Herdeiros da Guerra
50 Capítulo XXVIII – A chegada
Notas iniciais
Theo acordou assustado, sem fôlego. Sentou-se na cama rapidamente, a respiração acelerada e olhou para a cama do lado. Estava vazia. Claro que estava, Pietro estava viajando há vários dias. Todavia, o menino tinha certeza que ouvira o amigo chamá-lo.
— Foi um sonho. — disse para si mesmo – Sonhei com Pietro.
Mas o que sonhara? Não lembrava. Só sentia a angústia que o sonho lhe deixara.
O sol entrava pela janela e Theo jogou os lençóis para o lado. Já era manhã e preferia se levantar a tentar dormir e ter outro pesadelo. Vestiu-se e desceu as escadas.
Desde a reforma, Theo dividia um quarto com Pietro. Era ele também quem ajudava com as necessidades do menino, agora que Pandora trabalhava. No começo Pietro ficava com vergonha, mas agora eram como irmãos e ele já não se importava em ter ajuda no banho, nem para se trocar. Perguntava-se como Pietro voltaria daquela viagem. Lina lhe dissera que ele não cultivasse as esperanças que veria o amigo andar, porque a doença já havia tirado a mobilidade de Pietro há muito tempo. Todavia, Theo era um otimista. Sonhava em ver Pietro entrar na casa andando e os dois poderem treinar espadas, como era o sonho do outro, e se tornarem guerreiros, juntos. Ou paladinos. Theo estava pensando muito na sugestão de Vincent.
Era nisso que pensava quando foi até o quintal, cesta na mão, para recolher os ovos. A tarefa era dele desde que uma das galinhas bicara Pandora e a jovem, com raiva, quase estrangulara a ave. Theo tinha o jeito de colocar a mão embaixo delas e tirar os ovos antes que percebessem. E assim ele fez naquela manhã. Recolheu meia dúzia de ovos, todos de bom tamanho, e os levou para a cozinha. Pegou a chaleira e voltou ao quintal, usando a bomba d'água para enchê-la e levá-la para o fogão. Acendeu o fogo e deixou a chaleira fervendo a água. Enquanto isso, pegou a massa de pão que sua mãe deixara crescendo no dia anterior e pôs no forno, para assar. Sentou-se e esperava a água ferver quando Lina entrou na cozinha e olhou para o fogão aceso.
— Sua mãe não gosta quando você acende o fogão sozinho. — disse seriamente, encarando-o.
— Mas eu sei acender!
— Não estou dizendo que você não sabe, apenas que não devia. — ela sorriu – Mas não vou contar a ela, o humor de Doroteya já está ruim o suficiente. — e vendo a expressão séria do garoto, perguntou – Algum problema, Theo?
— Estou com saudades do Pietro. — disse o menino.
Lina sorriu, compreensiva.
— Eu também. Sinto saudades até de Pandora me enchendo o saco. Aqueles dois fazem falta.
Lina entendia que, para Theo, a ausência de Pandora e Pietro era maior. Os três eram bem unidos, principalmente os dois meninos. Sabia que os dois sentiam-se como irmãos. Pandora e Pietro tinham irmãos mais velhos, mas Lina tinha a impressão que Theo era mais irmão deles que os outros. Theo não apenas ajudava a cuidar de Pietro; ele se importava com os sentimentos dele, tentando fazer com que a deficiência atrapalhasse o mínimo possível a sua vida. E, sempre nas folgas, Pandora levava os dois para nadar na praia, ou passear pela cidade, qualquer coisa que os divertissem. Lina sabia que, quando o bebê chegasse, mesmo a receosa Pandora se desdobraria de amor e cuidado com o novo Wood. Já podia imaginar Pietro com o novo priminho ou priminha no colo enquanto Theo empurrava os dois em alguma ladeira. Doroteya ficaria louca.
— Os dias vão passar rápidos, você vai ver. — consolou Lina se encaminhando até a despensa – Quando você menos esperar, aqueles dois estarão de volta.
— E Pietro estará curado! — exclamou Theo esperançoso.
— Se a Luz assim o permitir. — falou Lina cautelosa.
Lina pegou o pó do café e começou a prepará-lo assim que a água ferveu. Theo, que originalmente preferia chá, era agora um Wood quando se referia a café. Bebia-o como Lina e Tommy, puro, sem açúcar. Doroteya torcia o nariz só de ver isso, pois preferia seus chás de ervas.
Theo, se analisasse bem, estava cada dia mais e mais parecido com sua família. Não apenas nos hábitos, mas no jeito de falar, de se comportar e até mesmo de olhar. Ás vezes ele lançava olhares tão profundos que parecia a Lina que estava encarando um Tommy mais jovem. Era impressionante como aqueles dois realmente pareciam pai e filho. Lina não se surpreenderia se, um dia, Theo começasse a chamar Tommy de pai. Na verdade, a surpresa era o menino ainda não tê-lo feito. Teria sido um pedido de Doroteya ou uma decisão do próprio Theo? Não sabia e achava melhor não perguntar. Certas coisas deviam ser deixadas tal como estavam.
— A senhora ficou muito bem nessa armadura, tia. — disse ele sorrindo.
Lina olhou para baixo, para seu novo traje. Ele havia chegado no dia anterior e ainda era um pouco desconfortável. Era uma pesada armadura prateada, com o símbolo de Ventobravo no peito. A armadura padrão dos generais. Lina preferiria usar algo mais customizado, mas almejara tanto aquela posição que aproveitaria bem os primeiros meses naquele traje. Depois, arriscaria algo mais ousado. Varian adorava quando ia trabalhar em armaduras mais sensuais. E ela adorava também, pois ele aparecia mais vezes na sala do mapa para dar uma olhada nela.
— Estou parecendo uma general? — perguntou brincando.
— A senhora sempre pareceu uma general. Principalmente dentro de casa. — respondeu ele rindo.
Lina riu também.
— Bom saber. — disse.
O tempo passado desde que Theo chegara em Ventobravo não acabara com o receio da família de que Greymane descobrisse sobre o menino, mas amenizara-o bastante. Pois, mesmo que ele andasse pela cidade, ajudasse Tommy em alguns trabalhos, estudasse na catedral com Vincent e sempre fosse na praia com Pietro e Pandora, ninguém nunca dissera nada sobre sua aparência, mesmo que eles tivessem cruzado com muitos guilneanos. Nunca houvera um único boato e Lina estava convencida que o rei cachorro jamais saberia do menino. E quando Greymane fosse em Darnassus (ele viajaria para verificar seu povo), Lina faria questão de levar Theo na bastilha e apresentar a todos como seu sobrinho. O menino era curioso para conhecer o local, mas nunca desobedecera às ordens da mãe de evitá-lo. Proporcionaria o momento a Theo assim que fosse seguro.
— Tia, — chamou Theo – o que a senhora acha de eu ser paladino? — quis saber.
— Eu acho que isso depende de você querer ser paladino. Você quer?
— Eu ainda não sei. — Admitiu – Assim, eu gosto de lutar com espadas. Paladinos lutam com espadas. Mas guerreiros também. Só que guerreiros não curam as pessoas. Paladinos curam. Eu gostaria de curar as pessoas e lutar.
— E qual sua dúvida?
Theo hesitou em responder.
— É que… tem o Pietro… não quero que ele se sinta só…
Se Theo decidisse ser paladino, teria que e passar todo o dia na catedral como os alunos de Vincent. Até então, o paladino havia arrumado vaga para ele e Pietro assistirem aulas teóricas sobre diversos temas junto com os alunos, apenas pela manhã. Pela tarde, os meninos ficavam com Tommy em casa. Com Pandora trabalhando, caso Theo decidisse pelo estudo integral, Pietro ficaria parte do dia sozinho ou teriam que chamar alguém para cuidar dele. Ou Pandora desistiria do exército. Sabia o porquê do menino estar indeciso; não queria deixar a vida de Pietro mais solitária do que era ou fazer Pandora desistir do trabalho que precisava. Lina suspirou e apoiou o queixo na mão. Theo era realmente um menino muito bom. O que o mundo fizera para merecer que uma alma tão generosa o habitasse?
— Então, esse é o motivo… — disse a general.
— Não é só isso. — Apressou-se em dizer Theo – Tem o bebê que tá chegando, tenho que a ajudar a mamãe. E tem o trabalho com Tommy, tenho que ajudá-lo também e…
Lina levantou a mão, pedindo para ele parar.
— Você sabe que tem que viver sua vida também, não é? — lembrou ela.
Theo não disse nada, apenas baixou a vista.
— Theo… — chamou e ele a olhou – Eu entendo como você se sente, mas você tem que pensar em você um pouquinho também… Não estou dizendo que você vai abandonar todo mundo, mas pense no que você quer.
— Eu quero ser paladino. — afirmou o menino – Mas não quero abandonar todo mundo por causa disso.
Lina realmente não sabia como responder àquilo.
— Pense assim: — começou ela – Pietro vai voltar melhor de Exodar. O bebê vai nascer e crescer. Tommy não é aleijado. — Theo riu – Eu acho que você pode tirar um tempinho para treinar com o Vincent sim.
O menino pensou um pouco.
— É… Acho que sim… Posso ir estudar para ser paladino. Mas não agora. — foi rápido em dizer.
— Não agora. — concordou Lina – Agora, vamos comer porque o pão tá muito cheiroso e vou tirá-lo do forno!
O pão foi tirado e logo eles comiam.
Tommy chegou na cozinha quando Lina estava terminando de comer.
— Onde está Doro? — perguntou a general.
— Bom dia para você também. — respondeu ele gracejando – Doro está deitada. A dor nas costas aumentou.
Lina e Theo franziram o cenho.
— Isso não é bom… — murmurou Lina.
— Não, não é. — concordou ele – Sugeri ir buscar Lasciva hoje, mas Doro disse que tá tudo bem. Consegui convencê-la a não demorar mais e amanhã vou buscar ela e Rubrarosa em Darnassus.
— Oba! — exclamou Theo – Vou poder ir junto?!
— Claro, campeão! — afirmou Tommy rindo.
Apesar da aparente calma de seu irmão, Lina estava temerosa. As dores nas costas de Doroteya poderia ser só por causa do peso da barriga, mas podia ser outra coisa também.
— Talvez eu devesse ficar em casa hoje. — falou Lina ansiosa.
— Se você ficar, só a deixará mais nervosa. — advertiu Tommy – Ela acha que ainda tem, pelo menos, uma semana, até o parto. Mas não vou arriscar. Vou buscar Lasciva amanhã.
— Por que não insistiu para ir buscá-la hoje? — quis saber Lina.
— Tenho um trabalho para fazer fora da cidade. Um moinho d’água quebrou numa fazenda próxima e os donos estão loucos. Devo voltar no final da tarde. E Doro me garantiu que está tudo bem.
— Fey e Mel estão no ateliê, atolados de encomendas. — murmurou a general preocupada – Quem vai ficar aqui com Doro e Theo?
— Eu posso cuidar da mamãe e de mim! — exclamou o menino um pouco chateado – Se ela tá só com dor nas costas, eu cuido dela como sempre!
Lina não parecia muito segura.
— Theo está certo, Lina. — Tommy procurava acalmá-la – Doro está bem, não precisa se preocupar.
— Mas e se algo acontecer? — a general não estava muito segura.
— Nada vai acontecer. — disse o homem – Vá lá, vá ver Doro e fique tranquila.
Foi exatamente o que Lina fez. Assim que ela saiu da cozinha, Tommy comentou, rindo:
— Sua tia é muito desconfiada.
— É sim. — concordou o menino.
Doroteya estava sentada na cama quando Lina entrou no quarto. A druidesa vestia uma camisola folgada, que deixava sua barriga ainda mais proeminente. Ela sorriu quando viu Lina entrar.
— Essa armadura fica muito bem em você. — disse animada.
Lina olhou para baixo e sorriu.
— É pesada. Mas vou me acostumar. — e vendo a amiga fazer uma careta, perguntou – Está doendo muito? As costas?
— Mais do que antes. — respondeu – O bebê está bem pesado.
— Estou preocupada em deixar você e o Theo sozinhos aqui. — confessou – Eu e Tommy passaremos o dia fora e Fey e Mel nem voltaram para casa ontem… Acho que eu devia pedir para o Vincent vir e ficar aqui.
— Vai ficar tudo bem, Lina. Não precisa incomodar Vincent. — falou Doroteya em tom tranquilizador – Eu vou passar a maior parte do dia deitada, eu prometo. Só preciso ir no banheiro agora.
— Deixe-me ajudá-la.
Lina ajudou Doroteya a se levantar e ir ao banheiro. Depois, fez questão de pô-la na cama novamente.
— Vou pedir pra Theo trazer algo para você comer. — avisou.
— Certo. — Doroteya se recostou nos travesseiros – Vou tentar cochilar depois disso. Passei a noite me levantando para ir ao banheiro. O bebê tá apertando minha bexiga.
— O bebê nem nasceu e já está te mantendo acordada. — brincou a outra.
— Pois é! — concordou Doroteya – Agora vá, você tem que dar o exemplo como general chegando antes dos outros!
— Tem razão! — riu-se Lina.
Lina só foi para a bastilha porque Doroteya a deixara calma o suficiente para sair de casa. Pouco tempo depois Tommy saiu para trabalhar e Theo foi ver se a mãe precisava de algo, mas Doroteya já caíra no sono. O menino sorriu. Estava tudo bem.
****************
— Isso parece bem ruim.
A constatação de Tewdric não era necessária, mas expressou bem o que Halduron pensava. O ferimento de sua perna supurava, mesmo com todos os remédios que foram aplicados nele. Kassyeh estava visivelmente irritada, pois era a terceira vez que trocava as bandagens.
Após aportarem na terra desconhecida, Tewdric puxou o barco deles até a praia, onde puderam desembarcar. Montaram acampamento, apenas por tempo suficiente para uma rápida verificação de segurança e decidir que caminho seguir. Não faziam ideia de onde os outros botes foram parar e precisavam achar algum curandeiro, rápido. A ferida de Halduron estava péssima e, sem alguém que pudesse curá-lo ou uma poção de cura potente, poderia evoluir e deixar o elfo doente. Preocupada, Kassyeh lutava contra a infecção, com a testa franzida e balbuciando uma série de palavras em thalassiano.
— Desculpe pelo incomodo, princesa. — pediu ele – Você não deveria fazer esse trabalho sujo.
— Pela Nascente do Sol, Halduron! — exclamou Kassyeh – Eu já disse que não estou chateada por cuidar de você, mas porque tem algo nessa ferida que está me deixando irritada! A essa altura, ela já devia ter secado!
— Devia ter algo na flecha. — comentou Tewdric – Veneno, talvez?
— É possível… — murmurou a elfa – Está sentindo tontura, Halduron? A vista turva?
Halduron fez que não com a cabeça.
— Então pode ser uma substância que acelera a infecção… — Kassyeh analisou o ferimento mais uma vez – Talvez eu tenha que cauterizá-lo.
— Vá em frente. — permitiu o patrulheiro.
A maga fez sua mão ficar em chamas e encostou-a bem em cima do ferimento. Halduron cerrou os dentes, engolindo o grito de dor, mas seus olhos brilharam, as lágrimas se recusando a descer. Quando a elfa afastou a mão, o local da ferida tinha se transformado em uma grande cicatriz de queimadura.
— Isso deve ser o suficiente. — disse Kassyeh passando unguento na ferida e depois enfaixando-a.
Tewdric observou a expressão de dor em Halduron e ficou preocupado. Se houvesse um combate, o patrulheiro não poderia se defender. E sabia que a Aliança não iria poupá-lo apenas por estar ferido. Tinha que pensar em como os três sobreviveriam naquela terra estranha. Seu olhar foi para a floresta que ladeava a praia e observou as copas das árvores. Havia um sinal de fumaça em algum ponto do horizonte, então era possível ter uma vila. Ou um acampamento da Horda. Ou da Aliança. Seria arriscado ficar ali e esperar, mas também seria arriscado embrenhar-se na mata. Poderia ir sozinho e deixar Kassyeh cuidando de Halduron, ou levar os dois. Deixar o patrulheiro para trás estava fora de cogitação.
— Em que está pensando? — perguntou Kassyeh se dirigindo ao marido.
— No que fazer agora. — respondeu – Temos algumas opções, mas nenhuma me agrada. — o orc grunhiu – Se fosse apenas uma terra desconhecida, tudo bem. Mas, se houver allys por aqui, eles vão pular em cima de nós como ratos em cima do queijo!
— Devemos nos mover, então. — sugeriu Kassyeh – Procurar uma vila. Ou um acampamento de nossos companheiros. Por sorte, temos suprimentos.
— Mas não poderemos levar todos.
— Poderão, se me deixarem. — falou Halduron, repentinamente – Posso ficar aqui… E me proteger. Até vocês acharem ajuda.
A última coisa que Halduron queria era ser um empecilho, principalmente na proteção da princesa. Tewdric deveria focar em deixar a esposa segura, achar os demais membros da Horda, mesmo que fosse à custa da vida dele. Pelo menos era o que Halduron pensava.
Kassyeh e Tewdric o olharam em silêncio e depois se encararam.
— Eu levo os suprimentos e você carrega ele. — disse Kassyeh.
— Feito.
Sob os protestos de Halduron, Kassyeh separou comida, cobertas e os suprimentos que seriam essenciais na incursão à floresta. Os demais, ela escondeu sob o barco virado, e este, escondeu sob um monte de folhas secas.
— Não está tão discreto quanto eu queria, mas acho que dá para os suprimentos resistir, pelo menos, aos animais. — comentou a elfa.
— Não demoraremos a voltar, caso não achemos nenhum sinal de habitação. — disse o orc – Talvez dois dias, não mais que três.
— Eu posso ficar. — insistia Halduron, inutilmente – Eu vou apenas atrasar vocês.
— Sem discussão, Halduron. — disse Kassyeh incisiva – É uma ordem!
Halduron suspirou, vencido.
Tewdric, então, o colocou em suas costas. O elfo até teria conseguido se esquivar, insistido mais, se não percebesse que seu corpo estava pesado. O orc estava certo, afinal; havia algo naquela flecha que estava drenando suas forças. Por isso, acabou sendo carregado, sem resistência. Por mais que gostasse de Tewdric, aquilo era humilhante.
— Vocês deveriam me deixar… — murmurou o elfo numa última tentativa – Não quero ser um peso…
— Tudo bem, Halhal. — Tewdric deu uma tapinha no traseiro do elfo – Você nem pesa tanto assim. Precisa comer mais. Ter mais músculos.
Era incrível como o orc poderia deixar as coisas ainda piores, pensou o elfo.
— Bem, meninos, acho que já podemos começar a andar. — disse Kassyeh apontando para a floresta.
Então, eles começaram o caminho por dentro da Floresta de Jade.
O local era lindo, tinham que admitir. À medida que iam adentrando a floresta, as cores das árvores, dos animais e até mesmo dos insetos, mostravam a exuberância daquela terra exótica. Tewdric ficou ansioso a cada passo, pois não tinha como pegar seu machado e lutar sem derrubar Halduron no chão. Então, quem ia à frente do grupo era Kassyeh, que precisou recorrer a sua magia para espantar alguns bichos, mas nada muito perigoso. O principal problema era a localização. Era fácil perder-se no meio dos bambus e nem Kassyeh nem Tewdric tinha conhecimentos apurados sobre rastreamento. Halduron, no início do percurso, conseguiu conduzi-los, baseando-se em marcas de animais, porém, a estranheza daquela floresta o desnorteava. Depois de um tempo, o patrulheiro parou de fazer observações e foi quando Tewdric percebeu que as coisas não estavam nada bem.
— Kass… — chamou Tewdric – Acho que o Halhal está piorando.
A elfa prontamente foi até o marido e verificou Halduron. Ele ardia em febre.
— Merda. — rosnou a elfa – Vamos parar um pouco.
Estavam no meio da tarde e fazia calor, mas Halduron tremia de frio. Kassyeh arrumou algumas folhas e fez uma cama improvisada com um dos cobertores que trouxera. Depois, Tewdric deitou o elfo lá e o cobriram com outro cobertor. Prontamente, a elfa começou a misturar ervas, preparou o remédio e fez Halduron bebê-lo.
A mente de Halduron estava turva. Olhava ao redor, mas não conseguia compreender o que se passava. Perdido em meio a febre, esqueceu que não estava em Luaprata e se perguntava porque a Floresta do Canto Cristalino parecia tão estranha. E porque Kassyeh estava ali? Não deveria estar na torre? E Tewdric? Por que o orc parecia tão preocupado? Halduron apenas os encarava com os olhos débeis e doentes.
— Vamos ficar um pouco aqui. — disse ela para Tewdric – Até a febre passar.
Tewdric assentiu, antes de falar:
— O sinal de fumaça que vi mais cedo era nessa direção. Então não devemos estar longe de uma vila ou acampamento.
— Assim espero. Eu não conheço as ervas daqui, então não sei se devo tentar fazer algum remédio com elas… E as que eu trouxe não vão durar muito…
Tewdric pensou um pouco.
— Posso ir pegar mais ervas nos suprimentos. — se ofereceu o orc – Se eu for sozinho, posso ir e voltar logo, enquanto ainda tem sol.
— Tudo bem. Tome cuidado.
Tewdric se inclinou para sua esposa e a beijou. Depois, deu uma olhada em Halduron. Gostava do elfo e não o deixaria morrer. Ele era sua responsabilidade. Pegou seu machado e se levantou.
— Se vir qualquer coisa ameaçadora, ataque primeiro e pergunte depois. — aconselhou ele.
Kassyeh deu um sorriso.
— Pode deixar. Ficaremos bem.
Desejando que a esposa estivesse certa e que ele não estava cometendo um erro deixando-os ali, Tewdric deu a volta e começou a percorrer o caminho de volta aos suprimentos.
****************
A sala era pequena, tinha apenas uma mesa, duas cadeiras e uma prateleira para livros. Ainda assim, Lina sentiu-se a pessoa mais afortunada do mundo quando entrou e viu uma plaquinha de metal onde estava gravado “General Wood” em cima da mesa. A felicidade era tanta que teve medo de explodir.
Mesmo que a mesa estivesse cheia de papel com problemas para resolver.
Sentou-se em sua cadeira (cadeira de general!) e pegou os papéis. Era seu primeiro dia efetivamente no trabalho. Os anteriores haviam sido preenchidos com muita burocracia e chateação.
A primeira coisa que Lina havia feito como general havia sido cair no choro. Ainda não conseguia acreditar que toda sua fama de durona caiu por terra logo naquele momento. Tudo bem que não foi um choro dramático, com grito nem nada assim. Ela apenas deixara as lágrimas caírem silenciosamente enquanto tentava permanecer sorrindo. Chegara a ouvir uma piadinha de Crowe, perguntando se ela queria um lencinho, mas retrucara dizendo que ele estava um pouco atrasado, do contrário, até teria aceitado. Ele se calou e não falou mais nada. Tinha a meta agora de recuperar a fama de durona, e faria todos desejarem não estar sob seu comando.
Depois, o momento foi reservado para dar a notícia em casa. Lá, ela pode perder um pouco mais a compostura. Chorara bastante e quase não conseguia falar. Por fim, quem deu a notícia foi Cláudia.
— Lina agora é general. — falou orgulhosamente antes de contar os detalhes.
Aí, foi um choro generalizado. Fey e Mel, claro, lideraram as lágrimas, mas a surpresa foi ver Tommy derramá-las também, abraçando-a forte.
— Eu sabia! — exclamou sem esconder a felicidade – Sabia que você chegaria lá!
— E aí, tia, vai ganhar quanto agora? — perguntara Pandora, a única que definitivamente não choraria naquele dia.
Lina parou um momento a organização dos papéis e pensou em Pandora e Pietro. Onde estaria o navio naquele momento? Estariam comendo bem? Se protegendo do sol? E Anduin? Estariam fazendo companhia uns aos outros? Esperava que sim. O jeito era mergulhar de cabeça no trabalho e esperar a transmissão do Almirante Taylor assim que chegassem a Exodar.
Como já fazia a maior parte do trabalho de general enquanto comandante, Lina não estranhou a carga de trabalho. Pelo contrário, ficou feliz em perceber que não mudara muito. A novidade eram os informes das operações da Aliança em outras partes do mundo. Desde que voltara de Nortúndria, Lina não saíra mais de Ventobravo, exceto para visitar a família. Era estranho ler agora sobre como as coisas andavam no mundo. O mais difícil foi ver os documentos referentes a Theramore. Além das pessoas que morreram, um número grande de refugiados tinha se instalado na cidade e arredores. Isso gerara atritos entre a população e os recém-chegados, além do aumento do número de assaltos e outros crimes.
“Claro que as pessoas farão coisas desesperadas em momentos de desespero.”, pensou. Mas não podia ignorar isso. Era sua responsabilidade agora. Teve então, algumas ideias. Primeira e mais óbvia: mandaria recrutadores aos acampamentos. As forças da Aliança sempre precisavam de mais gente e isso proveria ocupação e renda para os jovens adultos. Depois, mandaria cartas para os fazendeiros que conhecia e até para alguns nobres, sugerindo o emprego de quantos refugiados pudessem. Pensou até em sugerir a Varian que desse um desconto nos impostos de quem o fizesse, desde que, claro, não demitissem os nativos para empregar os demais, ou teriam mais problemas que soluções.
Estava escrevendo suas ideias quando alguém bateu à porta.
— Entre. — permitiu.
Varian entrou e fechou a porta. Imediatamente, Lina levantou-se e bateu continência. Varian sorriu.
— Você não precisa fazer isso quando temos privacidade. — disse mostrando a porta fechada.
— Farei sempre que estiver em serviço. — porém, ela relaxou mais – Mas é bom saber que poderemos conversar sem nos preocuparmos com bisbilhoteiros.
— Posso? — ele perguntou apontando para a cadeira em frente a dela.
— Você não precisa pedir, Varian. — ela sorriu carinhosamente – Sente.
Desde que Anduin partira, Varian sentia-se sozinho como há muito não sentia. A ausência de Arshe ainda doía e estar na bastilha, sem aqueles dois para alegrá-lo, era terrível. Ele e Lina só conseguiram ficar juntos na noite seguinte a partida do príncipe, e desde então estavam ocupados demais para dar atenção um ao outro.
Contudo, aquela solidão deu espaço para que ele pudesse colocar sua mente em ordem. A nova posição de Lina resolvia muitos problemas e não apenas da bastilha. Como general, ela poderia ser enviada para qualquer lugar em que a Aliança necessitasse e o rei sabia que poucas pessoas seriam tão capazes quanto ela. E claro, a bastilha estava nas melhores mãos. E não era apenas aquilo. Varian pensava também em como aquilo afetaria os dois.
Desde o começo, Lina era receosa que a descoberta do relacionamento dos dois afetasse sua carreira, que fizesse com que os outros pensassem que sua ascensão estaria ligada a ele. Com a decisão de Anduin de pedir o fim dos privilégios para os cargos, ele abrira a porta não apenas para Lina, mas para todos. Assim, ninguém podia acusá-la de nada. Seu impedimento fora quebrado por algo que beneficiava todos e sua promoção aprovada por seus pares. Lina chegara onde queria por mérito próprio.
Estaria ela pronta para dar um passo a mais no que dizia respeito aos dois? Em assumir publicamente o romance?
Pensara muito nisso e já até sabia a resposta dela. Provavelmente Lina, desconfiada como era, pediria mais tempo a ele. Pediria para esperar até que as pessoas se acostumassem com seu cargo, com sua nova posição, para não chamar a atenção. Só que Varian queria ouvir da boca dela e tentar convencê-la que já esperaram demais. Ele queria poder abraçá-la sem medo, queria que ela pudesse entrar em seu quarto pela porta da frente, queria que todos soubessem que estavam juntos e que ele, mais que nunca, estava feliz em tê-la ao seu lado. Por enquanto, era o que julgava que poderia fazer.
Duvidava que Lina aceitasse o pedido que realmente queria fazer.
Alheia aos pensamentos dele, Lina ficou feliz de tê-lo ali por um momento, só para ela.
— O que achou do meu cubículo? — perguntou abrindo os braços – Se eu me esticar um pouco mais, acho que toco nas paredes. — e riu tentando tocar nas paredes.
Ver a felicidade dela com uma coisa tão pequena quanto aquela, deixava Varian mais que satisfeito. Na verdade, desde que ela confessara seus sentimentos por ele, o relacionamento deles se tornara muito mais leve e a cumplicidade dos dois só aumentava. Quando estavam juntos, não havia barreiras e podiam falar sobre tudo. Evitavam qualquer coisa que não fosse os dois quando estavam sozinho, mas já passaram horas falando sobre política e estratégias. Varian tinha a sensação que Lina era melhor conselheira para o trono que todos os conselheiros que viviam a lhe encher o saco.
— Vou sentir falta de te ver na sala do mapa. — confessou ele – Vai ser estranho ver outra pessoa em sua mesa.
— Não se preocupe, sempre estarei por lá, mas olhando o mapa com você. — ela sorriu satisfeita – E mal posso esperar para a primeira reunião onde eu e Cláudia estaremos com Crowe.
— Será uma coisa interessante de se ver. — ele a acompanhou no sorriso – E sobre essa sala, pretende pôr algo nas paredes? Ou na estante?
— Ah, vou trazer Fey e Mel aqui e eles cuidam disso. — ela abanou a mão – Mas, o que não faltará é meu pote de biscoitos! Vou manter um mais ou menos a vista para Pandora poder “roubá-los”. — ela fez as aspas com as mãos – E um escondido para que não falte quando eu mais precisar comer um docinho e assim não matar ninguém.
— É uma excelente ideia. Anduin vai gostar de saber que tem biscoitos por aqui também.
— Com certeza! E sobre a sala, é provável que meus irmãos mudem até os móveis daqui. É capaz de gastarem todo o meu primeiro salário!
— Vejo que você já se recuperou do susto do valor.
Quando Lina fora assinar os papéis para oficializar sua indicação e vira o quanto ia ganhar, achou que tinham errado o valor e chamou a atenção para isso. E ao saber que aquele era realmente o valor e que, a medida que os anos passassem, ele aumentaria, ficara tão abismada que exclamara:
— O que farei com todo esse dinheiro?!
Varian não conseguira segurar a risada.
— Eu ainda não acredito que um general ganhe tanto. — confessou Lina – Mas já tenho um plano para o dinheiro. Quero comprar uma fazenda e começar minha própria produção de vinho.
O rei ficou surpreso.
— Vai competir com o vinho de seus pais? — indagou.
— Não, não. Lá em casa produzimos vinho em grande quantidade, para manter a família. Meu pai odeia produzir numa qualidade mais baixa, mas é necessário. Apenas recentemente ele pode se dedicar a alguns vinhos mais finos. Minha ideia é plantar apenas a uva Mariana e fazer vinhos finos. Apenas reservas. O que acha?
— Acho que vou querer provar desses vinhos.
— O primeiro gole do primeiro vinho será seu. — prometeu ela – Sentaremos na minha futura sala, com minha futura lareira e tomaremos a primeira garrafa, juntos.
— Vou cobrar essa promessa. — garantiu.
Sorriram um para o outro. Lina então baixou os olhos para o papel que escrevera antes e falou:
— Já que você está aqui, gostaria que você visse algo. Umas ideias que tive. Pode ser?
— Claro.
Varian pegou o papel de suas mãos e o leu. Arqueou as sobrancelhas, interessado.
— Acho que são ideias excelentes. — disse – Precisamos realmente acalmar os ânimos com a chegada dos refugiados. Quando começa o recrutamento?
Lina piscou, confusa.
— É necessário fazer a requisição primeiro.
— Lina, você é general agora. Esse tipo de coisa você pode fazer sem a autorização de ninguém. Basta dá a ordem para os recrutadores. Quanto à diminuição de impostos, você faz uma requisição direto para mim, pois tem que passar pelo conselho dos nobres, para efetivação.
— Pois vou fazer agora! — exclamou animada – Você já sairá com ele em mãos. — e pegou o pergaminho.
Varian estendeu a mão sobre a mesa e tocou o punho dela delicadamente.
— Podemos conversar antes? Tem algo que quero falar.
Lina largou o pergaminho.
— Claro. Fale.
Ele fez menção de abrir a boca para começar a falar, quando ouviram uma batida na porta. Lina encarou Varian e ele suspirou, afirmando com a cabeça.
— Entre. — permitiu ela.
Vincent entrou com um vaso cheio de flores em suas mãos e sorrindo.
— Lina, minha querida, eu trouxe um presente para sua… — Vincent parou no momento em que viu Varian – Vossa Majestade. — e fez uma reverência – Desculpe incomodar, volto depois.
— Irmão Vincent. — cumprimentou Varian – Pode ficar, voltarei em outro momento.
Talvez fosse melhor assim, pensou Varian. O fluxo de pessoas era constante e Lina estava com a cabeça em outros temas. Deixaria para conversarem sobre os dois a sós, no quarto dele.
— Eu posso voltar depois, majestade. — insistiu Vincent.
— Eu não privaria nossa general de receber esse belo presente, irmão. – disse sorrindo, antes de voltar-se para Lina, e completar – Me mande a requisição do imposto, general. Conversaremos assim que possível.
Lina se levantou, bateu continência e Vincent fez uma reverência. Varian acenou com a cabeça para os dois e saiu.
Quando a porta foi fechada e os passos de Varian se distanciaram no corredor, Vincent perguntou:
— Ele não sabe que eu sei?
Lina fez que não com a cabeça.
— Prefiro que ele não saiba que meu irmão se torna um fofoqueiro quando tá apaixonado. — Vincent riu e ela continuou – E outra coisa, se ele souber que tanta gente sabe, ficará ainda mais óbvio.
Vincent estendeu as flores para ela.
— Que flores lindas! Obrigada! Sente-se, por favor.
Lina pôs as flores em cima da mesa e Vincent sentou-se na cadeira que Varian ocupara anteriormente.
— Eu imaginei que sua sala seria muito sem graça. — ele disse olhando ao redor – Sabe que Mel e Fey vão querer refazê-la?
— Sei… Eles já me avisaram… Espero que eles não encham tudo com papel de parede florido ou algo do tipo.
— Não se preocupe, eles serão mais discretos, porque é um ambiente profissional.
— Assim espero…
— Desculpe aparecer assim de repente, mas a Ordem tem um requerimento para fazer e eu pedi para trazê-la para você, assim, poderia visitá-la. — ele sorriu e entregou uma carta.
— Ah, adoro suas visitas, Vincent! O único problema é você deixar meus soldados e soldadas suspirando e desesperançados, pois você já é comprometido.
— Infelizmente não posso fazer nada por eles. — disse o paladino dando de ombros.
Lina balançou a cabeça, sorrindo, enquanto lia a requisição de Vincent.
— Ok, posso arrumar isso. Vem comigo? — perguntou se levantando – Assim resolvemos logo e você pode voltar para a Catedral, deixando corações partidos no caminho.
Vincent gargalhou.
— Será um prazer.
Saíram da sala de Lina e caminhavam pelo corredor, quando Brienne a avistou e foi até sua direção, esbaforida. Lina soube naquele momento que algo acontecera.
— Comandante, digo, general, é urgente!
— Fale, subtenente.
— Seu sobrinho está lá fora e-
Porém, uma figura chegou naquele momento, empurrou Brienne para o lado, o rosto pálido fazendo os cabelos ruivos se destacarem mais.
— Tia Lina! — exclamou Theo, a expressão de pânico – A mamãe tá tendo o bebê!
***************
Nem mesmo o sol afastou o frio que os dois sentiam.
Pandora carregou Pietro para a praia, suas pernas doendo e tremendo de exaustão. Quando chegou à beira da floresta, caiu de joelhos, sem forças. Respirou fundo. Não podia desistir agora.
— Pãozinho…
A voz fraca de Pietro a fez lembrar o que perderia se desistisse naquele momento. Precisava pensar e decidir o que fazer. Mas, primeiro, precisava arrumar um jeito de aquecer a si e ao irmão.
Sentou-se na praia e desatou o nó que prendia Pietro a ela. Depois, cavou um buraco fundo na areia, colocou Pietro lá e começou a enterrá-lo.
— A areia vai te manter aquecido. — explicou ela – Lembra que fizemos isso naquele acampamento que o filho de Alan roubou nossos cobertores?
— Mas e você? — perguntou o menino, preocupado.
— É só enquanto eu consigo lenha. Não se preocupe, não vou para longe.
E Pandora assim o fez. Catou alguns galhos por perto e fez uma fogueira, usando duas pedras como acendedor. Sorriu quando o fogo começou a subir. Desenterrou Pietro e o trouxe para perto da fogueira, cobrindo-o com areia novamente.
— O que faremos? — Pietro estava assustado e com razão.
Enquanto estava dentro da água, Pandora queria chegar em terra firme. Em terra firme, procurou aquecer o irmão. Se Pietro ficasse doente naquela terra desconhecida, poderia facilmente morrer. Pandora não permitiria que isso acontecesse.
— Primeiro, vamos nos aquecer. — disse ela chegando perto do fogo – Depois, vamos procurar por algum sinal de gente por aqui. E torcer para não serem da Horda.
— E se forem? — quis saber o menino.
“Eu espero que eles lhe poupem, pelo menos.”, pensou Pandora, mas jamais poderia colocar aquilo em palavras.
— Se forem da Horda, luto com eles. — disse parecendo mais corajosa do que realmente estava.
— Mas você nem tem arma! — questionou o menino.
Foi só aí que percebera que havia perdido o arco e a aljava de flecha no mar. Desesperou-se por um momento, mas foi apenas um breve instante. Apalpou a bota e sorriu para o irmão.
— Tenho sim.
Pandora então puxou uma adaga da bota. Desde o ataque a Lina, ela sempre mantinha uma arma escondida consigo. Jurara que jamais seria pega desprevenida de novo e não seria logo em uma viagem intercontinental que se descuidaria. Pietro ficou admirado com a sagacidade da irmã.
— Que demais, Pãozinho! — exclamou, encantado.
Pandora riu.
— É só uma adaga, mas já dá para muita coisa. — ela pegou um galho longo e começou a fazer uma lança improvisada – Vou fazer uma lança, assim consigo pescar algo.
Era mais uma preocupação. Além de manter o irmão seguro, precisava também mantê-lo alimentado, até achar algum sinal dos soldados da Aliança. Pelo que podia ver o horizonte, navio deles estava perto, mas podia estar cheio daqueles bichos macacos que enfrentaram. O que teria acontecido com o príncipe Anduin? Duvidava que alguém o tivesse deixado sozinho. Além do mais, ele era sacerdote. Podia se curar. Mas se sua tia soubesse que tinha deixado o herdeiro de Ventobravo para trás, a deserdaria. Ou a mataria. Ou ambos.
“Foda-se.”, pensou. “Minha prioridade é meu irmão.”
E com isso em mente, ela expulsou Anduin de seus pensamentos.
Não demorou muito e Pietro caiu no sono, exausto. Pandora se acomodou ao lado do irmão, segurando a lança, atenta para qualquer movimento nas proximidades. Porém, à medida que o tempo foi passando, o cansaço também foi se apoderando de Pandora. Enquanto ela lutava para manter os olhos abertos, a fome começava a apertar. Tinha que pensar em como caçar sem deixar Pietro para trás. Enquanto pensava essas coisas, seus olhos pesavam. E, quando menos esperava, Pandora caiu no sono, enroscando-se ao lado do irmão.
Acordou assustada, algum tempo depois, ouvindo um barulho próximo. Xingou-se mentalmente, irritada por ter caído no sono e deixado seu irmão desguarnecido. Pietro ainda dormia e a fogueira estava se apagando, mas o barulho estava cada vez mais próximo. Pegou a lança improvisada e ficou em guarda.
A floresta se abriu e um imenso orc saiu de lá. Pandora sentiu seu coração parar por um momento e tremeu. Claro que tremera, nunca estivera tão perto de um orc antes e, pela Luz, ele era imenso. Ergueu sua lança, se colocou entre o orc e seu irmão e ficou em posição de ataque.
O orc estava nitidamente surpreso de encontrá-la. Ele tinha brilhantes olhos azuis que desviara dela para Pietro, dormindo no chão, coberto de areia. O olhar do orc se voltou para ela e a encarou brevemente. Então, ele pôs a caixa que carregava no chão.
Pandora ficou na dúvida se o atacava logo ou aguardava o ataque. Procurou brechas na defesa dele, mas o orc parecia uma muralha de músculos. A impressão que tinha era que sua lança improvisada quebraria na pele dele. Porém, se o orc fizesse qualquer movimento na direção dela e de Pietro, não teria alternativa a não ser atacar. Só que ele não fez nenhuma menção de pegar o imenso machado que estava em sua cintura, pelo contrário. Mexeu na caixa que trazia nas mãos e começou a tirar coisas de lá: dois cobertores, comida e mais comida, água e deixou no chão. Depois, pegou a caixa novamente e simplesmente deu as costas para ela, voltando para dentro da floresta.
Chocada, Pandora baixou a lança e perguntou:
— Por quê?
O orc voltou-se para ela e sorriu.
— Por que não? — respondeu.
Sua voz era profunda e amigável. Quase gentil.
Dito aquilo, ele continuou seu caminho, se embrenhando na floresta.
As pernas de Pandora pareciam feitas de manteiga quando o orc sumiu e ela sentou-se pesadamente na areia. O movimento brusco fez Pietro acordar.
— Pãozinho? — chamou ele sonolento – Eu dormi?
Por um momento ela não falou, mas logo respirou fundo e sorriu para Pietro.
— Sim, dormiu. — sua voz estava um pouco trêmula, mas conseguiu firmá-la logo — E, enquanto você dormia, conseguimos algumas coisas para nos ajudar.
— Foi? — perguntou esperançoso.
Ela levantou-se e pegou as coisas que o orc havia deixado. Hesitou um pouco. Estariam envenenados? Descartou logo em seguida. O orc visivelmente não esperava achá-los e ficara tão surpreso quanto ela. Talvez mais surpreso ao ver uma criança ali. Pietro era pequeno e parecia bem menor do que seus treze anos. Dava para confundi-lo com um menino de nove ou dez anos. Teria sido por isso que foram poupados? Não importava. O orc os vira e, além de não fazer nada, ainda deixara suprimentos. Pandora não se achava uma pessoa religiosa, mas se aquilo não fora providencia da Luz, ela gastara toda a sorte de sua vida. Podia deixar de apostar na loteria de Ventobravo porque, definitivamente, não ia ganhar.
— Onde você conseguiu isso? — perguntou Pietro surpreso enquanto a irmão o desenterrava.
— Depois explico. Vamos tirar essa roupa úmida de você.
Pandora então tirou toda a roupa de Pietro e a pôs para secar perto da fogueira. O enrolou com os dois cobertores e o sentou encostado em uma pedra. Apesar da imensa sede, Pandora disse que tinham que poupar água e só tomaram o suficiente para tirar o gosto de água do mar da boca. Depois comeram. Tinha frutas, pães, queijo e alguns defumados. Pandora fez a conta de quanto tinha de comida e dividiu as porções, para durar mais. Deu as frutas a Pietro; elas seriam as primeiras a perecer, então deviam comer logo.
— Você não pode me dar todas as frutas. — protestou o menino – Tem que comer também.
— Não estou dando todas as frutas a vocês. — desconversou Pandora, apesar de ter sido exatamente isso que fizera – Você sabe que não gosto muito de coisas saudáveis…
— Você não me engana. — Ele separou metade das frutas e deu a ela – Coma também. Se você adoecer, eu não vou te carregar, viu? — disse gracejando.
— Vamos ter que nos arrastar pela areia. — brincou também, mas sabia que ele estava certo. Pegou as frutas e comeu.
Depois que comeram e beberam, saciados, calmos e descansados, Pietro finalmente perguntou:
— Como você conseguiu essas coisas, Pãozinho?
— Pietro, eu vou te contar, mas você não pode ficar nervoso, ok?
Ele fez que sim com a cabeça.
Contou a história do orc e de como ele deixara os suprimentos e os ajudara. Pietro ficou tão chocado quanto ela, mas logo o rosto do menino se iluminou, na mais pura felicidade.
— A Luz nos ajudou! — exclamou.
Pandora sorriu para ele.
— Acho que Ela quer que sobrevivamos a isso.
Pietro assentiu.
— Sempre que o Vincent diz na aula que existem pessoas boas de qualquer raça, eu vejo os meninos dizerem que é impossível ter algum orc bom. E achamos um! — os olhos dele brilhavam – Queria ter visto ele, para agradecer.
Pandora preferia não arriscar a sorte encontrando-o de novo, mas a frase de Pietro a fez perceber que não agradecera o orc pela ajuda. Sentiu-se mal. Mas encontrar com ele de novo estava fora de cogitação.
A não ser…
Uma ideia se formou na mente de Pandora, mas ela a rechaçou no primeiro momento. Só que ela insistiu em voltar e parecia fazer sentido. Pietro percebeu que a irmã se calara e estava com a expressão pensativa, a mesma de quando tinha uma ideia absurda. Só que as ideias absurdas de Pandora davam certos. Na maioria das vezes, pelo menos.
— O que você tá pensando? — quis saber ele.
— É muito perigoso… — murmurou ela.
— E nós estamos seguros?
Pietro tinha razão. Estavam perdidos, em uma terra estranha, e mesmo que o orc que acharam não fosse um assassino frio, poderiam ter outros por aí. E nem sabiam se aquele lugar era habitado por seres que não fossem aqueles macacos doidos.
— O orc estava sozinho, mas carregava suprimentos. Então estava mudando o acampamento de lugar. Duvido que seja o único Horda, mas se ele abriu mão de coisas para nós, deve estar num grupo pequeno. — ela analisou – Podemos nos aproximar do acampamento deles, o suficiente para ficarmos seguros, mas longe o bastante para não ser ameaça.
— E porque vamos nos aproximar do acampamento deles? — perguntou o menino, confuso.
— Aquele orc é imenso, deve matar tudo que atravessa o caminho dele. Então, o acampamento dele será seguro, as feras da região já terão sido mortas e as outras terão cuidado ao se aproximar. Podemos tirar vantagem disso. Eu não precisaria me preocupar em matar nada. Além do mais, na hora que eles chegarem em alguma vila, caso não haja outros membros da Horda, podemos pedir ajuda também. Quem quer que more aqui pode nem saber ainda de nossa guerra.
Pietro estava impressionado.
— Pãozinho, você é tão inteligente! — elogiou.
Pandora sentiu o rosto esquentar e sorriu.
— Claro que sou. Puxei à vovó Mariana e não aos burros dos nossos pais.
— E nossos pais são burros por quê?
— Deve ser alguma anomalia. — Pandora se levantou – Vamos nos preparar. A noite já tá caindo e quero achar aquele orc antes que fique escuro demais.
Pandora vestiu Pietro novamente, o enrolou em um dos cobertores e usou o outro para colocar os suprimentos restantes e amarrar em uma trouxa. Depois, apagou a fogueira. Pôs a adaga em sua bota, colocou Pietro em suas costas e empunhou a lança. Aquela era a ideia mais louca que já tivera, só que era também a melhor chance que tinham de sobreviver. Se alguém lhe contasse que algum dia ia dependeria de um orc para ficar viva, ela teria socado a pessoa. Só esperava que a vaca de sua tia entendesse que aquilo não era traição à Aliança, mas apenas instinto de sobrevivência.
— Seja o que a Luz quiser… — murmurou ela antes de entrar na floresta e seguir só rastros do orc, indo em direção ao seu acampamento.
***************
Doroteya estava dormindo quando sentiu uma dor grande no pé da barriga. Acordou, assustada e sentou-se com dificuldade. Massageou a barriga, com cuidado, mas a dor não passou. Talvez fosse a bexiga, cansada de ser maltratada pelos chutes do bebê. Pensou em chamar Theo, mas desistiu, pois não queria preocupar o filho.
Aquela gravidez estava sendo diferente da primeira. Como Lina já dissera, não era mais a jovenzinha de antes e as dores e o cansaço a deixavam mau humorada e irritada. Há dias não dormia direito e aparentemente as coisas só piorariam até o bebê finalmente nascer. Todos falavam sempre sobre o trabalho que um recém-nascido dava, mas Doroteya preferia mil vezes um choro incessante àquela dor incessante.
Sentiu outra pontada, dessa vez mais forte e, com dificuldade, levantou para ir ao banheiro. Assim que ficou de pé, sentiu a dor se intensificar e gemeu alto, antes de perceber um líquido quente escorrendo por suas pernas. Doroteya ficou em choque. Sua bolsa estourara.
— Theo! — gritou sem conseguir se conter – Theo!
Theo estava na cozinha, lavando os pratos e pensando que compraria o almoço naquele dia, para que nem ele nem a mãe precisarem cozinhar, quando ouviu o grito desesperado de Doroteya. Assustado, deixou uma vasilha cair e se espatifar no chão antes de sair correndo em direção à escada. Nunca subira aqueles lances de degraus tão rápido. Quando chegou ao quarto da mãe, ainda tinha as mãos cheias de sabão e as limpava na roupa perguntando, assombrado:
— Mãe! O que foi?
Só que o rosto pálido de sua mãe e o líquido no chão responderam sua pergunta.
— O bebê vai nascer. — disse ele sem acreditar.
— Vai… — a voz de Doroteya estava trêmula – Ele escolheu um péssimo dia para isso… — murmurou tentando sorrir.
Rapidamente Theo foi até a mãe. Ajudou-a a deitar-se novamente e a dor estava estampada no rosto dela.
— O que eu faço? — perguntou ansioso.
— Eu… Eu não sei… — murmurou Doroteya em pânico – Quando eu te tive, fiz tudo sozinha… Mas as dores eram menores… Não sei… — os olhos dela se encheram de lágrimas – Preciso pensar um pouco…
Theo, contudo, sacudiu a cabeça em negativa.
— Vou buscar ajuda! — exclamou – Vou chamar tia Lina!
— Não! — Doroteya o segurou com força – Você não pode ir na bastilha!
— Então vou chamar tio Fey e Mel! Ou tio Vincent!
Doroteya afrouxou o aperto.
— Vincent… — ela murmurou – Ele é a melhor escolha. — respirou fundo, uma contração a atingindo – As dores ainda não estão muito fortes… Acho que vai dar tempo…
— Vou pegar uma das montarias de tia Lina. Aí vou mais rápido!
— Tenha cuidado. — pediu ela – Tenha muito cuidado!
Theo assentiu com a cabeça antes de dar um beijo na mãe.
— Volto logo com ajuda.
E saiu correndo.
No estábulo, ele selou rapidamente o cavalo de Lina, que tinha ido trabalhar de grifo, e saiu galopando rápido, ainda que sua mãe tivesse pedido cuidado. A única coisa que ele conseguia pensar era que sua mãe estava sozinha, sentindo dor e com um bebê a caminho. Desejou que Lina ou Tommy não tivesse ido trabalhar naquele dia. Se, pelo menos, Pietro estivesse lá, ele poderia fazer companhia a mãe e acalmá-la. Mas Pietro não estava e Doroteya estava sozinha em casa. Precisava se apressar. Bateu com os calcanhares no lombo do cavalo, apressando-o.
Assim que chegou na catedral, apeou sem muito cuidado, amarrou o cavalo apressadamente e entrou correndo. Havia uma sacerdotisa acendo umas velas e ele foi imediatamente em direção a ela.
— Por favor, preciso falar com o irmão Vincent! — disse angustiado.
— Algum problema criança? — perguntou ela.
— Sim, e preciso do irmão Vincent!
— Eu o vi saindo ainda a pouco. — disse ela – Acho que foi na bastilha, visitar uma amiga.
Era a pior coisa que poderia acontecer, pensou Theo, a expressão desesperada.
— Obrigado. — disse.
— O que eu posso… — começou ela, mas Theo já virara as costas e saiu correndo na direção do cavalo lá fora.
Enquanto desamarrava o cavalo, pensava no que faria. Não podia ir a bastilha, então teria que procurar Fey e Mel. Os tios provavelmente surtariam, mas saberiam quem procurar na cidade para fazer o parto. Depois, teriam que ser acalmados por Doroteya. Era a única possibilidade no momento.
O ateliê de Fey e Mel não ficava longe, mas o menino sentiu que o percurso durara uma eternidade. Chegou lá e nem se precisou apear para ver que eles não estavam lá. Havia uma placa pendurada na porta onde dizia: “fomos fazer um atendimento domiciliar, voltamos à tarde.”
O pânico se apossou do menino. E agora? Voltaria para casa sem ninguém? Tentaria fazer o parto ele mesmo? Se agisse assim, poria em risco sua mãe e o bebê… E não podia fazer isso. Era obrigação dele cuidar dos dois. Então teria que, pela primeira vez na vida, desobedecer a sua mãe. Virou o cavalo na direção da bastilha e bateu com os pés para que o cavalo andasse.
Todo tempo que levou no caminho, Theo pensava que não deveria ir lá, que sua mãe ficaria chateada quando soubesse, mas muito pior seria não fazer nada e voltar para casa. Jamais se perdoaria se algo acontecesse com sua mãe e o bebê. Preferia arriscar a raiva dela que a sua vida.
Quando chegou na bastilha, com o coração acelerado, desceu do cavalo, o amarrando da melhor forma que suas mãos trêmulas permitiam. Depois, subiu as escadarias correndo, pulando os degraus de dois em dois, até chegar lá em cima. Assim que chegou, suado, parou alguns segundos recuperando o fôlego. Foi nesse momento que a rainha Mia Greymane, mãe de Liam e avó de Theo, o viu.
Mia estava na bastilha desde o anúncio de Anduin e protelava sua ida para Darnassus, mesmo que seu marido dissesse constantemente que sua presença na capital dos elfos noturnos era necessária para acalentar o povo deles. Contudo, ela sentia tanta falta do marido e da vida urbana, que preferia deixar sua filha Tess cuidando de todos por um tempo. Naquela manhã, ela insistira com Greymane que precisavam passear pela cidade, pois ela queria fazer umas compras. Estava aguardando o marido chegar quando viu Liam. Sim, na mente de Mia, aquele era Liam, tão fantástica era a semelhança do menino com seu filho. Sentiu as pernas fraquejarem e a visão nublar, antes de ouvir uma voz atrás dela.
— Mia, meu amor! — era Greymane quem chegava – Você está pálida. O que houve?
Ela segurou o braço dele com força, a mão gelada como a de um morto e falou, quase sem respirar:
— L-Liam… — seus olhos ainda estavam presos em Theo, que recuperava o fôlego na entrada da bastilha.
Greymane olhou e levou um choque. Era o mesmo menino que vira anos atrás. Mas agora o menino estava maior, mais alto e a semelhança com Liam era ainda mais impressionante. Theo não os viu e, recuperado o fôlego, entrou correndo dentro da bastilha. O primeiro pensamento de Greymane foi ir atrás dele, mas ao seu lado, sua esposa foi caindo devagar, perdendo os sentidos.
— Mia! — ele chamou – Mia!
Mas a rainha não respondeu, desacordada nos braços do marido. Alguns guardas viram a cena e correram até onde os antigos monarcas de Guilneas estavam.
— Majestade! O que aconteceu? — Perguntou um deles.
— Não sei, tragam um sacerdote! Rápido! — ordenou.
Os soldados foram rapidamente cumprir a ordem, enquanto Greymane pegava a esposa e a deitava em um dos bancos nas proximidades. Mantinha um olho nela e outro na entrada da bastilha. Se o menino entrara, em algum momento sairia. E Greymane queria saber quem ele era e o que viera fazer ali.
Lá dentro, Theo acabara de encontrar Lina, que não conseguia acreditar que Theo estava ali e no que ele acabara de dizer. Mas o menino não tinha pretensão de deixá-la assimilar a notícia. Pegou-a pela mão e saiu puxando.
— Precisamos ir! A mamãe precisa de nós!
— Calma, Theo. — Lina puxou a mão dele e o parou – Sua mãe está dando à luz? Tem certeza?
O menino a olhou, angustiado.
— A senhora acha que eu viria até aqui se não fosse verdade?
Lina levou as mãos à cabeça.
— Meu amor, não estou dizendo que você está mentindo, eu…. – ela respirou fundo – Eu sabia que deveria ter ficado em casa! Vamos!
E recomeçou a andar apressadamente.
— General! — exclamou Brienne a acompanhando – O que falo se perguntarem por você?
— Diga que é uma emergência, que Doroteya entrou em trabalho de parto e que não sei se volto hoje. Peça a Cláudia para me cobrir e diga o porquê. — e pensando um pouco, acrescentou – Avise ao rei também.
— Sim, senhora.
— Eu vou chamar um sacerdote. — disse Vincent.
— Acho que não dá tempo, Vincent. Venha conosco. — pediu Lina.
Os três passaram pela porta da bastilha e pararam por um momento. Lina virou-se para o menino e perguntou:
— Como você veio para cá, Theo?
— De cavalo, ele tá amarrado ali. — e apontou para o final das escadas.
Lina pensou rápido.
— Vincent, vá no meu cavalo, eu vou de grifo com Theo. Doro deve tá morrendo de medo.
— Certo. — Concordou ele.
Com um assobio, Lina chamou o grifo e subiu com Theo nele, antes de levantar voo. Vincent desceu rapidamente as escadas, pegou o cavalo, montou e foi galopando em direção à casa de Lina.
Greymane viu aquilo e não conseguiu acreditar. A general Wood conhecia o menino! E muito bem, levando em consideração que ele saiu com ela de grifo. Não conseguiu ouvir o que eles falaram, mas era óbvio que havia uma relação entre a general e à criança. Ele quis ir atrás deles, saber para onde foram, descobrir a ligação entre os dois, mas não podia deixar sua esposa. Ainda esperava o sacerdote quando Mia finalmente acordou.
— Genn… — murmurou ela quando abriu os olhos – Eu vi… Você viu?
— Sim, Mia eu vi.
A rainha respirou fundo, segurando a mão dele.
— Quem era aquela criança, Genn? Como ele pode ser tão parecido com nosso Liam? Que humor macabro é esse da Luz, para fazer um menino como aquele cruzar nosso caminho? — a mulher estava em lágrimas.
— Não fale assim, Mia. Tudo nesse mundo tem uma explicação… Venha, vou levá-la para o quarto… Descanse hoje. As compras ficam para um outro dia.
Sem forças para argumentar com o marido, Mia concordou e deixou-se ser levada por ele. O sacerdote os interpelou no caminho e Greymane pediu para que este os acompanhasse até seus aposentos. Lá, o sacerdote examinou a rainha, passou um elixir para que ela se acalmasse e depois os deixou a sós. Logo, a rainha dormia e Greymane estava livre para descobrir algo sobre o menino. Assim que saiu, foi na direção de dos subordinados mais chegados de Lina, Brienne e Jon. Os dois estavam conversando com outros soldados e bateram continência quando ele se aproximou.
— Subtenente Taylor. — ele falou se dirigindo a Brienne – Onde está a general Wood?
— Teve que sair correndo, majestade. Doroteya está em trabalho de parto.
Greymane franziu o cenho, irritado. Aquela druidesa hipócrita… Tanto clamou seu amor para Liam, apenas para deitar-se como primeiro que aparecesse. Onde estava o amor que ela dizia sentir? Se o amava tanto, porque não estava de luto? Por que se casara com outro?
— E aquele menino? Quem era?
— O Theo? É o sobrinho da comandante.
— Eu achei que o Theo era filho da Doro. — comentou Jon confuso – Eu o vi chamando-a de mãe. E ele estava tão agoniado por causa dela…
— É que eles são muito unidos. E ela é madrasta dele não? Não é estranho chamá-la de mãe.
Um choque percorreu o corpo de Greymane e ele ficou sem fala. Sua expressão deve ter mostrado o choque, porque Brienne perguntou:
— Algum problema, majestade?
— Nada. — rosnou ele antes de sair.
Greymane retornou ao seu quarto e sentou-se pesadamente em uma cadeira. Mia, adormecida, não fazia ideia que seu marido acabara de descobrir. Pois, depois do que ouvira, ele tinha certeza que o menino era sim, filho de Doroteya. De Doroteya e de Liam. Aquela era a explicação mais óbvia para a semelhança do menino. Nenhuma coincidência o faria tão parecido com Liam. Com isso em mente, pensou na cronologia. O menino deveria ter uns nove ou dez anos. Exatamente a época em que soubera dos dois e a mandara embora. Teria ela ido grávida? E escondera o menino aquele tempo todo? Seria por isso que Liam voltara para seu lado assim que ela surgiu em meio à guerra por Guilneas? Saberia Liam que teria um filho? E, se soubesse, porque não falara nada?
Não… ele tentara falar. Lembrava que, antes da última batalha, Liam lhe dissera que havia algo muito importante para contar, mas Greymane o cortara, dizendo que não aceitaria Doroteya. A última vez que vira seu filho vivo foi brigando por causa dela… Mas seria só por causa de Doroteya? Não seria por causa do menino? Greymane levou as mãos à cabeça, desesperado. Seu filho quisera contar. Quisera contar que tinha um filho. E ele não deixara. E Liam morrera.
Mas o menino estava ali.
Precisava descobrir. Precisava saber se estava certo. Só que, em seu coração, sabia que era verdade.
Havia, contudo, a questão da general Wood. A subtenente dissera que Theo, aquele era o nome do menino, era sobrinho da comandante. Por que ela diria isso?
— Para que eu não soubesse a verdade. — falou para si mesmo.
Fazia sentido. Ou talvez a general nem soubesse. Doroteya poderia ter escondido a verdade. E sabia que a druidesa casara com o irmão de Lina, então isso seria motivo para considerar o menino seu sobrinho. Haviam tantas perguntas e só um meio de conseguir respostas. Greymane se levantou.
Iria até a casa de Lina.
****************
Kassyeh passou o lenço molhado pela testa de Halduron, tentando baixar sua temperatura. O elfo já não tremia tanto quanto antes, mas a febre ainda estava lá. As ervas haviam ajudado inicialmente, mas sabia que a melhoria podia não durar muito. Tinham que achar um curandeiro.
Como a ferida fora cauterizada e a infecção contida, só podia supor que havia realmente algum tipo de veneno na flecha. Se, pelo menos, soubesse que tipo de veneno era, poderia tentar fazer um antídoto. Pensou na região onde ficava Ventobravo e nas ervas que poderia se achar por lá. Pelo que sabia, não eram muito diferente das que tinham na Floresta do Crepúsculo e ela já estivera naquela região. Se fosse fazer um veneno com as ervas do local, saberia mais ou menos quais usar. E para fazer um antídoto… Fazia ideia, mas duvidava que dispusesse da quantidade necessária de material para fazer. E corria o risco de ser um veneno feito de outra região, afinal a Aliança não tinha apenas humanos.
Ouviu um barulho e levantou-se rápido, a mão formando um orbe de gelo. Porém, era apenas seu marido chegando com a caixa cheia de suprimentos.
— Tewdric! — exclamou aliviada, desfazendo a magia.
— Trouxe o máximo de coisa que consegui. — disse o orc depositando a caixa no chão – Como ele está?
— Melhorou um pouco, mas não sei por quanto tempo ficará assim. — explicou a elfa — Ele pode continuar melhorando ou piorar rapidamente. Quanto antes acharmos um curandeiro, melhor.
— Algo aconteceu enquanto estive fora? — quis saber – Algo apareceu ou alguém?
— Não. E você, encontrou alguém?
O orc sentou-se lembrando dos dois humanos que vira na praia. Não imaginava o que, naquele mundo, faria a Aliança trazer duas crianças em seus navios. Claro, um dos dois humanos, a menina, parecia ter entrado na maturidade, provavelmente há pouco tempo. Todavia, seus olhos tinham tanto medo quando o viu, que tinha certeza que ela jamais enfrentara uma luta de verdade. Para Tewdric, isso a qualificava como uma criança também. Ainda assim, o que fariam por ali? Talvez, tal como eles, os humanos poderiam estar em uma viagem de exploração ou até diplomática. Aquelas crianças poderiam estar com os pais no navio que se envolvera no combate com a nau da Horda. Tewdric sentiu-se mal pelos dois. Conhecia a sensação de se sentir desamparado.
— Se eu te contar, talvez você não acredite. — começou o orc.
Kassyeh sentou-se ao seu lado, esperando.
Tewdric então contou do encontro com os dois jovens da Aliança e o que fizera por eles. Se sua companhia de viagem fosse Luxuriah ou Ash, dificilmente o orc falaria o que acontecera e jamais diria da ajuda dada. As duas eram boas pessoas, mas odiavam humanos demais para aceitar que qualquer membro da Horda os ajudasse. Mas era Kassyeh, e Kassyeh jamais negaria ajuda a qualquer pessoa que fosse. Principalmente crianças.
— Pela Nascente, o que duas crianças faziam naquele navio?
— Me fiz a mesma pergunta. — revelou o orc – Deviam estar com os pais. Eu não vi muito do navio deles, mas não acredito que fosse uma nau de guerra.
Os olhos de Kassyeh se encheram de lágrimas.
— E-eu espero… Espero que não tenhamos matado seus pais…
Tewdric pegou em sua mão.
— Não pense nisso, minha Kass. — pediu – Vamos pensar no Halhal, certo? E, não se preocupe, se eu for buscar mais suprimentos, deixo mais coisas para os dois, certo?
— Certo… — murmurou.
— Trouxe mais ervas para você fazer mais remédios para o Halhal. — disse a ela, mostrando a caixa.
Kassyeh fez um movimento positivo com a cabeça, começou a tirar o material e a fazer mais remédio para Halduron. Depois que medicara novamente o elfo, ela pegou o pequeno caldeirão trazido por Tewdric e decidiu fazer um ensopado com a carne e os legumes que tinha. Teve cuidado ao enchê-lo de água, para não a desperdiçar, e cortou os ingredientes. Quando a noite caiu, o fogo estava alto e o cheiro da comida era maravilhoso.
— Vou fazer uma ronda. – disse Tewdric antes que Kassyeh servisse a comida – Para espantar qualquer coisa que tiver por perto.
— Certo. – disse a elfa tirando um pouco de caldo e colocando em uma pequena cumbuca – Vou tentar dar um pouco de caldo para Halduron. Ele não comeu nada o dia todo.
— Cuidado.
Tewdric saiu e Kassyeh esperava que ele não demorasse.
Não havia muitos animais perigosos por perto do acampamento deles, Tewdric percebeu. Já haviam se livrado de muitos e os demais mantinham distância. Sua preocupação era que a fogueira se destacava na escuridão e qualquer um a veria. Teria que ficar de guarda um bom tempo. Reversaria com Kassyeh os turnos, para que um dos dois ficasse acordado, alerta para ataques e para o cuidado com Halduron. Se não encontrassem logo uma vila, esperava que achassem, pelo menos, uma caverna, que daria mais proteção aos três.
Enquanto caminhava, viu uma luz ao longe e percebeu que alguém estava acampado bem próximo a eles. Franziu o cenho. As pessoas lá deveriam saber que havia outro acampamento nas proximidades. Por que acampar tão perto? Se fossem Horda, teriam ido falar com eles. Se fosse Aliança, não arriscariam ficar. A não ser...
Seriam as crianças?
Tentando não fazer barulho, ele se aproximou. Sim, eram aqueles dois. Eles não haviam percebido sua presença, então decidiu observar por um tempo.
— Como estão as pernas? – ouviu a menina perguntar.
— Como sempre, sinto o inchaço e a coceira. – respondeu ele.
— Menos mal.
O menino suspirou, coçando o joelho.
— Agora mesmo que eu não fico bom... Nunca chegarei a Exodar para o profeta me ajudar...
— Sim, nós iremos! Vamos sobreviver a isso aqui, voltaremos pra Ventobravo e a tia vai nos arrumar outra forma de chegar a Exodar! Eu não descansarei enquanto não te ver melhor!
— Pãozinho, você sabe que eu nunca mais vou andar, não sabe? – havia tristeza na voz dele.
— Então eu sempre serei suas pernas... Mas não vou deixar você perder mais nada, Pietro.
Tewdric ficou ainda mais espantado. O menino não andava? Aquela menina estava carregando-o aquele tempo todo? Bem, suas impressões estavam certo; eles foram pegos no meio de uma viagem civil, já que aqueles dois iam para Exodar ver um profeta... Velen, provavelmente. E como dava para perceber que o menino tinha uma doença, estava indo para curá-la ou controlá-la.
Um dilema se instalou na mente de Tewdric. Seu lado de campeão da Horda dizia que já tinha feito o suficiente por aqueles dois, mais do que deveria. Eram crianças, mas eram crianças do povo inimigo. Porém, ele já fora uma criança assustada e ninguém nunca o ajudara. Lembrava da fome crônica, do medo e de como se sentiu quando Thrall o pegou nos braços e o curou. Não podia curar Pietro, mas podia lhe dar a oportunidade de buscar sua cura no futuro. Afinal, eram só crianças! Se o Chefe Guerreiro ainda fosse Thrall, não hesitaria em fazer mais pelos dois. Porém, se Garrosh descobrisse, estaria em maus lençóis. Não temia Grito Infernal pessoalmente, mas o que ele podia fazer contra Karen. Estava ali, de pé perto deles, pensando no que fazer quando ouviu Pietro perguntar:
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Tá sentido esse cheiro? Lembra o cheiro das sopas de Doro...
— É sim... – respondeu a jovem que ele chamara de ‘Pãozinho’ — Será que o bebê já nasceu?
— Ela disse que ainda ia demorar umas semanas... – o menino suspirou – Sinto saudades de casa...
— Eu também...
Por fim, Tewdric decidiu. Guardou o machado nas costas e se aproximou deles, fazendo bastante barulho. Pandora se levantou, a lança em riste. Seus olhos se arregalaram quando viram novamente o orc.
— Você... – ela murmurou.
— Foi o orc que nos ajudou? – perguntou o menino.
Pandora fez que sim com a cabeça sem tirar os olhos do orc.
Tewdric olhou para o menino. Ele estava precariamente sentado encostado em uma árvore. Tiras de cipós o mantinham ereto. Suas mãos tremiam levemente, mas o orc percebeu que não era de medo nem de frio. Devia ser da doença.
— Meu nome é Tewdric. – disse ele calmamente – Não vou fazer mal a vocês.
— Por que não? – questionou Pandora, desconfiada.
— Não é óbvio? Vocês são crianças!
— Eu não sou criança! – exclamou Pandora sem pensar muito.
Para a surpresa dos irmãos, o orc deu uma risada. Eles não sabiam, mas Pandora havia falado da mesma forma que Karen falava quando Luxuriah a questionava.
— Talvez não criança como ele, mas jovem o suficiente para que a considere assim. – disse Tewdric com um sorriso.
— Muito bem, o que quer aqui? – perguntou ela, tentando demostrar a coragem que não tinha.
— Pãozinho! – exclamou Pietro franzindo o cenho – Ele nos ajudou, seja legal com ele.
Tewdric gostou de Pietro no mesmo instante.
— Eu quero ajuda-los novamente. – disse o orc com a voz mais suave que conseguiu.
— Por quê? – por mais que quisesse ajuda, Pandora ainda estava muito desconfiada – Você é um orc! Da Horda!
— Minha consciência não ficaria tranquila se eu não oferecesse um pouco mais de ajuda a vocês. Eu sei o que é estar assustado e não ter a quem recorrer.
Pandora ficou surpresa com a fala do orc. Não conseguia imaginar aquele orc daquele tamanho com medo de alguma coisa. Foi quando lembrou que ele já fora criança antes. Claro, ela não era criança, mas Pietro era. E era em Pietro que ela deveria pensar naquele momento. Baixou a lança.
— Não tem medo de ser considerado traidor? – quis saber ela.
— Não. Porque não sou.
— Alguém poderia te considerar um, por nos ajudar. – retrucou.
— Eu pensarei no que fazer, caso isso ocorra. Mas não ocorreu ainda.
Pandora olhou para Pietro, que fez que ‘sim’ com a cabeça ansiosamente, mas ainda não estava convencida.
— Você já nos ajudou e estou muito agradecida. – disse com sinceridade – Não vejo o que mais poderia fazer por nós.
— Segurança. Vocês não seriam atacados por animais. E temos mais comida e ervas. E cobertores. E minha Kass cozinha muito bem! Estão sentindo o cheiro da sopa dela?
Tewdric sabia que estavam, mas achou melhor perguntar.
— Quem é Kass? – perguntou Pietro.
— A elfa mais bonita do mundo. – disse ele apaixonadamente – Minha esposa.
— Você é casado com uma elfa? – surpreendeu-se Pandora. Já havia ouvido falar de um casal como aquele, mas não lembrava muito bem.
Dando uma risada, Tewdric assentiu.
— Não sei por que as pessoas sempre ficam surpresas com isso, mas sim, sou casado com uma elfa. Ela sabe que eu os ajudei e não vai se opor à presença de vocês.
— Só estão vocês dois? – quis saber.
— Não. Mas a outra pessoa está doente. Bem doente. – a voz do orc ficou triste – Não precisam se preocupar.
— E se alguém mais da Horda chegar? – Pandora precisava cobrir todas as possibilidades.
— Diremos que vocês são reféns, mas os deixaremos ir assim que possível. Eu prometo a vocês, pela minha honra, que ninguém fará mal a nenhum dos dois.
Pandora e Pietro se entreolharam. Até mesmo eles sabiam o quanto os orcs levavam em consideração a sua honra. Se ele fazia uma promessa assim, era porque cumpriria.
— Você vai atacar alguém da Aliança? – perguntou Pietro, preocupado.
— Apenas se eles nos atacarem sem, ao menos, tentar conversar. – falou com sinceridade – Se virem vocês e quiserem negociar, diremos mais uma vez que vocês são reféns e posso dizer que entrego vocês em troca de nossa passagem segura. – ele deu de ombros – Vocês ficariam bem, do mesmo jeito.
Eram propostas razoáveis, pensou Pandora. E eles precisavam de ajuda.
— Tudo bem... – disse Pandora guardando a lança – Se você vai nos ajudar mesmo e não nos fará mal...
— Prometo, pelos meus ancestrais e meu amor pela minha Kass, que não. – garantiu Tewdric.
— Tudo bem. Meu nome é Pandora e esse é meu irmão, Pietro.
— Oi! – disse o menino acenando – Obrigado por nos ajudar.
— De nada, Pietro. – falou o orc com um sorriso.
Um orc simpático... A Luz era mesmo misteriosa, pensou Pandora.
Começaram a desarmar o acampamento improvisado dos dois irmãos. Pandora desamarrou Pietro enquanto Tewdric apagava a fogueira deles. Apesar de ainda está apreensiva, a jovem entendeu que, se Tewdric quisesse fazer mal a eles, já o teria feito. O orc parecia que queria realmente ajuda-los, então aceitaria a ajuda. Não por ela, mas por seu irmão.
— Posso levá-lo, se você quiser. – sugeriu Tewdric quando Pandora colocava o irmão nas costas.
— Ainda não confio em você o suficiente para lhe entregar meu irmão. – falou Pandora um pouco mais ríspida do que pretendia.
— Pãozinho! – exclamou Pietro.
Pensou que o orc ia insistir, mas ele assentiu, aceitando a decisão dela. Ele pegou o resto dos suprimentos deles e disse:
— Vamos.
Pandora rezou para não estar cometendo o maior erro de sua vida.
****************
Doroteya controlava a respiração da mesma forma que fizera no parto de Theo. Daquela vez pelo menos, sabia que tinha ajuda a caminho. Ainda assim, seu coração estava acelerado a medida em que as contrações iam e vinham. O tempo ainda estava a seu favor, mas não saberia se continuaria assim. Teve vontade de rir, com a ironia. Tivera Theo sozinha porque não havia ninguém a quem recorrer. Daquela vez, ela tinha a quem recorrer, mas o bebê decidira vir no único dia em que estava sozinha. Eluna devia confiar muito em sua força.
Mais uma contração e ela franziu o cenho. Estava ficando mais forte. Rezou para que Theo voltasse logo e que não estivesse sozinho. Não queria submeter seu filho a uma responsabilidade tão grande. Se algo desse errado, ele se sentiria culpado para o resto da vida. Então, que voltasse com alguém ou que só voltasse quando tudo já estivesse terminado.
A preocupação se esvaiu de seu peito quando ouviu a porta abrir lá embaixo e a voz de Theo gritar:
— Chegamos, mãe!
O alívio foi tanto que até as dores aliviaram. Os passos na escada eram pesados e Doroteya teve certeza que era Vincent. Por isso, ficou abismada quando viu Lina entrar no quarto.
— Lina?!
— Desculpa, mãe! — foi dizendo Theo – Desculpa, mas não teve outro jeito!
A garganta de Doroteya se apertou e seu coração se encheu de uma angústia sem par. Uma contração atingiu nesse momento e a druidesa começou a chorar.
— O cachorro doido não estava lá. — foi dizendo Lina se aproximando dela – Calma, Theo só fez isso porque não achou Vincent nem meus irmãos.
— Desculpa, mãe! — disse o menino mais uma vez, com lágrimas nos olhos.
Doroteya olhou para o filho e tentou sorrir em meio a dor.
— Tudo bem, meu amor. Você fez o que achou melhor… — e olhando para Lina – Tem certeza que ele não viu o Theo?
— Tenho. — confirmou a general.
Doroteya relaxou.
— Tia, o que faremos agora? — perguntou Theo ainda angustiado.
— Vá por água para ferver e traga toalhas limpas. — disse.
Theo correu para atender o pedido de Lina.
— Não sabia que você tinha experiência com parto, Lina. — comentou a druidesa tentando pensar em algo que não fosse as dores.
— Sempre tem alguém parindo lá em casa. — disse ela ajeitando os travesseiros da amiga – Eu sempre ficava correndo pegando as coisas. Mas confesso que nunca fiz um parto eu mesma. Mas Vincent tá vindo, ele tem experiência.
Não demorou muito para que elas ouvissem o barulho na escada novamente e Vincent entrar no quarto, acompanhando de Theo.
— Como está nossa mamãe? — perguntou carinhosamente.
O paladino tinha uma aura de calma e fez todos se sentirem melhor quando chegou. Rapidamente ele tirou a armadura e arregaçou as mangas.
— Eu tô bem. — disse Doroteya numa voz cansada – As contrações estão aumentando, mas sinto que ainda vai demorar um pouco.
— Ótimo, significa que temos tempo para nos acalmarmos e fazer tudo dentro dos conformes. Lina, traga a água quente, sim? Preciso lavar as mãos para examinar Doro.
Aquela era um tipo de uma situação que Lina abria mão de estar à frente sem nenhum problema. Uma coisa era liderar um ataque contra um inimigo armado; outra era ser responsável por trazer uma vida ao mundo e não surtar no processo. Preferia seguir as ordens de Vincent e não abrir a boca para questionar.
Logo após examinar Doroteya e garantir que tudo estava bem, Vincent ajudou a druidesa a levantar e passou a andar com ela pelo quarto. Era uma forma de ajudar a acelerar o processo, ajudando o bebê descer, explicou. Porém, era muito doloroso ver Doroteya apertar os olhos e chorar baixinho cada vez que uma contração a atingia. Theo não saia do lado da mãe, segurando sua mão com força. Lina ia e vinha da cozinha, sempre com mais água e mais toalhas. E Vincent, com sua calma monumental, conduzia tudo da melhor forma possível.
Não demorou muito para que o novo membro da família Wood chegasse ao mundo. Depois de um tempo em que caminhou pelo quarto, Doroteya simplesmente não conseguia mais ficar em pé. Foi quando Vincent percebeu que a hora tinha chegado. A deitou na cama e Lina e Theo ficaram lado a lado com Doroteya, enquanto ela fazia os últimos esforços para trazer o bebê à luz. Minutos depois de deitar, chegara o momento. Com uma tranquilidade bem diferente do início do processo, o bebê Wood nasceu, deslizando para as mãos preparadas de Vincent, com uma cabeça cabeluda e negra e um choro alto e estridente, visivelmente incomodado por estar em um lugar totalmente novo. Assim que segurou a criaturinha, Vincent anunciou, emocionado:
— É uma menina! Doro, você tem uma menininha!
— Eu tenho uma irmãzinha! — exclamou Theo animado.
— Ela é tão feinha! — falou Lina emocionada – Por que todos eles nascem tão feinhos?
— Ela vai crescer e ficar linda. — garantiu Vincent cortando o cordão umbilical e enrolando a bebê – Doro, ela é perfeita.
Doroteya estava sem palavras. Pegou o bebê e a aconchegou nos braços. A menina ainda chorava, sacudindo os punhos, como se estivesse indignada por estar naquela situação.
— Lina… — murmurou a druidesa – Ela vai ter sua personalidade…
— Pela Luz, espero que não! Já basta Pandora!
— Ela é tão grande… — a druidesa chorava, emocionada – Tão grande quanto Theo quando nasceu…
— Vai ser bem alta, imagino. — comentou Vincent, satisfeito.
— Vamos chamar a mamãe de baixinha, juntos. — gracejou Theo.
— Vão sim…- riu-se Doroteya.
A menina foi se acalmando e se aconchegou ao peito da mãe. Doroteya olhou o rostinho redondo dela e percebeu que sua filha teria traços seus, diferente de Theo. Uma pena, queria que ela parecesse com Tommy… Será que os olhos seriam verdes, como os do pai? Não dava para saber ainda.
— E o nome? — perguntou Lina – Você não queria pensar no nome antes de nascer, mas agora é o momento.
— Confesso que não pensei em nenhum. — disse a druidesa passando o dedo no rostinho da filha – Talvez o nome de minha mãe…
— Ah, não! — cortou Lina – Sua mãe se chamava Theodora e já tem Theo em homenagem a ela! Além do mais, acabaríamos chamando-a de Dora e eu já tenho uma irmã que chamamos Dora. Seria muito confuso!
— Eu posso escolher? — perguntou Theo um pouco envergonhado.
— Você tem uma ideia para o nome? — surpreendeu-se Doroteya.
O menino fez que sim com a cabeça.
— Eu já tinha pensando em alguns esses dias… — revelou o menino – Se fosse menino, eu ia sugerir Thomas. Aí seria Theo e Thomas. — ele riu – Mas como é menina, pensei em outra coisa.
— Fale. — pediu a mãe.
Theo hesitou um pouco, como se tivesse receio de falar, e quando começou, foi com a vozinha baixa, quase um sussurro:
— Pensei em chamarmos ela de Liana. — disse encarando a irmã – Seria uma homenagem às pessoas amadas da mamãe e do Tommy: Liam e Ana. Sabe… Porque você e o Tommy amaram eles né?
Doroteya ficou sem saber o que falar, apenas sorria, encantada com a sensibilidade do filho.
— Que lindo, Theo… — encantou-se Vincent – Seria uma bela homenagem…
— Eu amei, filho. — disse Doroteya passando a mão nos cabelos dele – Mas, quero esperar o Tommy chegar. Se ele concordar, será Liana.
— Não tem porque ele não concordar. — disse Lina – Liana Wood. Ficará bonito.
— Bem, eu acho que devíamos deixar a mamãe e a bebezinha descansar. — sugeriu Vincent se levantando – Daqui a pouco a nova Wood estará com fome e seria bom Doro tentar recuperar algum sono.
— Mas eu não quero largar dela. — disse Doroteya.
Todos riram.
— Vamos deixá-la aqui do seu ladinho, assim vocês ficam juntas e descansam juntas. — falou o paladino.
E assim foi feito. Deixaram mãe e filha lado a lado e desceram, os adultos para uma bebida forte e Theo para um doce, porque todos precisavam de algo para fazer o sangue circular, depois de tanta tensão.
***********************
A sopa estava pronta e Kassyeh a mexia com uma concha, quando Tewdric chegou trazendo as duas crianças humanas. A elfa percebeu que uma não era tão criança assim, mas o menino era bem pequeno e estava sendo carregado pela maior. Pela aparência, deu para perceber que eram irmãos.
— Chegaram bem a tempo. – disse sorrindo – A sopa está pronta!
Pandora se surpreendeu com a simpatia com a qual a elfa os recebeu, mas não disse nada.
— Tá bem cheirosa, moça. – elogiou Pietro sorrindo.
— Pode me chamar de Kassyeh. – falou ela com suavidade.
— Eu sou Pietro! – exclamou o menino – E essa é minha irmã, Pandora. Muito obrigado por nos ajudar.
— Não há de que. Por favor, fiquem à vontade. – e olhando para o marido – Preciso de sua ajuda para alimentá-lo. – disse apontando para alguém que estava deitado.
— Certo.
Pandora não prestou atenção ao que o casal fazia enquanto se acomodava com Pietro. Primeiro, preparou um lugar com folhas e um cobertor. Fez o irmão sentar-se encostado a uma árvore e usou alguns cipós para mantê-lo ereto.
— Está sentindo algo? – quis saber, preocupada.
— Só fome. – disse o menino. E baixando a voz, completou – Você tem que ser mais simpática com eles. Eles estão nos ajudando!
— Eles são da Horda! – sussurrou de volta.
— E, mesmo assim, tão ajudando a gente!
— Você pode ser simpático à vontade, eu não vou baixar a guarda tão cedo. – avisou.
Pietro sacudiu a cabeça, pensando que sua irmã não tinha jeito mesmo.
Sentando-se ao lado do irmão, Pandora viu enquanto o orc segurava alguém sentado e a elfa alimentava com uma colher. Devia ser uma pessoa muito querida deles que estava doente. De onde estava, o orc cobria a sua visão da pessoa, mas achava que era um elfo ou elfa também. Podia ver os fios dourados do cabelo aparecendo brevemente. A pessoa estava acordada e balbuciava algo enquanto comia.
— Está tudo bem. – dizia a elfa, carinhosamente – Estamos seguros.
Depois que terminaram de alimentar a pessoa, a deitaram e cobriram com um cobertor. Pandora percebeu que era um elfo, mas não viu mais que isso. Nem se interessou em ver.
— Imagino que estejam com fome. – disse Kassyeh carinhosamente – Vou servi-los.
— Comam primeiro. Quero saber se não está envenenado. – falou Pandora, desconfiada.
— Pãozinho! – reclamou Pietro.
A elfa deu uma risada.
— Você me lembra minha irmã mais velha. – a elfa serviu uma cumbuca de sopa ao marido – Mas está certa em ser desconfiada. Somos da Horda, afinal.
— Tio Vincent diz que existem pessoas boas nas duas facções. – retrucou Pietro olhando em advertência para a irmã.
— Seu tio é sábio. – elogiou Kassyeh.
— Ele é sim, ele é paladino! Um paladino muito bom!
— Minha irmã mais nova está estudando para ser paladina também. — revelou a elfa enchendo uma cumbuca de sopa e tomando um gole – Viu? Sem veneno.
Pandora franziu a testa.
— Espero que gostem do tempero. — Kassyeh encheu duas cumbucas, levantou-se e entregou uma a cada um — Não temos colher, sinto muito.
— Tudo bem. – disse Pietro levando a cumbuca aos lábios, soprando e provando – Nossa, tá muito bom, moça! Parece a comida da Doro!
— Então essa Doro deve cozinhar muito bem, porque minha Kass é a melhor! – disse Tewdric olhando sua esposa.
A elfa sorriu, corando.
— A tia Doro é a melhor cozinheira do mundo! – disse Pietro animadamente.
— Que honra ser comparada a melhor cozinheira do mundo! – exclamou a elfa carinhosamente – Qual o prato que ela faz que você mais gosta? – perguntou.
Kassyeh sabia que era importante mantê-los à vontade. O menino genuinamente acreditava neles, mas a sua irmã estava muito reticente. A elfa tinha medo que ela pudesse sentir-se acuada e fazer alguma besteira. Mas ao mesmo tempo, entendia sua postura. Se fosse ela a estar cercada de allys, teria uma atitude muito similar à de Pandora.
Pietro, por outro lado, gostava imediatamente da elfa. Ela lhe lembrava muito Doroteya e ele ficou à vontade no mesmo instante que a conhecera. Enquanto provava a sopa dela, pensou um pouco na pergunta que ela lhe fizera, sobre seu prato favorito feito pela tia. Eram tantos que ele se esforçou muito para escolher um.
— É difícil… Ela só faz coisa boa… Acho que o bife assado com molho de maracujá. Fica muito bom!
— Que ideia deliciosa! Nunca fiz molho de maracujá! – Kassyeh sorriu – Vou testar quando voltar para casa.
Pandora assistia a conversa enquanto tomava a sopa. Estava realmente muito boa. Apesar de não se sentir à vontade tão perto daqueles dois, deixou que Pietro ficasse à vontade. Como o orc disse que a elfa era sua esposa e era visivelmente louco por ela, Pietro conquistando-a com sua simpatia, mais chances de pouparem-no, caso algo saia errado.
Tewdric estava ciente da desconfiança da jovem, e sabia que ela tinha motivos para aquilo. Decidiu que o melhor a fazer era apenas agir naturalmente, como se os dois fossem seus compatriotas. Ainda tinha alguns pães no suprimento, então os pegou e grelhou na fogueira, antes de entregar um pedaço a ela. A jovem agradeceu com um aceno de cabeça.
— Tem uma torta que ela faz também, que amo. — continuou o menino – Acho que é de groselha… Ou morango…
— Framboesa. — lembrou Pandora – Cheesecake de framboesa. E te dar dor de barriga toda vez que você come.
— Eu fico com dor de barriga, mas fico feliz! — defendeu-se o menino.
Kassyeh e Tewdric deram risadas.
— Você me lembra minha irmã mais nova, Karen. — disse a elfa, carinhosamente – Ela também defende o lema ‘o importante é comer o que gostamos’.
— A que vai ser paladina? — perguntou Pietro.
— Essa mesma. Ela deve ser um pouquinho só mais velha que você.
Pietro sorriu, sonhador.
— Queria ser paladino também. Mas eu não ando, então não posso.
— Pietro… — havia alerta na voz de Pandora. Ela não queria que soubesse que ele era tão frágil, ou poderiam usar aquilo.
— Ah, Pãozinho! Eles já viram que não ando!
— Pãozinho? — perguntou Kassyeh curiosa – Que apelido mais adorável!
— Não, não é! — retrucou a menina o rosto ficando vermelho – Era para ser abreviação de Pandora mas… — ela percebeu que estava sendo levada a conversa – Deixa para lá…
— Querem mais sopa? — perguntou Kassyeh.
— Quero! — exclamou Pietro.
Pandora negou com a cabeça, mas a elfa pegou sua cumbuca mesmo assim e encheu.
— Tem bastante, comam.
E os dois comeram. Pandora, cuja mente não parava de pensar nas coisas que poderiam dar errado, se perguntou se eles não estavam dando a última refeição dos dois, para então matarem-nos e levarem suas cabeças para Orgrimmar. Tremeu ao pensar nisso.
— Está com frio? — perguntou Kassyeh percebendo seu tremor – Tewdric, ponha mais lenha na fogueira.
— Claro, Kass.
Quando Tewdric se levantou para pegar mais uma tora de madeira, o campo de visão entre Pandora e a pessoa enferma ficou livre e ela o viu. Seu coração se descompassou na mesma hora e seus olhos se arregalaram, sem acreditar.
Era Halduron.
Não, não podia ser, pensou ela. Sua mente estava apenas pregando peças. Seria impossível que, depois de todo aquele tempo em que desejara vê-lo, ele estaria ali, tão perto. Era apenas alguém parecido…
Não. Era ele. Ela o reconhecia em qualquer lugar.
Um imenso nó se formou na garganta dela. Depois de tantos anos, lá estava ele. Claro que era ele. Pandora jamais esqueceu seu rosto. Ainda que, naquele momento, Halduron estivesse pálido, os lábios arroxeados, os olhos fundos no rosto, ainda assim o reconheceria. Ele continuava lindo. Mesmo doente, sua beleza se destacava.
Uma imensa angústia se apoderou dela. O que ele faria ali, tão longe do Kirin Tor? Teriam a elfa e o orc o encontrado, como fizera com os dois? Ou ele era um refém? E, o mais importante, o que fariam com ele? Precisava saber, porque precisava agir. Agora, além de Pietro, tinha que zela por ele também.
Percebendo o olhar fixo da jovem em seu amigo adormecido, Kassyeh supôs que a jovem poderia estar com medo do irmão ficar doente daquela forma e buscou tranquilizá-la.
— Achamos que ele foi atingido por uma flecha envenenada. — revelou – Estamos procurando uma vila ou acampamento que tenha algum curandeiro.
— Quem é? — perguntou Pietro.
De onde estava, o menino não conseguia ver Halduron e Pandora ficou feliz por aquilo. O menino poderia revelar que eles se conheciam e não sabia até que ponto aquilo seria bom ou ruim para todos. Sendo Halduron um membro do Pacto de Prata, pensou Pandora, a elfa, uma sin’dorei, poderia executá-lo rapidamente, já que seus povos eram inimigos declarados. Porém, a diferença entre os povos eram os olhos. Talvez estivessem cuidando dele sem saber que era um quel’dorei e por isso Halduron ainda vivia. Melhor deixar assim.
— Não é ninguém. — disse Pandora se aproximando do irmão – Já terminou? Quer comer mais?
Pietro fez que não, com a cabeça.
— Precisa ir ao banheiro? — perguntou.
— Não, tô bem.
— Então, é bom você dormir.
Tentando não ficar olhando para onde Halduron estava deitado, Pandora desamarrou seu irmão e o ajudou a deitar-se da forma mais confortável possível.
— Obrigado pela comida, Kassyeh. — agradeceu o menino.
— Não tem de quê, Pietro. — falou a elfa.
Pouco tempo depois, o menino dormia.
Pandora tinha a impressão que não conseguiria dormir naquela noite. Estava no meio de uma floresta estranha, depois de sobreviver a um naufrágio, tendo que cuidar do irmão e estava num acampamento com membros da Horda. E, para completar, a pessoa que ela mais ansiou ver nos últimos dois anos, estava bem ali, perto dela, consumida por algum tipo de veneno. Podia eleger aquela como pior noite de sua vida, sem dúvida. Pior que o casamento de Lady Cláudia, porque, ai, não podia esperar nenhum tipo de socorro.
— Você não tem o antídoto? — perguntou Pandora depois de um tempo, apontando para Halduron – Para ajudá-lo?
— Não sei qual veneno foi usado para atingi-lo. Se soubesse, seria mais fácil. — lamentou Kassyeh.
“Talvez tenha sido veneno de outro povo da Horda.”, pensou Pandora.
— Mas ele vai ficar bom? — quis saber.
— Esperamos que sim.
Ficaram em silêncio, ouvindo o fogo crepitar. Pandora queria continuar acordada, atenta, mas o sono começou a dominá-la. Encostou-se numa árvore ao lado de Pietro, pronta para agir em qualquer caso. Porém, logo dormia a sono alto. Kassyeh levantou-se, pegou um cobertor e a cobriu. A menina acabou escorregando e se aninhando ao lado do irmão. Naquele momento, a pouca idade dela ficou perceptível. Kassyeh entristeceu-se. Aquele não era o lugar que eles deveriam estar.
— Durma, minha Kass. — pediu Tewdric – Eu fico no primeiro turno.
— Tem certeza? — perguntou – Você fez mais esforço que eu.
— Por isso mesmo. Ainda estou cheio de adrenalina.
Kassyeh assentiu. Estava exausta. Deitou-se próxima a ele e logo dormia. Tewdric então ficou sozinho, um silencioso protetor de amigos e inimigos.
“O que mais essa terra estranha nos trará?”, se perguntou.
Não fazia ideia. E nem seus mais bizarros sonhos seriam capazes de prever os meses seguintes.
***********************
Tommy estava exausto e molhado. Passara o dia todo consertando um moinho d'água e seus braços e cabeça doíam. O pior não tinha sido o trabalho em si, mas o dono do moinho, que insistia em ficar dando palpites e se intrometendo quando nada sabia sobre consertos em geral.
— Eu devia ter cobrado o dobro… — murmurou para si mesmo enquanto se aproximava de casa em sua montaria – O que ele me pagou não valeu a dor de cabeça e a raiva…
Todavia, com um bebê a caminho, Tommy não poderia se dar o luxo de negar trabalho. Sua irmã poderia ganhar rios de dinheiro agora que era general, mas ele não dependeria de Lina para sustentar seus filhos. Ela já tinha Pandora e Pietro para se preocupar, afinal, o que a jovem ganhava no exército não era muito.
Estava chegando em casa quando viu alguém à porta. No primeiro momento, achou que era alguém que não conhecia, mas assim que se aproximou mais e viu, gelou. Era o mesmo homem que abordara Theo anos atrás, no Véu de Inverno. Tinha certeza que era, pois jamais esqueceria aquele rosto. Ficara com raiva demais para esquecer.
— Ei! — gritou assim que chegou perto – Você! O que está fazendo aqui?
Greymane demorara algum tempo para descobrir onde era a casa de Lina, mas, assim que o fez, foi em direção ao local. Quando lhe disseram que era impossível errar a casa, estavam falando a verdade. A residência dos Wood era a única com três andares na rua e, além disso, seu telhado era coberto de folhagens e flores. Uma casa muito bonita. Haviam lhe dito também que a general dividia o local com três irmãos, uma cunhada e três sobrinhos. A cunhada, óbvio, era Doroteya. Um dos sobrinhos devia ser, na verdade, o filho da druidesa. Até onde a general Wood sabia da história de Doroteya e Liam? E, se não soubesse, qual seria sua reação ao saber que a querida amiga mentira?
“Talvez assim entenda o tipo de pessoa que colocou dentro de casa e casou com seu irmão!”, pensou o rei com satisfação.
Estava para tocar o sino da casa quando ouviu alguém, chamando-o. Olhou para trás e viu um homem estranhamente familiar. O conhecia? Achava que sim. Talvez se o homem não usasse barba poderia reconhecê-lo.
— Você mora aqui? — perguntou Greymane vendo-o apear em frente a casa.
— Quem é você e o que quer aqui? — perguntou Tommy asperamente enquanto amarrava seu cavalo, sem tirar os olhos do estranho na varanda.
Greymane se empertigou e encarou o recém-chegado com altivez.
— Eu sou Genn Greymane e estou aqui por causa do meu neto.
Um choque perpassou pelo corpo de Tommy. Aquele homem era o rei de Guilneas? Pai de Liam e avô de Theo?! Como ele soubera da existência do menino?! Pela Luz, o que acontecera em sua ausência?! Enquanto por dentro fervia em dúvidas, Tommy tentava manter a expressão mais neutra possível.
— O senhor deve ter se enganado de casa. — disse se colocando discretamente entre Greymane e a porta – Aqui só tem os netos do meu pai.
Greymane o encarou, entendendo finalmente quem era o homem à sua frente. Por isso a achava familiar? Os traços de seu rosto lembravam o da general?
— Você é irmão da general Wood. Marido daquela moça. — sua expressão agora mostrava desgosto.
Agora a raiva tomou conta de Tommy. Ele fechou a cara e encarou Greymane.
— Sim, sou irmão da general Wood e marido de Doroteya. — ele enfatizou o nome da esposa – E como eu já disse, não há nenhum neto seu aqui. Sugiro que vá embora.
Greymane, contudo, não saiu do lugar.
— Talvez você não saiba, rapaz, mas sim, eu tenho um neto e vim aqui apenas para confirmar isso. Não quero confusão, quero apenas falar com… — ele franziu o cenho – Com Doroteya.
— Você não vai falar com minha esposa. — seu tom aumentou e ele deu um passo à frente – Vá embora, senhor, enquanto eu peço educadamente.
Enquanto Greymane e Tommy se mediam na varanda, na cozinha, Lina e Vincent tomavam cada um uma dose de vodka, enquanto Theo comia um imenso biscoito de chocolate. Foi Theo quem ouviu a voz de Tommy lá fora.
— Vocês ouviram? — perguntou o menino – O Tommy tá lá fora! — e se levantou de pulo, deixando o biscoito no prato.
— Estranho, por que ele não entrou? — perguntou Lina se levantando também.
Quando se aproximou da porta, Lina ouviu a segunda voz que discutia com seu irmão e gelou, reconhecendo a voz de Greymane.
— Theo, não! — gritou para o menino, mas era tarde demais.
Theo abriu a porta.
— Tommy! A mamãe…. — mas não terminou a frase.
Houve um momento de silêncio, enquanto os dois homens viraram a cabeça na direção do menino. O sorriso de Theo morreu, pois a tensão no ar era perceptível. Greymane arregalou os olhos para Theo, mas ficou sem palavras diante da visão da criança, que tanto queria encontrar.
— Theo, suba. — ordenou Lina tirando o menino da porta.
Ela não precisou repetir a ordem duas vezes. Theo percebeu que não deveria ficar ali, virou as costas e foi na direção das escadas com rapidez. Greymane fez menção de dar um passo na direção do menino e Lina rapidamente ficou no meio, fechando a porta com força.
— Tommy, o bebê nasceu. — disse ela olhando para o irmão e ignorando Greymane – É uma menina.
A expressão no rosto de Tommy mudou totalmente. Ele abriu um sorriso e falou, quase sem fôlego:
— Uma menina?!
— É, uma menina. — confirmou Lina sem conter o sorriso – Agora vá ver sua esposa e filha, que eu resolvo isso aqui.
Tommy deu uma última olhada em Greymane, o sorriso morrendo, e então entrou. Lá dentro, Lina pode ouvir Vincent interpelando Tommy e perguntando o que estava acontecendo, mas ela logo fechou a porta e encarou Greymane. O rei de Guilneas não precisou de mais do que acontecera para entender.
— Você sabia. — disse o rei estreitando os olhos – Sabia o tempo todo.
Lina cruzou os braços e encostou-se na parede da casa.
— Talvez soubesse. — disse displicentemente – Depende do que está se referindo. Você vai precisar ser mais claro.
— Sobre o menino ser filho de Liam! — gritou ele enraivecido.
— Fale baixo, majestade. — falou Lina, a ironia aparecendo na palavra ‘majestade’ – Há um bebê recém-nascido nesta casa.
A raiva de Greymane só aumentou.
— Como ela a convenceu a mentir, general? — continuou gritando – Varian sabe que sua lealdade está dividida?
Trazer Varian para a conversa foi a pior coisa que Greymane poderia ter feito. Ela se desencostou da parede e se postou bem em frente a ele. Se estivesse na sua versão worgenin, Greymane seria maior que Lina, mas em sua versão humana, Greymane era exatamente da mesma altura da general, que o encarou bem nos olhos.
— Nunca fui desleal a Ventobravo ou ao meu reino. — falou em tom desafiador – Minha lealdade nunca esteve dividida, majestade. E vou pedir apenas mais uma vez que mantenha sua voz sob controle, ou terei que chutar sua bunda real até ela quicar em Darnassus!
A voz do lobo dentro dele começou a rosnar e Greymane sabia que estava perto de perder o controle. Discutir com Lina não estava em seus planos, mas deveria ter previsto que ela se meteria. Claro que sim, a druidesa estava casada com o irmão dela. E, lembrou de mais cedo, o menino confiava nela. Não… Lina deveria ser uma aliada e não uma inimiga. Com isso em mente, ele respirou fundo e procurou se acalmar.
— General Wood. — disse educadamente depois de alguns instantes – Eu não quero confusão. Quero apenas conversar com…. — ‘a druidesa’ veio até sua língua e parou – Com Doroteya. E ver o menino.
— Não. — disse Lina sem hesitação.
A raiva de Greymane voltou.
— Eu tenho... – ele começou a gritar e Lina arqueou a sobrancelha. Baixou a voz e acalmou-se – Eu preciso falar com ela.
— Acho que o senhor perdeu a parte da conversa que eu disse que temos um recém-nascido em casa. — comentou com frieza – E como o senhor nunca me viu grávida, deve supor quem está de resguardo pelo parto.
— Não tomarei muito tempo, só preciso...
— Não. — o tom de Lina foi mais incisivo – O senhor não falará com Doroteya. Nem com Theo. Nem com ninguém dessa casa a não ser eu. E se quiser falar comigo, será na bastilha, no meu horário de trabalho.
— Você não pode me dar ordens, menina! — rosnou Greymane – Você pode ser general, mas eu sou rei.
— Não de Ventobravo. — retrucou ela – E eu estou na minha casa. Apenas o rei pode comandar a entrada à força na casa de um general, caso não lembre de nossa lei. Então, a menos que volte mais tarde com rei Wrynn aqui, terá que ir embora. Ou eu mesma registrarei uma denúncia por importunação à residência com crianças, junto ao rei.
O lobo rosnava dentro de Greymane, pedindo pelo sangue de Lina. Mas sua mente racional sabia que ela tinha razão. Não podia fazer nada contra ela sem sofrer alguma retaliação por infringir à lei. E, mesmo que arriscasse atacá-la, o que ganharia com isso? Entraria na casa e teria, pelo menos, mais dois adultos lá dentro, que o barrariam também. Supondo que os derrotasse (e os derrotaria, sem dúvida), que imagem Theo teria dele? Um estranho que arrombou o local que chamava de lar e que machucara as pessoas que ele considerava família? O menino jamais o perdoaria. E claro, havia Doroteya, que acabara de ter um bebê. Aquilo era ainda mais delicado. Doroteya ficaria, no mínimo, histérica, e poderia perder o controle e atacá-lo. Uma loba defendendo as crias. Não, não era assim que ele queria que seu neto o visse pela primeira vez.
E claro, haveria Varian para lidar depois. Greymane sabia dos boatos da paixão do rei pela general. Na verdade, Greymane suspeitava que os boatos não faziam jus ao que acontecia. Ele desconfiava que os dois já estavam envolvidos em algum grau. Nunca falou aquilo com Varian porque acreditava que todo homem merecia uma distração e, até aquele momento, o que quer que eles tivessem, não havia passado do quarto do rei.
— Tudo bem, general. — disse Greymane desistindo momentaneamente – Podemos conversar amanhã. Em seu horário de trabalho. — havia desprezo nas últimas palavras.
— Ótima decisão, majestade. — falou Lina abrindo um sorriso.
— Mas fique ciente, general, que eu conversarei com Varian sobre isso. — avisou.
Lina não se surpreendeu com a ameaça.
— Faça o que achar que deve, majestade. — continuou com calma.
Greymane ficou desconfiado da calma com que ela lhe respondera, achando que ela poderia ter uma carta na manga. Será que o menino era mesmo filho de Liam? A dúvida pairou um pouco, mas logo desapareceu. Não podia entrar no jogo dela.
Ciente que não havia nada mais para fazer ali, Greymane virou as costas e saiu da varanda de Lina. Quando chegou à rua, virou worgen e se pôs a correr de volta para a bastilha.
Depois que Greymane desapareceu de vista, Lina sentiu suas pernas virarem geleia. Encostou-se a parede da casa novamente e respirou fundo. Como diria para Doroteya que seu pior medo se tornara real no dia do nascimento de sua filha? E quando foi que o cachorro doido viu Theo? Com certeza fora naquela manhã… Ela estava muito nervosa com o aviso do menino e sequer prestara atenção ao seu redor… Bem, o mal já estava feito, agora restava minimizar os danos. Primeiro, pegou o cavalo que Tommy deixara à porta e o levou par ao estábulo. Depois, passou pelo banheiro, lavou as mãos e o rosto. Quando voltou ao quarto de Doroteya, esta ainda dormia, mas Tommy estava debruçado sobre a filha também adormecida, com um sorriso bobo no rosto.
— Liana… — ele estava dizendo – Esse é o melhor nome que ela poderia ter, Theo.
O menino, alheio ao que acontecera antes, sorria.
Lina sentiu-se mal por estragar aquele momento, mas era necessário.
— Meninos. — chamou.
Theo, Tommy e Vincent a olharam.
— Precisamos conversar.
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A primeira coisa que Pandora pensou quando acordou foi que não deveria ter adormecido. Se levantou de repente e o mundo rodou. Precisou de alguns segundos para que a tontura passasse.
Quando as coisas voltaram ao foco, viu que ainda era noite. Não sabia quanto tempo dormira ou se já era madrugada; sua noção de tempo estava bagunçada desde que entrara no navio dias antes. Ao seu lado, Pietro dormia e ela acariciou o rosto do irmão, pensando em como as coisas podiam ficar ruins tão de repente, afinal, no dia anterior, estava na imensa nau da Aliança, sem nenhuma preocupação a nãos er o sol quente e o balanço do navio; horas depois, cuidava de soldados da Aliança feridos; agora, estava numa terra estranha, na companhia de um orc e uma elfa sangrenta. Pelo menos estavam vivos; outros podiam não ter aquela sorte.
Pela primeira vez desde que tudo acontecera, sentiu-se mal por não ter ido olhar como estava o príncipe Anduin. Esperava realmente que o jovem não estivesse perdido sozinho naquele lugar estranho. Desejava principalmente que ele estivesse vivo. Não se perdoaria se soubesse que ele morrera porque o deixara para trás.
Olhou ao redor e viu que o orc dormia a sono alto, mas a elfa estava acordada. Deviam revezar a proteção do acampamento e, mais uma vez, Pandora ficou chateada por ter adormecido e ficado vulnerável. Todavia, nenhum dos dois membros da Horda pareciam interessados em lhe fazer mal. Naquele momento, a elfa atiçava o fogo com um graveto e as chamas subiram. Ao perceber que Pandora a encarava, sorriu.
— Está conseguindo descansar? — perguntou gentilmente.
— O máximo que o chão permite. — respondeu.
— Que bom.
Depois que o fogo estava alto, Kassyeh colocou mais água no caldeirão e acrescentou ervas, cogumelos e outras coisas que Pandora não distinguiu e então se pôs a mexer. Provavelmente aqueles seria o café da manhã deles. Colocou o caldeirão de volta na fogueira, para cozinhar e foi até onde Halduron estava. O coração de Pandora quase parou, mas sua mente dizia que a elfa não faria nada contra ele, principalmente com ela observando.
Ou faria?
Não fez. Verificou a temperatura do elfo, pegou ervas, pôs em um pilão e começou a esmagá-las. Estava fazendo um remédio. Ou seria veneno? Não, era remédio. Não havia motivo para a elfa envenená-lo depois de lhe salvar a vida, pensou.
— Como ele está? — perguntou Pandora, ansiosa.
— Estável. — respondeu Kassyeh concentrada no remédio – O que é bom, se ele estivesse piorando, eu não saberia o que fazer. — deu uma pausa na mistura e a olhou – Você conhece alguma coisa de herborismo?
Pandora fez que não com a cabeça. Seu conhecimento não era nada relacionado a ervas; sempre preferia lidar com o couro, e agora se martirizava por aquilo. Se conhecesse ervas, poderia ajudar Halduron, todavia, sua única alternativa era observar ele ser cuidado por alguém em que não sabia se podia confiar.
— Nós vamos partir ao amanhecer, depois que comermos. — avisou Kassyeh acreditando que a ansiedade da jovem era por estar ali – E é bom que seu irmão descanse o máximo possível. — a elfa sorriu para a jovem humana – Sua dedicação a ele é muito bonita, Pandora.
Ouvir seu nome sendo dito por ela, com o mesmo sotaque que ouvira Halduron falar, a deixou sem jeito. Na verdade, Kassyeh estava sendo tão simpática que se sentia mal por desconfiar da elfa. Não, tinha que lembrar que ela era da Horda e poderia matá-la sem pensar duas vezes. Devia continuar na defensiva.
— É meu irmãozinho. Eu o amo. Faria qualquer coisa por ele.
— Eu tenho três irmãs. — revelou Kassyeh ainda mexendo o remédio de Halduron – Uma mais velha, duas mais novas. Você me lembra minha irmã mais velha: desconfiada, amorosa e muito bonita.
O elogio fez Pandora sorrir envergonhada momentaneamente, mas logo voltou à expressão séria. Não podia baixar a guarda… Mas aquela elfa era tão fofa quanto Doroteya!
— Tenho cinco irmãos. — se viu Pandora dizendo – Quatro mais velhos e Pietro é o mais novo. — ela olhou para o irmão adormecido – Ele é o que mais amo. O único que amo, na verdade. Se fosse qualquer um dos outros naquele navio, eu tinha deixado se afogar.
Kassyeh parou de misturas as ervas por um momento e a olhou, espantada.
— Acho que seus pais não iam gostar de ouvir você dizendo isso. — falou a elfa, tentando parecer engraçada.
— Meus pais poderiam se afogar também, não fariam falta ao mundo. — retrucou a jovem.
Agora Kassyeh estava realmente abismada. Que vida difícil aquela jovem e seu irmão tivera para que ela nutrisse tanto rancor? Para uma pessoa que crescera em uma família estruturada e amorosa como a sua, era difícil para Kassyeh pensar em alguém que pudesse odiar a própria família. Mas, então, lembrou-se da história de Tewdric, dos maltratados que ele sofrera na infância. No mundo em que viviam, cercado pela guerra e o ódio, a elfa tivera uma infância privilegiada, pelo menos até a morte dos pais. Desejou que a dor daquela jovem pudesse ser curada com o tempo.
Kassyeh adicionou um pouco de água na mistura de ervas que triturara e se aproximou de Halduron. Olhou para a tigela e para o elfo, se perguntando como daria o remédio ao enfermo.
— Precisa de ajuda? — perguntou Pandora, preocupada.
— Se puder me ajudar, agradeço. — respondeu.
As folhas estalaram quando Pandora se levantou de onde estava e foi até Kassyeh. A elfa fez um gesto para que Pandora sentasse Halduron; a jovem obedeceu. Quando Pandora passou os braços ao redor de Halduron, seu coração se acelerou. Apesar de ser alto e forte, ele era leve e a jovem se perguntou se isso era algo sobre ele ser elfo ou se era por estar doente. Esperava que fosse a primeira alternativa. Segurou-o delicadamente entre seus braços e firmou sua cabeça, para que Kassyeh pudesse administrar o remédio.
Enquanto era medicado, Halduron balbuciou alguma coisa e estremeceu. Pandora não reconheceu qual língua ele falara, então supôs que fosse a língua dos elfos.
— O que ele disse? — perguntou a jovem preocupada.
— Nada conexo. Fala de fogo… Luaprata… Dalaran… Deve ser alucinações… Provavelmente com o ataque de Arthas… — suspirou – Quem de nós não tem pesadelos com aquele dia?
História nunca fora o forte de Pandora, mas ela pesquisara muito sobre os sin’dorei e os quel’dorei depois que conhecera Halduron. Sabia que, até a invasão de Luaprata, eles eram um povo só. Depois, o príncipe dele, um tal de Kael’thas, declarara que o povo se chamaria sin’dorei (elfos sangrentos), em homenagem ao que morreram. E que, esse mesmo príncipe, havia feito um pacto com as Nagas e com a Legião, para saciar o vício por magia e que, os elfos que não aceitaram isso, continuaram se denominando de quel’dorei (altos elfos) e permaneceram em Dalaran. Pandora observou bem Kassyeh. Os olhos dela eram verdes, brilhando de energia vil que recebera anos atrás. Vincent lhe disse que os elfos não recebiam mais desse tipo de energia, mas as marcas perdurariam por anos. Lembrava que os olhos de Halduron eram azuis.
— Você tem? – Pandora não conseguiu conter a curiosidade – Pesadelos com a invasão de Luaprata?
— Às vezes… Eu era só um pouco mais velha que seu irmão quando aconteceu. Como eu e minha família não morávamos na cidade, conseguimos fugir a tempo. Eu não vi as coisas que provavelmente ele viu…
As palavras fugiram da boca de Pandora, que permaneceu em silêncio, observando rosto de Halduron. Com cuidado, o deitou novamente, rezando para que ele ficasse bom e pudesse sair daquele mundo de pesadelos no qual estava mergulhado por causa do veneno. Mais que nunca, queria chegar em algum lugar, mesmo que fosse um acampamento da Horda, desde que tivesse alguém que cuidassem dele e o curassem.
— Obrigada pela ajuda. — agradeceu Kassyeh – Pode voltar a dormir, se quiser.
Pandora quase dizia que não, não dormiria, mas mudou de ideia. Ainda não amanhecera e poderia dormir um pouco mais. Carregaram Pietro durante todo o dia anterior e o carregaria mais por um bom tempo, então devia estar o mais descansada possível. E, apesar de todas suas ressalvas, entendeu que a elfa não faria mal algum a ela ou a Pietro. Então, ela deitou-se ao lado do irmão, puxou o cobertor, deu uma última olhada em Halduron e fechou os olhos, dormindo quase que imediatamente.
*******************
Varian lia um memorando da AVIN em sua sala quando Greymane entrou. Bastou uma olhada no amigo para Varian perceber que algo acontecera. Pousou o pergaminho na mesa e perguntou:
— O que houve, Genn?
Em vez de responder, Greymane olhou para os guardas na sala. Varian entendeu que o outro queria privacidade, então dispensou os guardas com uma mão. Os soldados bateram continência e saíram da sala, fechando-a em seguida.
— Sente-se, meu amigo. — pediu o rei.
Mas Greymane não sentou. Continuou em pé e andava de um lugar para o outro, ansioso, pensando em como contaria para Varian sem parecer que estava atacando a general Wood. Era uma das coisas que ele pensara no caminho para a bastilha. Mesmo com raiva daquela mulher, ela era benquista pelo rei, talvez benquista demais. Porém, não podia ir por aquele caminho. Então, a solução era ser direto e colocar as cartas na mesa com a pessoa que ele tinha certeza ser a principal culpada.
— Eu descobri que Liam teve um filho. — disse sem pestanejar.
Varian franziu a testa, sem entender direito.
— Liam? Seu filho Liam?
— Isso. Eu descobri que tenho um neto.
Varian observou Greymane por um momento. Definitivamente não parecia um homem que acabara de saber que tinha um herdeiro de seu filho amado.
— Genn, sente-se e me conte essa história direito.
Porém, a paciência de Greymane não estava muito apurada depois do encontro com Lina.
— Varian, aquela moça, aquela… Doroteya. Ela teve um filho com o Liam e escondeu isso por todos esses anos!
Encostando-se na cadeira, Varian analisou o amigo por alguns instantes.
— Essa é uma acusação grave, Genn. Você tem provas?
Greymane explodiu.
— Eu não preciso de provas mais que a própria existência do menino! Ele é a cara de Liam! Não há como negar a paternidade!
— Para as leis de Ventobravo, isso não é o suficiente, Genn. É uma prova, mas não a única. — Greymane o encarou, exasperado, e Varian continuou – Como você soube disso? E onde está esse menino?
— Eu o vi várias vezes durante esses anos que chegamos aqui. — começou o rei andando pela sala e gesticulando – E hoje o vi aqui, na bastilha! Ele esteve esse tempo todo na casa da general Wood se passando por sobrinho dela!
A menção ao nome de Lina fez Varian se endireitar na cadeira e colocar as mãos na mesa. Greymane percebeu que não deveria ter dito aquilo.
— De quem você está falando, Genn? Que menino é esse?
— Theo. O nome dele é Theo.
Varian ficou visivelmente surpreso.
— Theo? Theo é filho de Tommy, irmão da general.
Agora era surpresa que estampava a face de Greymane.
— Você o conhece? Conhece Theo?
— Sim, eu o conheci durante o episódio dos irmãos Jones, quando visitei a general. Ela estava acamada, se recuperando dos ferimentos. Também o vi ao lado dela na catedral, juntos aos outros primos, em mais de uma ocasião.
— E você nunca notou a semelhança?! — Greymane agora caminhou até a mesa de Varian e pôs as mãos nela – Nunca percebeu o quanto ele é parecido com o meu Liam?!
— Acalme-se, Genn. — pediu Varian – Eu vi Liam apenas uma vez, naquele jantar diplomático há quase uma década. Além do mais, não vou aceitar esse tom de acusação de sua parte. — avisou em tom firme – Eu sugiro que, se quer meu apoio, sente-se e conte-me tudo.
Percebendo que poderia perder Varian como aliado naquela situação se continuasse tão nervoso, Greymane acatou a sugestão e sentou-se em frente ao amigo. Respirou fundo, passando a mão pelo rosto.
— Desde o início, Genn. — pediu.
Assentindo com a cabeça, o homem começou:
— Eu já lhe contei que aquela moça… Doroteya… Teve um relacionamento com Liam…
— Estou recordado.
— E que eu… — Greymane deu uma pausa, antes de admitir – Eu os separei…
Era um resquício de culpa que percebia na voz de Greymane? Varian pensou que sim, mas preferiu deixar o outro terminar de falar.
— Eu disse a ela para ir embora… e ela foi… E quando a guerra por Guilneas aconteceu, ela voltou. E Liam… — as lágrimas assaltaram os olhos do velho homem, que não conseguiu contê-las – Liam me disse que ficaria com ela, não importava o motivo e… Ele me disse que eu entenderia… Que conversaríamos quando as coisas estivessem calmas… — a voz de Greymane começou a falhar — E e-ele m-morreu… M-meu filho morreu s-sem termos feito as p-pazes… Sem e-eu nunca ouvir o-o que ele tinha a dizer…
O remorso transparecia nas lágrimas que o homem agora deixava rolar livremente. O remorso por não ter escutado o filho no momento que mais deveria ouvi-lo. O remorso por não ter deixado aquele filho amado desfrutar do amor de uma mulher. O remorso por perceber que, se fosse verdade que tinha um neto, quem privara o contato entre os dois fora o próprio Greymane. Mas seria a suspeita dele real?, pensou o rei de Ventobravo. Seria realmente Theo filho de Doroteya e Liam? Enquanto o amigo chorava, Varian revisitou suas lembranças. Lembrava do menino sentado ao lado de Lina, resolvendo um problema de matemática. Lina dissera que era sobrinho dela? Deveria ter dito. Mas, pela Luz, Lina tinha tantos sobrinhos que qualquer criança perto dela poderia ser sua sobrinha em potencial. Mas se o que Greymane dizia era verdade, Lina, com certeza, saberia a verdade.
— Você acredita que, durante o tempo em que Doroteya esteve afastada, ela estava grávida e teve um filho de Liam. — disse Varian concluindo o raciocínio de Greymane.
O homem apenas fez que sim com a cabeça.
— E que Liam possivelmente soube quando ela retornou para Guilneas, e que queria ficar com ela, não importando o que você tinha dizer… Por causa do menino.
— S-sim… — murmurou o outro.
— E que, com tudo que aconteceu, Doroteya acabou com o menino aqui, em Ventobravo, tornando-se amiga da general Wood, que ajudou a acobertar a paternidade de Theo, dizendo que ele era sobrinho dela.
— É a única explicação que me passa pela cabeça, Varian.
Varian se recostou à sua cadeira.
— Você há de convir que é uma teoria bastante improvável.
— Você viu o menino, Varian. Acha tão improvável assim? — questionou Greymane.
— Eu o vi, mas nada me chamou atenção, Genn. Para mim, era só um menino muito gentil e tranquilo. — Varian sacudiu a cabeça – Eu realmente não sei o que pensar. O que quer de mim, Genn? Quer que eu peça para Mathias Shaw descobrir a verdade?
— Eu sei a verdade, Varian. A general Wood praticamente me confirmou toda a história.
— Como assim?
Greymane passou então a contar a Varian sobre o que acontecera naquela manhã. Que Mia vira o menino e desmaiara, tamanha era semelhança dele com Liam, a conversa com os subordinados de Lina, a visita à residência os Wood, a discussão com Tommy, Theo na porta de casa e a conversa com Lina. Varian passou a mão pela testa, sem conseguir acreditar. Lina estava realmente ciente daquilo tudo? Se Greymane falava a verdade, e ele não tinha porque mentir, estava.
“Lina, e agora?”, pensou angustiado.
— O que a rainha Mia tem a dizer sobre isso? — perguntou Varian tentando ganhar tempo para pensar em algo.
— Mia não sabe. — admitiu Greymane – Nunca soube, na verdade.
— A rainha não sabe sobre Doroteya? — estranhou Varian – Achei que ela tivesse adoecido quando você e Liam brigaram a primeira vez por causa do relacionamento deles.
— Ah sim, ela adoeceu por causa de nosso desentendimento, mas porque Liam sumiu vários dias sem dar notícias. Eu e Tess nunca deixamos Mia saber dos boatos sobre o caso dos dois.
— Então a princesa Tess sabe de Doroteya. — essa informação não surpreendeu Varian. Todos sabiam que Tess era a pessoa que mais defendia o pai em qualquer que fosse a situação.
— Sabe. E concorda comigo que essa moça foi a pior coisa que aconteceu na vida de Liam! – exclamou ele – E agora que sei sobre Theo… Apenas reforça o que sempre soube sobre ela!
A mudança do homem arrependido para o homem cheio de rancor foi tão rápida que Varian se surpreendeu. Estaria Greymane transferindo a dor da própria culpa para Doroteya? Era possível.
“Apenas me faz pensar que Doroteya tinha muitos motivos para manter o menino afastado…” pensou Varian. “Greymane o tomaria dela, sem dúvida…”
— Bem, se você e a general já decidiram conversar amanhã, o que posso fazer por você, Genn? — perguntou Varian temendo a resposta.
Greymane o encarou, surpreso.
— Varian, não é óbvio? Eu preciso que você fique do meu lado! Eu preciso ter o meu neto ao meu lado!
Era justamente o que Varian temia que ele falasse.
— Genn, você está ciente do que está me pedindo? Você está dizendo que quer tomar uma criança, que talvez seja seu neto, talvez não, da mãe dele, que acabou de dar à luz. — nem mesmo Varian acreditava que Greymane seria tão insensível.
— Tenho direitos! — retrucou ele.
— Se o menino for seu neto e se você tiver como provar. — lembrou Varian – E, mesmo assim, pelas nossas leis, você teria direito à convivência com o menino. A mãe só perderia o direito sobre a criança se esta sofresse algum tipo de maus tratos.
— Então ela sairia dessa mentira sem sofrer nada?! — perguntou Greymane indignado.
— Ela não mentiu para você, Greymane. — constatou Varian – Alguma vez você dirigiu a voz a Doroteya para qualquer coisa que não fosse para acusá-la? Alguma vez perguntou a ela sobre a vida dela com Liam ou sobre a existência de um neto?
Aquilo foi como um soco para Greymane. Ele sabia que Varian tinha razão.
— E mesmo que tivesse mentido, — continuou Varian – mentira não é crime em Ventobravo. Uma falha de moral, sim, mas não um crime.
— E a general?! A mentira dela não te incomoda?!
— A general Wood é outro caso, Genn. Um caso para ser analisado pela vista moral e ética, mas não criminal.
— Não foi isso que eu perguntei Varian. — retrucou Greymane.
— Eu prefiro ouvir o que a general tem a dizer antes de fazer um juízo de valor dela. — respondeu, diplomaticamente.
Porém, não era aquele tipo de resposta que Greymane queria e deixou isso bem claro. O rei de Guilneas se levantou, encarou Varian por um momento e depois falou:
— Seus sentimentos pela general nublam sua visão, Varian.
Varian estreitou os olhos, a tensão aparecendo em seu queixo. Teve vontade de socar Greymane, mas apenas respondeu:
— E a sua visão está bem clara, suponho eu. A ponto de querer invadir a casa de uma mulher que acabara de dar à luz e questioná-la contra sua vontade. — devolveu.
Os dois se encararam um tempo, Greymane sentindo um misto de vergonha e raiva pela resposta de Varian. O rei de Ventobravo, que conseguia compreender os sentimentos do outro, mas, ao mesmo tempo, entendia também a situação de Doroteya e de Lina, falou, agora num tom mais conciliador. Afinal, Greymane ainda era seu aliado:
— Se te faz sentir melhor, Genn, posso participar amanhã dessa conversa com a general, mas já te alerto que preciso de provas de qualquer crime cometido por ela ou por Doroteya. E sugiro que converse com a rainha Mia. Ela tem o direito de saber.
— Como quiser, Varian. — disse Greymane antes de se retirar da sala.
Varian suspirou e pôs a mão no rosto. Aquilo estava longe de acabar.
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O desespero é um sentimento ardiloso. Espera que você esteja sozinho, no escuro, vulnerável, sensível e sem nada além da sua própria presença para se esgueirar em seu coração para tomar conta dele. O desespero não deseja nada além de arruinar quaisquer boas emoções que você tenha. Kassyeh descobriu isso no momento em que, com a noite avançada, se viu a única acordada no acampamento e a fogueira lentamente morria, se transformando em cinzas.
Jogou alguns galhos no fogo e atiçou-o. As chamas se reanimaram um pouco, mas em breve a madeira acabaria consumida e teria que repetir todo o processo. Depois, quando o sol nascesse, cobririam aquelas marcas de sua passagem e recomeçariam a caminhada, rumo ao desconhecido, com uma pessoa doente e duas crianças desconfiadas. E sequer sabiam o que esperar daquela terra.
Kassyeh colocou as mãos no rosto e tentou não chorar. Tewdric não era capaz de sentir, mas havia uma magia diferente naquele lugar. Algo que deixara seus poderes bagunçados e a impediram de abrir um portal para Luaprata. Algum poder antigo que fazia suas magias de gelo um pouco mais fracas, mas reaviva as magias de fogo. E um sussurro, que não dizia nada compreensível, mas que a assustava. E ali, sozinha, a única acordada, o medo por todos que estavam sob seus cuidados fortaleciam aquelas vozes, que não entendia e que não sabia se era amistosa ou não.
E a escuridão… A escuridão que os rodeava era opressora, asfixiante e estranguladora. Era como estar dentro de um lago escuro, afundando, sem ninguém que pudesse lhe estender a mão. Por um momento, teve vontade de chamar Tewdric, compartilhar aqueles sentimentos e abraçá-lo, para que o desespero fosse embora. Queria lhe perguntar o que faria se não achassem ninguém, se percebessem que eram os únicos, além da Aliança ali, que acabariam capturados e que seus captores não seriam amistosos com eles como foram com Pandora e Pietro, que acabariam por matá-lo e a Halduron e a mantivessem cativa por sua origem real. Ou se fosse realmente os únicos e jamais pudessem sair dali… Havia dúvidas e conflitos e queria apagá-los de sua mente.
Só que não queria acordá-lo. Tewdric andar o dia todo com Halduron nas costas, ou com suprimentos nos braços e estava cansado. Precisava de sua força para levar o amigo e lutar, se fosse incensário. Tinha então que lidar com aquilo tudo sozinha, recitando o mantra que era apenas desespero pela situação. Que eram medos inconsistentes, que seu marido vira fogo, que haviam pessoas por perto e elas os ajudariam.
Ou os matariam.
Não, tinha que pensar positivo.
Mas não havia motivo pra pensar positivo na situação deles.
O conflito continuava em seus pensamentos quando ouviu algo próximo ao acampamento.
Sua mente parou por um minuto, a cabeça levantada, procurando ouvir novamente os sons.
Silêncio.
Teria sido mais uma peça da escuridão daquela estranha terra?
Ouviu novamente.
Eram passos.
Pulou de onde estava e foi até seu marido. Barulhos estranhos numa floresta desconhecida estavam dentro das coisas pelas quais valiam a pena acordar o cansado orc.
— Tewdric! — exclamou em voz baixa – Acorde! Há algo por perto!
Tewdric abriu os olhos, imediatamente alerta. Kassyeh percebeu que ele não conseguira dormir e baixar a guarda totalmente. Devia estar em um estágio agitado de sono até aquele momento. Não sabia se ficava feliz ou preocupada ao constatar aquilo.
O machado estava ao seu lado e Tewdric imediatamente o pegou.
Os barulhos de passos se tornaram mais altos e estavam perto. Tewdric e Kassyeh se entreolharam. Que tipo de inimigo se aproximaria fazendo todo aquele barulho? Deveria ser uma fera. Porém, os passos pareciam leves, apesar de barulhento e findaram por acordar Pandora também. Ela nem precisou perguntar o que estava ocorrendo, pois viu a postura de defesa do orc e da elfa. Se levantou imediatamente, pegando a lança improvisada e juntou-se aos outros.
Os passos ficaram mais altos e a folhagem perto a eles se mexeu e o arbusto falou:
— Está tudo bem!
Aquilo os deixou confusos por um momento. E ficaram ainda mais quando um rostinho fofo apareceu no meio das folhagens e sorriu para eles.
— Um urso? — perguntou Pandora, mais para si mesma do que para os outros.
O ursinho, ou seja lá o que era, saiu das folhas, com as mãozinhas levantadas, como se pedisse calma. Foi quando eles viram que era uma ursinha, na verdade, com um vestidinho vermelho.
— Vocês estão bem? — perguntou ela numa vozinha infantil e aguda.
Os três não conseguiram dizer uma palavra, tão atônitos que estavam.
— Yasu! — falou uma voz vindo dos arbustos.
— Eles estão aqui, maninha! — respondeu a ursinha.
Uma outra ursa saiu das folhagens, e ela era bem maior que a pequena. Tinha a pelagem marrom, cabelos longos amarrados no topo da cabeça, usava uma veste de tecido e tinha… um rabo.
— Eu te disse para não assustá-los! — ralhou a maior com a menor.
— Mas estávamos tão perto! Eu estava com pena deles dormindo ao relento! — justificou Yasu.
— Mas ainda será meio dia de caminhada até em casa, teríamos que passar mais tempo na floresta de todo jeito!
— Não se usarmos a pipa! — sugeriu a menina.
— A pipa não cabe todo mundo!
A menina olhou para os três, para a irmã e ficou boquiaberta, como se só percebesse aquilo naquele momento.
Suspirando, a ursa maior olhou para eles e sorriu.
— Desculpe-nos pelo susto. Nós vimos os navios no horizonte e nossa anciã mandou alguns de nós para procurar sobreviventes e ajudá-los. Ela disse que é a primeira vez em dez mil anos que estrangeiros chegam à nossa praia. — e sorriu.
— Como saberemos que não é uma emboscada?! — perguntou Pandora segurando a lança com mais força.
— Porque elas nos avisaram de sua chegada. — Tewdric baixou o machado – foi o mesmo que eu fiz quando me aproximei de você e Pietro.
Pandora ainda estava incrédula.
— Você disse que sua anciã mandou alguns de vocês… — disse Kassyeh olhando para as duas.
— Sim, temos mais dos nossos nas proximidades. Vimos duas fogueiras ao anoitecer e viemos nessa direção. Uma das fogueiras sumiu e viemos para que ficara acessa.
A fogueira apagada, óbvio, era a de Pandora e Pietro, que foi coberta de areia quando só dois e juntaram a Kassyeh e Tewdric. Significava que aqueles ursinhos não haviam avistado mais ninguém além deles, o que era preocupante.
— Vocês têm sorte, os hozens não acharam seu acampamento! — exclamou a ursinha.
— Hozens? — perguntou Tewdric.
— Homens macacos bem violentos e fedorentos. Eles jogariam cocô em vocês antes de atacá-los. — explicou a pequena.
Pandora lembrou dos homens macacos que atacaram o navio da aliança e sentiu um aperto no estômago.
— Eles matam que encontram? — perguntou a jovem humana pensando no resto da tripulação da Nau Capitania.
— Eles gostam de fazer prisioneiros para transformá-los em criados. — disse a ursa maior – Muitos de nós preferiam morrer a serem aliados dos hozens…. Apesar de que tem alguns que até são civilizados… Mas são minoria.
Kassyeh não sabia o que pensar, mas não acreditava que aquelas duas representavam perigo naquele momento.
— Eu sou Kassyeh. — disse saindo de sua postura defensiva – Este é meu marido, Tewdric e essa é… Pandora.
— Sou Rukiah, muito prazer. — a ursa se inclinou para frente, o que Kassyeh acreditou ser um cumprimento de seu povo – Essa é minha irmãzinha, Yasu. Somos da Aldeia Sri-La, a leste daqui.
— É um prazer, Rukiah. — disse Kassyeh – Agradecemos quaisquer ajuda que você possa nos dá. Temos um ferido no grupo e uma criança com movimentos limitados.
— Um ferido? — espantou-se Yasu – Minha irmã é sacerdotisa de Chi-ji ela pode curar qualquer coisa!
O coração de Pandora se encheu de esperança e ela olhou para Halduron.
— Qualquer coisa não, Yasu, mas o suficiente. — e para Kassyeh, disse – Se aceitarem nossa ajuda, podemos levá-los para nossa aldeia.
— E porque você ajudaria pessoas que nem conhece? — quis saber Pandora.
Tewdric estava admirado com o quão desconfiada a jovem humana era.
— Porque os Celestiais nos ensinam a ajudar todos aqueles que precisam. — ela sorriu – E estamos muito curiosos para saber que tipo de pessoas habitam além das brumas!
— Pessoas peladas! — exclamou Yasu – Eles não têm pelos!
— Yasu! — ralhou Rukiah – Não se deve apontar as imperfeições das pessoas!
— Desculpa…
Humana, elfa e orc se entreolharam. Era impossível ver quaisquer sinais de perigo naquelas duas estranhas garotas. Kassyeh e Tewdric estavam mais que dispostos a conseguir ajuda, mas receavam que a menina humana não aceitasse e sumisse floresta adentro com o irmão. Por fim, Pandora baixou a lança e olhou para Pietro. Estava surpresa aquele ele não tivesse acordado com a comoção. Acenou com a cabeça, afirmativamente e Rukiah e Yasu sorriram.
— Onde está o ferido? — perguntou a sacerdotisa se aproximando.
Kassyeh apontou para Halduron, deitado e Rukiah caminhou até ele. A elfa percebeu que, apesar do tamanho, Rukiah era ágil e mal fazia barulho ao andar. Quando esta se inclinou para Halduron, não precisou mais que uns segundos para afirmar.
— Envenenamento. Minha magia vai tirar a febre, mas ele precisa de um elixir. Tenho na vila, então não será problema.
Pandora quase chorou de alívio.
Rukiah então agitou as mãos, uma magia dourada saindo de seus dedos e envolveu Halduron. O elfo estremeceu, mas sua respiração ficou nitidamente mais fácil.
— Meus primos estão aqui próximo. Podemos desmontar seu acampamento em poucos minutos. — avisou ela – E chegaremos em nossa vila antes do meio dia.
— Muito bem. — concordou Kassyeh – Iremos.
— Que bom. Fico feliz. — Rukiah sorriu – E, a propósito, bem-vindos a Pandaria.
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Na cozinha, Vincent cortava os legumes com cuidado, enquanto Lina e Tommy bebiam mais vodka e Theo tinha uma caneca de leite quente à sua frente. Todos estavam calados.
Depois que Lina os chamara, foram até a cozinha, onde a general foi honesta e contou a todos o que tinha acontecido. Não havia porque esconder nada, principalmente de Theo; sabia que ele já tinha idade para entender as coisas.
— É minha culpa, não é? – perguntou o menino com lágrimas nos olhos – Porque eu desobedeci à mamãe…
— Theo, meu amor. – começou Lina encarando-o com serenidade – Você fez o certo de ir até a bastilha. Sua mãe precisava que você fizesse isso.
— O que aconteceu não é culpa de ninguém. – reforçou Tommy – Você fez o que deveria fazer.
— Se tudo se desenrolou assim, foi porque a Luz quis. – Vincent completou – Não se julgue por isso.
E agora, estavam todos sentados em silêncio, enquanto Vincent preparava uma sopa para o jantar. Lá fora, o tempo mudara e nuvens grossas cobriam o céu de Ventobravo. Um trovão ressoou e Lina estremeceu; era o único medo da general.
— Odeio trovões… – murmurou ela tomando outra dose.
Ninguém comentou nada.
Theo olhou para o biscoito à sua frente, o mesmo que comia antes de Tommy chegar, mas já não tinha nenhuma vontade de comê-lo. O leite também já esfriara e o menino apenas encarava a comida. Pensava naquele homem e tinha impressão que já tinha o visto em algum lugar.
— Aquele homem… – murmurou o menino atraindo a atenção de todos – Era o pai do meu pai… Não é? Então ele é meu avô.
— Isso mesmo. – confirmou Lina.
— Ele é bem diferente do vovô Sebastian…
Lina deu uma risada.
— Graças a Luz! Papai pode ser muita coisa, mas estúpido como Greymane, nunca!
Pegando o biscoito a sua frente, Theo perguntou:
— A senhora acha que ele quer mesmo me tirar da mamãe? – sua voz era quase inaudível.
Nem Theo nem Doroteya tinham raiva de Greymane, e isso era algo que surpreendia muito Lina. O que sentiam pelo rei de Guilneas era medo, um medo decorrido de todos os anos escondidos na floresta, da angustiante possibilidade da separação caso fossem descobertos. Lina se perguntava se não era o medo do próprio Liam que enraizara neles.
— Meu amor, ele pode tentar o que for, você não saíra dessa casa para lugar nenhum. – disse Lina resoluta.
— Ouça sua tia, ela sempre tem razão. – brincou Vincent tentando quebrar a tensão.
— Nem, sempre, mas nisso ela tem. – disse Tommy antes de colocar a mão na cabeça do menino – Ninguém vai te tirar de nós, campeão.
Theo sorriu.
— Mas temos outra coisa para pensar agora. – falou Vincent colocando os legumes em um caldeirão – Doro. Ela precisa saber.
— Não agora. – falou Lina – Ela acabou de ter um bebê, não precisa desse peso. Eu resolverei tudo amanhã. E Doro só precisará se preocupar com Liana.
Como se estivesse esperando aquele momento para falar, Liana começou a chorar no andar de cima. Imediatamente, Tommy se levantou e saiu correndo da cozinha. Theo hesitou um pouco, sorriu para Lina e acompanhou o padrasto. Quando ficaram apenas os dois na cozinha, Vincent sentou-se na frente de Lina, sabendo que ela estava mais agitada do que tentava aparentar.
— É uma situação complicada. – o paladino falou.
— Você não faz ideia. – ela pôs outra dose de vodka e virou.
— Ele pode provar que é Theo é neto dele? – perguntou Vincent pegando a garrafa e se servindo.
— Acredito que não. Os documentos de Theo são de Guilneas e estão todos com a Doro.
— Nem todos. — falou o paladino.
Lina o encarou, estranhando.
— Você lembra do começo do ano? Quando eu consegui vaga para ele e Pietro assistirem aula pela manhã na catedral? — perguntou ele.
— Sim, lembro.
— Eles precisaram de documentos e Theo não tinha nenhum de Ventobravo…
A expressão de Lina se iluminou.
— E Doroteya e Tommy foram no cartório fazer um para ele. — continuou Lina.
— E nele, eu acho que Tommy foi colocado como pai de Theo. — completou Vincent com um sorriso.
O coração de Lina batia tão rápido que ela tinha a sensação que ele ia sair pela boca.
— Eu tenho a impressão que Theo foi colocado como filho só de Doroteya… — disse sem querer ter esperanças.
— Onde está o documento?
— No meu cofre. — Lina se levantou de repente, a urgência tomando conta de seu ser – Vou buscar agora para averiguar!
Subiu as escadas para seu quarto, querendo correr, mas tentando não fazer barulho por causa do bebê. Aquela lembrança lhe dava esperança lhe mostraria como agir. Afinal, quando encontrasse com Greymane, sabia que ele jogaria com todas as cartas que tivesse. Talvez até jogasse sujo. Agora que ele sabia que Theo era realmente seu neto, não pararia, a não ser que ele fosse parado.
Abriu o cofre e viu todos os documentos dos moradores da casa, arrumados. Desde criança, Lina era extremamente neurótica com a arrumação das coisas e ali não era diferente. Pegou todos os papéis e pôs em cima da cama. Tirou um por um, lendo-os com cuidado. Ali estavam a escritura da casa, seu contrato de general, os documentos de Pietro e Pandora, os dela e dos irmãos, a certidão de casamento de Doroteya e Tommy, e também os documentos que Doroteya trouxera de Guilneas.
Leu e releu os documentos algumas vezes. Não era muita coisa, mas tudo estava claro ali: a certidão de casamento de Liam e Doroteya e a certidão de nascimento de Theo. Eram documentos visivelmente autênticos, ainda que o timbre e o papel fosse diferente do que era usado em Ventobravo. Com aqueles papéis, Doroteya poderia ter, há muito tempo, reclamado o título de princesa para si e de príncipe para seu filho, mas não o fizera. No futuro, Theo poderia requerer seus direitos como herdeiro do trono de Guilneas, se assim quisesse.
Mas não era aquele documento que procurava. E ali estava, uma certidão de nascimento com o timbre de Ventobravo, mostrando Theo como filho de Doroteya e Tommy. Seu coração saltou. Achara que, quando o irmão e a esposa foram no cartório resolver a falta de documentos do menino, a certidão de Theo teria saído apenas como o nome de Doroteya, porém, Tommy, ou era mais esperto do que parecia ou tivera a iluminação da Luz naquele dia, colocara seu nome no documento como pai de Theo. Com aquilo, não havia nada legalmente que Greymane pudesse fazer.
Claro, o documento poderia ser questionado, pensou ela. A data da emissão da certidão era recente e todos sabiam que Doroteya era de Guilneas e, na época do nascimento de Theo, seria impossível ter um guilneano ali. Porém, era comum na cidade que homens e mulheres registrassem crianças em seu nome, quando casavam com alguém cujo cônjuge havia falecido. Era uma prática aceita. Então, mesmo que houvesse questionamento, demoraria um bom tempo para que fosse resolvido e mexeria numa estrutura jurídica tão complexa que Lina ficava cansada só de pensar.
Outro detalhe que os documentos de Doroteya lhe mostraram era que não havia nenhum testamento de Liam. Caso houvesse, o príncipe poderia ter deixado mulher e filho como dependentes ou não de seu pai. Na ausência disso, Doroteya era considerada herdeira legítima e dona de autonomia sobre si e sobre o filho. Então, caso a certidão de Theo feita em Ventobravo fosse questionada, ainda assim, apenas um crime grave tiraria a guarda de Theo da mãe. Não ficaria surpresa se fosse esse o caminho que Greymane escolhesse, mas quem, em sã consciência, acusaria uma criatura como Doro de fazer algum mal? Claro, sempre havia os babões de plantão para lamber o saco do cachorro louco… Precisava então, de um plano.
Precisava da ajuda de Arshe. Naquele momento.
Recolheu e arrumou todos os documentos, menos a certidão de Theo feita na cidade. Guardou o resto dos papéis e foi em direção da cozinha, com o documento recém-descoberto em mãos.
— Vincent! — foi dizendo ao entrar na cozinha – Você estava certo! Temos o documento com Tommy como pai! — exclamou empolgada. — Veja!
Vincent leu, tão feliz quanto Lina. Mas depois, seu sorriso vacilou.
— Lina, você sabe que isso pode ser contestado… Veja a data…
— Eu sei. Mas isso pode ser um trunfo. Ainda é um documento oficial. — ela não conseguia apagar o sorriso.
Vincent deu uma gargalhada.
— A Luz realmente protege os Wood! — exclamou o paladino.
— Com certeza. — ela pegou o papel que Vincent estendera guardou no bolso – Acho que agora conseguirei dormir.
— Eu também. — o paladino suspirou colocando a mão no peito.
Ouviram um barulho e a porta da rua foi aberta. Lina ficou imediatamente em guarda, até que ouviu Mel e Fey reclamando da chuva fina que começara a cair. Vincent abriu um sorriso apaixonado e foi na direção do namorado. Lina foi logo em seguida.
— Mô, você tá aqui! — exclamou Mel como se Vincent não estivesse na casa deles todos os dias.
— Vocês não vão acreditar no que aconteceu! – foi dizendo Vincent – O bebê nasceu!
Houve um momento de silêncio, antes deles começarem a gritar, animados.
— Shhh!!! — ordenou Lina.
Os irmãos se calaram mais continuaram dando pulinhos.
— É menino ou menina? — perguntou Mel, ansioso.
— Menina. — respondeu Lina.
Fey deu uma risada e estendeu a mão para Mel que, contrariado, enfiou a mão no bolsou, contou as moedas e pagou.
— Eu tinha certeza que ia ser menino! — choramingou se agarrando em Vincent.
— Quem sabe na próxima você ganha… — consolou o outro.
— Eu quero ver minha nova sobrinha! — comemorou Fey se dirigindo às escadas – Ela parece com quem?
— Com um joelho. — respondeu Lina.
Os irmãos olharam com cara feia para ela, que nem se importou. Indicou com o dedo as escadas e subiram, os alfaiates querendo saber os detalhes do nascimento. Vincent deixou de fora do relato à ida de Theo na bastilha e Lina entendeu que era melhor deixar as partes ruins de fora por um momento: aqueles dois mereciam apenas aproveitar a nova sobrinha e deixar para se preocuparem depois. Assim que chegaram no quarto e abriram a porta, Fey e Mel invadiram o local, quase correndo em direção à cama, onde Doroteya amamentava a filha, sob o olhar encantado de Tommy e Theo.
— Meninos… — começou a druidesa – Conheçam Liana Marie Wood.
Os alfaiates suspiraram antes de começar a fazer os planos para encher a nova sobrinha de vestidinhos fofos e sapatinhos coloridos.
Lina sentiu o coração aquecer-se e permitiu-se deixar as preocupações para outro momento. Claro, ainda ia escrever para Arshe, pois Vincent estava certo em dizer que o documento que encontrara poderia ser contestado. Também enviaria uma carta para Lasciva e Rubrarosa; aquelas duas seriam um bom apoio para Theo e Doro. Faria tudo que estivesse ao seu alcance para manter a família em segurança. Até lá, poderia relaxar um pouco.
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