Herdeiros da Guerra

53 Capítulo XXX – Partida (PARTE II)


Notas iniciais
Não esqueçam de conferir minha nova fanfic, "A Égide de Athena"!

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Varian encarou o prato de comida e não fez nenhuma menção de comê-lo. Não tinha fome. A única coisa que sentia era a ânsia de ter seu filho de volta ao lar. E aquilo não era algo que poderia ter naquele momento.

Usualmente, suas refeições eram na companhia de Anduin, Greymane e da rainha Mia. Naquela noite, seu filho estava perdido, a rainha Mia estava se recuperando das descobertas do dia e Greymane estava com a cabeça cheia demais para acompanhá-lo. Achava melhor assim. Não queria ter que fingir simpatia por ninguém.

A reunião de mais cedo rodava em sua mente, enquanto tentava não pensar onde estaria seu filho àquela hora. Sabia que não demoraria para mobilizar uma força considerável para partir para as novas terras, como também tinha certeza que todos os homens e mulheres que entrassem naquela empreitada dariam suas vidas para trazer seu príncipe de volta para casa em segurança. Ficara tão perdido em sua dor que esquecera que Anduin não era o único jovem naquele navio.

Varian apertou as têmporas, os cotovelos apoiados na mesa de jantar. Esquecera completamente que os sobrinhos de Lina estavam na Nau Capitania. Sentiu-se um homem terrível por não perceber a situação em que sua amada se encontrava lidando não apenas com o sumiço de Anduin, mas dos dois sobrinhos, que eram amados como filhos. Lina devia estar desesperada.

A preocupação com o filho fizera com que ele não desse atenção a Lina no início da reunião. Depois, quando ela falara em Pandora e Pietro, a vergonha o impediu de buscar seus olhos, com medo de ver raiva neles. Mas Lina estava sofrendo demais e, com certeza, nada tinha em sua mente a não ser suas crianças perdidas naquela viagem. Ele duvidava que haveria espaço no coração dela para ficar com raiva dele.

— Eu devia ter ido falar com ela. — falou para o prato de comida – Nós dois… Nós dois entendemos a dor que o outro sente.

Falaria com ela no dia seguinte, antes do embarque da expedição. Não poderia deixá-la ir sem que conversassem. Sem que dividissem um com o outro o que sentiam. E sabia que, com Lina naquela empreitada, Anduin teria alguém que não apenas o visse com príncipe, mas que o amasse e faria de tudo por ele.

Desejava que os sobrinhos de Lina estivessem bem.

Um soldado entrou e fez uma reverência. Varian franziu o cenho; detestava que interrompessem seu jantar, ainda que não estivesse comendo.

— Majestade, há uma requisição para vê-lo. — disse o soldado.

— Dispense. — falou secamente pegando os talheres – Não quero ver ninguém.

O soldado fez uma reverência e se retirou.

Varian cortou o bife e comeu um pedaço. A comida tinha gosto de papelão em sua boca. Se perguntava se seu filho estava com fome.

Pouco tempo depois, para sua surpresa, o soldado voltou.

— Majestade, insistem em vê-lo. Dizem que…

Todavia, antes que ele pudesse concluir a fala, Varian o cortou:

— Já disse que não verei ninguém!

O soldado saiu apressadamente sem que Varian ordenasse.

O apetite de Varian, que já não estava bom, minguou. Afastou o prato e olhou para o whisky em cima da mesa. Pegou a garrafa e se serviu de um copo. Estava levando-o a boca quando o soldado entrou novamente. Agora, Varian ficou furioso e levantou-se.

— Quem ousa continuar me incomodando? — gritou.

— Arshe Fordragon, senhor! — disse o soldado rapidamente, assutado – Ela insiste que precisa lhe ver. Imediatamente, ela disse.

A raiva de Varian murchou como um balão de festa mal amarrado. Arshe? Arshe estava ali?!

— O que está esperando, soldado? Traga-a agora! — ordenou.

O soldado saiu sem esconder a pressa. Logo, Arshe entrava na sala, o vestido esvoaçando ao redor do corpo a medida que ela apressava o passo na direção dele. Lina a acompanhava, poucos passos atrás da maga.

— Tio Varian! — ela se jogou nos braços dele – Como o senhor está?!

— Surpreso. — Admitiu com sinceridade – Quando você chegou? Você sabe… De Anduin?

Arshe o soltou, relutantemente, e sua expressão sombria respondeu a pergunta de Varian antes mesmo de ela assentir com a cabeça.

— Eu soube… — a voz de Arshe estava trêmula – Eu vim por causa do parto da Doro e a Lina chegou com a notícia e… — as lágrimas voltaram a escorrer no rosto dela – Desculpe, tio… Eu…

— Tudo bem, Arshe… tudo bem. — Ele segurou as mãos dela – Fico feliz em te ver, mesmo que seja nessa circunstância.

Limpando as lágrimas, Arshe ensaiou um sorriso, triste.

— Então… Você fica até quando? — perguntou Varian.

— Enquanto o senhor precisar de mim. — disse decidida – Quero ajudar no que for! Talvez se eu falar com Hadgar, ele possa…

— Mandar você não se meter. — Cortou Lina – Arshe, você é neutra agora. Anduin pode ser seu irmão de criação, mas isso não vai lhe dar autorização para agir.

Varian voltou sua atenção a Lina e, pela primeira vez desde as notícias do sumiço da Nau, seus olhos se encontraram. A garganta de Lina fechou-se, seus olhos nublaram e ela desviou a vista para o chão.

— Eu sei que Hadgar pode tentar impedir. — Continuou Arshe — Mas…

A fala de Arshe foi interrompida quando ela viu a mão de Varian levantada, pedindo um momento.

— Arshe… Sei que é difícil para você… — sim, ele sabia muito bem – Mas tente não se preocupar, certo? Há pessoas que vão em busca de Anduin e vão trazê-lo de volta. — era algo que o próprio Varian queria, desesperadamente, acreditar.

Arshe não pretendia desistir de ir para as novas terras, mas também não queria preocupar seu tio naquele momento. Sua dor era perceptível e não queria piorar seu ânimo. Nem o dele nem o de Lina.

— Tudo bem, tio. — disse – Tudo bem.

— Já que vocês estão aqui, jantam comigo? — perguntou o rei mostrando a mesa posta e a refeição intocada.

O rei percebeu, afinal, que queria companhia. Não qualquer uma, mas aquelas duas, que faziam seu coração acalmar-se.

— Claro que ficaremos, tio. — disse Arshe gentilmente.

Varian fez um sinal para que elas se acomodassem e todos sentaram à mesa. O rei então chamou uma serva e pediu que fossem trazidos mais pratos. Logo, os três provavam a refeição, mais para ter algo para fazer com as mãos do que por fome. Arshe pediu para seu tio falar sobre os planos de resgate de Anduin e Varian falou, sem ressalvas. Lina admirou a confiança que Varian depositava na maga; outra pessoa não teria contado os planos tão facilmente nem teria deixado alguém fora do círculo interno saber as etapas para o resgate do príncipe. Contudo, Arshe podia não ser mais da Aliança oficialmente, mas o coração dela estava em Ventobravo. Lina se perguntou se, da mesma forma, o coração de Kayliel ainda estaria em Luaprata.

— Eu não acredito que você vai receber ordens de Crowe! — exclamou Arshe revoltada, olhando para Lina – O que você fará quando ele começar a dar tarefas idiotas para você?!

— Ignorarei e vou me perder propositadamente nessa terra nova. — E se tocando que estava na presença de Varian, suspirou – Digo… eu não faria nada para prejudicar a missão, mas…

— Lina, estou feliz que você vá nessa expedição. — disse ele com sinceridade – Sei que você fará de tudo para trazer Anduin para casa. E não apenas ele… — Varian deu uma pausa e completou — Você achará seus sobrinhos também.

Lina achou que fosse cair em pranto, mas percebeu que as lágrimas haviam secado. Devia estar cansada demais para chorar.

— Trarei os três de volta, nem que isso custe minha vida. — Afirmou, resoluta.

— Espero que você não precise pagar um preço tão alto. — Retrucou ele.

— Acredito que não estamos em posição de descartar essa hipótese. — Continuou ela.

— Parem, vocês dois. — pediu Arshe – Ninguém vai morrer e tudo vai dar certo. E Lina, lembre-se que quem faz o drama aqui sou eu. Você apenas me esbofeteia e manda eu parar.

Apesar da seriedade da situação, Lina e Varian riram. Era ótimo estar na presença leve de Arshe mais uma vez.

— Estou feliz que possa te ver de novo, Arshe. — disse Varian – Você faz muita falta aqui. Tenho inveja de Shattrath, que ganhou uma moradora tão esplêndida.

Arshe riu, as bochechas corando.

— Sinto muita falta de vocês, tio. Muita mesma. Se eu pudesse unir esses dois mundos… — ela suspirou – Tenho certeza que você e o maninho adorariam Kayliel. Ele é uma pessoa maravilhosa!

A expressão de Varian ficou sombria.

— Não duvido que ele seja uma boa pessoa, Arshe. Eu mesmo devo minha vida a uma elfa sangrenta. Mas o mundo não é tão simples quanto gostaríamos. E, por enquanto, fico feliz apenas em te ver aqui. Posso mandar arrumar seu antigo quarto?

— Melhor não. Kayliel não ficará à vontade aqui.

Varian a encarou, surpreso.

— Ele virá para cá? Para Ventobravo?

— Na verdade, ele já tá aqui. Está lá em Lina. Nós viemos por causa do parto da Doro e… — Ela viu a expressão de Varian endurecer – Tio?

Um elfo sangrento em Ventobravo justo no momento em que seu filho sumira. Para Varian, aquilo não poderia ser simplesmente coincidência. E sua expressão deixou bem claro para Lina o que ele estava pensando. E, apesar de ela própria ter pensando a mesma coisa mais cedo, sabia que não havia como Kayliel ter previsto que Doroteya daria à luz quando aquilo acontecera.

— Varian, eles não sabiam da situação. — Apressou-se em dizer Lina – Nem mesmo nós sabíamos quando eles chegaram hoje cedo.

Arshe olhou para a amiga e depois para o tio, sem entender porque a conversa ficara tão séria de repente.

— Tio, sei que o fato de ele ser um elfo sangrento te incomoda, mas Kayliel ter me acompanhando até aqui só mostra que ele é um bom marido e se preocupa comigo. — Argumentou a maga, imaginando que essa era a preocupação de Varian – Ele sabia que eu estava nervosa com tudo que aconteceu com a Doro e o Greymane descobrindo tudo e veio, mesmo sabendo que o senhor nunca aprovou nosso casamento.

— Esse não é o problema, Arshe. — falou Varian se recostando na cadeira e colocando dois dedos na testa, numa atitude preocupada.

— Não? — surpreendeu-se ela.

— Ele está preocupado que Kayliel possa ser um espião da Horda para saber o quanto fomos atingidos pelo sumiço de Anduin e quais nossos planos para as novas terras. — explicou Lina, sabendo que aquele era o pensamento de Varian, porque era o mesmo dela.

No primeiro momento, Arshe não disse nada, nem esboçou nenhuma reação. Estava processando a informação. Só quando entendeu que Kayliel estava sendo acusado de ser espião foi que seu rosto ficou em brasa. Tamanha era sua raiva que ela se levantou e pôs as duas mãos na mesa, olhando para Varian, furiosa como ele nunca a vira antes.

— Kayliel não é esse tipo de pessoa! — exclamou, exasperada – Ele não é um espião da Horda e eu não admito nenhuma acusação sobre ele!

— Arshe, calma. — pediu Varian com as duas mãos levantadas.

Normalmente o rei não permitiria que ninguém falasse daquela forma com ele, mas Arshe era alguém que conhecera ainda bebê, que pegara no colo e acalentara. Cujo pai fizera muito por Varian, por Anduin e por Ventobravo. E, mesmo sem o título, Arshe ainda era sua família. E a jovem sempre fora dada a excessos de sentimentos. Precisava apenas acalmá-la.

— Entenda a minha posição. — pediu ele – Não estou dizendo que ele seja um espião mas… Ele chegou aqui no dia em que eu soube que meu filho sumiu… Você não pode me culpar por ficar desconfiado.

— Ele só veio porque eu insisti! — exclamou Arshe – Kayliel nem queria vir justamente por medo de acusações desse tipo e eu praticamente o obriguei a vir! — as lágrimas brotavam nos olhos dela mais uma vez – Ele não está comigo por causa da Aliança, nem de Ventobravo, nem de nenhuma porcaria de guerra! Ele me ama! Sempre me amou!

Varian esperou que ela dissesse mais alguma coisa, mas Arshe colocara para fora o que sentia e estava sem fôlego. Enquanto a jovem secava as lágrimas com as costas das mãos, Varian sentiu-se mal por causar aquele sofrimento. Não era justo com Arshe, nem com ele mesmo, trazer à tona tantos ressentimentos, em um momento em que ambos precisavam de tranquilidade. Por isso, apressou-se em concertar a situação.

— Lamento ter trazido isso à mesa, Arshe. — falou ele, com sinceridade – Devo confiar em seu discernimento. Se você diz que Kayliel é uma boa pessoa e que nada tem a ver com isso, acreditarei em você. Por favor, sente-se.

Arshe engoliu em seco e sentou-se. O clima ficou pesado e Lina pensou em como as coisas poderiam piorar rapidamente. E apesar de sentir-se destruída, tentou ao menos melhorar a situação entre Varian e Arshe.

— Eu o conheci. — Começou olhando para o rei – Kayliel. Ele cuidou de Doroteya quando ela passou mal hoje de manhã. Todos lá em casa gostaram dele.

Arshe sorriu agradecida para Lina.

— Quando as coisas se acalmarem e Anduin estiver de volta, os convidarei para uma visita oficial. — falou Varian – E procurarei ter minhas próprias impressões sobre ele, independentemente de ser um elfo ou não. Eu prometo.

— Obrigada, tio. — falou Arshe, sorrindo e com a expressão de quem já esquecera que o marido fora acusado de espião. Afinal, conhecia o tio e sabia que ele não mentia.

— Acho que nenhum de nós vai terminar o jantar. — falou Varian olhando para os pratos – Mas aceitam a sobremesa?

— Com certeza! — afirmou Arshe.

Com a maga mais calma, Varian pediu que ela lhe contasse da vida em Shattrath. Arshe ficou feliz em falar e falou, falou muito. Lina percebeu que a amiga fez questão de falar o quanto Kayliel era benquisto por todos em Shattrath e em como os dois, juntos, estavam ajudando nos locais destruídos em Terralém. Lina ficou em silêncio, na maior parte do tempo, pensando no que faria no dia seguinte. Iria em casa para se despedir ou embarcaria direto? Se não estivesse em casa para Fey e Mel chorarem e encherem-na de avisos, não teria casa para voltar depois da viagem. Talvez devesse dar um passo para trás e deixar quem estava no controle resolver os pormenores na viagem. Crowe queria ser o responsável? Que fosse. Lina ficaria na dela, esperando apenas chegar nas novas terras e sumir em busca de suas crianças.

— Lina? Lina? — ouviu alguém a chamar insistentemente.

— Hm?

Era Varian, que a encarava com um sorriso compreensivo. Lina percebeu que estavam sozinhos.

— Onde está Arshe? — perguntou, confusa.

— Foi conversar com as servas na cozinha e colocar o papo em dia. Eu acho que ela foi comer mais doces também. — disse o rei.

Lina suspirou e passou a mão no cabelo.

— Eu nem vi quando ela saiu…

— Nessa situação é muito fácil nos perdemos em nossos pensamentos. Precisamos arejar nossas mentes. — Ele se levantou – Caminha comigo?

Ela levantou-se também.

— Claro.

— Mas eu não quero caminhar com a general Wood. — Avisou ele, a expressão séria e angustiada – Hoje, eu preciso de Lina comigo.

Por um momento, Varian achou que ela fosse brigar, reclamar ou mesmo protestar. Só que Lina não fez nada disso, apenas estendeu a mão para ele, oferecendo-a sem ressalvas. Varian encarou por um momento a mão estendida, como se não acreditasse no que via.

— Ela não vai ficar para sempre estendida. — brincou.

Varian sorriu e pegou a mão de Lina, apertando-a.

— Venha. — Chamou ele.

Caminharam pelos corredores, em silêncio, até o jardim do castelo. Era o local favorito de Anduin. O jovem gostava de sentar ali para ler os livros que pegara na biblioteca, que ficava bem à frente. Varian parou, bem à beira do jardim, de onde podia-se ver o pátio inferior da bastilha.

— Lina, vou lhe confidenciar algo. — Começou ele – Não falei ainda para ninguém, pois sei que se oporão, mas… — ele virou-se para ela e segurou suas duas mãos – Se os primeiros relatórios dessa terra chegarem e meu filho não, eu irei até lá.

— Imaginei. — disse ela.

Varian franziu o cenho.

— Não vai protestar ou tentar me impedir? — estranhou.

— Não. Você é pai. Já é difícil ficar aqui e esperar. Eu não conseguiria. — Ela deu uma risada triste – Ou melhor, não consegui. Estou me dispondo a ficar sob as ordens de Crowe, não é?

— Sei que você está indo por Pandora e Pietro, mas… obrigado por ir.

— Estou indo por Pandora, Pietro e por Anduin. — Afirmou com veemência – Eu o amo também. E eu farei de tudo para que os três voltem para casa o mais rápido possível.

Varian não disse nada, apenas a puxou delicadamente para seus braços. Lina não se afastou, não recuou, deixou que ele a abraçasse. Queria aquele abraço. Necessitava daquele abraço. E compreendeu que Varian sentia o mesmo. Ficaram algum tempo ali, abraçados, consolando-se por suas crianças perdidas. Em um determinado momento, Varian a afastou, segurou em seu rosto com as duas mãos e a beijou. Lina correspondeu com ânsia. Ficaram perdidos nos lábios um do outro, procurando conforto, até que ouviram passos que pararam de forma abrupta perto deles. O beijo findou e eles se separaram, antes de olhar quem chegara.

Era a Almirante do Céu Rogers, a vice-almirante Jes-Tereth e o elfo noturno Rell Ventonegro. Apenas o elfo estava impassível; as mulheres humanas estavam visivelmente surpresas.

A primeira coisa que passou pela cabeça da almirante Rogers foi que devia ser uma ilusão de ótica e que não estava vendo um beijo de verdade, apenas uma conversa mais íntima. Só que o ofegar de Jes ao seu lado a fez perceber que não, não era uma ilusão e acabara de interromper um beijo entre o rei a general Wood. Que constrangedor! Lembrou-se então dos boatos que há tempos circulavam pela bastilha e os quais nunca deu muita bola, pois achava um absurdo. Bem, estava certa. Só que pelo motivo errado.

Enquanto sua superior mostrava apenas um leve interesse e bastante constrangimento pela situação, a vice almirante Jes-Tereth estava abismada. Uma coisa era o rei está platonicamente apaixonado, como diziam os boatos, e outra era ele está ali trocando um beijo para lá de quente com a general Wood. Lembrou de sua namorada, que dizia que era só uma questão de tempo até o rei conquistar a general. E não é que ela estava certa? Mal podia esperar para sair dali e contar para ela que o rei finalmente conseguira.

Rell Ventonegro, ao contrário das suas acompanhantes, só pensou que era desagradável incomodar o rei Wrynn numa situação tão intima quanto aquela, principalmente quando ele precisava de conforto pelo sumiço do filho. Esperava que os dois compreendessem a urgência do motivo que os levara ali e deixar o romance para depois.

Para Lina, a situação era como se uma pedra de gelo descesse garganta abaixo e caísse com um estrondo no seu estômago. Percebeu, perplexa, que foram descobertos. Dois anos se esquivando de tudo e de todos para ter seu segredo revelado no maior ato de burrice que qualquer um poderia pensar: um beijo no jardim. O que diabos estavam pensando ao se expor daquela forma?

Não estavam, era a resposta. Varian e Lina estavam preocupados demais, cansados demais, carentes demais para se preocuparem com seu segredo. Lina fechou os olhos e respirou fundo. Antes do nascer do sol toda a bastilha ficaria sabendo, com certeza. Não por Rell Ventonegro, pois o elfo dificilmente teria interesse em comentar a vida particular do rei. Talvez não pela almirante Rogers, que era uma mulher discreta e odiava as picuinhas da corte. Porém, Lina não conhecia Jes-Tereth muito bem. E a expressão dela de espanto indicava a Lina que ela poderia abrir a boca para a primeira pessoa que passasse em sua frente.

Rogers pigarreou, constrangida, antes de fazer uma reverência para Varian, no que foi seguida pelos demais.

— Majestade. Desculpe interrompê-lo, mas há questões sobre o Celesfogo que eu gostaria de discutir imediatamente. — Ela se recuperara bem rápido da surpresa, mas sua vice-almirante continuava abismada e não conseguia esconder.

— Sim, claro, almirante. — disse Varian virando-se para os recém-chegados – Vamos até minha sala.

O olhar da almirante Rogers foi de Varian para Lina, que travou o queixo, esperando uma provocação. Ou um comentário jocoso.

— A general Wood pode participar, se quiser. — falou Rogers, solicita.

Lina se perguntou se o convite de tão boa-fé teria acontecido se a almirante não tivesse visto Varian com a língua enfiada em sua boca. Todavia percebeu, surpresa, que aquilo não importava. Era estranho, mas, depois só susto de vê-los chegando, o frio do estômago passou e agora sentia apenas alívio. Olhou brevemente para Varian e ele apenas a encarou de volta. Lina percebeu que ele ainda segurava sua mão.

— Adoraria, mas apenas se o general Crowe não se incomodar. — disse o mais diplomata possível – Afinal, sou comandada dele nessa empreitada.

— Adoraríamos a participação do general Crowe, mas se conseguíssemos apenas achá-lo já seria bom. — Resmungou Jes-Tereth recuperando a compostura.

— Tudo bem. Irei. — Decidiu Lina e sabendo que talvez não tivesse outra oportunidade novamente, pediu – Se a almirante me permite, eu tenho algumas ideias que eu gostaria de compartilhar.

— Será um prazer, general.

— Vamos, então. — disse Varian.

O rei deu apenas um leve puxão na mão de Lina, incentivando-a a acompanhá-lo e soltou-a. Naquele momento, Varian e Lina sumiram e o rei e a general assumiram. O que quer que viesse a seguir era de menor importância. A prioridade era outra. Haviam planos a serem traçados e estratégias a serem definidas.

A noite seria longa demais para preocupações tão pequenas quanto seus sentimentos.

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A reação de Karen tinha sido mais contida do que Saba esperava, mas desesperada ainda dentro do previsto. Por isso, a seguira até o quarto imaginando que lidaria com sua raiva e impulsividade. Provavelmente a amiga faria as malas loucamente e ordenando mil e uma coisas aos servos, que estariam em pânico. Só que, quando chegou no quarto de Karen, não a encontrou como imaginara. A menina estava sozinha, sentada na cama, olhando para o vazio, sem nenhuma expressão no rosto.

— Karen? — chamou entrando e fechando a porta.

Karen virou a cabeça e a olhou, mas não disse nada. Sua expressão revelava o suficiente para que a orquisa soubesse o quanto aquele silêncio lhe era desolador. Então, caminhou até ela e sentou-se ao seu lado, na cama. Não falou nada, apenas ficou ao seu lado, esperando.

Lágrimas surgiram nos olhos da jovem rainha, que apertou os lábios, tentando conter as emoções. Saba permaneceu ao seu lado, calada. Sua mestra sempre dizia que devia esperar as pessoas estarem prontas para falar, que não deveria forçar, apenas aguardar o momento certo. Era difícil. Saba queria dizer que estava tudo bem, que era besteira se preocupar, que Kassyeh e Tewdric eram fortes… Ou seja, queria repetir tudo que já fora dito e que Karen já sabia. Só que aquilo nada ajudaria e Saba queria ajudar. Por isso, esperou.

Não demorou muito e Karen perdeu a luta contra as lágrimas. Caiu em um choro alto e sofrido e Saba a abraçou, consolando-a. Depois, Karen deitou sua cabeça no colo da amiga e deixou todo o medo e toda a insegurança fluírem em forma de um pranto longo e dolorido. Demorou algum tempo até que a menina começasse a falar e, quando o fez, sua voz estava rouca e hesitante.

— Eu to-to com medo… — disse gaguejando – Tô com m-medo deles não v-voltarem.

Saba pensou em falar algo, mas decidiu deixar Karen terminar de desabafar.

— E-eu sei que eles são fortes. — Continuou a menina – Eu sei que eles devem tá bem… Mas eu ainda tenho medo! Tenho medo de nunca mais abraçá-los, de nunca mais ouvir a voz deles… — ela soluçou alto — E… E acho que, se eu não for, ninguém vai procurá-los como eu procuraria, porque eu os amo!

— Só você? — perguntou Saba de repente.

— Hã? — Karen não entendera a pergunta.

— Só você ama o Kass e o Ted? — insistiu a jovem orquisa.

— Não! — exclamou Karen – Claro que não!

— Então, porque tem que ser você a ir, se outras pessoas também os amam?

— Porque não amam como eu! — insistiu Karen – Não os procurariam com o mesmo empenho que eu!

— Nem mesmo a Lux e a Ash?

Karen ensaiou uma negativa veemente, mas parou no meio do caminho e recolheu-se a um silêncio envergonhado. Entendera aonde Saba queria chegar. Claro que Luxuriah e Ashrial procuraria por Tewdric e Kassyeh com o mesmo afinco que ela. Verdade fosse dita, era mais fácil Luxuriah ir até as últimas consequências para trazê-los de volta que Karen. E, apesar de toda a angústia que sentia, a jovem elfa sabia que Luxuriah tinha muito mais chances de ser bem-sucedida na empreitada que ela própria. Sua irmã mais velha conhecia o mundo, estava acostumada com as dificuldades que uma viagem como aquela trazia e contava com uma vivência que ela não tinha. Perceber aquilo transformou sua dor em frustração.

— Ah eu odeio isso! — exclamou indignada, as lágrimas dando vez à raiva– Odeio não ter experiência, odeio ser considerada criança! — ela bateu os punhos fechados na cama – Odeio ter que esperar pelos outros! Se não posso ajudar nem mesmo Kass e Ted para que serve essa coroa?!

— Eu não sei. — respondeu Saba com sinceridade – Mas estarei ao seu lado quando você descobrir. Vou te ajudar no que for.

A fala de Saba deixou Karen muito feliz e infinitamente melhor do que se sentira desde que recebera a notícias. Por isso, deixou-se ficar mais tempo no colo da amiga, recuperando-se de todas aquelas emoções para poder fazer a coisa mais acertada a se fazer: pedir desculpas e aceitar os planos dos mais velhos.

— Argh! — exclamou, chateada – Odeio quando eles estão certos!

Saba caiu na risada.

— Você não precisa dizer que eles estão certos. — aconselhou – Apenas diga que você pensou melhor e decidiu mudar de ideia. Assim, fica parecendo que a ideia é sua.

Os olhos da jovem rainha brilharam.

— Tem razão! É justamente o que vou fazer! — decidiu – Mas não agora. Só vou quando eu tiver certeza que não vou chorar…

Enquanto Saba acalmava Karen, era vez de Ash saber o que havia acontecido com sua irmã e cunhado. Da mesma forma que sua irmã mais jovem, Ash estava tendo um dia tranquilo de treino, com o céu aberto, sem ventos fortes e acertara todos os alvos que havia se proposto. Estava satisfeita consigo mesma. Recolhia as flechas fincadas nos alvos quando Lor’themar surgiu de dentro da torre. Ash, inicialmente, não estranhou a chegada tão cedo do namorado; as fugas de Karen eram raras, mas ainda aconteciam, principalmente depois de reuniões muito enfadonhas.

— Karen decidiu fugir hoje? — perguntou rindo enquanto guardava as flechas na aljava.

— Não exatamente. — Lor’themar pegou o arco de sua mão e depositou no cavalete junto a outros arcos e fez o mesmo com a aljava – Venha comigo.

Ash estranhou a seriedade e o acompanhou. O salão da torre estava vazio, com a exceção de Luxuriah que estava sentada em um divã, com uma taça de vinho em sua mão e uma expressão sombria na face. Ash sentou-se em uma poltrona em frente a irmã e Lor’themar lhe serviu uma taça de vinho.

— Certo… — começou Ash preocupada – O que está acontecendo?

Luxuriah não enrolou e contou tudo para a irmã, sem nenhuma hesitação. Em seguida, falou sobre a reação de Karen e dos planos que tinha para partir no dia seguinte em busca de Kassyeh. Quando terminou de falar, esperou.

Ash respirou fundo, colocando os pensamentos em ordem. Tomou um grande gole da taça de vinho.

— Eu gostaria de ri junto. — pediu – Quero ir com você em busca deles.

— Imaginei que você fosse dizer isso. — falou Luxuriah sem se alterar – Como eu imagino que você saiba o que eu penso sobre isso.

— Sei. E acredito que nenhuma de nós duas quer brigar por causa disso. — Ash suspirou resignada – Como isso foi acontecer? — perguntou colocando uma das mãos no rosto.

— Como todas as coisas ruins em nossa vida. A Aliança. — Luxuriah girou a taça em sua mão – Garrosh deveria ter jogado aquela bomba de mana em Ventobravo e acabado logo com nossos problemas.

— Luxuriah… — Lor’themar tentou falar.

— Nem vem, Lor’themar. — Cortou ela – Eu te garanto que toda pessoa dentro da Horda que goste de Kassyeh e de Tewdric deve estar pensando algo assim nesse momento!

O lorde regente pensou em retrucar, mas achou melhor não. Com os ânimos exaltados como estavam, só precisava de uma faísca para que as coisas piorassem rapidamente.

— E tio Aethas? — perguntou Ash – Será que ele já sabe? Ele vai ficar devastado!

— Vivithi foi avisá-lo. — disse Lor’themar – Deve voltar em breve com a resposta dele.

— Ou não. — Cogitou Ash – O titio pode precisar de alguém para acalmá-lo.

— Estamos todos precisando disso. — Decretou Luxuriah.

Na verdade, Ash achava que tudo estava até calmo. Calmo, mas não tranquilo. Parecia a calmaria antes da tempestade. Estavam sem gritar em voz alta, mas gritos ecoavam em seus corações. A letargia do desespero pairava sobre as irmãs e Ash ficou feliz de poder segurar com força a mão de Lor’themar.

— Ash… — falou ele próximo aos eu rosto – Não vá, por favor.

Ash apertou os lábios e nada respondeu.

O assunto foi deixado de lado porque Rommath voltava naquele instante do passeio com a filha. Tinuviel estava cansada, com sono e com fome. Luxuriah agradeceu aquela distração momentânea. Cuidaria das necessidades da filha enquanto procurava não pensar no que poderia acontecer com Kassyeh e Tewdric. E Halduron. Gostava do elfo e tinham se tornado amigos, depois que ele descobrira que nunca dormiram juntos. Não queria que nada acontecesse com nenhum deles. Depois de colocar a menina para tirar um cochilo, voltara para o salão, onde um novo problema acabara de surgir e ocupou as mentes dele enquanto esperavam Karen sair do quarto.

A população de Luaprata já sabia do sumiço de Kassyeh. A notícia se espalhou rapidamente, trazida pelos aventureiros que chegavam de Orgrimmar. As pessoas também sabiam que o Chefe Guerreiro nada pretendia fazer pela princesa sumida.

Houve um grande clamor de preocupação com a princesa, tão querida de todos e cuja habilidade diplomática já era comparada com a do seu avô Anasterian. Aquilo desencadeou uma insegurança generalizada. Rapidamente, Luxuriah emitiu uma nota oficial no nome da casa Fendessol, se comprometendo a resolver aquela questão, independente do que acontecesse. Esperava que o comunicado acalmasse as pessoas.

Lor’themar não se surpreendeu com a reação das pessoas. Para quem já vivera tantas fatalidades, como o povo de Luaprata, qualquer sinal de instabilidade tomava uma proporção muito maior do que o normal. O comunicado ajudara a acalmar os ânimos, mas qual seria a reação quando, no dia seguinte, fosse anunciado que Luxuriah partiria em busca da irmã? Uma princesa sumida já era ruim; outra indo para o mesmo lugar em que a primeira sumira, seria muito pior. Porém, ponderou o lorde regente da mesma forma que as coisas poderiam piorar, poderiam também melhorar. A fama de Luxuriah como heroína já era grande antes de sua ascensão à realeza e sua jornada poderia dar mais esperança que incerteza. Todavia, caso Ash ou Karen quisessem ir, o cenário seria o pior possível. Ou seja, tudo dependia da habilidade de Sabá de convencer sua amiga.

Ou do quão arrochado seria o nó das amarras que Luxuriah colocaria na irmã mais jovem.

Karen sentiu-se pronta para encarar as irmãs já perto da hora do jantar. Àquela altura, Vivithi não havia voltado, mas mandara um recado dizendo que ficaria em Dalaran até o dia seguinte. Aquilo significava que Aethas ficara tão devastado quanto as irmãs imaginavam. A patrulheira também avisou que o Kirin Tor já estava ciente do desaparecimento de Kassyeh.

— A Aliança a essa altura também já sabe e deve estar comemorando. — Comentara Luxuriah pouco antes de ouvir só passos de Karen nas escadas. Calou-se. Não queria que sua irmã ouvisse nada daquilo. Já bastava Luxuriah remoendo a visão das comemorações de Ventobravo.

O rosto de Karen estava um pouco inchado, mas a menina estava visivelmente mais calma. Desceu de mãos dadas com Saba e percorreu o salão com os olhos, franzindo a testa.

— Cadê a Titi? — quis saber.

— Tirando um cochilo. — respondeu Luxuriah – O dia foi cheio para ela hoje.

“E para quem não foi?”, completou Luxuriah em pensamento.

Karen encarou todos no salão e sentiu falta de Vivithi também.

— E a Vivi?

— Foi para Dalaran, avisar ao titio Aethas do que aconteceu. — disse Ash – E ela vai ficar com ele por hoje. Não foi fácil para o titio, com certeza.

A vergonha tingiu o rosto de Karen de vermelho, já que ela inicialmente havia ignorado a dor de todos e pensado só na própria. Trocou olhares com Sabá antes de se encaminhar para uma poltrona e sentar. Sentou-se desleixada, com os ombros caídos, da forma como Lor’themar sempre dizia que não devia sentar-se, pois não era postura de rainha. Mas, naquele momento, ele nada disse. Todos apenas aguardavam o que ela teria a dizer.

— Eu quero muito ir em busca da Kass e do Ted, mas sei que não devo. Eu não tenho a experiência e o poder necessário para ir numa busca tão importante… — ela olhou para as mãos e torceu-as – Eu apenas atrapalharia…

Entre as responsabilidades que a coroa trazia e o treinamento de paladino, Karen havia assumido uma postura séria na maior parte do tempo, perdendo aos poucos a meninice que tinha antes da coroação. Por causa disso, Luxuriah e Ash às vezes esqueciam que a irmã só tinha quatorze anos e tinha toda a insegurança que acompanhava essa idade. Talvez até mais.

— E também, — continuou Karen – eles me dariam uma bronca grande se eu largasse tudo e me arriscasse. O Ted principalmente. Ele preferiria que eu ficasse aqui até ele estar em segurança.

— É uma decisão muito madura, Karen. — Elogiou Luxuriah – E muito difícil também.

— Estamos orgulhosas de você. — Completou Ash.

Todavia, havia mais uma coisa que Karen queria falar.

— Tem uma coisa que eu quero. — Avisou e as irmãs se entreolharam – Quando eles forem achados, quero que eles voltem na mesma hora para casa. Eu preciso vê-los. Se eles não vierem, eu irei pra essa nova terra.

— Por mim, tudo bem. — Concordou Luxuriah.

Da mesma forma que a caçula, a primogênita queria trazer aqueles dois para casa, trancar o portão da torre e jogar a chave fora, para que eles nunca mais saíssem de Luaprata. E que Garrosh explodisse de raiva.

— Você vai? — perguntou Karen olhando para Ash.

— Lor’themar olhou para a namorada, ansioso.

— Não. — disse Ash para o alívio do lorde regente e de Luxuriah – Enquanto você tava no quarto, recebemos alguns relatórios da reação das pessoas ao sumiço da Kass… Seu acho que, se eu for, as coisas podem ficar mais tensas…

— Que reações? — perguntou Karen, alarmada.

Lor’themar repassou para Karen os informes que eles haviam recebido e a situação em Luaprata. A menina leu tudo, com a expressão preocupada e depois respirou fundo.

— Viu, você tomou a decisão certa. — disse Saba colocando a mão no ombro da amiga.

Luxuriah olhou para Sabá e, quando a menina a encarou, sorriu. Agradecia à Nascente do Sol o fato de sua irmã ter uma amiga tão leal e tão preocupada. Luxuriah queria ter tido alguém assim quando tinha a idade de Karen.

— E eu, Karen? Não vai perguntar se eu vou? — quis saber Luxuriah.

— Eu sei que você vai. — Afirmou Karen – Na verdade, eu ficaria muito preocupada se você não fosse. — e olhando para Lor’themar, quis saber – Como a ida da Lux afeta a cidade?

— Acredito que as pessoas ficarão felizes em terem sua princesa heroína indo em busca da irmã. E se sentirão seguros porque você e Ash estão em casa.

— Que tal jantarmos? — chamou Rommath – Acho que tomos precisamos colocar algo no estômago, agora que tudo está decidido. E quero aproveitar minha esposa, antes que ela parta nessa jornada. — E ofereceu a mão a Luxuriah.

Luxuriah sorriu e pegou na mão dele.

— Tem razão. Vamos comer. E Saba... — chamou e a menina a olhou – Deixe para voltar para Orgrimmar amanhã. Respirar o mesmo ar que Garrosh deve ser difícil, então aproveite a distância.

*********************

Theo segurava a mãozinha de sua irmã com cuidado, enquanto observava-a bocejar e apertar os olhinhos de sono. Balançava-a na cadeira de balanço com cuidado, sendo observado de perto por Tommy. Sua mãe tinha ido tomar um banho e o menino insistira que queria ninar a irmã.

— Liana, dá um sorriso pra mim? — pediu Theo carinhosamente.

— Ela é muito pequeninha pra sorrir, mas tenho certeza que você será o primeiro a ver ela sorrindo.

— Tomara! — desejou o menino.

A menina não tardou a dormir e logo Tommy pegava a bebê e colocava no berço improvisado em uma cesta, para que a neném ficava perto da família que, preocupada, não parava de andar para cima e para baixo na casa. A bagagem de Lina estava na sala, mas ninguém sabia se ela ainda voltaria para casa para buscar. Doroteya retornou do banho e sentou-se ao lado do bercinho da filha. Fey e Mel estava tão angustiados que não voltaram para a loja e já haviam recebido recados de vários clientes estressados. Isso apenas deixava os alfaiates ainda mais nervosos.

— Devíamos deixar um aviso na porta da loja. — Sugeriu Fey, o mais calmo dos dois – Dizendo que voltamos ao trabalho amanhã…

— Como consigo pensar em trabalho quando nossos meninos estão perdidos!?! — exclamou Mel antes de cair no choro.

Vincent o abraçou, sussurrando palavras de consolo.

Kayliel apenas queria permanecer incólume, sem atrapalhar a família. Só que era impossível não pensar se havia alguém que conhecia na nau da Horda que atacara a Nau Capitania… E se foi mesmo a Horda quem atacou.

“Não posso pensar assim.”, ordenou Kayliel a si mesmo “Não faço mais parte de nada disso.” Ainda assim, ficou extremamente aliviado quando Arshe voltou. Lina não estava com ela, mas a maga não estava sozinha também.

— Cláudia! — exclamou Mel correndo para a general – Você soube dos meninos? — e caiu no choro, agarrado nela.

— Eu soube, Mel, e sinto muito. — Ela o abraçou – Vim ver como vocês estão.

— Cadê a tia Lina? — quis saber Theo – Ela não veio com vocês?

— Ela teve uma reunião com a almirante Rogers e com o rei. — explicou a general – Por isso eu vim escoltando Arshe…

A maga revirou os olhos.

— … E pedir algo. — Completou.

— Há algo que podemos fazer para ajudar? — quis saber Tommy.

— Sim, há. Como vocês sabem, Lina tem direito a uma guarda. Ela ainda não havia escolhido e, por isso, não poderá contar com isso na viagem. Na verdade, ninguém da confiança dela poderá ir, pois não será ela a escolher os soldados e sim Crowe. Isso preocupa a mim e a Horatio. Por isso, vim aqui para dar uma sugestão. — Ela olhou diretamente para Vincent – Sua Ordem enviará alguns representantes. Por que não vai junto? Assim, Lina teria alguém em quem confiasse naquela terra. E alguém que pode curar usando o poder da Luz seria bem útil.

Vincent não se mostrou surpreso com a sugestão.

— Eu já estava pensando nisso. — Confirmou ele – Quero ajudar a encontrar Pandora e Pietro. Mas antes eu queria falar com você. — disse olhando para Mel – Saber sua opinião…

Mel apertou as mãos.

— Bem, não vou ficar feliz em ver você indo para algo tão perigoso. Como também não estou feliz com minha irmã indo. Mas vocês dois juntos têm mais chances de sobreviver e trazer as crianças para casa… — os dois se abraçaram e ficaram um tempo assim.

Doroteya suspirou e olhou para a filha adormecida e para o filho que estava visivelmente ansioso.

— Dessa vez não poderei ajudar Lina e sinto-me mal por isso…

— Não se sinta, meu amor. — falou Tommy colocando a mão em seu ombro – Tivemos um período de paz tão bom e ninguém estava preparado para lidar com isso…

— Verdade… E me sinto bem por Vincent ir. Assim ele via impedir Lina de fazer qualquer bobagem…

— E você tia Arshe? — perguntou Theo – Você vai atrás de Pietro e Pandora?

Para o alívio de Kayliel, ela fez que não com a cabeça.

— Como membro dos Filhos de Lothar, não posso tomar parte em uma expedição da Aliança. — e, dizendo isso, ela sorriu – Da Aliança. Amanhã vou retornar a Shattrath e conversar com Hadgar sobre essa nova terra. E convencê-lo que devemos estar presentes lá, na condição de mediadores. — Completou, satisfeita consigo mesma.

Kayliel respirou fundo e coçou a testa. Não estava surpreso. Arshe só fazia o que queria mesmo...

— Você sempre acha uma brecha na lei, Arshe. — Riu-se Doroteya.

— Mas é claro! E não pense que eu esqueci de você. Vou fazer um memorando sobre como ele não pode se meter com você e com o Theo baseado nas leis de Ventobravo. Só preciso de um pergaminho, caneta e um pedaço grande de bolo!

— Para que o bolo? — perguntou Theo, curioso.

— Porque eu sempre tenho muita fome quando estou provando que estou certa! — disse ela animada.

Todos riram, especialmente Kayliel. Ah, como ele sabia como a quilo era verdade.

— Bem, farei um bolo então. De chocolate. — disse Vincent – Dois, na verdade. Um para comermos agora e um para eu levar amanhã na viagem.

— Faz um para eu levar para Shattrath também! — pediu Arshe animada.

— Certo, três bolos. — Riu-se Vincent.

— Vou deixá-los agora. — Anunciou Cláudia – Preciso voltar para casa antes de retornar à Bastilha. Sei que trabalharei a noite toda. — Ela apontou para a bagagem de Lina – Vou mandar alguém buscar isso. Não sei se Lina voltará hoje.

— Ah! — exclamou Theo, desolado – Eu queria me despedir da tia Lina!

— Você poderá ir ao porto amanhã, para se despedi. — falou Doroteya – Todos vocês.

— E a senhora, mamãe?

— Liana ainda é muito nova para um ambiente como o do porto, então eu ficarei aqui. Sua tia vai entender. Mas sei que você, vocês todos – disse olhando para o marido e os cunhados – precisam falar com ela. Deem um abraço por mim.

E assim Lady Cláudia se despediu dos Wood, deixando-se organizarem para a despedida do dia seguinte, prometendo que seu emissário viria em breve buscar a bagagem de Lina

No outro dia, enquanto os últimos preparativos eram tomados para a partida do Celesfogo, a noite em claro estava cobrando seu preço a Lina. Seus olhos ardiam e as pálpebras pesava. Com o sumiço de Crowe, ela acabou auxiliando a almirante Rogers em todos os preparativos. E agora, no momento de embarcar, se perguntava se sua bagagem estava na nau.

“Espero que sim... Como vou empreender essa busca sem calcinhas limpas?”, pensou, a mente cansada.

Estava quase abordando a almirante, para verificar se sua bagagem fora recebida, quando viu Theo e seus irmãos vindo em sua direção. A primeira coisa que reparou foi que Tommy trazia uma caneca coberta e Lina imediatamente ficou animada.

— Pela Luz! É café?! – perguntou recebendo a caneca.

— Recém passado. – Riu-se Tommy quando a irmã tomou um grande gole – Noite difícil?

— E como... – E depois do segundo gole, abriu os braços para Theo – Cadê meu abraço?

O menino se jogou nos braços dela, apertando-a forte. Todo o cansaço de Lina se esvaiu e ela não sabia se era pelo café ou pelo abraço de Theo.

-Tia Lina, vou sentir sua falta! – disse o menino.

— Oh, meu amor! – ela p apertou também – Eu estava preocupada em não ver vocês, mas não pude arredar o pé daqui...

— A gente entende... Por isso a gente veio... A mamãe achou melhor não vir porque Liana é pequenininha... Ah, te trouxemos bolo!

Vincent trazia um bolo nas mãos. Mas não era só isso. Ele vestia sua armadura completa e estava com uma mochila a tiracolo.

— Me alistei para ir – revelou o paladino – Em seu regimento. Espero que não se importe.

— Ah, Vin! – Lina abriu um imenso sorriso – Ter um amigo nessa loucura toda era tudo que eu precisava!

— Vocês dois, tomem conta um do outro. – Ordenou Mel, choroso – Não quero perder bem a irmã doida nem o namorado lindo!

Vincent gargalhou e enlaçou Mel com uma mão enquanto a outra equilibrava o bolo.

— Querido, você não vai se livrar de mim tão fácil... – e o beijou apaixonadamente.

Fey se adiantou e deu um abraço na irmã.

— Cláudia mandou alguém lá em casa buscar suas coisas, então elas já devem estar lá. – Fey apontou para cima, onde o Celesfogo pairava – Tome cuidado, ok?

Lina assentiu com a cabeça.

— E mais uma coisa. – falou Tommy – Vamos deixar para contar a mamãe o que aconteceu quando ela vier ver Doro. Isso não é uma coisa que se conte por carta.

— É bom mesmo... – murmurou Lina – E tentem mantê-la calma, ok? Não quero que ela passe mal ou algo assim...

— Pode deixar. Cuidaremos da velha. – brincou Tommy.

— Tia. – Chamou Theo. Lina o olhou – Eu sei que vai dar tudo certo. – e sorriu.

Lina queria acreditar naquilo desesperadamente.

Depois de mais uma rodada de abraços, ela devolveu a caneca para o irmão e já estavam nos últimos adeus quando Varian chegou ao porto. O rei vinha, não apenas prestigiar a partida de suas tropas, mas também se despedir de Lina.

Varian não teve muito tempo de pensar no que acontecera no dia anterior, do fato de ele e Lina terem sido flagrados, mas agora via naquilo uma forma de libertação. Pensou que, quando Anduin soubesse, ele sorriria e diria que tudo naquela vida tinha um lado bom. Como sentia falta de seu filho!

— General Wood. – disse ele ao se aproximar — Espero não estar incomodando.

Fey e Mel prenderam a respiração, empolgados em verem o rei. Tommy e Vincent fizeram uma breve reverência e Theo o encarou, antes de perguntar:

— É o rei, não é? Rei Varian? Eu lembro de você.

Agora que sabia que o menino era filho de Liam Greymane e herdeiro de Guilneas, Varian o olhou procurando sinais de sua ascendência em seu rosto. Porém, só conseguia enxergar o sobrinho de Lina. Sorriu para o menino.

— Sim, sou. É um prazer revê-lo, Theo. Você cresceu bastante. – Elogiou.

O menino abriu um imenso sorriso.

— Eu já estou do tamanho de minha mãe! – disse orgulho.

Porém, assim que falou aquilo, hesitou e olhou para Lina.

— Ele já sabe, Theo. Que você é filho da Doro.

O menino ficou aliviado.

— Pois é, eu vou ficar grandão, como o Tommy! – disse ele quase ficando na ponta dos pés.

— Vai sim, campeão. – Concordou Tommy passando a mão na cabeça dele – E acho que está na hora de voltarmos para casa, não é? Não podemos deixar as meninas sozinhas...

— E Arshe? – perguntou Varian a Lina ao ver que a maga não estava na comitiva de despedida.

— Ela e Kayliel voltaram ontem para Shattrath. – Quem falou foi Tommy — Ela quer falar com Hadgar sobre a possibilidade dos Filhos de Lorthar mandarem-na como representante para a nova terra. Mandou a despedida dela por escrito para vocês. – E entregou um pergaminho a Varian e outro a Lina. – Ela disse que, se viesse, iria chorar.

— Isso não me surpreende. – Afirmou o rei olhando para o pergaminho – Eu sabia que ela tentaria ir, de qualquer jeito.

— Eu tinha certeza. – Afirmou a general.

— Acho que estamos na hora de ir, certo? – falou Vincent olhando o movimento no porto. A Almirante Rogers já estava embarcando.

— Certo, últimos abraços! – exclamou Theo antes de abraçar Lina forte.

Todos fizeram suas últimas despedidas, sendo as de Mel as mais chorosas, e depois Vincent e Lina foram deixados na companhia do rei.

— Vou embarcar. – disse Vincent apontando para um dos grifos que eram disponibilizados para os membros da expedição embarcarem no Celesfogo.

— Irei em seguida. – Afirmou Lina.

Vincent assentiu e saiu, com o bolo nas mãos e a mochila pendurada em um ombro. Lina estava muito feliz que ele fosse acompanhá-la.

— Lina. – Chamou Varian e ela o olhou – Tente dormir quando o Celesfogo partir. – aconselhou – Você passou a noite em claro e terá um longo caminho pela frente.

Lina pensou em dizer que dificilmente ela conseguiria adormecer, mas depois repensou a resposta. Não queria preocupar Varian em mais nada.

— Vou tentar. – Garantiu.

Se calaram, cientes que estavam sendo observados por todos, ainda que ninguém estivesse nas proximidades. Lina pensou em como seria difícil os próximos dias para Varian: sem Anduin, sem Arshe... E sem ela. Seria muita presunção de sua parte pensar assim? Que tinha toda essa importância para ele? A resposta veio naquele momento, como se ele estivesse lendo sua mente:

— Sentirei sua falta. – Afirmou, com a dor em seus olhos.

— Eu também... – murmurou ela.

— Ontem... – ele começou – Ontem, nós fomos vistos...

Para sua surpresa, Lina riu.

— Quem diria, hein? Eu achei que seriámos descobertos de uma forma mais... Constrangedora.

— Constrangedora como? – quis saber Varian, curioso.

— Ah, na cama, nus, por uma das servas.

— Acho que seria muito repetitivo... – brincou ele lembrando a forma como Anduin descobrira.

— Pela Luz, você está certo! – ela lhe deu um sorriso.

— Está preocupada? – perguntou ele, ficando sério.

— Com Anduin, Pandora e Pietro. – respondeu – Tenho a impressão que todo o resto perdeu a importância...

Varian entendia. Por isso, estendeu as mãos para ela, querendo tocá-las uma última vez antes da viagem. Seria um gesto que ele jamais faria, pois temeria ser rejeitado. Lina olhou para as mãos estendidas e percebeu que seria pouco. Sem pensar, deu dois passos para a frente o abraçou. Um abraço forte, longo e íntimo.

— Eu o trarei de volta. – Murmurou – Nos espere.

— Esperarei. – Murmurou de volta.

Lina o soltou, segurou em suas mãos, sorriu e virou-se na direção dos grifos. Não queria alongar a despedida. Achava que não aguentaria. Subiu na montaria, deu uma última olhada nele e bateu com os calcanhares no animal, que voou imediatamente, deixando para trás não apenas o seu amado, mas uma multidão perplexa.

Partia, sem saber quando ou se voltaria.

**************

A luz da lua entrava difusa no quarto, por causa das janelas escurecidas do quarto de Luxuriah. Sentada em um banco embaixo da janela, ela tomava uma taça de vinho e olhava para a noite, se perguntando o que sua irmã estaria fazendo naquele momento. Custava muito de sua sanidade aparentar calma, enquanto queria apenas gritar e quebrar qualquer coisa que estivesse em seu caminho. Sua mão tremeu um pouco, diante desse pensamento, e ela tomou um gole do vinho, esperando que o álcool a ajudasse a lidar com os sentimentos.

Rommath entrou no quarto e a encarou da porta, antes de fechá-la e caminhar em sua direção. Havia uma garrafa e outra taça na mesinha de suporte, ao lado do divã onde Luxuriah estava. Quando o viu, ela pousou a própria taça na mesinha, colocou vinho na outra e ofereceu a ele, antes de retomar a sua própria taça.

— Como ela está? – perguntou, se referindo à filha.

— Dormindo feito uma pedra. – Ele sorriu e sentou-se no divã, em frente à esposa – Acho que ida foi realmente cheio para ela.

— Ainda bem. — falou a elfa colocando mais um pouco de vinho em sua taça – Eu não queria que ela me visse arrumando a bagagem. – Luxuriah respirou fundo – Tem certeza que ficará tudo bem?

— Ela vai sentir sua falta, é obvio. Mas ficará bem. Nós ficaremos bem. — Rommath segurou sua mão e apertou – Ela nem vai lembrar dessa viagem quando voltar com a tia Kass. Mas me diga, como você está? – ele enfatizou o ‘você’.

Luxuriah respirou fundo e apertou mais a mão dele.

— Estou com vontade de sair gritando por Luaprata. Depois, ir para Orgrimmar e encher a bunda de Garrosh de flechas.

Rommath deu uma gargalhada e apertou a mão dela mais forte.

— O que eu não daria para ver essa cena... – e tomou um gole do vinho – Deixe para fazer algo assim quando sua irmã estiver em casa.

— Não é só com ela que estou preocupada. – Revelou Luxuriah – O titio Aethas... – ela não terminou a frase, apenas encarou a taça, pensativa.

A animosidade entre Rommath e Aethas havia arrefecido naqueles dois anos. Aethas aceitara o casamento da sobrinha, depois de perceber que aquele relacionamento estava fazendo um bem imenso a Luxuriah; a elfa estava mais calma, mais centrada e definidamente, mais feliz. A postura de Rommath ao arquimago de Dalaran também melhorou; estava mais receptivo as ideias moderadas de Aethas. Tudo pelo bem da jovem família que Luxuriah e Rommath construíam.

— Vivithi ajudará Aethas a passar por isso. – falou Rommath.

Rommath não admitiria, mas estava um pouco preocupado com Aethas, não pela forma como ele reagiria ao sumiço de Kassyeh, mas porque ele estava no olho do furacão do conflito que estava se desenhando: Aliança e Horda, depois da derrota de Asa da Morte, haviam mantido a guerra em suspensão. Então, Garrosh solta uma bomba de mana em Theramore e traz as marés da guerra de volta a Azeroth. E agora, Jaina Proudmore era a líder do Kirin Tor. Quanto tempo até ela direcionar toda sua raiva e frustração aos Fendessol? E se ela matasse Aethas? Aquilo devastaria Luxuriah e suas irmãs. E seria uma ótima desculpa para Garrosh continuar sua guerra mesquinha.

— Já que ficaremos um tempo sem nos ver, queria te dar algo. – disse Luxuriah repentinamente.

Rommath a encarou, curioso, enquanto ela se levantava e ia até o closet. Depois, voltou com uma caixa dourada. Pegou a taça da mão dele e entregou-lhe a caixa, antes de sentar-se novamente de frente a ele.

— Abra. – Incentivou.

Rommath abriu e não entendeu incialmente do que se tratava.

— Eu tenho um desses. – disse, confuso.

— Esse foi feito por mim. – Revelou Luxuriah.

Era o sol. O amuleto dado quando o casamento era celebrado. O mesmo que Luxuriah mandara outra pessoa fazer, pois, na época, seu casamento fora por outros interesses e não amor. Só que ela amava. Descobriu-se amando Rommath quando menos esperava. Não era uma paixão desenfreada como fora com Grey; não era nem mesmo o titubeante sentimento que sentira por Huaru. Nada disso. Dois anos de convivência, criando uma criança juntos, construindo um relacionamento com diálogo, negociações e sentimentos tão firmes e estáveis que, um dia, Luxuriah olhou para Rommath e pensou: eu o amo. E fora uma descoberta tranquila, sem culpa, sem grandes expectativas e nenhum drama. Era a constatação do que viviam.

A surpresa de receber aquele símbolo de amor deixou Rommath sem ação. Ele ficou olhando para o amuleto e depois para Luxuriah, como se estivesse decidindo o que fazer. Rindo, a elfa levou suas mãos até o pescoço dele e removeu o outro amuleto, o feito por outra pessoa e dado dois anos atrás. Depois, pegou o que tinha feito e colocou no pescoço dele.

— Eu gostaria que realizássemos outra cerimônia. – disse ela alisando o rosto dele – Eu queria uma em que eu pudesse usar o vestido de minha mãe... E que a Kass não pareça que estava chupando um limão enquanto nos via no altar... O que você acha?

A alegria era tão grande que um nó se formou na garganta de Rommath. Ele colocou a mão por cima da de Luxuriah, que segurava seu rosto e murmurou:

— Nada me faria mais feliz...

E inclinou-se para ela, beijando-a suavemente. Luxuriah retribuiu o beijo apaixonadamente, como descobrira que sempre fora seus beijos com Rommath. Logo, ele a enlaçou pela cintura, a pegou nos braços e a levou para a cama.

Devagar, ele tirou toda a roupa dela, beijando cada centímetro de pele a medida em que ela aparecia. Luxuriah ofegava, arqueando as costas a cada toque da boca dele, a cada carícia de sua mão. Suas mãos também o despiam e logo estavam nus, pele com pele, beijando-se enquanto exploravam aqueles lugares já tão conhecidos de ambos. O tempo não tirara o desejo, muito pelo contrário. Conheciam tão bem o corpo um do outro, mas ainda se surpreendiam com as reações que podiam causar um ao outro. E quando estavam no auge da excitação, desesperados para alimentar aquele desejo, Luxuriah colocou as mãos no peito dele, delicadamente e o deitou, subindo em cima dele e o cavalgando com agilidade. Em pouco tempo chegavam ao ápice, juntos, para depois dormirem abraçados, saciados e satisfeitos.

Esse momento de amor poderia dificultar a partida de Luxuriah no dia seguinte, mas não foi o que aconteceu. Quando a hora da partida chegou, toda a família foi até o porto de Luaprata, para se despedir de Luxuriah, que não pretendia voltar sem Kassyeh.

Vivithi já havia retornado e, logo cedo, trouxe a pessoa que deveria acompanhar Luxuriah na viagem. Era Snetto, o namorado de Lady Liadrin.

— Snetto! – surpreendeu-se Luxuriah – Que surpresa! Você vai me acompanhar?!

O jovem elfo assentiu.

— A matriarca concordou que seria bom ter um Cavaleiro Sangrento em sua companhia. Que é nosso dever. Quem não gostou foi Salandria. – Ele sorriu, um sorriso triste – Ela decidiu não me ver partir, pois disse que acabaria se agarrando em mim e me impedindo de ir...

Luxuriah fez muito esforço para não olhar para Karen naquele momento.

A outra pessoa que iria acompanhá-los fora ainda mais surpreendente. Quando Luxuriah mandou o recado para a guilda, solicitando alguém para acompanha-la, pensou que Nabby ou Hermenegilda, amigas de Kassyeh, se disponibilizariam. Ficou surpresa ao ver um portal vindo de Orgrimmar se abrindo e Mhuu, o xamã líder da guilda, cruzá-lo.

— Eu não ficaria em paz se eu mesmo não viesse para ir procurar por Kass e Tewdric. – Dissera.

Então, aqueles dois, mais uma comitiva de guerreiros sin’dorei, que seriam incorporados às forças da Horda nas novas terras seguiram para o Porto de Luaprata. Junto à comitiva, Saba acompanhava as irmãs Fendessol. A presença da jovem era boa para Karen, que estava com a expressão cansada e abatida. A jovem rainha não dormira a noite e nem conseguia esconder o cansaço e a tristeza por não estar partindo com a irmã.

Todavia, Karen não era a única insatisfeita com a partida de Luxuriah. Tinuviel acompanhara os pais e as tias alegremente até o porto, curiosa com a bagagem, mas sem entender. Quando a despedida começou e a menina entendeu que a mãe viajaria sem ela, abriu o berreiro. E nada que Luxuriah dissera conseguia acalmar a menina. Nos braços do pai, Tinuviel chorava alto e estava destruindo o coração de todos que observavam a cena.

— Mamãe está indo buscar tia Kass, Titi. – Falava a elfa com delicadeza, enquanto acariciava os cabelos da filha – Mamãe não vai demorar.

— Quelo íí! – gritava a menina estendendo os braços para a mãe.

— Oh, meu amor. – Luxuriah estava quase chorando também – Mamãe não pode levar você...

Aquilo aumentou o choro da menina.

— Titi, papai vai ficar com você. – falou Rommath tentando atrair a atenção da menina – Não é legal?!

— Não! – exclamou a menina.

Rommath e Luxuriah suspiraram.

Ash se aproximou do cunhado e estendeu os braços para Tinuviel.

— Quer ir andar de fênix com a titia? A gente dá ‘tchau’ para mamãe e vai passear!

— Não! – Tinuviel estava irredutível.

— Ainda bem que dessa vez a raiva não é direcionada a mim... – murmurou Lor’themar.

A situação, que já estava complicada, piorou quando, de repente, Karen caiu no choro. Todos, até mesmo Tinuviel, ficaram surpresos com a reação da jovem rainha, que até então tinha se mantido quieta, ainda que triste.

— Karen... – murmurou Luxuriah.

Mas ela não terminou a frase. Karen a abraçou com força, enterrando a cabeça no ombro da irmã, soluçando muito mais que a sua sobrinha pequena. Não era apenas vontade de ir com a irmã; Karen estava com medo de perdê-la também. Afinal, era uma terra estranha, com perigos desconhecidos. Não ter notícias de Kassyeh, Tewdric e Halduron era ruim. E se Luxuriah fosse e ficasse sem notícias dela também? Seria demais para Karen suportar.

— Me prometa que vai voltar. – pediu Karen agarrada na irmã.

— Eu prometo. – disse Luxuriah – Vou voltar e trarei a Kassyeh, o Tewdric e também o Halduron junto.

Karen a apertou mais um pouco e a soltou, relutantemente.

Tinuviel, que nunca viera ninguém maior que ela chorar, estendeu os braços para Karen e disse:

— Tia Ká...

Tentando sorrir, Karen pegou a menina nos braços. Tinuviel então enxugou as lágrimas de Karen com as mãozinhas e disse, carinhosamente:

— Chole não....

Karen teve que respirar fundo para não voltar a chorar.

— Tudo bem... Não vou chorar... – disse.

E, com isso, Luxuriah entendeu que era o melhor momento para ir. Beijou Rommath rapidamente, abraçou Ash, sapecou um beijo em Tinuviel e em Karen e disse:

— Amo vocês.

E, sem mais esperas, acenou para todos e subiu no barco, desejando que aquela separação fosse breve.

**************

O som das ondas do mar quebrando na praia e o barulho das gaivotas fez Halduron pensar que ainda estava no navio. Revirou-se na cama, satisfeito pelo navio ter parado de sacudir. Caiu em um sono leve novamente até que uma enxurrada de lembranças o atingiu. Sentou-se rapidamente na cama e sua uma dor lacerante o atingiu. Colocou a mão na cabeça, apertando os olhos com a dor. Respirou fundo e a dor diminuiu um pouco. Confuso, olhou ao redor. Estava em uma cabana simples, mas limpa e arejada. Havia um barril que servia como mesa no canto do quarto, onde um incenso queimava lentamente junto a alguns enfeites vermelhos. Da janela, fios delicados com vários sininhos emitiam um barulho tranquilizante de sininhos. A cama era baixa, parecia mais uma cesta gigante, mas era muito confortável. E, ao que tudo indicava, estava seguro.

Ainda confuso, Halduron tentou lembrar o que tinha acontecido. O navio entrara no nevoeiro. A nau da Aliança. O conflito. A chegada numa nova terra. Vozes e barulhos misturados em sua mente com as lembranças do ataque a Luaprata. Mas o mais estranho de tudo, era a lembrança de um beijo.

Halduron levou os dedos aos lábios, intrigado porque uma lembrança tão específica dessa estava em sua mente. A sensação de lábios suaves e delicados nos seus, acompanhado de uma voz doce. Que tipo de sonho tinha sido aquele? Porque só podia ter sido um sonho, pois nunca ninguém o beijara daquela forma, tão apaixonada e rendida. Nunca ninguém falara com ele daquela forma tão apaixonada… O que quer que a Aliança tivesse colocado naquela flecha, era potente mesmo.

Assim que sua cabeça parou de latejar, Halduron levantou-se, devagar, com medo de ter outra dor repentina. Percebeu que vestia uma túnica branca, cheia de botões na frente, de um estilo que nunca vira antes, com uma calça preta. Seus pés estavam descalços mas, apesar de o piso ser madeira, ele não era desconfortável. Puxou a cortina que fechava a entrada do aposento e saiu para a luz do dia.

Piscou várias vezes, incomodado com a luminosidade. Quando seus olhos se acostumaram, percebeu que estava em uma pequena vila pesqueira. Ficou encantado com a paisagem. Era uma baía, cuja praia tinha areias brancas e limpas. Várias cabanas se erguiam em cima de estacas, provavelmente para acompanharem a mudança das marés. Para sair das cabanas, quem quer que morasse lá, usava rampas tanto para ir de uma cabana até a outra como para a praia. Ergueu a vista e viu que haviam morros ao redor da praia, onde também tinham casinhas e escadarias brancas que conduziam até elas. Seus olhos voltaram para o centro da praia, onde havia várias pessoas reunidas, muitas crianças correndo e entre elas… Tewdric? Sim, era o orc, no meio das crianças. Kassyeh também estava à vista e Halduron ficou aliviado.

O que quer que tivesse acontecido, havia passado. Tinham sobrevivido a uma batalha, a um naufrágio e ao desembarque naquela terra. E ele havia sobrevivido a uma flecha envenenada. Envenenada com algo tão forte que colocara coisas em sua cabeça. Coisas como um beijo apaixonado.

“Por que isso está me incomodando tanto?”, se questionou.

Quem primeiro viu Halduron de pé em frente a cabana foi a pequena Yasu. Ela estava brincando com as outras crianças, correndo atrás de Tewdric, quando viu o elfo, parado com uma expressão confusa na face. Exclamou, animada e apontou para ele, enquanto gritava para Tewdric:

— Seu amigo acordou! Seu amigo acordou!

Tewdric olhou na direção da cabana e o viu.

— Ei! — gritou – Halhal! Aqui! — e sorriu e acenou, chamando-o com a mão.

Halduron hesitou um pouco, mas começou a descer a rampa em direção à praia. Quando seus pés tocaram a areia, sentiu uma emoção estranha, de bem-estar e tranquilidade. Onde quer que estivesse, era um lugar idílico.

— Halhal! — exclamou Tewdric antes de lhe dar um abraço apertado – Que bom que acordou!

Surpreso com o abraço do orc, Halduron ficou um pouco desconfortável, tanto pelas várias testemunhas quanto pelo estalar de suas costelas e pela falta de ar. Depois que Tewdric o soltou, pode ver melhor as crianças que o rodeavam e elas eram… Ursinhos? O elfo ficou admirado em como elas eram fofas.

— Olá! — cumprimentou Yasu sorridente – Eu sou Yasu. É muito bom vê-lo bem!

— Hã… obrigado. Eu sou Halduron.

— Eu sei! Foi minha irmã quem te curou! — disse animada — Mas ela não tá aqui, foi com uma caravana lá pra Arboreto!

Halduron não fazia a mínima ideia do que a menina estava falando, mas apenas acenou com a cabeça afirmativamente.

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— Ei, tá com fome? — perguntou Tewdric.

Sim, ele estava. Com muita, muita fome. Como se não comece há semanas.

— Um pouco. — respondeu.

— Venha. — E indicou a direção onde Kassyeh estava com uma versão adulta daquelas crianças – Aqui tem uma comida ótima e a dona Mili é quem manda em tudo!

Tewdric caiu na risada e as crianças o acompanharam. Confuso, Halduron perguntou:

— Tewdric… Onde estamos?

— É uma longa história… — murmurou o orc – Nem sei por onde começar…

— Poderia começar me contando o nome dessa terra.

— Pandária! — exclamou Yasu pulando ao redor deles – Estamos em Pandária.

Antes que ele pudesse dizer alguma coisa, Kassyeh se aproximou deles. Ver Halduron, caminhando e bem, a deixou tão animada que ela também lhe deu um apertado abraço, como o marido tinha feito.

— Halduron! — exclamou, alegremente – Que bom que você está bem! Ficamos tão preocupados!

— Desculpem o incômodo… — falou, sem jeito, tanto pelo abraço quanto pela felicidade demostrada pela princesa.

— Incômodo nenhum! — exclamou a elfa soltando-o – Você faria a mesma coisa em nosso lugar!

— Ficamos muito felizes em vê-lo melhor, Halduron. — disse a “ursa” que estava do lado de Kassyeh, acenando com a cabeça.

— Ah, essa é Mili Lúpulo Errante, ela é a líder da vila. — Kassyeh apresentou – Eles nos acolheram e nos ajudaram.

— Muito obrigada. — Agradeceu Halduron também acenando com a cabeça.

— Kass, ele tá morrendo de fome! — avisou Tewdric.

— Oh, ninguém fica com fome em nossa vila! — disse Mili com seriedade – Venha, meu caro. Venha comer.

Enquanto Halduron comia, foi colocado a par de tudo que acontecera desde que chegaram em Pandária. Contaram sobre como ele adoecera, como Yasu e sua irmã Rukiah os acharam e os levaram até ali e como estavam ansiosos para que ele acordasse.

A única coisa que eles não falaram foi sobre Pandora e Pietro.

Fora um acordo entre Kassyeh e Tewdric com os aldeões. Acharam melhor deixar o patrulheiro alheio à ajuda dada aos jovens da Aliança. Isso porque não sabiam qual seria a reação dele sobre a situação. Kassyeh quem dera a sugestão, logo após a partida dos irmãos Wood.

Pandora e Pietro haviam partido naquela manhã, bem cedo. Assim que o sol nascera, a carroça do avô de Rukiah fora arrumada para levar, não apenas a bagagem da sacerdotisa, mas também uma cadeira de rodas, adaptada de uma cadeira da taverna da vila, com as rodas de uma carroça antiga e uma bonita almofada vermelha com dourada no assento.

— Wow! — exclamara Pietro quando vira a cadeira – Que legal!

Liu Pata Serena sorriu, satisfeito.

— Ficamos felizes em ajudá-lo, jovem Pietro. — disse o velho pandaren – A viagem será longa e é bom que você consiga se movimentar o mais livremente possível.

Pietro, que estava nos braços de Tewdric, fora colocado na cadeira, que também tinha um cinto de couro para ajudá-lo a ficar com as costas eretas.

— Também separamos algumas roupas e mantimentos para vocês. — dissera Mili entregando uma bolsa para Pandora – Visitem-nos quando Pietro estiver melhor.

Era possível ver as lágrimas brilhando nos olhos de Pandora, mas a jovem logo cuidou de ficar séria novamente.

— Quando isso acontecer, nós vamos arrumar uma forma de retribuir tudo que vocês fizeram por nós. — Prometeu a jovem humana.

— Nós não fizemos isso aguardando qualquer forma de pagamento, jovem Pandora. — falou Liu Para Serena – Queremos que tudo dê certo para vocês.

— Podemos trazer uns vinhos lá do vovô para eles provar! — sugeriu Pietro, acomodado confortavelmente na nova cadeira.

Isso animou os pandarens.

— Ah, ninguém aqui vai rejeitar bebida!

Aquele diálogo acontecera de manhã bem cedo e já fazia pelo menos duas horas que Pandora e Pietro haviam saído da vila. E antes que Halduron acordasse, haviam tomado a decisão, junto aos pandarens, de nada contar ao elfo.

— Halduron não tem a raiva que Lor’themar e Rommath, mas pode se sentir compelido a reportar o que aconteceu. — Explicara Kassyeh – Ele é muito fiel a Luaprata. Prefiro que ele não saiba. Para evitar qualquer mal-entendido.

Como estavam muito confusos sobre a relação Horda/Aliança, os pandarens aceitaram a sugestão sem pestanejar. Tewdric também concordara, mas por motivos diferentes. O orc tinha certeza que Pandora e Halduron se conheciam de algum lugar.

A desconfiança do orc era fruto de uma cena que ele vira na noite anterior. Apesar do cansaço, Tewdric não conseguiu pregar o olho quando deitou. Ficou abraçado com Kassyeh, o cansaço pesando em seus ombros, mas o sono não vinha. Talvez fosse todas as descobertas daquele dia que o deixaram com seu alerta ligado no máximo. Ou o fato de estar em um lugar desconhecido. Não importava o que era, a questão era que realmente não conseguia adormecer de jeito nenhum. Depois de algum tempo, vendo que não conseguiria realmente dormir, levantou-se com cuidado, para não acordar a esposa, pegou seu machado e saiu para a fresca noite pandarena.

O local estava tão calmo que parecia uma pintura. Sentou-se com as pernas cruzadas, apoiou o machado nos joelhos e respirou fundo. Até o ar daquele local era diferente. Exalava um aroma doce, inebriante.

“Se a paz tivesse um cheiro, seria esse.”, pensou.

Pela primeira vez, sentiu-se mal por estar ali. A chegada da Horda e da Aliança significava que a paz daquela terra estava com dias contados. Os pandarens seriam tragados pelo conflito, se uma forma ou de outra. Esperava que lugares como aquele não sofressem pela hostilidade de uma guerra da qual não tinham culpa.

Estava perdido nesses pensamentos quando viu foi uma sombra saindo da cabana onde estava Halduron. No primeiro momento achou que o elfo estava acordado e confuso, e se levantara. Levantou-se e já ia chamar pelo seu nome quando percebeu que a figura era menor que o patrulheiro. Sentou-se novamente, escondeu-se nas sombras e viu que o vulto era Pandora.

O que a jovem humana faria na cabana de um membro da Horda? A desconfiança de que algum mal fora feito a Halduron o assaltou, porém, seu instinto logo lhe disse que a jovem nada fizera de mal ao elfo. Ainda assim, achou melhor conferir. Esperou que ela sumisse dentro da cabana onde estava com o irmão, levantou-se sem fazer barulho e caminhou até a cabana onde estava seu companheiro.

Halduron estava exatamente como havia deixando antes de se retirar: vivo e adormecido. Ficou aliviado, mas estranhou ainda mais. O que a jovem humana estivera fazendo, então? Procurou qualquer coisa deixada na cabana, mas não havia nada. Procurou em volta também, e ainda na areia d apraia, mas não achou nada. Voltou para a cama com a dúvida latejando em sua cabeça, agora certo que não dormiria. Contudo, assim que se deitou, o sono o envolveu. E, naquela manhã, enquanto Kassyeh se despedia, emocionada, de Pietro, o orc encarava a jovem humana, intrigado.

Só que as surpresas que Pandora lhe trariam ainda não haviam acabado. Aproveitando que as atenções estavam em seu irmão, ela fez um aceno para Tewdric, chamando para se afastar dos demais. O orc foi.

— Tewdric, eu gostaria de lhe pedir algo. – Foi dizendo Pandora, em voz baixa.

O orc lembrou imediatamente da noite anterior. Será que teria alguma resposta de suas dúvidas.

— Se for algo que eu puder fazer, farei. – disse seriamente.

— É sim, é algo que você pode fazer. – Ela olhou ao redor, para ver se alguém estava prestando atenção nos dois, mas todas as atenções ainda estavam em Pietro – É sobre o elfo que está doente…

Tewdric não disse nada, apenas aguardou.

— Eu gostaria que você me prometesse que, não importa o que aconteça, você não fará mal a ele. – Foi o pedido dela.

Foi impossível esconder a surpresa que ele sentiu com aquele pedido. Por que diabos ele faria mal a Halhal?

— E você está me pedindo isso porque… – foi dizendo ele, esperando uma resposta.

— Eu… Eu não posso dizer… – e diante da testa franzida do orc, continuou – Por favor… apenas não faça mal a ele…

Ele pensou em insistir que ela dissesse o porquê, mas a jovem estava tão preocupada que tudo que Tewdric queria era acalmá-la. Foi quando ele entendeu: ela o conhecia. De algum lugar. E, provavelmente, teria medo de caso o orc soubesse disso, fizesse algum mal a Halduron, tratando-o como traidor. Mas de onde ela o conheceria? Qual o local em que Halduron poderia ter tido contato com Pandora?

“Dalaran”, pensou Tewdric.

Aquela situação estava se complicando e Tewdric achou melhor esperar que Halduron acordasse para que pudesse conversar com ele. Até lá, daria à jovem humana o que ela queria.

— Eu prometo que não farei nenhum mal a ele. – disse solenemente.

A jovem sorriu, aliviada por um momento e logo ficou séria novamente.

— Promete pelos seus ancestrais? – insistiu.

Para um orc, uma promessa por seus ancestrais era extremamente importante e não poderia ser quebrada. Até mesmo Pandora sabia daquilo. Tewdric deu um pequeno sorriso, antes de falar:

— Pelos meus ancestrais, pela minha amada Kass… Eu não farei mal nenhum a ele. — Garantiu.

Pandora estava quase se dando por satisfeita, mas ainda queria mais.

— Mesmo que ele não seja quem você pensa que ele é? – se atreveu a dizer – Ainda assim, não fará mal a ele?

— Ainda assim. – concordou.

Pandora deu um sorriso aliviado.

— Obrigada, Tewdric.

— Não precisa agradecer. – falou ele – Apenas se cuide. E cuide do Pietro. Vocês dois me fazem acreditar que as coisas nesse mundo podem ser ajeitar.

Pandora piscou, surpresa, e sorriu novamente. Tewdric realmente gostara dela.

Depois dessa conversa, os irmãos subiram na carroça do velho Liu Pata Serena, na companhia de Rukiah e de mais dois pandarens monges que os escoltaria. A viagem até o templo de Chi Ji era longa e poderia levar até semanas. Tewdric e Kassyeh já sentiam saudades daqueles dois, mesmo que tivesse passado tão pouco tempo com eles.

Quando estava, prontos para partir, Rukiah olhou para os dois que ficavam e disse:

— Se eu achar alguém da sua Horda, direi que vocês estão aqui.

— Se você ver alguém da Horda, não deixe que eles vejam Pandora e Pietro. – pediu Kassyeh – E se eles virem, não fale sobre nós. Isso pode ser um grande problema.

Rukiah franziu a testa.

— Ah é. – falou a sacerdotisa com a expressão séria – Tinha esquecido... Mas, ainda assim, darei um jeito de passar as informações para eles.

— Obrigada. – Agradeceu Kassyeh – Vai ser bom para minhas irmãs saber que eu e Tewdric estamos vivos.

— Kass! – chamou Pietro, acomodado na carroça e acenando – Eu amei te conhecer! Prometo que não esquecerei de você jamais!

Kassyeh colocou a mão no rosto, corando de alegria ao ouvir aquelas palavras.

— Também não esquecerei de você, Pietro. – disse acenado tristemente – Espero que você fique bem. E você também, Pandora. – Completou.

— Obrigada Kassyeh. – Agradeceu Pandora – Também espero que fique tudo bem para vocês.

E, antes que a carroça saísse, Pandora deu uma olhada na direção da cabana onde estava Halduron. Tewdric, mais que nunca, tinha certeza que eles se conheciam.

E então, Halduron acordara, horas depois da partida dos jovens da Aliança e agora comia, ouvindo a saga deles até chegar ali, na Vila Sri La.

“Qual seria a melhor forma de perguntar?”, se questionava Tewdric vendo o elfo devorar a comida com vontade. “Não pode soar com uma ameaça ou um interrogatório… Seria melhor que ele tivesse acordado com Pandora ainda aqui. Qual teria sido a reação deles ao saberem que estavam no mesmo lugar?”

Alheio aos pensamentos de Tewdric, Halduron ouviu toda a história que Kassyeh contava, enquanto olhava para os pandarens sorridentes que o rodeavam, felizes por sua recuperação.

— Queria ter tido a chance de agradecer a essa sacerdotisa, a Rukiah. — falou ele a certa altura – Já que ela salvou a minha vida.

— Se formos embora antes de ela voltar, você pode deixar uma carta. — Sugeriu Kassyeh.

— É uma excelente ideia. — Concordou Halduron.

O elfo terminou a refeição, agradeceu a Mili Lúpulo Errante e encarou Kassyeh e Tewdric

— O que faremos agora? – perguntou ele.

O orc e a elfa se encararam. Já haviam discutido aquilo.

— Nós concordamos que deveríamos ficar mais uns dias, apenas para garantir que você está totalmente recuperado. – falou Kassyeh – E antes que você diga que não devemos nos preocupar com você, saiba que isso está fora de questão. Ninguém será abandonado, Halduron. E não podemos nos dar ao luxo de adoecermos aqui. Essa terra ainda nos é estranha.

Halduron deu um sorriso triste. Kassyeh adiantara exatamente o que ele diria.

— Eu vou chamar uns pandarens para irem comigo até onde deixamos os suprimentos e trazê-los. – falou Tewdric — Acho que lá tem coisas que os aldeões podem aproveitar. Podemos negociar, para termos suprimentos para quando decidirmos sair daqui. A Kass falou que quer visitar um lugar...

— Arboreto. – falou a elfa — Foi para onde Rukiah foi. Quero ir lá, pois me falaram que há uma maga lá que pode me ajudar a entender a magia dessa terra. E podemos ter notícias da Horda. Há essa altura, as notícias já chegaram a Luaprata. – A maga respirou fundo – Pela Nascente, Lux terá um sério problema para manter Karen na Torre.

— Espero que minha Karenzita entenda que tem que ficar em casa. – Tewdric estava preocupado – Eu não quero ela por aqui, se eu não puder protege-la.

— Vamos confiar em Luxuriah. – Kassyeh tentava manter o otimismo – Ela vai dar um jeito. Nem que seja amarrando Karen ao pé da cama!

Halduron e Tewdric riram, imaginando a cena.

— Certo, não vou me opor ao seu plano, Kassyeh. – disse o patrulheiro – Eu nunca fiquei tão machucado assim desde... – ele hesitou um pouco – Desde a queda de Luaprata... – dissera isso em um sussurro, mas depois sua voz recobrou a força – Não quero ser um peso. Quero ser útil.

— Ótimo! – comemorou Kassyeh – Rukiah me deixou instruções de como agir caso você tenha uma recaída. E diretrizes do que você deve comer e fazer para uma recuperação. Se em três dias você não tiver nenhum outro sintoma, partiremos para Arboreto!

O beijo com o qual sonhara apareceu novamente na mente de Halduron, sem que ele entendesse porquê.

— Ah, Kassyeh... – começou.

— Sim?

Ele hesitou.

— Não é nada... Queria apenas saber se vocês dois estão bem.

— Ah, estamos ótimos, Halhal! – respondeu Tewdric rindo.

Na verdade, a pergunta que queria fazer era outra. Queria perguntar se, por acaso, não houvera mais alguém naquela vila. Alguém eu pudesse lhe beijar da forma como fora beijado. Mas, claro, aquilo era loucura. Não havia por que acreditar nisso. E, foi assim, que Halduron empurrara aquele sonho para o fundo de sua mente e não pensaria mais nele por muito tempo.