Herdeiros da Guerra

44 Capítulo XXVI - A coroação (Parte VI)


Notas iniciais
Sim, mais uma parte e não é a última rsrsrs. O capítulo acabou ficando maior que o normal e ainda tem mais coisa pra acontecer na parte VII (que será a última). Espero que gostem! Estou deixando alguns links para ajudar na visualização de vcs! E não esqueçam de comentar! Arshe: https://uploaddeimagens.com.br/imagens/vestidoarshe-jpeg Doroteya: http://uploaddeimagens.com.br/imagens/vestidodoro-jpg Lina: http://uploaddeimagens.com.br/imagens/vestidolina-png Pandora: http://uploaddeimagens.com.br/imagens/vestidopandora-jpg Vivithi: http://uploaddeimagens.com.br/imagens/vestidovivithi-jpg

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Durante dias, Vivithi tentou de todas as formas não pensar nas implicações que sua ida ao baile do Kirin Tor teria tanto para os elfos sangrentos quanto para ela mesma. Até o fatídico dia do baile, ela procurou se ocupar na chegada dos convidados da coroação à cidade, na organização das defesas de Luaprata e até mesmo em deixar Luxuriah calma para que não acabasse parindo antes da hora. Porém, no momento em que começou a se arrumar para o evento, sua mente não conseguiu mais controlar os pensamentos.

Primeiro e o mais óbvio seria a preocupação com a posição dos elfos sangrentos dentro do Kirin Tor. A chegada de um dos conselheiros com a sobrinha de um dos líderes de uma facção já seria escandalosa por si só. O fato de ser Aethas só tornaria as coisas piores. Ash havia visto nos dias anteriores o que Vivithi já sabia há tempos: a presença da Horda não era bem-vista pela maioria do conselho e eles vigiavam todas as ações do arquimago como abutres esperando para que a presa moribunda dê seu último suspiro para enfim atacar. Sabia que era exatamente o que aconteceria no baile.

Até então haviam mantido sua identidade em segredo. Apenas a Horda sabia com quem Aethas se encontrava. A partir daquele dia tudo mudava. Assim que Vereesa colocasse seus olhos em cima dela, a reconheceria e não se calaria. Pensando de forma racional, Aethas jamais deveria tê-la convidado e ela jamais deveria ter aceitado o convite. Afinal, aquilo poderia causar um reboliço ainda maior que a coroação de Karen.

Era aí que entrava as implicações daquilo para seus sentimentos. Até então, Vivithi simplesmente evitava pensar no que exatamente ela e Aethas eram. Não queria aceitar a alcunha de amante e também não era burra para não perceber que estava envolvida muito além do que poderia chamar de sexo casual. E a ideia de admitir que eles tinham um relacionamento a deixava apavorada. Por isso dizia constantemente que tinha um ‘arranjo’ com Aethas. Algo entre um relacionamento e uma casualidade. Aquilo a deixava mais tranquila. Porém, aparecer em público com ele, num baile como sua acompanhante, levaria a perguntas. Perguntas que ela não queria responder. E que não queria que ele respondesse. Não queria que o ‘arranjo’ seguro que tinham se acabasse.

Então porque estava tão feliz em se arrumar para encontrar com ele? Por que tirara o dia de folga apenas para se preparar para aquele momento? Não era lógico, não era seguro e não era algo que ela deveria fazer. Só que estava ali, ajeitando cabelo, as unhas, a maquiagem, feliz como uma adolescente estúpida. Devia bater a cabeça na parede até que recuperasse o juízo, mas isso estragaria o penteado. E quando chegou a hora e se encarou no espelho, todas suas preocupações foram pelo ralo. Estava feliz por ir e agora abraçava aquela felicidade. As preocupações viriam depois.

Uma batida na porta anunciou que alguém esperava para entrar em seu quarto, mas ela sabia exatamente quem era. Ou eram. Karen não conseguia conter as risadinhas e Ash reclamava para ela parar de lhe beliscar.

— Entrem meninas. — permitiu.

As quatro irmãs entraram no quarto ao mesmo tempo, falando ao mesmo tempo, e sem esconder os sorrisos de admiração. Parecia um furacão élfico de ansiedade.

— Vivi, você tá muito linda! — exclamou Karen quando a viu.

— Sexy! — falou Luxuriah.

— Vai parar o baile! — avisou Ash.

— E o coração do titio. — completou Kassyeh.

O vestido de Vivithi era verde-água. Bem, pelo menos metade dele. O tecido rodeava seu pescoço e descia pelos seios, cobrindo-os, depois faziam uma curva acentuada na cintura, voltando a curvar-se para cobrir seu sexo e descer até os pés. A outra parte era coberta apenas por joias, que deixavam a pele exposta apena só suficiente para causar a perda de fôlego de quem a observasse. Era uma mistura perfeita de tecido e pedras que destacavam o tom bronzeado da pele de Vivithi, seus olhos verdes e seus cabelos prateados. Cabelos esses que estavam presos em um coque, cujo único enfeite era uma rosa solitária presa entre os fios. Vivithi não usava brincos, anéis nem nenhuma outra joia. Afinal, o vestido era a própria joia.

— Esse foi caprichado. — falou Luxuriah – Vire para eu ver.

Vivithi virou-se e as irmãs exclamaram admiradas o resto do trabalho. Nas costas predominava as joias, enquanto na frente a seda cobria os seios da elfa.

— Quase dá pra ver seu bumbum! — gracejou Karen.

— Quase. — enfatizou Vivithi – E a ideia é essa.

— Vou querer esse vestido emprestado quando me livrar disso aqui. — e Luxuriah deu duas tapinhas na barriga.

— Se você pedir para o Marcus, ele faz um ainda mais caprichado para você. — falou Vivithi virando-se para as irmãs novamente – Mas, esse você poderá usar quando quiser. E quando couber, claro.

Todas riram.

— Quer que eu abra o portal? — perguntou Kassyeh pensando que um vestido daquele não duraria um segundo em sua pele antes de Tewdric querer rasgar.

— Obrigada, Kass, mas usarei minha pedra de retorno. Se for de portal, vou parar no meio de Dalaran e minha entrada vai perder todo o impacto. — todas riram e ela continuou – Indo para a estalagem, posso manter minha chegada triunfal.

— Eu queria estar lá para ver a cara do Kirin Tor quando de te vissem entrar! — falou Luxuriah animada – Principalmente a cara daquela vadia de olho azul.

— A elfa que o Halhal foi ver? — quis saber Karen – Ele disse que não deu em nada a visita e ela só reclamou do titio Aethas. Acho que o Halhal ficou bem triste com isso.

— Sempre soubemos que ia dar nisso. — bufou Luxuriah – Mas eu vou querer saber com detalhes do impacto de sua chegada, Vivi!

— Ah, vocês saberão tudo! — garantiu ela. — Agora, falta o perfume. — e sorriu maliciosamente enquanto colocava o aroma comprado exclusivamente para aquela situação.

E estava finalmente pronta. Seu coração palpitava como se fosse a primeira vez que saia com um elfo na vida. Não era. Porém, era a primeira vez que ia sabendo que tudo poderia dar terrivelmente errado e simplesmente não se importava. Não se importava porque tudo que queria era estar com Aethas naquele momento. Não sabia se odiava a si mesma por permitir aquela fraqueza ou se parabenizava-se por permitir aquela fraqueza.

“Que se dane”, pensou antes de pegar a pedra e olhar para as irmãs Fendessol e dizer:

— Até mais meninas. — e usou a pedra.

Quando aportou na estalagem de Uda, Vivithi estava com o coração a mil. Olhou em volta e percebeu que Aethas não estava no salão. Aquilo a deixou angustiada e ao mesmo tempo irada. Mas antes que pudesse começar a praguejar contra o arquimago, a dona da propriedade se aproximou.

— Você tá tão gostosona que até eu te pegava! — gracejou a orquisa.

Vivithi caiu na risada.

— Obrigada, Uda.

— Ei, Vivithi. — gritou um troll de uma das mesas do fundo – Quando se cansar do elfinho lá, me procure!

— Vá sonhando, Kyunghee. — quem respondeu foi a orquisa – Esses dois vão casar no futuro!

Surpresa com o comentário de Uda, Vivithi estava pronta para replicar, mas o som de uma carruagem chegando chamou sua atenção. Seu estômago voltou a girar dentro de seu corpo.

— Sua carona chegou. — disse Uda antes de dar um tapinha no ombro de Vivithi – Vá lá e chute a bunda do Kirin Tor.

Decidindo que depois teria uma conversa com a outra sobre essa história de casamento, Vivithi se dirigiu até a porta da estalagem. Aethas estava lá fora, mas estava de costas, conversando com o cocheiro. Ele não estava usando as vestes do Kirin Tor, mas um conjunto de calça e colete negros com detalhes prateados, que o deixava mais esbelto e elegante que qualquer outra roupa que já vestira. Ela se postou bem atrás dele e esperou. O cocheiro a viu primeiro, engasgou e enrubesceu, antes de apontar com o queixo para ela. Aethas virou-se. A expressão do rosto dele foi o suficiente para Vivithi sentir que valera a pena todas as paranoias de sua cabeça das últimas horas.

— Não vai me dar um beijo? — perguntou ela se aproximando do elfo emudecido.

Saindo de seu estupor, Aethas deu um passo a frente e beijou delicadamente os lábios dela. E só depois de respirar fundo, foi que conseguiu encontrar palavras. Ainda que parcialmente.

— Você… — começou ele gesticulando exageradamente – Você está tão… Tão…

Vivithi colocou delicadamente o dedo nos lábios dele.

— Não precisa dizer nada. Essa sua carinha engraçada já disse tudo que eu precisava. — e o beijou novamente – Obrigada pelo vestido.

Aethas passeou os olhos pelo corpo meio vestido de Vivithi, torcendo para seu corpo não o trair e mostrar o quão empolgado estava com aquela visão.

— Valeu cada moeda. — disse ele.

— Verdade.

Quando voltou seus olhos para o rosto dela, Aethas percebeu que a única coisa que ela usava além do vestido era uma flor na cabeça. Uma flor que já vira antes. Algo passou por sua cabeça, mas ele achou que não era possível.

— Essa flor… — disse ele tocando levemente nos cabelos dela – Parece com as que dei no buquê para você.

— E é uma delas. — revelou Vivithi – Pedi para Kassyeh conservar essa com magia para eu usar hoje.

Aquela revelação chocou mais Aethas que vê-la naquele vestido. Vivithi realmente tivera o trabalho de conservar uma das flores que lhe dera para usar naquele dia? Seu coração descompassou e a esperança que contivera durante todos os meses em que se encontravam simplesmente explodiu dentro dele, levando-o a um êxtase de felicidade que jamais sentira antes. Sorriu de forma tão genuinamente feliz que Vivithi se sentiu constrangida. Jamais imaginara que pudesse tirar uma expressão como aquela da face do sisudo elfo.

— Vamos para o baile e você vai continuar me encarando? — perguntou a elfa tentando mudar o foco de suas preocupações.

— Vamos para o baile. — disse Aethas ainda sorrindo – Mas, se conforme que não tirarei os olhos de você hoje.

Vivithi deu uma risada e um tapinha no ombro dele.

— Acho bom mesmo. Olhe para outra que eu arranco seus olhos e dou para você comer.

— Por mim, tudo bem. — concordou ele entre risadas antes de pegar a mão dela e beijá-la.

Entraram na carruagem e logo estavam a caminho da cidadela violeta. Sentados lado a lado, ambos perceberam como era difícil manter as mãos longe do corpo um do outro e permanecer civilizados durante o percurso. O desejo que habitava em seus copos gritava por ser saciado enquanto os dois procuravam manter a serenidade.

— Estou quase desistindo do baile. — falou Aethas de repente.

Vivithi o encarou, surpresa.

— Está com receio de aparecer comigo? — perguntou ela sentindo a mágoa invadi-la.

— De jeito nenhum! — negou veementemente – Eu queria mandar o cocheiro ir para qualquer outro lugar para poder fazer amor com você aqui mesmo.

Vivithi sorriu maliciosamente.

— Faremos isso, mais tarde. — disse ela passando o dedo no rosto dele – Agora não quero amassar o vestido. Nem perder a oportunidade de chocar a Vadia Correventos. Prometi fazer isso para meu tio e para Ash.

Aethas gargalhou.

— Tudo bem, vou me segurar. — brincou o mago.

Demoraram um pouco mais que o normal para chegar à cidadela, porque o baile havia reunido inúmeras pessoas importantes de Azeroth que chegavam nos mais diversos tipos de carruagens. Levou alguns minutos para que finalmente pudessem parar em frente a imensa escadaria e descer. Aethas foi o primeiro a sair e a ajudou a não mostrar demais enquanto descia os degraus. Houve um burburinho quando os dois começaram a subir as escadas.

— Quem são essas pessoas? — perguntou Vivithi percebendo que havia muita gente ao redor da escadaria, mas visivelmente não eram convidados do baile.

— São pessoas que não são magos ou ligados ao Kirin Tor, mas que querem ver quem vem ao baile. Depois, sai no jornal de todas as principais cidades sobre quem veio, quem estava com quem, quem veio bem-vestido ou não…

— Quer dizer que todos em Azeroth saberão que você estava acompanhado de uma elfa linda e estonteante em um vestido provocante? — gracejou ela.

— Exatamente.

Vivithi ficou mais que satisfeita.

Assim que chegaram a entrada da cidadela, Aethas mostrou a insígnia do Kirin Tor e puderam entrar. Todos os olhares se voltaram para eles, antes de haver uma explosão de murmúrios nada discretos.

— Pergunto-me se essa agitação toda é por eu aparecer acompanhado ou se é simplesmente por sua causa.

— Que dúvida estúpida, Aethas. — criticou – Claro que é por minha causa.

Ele não discordou dela.

Assim que começaram a andar pelo salão, um humano veio na direção deles. Vivithi ergueu o queixo, desafiadora, esperando por qualquer comentário depreciativo.

— Meu caro Aethas! — foi dizendo o humano – Pensei que não viria mais!

— Cheguei no horário que sempre costumo chegar, Karlain. — respondeu calmamente o elfo – E você sempre faz esse comentário.

— Acho que preciso ser mais criativo. — falou o humano sem se abalar – Talvez comentar de sua surpreendente acompanhante. — e fez uma reverência para Vivithi – Arquimago Karlain, membro do conselho do Kirin Tor. E quem é a bela dama?

— Está é Vivithi. — apresentou Aethas – Vivithi Theron.

Vivithi relanceou o olhar a Aethas, surpresa por ele ter revelado tão facilmente seu sobrenome. O arquimago Karlain franziu o cenho, mas não fez nenhum comentário.

— É um prazer. — disse Vivithi estendendo a mão para o conselheiro. Aethas sentiu o ciúme ferver dentro dele quando Karlain beijou a mão de Vivithi.

— Espero que a dama me conceda uma dança, mais tarde. — convidou.

— Meu caro Karlain, espere pelo menos que eu tenha o prazer de ter a primeira dança com minha bela companhia. — Aethas chegou mais perto de Vivithi – Talvez depois ela lhe dê alguma atenção.

Apesar do tom crítico de Aethas, Karlain riu.

— Jamais lhe vi como um ciumento, caro Aethas. — gracejou o outro – Ah, e a propósito, o conselho se reunirá na antessala da cidadela em breve para um brinde. Tenho certeza que você e a bela Vivithi vão querer participar.

— Sem dúvida. — garantiu ela.

Karlain fez mais uma reverência e saiu. Vivithi virou-se para Aethas, com a testa franzida.

— Muito inconveniente esse conselheiro.

— Se eu não o conhecesse bem, diria que ele se interessou por você. — Aethas a encarou – Mas ele veio apenas bisbilhotar. — então suspirou – Vamos logo para a antessala e acabar com essas formalidades. Quero dançar com você antes que eu seja abduzido pelas obrigações de conselheiro.

— E que obrigações seriam essas? — perguntou Vivithi surpresa. Não achava que ele trabalharia em pleno baile.

— Preciso dançar com representantes de raças diferentes para mostrar a neutralidade do Kirin Tor.

— Você vai dançar com outras?! — perguntou Vivithi visivelmente irritada.

— Preciso. — disse ele em tom de desculpas – Mas não se preocupe, sempre voltarei para seus braços.

— Para começo de conversa, você não deveria nem sair! — reclamou.

— Desculpe. — pediu ele sinceramente.

Apesar da raiva, Vivithi entendia. Aquele baile não era apenas para diversão, mas também para reforçar a ideia do Kirin Tor como facção forte, unida e, acima de tudo, neutra. Por isso, Aethas teria que dar atenção, conversar e dançar com outras mulheres, mesmo estando acompanhado. Na verdade, o fato de estar acompanhado dela especificamente fazia com que ele fizesse ainda mais o papel de mediador neutro entre o Kirin Tor e a Horda. Pela primeira vez Vivithi sentiu que o atrapalhava mais que o ajudava, mas decidiu logo que nada adiantava ficar se martirizando. Ele a convidara sabendo dos riscos. Ela aceitara também sabendo. Teriam que lidar com isso em algum momento desde que iniciaram o ‘arranjo’ deles e o momento era agora.

Se Vivithi soubesse que as preocupações de Aethas não era de forma alguma o Kirin Tor, ficaria abismada. A preocupação dele era os sentimentos dela.

Vivithi não queria um relacionamento, ele sabia disso desde o começo. Convidá-la para o baile fora muito arriscado, mas ele não se arrependia. Estar com ela ali o deixava em êxtase de felicidade que não conseguia esconder. E as obrigações que lhe eram impostas o preocupavam pelo fato de que não queria desperdiçar a chance de mostrar para ela que estar junto com ele em um lugar público e bem longe da cama não era um bicho de sete cabeças. Que ela podia aproveitar a vida com ele, sem se apegar aos medos do passado. Queria que ela tivesse um gosto de um relacionamento, pelo menos uma vez. E ter que dar atenção a outras poderia estragar tudo.

— Acho que deveríamos ter fugido, afinal. — comentou tristemente oferecendo a mão a ela.

— Não, não devíamos. — afirmou Vivithi, convicta, pegando a mão dele e apertando-a com força – Vamos logo acabar com essas frivolidades para que você possa ser apenas meu.

E foram.

Todos os conselheiros já estavam lá quando chegaram. Ou quase todos. Vivithi não conhecia pessoalmente o famoso arquimago Hadgar, mas percebeu que nenhum dos que estavam lá era velho o suficiente para ser o herdeiro do último guardião. E, é claro, Vereesa estava lá.

Quando a viu, Vereesa ficou tão surpresa que deixou o queixo cair, literalmente. Vivithi reparou que o vestido dela era muito sem graça, e se perguntou se ela queria passar a impressão de uma mãe de família sem estilo. Decidiu que não deixaria Luxuriah pensar que só porque tinha uma filha não poderia ser deslumbrante.

— Aethas, você chegou antes do que eu imaginava. — Rhonin foi cumprimentá-lo e teve a decência de não olhar diretamente para Vivithi. Boatos diziam que Vereesa havia ficado bem irritada com a atenção dada pelo seu marido a Ash.

— Com todos falando assim, Vivithi vai pensar que sou um atrasado por natureza. — brincou Aethas olhando para a elfa.

Foi quando Rhonin virou-se para a companhia de Aethas. Vivithi deu um sorriso educado e um aceno com a cabeça.

— Vivithi, é um prazer. — disse o líder do Kirin Tor fazendo uma menção com a cabeça – Seu rosto me é familiar. Pertence aos Fendessol?

— Não. — quem respondeu foi Vereesa, chegando ao lado do marido – Seu rosto lhe é familiar porque Vivithi é sobrinha de Lor’themar Theron, lorde regente de Luaprata.

— Exato. Beleza é de família. — comentou alegremente a elfa – A propósito, meu tio manda os cumprimentos dele para você, Vereesa. — ela sorriu debochadamente.

Os olhos de Vereesa pareceram arder de fúria por um momento e então ela acenou com a cabeça.

— Meus cumprimentos a ele também. — disse altiva. E voltando-se pra Aethas, comentou quase com displicência – Parece-me que as famílias Theron e Fendessol andam bem unidas. — e sorriu.

Vivithi havia decidido que não provocaria Vereesa naquela noite. Pensou que, apenas ver a cara dela estarrecida por estar com Aethas seria suficiente. Estava enganada. Porém, não fora ela quem começara, então podia rebater sem peso na consciência.

— Sim, estamos bem unidos. E, a propósito, como anda o relacionamento com suas irmãs? Notícias de Alleria e Sylvana?

O rosto de Vereesa se transformou na mesma hora num misto de raiva e dor. Por um momento, apenas um momento, Vivithi achou que tinha ido longe demais, mas esse sentimento só durou até Vereesa abrir a boca e falar:

— Não nega o sangue de suas veias, Vivithi. Sua mãe sempre foi muito abaixo do nível dos Theron.

O sangue sumiu da face de Vivithi e ela só não estapeou Vereesa porque Aethas segurou forte em sua mão.

— Pelo menos minha mãe morreu junto aos seus e não abandonou a família como você fez. – vociferou a patrulheira – Você odeia Sylvana, mas ela morreu nos protegendo! E você? Você fugiu! Covarde! Sylvana é muito melhor que você jamais será!

Agora era Vereesa que queria avançar para cima de Vivithi e Rhonin se colocou na frente da espoa. Todos na sala observavam a cena. As elfas estavam falando em thalassiano, mas a maioria compreendeu perfeitamente o que estava sendo discutido.

— Já chega, Vereesa. — pediu Rhonin olhando para a esposa – Hoje não é dia disso. Venha, vamos nos preparar para o brinde.

E saiu quase arrastando a elfa dali.

O rosto de Vivithi estava transtornado em fúria e Aethas temeu que ela simplesmente corresse atrás de Vereesa e batesse nela até a guarda ser chamada. Mas a patrulheira respirou fundo, a cor voltando ao seu rosto e olhou para Aethas.

— Acho que não foi uma boa ideia você me convidar para esse baile.

Aethas ficou entristecido por um momento, mas logo sorriu.

— Claro que foi. É bom colocar algumas coisas para fora. Venha, vamos fazer esse brinde e sair daqui.

Quando a tensão da sala se esvaiu, taças de champanhe foram servidos e os conselheiros e seus acompanhantes se reuniram em volta de uma mesa. Aethas tomou o cuidado de deixar Vivithi bem longe de Veressa, mas as duas elfas continuavam a trocar olhares raivosos por cima da borda das taças. Rhonin fez um discurso rápido, falando em como o mundo deveria se unir diante das ameaças que os rondavam, que o Kirin Tor era um exemplo de união e um monte de palavras lixos que Vivithi sabia ser mentira. Talvez a intenção do Arquimago fosse boa. Era possível que ele acreditasse realmente naquilo. Mas para qualquer um que vivera o inferno da invasão de Arthas a Luaprata e sabia que os humanos os deixaram para morrer lá, tudo aquilo era pura merda. Mas ela fez o possível para não prejudicar Aethas. Sorriu, acenou com a cabeça para todas as palavras ditas e bebeu o champanhe ao final. Depois, pegou Aethas pela mão e saíram de lá o mais rápido possível.

— Você está bem? — perguntou Aethas quando voltaram para o salão.

— Estaria melhor se tivesse quebrado a cara dela. — resmungou a elfa.

— Isso teria sujado o seu vestido. — brincou Aethas – E você não ia querer sangue de Vereesa no seu vestido, não é?

Vivithi acabou sorrindo, mesmo que ainda estivesse com raiva.

— Você tem razão. Podemos dançar agora?

— Claro, milady. — ele então a pegou pela mão e foram para a pista de dança.

Estar nos braços um do outro tirou todas as preocupações de suas cabeças. Vivithi gostou de ser levada pelo salão pelo seu par e adorava poder olhar o rosto dele sorrindo, sabendo que aquele sorriso era por sua causa. A paixão de Aethas há muito deixara de lhe atemorizar. Na verdade, jamais admitiria, mas adorava o fato de saber que ele lhe sorria assim e pensava nela mesmo quando estavam longe. Porque não era diferente do que sentia. Ás vezes ela se pegava olhando para o nada e pensando em formas de deixá-lo feliz da mesma forma que ele a deixava feliz. Quando percebia o que estava fazendo, se xingava e mudava o foco do pensamento. Mas ele sempre voltava. Aethas ia e voltava de sua mente, da mesma forma como ela ia e voltava de Dalaran para estar com ele.

Quando a música acabou, se cumprimentaram como mandava o figurino e saíram da pista de dança. Vivithi pegou uma bebida e Aethas a encarou, com receio.

— Vá logo. — ordenou ela – Mas a cada duas danças, volte aqui e dance comigo.

Aethas ficou aliviado.

— Estarei logo de volta. — e beijou a mão dela antes de sair.

Com uma tristeza descomunal por vê-lo deixá-la, Vivithi tomou todo o champanhe num gole só e logo pegou outra taça. Estava pensando no que faria para passar o tempo quando notou uma silhueta conhecida indo em sua direção. Sorriu, aliviada.

— Kayliel! — cumprimentou quando o elfo chegou ao seu lado – Graças a Nascente do Sol, achei que ia ficar aqui bebendo e vendo Aethas dançar com esse bando de humanas nojentas!

— Olá, Vivithi. — Kayliel riu de suas palavras – Também achei que ficaria sozinho por aqui.

O elfo estava bem melhor do que a descrição que Luxuriah lhe dera dele nos últimos dias. Parecia que Kayliel tinha se esmerado para melhorar a aparência e estava ali, nas vestes que Luxuriah lhe dera, mais lindo do que Vivithi achava possível estar. Claro, Aethas era muito mais interessante, mas não podia negar que Kayliel era mais lindo que a maioria dos elfos. O fato de ele ser praticamente um celibatário deixava muitas elfas tristes, mas Vivithi sabia que o isolamento dele era por outro motivo. Discretamente, a elfa passou os olhos pelo salão e não viu a princesa humana. Ótimo.

— Venha, vamos dançar! — Vivithi colocou a taça numa mesa e pegou a mão de Kayliel – Não vou ficar aqui com cara de tacho sozinha. — e saiu arrastando-o pra pista de dança.

Kayliel saiu tropeçando, mas não se opôs a dança. Mesmo sem ser muito adepto de festas, Kayliel dançava bem, porque era algo que seu irmão insistia que praticasse. Então, ele e Vivithi foram dançar enquanto Aethas dançava com alguma mulher que a elfa preferiu nem ver. O arquimago ficou surpreso de ver Vivithi dançando, mas quando viu que a companhia dela era Kayliel, ficou aliviado. Não precisava ter ciúmes daquele elfo específico.

— Você parece chateada. — comentou o sacerdote enquanto dançavam.

— Tive uma pequena discussão com Vereesa Correventos. — comentou franzindo a testa.

— Como seu vestido não está sujo de sangue, acredito que tudo acabou pacificamente.

Vivithi gargalhou.

— Não rolou sangue, realmente, mas deixamos bem claro para todos porque hoje somos dois povos diferentes. — ela suspirou – Eu odeio Dalaran…

A confissão não surpreendeu Kayliel. Era um sentimento bem comum entre seu povo. Até mesmo ele tinha suas ressalvas quanto a cidade flutuante. Só havia um motivo para ele estar ali e até agora não havia visto Arshe.

O que diria quando a visse? Teria coragem de dizer algo? Acaso ela o ouviria? Essas eram suas dúvidas em ter ido até ali. A parte mais racional de seu cérebro dizia que devia aceitar o fim que ela havia posto e pronto. Só que seu coração queria vê-la pelo menos uma última vez. Só que com Vivithi ali, saberia que, no momento em que olhasse para Arshe, seu irmão saberia. Todavia, aquilo não o amedrontava mais. Se Rommath tivesse que saber, saberia e ponto.

Mas Arshe não estava lá. Kayliel dançou uma vez com Vivithi e depois o conselheiro Karlain tirou a elfa para dançar. Depois, Vivithi confessou a ele que pensou em negar a dança, mas que sabia que seria a oportunidade de saber no que dera sua discussão com Vereesa e também sondar para saber o que o conselheiro queria saber sobre Aethas. Mas o conselheiro não foi o único a tirar Vivithi para dançar e ficou meio óbvio que o vestido da elfa fizera bastante sucesso. Aethas também percebera isso, e agora balanceava uma dança com alguma mulher de algum lugar e com Vivithi. A elfa parecia adorar a comoção.

Kayliel já tinha perdido a esperança de ver Arshe naquela noite e estava na terceira taça de vinho quando um burburinho grande chamou sua atenção. Olhou na direção em que as pessoas olhavam e seu coração parou.

Arshe chegara.

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Pandora não escondeu a admiração quando viu a fabulosa mansão dos Hightower. A propriedade era imensa, de cor viva e estava rodeada de bosques e plantações. Além da beleza própria do lugar, havia flores e fitas espalhados por todo o local, já parte da decoração para o casamento. A jovem suspirou, melancólica. Aquele ar de romance a deixava com o estômago apertado e enjoada.

Desde que voltaram de Dalaran, Pandora sabia que estava agindo estranhamente. Já se pegara em silêncio, olhando para o nada e pensando. Pensando em Halduron. Era besteira, claro. Só passara algumas horas com o elfo, mas não o tirava da cabeça. Lembrava do sorriso dele, do jeito que ele falava e até mesmo do cheiro dele. Era como se ele tivesse sido marcado em sua mente como o ferro em brasa marca a pele. E agora, só conseguia pensar que dificilmente o veria de novo. E isso causava o aperto em estômago e seu enjoo.

Pietro percebera sua mudança. Claro que percebera. Eles eram como se fosse um só e não demorou para que o menino a inquirisse. Pandora, que jamais mentira para o irmão, contou exatamente o que sentia. Para sua surpresa, Pietro entendeu perfeitamente.

— Ah, ele era bem legal mesmo! Também sinto a falta dele! Será que podemos ir de novo a Dalaran? Para encontrá-lo?

Só de pensar naquela possibilidade, o coração da menina disparou.

— Seria bem legal, mas a tia não deixaria. — disse ao irmão.

Pietro pensou um pouco.

— Você faz dezesseis anos próximo mês, né? Peça uma viagem para lá de presente! A tia não vai negar! E eu vou junto!

E com essa ideia em mente, a sensação desoladora em seu estômago foi substituída por uma animação sem igual. Estava decidida a pedir aquilo para Lina e sabia que ela não negaria. Quer dizer, podia até negar, mas Pandora sabia que conseguiria. Claro, não era certeza que visse Halduron de novo, pois ele devia ser bem ocupado, mas já era um começo. Animada com a perspectiva, seu comportamento voltou ao normal e pode se animar junto com o irmão e Theo para a visita à mansão Hightower e também com o casamento que participariam.

Casamento chique, como gostava de salientar.

— Ei, tia! — disse Pietro olhando para fora da carruagem que os carregavam – Espero que a senhora tenha um dia uma casona dessa pra gente morar, não é Pandora? — e piscou para a irmã.

— Ah, com certeza um dia ela terá. — e piscou para o irmão.

Lina apertou só olhos para os dois mas não disse nada.

Os sobrinhos saberem de seu caso com o rei estava tirando juízo dela. A cada dez palavras dos meninos, metade vinham cheias de duplo sentido, insinuações e esperanças que ela sabia que não se concretizariam. Por algum motivo, os meninos tinham uma certeza perturbadora que um dia ela viraria rainha. Claro, aquilo jamais aconteceria. Porém, não adiantava negar. O jeito era deixar que eles quebrassem a cara com o tempo.

— Se a Lina conseguisse virar general, não seria difícil. — concordou Tommy sem saber que seus sobrinhos falavam com segundas intenções.

— Seria muito legal! — falou Theo, também inocente – Se a gente morasse num local assim, cheio de árvore! A gente podia ter uma vaquinha pra tirar leite e fazer queijo, né mãe?

Doroteya, que entendia perfeitamente a malícia dos sobrinhos de Lina, preferiu se fazer de desentendida e concordar com o filho.

— Poderíamos ter mais até que uma vaca só, meu amor, mas sua tia infelizmente não pode virar general. Ela não é nobre.

— Nunca se sabe. — falou Pandora sorrindo.

Além deles, Mel também vinha na carruagem. O alfaiate parecia bem triste por estar sem o irmão. Ou só podia ser a tristeza por não poder ficar em Ventobravo e ajudar Arshe a se vestir para o baile. Os irmãos tiveram que se separar para poderem arrumar suas duas mais importantes clientes e era estranho ver um sem o outro.

— Espero não precisar fazer um ajuste muito grande. — comentou o alfaiate – Sozinho sempre é mais difícil…

— Aposto que Fey tá dizendo a mesma coisa agora, arrumando Arshe. — disse Lina tentando não rir do irmão.

Mel apenas suspirou.

Quando a carruagem se aproximou mais da mansão, Pandora viu várias pessoas que andavam de um lado para o outro, arrumando ainda mais o local. Seria o casamento mais bonito que já vira, sem sombra de dúvida. Se perguntava se, quando sua tia casasse, seria um casamento muito mais luxuoso que aquele.

Diferente dos adultos que sabiam do caso de Lina com o rei, Pandora e Pietro acreditavam realmente que a tia casaria com Varian e se tornaria rainha. Talvez fosse apenas fantasia infantil, ou romantismo da parte deles, ou simplesmente eles acreditavam mais nos sentimentos do guerreiro pela comandante que esta mesma. Por isso, Pandora prestava atenção nos detalhes, principalmente nos que não gostava, para ajudar quando fosse a cerimônia de Lina. Seria uma das madrinhas, claro, e escolheria seu próprio vestido. Nada comparado com o vestido de menininha que os tios fizeram para que usasse naquele casamento.

Finalmente a carruagem que os levavam parou e uma senhora muito distinta se adiantou para recebê-los. Era uma mulher muito bonita e, pela semelhança, Pandora percebeu que só podia ser a mãe de Lady Cláudia.

— Comandante Wood e família. — disse a senhora sorrindo com uma felicidade transparente e sincera – É um prazer recebê-los!

— Lady Hightower. — Lina fez uma reverência e todos a imitaram – É um prazer estar aqui.

— Cláudia está muito animada para vê-la. E ver o vestido também. — a mulher relanceou a vista para Pandora e os meninos e perguntou – E essas crianças lindas? Seus sobrinhos?

Ser chamada de criança passou a incomodar Pandora nos últimos dias, mas ela deu um sorriso educado. Afinal, estava na casa da mulher e pretendia curtir ao máximo a estadia.

— Sim, milady. Pandora, Pietro e Theo. — falou Lina acenando para eles – Esse é meu irmão Tommy. — e apontou para Tommy – Mel, que milady já conhece, e Doroteya, que vai celebrar o casamento.

— Sejam todos bem-vindos. Minha governanta vai direcioná-los aos seus quartos, para que possam se arrumar.

A mansão era tão grande que tinha quarto para todos no térreo. Pietro adorou poder ficar perto da família e não precisar que ninguém subisse com ele nos braços. Se dirigiram para o quarto deles e Pandora pensou que talvez devesse ter pedido um só para ela. Afinal, estava ficando mais velha e logo não se sentiria a vontade de trocar de roupa na frente dos meninos. Não que eles se importassem, era ela quem estava começando a se importar.

O casamento seria no final da tarde, então todos foram descansar um pouco antes de começar se arrumarem. Pandora tentou cochilar, como os meninos haviam feito, mas sua cabeça estava a mil. Impaciente, foi andar pela casa e acabou tomando o caminho do quarto da tia. Ainda não tinha pedido para ir a Dalaran e pensou se seria uma boa ideia fazer aquilo naquele momento. Bateu à porta dela, mas Lina não atendeu. Abriu a porta e espiou. Ninguém. Bufando, fechou a porta.

Passou a andar pela enorme casa até ouvir a voz de Lina e ir naquela direção. Chegou em um aposento e percebeu que a noiva estava lá, já se arrumando e derrubando muitas lágrimas, agarrada com a mãe. Lina e Doroteya observavam e a jovem deu um passo para trás, pretendendo sair dali. Emoção demais para alguém que andava com a cabeça cheia. Só que ela foi vista por Lina, que acenou para que ela se aproximasse. Sem alternativa, a jovem foi.

— Eu disse que não ia chorar… — murmurou Lady Cláudia limpando os olhos.

— É seu casamento, minha filha. — disse a mãe dela – Tem que chorar mesmo…

— Queria tanto que Claire estivesse aqui… — murmurou a noiva vertendo mais lágrimas.

— Ela está com você em espírito. — disse Doroteya com carinho – Tenho certeza disso.

A noiva chorou ainda mais.

Pandora olhou para a tia, angustiada, e percebeu que Lina compartilhava sua aflição. Nenhuma das duas gostava muito de demonstrações tão intensas de emoção. Provavelmente fora por isso que a tia chamara-a para a sala, para não sofrer sozinha.

Vaca.

— Onde está tio Mel? — perguntou a adolescente.

— Foi buscar a caixa de costura. — respondeu Lina impaciente – Ele insiste que tem pedras fora do lugar.

Pandora observou o estonteante vestido de noiva de Lady Cláudia e não viu nenhum fio fora do local.

— Ele é doido. — afirmou.

— Sem dúvida. — concordou a tia. E olhando para a sobrinha, perguntou – Achei que você tiraria um cochilo com os meninos. Queria algo?

Aquele definitivamente não era o momento de pedir sua viagem para Dalaran.

— Falo depois. Lady Cláudia parece que quer te dar um abraço apertado. — gracejou a menina.

E era verdade. Lady Cláudia chamou Lina com a mão e acabou abraçando-a forte, deixando-a comandante totalmente sem jeito.

— Muito obrigada por estar aqui! — disse a noiva entre lágrimas.

Pandora se perguntava como as pessoas conseguiam gostar tanto de sua tia, já que ela era um saco na maior parte do tempo. Na verdade, quase todo o tempo. Certo, ela só era legal em um 1% dos casos e as pessoas ainda gostavam dela! Não que a própria Pandora fosse diferente, mas ainda não desenvolvera a habilidade de ser amada mesmo sendo um porre. Tinha que observar mais a tia para aprender o segredo. Afinal, ela, com sua grosseria sem fim, agarrara um rei! Tinha que ter um segredo!

Depois da rodada de lágrimas e abraço que deixou todos um pouco embaraçados, Mel retornou para continuar o ajuste do vestido. Pandora então deslizou para longe da comoção e voltou para o quarto. Deixou a tia encarar aquilo sozinha. E, como já estava quase na hora dos convidados começarem a chegar, acordou os meninos. Precisava arrumá-los antes de arrumar-se.

No fim da tarde, quando finalmente os convidados começaram a chegar e a festa estava montada, Pandora percebeu o impacto da decisão de Lady Cláudia e do noivo em fazerem uma cerimônia mesmo que a união deles fosse proibida. Não havia nenhuma pessoa que reconhecesse como nobre e os nobres eram bem perceptíveis em qualquer ocasião. Todas as pessoas ali eram pessoas comuns, comandados da noiva ou do noivo e pessoas da região, algumas que Pandora reconheceu da Vila D’Ouro. Ver aquela afronta tão descarada a leis tão idiotas deixava a jovem animada. E estava animada com seu vestido. Nunca vestira nada tão elegante.

Conseguira finalmente livrar-se dos vestidos de balão e cheios de mangas bufantes que seus tios haviam lhe empurrado na infância. Seu vestido poderia ainda ser rosa, mas era rosa salmão, delicado e discreto. Na parte de cima, sem mangas, ele era coberto por uma renda fina de rosa mais claro e discreto, tendo um forro em forma de coração da mesma cor salmão da saia, que tinha várias camadas de seda delicada, mas sem ser cheio. O vestido só ia até o joelho, coisa que Pandora adorou, pois lhe dava mais liberdade e lhe dava um ar juvenil, mas sem ser infantil. Nos pés, sandálias de salto fino e altos, pois, afinal, sapatilha era coisa de criança. Os cabelos negros estavam presos num coque e ela usava uma maquiagem delicada, para combinar com o vestido. Fazia tempo que Pandora não se sentia tão maravilhosamente linda.

Desejou que Halduron a visse. Tinha certeza que, se a visse, ele não a chamaria mais de criança.

Estava ela, o irmão e Theo sentados na terceira fileira, bem na ponta, pois Pandora queria ter uma boa visão da noiva. Lina entraria antes da noiva e Doroteya estava no altar, usando suas novas roupas cerimoniais de druida, pronta para realizar o casório. Tommy estava logo depois de Theo, e estava com uma cara muito estranha, desde mais cedo. Pandora se perguntou se ele estava pensando em pedir Doroteya em casamento. Mel não estava a vista, provavelmente fiscalizando os últimos detalhes do vestido antes da entrada de Lady Cláudia. Isso se não tivesse tido um infarto e morrido ali mesmo.

— Eu também faria isso. — disse a adolescente de repente.

— Faria o quê? — quis saber Pietro.

— Desafiaria todos para ficar com quem eu amasse.

Theo olhou para a mãe e pensou na vida que levaram antes de Ventobravo. Quanto mais o tempo passava, mas ele entendia o que tinha sido tirado deles por causa da nobreza.

— Mesmo que você abrisse mãe de coisas importantes? — perguntou o menino.

— Sim. — falou a jovem com convicção.

Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, alguém falou que a cerimônia começaria e os convidados que ainda estavam de pé tomaram seus lugares e a música começou.

Primeiro entraram crianças, jogando pétalas de flores. Depois, uma mulher loira que Pandora nunca vira entrou com um rapaz que ela reconheceu como o sobrinho do tenente Lane. O rapaz sorriu para Pandora e Pietro deu uma cotovelada na irmã, seguido de risadinhas. Pandora revirou os olhos. O rapaz era muito sem graça. Depois entrou o noivo, com a ex-cunhada, viúva do irmão do tenente. Pandora lembrou que os pais do noivo já haviam falecido. Depois, entrou Lina, acompanhada de um homem que desconhecida, mas sabia ser um sargento que trabalhava com o noivo também. Tinha que admitir, sua tia estava gatona.

Lady Cláudia chamara apenas Lina como dama de honra, então sua tia tivera a liberdade de escolher à vontade seu vestido. Ou melhor, seus irmãos alfaiates tiveram a liberdade de escolher. O vestido era vermelho, mas de dois tons de vermelho. Na parte de cima, o vestido só tinha uma alça, de vermelho bem escuro, transpassada e com detalhes em pedras brilhantes. Depois, descia justo, com mais detalhes de pedras na cintura. O vestido então soltava-se a partir daí e mudava o tom de vermelho-escuro para vermelho mais claro gradualmente até chegar ao chão. Os cabelos da tia também estavam presos num coque e a maquiagem dela era bem forte, combinando com o vestido. Como também usava salto altos, ela ficara bem maior que seu acompanhante. Pandora se perguntou o que o rei diria se a visse daquele jeito e acompanhada de outro homem.

Depois da entrada de Lina, a música mudou. Lady Cláudia apareceu em seu vestido fabuloso, acompanhada de seu pai. Nem parecia que ela estava grávida, de tão ajustado que ficou o vestido. Pandora não pode deixar de sorrir diante da felicidade da noiva. E de ter um pouco de inveja também. O amor que transparecia no olhar da general dirigida ao homem que a esperava no altar era tão perceptível que incomodava. Pelo menos incomodou Pandora, de alguma forma. E pensou em Halduron. Será que existia alguém que sorria para ele daquele jeito? O pensamento a deixava desconfortável.

A cerimônia foi linda e emocionante. Doroteya não enrolou muito, mas falou o que deveria ser falado, com muito sentimento. Claro, houve muitas lágrimas, da parte dos noivos, dos familiares destes e Pandora torceu para que sua tia chorasse nem que fosse um pouco para poder encher o saco dela depois. Só que os olhos de Lina continuaram secos e Pandora lembrou que sua tia era uma pedra mesmo e quem nem adiantava ter esperanças do contrário. Quem chorara fora Tommy e Mel. Como duas torneiras. E, finalmente Doroteya deixou que os noivos se beijassem. Todos bateram palmas e Pandora se animou. Era hora da melhor parte: a festa!

*********************

Fazia tempo que Arshe não se sentia tão sozinha.

Em pé, de frente ao espelho, com seu estonteante vestido vermelho vivo, usando uma tiara de diamantes que sustentaria o povo de Ventobravo por um ano inteiro, a princesa não tinha motivos para se sentir tão miserável, mas era assim que se sentia.

No dia anterior, finalmente recebera a visita de Lina e Doroteya depois de quase uma semana sem vê-las. Afinal, a visita dos pais de Lina a tirou da bastilha por todos aqueles dias e só se viram no dia da prova final de seu vestido, às vésperas do baile do Kirin Tor. Fizera questão que as amigas o vissem, já que nenhuma das duas estaria no baile por causa do casamento de Lady Cláudia.

— Eu poderia ir escondida para o casamento. — brincou ela com Lina e Doroteya, antes da tristeza a invadir – Eu colocava uma peruca loira ou algo assim. Um par de óculos. Ficaria imperceptível.

Arshe estava de pé em um banquinho, admirando seu imenso vestido vermelho. Lina encarou os imensos olhos azuis e sabia que, qualquer um que os olhasse, a reconheceria. Mas decidiu entrar na brincadeira.

— Seria uma excelente ideia. Poderia pintar uns dois dentes de preto, para você parecer banguela. – Arshe fez uma careta e Lina riu – Porém, o melhor seria te manter calada. O que seria impossível. E quando você abrisse a boca todos saberiam que era você. Então, vai ter que se contentar com o baile.

— E você vai aproveitar muito esse baile, hein? — disse Doroteya incentivando-a – Vai se divertir mais que nós duas.

— Duvido. — disse a princesa fazendo beicinho – Estarei sozinha…

— Com esse vestido fabuloso, você definitivamente não ficará sozinha lá. — decretou Lina.

O vestido era espetacular. Em cima, o colo e os ombros de Arshe ficavam descobertos, já que a manga do vestido era curta e quase na altura do busto. O decote, em formato de coração, era coberto com renda da mesma cor do vestido, onde também era bem justo. Logo após a cintura, o vestido se abria em várias camadas, mas, não eram camadas sobrepostas, mas bem definidas, que se abriam por todo o vestido, como as pétalas de um botão de rosa. Na ponta de cada camada, uma renda diferente. Assim ele ia até o fim, para então ficar bem cheio perto dos pés. Na cabeça, ela usaria uma tiara de diamantes, com brincos combinando. Nos pés, um sapato de salto médio, discreto. A princesa sabia que o vestido cobriria seus pés o tempo todo e preferiu um sapato mais confortável para poder dançar a noite toda. E Lina tinha certeza que haveria muitas pessoas que quereriam estar nos braços da princesa naquela noite.

Os irmãos de Lina estavam na sala, alheios a conversa, já que verificavam todo e qualquer detalhe que lhes parecessem fora do lugar. Em determinado momento, os dois insistiram que tinha uma linha solta e fizeram Arshe tirar o vestido e prometer esperar enquanto eles iam correndo no ateliê ajeitar. Já que tinha que esperar, a princesa mandou servir um chá para ela e as amigas, que aproveitaram o momento para colocar a conversa em dia.

— Já viu o titio? — quis saber a maga.

— Falei rapidamente com ele quando cheguei hoje. — comentou a comandante tristemente – Foi bem rápido e fiquei louca para pular em cima dele! Mas vou ter que esperar essa correria acabar…

— Tenho certeza que ele adoraria que você tivesse pulado nele. — brincou Arshe.

— Acho que ele está triste também porque não vai te ver toda arrumada de novo. — comentou Doroteya – O vestido dela está lindo!

— Por que não trouxe para eu ver?! — protestou a princesa.

— Por que seus alfaiates não deixaram. — resmungou Lina – Reclame com os dois quando voltarem. E reclame pelo vestido de Doro também. Está muito mais bonito que o meu. — e sorrindo maliciosamente, comentou – Tem gente que vai enfartar, não é, Doro?

Doroteya se engasgou com o chá e Arshe olhou de uma para a outra, sem entender.

— Conte. — ordenou Lina sorrindo enquanto tomava seu chá.

— Não há muito o que contar… – tentou desconversar a druidesa, olhando para a xícara.

— Como assim não tem?! – protestou Lina. E olhando para Arshe, falou – Ela e Tommy se beijaram.

Houve um momento de silêncio e então um grito.

— O quêêêê????? – gritou Arshe tão alto que as outras duas se encolheram – Ela beijou Tommy?! O seu Tommy? – quis saber apontando para Lina.

— Meu irmão, sim. – Lina cutucou o ouvido com o dedo – Nunca mais grite assim, pela Luz!

Arshe estava boquiaberta, olhando de um para a outra, sem acreditar no que ouvia.

— Como isso aconteceu? Quando isso aconteceu? Por que eu não soube de nada? – protestou atropelando as palavras – Desembuche, senhora Doroteya! Não me esconda nada! — exigiu apontando o dedo para ela.

Suspirando, Doroteya começou a contar. Era um pouco difícil, já que nem a druidesa sabia exatamente como havia começado, muito menos quando. Porém, logo ela falou de como o cheiro dele lhe era interessante, do sonho, do beijo na praia e de como agora queria conversar com ele para saber o que ele sentia. Falou também do medo de se machucar e lembrou que não era apenas ela que corria esse risco. Qualquer um envolvido com ela, se envolveria com Theo também.

— É difícil ficar pensando nessas coisas e não ter medo… – confessou Doroteya por fim.

— Medo de quê? – desafiou Lina – Com Tommy não será como com Liam! Ele não precisa se esconder! Não precisa te esconder! E ele ama o Theo!

— Lina, eu nem sei como ele se sente! – protestou a druidesa.

— Parem! — exigiu Arshe e as outras pararam de falar – Antes de mais nada, por que eu só estou sabendo disso agora?! – perguntou horrorizada – Isso tá rolando há uma semana e vocês não me disseram nada!

Lina olhou para Doroteya, com a expressão de ‘eu avisei’.

— Eu a mandei vir aqui, mas ela não quis…

— Eu só queria contar quando tivesse certeza do que ele sentia! – se defendeu a druidesa.

Arshe a encarou, sem acreditar.

— Até eu, que soube agora, sei que ele está apaixonado por você! – sintetizou a princesa.

Gargalhando, Lina chegou a se engasgar com o chá.

— Eu te disse! – falou a comandante tossindo e colocando chá pelo nariz.

Arshe observou a cena e lhe estendeu um lenço, com a expressão de nojo. Depois, deixando o choque de lado, sentiu uma alegria imensa. Pegou as mãos de Doroteya e as apertou. Os olhos azuis estavam marejados de lágrimas.

— Estou tão feliz por você! Mesmo que você não tenha se dignado a vir falar comigo!

— Desculpa, Arshe… — pediu com os olhos marejando também.

— Ah, deixe pra lá! — Arshe sorriu imensamente – É tão bom ver que finalmente está reconstruindo a vida, Doro! Está deixando o passado para trás!

— Vocês estão pondo muita pressão em mim! – protestou Doroteya puxando as mãos – Eu nem sei no que isso vai dar!

— Eu sei! – afirmou Arshe categoricamente – Casamento!

Lina riu ainda mais.

— Você e a Lina vão casar em breve, tenho certeza! – afirmou a princesa.

Foi a vez de Doroteya rir e Lina ficar séria.

O resto do tempo foi gasto com Arshe pedindo para Doroteya repetir inúmeras vezes, com todos os detalhes possíveis, como foi o beijo, o que ela sentiu, onde estavam as mãos de Tommy quando a beijara, enfim, todos os detalhes. Doroteya ficou desnorteada no começo, mas depois acabou sorrindo e entrando no clima. Depois os irmãos de Lina chegaram e Arshe ficou bestificada ao perceber que eles ainda não sabiam de Doroteya e Tommy, mas um pouquinho feliz também, por não ter sido a última. E lá se foi mais uma rodada de conversa, emoção e desespero de Doroteya, até que, com o vestido ajustado e o papo tendo entrado na noite, todos foram embora e Arshe ficou sozinha.

E foi na solidão de seu quarto, na frieza das paredes de pedra, paredes estas que deixavam até mesmo o vermelho vivo do seu vestido desbotado, que Arshe percebeu que não tinha ninguém. Não de verdade. Não como Lina e Doroteya tinham. E sentiu inveja delas.

Claro, ela estava feliz pelas amigas. As amava mais que tudo e sabia que poderia contar com elas sempre que precisasse. Mas era diferente. No final do dia, elas tinham outros braços para os quais voltar, outras pessoas a quem amar, onde poderiam fincar sua presença e descansar na sombra de seu amor. Arshe estava sozinha. Não havia ninguém com quem dividir seus mais profundos segredos. Ninguém a quem pudesse desnudar a alma e o corpo. Alguém que poderia segurar a mão, olhar nos olhos e saber que estava tudo bem. Não tinha alguém de quem reclamar para as amigas, nem ninguém para escutar as reclamações da falta de tato de Lina e a falta de noção de Doroteya.

Arshe não tinha a quem amar livremente.

Sim, livremente. Porque ela ainda amava. Apesar de o fim posto por ela, Kayliel ainda estava em seus pensamentos, entranhado em sua alma, corroendo suas vísceras e aparecendo em seus sonhos e pesadelos. Ele estava lá. E Arshe tinha a impressão que sempre estaria.

Será que ficaria livre daquele amor em algum momento? Será que poderia um dia se apaixonar de novo, como Doroteya fazia agora e poder viver esse amor sem as amarras de facções ou títulos a arrastarem para o abismo? Poderia um dia andar de mãos dados com a pessoa amada, sem medo de que aquilo os levasse à forca? Poderia passar as noites de Véu de Inverno aconchegada nele, reclamando dos presentes e se entupindo de doces? Planejar um casamento, ter filhos, ter brigas, o odiar para depois perceber que o ama? Ou aquele tipo de vida estava reservado apenas àquelas que nunca traíram seu povo?

Nos momentos de maior desespero, quando essas coisas povoavam sua mente e não dormia, ela se esgueirava da cama e pegava os diários de seu pai. Lia-os até o sono chegar ou até o dia amanhecer, pois sabia que algo eles compartilhavam: a dor da solidão e de ter perdido a pessoa amada. Bolvar Fordragon jamais tivera outra mulher em sua vida. Ele também sofria com a falta de alguém e dedicava muitas páginas a esses sentimentos. Arshe lia e relia, pensando como nunca reparara naquela faceta de seu pai. Ele fora tão infeliz amorosamente como sua filha o era agora. Que ironia. Tal pai, tal filha. E fora por causa dessa solidão que ele se dedicara tanto ao seu povo e a a ela. Quanto mais pensava em quem precisava dele, menos pensava em quem ele precisava. Uma pessoa que jamais estaria com ele novamente.

Arshe ainda teria um caminho longo pela frente se quisesse compensar sua traição e ser um pouco mais como seu pai. Certa que não havia muito o que fazer na sua situação, decidiu que seguiria os passos do pai. Assim que o baile passasse, ela voltaria a seus trabalhos como embaixatriz e se dedicaria ao seu povo. Passaria a visitar os demais povos da Aliança e a negociar que outros entrassem para a facção. Era importante manter a mente ocupada e sentir-se útil. E também seria uma forma de compensar por seus erros passados.

Todavia, mesmo com essa decisão, a dor da solidão ainda era excruciante. Doía, doía muito e talvez nunca deixasse de doer. Mesmo naquele momento, quando estava toda arrumada, em frente ao espelho, com a certeza que jamais estivera tão bela em sua vida, só conseguia enxergar a tristeza em seus próprios olhos. Pelo menos ela estava tão acostumada a esconder o que sentia, que podia sorrir enquanto olhava para um ansioso Fey e dizer com toda naturalidade do mundo:

— Está maravilhoso. Muito obrigada.

Fey parecia que ia chorar.

— Tem certeza que não tá apertado? Tá confortável? Quer que eu reveja mais alguma coisa?

Arshe riu e dessa vez foi um riso verdadeiro.

— Está perfeito, Fey. Mal posso esperar para exibi-lo. – essa parte era muito verdade – Agora, vamos mostrar o resultado aos homens que me esperam lá fora.

Anduin e Varian a esperavam no salão ao lado dos aposentos deles e arregalaram os olhos quando ela entrou. Aqueles dois eram um alívio na dor que a afligia, mas também uma parte da existência dela. Amava-os tantos que não poderia jamais abandoná-los. Anduin tinha nela a irmã que nunca teve e Varian a tratava quase como uma filha também. Virar as costas para eles seria devastador para ambos os lados. Mais um sacrifício a ser feito.

— Então. – perguntou ela girando devagar para que eles pudessem ver todos os detalhes – Como estou?

Os dois ficaram boquiabertos por alguns segundos antes de finalmente falarem.

— Eu posso dizer como eu estou. – falou Varian sorrindo – Estou a ponto de dobrar sua guarda, da forma como Lina pediu. Vai ser difícil manter qualquer um longe de você.

Arshe sorriu, corando absurdamente.

— Eu acho que terei que ir a esse baile manter os aproveitadores longe de minha irmã. – gracejou Anduin – E com minha péssima habilidade como guerreiro, melhor eu lançar livros neles.

Dessa vez Arshe gargalhou. Era o primeiro fôlego de alegria que tinha em dias.

— Vocês vão me deixar convencida desse jeito. – falou passando a mãos na saia do vestido.

— Pode ficar convencida, maninha. – disse Anduin convicto – Você pode realmente ficar convencida!

— Acho que receberei muitas cartas com pedidos de encontro para você depois de hoje. – falou Varian com a mão no queixo – Devo responder alguma?

Era uma coisa que Arshe também pensara nesses dias. Talvez fosse a hora de começar a sair com alguns pretendentes. Sabia que jamais casaria por conveniência, mas não poderia enterrar de vez as esperanças. Quem sabe ela não se apaixonava por um? Pelo menos era o que sua parte racional dizia. A outra, ainda apaixonada, gritava alucinadamente tentando calar sua rival. Porém, quando falou, Arshe disse, com calma:

— Se algum pedido chegar, tio, responda. Diga que, quem quiser me conhecer pessoalmente, está convidado a vir ao castelo. Mas deixe claro que a decisão final sempre será minha.

Foi difícil dizer quem ficou mais surpreso com sua decisão, se os dois homens na sala ou ela própria. Só que já falara. Não voltaria atrás.

— Tem certeza? — perguntou Varian, ainda surpreso.

— Tenho. — disse com convicção.

— Fico feliz em ouvir isso. – o rei tinha um sorriso no rosto e Arshe percebeu que tinha tomado uma boa decisão – Você merece encostrar alguém especial.

“Já encontrei, tio”, pensou com um sorriso teatralmente ensaiado “Mas jamais poderia ficar com ele…”

— Terei que conhecer esses pretendentes também. — disse Anduin fingindo uma cara de bravo – Preciso cuidar de minha irmã, não é?

— Ah, jamais eu casaria com alguém que você não aprovasse, maninho! — depois que falou, Arshe percebeu o quanto aquela frase era verdadeira. E doeu muito. — Bem, acho que está na hora de eu ir, não é?

— Claro. — disse Varian fazendo um gesto para três guardas se aproximarem – Usem suas pedras de retorno. — e franzindo a testa, disse – Ainda não entendi porque você vai para o Enclave Prateado em vez de usar o portal para Dalaran.

— Estratégia, titio! Se for de portal, todos me verão logo! Quero descer teatralmente da minha carruagem! — explicou ela balançando de um lado para o outro para que o vestido balançasse graciosamente ao seu redor.

Varian apenas riu e deu de ombros.

— Se você diz….

Minutos depois, Arshe percorria o curto caminho entre o Enclave Prateado e a Cidadela Violeta em sua carruagem. Percebeu que suas mãos suavam. Quando a carruagem parou em frente a entrada da festa, ela quis desistir. Quis mandar o cocheiro seguir viagem, sair dali e voltar correndo para casa. Mas pra quê? Para se trancar em seu quarto e chorar? Ficar mais uma noite acordada, presa em sua insônia e solidão? Se essa era sua perspectiva, melhor encarar o baile. Respirou fundo e desceu da carruagem.

Com o sempre, os curiosos estavam dos dois lados da escadaria. Ao verem Arshe, eles simplesmente se calaram. A princesa esperava que aquele silêncio fosse de admiração e não de horror. Decidida a não se prender por aquilo, subiu as escadarias, com sua saia vermelha dançando levemente ao sabor dos seus passos. Chegou a porta e o oficial do Kirin Tor sequer pediu seu convite. Apenas a deixou entrar, com a expressão de admiração no rosto.

Os olhos da princesa percorreram o salão de baile. E ela o viu.

Kayliel.

Ele estava tão a mostra que a surpreendeu. Achou que passaria a noite olhando por cima do ombro, esperando que ele aparecesse como um fantasma para lhe assombrar. Mas não. Ele estava bem ali, como um presente maldito, esperando-a, bem a vista. Como uma maçã envenenada, mas bela, brilhante e perfumada. Uma forca feita de brilhantes.

— Princesa Arshe. — alguém a chamou.

O encanto quebrou quando ela voltou sua atenção para quem a chamava. Era Rhonin, o líder do Kirin Tor. Ele estava acompanhado de sua esposa, Vereesa Correventos, que abriu um enorme sorriso quando a viu.

— Princesa, que honra sua presença! — Vereesa fez uma reverência – Que bom que decidiu vir esse ano!

Com o coração descontrolado, ela deu um sorriso convincente.

— Vereesa, que bom revê-la. — a voz firme a encorajou a continuar – Em um momento tão tenso como esse acredito que o diálogo com todos nossos aliados é imprescindível. E porque não aproveitar para divertir-se nesse meio tempo?

— Sempre política. — comentou Rhonin – Como anda seu estudo da magia do gelo?

— Esfriou um pouco nos últimos tempos. — gracejou.

O casal riu e Arshe conteve o impulso de virar-se para ver se Kayliel tinha se aproximado.

— Estou surpresa que o rei Varian tenha permitido sua vinda com apenas três guardas. — comentou a elfa — Afinal, a comandante Wood fez objeções muito… — Vereesa vacilou um pouco antes de completar – Fortes..

Lina e Vereesa tinham tido uma briga tão grande que Doroteya comentara que pensou que seriam chutadas de Dalaran pela guarda. Aparentemente a comandante das forças de Ventobravo não foi a única que guardara mágoas do encontro.

— Lina é superprotetora comigo. — falou Arshe dando aos seus olhos aquele ar infantil e ingênuo que ela sabia muito bem usar – Você sabe, Vereesa, ela foi pupila de meu pai no exército. Proteger-me, para ela, é como ainda servir o Grão Lorde.

— Surpreende-me que ela não tenha vindo como sua acompanhante. — gracejou a patrulheira mordendo a isca.

— Ah, ela quis! — afirmou Arshe – Mas, você me conhece, gosto de vir livre para dançar com quem eu puder!

Não era o primeiro baile que Arshe comparecia desacompanhada. Na verdade, ela podia contar nos dedos de uma mão a quantos ela foi com companhias masculinas que não fosse seu pai. Gostava da liberdade de borboletear pelo salão, conversando com todos e dançando com quem quisesse. Isso acabou se revelando uma dádiva quando começou a se envolver com Kayliel. E continuava a ser agora.

— Já que está livre para dança, me dá a honra de ser seu par nesta música? — convidou Rhonin se curvando e oferecendo a mão a ela.

— Desde que a general-patrulheira não se importe… — comentou educadamente.

— Claro que não. — garantiu Vereesa – Divirtam-se.

Rhonin levou Arshe pela mão até a pista de dança e foi lá que ela colocou novamente os olhos em Kayliel. Enquanto dançava com o líder do Kirin Tor, ela cruzava o olhar com o elfo, que assistia a dança estático, com uma taça de vinho na mão. Arshe sorriu e conversou com Rhonin, ciente que o arquimago passaria suas impressões depois para o conselho. Por isso, foi educada, simpática e por vezes evasiva em suas respostas. Depois que a música acabou, ela foi prontamente tirada para outra dança pelo conselheiro Karlain. Diferente de Rhonin, este mago estava mais interessado na vida privada e solteirice de Arshe que em assuntos políticos. Dispensando-o com delicadeza, ela logo aceitou outra dança e se livrou do mago. E foi quando o arquimago Aethas Fendessol a tirou para dançar.

— É um prazer recebê-la depois de tanto tempo, vossa alteza. — disse o elfo com um sorriso educado.

— Senti falta dos bailes. — admitiu – Mas não estava pronta para voltar tão próximo à morte de meu pai.

Não era mentira aquela afirmação. Fora a morte de seu pai e o abandono de Kayliel que a afastou da cidade.

— Todos sentimos por Bolvar. — falou Aethas – Um grande homem.

Os diários voltaram à mente de Arshe e o sorriso dela vacilou um pouco. Aethas percebeu e mudou o assunto.

— Como vai o rei Varian? E seu filho, Anduin?

— Muito bem, os dois. E suas sobrinhas?

— Bem também. Em breve a mais velha será mãe. Seria tio-avô. — ele riu.

A conversa que tivera com Kayliel no Véu de Inverno voltou a sua mente. Era o sobrinho que ele falara. Relanceou a vista em busca dele e o viu dançando com um elfa num vestido estonteante. Ficou tão surpresa que pisou no pé de Aethas. O mago fez uma careta e ela pediu desculpas apressadamente. Sem conseguir se conter, olhou novamente e viu que a elfa a encarava com uma raiva descomunal. Sentindo um nó se formar na garganta, se perguntou se Kayliel tinha seguido em frente. Deveria ter seguido. Senão, o que faria acompanhado? Percebendo que o olhar da princesa de voltara para outra direção, Aethas virou a cabeça. Quando Vivithi percebeu que ele a olhava, a raiva se desfez e ela sorriu lindamente para ele e mandou um beijinho. Aethas corou e sorriu de volta. Arshe então entendeu.

— Oh, sua namorada? — perguntou sentindo tanto alívio que achou que desmaiaria.

— É complicado… — murmurou ele franzindo o cenho – Mas a verdade chega perto da sua suposição.

— Ah, por isso ela parecia querer me matar. — e riu numa mistura de alívio e desespero.

— Não se preocupe, ela não fará isso. A menos que eu repita a dança com você. — gracejou.

Arshe riu e logo sentiu os olhos novamente da elfa raivosa em seu pescoço. Para sua sorte, a música acabou e outra pessoa a tirou para dançar. E quando passou por Aethas e sua acompanhante, Arshe percebeu que ela ainda a encarava seriamente, não com raiva, mas como se a avisasse de algo. Foi quando a dúvida se instalou: quem era aquela elfa? Por que a olhava daquele jeito? Algo lhe dizia que não era apenas ciúme que via em sua expressão.

Depois de várias danças e várias pessoas diferentes, Arshe estava cansada, mas se sentindo um pouco melhor. Estava conseguindo ignorar Kayliel na maior parte do tempo e ele também não se aproximara. Para o bem dos dois, assim era melhor. A conversa que tivera no Véu de Inverno parecera agora ter sido a coisa certa a fazer. Por isso dançou e dançou. Vislumbrou o momento em que Aethas e sua acompanhante saíram do salão e se perguntou quanto escândalo ela causaria em Ventobravo se aparecesse num vestido como aquele. Riu por dentro. Jamais. Mas seria um vestido que Lina usaria. Anotou os detalhes mentalmente para falar com Fey e Mel depois.

— Uma dança, alteza? — ouviu alguém pedir às suas costas, assim que acabou mais uma dança.

Automaticamente virou-se e pegou a mão estendida, até ver quem a estendera.

Kayliel.

O coração dela disparou e fez a menção de tirar a mão de cima da dele, mas Kayliel a segurou, com delicadeza. Ele a encarou com intensidade e pediu:

— Por favor. Uma dança.

Podia perceber que as sensações que se digladiavam em sua alma eram compartilhadas com ele. Podia simplesmente puxar a mão e sair andando na direção oposta, mas isso causaria comentários que ela não queria que existissem. Por isso, inclinou a cabeça e aceitou a dança.

Estar frente a frente com Arshe, dançando com ela, era mais que Kayliel planejava para aquela noite. Vê-la lhe deixara com seu emocional em pedaços. Ela estava tão linda… Uma verdadeira princesa. Sorria e encantava a todos. Sua presença enchia o salão, como ele já vira tantas vezes antes. Mas daquela vez, ver seu brilho doía. Doía, pois sabia que não teria nenhum dos sorrisos dirigidos a ele. Quando Aethas a tirou para dançar, ele ficou em pânico. Vivithi já mostrava sinais de desagrado pela atenção dado pelo arquimago a outras mulheres, mas com Arshe a situação pareceu ficar pior. Talvez porque, se havia alguém que poderia competir com Arshe em brilho, beleza e presença era, com certeza, Vivithi. Seria por isso que a elfa estava com um olhar tão feroz?

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— Vamos dançar! — ele chamara.

Vivithi aceitou na hora. Só depois foi que ele percebeu que talvez não tivesse sido uma boa ideia, pois Arshe lhe lançara um olhar tão desolado que ele quase largara Vivithi e tomara Arshe nos braços. Mas não o fez. Aethas deve ter dito algo, já que ela sorrira depois. E foi quando ele decidiu que a tiraria para dançar. Demorou algum tempo ainda, tempo suficiente pára que Aethas e Vivithi, as únicas pessoas que podiam comentar algo com seu irmão, saíram do salão. E agora estava ali, com a mão posta em sua cintura, seus olhos grudados um no outro e um ensurdecedor silêncio gritando entre os dois.

— Você fica bem de vermelho. — ele conseguiu dizer depois de um tempo.

— Obrigada… — murmurou.

— Você é a mulher mais bonita aqui… — ele se pegou dizendo.

Para sua surpresa, ela riu.

— Sua amiga me faz duvidar disso. — ela disse.

Kayliel ficou confuso por um momento.

— Ah, Vivithi. — entendeu – Ela está bonita, mas você está muito mais.

Apesar de não querer ceder, ela deu um sorriso involuntário.

— Eu soube que seu sobrinho vai nascer em breve. — ela se pegou dizendo.

— Verdade. Acredito que isso ocorra nos próximos dias. E a mãe tem certeza que será uma menina.

Arshe apenas assentiu e não disse mais nada.

O silêncio se colocou entre os dois mais uma vez. Era impensável que, depois de tudo o que viveram, eles não conseguíssem simplesmente conversar. Tanto sentimento e tanto silêncio. Cada um deles tinha medo que a próxima palavra quebrasse a barreira frágil que ergueram entre suas próprias emoções. Dançarem juntos em pleno baile do Kirin Tor, com tanta coisa ainda dentro do peito, era como se equilibrar em uma corda prestes a se romper sobre o abismo.

— Nada mudou. — falou Kayliel de repente.

Arshe o encarou, com os olhos arregalados e confusos.

— Depois de tudo que você me falou no Véu do Inverno…. Ainda assim… Nada mudou…

A música acabou naquele momento e os dois continuaram dançando, hipnotizados um no outro.

— Uma dança, princesa.

Alguém falou do lado, interrompendo o momento. Como um afogado em um mar turbulento agarra um pedaço de madeira, Arshe agarrou a mão que lhe foi oferecida e se afastou de Kayliel. O elfo ficou atordoado, por um momento, até um casal bater nele sem querer. Murmurando um pedido de desculpas, ele saiu da pista e do salão. Desceu as escadarias correndo, sem saber o que fazer com o que estourara dentro de seu peito. Encostou-se no poste de luz e respirou fundo, erguendo sua cabeça para o céu, onde a barreira mágica se erguia, impedindo que o vento de Nortúndria penetrasse na cidade. Ele ficou assim, por um momento, encarando a barreira. Viu os flocos de neve baterem no teto mágico e se desfazerem, apenas para outros virem e fazerem a mesma coisa. Não passariam, claro, mas deixavam continuavam tentando.

O que ele queria? Era óbvio, queria Arshe de volta. Mas conseguiria? Pouco provável. Mas poderia tentar. Uma vez. Apenas mais uma vez, prometeu a si mesmo. Respirou fundo e voltou ao salão.

Arshe já estava com outro par, mas Kayliel marchou em sua direção tão logo a música acabou e segurou sua mão novamente.

— Uma dança, alteza. — pediu com firmeza.

O outro homem, sem perceber nada, afastou-se. Arshe, sem esperar aquela reação dele, deixou-se levar mais uma vez. Deixou que ela se acalmasse, que visse a determinação em seu rosto, antes de falar:

— Estarei na biblioteca. Naquela sala. Estarei lá até o amanhecer. Se você não vier, saberei que é realmente o fim.

E tão logo a música acabou, e ele fez uma reverência e saiu novamente da pista e depois da Cidadela Violeta.

Arshe ficou estática por um momento, sem saber como reagir. Antes que mais alguém aparecesse para tirá-la para dançar, saiu da pista, em direção a uma das varandas do local. Estava sem ar. Quando chegou lá, percebeu que havia um casal se amassando em um dos cantos. Virou as costas e saiu rapidamente. Estava ficando tonta. Teve medo de desfalecer em algum momento. Procurou outro lugar para ir e viu a escadaria que levava pra o outro nível. Subiu-a rapidamente e se dirigiu a uma de suas janelas. Respirou fundo assim que sentiu o ar da noite em seu rosto. Colocou as duas mãos na parede, torcendo para não cair e chamar atenção. Aquele tipo de atenção não seria bem-vinda.

O que diabos Kayliel estava pensando?, gritou sua consciência. Como pode simplesmente vir e acabar com toda a sua paz?

Que paz?, perguntou outra parte de sua mente. A paz dolorosa e solitária que te aguarda todas as noites na frieza do seu quarto? É aquela paz que você quer?

— Cale-se… — murmurou para si mesma – Cale-se…

Mas você sabe que é verdade, continuou aquela voz. Sabe que, sem ele, apenas o silêncio das paredes de pedras lhe aguarda…

Grossas lágrimas começaram a correr pelo rosto de Arshe, enquanto ela punha as mãos sobre os ouvidos, como se aquilo fosse calar seus próprios pensamentos. Não queria saber. Não queria admitir. Não queria…. Mas queria… Queria muito. Queria Kayliel.

O choro logo parou. Arshe limpou as lágrimas e levantou a cabeça. Resoluta, desceu as escadas, como se não tivesse acabado de enfrentar uma batalha dentro de si mesma. Caminhou tranquilamente pelo salão da festa, falando ocasionalmente com um e outro. Percebeu que sua guarda estava distraída e, como se não fosse nada demais, saiu da Cidadela Violeta. Desceu as escadarias calmamente, parou e respirou fundo. Olhou para trás. Ninguém a seguira. Recomeçou a andar em direção à biblioteca.

Em direção a Kayliel.

A biblioteca de Dalaran era aberta vinte e quatro horas por dia, e sempre havia alguém debruçado sobre os tomos antigos de lá. Mas não naquela noite. Não enquanto o baile de Jardinova acontecia. Havia penas um atendente adormecido na mesa da recepção. Arshe entrou sem nenhum problema. Caminhou entre as prateleiras, saudosa dos tempos em que a vida era muito mais fácil. A porta dos fundos estava aberta e Arshe seguiu por aquele caminho. Haviam muitas salas de estudo individual lá, mas a sala deles era a última, a mais afastada a que sempre estivera abandonada.

Kayliel estava lá.

A sala estava diferente de quando Arshe lembrava. Haviam limpado-a e havia novos móveis para os estudantes. Talvez não fosse mais abandonada. Talvez pessoas viessem ali com mais frequência que antes. Talvez devesse dar meia volta e sair dali. Em vez disso, caminhou até Kayliel, resoluta, e o beijou.

E a corda em que caminhavam se rompeu.

O beijo era uma mistura de amor e raiva, de saudade e frustração, de ausências e de existências. Era o conflito que dominava suas almas tomando a forma física. Kayliel a envolveu em seus braços e a apertou. Há quanto tempo sonhava em fazer aquilo, em tê-la novamente para si? E realmente tinha? Aquilo era um sonho? Uma ilusão? Ou ela estava realmente ali? Não importava. O que quer que fosse, ele se entregaria àquilo.

No fundo, Arshe sabia que era loucura. Que jamais deveria ter se deixado levar. Mas era tarde. Estava ali, nos braços dele. Naquele momento, não sairia dali nem mesmo que a cidade estivesse despencando do céu.

Os dois escorregaram até o chão, sem se soltarem. Kayliel sentou sobre as muitas saias dela, aconchegando-a em seus braços. Depois que o beijo terminou, ele segurou seu rosto e olhou dentro dos olhos azuis que brilhavam diante do bruxulear das velas que acendera na sala.

— Eu sinto muito…. — murmurou.

— Não sinta. — pediu – Não vamos sentir nada hoje. Apenas nossos corpos se tocando…

E Kayliel atendeu seu pedido. Beijou seus ombros desnudos com delicadeza, enquanto seus dedos tocavam a pele macia, percorrendo caminhos tão conhecidos e a tanto tempo lhe negado. Deixou-se demorar o quanto pode beijando-a e redescobrindo o gosto e o aroma dela. De olhos fechados, Arshe aproveitava cada carícia, cada beijo, cada toque, como se fosse a primeira vez que os sentia. Sentiu quando os dedos dele foram até suas costas e começaram a abrir os botões de seu vestido. Passou então os dedos nos cabelos dele e sentiu o aroma de madressilva que se desprendiam dele. O mesmo aroma de sempre. Foi assaltada por uma nostalgia intensa e um desejo incomparável, mas permitiu que ele a despisse lentamente, enquanto beijava cada parte que ia desnudando.

Despiram-se devagar, aproveitando cada momento, cada toque. Depois, deitaram-se sobre a saia de Arshe, que parecia formar uma cama vermelha de pétalas, se abrindo para o amor proibido dos dois. Se abraçaram, beijando-se lentamente, explorando o corpo um do outro, se redescobrindo a cada momento, a cada sensação. De repente, era como se aqueles três anos nunca tivesse acontecido. Como se tudo não tivesse passado de um pesadelo. Kayleil adorava os seios pequenos de Arshe e passava sua língua neles demoradamente, como se estivesse provando uma fruta recém-colhida. Arshe gemia, encostando seu corpo no dele, mexendo-se com ânsia de que ele a possuísse logo. E Kayliel atendeu seu desejo. Beijou-a e a deitou de costas par ao vestido. Colocou-se gentilmente entre suas pernas e a penetrou. Ashe gemeu e arqueou. Ah, aquele som… O som dela se entregando ao prazer era o melhor que já ouvira… Começou a mexer-se, primeiro devagar, para aproveitar cada momento. Devagar… Bem devagar… Arshe se contorcia e gemia, arqueando o quadril, implorando por mais. Mas Kayliel não a atendia. Continuava naquele ritmo, ouvindo o arfar da jovem maga, se deliciando com seu desejo, levando-a ao delírio, ao ponto dela implorar.

— Por favor… — ela lhe disse ao ouvido.

E ele lhe deu o que queria. Passou a se mover rápido, mais e mais, enquanto ela gemia e mexia-se junto com ele. Seus corpos sincronizaram, totalmente despertos, totalmente conscientes do reencontro. Mexeram-se e arfaram juntos, como se fossem um só, até atingir o ápice ao mesmo tempo, em gemidos abafados, resquícios ainda dos encontros secretos nas tardes ensolaradas de primavera.

Deixaram-se ficar, abraçados, sob a luz das velas, e nenhum dos dois teve coragem de falar nada. Tinham medo que a bolha que criaram estourasse e os levasse de volta a realidade. Por isso ficaram, em silêncio, abraçados, olhando um nos olhos do outro, com a mente livre de arrependimentos e amarras. Até quando aquela falsa paz duraria? Não sabiam. E, naquele momento, não importava.

Nada mais importava.

*******************

A noite já estava avançada quando Cláudia e Horatio escaparam da festa. Já tinham cumprimentado todos os convidados, dançado, cortado o bolo e todas as coisas que se esperam que os noivos façam. Estavam tão terrivelmente cansados quanto estavam felizes. Os pés da noiva queimavam dentro dos sapatos e ela livrou-se deles assim que entrou na mansão.

— Estão inchados! — reclamou mostrando os pés a Horatio – Minha mãe disse que vão piorar muito durante a gravidez!

— Eu estarei aqui para fazer uma massagem neles… — prometeu Horatio beijando-a – E posso começar fazendo isso agora.

Cláudia riu enquanto ele se abaixava e a pegava no colo. A suíte deles era no primeiro andar, numa ala mais afastada da mansão e o tenente percorreu todo o caminho com sua noiva nos braços. Ela ria animadamente a cada passo que davam, pois o vestido era imenso e ficava enroscando nas pernas dele. E quando finalmente chegaram ao quarto, ele teve que descê-la, pois a porta estava trancada.

— Isso é coisa de minha mãe. — disse Cláudia rindo. Nem aquilo abalava sua alegria – Deve ter trancado para ninguém entrar e acabou esquecendo de abrir.

Horatio riu também.

— Estragou nossa entrada triunfal. — brincou antes de beijá-la de novo – Fique aqui que vou buscar a chave.

— E lá se foi nossa saída discreta…. — reclamou a noiva, mas sem perder o sorriso.

Antes que Horatio pudesse ir, ouviram os passos de alguém andando apressadamente na direção deles.

— Deve ser a mamãe, lembrou que tinha esquecido a porta.

Mas o palpite de Cláudia estava errado. Quando o vulto passou pela luz, perceberam que era o padrinho do noivo e acompanhante de Lina. E a expressão dele era muito preocupada.

— Desculpe atrapalhá-los. Temos uma emergência.

— Ah, não! — reclamou a noiva – Trabalho não! Hoje não!

— A senhora vai mudar de ideia quando vir isso, milady. — e entrou um pergaminho a Hortaio.

Ambos leram e ficaram pasmos. O bilhete dizia:

“Sem mais delongas. Mate-a. Não importa onde. O casamento será hoje. Aproveite a oportunidade.”

— Eric, avise aos guardas. — ordenou Horatio guardando o bilhete – Façam uma busca na propriedade. Eu e Cláudia vamos em busca da comandante. — e tirou uma pistola do colete.

— Sério que você estava armado na festa? — perguntou Cláudia antes de puxar ela mesma outra pistola debaixo das saias – Eu sabia que éramos perfeitos um para o outro.

Mesmo diante da situação, os dois homens riram.

— Vamos! — falou Cláudia tomando a dianteira – Vou enviar uma bala em quem ousou estragar meu casamento!

*******************

Fazia tempo que Doroteya não conduzia uma cerimônia como druida. Ainda assim, conduziu o casamento como se fizesse aquilo todos os dias. Certas coisas não se esquece, mesmo com o passar do tempo. E aquela era uma delas.

Sentia falta de fazer rituais como aquele, de enlaçar duas pessoas. Eram apenas algumas palavras, mas o sentimento que evocava, a emoção que despertava, era melhor que qualquer coisa. Quisera Eluna se aquelas fossem as únicas obrigações de seus seguidores. Lutar era necessário, mas levar a felicidade para as pessoas era muito melhor.

Apesar de ser estranho casar duas pessoas que nada tinham a ver com suas práticas religiosas, sentiu-se muito bem em fazê-lo. Lady Cláudia e Horatio Lane era tão obviamente apaixonados um pelo outro que causava inveja. E o fato de estarem ali, colocando-se tão abertamente contra as tradições de seu reino, mexia muito com ela. Lembrava de um casamento, o seu casamento, feito às escondidas. Em Guilneas não havia uma proibição legal contra o casamento entre nobreza e plebeus como havia em Ventobravo, mas a tradição dificultava as coisas. Evitou pensar em Liam durante a cerimônia, mas agora pensava. Não exatamente nele, mas em seu casamento. Deveria realmente ter aceitado fazer aquilo? Não fizera nenhuma diferença em sua vida. Nem na de Liam. Teria feito se os documentos tivessem chegado às mãos do rei Greymane, mas, graças a Eluna, aquilo não acontecera. Ainda tinha as provas, claro que tinha. Rubrarosa as levara, quando fugira com Theo. Mas de que adiantavam? Nunca as usaria.

— Você não parece estar se divertindo… — alguém falou às suas costas.

Era Tommy.

O coração de Doroteya disparou no mesmo instante, varrendo qualquer outro pensamento de sua cabeça. Sentiu o rosto queimar e a voz sumir antes mesmo que conseguisse falar alguma coisa. Tommy então lhe estendeu uma taça de vinho, que ela aceitou para não ficar com as mãos vazias. Estavam ambos de pé, próximo as diversas mesas colocadas ao longo do jardim, onde os convidados já se acomodavam. Doroteya ficara observando o movimento, vendo seu filho ao lado de Pietro conversando alegremente até perder-se naqueles pensamentos.

— Então, algo a preocupa? — insistiu ele.

Agora preocupava, pensou ela. Não tinham conseguido conversar todo aquele tempo e durante a cerimônia ela estava ocupada, obviamente. Ainda relanceara os olhos para Tommy algumas vezes e percebeu que, a certa altura do casamento, ele chorara. Muita gente chorara, inclusive Theo e Pietro. O casamento costumava fazer essas coisas.

— Você chorou na cerimônia. — foi o que conseguiu dizer.

O rosto de Tommy imediatamente ficou escarlate e Doroteya achou aquilo muito fofo. Ele tomou um grande gole de vinho e sorriu, encabulado.

— Esperava que você não tivesse notado. — confessou.

— Por que não? — questionou ela sentindo sua segurança aumentar – Acho maravilhoso quando os homens demonstram seus sentimentos. Odeio aquela lorota que homens não choram. Claro que choram! — ela balançou a cabeça em negativa – É bom Theo ver alguém que ele admira tanto se expressando assim.

Tommy ficou ainda mais encabulado, mas sorriu. Esperava ansiosamente para conversar com Doroteya, e ficara de olho nela até vê-la sozinha. Se aproximou rapidamente. A última coisa que queria era que começassem a chamá-la para dançar e perdesse a oportunidade. Aproveitou e levou duas taças de vinho. Uma para si, pois precisava de algum álcool para dizer tudo que queria e outra pra ela, apenas para não parecer um idiota bebendo sozinho. Ainda bem que ela aceitara a taça. Era capaz de ter ido embora se ela tivesse rejeitado.

— Eu estava pensando em meu casamento. — respondeu finalmente Doroteya.

O ânimo dele mingou na mesma hora. Claro que estava. Ele também pensara. Como não pensar. Tentou se manter otimista.

— Em que exatamente pensava? — quis saber, tentando parecer desinteressado.

— Eu tenho os documentos que provam que eu casei com Liam. E que ele é pai de Theo. Mas pensava em como isso é inútil. Eu nunca vou procurar o rei Greymane. Então, meu casamento foi uma perda de tempo.

Surpreso com a sinceridade e também com a dor dela, Tommy ponderou:

— Você não pode pensar assim, Doro. Nunca se sabe quando essas coisas serão necessárias. No futuro, Theo pode querer provar sua ascendência. Ele será adulto um dia e tomará as próprias decisões.

Assim que fechou a boca, se arrependeu. Doroteya não precisava de mais aquela preocupação em sua vida. E não queria ter soado como se a acusasse de nada. Porém, a druidesa o olhou por um momento e assentiu com a cabeça.

— Você está certo. Nunca se sabe o que vai acontecer o futuro. Ainda assim, vou orar para Eluna para eles nunca precisarem ser usados…

Aliviado, Tommy se permitiu prosseguir.

— E pense também que seu casamento foi a sua união com a pessoa que você amava. Isso nunca deve ser subestimado.

Doroteya virou suavemente a cabeça para o lado, ainda o encarando e perguntou:

— Você pensou em seu casamento hoje?

Ele deu uma risada nervosa. Doroteya tinha esse dom de ir direto e certeiramente nas questões.

— Por que o riso? — quis saber ela confusa.

— Porque ou eu sou muito óbvio ou você me conhece muito bem. — disse – Sim, eu pensei. Confesso que foi um dos motivos do meu choro. — e tomou mais um gole de vinho, para a vergonha descer.

— Saudades? — Doroteya perguntou, mas sentiu medo da resposta. Como reagiria à confissão dele em sentir falta da esposa morta?

— Arrependimento. — foi a reposta.

— Como assim? — ficara surpresa com a resposta e não escondia.

— Quando casamos, eu tinha um dinheiro guardado. — começou explicando – Queria dar uma festa, pois sabia que era o sonho de Ana.

— Pensei que ela queria a casa. — disse Doroteya lembrando da conversa que tiveram na cozinha.

— Sim, queria. Ela queria ambos. Mas só podíamos ter um. Ela optou pela casa. Então guardei o dinheiro para comprar a casa. Eu devia ter feito a festa. Devia ter proporcionado isso a Ana. Eu vivia pensando ‘um dia eu faço’. Um dia. Nunca pude.

Doroteya tocou no braço dele, consolando-o. Tommy colocou a mão em cima da dela.

— Será sempre assim? — perguntou ele de repente.

— Sempre como? — perguntou ela de volta.

— Sempre acabamos falando de Ana e Liam quando estamos juntos. Sempre o passado. Nunca o agora.

O coração de Doroteya, que tinha se acalmado, voltou a bater forte.

— Eles sempre serão parte importante em nossas vidas. — disse a druidesa – Nunca pararemos de falar neles.

— É, você tem razão. Mas acho que está na hora de falar do presente. De nós dois.

Então chegara a hora, pensou Doroteya. Ela apertou a taça de vinho e puxou a mão debaixo da dele. Relanceou a vista e viu que Theo agora levara Pietro para o meio da pista de dança e estava dançando com o amigo, rodando-o alegremente. Pandora batia palmas e reversava com o menino, girando o irmão também. Sorriu, satisfeita. Não precisava se preocupar com aqueles três. Relanceou a vista, procurando por Lina e a viu entretida, bebendo e dançando com Mel. Em determinado momento, a comandante a viu e acenou alegremente. Doroteya acenou de volta. Aquele não era o lugar para terem aquela conversa.

— Não aqui. — pediu ela – Não com tanta gente por perto.

Ele assentiu. Pegou a taça dela, colocou em cima de uma mesa junto com a sua e a conduziu para longe da festa.

A propriedade dos Hightower era rodeada por um bosque e também por plantações. A festa estava sendo realizada nas proximidades do bosque. Havia bardos tocando animadamente a música foi morrendo a medida que se afastavam. Chegaram ao coreto que arcava o início do bosque fechado e pararam lá. Agora quase não dava para ver ninguém.

Os dois se olharam, indecisos se deviam ser o primeiro a falar. Havia tanta coisa entre os dois, tanto passado marcante, tanta dor vivida. E, ainda assim, estavam ali, de frente um para o outro, com o coração batendo aceleradamente, como se fosse a primeira vez que se viam naquela situação.

— Você está bonita. — balbuciou Tommy sem ter certeza porque resolvera dizer logo aquilo – Digo, você sempre está bonita, mas hoje está mais.

O vestido de Doroteya conseguia refletir bem a personalidade dela e seu papel na cerimônia. Seu fundo era o mesmo tom de pele de Doroteya e decorado com rendas em forma de flores, que davam um toque elegante ao vestido. Diferente do de Lina, ele tinha mangas compridas, mas estas eram transparentes e faziam parecer que as flores estavam tatuadas nos braços da druidesa. O cabelo estava bem preso em um coque alto e ela também usava salto. Apesar de andar um pouco mais cautelosa que o normal, ela ainda não tinha reclamado do calçado.

— Obrigada. — agradeceu – Eu amei o vestido. — disse passando as mãos pelos braços.

— Devo dizer que eu prefiro seus cabelos soltos. — disse sem jeito.

— E eu gosto quando você está com barba. — admitiu ela também.

— Sério? — perguntou ele passando a mão no rosto liso.

Doroteya fez que sim, animadamente.

— Não como estava quando nos conhecemos. — falou rapidamente – Ali estava horrível. Mas quando você deixa ele encher e fica toda completa… — ela sentiu-se envergonhada e não terminou a frase.

Tommy decidiu que conservaria a barba a partir daquele momento.

Houve um momento de silêncio, em que os dois desviaram os olhos para outros locais, como se procurassem as palavras perdidas para oferecer ao outro.

— Estou apaixonado por você. — Tommy foi o primeiro a falar.

Doroteya virou rapidamente a cabeça na direção dele, com os olhos arregalados, sem acreditar que estava realmente ouvindo aquilo.

— Estou apaixonado por você. — falou ele novamente, mais decidido agora – Não sei quando comecei a sentir isso, mas-

Ele não terminou a frase. Doroteya segurou o rosto dele e o beijou, com voracidade. Tommy emitiu um ruído de espanto, mas logo passou a mão pela cintura dela e a puxou para si. Aprofundou o beijo e a apertou forte entre seus braços. O cheiro dela era maravilhoso, como se ela estivesse vestida de flores reais. Quando o beijo se findou, Doroteya tomou fôlego e disse:

— Também estou apaixonada por você.

Tommy deu uma risada.

— Ainda bem porque, depois desse beijo, eu não deixaria você sair de perto de mim. — e a beijou novamente.

Doroteya estava queimando de desejo. Passou os braços no pescoço de Tommy, apertando-o contra si com tanta ânsia que ele teve que se apoiar no coreto para não cair. Com as mãos em volta da cintura dela, ele começou a acariciar suas costas, enquanto deixava que ela o beijasse da forma como bem queria. Estava impressionado com a voracidade que Doroteya demostrava. Em determinado momento, ele teve que afastá-la porque estava sem fôlego.

— Uau… — murmurou encarando os olhos cor de mel que pareciam estar em chamas – Parece que você quer me devorar, garota. — e sorriu.

— Acho que quero mesmo… — confessou com a respiração ofegante.

— Desde que não seja literalmente… — riu-se Tommy e ela riu também.

Doroteya desceu as mãos pelo peito dele e parou na calça. Sentiu que ele estava excitado. Ela também estava. Com os olhos presos um no outro, ela confessou:

— Eu quero você. Agora.

— Tem certeza? — perguntou Tommy.

— Tenho.

Ele sorriu.

— Vamos. — e fez menção de puxá-la em direção à mansão.

Doroteya não foi.

— Não lá dentro. — falou – Lá.

E apontou para o bosque.

Dessa vez, Tommy ficou surpreso.

— No bosque? — perguntou achando que não tinha entendido direito.

— É. — confirmou convicta.

Tommy suspirou.

— Será algo novo para mim, com certeza. — disse sorrindo – Vamos.

Doroteya o puxou pela mão, liderando o caminho. Tommy apenas a seguiu, com um sorriso bobo no rosto.

Afastaram-se até Doroteya ficar satisfeita. A Lua cheia permitia que Tommy conseguisse ver alguma coisa de onde estava, mas sabia que não precisava se preocupar. Apesar de ser uma área que sem trilhas, sabia que jamais se perderiam, pois a druidesa conhecia a natureza melhor que ninguém e poderia entrar e sair dali como se conhecesse o local desde sempre. Não havia galhos ou arbusto onde pararam, apenas árvores, espaçadas uma das outras. Doroteya encostou-se na árvore e Tommy a abraçou e a beijou. Apesar do salto alto, Doroteya ainda era menor que ele, então ele a suspendeu na árvore e ela o abraçou com as pernas.

Era tão estranho para ambos sentir aquilo novamente. Depois de tanto tempo de luto, seus corpos despertavam, como se nunca tivessem adormecido. E o que sentiam um pelo outro era tão intenso que varreu qualquer outra coisa de seus pensamentos. Doroteya o beijava com voracidade, agarrada a ele como um lobo agarrava sua presa e Tommy deixava-se ficar sob o julgo dela. Passou a mão na coxa desnuda ao redor de sua cintura, sentindo o vestido protestar por ser empurrado para cima. Apertou-a ainda mais na árvore. Doroteya interrompeu o beijo e passou lentamente a língua em seu pescoço. Tommy gemeu. Continuou acariciando as coxas dela enquanto sentia seus beijos no pescoço. Em determinado momento, Doroteya mordeu seu ombro e ele soltou uma exclamação de dor e surpresa.

— Desculpe. — pediu ela ofegante – Eu me descontrolei…

— Tudo bem… — disse ele rindo – Acho que aguento mais umas dessas… — e a beijou novamente.

Quando os beijos se tornaram insuficientes, Tommy a desencostou da árvore e a deixou no chão cheio de folhas secas. Encaixou-se entre suas pernas e pressionou seu corpo contra o dela. Doroteya começou a desabotoar sua camisa e passar a língua em sua pele. Começou a intercalar as carícias com mordidas e Tommy percebeu, surpreso, que estava gostando daquilo. Ele colocou os dedos dentro de seu coque e soltou seus cabelos. Queria vê-los assim, emoldurando seu rosto cheio de desejo. Em determinado momento, ela o empurrou para o lado e subiu em cima dele. A visão dela, seu rosto ardendo de desejo, contra o céu claro pela luz da lua, deu a impressão a Tommy que estava diante de uma entidade sobrenatural e sagrada, que certamente o devoraria, mas o faria de forma que imploraria por aquele destino.

Os dedos ágeis de Doroteya o despiu rapidamente. Já ele teve alguma dificuldade com a quantidade de botões que seus irmãos haviam colocado no vestido. Porém, logo estavam livres das amarras e continuaram as carícias, os corpos nus se tocando e deixando suas sensações ainda mais intensas. Tommy sentou-se, puxando-a para mais perto e sugou seus seios. Começou lentamente, suavemente, mas Doroteya enfiou os dedos em seus cabelos e puxou sua cabeça para trás.

— Forte… — murmurou ela com os olhos brilhando a luz da lua – Quero que seja intenso e forte…

Ele ficou feliz em atender o pedido.

Apertou-a e sugou-a com toda a força do desejo que sentiu. Doroteya gemia algo, passando as unhas nas costas dele e mordendo ocasionalmente seus ombros. Tommy também a mordera e ela deu um gemido tão algo de prazer que ele não pensou duas vezes em repetir. Desceu então a mão até o sexo dela e massageou o clítoris na mesma intensidade de suas carícias. Daquela vez, Doroteya gritou. Ele continuou com o movimento, enquanto sugava seus seios. Em pouco tempo, ela tremia em seus braços, gemendo e ofegando. Antes que passasse, ela tirou sua mão abrutadamente e o fez deitar-se de novo. Segurou o membro dele com as mãos e o montou. Tommy gritou de prazer.

Doroteya passou a se mover rápido, cavalgando-o vorazmente, enquanto mantinha as unhas fincadas em seu peito. Tommy segurava o quadril dela, mexendo-se em conjunto, sentindo ir cada vez mais e mais fundo. Não demorou muito para que ele atingisse o ápice, dentro dela, enquanto enterrava os dedos na carne tenra de seus quadris. Só que ela ainda não tinha terminado.

Continuando a mover-se sobre ele, ela pegou suas mãos e levo-as aos seus seios. Tommy os segurou e os apertou, sentindo que seu membro voltava a ficar ereto dentro dela. Passou as mãos pelo seu corpo uma, duas, várias vezes, como um cego apalpando um caminho desconhecido. Doroteya passava as unhas em seus braços, deixando um rastro dolorido e ardido, como se estivesse deixando sua assinatura nele. Mas nem era necessário. Ela já deixara a si mesma gravada a fogo dentro de sua alma. Não demorou muito e Doroteya aumentou a velocidade de seus movimentos e Tommy apertou novamente seus quadris enquanto ela gritava de prazer e atingia o ápice. Ele a acompanhou no grito e no orgasmo e em seguida, ela desabou sobre ele, exausta e satisfeita. Abraçando-a, Tommy procurou sua boca e a beijou, dessa vez com suavidade. Doroteya o retribuiu, antes de descansar a cabeça em seu peito, os cabelos se espalhando no rosto de Tommy. Ele riu e os afastou com a mão. Nada disseram, porque nada precisava ser dito. Apenas ficaram ali, abraçados, à luz da lua, conscientes que nada mais seria igual como antes.

E estavam muito felizes com isso.

Ficaram assim, abraçados, deitados sobre a luz da lua, por um bom tempo. Tommy alisava os cabelos de Doroteya enquanto encarava as estrelas.

— Talvez devêssemos voltar. — disse ele a certa altura.

— Por que? — perguntou ela – Está tão ruim assim?

— O quê? Não! — respondeu rapidamente antes de ouvir a risadinha dela – Ok, você me pegou. — ele riu antes de responder – Por mim ficaríamos aqui por toda a eternidade, mas Lina pode achar que lhe fiz algum mal e invadir esse bosque no meu rastro.

— Por que Lina pensaria que você me fez algum mal? — estranhou Doroteya.

— Sei lá, mas ela ameaçou me matar se eu lhe magoasse.

— Ameaçou mesmo? — perguntou Doroteya levantando a cabeça e o encarando.

— Não, mas soou como se fosse isso. — disse rindo.

Doroteya riu também, os cabelos caindo sobre o rosto e Tommy achou que nunca ela estivera tão linda.

— Ela disse que eu não lhe magoasse. Como se eu pretendesse fazer algo assim… — murmurou passando o dedo no rosto dela. Doroteya sorriu, timidamente.

— Talvez devêssemos voltar mesmo… — disse ela – Não quero ninguém nos procurando e não nos achando.

— Depois, damos uma desculpa esfarrapada e nos encontramos no meu quarto, o que acha? — propôs ele sentindo um pouco de medo que ela negasse.

Doroteya abriu o sorriso.

— Acho ótimo.

Então se levantaram e um ajudou o outro a se vestir. Na volta, Doroteya acabou tirando o salto e o levando na mãos. Tommy pensou que seria muito óbvio para qualquer um que os visse o que tinha acabado de acontecer. Estavam amarrotados, cheios de folhas secas nos cabelos e acabara de perceber que abotoara os botões do vestido de Doroteya errado. Talvez devesse convencê-la a ir logo para o quarto.

Todavia, assim que estavam se aproximando da mansão, ouviram uma confusão.

— O que será que aconteceu? — perguntou Tommy preocupado.

Mas Doroteya não ouvia mais. Ela sentira novamente. O cheiro. O assassino estava ali. Lina estava em perigo. Imediatamente ela assumiu a forma de worgenin e saiu em disparada. Assustado, Tommy correu atrás dela.

Parecia que a continuação da noite teria que esperar.

***************

Fazia anos que Lina não se divertia tanto. O casamento de Lady Cláudia e Horatio estava sendo um daqueles raros momentos em que tudo dá totalmente certo. Estava com um vestido lindo, num local onde sentia-se a vontade, com muita comida e bebida boa e em excelente companhia. Nem tinha vontade de brigar com ninguém. Nem mesmo com Pandora, quando a viu surrupiar uma taça de vinho e beber. Não, deixaria a menina se divertir. Nada tiraria seu bom humor.

E uma boa festa, óbvio, tinha que ter dança. Lina adorava dançar. E Mel mais ainda. Então os dois irmãos formaram um par e tanto, causando admiração a todos, dançando animadamente música após música. E somente quando viu um homem de olho em seu irmão foi que decidiu parar um pouco.

— Aquele ali. De verde. — disse ela pela enésima vez ao seu irmão ainda na pista de dança – Ele não tira os olhos de você.

Mel deu uma olhada discreta no homem.

— Não sei…. — Mel estava inseguro – Tem certeza que não é para você?

— Tenho certeza que é para você, bobinho. Quer ver? Dê uma olhada nele. Sem discrição.

Foi exatamente o que Mel fez. Virou a cabeça e o encarou. O homem sorriu para ele.

— Viu?! — exclamou Lina animada – Vá lá, tire-o para dançar!

— Tem certeza? — perguntou – Você disse que queria dançar hoje até quebrar uma das pernas.

— Melhor não. — ela riu – Tenho que estar inteira para voltar ao trabalho.

— Então tá. — e Mel sorriu agradecido para a irmã.

Lina o soltou e já estava saindo, quando o irmão alertou.

— Não beba mais ok? — pediu – Você já está sendo simpática. Isso é perigoso.

Lina deu uma risada e pegou uma taça de vinho de uma bandeja que passava e mandou beijo para o irmão. Mel suspirou, balançando a cabeça, e foi tirar o homem de verde para dançar. Lina tropeçou um pouco até voltar para sua mesa e sentar. Percebeu que o irmão tinha razão. Talvez devesse maneirar no vinho. Tomou a taça que já estava em sua mão e depois pegou uma de água. Sabia que no dia seguinte estaria com uma dor de cabeça descomunal e seus pés queimariam como o diabo, mas, no momento, estava muito feliz. Deixaria a Lina do futuro lidar com a dor.

— Ei, tia!

Virou-se para Pandora, que vinha toda feliz em sua direção. Em outra situação, Lina perceberia que a menina tinha a expressão que queria algo, mas, como estava bêbada, só pode reparar o quanto a sobrinha estava bonita.

— Terei que matar alguém? — perguntou quando a menina sentou do seu lado.

— A senhora quer sempre matar alguém. — falou Pandora – Está se referindo a alguém especifico?

— Me diga você. — Lina tomou mais da água – Algum idiota andou lhe cantando?

Pandora franziu o cenho.

— Eca, tia, a senhora falou igual ao meu pai agora? Tá bêbada é?

— Um pouco. — e tomou mais da água – Certo, não quero parecer seu pai. — e olhou novamente para a menina – Mas alguém foi inconveniente com você?

— Nada que eu não pudesse lidar. — a garota respondeu se endireitando na cadeira.

— Muito bem. — Lina segurou no ombro da menina – Não deixe qualquer um entrar no meio de suas pernas!

— Olhe quem fala! Dormiu com metade de Ventobravo!

— Ah, não foram tantos! — Lina terminou a taça de água. Estava enjoada, mas pegou mais uma – Eu selecionava bem. E veja minha última aquisição. — e desandou a rir.

— Certo, tia, a senhora tá muito bêbada! Não me faça passar vergonha! Vá deitar! — e apontou para a mansão.

Lina encostou-se na cadeira e olhou para a sozinha.

— Sei que você me acha um saco na maior parte das vezes. — disse ela sorrindo – E eu sei que sou um saco. Mas eu amo você, Pandora. E farei de tudo para que você tenha uma boa vida em Ventobravo.

— Vai deitar, bebum! — ordenou a menina ainda apontando para a mansão.

Rindo, Lina se levantou, sapecou um beijo no rosto da sobrinha e foi em direção à mansão. Pandora suspirou, exasperada, mas sorria. Sim, ela amava aquela vaca também. Muitas vezes desejara que Lina fosse sua mãe, só que hoje sabia que era melhor que a relação delas fosse de sobrinha e tia. Se fossem mãe e filha, já teriam se matado há muito tempo. Eram parecidas demais e não era apenas na aparência. Eram duas cabeças duras.

— Pãozinho! — Pietro e Theo chegaram naquele instante – Já pediu?

Pandora então se tocou que esquecera completamente.

— Droga, ela tava tão bêbada que eu a mandei ir pra mansão!

— Vamos que ainda dá tempo! — falou o menino – E, de quebra, acho que eu e Theo ainda podemos conseguir algo!

— Não é meio desleal se aproveitar da tia bêbada para conseguir as coisas? — perguntou Theo relutante.

— Claro que é. — falou Pietro – Mas se não for assim, ela não deixa! E Pandora quer muito ir para Dalaran!

— Vamos, vamos! — falou Pandora se dirigindo à mansão, no rastro da tia.

Sem saber que os sobrinhos a seguiam, Lina caminhava na direção de seu quarto, um pouco cambaleante. Encostou-se na parede do corredor e tirou as sandálias. Largou-as sem muita preocupação, pensando que no outro dia nem saberia onde as tinha deixado. Riu sozinha, ciente que há muito já passara de seu limite de bebida. Pensou em Varian. Queria que ele estivesse ali, para que fosse seu par, que dançassem a noite toda e depois fossem trôpegos na direção do seu quarto e fizessem sexo loucamente, como se não houvesse amanhã. Desejou, só por um momento, que ele fosse um homem qualquer, sem títulos, sem nada, para ser apenas dela.

— Besteira! — exclamou para as paredes antes de continuar a andar cambaleante.

Se não estivesse tão bêbada, Lina teria notado a sombra em seu encalço. Saberia que não estava sozinha. Mas acreditava que estava segura, que nada havia a temer naquela noite. Acreditou nisso até sentir um fio ser colocado em sua garganta e ser apertado com forças.

Primeiro, achou que tinha engasgado com algo. Mas não estava comendo nem bebendo. Levou alguns segundos para perceber o que acontecia. Só que não conseguia se livrar do laço que a apertava. Quem estava lhe sufocando puxava com muita força, e Lina nem conseguia mais se manter em pé. Suas pernas vacilaram e ela foi puxada com força, os pés deslizando pelo assoalho, em busca de algo pra se firmar. Suas mãos foram para trás, numa tentativa de ferir de alguma forma seu atacante, mas não conseguiu nada além de socar o ar. Ele estava bem as suas costas, tirando seu ar e sua vida e ela nada podia fazer para salvar-se. A única coisa que conseguiu pensar, antes de sua mente começar a escurecer, era que nunca tinha dito a Varian que o amava. Era o único arrependimento que levaria daquela vida.

Lina já estava quase desfalecida quando Pandora entrou no corredor e viu a tia perdendo os sentidos, enquanto um homem segurava um fio ao redor de seu pescoço e outro observava. O sangue fugiu de seu rosto e ela simplesmente não pensou quando gritou:

— Ei! Soltem minha tia! — e avançou sobre o homem que segurava Lina.

O que observava a execução pulou em cima de Pandora e a segurou. Só que ele não viu um vulto pequeno que também se atirara sobre o assassino e que, sabiamente, não gritou. Theo deu uma cabeçada nas costas do homem que segurava Lina e ele, assustado, a soltou. Lina caiu no chão, arfando enquanto cuspia sangue. E então, ela perdeu a consciência.

— Matem-nos! — gritou o homem que enforcara Lina tentando pegar Theo.

A vida na floresta deixara mais que saudades no filho de Doroteya. Theo era ágil e já havia fugido de muita coisa enquanto brincava próxima à cabana e na floresta de Guilneas. Então, quando o homem tentou segurá-lo, ele passou por baixo das suas pernas, deslizando até onde Lina estava. Depois, ele fez uma pose com os pequenos punhos e gritou:

— Você não vai machucar minha tia!

Enquanto Theo desafiava o homem, Pandora estava numa luta corporal com o outro. A primeira coisa que fizera foi dar um certeiro chute no saco dele, que caiu, segurando só fundilhos. Depois ela pulou em cima do que já ia bater em Theo e agarrou seu pescoço.

— Corra, Theo! — ordenou.

— De jeito nenhum! — disse o menino ainda de punhos levantados – Não vou deixar vocês aqui!

— Pandora! — quem gritou foi Pietro.

A garota olhou para o irmão, assustada, pois Pietro estava ali próximo e era um alvo fácil.

— Vá chamar ajudar! — ordenou ela.

— Pegue! — gritou o menino antes de jogar algo em sua direção.

Pandora soltou o homem por um momento e agarrou o que seu irmão jogou com agilidade. Era a adaga que sua tia tinha lhe dado. Antes que pudesse tirar da bainha, o homem que estrangulara Lina, agora passou o fio em seu pescoço. Mas dera as costas a Theo, que novamente deu uma cabeçada em suas costas. O homem que tivera o saco atingido por Pandora se levantava e ia na direção deles. Ninguém parecia preocupado que Pietro estava ali. Foi o erro daqueles dois. Eles não sabiam, mas Pietro ainda tinha os braços bons o suficiente para empurrar a cadeira com agilidade para fora da mansão. E gritava enquanto fazia isso.

— Socorro! Socorrroooo! — gritava ele.

Naquele exato momento, Horatio e Cláudia ouviram os gritos do menino e começaram a correr naquela direção. Assim que eles surgiram no pé da escada, o menino gritou, apontando para o corredor:

— Ali! Ali!

Naquele momento, o homem do saco percebeu que tinham sido descobertos e precisava de tempo. Tirou uma esfera do bolso e jogou-a, no corredor por onde Pietro saída. Houve uma pequena explosão e uma névoa alaranjada se espalhou. Pietro, do outro lado, começou a tossir.

— É pó mata-cachorro. — falou Horatio vendo a fumaça subir e seus olhos começarem a arder – Está nos afetando! Eric, tire o menino daqui! Cláudia, se afaste!

— Lina! — gritava ela para dentro da fumaça.

Lá, Pandora e Theo estavam sozinhos contra os atacantes. Quando Theo dera a cabeça no homem e ele soltara Pandora, não percebeu que ele se voltara contra sua pessoa. O homem simplesmente agarrou os cabelos do menino e meteu sua cabeça na parede. Theo sequer conseguiu gritar. A força do golpe o deixou desacordado no mesmo instante e o menino desabou no chão. Porém, o atacante dera as costas para Pandora. A jovem não pensou duas vezes. Tirou a adaga da bainha e a enfiou no pescoço do homem, cravando-a bem fundo, fazendo o sangue espirrar. E o segundo homem, que jogava a bomba, agora vinha para cima dela.

Sem tempo para tirar a faca e enquanto o atingido se debatia em meio ao próprio sangue, Pandora mais uma vez se viu numa luta corporal contra o homem do saco. Só que agora ele estava sobrepujando-a, derrubando-a no chão e subindo em cima dela, pronto para esganá-la. Ele começou a apertar o seu pescoço e Pandora se debateu, suas mãos procurando algo que pudesse ajudar. Seus dedos tocaram em uma correia e ela puxou. Era a sandália que Lina soltara no corredor. Pandora a agarrou e, juntando toda sua força, enfiou a ponta do salto no olho de seu atacante. Ele gritou e a largou. Pandora se esgueirou para longe dele e percebeu que o homem com adaga no pescoço jazia morto numa poça de sangue. Correu até ele e tirou a adaga de seu pescoço. Quando o segundo homem, com o salto enfiado no olho, correu em sua direção, ela o atacou com a adaga. Ele se esquivou uma, duas vezes, a socou e Pandora ficou tonta. Quando a menina deu passos para trás, ele tentou socá-la de novo, mas ela se jogou na parede do corredor. O homem passou direto e escorregou no sangue de seu amigo. Caiu de cara no chão e o salto entrou totalmente dentro de seu crânio. Estava morto.

Enquanto ainda estava lutando, Doroteya chegou correndo na mansão. Porém, o pó logo a atacou, e a druidesa caiu de joelhos, ganindo de dor. Tommy chegou logo depois, no meio da confusão e apenas entreouviu o que acontecera. Mesmo com os olhos ardendo, ele se atirou na direção da névoa, tossindo e arfando até chegar onde havia ar puro. Ele chegou a tempo de ver Pandora se atirar contra a parede do corredor para fugir de seu atacante e este escorregar, cair e morrer.

— Pandora! — gritou ele – Onde está Lina?

Mas Pandora não respondeu. Deixou-se escorregar pelo chão, tremendo, com lágrimas correndo em seu rosto. Tommy foi primeiro em direção dela. Os olhos deles estavam vermelhos e o nariz sangrava um pouco.

— Você está bem? — perguntou se agachando junto a ela.

A garota fez que sim e levantou a mão trêmula, apontando para trás de Tommy. Quando o homem seguiu seu olhar, sentiu o coração parar de vez. Theo estava no meio de uma poça de sangue.

— Theo! — gritou indo em direção ao menino.

Theo gemeu quando Tommy o sacudiu e, com alívio, ele percebeu que o sangue não era do menino. Porém, o medo só o deixou quando Theo abriu os olhos e o encarou, confuso.

— Minha cabeça dói… — protestou colocando a mão onde agora havia um grande galo.

— Está tudo bem… — murmurou ele abraçando o menino – Está tudo bem, meu filho!

Agarrado em Tommy, Theo começou a chorar.

— Vamos ver sua tia agora… — murmurou Tommy soltando o menino e indo até a irmã.

Lina respirava com dificuldade. Havia sangue saindo de seu nariz e boca. Tommy alisou seu rosto percebendo que ele ainda estava muito vermelho. Havia um vergão em volta do pescoço dela, que também sangrava. Tommy ficou com medo de mexer na irmã e piorar seu estado. Mas como Doroteya ia curá-la se não podia passar?

Contudo, poucos instantes depois, o ar começou a rodopiar onde havia o pé, formando um tornando, que juntou toda a névoa alaranjada e a atirou em direção a uma das janelas de vidro do corredor. A janela quebrou, deixando o ar da madrugada entrar. Ainda havia alguns resquícios de partículas no ar quando Doroteya apareceu, conjurando tornado de ar. Os olhos dela vertiam lágrimas de dor e o nariz dela estava sangrando também. Bem mais que o de Tommy. E quando ela viu o filho, sujo de sangue, com um galo enorme na cabeça, sentado ao lado de um cadáver, ela perdeu totalmente o controle de sua magia. O tornado sumiu enquanto ela corria na direção de seu menino.

— Theo! — ela gritou abraçando o menino no chão e se sujando toda de sangue – Meu amor, você está bem?!

— Estou mamãe! — disse o menino abraçando também a mãe – A Pandora me salvou. Ela salvou eu e a tia Lina.

Doroteya se virou para Pandora, que ainda estava no chão, trêmula, olhando o homem morto de seu lado. O cérebro da menina ainda não tinha conseguido assimilar que aquilo fora obra dela.

— Vá ver tia Lina! — pediu o menino – Eu tenho só um galo, mas ela tá mal!

Foi um pouco difícil para Doroteya deixar o filho, mas Theo a soltou e apontou para Lina. Ao ver a amiga, Doroteya ficou alerta novamente. Levantou-se e foi rapidamente até onde Tommy estava.

— Doro… murmurou ele vendo o sangue escorrer do nariz dela.

Apesar de sentir dor, Doroteya usou sua cura, ainda que com alguma dificuldade, e começou a curar Lina. O vergão e o nariz da comandante pararam se sangrar e a respiração dela melhorou. Doroteya teve que parar acura, pois se desconcentrara com a própria dor.

— Cure-se também. — pediu Tommy.

Ela fez que sim e lançou uma magia de cura em si mesma antes de voltar a curar Lina.

— Como está a comandante? — Horatio perguntou.

O tenente aproveitara que os resquícios da névoa do pó mata cachorro estava se dissipando e chegara, com seus comandados ali. A primeira coisa que fez foi ajudar Pandora a se levantar e tirá-la de perto dos cadáveres. Eric, seu padrinho, ajudou Theo a se levantar e também o tirou do local.

— Ela vai ficar bem. — respondeu Doroteya depois que o tenente deixara seu filho e Pandora em segurança – Minha magia está fraca, então vou precisar curá-la de novo em breve… Mas já podemos movê-la.

— Certo. Deixe-me ajudar.

Horatio e Tommy pegaram Lina e a levaram para o quarto dela, próximo dali. Depois de deitar a comandante lá e deixá-la aos cuidados do irmão e da druidesa, o tenente voltou até onde estavam os cadáveres.

— Ninguém toque nos cadáveres. — ordenou – Quero que a Alex veja antes de movermos os dois. Já a acharam?

— Ela já tinha se retirado da festa, mas foram chamá-la. — falou Eric.

— Ótimo.

Pandora e Theo foram deixados em uma sala reservada, cheia de guardas, onde Pietro só aguardavam. Assim que viu a irmã e o amigo, O menino começou a chorar.

— Eu não servi para nada! — exclamou em mio as lágrimas.

— Não é verdade! — retrucou Theo – Se não fosse a adaga que você jogou, a gente teria morrido, não é, Pandora?

Mas Pandora não respondeu. Ela sentou-se, tremendo, sem emitir um som sequer. A expressão vazia dela e seus olhos arregalados fizeram com que Pietro parasse de chorar e fosse até a irmã. Theo sentou do lado dela enquanto Pietro se postou em sua frente. Cada um dos meninos pegou uma mão da garota. Ela estava gelada.

— Pãozinho? — chamou Pietro.

A mente de Pandora, contudo, dava voltas e voltas em torno da cena que acabara de acontecer. Viu novamente o sangue, o cadáver, sua tia no chão como morta, Theo desmaiado e apenas ela em pé. A adrenalina que a impulsionara havia abandonado seu corpo e sua mente começava a sair do estupor, mostrando todas as coisas que poderiam ter saído erradas. O medo começou a invadi-la naquele momento. Olhou suas mãos, sujas de sangue, enlaçadas em outras duas mãos menores. Como se só agora captasse que não estava só, levantou os olhos. Pietro e Theo a olhavam, preocupados. Ela então desabou. Chorou alto, gritando com todas as forças de seu peito. Outros guardas entraram correndo na sala, mas logo os outros os tranquilizaram. Para eles, não era nada, apenas o grito de uma moça assustada. Para Pandora, era por para fora o demônio de um futuro de trevas que não se concretizara e precisava ser exorcizado. Por isso gritou e chorou, apertando a mãos dos meninos, que não saíram de seu lado até que ela tivesse posto tudo pra fora.

***********************

Aethas nunca se divertira tanto em um baile do Kirin Tor. Ainda que tivesse que dividir a atenção entre Vivithi e seus trabalhos como conselheiro, estava se saindo muitíssimo bem. Ou, pelo menos, achava que sim. O arquimago percebeu, contudo, que a partir do momento em que Arshe Fordragon, princesa emérita de Ventobravo, chegara ao baile, houvera uma mudança no humor de Vivithi. A elfa ficou estranhamente tensa.

— Algum problema? — perguntou ele quando a pegou para dançar novamente.

Vivithi chegou bem perto de revelar para Aethas o problema de ter a princesa humana ali. Porém, o antigo caso dela com Kayliel era algo que deveria ser mantido em segredo, ou poderia trazer muita dor de cabeça. Claro, imaginava que aquilo poderia acontecer, só que ver as coisas se desenrolando e não poder pegar a humana e jogá-la da borda de Dalaran a deixara irritada. Todavia, pelo que podia perceber, as coisas apreciam realmente acabadas entre eles. A princesa em nenhum momento olhara para Kayliel, e o elfo estava conversando com alguns elfos dos Fendessol e não parecia estar interessado também. Aquilo a fez baixar a guarda.

— Estou muito chateada porque o vestido da princesa é lindo. Claro, não é lindo como o meu. Mas admitir que sinto um pouco de inveja daquele modelo é como beber vinagre.

Aethas jogou a cabeça para trás e deu uma risada.

— Minha cara, você admitindo inveja é algo que eu jamais pensei que veria. Mas não se preocupe. — ele apertou mais a cintura dela ao falar – Nem mesmo um milhão de vestidos poderia deixar qualquer uma mais bela que você nesta noite.

— Acho bom mesmo você pensar assim! — disse ela apertando os olhos.

— Sempre. — murmurou sorrindo.

Concluíram aquela dança e Aethas percebeu que já tinha feito o suficiente por aquela noite. Dançara com todas as mulheres que eram consideradas importantes e estava na hora de aposentar seus serviços.

— O que quer fazer? — perguntou ele puxando-a para fora da pista de dança.

— Você não precisa mais dançar com ninguém? — perguntou ela com os olhos brilhando de felicidade.

— Só com você, se ainda quiser.

Vivithi balançou a cabeça em negativa.

— Quero você só pra mim. — falou com o olhar em chamas – Antes, porém, quero ver seu escritório.

— Meu escritório? — estranhou ele.

— Sim, onde você passa a maior parte de sua vida. Estou curiosa.

Aethas assentiu.

— Claro, venha. — e saiu puxando-a pela mão.

Subiram as escadas da Cidadela Violeta, passando por servos com taças de bebida e canapês. Depois, chegaram a um corredor comprida e iluminado, onde estavam dois guardas. Provavelmente eles estavam ali para evitar que algum espião subisse para o escritório dos conselheiros. Quando viram Aethas, bateram continência e voltaram a sua postura estática. Os dois elfos caminharam mais um pouco até chegar em uma porta vermelha e dourada. Aethas colocou a mão em um orbe transparente e energizou-o, fazendo a porta abrir. Depois, segurou a porta, para que ela entrasse.

A primeira coisa que Vivithi notou na sala foi o enorme quadro de Samanthah na parede e aquilo a surpreendeu um pouco.

— Não conhecia esse quadro da Sam. — comentou.

— Tenho esse quadro desde antes dela fugir com Dhomm. — ele riu, nervoso – Quando ela faleceu, bem… Achei que era ai que deveria ficar.

Encarando-o por um momento, Vivithi se perguntou o que Aethas sentia sobre a morte da irmã e todas as coisas que a precederam. Percebeu que havia desnudado sua alma para ele, mas ele não fizera o mesmo. Verdade fosse dita, ela nunca perguntara. Ficou tentada a puxar o assunto, mas não queria estragar a noite. Suspeitava que, quando tivessem essa conversa, as coisas ficariam tensas e não era aquilo que pretendia para aquela noite.

— Então, é aqui que são tomadas as decisões do poderoso Aethas Fendessol. — comentou para quebrar a tensão, andando pela sala – Confesso que esperava outra coisa.

— O que você esperava? — quis saber ele.

Vivithi pensou um pouco.

— Mais pompa. — respondeu.

— Mais pompa? — ele estava surpreso.

— Sim, está muito simples para seu ego.

Aethas gargalhou.

— Acho que passei a impressão errada para você.

— Ou passou a impressão correta, a impressão que as pessoas devem ter de você, não o que necessariamente você é.

Considerando por um momento, Aethas assentiu.

— Acho que é isso mesmo.

Observou-a andar pela sala, como uma gata analisa um ambiente novo. Viu-a olhar para seus livros com interesse, puxando alguns da estante e os devolvendo em seguida. Depois, ela foi até seu suporte de equipamentos arcanos e passou os olhos demoradamente por todos eles. Viu o aparador onde tinha um bule, xícaras e uma garrafa de licor. Olhou tudo que estava ali e, por último, sentou na cadeira de espaldar alto dele, por trás da escrivaninha.

— Então, senhora arquimaga, está satisfeita? — perguntou com um gracejo.

— Muito. — ela sorriu – Eles não estão te espionando.

Houve um momento de silêncio perplexo e ele perguntou, espantado:

— Você estava procurando por armadilhas arcanas que poderiam me espionar?

— Estava. — admitiu calmamente.

Aethas a encarava, ainda sem acreditar.

— Só por isso quis vir na minha sala? — ele estava indignado.

Calmamente, Vivithi se levantou da cadeira e caminhou até onde ele estava.

— Você parece chateado… — falou murmurando enquanto o encarava intensamente.

— Achei que… — ele engasgou um pouco quando ela ficou bem em frente a ele, quase colada em seu corpo – Achei que você queria ficar a sós….

— Uma coisa exclui a outra? — perguntou passando o dedo no rosto dele.

A resposta de Aethas foi agarrá-la e beijá-la com desejo. Vivithi correspondeu, enlaçando-o e apertando contra seu corpo. As mãos de Aethas percorreram o corpo dela, sentindo a alternância entre o tecido e as joias que a cobriam. Antes que pudesse pensar em livrar-se dos dois, Vivithi parou o beijo e deu um passo para trás.

— Esse aqui você não vai rasgar… — falou antes de ela rapidamente deixar o vestido escorrer pelo corpo até o chão. Ela não vestia nada por baixo – Pedi para colocarem uma forma de abri-lo bem rápido.

Sem falar nada, ele foi até ela e a agarrou. Depois, levou-a até a sua mesa, onde a colocou sentada, antes de começar a sugar seus seios. Vivithi arfou e colocou os dedos dentro do cabelo dele. Aethas passou a língua por entre os seios dela, desceu até a barriga e então se ajoelhou aos seus pés. Sem a menor cerimônia, colocou a língua dentro do seu sexo, sugando-o e fazendo-a gemer. Vivithi então envolveu a cabeça dele com as coxas, se equilibrando parcamente em seus saltos altos, enquanto seu traseiro tentava ficar em cima da mesa. Aethas estava tão sedento dela, tão empolgado que em pouco tempo, Vivithi já atingia o ápice, mordendo o lábio para não gritar e atrair a guarda e apertando com força a borda da mesa dele. E só depois, percebeu que poderia estar sufocando-o.

— Desculpe… — murmurou quando abriu as pernas e Aethas sugou o ar, com o rosto totalmente vermelho.

Ele não disse nada, apenas a deitou na mesa. Não tinha tempo a perder tirando a roupa, então apenas baixou as calçar, liberando seu membro. Puxou-a de pernas aberta até ele e a penetrou de vez, arrancando gemidos de êxtase.

— Shhhh… — falou ele colocando o dedo nos lábios dela. Vivithi então sugou o dedo dele, com um sorriso malicioso.

Cheio de desejo, Aethas segurou os quadris dela e passou a arremeter com força, se lançando contra a mesa. Vivithi esticou-se sobre a madeira, deixando o caminho entre suas pernas livre para que Aethas pudesse retomá-la do jeito que quisesse. E ele o fez. Arremeteu-se dentro dela com voracidade, como jamais havia feito antes. Enquanto ela mordia seu dedo, já que não podia gritar. Logo ela fechava os olhos com força, os espasmos de prazer tomando conta mais uma vez do seu corpo. E quando Aethas atingiu o ápice foi selvagem e violento, apertando-a tanto que seus dedos marcaram a pele bronzeada de Vivithi. Desabou sobre ela e quando puxou seu dedos de seus lábios, viu que ele sangrava.

— Você me fez sangrar… — disse ele sorrindo e mostrando o rastro de sangue.

— Eu sei… — murmurou ela – Agora tenho você dentro de mim de duas formas.

Aethas gargalhou fracamente.

— Pela Nascente do Sol, você me deixa louco... — e a beijou longamente.

— Eu sei… — murmurou ela no final do beijo.

Os dois ficaram mais uns instantes em meio às carícias e então Aethas saiu de dentro dela. Se ajeitaram rapidamente e Aethas percebeu que sua mesa ficara totalmente torta no meio da sala. Deu de ombros. A ajeitaria depois.

— Pronta? — perguntou depois de Vivithi pôr o vestido.

— Preciso apenas ir ao banheiro. Você está escorrendo em minha perna.

Ele a levou até o banheiro no corredor e também foi ao masculino. Deu uma boa olhada em si, para ver o que as pessoas veriam quando saísse do baile. Estava tudo certo. Quando voltou, ela já o aguardava. Ele teve vontade de beijá-la novamente. E o fez.

— Vamos para sua casa? — perguntou ela depois – Estou faminta. E não quero comer essa porcaria que estão servindo aqui.

— Claro. Vamos.

Caminharam para o salão, sem despertar a atenção de ninguém. A maioria dos convidados já estava bêbada ou cansada o suficiente para não prestar atenção em um casal que decide sair discretamente da festa. E eles foram discretos, pelo menos até descerem a escadaria da cidadela violeta. Os curiosos já tinha se dispersado e Aethas pediu para que trouxessem sua carruagem. Estava aguardando a chegada do transporte em pé, meio abraçados, encarando um os olhos do outro, quando ouviram alguém descer rapidamente a escada e um elfo esbaforido, falar apressadamente:

— Arquimago, eu estava a sua procura!

Um pressentimento horrível tomou conta de Aethas. Já vivera uma cena semelhante àquela quando Samanthah morrera.

— O que aconteceu? — e ele mesmo respondeu – Foi algo com Luxuriah?

Para seu desespero e o de Vivithi, o elfo assentiu.

— Ocorreu algo na Torre, senhor! Algo sério! Envolveu Tewdric e aquele elfo… — ele pensou por um momento – Grey! O nome dele é Grey! Houve um conflito, a rainha foi envolvida…. E a princesa entrou em trabalho de parto!

A cor fugiu dor soto de Aethas.

— Kayliel! — gritou Vivithi – Kayliel está no baile! Precisamos levá-lo até a Torre!

— Eu já o procurei, milady e não o achei em lugar nenhum!

A essa altura Aethas já movia as suas mãos, evocando um portal para Luaprata.

— Continue a procurar e o leve assim que o achar! — ordenou Aethas. E assim que o portal foi terminado, ele pegou a mão de Vivithi e atravessaram para o outro lado, ambos com a esperança que as cosias não e tivessem tão caóticas quanto o elfo deixara entender.

Estavam enganados.

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Notas finais
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