Herdeiros da Guerra
23 Capítulo XIX – Todas nós (PARTE Ii)
Notas iniciais
CONTINUANDO
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Tudo que Luxuriah queria era permanecer deitada. Em volta de seu corpo, os braços de suas irmãs a acalentavam. Mas logo todas teriam que ir. Teriam que tocar suas vidas e ela ficaria sem aquele conforto por todo dia. Abriu os olhos e viu que Karen já não estava mais ali. Ótimo. A pequena tinha que passar o máximo de tempo com Saba antes dela ir embora. Já se sentia mal por ela ter passado a noite ali e não com sua amiguinha.
— Acordada? — a voz de Kassyeh chegou aos seus ouvidos.
Talvez a pessoa ali cujo sofrimento mais chegava perto do seu era Kassyeh, afinal, ela acreditara no amor de Huaru tanto quanto a caçadora. Talvez até mais.
— Sim. — disse se aconchegando mais na irmã – Mas preferia ter continuado dormindo. Estava sonhando com papai e mamãe. Estávamos felizes no sonho. — as lágrimas começaram a voltar aos olhos dela.
— Seremos felizes de novo, você verá. — Kassyeh colocou a mão na barriga dela – Quando esse pequeno ser vir ao mundo, seremos mais felizes que nunca!
— Vocês estão atrapalhando meu sono. — reclamou Ash sem abrir os olhos e agarrando as irmãs – Deixem pra fazer planos mais tarde…
Kassyeh riu e, para sua surpresa, Luxuriah também.
— Você tem coisas para fazer Ash. — disse Luxuriah passando a mão no cabelo dela – Tem que treinar com Lor’themar.
A mais jovem abriu os olhos, nitidamente irritada.
— Eu devia dar um chute na bunda dele, isso sim.
— Ash! — ralhou Kassyeh.
— É verdade! Depois que ele disse que nosso beijo foi um erro, eu-
Kassyeh sentou-se ereta na cama.
— Como é?! Você beijou quem?!
— Ah, ela não sabia. — comentou Luxuriah percebendo então que Kassyeh estivera alheia ao assunto devido as circunstâncias em que Ash descobrira tudo.
Ash olhou para Lux em busca de um caminho, pois para contar a história dela e de Lor’themar. Se contasse em detalhes, Kass descobriria coisas que a mais velha não quereria que ela descobrisse. Seria covardia deixar Lux inventar algo no estado que ela se encontrava, mas Ash simplesmente não sabia o que fazer e apenas calou-se.
— Vamos! — ordenou Kassyeh puxando o lençol delas – Me contem que história é essa?!
Luxuriah sentou-se também e Ash a imitou.
— Foi no seu casamento. — começou Luxuriah – Eles dois dançaram e-
— Ah! — exclamou Kass interrompendo a irmã – Bem que eu e o Tewdric desconfiávamos de algo!
— Vocês desconfiaram de quê? — quis saber Ash interessada.
— Não lembra? Tewdric achou que Lor’themar estava se engraçando para você. — lembrou Luxuriah. E foi com uma dor no coração, que ela comentou – Huaru também…
Ash levantou a mão, como se pedisse silêncio.
— Vamos nos concentrar em Kass e Tewdric. — e olhando para a maga, perguntou empolgada – O que vocês desconfiavam? Conte!
Da mesma forma que a tristeza chegou no coração de Luxuriah, ela foi embora. O rosto de Ash estava iluminado e alegre demais para que permanecesse triste. Era como um pequeno raio de sol em um dia nublado.
— Bem, enquanto estávamos dançando, Tewdric disse que Lor’themar te olhava como se você fosse uma maçã madura e suculenta pronta para ser mordida.
Ash gemeu e meteu a cara nos lençóis.
— Como eu queria que ele me mordesse! — disse com a voz abafada.
— Ash! — Kassyeh parecia surpresa, mas ostentava um enorme sorriso – Pela Nascente do Sol, desde quando você está tão interessada nele?
— Parece que faz tempo Kass. — revelou Luxuriah sem conseguir deixar de rir também – Parece que nossa irmãzinha anda desejando secretamente o nosso lorde regente…
Ash enfiou ainda mais a cara nos lençóis e elas caíram na risada. Depois, a jovem levantou a cabeça, expondo a face ruborizada e um pouco raivosa.
— De que adianta meu interesse se ele não tem interesse nenhum?! — protestou.
— Discordo. — Kassyeh parecia pensativa – Lembrando agora, ele parecia bem desconcertado quando deixou de dançar com você. Eu pude ver que havia algo ali. Até alertei ele que não mexesse com você…
Ash praticamente pulou em cima da irmã.
— Como você disse como a ele?! — perguntou desesperada.
— Disse que ele não despertasse nada que não quisesse corresponder. — respondeu Kassyeh assustada com o desespero da irmã.
— Nãããoo!!! — disse Ash horrorizada.
— Mas ele te beijou depois Ash. — lembrou a mais velha – Isso não conta?
O sorriso voltou a Ash.
— É verdade. Beijou. — e depois ela ficou triste de novo – E pediu desculpas! Ai que ódio! — e passou a socar o lençol – Elfo burro! Podíamos estar nos mordendo agora!
Kassyeh caiu na risada com a expressão trágica e ao mesmo tempo cômica de Ash. Luxuriah Também riu. Na verdade, ela começou a gargalhar. Sua risada foi aumentando de tamanho, até que se deitou na cama segurando o estômago. E para a surpresa das irmãs, o riso de repetente virou choro e Luxuriah se encolheu na cama.
— Lux! — exclamaram elas indo até a irmã.
A elfa apenas chorava. E quando tentava falar, misturava um riso estranho com o choro, até conseguir balbuciar.
— D-Descul-ppe Ash… S-sua histó-tória… — e enterrou a cabeça nos travesseiros, soluçando.
— Não tem o que desculpar Lux. — disse Ash passando a mão no cabelo da irmã – Eu quem não devia pensar naquele imbecil enquanto você está sofrendo ai.
Luxuriah balançou a cabeça em negativa, como se discordasse da irmã. Ela tentou falar algo, mas Kassyeh apertou levemente seu ombro, calando-a.
— Lux, para nós, tudo o que importa nesse momento é você.
Ash concordou com a cabeça e depois completou:
— Você é nossa irmã. Você cuidou de nós. Quando tudo parecia perdido, você estava lá. — a jovem elfa sentiu as lágrimas boiando em seus olhos, mas não se importou. Sua família era algo pelo que valia apena verter algumas lágrimas – Não importa o que aconteça. Estaremos aqui para você. Chore se quiser chorar. Não vamos te recriminar. Estaremos aqui para enxugar suas lágrimas.
— E quando isso tudo passar, – continuou Kassyeh – porque nenhuma dor dura para sempre, ainda estaremos aqui. E compartilharemos os risos e as alegrias. E também nossas experiências sexuais com a Ash, para que ela saiba o que fazer com Lor’themar.
— Oh, isso muito me interessa! — concordou Ash.
E o riso novamente voltou aos lábios de Luxuriah.
— Isso, muito bem. Quero ver você sempre sorrindo. — pediu Kassyeh passando a mão no rosto da irmã – Vamos cuidar muito bem de você.
Luxuriah sabia que não conseguiria passar por tudo se não tivesse as meninas ali com ela. E ainda assim, o vazio era grande demais dentro dela. Só podia tentar esquecer na companhia das pessoas que realmente a amavam.
— Hora do café da manhã! — anunciou Kassyeh se levantando – Vão querer comer o quê?
O pensamento de comida, de colocar alguma coisa na boca, fez o estômago de Luxuriah revirar. Ela se levantou de repente e correu para o banheiro. Lá, ela colocou apenas a bile para fora, já que desde ontem não comia nada. Ficou na privada, sentindo os espasmos tomarem conta de seu corpo, deixando lágrimas grossas de vergonha e nojo rolando em sua face. Kassyeh foi até ela e segurou seu cabelo, enquanto ela terminava de vomitar. Quando o mal estar deu uma trégua, Luxuriah se levantou cambaleando.
— Não quero saber de comida. — disse com a voz trêmula – Nem eu, nem o bebê.
— Tudo bem. Tudo bem. — Kassyeh a acalentava – O que acha de um banho hein? Para se sentir melhor?
Luxuriah concordou. Enquanto se despia, sua irmã dava descarga e depois foi ajudá-la.
— Quer que eu lave seus cabelos? — perguntou.
— Não, não, consigo fazer isso.
— Um banho de banheira não a relaxaria? — quis saber Ash chegando no banheiro também.
— Não pode. — avisou a maga – Banho de imersão não é bom para grávidas.
— Ah! — exclamou a mais jovem.
Grávida. Se enxergar desse jeito era tão estranho para Luxuriah. Contudo, havia um pequeno ser ali dentro. Ela tocou na barriga, já um pouco crescida, pensando em como foi tão burra ao deixar todos os sintomas passarem despercebidos. Deveria ter notado algo errado desde que fora a Orgrimmar. Mas, como desconfiara, se não sempre achou que não podia ter filhos?
— Vamos deixar você a vontade. — falou Kassyeh chamando Ash para sair.
Ficou muito agradecida quando as irmãs fecharam a porta. As amava mais que tudo, mas com a água escorrendo por seu corpo, sentiu que seria um bom momento para tentar pôr em ordem as cosias em sua mente. Estava grávida. Estava sozinha. O coração apertou de novo. Não, não conseguia. Como pensar em Huaru em sentir-se sendo partida ao meio? Deixou esses pensamentos de lado. Se concentrou em seu bebê. Se concentrou em pensar em como seria. Menino? Menina? Se pareceria com ela ou com Grey. Argh! Também não queria pensar em Grey. Decidiu que o bebê pareceria com ela, não importando que seus olhos lhe mostrassem outra coisa. Seria uma pequena Luxuriah, correndo pelos bosques de Luaprata. Era isso? Seria uma menina? Seu coração se acelerou. Como era mesmo que sua mãe dizia? As mães sabiam. Samanthah sempre lhe disse que sabia o sexo das filhas, tão logo ficava grávida. Então, era verdade? Seria uma bela menininha? Os olhos de Luxuriah se encheu de lágrimas, mas era de alegria. Sim, seria uma menina. Uma pequena e graciosa elfa. Que provavelmente com o decorrer dos anos se tornaria tão forte e insuportável como a mãe, levando pesadelos a muitos elfos, que logo a comparariam com a mãe. Mas que se danem o que os outros diriam. Porque, com a família, ela seria diferente. Pensou em todo mimo que Tewdric dera a Karen e se deu conta que sua bebê teria o mesmo mimo. Talvez até mais. E então, por incrível que parecesse, a calma encheu seu coração. Ela não teria um pai, mas teria um Tewdric. O que podeira ser muito, muito melhor que um pai. E pior também. Não podia deixar que ele estragasse a menina…
E foram esses pensamentos que acalentaram a elfa. Os pensamentos de sua filha, sim, porque seria uma menina, correndo por aí e sendo atirada no ar por Tewdric. Tendo Karen como companhia de brincadeiras. Sendo alimentada por Kassyeh. Tendo em Ashrial alguém com quem aprenderia a amar os animais. Ela seria coberta por amor de todos só lados. Sim, era isso que aguardava sua pequena.
Quando estava mais segura de si mesma, Luxuriah terminou seu banho. Vestiu um robe de seda e saiu do banheiro. Kassyeh e Ash ainda estava lá, conversando e rindo. Parecia que Ash tinha conseguido contar sobre o beijo de Lor’themar sem sua ajuda. E agora receberia conselhos da irmã. Ficou um pouco preocupada, pois com certeza o que agradava um orc estava a anos-luz de agradar um elfo como Lor’themar.
Ou não. As vezes o lorde regente parecia se irar a um ponto que até os orcs se assustariam. Talvez desse certo.
Se encaminhou para seu closet. Estava agora preocupada com o que vestiria. Suas roupas já estavam apertadas. A grande maioria de seu vestuário era de armaduras e indumentárias bem justas, feitas para o combate. Seria difícil tirar alguma coisa dali que a deixasse confortável. Principalmente nos meses que viriam pela frente. Começou a procurar entre as roupas recém-colocadas ali alguma coisa para usar, quando sua mão encontrou uma alça e a puxou. As roupas de Huaru caíram no chão e a bolsa aberta dele estava em sua mão. Luxuriah jogou a mochila no chão, como se ela estivesse em chamas. Depois, lentamente, se abaixou e ficou olhando as camisas e calças espalhadas ali. Pegou uma delas. Levou ao rosto. O cheiro dele a envolveu. Sentiu-se imersa novamente em todas as lembranças, em todas as coisas que viveram juntos. A pouca calmaria que ela conseguira a abandonou tão rápido quanto um curativo removido a força. E doeu. Doeu muito. Não, não conseguia se livrar daquele sofrimento. Era demais, demais para ela. Tão intenso que sabia que morreria se não gritasse.
Então gritou. Gritou com toda a força do seu ser. Gritou querendo que sua dor se espalhasse pelo ar e a abandonasse de vez. Gritou, como se pedisse socorro. Como se pedisse que ele voltasse e acabasse com aquilo. Aquele grito não era apenas seu. Era o grito da menina que ela fora. E da menina que carregava em seu ventre. As três gritaram tão alto, tão desesperadamente, que as forças abandonou o corpo da elfa. E, ainda agarrada a camisa de Huaru, Luxuriah tombou para o lado, sendo engolida pela escuridão de sua própria alma.
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— Você não devia estar aqui. — disse Kayliel incomodado.
Rommath estava parado na varanda do salão de reuniões, em um dos andares mais altos, olhando para o bosque lá em baixo que rodeava a Torre Solfúria.
— Por que não? — quis saber o arquimago, indiferente – Eu sou um dos conselheiros, você sabe.
— Não é para isso que você está aqui. — acusou o irmão – Eu não vou deixar você se aproveitar da situação de Luxuriah.
As orelhas de Rommath tremeram de raiva.
— Ás vezes penso que você me tem como um ser sem coração, Kayliel. — falou sobriamente.
— O quê? Vai dizer que essa situação não te agrada? — acusou o sacerdote.
Rommath apertou os olhos.
— Estou tão feliz com essa situação quanto você, Kayliel. — falou – Eu amo a Luxuriah sim, e a última coisa que eu desejo nesse mundo é a infelicidade dela.
A revelação deixou Kayliel sem reação.
— Mas eu ouvi comentários que você estava rindo com Lor’themar…
— Eu estava rindo de Lor’themar. Ele entendeu errado. — Rommath suspirou – Vamos lá irmãozinho. Deixe-me explicar de uma forma que sua mente poluída com as ideias dos Fendessol entenda. — ele deu uma pausa dramática enquanto via o rosto de seu irmão ficar vermelho de raiva. Rommath adorava fazer aquilo – Eu amo a Luxuriah? Sim. Eu quero ficar com ela? Sim também. Eu estou feliz porque o tauren vai embora? Estou. Queria que fosse em uma situação diferente? Absolutamente! Adoraria que ele estive indo porque ela teria preferido a mim, mas infelizmente não é o caso. Estou feliz com o sofrimento dela? Jamais! Eu sempre estive disposto a esperar a morte dele e o luto dela para me aproximar. Eu não quero que ela sofra. — a voz dele ficou mais baixa e ele suspirou – A última coisa que aquela menina precisa é de mais sofrimento. Por isso, irmãozinho, não, não vou me aproveitar dela. Mas também não ficarei longe. Mostrarei que estou aqui para o que ela precisar.
Eles ficaram calados e Kayliel ficou sem saber o que dizer. Sempre soube que os sentimentos de Rommath eram fortes, mas não a esse ponto. Eram tão intensos que o fazia duvidar até da profundidade do que ele sentia por Arshe. Teria seu irmão em seu lugar a abandonado? Pela postura de Rommath, achava que era mais fácil ele ter enfiado Arshe dentro de Luaprata e mandado todos se acostumarem ou eles queimariam. É, seria típico dele.
— O bebê está bem? — perguntou o magíster, interrompendo só pensamentos do irmão.
— Sim. — ele se aproximou da varanda também – Está bem forte. Não acredito que a Lux terá problemas na gravidez.
O olhar de Rommath se suavizou.
— Que bom.
Kayliel olhou o irmão com o rabo do olho.
— Você seria um excelente pai. — disse de repente.
— Claro que seria. — concordou o outro franzindo a testa – Quem foi que trocou a maior parte de suas fraldas? Que te ensinou a usar a privada? Que lhe disse que colocar o frasco verde e brilhante do meu laboratório na boca não era bom?
— Ah! — exclamou o mais jovem baixando a cabeça – Você adora jogar essas coisas na minha cara!
— Claro! Não foi minha culpa se nossa mãe decidiu ter você depois de séculos de me ter. E depois decidir que não tinha mais paciência. Foi como criar um filho, sim!
— Eu também não tive culpa, sabia?! — protestou o outro.
Rommath gargalhou.
— Eu sei. Mas adoro provocar você. — e balançou a cabeça – As vantagens de ter um irmão mais novo.
Kayliel acabou rindo também. Depois, ficaram em silêncio, olhando o bosque.
— A rainha foi em busca do tauren. — informou Kayliel.
— Eu sei.
— Você acha que ele volta?
O magíster pensou um pouco.
— Eu espero que sim. — respondeu causando a incredulidade do outro – Por que essa cara? Eu lhe disse. Não quero ver ela infeliz. E se ser feliz é ficar com o tauren, volto ao meu plano original: espero mais uns setenta anos. — e pensou um pouco – Ou menos, se ele for metido a paladino herói.
— E qual seu plano agora? — quis saber.
— Ficar por perto. Ajudá-la no que for. Com ou sem tauren.
Foi quando eles ouviram o grito. O sangue gelou nas veias dele quando perceberam de quem era a voz em agonia. Sem nenhuma palavra ambos se lançaram na direção da porta. O andar do quarto de Luxuriah era perto e logo eles estavam lá. E não eram os únicos. A maioria dos servos, além de Lor’themar, Aethas e Vivithi se precipitaram para o quarto.
— Deixem-me passar! — pedia Kayliel.
Como ele era quem estava cuidando de Luxuriah, todos o deixaram passar. Rommath aproveitou o caminho aberto para seu irmão para também entrar no quarto. Logo viram Luxuriah, em seu robe vermelho de seda, desacordada no chão do closet, segurando um pedaço de tecido muito grande. Quando chegaram mais perto, Rommath percebeu que se tratava de uma das roupas do tauren. O ódio ferveu dentro dele. Como aquele imbecil ousava fazê-la sofrer a esse ponto?!
— Kayliel! — gritou Kassyeh desesperada – E-ela está, está- — a elfa não conseguiu terminar a frase porque caiu no choro, agarrada com a irmã inconsciente.
— Calma princesa. — pediu o sacerdote se aproximando – Deixe-me examiná-la.
— Leve-a para a cama. — sugeriu o magíster.
Kayliel concordou e, gentilmente, desvencilhou Luxuriah do abraço protetor de Kassyeh, antes de pegá-la no braço e levá-la para a cama. A essa altura, mas gente tinha chegado, entre eles Tewdric, que acotovelou todos os elfos presentes para conseguir se aproximar.
— Eu mato! — gritou ele enfurecido, erguendo os braços – Eu mato aquele tauren idiota!
— Tewdric! — exclamou Ash preocupada– Não fale essas coisas aqui! Ela pode tá ouvindo!
Contudo, Luxuriah parecia além do alcance das vozes deles.
— Preciso que todos saiam. — pediu Kayliel arregaçando as mangas – Todo esse barulho vai prejudicá-la.
Ash então passou a pedir que todos saíssem, inclusive seu tio e os demais. Rommath relutou, mas achou melhor sair também. Lançou um último olhar para Luxuriah desfalecida na cama e se encaminhou para fora.
— Tirem as coisas dele daqui! — gritou Kassyeh – Tirem as malditas coisas dele do quarto da Lux!
Todos sabiam que ela se referia às roupas de Huaru. Uma serva se adiantou e recolheu tudo, deixando a mochila no corredor. Depois todos saíram, ficando no quarto apenas Kassyeh e Kayliel. No corredor, estavam Rommath, Ash, Tewdric, Lor’themar Vivithi e Aethas. Todos se entreolhavam, preocupados demais para dizer qualquer coisa. Ficaram assim um bom tempo, até que o orc quebrou o silêncio.
— Cadê a Karenzita? — quis saber olhando ao redor.
Lor’themar e Rommath se entreolharam.
— Ela foi falar com Huaru. — revelou o lorde regente, agora pensando que deixar ela ir fora uma péssima ideia.
— O quê??? — gritou o orc dando razão aos receios de Lor’themar – Se ele ferir os sentimentos da minha menininha como feriu o da Lulu, vou partir ele em dois! — e dizendo isso, se lançou em direção a escada – Eu nunca vou perdoá-lo! — e sumiu da vista de todos.
Os presentes ficaram sem saber o que fazer, até que Aethas indagou:
— Devemos deixá-lo ir?
— Você vai lá impedi-lo? — perguntou Vivithi com ar de deboche.
— Para quê? — retrucou o mago – Ser partido em dois? Não mesmo!
— Então, não pergunte coisas estúpidas! — disse a elfa.
— Vocês dois, parem! — pediu Ash – Não temos tempo para isso! A situação está tensa!
— Ash tem razão. — quem falou foi Lor’themar, e Ash sentiu todos os pelos do corpo se arrepiarem. — A situação está além da nossa capacidade de resolver. Ficar aqui também não vai adiantar. Devemos ir para a sala de reuniões.
— E as coisas de Huaru? — quis saber Aethas.
— Deixe comigo. — falou Rommath para a surpresa de todos – Acho que sou o único que vai manter o sangue frio diante do tauren.
— Você é a última pessoa em Azeroth que vai manter o sangue frio! — exclamou Lor’themar, sendo apoiado por todos que estavam lá.
Rommath deu de ombros.
— Não farei tanto estrago quanto o orc, tenham certeza. — e se abaixando, pegou a mochila de Huaru – Entregarei se o encontrar com os membros ainda no lugar certo. — e saiu, seguindo pelo mesmo caminho que Tewdric seguira.
Lor’themar levou a mão à cabeça.
— Tudo está ficando infinitamente pior do que eu pensei... — murmurou o lorde regente.
— Tenho a sensação que vai ficar pior. — respondeu Ash.
Os dois se entreolharam, mas logo afastaram a vista. Havia muita coisa para se pensar, e a situação deles não era prioridade no momento.
E eles ficaram ali, parados, como se esperassem que as engrenagens do destino resolvem todo aquele inferno em que eles foram lançados.
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Karen não conhecia os bosques ao redor da Torre Solfúria como conhecia os ao redor de Luaprata, mas mesmo assim não tardou a encontrar Huaru. A menina ficou parada alguns momentos, apenas o observando, pensando no que exatamente falaria. Será que ele iria ouvi-la? Huaru poderia simplesmente se recusar a falar com ela. Bem, tentaria. Por sua irmã. E por ela mesma.
— Huaru? — chamou se aproximando mais.
Normalmente ela teria usado o apelido que lhe dera, mas achava que a situação não era propícia a isso. O tauren levantou a cabeça e a olhou longamente. Como ele não disse nada, ela se aproximou mais e sentou-se na pedra junto com ele, da mesma forma que Tewdric fizera mais cedo.
— Saba já foi? — perguntou ele.
— Já. — respondeu Karen – Vivi foi deixar a Saba em casa hoje de manhã.
— Você deve estar bem triste. — comentou o paladino.
— Estou sim. — concordou – Mas não por causa da Saba. Sei que vou ver ela em breve. — e o encarando, completou – Estou triste por causa da Lux. E de você.
Huaru sustentou o olhar de Karen e se sentiu infinitamente pior do que já estava. Até o dia anterior tinha sua primeira discípula e estava com uma mulher que julgava amar mais que tudo; hoje, estava se sentindo sozinho, estranho, e prestes a perder tudo.
— O que te contaram? — quis saber antes de tudo.
— Que a Lux tá grávida daquele elfo que me deu a escudada. — ela franziu a testa – E também que você não gostou disso e por isso foi embora.
— Eu não fui embora. — protestou ele.
— Você vai? — indagou Karen o olhando intensamente com seus imensos olhos verdes.
O coração dele se apertou. Como queria saber a resposta para aquela pergunta.
— Karen… — começou – É complicado…
— Então me explique! — exigiu a menina.
O paladino respirou fundo. Ele mesmo tentava entender o que estava acontecendo dentro dele e agora teria que achar uma resposta para toda a situação. Karen merecia isso. Merecia que ele respondesse suas perguntas e a desse uma direção.
— Você acha que a Lux lhe traiu? — foi a indagação repentina de Karen.
— Não! — exclamou – Eu jamais pensaria isso da Luxuriah!
— Então você deixou de amá-la? — prosseguiu ela com seu questionamento.
— Não… — sua voz saiu mais baixa que antes – Não deixei e acho que nunca vou deixar…
Karen parecia exasperada.
— Então qual é a droga do problema?! — gritou frustrada – Por que você está aqui com essa cara de sofrimento e ela lá também sofrendo se vocês se amam?!
As lágrimas já rolavam no pequeno e gracioso rosto e Huaru se odiou por isso. Seu papel era proteger e ensinar aquela menina, mas agora suas ações estavam destroçando-a um pouco a cada momento. Da mesma forma que ele fazia com Luxuriah. Era impossível não se sentir horrível por toda aquela situação.
A menina ainda o encarava, com suas grossas lágrimas e o olhar questionador, esperando que ele se explicasse, que falasse qualquer coisa que parecesse pelo menos aceitável para ela. Karen queria saber porque de repente um mundo seguro e bonito que ela morava havia estourado como se fosse uma bolha de sabão. Queria saber porque, depois de tanto tempo vivendo protegida e amada, ela sentiu uma pressão no peito que não reconhecia, mas que no futuro saberia que significava decepção e amargura. Karen só queria entender porque a família linda que construíra em sua mente agora ruía diante de seus olhos sem que ela pudesse fazer nada.
Claro, muitos anos depois, Karen entendeu como aquele momento fora crucial para seu crescimento. Quando, já coroada rainha e líder sobre seu povo, perguntaram em que momento ela sentiu que precisava crescer para se tornar a governante que era, Karen apontaria aquele dia quente, mas ameno, que ela sentara com um tauren chamado Huaru e que ele lhe dissera que as coisas não era exatamente como ela pensava e que o mundo dos adultos era muito, muito mais complexo. Diria que, por um momento, ela não desejou crescer. Que desejara que pudesse permanecer presa em seu corpo de onze anos, jovem para qualquer raça e muito mais jovem ainda para a sua. Que desejara puder correr pelas florestas com Saba e nunca, nunca se deparar com nada que lhe causasse dor. A rainha diria então no futuro para seus filhos que fora naquele dia que ela, pela primeira vez, teve contato com o que realmente era seu mundo. E doeu. Doeu muito.
— Eu amo a Luxuriah. — lhe disse Huaru – A amo muito. Mas, talvez, todo esse amor não seja o suficiente.
Os lábios da menina tremera. Aquilo simplesmente soava incompreensível para quem crescera cercada de amor.
— C-como o am-mor não é-é sufici-ente? — gaguejou incrédula.
— Ela carrega um filho de outra pessoa. De uma pessoa a quem roubarei se aceitar ficar com ela.
Karen levantou-se da pedra com um pulo.
— E o que importa?! — gritou com o rosto em chamas – O que importa o Grey?! Ele abandonou a Lux!
— Ele não sabia que ela estava grávida. — retrucou ele sem conseguir encarar a face ruborizada de raiva da menina.
— Nem você! — acusou – Você também não sabia! E a aceitou mesmo assim, não foi?! Você a quis antes! Por que não quer mais?!
— Eu quero! — protestou ele.
— Se quisesse estaria lá com ela e não aqui! — sentenciou a jovem elfa. — E olhe pra mim quando eu falo com você!
Huaru levantou a cabeça e encarou os imensos olhos verdes marejados de lágrimas.
— Karen… — começou ele.
— Não! — gritou ela – Não quero mais ouvir mentiras nem desculpas! Então diga logo: você vai ficar com ela? Vai aceitar a pessoa que você ama, ainda que esteja para ter o filho de outro? Ela não lhe traiu! Ela já estava com esse bebê antes! Se você a aceitou antes, por que não aceita agora?!
O silêncio se abateu sobre os dois enquanto se encaravam. Um vento forte passou pelos dois, agitando só cabelos loiros de Karen e os pelos castanhos de Huaru. As árvores balançaram seus galhos e deixaram cair muitas folhas e flores no chão. Depois que o vento parou, eles ainda se olhavam, como se estivessem congelados no tempo. Então Huaru tomou sua decisão.
— Você será uma excelente Rainha. — disse com um sorriso triste – Se defender seu povo com essa paixão, não haverá ninguém melhor que você.
Karen o olhava, sem entender.
— Tenho certeza que Lady Liadrin ficará feliz em assumir seu treinamento.
As orelhas de Karen tremeram intensamente.
— E a Luxuriah arrumará alguém que a mereça. Que possa construir um lar com ela. — ele suspirou – Ela é uma princesa agora. Tem responsabilidades. Tem um filho para criar. Sua vida está definida e feita. A minha é só um amontoado de palitos que ainda estou tentando arrumar. Ela ficará melhor sem mim. Poderá casar com um elfo e ser o que seu povo precisa.
A menina abriu a boca para dizer algo, mas a voz não saia. Estava chocada demais para dizer qualquer coisa.
— Sei que parece egoísta. Decidir sozinho. Mas será melhor assim. — disse com a voz entristecida – Desejo tudo de bom para vocês. E espero que vocês um dia possam me perdoar.
Karen deu as costas para ele e correu. Correu o máximo que suas pequenas pernas permitiam. Não, não queria acreditar. Não queria acreditar que o seu Huhu, o tauren maravilhoso que conhecera, que a levara a Mulgore, que a salvara, que brincara com ela e a ensinara, esse tauren maravilhoso fosse capaz de tomar uma decisão tão egoísta e infantil! Se era para acabar daquele jeito, porque tudo começara então? Por que ele não as deixou desde o começo? Por que teve que se infiltrar na vida delas, que não era perfeita mas era feliz e deixar agora uma ferida tão grande?
Em sua corrida desenfreada, Karen não viu quando Tewdric vinha em sua direção.
— Karensky! — gritou o orc com a voz desesperada.
Karen parou de supetão, reconhecendo a voz. Tewdric nunca, nunca a chamara pelo nome completo.
Tewdric se aproximou correndo, se abaixou e a abraçou com força. Todo o choro que ainda estava preso na garganta de Karen saíram em um grito rasgado e dolorido. O orc então a pegou nos braços e foi com ela na direção da torre, mas não entrou quando chegou lá. Sentou-se em um bando e passou a embalar a menina sem eu colo.
— Ele vai embora! — chorava Karen desesperadamente – O Huhu vai embora e vai nos deixar! Por que Ted? Por que?
— Não sei Karenzita. — murmurou ele com a voz embargada – Não sei. Queria saber, mas não sei.
A menina continuou chorando copiosamente enquanto Tewdric a embalava carinhosamente como se fosse um bebê. Ele deixou que ela colocasse tudo para fora, enquanto o agarrava como se fosse uma tábua de madeira em meio a um mar agitado. E foi só quando sentiu lágrimas que não eram suas cair em seu rosto, Karen silenciou.
Tewdric chorava silenciosamente.
— T-Ted… — chamou ela com a voz quase sumida – Você está… C-chorando?
— Acho que sim, Karenzita. — respondeu o orc agora escondendo o rosto com uma das mãos.
— M-Mas… Por que? — quis saber a menina.
Houve um momento de silêncio e então o orc respondeu:
— Por você. Pela Lulu. Pela minha Kass. Pela Ash. Por toda a dor que vocês tão sentindo e que eu não posso tirar.
Karen segurou seu rosto, afastando a mão que cobria os olhos azuis do orc.
— Você está aqui. — disse ela – É o suficiente. — e apertando os olhos, pediu com a vozinha fraca – Só prometa que nunca vai embora. Prometa!
— Nunca! — exclamou ele convicto – Nunca vou deixar vocês!
E então ela o abraçou mais forte e passaram a se consolar mutuamente.
Não viram o elfo de vestes vermelhas que segurava um martelo e uma mochila se dirigir para o fundo do bosque, exatamente do lugar de onde Karen viera.
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Os soldados no comando de Lina se aglomeram na porta da estalagem pouco tempo depois que ela entrou. Eles estavam sem entender porque de repente sua comandante estava tão certa que conseguiria as informações necessárias, nem porque os proibira de entrar no recinto.
— E se ela estiver em perigo? — perguntou um deles.
— Bobagem. — disse outro – É mais fácil os bandidos estarem em perigo com ela lá.
De repente um uivo de dor foi ouvido e os soldados sentiram o sangue gelar nas veias. Era um som da mais pura agonia. E era masculino. Os soldados se entreolharam, como se estivessem procurando uma explicação para aquilo quando o segundo grito se ouviu. Instintivamente deram um passo para trás.
Durante os minutos seguintes, que para os soldados duraram horas, ouviram só pavorosos gritos de dor e pedidos de ajuda vindo do lado de dentro da estalagem. E eles não eram os únicos a ouvirem. A população do vilarejo se encolheu tanto que apreciam uma massa só, diante do horror das vozes que se espalhavam no ar. Logo os pedidos de ajuda das vozes se tornaram em súplicas desesperadas por morte, para que a dor acabasse. E, de repente, os gritos pararam. Instantes depois a comandante saiu da estalagem, com seu tabardo imaculado, calçando a luvas e com um sorriso triunfante nos lábios. Ela não havia reparado ainda que seu cabelo estava quase todo queimado. Aquela aparência junto com o sorriso só deixava sua imagem ainda mais terrorizante.
Quando a comandante saiu da estalagem com todas as informações que precisava, viu que seus soldados estavam encolhidos todos juntos e a olhavam assustados. Ela suspirou. Devia ter mandando eles darem uma volta.
— Venham aqui. — ordenou com sua voz potente.
Todos correram tão depressa na direção dela que dois ou três caíram de cara no chão antes de se levantarem rapidamente e se juntarem aos demais.
— Vamos nos dividir. — disse quando todos estavam aos eu redor – Seis ficarão aqui, responsáveis pela vila e, principalmente pela segurança da princesa Arshe. Não precisam ficar dentro da prefeitura – completou rapidamente – Apenas fiquem na entrada. Não quero que ela se estresse acordando e dando de cara com um monte de soldados – a razão era outra, óbvio, mas eles não precisavam saber – Brienne, você fica para liderar. Os demais vão comigo. A base não é longe daqui. Sequer usaremos cavalos. Vamos pegá-los de surpresa.
— Faremos prisioneiros? — perguntou um dos soldados.
— Se alguém se render, aceitem a rendição. Mas se quiserem lutar até a morte… Dê o que eles querem.
Instantes depois os grupos estavam divididos e a comandante avançava com sua comitiva para a base dos Delfias. Sabia que estariam em desvantagem numérica, mas tinham ao seu favor o fator surpresa. Eles não esperariam um ataque no meio da noite porque conheciam a fama de cautelosa da comandante. O que eles não conheciam era sua fúria devastadora. Mas estavam prestes a conhecer.
A base era uma caverna em um monte após o rio. Conseguiram chegar lá sem chamar atenção e viram ao seu favor fogueiras acesas e pessoas despreocupadas e até embriagadas. A comandante esperou um pouco, observou a movimentação deles e depois de um tempo, ordenou em voz baixa:
— Agora!
Os Delfias foram pegos de surpresa. Demoraram minutos preciosos para perceberem que estavam sob ataque. E revidaram. Mas eles não estavam prontos para os soldados bem treinados escolhidos a dedo por Lina, nem pela voracidade com a qual lutavam. Claro, eles não teriam como saber que aquela voracidade vinha tanto da admiração que sentiam pela comandante quanto pelo medo que ela incutira sem querer neles naquela noite. Nenhum ali estava disposto a decepcioná-la.
E não decepcionaram. Eles conseguiram tomar a base dos Delfias sem nenhuma baixa, apenas com feridos. A própria comandante levou uma flechada no ombro, mas isso não a impediu de conseguir seu intento. Ela apenas quebrou a haste e deixou a ponta dentro para Doroteya tirar depois. E em pouco tempo os Delfias sobreviventes estavam devidamente amarrados, enquanto os soldados confiscavam suas montarias e os suprimentos que haviam lá, provavelmente roubados da vila. Encontraram também muitos prisioneiros, principalmente moças, que estava sendo mantidas como escravas. Lina libertou todos e prometeu levá-los de volta para casa.
Só precisava de mais uma coisa.
Com a ajuda de Jon, ela procurou por qualquer coisa que pudesse parecer com um antídoto, ou mesmo com o veneno em si. Por um momento, invejou a habilidade de sua irmã maga que entendia daqueles frascos esfumaçantes, pois assim poderia logo descobrir como ajudar Arshe. Quando viu que estava perdendo tempo, ordenou:
— Coloquem tudo o que acharem dentro desse baú e vamos levar.
E antes que a lua estivesse no meio do céu, eles voltaram para o vilarejo.
Os aldeões ficaram pasmos quando viram que a comitiva da comandante voltara vitoriosa, trazendo muitos dos jovens que tinham sido levados, além de animais e dos suprimentos. Alguns começaram a chorar quando reconheceram seus filhos e passaram a agradecer a comandante, quase a reverenciando como uma santa.
— Só fiz meu trabalho. Não precisam se ajoelhar. — disse levantando uma senhora que estava agarrada nos dois filhos – Vá cuidar de seus filhos e daqueles que, infelizmente não puderam reaver os deles.
Enquanto deixava os aldeões comemorarem sua libertação e a volta de seus filhos, Lina sabia que seu trabalho ainda não havia terminado.
Havia Arshe.
Mandou que levassem o baú com as cosias confiscadas dos Delfias até a porta da prefeitura. Precisava saber como estava a princesa antes que mandasse seus soldados subirem com o baú.
— Esperem aqui com o baú. — avisou – Eu mando vocês subirem quando for a hora.
Ninguém a questionou e a comandante subiu as escadas. Bateu de leve na porta do quarto e anunciou:
— Sou eu.
— Entre. — respondeu Doroteya com sua voz de worgenin.
Ao abrir a porta e seus olhos pousarem em Arshe, Lina percebeu que ela havia piorado. A falta dos gritos não era um bom indício; Arshe estava pálida como a morte, com o corpo coberto de suor e apenas gemia. Quando olhou para Doroteya, viu que a druidesa chorava.
— Doro? — chamou sentindo um aperto na garganta.
— Não consigo ajudá-la… — murmurou a druidesa.
Lina pensou em se adiantar e dar um abraço em Doroteya, fazer um carinho em sua barriga e dizer que estava tudo bem. Mas não podiam perder tempo. Saiu do quarto e foi até o corrimão da escada, ordenando que os soldados trouxessem o baú. Quando os dois rapazes apareceram com a carga, a comandante percebeu que Doroteya parecia um pouquinho mais feliz.
— Acho que o que você está procurando está aí. — anunciou a comandante – Agora você poderá ajudá-la.
A worgenin enxugou as lágrimas e sorriu antes de se pôr a trabalhar.
Lina sentou-se ao lado de Arshe e passou a velar por ela enquanto Doroteya abria o baú e começava sua pesquisa. A jovem maga estava muito fraca. Havia olheiras muito mais pesadas sob seus olhos que na noite passada e sua voz se resumia a um gemido irregular. Lina molhou o pano e passou na testa dela, pensando pela primeira vez no que Varian diria se algo acontecesse a Arshe. Até então só pensara em Bolvar. Não era por menos. Apesar de toda admiração que tinha para o rei, apenas recentemente ele se tornara… Como poderia dizer… Íntimo. Bolvar a treinara. A lapidara. Transformara o ser irascível que era numa militar de primeira linha. E não fora apenas isso.
Os boatos que eles tinham algo começaram quando a fazenda dos pais de Lina estava com dívidas devido a uma péssima safra e a acidente que transfora muitos dos melhores vinhos em vinagre. Ela ficara tão transtornada que pensou em sair do exército. Lembrava que Bolvar fora totalmente contra.
— Como você pensa em sair?! — lhe dissera alarmado – Você é a melhor soldado que tenho!
Estava parada em pé de frente ao Grão lorde sentado em sua mesa e que agora a olhava como se ela tivesse dito o maior dos absurdos do mundo. E talvez realmente estivesse.
— Tenho que ajudar meus pais de alguma maneira. — dissera tentando permanecer impassível e segurar as lágrimas – E o dinheiro que ganho aqui não vai dar pra cobrir os gastos.
Ele a encarara.
— E como pensa em ganhar dinheiro então? — perguntou desconfiado.
Fora a única vez que realmente ficara com vergonha do que falaria para ele. Normalmente não tinha muito controle sobre sua boca, o que sempre lhe rendia castigos e orientações um pouco mais duras. Só que o que tinha que falar agora a deixava muito mais que envergonhada. Baixou a cabeça e murmurou:
— M-me oferec-ceram... Muito d-dinheiro... Para tra-trabalhar… — ela gaguejava e engasgava. Então fechou os olhos e respirou fundo – Nas Damas da Noite. — disse rapidamente como se arranca um curativo.
O bordel de luxo de Ventobravo.
Houve um momento de silêncio. Lina se arriscou a levantar a cabeça e encará-lo. A cor do rosto de Bolvar estava roxa de raiva. Por um momento achou que ele fosse explodir, mas o Grão lorde apenas se levantou abruptamente e ordenou:
— Não saia daqui!
E ela não saiu.
Quando ele voltou, trazia uma grande sacola que tilintava.
— De quanto você precisa? — perguntou colocando a sacola na mesa.
Lina empalideceu.
— Senhor eu não posso…
— Pode. — disse com um tom autoritário que a fez se encolher um pouco – Pode e vai. Não vou deixar que a melhor recruta que me apareceu em anos se torne uma prostituta. Você vai aceitar o dinheiro, vai pagar a dívida e, quando puder, me ressarce. É uma ordem.
E Lina caiu em lágrimas.
Bolvar se adiantou e a abraçou.
Não foi um abraço romântico. Para Lina era como abraçar seu pai. E foi pensando nisso que decidiu aceitar o dinheiro. Não queria sair do exército. Não queria se prostituir. Queria continuar ali, servindo seu povo, mas queria também salvar sua família. Então, aceitou o dinheiro.
Só que alguém vira ao braço dos dois e acabou saindo espalhando coisas por aí. Bolvar, quando tomara conhecimento dos boatos, pediu pra AVIN apurar quem começara e juntou os suspeitos em uma sala por uma hora. Foram conversar. Pelo menos foi o que o Grão lorde dissera. Não importa o rumo da conversa; a questão é que depois disso os boatos pararam. Mas foi o suficiente para chegar nos ouvidos de seu irmão Tommy. Porém, ele nunca perguntara nada. Nem quando ela apareceu com o dinheiro. Até a briga do dia anterior, ele jamais tocara no assunto. Talvez por isso ela perdera a cabeça.
Levou anos para ela pagar a dívida e conseguiu. Um dia antes de Bolvar seguir para o Portão da Ira. Apesar disso, ainda se sentia em dívida com ele. E agora, segurando a mão da única filha que ele tivera, da pessoa que Bolvar mais amara no mundo, sabia que faria qualquer coisa para cuidar dela. Nunca precisara se preocupar antes com Arshe pois ela sempre estava nos lugares mais seguros, vigiada sempre por Varian. E ainda assim, a princesa conseguira se pôr em apuros. Bem, se Varian não poderia estar sempre por perto, Lina estaria.
— Achei! — um grito triunfante foi dado por Doroteya – Achei a fórmula!
Lina apertou mais a mão de Arshe.
— Do antídoto? — quis saber ansiosa.
A worgenin fez que sim com a cabeça.
— E tudo que preciso está aqui! Farei agora mesmo! — e começou a agir.
O laboratório que a worgenin dispunha não era grande o suficiente para produzir o remédio, mas como Lina havia trazido tudo do esconderijo dos Delfias, havia lá tudo que ela precisaria. Primeiro Doroteya montou o laboratório o mais rápido que pode e então, com a receita em mãos, começou a misturar ervas, colocar pós e todas as coisas complicadas que a comandante não entendia. Minutos depois, o quarto estava cheio de uma fumaça perfumada das misturas feitas. Poderia ser apenas impressão da comandante, mas ela achava que a respiração de Arshe já melhorara só com aquele perfume no ar.
O problema era a lentidão que a fumava virava líquido e pingava no frasco colocado para receber o antídoto. Arshe já nem tia mais forças para tossir, então cada vez que ela parecia engasgar, Lina lhe dava um pouco da poção que, pelo menos, a deixava viva. O tempo foi passando enquanto o laboratório de Doroteya insistia em produzir gota por gota do antídoto. Doroteya estava à beira de um ataque de nervos. Sabia que a qualquer momento Arshe poderia piorar e então morrer. Por isso, quando já havia o suficiente para um gole, a druidesa falou:
— Lina, temos um gole somente. É quase certeza que seja necessário mais, só que não quero esperar tanto. — disse olhando para o frasco com o líquido azul.
— Traga. — ordenou a comandante.
Doroteya deixou outro frasco colhendo mais do líquido e se dirigiu até onde estava a princesa com o que tinha em mãos. Foi necessária a ajuda de Lina para que conseguissem que a princesa bebesse. E, para a felicidade das duas, quase que imediatamente a respiração de Arshe normalizou ao beber o líquido. O rosto foi ganhando uma coloração rosada. Até a expressão de seu rosto ficou mais calma. Delicadamente, Doroteya a virou para analisar suas costas.
— A ferida fechou! — comemorou.
E alguns minutos depois a febre também começou a ceder, mas Lina não conseguia ficar aliviada totalmente.
— Quanto tempo até termos mais? — perguntou.
— Quinze minutos, acredito. Vou tentar apressar.
E Doroteya voltou ao laboratório improvisado. E concentrada como estava, a worgenin não percebeu quando Arshe apertou a mão de Lina que, surpresa, viu a princesa entreabrir os imensos olhos azuis. Ela murmurou algo e a comandante disse suavemente, apertando sua mão:
— Não se esforce. Descanse.
Mas Arshe continuava a balbuciar. Ela então se inclinou para ouvir.
— E-Ele me mandou uma c-carta… — ela tossiu um pouco, mas continuou — M-mas não quero… Não quero v-vê-lo…
Sabia a quem Arshe estava se referindo.
— Se você não quer vê-lo, não verá. — sua voz era consoladora e ao mesmo tempo firme – Ele não vai se aproximar de você. — e apertando a mão da jovem continuou – Descanse. Você está segura comigo. Não deixarei ninguém te magoar.
Arshe sorriu fracamente e fechou os olhos mais uma vez. Logo estava dormindo profundamente, enquanto seu corpo se curava. A comandante suspirou. Mais uma obrigação para que cumprisse. Mas não se importou. Agora sim sentia que pagava sua dívida com seu mentor.
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O pôr do sol lançava intensas cores em tons laranjas e vermelhos no céu azul de Luaprata. Huaru sabia que tinha que tomar sua decisão. A qualquer momento, Tewdric apareceria e poderiam começar uma luta. E o paladino não queria lutar. Gostava do orc. Gostava de todos ali. E amava Luxuriah, sim amava.
Mas será que amava o suficiente?
Depois do dia todo pensando, lembrou de algo que a moça dissera a Grey. Se há outra opção que não seja ficar com ela, não era amor. Talvez ela estivesse certa. Talvez seu amor não fosse assim tão grande quanto imaginava. Ou seria apenas medo? Medo de embarcar naquela jornada cujo final nada sabia? Enquanto estava ali, pensando, lembrou da visão que tivera no Poço das Visões. Agora entendia. Aquela luz que acalentara era o filho de Luxuriah. E os caminhos que se abriram para ele era a decisão que teria que tomar naquele momento. Uma decisão que mudaria por completo sua vida, para melhor ou pior. Que decidiria o destino de todos ali.
Um barulho de alguém se aproximando chamou sua atenção. Por um momento pensou que Tewdric decidira antecipar o embate. Mas era um elfo. Um elfo de vestes vermelhas, com uma lapela que cobria metade de seu rosto e deixava entrever apenas seus olhos. Ao lado dele, algo vinha levitando. Com um aperto no coração, Huaru percebeu que era sua bagagem e seu martelo.
— Estão me expulsando? — perguntou.
— Você mesmo não já fez isso? — retrucou o mago.
O tauren nada respondeu. O elfo o analisou.
— Se eu não trouxesse suas coisas – explicou – Kassyeh colocaria fogo nelas. Deveria ser grato a mim. — e como o paladino nada respondeu, continuou – Talvez você não me conheça. Sou o Grão-Magister Rommath. Comando a força arcana de Quel’thalas.
Então lembrou-se. Luxuriah já lhe falara dele antes.
— Você é o elfo apaixonado por Luxuriah há tempos.
Rommath soltou uma risada.
— É impressionante como está tem sido minha referência há algum tempo. — e batendo com o cajado no chão, completou – Apesar de preferir ser conhecido pela minha alcunha arcana.
Os dois se encararam um tempo, antes do tauren perguntar:
— Veio me pedir para ir logo embora?
Suspirando, Rommath pensou que era exatamente aquilo que queria. Queria ver o tauren pelas costas. O mais longe possível de Luxuriah. E não era o único. Pelo pouco que vira naquele dia, a maioria das pessoas na torre ou queriam matar Huaru ou fazer um churrasco. Na verdade, queriam as duas coisas. Morte e churrasco. Não era uma ideia ruim afinal.
Todavia, na raiva, eles estavam esquecendo com quem devia realmente se preocupar, e não era com a raiva deles próprios. Luxuriah jazia em enorme sofrimento, colocando em risco não só a própria saúde mas também da criança que carregava. Uma criança que, até então ninguém pensara, seria a próxima na linha de sucessão. Se algo acontecesse a Karen ou ela não viesse a ter filhos, seria o bebê de Luxuriah a herdar o trono de Luaprata.
E foi com todas essas coisas em sua cabeça, que Rommath finalmente respondeu a pergunta de Huaru:
— Vim pedir para você ficar.
Huaru arregalou os olhos sem acreditar no que ouvia. Nem o próprio Rommath acreditava que estava dizendo aquilo.
— Quero deixar claro que eu não gosto de você. — disse o mago rispidamente – Luxuriah sempre foi uma elfa esplêndida, muito antes de eu descobrir que ela era descendente do rei Anasterian. Ela merece muito mais que um jovem e tolo ser de outra raça. — e deixando a voz um pouco mais conformada, ele completou – Porém, ela te ama. E se o que ela precisa no momento é de você, é isso que eu quero dar a ela.
Huaru ficou sem acreditar no que ouvia. Aquele elfo deveria ter muitos séculos de vida, uma sabedoria imensa e um orgulho maior ainda e estava ali, pedindo que outro ficasse com a mulher amada, apenas para vê-la feliz. Se fosse ele, Huaru, ele faria a quilo? Não. Nunca. Nunca seria tão altruísta, mesmo sendo um paladino.
Foi então que percebeu que Rommath tinha o amor que Luxuriah precisava.
O tauren se levantou. Por um momento, Rommath lutou contra a raiva e a felicidade que o invadiram ao mesmo tempo. Raiva porque o tauren ia voltar. Felicidade porque o sofrimento de Luxuriah acabaria. Mas, imediatamente a felicidade prevaleceu. Porque, no final de tudo, era ela quem importava.
Huaru se aproximou dele. Pegou o machado e a mochila e depois sorriu tristemente.
— Não é de mim que a Luxuriah precisa. — disse para total espanto do mago – É do seu amor.
Rommath ficou tão surpreso que não conseguiu dizer nada.
— Eu não vou conseguir. — continuou o paladino – Não vou conseguir lidar com tudo isso. Como você mesmo disse, sou tolo e jovem. É muito para carregar. Ela já tem a vida feita. Eu só atrapalharia. Principalmente agora, com um sucessor do trono no ventre dela. — e colocando a mão no ombro do mago, concluiu – Cuide dela por mim. Faça-a a feliz. Como eu jamais conseguiria.
Era aquilo realmente que ouvia, pensou Rommath, ele iria embora? Deixaria Luxuriah jogada no chão, sofrendo, sentindo a falta dele como se fosse morrer? Fora aquele covarde e imbecil a quem ele, o Grão-magíster Rommath havia apelado? Fechou os punhos com força, contendo a vontade de fazê-lo sangrar, fazê-lo sofrer tanto quanto ela sofria. Mas séculos de vivência, aliado à imensa traição da pessoa a quem confiara sua vida o ensinara a se controlar. Por isso, em vez de conjurar fogo, fez um portal, que mostrava a imagem trêmula do Penhasco do Trovão.
— Se você quer correr, se quer fugir, não o impedirei. — disse Rommath – Mas vá logo, enquanto eu ainda consigo deixá-lo ir vivo e inteiro.
Huaru assentiu.
— Obrigado. — e antes de entrar no portal e sumir da vida de Luxuriah, ele novamente pediu – Cuide dela.
— Cuidarei. — respondeu Rommath – Mas não porque você está pedindo.
— Eu sei. — foram as últimas palavras de Huaru antes de atravessar o portal de volta para sua casa.
Quando se viu sozinho e a energia arcana que mantinha o portal se desvaneceu, Rommath explodiu. Gritou com ódio, com fúria, com toda a raiva acumulada naquele dia e deixou que chamas lambessem as árvores ao redor. Permitiu que seu poder arcano explodisse e se elevasse aos céus. Fez aquilo por ele mesmo e por Luxuriah. E só quando começou a ouvir vozes que corriam naquela direção, foi que percebeu que talvez tivesse exagerado. Com um simples movimento, fez o fogo se apagar. E quando virou-se, viu Lor’themar e mais alguns guardas armados. O lorde regente olhou ao redor, como se procurasse um grande cadáver carbonizado.
— Não precisa se preocupar. — comentou quase desinteressado – O tauren foi embora. Abri um portal e ele voltou para o Penhasco do Trovão.
Lor’themar abriu os braços e mostrou os arredores.
— E o que foi isso?
Rommath deu de ombros.
— Apenas extravasando um pouco as minhas frustrações. Nada demais.
— Nada demais?! — gritou o lorde regente – Mais um pouco e o fogo chegaria a torre!
— Mas não chegou. — e caminhando calmamente, passou por Lor’themar – Com licença, tenho coisas a resolver – e num clarão mágico, sumiu da vista de todos.
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Kayliel estava mais preocupado que nunca. Estava de frente ao quarto de Luxuriah, se perguntando se deveria entrar novamente ou não. Conseguira reanimá-la, mas a elfa continuava na cama, se recusando a comer, com a tristeza estampada em seu rosto. Aquela hora, toda esperança que a caçadora pudesse ter já se esvaziara. Afinal, percebera que as roupas de Huaru não estavam mais ali. Será que ela imaginaria que ali bem perto sua irmã caçula também sofria o abandono do tauren? Será que sabia que agora, a única pessoa que permanecia calma e sã era, por incrível que parecesse, Ash, considerada a mais frágil das irmãs?
“A força das pessoas se mostra quando menos se espera”, pensou o sacerdote.
E como se lesse os pensamentos, Ash apareceu do seu lado.
— Ela já comeu algo? — quis saber.
Kayliel fez que não com a cabeça.
— O que faremos então? — o tom de Ash não era desesperado como o de Kassyeh, mas demostrava que sua preocupação com a irmã estava em um nível que beirava o insuportável.
— Confesso que não faço ideia. — ele virou-se para Ash – Ela precisa comer, mas também não podemos forçá-la. Ela pode simplesmente vomitar tudo.
— Quando eu era criança – começou a jovem – consegui fazer ela comer depois que nossos pais morreram fingindo brincar com uma boneca. – ela suspirou – Acho que isso não funcionaria hoje.
Kayliel sorriu para Ash e colocou a mão em seu ombro, reconfortando-a.
— Não se sinta mal por isso. Você está fazendo todo o possível pela sua irmã.
Ash concordou com a cabeça e pôs a mão em cima da de Kayliel. Estava tão focada em pensar em Luxuriah que sequer percebera que também precisava de um pouco de conforto. Kayliel era um bom amigo e, Ash pensou, talvez se ela tivesse um irmão mais velho, aquela seria a sensação de ser confortada por ele.
Após lidar com a explosão repentina de Rommath, Lor’themar voltara para a Torre. Seria ele o portador da notícia que Huaru se fora. Estava muito preocupado em como falaria aquilo para Luxuriah. Porém, todas as coisas sumiram de sua mente quando ele viu Ash e Kayliel, bem próximos um do outro. A mão do elfo estava no ombro dela e Ash colocara sua mão em cima da dele. A raiva que encheu o corpo do lorde regente foi tão grande que ele simplesmente parou de andar e ficou ali parado olhando aquela cena sem conseguir dar um passo sequer. Desconfiava que, caso se movesse, seria para arrancar a cabeça de Kayliel fora.
Foi o sacerdote que o viu primeiro. Totalmente alheio ao que se passava na cabeça do lorde regente, o sacerdote suspirou aliviado. Se Lor’themar não estava manchado de sangue era porque não empreendera nenhuma batalha nem contra Huaru nem contra seu irmão.
— Lor’themar. — falou indo em direção a ele – E meu irmão? E o tauren?
Ash percebeu que Lor’themar estava tenso e praticamente trincava os dentes. O que teria acontecido entre Huaru e Rommath para ele ficar daquele jeito?
O lorde regente olhou longamente para Kayliel. Então desviou a atenção para Ash. A jovem parecia também esperar a resposta dele. Então se deu conta que estava agindo como um tolo. Não fora ele quem dissera que era velho demais? Por outro lado Kayliel era jovem. Não tanto quando Ash, mas o suficiente. Será que o sacerdote a essa altura já esquecera sua humana e agora pensava em investir na jovem princesa? Só de pensar nisso seu interior fervia de ciúme. Não, ele não podia simplesmente se deixar levar por aquele tipo de sentimento naquela situação crítica que se encontravam. Por isso, respirou fundo e tentou tirar a imagem de Kayliel tão próximo de Ash. E os dois ainda esperavam uma resposta. Torceu seu silêncio fosse interpretado como tensão devido a situação em que se encontravam.
— Huaru foi embora. — disse por fim – Com vida, o que é impressionante. Não achei que Rommath teria tanto sangue frio.
Kayliel concordou, estupefado.
— É surpreendente, não? — e procurando atrás de Lor’themar, quis saber – E onde está meu irmão agora?
— Não faço ideia. Ele disse que tinha coisas para resolver. Não sei o que seria tão importante nesse momento.
— Que tal alimentar a princesa abatida? — respondeu Rommath surgindo em uma nuvem de magia arcana.
Ash nunca tinha visto alguém teleportar tão silenciosamente antes. Não apenas ela, mas todos tomaram um susto. Rommath voltara e agora trazia uma pequena cesta em sua mão. Ele caminhou até Ash e entregou-lhe a cesta. A elfa então percebeu que ali continha uma enorme quantidade dos maiores e mais belos morangos que já vira.
— Ela não vai resistir a esses morangos. — disse o mago confiante – São os preferidos dela.
Ash tirou os olhos dos morangos e encarou Rommath.
— Como você sabia?
Ele deu de ombros.
— Não importa. Poderia entregar a ela, princesa Ashrial? Tenho certeza que ela comerá tudo e se sentirá muito melhor.
Não havia nada que Ash quisesse mais que aquilo. Murmurou um ‘obrigada’ e rapidamente sumiu porta adentro do quarto de Luxuriah. Rommath desejou com todas as forças que estivesse certo. Afinal, aqueles morangos não eram morangos qualquer. Eram de sua casa, de seu quintal.
Sem se importar em ser observado pelo seu irmão e por Lor’hemar, Rommath deixou que as lembranças o levasse a anos atrás, quando fizera amor com Luxuriah embaixo das morangueiras de sua casa, numa noite cálida de verão. Fora a primeira vez que tivera a jovem nos braços. Lembrava da respiração entrecortada dela, de sua pele suave, da forma desesperada com a qual ela lhe beijava. Lembrava como, depois de atingirem o ápice, Luxuriah simplesmente pegara um morango direto do pé e colocara na boca dele, sorrindo.
— Você foi o primeiro que fez isso ser bom. — ela lhe dissera.
Seu coração fora dela desde então.
— Obrigado, irmão. — a voz de Kayliel o tirou das lembranças – Você está me surpreendendo.
Rommath deu de ombros e falou com desdém:
— Não sei porque a surpresa. Costumo fazer coisas surpreendentes. — e sem dizer mais nada, sumiu novamente numa nuvem de magia arcana.
Kayliel não pode deixar de rir.
— Dá para acreditar nele? — perguntou.
Mas Lor’themar não respondeu. E Kayliel não entendeu porque, de repente, o sempre solícito lorde regente lhe lançava um olhar gélido de desprezo. O sacerdote então se calou e, dando de ombros, afastou-se do patrulheiro. Em sua mente só conseguia pensar em como aquela situação estava mexendo com os nervos de todos. Enquanto isso, Lor’themar apenas se congratulou de não ter enchido Kayliel de flechas, transformando-o numa almofada de alfinetes.
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Luxuriah sabia.
Mesmo que ninguém tivesse dito com palavras, ela sabia.
Huaru tinha ido embora.
Deveria chorar. Sim, deveria. Mas já chorara tanto, já mergulhara tão fundo no desespero que não tinha mais forças para sofrer. Por isso, estava ali, deitada, apenas olhando o céu que se enchia de estrelas na janela ao lado de sua cama.
— Lux?
A voz melodiosa de Ash encheu o ambiente. Imediatamente a elfa se sentiu melhor. A presença calma de uma de suas mais jovens irmãs estava sendo muito boa para ela. Havia uma energia em Ash que não a deixava afundar ainda mais. Então, desviou a vista da janela e olhou para sua irmã. Ela trazia um pequeno cesto em suas mãos.
— Trouxe algo para você. — falou animada.
— Ash… — murmurou com a voz cansada – Já disse que não quero comer nada…
— Tem certeza? — Ash então mostrou o conteúdo do cesto.
A boca de Luxuriah se encheu de saliva e, pela primeira vez desde a noite anterior, sentiu fome. Ash lhe entregou o cesto e Luxuriah não protestou mais. Com a voracidade de uma criança, a elfa atacou as frutas. Ash assistiu, com prazer, a irmã comer um morango após o outro, sem falar nenhuma palavra, mas com um brilho nos olhos que estivera apagado desde o dia anterior. E foi quando entendeu que não precisava se preocupar. Luxuriah sobreviveria, como sempre fizera. Em breve ela se ergueria das cinzas de sua dor e voltaria ainda mais forte que antes. E passaria aquela força adiante para sua criança e para suas irmãs.
Pela primeira vez naquele dia, Ash teve esperança que tudo ficaria bem.
— Quer um? — perguntou Luxuriah depois de comer quase todos.
— Não, não! — negou a outra – Esses foram trazidos exclusivamente para você!
Luxuriah olhou para os morangos longamente, pegou um deles e deu um pequeno sorriso.
— Agradeça a Rommath por mim. Ou melhor, por nós. — corrigiu colocando a mão na barriga.
Logo a cesta estava vazia. Ash, ao contrário, estava cheia. Cheia de esperança. Já Luxuriah estava saciada e logo adormeceria, sentindo o gosto doce dos morangos e lembrando de uma cálida noite de verão muitos anos atrás.
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