Herdeiros da Guerra
54 Capítulo XXXI – Vilipêndio
Notas iniciais
Nada do que Pietro e Pandora ouviram ou imaginaram sobre Pandaria fez jus ao que os irmãos viram ao sair da vila Sri La.
A carroça que os levava sacudia ao passo ligeiro do imenso iaque que a puxava, enquanto viam o caminho acidentado dos arredores da vila sumirem. Pandora olhou para trás uma última vez, rezando silenciosamente para que Halduron ficasse bem e os dois pudessem se reencontrar no futuro. Voltou sua cabeça para seu irmão, que seguia em segurança, a cadeira bem presa na carroça, o que era ideal, pois o iaque seguia bem rápido, o que era uma surpresa para seu tamanho. Enquanto avançavam, os passageiros puderam apreciar a vista, onde inúmeros pássaros coloridos voavam alto e grandes borboletas circulavam ao redor de flores das mais diversas cores. Em determinado momento, Rukiah pediu ao cocheiro, um pandaren monge chamado Gon, que parasse a carroça. Ela desceu rapidamente, apanhou algo e voltou para a carroça e mostrou uma erva aos irmãos.
— Que sorte! Um lótus dourado! — exclamou a sacerdotisa.
Era uma flor de pétalas grandes, douradas, cujo centro era rosado. Exalava um aroma maravilhoso.
— Elas são bem raras, os lótus dourados. — explicou Rukiah – São usadas para diversas poções e até mesmo para forjar gemas! Seus poderes são muitos!
— É tão linda e perfumada! — encantou-se Pietro – Posso segurá-la?
Rukiah colocou a lótus com cuidado nas mãos do menino, que a aproximou do rosto e sorveu seu aroma, com uma expressão de êxtase.
— Nunca senti um cheiro tão bom! — admitiu.
E a lótus não foi a única coisa incrível que eles viram. Andando próximas à carroça, com expressões desconfiadas, diversas panteras espreitavam, sem, contudo, se aproximar demais.
— Vocês não têm medo que elas ataquem? — perguntou Pandora segurando com força o arco que haviam lhe emprestado.
— Se elas atacarem, sabem que terão troco. — falou o bem-humorado Son, irmão de Gon, também monge, que os acompanhavam – Elas sabem com quem estão lidando.
Como aquele era um caminho que os pandarens sempre faziam, os jovens humanos ficaram mais tranquilos. Além do mais, o iaque era rápido e logo as panteras ficaram para trás.
Pandora admirava toda aquela fauna e flora, impressionada em como era diferente de tudo que já vira. Olhava para aqueles animais imensos e majestosos, se perguntando se conseguiria domar algum deles, para agirem como seus ajudantes. Já testara aquela habilidade, algumas vezes, e conseguira domar várias feras, mas sempre acabava soltando-as, porque não as utilizaria em Ventobravo e sua tia já tinha entupido o curral com seus próprios ajudantes, aquela vaca. Mas ali era diferente. Ela tinha um irmão para proteger e tinha que se proteger também. Já estava dependendo demais da boa vontade e da proteção dos pandarens. Tinha que retribuir de alguma forma.
— Há mais animais como esses no caminho? — quis saber Pandora, apontando as panteras ao longe.
— Há sim. — respondeu Rukiah – Ainda encontraremos muitos animais incríveis até chegarmos em Arboreto.
Pandora sorriu, satisfeita.
Já passava do meio dia quando decidiram parar um pouco. Após ser solto, o iaque que levava a carroça deitou pesadamente debaixo de uma árvore frondosa e imediatamente começou a cochilar. Os viajantes dividiram uma refeição leve, por causa do calor, enquanto conversavam animadamente. Pietro estava curioso sobre o Templo de Chi-Ji e Rukiah tirou todas as dúvidas que o menino tinha. Pandora ficava imaginando como seria o Celestial Majestoso, lembrando das garças que vira nos arredores da vila Sri La.
— Às vezes os Celestiais assumem formas humanoides. — explicou a sacerdotisa – Teremos muita sorte se conseguirmos ver Chi-Ji assim!
Depois da pausa, retomaram o caminho e no meio da tarde chegaram a uma vila.
— Aqui é Flor da Manhã. — explicou Gon, parando a carroça – Vamos fazer umas compras e seguimos para Arboreto. — E apontou para um caminho à esquerda da vila onde se encontravam.
Flor da Manhã era bem diferente de Sri La, que era uma vila pesqueira, enquanto a outra era nitidamente um entreposto comercial e ficava em um local mais acidentado. Para chegar à vila, tinha passado por muitas pontes, que ficava sobre riachos de águas claras, onde peixes dourados chamados carpas nadavam. Quando pararam no centro da vila, Rukiah e Pandora desamarraram a cadeira de Pietro e a desceram, para que o menino pudesse ver bem o local.
Não era intenção do grupo demorar em Flor da Manhã, pois queriam chegar em Arboreto antes do cair da noite. Todavia, a visão dos dois jovens humanos causou muita curiosidade entre os pandarens do local, que os rodearam e os bombardearam de perguntas, principalmente os filhotes, que ficaram pululando à volta de Pietro e não paravam de fazer perguntas.
— Cadê o pelo de vocês? Caiu? — perguntou uma menina.
— Vocês não sentem frio? — quis saber um menino.
— Por que suas orelhas são tão pequenas? — uma terceira criança indagou.
O bombardeio só não foi maior porque o prefeito da vila, um pandaren grande com uma imensa barriga, chegou e reclamou com as crianças, enxotando-os dali. Os filhotes saíram correndo, mas ficaram observando-os à distância.
— Tudo bem, não nos importamos. — disse Pandora acenando para as crianças, que acenaram de volta – Passamos algo parecido em Sri La.
— Ah, mas eles têm que aprender a se comportar. — o pandaren olhou para as crianças, que se encolheram. — Curiosidade demais é veneno. — falou filosófico.
— Eles são tão fofos! — exclamou Pietro – Gostaria de falar um pouco mais com eles.
O pandaren olhou para Pietro com carinho e depois voltou a encarar as crianças e fez um gesto para eles se aproximarem. As crianças vieram correndo tão rápido que se empurraram, derrubaram umas às outras, dois deles foram atropelados pelos demais e logo estavam rodeando Pietro, fazendo perguntas e pedindo para tocar na pele lisa do menino. O velho pandaren suspirou, balançou a cabeça em negativa e voltou sua atenção para Pandora.
— Mestre Pelo ao Vento. — começou Rukiah se dirigindo ao prefeito – Esses são Pandora e Pietro. Eles são de uma raça chamada humanos e vem de um continente a leste daqui.
— É uma honra receber visitantes de além brumas. — falou Pelo ao Vento fazendo uma breve reverência com a cabeça, que Pandora retribuiu – Faz milênios que Pandaria não recebe visitantes.
— Vários de nós aportaram aqui. — explicou Pandora – Nosso navio naufragou próximo à sua costa. Estamos procurando nossos companheiros de viagem. O senhor viu alguém como nós?
Para a tristeza de Pandora, o pandaren sacudiu a cabeça em negativa.
— Vocês são os primeiros estrangeiros que vimos. — e diante da expressão desolada da jovem, falou ternamente – Não fique triste, jovem Pandora. Tenho certeza que logo você encontrará seus companheiros.
Pandora olhou para o irmão, que conversava animadamente com os filhotes pandarens e se perguntou onde estaria o príncipe Anduin naquele momento.
— Se o senhor vir algum humano, como nós, pode dizer que Pandora e Pietro estão bem? — pediu ela.
— Claro. — Concordou o prefeito prontamente.
— Mestre Pelo ao Vento. — chamou novamente Rukiah – O senhor só vai precisar ter um pouco de cautela porque os humanos não foram os únicos que chegaram às nossas praias…
— Não? — perguntou o pandaren, curioso.
— Deixe-me explicar… — pediu a sacerdotisa.
Rukiah começou a falar sobre Horda e Aliança e Pandora se afastou, deixando-os sós. Não sabia o porquê, mas, àquela altura dos acontecimentos, aquilo tudo parecia ridículo. Como poderia odiar a Horda depois de conhecer Tewdric e Kassyeh? Seria hipocrisia de sua parte, além de muita falta de caráter, afinal, aqueles dois salvaram sua vida e a de Pietro. E tinha certeza que o orc pouparia Halduron, mesmo quando descobrisse que ele era do Pacto de Prata. Tinha decidido que, assim que chegasse no Templo de Chi-ji, mandaria uma carta para o vovô Pata Serena perguntando da recuperação do elfo e, caso Halduron estivesse bem, encaminharia uma carta para ele. Não sabia exatamente o que falar, mas, caso ele a respondesse, ela o convidaria para ir no Templo enquanto arrumavam uma forma de voltarem para casa. Seria tão maravilhoso se aquilo acontecesse... Sua mente voava nas possibilidades quando Gon os chamou, dizendo que já podiam prosseguir viagem.
Deixaram Flor da Manhã, sob os protestos dos pequenos pandarens, que queriam brincar com Pietro e um abismado Pelo ao Vento, que ainda não conseguira absorver a história da Horda versus Aliança e seguiram viagem.
“O mundo poderia se resumir a esse lugar lindo, cheios de criaturas fantásticas e pandarens fofos.”, pensava Pandora enquanto deixavam a vila.
Era final da tarde, mas Arboreto não estava longe, por isso prosseguiram. Ainda tinha bastante luz quando se afastaram e o ânimo do iaque estava igual ao que tinha pela manhã, por isso logo se afastaram de Flor da Manhã e seu destino se aproximava.
A noite caia quando viram as primeiras luzes nos arredores de Arboreto. No primeiro momento, Pandora e Pietro acharam que eram postes de luz, como os que haviam ao longo das ruas de Ventobravo. Porém, quando estava próximo o suficiente e passaram embaixo das árvores, perceberam que não eram postes de Luz e sim imensas colmeias que davam um brilho dourado e espectral às flores cor-de-rosa que enchiam as copas das árvores. Diversos insetos voavam ao redor das colmeias, emitindo um zumbido constante e hipnotizador. Um cheio doce de mel exalava daquele lugar e deixou os irmãos com água na boca. Son e Gon se entreolharam, sorrindo com a reação dos jovens humanos.
— Nunca vi nada tão lindo… — murmurou Pietro embasbacado.
— É surreal… — murmurou Pandora – Me lembra as histórias do paraíso da Luz que o Vincent conta…
— São colmeias reais. — explicou Rukiah – E, ao redor dela, os Guarda-mel. Só existem nessa parte de Pandaria. Elas produzem o mel mais deliciosos de todos! Se tivermos sorte, em Arboreto vai ter um bom estoque! E, olhem só, chegamos!
Assim que atravessaram as árvores rosadas cheias de colmeias e Guarda-mel, eles viram a vila de Arboreto. Era uma vila pequena, do mesmo tamanho da vila Sri La. Tal como Flor da Manhã, não era uma vila litorânea, mas era mais plana que a outra, pois se fincava em uma colina e havia um penhasco próxima a vila. As casas eram espaçadas e no mesmo estilo das que viram tanto em Sri La quanto em Flor da Manhã. E, apesar da beleza do local, cercada pelas árvores rosadas repletas de colmeias, o que capturou o olhar de Pietro e Pandora foram as majestosas criaturas aladas e reptilianas que voavam baixo sobre a vila.
— Finalmente chegamos! — exclamou Gon parando a carroça – Bem a tempo do jantar!
Quando finalmente pararam, Pandora e Pietro viram que as criaturas aladas não apenas voavam sobre a vila, mas estavam em todo lugar. Haviam cercados onde aquelas criaturas, das mais diversas cores e tamanhos, estavam sendo cuidadas.
— O que são aquelas criaturas? — perguntou Pietro a Rukiah, apontando uma das criaturas, uma de cor vermelha, que era conduzida delicadamente por uma pandaren jovem.
— São serpentes das nuvens. — explicou Rukiah desamarrando a cadeira de Pietro – São as montarias voadoras mais comuns daqui. É a forma mais segura e rápida de chegar a qualquer parte de Pandaria.
— Elas são imensas e parecem ferozes. — comentou Pandora ajudando Rukiah a soltar a cadeira de Pietro.
Rukiah, Son e Gon caíram na gargalhada.
— Apenas as selvagens são ferozes e somente se você der motivo para isso. — falou Gon descendo da carroça e ajudando as mulheres a descer a cadeira de Pietro para o chão – Se você as deixar em paz, elas nada farão.
— Tem certeza? — perguntou Pietro incrédulo – Elas parecem perigosas. Acho que poderiam me comer numa abocanhada.
Rukiah e os irmãos monges riram ainda mais.
— Como Gon disse, elas apenas atacam se forem atacadas. — Continuou Rukiah – E as criadas em Arboreto são muito bem treinadas. Além do mais, serpentes das nuvens só comem mel e carne macia. E você é magrinho demais, Pietro, então é pouco provável que elas tenham interesse em te engolir! — gracejou.
Como em Flor da Manhã, a chegada deles atraiu a atenção, mas, como a noite já tinha caído, a acolhida foi um pouco menos agitada. As crianças, claro, os rodearam, mas se limitaram a observar, enquanto Rukiah era cumprimentada pela Anciã Anli, líder da vila.
— Que bom que vocês chegaram! — disse a pandaren – Quando eu recebi a carta em que você dizia que tinha dois estrangeiros como você, quase não acreditei. — Admitiu.
— Mas aqui estão eles. — falou Rukiah – Deixe-me apresentá-los.
Depois de uma sessão de cumprimentos e explicações, a Anciã Anli falou, ansiosa.
— Estou ansiosa para saber se eles vão conseguir! Já separamos um exemplar perfeito para a jornada.
Pietro e Pandora se entreolharam, confusos.
— Conseguir o quê? — perguntou a jovem humana.
A anciã encarou Rukiah, sem entender.
— Você não disse a eles? — questionou.
— Não, preferi que eles as vissem com seus próprios olhos. — disse Rukiah — Seria difícil explicar sem uma referência visual. — e diante da confusão persistente dos irmãos, explicou – A nossa viagem para o Tempo de Chi-Ji será nas serpentes das nuvens. Vocês terão que aprender a cavalgá-las.
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Lina achou que não conseguiria dormir naquela viagem, mas assim que entrou no Celesfogo, o cansaço do dia anterior pesou em seus ombros. Procurou com os olhos pelo General Crowe, para saber se tinha alguma ordem para ela, mas não o achou. Por isso, foi em direção da almirante do céu Rogers, mas ela a dispensou rapidamente.
— Uma de nós precisa dormir. — Riu-se a almirante – E, pela sua expressão, melhor que seja você.
Normalmente Lina protestaria, mas estava tão cansada que apenas agradeceu e foi direto para os aposentos que lhe foram designados. Era um cubículo, com uma cama de solteiro que deixava seus pés de fora e um baú. O local mal dava para ela se despir sem bater com os cotovelos nas paredes, mas não se importou. Tirou a armadura, deitou encolhida e apagou.
Sonhos confusos a assaltaram e neles ela perseguia seus sobrinhos, mas eles fugiam dela no meio a densas névoas. Não havia nenhum sinal de Anduin e a voz de Varian a acusava que não se esforçava o suficiente, deixando-a desesperada. Acordou sobressaltada, com a escuridão ao seu redor oprimindo-a e fazendo o sonho parecer ainda mais vívido. Sua respiração estava acelerada e havia uma sensação persistente que estava sendo observada.
“Estou no Celesfogo.”, disse para si mesma. “Ninguém está me observando”.
Respirou fundo para se acalmar. A noite já havia caído e o Celesfogo devia estar há muito tempo mar adentro. Esfregou o rosto com as mãos, sentindo-se culpada por ter dormido tanto. Levantou-se, tateou pelo quarto escuro até achar fósforo e vela, acendeu para ver alguma coisa. Com a luz, vestiu novamente a armadura, e estava quase saindo da cabine quando bateram à porta e ela logo abriu. Era Vincent.
— Eu estava preocupado. — Confessou ele – Como você está?
— Bem… Acho… Eu dormi o dia inteiro, não foi? — perguntou, meio sem jeito.
— Sim, mas você merecia. — E sorrindo, chamou – Venha, eu não deixei ninguém comer seu bolo.
O convés da belonave estava iluminado e os soldados andavam de um lugar para o outro, verificando armamento e cumprindo ordens. Lina olhou ao redor e não viu Crowe em lugar nenhum. Será que o general tinha desistido da viagem? Duvidava muito. Era mais fácil ele estar empoleirado em uma sala, dando ordens e fingindo ter importância.
— Me atualize. — pediu Lina.
Vincent falou que, logo após partirem, a almirante Rogers organizara as equipes que seriam enviadas por terra assim que chegassem à nova terra. Ordenou que os canhões fossem calibrados e que sempre houvesse magos patrulhando as bordas da nau, para eventuais ataques. Após a almirante deixar tudo arrumado, ela se recolhera para descansar, tal como Lina fizera.
— E o general Crowe? — perguntou.
Na verdade, ela queria se referir a ele como ‘o idiota’, mas sabia que alguém poderia ouvi-la e não estava com clima para confusão.
Vincent deu uma risadinha e Lina franziu o cenho.
— O general Crowe chegou tarde e quase a almirante Rogers o deixou para trás. — explicou – Assim que subiu a bordo, ele levou um esculacho. A almirante não é uma mulher de meias palavras. Depois, o encheu de obrigações e quando ele falou que repassaria para você, ela disse que você já tinha feito sua parte ontem a noite, quando não encontraram ele. — E deu uma risadinha – Você devia ter visto a cara dele. Foi hilariante!
Contudo, Lina permaneceu séria.
— Ele, com certeza, vai procurar descontar essa humilhação em cima de mim. — Ela bufou – Acho que essa viagem será bem conturbada…
— Ou não. — Contestou o paladino – Depois do esculacho, Crowe foi cumprir as ordens, resmungando, mas foi. Fiquei de olho para ver se ele ia mandar te chamar, mas ele deve ter ficado com medo da Almirante. E sobre nossa viagem… — ele olhou ao redor – O tempo está bom e estamos a toda velocidade. A Almirante acredita que chegaremos antes do previsto ao nosso destino.
O estômago de Lina apertou-se. Lembrou do sonho e sentiu-se afundar um pouco. Porém, não podia, não tinha o direito de esmorecer. Por isso, segurou levemente o braço de Vincent, fazendo-o para de andar. Depois, olhou para os lados e, quando sentiu que estavam a sós, sussurrou:
— Precisamos de um plano para quando chegarmos em terra. — Avisou – Nem morta eu vou ficar sobre as ordens de Crowe e não procurar meus sobrinhos.
O paladino assentiu.
— Sim, precisamos. Porém, no momento, você também precisa comer. Vamos ao refeitório.
O refeitório ficava na parte mais baixa da belonave e, naquele momento, estava apinhado. Era horário do jantar e os soldados e marinheiros do céu circulavam entre as mesas e cumprimentavam Lina. A variedade de comida não era muita, mas eles não se importavam. Ambos estavam acostumados a um cardápio escasso quando viajavam. Por isso, apenas pediram café e se sentaram, os dois numa pequena mesa, apertados entre o amontoado de pessoas. Vincent desembrulhou o bolo que trouxera de casa e Lina sorriu, agradecida. O bolo tinha gosto de lar e ela sentiu os olhos nublando brevemente, mas logo os limpou. Não podia deixar-se levar pelos sentimentos.
— Como será que estão em casa? — perguntou ela olhando para o bolo – Será que Liana está deixando alguém dormir?
— Do jeito que estão babando-a, todo mundo vai ficar acordado, mesmo que seja apenas para ficar vendo-a dormir. — Gracejou Vincent.
— Verdade… — Lina suspirou – Como eu queria estar em casa… Que Pandora e Pietro estivessem em casa… Que Anduin estivesse em casa…
— Eles estarão em breve. Vamos ter fé.
Depois disso, comeram em silêncio e voltaram ao convés.
No Celesfogo, não havia muitos lugares para uma conversa privada. Mesmo em seus aposentos, Lina acreditava que alguém poderia ouvi-los. Por isso, após o jantar, caminhou com Vincent até a borda da aeronau, onde o vento soprava alto e encobria suas vozes. Encostou-se e olhou para a escuridão. De onde estavam, nada enxergavam, apenas as estrelas. Observaram a noite por um momento, até que Lina começou a falar, mantendo a voz o mais baixo possível.
— A essa altura, a Horda já sabe das novas terras. — a preocupação estava evidente em sua voz – Então estou quase certa que chegaremos e já entraremos em um conflito.
Vincent assentiu.
— É provável. Esse novo continente será um objeto de muita disputa, infelizmente. — Lamentou o paladino.
— Se a Horda descobrir que Anduin está perdido nesse local, vão caçá-lo como lobos caçam uma lebre. Vou alertar a almirante Rogers sobre isso. Precisamos evitar vazamentos, ou isso poderá colocar a vida dele em risco. Digo, mais do que já está. — Lina coçou os olhos. Ainda estava cansada, mas continuou – Acredito que a melhor hora para se afastar das tropas é em meio a uma batalha.
— Então seu plano é aproveitar o caos de um conflito para buscar pelas crianças? — perguntou Vincent.
Lina assentiu.
Vincent pensou um pouco e fez menção de falar algo, mas um soldado passou por eles e os cumprimentou. Eles cumprimentaram de volta e ficaram em silêncio mais um tempo, até perceberem que estavam sozinhos novamente.
— E como você pretende procurá-los? — quis saber Vincent – Não fazemos ideia de onde a Nau Capitania aportou.
— Na verdade… — Lina baixou ainda mais a voz e Vincent quase não ouviu – A Almirante me disse ontem que tem as coordenadas aproximadas do local onde a Nau Capitania aportou. É para lá que iremos. Então podemos começar dali mesmo. Pandora e Pietro não teriam ido muito longe por causa… — a garganta de Lina fechou-se e ela respirou fundo, acalmando-se – Por causa das limitações de Pietro. Então acredito que eles possam estar nas proximidades dos destroços.
— E é por lá que você quer começar. — Completou o paladino.
— Isso.
Os dois ficaram em silêncio e apenas o barulho do vento dominou no convés. A escuridão, embora predominante, não afetava mais a general. O medo estava se esvanecendo.
— Obrigada por ter vindo, Vin. — agradeceu Lina – Aqui tem muitos bons soldados e outro tanto de heróis excelentes, mas eu não conseguiria confiar em desconhecidos para algo tão importante. — Ela olhou para fora da aeronau, para a escuridão da noite – Eu estou me sentindo uma péssima general, uma soldada de meia tigela por saber que não vou completar essa missão…
— Sua missão aqui nunca foi a conquista dessa terra. — lembrou-lhe Vincent – Você está aqui por Pietro, Pandora e Anduin.
Ela sorriu, tristemente.
— Tem razão. Mas é que… Esses pensamentos ficam voltando a minha mente…
— Na minha também. — Contou ele – Mas acredito que estamos fazendo a coisa certa. Há muito em jogo.
Lina nada respondeu, apenas acenou com a cabeça.
Instantes depois, a vice-almirante Jes-Tereth saiu de dentro da Nau e caminhou na direção de Lina.
— General. — Ela bateu continência – A Almirante Rogers solicita que a senhora se junte a ela em sua sala.
— Claro. — E olhando para Vincent, avisou – Não precisa me esperar. Acho que isso vai demorar. — E olhou para a vice-almirante em busca de confirmação e Jes-Tereth acenou afirmativamente com a cabeça.
— Tudo bem. Vou para o alojamento. Vou aproveitar e escrever para o Mel. Prometi que escreveria todos os dias, mesmo que demorasse para enviar a carta. — e deu uma risada.
— Diga a ele para não surtar. Doroteya já tem um bebê para cuidar, não precisa de outro.
Vincent gargalhou.
— Repassarei o recado. E quando a reunião terminar, tente dormir. Você precisa descansar.
— Certo. — e acenando com a cabeça para ele seguiu, seguiu a vice-almirante.
Torcia para Rogers a ter colocado com um grupo pequeno na invasão para que pudesse se desligar dele com facilidade, e que também houvesse alguém experiente entre eles. Não queria deixar para trás um grupo de jovens soldados para serem massacrados pela horda. Dependendo do que soubesse naquela reunião, teria que mudar sua tática.
Porque os planos não seriam, em hipótese alguma, alterados.
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Luxuriah odiava que seus planos fossem alterados sem sua permissão.
Sentada na sala de comando do Punho do Grito Infernal, ela encarava Nazgrim sem esconder seu desgosto. Atrás de sua cadeira, Mhu e Snetto estavam de pé, o tauren tranquilo e o jovem elfo sangrento nervoso, enquanto observavam o embate entre a princesa e o general.
— Se o Chefe Guerreiro fazia tanta questão de minha presença, poderia ter me avisado do sumiço de minha irmã. — falou secamente.
— Esse não é o momento para desavenças, campeã. — falou o general omitindo propositadamente o título real dela – A Horda é prioridade, nesse momento.
Luxuriah desencostou-se da cadeira e inclinou-se em direção ao general, os olhos verdes faiscando.
— Minha irmã faz parte da Horda. Bem como todos que estavam naquele navio. Se vocês não têm a pretensão de nos ajudar, não deveriam nos atrapalhar.
— Atrapalhar? — Nazgrim riu – O Punho do Grito Infernal chegará mais rápido nas novas terras que seus navios. Deveria agradecer o favor!
— Agradecer? — a voz dela se elevou – Agradecer?! Vocês praticamente nos obrigaram a vir para cá!
Depois que a comitiva liderada por Luxuriah deixou Luaprata, seguiram mar adentro por um tempo, tranquilamente. Naquele meio tempo, os únicos momentos tranquilos que tivera, Luxuriah explicou a Mhuu e a Snetto seu plano de localizar a costa onde o navio da Horda desapareceu e ir em busca de destroços, antes de adentrar o continente desconhecido. Todavia, nem haviam completado um dia de viagem quando um portal arcano surgiu no meio do convés do navio onde estavam e um orc mago surgira, com um pergaminho em suas mãos. Luxuriah sentiu um aperto no estômago, imaginando o que vinha pela frente.
Os espiões de Garrosh Grito Infernal eram muito bons, pensara Luxuriah quando leu a convocação. O Chefe Guerreiro não apenas soubera de sua partida, como se adiantara a ela e mandara um emissário convidando-a a se juntar ao general Nazgrim na belonau da Horda, que cortaria o caminho pelos céus e chegaria mais rápido ao novo continente que os navios dos elfos sangrentos. Claro, o Chefe Guerreiro insistia que ela se juntasse à missão principal.
O primeiro impulso de Luxuriah fora o de pegar aquele mago, jogar dentro do mar e rasgar as ordens de Garrosh. Porém, depois da raiva inicial, ela percebeu algo que não atentara antes: eles não tinham a localização exata de onde a nau de Kassyeh, Tewdric e Halduron perdera-se. Apenas um local aproximado. Se fosse para a belonau da Horda, aportaria no local exato. E, por mais que estivesse ciente dessa possibilidade, foi de muita má vontade que passou a liderança para um dos capitães do navio, pegou suas coisas e atravessou, com Mhuu e Snetto a tiracolo, o portal para o Punho do Grito Infernal.
Se havia algo que podia dizer de positivo daquilo, era que todos estavam bem nervosos com sua reação e, mesmo os orcs que serviam ali, conheciam sua fama de quando ajudara a derrotar o Lich Rei. Por isso, lhe deram uma cabine com relativo conforto e Luxuriah descobrira que aquele deveria ser o aposento do general Nazgrim, que abriu mão para que a princesa fosse acomodada.
Ele estava muito enganado se achava que ela se vendia por tão pouco.
E, tão logo pode, exigiu uma reunião com o general, no que foi prontamente atendida. E agora, os dois se encaravam, como dois lobos selvagens, lutando por um território.
— Não acredito que fosse necessário obrigar uma campeã da Horda a aderir a uma missão tão importante. — comentou o general, tentando provocá-la.
— Por favor, Nazgrim, sem arrodeio. — Cortou Luxuriah cruzando os braços – Não é do seu feitio, nem do meu. Ambos sabemos que Grito Infernal quer essa terra. Eu seria a primeira a embarcar, apenas para garantir que a Aliança não a pegasse primeiro. Contudo, minha irmã perdeu-se numa missão e o Chefe Guerreiro não teve a consideração de nos avisar. Você – ela enfatizou, apontando o dedo para o orc – não teve consideração de me avisar, mesmo que Kassyeh tenha salvado sua vida em Vashj’ir.
Luxuriah achou que tinha ido longe demais e que o orc ia se levantar e atacá-la. Porém, para sua surpresa, Nazgrim pareceu ficar levemente envergonhado. Aquela expressão no rosto do orc, contudo, não durou mundo e ele endureceu suas feições antes de falar:
— Sua irmã é uma heroína que eu admiro muito e, você tem minha palavra que, se eu tiver a oportunidade, irei eu mesmo em busca dela e de Tewdric.
— Não há necessidade. — Retrucou a elfa – Eu irei. E antes que você diga qualquer coisa, vou avisar. Não estarei sob suas ordens. Sei o que deve ser feito. Se eu ver os cães da Aliança, eles sucumbirão às minhas flechas. Mas minha prioridade é achar minha irmã, meu cunhado e meu amigo. — e levantando o queixo, desafiou, altiva – Se vocês e opõe a isso, avise ao Chefe Guerreiro e deixe que ele venha me punir, se assim quiser.
Era uma aposta arriscada, Luxuriah tinha consciência disso. Pode sentir a tensão de Mhuu e Snetto às suas costas e torceu para que eles permanecessem calados e não interferissem. Não queria que a ira de Garrosh recaísse sobre nenhum dos dois, caso falhasse.
Nazgrim a encarou por um momento, considerando suas palavras. Ele era um orc, um guerreiro orgulhoso, mas não era burro. Sabia que Luxuriah estava no direito dela e a última coisa que precisava era de sua inimizade. Como general, ele podia desconsiderar tudo que ela lhe dissera e obrigá-la a obedecer a suas ordens, afinal, ela só tinha dois aliados ali e ele dispunha de um navio inteiro. Mas, o que ganharia com isso? Era melhor tê-la como aliada. E seus objetivos não eram tão diferentes. Nazgrim sabia que a princesa elfa tinha um desprezo tão grande pela Aliança quanto ele próprio e que jamais deixaria qualquer membro daquela facção com vida, caso cruzasse seu caminho.
Além do mais, Luxuriah estava certa em um aspecto: devia sua vida a Kassyeh. Tinha esse débito com a elfa. Desde que voltara de terra submersa de Vashj’ir pensava em como retribuir àquele gesto e, até então, o fizera suprimindo o máximo que conseguiu a raiva dos orcs mais jovens ao enlace dela com Tewdric. Estava se tornando cada vez mais difícil e isso o preocupava. Sabia que a Horda precisava dos outros povos e que eles não eram descartáveis, como as vezes Garrosh fazia parecer. Todavia, como era leal ao Chefe guerreiro, jamais admitiria isso em voz alta e permitia-se, tão somente, agir no limiar de sua lealdade.
Era o que fazia naquele momento.
— Nossas ordens é tomar essa terra. — Começou o general – Se você fizer isso enquanto busca por sua irmã, creio que não há necessidade de incomodar o Chefe Guerreiro com meros detalhes.
— Minha irmã não é um mero detalhe, Nazgrim. — alertou Luxuriah.
— Se você o diz… — desconversou o orc.
Luxuriah poderia estender a briga. Poderia gritar, berrar e exigir que Nazgrim pedisse desculpas. Poderia fazer muitas coisas para dificultar a vida do general, mas de que aquilo adiantaria? Já que estava ali, utilizaria os recursos que tinha à sua disposição para encontrar sua irmã. Claro que preferia viajar junto ao seu povo, em sua embarcação, mas uma coisa tinha que admitir: a belonau da Horda chegaria mais rápido ao destino. Respirando fundo, falou com a voz o mais neutra possível:
— Desembarcaremos na região em que a nau de exploração sumiu?
— No ponto exato de sua última localização. — Garantiu Nazgrim.
Luxuriah assentiu e se levantou.
— Já que estou aqui, quero ser informada de todos os planos para aportar e também de qualquer sinal da Aliança. — Ela encarou o general – A menos, claro, que eu não seja bem-vinda na operação.
Nazgrim sabia que Luxuriah estava pressionando para ver até onde poderia ir, mas o orc não se importou. Desde que atingissem seu objetivo, a conquista da nova terra, pouco importava quem estava envolvido.
— A campeã será muito bem-vinda em nossas reuniões. — Garantiu.
Luxuriah sorriu, mais por raiva que por simpatia, fez um sinal para Mhu e Snetto e, sem dizer mais nada, retirou-se. Nazgrim pensou que, se fosse uma orquisa, ele, com certeza, cortejaria Luxuriah.
Assim que saiu da cabine, Luxuriah respirou fundo, como se quisesse por toda a frustração de sua alma para fora. Depois, virou-se para seus acompanhantes, que a encararam sem dizer nada.
— Tenho uma garrafa de vinho na minha cabine. Me acompanham?
— Sem dúvida! — Exclamou Mhuu.
— Se não for incomodo… — murmurou Snetto.
— Claro que não é, Snetto. Vamos. — Chamou.
A cabine não era nada comparável aos aposentos que ela tinha no navio do seu povo, mas era confortável o suficiente para que pudesse aproveitar uma bebida com seus companheiros. Para não por ninguém em risco desnecessários, Luxuriah não levara nenhum servo, por isso, ela mesma serviu o vinho em canecas de madeira (não haviam taças no Punho do Grito Infernal) e sentaram-se próximo à janela, de onde podiam ver o céu que escurecia lentamente. Depois de se acomodarem, o tauren olhou para a amiga de longa data.
— Tenho que confessar que estou bastante impressionado com você, Lux. — começou Mhuu pegando sua caneca – Achei que você fosse pular no pescoço de Nazgrim.
— Também achei. — confessou ela.
— Seu autocontrole foi incrível. — elogiou novamente o tauren – Quando você se tornou tão paciente?
— Quando se tem uma filha pequena e um marido que faz tudo que a criança quer, temos que exercitar a paciência, ou jogar os dois do alto de uma Torre. — ela pegou a própria caneca, um riso brincando em seus lábios e tomou um gole.
— Ser mãe mudou você. — resumiu Mhuu.
— Sim. — admitiu, sem se envergonhar.
— Eu vi a pequena Tinuviel. — o tauren lembrou da pequena e delicada criaturinha de cabelos ruivos no porto – Ela parece com você.
— Infelizmente não é só a aparência. Rommath diz que ela é teimosa e cabeça dura como eu e, pela Nascente do Sol, ele está certo! — ela suspirou – Que menina difícil! Agora, para completar, estou tendo que parar de falar palavrões porque ela repete todos! — e tomou um gole do vinho.
Mhuu deu uma gargalhada e ergueu a caneca.
— Um brinde a Tinuviel! — falou.
Os três bateram a caneca e tomaram um gole generoso.
— Pretende ter outro? Dar um irmãozinho à Tinuviel? — perguntou Mhuu depois do brinde.
Luxuriah apertou a caneca com um pouco mais de força e baixou os olhos por um momento.
— Tive… tive uns problemas no parto… não vou poder ter outro bebê… — murmurou.
— Ah, eu sinto muito. — falou o xamã envergonhado de trazer o assunto à tona – É uma pena, ter irmãos é muito bom!
— E eu não sei. — comentou a elfa, sorrindo.
— Os irmãos nos fazem viver cada coisa! E é por isso que tenho as melhores histórias! Deixe-me contar uma. Quando éramos pequenos eu e o meu irmão…
Todavia, Mhuu parou abruptamente de falar e olhou nervoso para Luxuriah. Snetto estranhou e franziu o cenho, ansioso por ouvir a história. A elfa, porém, não demostrou qualquer desconforto.
— Continue. — pediu ela.
— Tem certeza? — quis saber – Não quero te deixar desconfortável.
— Não deixará, pode continuar.
Snetto apenas bebia, sem nada falar, observando a conversa dos amigos. Ficou curioso do porquê de Mhuu não querer falar do irmão para Luxuriah. Apesar da proximidade com a família real por causa de Lady Liadrin, o rapaz sabia sobre Huaru, mas não sabia que ele era irmão de Mhuu.
Percebendo a confusão de Snetto, Luxuriah explicou:
— O irmão de Mhuu é Huaru, o tauren com quem…. — ela hesitou um pouco – Com quem tive um breve relacionamento.
Breve e intenso, porém, fazia parte do passado. Às vezes, Luxuriah se perguntava como ele estaria, apenas por curiosidade. Porém, não tinha pretensões de perguntar a Mhuu e ressuscitar aquela história.
— Você não precisa se privar de falar nada, Mhuu. — garantiu a elfa – O que eu tive com seu irmão ficou no passado. Não tenho raiva dele. Na verdade, agradeço pelo que ele fez porque, só assim, pude ficar com Rommath. E estou muito, muito feliz com meu marido.
— E eu fico feliz em ouvir isso. — emendou o tauren – E já que estamos falando do meu irmão, teve uma vez…
Mhuu contou um caso sobre uma situação aleatória e engraçada da infância, para enfatizar como era bom ter irmãos. Contudo, não contou uma segunda. Mesmo que Luxuriah dissesse que estava tudo bem, ele ainda se envergonhava pelo que Huaru tinha feito, abandonando-a quando ela mais precisava. Luxuriah podia ter perdoado o irmão, mas Mhuu ainda não.
Também achou melhor não comentar com ela que Huaru tinha pedido para ir junto na missão. Achava que a elfa não precisava saber daquele detalhe.
— Eu não tenho irmãos. — falou Snetto com tristeza – Queria ter. Parece divertido.
— Ah, depende muito. — ponderou Luxuriah – Eu amo minhas irmãs, mas Karen tem testado minha paciência de um jeito que nenhuma das minhas irmãs fizeram antes. — Luxuriah suspirou pesadamente e tomou um longo gole de vinho – Eu preferia quando ela ficava brincando e pregando peças nas pessoas.
— Ela é a rainha, não é? — falou timidamente o paladino – Acho que é por isso. As responsabilidades mudam as pessoas…
— Não, não é isso. — decretou Luxuriah – É porque ela está ficando muito parecida comigo. E odeio isso. — admitiu.
— Você não considera isso um elogio? — quis saber Mhuu – Sua irmã está parecida com você?
— Eu considero isso uma tremenda falta de sorte. — disse, arrancando risos dos dois – Eu sei que eu não sou uma pessoa fácil, mas sentir isso na pele está sendo uma provação. E duplicada: minha filha e minha irmã caçula. — ela os acompanhou nas risadas – Bem, alguma irmã acabaria se rebelando, não é? Eu sempre achei que seria a Ash, mas acabou sendo a Karen, que eu jurava que puxaria mais a mamãe…
— Se é assim, me admira ela não ter querido vir. — Surpreendeu-se o xamã.
— E quem disse que ela não quis? — Luxuriah sacudiu a cabeça, tomou o resto da caneca e encheu-a novamente – Foi um drama horrível!
— A matriarca ficou bem preocupada com a possibilidade de a rainha querer vir nessa viagem. — revelou Snetto – Eu acho que ela tentaria impedir, caso fosse necessário.
— Eu, com certeza, teria recorrido a Liadrin se ninguém mais conseguisse demover Karen dessa ideia maluca, mas, graças à Nascente, ela ainda ouve Saba. — e balançando a cabeça, comentou – Já basta uma irmã em perigo. Duas, seria demais para mim…
— Eu tenho certeza que Kassyeh está bem. — falou Mhuu – Ela é forte. E não está sozinha. O Tewdric morreria antes que algo acontecesse a ela.
Aquilo não era um alívio para Luxuriah, mas outra preocupação. Não queria Tewdric morto. Nem sua irmã. Nem Halduron. Queria todos vivos e de volta a Luaprata
— Já que estamos falando nisso… — Luxuriah se levantou, foi até uma mesa, pegou um pergaminho e voltou – Quero discutir nossa estratégia para quando chegarmos nessa terra.
— Partiremos direto para a busca? — quis saber Snetto.
Luxuriah assentiu.
— Será inevitável participar de algum conflito. Se o Chefe Guerreiro já soube da existência dessas novas terras, a Aliança também sabe. E estará lá. — os olhos de Luxuriah se crisparam – Se eles descobrirem que minha irmã está perdida nessas terras, vão atrás dela, para usarem-na como refém. E estou certa que Grito Infernal não faria nenhum esforço para resgatá-la. Por isso, temos que agir rápido.
— Lutar apenas o essencial. — deduziu Mhuu – E procurar rastros.
— Exatamente. — ela recostou-se – Eu trouxe uma peça de roupa da Kassyeh e um dos meus melhores ajudantes. Ele poderá rastreá-la pelo cheiro. Não vou deixar ninguém nos atrapalhar. — Todos entenderam que ela não falava apenas da Aliança ou de perigos desconhecidos da nova terra. Também se referia a Nazgrim.
Mhuu e Snetto assentiram. Sabiam o quanto aquilo era importante, não apenas para Luxuriah, como para toda a Horda. Nenhum dos dois queriam imaginar as implicações da morte de nenhum dos desaparecidos dentro da sua facção, seja pelo acidente ou pelas mãos da Aliança.
Todavia, os três sabiam que, independentemente de suas buscas, uma guerra estava em curso e estariam bem no olho dela no momento em que a nau aportasse.
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Com a ajuda dos pandarens, Kassyeh e Tewdric localizaram com facilidade o ponto onde desembarcaram e onde tinham deixado os suprimentos que trouxeram da nau. Montados em tartarugas, as montarias usadas na Vila Sri La, venceram a distância rapidamente. Durante o percurso, os pandarens que os acompanharam perguntaram se eles tinham ideia da distância que estava o navio deles quando naufragara.
— Realmente não sei dizer. — Admitiu o orc.
— Se vocês soubessem, — explicou Yato, um dos pandarens – poderíamos fazer o cálculo dos mares e teríamos ideia de para onde os outros botes teriam sido levados.
Tewdric e Kassyeh se olharam, entristecidos.
— Não entendemos de cartografia ou navegação. — explicou a elfa – O capitão do navio e seu imediato eram os responsáveis por essa parte técnica.
— E eles estavam em outro bote? — quis saber Yato.
— Não. Infelizmente eles foram mortos no ataque. — A maga entristeceu-se ao falar aquilo.
Nenhum dos pandaren perguntou mais nada sobre o naufrágio.
Os suprimentos que eles haviam deixado para trás estavam exatamente no mesmo local e ninguém, nem animal nem pessoas, havia mexido neles. Apesar de estarem sendo muito bem tratados pelos pandarens da vila Sri La, Kassyeh e Tewdric queriam, de alguma forma, retribuir a ajuda. Ali, nos suprimentos que trouxeram do navio, tinham várias coisas que poderiam dar de presente aos moradores da vila pela ajuda e outras que poderiam ser negociadas em outros lugares. E havia, claro, coisas que eles deixaram para trás e que eram importantes. Tewdric deixara seu machado principal, o grande de duas mãos, para trás para poder carregar Halduron em suas costas. Doente, o elfo não pudera carregar seu arco longo, que Kassyeh sabia ser herança de família. E ela não levara seu cajado e nenhum dos vestidos. Seria bom poder resgatar essas coisas.
Além disso, poderiam procurar na praia por rastros dos outros sobreviventes, caso eles tivessem aportado na mesma praia que eles. Porém, ao chegarem no local onde desembarcaram, não havia sinal que ninguém estivera ali recentemente, além deles próprios. Não havia nenhuma sombra no horizonte que indicasse onde o navio havia afundado ou se havia outros botes por ali. O ânimo dos dois minguou.
— Nós vamos achá-los. — Garantiu Tewdric, colocando a mão no ombro da esposa.
— Espero que todos estejam bem. — Desejou ela.
— Estão, tenho certeza.
Claro, Tewdric não tinha como ter essa certeza, mas queria acalmar a esposa.
Com Halduron em plena recuperação, Tewdric já pensava no passo a seguir. Depois que pegassem todas suas coisas e negociassem o que pudessem, pediria a ajuda de algum dos pandarens para localizar seus companheiros. Como os pescadores saiam todos os dias de madrugada para pescar, pediria para que eles prestassem atenção dobrada em qualquer coisa fora do comum. E, caso achassem sinal de pessoas da Horda, os avisassem o mais rápido possível. O orc sabia que, se pedisse, os pescadores sairiam procurando por toda extensão do litoral da Floresta de Jade por sobreviventes, mas achava que já abusara da hospitalidade dos pandarens. E não queria envolvê-los em nenhum conflito, caso a Aliança os encontrasse.
— Vou deixar um sinal em uma árvore. — Avisou Kassyeh – Um tipo de código, para caso alguém da Horda veja.
Tewdric hesitou um pouco, mas não a impediu. Kassyeh então, com o dedo em chamas, fez o símbolo da Horda no tronco de uma árvore grande, bem no limiar entre a praia e a floresta. Debaixo do símbolo da Horda, ela fez o símbolo de Luaprata e grafou as letras T, K e H. Era algo simples, que qualquer um que fosse da Horda e soubesse que eles estavam no navio poderia deduzir. Porém, se alguém da Aliança visse, só saberiam que pessoas da Horda estiveram por ali.
Kassyeh observou a marca que deixara na árvore e suspirou, preocupada.
— Será que as meninas já sabem? — murmurou.
— Acho que sim. — disse Tewdric, tão preocupado quanto ela – A Lulu já deve estar a caminho pra te buscar e chutar minha bunda por não ter mantido você em Luaprata.
Kassyeh não riu.
— Espero que não. Espero que nenhuma delas venha. — Ela olhou para o céu – Essa terra é linda, mas tem algo aqui. Algo que mexe com minha magia… com minha mente… — ela sacudiu a cabeça, e não falou mais nada.
O orc sabia do que a esposa estava falando. Ele também andava tendo pensamentos sombrios e estranhos. Todavia, desde criança ele se acostumara a simplesmente ignorar aquilo e tentar pensar em coisas práticas. Brincar com as crianças pandarenas ajudara bastante e conhecer Pietro e Pandora mais ainda. Imaginava que, por não ter a magia dentro dele, era mais fácil lidar com qualquer coisa que tivesse naquela terra. Para sua esposa, maga e provinda de um povo com uma profunda ligação com o arcano, seria bem mais difícil.
— Vamos carregar as tartarugas? — sugeriu ele, querendo tirar aqueles pensamentos da mente de Kassyeh.
Ela assentiu e começaram o trabalho.
Decidiram deixar a maior parte da água que carregara para trás. A vila de Sri La tinha um poço e não havia necessidade de carregar aquele peso. Kassyeh também pensara que, se alguém aparecesse por ali, com sede, poderia beber aquela água. Se não, com o tempo, o couro dos imensos cantis se desfaria e integraria a natureza ali. Nenhum mal decorreria daquilo.
Enquanto Kassyeh e Tewdric carregavam as tartarugas, os irmãos pandarens que os acompanharam ficaram interessados na alvenaria usada no bote deles. Filhos de pescadores, conheciam bem a arte de construir e consertar botes, mesmo que tivessem optado pelo caminho dos monges. Ainda assim, tinha muito interesse por barcos e por isso, pediram:
— Podemos ficar com o barco? — pediu Yato.
— Queríamos estudá-lo! — exclamou Kanato – É tão diferente dos nossos!
— Mas é claro que podem! — concordou o Tewdric com um sorriso – É de vocês!
Os irmãos ficaram superfelizes e começaram a discutir como levariam o barco para a vila. Tewdric e Kassyeh se entreolharam, felizes em poder retribuir nem que fosse um pouco toda a ajuda que receberam dos pandarens. Os dois acharam que os irmãos decidiriam seguir pelo mar com o bote, mas os dois simplesmente subiram em sua tartaruga, com o barco sobre suas cabeças e deixaram a montaria fazer o trajeto seguindo as tartarugas onde iam Kassyeh e Tewdric. Os pandarens reclamaram o caminho todo, pois quando a tartaruga não tropeçava em um buraco, eles batiam com o bote em algum galho baixo. Tewdric e Kassyeh riram bastante com a situação, pois Yato e Kanato tratavam aquela viagem como se fosse uma grande brincadeira e isso os contagiou.
Já era noite quando voltaram à vila e todos correram quando viram Yato e Kanato transportando um barco tão estranho em suas cabeças. Os pescadores eram os mais interessados e ajudaram os irmãos a carregarem o barco até debaixo das tochas que iluminavam a vila e passaram a analisá-los. Enquanto isso, Kassyeh distribuiu doces entre os filhotes, que estavam encantados com aquela iguaria vinda de terras distantes.
— O que é isso? — perguntou Yasu analisando o doce por todos os ângulos.
— É uma rosquinha amanteigada. Um doce muito popular em minha cidade. Talvez não esteja muito crocante, por causa do tempo que foi feito, mas ainda estão saborosos. Provem! — insistiu Kassyeh.
As crianças mordiscaram os biscoitos, mas assim que sentiram o gosto, se empolgaram e os abocanharam com voracidade, antes de pedir mais. Kassyeh distribuiu todos os biscoitos que tinha, garantindo que tentaria reproduzir a receita com os ingredientes de Pandaria. Contudo, o que realmente fez sucesso entre os aldeões foi a bebida órquica que Tewdric trouxera.
— Havia bebida entre os suprimentos? — se surpreendeu Halduron.
— Bebida é suprimento. — disse Tewdric com seriedade.
E, durante o jantar comunitário daquela noite, a bebida foi distribuída e todos puderam provar um pouco. Enquanto comiam e bebiam, Kassyeh cantou pela primeira vez, encantando a todos. Não tinha sentido vontade de cantar antes, preocupada com toda a situação de quando chegaram, mas agora queria compartilhar um pouco de sua cultura com todos eles. Cantou algumas canções populares e explicou que algumas tinham sido compostas por sua avó, séculos antes. Foi uma noite tranquila e proveitosa.
“Queria que Pandora e Pietro estivessem aqui.”, pensou Kassyeh com carinho.
Desejara que os dois irmãos humanos não tivessem ido tão repentinamente embora, ainda que o motivo fosse compreensível. No lugar de Pandora, ela também faria de tudo para ajudar o irmão, mas agora pensava se não devia ter sugerido que eles aguardassem Halduron ficar bom e irem todos juntos. Era um absurdo, claro, afinal era de facções diferentes, mas Kassyeh sentia vontade de protegê-los. Se estivessem com eles, caso encontrassem a Horda, eles não estariam em perigo. Claro, havia o risco de acontecer justamente o contrário, encontrarem a Aliança, mas eles saberiam se virar e Pandora e Pietro estariam em segurança com seu próprio povo.
Foi pouco tempo, mas Kassyeh se afeiçoara aos dois, principalmente a Pietro. Ele era um menino tão fofo e ao mesmo tempo tão forte, que apesar das limitações ainda mantinha o coração aberto e a esperança intacta diante de um futuro tão sombrio que o ameaçava. Ficara com vontade de cuidar dele, cuidar de Pandora, como a mãe deles não fizera. Era um sentimento perigoso, pois poderia ser considerado uma grave traição à Horda. Todavia, Kassyeh não os via como membros da Aliança. Os via como jovens que precisavam ser cuidados. Esperava que um dia pudessem se reencontrar.
Enquanto as preocupações de Kassyeh em Pandora e Pietro, Halduron, alheio ao que acontecera enquanto estivera doente, pensava em como os três sairiam daquela terra. Kassyeh falara em encontrar uma maga em uma vila chamada Arboreto para aprender sobre a magia daquela terra e abrir um portal para Luaprata. Halduron achava que não seria tão fácil. Ainda que voltassem logo para casa, e ele acreditava que Kassyeh tinha a habilidade necessária para levá-los de volta, o Chefe Guerreiro teria interesse em conquistar àquela terra e usaria qualquer um que tivesse mantido contato com os pandarens naquela empreitada. Pobre Pandaria, pensou Halduron. Em breve, seria palco de um conflito envolvendo o ódio alheio e seria vilipendiada por pessoas que não pensaria em seus habitantes, apenas no próprio poder. Não queria fazer parte daquilo.
As dúvidas que atormentavam Kassyeh também se esgueiravam na mente de Halduron. Nenhum deles sabia de nada sobre os shas, as energias que rodeavam Pandaria, como aquela terra era viva e influenciava as pessoas. Não sabiam, mas podiam sentir. Sentira que era um local diferente de tudo que já conheceram e isso não estava ligado às belezas do local ou ao povo hospitaleiro que o habitava. Havia magia antiga ali e, mesmo Halduron que não era mago, podia sentir em sua alma todo o poder que emanava daquela terra.
As preocupações de Tewdric iam mais além das de sua esposa e de seu amigo. Ele sabia que Pandaria não seria poupada. Sabia que a terra era diferente. E sabia que, antiga como era, Pandaria deveria esconder muitos segredos. E coisas poderosas. Tinha certeza que a ganância do Chefe Guerreiro seria despertada. E decidiu que não esconderia seus pensamentos daqueles que seriam os principais afetados pela disputa que se aproximava.
— Senhora Mili. — falou o orc a certa altura do jantar – Podemos conversar?
— Claro, Tewdric. — falou a pandarena.
— É um assunto sério. — disse olhando para as crianças em volta – Poderíamos conversar a sós?
As crianças reclamaram, mas os deixaram a sós. Correram para Kassyeh e começaram a pedir que ela cantasse mais. A elfa sorriu e atendeu o pedido.
— Algum problema, Tewdric? — perguntou a pandarena calmamente.
— Não agora, mas haverá em breve.
Sem titubear, o orc falou tudo que pensava. Não escondeu nada. Falou sobre Garrosh e sua sede de poder. Falou sobre Theramore a destruição causada lá. Falou sobre como o conflito com a Aliança poderia afetar de uma forma terrível Pandaria. Ele não tentou minimizar qualquer ato da Horda. Foi bem claro sobre como os orcs poderiam ser violentos e como aquela violência crescera sob o comando de Grito Infernal. Falou que os outros povos da Horda eram mais contidos, mas que eram fiéis e acabariam por obedecer ao Chefe Guerreiro, ainda que não concordassem com ele.
— Não posso falar pela Aliança. — disse com sinceridade – Como a senhora sabe do nosso conflito, tudo que eu falasse soaria partidário. Por isso, falo do que eu conheço e de como eu acho que o Chefe Guerreiro vai agir.
— Você acredita que esse Chefe Guerreiro via mesmo trazer guerra em nossa terra? — perguntou Mili Lúpulo Errante, preocupada.
— Infelizmente, sim. — e baixando a cabeça, sussurrou – Sinto muito.
A velha pandarena colocou a mão felpuda no ombro de Tewdric, consoladora.
— Obrigada por sua sinceridade, Tewdric. — agradeceu – Se houver mais pessoas como você em sua Horda, e pessoas como Pandora na Aliança, talvez tudo não esteja perdido.
— Admiro seu otimismo. — elogiou o orc – Queria eu pensar assim.
— Otimista ou não, não posso ignorar o seu conselho. Se há a possibilidade de guerra em nossas terras, é essencial que nos prepararemos. Há uma pessoa, um monge, que precisa saber do que você me falou. Se alguém poderá impedir ou minimizar o que está para acontecer, será ele. Mandarei uma mensagem hoje mesmo.
— É algum tipo de rei de vocês? — perguntou Tewdric.
Mili soltou uma risada.
— Não, não. Não temos nada como um rei em Pandaria. Nada como seu Chefe Guerreiro. Eu pensaria nele mais como um protetor de nosso povo.
— E quem seria?
A pandarena sorriu.
— Taran Zhu, o lorde dos Shado-pans.
*******************
A jovem serpente das nuvens deslizava tranquilamente no ar, emitindo ruídos fofinhos e alegres em seu cercado. Uma jovem pandarena se aproximou dela e lhe deu um pouco de mel. A serpente abocanhou o favo, emitiu mais ruídos fofinhos, girou no ar e voltou a passear tranquilamente. Pandora e Pietro observaram o ritual e depois cumprimentaram a pandarena que com um aceno de cabeça. O menino estava encantado.
— Pãozinho, você vai ter uma dessas! — exclamou, animado.
Todavia, a animação não era compartilhada por sua irmã.
Pandora havia se preparado para uma viagem de semanas por terra. Já estava conformada que seria cansativo e perigoso. Até fizera planos de domar alguma fera no meio do caminho. Agora, a viagem longa seria resumida a alguns dias de viagem aérea. Viagem aérea. Em bichos que ela nunca vira antes. E que pareciam muito leves para estar no ar e muito fracos para carregar até mesmo um menino franzino como Pietro. E se não tivesse visto as serpentes das nuvens carregando os pesados pandarens, pensaria que era tudo uma grande piada que estavam contando a eles.
— Você tem medo de voar? — perguntou Rukiah.
— Não. — apressou-se em dizer Pandora – Apenas… Elas parecem tão frágeis….
A sacerdotisa sorriu.
— Mas não são. Você vai ver.
A chegada em Arboreto trouxe um alívio e uma preocupação para Pandora. O alívio foi que ela descobriu que poderia ajudar aos pandarens, de forma a não se sentir uma inútil e contribuir com aqueles que tanto faziam por eles. E a preocupação, óbvio, era saber que teria que montar naquelas criaturas de aparência frágil, com seu irmão, e praticamente cruzar Pandaria.
— Não será uma viagem longa se partimos daqui voando. — explicara Rukiah – Três dias no máximo, pois teríamos que parar para as serpentes descansarem. De carroça gastamos, pelo menos, uns dez dias.
Muito a contragosto, Pandora admitia que ir de serpente das nuvens era muito melhor. Ficar dias sacudindo em uma carroça não faria bem para a saúde de Pietro. E claro, havia os perigos com feras selvagens, com uma criatura chamada ‘mogu’ que disseram existir, com os macacos que atacaram o navio da Aliança e, claro, pessoas da Horda que não seriam legais como Kassyeh e Tewdric. Então, se tinha que aprender a cavalgar naquelas criaturas, faria bem-feito.
Da mesma forma que em Sri La, ela e Pietro foram muito bem tratados em Arboreto, recebendo a hospitalidade dos pandarens. Depois de uma noite de sono restauradora, Pandora estava pronta, com seu arco na mão, ao lado de Rukiah recebendo as instruções da Anciã Anli para agir. Pietro estava ao seu lado, encantado com a serpentezinha, que voava ao seu redor, dava mordidinhas em sua bochecha e voltava para a Anciã Anli
— É um prazer que você queira nos ajudar, Pandora. — disse a anciã, alimentando a serpentezinha – Os escamas-lisa estão se proliferando e colocando em riscos os ninhos das serpentes das nuvens na Ilha Ventaneira. Nós, a Ordem da Serpente das Nuvens, não somos guerreiros, somos cuidadores. Sempre precisamos de ajuda para continuar nosso trabalho.
— E eu vou ajudar. — garantiu a jovem humana – Quero retribuir o que seu povo tem feito por mim e por Pietro.
— E eu agradeço. Você parece forte e determinada, jovem Pandora. Sei que poderemos confiar em você.
— Pãozinho! — chamou Pietro animado – Você vai realmente caçar um ovo pra você?
A Anciã Anli o tinha explicado que poderia sim, emprestar uma serpente para que ela e o irmão fossem até o Templo de Chi Ji, mas que o ideal era ela ter sua própria serpente. E, quando deu por si, Pandora já havia concordado em fazer parte da Ordem, ajudá-los e também, cuidar de sua própria serpente.
— A senhora tem certeza que eu posso pegar um ovo, caso encontre? — perguntou ainda sem acreditar – As serpentes mamães não ficarão chateadas?
— Ah, não. Elas entendem nosso trabalho. Sabem que não estamos lá para roubar e maltratar seus filhotes. Sabem que cuidamos bem deles. E a maioria foi treinada por nós e, quando chega a hora de procriarem, as deixamos livre para ir fazer seus ninhos. Ela nos reconhece quando voltamos.
— Mas eu não sou pandaren. — contestou a jovem humana – E se elas não entenderem o que estou fazendo lá?
— Ela entenderá. — garantiu a pandarena, confiante – Não se preocupe.
— E eu estarei lá com você! — lembrou Rukiah – Eu também faço parte da ordem!
— Rukiah, cadê sua serpente? — quis saber Pietro.
— Lá na Ilha Ventaneira. Ela está chocando ovos também! — comentou a sacerdotisa, animada – Seria legal se achássemos o ninho dela e você pegasse um dos ovos da Fofucha!
— Fofucha? — estranhou Pandora.
— É o nome de minha serpente. Vá pensando em um para a sua!
Rukiah estava nitidamente mais empolgada que Pandora naquela missão.
— Vou emprestar a minha serpente a vocês para irem até a Ilha Ventaneira. — explicou a senhora Anli – Quando chegarem lá, falem com o Instrutor Tong, que ele lhes dirá o que precisa ser feito.
Pandora assentiu e se voltou para seu irmão.
— Eu volto logo. Não vá dar trabalho, hein?
— Pode deixar, eu prometo não sair correndo por aí. — Gracejou o menino.
Pandora riu e deu um beijo na cabeça dele.
— Estou pronta. — disse para Rukiah.
A serpente da Anciã Anli era verde e se chamava Ichi. A velha pandarena segurou as rédeas com delicadeza enquanto Rukiah subia com agilidade. Pandora hesitou um pouco, mas também subiu. Quando a serpente começou a subir, Pandora teve uma vertigem, pois ela serpenteava (óbvio, era uma serpente!), a deixando um pouco enjoada.
— Pela Luz, que sensação estranha! — exclamou a jovem enquanto deslizavam pelo ar.
— Pode se agarrar em mim. — disse Rukiah, que guiava a serpente – E fechar os olhos.
Foi o que Pandora fez para não vomitar. Fechou os olhos e os manteve assim até se acostumar com a cadência do voo da serpente. Quando sentiu que o estômago tava melhor e ela não ia pôr o café da manhã para fora, abriu os olhos e se arrependeu por não ter aberto antes. A vista era linda, o oceano de águas límpidas, a Ilha Ventaneira se projetando em meio ao azul profundo do mar, suas colinas altas apontando para o céu, as encostas verdejantes se projetando na imensidão... Será que Pandaria não pararia se surpreendê-la?
Rukiah manejou a serpente para baixo, em direção à praia e o movimento brusco fez Pandora enjoar de novo. Fechou os olhos e aguardou até sentir que Ichi havia pousado para então abrir os olhos e descer. Ela respirou fundo e se inclinou, colocando as mãos no joelho, esperando a sensação passar. Rukiah apenas aguardou e não fez nenhum comentário. Talvez aquele enjoo fosse comum em quem andava a primeira vez nas serpentes das nuvens, pensou Pandora. Quando ela se endireitou, Rukiah disse, apontando para dentro da ilha.
— O Instrutor Tong está pra lá. Vamos?
A sacerdotisa soltou as rédeas da serpente, que voou para o alto, e caminharam pela praia. De repente, algo pulou na frente delas, assustando-as. Era um homem réptil que, sem nem pestanejar, as atacou selvagemente. Pandora reagiu por puro instinto, alvejando a criatura, enquanto Rukiah conjurava feitiços contra ele. Demorou um pouco até elas conseguirem matá-lo, e quando o fizeram, a jovem humana encarou a amiga, o olhar assustado.
— Essa é uma das criaturas que a anciã falou? — quis saber.
Rukiah assentiu.
— Escamas-lisas. E se eles estão tão à vontade para nos atacar na praia é porque algo aconteceu. Vamos!
Preocupadas, sem saber quantos escamas lisas tinham por ali, elas foram cuidadosas e evitaram ir pelo meio da praia, caminhando pela encosta. Logo, viram uma grande aglomeração de escamas-lisas e muitos deles perseguiam as serpentes das nuvens. Viram também, com espanto, muito filhotinhos de serpentes no chão, emitindo ruídos de dor. Pandora fez menção de ir até eles, mas Rukiah a segurou e fez que não, antes de apontar três escamas-lisas por perto. Era uma luta que seria demais para elas. Angustiada, a jovem humana concordou e elas conseguiram chegar até a encosta onde uma cara velha estava alocada. Havia muitas barreiras na entrada da casa, mas Rukiah foi logo falando:
— Tong! Sou eu, Rukiah!
Pandora olhou para trás, com medo de algum escama-lisa ater ouvido, mas não havia nenhum atrás delas. Um pandaren apareceu, saído do meio de um arbusto e ele tinha muitas folhas presas em sua roupa. Devia estar se camuflando.
— Rukiah! Os Celestiais te mandaram, menina! As coisas aqui estão caóticas! — disse enquanto tirava uma barricada.
— Nós percebemos! Viemos ajudar!
— Nós? — o pandaren só então percebeu que havia alguém com Rukiah – Pelos Celestiais, o que é isso?!
— Isso? — Pandora olhou para trás até perceber que ele falava dela – Ei!
— Essa é Pandora, ela é uma humana. Deixe a gente entrar que conto tudo.
Tong permitiu a entrada delas e as histórias foram contadas: a de Rukiah e a de Tong. Foi quando elas souberam que os escamas-lisas, que até bem pouco tempo tinham medo das serpentes das nuvens, passaram a atacá-las e aos seus ninhos, roubando seus ovos. Ele tentara evitar, mas era só um e não deu conta. Por isso, tinha pedido ajuda.
— Eu sou só um, mas não posso deixá-las aqui. — Concluiu o pandaren.
— E a Fofucha? — perguntou Rukiah preocupada – Você a viu?
— Da última vez que eu a vi, estava tudo bem. Mas foi ontem. — Ele falou com sinceridade.
Diante da expressão desolada de Rukiah, Pandora colocou a mão em seu ombro e disse, resoluta:
— Vamos ver a Fofucha primeiro. Encontrar o ninho dela. — e depois, olhou para Tong e perguntou – O que mais podemos fazer?
— Matar o máximo de escama-lisas que conseguirem. Resgatar os ovos que encontrarem. Ah, vocês têm bandagem? Tem filhotes machucados que podem precisar.
Depois que Tong passou todas as determinações, Rukiah e Pandora se prepararam, a jovem humana contando suas flechas e a sacerdotisa separando as bandagens que levaria. Saíram da casa de Tong e seguiram até onde estavam os ninhos das serpentes.
— Espero que a Fofucha esteja bem. — falou Rukiah, preocupada – É a primeira ninhada dela…
— Ela estará bem, você vai ver. — acalmou-a Pandora.
O caminho não foi fácil. As duas estavam muito irritadas com o que estava acontecendo e, assim que viam qualquer escama-lisas, não os poupavam. Os bichos eram fortes e elas perceberam que não era prudente confrontá-los se estivessem em um grupo com mais de dois. Então, foram abrindo caminho da melhor forma possível até onde as serpentes das nuvens tinham feito seus ninhos. Infelizmente, as criaturas reptilianas já estavam lá e viram enquanto dois deles atacavam uma serpente azulada, que se defendia ferozmente.
— Fofucha! — gritou Rukiah antes de lançar uma magia nos escamas-lisas que, atordoados, pararam de atacar a serpente e se voltaram contra as recém-chegadas.
Pandora soltou um palavrão quando atingiu um deles bem no olho. A criatura gritou e foi direto para cima dela. A jovem teve que saltar para trás para continuar à distância, mas isso não evitou que a criatura a atingisse e a ferisse. Mesmo com sangue escorrendo pelo braço, Pandora continuou atacando até Fofucha estar segura. Depois, caminhou até onde Rukiah estava, abraçada à sua serpente e curando-a.
— Vai ficar tudo bem, Fofucha. — dizia acalmando a criatura – Nós vamos recuperar seus ovos.
Fofucha emitiu um ruído, que parecia ser uma mistura de tristeza e esperança, e deu uma cabeçada carinhosa em Rukiah e outra em Pandora, quando esta chegou.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Ela está bem? — perguntou Pandora.
— Sim. Mas precisamos recuperar os ovos e… — foi quando a pandarena viu o sangue – Pelos Celestiais, você está machucada!
— É só um cortezinho. — disse a jovem, tentando ignorar a dor latejante.
— Vamos resolver isso. — Rukiah começou a invocar a magia de cura, que envolveu Pandora e a fez se sentir bem melhor – Acho que os espantamos daqui, quero ir em busca dos ovos das serpentes. Acho que Fofucha não foi a única roubada.
— Vamos! Vamos matar esses bichos!
Depois que se certificaram que não havia nenhum escama-lisa perto dos ninhos, nem nas redondezas, as duas foram em direção aos covis das criaturas para recuperar os ovos. Era uma missão mais de furtividade que de luta pois, eram só duas e os escamas-lisas eram muitos. O covil dos escamas-lisas ficava em uma enseada fétida e haviam tantos deles que as duas hesitaram por um momento. Contudo, a visão dos ovos espalhados naquele lugar as fez prosseguir, devagar e cautelosamente, mantendo a mesma estratégia de antes, de atacar apenas criaturas sozinhas ou em pares. Depois, pegavam os ovos, colocavam em grandes bolsas dadas por Tong para o transporte e iam para o próximo alvo. Elas não tinham recuperado nem um terço dos ovos quando as bolsas ficaram cheias. Tiveram que tomar uma decisão: continuar lutando ou voltar.
Àquela altura, os escamas-lisas tinham percebido que algo estava acontecendo. As patrulhas aumentaram e os grupos agora eram de três ou quatro. Temendo pelos ovos e por suas vidas, as duas se entreolharam e fizeram um aceno afirmativo com a cabeça antes de recuarem.
— Temos que voltar depois. — falou Pandora, angustiada – Não fico tranquila em ver aqueles ovinhos no meio dessas criaturas imundas!
— Eu também não. Mas vamos levar esses pequeninos de volta para as mamães deles e conversaremos com Tong para decidir o que fazer a seguir.
Antes de voltar, contudo, elas fizeram questão de cuidar de cada filhotinho que achavam perdido e ferido no caminho. Depois de curados, os pequenos as acompanhavam alegres até os ninhos, satisfeitos de voltarem para suas mães. Assim que viram os ovos e os filhotes, as serpentes ficaram tão felizes que Pandora se viu no meio de um monte dela, levando cabeçadinhas satisfeitas e mordidinhas carinhosas. Era uma forma de carinho estranha, mas fofa.
— Esse filhotinho é seu, Fofucha? — ouviu Rukiah falar – Que lindo!
A imensa serpente estava dando cabeçadinhas em um filhote, que voava feliz ao redor dela e emitiu um ruído feliz.
— E os ovos? Algum é seu? — quis saber a sacerdotisa, mostrando os ovos à Fofucha.
Pandora percebeu, abismada, que as serpentes conseguiam distinguir seus ovos no meio dos outros. Talvez os ovos fossem como recém-nascidos, pensou. Tinha certeza que Doroteya reconheceria Liana no meio de um monte de outros bebês com carinha de joelhos. Talvez fosse uma habilidade que só as mães tivessem. Infelizmente, Fofucha soltou um ruído triste: nenhum daqueles ovos era os dela.
— Sobraram três ovos. — Percebeu Pandora preocupada – O que isso significa?
Rukiah olhou para eles, tristemente.
— Significa que aquelas criaturas horrorosas deixaram esses aqui órfãos… — a pandarena estava segurando as lágrimas – Venha, vamos voltar para o Tong.
Quando chegaram na casa do pandaren, ele ficou muito satisfeito em saber do que elas tinham feito. Depois que ouviu o relato dos três ovos sem mãe, os encarou com tristeza, antes de olhar para Pandora.
— Você pode escolher um deles para você. — disse – Escolha com sabedoria, a sua serpente estará com você para sempre.
Era uma responsabilidade muito grande, pensou Pandora olhando os ovos. Havia um dourado, lindo, com listras avermelhadas. Havia também um verde-esmeralda, e a jovem pensou que a serpente que sairia dali seria parecida com a da Anciã Anli. Mas a que mais lhe chamou a atenção foi o ovo azulado, com nuances roxos e lilases, que parecia uma safira quando o sol batia nele. Aquele azul lhe lembrou a cor dos olhos de Halduron. Então, escolheu.
— Esse. — disse tocando com carinho no ovo azulado – Eu quero esse.
— Ah, uma serpente lazúli! — exclamou Tong feliz – Excelente escolha. Vou colocar esses dois aqui na estufa. — falou pegando os outros dois ovos e colocando nas bolsas.
— Tong, ainda há muitos ovos e muitos escamas-lisas. — Avisou Rukiah, preocupada – Estou com medo de eles voltarem a atacar os ninhos. O que podemos fazer?
— Vocês podem voltar amanhã e continuar o trabalho. A noite vai já cair e ficará perigoso prosseguir. Há mais perigos aqui que apenas os escamas-lisas. Além do mais, eles têm sangue frio. Eles não atuam enquanto é noite. Estaremos seguros até amanhã.
Pandora nem havia notado que o dia já estava no fim. Na adrenalina, ela e Rukiah passaram o dia no meio de lutas, magias de cura e mais lutas. Só agora percebia a imensidão de sua sede e fome. Como se tivesse lendo sua mente, Tong deu uma caneca grande de água fresca para cada uma delas e as convidou para o jantar. Rukiah, para sua surpresa, recusou.
— Acho melhor irmos para Arboreto e contar à Anciã Anli o que está acontecendo. Mas obrigada pelo convite.
Colocando com cuidado o ovo em sua mochila, Pandora respirou fundo ao perceber que estava prestes a encarar a jornada de volta a Arboreto. Estava cansada, suja, com fome e preocupada com Pietro. Mas também estava feliz e satisfeita por ter ajudado às serpentes da nuvem. Por isso, subiu em Ichi sem protestar e logo estavam de volta à vila.
A primeira coisa que Rukiah fez foi dizer à anciã da Ordem tudo que acontecera. A velha pandarena ouviu tudo com uma calma surpreendente.
— Fico feliz que vocês tenham feito tanto pelas serpentes, principalmente você, jovem Pandora. — falou a anciã, com delicadeza.
Pietro, ao contrário da velha pandarena, estava muito animado, perguntando à irmã todos os detalhes da luta.
— Contarei tudo com calma no jantar. — Garantiu Pandora com um sorriso cansado – Pela Luz, como preciso de um banho… — murmurou olhando a roupa suja de sangue.
— E o ovo? — o menino quis saber, ansioso – Conseguiu?
Mesmo que estivesse cansada, não conseguiu segurar a risada diante da empolgação do irmão. Tirou o ovo lazúli da mochila e os olhos do menino brilharam.
— Uau… posso pegar?
— Claro. — Pandora entregou o ovo nas mãos do menino, que o virou nas mãos, vendo as nuances que a luz produzia na casca – É lindo… — e devolveu à irmã.
— Sim, ele é. — Pandora segurou o ovo com cuidado – Eu acho que…
Antes que ela terminasse sua frase, sentiu o ovo vibrar e quase o derrubou do susto.
— O que é isso? — perguntou à Anciã Anli, assustada.
— Deixe-me ver seu ovo. — pediu a pandarena.
Pandora entregou o ovo e aguardou. A Anciã examinou o ovo e abriu um sorriso.
— Parece que sua serpente está ansiosa para te conhecer, Pandora. O ovo vai chocar. — anunciou, orgulhosa.
— Já?! — espantou-se Pandora.
— Sim. Leve-o até o cercado. Vamos vê-lo eclodir.
Todos seguiram para o cercado, a empolgação visível em cada rosto. Pandora colocou o ovo carinhosamente em um ninho improvisado e aguardou. A casca começou a rachar e, em poucos minutos, uma belíssima criatura saiu de dentro dele. Era uma serpentezinha, um pouco menor do que as que vira na Ilha Ventaneira. A pequena e majestosa criatura piscou os olhinhos da cor do céu e, ao ver Pandora, emitiu ruídos fofinhos, voo em torno de si mesma, antes de mordiscar a bochecha de sua nova amiga.
— Ela pensa que você é a mamãe dela! — exclamou Pietro, fascinado.
— Acho que não é para tanto… — murmurou Pandora estendendo a mão para que a serpentezinha pousasse nela. A sensação era estranha, mas não era desagradável.
— Elas nascem com bastante fome. — falou Rukiah animada – Vou pegar a primeira refeição que sempre tem pronta aqui para os nascimentos.
A sacerdotisa não demorou e entregou a Pandora favos de mel e um filé de uma carne que Pandora não reconheceu. Ela ofereceu os alimentos para a serpentezinha, que abocanhou tudo com uma ferocidade que não condizia com seu tamanho pequeno, e engoliu rapidamente. Depois a serpentezinha deu duas mordidinhas na bochecha de Pandora antes de se enroscar no seu ninho e dormir rapidamente.
— Ah, agora ela só acorda amanhã. — revelou a anciã Anli – Você fez um ótimo trabalho, Pandora.
A jovem humana ruborizou e um sorriso imenso tomou seu rosto.
— Precisamos de um nome para ela. — disse Pandora olhando para o irmão – Estou sem ideias. Tem alguma?
O menino pensou um pouco, olhando para a serpentezinha azulada dormindo a sono alto em seu ninho.
— Que tal Hope? — sugeriu o menino – Lembro que o tio Vin falou que, no antigo idioma humano, significa Esperança.
— Hope. — repetiu Pandora – Gostei. Ela se chamará Hope.
Rukiah sorriu. Hope. Esperança. Nenhum nome simbolizava mais a chegada daqueles dois jovens humanos em Pandaria.
********************
Aquela devia ser a sensação de acordar no inferno.
Luxuriah abriu os olhos, confusa, com a sua cabeça latejando, uma sensação pegajosa no rosto, sem conseguir enxergar nada em meio à fumaça. Confusa, percebeu que estava caída, de costas no chão, que tremia vertiginosamente. À medida que sua mente ia clareando, ouviu gritos, ainda que estes ecoassem distantes, como se pertencessem a outro mundo. Tentou se mexer, mas uma dor aguda se apossou de suas pernas. Gritou de dor e de raiva, dando vasão à sua frustração.
— Lux!
Alguém gritou seu nome em meio a fumaça e ela gritou novamente, sem conseguir articular nenhuma palavra. As figuras de Mhuu e Snetto surgiram em seu campo de visão e os dois se abaixaram.
— Graças aos ancestrais, achávamos que você havia caído da nau! — exclamou aliviado o tauren.
— Ela está muito machucada. — falou Snetto analisando os ferimentos da elfa – Você acha que pode curá-la?
Mhuu assentiu e começou a conjurar uma magia de cura. Luxuriah sentiu as dores sumirem e quase chorou de alívio. Sua mente ficou clara e as lembranças do que acontecera voltaram.
Estavam voando quando um nevoeiro apareceu do nada. Todos os tripulantes ficaram preocupados, murmurando, sem querer admitir que o medo se apossara da orgulhosa frota da Horda. Em determinado momento avistaram navios da Aliança e a resposta foi imediata. O conflito começara e eles foram atingidos. E ela fora ferida.
— Onde estamos? — perguntou ela enquanto Snetto a ajudava a se levantar.
— Nas novas terras. — respondeu o paladino – Bem perto ao ponto onde o navio da princesa Kassyeh mandou o último aviso.
Um novo ânimo se apossou de Luxuriah. Preocupada com seu ajudante, ela assobiou alto. Uma fera espiritual, um tigre branco, cheio de manchas cinzas e brilhante olhos azuis, veio correndo em sua direção. A elfa suspirou de alívio e se abaixou, abraçando-o.
— Salem! Que bom que você está bem! — e soltando-o, se levantou novamente – Acredito que está na hora de lutar. Nazgrim ainda está vivo?
— Sim. Ele está na sala de comando. — respondeu Mhuu – Ah, achei isso. Acho que você ficará feliz em tê-la novamente. — e entregou a besta de Luxuriah, que sorriu.
— Obrigada, Mhuu. Agora vamos falar com Nazgrim e saber como está a situação.
O três, acompanhados de Salem, se dirigiram até o interior do Punho do Grito Infernal, onde Nazgrim e outro orc cujo nome Luxuriah não lembravam, estavam discutindo sobre o que fazer. Quando viu a elfa, o general mostrou-se surpreso, antes de abrir um sorriso que Luxuriah não sabia se era aliviado ou zombeteiro.
— Luxuriah! Me disseram que você tinha morrido. Que bom que não era verdade. Tem muito Aliança para morrer ainda!
— Vá pro inferno, Nazgrim! — exclamou furiosa – Precisa mais do que isso pra me matar. — o orc deu uma risada e ela continuou – E eles morrerão, pode ter certeza. — garantiu a elfa, com a besta na mão – Qual o próximo passo?
— Eles atingiram nossos motores e nós viemos parar aqui. AQUI! Bem na linha de fogo inimiga! — Nazgrim deu uma risada – Você sabe o que fazer, Luxuriah. Vá para o convés inferior e maneje os canhões! Mostre a essa escória que ELES é quem estão em nossa linha de fogo!
Luxuriah não precisou que ele repetisse o pedido. Imediatamente, Luxuriah se dirigiu para a parte de baixo, junto com Mhuu e Snetto em sua cola. A cada passo que davam, a aeronau sacolejava e eles tinham que se equilibrar para andar. Quando chegaram ao local, já haviam outros membros da Horda nos canhões, tentando diminuir os ataques da Aliança a sua nave. Luxuriah imediatamente subiu no primeiro que viu vazio e começou a atirar. Apenas quando perceberam que as sacudidas da nau tinham diminuído foi que eles pararam de atirar. Saíram então dos canhões e foram novamente até Nazgrim, que disse que era hora de eles aportarem na nova terra. O coração de Luxuriah se acelerou e ela apertou a besta em suas mãos. Sua irmã estava ali, em algum lugar, e ela ia achar.
Se dirigiu novamente à parte de baixo da nau e ela e seus dois acompanhantes pegaram cordas e desceram. A primeira coisa que Luxuriah pensou ao ver aquela terra foi que era triste ver aqueles campos verdejantes desprendendo fumaça e com sons de tiros e gritos no ar. Como era aquele local um dia atrás? De que forma a chegada deles impactou a vida de quem quer que morasse ali? Quantas crianças poderiam chorar naquele momento por sua causa? Dúvidas começaram a se apossar de sua mente e ela quase soltou a corda, tamanha era sua confusão mental. Ficou aliviada quando seus pés tocaram o chão e olhou para Mhuu e Snetto. Havia um pavor em suas faces e Luxuriah imaginou que seu próprio rosto refletia aquele sentimento.
— Vocês estão sentindo? — perguntou sem folego – Estão sentindo…. Isso?
— Sim… — murmurou Mhuu.
— É como se tivesse algo tentando colocar coisas em minha mente… — falou Snetto com a voz trêmula – Será alguma coisa da Aliança? Alguma magia maligna?
— Se for, os faremos engoli-la. — Sibilou Luxuriah – Vamos.
As tropas da Horda construíram um acampamento improvisado rapidamente, enquanto ainda eram esporadicamente alvejados pela Aliança. Luxuriah abaixou-se atrás de umas das proteções e analisou o cenário. As forças da Aliança haviam tomado uma construção que pareciam um templo e era de lá que comandavam o ataque ao Punho do Grito Infernal. Olhou ao redor. Vastos campos de cultivo e floresta se espalhavam até onde a vista alcançavam. Seria muito fácil para ela, Snetto e Mhuu sumirem no meio da confusão e começarem a procura por Kassyeh. Porém, não queria dar vantagem a Aliança naquele local. Eles já haviam quase a matado uma vez e o fizeram novamente. A raiva fervilhava dentro dela enquanto via as sombras dos humanos e suas raças aliadas à distância. Não... Não os deixaria em paz. Limparia o caminho para as tropas de Nazgrim e depois iria em busca da irmã.
— Ah, aí está você! — Nazgrim chegava acompanhado por outros dois orcs e falou a frase assim que viu Luxuriah e seus companheiros – Eu estava começando a achar que iríamos nos divertir sozinhos sem você!
— Eu jamais perderia uma diversão como essa, Nazgrim. — Luxuriah se perguntou se havia alguma desconfiança na fala do orc ou se ele estava apenas gracejando. Por via das dúvidas, decidiu agir logo – Não diminuímos os números deles o suficiente. Precisamos de uma tática mais ofensiva.
— Gosto de seu jeito de pensar, princesa. — era a primeira vez que ele a chamava de princesa, mas Luxuriah nada comentou – Acho que está na hora de expurgarmos eles daquela fortaleza. E darmos fim aos estoques deles. Bem, sei que você sabe o que fazer. Vamos por caminho diferentes e nos encontraremos no topo. — Ele apontou para a parte mais alta do templo – Tente não morrer.
E, com um sorriso debochado, foi na direção do local.
Luxuriah, Snetto e Mhuu se prepararam. O xamã curou a todos e pediu aos espíritos proteção. O paladino fez orações e os agraciou com proteção divina. Luxuriah mostrou a todos por onde deveriam andar para irem mais rápido e ordenou a Salem que fosse na frente e os avisasse de qualquer coisa. E assim foram em direção à onde a Aliança estava estabelecida.
O templo era localizado no topo de uma colina e tinha escadas de ambos os lados que levavam até a parte principal e mais alta. O grupo de Luxuriah foi pelo caminho da esquerda, enquanto Nazgrim e seus comandados ia pela direita. Logo os dois grupos estavam tão distante um do outro que não se viam. E a batalha se intensificou.
O ódio nublou os pensamentos de Luxuriah que, se estivesse sozinha, provavelmente teria se atirado sobre a Aliança em um ataque imprudente. Conhecendo esse lado da elfa e sem estar ligado a ela por um laço de subserviência à coroa como Snetto, coube a Mhuu lidar com as emoções em ebulição da elfa.
— Luxuriah, vamos com calma. — disse quando ela quis subir as escadas do templo de peito aberto e besta na mão – Temos que matá-los e permanecermos vivos. — lembrou ele – Se você morrer, além de não achar a Kass, vai deixar usa filha órfã.
A menção a filha refreou Luxuriah por um momento. Todavia, era difícil permanecer ali, vendo humanos andando tranquilamente como se fosse donos do lugar e não fazer nada. Tudo que ela vivera quando seus pais foram mortos ficava voltando a sua cabeça, mais nítido e dolorido do que antes.
— Eu acho que há magia antiga nessa terra. — quem falou fora Snetto, chamando a atenção de Luxuriah e Mhuu – Estou sentindo não estavam antes em mim…
— Também sinto. — revelou Mhuu – E concordo com você: vem da terra.
Luxuriah respirou fundo, tentando controlar toda aquela raiva e percebeu que Snetto tinha razão. A sensação vinha de fora e forçava-se dentro dela. Tinha que ignorá-la.
— Vamos fazer logo o que deve ser feito e investigar o que são essas sensações. Com cuidado. — salientou Luxuriah e Mhuu sorriu para ela.
Subiram o mais furtivamente possível, visando os suprimentos da Aliança e os queimando quando os viam. Seus movimentos acabaram por chamar a atenção, em determinado momento, e os membros da Aliança foram investigar os misteriosos incêndios. E quando foram atacados, Snetto foi o primeiro a avançar. Com seu escudo e espada em mãos, atraiu a atenção dos inimigos enquanto gritava para os companheiros:
— Atrás de mim!
Mhuu e Luxuriah davam o suporte ao paladino que, junto a Salem, levava a maior parte dos golpes, enquanto o xamã o curava e Luxuriah diminuía ao máximo o número de inimigos. Com essa formação, conseguiram avançar sem se ferirem fatalmente.
Quando chegaram à entrada principal do templo, os corpos de avolumavam, havia barricadas nas escadas e Nazgrim já estava lá.
— Acabou? — perguntou Luxuriah – Já os expulsamos?
O orc fez que não com a cabeça.
— O covarde do capitão deles se entrincheirou lá em cima e deixou suas tropas para morrer. — ele cuspiu no chão – Típico da Aliança. Não importa, ele não tem para onde fugir de nós. Vou escalar os muros com meus fuzileiros enquanto você vai pela rampa. Aqui. — Ele lhe entregou algo, que parecia uma espingarda de cano curto e largo – Nos encostramos lá em cima. Vamos acabar de uma vez por todas com eles.
As barricadas não pareciam problemas à primeira vista. Luxuriah apontou a arma que tinha recebido de Nazgrim e estourou a primeira com facilidade. O problema foi o anão que surgiu por dentro da fumaça, com o machado em punho e que pulou em cima da elfa, com voracidade. Pega de surpresa, Luxuriah não conseguiu agir a tempo e, com certeza, teria sofrido ferimentos letais se Snetto não tivesse pulado em sua frente e a defendido com seu escudo. O paladino recebeu o golpe e vacilou por um momento, ficando com um joelho no chão, mas mantendo o escudo levantado, protegendo a princesa. O anão tirou o machado do escudo do elfo e ensaiou outra investida, mas Snetto estava preparado, perfurando a armadura do anão com precisão, fazendo o sangue espirrar para todos os lados. Quando o inimigo caiu no chão, morto, ele se virou para Luxuriah.
— Você está bem? — quis saber.
Ela assentiu, ainda aturdida.
— Confesso que não esperava por isso… — admitiu – Você está bem? — perguntou preocupada.
— Sim, não foi nada. — disse o paladino, mas Mhuu começou a curá-lo mesmo assim, por precaução.
— Agora eles não nos pegarão mais de surpresa. — disse o tauren – Eu posso estourar as barricadas e você fica a postos com sua besta, Lux. — Se ofereceu.
— Boa ideia. — ela entregou a arma a ele – Vamos.
As duas outras barricadas foram facilmente vencidas já que estavam preparados para ataques. Conseguiram chegar ao topo e Nazgrim já estava lá, lutando contra as forças da Aliança. O capitão humano estava à distância e, assim que o viu, Luxuriah foi invadida por um ódio muito maior do que sentira antes e avançou na direção dele. Nazgrim fez o mesmo. Vendo-se encurralado, o capitão subiu na amurada do templo. Será que ele ia se matar?
— Covarde! — gritou Nazgrim com um rosnado, enquanto corria na direção do humano.
— Sua escória vai destruir essa terra como fizeram com Kalimdor! — gritou o humano antes de pular.
Contudo, ele não pulou para a morte. Uma imensa aeronau azul e dourada surgiu, uma embarcação da Aliança, que estivera escondida aquele tempo todo. A nau pegou o capitão, que ordenou o ataque. Porém, o ataque não foi ao templo, mas ao Punho do Grito Infernal, a aeronau da Horda, que estava nas proximidades. O Punho do Grito Infernal foi atingido e começou a cair, para o desespero de Luxuriah. Ela sabia que ainda havia muita gente lá dentro. A nau se inclinou e caiu por entre as plantações ao redor do templo, deixando a elfa ainda mais angustiada. Pessoas deveriam morar por lá, senão não haveriam plantações. Pessoas inocentes deveriam ter sido atingidas naquele acidente. A raiva borbulhou ainda mais dentro dela. Porém, foi Nazgrim quem gritou, enfurecido:
— Não! Não! Eles tinham uma base aérea! Uma base aérea escondida! Meu barco! Grito Infernal vai querer a minha cabeça!
Luxuriah o encarou com raiva. Como ele podia pensar em si mesmo quando dezenas de pessoas estavam na aeronau quando ela caiu? E quantos nativos poderiam ter sido mortos naquele acidente? Estava prestes a começar a gritar com Nazgrim ao perceber que havia algo errado com ele. Seu corpo começou a ficar cinza e uma energia estranha saia de seus punhos. O orc começou a emanar uma energia que os atingiu com a mesma angústia que sentiram ao chegar ali. E quando se preparavam par ao pior, uma criatura caiu do céu, um imenso homem-urso com um enorme chapéu na cabeça e começou a invocar algum feitiço em Nazgrim. Todos estavam tão surpresos que não fizeram nada. Porém, aquela criatura não estava fazendo mal ao general, muito pelo contrário. Nazgrim logo voltou ao normal, mas uma energia branca e preta saiu do orc e infestou o templo. Uma delas atacou o grupo de Luxuriah, que revidou no mesmo instante. Depois voltaram a sua atenção para o recém-chegado.
— Quem é você? — perguntou Luxuriah, baixando a besta. Sabia que ele, quem quer que fosse, não estava ali para lutar com eles.
— Quem eu sou não importa, mas sim o que vocês fizeram aqui. — respondeu ele secamente – Fui avisado que haviam estrangeiros aqui que poderiam trazer conflitos, mas…. Pelos Celestiais, vocês são mais perigosos do que eu imaginei.
Ele fora avisado? O coração de Luxuriah disparou. Como eles tinha acabado de chegar, como aquele ursíneo saberia de sua existência? Já ia perguntar aquilo, quando Nazgrim, de joelhos no chão, rosnou:
— Que magia maligna a Aliança usou?!
— Não foi essa tal de “Aliança” que você falou que causou isso. Foram suas próprias dúvidas. — Ele olhou para o grupo de Luxuriah e franziu o cenho – Não conheço a história dessa guerra que vocês estão lutando, nem quero saber. Esta terra reage à energia negativa na mesma moeda. O ódio, a dúvida e a violência que vocês trouxeram para cá agora emanam de Pandária como sangue brotando de uma ferida aberta. — seus olhos brilhavam de indignação e revolta – Suas ações espalharam o caos por todas essas ruínas! Arrume essa bagunça e me encontre na aldeia lá embaixo. Vou tentar explicar da melhor forma possível o que está acontecendo aqui.
E uma criatura que lembrava uma grande serpente negra baixou e o ursíneo subiu nela, alcançando os céus. Ficaram em silêncio por um momento, absorvendo as palavras ditas.
— Lux? — chamou Mhuu e ela o olhou – O que faremos?
A elfa olhou para Nazgrim, que agora era ajudado por dois Korkron. Sentiu que já tinha feito sua parte e estava na hora de ir em busca de respostas.
— Vamos fazer o que aquele ursíneo falou. — disse – Vamos limpar essa bagunça e o encontrar. Quero saber quem foi quem o avisou que o conflito estava chegando. — afirmou resoluta antes de começar a atacar o que quer que saíra do corpo de Nazgrim.
**********************
A primeira visão que Lina teve de Pandaria foi idílica.
Havia acabado de amanhecer quando o nevoeiro surgiu. Lina estava no turno da noite e estava no convés quando a visão de todos foi turvada pelas brumas que surgiram. Imediatamente, ela ficou em alerta. Um nevoeiro surgido em uma situação como aquela era motivo de preocupações e a general esperou pelo pior. Seu coração apertou-se ainda mais quando ouviu a Almirante do Céu Rogers ao seu lado falar:
— A última posição da Nau Capitania foi abaixo de nós. Dá para ver alguma coisa?
Lina foi até a amurada da nau e observou. Só havia névoa e mais névoa. Todavia, quando as brumas se abriram e viu as novas terras pela primeira vez, ficou sem ação. Era a coisa mais bela que já vira. Seu olhar ficou preso às colinas altas e verdejantes até que ouviu gritarem:
— Embarcações da Horda!
Logo abaixo deles, navegando nas águas límpidas e azuis da nova terra, navios da Horda, perigosamente perto de onde estavam suas crianças. A boca de Lina ficou seca diante do medo que sentiu ao pensar em Pietro, Pandora e Anduin nas mãos da Horda. Estava tão apavorada diante daquela situação que não prestou atenção nas ordens gritadas pela almirante Rogers e só se moveu quando Vincent a pegou pelo braço.
— Vamos Lina. Precisamos ir.
Saindo de seu estupor, Lina seguiu Vincent até o convés, onde Rogers dava ordens. Ela procurou Crowe com os olhos, mas não o achou. Caminhou então até a almirante, que a encarou com a expressão preocupada.
— Lina, ainda bem que está aqui. Tem uma base inteira da Horda lá embaixo. — havia um misto de ódio e surpresa no olhar da almirante.
— Onde está o general Crowe? — perguntou Lina – Preciso que ele me dê as ordens.
— Não, não precisa. Nem eu, nem você precisamos dele. — a fala dura de Rogers fez a general perceber que a animosidade entre os dois piorara naqueles dias – O Celesfogo foi totalmente reconstruído depois da luta contra Asa da Morte. Vamos ver o que essa belonave aprimorada consegue fazer. — e deu um sorriso orgulhoso.
Lina teve um susto quando os canhões da belonau começarem a atirar nos navios lá embaixo, mas, em vez de ficar satisfeita, sentiu-se irrequieta. Olhou para os lados, onde os canhões na amurada eram disparados.
— Almirante, e se minhas… digo, se o príncipe estiver lá embaixo? — começou, sem esconder a preocupação — Não temos certeza de sua localização, então devemos mesmo usar os canhões dessa forma? — a imagem de Anduin e seus sobrinhos abaixados em algum lugar, no meio do fogo cruzado entre Aliança e Horda tomou a sua mente.
O olhar feroz que Rogers lhe lançou deixou Lina abismada. Não esperava a animosidade na frase que ouviu a seguir:
— Eu NÃO vou deixar a Horda fincar o pé nessa terra antes de nós! — a voracidade com que ela falou deixava todos os arroubos de selvageria de Doroteya no chinelo. Lina quase deu um passo para trás – Se você quiser entrar na luta, eu tenho um girocoptero sobrando no final da pista. Se não, saia da minha vista!
Não era uma ordem nem um pedido; soou mais como um desafio. Um desafio de lealdade para com a Aliança. Lina sentiu a preocupação virar raiva, pois Rogers estava ignorando que a pessoa que ela veio buscar estava em algum lugar lá embaixo e podia ser atingida por fogo amigo. Porém, a expressão da mulher deixava nítido que ela não a ouviria. Tinha então que agir para minimizar os danos.
— Muito bem. Eu irei. — Ela entregou sua arma a Vincent – Fique aqui, certo. — pediu ao cunhando antes de olhar para Rogers e perguntar – Como essa coisa funciona?
Satisfeita de ter Lina ao seu lado, Rogers a conduziu pelo convés até onde estava o veículo aéreo no convés e explicou:
— Já está programado, tudo o que você precisa fazer é atirar. — E empolgada, concluiu – Mande esses orcs para o inferno!
Lina conhecia o histórico da almirante Rogers com a Horda. Sabia que os pais da almirante foram mortos em conflitos com a facção oposta, apesar de não conhecer detalhes da história: Rogers não ficava a vontade de falar e Lina preferia não perguntar. Como alguém cuja família fora preservada desse tipo de perda, Lina não se achava a melhor pessoa para julgar o ódio de alguém. Por isso, saltou para dentro do girocoptero, deu a partida e o veículo se lançou para os céus.
Antes de começar a atirar, Lina analisou o cenário à sua frente. A base da Horda estava sob colinas, mas era possível ver que havia plantações e algumas casas ao longe. Então, aquela terra era habitada. Ficou um pouco mais tranquila pois, se haviam pessoas ali, seus sobrinhos e Anduin podiam ter conseguido ajuda. Depois, o sentimento foi desolador. Aquelas pessoas que moravam ali estavam no meio de uma guerra que nada tinha a ver com elas. O que pensariam dos recém-chegados naquele momento?
— General! — ouviu o rádio do girocoptero anunciar – Algum problema nas armas?
Era Rogers. Claro, ela devia estar se perguntando porque Lina não começara a tirar. Apertando o botão para se comunicar, ela disse:
— Estou procurando os melhores alvos, Rogers. — disse tentando distraí-la – Pouco tiro, muito estrago.
A almirante deu uma risada, que soou mórbida para Lina. Ainda assim, a general fez exatamente o que dissera que ia fazer: procurou atirar de forma que os tiros não errassem os alvos e que nenhum deles acabasse perdido e atingisse uma vítima inocente.
Depois de descarregar as armas do girocoptero, este automaticamente voltou para o Celesfogo, onde Vincent a esperava. Pela expressão do rosto dele, sabia que as preocupações do paladino eram similares às dela. Porém, Rogers era só sorrisos para com ela.
— Que excelente recepção para a Horda! — comemorou – Eu sabia que ia gostar de te ter aqui, general Wood.
Mais uma vez, Lina pensou nas pessoas que habitavam àquela terra.
— E agora, Rogers? — quis saber, para manter aqueles pensamentos longe de sua mente – o que faremos?
— A cidade está queimando e os soldados deles estão espalhados e alquebrados. — falou a almirante — Eu preciso de cada pessoa disponível no chão AGORA para acabar com essa corja!
Não apenas Lina, mas vários soldados e campeões da Aliança correram para os paraquedas que foram designados para serem utilizados. Vincent estava logo atrás dela. A general percebeu que a raiva de Rogers era tanta que ela simplesmente ignorara todas as reuniões e discussões que foram feitas durante a viagem. A prioridade original era Anduin, porém, agora, parecia ser matar o maior número de membros da Horda possível. Em outras circunstâncias ela discutiria e se oporia. Porém, queria chegar em terra o mais rápido possível. Somente achar suas amadas crianças naquele caos e matança a deixaria tranquila.
Todavia, os pensamentos alarmantes ficavam voltando à sua mente. Onde estariam suas crianças? Teriam sido pegas naquele fogo cruzado? Quantas pessoas daquela terra já tinham morrido em um conflito que não lhes pertenciam? E se os habitantes dali decidissem que os fariam pagar na mesma moeda e fizessem mal aos estrangeiros que lhes chegassem às mãos? E se suas crianças fossem reféns agora? Os piores cenários lhe eram sussurrados em sua mente.
Enquanto caminhava para o paraquedas, Rogers discursava apaixonadamente contra a Horda. Lina não quis ficar para ouvir. Pegou o paraquedas e se jogou, esperando deixar os pensamentos sombrios para trás.
A vista do local ainda era mais bonita, à medida que se aproximava. Assim que pouso, próximo a outros soldados da Aliança, se desvencilhou do paraquedas e ficou com sua arma em punho. Assobiou alto e uma águia espectral apareceu e pousou em seu braço. Pouco tempo depois, Vincent pousava, pálido e caminhou em sua direção.
— Há algo errado aqui. — ele lhe disse.
— O que quer dizer? — perguntou preocupada.
— Essa terra…. É como se algo emanasse dela… Nunca senti nada assim antes… — ele apontou para a cabeça – Pensamentos ficam me assaltando… Pensamentos sombrios, onde tudo dá errado e não consigo voltar para casa… Para Mel.
— Eu também estou tendo esses pensamentos. — revelou Lina – Penso nas crianças no meio desse conflito e nas pessoas daqui… — a voz dela tremeu – Você acha que isso vem da terra?
— É possível que sim. — e respirando fundo, perguntou – O que faremos agora?
— Precisamos sair daqui, mas, para isso, temos que fazer o que Rogers disse. — ela olhou ao redor – Nenhum sinal de Crowe. Ótimo.
O local onde ela e Vincent haviam pousado não era longe da base da Horda e havia um anão chamado Sully McLeary com armas e organizando as pessoas à medida que elas pousavam. Quando viu Lina, acenou com a cabeça:
— Já tava na hora de você aparecer, guria! — falou animado – Vamos causar transtorno!
— Me atualize da situação, Sully. — pediu Lina.
O anão estava desmontando uma arma que devia pertencer aos goblins e reclamava que aquela máquina era um serviço de porco. Depois, ele disse aos dois que Rell Ventonegro, o elfo noturno que representava a AVIN naquela missão, já estava no solo liderando as buscas por Anduin e precisava de ajuda para abrir caminho no meio dos orcs. Além disso, o anão falou sobre veículos estranhos, chamados Carroças de Guerra, que precisavam ser destruídos.
— Eles estão carregando tantos explosivos que não sei se eles vieram conquistar o continente ou explodir tudo! — o anão jogou as mãos para cima, assustado.
— Então darei um jeito nelas. — falou Lina – Só me diga como.
Ele lhe entregou um sinalizador pesado de cano grosso.
— Dispare isso contra as carroças e aprecie os fogos! — e deu uma risada.
Lina assentiu e, junto com Vincent, começaram a avançar, lado a lado, abrindo caminho entre as ondas de inimigos que iam surgindo. Iam devagar, com cuidado, porque nenhum dos dois tinha a intenção de atacar de frente e acabar morto assim que chegavam. E, com o sinalizador em mãos, Lina sabia qual a melhor coisa a ser feita.
— Você os distrai e eu explodo as Carroças de Guerra. — falou a general apontando para os orcs que patrulhavam perto dos seus alvos.
— Certo. — concordou o paladino.
À medida que iam avançando e explodindo as carroças de guerra, mais orcs apareciam e a batalha se intensificava. Adentraram a base da Horda, evitando o caminho mais aberto e preferindo transitar pelas bordas. Em determinado momento, perceberam a chegada de outros membros da Aliança, aumentando o número de aliados ali. Lina viu Rell Ventonegro liderando um grupo e, quando ele a viu também, ela apontou para as carroças de guerra e colocou o polegar para baixo, mostrando que aquelas coisas eram perigosas. O elfo noturno assentiu e o grupo dele começou a queimar os transportes como ela e Vincent haviam feito. Depois da maior parte das carroças terem sido destruídas e o número de membros da Horda ter diminuído, Lina e Vincent se encontraram com o grupo do elfo noturno.
— Bom trabalho com relação às carroças. — elogiou o elfo – Eu ainda não tinha percebido o perigo. Se um dia se cansar do cargo de general, a AVIN precisa de gente talentosa assim.
Apesar da tensão, Lina deu uma risadinha.
— Não é mérito meu, foi Sully quem me alertou delas. Mas obrigada pelo convite. – e ficando novamente séria, perguntou ansiosa — Mas me diga, alguma pista do príncipe Anduin? Dos meus sobrinhos?
Para sua tristeza, o elfo noturno fez que ‘não’ com a cabeça.
— Eu fiz o reconhecimento da área e não achei pistas do príncipe, dos seus sobrinhos, nem do almirante Taylor. Mas vamos continuar procurando. — Rell Ventonegro então apontou para a base da Horda – Por enquanto precisamos neutralizar esta base rapidamente e continuar nossas buscas em outra parte.
—Você tem informações de quem está a frente das forças da Horda aqui? — perguntou Vincent.
— As operações aqui são lideradas por um bruxo orc chamado Ga'trul. — revelou o elfo – Ele se entrincheirou nas docas e está tentando escapar usando um círculo demoníaco. — e apontou para trás deles, onde havia um porto improvisado.
— Mas não vai conseguir. — frisou Lina – Vou dar um jeito nele. — e fez menção de ir até onde Rell tinha apontado.
— Espere, general. — pediu e Lina o olhou – Um conselho: use o sinalizador outra vez e exploda as barricadas. Eu lhe darei cobertura e nos encontraremos assim que você chegar a Ga'trul.
Depois de falar com Rell, Lina e Vincent foram na direção das barricadas no cais e a general apontou o sinalizador e destruiu a primeira. Havia uma orquisa com um grande machado esperando logo após ela e Vincent entrou em combate com ela, enquanto Lina se dirigia para a segunda barricada. Quando esta veio abaixo, mais dois orcs surgiram e Lina largou o sinalizador por um momento e pegou sua arma. Enquanto atirava nos inimigos, sua águia atacava-os, distraindo-os. Vincent juntou-se à luta e os orcs foram derrotados. Lina recuperou o sinalizador e foram em direção à terceira barriga, que caiu, revelando Ga'trul, o bruxo que comandava a operação ali.
— Com nosso suor e nosso sangue, essa terra será nossa! — gritou o orc antes de sumir em um círculo demoníaco.
— Droga! — gritou Lina sem ter conseguido atacá-lo.
Rell Ventonegro chegou ao mesmo tempo e mostrava a mesma frustração de Lina.
— Ele não deve ter ido para longe. — disse o elfo – Deve haver outra base.
— E essa base não é longe. — completou Lina olhando ao redor e Rell concordou.
Foi quando Lina presenciou a coisa mais horrível em todo o tempo em que esteve no exército. A almirante Rogers entrou em contato com Rell Ventonegro através de um comunicador mágico e perguntou como estavam as coisas. Depois que ele a atualizou, a almirante disse que as forças da Horda estavam nadando até a posição deles, fugindo do naufrágio e que eles deviam abrir fogo imediatamente. Lina empalideceu e Vincent ficou horrorizado com a ordem. Os orcs que nadavam estavam desarmados e apenas tentavam não se afogar. Rell disse exatamente isso à almirante e Rogers esbravejou:
— Você acha que eles vão hesitar em te estrangular com as mãos nuas?! — e gritando, completou – MATE TODOS ELES!
— Não faça isso Rell. — pediu Lina esperançosa – Eles vão se render! E podemos conseguir informações!
— Não se meta, Wood! — gritou Rogers na linha – Eu estou no controle, não você!
Todo o respeito que Lina tinha pela almirante do céu acabou-se no momento que Rell Ventonegro ordenou o ataque contra os orcs que nadavam por suas vidas, tingindo o mar das novas terras de vermelho. Lina virou as costas, incapaz de olhar mais, pensando em todas as famílias que ficariam sem seus pais e mães por conta daquilo. Que tipo de pessoas eles eram por fazer aquilo? Seria tão diferentes da Horda que tanto criticavam? Eles atiraram em pessoas indefesas! Ela não era a única a se sentir assim. Lágrimas rolavam no rosto de Vincent, que começou a orar para a Luz, pedindo perdão pelos atos deles e intercedendo pelas almas daqueles que foram mortos injustamente. Os próprios soldados da Aliança se entreolharam, horrorizados pelo que fizeram.
— Isso não está certo… — murmurava o elfo noturno – Isso é um massacre! Eles estavam desarmados… — ele levou a mão ao rosto, sua pele roxa mudando de cor – Ughh… Eu não me sinto bem…
Algo começou a sair do corpo de Rell e Lina assustou-se. As mãos dele tinham virado garras negras com tons brancos e o elfo já não parecia ele mesmo.
— Talvez eles tenham merecido morrer… — falou com a voz distorcida enquanto seu olhar transmitia apenas ira.
De repente, um homem-urso apareceu e investiu contra Rell e começou a conjurar uma magia. Foi muito rápido e nenhum deles agiu enquanto criaturas estranhas saíram do corpo do elfo e se espalharam pelo cais.
— Seus animais! — vociferou o homem-urso – Que loucura é essa?
Lina não encontrou palavras e se entreolhou com Vincent. Ambos estavam envergonhados demais para se defender. Todavia, os demais membros da aliança ergueram as armas para o recém-chegado, mas, assim que se recuperou, Rell Ventonegro exclamou:
— Companhia, alto! Esse é um dos nativos.
Todos baixaram as armas e Lina se aproximou. Tentou falar com ele, mas Rell tomou a palavra.
— Somos da Aliança e não queremos lhe fazer mal. — disse o elfo para o homem-urso.
Lina viu a face do nativo se contorcer e ele lançar um breve olhar para as águas avermelhadas inundadas de corpos. No lugar dele, Lina também não acreditaria na boa vontade de seu povo.
— Diga-me, — continuou o elfo noturno – O que era essa sombra que você extraiu de mim?
— Agora não para explicar. — falou o nativo com sua voz potente, mas tranquila – Em poucas palavras, suas dúvidas estão se manifestando fisicamente, como consequência de suas ações. — e olhou longamente para os corpos boiando.
Não foi necessário o nativo dizer mais nada. Seu olhar revelou o que ele pensava da Aliança naquele momento.
— Você não entende! — Rell tentou se defender – Nós estamos no meio de uma guerra…
— Ah, eu entendo perfeitamente. Eu tenho olhos. — aquela observação fez o estômago de Lina se revirar. Ela também tinha e não gostara do que vira. — Mas Pandaria não é como a terra de onde você veio; ela vive e respira. Tenha cuidado com o tipo de energia que você traz para cá. Agora, guardem essas armas!
Apesar da posição que tinha, Lina guardou sua arma e Vincent fez o mesmo. A última coisa que queriam era ter conflitos com os nativos, principalmente porque precisariam da ajuda deles.
Depois que todos baixaram as armas, o homem-urso virou as costas para eles, sem nenhum medo e uma criatura que parecia uma serpente negra baixou e ele montou nela. Lina ainda tentou falar algo, mas não teve tempo. Quem quer que fosse ele, foi embora sem se identificar e sem dizer mais nada. A única coisa que ele sabia agora era que aquela terra se chamava Pandaria e que realmente era diferente de qualquer lugar onde já estiveram antes.
Lina olhou para Rell, mas o elfo evitou o contato visual com ela. Ainda estava abalado com o que acontecera. E envergonhado. Lina o entendia.
— Rell, — ela o chamou e ele finalmente a encarou – tem alguma vila por perto?
O elfo assentiu.
— A norte daqui tem um pomar de flores de cerejeira e atrás dele uma aldeia. — disse.
— Eu e Vincent iremos para lá então. — avisou Lina – Quero fazer contato com os nativos e descobrir se sabem de algo.
— Me encontrarei com você lá. — garantiu o elfo – Precisamos de um local para cuidar dos feridos.
— Tudo bem. — ela fez uma pausa querendo falar algo para confortá-lo, mas não encontrou palavras – Até mais. — foi tudo que disse e fez sinal para Vincent.
Os dois nada falaram, mas evitaram olhar a carnificina ao redor. Nunca Lina achara que sentiria vergonha do tabardo que vestia, mas era exatamente assim que se sentia naquele momento. Todavia, não havia tempo para lamúrias. Depois pensaria a respeito disso. Depois, quando encontrasse suas crianças.
E pegou o caminho na direção da vila que Rell falara.
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Treinar uma serpente das nuvens não era tão fácil quanto Pandora acreditava. Era complicado e cansativo. Isso porque aquelas belas criaturas eram também muito exigentes; todos os dias queriam comer algo diferente e toda a comida tinha que ser fresca. Faziam coco numa velocidade incrível, além de precisarem passear com frequência. Nos dias em que estava em Arboreto, toda a atenção de Pandora era para sua pequena Hope. A sorte era que a maior parte das coisas que Hope queria comer podiam ser caçadas na ilha Ventaneira, então ela tinha como conseguir comida para a serpentezinha e ao mesmo tempo ajudar a Ordem da Serpente da Nuvens com os problemas. E eram muitos problemas.
Os escamas-lisas eram uma ameaça constante, mas não era a única. Havia os tigres que espreitavam a ilha, os Trapaceiros Umbrafae, um tipo de duendes que roubava as botas dos pandarens e não ficavam felizes se você tentava recuperá-las. E também as vespas, que volta e meia atacavam a vila. Tudo aquilo deixou Pandora bem ocupada por vários dias.
Enquanto a irmã não parava quieta, fazendo tudo que lhe era pedido, Pietro ajudava a Anciã Anli cuidando das serpentezinhas. Ele adorava alimentá-las e fazer carinho nelas. Hope se apegou rápido ao menino e o seguia para todos os lugares, ficando enciumada toda vez que ele dava mais atenção a outro filhote que não ela. E a cada dia a serpentezinha deixava de ser ‘zinha’, crescendo num ritmo assustador até que, quando Pandora deu por si, ela já estava quase do tamanho de um adulto.
— Pela Luz, quando você ficou desse tamanho? — perguntou a jovem quando a sua serpente abocanhou a carne de tartaruga tenra que acabara de caçar.
— A anciã disse que elas crescem rápido assim mesmo. — falou Pietro acariciando Hope – Ela disse que se você se dedicar bastante a ela, em uma semana ela já pode ser montada.
— Já faz uma semana que estamos aqui? — perguntou, assombrada.
— Seis dias hoje! — anunciou o menino.
Pandora havia perdido totalmente a noção do tempo. Até esquecera-se de mandar uma carta para o vovô Pata Serena para saber de Halduron. Além do mais, a previsão eram ficar ali dois ou três dias. Por que Rukiah não lhe falara que já se passara uma semana toda?
Pandora foi em busca da sacerdotisa e a viu conversando animadamente com um pandaren que Pandora sabia se chamar Qua-Ro Testa Branca. Parecia estar rolando um clima entre eles. Por isso, esperou que a pandarena saísse de perto dele, para então interpelá-la.
— Rukiah! — exclamou – Por que você não me disse que já estamos aqui há quase uma semana?
— Porque não faria diferença. — disse a pandarena calmamente – Hope precisa de tempo para crescer.
— Mas o templo de Chi-Ji… se estivássemos indo por terra já estaríamos quase lá!
— Verdade. — continuou a sacerdotisa – Mas não estaríamos ajudando a Ordem. Você não teria sua serpente e Pietro não estaria tão feliz. — e apontou para o menino, que escovava Hope com uma escova de cerdas duras, apropriada para o serviço.
Pandora franziu o cenho, sem ter como rebater as palavras de Rukiah.
— Não se preocupe. — falou a pandarena colocando a mão no ombro de Pandora – Pietro está bem. Você notou algo nele? Alguma piora?
— Não…
— Pandaria é viva. — explicou ela – E reage às nossas emoções. Pietro está feliz, então isso será refletido no corpo dele, retardando a doença. Quando chegarmos ao Templo, tenho certeza que poderemos ajudá-lo ainda mais!
Apesar de feliz com a perspectiva de melhora do irmão, Pandora ainda estava preocupada com muitas coisas. Se fazia seis dias que estavam em Arboreto, significava que fazia pelo menos oito que tinham naufragado. Se Ventobravo tivesse sido avisada, então não tardaria a estarem ali. E, se estivesse, sua tia, com certeza, estaria junto para buscá-los. Aquilo não seria ruim se não tivessem uma meta diferente agora: chegar ao templo de Chi-Ji e pedir ajuda ao Celestial. Se sua tia viesse, conseguiria explicar a ela a necessidade daquilo antes dela tentar arrastar os dois de volta para casa?
Percebendo as dúvidas de sua nova amiga, Rukiah procurou tranquilizá-la:
— Não se preocupe. Hope está grande o suficiente para você montá-la. Acredito que amanhã podemos fazer o teste logo cedo e, se tudo estiver bem, partiremos logo em seguida.
— Eu também não quero me adiantar e exigir demais de Hope. — apressou-se em dizer a jovem humana – Quero ir quando a Anciã Anli achar que devemos. E também, não quero deixá-los desamparados.
— Eles não ficarão desamparados. — garantiu Rukiah – Modéstia à parte, fizemos bastante nesses dias.
— Verdade… — concordou Pandora – Ainda assim…
— Não se preocupe, Pãozinho. Vai dar tudo certo. — tranquilizou a pandarena.
Mas Pandora estava longe de se sentir tranquila. Até então o tempo não era um problema, mas agora ela sentia como se tivesse deixando algo passar, como se fosse uma corrida e estivesse perdendo. Provavelmente era apenas culpa por não sentir falta de casa. Até sentia, mas estava sempre tão ocupada que não pensava nisso. Nos poucos momentos de ócio, sua mente viajava até Halduron, desejando que ele estivesse bem e que Tewdric tivesse cumprido sua palavra. Como foi que simplesmente não se dera conta da passagem dos dias e agora estivesse com a sensação de que algo estava para acontecer? Era angustiante.
Todavia, Rukiah estava certa: Aquele tempo era necessário. E, se ia se arriscar com seu irmão em uma viagem daquele porte, que fosse em uma criatura que confiasse. Caminhou até onde o irmão estava escovando Hope que, quando viu Pandora, voou até ela e lhe deu uma cabeçadinha carinhosa.
— Olá, Hope! — ela acariciou a serpente – Você acha que amanhã consegue me carregar?
A serpente voou em torno de si mesma, animada.
— Vou tomar isso como um ‘sim’.
— Pãozinho, acha que poderemos ir amanhã? — perguntou Pietro animado.
— Acredito que sim. — ela tirou um favo de mel da bolsa e deu à Hope, que emitiu ruídos felizes – Rukiah acha que amanhã ela já poderá carregar nós dois.
— Que bom. — o menino sorriu – Eu queria que Tewdric e Kassyeh tivessem vindo com a gente. Acho que ele teria uma serpente também!
— É, eu acho que sim. — ela se sentou em um banco ao lado do irmão – Acho que vou mandar uma carta para lá, para Sri La. Quero saber como eles estão. — como Halduron está, disse a si mesma.
— Ah, seria tão legal! — os olhos de Pietro brilharam – Faça isso!
— Farei sim. — prometeu.
E ela fez. Pouco antes de dormir, escreveu uma breve carta para o vovô Pata Serena, perguntando como estavam as coisas e como estavam Tewdric, Kassyeh e Halduron. Preferiu perguntar dos três para não levantar suspeitas. Depois, postou a carta no correio mágico e torceu para que a resposta chegasse antes de partir. Achou que não conseguiria dormir aquela noite de tão ansiosa que estava. Porém, assim que deitou na cama, apagou.
No dia seguinte, Hope estava pronta para a primeira volta com sua dona. Todos os pandarens da vila estavam empolgados, pois seria a primeira vez que um estrangeiro teria a honra de ter sua própria serpente e voar com ela.
— Está nervosa? — perguntou Rukiah.
— Não. — respondeu Pandora, mas era mentira.
Hope voava pelo céu, bem mais tranquila que sua dona e pousou quando a Anciã Anli a chamou. Deixou que a pandarena lhe colocasse os arreios, deu uma volta completa em torno de si mesma e foi até Pandora. Baixou-se e permitiu que a jovem humana a montasse.
Pandora achou que sentiria o mesmo enjoo que sentia ao subir em Ichi, porém, o voo de Hope era muito mais fluido e tranquilo. Na verdade, parecia que a jovem serpente entendia como a sua amazona se sentia e fazia de tudo para evitar que ela se sentisse mal. Quando deu por si, Pandora já havia se afastado da vila, adentrado no oceano, dado várias voltas ao redor das colinas e voltado para Arboreto.
Quando apeou, os pandarens a aguardavam com muitos aplausos e ‘vivas’. Pietro era o que mais comemorava e Pandora sorriu, num misto de alívio e alegria. Aquela etapa terminara e podiam seguir em frente.
Como já havia deixado tudo pronto no dia anterior, não demoraram a se organizar para partir. Não poderiam levar a cadeira de Pietro, mas Rukiah garantiu que não seria necessário.
— No templo providenciaremos uma forma dele se locomover, não se preocupe.
E Pandora não se preocupou. Confiava na pandarena. Tomaram café da manhã e partiram, rumo ao sul da Floresta de Jade.
O caminho que escolheram para trilhar era simples: voariam até o limite sul da Floresta de Jade, parariam em uma aldeia chamada Pata’don e passariam a noite lá, descansando. No dia seguinte, seguiriam para oeste, em busca da Selva de Krasarang, onde ficava o templo de Chi-Ji. Porém, antes de chegar no templo, parariam no Cais dos Pescadores, onde passariam mais uma noite. No terceiro dia, estariam no templo de Chi-ji. Seria uma viagem e tanto, mas os irmãos estavam animados.
Despediram-se longamente das pessoas de Arboreto; aquele tempo passado ali os fizeram se sentir queridos e cuidados.
— Voltaremos assim que pudermos. — garantiu Pandora – Não voltarei a Ventobravo antes de ver vocês.
— Vou cobrar a visita! — falou a Anciã Anli dando apertados abraços em Pandora e em Pietro.
— Pode deixar, eu garanto que a gente volta! — falou Pietro animado.
A única coisa que deixava Pandora triste, além de se despedir de seus novos amigos, fora que a carta que enviara não fora respondida ainda. Mas sabia que a reposta chegaria em qualquer vila onde estivesse.
Findada as despedidas, os jovens irmãos humanos partiram, montados em Hope, Pietro bem preso à irmã, enquanto Rukiah já estava montada em Fofucha, cujos filhotes já se viravam sem a mãe e Gon e Son, cada um em sua própria serpente. Arboreto foi ficando pequeno e pequeno, até ser apenas um pontinho. O coração de Pandora se encheu de tristeza, mas também de empolgação.
A viagem seguiu tranquila tarde adentro, o voar ritmado das serpentes quase que sincronizados no céu azul de Pandaria. Quem percebeu o problema não foi nenhum dos condutores, mas Pietro, que prestava atenção atentamente ao caminho.
— Aquilo é fumaça? — perguntou à irmã.
Sim, era. E, depois que o menino apontou, todos no grupo perceberam. Rukiah manobrou sua serpente par ao lado de Pandora e Son e Gon fizeram o mesmo.
— Será um incêndio? — perguntou Pandora aumentando o tom de voz para ser ouvida.
— Parece que sim. — disse Rukiah no mesmo tom – Que estranho… Não costuma ter incêndios por aqui…
Mal tá sacerdotisa tinha respondido e uma explosão forte assustou a todos, fazendo as serpentes se agitarem. Pietro gritou e agarrou-se mais forte à irmã. Quando eles olharam na direção do barulho, o coração de Pandora se descompassou e ela sentiu como se o sangue fugisse de seu corpo. Navios. Inúmeros navios. Da Aliança. E da Horda.
A guerra chegara a Pandaria.
Outra explosão e agora todos eles gritavam. Apenas quando os gritos arrefeceram foi que ouviram a voz potente de Rukiah.
— Para a direita! Direita!
Todos manobraram para a direita, para que não fossem pegos no meio do conflito. As explosões continuaram, algumas perigosamente perto deles, os obrigando a voar cada vez mais alto. Enquanto sua irmã mantinha a atenção no caminho a frente, Pietro viu uma aeronau da Horda ser atingida e tombar, no meio de uma plantação. Os olhos do menino se encheram de lágrimas e ele torceu na pra não ter ninguém naquele navio.
“Ted… Kass…”, pensou, desejando que nenhum dos dois estivesse ali.
— Mantenham o curso! — gritava Rukiah – Vamos sair da Floresta de Jade!
— Para onde vamos? — gritou Pandora.
Uma explosão estourou no momento em que Rukiah gritou de volta, obrigando-a a repetir:
— Vale dos quatro Ventos! Segurem-se firme!
Sem alternativa, coube a eles seguirem Rukiah, numa direção diferente da planejada.
As pastagens verdejantes da Floresta de Jade ficaram para trás, e o barulho das explosões também. A viagem que deveria terminar antes de escurecer, se estendeu até as primeiras estrelas brilharem no céu. E quando adentraram a região do Vale dos Quatro Ventos, Pandora entendeu o motivo do nome do local. Hope passou a ser castigada com ventos fortes, que forçavam Pandora a manter-se firme nas rédeas, deixando seus braços formigando. Estava tão escuro que apenas quando Rukiah gritou ao seu lado, percebeu que a pandarena estava próxima.
— Tem luz ali no chão! Siga ela! Vamos pousar!
Sem alternativa, foi o que Pandora fez. Deixou-se guiar pela luz pálida de uma fogueira e, a medida que o chão se aproximava, seu coração batia mais e mais rápido. Quando finalmente pousaram, a jovem humana tremia e chorava, sem ter ideia se começara a perder o controle naquele momento ou se as lágrimas já rolavam desde que a primeira explosão fora ouvida. Estava tão atordoada que apenas quando os braços fortes de Gon a tiraram de Hope e a sentaram em frente à fogueira foi que viu dois pandarens estranhos, que os olhavam com sincero espanto. Uma pandaren criança se aproximou e colocou um cobertor em Pandora e outro em Pietro. A jovem sequer percebera quando fora separada do irmão.
— Olá, eu sou a Li Li. Vocês estão bem?
— Eles apenas estão assustados. — respondeu Rukiah sentando-se ao lado de Pandora e Pietro – Mas está tudo bem. Já passou.
Levou algum tempo para Pandora se acalmar e, quando o choro arrefeceu, recebeu uma caneca de chá quente. Depois que estavam todos acomodados na fogueira, o pandaren adulto, um macho com uma caneca de cerveja na mão olhou para Pandora e falou:
— Ora, ora, vejam só. Humanos em Pandaria! Que surpresa! — e diante do olhar abismado dos irmãos, completou – Mas que falta de educação a minha! Pandora e Pietro, certo? Eu sou Chen Malte do Trovão e é um prazer conhecê-los.
E mais uma vez, os planos deles foram refeitos, com a adição daquele imenso pandaren ao seu caminho, um pandaren misterioso que sabia mais da guerra que se desenrolava do que Pandora e Pietro podiam imaginar.
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