E esse seria um milhão de vezes pior que o de Grey.

Nunca, jamais, Luxuriah sobreviveria a uma rejeição de suas irmãs.

– Que idiota! – disse de repente Ash com raiva.

– O quê? – o coração de Luxuriah se apertou tanto que ela não conseguiu respirar.

– Esse tal de Grey! – vociferou — Como ele pode te culpar?! Que imbecil! Huaru é mil vezes melhor que ele!

Os ouvidos de Luxuriah zumbiam e latejavam.

– C-como?

Ash balançou a cabeça em negativa.

– Imbecil, isso sim! Ele queria o quê? Que estragasse sua vida por causa disso? Que você criasse um mestiço, filho de assassinos e estupradores?! – e então, rapidamente se corrigiu — Não que ser mestiço seja ruim, né? Tipo, os filhos de Tewdric e Kass serão mestiços, esse não é o problema, mas...

Ash não terminou sua fala porque logo foi puxada para um apertado abraço. Com surpresa, percebeu que sua irmã chorava copiosamente com a cabeça enterrada em seu ombro. E a surpresa foi maior ainda porque ela não chorou. Não era sua vez de chorar. Era sua vez de consolar.

– Você fez o que era necessário fazer. – disse com um tom compreensivo – Não se culpe e não permita que ninguém te culpe por isso.

Até aquele momento, Luxuriah não sabia o quanto era importante ouvir uma de suas irmãs dizer isso. Até então, não tinha percebido que o seu maior medo não era que elas descobrissem que fora estuprada, mas que aquele estupro tinha gerado uma criança que ela abortara. Tinha medo que a olhassem da mesma forma como Grey a olhou e que dessem as costas para ela. Temia, mais que tudo, que perdesse o respeito e admiração das pessoas mais importante de sua vida.

E aquele medo, que até então era desconhecido, se evaporou. Ash sabia. Sabia, compreendia e ainda a amava. Era muito mais que poderia desejar.

– O-obri-ga-da Ash. – disse entre soluços – Obrigada...

– Obrigada também Lux. – respondeu – Obrigada por confiar em mim. – sua voz ficou mais firme quando continuou — E eu prometo a você que, a partir de hoje, todo humano terá meu ódio irrestrito e eterno. E todos aqueles que se encontrarem comigo, encontraram sua morte por minhas mãos. Eu vou vingá-la, irmã. Vou vingar nossos pais e vou vingar seu útero perdido.

Elas permaneceram abraçadas por muito tempo, como se quisessem recuperar o tempo perdido em meio aos segredos, como se quisessem recuperar as pessoas que elas foram no passado, como se tivessem acabado de se reencontrar após anos de separação.

Sim, estavam finalmente juntas de novo.