Herdeiros da Guerra
51 Capítulo XXIX – Questão de perspectiva
Notas iniciais
O amanhecer em Shattrath era bem diferente, se comparado às outras cidades que Kayliel conhecera. As muralhas da cidade lançavam sombras que impossibilitava a maioria das casas verem o sol até que este já estivesse bem no alto. Então, era complicado saber se estava cedo ou não apenas pela luz do sol. Foi necessário aprender a ver outros sinais: o orvalho no umbral da janela, o sopro frio do vento matutino, o gorgolejar animado dos pássaros… Foi lendo esses sinais que ele aprendeu quando o sol acabara de nascer e poderia iniciar suas atividades diárias.
Uma das coisas favoritas do elfo em Shattrath era a caminhada que fazia bem cedo todas as manhãs para o mercado no Bairro Inferior. Saia de sua pequena casa, de apenas três cômodos, e caminhava pelas ruas, cumprimentando as pessoas que conhecera desde que se mudara para lá. Já sabia o nome de praticamente todos com quem cruzava naquela caminhada. Havia os arakkoas, sempre brigando entre si com seus grasnados agudos, principalmente Rilak, que insistia que o companheiro comera um rato a mais no café da manhã. Depois destes, um acampamento dos orcs Mag’har, fugidos do confronto com a Legião na Planície Fogo do Inferno há tantos anos que nem pensavam mais em voltar para sua terra. Ao longo do caminho, crianças corriam em bandos, a maioria descalças, indo e voltando do orfanato, onde Kayliel fazia visitas regulares para cuidar da saúde delas. Quando o viram, as crianças gritaram e acenaram.
— Kayliel! Tá indo lá em casa? — perguntavam sempre.
O coração dele se apertou ao perceber que eles já tratavam o orfanato como a casa deles, e não um local provisório. Significava que já haviam perdido a esperança de seus pais voltarem.
— Hoje não! — respondeu acenando de volta – Graças a Nascente, todos estão saudáveis.
As crianças reclamaram, chateadas, mas logo voltaram a correr.
Pouco antes do orfanato, estavam os mercadores etéreos, pertencentes a uma organização chamada Consórcio. Kayliel não confiava muito naquelas criaturas feitas basicamente de éter, mas Arshe negociava com eles constantemente, conseguindo descontos que nem mesmo os goblins conseguiam. Ela dizia que eram as vantagens de ter sido embaixadora tanto tempo.
Quando estava passando perto do orfanato, a matriarca Misericórdia acenou alegremente para ele, com uma mão enquanto na outra acalentava um bebê draenei. Aquela criança era um bebê desde que eles chegaram em Shatrath e a matriarca, uma trollesa, disse que provavelmente ele seria bebê por mais tempo que ela vivesse. Diferente dos elfos, que cresciam na mesma velocidade que os humanos e só depois tinham seu envelhecimento retardado, os draenei se desenvolviam de forma bem lenta para os padrões das outras raças e poderiam ser bebês por décadas e crianças por séculos.
Vizinho ao orfanato, e Kayliel ainda se perguntava por que, estavam os ogros. Grandes, mal-encarados, passavam o dia todo andando de um lado para o outro com seus tacapes e olhando torto para quem se aproximasse. Um dos meninos do orfanato uma vez confessou a ele que havia um jogo entre as crianças, de quem tinha coragem de chegar mais perto dos ogros antes que eles grunhissem e mostrassem o tacape. Até então, a criança com a maior pontuação tinha sido Salandria, que fora adotada por Lady Liadrin. Nenhuma das outras tinha conseguido chegar tantas vezes perto dos ogros sem saírem correndo, chorando. Kayliel já havia compartilhado com a matriarca Misericórdia o temor de uma das crianças acabar esmagada pelos ogros, mas a trollesa rira e dissera que os ogros achavam engraçado o jogo e faziam a cara feia de propósito para as crianças. Pediu então para Kayliel não contar aos pequenos ou eles perderiam uma das diversões mais queridas de todos.
E só então ele chegou ao mercado. O primeiro local em que visitou foi à barraca da Vó Fuji, uma humana idosa que vendia as melhores frutas da cidade. Ele comprou um pacote grande de maçãs Vermelha Brilhante (doaria para o orfanato) e um saco menor com algumas maçãs da casca dourada (as favoritas de Arshe) e amoras de skethyl, para fazer uma torta. Depois, comprou pão integral dos Mag’har a um draenei corrompido de nome Eral, bolinhos dos giralanças a Beto Bolinho e uma peça de presunto curado a Breno Turner. Quando estava saindo do mercado, passou por Calvino Castanheiro e sua famosa xícara de café. O humano era um viciado em café e sempre andava com suas canecas cheias, para oferecer para quem quisesse compartilhar a bebida.
— Kayliel! — cumprimentou Calvino com as canecas fumegantes de café, uma em cada mão – Está meio cheio aí, hein?
Com várias sacolas nas mãos, o elfo sorriu.
— É sim. Estou levando essas maçãs para o orfanato. — explicou apontando um dos sacos com o queixo.
— Ora, deixe-me ajudá-lo com a sacola e você me ajuda com o café!
Calvino pegou a sacola maior e ofereceu uma caneca de café a Kayliel, que aceitou. Caminharam até o orfanato, bebendo o café forte e conversando.
— Aquele elixir que você me deu para o estômago me salvou. — foi dizendo o humano – Fazia tempo que não me livrava da azia!
— Talvez você devesse tomar menos café. — sugeriu o elfo já prevendo a resposta.
— Nem pensar! — exclamou o homem, corroborando as suspeitas do elfo – Prefiro a dor de estômago!
Os dois riram e beberam mais do café.
Logo estavam na frente do orfanato, onde Calvino entregou a sacola cheia de maçãs para a matriarca Misericórdia.
— Entrega de Kayliel para vocês. — anunciou Calvino antes de tomar mais um gole de café.
— Ah, muito obrigada, meu caro! — agradeceu a trollesa – Vou fazer tortas para todos! Estão convidados a virem comer um pedaço mais tarde!
— Só se tiver café para acompanhar! — disse Calvino.
— Você traz o café. — sugeriu a trollesa.
— Fechado. — concordou o humano.
— Eu adoraria, mas nunca sei quando terei pacientes. — falou Kayliel, se desculpando – Ontem o dia foi tranquilo, mas não posso garantir que hoje também seja.
— Entendo, doutor. — falou a matriarca, penalizada – Mas, se puder, der um pulinho com a esposa aqui hoje. As crianças iam amar.
— Se puder, viremos. — garantiu Kayliel.
Então, se despediu da trollesa e de Calvino, lhe entregando a xícara de café vazia, e foi em direção à sua casa, com um sorriso no rosto.
Ficava muito feliz cada vez em que alguém chamava Arshe de sua esposa. Porque ela finalmente o era. E estava tão feliz com isso como se fosse o primeiro dia ali e não o segundo ano. O tempo voava quando se é feliz, pensou.
Dois anos atrás, quando os dois chegaram em Shattrath, fugidos, não imaginavam o que iam encontrar ou como seriam recebidos. Porém, Hadgar, líder dos Filhos de Lothar, estava mais que disposto em acolhê-los e acomodá-los da melhor forma possível. Providenciou um espaço na sede da Ordem e depois os ajudou a alugar a pequena casa onde agora moravam. Casaram-se no mesmo dia, numa cerimônia simples e íntima, onde apenas estranhos foram suas testemunhas.
Não demorou muito para que Hadgar ficasse interessado em usar as habilidades de Arshe para negociar com as populações que habitavam em Terralém. Ansiosa por ajudar, Arshe aceitara a incumbência, enquanto Kayliel cuidou de abrir uma clínica gratuita para ajudar todos aqueles que estivessem doentes e precisando de assistência. Logo, o novo casal caíra nas graças de todos da cidade e se tornaram referência do que o mundo poderia ser, se as raças fossem mais compreensivas umas com as outras.
Todavia, por mais feliz que estivesse, havia uma nuvem sob a cabeça de Kayliel que não deixava sua felicidade ser completa. Rommath. Seu irmão não lhe dirigira a palavra desde que saíra de Luaprata e só sabia notícias da família porque Luxuriah continuava se correspondendo com ele. Era surpreendente que logo a elfa mais desconfiada com os humanos, fosse aquela que continuava presente, o atualizando sobre tudo que acontecia em sua terra natal e em sua família.
Arshe tivera mais sorte. Tanto Anduin e seu pai, rei Varian, a perdoaram e continuaram a manter o contato. Suas amigas Lina e Doroteya fizeram o mesmo. Arshe estava muito empolgada aqueles dias, esperando com ansiedade as notícias do nascimento do bebê de Doroteya e fazendo planos para ir a Ventobravo. E, por mais que ela insistisse que ele deveria ir, Kayliel sabia que não poderia acompanhar a amada naquela viagem. Neutro ou não, ele era um elfo sangrento. Andar pelas ruas de Ventobravo não era a coisa mais segura ou sensata a se fazer.
Assim que chegou em casa, verificou o correio, antes de entrar. Esperava encontrar uma carta de Luxuriah ou de Karen, já que respondera as cartas delas recentemente. Talvez a de Karen demorasse mais, pois a menina estava sempre ocupada com seu treinamento e o governo de Luaprata. Contudo, a carta que chegara era de Lina Wood, amiga de Arshe. Ficou surpreso, pois não fazia muitos dias que a general enviara uma carta a Arshe, que ainda não respondera por causa de uma viagem que fizera às pressas para Nagrand. Para que a segunda carta chegasse antes da resposta da primeira, algo deveria ter acontecido.
Entrou em casa e colocou as compras na mesa da cozinha antes de se dirigir ao quarto, onde Arshe ainda dormia. Kayliel não gostava de acordá-la tão cedo, porque ela ficava com o humor terrível, mas, se algo acontecera em Ventobravo, Arshe gostaria de saber.
— Arshe. — chamou tocando com delicadeza no ombro dela – Acorde, meu amor.
Arshe grunhiu algo ininteligível e virou para o lado.
— Arshe… — insistiu ele com delicadeza – É importante.
Ela colocou um travesseiro na cabeça e praticamente rosnou. Kayliel suspirou.
— Chegou uma carta de Lina para você. — disse finalmente.
Demorou alguns instantes para que Arshe entendesse o que ele dissera e tirasse o travesseiro de cima da cabeça, encarando-o com o cabelo despenteado e a expressão confusa.
— Carta de Lina? — murmurou sem entender.
— Sim. — ele estendeu o envelope.
Arshe pegou a carta e ficou olhando alguns segundos, tentando lembrar se respondera a anterior e não lembrava.
— Você ainda não enviou a resposta da anterior. — disse Kayliel imaginando qual era a dúvida que aparecia no rosto dela.
Aquilo a fez despertar. Sentou-se na cama e rasgou o envelope apressadamente, enquanto Kayliel se levantava e afastava as cortinas, para que a fraca luz que penetrava a cidade afastasse um pouco a escuridão do quarto.
A medida que lia a carta, o rosto de Arshe foi mudando de cor, primeiro do rubro com um sorriso, depois o sorriso morreu, seu rosto ficando pálido e então ela ficou rubra novamente, agora com a raiva brilhando em seus olhos.
— Não acredito nisso! Aquele cachorro idiota! — e jogou as cobertas para o lado, colocando a carta na cama e correndo para o banheiro.
Kayliel ficou parado, sem entender o que acontecera. Viu a carta em cima da cama, mas jamais leria uma correspondência que não era para ele. Por isso, se aproximou da porta do banheiro e chamou:
— Arshe? O que houve?
— Problemas! — gritou ela abrindo o chuveiro – Temos que ir para Ventobravo agora mesmo!
A frase no plural o deixou confuso.
— Ah, você vai para Ventobravo? Foi o bebê que nasceu?
— Sim, o bebê nasceu. E iremos para Ventobravo.
Kayliel suspirou e coçou os olhos.
— Arshe…
Antes que ele pudesse completar a frase, ela colocou a cabeça molhada para fora do banheiro e o olhou, com a testa franzida.
—Nós dois vamos a Ventobravo. Tá na hora de você conhecer as meninas e tenho um problemão para resolver e quero seu apoio lá. — e sorrindo, acrescentou – Não vou demorar no banho. Quero tomar café antes de irmos. — e voltou para dentro do banheiro.
Sabendo que não adiantava discutir quando Arshe falava daquela forma, suspirou e foi para a cozinha. Esperava que desse tempo assar a torta de amoras para levar de presente para as amigas de Arshe e torcer para ninguém tentar matá-lo naquela visita à capital da Aliança.
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Pandora saiu da cabana e levantou a mão para proteger os olhos do sol forte. O ar trazia o perfume de peixe assado, arroz e temperos que ela não soube distinguir. Seu estômago protestou de fome e riu. Se fosse horas atrás não estaria tão relaxada, mas as coisas estavam calmas e podia se dar o luxo de ansiar pela comida.
Pandarens. Aquele era o nome do povo que habitava aquela vila e também aquela terra, chamada Pandária. Não eram ursos, como pensara, mesmo que a aparência fofa lhe lembrasse ursos. E podiam ser fofos, mas eram bem fortes. No caminho para a vila, escoltados por Rukiah e sua irmã Yasu, eles se encontraram com outros pandarens, tão ansiosos quanto aquelas duas para ver os estrangeiros. Caminharam ao lado deles, lançando olhares espantados para os recém-chegados sem nem tentar esconder o estranhamento. Quando estavam se aproximarem da vila, alguns tigres decidiram atacá-los. Pandora estava carregando Pietro e Tewdric levava Halduron. Kassyeh chegou a começar a lançar feitiços, mas antes que conseguisse soltar qualquer ataque, os pandarens puseram os tigres para correr usando apenas os punhos.
Apenas. Os. Punhos.
Zero arma. No tabefe mesmo.
Ficou feliz em perceber que não era a única boquiaberta com a habilidade dos pandarens. O orc e a elfa ficaram tão surpresos quanto ela, e o orc riu alto depois e disse:
— Já posso dizer que vi de tudo nessa vida!
Descobrira então que aqueles pandarens eram monges, guerreiros habilidosos que só existiam ali em Pandária e que usavam principalmente suas mãos como armas. Alguns deles usavam bastões, mas os que os acompanhavam lhe disseram que preferiam as mãos nuas, porque não corria o risco de perdê-las. Aquilo arrancou risadas de todos e Pandora se perguntou que mais mistérios aquele lugar guardava.
A vila de Sri-La ficava na praia e era basicamente habitada por pescadores. Pandora descobriu que o local onde aportaram era chamado de Floresta de Jade e havia diversas vilas como aquela, espalhadas pela região. A surpresa da jovem foi imensa quando viu dois homens macacos ali, do mesmo tipo que atacaram a Nau Capitania, negociando pacificamente com os pandarens. Vendo sua expressão, Rukiah explicou:
— São hozens. Eles trazem produtos da floresta e trocam por peixe conosco.
— Pensei que fossem bestas incontroláveis. — disse a jovem com sinceridade.
— Alguns são. Outros, são bons. — e sorrindo, completou – Mas não é assim com todos os povos?
Pandora lançou um olhar para Tewdric, mas não respondeu.
Assim que chegaram ao centro da vila, os pandarens foram recebê-los, admirados e receptivos. A líder do local, uma pandarena chamada Mili Lúpulo Errante, os recebeu com uma bebida quente e comida na manhã gelada. Sentaram em volta da fogueira e Rukiah trouxe uma cadeira para que pudessem colocar Pietro e o firmá-lo. Ninguém comentou nada sobre o menino e Pandora se perguntou se eles costumavam ver pessoas com pouca mobilidade ou se apenas estavam sendo discretos. Halduron fora levado para uma das cabanas por Tewdric, Kassyeh e Rukiah. Ficaram um tempo lá e depois, voltaram. Comeram em silêncio por um tempo, até que várias crianças pandarenas se aproximaram e ficaram encarando-os, fascinadas.
— Vocês estão constrangendo nossos convidados! — ralhou Mili Lúpulo Errante.
Para a surpresa de todos, em vez de saírem correndo com a bronca, uma das meninas se aproximou, passou a mão no braço de Tewdric e depois olhou para a mão, espantada.
— Não é tinta não. — falou o orc bem-humorado – Não vai sair.
As crianças deram gritinhos e se lançaram para Tewdric, esfregando-o com suas mãozinhas felpudas. O orc gargalhou.
— Chega! — exclamou a líder da vila – Deixe-os comer em paz!
Com as crianças controladas, eles comeram e foram levados para cabanas diferentes, para descansarem. Contudo, Pandora não conseguiu dormir. Pegou a roupa que haviam lhe dado, uma bonita combinação de calça e blusa de seda, ao estilo das que os pandarens usavam, vestiu-se e saiu da cabana, deixando seu irmão adormecido.
Na praia, viu Tewdric sentado no chão, rodeado de crianças pandarenas, que o olhavam ansiosas. Então, o orc abriu os braços e os pequenos agarraram com força. Ele então levantou-se, suspendendo as crianças que gritaram animadas e começou a girar. As gargalhadas encheram o ar e quando Tewdric parou de girar e sentou-se no chão novamente, os pequenos pandarens soltaram seus braços e saíram andando, tontos, trombando uns nos outros e rindo.
A mente de Pandora estava tendo problemas em aceitar aquele orc. Ele era o completo oposto do que acreditara durante toda a sua vida o que um orc deveria ser. Na verdade, Tewdric era mais gente boa que metade de sua família e isso a deixava mais confusa.
“Não se deixe enganar.”, dizia uma voz em sua cabeça. “Ele ainda te mataria sem nem pestanejar.” Só que aquele pensamento vinha carregado por dúvidas, que ficaram ainda mais evidentes quando Tewdric percebeu sua presença e acenou, sorrindo. Pandora se viu acenando de volta.
Kassyeh não estava à vista e o olhar de Pandora se voltou para a cabana onde Halduron fora colocado. Teve vontade de ir lá pedir notícias dele, mas achou que isso geraria dúvidas. Afinal, para Kassyeh e Tewdric, Halduron era alguém da Horda, e só Pandora sabia que ele era na verdade do Pacto de Prata. Melhor ficar distante, pelo menos até ele acordar.
Caminhou em direção ao centro da vila, onde uma panela enorme de arroz era preparada e diversos espetos com peixes eram assados na fogueira. Uma pandarena cuidava da comida e sorriu quando a viu. Um pouco mais afastado dali, estava Yasu, irmã de Rukiah, que acenou quando a viu:
— Pandora! Vem cá!
A menina estava sentada ao lado de um pandaren de coloração acinzentada, que costurava uma rede de pesca devagar e cuidadosamente. Ao se aproximar, a jovem humana notou que ele não era exatamente cinza, mas seu pelo estava ficando grisalho, e mantinha apenas alguns tufos preto na pelagem. Ele tinha sobrancelhas grossas, uma barba entrançada e um sorriso sereno.
— Vovô, essa é a moça que falei. — disse a menina falando com o pandaren – Pandora, esse é meu avô, Liu Pata Serena.
— É um prazer conhecê-lo, senhor Liu. — cumprimentou Pandora estendendo a mão. O velho pandaren apenas fitou a mão dela, curioso.
— Você pega na mão dela e sacode, vovô. — avisou Yasu – É assim que eles se cumprimentam.
Pandora entendeu então que os pandarens se cumprimentavam de forma diferente e ficou um pouco desconcertada, mas o velho pandaren pegou a mão dela e sacudiu com força, deixando-a desconcertada.
— Assim não, vovô! — reclamou a menina.
— Tudo bem. — disse Pandora – Percebi que também não sei como é o cumprimento de vocês.
— É fácil! — exclamou Yasu ficando de pé em um pulo – É só se curvar um pouco assim. — e mostrou o cumprimento.
Pandora a imitou e Liu Pata Serena fez um breve cumprimento com a cabeça.
— Os mais velhos só se curvam para pessoas que eles têm um apreço muito grande, porque somos nós que temos que mostrar o respeito pela idade e conhecimento deles. — explicou a menina.
— Se fosse meu avô, ele não se curvaria para ninguém, nem para o rei, porque ele é bem crítico. — disse a jovem humana.
— Seu avô deve ter sofrido muito para ser tão incrédulo. — falou o ancião pandaren pela primeira vez.
A frase pegou Pandora se surpresa, pois esperava que a voz dele fosse rouca e arranhada, como a dos idosos que conhecia, mas era aveludada e tranquila. Ficou surpresa também porque nunca tinha parado para pensar por aquela perspectiva: em uma visão, seu avô só era chato. Mas, diante do que o pandaren falara, percebeu que havia verdade naquela frase: seu avô perdera praticamente tudo na invasão dos orcs, sofreu para sustentar uma família imensa e, verdade fosse dita, ainda era ele quem tocava a fazenda. Se não fosse o velho Sebastian, alguns de seus filhos não teriam onde cair morto.
— É… Meu avô passou por muitos perrengues na vida… — murmurou concordando.
— Sentem-se, por favor, e me fale de sua terra. De sua família. Qual nome de seu avô? — quis saber o pandaren indicando um tapete de palha ao seu lado, para Pandora.
— Sebastian Wood. — foi dizendo Pandora enquanto sentava – Ele faz vinho.
Aquilo despertou ainda mais o interesse do velho pandaren.
— Conte mais sobre isso.
E ela contou. Enquanto o velho pandaren continuava sua costura calmamente, ela contou sobre sua grande e barulhenta família. Sobre a vinícola. Sobre o conflito com seus pais. A doença de seu irmão. A vida em Ventobravo com os tios. E sobre Lina. Viu-se falando muito sobre sua tia e como ela ficaria chateada por tudo que acontecera na viagem. O ancião a ouviu em silêncio, acenando a cabeça ocasionalmente, mostrando-se surpreso em alguns momentos, sorrindo enigmático em outros. Yasu se mostrou mais interessada que o avô, fazendo muitas perguntas sobre Ventobravo e sobre a viagem dela pelo mar. Em determinado momento, as outras crianças a chamaram, pois estavam brincando de tentar esmagar Tewdric com seus corpinhos rechonchudos e a menina pediu licença e saiu correndo, pulando em cima da pilha de filhotes que já estavam fazendo montinhos em cima do orc.
— E seu amigo? — perguntou o pandaren apontando com o queixo para Tewdric, que conseguiu se levantar com todas as crianças penduradas em seu corpo e andou com dificuldades pela areia, arrancando risadas das crianças – Ele mora em Ventobravo também?
— Errrr…. — Pandora hesitou um pouco – Ele não é bem meu amigo…
— Não? — perguntou o pandaren, ligeiramente surpreso – Minhas netas disseram que vocês estavam no mesmo acampamento…
— É… Estávamos… Mas não somos amigos. — sem saber o porque de estar se sentindo sem jeito, ela completou – Na verdade…. Somos meio que inimigos…
Agora o espanto do velho pandaren era imenso.
— Inimigo dele?! — perguntou apontando quando os filhotes pandarens pularam novamente em cima de Tewdric, que apenas ria das tentativas dos pequenos de esmagá-los – O que ele fez contra você?
— Ele não fez nada comigo. — explicou – Na verdade, ele nos ajudou desde que chegamos aqui. Mas ele é da Horda e eu sou da Aliança.
Aquilo não fez nenhum sentido para Liu, que parou a costura e continuou encarando-a, esperando a explicação.
— É meio complicado… – admitiu – Acho que não estou conseguindo explicar direito. É uma história comprida.
— Ora, eu tenho tempo de sobra. – disse o ancião colocando a rede que consertava de lado – Conte-me sobre essa Horda e essa Aliança.
— Certo. – Pandora respirou fundo – Deixe-me recomeçar. A Horda. A Horda é um grupo de povos que lutam contra o meu povo e nossos aliados há algum tempo.
— E por que vocês lutam?
— O povo dele fez mal ao meu povo.
— E você o considera inimigo porque o povo dele fez algo com o seu. – falou o pandaren pensativo – Interessante. Quando foi que começou essa guerra?
Pandora pensou um pouco.
— Acho que há uns trinta anos. – respondeu.
— E por que começou?
Desejando ter prestado mais atenção às aulas de História, Pandora fez um esforço para lembrar de, pelo menos, o que ouvira Vincent contar a Pietro e a Theo.
— Há algum tempo, um mago abriu um portal aqui no nosso mundo, lá perto de onde moro e trouxe os orcs. O povo dele. — e apontou Tewdric, que agora corria com duas crianças pandarens debaixo dos braços e dizendo que ia pegar os outros, que corriam dele às gargalhadas – Os orcs destruíram os reinos humanos e a minha cidade, Ventobravo.
— E por que eles fizeram isso? — quis saber.
— Acho que foi por causa da Legião…
— Legião? – estranhou o velho.
— É, são demônios. Parece que eles fizeram os orcs beber sangue de um dos demônios mestres e eles ficaram com sede de sangue e nos atacaram. Os demônios queriam destruir todo o mundo, acredito.
— Então, os orcs foram usados pelos demônios, e atacaram vocês por ordem desses demônios. — raciocinou o pandaren – E eles ainda estão dominados por demônios?
— Que eu saiba, não.
— Então por que vocês ainda os consideram inimigos? – Liu Pata Serena estava fazendo um esforço para entender o que ela explicava.
Era uma excelente pergunta para qual Pandora não tinha resposta.
— Bem, eles destruíram nossos reinos. — tentou.
O velho acenou com a cabeça, como se entendesse, mas em seguida, perguntou:
— E já os reconstruíram?
— Já.
— Então…? — o pandaren questionou.
Pandora sentiu o rosto ficar quente enquanto o pandaren continuava encarando-a.
— Eu não sou muito boa de História, mas sei que teve bem mais coisas, mais ataques e a guerra nunca acabou.
— Ela é sua inimiga também? – perguntou Liu Pata Serena apontando para trás de Pandora.
A jovem se virou e viu Kassyeh e Rukiah saindo da cabana de Halduron. A pandarena viu o avô sentado com Pandora e fez um sinal para que Kassyeh fosse com ela até lá. Pandora se perguntou se a elfa saberia responder as questões o velho pandaren.
— Como está o jovem enfermo? – quis saber Liu Pata Serena quando as duas chegaram.
— Está bem, vovô. – respondeu Rukiah – Eu administrei um antídoto e a febre passou. É só questão de tempo para ele acordar.
O alívio que Pandora sentiu foi imenso e ficou estampado em sua face. Estava feliz por Halduron estar bem e ansiosa para quando ele acordasse. Será que conseguiriam conversar sem que Kassyeh e Tewdric visse? Isso lhe deu outro receio. Qual seria a reação daqueles dois quando descobrissem que cuidaram de alguém que não era da Horda? Bem, eles a ajudaram e a Pietro também, certo? Talvez não se importassem. E como estavam ali rodeados por pessoas desconhecidas, era provável que apenas deixassem Halduron ali junto com os pandarens e fossem embora. É, era nisso que ela queria acreditar.
— Minha cara, você também é inimiga dessa jovem? – perguntou Liu Pata Serena apontando para Pandora.
Não apenas Rukiah, mas a própria Kassyeh ficou surpresa com a pergunta, mas a elfa logo entendeu qual era a conversa que a jovem humana e o velho pandaren estavam tendo.
— Que pergunta absurda, vovô! – exclamou Rukiah – É óbvio que elas não são inimigas!
— É verdade, não somos inimigas. – disse Kassyeh, para espanto de Pandora – Mas pertencemos a facções que são.
— Horda e Aliança. – falou o pandaren.
— Isso. São longos anos de guerra que nos separam. – falou a elfa.
Agora Rukiah estava muito espantada. Olhou para Kassyeh, depois para Pandora e balançou a cabeça, em negativa.
— Mas vocês estavam juntos quando os achei! – exclamou a sacerdotisa – Vocês se ajudaram na vinda para cá!
— Tewdric os achou na praia e nós simplesmente não podíamos deixá-los sozinhos nessa terra. — explicou Kassyeh – Do povo inimigo ou não, eram duas crianças precisando de ajuda.
— Eu não sou criança! – exclamou Pandora exasperada – Eu tenho dezoito anos!
O velho pandaren riu.
— Para os velhos, os mais novos são sempre crianças.
— Essa conversa está muito estranha! – exclamou Rukiah – Preciso de uma bebida. Vou pegar uma cerveja gelada. Quem quer?
Todos levantaram a mão e a sacerdotisa foi até uma das cabanas em busca da bebida. Àquela hora, Mili Lúpulo Errante chamou as crianças para começar a servir a comida e os pequenos correram até ela. Tewdric então se dirigiu para onde Kassyeh e Pandora estavam sentados junto a Liu Pata Serena.
— Essas crianças têm um montão de energia! – comentou o orc, sentando – Parecem um monte de Karenzitas!
— Karenzitas? — o velho pandaren parecia deliciado com todas as coisas novas que estava aprendendo – É como vocês chamam as crianças?
— Karenzita é como Tewdric chama a minha irmã mais nova, Karen. – explicou a elfa para Liu Pata Serena – Tewdric nos ajudou a criá-la. — e pegou na mão dele, sorrindo.
Os pandarens ficaram menos surpresos que Pandora em ver aqueles dois, de raças diferentes, casados.
— Há quanto tempo vocês estão juntos? – perguntou o pandaren.
— Seis anos. – disse Tewdric com um sorriso imenso – Três como namorados e três casados.
— Estamos tentando ter bebês. — acrescentou Kassyeh – Mas… Bem, ainda não tivemos sorte.
Como os dois eram de raças diferentes, Pandora se perguntou se eles já tinham pensado que talvez não pudessem ter filhos por serem de raças diferentes. Apesar de que ela já ouvira falar que haviam meio-elfos, mas eram filhos de humanos com elfos. Teriam os orcs a capacidade de terem bebês com elfos? E como seriam esses bebês?
Rukiah chegou com as cervejas e entregou uma caneca para cada um. Viu não trouxera uma para Tewdric, entregou a dela a ele e voltou para pegar outra. Logo, estavam todos sentados novamente juntos, e Liu Pata Serena revelou:
— Estou casado há cinquenta e sete anos.
O pandaren falou com orgulho e satisfação, mas sua neta apenas baixou a cabeça para a caneca.
— Espero que eu possa ter um casamento tão longo assim. — desejou Kassyeh alegremente – Quando conheceremos sua esposa?
Rukiah sacudiu a cabeça e falou, tristemente:
— A vovó Yasu faleceu há dez anos. O nome da minha irmã é em homenagem a ela.
— Ah, sinto muito. – falou a elfa, pesarosa – O senhor é viúvo, então?
O velho negou com a cabeça.
— Ela partiu desse mundo, mas, enquanto eu a amar, ainda me considerarei casado com ela. – falou o velho, fazendo sua neta suspirar.
— Vovô, já falamos sobre isso. O espírito da vovó Yasu não vai descansar enquanto o senhor não aceitar que ela se foi!
— Eu aceitei que ela se foi! — protestou o velho – Vocês que não aceitam que eu ainda honre meu compromisso com ela mesmo depois de sua partida! — o velho bufou – Os jovens de hoje em dia não respeitam mais os relacionamentos! Só querem saber de “ficar”! — disse fazendo aspas com os dedos.
— Vovô! — protestou Rukiah – Isso é jeito de falar na frente dos convidados?! — ralhou.
— O que é “ficar”? — perguntou Kassyeh sem entender.
— É sair namorando todo mundo e não se compromissar com ninguém! — o velho olhou para a neta, chateado – Eu sei que você anda ficando por ai!
Rukiah rolou os olhos e tomou um gole de cerveja.
O vovô Pata Serena lembrou a Pandora seu próprio avô e se perguntou se, quando envelheciam, todas as pessoas, não importando a raça, tendiam a ficar igualmente incomodadas com os mais jovens. O discurso do pandaren não era diferente do que o velho Sebastian dizia para os netos que preferiam não se casar. E, apesar de achar que os idosos exageravam, Pandora entendia a frustração deles. Ela mesma gostaria de, um dia, encontrar alguém a quem pudesse se dedicar toda a vida. Afinal, ficar procurando por ai era cansativo e ela tinha coisas mais importantes para fazer. Encontrar logo alguém e se acomodar poupava tempo e paciência.
— É um sentimento muito bonito, o do senhor com sua esposa. – falou Pandora com sinceridade – Acho que meus avós também fariam o mesmo que o senhor se um dos dois morresse. Eles são muito unidos.
Liu Pata Serena apontou para Pandora e olhou para a neta como se dissesse “Viu? Alguém concorda comigo!”
— E seus avós? – perguntou Rukiah a Tewdric e Kassyeh tentando ignorar o avô.
— Já faleceram. – respondeu a elfa.
— Ah, sinto muito. — respondeu a pandarena – Os seus também? — perguntou a Tewdric.
— Nunca conheci minha família de sangue. – o orc falou – Fui criado num lar coletivo. Minha família são minhas elfas. – e passou a mão no rosto de Kassyeh, que sorriu.
— Suas elfas? — perguntou o vovô.
— Somos quatro irmãs. — revelou Kassyeh – Luxuriah é a mais velha. Depois sou eu, Ashrial, Karensky e agora tenho uma sobrinha também, a Tinuviel, filha da minha irmã mais velha.
— E o titio Aethas! — disse Tewdric animado – É o único elfo no meio dessas belezuras. — e riu segurando o queixo de Kassyeh.
Quanto mais Pandora convivia com Tewdric, mais gostava dele. Aquilo devia ser uma maldição daquela terra, tinha certeza.
— Bem, a jovem Pandora aqui estava me falando sobre Horda e Aliança. – disse o pandaren – E confesso que eu não estou entendendo muito bem.
Tewdric deu uma risada e falou:
— Nem eu entendo também, vovô! Nem eu!
— É uma longa história de guerra e ressentimento. — falou Kassyeh.
— Mas o ressentimento não é tão forte a ponto de fazê-los deixar duas pessoas do povo inimigo entregues à própria sorte… — lembrou Rukiah.
— Ah, eram só crianças. — disse Tewdric e Pandora bufou, irritada – Tá, uma criança e uma jovenzinha que o protegia com uma lança improvisada. Isso contou. Se fossem dois adultos, acho que eu só teria continuado andando, sem me preocupar. — admitiu com sinceridade.
— Se fossem dois adultos teriam atacado você. — supos Pandora.
— Talvez. Talvez não. — Tewdric deu de ombros – Não saberemos.
— Mas então você não os odeia. — concluiu o velho.
— Ah, odiar dá trabalho! — exclamou Tewdric – É mais fácil pensar assim, a Aliança quer nossas cabeças então vamos lutar contra ela! Mas odiar cada pessoa individualmente? — ele sacudiu a cabeça – Isso é insano.
— Então você não odeia os humanos? — perguntou Pandora, abismada.
— Odeio o que eles representam. — a resposta de Tewdric foi singular porque o orc usou “eles” e não “vocês”, como se não a considerasse humana – Os humanos nos humilharam, nos degradaram, nos… — o orc não completou a frase, e retomou com outra fala – São esses os humanos que eu odeio. Quando vejo um no campo de batalha penso no que eu já sofri quando criança. Sei que aquele homem não tem culpa pessoalmente, mas a bandeira que ele carrega, sim.
— Mas vocês nos invadiram primeiro! — exclamou Pandora, esquecendo o quando gostara de Tewdric por um momento – Destruíram Ventobravo!
Tewdric suspirou.
— É verdade… — admitiu.
— Você estava lá? — perguntou Rukiah espantada.
— Eu não tinha nascido ainda. — falou Tewdric – Não nasci em Draenor. Nasci num campo de concentração em Lordaeron.
— Campo de concentração? — perguntou o velho.
— Sim. Eram onde os humanos nos mantinham como escravos.
Aquela frase fez os olhos de Rukiah e do velho se arregalarem, num misto de espanto e compaixão. Pandora sempre soubera que os reinos humanos havia escravizados os orcs, mas nunca parara para pensar naquilo. Agora estava diante de um orc que fora escravo e odiava os seres humanos por isso. E ele os salvara.
Que bosta. Como não gostar daquele orc?
— Você foi escravo? — perguntou Pandora sem se conter.
— Sim. Desde que nasci até nosso Chefe Guerreiro, Thrall, invadir o campo onde nos mantinham e nos libertar. — os olhos de Tewdric brilharam ao falar o nome de Thrall – Por isso sou fiel à Horda e ao que ela representa para mim. Liberdade.
O que a Aliança representava para ela? se perguntou Pandora. Nunca se perguntara aquilo. Era tão natural ser da Aliança quanto ser ela mesma. Era algo que não costumava pensar porque não se questionava a respeito.
— Que complicação. — o velho pandaren pegou novamente sua rede de pesca e voltou a consertá-la – Vocês estrangeiros são muito complicados.
— E o senhor ainda nem ouviu minha parte. — riu-se Kassyeh.
— Pelos Celestiais, tem mais? — espantou-se o velho.
— No começo, meu povo era aliado do dela. — e apontou para Pandora – E inimigo do dele. — e apontou para Kassyeh.
— Isso está me deixando com dor de cabeça. — reclamou Rukiah massageando as têmporas.
— Pois traga mais cerveja, minha filha, porque acho que a história vai ser longa. — o velho Liu Pata Serena colocou a rede de lado mais uma vez. — Conte tudo, por favor.
E Kassyeh o fez.
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— Aqui está! – anunciou Vincent mostrando o prato orgulhosamente – Omelete de queijo com tomate e manjericão para nossa mamãe!
Doroteya deu uma risada, sentindo encabulada. Havia um coraçãozinho feito com ketchup em cima da omelete.
— Não precisava, Vin. – falou carinhosamente recebendo o prato – Eu poderia comer algo mais simples.
— De jeito nenhum! – o paladino colocou uma xícara de chá ao lado do prato – Você precisa de energia!
— Obrigada. – agradeceu ela antes de dar a primeira garfada e levar à boca – Está uma delícia!
Vincent sorriu, satisfeito com seu trabalho.
Doroteya estava tão feliz que achou que poderia explodir. O estresse do dia anterior ficara para trás e seus medos esvaneceram na alegria da chegada de sua filha e em todo amor que a rodeava.
Quando tivera Theo, estava tão assustada e sozinha… Não havia ninguém para ajudá-la, ninguém com quem pudesse compartilhar sua angústia, ninguém para aconselhá-la… Tudo que sabia sobre bebês fora o que aprendera observando sua mãe nas consultas que esta fazia às mães e crianças das vilas próximas à floresta. O resto, tivera que aprender na prática. Ainda se surpreendia de ter criado uma criança saudável contando apenas com seu parco conhecimento e instinto, e agradecia imensamente a Eluna pelo discernimento e proteção. Agora, naquela fase da vida, podia simplesmente relaxar e observar sua filha sendo mimada e provar uma comida maravilhosa enquanto se recuperava do parto.
Era manhã e Liana tomava seu primeiro banho de sol, nos braços de seu tio Mel. Doroteya, na mesa do jardim, comia sua omelete, ao lado de Theo, que devorava pão com queijo com voracidade. Tommy tomava seu café puro, observando Fey, que esperava ansioso sua vez para pegar a nova sobrinha. Vincent servia o café da manhã a todos, parecendo muito feliz em partilhar aquele momento. Uma manhã tranquila na casa dos Wood.
Apesar de ter menos de 24 horas de vida, Liana já tinha colocado Fey e Mel no bolso, transformando-os em fãs fervorosos. Os dois alfaiates tinham passado a noite adicionando babados e lacinhos às roupinhas que costuraram anteriormente, pois, como não sabiam o sexo do bebê, costuraram da forma mais neutra possível. Depois do nascimento de Liana, além da customização das roupas, os tios também fizeram acessórios e a menina ostentava um grande e brilhoso laço vermelho no topo da cabeça.
O amor extremo ofertado pelos tios também trouxera algumas desavenças entre os irmãos Wood. Liana havia sido o pivô de um escândalo por parte de Fey e Mel quando estes descobriram, cedo naquela manhã, que Lina acordara cedo e dera o primeiro banho na menina antes de sair para a bastilha. Doroteya os acalmara dizendo que eles poderiam dar o primeiro banho de sol. Aquilo os acalmara e levara toda a família para o quintal. Agora, Mel andava de um lado para o outro, com Liana aconchegada em seus braços fortes, com um sorriso imenso, sendo acompanhando por Fey, que aguardava sua vez.
— Ela está linda, não está? – perguntou Mel pela milésima vez a todos.
— Está sim. – concordou Doroteya – Mas vocês não precisavam ter enfeitando-a tanto. Pode ser que, no futuro, ela não goste dessas coisas.
— Aí, no futuro, nós paramos de fazer vestidos e laços. Enquanto ela não puder escolher o que usar, escolho eu! – decidiu Mel.
— Era assim com tia Lina? – perguntou Theo curioso.
— Nós a vestíamos como se fosse uma bonequinha! – lembrou Fey saudoso.
— Até que ela aprendeu a arrancar os laços da cabeça e tirar a roupa sozinha... – lamentou Mel – Depois disso, nunca mais…
A tristeza no rosto dos dois alfaiates era visível.
— É minha vez, Mel! – exigiu Fey estendendo os braços – Você já passou tempo demais com ela nos braços!
— Mas eu mal peguei nela… – protestou o outro.
— Deixe de mentira, você está com ela desde o início. – e mexeu as mãos pedindo Liana – Vamos, vamos!
A contragosto, Mel passou a menina a seu irmão.
— Vem com titio, meu amor. – agora a menina se aconchegava nos braços de Fey – Quem é a menina mais bonita do mundo? É você! – e passou a andar com ela tal como o irmão fizera antes.
Tommy sorria, mais feliz do que já estivera em muito tempo. Olhava o rostinho da filha, redondo como o da mãe, os cabelos negros arrepiados e rebeldes ao redor do laço e os pequenos olhos verdes se destacando. A Luz lhe dera dois filhos e os tirara dele. Agora, lhe dera mais dois, que jamais substituiriam os que perdera, mas que deixavam seu coração mais tranquilo e seus dias mais felizes.
Não esperava que Liana decidisse nascer logo no dia em que não estava em casa, mas tudo correra bem. Exceto pelo fato do avô de Theo ter descoberto sua existência. Olhou para a esposa, que comia com vontade sua omelete e se perguntou como diria a ela que seu pior medo se concretizara e ele nada pudera fazer para evitar.
“Não.”, pensou “Não vou deixar isso estragar minha manhã. Daremos um jeito nisso em outro momento.”
— Quando vocês vão me deixar pegar a minha filha? – perguntou Tommy afastando os pensamentos sombrios de sua cabeça.
— Em algum momento. – falou Fey alegremente a recém-nascida no braço.
— Eu já peguei! – anunciou Theo levantando a mão – A mamãe deixou eu pegar quando ela tomou banho! Ela é bem levinha!
— Mas vai ficar pesada logo, logo. – avisou Doroteya – E se vocês a acostumarem mal, ninguém vai aguentar ficar com ela no braço quando estiver maior e teremos choro infinito.
— Ah, titio Vincent vai aguentar ela no braço por muito tempo. – falou Vincent fazendo biquinho e passando o dedo nos cabelos negros da menina – Titio Vincent é fortão!
— Mas mamãe Doroteya não é. – lembrou a druidesa terminando a omelete e desejando outra, mas sem coragem de pedir.
— Aí a senhora vira urso! – sugeriu Theo com os olhos brilhando – E ela se agarra no pelo da senhora e fica quentinha!!!
Foi tão fofo, que todos fizeram ‘ownn’ quando o menino falou.
— Quer outra omelete, Doro?
A druidesa hesitou um pouco, e isso fez com que o Vincent pegasse o prato e se levantasse em seguida.
— Não precisa se incomodar! – falou ela gesticulando com as mãos.
— Claro que precisa! Você está amamentando! A alimentação é fundamental! – e sumiu cozinha adentro.
— Vai continuar sendo paparicada um bom tempo, Doro. – falou Tommy rindo, colocando um cacho do cabelo volumoso atrás da orelha dela.
— Acho melhor parar de reclamar… – respondeu suspirando.
Pouco tempo depois, Doroteya comeu mais duas omeletes e três xícaras de chá, em tempo de Liana finalmente se cansar e começar a chorar, exigindo ser alimentada. Como o sol já estava ficando mais forte, toda a família se deslocou para a cozinha, onde Doroteya acomodou a filha em seus braços e passou a amamentar. Theo viu a irmã sugar o seio da mãe com voracidade e perguntou:
— Eu era esfomeado assim também? – quis saber.
— Ah, sim! – disse Doroteya rindo – Eu perdi muito peso quando estava amamentando você, mesmo que comesse o dobro do que eu comia antes!
— Se depender de mim, isso não vai acontecer de novo. – garantiu Vincent vestido com o avental onde estava escrito “Melhor namorado do mundo”, feito sob medida para ele – Estou lendo muitos livros sobre comida vegetariana e vocês não fazem ideia de quantas coisas diferentes e nutritivas dá para fazer! Você vai ficar muito bem alimentada!
— Ah, que bom, porque eu já estava cansada de comer todos aqueles bichinhos… — murmurou a druidesa.
Liana mamou numa velocidade invejável, com o que Fey chamou de “apetite dos Wood” e esvaziou os seios da mãe. Tommy finalmente pode pegar sua bebê nos braços e a colocou para arrotar. A menina arrotou tão alto que arrancou risadas de todos. Depois, dormia nos braços do pai, que não queria largá-la de jeito nenhum.
— Só um pouquinho mais! — pediu Mel.
— Eu mal a peguei! — protestou Fey.
— Minha vez, maninhos. — falou Tommy e depois deu um beijinho na menina – Liana vai ficar um tempo com o papai.
Os irmãos o olharam, chateados.
— Já avisaram à mãe de vocês do nascimento de Liana? — perguntou Vincent.
Tommy fez que sim.
— Mandei uma carta para ela ontem. Esperem para ver, dona Mariana e seu Sebastian vão aparecer aqui em uma semana, no máximo.
— Ah, ela não vai demorar tanto! — supôs Fey – Amanhã ela deve chegar. Será o tempo só de arrumar as malas e colocar o cavalo na carroça!
— Acho que não, estamos em época de colheita. — lembrou Tommy – Ela vai deixar as coisas encaminhadas na fazenda antes de sair.
— Ah, ela então vai trazer um monte de uva! — animou-se Theo.
Sempre que havia colheita, dona Mariana reservava algumas videiras para tirar uvas para seus netos. Ela então mandava alguém de casa ou vinha pessoalmente a Ventobravo com as frutas. Ela ensinara a Doroteya como fazer suco concentrado e geleia para aproveitar as uvas ao máximo. Era um período do ano esperando ansiosamente por todos.
— Acho que ela vai trazer uns barris de suco também, para fazer a Doro tomar bastante. Ela diz que ajuda a produzir leite. — supôs Mel.
Doroteya, que desde o nono mês de gravidez vivia com os seios cheios de leite, exclamou:
— Se eu produzir mais leite, vou conseguir o suficiente para fazer queijo!
As gargalhadas acordaram Liana, que protestou com um choro alto, fazendo Tommy olhar para todos com o cenho franzido.
— Shhh! — ordenou.
— Você riu também! — falou Mel, quase num sussurro.
— Ninguém mais ri alto! — ordenou baixinho.
Os irmãos reviram os olhos, mas não disseram nada. Liana não tardou a dormir de novo e Tommy já pensava em levá-la para o quarto e colocá-la no berço quando o sino da frente começou a tocar bem alto, por alguém nitidamente impaciente. Liana caiu no choro novamente.
— Será que já é a mamãe? — perguntou Tommy acalentando a filha, surpreso.
— Vou ver!! — Theo se adiantou, mas Vincent o segurou, gentilmente.
— Deixa o tio abrir a porta, ok? — falou carinhosamente.
Doroteya não percebeu os olhares trocados pelos dois, que dizia Vincent não estava apenas sendo delicado, mas estava sendo cuidadoso. Afinal, Greymane aparecera ali no dia anterior e podia ser ele novamente. Duvidava que Lina ia deixar que o homem saísse da bastilha sem ver, mas o paladino preferia prevenir. Por isso, tirou o avental e se dirigiu para a porta. No caminho, pegou discretamente a espada e então abriu a porta.
— Vin! — gritou Arshe antes de dar um abraço apertado nele.
— Arshe! — exclamou o paladino retribuindo o abraço – Há quanto tempo!
— Vim assim que soube! Cadê a Doro? E Liana? — perguntou com ansiedade.
— Na cozinha!
Arshe adentrou a casa como um torpedo mágico e Vincent já ia fechar a porta quando viu um elfo parado logo à frente, com uma torta nas mãos e um sorriso constrangido na face.
— Bom dia. — falou timidamente.
— Você deve ser o Kayliel. — falou Vincent com um sorriso – Entre, por favor.
Kayliel fez menção de entrar, mas viu a espada na mão de Vincent e parou, assustado. Vincent percebeu e largou a espada no porta guarda-chuva.
— Desculpe, não era para você. — e se afastando da porta, apontou o interior – Entre, por favor.
Kayliel finalmente entrou, não sem rezar para Nascente do Sol para ninguém o matar.
Na cozinha, assim que viu Doroteya, Arshe pulou em cima dela, a abraçando com força.
— Doro! Como você tá? Eu fiquei tão preocupada com tudo!
— Estou bem, Arshe. — garantiu a druidesa, retribuindo o abraço – Foi só um susto.
— Um susto? Foi tipo, pior que um susto! Greymane vir assim, desse jeito!
Tommy gelou da cabeça ao pés e apertou a filha entre os braços.
— Greymane? — estranhou Doroteya – Do que você tá falando?
Na carta que recebera, Lina deixava claro a Arshe que Doroteya ainda não sabia o que tinha acontecido e própria Lina ia resolver antes de qualquer coisa. Mas claro, ao ver a amiga com a aparência tão frágil, fez Arshe simplesmente esquecer e falar demais. Quando percebeu a merda que fez, tentou corrigir.
— Greymane? Eu falei Greymane? — e olhou ao redor, fingindo confusão – eu quis dizer o bebê. O bebê vir desse jeito. — e deu uma risada.
Arshe mentia muito bem, mas Doroteya estava mais sensível que o normal e notou um pouco de nervosismo em sua fala. Então, olhou para Tommy e viu seu rosto empalidecido. Olhou para o filho, que baixou logo a cabeça.
— Ele te viu, Theo? — perguntou num fio de voz – Greymane te viu na Bastilha?
— Claro que não, Doro! — Arshe tentou atrair a atenção para si mesma – Desculpe meu erro, eu…
Doroteya lançou um olhar raivoso para a amiga e rosnou:
— Não minta para mim, Arshe! — e encarou o marido – O que aconteceu, Tommy?
— Gente, trouxe mais um convidado! — anunciou Vincent trazendo Kayliel.
Todos os encararam ao mesmo tempo e os dois pararam na porta da cozinha, notando a tensão no ar. Kayliel sentiu um pânico crescendo dentro dele, então levantou as mãos bem devagar, e gaguejou:
— T-trouxe to-torta… — as mãos que seguravam o prato tremiam.
— Torta! — exclamou Mel indo em direção à porta, pegando a torta e trazendo o trêmulo elfo para dentro – Muito obrigado, elfo bonito! Quem quer um pedaço?
— Eu! — falou Fey escorregando para onde estava Mel – É de que?
Kayliel demorou um segundo para perceber que o homem falava com ele.
— Amora. — falou um pouco mais calmo.
Naquele momento, Doroteya bateu com força as mãos na mesa, já transformada em worgenin e rosnou para Arshe.
— A verdade!
Arshe se encolheu, amedrontada. Liana começou a chorar e, imediatamente, Doroteya voltou ao normal e se lançou contra Tommy, pegando a menina, numa atitude protetora.
— Mamãe! — Theo foi até a mãe e a abraçou – Sinto muito! Ele me viu!
Doroteya então caiu num choro agudo, que mais parecia um uivo. Liana acompanhou a mãe no choro.
— Doro, calma meu amor, calma! — falou Tommy rodeando-a – Eu não vou deixá-lo fazer nada! Eu juro!
— Desculpa, desculpa! — dizia Arshe abanando com as mãos Doroteya e tentando acalmá-la. – A Lina vai resolver tudo Doro, vai sim!
Todo o medo que Doroteya cultivava há anos a atingiu, e ela não conseguia se controlar. E seu corpo, ainda fragilizado pelo parto no dia anterior, respondeu.
— A mamãe tá sangrando! — gritou Theo.
Sangue estava escorrendo do meio de suas pernas e todos entraram em pânico.
Menos Kayliel.
Doroteya começou a perder a força nas pernas e Tommy segurou-a, passando as mãos pelo corpinho de Liana também. Kayliel então se adiantou rapidamente, dessa vez sem temer, e evocou uma magia de cura no ventre da worgenin. O sangramento parou no mesmo instante e Doroteya suspirou, um suspirou alto de alívio, e seu choro abrandou-se.
— Você precisa se acalmar, mamãe. — falou o elfo com delicadeza – Veja todas essas pessoas aqui preocupadas com você…
A voz de Kayliel era macia e delicada, fazendo Doroteya se acalmar. Ela respirou fundo, apertando os olhos e depois encarou-o.
— Obrigada. — agradeceu.
— É melhor você se deitar um pouco. — sugeriu – Descansar.
— Eu te levo para o quarto, meu amor. — disse Tommy pegando-a nos braços.
Doroteya não protestou quando o marido a pegou e aconchegou mais a filha, antes de falar:
— Theo…
Prontamente o menino a acompanhou. Tommy sequer usou o elevador, subindo o mais rápido possível Às escadas. Quando foram deixados a sós, lágrimas brotaram dos olhos de Arshe.
— Desculpem! Desculpem! Eu deixei escapar porque tava preocupada!
— Tudo bem, Arshe, tudo bem! — Mel a abraçou, consolando-a – Sabendo que foi sem querer!
— É, você nunca faria mal a Doro! — Fey entrou no abraço, consolador.
— Pensei que ela fosse me comer! — choramingou a maga – E Lina… Lina vai me matar!
— Vai nada! — garantiu Vincent – No máximo te dar uns tabefes, mas depois que souber que seu marido ajudou, nem vai ser tão ruim.
Kayliel ficou sem jeito. Sabia que sua vinda ia ser tensa, e foi, mas por motivos totalmente alheios a ele.
— Fico feliz em poder ajudar. Mas porque Doroteya ficou tão nervosa?
— É uma história complicada. — disse Vincent – Acho que preciso de um chá calmante.
— Tenho uma receita ótima, se você tiver as ervas certas. – ofereceu o elfo — Pode ajudar a mamãe nervosa também.
— Ah, venha ver a despensa. Temos muitas ervas. — e lembrando-se, disse – A propósito, não fomos formalmente apresentados. Sou Vincent, esse é meu namorado Mel e meu cunhado, Fey.
— Bom dia a todos. Sou Kayliel, marido de Arshe.
Os alfaiates, ainda abraçados a Arshe, consolando-a, acenaram com a cabeça e Vincent sorriu para Kayliel antes de falar:
— Bem-vindo à casa dos Wood.
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A rainha Mia acordou um pouco mais calma naquela manhã. O susto do dia anterior tinha passado e ela decidiu que não pensaria mais naquilo. Seu filho estava morto e era algo que ela deveria aceitar. A aparência do menino devia ser uma coincidência e, talvez, se o visse de perto, percebesse que ele não era tão parecido assim com Liam. Poderia ser apenas um desejo do seu coração.
“Mas Genn também viu…” lhe dizia uma vozinha na cabeça.
Só que seu marido sentia tanta ou mais falta de Liam que ela. Diferente da esposa, Greymane carregava a culpa de ser ele o alvo original da flecha que matara o filho. Decidiu que era hora de, finalmente, falar sobre o acontecimento que ele se negava a comentar.
Greymane, todavia, não estava na cama quando acordara. Depois de fazer sua higiene e vestir a roupa do dia, Mia o encontrou na sala da câmara onde estavam hospedados, com a expressão pensativa.
— Genn… — ela lhe chamou.
Ele a encarou. Seus olhos estavam vermelhos.
— Já acordado? Você dormiu, ao menos? — questionou a rainha.
— Muito pouco. — admitiu.
Mia suspirou e sentou-se na mesa com ele.
— Genn, se ainda é aquele menino… Esqueça-o. Deve ter sido nossa mente nos pregando peças…
— Não, Mia. — interrompeu ele – Tenho motivos para acreditar que aquele menino é nosso neto.
A rainha ficou tão chocada que perdeu a voz. Ficou encarando o marido, achando que ele havia enlouquecido.
— Genn, eu sei que você sente a falta do nosso filho, mas acho que isso está mexendo com você mais do que deveria. — disse ela, preocupada – Sei que você se sente culpado, mas...
— Não é isso, Mia. – disse com a voz cansada.
— E o que é?
Contar a sua amada esposa que havia escondido algo dela há muito tempo deixou Greymane um pouco hesitante. Porém, Varian estava certo quando dissera que ela precisava saber toda a história.
— Meu amor, existe uma… uma moça… Que teve um caso com Liam há muito tempo… E há indícios que aquele menino é filho dela… — explicou ele.
Mia ficou em silêncio por alguns segundos, digerindo o que seu marido estava dizendo. Não fazia sentido. A rainha se orgulhava de conhecer seus filhos como ninguém e Liam nunca lhe contara sobre moça nenhuma. Ela saberia se seu filho tivesse se envolvido com alguém.
— Que moça é essa que nunca ouvi falar? — questionou, estranhando a história.
— É uma longa história, Mia… — Greymane não queria abordar aquela história naquele momento – Mas quero que você saiba que vou resolver isso hoje.
— Você vai perguntar a ela sobre o menino?
Uma estranha emoção se apossou de Mia. Se aquela história fosse verdadeira, ela teria um neto… um neto! Poderia ser tão abençoada assim? Teria seu filho deixado uma semente naquele mundo, além das boas lembranças que guardara?!
— Não, à moça não. — esclareceu o rei – Falarei com alguém que sabe da história. Na verdade, tenho que ir, acho que ela já chegou.
E se levantou. Mia o imitou.
— Vamos. — chamou ela.
Greymane ficou desconcertado.
— Meu amor, acho melhor você deixar eu….
O olhar que ela lhe lançou foi tão impactante, que Greymane calou-se na mesma hora.
— Se é algo relacionado à nossa família, eu vou. — avisou ela, decidida – E não se atreva a tentar me impedir, Genn.
Levantou-se da mesa, resoluta e se encaminhou para a porta.
— Onde você se encontrará com essa pessoa, Genn? — perguntou.
— Na sala do rei, amor. — disse, sabendo que não adiantaria se opor à esposa.
— Ótimo, vamos. Mas, antes, precisamos tomar o café da manhã. Nenhuma conversa tão importante deve ser feita com fome. Venha.
Sem escolha, restou para Greymane segui-la.
Enquanto a realeza de Guilneas comia, esperando o momento do encontro, Lina já estava na bastilha. Acordara cedo como o habitual, dera o primeiro banho de Liana, e sequer tomou café, pois, custava a admitir, estava muito nervosa com o problema que encararia. Naquele dia, ela não dispensou sequer a capa azul e dourada do uniforme. Queria mostrar para o cachorro doido que ele não estava lidando com qualquer pessoa. Começava a concordar com Vincent que a Luz protegia mesmo sua família, pois estar naquele cargo logo quando precisava de força para lutar contra Greymane, além do documento inesperado de Theo, só mostrava como a situação estava propicia a eles. Fez questão de postar bem cedo a carta para Arshe, falando do nascimento de Liana e de toda a situação, pedindo que ela fosse a Ventobravo assim que possível. Arshe, mesmo sem o título de princesa, conhecia os pormenores da política e poderia achar uma brecha em quaisquer meios políticos que Greymane pudesse arrumar para prejudica-los e seria ela também a arrumar uma forma de contorná-los.
O desejo de Lina, contudo, era abrir uma brecha em Greymane.
Na cabeça.
Bem grande.
Assim que pôs os pés na bastilha, um soldado foi até ela e bateu continência.
— General, o rei a espera na sala dele. — informou.
“O cachorro doido já fez o primeiro movimento”, pensou se dirigindo para onde Varian a esperava.
A sala de reunião do rei estava vazia, exceto pelo próprio Varian, que estava de pé, olhando pela janela, quando ela entrou na sala.
— Feche a porta, general. — pediu.
Lina fechou. Pelo tom que usava, e o fato de chamá-la de general, sabia que a conversa seria tensa. Se aproximou da mesa dele e ficou parada, em pé, olhando-o. Varian respirou fundo e se dirigiu à sua mesa. Sentou-se pesadamente e fez o movimento para ela se sentar também. Lina o fez. Quando estavam cara a cara, ela percebeu resquícios de uma noite mal dormida em sua face. Sentiu ainda mais raiva de Greymane; ele provavelmente enchera o ouvido de Varian de coisas que o preocuparam. A última coisa que queria era ser fator de estresse para o rei, mas sabia que o era, pelo menos naquele momento. Afinal, era Lina que falaria no lugar de Doroteya. E o assunto afetava sua família diretamente. Varian a amava, logo, qualquer coisa que a afetasse, o afetaria.
— Genn conversou comigo. — começou, a voz cansada – E eu confesso que não sei o que pensar do que ele me disse.
Lina continuou calada.
Varian a encarou profundamente. Havia dúvida e receio em seus olhos.
— Lina… — a cautela transparecia em sua voz – Theo é filho de Doroteya?
— É. — confirmou.
Varian suspirou e passou a mão no rosto. Era o que temia.
— E ele é filho de Liam?
— Depende.
O rei franziu o cenho.
— Como assim? — perguntou, confuso.
— Há duas possíveis respostas para isso, Varian, e eu preciso saber qual vai ser a melhor para Doro e para Theo. — avisou, com sinceridade.
Sem acreditar no que estava ouvindo, Varian apoiou os cotovelos na mesa e cruzou as mãos na altura da boca.
— Lina, você faz ideia da gravidade que é essa situação toda?
— Faço. Eu tenho uma amiga que amo como uma irmã, que acabou de dar à luz, e tive que lidar com o rei Greymane gritando na minha porta e assustando todo mundo. — respondeu sem hesitação – Além do mais, ele está mexendo em uma história que deixará sequelas em muitas pessoas. Inclusive nele mesmo.
Aquela era exatamente a postura que Varian sabia que Lina adotaria. Seus olhos brilhavam de fúria e, mesmo que aquela raiva não fosse direcionada a ele, sentia-se atingido. Amava Lina, mais do imaginara que amaria de novo, e não queria que o relacionamento titubeante que construíram desmoronasse por causa dos problemas de outras pessoas. Porém, Greymane recorrera a ele, como amigo e aliado, e Varian precisava fazer algo, nem que fosse interceder a favor do outro. Só que não seria fácil. Não se fosse confrontar o lado superprotetor de Lina. E não era apenas ela. Havia duas crianças naquela história: Theo e a criança que acabara de nascer. O que deveria fazer, então?
Lina continuava encarando-o com o olhar selvagem de uma fera que está prestes a atacar, caso fosse acuada. Mas Varian não queria acuar Lina. Queria resolver a situação da melhor forma possível.
— Como está Doroteya? — perguntou tentando deixar o clima entre os dois menos tenso – E o bebê? Qual o sexo?
Funcionou. Lina descruzou os braços e sorriu.
— É uma menina! Tem carinha de joelho, mas sei que ficará linda! — os olhos dela brilhavam – Chorou a noite toda, mas Vincent diz que isso só mostra que ela é saudável. Tem um pulmão e tanto!
Varian sorriu.
— Fico feliz por ela e por seu irmão. Mandarei os parabéns quando… — ele fez um gesto com as mãos – Quando isso terminar. — recostando-se em sua cadeira, quis saber – A menina já tem nome?
— Liana. – revelou – Liana Marie Wood.
Se Varian fez conexão entre o nome de Liam e da filha recém-nascida de Doroteya, nada falou.
— Lina… — recomeçou cauteloso – Sobre a questão de Theo… Eu não vou assumir o lado de ninguém. Meu compromisso é como amigo de Genn. Não vou fazer nada contra Doroteya ou Tommy. Jamais faria isso. Você sabe, não sabe?
— Sei sim, Varian. – ela passou a mão pelos cabelos, angustiada – Porém, a corda sempre arrebenta do lado mais fraco, não é?
— Nada arrebentará, eu prometo.
— Não prometa o que você não poderá cumprir, Varian.
— Posso prometer ser justo, Lina. — falou, resoluto – Como rei, é meu dever. — e hesitando um pouco, retomou o assunto – Genn afirma que o menino é seu neto e que tem direitos. Doroteya pode provar que ele está errado?
— O rei Greymane pode provar que está certo? — rebateu.
Varian franziu o cenho.
— Você não está facilitando as coisas, Lina. — disse.
— Nunca lhe disse que eu era uma pessoa fácil. — respondeu dando de ombros – E você sabe que eu faço o que acho que tenho que fazer.
Pela Luz, ele sabia e a amava por isso, mas nunca imaginara não estar do mesmo lado que ela. Mesmo que não estivesse contra, não estar com ela o incomodava. Muito.
Os dois se calaram e se olharam. Varian não estava surpreso por Lina se colocar em postura defensiva. Estava triste, mas não surpreso. Passara a noite pensando em como aquela conversa seria difícil, pois Lina estava tentando proteger sua família e ele sabia que ela usaria todos os métodos que tivesse a mão. Mesmo que tivesse que confrontá-lo.
Pela postura que demonstrava, Lina, com certeza, estava pronta para o embate com Greymane. Afinal, era uma profunda conhecedora das leis de Ventobravo. Restava a Varian intermediar a situação que se desenvolveria em sua sala em instantes.
— Lina, eu só quero resolver essa situação. — explicou – Com o menor dano aos envolvidos. Principalmente a Theo.
— Isso não será possível, e você sabe Varian. Greymane não deixará que as coisas sejam fáceis.
— Eu não permitirei que Genn aja baseado apenas no rancor que nutre por Doroteya. — garantiu.
— Mas será justamente assim que ele fará, Varian! — exclamou Lina indignada – Ele não tentará ser razoável! Ele tentará ser impositivo!
— Lina…
— Não, me escute, por favor. — pediu e ele se calou – Eu não quero que você tome partido de Doroteya. Quero apenas que você faça valer as leis do reino. Se for assim, eu te garanto, que minha família será preservada.
“Então estou certo, Lina já tem um plano.”, aquele pensamento lhe trouxe alívio ao mesmo tempo que se sentiu mal por Greymane. Por mais que fosse rei de Guilneas, ele teria que obedecer às leis do reino em que vivia naquele momento, além de ter a consciência que Varian não permitiria que estas fossem contornadas apenas para agradar uma pessoa próxima. Se Varian fosse esse tipo de monarca, Lina já seria general há anos.
— Farei meu papel como rei. — garantiu.
Lina, então, relaxou.
— Para mim, é o suficiente. — e ela sorriu.
Varian retribuiu o sorriso, aliviado. Lina não era uma mulher de fazer exigências; naqueles anos em que estavam juntos, ela nunca lhe pediu nada, a não ser sua sinceridade. Porém, era justamente seu desprendimento que o fazia ficar ansioso por dar-lhe o que estivesse ao seu alcance e, naquele momento, o que poderia dar era justiça.
Enquanto esperavam a chegada de Greymane, Varian tentou levá-la por conversas mais amenas. Comentaram sobre a viagem de suas crianças para Exodar, de como estavam ansiosos pela transmissão de Taylor, falaram sobre os planos de Lina para a fazenda que desejava comprar e, invariavelmente, a conversa foi para Doroteya e seu bebê recém-nascido.
— O nome da menina, Liana... — Varian coçou o queixo – É uma homenagem a você?
— A mim? — surpreendeu-se Lina – Não, por quê?
— Lina… Liana… São nomes parecidos.
— Não, não… Não foi uma homenagem a mim.
— Uma pena, você é alguém que, sem dúvida, merece uma homenagem de sua família.
As bochechas de Lina ficaram vermelhas e ela deu uma risada tímida. Varian ficou feliz e surpreso por ter conseguido esse efeito nela.
O clima leve dissipou-se quando a porta da sala se abriu e Greymane entrou. Acompanhado de sua esposa, o rei de Guilneas chegara no momento exato da risada de Lina e do olhar apaixonado lançado por Varian a ela. No mesmo instante, Greymane percebeu que estava certo e que havia algo a mais que apenas uma paixonite do rei pela general. Esperava que aquilo não nublasse o senso de deu amigo.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Quando percebeu a presença de Greymane e da rainha Mia, o sorriso de Lina morreu e ela levantou-se prontamente, fazendo uma breve reverência.
— Majestades. — disse ela respeitosamente.
Mia ficou surpresa ao ver que era Lina a pessoa que seu marido se referira, pois a general era natural da região de Ventobravo e, pelo que sabia, não tinha parentes em Guilneas. Puxou por sua memória e lembrou que havia uma druidesa guilneana que trabalhava junto a general, mas nunca prestara muito atenção em nenhuma delas. Teria seu neto estado realmente tão perto, durante aquele tempo todo?
Da mesma forma que a rainha Mia não esperava a presença da general, muito menos esta imaginou que Greymane levaria a esposa para a conversa. Se perguntou se era um ardil do cachorro doido para sensibilizá-la. Se era, Greymane realmente não conhecia Lina. Mesmo que a mulher caísse em prantos, seria um preço a pagar para que sua família continuasse sorrindo. Não trocaria a felicidade dos seus por quem quer que fosse.
— General Wood. — quem começou foi a rainha Mia – Que inesperado…
— Posso lhe dizer o mesmo, vossa majestade.
A tempestade já se avizinhava, percebeu Varian pelos olhares trocados por Lina e Greymane. Eram como dois animais selvagens, um procurando no outro o ponto fraco para atacar. A rainha Mia também percebeu a animosidade e que esta não era recente. Estava óbvio que, o que quer que estivesse acontecendo, lhe fora ocultado a mais tempo do que pensara. Caberia a ela manter a cabeça no lugar.
— Há espaço para todos sentarem-se. — disse Varian fazendo um gesto com a mão – Acomodem-se, por favor.
— Se me permite, majestade, prefiro ficar de pé. — pediu Lina.
Aquilo não era, definitivamente, nada bom, pensou Varian. A postura defensiva da general, contudo, não tirou a calma de Mia, que encarou Lina e pediu:
— General, acredito que conversaremos melhor se estivermos todos bem acomodados. Somos adultos civilizados, certo?
Definitivamente Lina não era civilizada e teve vontade de dizer aquilo à rainha Mia. Se aquela situação afetasse apenas à própria Lina, ia mandar a civilidade à merda e começar a gritar com quem quer que fosse. Contudo, era a paz de Doroteya e o futuro de Theo que estavam em jogo. Que tipo de pessoa seria se permitisse que sua família se desmanchasse? O tipo de pessoa que odiava.
— Tudo bem, majestade. — aceitou receosamente – Acredito que possa tentar.
A general sentou-se na cadeira que ocupava anteriormente à chegada dos dois. Todavia, ela sentou-se na ponta da cadeira, tensa, sem se encostar no espaldar, cruzou os braços e encarou o casal. Estava sentada, mas adotara a postura de quem poderia começar uma briga a qualquer instante.
Vencido a tensão inicial, Greymane percebeu que ao trazer sua esposa, tinha um trunfo em mãos. Mia sabia lidar com pessoa difíceis e a general poderia ser dobrada pela voz calma e pulso firme de sua rainha. Ficou mais confiante do que estivera antes e sentou-se ao lado da esposa, o olhar indulgente na face. Se soubesse a vontade que Lina tinha de socá-lo, não teria sorrido daquela forma.
— Antes de qualquer coisa, — começou Varian – quero deixar claro que não assumirei lado nenhum que não seja a justiça de Ventobravo. Por mais que ambos sejam de pessoas preciosas à Aliança.
Greymane e Lina já esperavam por aquilo e fizeram um enorme esforço para não se encarar quando Varian falou. Contudo, Mia não entendeu. Do que exatamente Varian falava? Não estavam ali para discutir sobre a existência ou não de um neto dela e do marido? O que a justiça tinha a ver com aquilo?
— Perdoe-me a ignorância, mas do que exatamente você está falando, Varian? — perguntou, expressando sua confusão – Por que você assumiria lados?
Varian encarou Greymane, intrigado.
— Você não contou a ela? — perguntou.
— Contei o suficiente. — respondeu Greymane.
A cabeça da rainha se virou para o marido instantaneamente, franzindo o cenho.
— O que, exatamente, eu deveria saber que não sei, Genn?
A expressão dura no rosto de Greymane vacilou, ante o olhar inquisitorial de sua esposa.
— Meu amor… — começou com a voz suave – Você não precisa se preocupar com isso agora.
A mente de Mia encheu-se de lembranças antigas e dolorosas, e seus olhos deixaram aquilo visível. Anos atrás, em uma noite, percebera que seu marido sumira. No começo, achou que ele poderia estar com insônia, ou ter ido ao banheiro, mas seus sumiços foram se alongando e se intensificando, até que, interpelado, ele lhe dissera aquela mesma frase, para esconder um segredo que colocou todo seu povo em perigo.
— Não preciso?! – a voz dela se alterou – Genn, Liam era meu filho também. Meu filho! Você não o criou sozinho!
— Mia… — por um momento, Greymane esqueceu de Lina e percebeu que tinha outro problema nas mãos – Eu apenas…
— Apenas o quê, Genn? — a voz da rainha se tornou mais estridente – Apenas devo baixar a cabeça e esperar que alguém leia a minha mente e me responda às minhas dúvidas? Ou apenas devo ficar em meu lugar e esperar que você me encha de fatos incompletos e distorcidos alegando que é para minha proteção?! Depois de todos esses anos, Genn, você deveria ser aquele que sabe que eu não preciso disso! — e se virando para Lina, perguntou – E se eu perguntar a você, general Wood, você me responderia?
A expressão de Lina era de atordoamento. Algo que não esperava, que jamais passara por sua mente, era que a mãe de Liam nada sabia do que acontecera na vida do filho. Tentou puxar pela memória qualquer coisa que Doroteya poderia ter dito a respeito, mas em suas conversas, era sempre o nome de Greymane que era evocado. Nunca da rainha. Tinha até mesmo falado da princesa Tess, certa vez. Mas da rainha, nunca. Não devia, mas ficou mais calma. Ver o cachorro doido ser colocado em seu lugar pela esposa era algo que não esperava. Recostou-se, enfim, na cadeira e permitiu-se descruzar os braços.
— Vossa majestade não sabe nada de Doroteya? — perguntou, ainda sem acreditar.
— Doroteya? — estranhou – A criança que vi era um menino… — ela entendeu – Ah, é a mãe do menino? Por que ela não está aqui? — Mia olhou ao redor como se esperasse que alguém saísse de algum lugar – Por que é você quem está falando por ela, general?
A rainha realmente não sabia. Não sabia de nada. Lina lançou um olhar rápido a Greymane e o rosto do rei estava rubro. Seria de raiva ou vergonha?
— Doroteya não pode vir porque acabou de dar à luz, majestade. — explicou – Está em puerpério.
— Oh! — um sorriso de apossou do rosto da rainha – Espero que ela se recupere bem. É menino ou menina?
— Menina. — respondeu Lina, um sorriso involuntário se formando no rosto – Minha quinquagésima oitava sobrinha.
— Sobrinha? — estranhou a rainha – Você não é de Ventobravo? A moça, afinal, é de Guilneas ou de Ventobravo? Estou realmente confusa.
— Doroteya é de Guilneas, mas casou-se com meu irmão Tommy, dois anos atrás. — explicou Lina, pensando que Mia era uma excelente atriz ou realmente não sabia de nada.
— Então você a conhece bem. — supôs a rainha.
— Sim, majestade.
— Então… Pode me falar sobre o menino? — quis saber, ansiosa – É verdade… É verdade o que o Genn me disse sobre ele?
Por mais que parecesse ser inocente em toda aquela história, Lina não deixaria que a rainha a abalasse. Estavam novamente em terreno perigoso, então se desencostou da cadeira e encarou Mia. Greymane sentiu-se ameaçado pela postura da general e se inclinou para perto da esposa.
— Depende, majestade. — a expressão de Lina ficou dura, novamente – O que o rei Greymane disse e sobre qual menino ele se referia? Como eu disse, tenho cinquenta e oito sobrinhos e…
— Theo não é seu sobrinho! — exclamou Greymane interrompendo a fala de Lina – Ele é meu neto, filho de Liam!
Lina, que já esperava a explosão do rei a qualquer momento, sequer pestanejou com a fúria que lhe foi dirigida. Mia, entretanto, encarou o marido, horrorizada.
— Genn! Não há necessidade de usar esse tom com a general! — reclamou, desgostosa.
— Esta mulher tem usado seu cargo para ocultar meu neto de mim! — acusou, levantando-se e apontando o dedo para Lina – Igual àquela outra que o escondeu durante todos esses anos!
— Como assim, “todos esses anos”? — questionou Mia – Você sabia dessa moça, Genn?
Varian viu a vergonha tomar o rosto do amigo mais uma vez e trocou olhares furtivos com Lina. A general tinha agora um quase imperceptível sorriso no canto da boca, fruto de sua satisfação em ver Greymane acuado pela própria esposa.
— Mia, meu amor… — começou ele – Podemos conversar sobre isso em outro momento? Não creio que isso seja relevante agora.
— Pois EU acho que é. — determinou a rainha – E se você não quer me falar, talvez a general queira. — e encarou Lina, esperando.
Por mais que quisesse contar todas as coisas que Greymane disse e fez com Doroteya, Lina preferia que fosse o rei a falar o que acontecera. Estava ansiosa para ver a quais mentiras ele recorreria para explicar à amada esposa todas as coisas que fizera a uma pobre moça camponesa que ousara se apaixonar pelo herdeiro de Guilneas.
— Eu não estava lá, vossa majestade. — falou em um tom delicado – Creio que seu marido é a pessoa certa para responder suas questões.
— Não tente desviar nossa atenção, general! — avisou Greymane, áspero.
— Eu jamais faria isso, majestade. — defendeu-se Lina com uma calma que estava deixando Varian apreensivo – Sua esposa fez perguntas que não estou hábil para responder. Posso contar o que sei pelo que ouvi de Doroteya. Se vossa majestade não se opor…
— Eu quero ouvir de sua boca, Genn. — avisou a rainha – Pelo visto, você tem escondido coisas de mim… E você me prometeu que jamais faria isso novamente.
A mágoa na voz de Mia despertou memórias que Greymane há muito evitava, quando suas aventuras noturnas com os nobres em Guilneas o levara a caminhos perigosos, onde fora infectado com a maldição dos worgens e quase perder a sanidade. E depois, como quando gostava de correr à noite, transformado, caçando com uma besta selvagem, testando seus limites como um tolo arrogante. Sim, Mia tinha todo direito de sentir-se magoada com mais aquele segredo que mantivera.
Resignado, Greymane sentou-se. Não esperava ter que lidar com aqueles fatos tão cedo naquela conversa. Suspirou, passando a mão pelo rosto, e começou:
— Há alguns anos… Liam me procurou. Ele havia conhecido essa… — Lina arqueou a sobrancelha, quando Greymane corrigiu – Conheceu a moça chamada Doroteya.
Mia esperou que ele continuasse, mas Greymane calou-se.
— Continue, Genn. — pediu ela.
“Isso, cachorro doido, continue”, pensou Lina.
A voz sumiu da garganta de Greymane porque lembrou-se do rosto iluminado e feliz do filho quando contou que encontrara uma mulher incrível e quanto apaixonado estava. Que queria casar com ela. A felicidade que ele apagara.
— Liam estava apaixonado por ela. Disse que queria que a conhecêssemos e pediu a permissão para casar. Eu recusei.
Essa primeira parte da história não chocou Mia. A deixou incomodada, mas não chocou.
— Qual motivo da recusa? — perguntou ela.
— A jovem era uma camponesa. — respondeu ele.
— E você queria casar Liam com algum aliado poderoso para Guilneas. — completou a rainha.
— Isso.
— E o que nosso filho fez?
— Não aceitou, claro. Esbravejou, bateu o pé e disse que não casaria com ninguém que não fosse ela. Foi quando… Quando tivemos aquela briga, que lhe deixou doente.
A briga que quase terminara com pai e filho em um combate físico. Mia lembrava de ter se sentido tão mal que todos evitaram falar sobre o episódio por semanas.
— Por que você não me contou o motivo da briga? — perguntou, magoada.
— Eu não queria preocupá-la com algo tão pequeno.
— Pequeno?! — a voz da rainha se alterou mais uma vez – Quando aquela confusão foi pequena, Genn? E quando a felicidade do meu filho se tornou um assunto que não merecia minha preocupação?
— A ira de Liam ia se desviar para você, Mia! — insistiu.
— Ou eu poderia intermediar a situação! Diga-me, essa moça era tão má a ponto de você sequer cogitar deixar-me conhecê-la?!
— Ela era uma camponesa, Mia! Uma enjeitada, criada na floresta! Que tipo de esposa ela daria para Liam?!
— Uma que o amasse era o suficiente para mim! — respondeu – Rainhas podem ser feitas, mas esposas não!
Greymane a encarou, horrorizado.
— Você deixaria nosso filho casar com uma comum? — perguntou, sem acreditar.
— Se isso poupasse nossa família de um racha, sim!
— Mas nossa família não rachou!
— Como não?! Se não houvesse rachado, eu não teria um neto que sequer conheço!
A dureza da frase atingiu Greymane, que se calou. Mia tremia, as mãos cerradas em punhos, encarando o marido com fúria.
Observando o embate, Lina se perguntou se haveria algo ainda de Greymane para ela socar depois que Mia acabasse com ele. Não que estivesse achando ruim, muito pelo contrário; viera para uma briga e estava assistindo uma de espetáculo.
Ao contrário da general, Varian estava muito preocupado com o desenrolar da situação. Era constrangedor presenciar a briga de um casal tão querido. A única coisa que conseguia fazer essa observar e torcer para que as coisas não piorassem.
Mas pioraram.
— O que você disse para Liam, Genn? — agora a voz de Mia assumia um tom de alerta, desafiando o marido a confessar o que ele achava inconfessável – O que disse para fazê-lo desistir de Doroteya?
— Não pude. Não o fiz desistir... Então... — ele pigarreou – Procurei a moça…
— Doroteya. — corrigiu Lina e Greymane lhe lançou um olhar furioso.
— Genn, você não fez nada de mal a Doroteya, fez? — questionou Mia.
Se tivesse feito, e a rainha rezava a Luz que o marido não tivesse descido tanto, não saberia como reagiria.
— Claro que não! — negou veementemente – Eu não a machuquei!
— Fisicamente. — esclareceu Lina.
Para Greymane, Lina tinha ido longe demais.
— Não se meta, general! — gritou Greymane.
— Se estou aqui para representar Doroteya, irei defendê-la. — e cruzou os braços novamente.
— O que você disse a ela, Genn? — sabendo o quanto seu marido poderia ser duro, Mia tinha receio do que ouviria. Lina devia ter motivos para ter dito aquilo.
— Eu não lembro exatamente. — explicou-se passando a mão pelos cabelos – Eu…
— “Se você o ama, suma da vida dele.” — Lina interrompeu-o recitando a frase – “Vocês dois não tem futuro, nunca terão e você sabe. Mostre que ama seu país e seu príncipe e vá embora para nunca mais voltar. Lhe darei quanto quiser. Mais dinheiro que verá em sua vida.” — e olhando para Greymane, completou – Ela lembra.
Greymane tinha certeza que não soara tão sem coração quanto Lina falara. Não lembrava o que tinha dito, então duvidava que Doroteya lembrasse também. Devia ser apenas Lina tentando causar comoção em Mia e, claro, conseguira.
— Oh, Genn… Não me espanta que Liam e você… — as lágrimas começaram a brilhar nos olhos da rainha – Quanto você deu a ela?
Greymane hesitou, e chegou a pensar que Lina responderia. Contudo, a general apenas o encarava.
— Nada. Ela não quis nada. E foi embora. Achei que nunca mais ia vê-la e então, quando a maldição se espalhou, ela reapareceu e Liam… — a raiva começou a invadir Greymane novamente – Tudo voltou! Liam a queria de novo! E foi por isso… Por isso brigamos antes dele… — a voz dele falhou – Foi por culpa dela!
A raiva de Lina se intensificou e estava prestes a refutar Greymane quando Mia falou:
— Você a obrigou a se afastar, Genn. – lembrou tristemente – Quando ela voltou, é obvio que Liam ficaria mexido, se a amava tanto.
— Ela deve ter usado o menino para manipulá-lo! — conjecturou – Liam deve ter ficado cego pelo menino! E por que não ficaria? Um filho perdido!
Era demais para Lina. Cegou por um momento e esqueceu sua estratégia quando revelou:
— Liam sempre soube. Ele nunca a deixou. Eles ficaram juntos por todos esses anos.
Depois que falou, se arrependeu, quando se viu diante das faces incrédulas de Greymane, Mia e Varian.
“Merda.”, pensou.
— Então… — a voz da rainha Mia estava trêmula – É verdade? O menino… É nosso neto?
— Existe essa possibilidade, não nego. — esquivou-se Lina.
— É mentira. — falou Greymane – Liam não sabia. Ele não poderia saber… Por que esconderia o filho por todo esse tempo?
Lina deu uma risada.
— Você só pode estar de brincadeira!
— Lina… — advertiu Varian, seriamente.
Respirando fundo, a general calou-se por um momento, antes de falar, mais solicita:
— Vossa majestade está enganado ao pensar assim. — disse de forma educada, mas sarcástica – É óbvio o motivo do príncipe Liam não ter contado sobre Doroteya e Theo.
— E qual o motivo? — perguntou cruzando os braços e encarando-a com desdém – Já que você sabe tanto do meu filho sem jamais tê-lo conhecido, pode repreender essa pergunta.
Mia sabia qual seria a resposta da general.
— Para proteger Doroteya de você. — disse Lina, corroborando o temor de Mia.
Houve um momento de silêncio antes da rainha Mia baixar a cabeça, as lágrimas rolando pela face, e murmurar:
— Entendo…
Greymane a encarou, incrédulo.
— Mia, você acredita nisso? Nosso filho jamais faria isso!
— Tem certeza, Genn? Não sei se ainda posso afirmar que conhecia Liam...
Chocado com as palavras da esposa, Greymane preferiu voltar suas frustrações contra Lina, levantando-se e a encarando com desdém.
— Você deve estar muito satisfeita, general. Conseguiu atingir minha esposa com suas palavras.
— Genn, você não está sendo justo. — Varian finalmente falou.
— Não a proteja apenas porque ela esquenta sua cama, Varian.
Sem pensar, Varian levantou-se tão rapidamente que sua pesada cadeira se balançou perigosamente. E, em vez daquilo abalar Lina, fez a raiva dela borbulhar com mais intensidade. A forma como Greymane falara tornou seu amor por Varian algo sujo, comum e vulgar, da mesma forma como fizera com o relacionamento de Liam e Doroteya. E antes que o rei de Ventobravo fizesse algo que piorasse toda a situação, ela falou:
— Se há alguém que eu gostaria de atingir, seria você, “majestade”. — o majestade foi dito de forma pejorativa – Se eu pudesse lhe falar o que realmente penso a seu respeito, saberia minhas reais intenções.
— É mesmo? Pois fale, general. Fale o que tem vontade!
Lina trincou os dentes.
— Bem que eu gostaria, mas eu não vou pôr o cargo que conquistei com tanto esforço a perigo por sua causa.
— Agora, eu quero saber! — exclamou ele – Fale! Fale o que realmente pensa, general, que nada farei contra seu precioso cargo!
Lina olhou para Varian, em busca de permissão. Irritado com o comentário grosseiro de Greymane, Varian puxou sua cadeira, sentou-se e disse:
— Quer ouvir, Genn? Será por sua conta e risco. Não punirei a general, se quiser realmente ouvi-la.
— Fale! — gritou.
Era tudo que Lina queria. A general se levantou, e ficou cara a cara com Greymane.
— Olhe aqui, seu cachorro doido, eu nunca fui com sua cara. — começou entre os dentes – Um ser que cria uma muralha para separar seu povo do resto do mundo só pode ser muito louco. Ou muito burro. Ninguém nunca lhe ensinou que nenhum povo é uma ilha? Pois é… Aí veio a maldição dos worgens e o que você faz? Claro, pede ajuda para a Aliança, a mesma que você negou ajuda e da qual quis se manter separado! Como se fossemos nós os doentes! Que feio! Cachorro mal!
Greymane trincou os dentes e deu um passo na direção de Lina, que o encarou, sem nenhum medo.
— Aí agora, você vem questionar o caráter de Doroteya, a pessoa mais bondosa e gentil do mundo, por uma merda que você – ela apontou o dedo na cara dele – fez e achar que seu precioso filho jamais poderia ter escondido nada de você? Que feio, Totó! Feio, feio! Mas a verdade é, e você sabe, que Liam sabia e não contou por que ele não confiava em você! Nunca confiou! Preferiu manter a mulher que amava e o filho escondidos na floresta, entregues à própria sorte e visitá-los uma, duas vezes por ano apenas para que você não transformasse a vida dos dois em um inferno! Porque, nós sabemos que você o faria! Sabemos, o que você faria! Você o tomaria dela! Eu conheço seu tipo preconceituoso e xenófobo de merda! E experimenta tentar algo contra Doroteya, experimenta! Vai ter caco de cachorro doido por todo lado!
— Chega! — gritou Greymane, os dentes pontiagudos, de quem estava prestes a perder o controle e se transformar – Chega!
— Não, não chega! — continuou Lina aos gritos – Você não queria ouvir? Vai ouvir! Você posa de rei, mas você não é rei de nada! De nada! Seu reino caiu! Se não fosse por nós, você e seu povo não teria nada, nada! Você não vai pôr as mãos em Theo! Você não tem direito! Se Liam quisesse que você tivesse não teria feito o que fez! Seu filho o privou de seu neto e a culpa é toda sua!
Um grito se fez ouvir, desviando a atenção de todos. Era Mia que, no auge de sua dor, gritou, explodindo em lágrimas e cobriu o rosto com as mãos. Imediatamente Greymane desfez a transformação e se aproximou da esposa.
— Mia… — ele tentou pegar sua mão, mas Mia a puxou de volta.
— Não! – e respirando fundo, murmurou – Preciso ir. – ela estava quase sem voz e se levantou inesperadamente se dirigindo para a porta.
Greymane fez menção de segui-la, mas Mia o parou.
— Não! Eu preciso ficar só! Preciso… preciso ficar longe de você por um momento, Genn. — E saiu.
O rei de Guilneas continuou em pé, estático, sem saber o que fazer. Depois de um tempo, ele olhou para trás, para onde Lina ainda estava de pé, a expressão fechada e para Varian, impassível. Baixou a cabeça e saiu, sem dizer nada.
Ao serem deixados a sós, Lina afundou na cadeira, as mãos no rosto. Nada saíra como ela queria. O que deveria fazer?
— Você não precisará se preocupar com Genn por um tempo. — disse Varian.
Ela o encarou.
— Você acha?
— Depois do que foi dito aqui, ele não tomará nenhuma decisão sem o consentimento da esposa. Pelo menos se quiser manter seu casamento. E Mia vai demorar um tempo até querer falar com ele.
Lina se recostou na cadeira, suspirando.
— Eu estraguei tudo, não foi? — perguntou a ele.
— Você fez o que achou que deveria fazer. Confie nos seus instintos.
— Não seria a primeira vez que meus instintos me põem na merda. — confessou.
Mesmo diante da situação, Varian sorriu.
— Sabíamos que as coisas seriam tensas. E foram. — ele deu uma pausa – Quer tirar o resto do dia de folga? Ir pra casa mimar a nova sobrinha?
Ela fez que não.
— Tentador, mas tenho coisas para fazer. Vou para minha sala. Trabalhar me ajuda a pensar.
— Tudo bem.
Varian estendeu a mão sobre a mesa e pegou na mão dela, apertando-a levemente. Lina sorriu. Depois, sem nenhuma palavra ela se levantou e deixou a sala. Varian então se recostou em sua cadeira, apertou os olhos e soltou o cabo da espada que estivera segurando desde que Greymane começara sua transformação.
Era manhã, mas já era o dia mais longo da semana.
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Pietro gostava de sentir a água ao redor de seu corpo. Flutuar lhe dava a sensação que não tinha nada travando seu corpo. Era a pura e simples liberdade que perdera há tanto tempo. Nem mesmo lembrava como era andar. Por isso, estar na água era tão bom, podia mover os membros ao sabor das ondas e fingir, pelo menos por um tempo, que seu corpo não era seu pior inimigo.
As águas que rodeavam a aldeia Sri La eram calmas e o menino pode relaxar e nadar, usando apenas os braços, como costumava fazer. Do mar, pode observar sua irmã olhando-o da praia e acenou, para ela não se preocupar. Não estava sozinho e tudo estava seguro. Mal sabia ele que era justamente por não estar só que Pandora se preocupava, porque, além das crianças pandarenas, Tewdric estava no mar e ajudava o menino a se mover pela água.
A conversa que tivera com Liu Pata Serena pôs mais dúvidas na cabeça da jovem do que explicações na cabeça do velho. Cada vez que tentava argumentar algo, o velho pandaren vinha com uma pergunta que a desconcertava. Ao final, quando foram almoçar, Pandora estava quase convencida que a Horda e a Aliança eram as coisas mais estúpidas que existiam. Tinha certeza que era isso que o velho pandaren e sua neta Rukiah pensavam. Por conta disso, quando, ao final da tarde, as crianças vieram pedir para deixar Pietro tomar banho de mar com elas e com Tewdric, Pandora não conseguiu dizer não. E agora, observava um orc imenso com seu irmão nos braços, ajudando-o a nadar, da mesma forma que Vincent e Tommy faziam. Pensou em ir também, mas não seria justamente dizer que não confiava nele?
Mas não devia confiar!
Ah, era tudo tão confuso!
Ao contrário da irmã, Pietro não tinha nenhum conflito interior. Vincent dissera que haviam pessoas boas na Horda e o menino se sentia sortudo por encontrar um. Adorava Tewdric e Tewdric adorara o menino.
— Você nada muito bem! — elogiou o guerreiro após Pietro ir e vir de uma ponte, nadando – Você tem braços fortes!
— Obrigado – agradeceu o menino ofegante – Eu iria mais rápido se pudesse, você sabe... — ele apontou para as pernas.
— Você nada melhor do que a maioria das pessoas que eu conheço. — falou Tewdric – E eles usam as pernas!
— Sério? — perguntou Pietro animado – Poxa, obrigado! — e sorriu para ele.
Tewdric pensou que o menino tinha muita sorte em nascer humano. Se ele tivesse aquela doença entre os orcs, seria morto. A não ser que, da mesma forma que Tewdric, não tivesse clã e fosse adotado por uma família que o amasse. E, vendo o sorriso meigo do menino, decidiu que, não importa como fossem seus filhos, os aceitaria, os amaria e os protegeria.
— Pietro, vamos apostar quem chega primeiro na ponte! — desafiou Yasu, na água com os outros filhotes.
— Vamos! — acertou o menino.
Claro, Pietro ganhou, deixando a pandarena frustrada. Ela o desafiou mais duas vezes e o menino humano venceu todas.
— Você devia ser monge! — disse uma das crianças – Você tem os braços fortes!
— Mas pernas fracas. — respondeu o menino – Não consigo nem ficar em pé.
— Ah, os Shado Pan ajudariam! — continuou o pequeno pandaren – Eles são muito sábios!
— Minha doença é progressiva. — falou Pietro, a animação morrendo em sua voz – Daqui a pouco não poderei usar os braços também. Não adiantaria nenhum treinamento.
As crianças ficaram desoladas e Tewdric sentiu o mesmo. Mas não podia deixar aquilo estragar a diversão das crianças, então gritou:
— Quem quer brincar de monstro marinho? Eu sou o monstro e vou pegar vocês!
Os gritos estridentes das crianças chegaram a Pandora, que não pode deixar de rir quando viu o orc nadar atrás das crianças, fingindo que ia comê-las.
— Posso me sentar? — perguntou alguém.
Pandora levantou a cabeça e viu Kassyeh sorrindo para ela. Fez que sim com a cabeça e a maga sentou-se ao seu lado. Ela também usava roupas pandarenas e parecia ainda mais magra sem o vestido volumoso que ostentava antes. Vendo-a tão perto, Pandora a achou bem bonita. Se perguntou como ela e o orc tinham se envolvido. Por mais gente boa que Tewdric fosse, bem, era um orc. Como aquela maga preferia um orc que um elfo? Deviam ter elfos bonitos por Luaprata como Halduron. Talvez não tão bonitos quanto Halduron, mas bem bonitos também.
— Está tudo bem com… — ela quase disse Halduron, mas então disse – Com o elfo?
— Está sim. Rukiah acredita que ele acordara até amanhã.
O estômago de Pandora revirou. Será que eles fariam algo quando descobrissem que ele era do Pacto de Prata? Queria acreditar que não. Os pandarens não deixariam, certo? Já tinham ficado preocupados o suficiente com as explicações delas e nitidamente não queriam se envolver naquela maluquice toda, não deixariam nenhuma injustiça acontecer ali. E se Tewdric e Kassyeh ajudaram eles, por que não ajudariam Halduron?
— Estou pensando no que fazer a partir de agora. — continuou Kassyeh – Minhas irmãs vão ficar loucas com nosso sumiço. E estou preocupada com os demais que vieram conosco. Acredito que iremos em busca deles. — e dando uma pausa, acrescentou – Eu sugiro que vocês dois permaneçam aqui.
A utopia em que podiam ser amigos seria quebrada em algum momento, Pandora sabia. E ficava triste. Por um instante não quis ir embora dali. Não queria saber de guerra. Só queria ver aquele sorriso de Pietro, que era carregado por Tewdric pelo mar.
— Em algum momento vou precisar me comunicar com minha tia. — disse também – Tenho certeza que Ventobravo vai mandar gente nos procurando.
— Imagino que sim. — falou Kassyeh.
E ficaram caladas, com uma guerra e milhares de mortes entre as duas.
Pouco tempo depois, a brincadeira no mar acabou e Tewdric saiu do mar com Pietro nos braços, os dois rindo com os pandarens pulando ao redor dos dois. Foram em direção das mulheres na praia e Tewdric sentou-se na areia, ainda com Pietro nos braços. As outras crianças sentaram também.
— Eu ganhei da Yasu três vezes! — disse o menino sem fôlego e com o rosto muito vermelho.
— É porque você é mais comprido que eu! — defendeu-se a menina.
— A Yasu não aceita que perdeu! — brincou um dos meninos.
— Quero revanche! — declarou a menina.
Entre as risadas de todos, Pandora disse:
— Outro dia, Yasu. Tanto movimento vai deixar as pernas de Pietro inchadas.
— É só você fazer uma massagem nelas! — protestou o menino.
— Sempre que eu faço você reclama! — lembrou Pandora – Eu começo a fazer e você diz que tenho a mão pesada e chama pelo Theo!
— É só você fazer com menos força! — retrucou Pietro.
— A minha Kass pode te dar uma massagem, Pietro. — sugeriu Tewdric – Ela tem uma mão bem levinha e gostosa.
Pietro olhou para a irmã, em busca de aprovação.
— Tudo bem. — disse Pandora – Só precisamos providenciar algum elixir que estimule sua circulação…
— A Rukiah deve ter! — disse Yasu – Ela sempre tem um monte de coisa!
—Vou pedir a ela então. — garantiu Pandora.
— Então vamos voltar para água! — decidiu Yasu se levantando – Quero a minha revanche!
— Não, senhorita. — Mili Lúpulo Errante chegava até eles – Os ventos estão mudando e a maré está enchendo. Os pescadores vão chegar em breve e preciso de ajuda para preparar o jantar para todos. E vocês precisam tirar o sal do corpo. Vamos, vamos!
As pessoas da vila faziam quase todas as refeições juntas, eles haviam notado. Talvez fosse porque eram em número pequeno ou talvez fosse algo da cultura deles. E com um local tão bonito, claro que todos queriam ficar o máximo possível ao ar livre, admirando a natureza.
Tewdric ajudou Pandora a levar Pietro até a cabana onde estavam hospedados. Lá, a jovem banhou seu irmão, tirando todo o sal de seu corpo. Depois, o deitou apenas de roupa de baixo e analisou suas pernas. Exercícios eram bons para Pietro, mas ele sempre precisava de uma massagem depois, para ajudar o sangue a circular melhor.
— Vou chamar a Kassyeh. — avisou.
A elfa atendeu o chamado e logo entrou na cabana, com um frasco de loção nas mãos.
— Como você gosta da massagem, Pietro? — perguntou sentando na esteira ao seu lado.
— Desde que você não tente arrancar meu couro… — falou o menino olhando significativamente para a irmã.
— Muito bonito para sua cara, não é? — Pandora se fingiu de brava e apertou a bochecha do irmão.
Kassyeh riu, colocou uma boa porção de loção em suas mãos e começou a massagear as pernas de Pietro. Os membros do menino não eram tão esquálido quanto de outras pessoas que não andavam e que Kassyeh já vira. Pietro, com certeza, recebia bons cuidados em casa.
— Então, vocês moram com uma tia, é isso? — perguntou a elfa, puxando assunto.
— Sim, tia Lina. — respondeu Pietro – Meus pais não gostam de mim.
— Pietro! — ralhou Pandora sentindo o rosto queimar – Kassyeh não quer saber dessas coisas!
— Mas é verdade. Eles não gostam de mim porque sou assim! — o menino apontou para as pernas.
— Quem dera a Nascente do Sol me presenteasse com um menino como você, Pietro. — disse a elfa carinhosamente massageando-o.
Pietro e Pandora a encararam, como se ela fosse louca.
— Você quer ter um filho aleijado? — perguntou Pietro.
Kassyeh parrou a massagem e o encarou. Ela sorria, delicadamente.
— Você é um menino inteligente, gentil, esperto e muito bonito. Você não é só suas pernas, Pietro. Você é muito mais. — então passou as mãos nos cabelos molhados dele – É uma pena que seus pais não vejam isso. Mas ela vê. — e olhou para Pandora – Você tem uma irmã maravilhosa, não esqueça disso.
Pandora ficou sem jeito, mas extremamente agradecida por Kassyeh falar aquilo. Não era diferente do que todos na família falavam, mas sabia que, vindo de fora, principalmente de alguém de outra facção, era mais fácil Pietro acreditar. E pelo brilho nos olhos do menino, sabia que o que a elfa dissera tocara seu coração.
— Você acha mesmo isso tudo de mim? — perguntou com as bochechas vermelhas.
— Sim, com certeza. — afirmou.
Pietro sorriu, extremamente feliz.
— Você será uma boa mãe, Kassyeh. — disse a jovem humana vendo o cuidado com que ela voltou a massagear o menino.
— Obrigada. — agradeceu gentilmente.
— Você acha que seus filhos vão ser verdes? — perguntou Pietro.
Kassyeh deu uma gargalhada.
— Espero que sim.
Pandora esperava que ela estivesse brincando, mas algo dizia que não estava não. Que elfa maluca!, pensou.
— Você tem a mão boa, Kassyeh. — elogiou o menino.
— Obrigada! Sempre faço massagem nas minhas irmãs e em Tewdric.
Pietro então fez perguntas sobre Luaprata e a família de Kassyeh, que respondeu tudo tranquilamente. Mesmo quando viraram o menino para receber a massagem na parte de trás das pernas, ele não parou de tagarelar e Kassyeh era só paciência com ele. Quando a massagem terminou, a elfa fez um carinho nos cabelos dele e saiu. Quando estavam só os irmãos, Pietro suspirou e falou:
— Bem que nossa mãe podia ter sido assim, né, Pãozinho?
Pandora queria que a mãe fosse daquele jeito ao menos com Pietro. Não fazia questão de tanta babação. Porém, limitou-se a dizer:
— Sim, verdade. Mas vamos te vestir agora, o jantar será já, já.
Antes de saírem para o jantar, contudo, receberam a visita de Rukiah.
A conversa de mais cedo fizera a pandarena pensar muitas coisas, e coisas além de Horda e Aliança. Ela pensava em Pietro. Pandora revelara o motivo de estarem no navio que naufragara: estavam indo em busca de uma melhora para Pietro. Na hora Rukiah não pensara em nada porque estava chocada com as revelações de que aquelas pessoas eram inimigas. Só depois que Yasu, aos prantos, lhe contara que a doença de Pietro era progressiva, aos prantos, foi que pensou uma forma de ajudá-lo. Ou melhor, quem poderia ajudá-lo. Sua irmã já adorava o menino e a própria Rukiah gostara muito dele.
— Posso dar uma palavrinha com vocês? — perguntou a pandarena carinhosamente.
— Claro! — exclamou Pietro – Já estamos prontos para o jantar e eu to morrendo de fome!
— Que bom porque temos muita comida!
— Algum problema, Rukiah? — perguntou Pandora receosa.
Será que iam mandar eles embora? Será que a conversa de mais cedo fez com que os pandarens decidissem não mais ajudá-los? Uma série de coisas passaram na cabeça da jovem, que já imaginava o que faria com o irmão na Floresta de Jade, apenas os dois.
— Vocês falaram que estava viajando para visitar um profeta, certo? Para ajudar na recuperação de Pietro.
— Sim, profeta Veleen. — respondeu Pandora – Era nossa intenção.
— Como vocês sabem, eu sou sacerdotisa. Sacerdotisa treinada no templo de Chi Ji.
— Um dos quatro Celestiais Majestosos. — lembrou Pietro.
Da mesma forma que os pandarens aprenderam sobre eles, eles aprenderam um pouco sobre o povo que habitava aquele maravilhoso lugar. Os Celestiais Majestosos eram entidades protetoras de Pandária desde tempos remotos: Niozao, o Boi Negro; Xuen, o Tigre Branco; Yu’lon, a Serpente de Jade e Chi-Ji, a Garça Vermelha.
— Chi-Ji representa a esperança em nossa terra… E acredito que ele possa ajudar o jovem Pietro.
— Me ajudar a andar de novo? — perguntou Pietro, ansioso.
— Te ajudar no que ele puder e no que achar que você precisar. — disse Rukiah – Eu acho que talvez exista uma razão para vocês terem vindo para cá… E se a razão for essa?
Os irmãos se entreolharam. Pandora pode ver a esperança brilhando nos olhos de Pietro e hesitou por um momento. Não duvidava que a entidade fosse poderosa, e por mais que representasse a esperança, temia que esperança demais fosse pior que esperança nenhuma. Afinal, tanta coisa já dera errado naquela viagem...
—Onde podemos encontrar esse Celestial? — quis saber Pandora antes de tomar qualquer decisão.
—Na Selva de Krasarang. — respondeu Rukiah – Fica a oeste daqui e precisaríamos viajar bastante.
— Por mar? — perguntou Pietro, temeroso.
— Não, podemos ir por terra. Na verdade, tem uma caravana partindo de Arboreto depois de amanhã. Eu vou encontrá-los. Se quiserem, podem vir comigo. Partiríamos amanhã de manhã cedo. Eu já falei com o vovô, ele emprestaria a carroça e o iaque, assim Pietro ficaria confortável. — ela sorriu – Não precisam responder agora. Pensem. Vocês me dizem depois do jantar.
E fazendo uma breve reverência, saiu.
— O que você acha, Pãozinho? — perguntou o menino.
Não importava o que ela achasse, Rukiah já havia plantado a semente da esperança em sue irmão e já não podia lhe dizer não. E por que diria? Estavam ali perdidos, não era? O tempo que levariam para voltar a Ventobravo e depois ir novamente para Exodar… Isso se a vaca da tia deles deixasse. Depois daquilo, era capaz de Lina querer construir uma torre com seu salário de general e pôr os dois lá dentro. Já estavam ali, não estavam? Não custaria nada procurarem ajuda.
— Você quer ir? — perguntou só para ter certeza – Rukiah disse que a viagem era longa…
— Não temos muito o que fazer aqui, não é? — perguntou o menino – E se o Celestial, que é alguém tão poderoso, me ajudar mesmo? Não precisaríamos ir a Exodar.
— E podemos encontrar alguém da Aliança no caminho. — completou Pandora — Saber notícias do príncipe. Talvez até mandar uma mensagem para Ventobravo.
— Então está decidido! — exclamou Pietro – Viajaremos amanhã!
Sim, iriam. Mas, antes de ir, havia algo que Pandora precisava fazer.
A notícia que iriam ao templo de Chi-Ji deixou toda a vila, principalmente as crianças, muito alegres. Todos acreditavam piamente que o Celestial ajudaria Pietro a ficar melhor e começaram a comemorar naquele momento. Se bem que os pandarens pareciam o tipo de povo que não precisavam muito de motivos para comemorar. E logo estavam comendo e bebendo à saúde de Pietro.
O jantar ocorreu normalmente e Pandora esperou que todos dormissem. Foi difícil lutar contra o sono e o cansaço daquele longo dia, mas conseguiu permanecer acordada até as últimas luzes das cabanas se apagassem. Apurou os ouvidos, na tentativa de perceber algum ruído que indicasse alguém se movimentando. Porém, só ouvia o vento e o mar. Levantou-se devagar, para não acordar Pietro e saiu da cabana. A lua estava cheia, então, se alguém estivesse vigiado, a veriam com facilidade. Só que aquela era uma vila que não conhecia guerra e não havia motivos para ter vigias. Por isso, conseguiu caminhar calmamente até a cabana onde estava Halduron.
Kassyeh e Tewdric estavam hospedados em outro lugar. Rukiah insistira que o elfo ficasse no local que eles usavam como enfermaria, o tanto quanto necessário para se recuperar. Por isso, apenas ele estava ali. A luz da lua entrava pela janela e Pandora pode ver seu rosto com nitidez. A pele estava mais corada e os olhos não estavam mais tão fundos. O elixir dado por Rukiah realmente ajudara.
Sentou-se no chão, ao lado da cama onde ele dormia. Em Pandária, as camas eram baixas, apenas um colchão sobre o tatame. Pode então observá-lo bem, seu rosto emoldurado pelos cabelos dourados. Halduron continuava tão lindo quanto se lembrava. A memória que tinha dele era tão forte que parecia que seu encontro em Dalaran fora no dia anterior. Duvidava que ele lembrasse de dois irmãos humanos aprontando pela cidade voadora, mas tinha esperanças. Gostaria de ficar mais tempo na vila, esperar que ele acordasse e pudessem conversar. E não queria ter as conversas filosóficas que tivera com Liu Pata Serena. Não. Queria apenas conhecê-lo. Saber se tudo que pensara a respeito dele correspondia ao que ele era em algum aspecto.
“Claro que não, sua burra.”, pensou Pandora. “Ele deve ser totalmente diferente. Talvez nem seja uma boa pessoa! Talvez seja um escroto idiota e você acabe decepcionada!”
Só que não acreditava nisso. A pessoa que salvara ela e o irmão, que cuidara deles em Dalaran, com quem passaram uma tarde maravilhosa, aquela pessoa não era uma ilusão. Ela existia. E estava bem ali. Bastava estender a mão e tocá-lo.
“Isso é loucura!”
Mas não parecia.
Estendeu a mão.
Halduron se moveu durante o sono e ela recolheu a mão, o coração acelerado. Mas ele não acordou. Pandora estendeu a mão novamente e tirou uma mecha de cabelo que havia ficado em seu rosto. E recolheu a mão. Queria tocá-lo, mas não devia.
“Mas se for bem de leve?”, lhe dizia aquela vozinha insistente.
Não queria acordá-lo. Queria que ele se recuperasse. Mas queria tocá-lo. Ter certeza que ele não era uma ilusão que desapareceria quando fosse embora da vila… Podia escrever uma carta e entregar a Liu Pata Serena para que entregasse a ele quando acordasse. Mas e se ele não lembrasse dela? Pensaria que ela era uma louca. Não… Não podia fazer isso.
Mas precisava revê-lo. Não ficaria mais satisfeita em apenas sonhar novamente com a sua existência. Decidiu então que, após levar Pietro ao templo de Chi-Ji e quando voltasse para casa, voltaria a Dalaran. Daquela vez, o procuraria nominalmente. Nem que tivesse que pergunta para todo elfo de Dalaran. Nem que tivesse que recorrer à sua tia Lícia. Daquela vez o encontraria.
Aquela decisão a fez sentir-se melhor com a despedida. Sorriu para Halduron e desejou que ele pudesse vê-la.
— Fique bem, ok? — pediu em um sussurro.
Obviamente ele não respondeu, mas Pandora sorriu mesmo assim.
Bocejou. O cansaço estava cobrando seu preço. Precisava deitar, dormir e estar pronta para mais uma viagem no dia seguinte. Mas não queria deixá-lo. Não sem se despedir devidamente.
Teve uma ideia louca. Não devia fazer aquilo. Era errado.
“É só um beijo na testa...”, disse aquela voz irritante dentro de sua cabeça. “Ele é seu amigo, não é?”
Nem sabia se Halduron lembrava dela!
“Enquanto ele não disser que não é seu amigo, ele o é. Naquele dia, ele disse que era.”
Disse mesmo? Ou era uma ilusão de sua mente?
“É só um beijo.”
É errado!
“Não é nada demais. É só na testa! Você faz isso com seu irmão!”
Pandora então se inclinou. Não era nada demais, apenas uma forma de mostrar carinho por alguém que a salvara. Se pudesse teria contribuído com a salvação dele também. Talvez tivesse, quando ajudou Kassyeh a alimentá-lo.
“Para de pensar e vai logo!”, ordenou aquela voz.
Se aproximou do rosto dele. Ele respirava tranquilamente, diferente do dia anterior. Acordaria em breve, com certeza. Esperava que ele não acordasse logo naquele momento. Os lábios estavam bem perto da testa dele quando Halduron se mexeu mais uma vez. Pandora parou, mas não recuou. Desejou, por um instante, que ele acordasse. Mas ele não acordou. E seu rosto estava muito mais perto que antes. E agiu. Sem pensar.
Pandora depositou um cálido e suave beijo nos lábios dele.
Afastou-se com o coração aos pulos. Não era aquilo que planejara. Mas fizera. A voz em sua cabeça comemorava, mas ela sabia que não fizera o certo. E saiu dali, o mais silenciosamente que conseguiu, antes que acabasse fazendo mais alguma besteira sem tamanho.
Contudo, não havia nenhum arrependimento em seu coração quando deitou-se na cama e adormeceu com um sorriso no rosto.
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A conversa com Greymane e rainha Mia deixara Lina faminta. Depois que o problema havia sido parcialmente resolvido, seu apetite, que desaparecera pela manhã, voltou com tudo e ela se dirigiu ao refeitório da bastilha.
Como general, podia se dar ao luxo de pedir que as refeições fossem levadas à sua sala. Porém, ela não queria nem pensar em ter comida perto de seus papéis. Além do mais, restos de comida atraiam ratos, baratas e formigas e ela não queria nenhum desses grupos animais em sua sala. Já bastava seus biscoitos no pote, mas este era bem fechado e Lina limpava cuidadosamente as migalhas depois de comer. Além do mais, gostava de estar atenta a tudo que acontecia ao seu redor. Caso se empoleirasse em sua sala, perderia totalmente o controle da bastilha e isso era algo que não faria. Por isso, continuava a comer junto com os soldados.
Assim que chegou no refeitório, várias pessoas se aproximaram, principalmente as senhoras da cozinha, e perguntaram, animadas:
— Doroteya teve bebê? É verdade?
Lina não pode deixar de sorrir.
— Sim, é verdade. Uma menina.
Todos ficaram animados e começaram a falar ao mesmo tempo, querendo saber como foi, como ela estava, quando poderia receber visitas. Antes de começar a responder todos, Lina disse:
— Primeiro, uma xícara de café e algo para comer. Estou precisando.
Foram até o balcão do refeitório, onde lhe entregaram uma caneca fumegante de café e lhe estenderam uma bandeja de croissant que acabara de sair do forno. Lina meteu um deles em sua boca, um de chocolate, coberto por açúcar de confeiteiro e praticamente gemeu de felicidade. Depois do embate com Greymane, encher o sangue de açúcar era a melhor coisa do mundo.
— Se Doro souber que estou comendo chocolate de manhã… — ela sacudiu a cabeça, sorrindo e colocando todo o doce dentro da boca. Estava uma delícia.
— Então, general? — perguntou uma senhora, ansiosa – Como foi? Como está Doroteya?
— E seu irmão? — perguntou um senhor – Ele deve está transbordando de felicidade!
Deixando de fora a visita de Greymane, Lina começou a contar e fez um resumo do que acontecera. Todos ficaram fascinados com a história ao mesmo tempo que também ficaram preocupados.
— Mas o importante é que tudo deu certo no final. — concluiu Lina, pegando outro croissant, dessa vez com queijo – As duas estão bem e, assim que Vincent liberar, vocês poderão ir visitá-las. — e voltou a comer.
Por mais que os guilneanos continuassem com suas reservas a respeito de Doroteya, o mesmo não acontecia com as pessoas que trabalhavam na bastilha, naturais dali. A druidesa era muito querida e sempre estava ensinando receitas novas às cozinheiras da bastilha. Seu casamento e a gravidez foram muito comemorados, pois todos queriam vê-la feliz. Era o completo oposto das atitudes do povo de Doroteya.
— Qual o nome da bebê? — perguntou uma das pessoas.
— Liana. Liana Marie Wood.
— É em sua homenagem? — perguntou outra.
Fora a mesma pergunta que Varian lhe fizera e Lina balançou a cabeça em negativa.
— Não, não é.
Todos pareceram decepcionados.
Depois do quarto croissant e da segunda caneca de café Lina limpou a boca em um guardanapo e disse:
— Adoraria ficar conversando com vocês e dizendo o quanto minha sobrinha é fofa, mas preciso ir. Tenho papelada em minha sala me esperando. Aviso assim que vocês puderem fazer visita.
As pessoas agradeceram imensamente a general, que tomou o caminho para sua sala. Com cafeína na cabeça e comida no estômago, pode repassar a conversa de mais cedo com mais calma e pensar no que faria a seguir. Varian dissera que Greymane ficaria fora de seu caminho por um tempo, já que tentaria primeiro acalmar sua esposa e conseguir seu perdão, mas Lina preferia estar um passo à frente do cachorro doido. Agora que ele sabia o que exatamente pensava dele, imaginava que o recuo dele poderia ser apenas para avançar sobre ela com mais força.
Sua mesa estava muito mais cheia de papel que no dia anterior. Suspirando, Lina se sentou e começou a ler os relatórios e as solicitações. Uma delas era de Lady Cláudia, pedindo para que Lina escolhesse sua guarda pessoal antes da nova rodada de promoções. Era uma das coisas de general que a deixava mais sem jeito, mais ainda que o salário. Teria pessoas andando ao redor dela protegendo-a o tempo todo. Chegou a pedir para dispensar a guarda pessoal, mas a Cláudia foi enfática em dizer que aquele protocolo deveria ser cumprido. E, como já fora ameaçada de morte uma vez, era ainda melhor ter uma guarda. Lina sabia que queria pessoas confiáveis ao redor dela, mas não podia pegar todos que lhe eram fiéis e deixar a bastilha entregue a desconhecidos. E tinha que sugerir o nome do novo ou nova comandante da bastilha. Sorriu para o papel. Já sabia quem seria.
Estava começando a escrever a lista para Cláudia quando uma batida soou.
— Entre. – permitiu sem tirar os olhos do papel. Era comum os soldados irem até ali para consultá-la.
Todavia, não era nenhum dos soldados e sim a rainha Mia. Lina não escondeu sua surpresa enquanto a senhora fechava a porta atrás de si e se encaminhava para sua mesa.
— Teria um momento para mim, general Wood?
Lina não precisou perguntar qual o motivo da singular visita. A conversa mais cedo deixara o clima pesado na bastilha e muitas lágrimas nos olhos da rainha. A voz da mulher estava cansada e seus olhos, vermelhos. Mesmo assim, sua beleza aristocrática lhe davam uma aparência de serenidade, ainda que seu corpo a traísse com sinais óbvios de sua tristeza. Imaginou que tipo de discussão ela teria tido com seu marido.
Sabendo que Mia não tinha nenhuma culpa dos atos do marido, a general disse com gentiliza:
— Claro, majestade. Sente-se. — e indicou a cadeira à sua frente.
Mia sorriu com cautela para general e sentou-se. Lina deixou os papéis que preenchia de lado e encarou a senhora.
— Você disse mais cedo que a jovem Doroteya está em puerpério. – começou hesitante – E eu não gostaria de lhe trazer nenhuma dor ou sofrimento em um período tão delicado. Contudo... – a rainha estava contendo as lágrimas – Eu preciso de algumas respostas... Então... Se a general puder...
Apesar de tudo, Lina sentia compaixão pela rainha. Afinal, descobrir depois de tanto tempo o que ela descobrira, e da forma como descobrira, além de ter que lidar com todos aqueles sentimentos, deveria deixá-la confusa e triste. Sabia que Doroteya gostaria que ajudasse Mia, se soubesse da situação.
— O que vossa majestade quer saber? – perguntou.
Mia ficou aliviada com a postura de Lina.
— Tudo. — respondeu.
— Eu não vivenciei tudo, majestade. O que sei foi o que Doroteya e Theo me contaram. — explicou.
— Diga-me o que puder, então.
— Tudo bem.
Lina contou tudo o que sabia. Deixou de fora apenas suas impressões pessoais e a existência dos documentos de Doroteya. Passou um bom tempo falando e a rainha não lhe interrompeu em nenhum momento. Quando contou de como ela ajudara a esconder Theo afirmando que ele era seu sobrinho para que Greymane não o tomasse da mãe, os olhos da rainha encheram-se mais uma vez de lágrimas e interrompeu Lina pela primeira vez:
—Eu jamais permitiria que Genn fizesse algo assim! Eu nunca seria conivente com algo que fizesse outra mãe sentir o que eu senti quando meu Liam…— ela perdeu a voz e caiu no choro.
Sem saber o que fazer, Lina levantou-se e encheu um copo com água de sua moringa e colocou na frente da rainha, que agradeceu com um aceno e tomou o líquido oferecido. Lina esperou que a rainha continuasse, mas Mia calou-se após o rompante.
— Não sabíamos qual seria sua atitude. – explicou – Não podíamos arriscar.
— Entendo. – murmurou Mia.
Lina se perguntou se ela realmente entendia.
Depois de um momento de silêncio, a tristeza deu lugar novamente à curiosidade e Mia perguntou:
— Como ele é? Theo… Como ele é?
O sorriso tomou conta do rosto de Lina.
— Um menino maravilhoso. Uma alma tão boa que me pergunto o que o mundo fez para merecer essa dadiva.
Mia sorriu também, aliviada.
— Então ele é um bom menino…
— Ah, com certeza! A única dificuldade que temos com ele é fazê-lo sair de casa. Theo não se sente a vontade em multidões ou dentro de prédios muito grandes. Por isso não costumamos levá-lo para a Catedral.
— É alguma fobia? — quis saber, preocupada.
— Ah, não, não. — Lina sacudiu a cabeça enquanto falava – É só mesmo falta de costume. Ele cresceu numa floresta, afinal. Se sente mais à vontade entre árvores. Sempre que dá, vamos para a fazenda dos meus pais. Ele ama o campo.
— O que ele gosta de fazer?
— De tudo um pouco. Nós o mantemos ocupado. Ele não foi à escola até esse ano, por isso ensinamos em casa. Ele lê e escreve muito bem e é muito bom em matemática. Gosta de ajudar meu irmão nos trabalhos manuais e também está aprendendo a cozinhar. Ah, Vincent ensinou xadrez para ele e para o Pietro, meu outro sobrinho que mora conosco. Eles jogam juntos o tempo todo.
— Por que ele não ia à escola? — Mia achou aquilo estranho e deixou claro.
— Tínhamos receio. — respondeu Lina com sinceridade.
Mia desviou o olhar para suas mãos e apertou-as. Lina achou que ela fosse começar a chorar de novo, mas a senhora apenas murmurou:
— Então ele nos odeia…
— Claro que não! — a ideia de Theo odiando alguém era perturbadora para Lina – Theo tem medo de vocês o tomarem da mãe dele, mas não, não os odeia.
A resposta não melhorou o ânimo da rainha.
— Meu neto tem medo de mim… – a rainha balançou a cabeça – Que terrível destino…
Por mais que simpatizasse com a dor dela, Lina não esconderia fatos apenas para poupá-la. Diferente de Greymane, gostava de dizer às pessoas exatamente o que ela precisavam saber.
— Majestade. — retomou a fala, com o tom calmo – Theo foi criado isolado do mundo, com o pai e a mãe amedrontados o tempo todo com a possibilidade de sua existência ser descoberta. Ele cresceu ouvindo que o avô o tomaria da mãe se o descobrisse. Theo tem motivos para ter medo.
Era difícil para a rainha acreditar que Liam criara seu filho num regime de medo tão grande e, pior ainda, acreditando que ela compactuaria com o que seu marido fizesse.
— Ainda não acredito que meu filho escondeu isso de mim… Que tipo de mãe eu fui?
— Talvez ele pensasse que a senhora compartilhasse as ideias de seu marido. — falou Lina – Sua filha compartilhava.
A tristeza deu lugar à surpresa na face da rainha.
— Tess sabia de Doroteya?!
— Sim, apesar de nunca terem se encontrado. Liam teve mais de uma briga com a irmã por conta de Doro.
Com o rosto rubro de raiva, Mia se levantou de repente e começou a andar pelo pouco espaço que havia na sala de Lina.
— Eu não acredito que Tess não me contou! — ela jogou as mãos para o alto, frustrada – O que mais aqueles dois andam escondendo de mim?! Se eu soubesse, se alguém tivesse se dignado a me falar, tudo teria sido diferente, tudo! Terei uma séria conversa com Tess quando nos encontrarmos. Ah, se terei!
Se a fúria da rainha Mia fosse um terço da fúria de dona Mariana quando um filho mentia para ela, a princesa Tess estaria em péssimos lençóis. E Lina não tinha um pingo de pena dela. Nem dela, nem de Greymane. Esperava que Mia escalpelasse os dois.
Depois da explosão, a rainha respirou fundo e segurou o espaldar da cadeira. Seus dedos tremiam um pouco e Lina pegou mais água e pôs na mesa para ela. Depois de um momento acalmando-se, Mia sentou-se novamente e tomou um pouco da água.
— Imagino que você deve estar com uma péssima impressão sobre mim, general. — falou ela – Uma mulher que sequer sabe o que acontece em sua família, uma rainha que perde a compostura assim. Mesmo que seja uma rainha sem reino.
Seria uma alfinetada pelo que dissera ao marido? Talvez, mas Lina não sentiu nenhum sarcasmo em sua voz, apenas tristeza e consternação.
— O que eu penso ou deixo de pensar não importa, majestade. — falou com seriedade – A senhora tem todo motivo para estar transtornada. Eu me estresso por muito menos, acredite. E, rainha ou não, a senhora é um ser humano. Com tudo que já lhe aconteceu, é a pessoa com mais direito para perder um pouco a compostura.
Um sorriso fraco escapou dos lábios da rainha.
— Agora sei porque tantos a admiram, general. — disse.
— Sabe? — surpreendeu-se Lina – Porque me pergunto isso há séculos!
A rainha se pegou rindo.
— Você consegue fazer as pessoas se sentirem bem, mesmo com verdades tão terríveis. — revelou – É uma característica bem rara, devo dizer.
— Nem sempre funciona. — Lina retrucou, mas com delicadeza – Na maior parte do tempo eu sou um saco. — e encarando-a, perguntou – O que mais quer saber sobre o Theo?
— Tudo o que você puder me contar.
As duas mulheres perderam a noção do tempo enquanto Lina falava de Theo. Mia pode perceber o amor transbordando em cada fala da general, aquele tipo de amor reservado às tias queridas que, por vezes, fazem o papel de mães e amigas. Não conseguiu impedir-se de pensar que, por mais que tentasse no futuro, Tess nunca seria aquele tipo de tia e quando Lina falou como Theo era entrosado em sua família, uma fagulha de ciúme acendeu-se no coração da rainha. Mia prontamente o ignorou. Aquele seria um caminho nebuloso de trilhar. Precisava de Lina como aliada e não podia vê-la como inimiga.
— Theo chama seus pais de avós? — se viu perguntando e se odiou pela sua fraqueza.
— Sim. — e vendo o lampejo de tristeza nos olhos da rainha, a lembrou – Theo não teve nenhuma referência de avós por muito tempo, majestade. Meus pais, assim que o viram, o tomaram por seu neto. Theo sentiu-se acolhido.
E contou a história de como seus pais o confundiram com um dos inúmeros netos, tirando um pouco da tristeza de Mia.
— Doroteya não tem pais? — quis saber.
— Não. Ela foi abandonada na floresta quando bebê e uma druidesa a encontrou e a criou. Ela morreu quando Doro tinha nove anos.
— E ela viveu todo esse tempo sozinha? — surpreendeu-se Mia.
— Até conhecer Liam.
Pobre moça, pensou Mia. Tantas vezes deixada sozinha… Não era por menos que tinha tanto medo de perder o filho. E ela queria mostrar que Doroteya não precisava mais temê-la.
— General, agradeço tudo que me contou. — falou com sinceridade – É bom saber que meu neto é amado e bem cuidado. Temo, contudo, que eu vá pedir mais uma coisa. Espero que me perdoe esse ato egoísta, mas você é a única pessoa que pode me ajudar.
No mesmo instante Lina pensou que ela pediria para ver Theo. Já estava com o “não” na ponta da língua, quando Mia a surpreendeu mais uma vez.
— Quero conhecer Doroteya. Conversar com ela. Saber como é a moça que foi tão amada por meu filho.
Não era o que Lina esperava, então teve que engolir o “não” que preparara, afinal, o pedido da rainha era razoável. E tinha certeza que Doroteya não se recusaria a recebê-la. Talvez até quisesse conversar com Mia. Só que, no momento que transmitisse o pedido da rainha, teria que contar o que houve a Doroteya. E isso era algo que queria atrasar o máximo possível.
— Posso falar com ela, majestade. Mas não agora. Doroteya ainda não soube… Não soube que vocês descobriram. Quero que ela se recupere o máximo possível antes de contar o que houve.
— Justo. — concordou a rainha – Eu aguardarei o momento que você achar adequado, general. — e se levantou. — Agradeço imensamente a conversa.
Lina também se levantou e já começava a despedida quando uma batida nervosa na porta cortou sua fala.
— Entre. — permitiu.
Era Brienne e a jovem estava pálida como um cadáver.
— General! É urgente! O rei a convoca.
Lina e Mia trocaram olhares, pensando a mesma coisa. Greymane fizer algo. Rapidamente as mulheres seguiram a subtenente pelos corredores, a cabeça a mil e Lina já pensando que arrancaria o pelo do cachorro doido no dente, quando entrou na sala do mapa e percebeu que o problema não era aquele. Ao lado de Varian, estavam todos os generais, nervosos e calados. Assim que viu Lina entrar, o rei falou, sua voz cheia de raiva e frustração:
— A Nau Capitania desapareceu.
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