Herdeiros da Guerra
41 Capítulo XXVI - A coroação (Parte III)
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A ilha de Quel’Danas estava lotada de elfos por todos os lados. A procissão do povo tão próxima da coroação de Karen era esperada e fora organizada cuidadosamente por Lady Liadrin. Por causa disso, foi necessário que Lor’themar, Vivithi, Rommath e Ash se deslocassem até onde estava a Nascente do Sol para poder falar com a Matriarca dos Cavaleiros Sangrentos. Ash estava preocupada, pois não era uma viagem rápida de navio e ela temia que Luxuriah desconfiasse de algo caso não chegassem em tempo para o jantar. Porém, Rommath resolvera tudo com um único teleporte.
— Pensei que fosse impossível teleportar para a Nascente. — comentou Ash sem esconder seu espanto – Achei que haviam defesas mágicas.
— Claro que há. — respondeu Rommath sorrindo – Eu as fiz.
— Ele adora se exibir por ser o único que pode se teleportar para cá. — resmungou Lor’themar – Vamos logo. Temos que voltar antes que Luxuriah perceba nossa ausência.
Luxuriah poderia não notar a ausência deles, mas com certeza, todos os elfos ali notaram a sua presença. Cabeças se viraram assim que eles começaram o caminho na direção da Nascente do Sol e os sussurros se iniciaram imediatamente quando reconheceram que era a pessoa que caminhava à frente. E Ash nunca detestou tanto ser princesa quanto naquele momento. A etiqueta dizia que, como princesa, ela devia sempre andar à frente, liderando a caminhada. Lor’themar, como lorde regente, vinha logo em seguida, dois passos atrás dela. Ainda que fosse marido de Luxuriah, Rommath ainda era apenas consorte real, sendo uma posição inferior a Lor’themar, cujo posto de lorde regente colocava sua autoridade abaixo apenas das princesas. Vivithi, como nobre e vice-comandante, vinha ao lado de Rommath, e franzia a testa, visivelmente incomodada com toda aquela atenção. Mas não tao incomodada quanto Ash.
— Terei que acionar uns contatos para impedir que a notícia que estivemos aqui chegue a Luxuriah. — comentou a patrulheira.
— Por favor, Vivithi. — pediu Lor’themar.
A medida que avançavam e que eram reconhecidos, Ash ia ficado cada vez menos a vontade. E aquilo piorou quando todos os elfos começaram a se ajoelhar, a cabeça abaixada em sinal de reverência e respeito à passagem da princesa. Ash teve vontade de sair correndo. Só não o fez porque assim que suas pernas estremeceram, Lor’themar pegou a sua mão. Ela virou-se e ele lhe sorriu.
— Estou aqui. — sussurrou – Não tenha medo.
Como sentir-se mal depois de ver aquele sorriso e de ouvir aquela declaração? Ash então respirou fundo e prosseguiu seu caminho. Assim que chegou à passarela que levava à Nascente do Sol, a jovem começou a sentir uma sensação aquecida em seu peito. Colocou a mão sobre o coração, lembrando da última vez em que estivera ali. A fênix palpitava dentro de sua alma como se a Nascente do Sol soubesse que ela havia chegado. Na verdade, pensou Ash, ela sabia sim. Parou por um momento, com a sensação que alguém estava tentando sussurrar-lhe algo. Antes que Lor’themar pudesse perguntar porque ela parara, Lady Liadrin surgiu, sendo acompanhada por diversos Cavaleiros Sangrentos. A elfa estava surpresa e preocupada.
— Vossa Alteza. — ela lhe fez uma reverência, sendo seguida por seus cavaleiros – É uma honra e uma surpresa vê-la aqui. — e olhando para aqueles que vinham logo atrás, completou – Vê-los todos.
— Peço desculpas por vir sem avisar. — começou Lor’themar – Mas a princesa tem um assunto urgente para tratar com você.
Lady Liadrin desviou a vista de Lor’themar para Ash.
A princesa sentiu-se incomodada pelo olhar de Lady Liadrin. Saber que ela era mais velha do que qualquer elfo que conhecera, a fazia pensar no quanto a paladina sabia sobre a vida, sobre o mundo e como poderia facilmente desvendar tudo sobre sua vida apenas encarando-a.
— Alteza? — chamou a Matriarca.
— Há algum lugar onde podemos conversar? — perguntou ainda sentindo os olhares dos elfos sobre si – Um lugar reservado?
Lady Liadrin sorriu.
— Claro, alteza. Venha.
Ash pensou que iriam até a Nascente do Sol, mas Lady Liadrin começou a levá-la na direção oposta. Seu olhar voltou-se à Nascente quase imediatamente.
— Voltaremos aqui depois. — falou Lady Liadrin sem nem mesmo olhá-la.
— C-claro. — gaguejou Ash.
Caminharam para do prédio principal, passaram por um jardim e uma pequena ponte, até uma torre alta, onde o símbolo de Luaprata reluzia. Lá, diversos Cavaleiros Sangrentos se aglomeravam. Ao ver sua líder e sua princesa, os cavaleiros se curvaram assim como fizeram os elfos na entrada da Nascente. Ash suspirou.
— Vou me acostumar com isso algum dia? — murmurou.
— O rei Anasterian nunca se acostumou. — comentou Liadrin – Quem gostava mesmo de bajulação era o filho. — a elfa franziu a testa, em desagrado. Todos sabiam os sentimentos que ela nutria por Kael’thas.
Na torre, Ash e sua comitiva foi direcionada a uma sala reservada, com poltronas luxuosas e narguilés repletos de magia. Todos se acomodaram e a Matriarca ofereceu magia e vinho aos convidados.
— Não, obrigada. — disse Ash dispensando o oferecimento – Nossa visita é rápida
— Ah, mas eu quero! — disse Vivithi fazendo um aceno para um servo – Traga a piteira. E o vinho.
— Também vou querer. — disse Rommath – Preciso me acalmar.
Lor’themar, como Ash, também dispensou o oferecimento.
— Pelo visto vocês tem notícias desagradáveis. — comentou a matriarca pegando uma taça de vinho.
— Sim, temos. — afirmou Lor’themar.
Depois que todos foram servidos e deixados sozinhos, Ash começou a contar toda a situação para Lady Liadrin. Comentou sobre a posição de seu tio, a escolha do Kirin Tor e as repercussões que teriam em Luxuriah. A matriarca ouviu tudo em silêncio, com o rosto impassível. Ash se perguntava se ela estava realmente ouvindo ou se, pelo menos, se importava. Quando terminou de falar, Ash esperou. Sua boca estava seca e se arrependeu de não ter pedido um pouco de vinho também. Lady Liadrin pousou a taça na mesa à sua frente antes de falar:
— Me surpreender é difícil, depois de todos esses anos, mas confesso que a atitude de Aethas Fendessol conseguiu. — ela balançou a cabeça em afirmação – Colocar você e suas irmãs à frente de suas obrigações é mais do que eu poderia esperar dele.
Vivithi se sentiu incomodada com o comentário e franziu a testa. Não sentia-se confortável com alguém criticando Aethas. Esse prazer era reservado apenas para ela. Todavia, Liadrin percebeu o incômodo.
— Não venha me dizer que isso também não a surpreendeu, Vivithi. — disse a paladina – Se disser, estará mentindo.
— Claro que me surpreendi. — retrucou Vivithi altiva – Só que essa atitude dele nos deixou com um problema para resolver.
— Ash resolverá. — falou Rommath confiante – Sei que ela pode fazer isso.
Ash não sabia se ficava lisonjeada ou atemorizada com a confiança que Rommath estava depositando nela.
— Gostaria que ela não precisasse fazer. — disse Lor’themar.
Aquele era um sentimento compartilhado pela princesa.
— Ah, isso dá para ver em seu rosto, Lor’themar. — Lady Liadrin sorriu – Mas se vocês estão aqui, posso imaginar que desejam que meus cavaleiros acompanhem a princesa. — e antes que Ash respondesse, ela completou – Seria uma honra. Servir a você e suas irmãs, princesa Ashrial, será uma forma de nos redimirmos perante o trono de Luaprata. E nossa presença ao seu lado em Dalaran mostrará à Aliança e ao Kirin Tor que não podem ignorar que nossa força agora está de volta à Nascente do Sol e aos sin’dorei. — e sorriu – E eu também será ótimo imaginar a cara de Vereesa quando ver minhas forças lá. — completou dando um gole em seu vinho.
— Por que você não me acompanha? — convidou Ash num impulso – Eu me sentiria muito mais segura se a Matriarca dos Cavaleiros Sangrentos estivesse ao meu lado. Sei que todos também preferirão assim. — e sorrindo, completou – E você poderá ver a cara dessa elfa pessoalmente.
Para sua surpresa, Lady Liadrin gargalhou.
— Princesa, gosto de seu jeito de pensar. Gosto mesmo. — ela afirmou com a cabeça – Sim, irei. E levarei comigo aqueles que mais confio para sua proteção.
Saber que Lady Liadrin estaria pessoalmente ao lado de Ash tirava um peso imenso dos ombros de Lor’themar. Era de conhecimento de todos que não havia um paladino mais poderoso em toda a Azeroth que a matriarca. E ninguém em Dalaran teria coragem de erguer um dedo contra Ash se Liadrin estivesse um passo atrás dela com sua espada e seu escudo.
— Agradeço, Matriarca. — disse Ash sinceramente.
— Me chame de Liadrin. — pediu ela.
— Apenas se você me chamar de Ash.
Liadrin sorriu.
— Claro, princesa Ash.
Ash sorriu também.
Lor’themar, Rommath e Vivithi se entreolharam e puderam ver nos olhos uns dos outros o alívio de saber que Ash estará em boas mãos e também o impacto que a presença de Lady Liadrin causaria no Kirin Tor. Vivithi se perguntou se devia avisar a Aethas que a matriarca iria com a sobrinha ou se deixava ele ter uma bela surpresa.
— Eu também tenho algo a contar a vocês. — anunciou a matriarca – Mas vamos deixar para depois que a princesa visitar a Nascente do Sol.
— Não deveríamos voltar logo? — perguntou Rommath preocupado – Luxuriah pode perceber nossa ausência.
— Acredito que visitar a Nascente não levará tanto tempo. — interveio Lor’themar – E acho que será bom para todos nós estar lá.
Para os elfos sangrentos, a Nascente do Sol era mais que uma fonte de magia, era a fonte de suas próprias vidas. A civilização se desenvolvera ao redor dela, mudaram graças a ela e se nutriam e viviam de acordo com ela. Apenas em estar perto da Nascente do Sol deixava seus pensamentos mais claros e sua mente tranquila. Por isso, não foi preciso muito para convencer todos a irem até onde a magia da Nascente emanava límpida e pura.
Só que mais uma vez Ash teve que passar entre os elfos peregrinos e vê-los se curvar à sua passagem.
— Como faço para eles pararem de fazer isso? — sussurrou para Lor’themar.
— Não faz. — respondeu ele.
Ash suspirou.
Porém, todas suas preocupações evaporaram de sua mente ao entrar no salão onde estava a Nascente do Sol. Lady Liadrin pedira para seus cavaleiros retirarem os peregrinos dali para dar privacidade a Ash, mas esta não aceitou.
— Todos tem o mesmo direito de estar aqui que eu. — dissera e a matriarca atendera.
Agora, junto com Lor’themar, Rommath e Vivithi, Ash sentou-se próxima a Nascente do Sol. O calor que a fonte de magia emanava não era apenas físico, mas também espiritual. Lor’themar conseguiu finalmente deixar o medo de Ash ir a Dalaran de lado e também as preocupações com relação à Karen. Não precisava se preocupar, pois sabia que no final, tudo seria protegido e abençoado pela Nascente do Sol. Rommath, mais devoto que Lor’themar, rezava com fervor, implorando à Nascente que protegesse a mulher e a filha. Apesar dos anos passados, a dor de perder sua mãe para o Flagelo nunca passara e o medo de perder o irmão para a guerra ou para o seu amor pela humana o torturava todos os dias. Só haviam dois lugares onde encontrava a paz para seu tormento: ali e nos braços de Luxuriah. Por isso rezava e pedia pela elfa que tanto amava e que tanto custara a estar em seus braços. Já Vivithi estava confusa demais para pedir alguma coisa à Nascente do Sol e se contentava em permanecer apenas sentindo a calma e tranquilidade do lugar. Apesar de sua mente ser invadida a todo instante por imagens de Aethas, se recusava a pedir algo por ele ou para os dois especificamente. Mesmo ali, lutava contra os sentimentos que brotavam em seu coração e nem mesmo as forças da Nascente podiam curar toda a dor já vivenciada pela elfa. Mas, ainda assim, aproveitava as ondas cálidas e paz que habitavam o lugar.
Nenhum deles tivera a mesma experiência que Ash.
O peito da princesa pulsava quando se aproximou da Nascente do Sol, e ela sabia exatamente qual o motivo. Havia uma parte daquele poder dentro dela, a fênix, que recebera quando ela e as irmãs foram visitar o local pela primeira vez. Aquelas aves mitológicas mostraram a todos que a Nascente do Sol realmente escolheram as quatro irmãs como sucessoras da linhagem Andassol e sanaram qualquer dúvida sobre a legitimidade do nascimento de seu pai. E estar ali em um momento de preocupação como a que estava agora, lhe proporcionava um alívio imenso.
“Por favor!”, pedia a jovem princesa em oração “Que eu seja bem-sucedida!”.
“Claro que será.” respondeu uma voz.
Ash abriu os olhos rapidamente e olhou ao seu redor, assustada. Procurou a pessoa que falara com ela, mas nenhuma das pessoas que estavam próximas tinham seus olhos fechados e posição de oração e subserviência e nenhum deles parecia ter sido o portador da voz.
Lady Liadrin, que estava a alguns passos de distância, percebeu a perturbação de Ash e foi até onde ela estava.
— Algum problema, princesa Ash?
A matriarca precisou falar duas vezes para Ash perceber sua presença.
— Eu… — murmurou ela olhando para os lados – Nada… Nada não… Estou bem.
A paladina não parecia muito convencida, mas voltou ao seu lugar.
Ash voltou a fechar os olhos e se concentrou novamente. Seu coração batia forte, pois uma ideia se instalara em sua mente, só que parecia absurda demais.
“Você é… A Nascente do Sol?”, perguntou em sua mente.
“Que bom que me reconheceu.” respondeu a voz em sua mente. “A maioria sequer me ouve.”
As batidas do coração de Ash ficaram ainda mais descompassadas.
“Não se preocupe.” falou a Nascente mais uma vez. “Eu escolhi vocês por um motivo. A sua força e a das suas irmãs me atraíram.”
“Eu não sou forte.”, respondeu Ash.
“Você está dizendo isso, não eu.” a voz não parecia chateada com Ash, mas divertida. “Você logo descobrirá o quão forte é.”
“Por que? Acontecerá algo?!”
Só que a voz não respondeu.
“Nascente? Nascente?”, pensou ansiosa.
“Anveena.” respondeu a Nascente. “Chame-me de Anveena.”
— Ash?
A voz de Vivithi trouxe Ash de volta à realidade. A princesa olhou para a amiga, confusa, como da vez quando Lady Liadrin a chamara.
— Está na hora. — disse a patrulheira – Vamos.
Ninguém reparara na confusão de Ash ou talvez todos estivessem apenas tão introspectivo quando ela. Será que a Nascente falara com algum deles? Não… Ash achava que não. Por algum motivo ela havia sido escolhida. Não apenas ela, mas Kassyeh, Luxuriah e Karen. Seria por seu sangue? Por ser neta do rei Anasterian? Algo dizia a Ash que não, que essa questão transcendia o sangue. Mas o que aconteceria? Sobre o que a Nascente, ou melhor, Anveena, lhe alertara? Esses pensamentos tomavam conta de sua mente enquanto descia a plataforma que saia do templo da Nascente do Sol.
— Você tinha falado de algo que tinha para nos contar. — comentou Lor’themar.
— Sim. É algo que me deixou preocupada. — disse Lady Liadrin.
Eles continuaram falando, mas Ash não prestava mais atenção. Não notou a tensão que se instalou no grupo atrás dela, nem a revolta de Rommath. Apenas caminhava, pensando na conversa que tivera com Anveena. Pensando agora, ela já ouvira aquele nome em algum lugar, mas não lembrava onde. Continuou andando, se afastando do grupo que ficara atrás, discutindo algo e mal notou quando uma figura se levantou entre os devotos e caminhou até ela, bloqueando sua passagem.
— Ashrial. Ou devo chamá-la de princesa Ashrial?
Ash levantou os olhos e precisou de alguns instantes para reconhecer o elfo à sua frente. E quando o fez, prendeu o fôlego.
— Grey! — exclamou – Você é o paladino Grey!
Grey sorriu, satisfeito de ser reconhecido. Ele chegara em Luaprata há alguns dias, atraído não apenas pela coroação de Karen, mas de algo que soubera. A gravidez de Luxuriah. Descobrir que a elfa que achou que estava amaldiçoada com a incapacidade de gerar por causa de seus pecados estava agora esperando uma criança lhe deixara furioso, mas também intrigado. Por isso, voltara para sua terra e sua primeira parada foi a Nascente do Sol. Precisava falar com Lady Liadrin.
Ao chegar aquela manhã na Nascente do Sol para conversar com a matriarca, não tivera a recepção favorável que imaginara que teria. O paladino acreditara que conseguiria facilmente ingressar nas fileiras dos Cavaleiros Sangrentos, visto que anteriormente já havia sido convidado. Contudo, Lady Liadrin o recusara categoricamente e Grey tinha certeza que o lorde regente tinha algo a ver com isso. Afinal, fora ele quem o expulsara da Torre Solfúria quando o acusara de ter permitido que Luxuriah cometesse um assassinato. E pelo que soubera, ele não apenas se tornara o mentor das quatro Fendessol, como também estava envolvido com Ashrial, a jovem irmã de Luxuriah. Precisava falar com Lor’themar.
Fora uma sorte ainda está pela ilha de Quel’Danas quando ouvira o burburinho que o lorde regente estava ali. Fora ao seu encontro e vira muito mais do que queria. A presença de Vivithi o deixara hesitante, visto que da última vez que se viram, ela ameaçou enchê-lo de flechas se não se mantivesse longe de Luxuriah. E havia Rommath, cujo ódio por ele só superava o ódio que o próprio Grey sentia pelo Grão Magíster. Mas, ver Ash ali, lhe dava uma vantagem. E quando a jovem se afastou dos demais, viu sua oportunidade. Abordaria a irmã e conseguiria as informações que queria. Afinal, a própria Luxuriah lhe dissera que aquela era sua irmã mais frágil e sensível. E agora, estava frente a frente com ela.
Ver o elfo que quase matara Karen, que quebrara o coração de Luxuriah e a abandonara, deixou Ash sem ação por um momento. Jamais imaginava que estaria frente a frente com ele novamente. Como não o vira mais que uma única vez, demorara a reconhecê-lo, além do mais Grey agora vestir uma armadura muito maior e mais luxuosa do que a que vestia da última vez.
— Que bom que lembra de mim, princesa. — disse o paladino e fez uma reverência exagerada e fingida.
A atitude era, com certeza, de deboche e Ash sentiu uma raiva crescendo dentro dela.
— Como esquecer alguém que machucou minha família? — falou ela fechando a cara.
Grey, que não esperava a resposta, deixou o sorriso morrer.
— Eu nunca quis ferir a menina. — disse apertando os olhos – Foi um acidente. E, que eu saiba, ela está bem e até vai se tornar rainha. — ele deu um sorriso de canto de boca, puxando apenas um dos lados dos lábios – Acho que ela não poderia estar melhor.
— E eu acho que, o quanto mais longe ela estiver de você, melhor estará. — retrucou.
Aquela parecia uma garota totalmente diferente daquela que Luxuriah descrevera, pensou Grey. Teria sido aquela mais uma mentira que a elfa lhe contara?
Antes que o paladino pudesse responder a Ash, finalmente a pequena comitiva da jovem percebera que ela havia parado mais a frente e que conversava com alguém. E quando perceberam quem era o alguém com quem ela falava, se precipitaram em sua direção. Rommath foi o que fez questão de chegar primeiro, se teleportando bem para o lado de Ash.
— Grey! — rosnou o grão magíster batendo o cajado no chão e com os olhos em fúria – Seu maldito!
O rosto de Grey expressou a mesma fúria que Rommath.
— Grão Magíster! — zombou – Ah, você era exatamente quem eu queria ver. — e levou a mão ao punho da espada.
A mão de Rommath já se enchia de fogo quando Lady Liadrin pulou no meio dos dois, a magia emanando de seus pés até o ar, afastando os dois elfos.
— Aqui é um local sagrado. — falou energética – Não me façam expulsar os dois.
Grey soltou o punho da espada e Rommath baixou a mão. Lor’themar e Vivithi agora estavam ao lado de Ash e estavam tão furiosos quanto ela. Ou melhor, Lor’themar estava tão furioso quanto Rommath. Grey sempre foi um incômodo para o lorde regente. Sempre estava ouvindo queixas com relação ao paladino, seja por sua soberba ou porque destratava pessoas de outras raças. O fato de ele preferir estar na Ordem dos taurens era uma incógnita e muitos diziam que era uma forma dele se sentir superior ao demais. Mas o que realmente tirara Lor’themar dos eixos com o paladino fora quando ele invadira a Torre Solfúria e o acusara de permitir o aborto de Luxuriah e arruinar a vida dela. Expulsara Grey antes que Rommath o assassinasse e o proibira de chegar perto de Luxuriah.
— O que faz aqui, Grey? — perguntou Lor’themar dando um passo a frente, em atitude protetora com Ash – Achei que tinha deixado claro que você não devia se aproximar.
— Que eu me lembre, lorde regente, você falou para eu não me aproximar de Luxuriah. — retrucou Grey – Essa aí não é Luxuriah.
— “Essa aí” é princesa de Luaprata, Grey! — exclamou Vivithi enraivecida – Tenha respeito ou eu vou por algum respeito em você! — e indicou o arco às suas costas.
— Todos vocês, se acalmem! — ordenou Lady Liadrin – A Nascente do Sol não é lugar para suas discussões! E Grey, Vivithi tem razão. Você está em frente a princesa Ashrial Fendessol de Quel’thalas. Se não respeitar a coroa de Luaprata, como respeitará a Nascente do Sol?
Percebendo-se como minoria ali, o elfo se virou para Ash e ficou de joelhos, de cabeça baixa.
— Peço perdão, cara princesa, por meus atos. — disse e Ash tinha certeza que ele não estava sendo sincero – E peço, por favor que me responda apenas uma questão e eu a deixarei em paz.
— Ela não vai responder coisa nenhuma! — disse Lor’themar – Vamos embora e não quero ver você por perto de nenhuma das princesas!
Grey se levantou e encarou Lor’themar.
— Eu estava falando com a princesa e não com você, lorde regente. — retrucou – Ou você acha que está acima dela? — Grey sorriu – Sempre achei que o poder havia subido em sua cabeça e talvez esteja se relacionando com ela apenas para manter seu cargo…
Se Lady Liadrin não tivesse se colocado entre Lor’themar e Grey, com certeza o lorde regente teria voado em cima do paladino. Mas a matriarca colocou a mão no peito do lorde regente e o afastou.
— Você brinca com a sorte, Grey. — a voz de Rommath soou sombria e cheia de fúria.
— Eu sou de uma das famílias mais antigas e nobres de Luaprata, Rommath. — falou altivamente o paladino – Mais até que a sua. Devo te lembrar que meu pai foi conselheiro do rei Anasterian?
— E eu devo te lembrar que seu pai, assim como o rei, está morto? — retrucou o mago.
Franzindo as sobrancelhas, Grey parecia estar se segurando para não puxar a espada.
A situação estava tensa e Ash achava que nem a própria Lady Liadrin conseguiria conter todos por muito tempo. Olhou ao redor, para seus súditos, que pareciam hipnotizados pela situação e pensou que não deveria ser questionada ou menosprezada de nenhuma forma, ou todos poderiam pensar que elas não tinham força para governar. Precisava ser ela a pôr ordem ali.
— Eu falarei com ele. — anunciou Ash se aproximando de Grey e ficando cara a cara com ele – Vocês todos se acalmem.
A atitude de Ash não os deixou surpresos, mas, com certeza, os deixou preocupados. Porém, tal como Ash, eles perceberam a situação e viram que o melhor, para todos, era que ela resolvesse a situação com Grey, por mais que nenhum deles quisesse que ela ficasse perto do paladino.
— Deixarei você falar, Grey. — disse ela – Mas quero deixar bem claro que não permitirei falta de respeito a mim ou ao posto que eu ocupo. Fale o que quer falar e pense bem em como vai falar.
O paladino baixou a cabeça e pôs a mão no peito.
— Com todo respeito, vossa alteza, me permita fazer o comentário que sua pessoa é bem diferente de como me foi descrita. — disse com tom humilde.
— Talvez eu apenas fosse outra pessoa naquela época. — respondeu.
E era verdade. A Ash do casamento de Kassyeh era tão diferente da Ash atual que poderiam habitar dois corpos diferentes.
— Faça sua pergunta, paladino. — ordenou Ash – Para que possamos seguir nossos caminhos.
Grey a encarou.
— A criança que Luxuriah carrega é minha filha? — foi a pergunta.
— Ora, seu! — gritou Rommath e fez menção de ir até Grey, mas Ash apenar levantou a mão e o mago parou.
Ash não ficou surpresa nem perturbada com a pergunta. Talvez fosse a força da Nascente do Sol ou simplesmente a certeza que esse dia poderia chegar que a deixou tão calma diante da indagação. Todas as pessoas que se envolveram na situação de Luxuriah após o abandono de Huaru sabiam que o pai biológico de Tinuviel era Grey, porém, todos já estavam tão acostumados com Rommath como marido e futuro pai que era impossível pensar de outra forma. A princesa não sabia se alguém havia dito algo que levantara a suspeita do paladino ou se ele chegara à conclusão sozinho, mas agora estava diante dela a situação que poderia ser muito pior para sua irmã que a ida do humano de Dalaran à coroação. Seria daquilo que Anveena lhe falara?
— A criança que Luxuriah carrega é filha do Grão Magíster Rommath. — respondeu sem hesitação – Não entendo como alguém possa pensar diferente.
A resposta não agradou Grey, que franziu a testa.
— Não apenas penso assim, princesa, mas me foi dito por alguém que, tenho certeza, não mentiria. — rebateu, mas tendo o cuidado de deixar a voz contida e a cabeça ligeiramente abaixada.
— E quem seria essa pessoa? — quis saber Ash.
— Huaru.
Aquilo sim pegou todos de surpresa. Ash se controlou para não virar para trás e encarar Lor’themar. Manteve-se firme e então falou:
— Isso é um engano. Rommath é o pai.
— Isso é mentira! — A calma de Grey estava se esgotando – Eu fiz as contas! A criança é minha filha!
— Mesmo que fosse, você perdeu todo o direito a ela quando abandonou Luxuriah naquela noite. — lembrou a jovem.
Grey não esperava aquela resposta e calou-se por um momento. Quando voltou a falar, sua voz estava mais sombria que antes.
— Luxuriah está fazendo isso de propósito não é? Para me magoar porque não concordei com o que ela fez?!
— A última coisa que minha irmã pensa é em você, Grey. — alfinetou Ash – Sua existência pouco importa para ela.
— Ela me amava! — exclamou ele revoltado – E eu a amo!
— Como ela te amava se sequer falou sobre você a qualquer uma de nós? — questionou – Você está aí falando de contas, de amor, disso e daquilo, mas eu sequer sabia seu nome até aquela noite. Já Rommath… Quem não sabia o que havia entre os dois? Eu posso estar enganada, mas, até onde eu sei, não importava com quem ela estivesse, ela sempre voltava para os braços de Rommath. — ela virou-se e sorriu para o cunhado. Pode ver nos olhos dele um agradecimento que nenhuma palavra conseguiria expressar – E você fala de amor… Mas que espécie de amor é esse que abandona quem se ama? Ela confiou em você e você virou as costas para ela!
Grey fechou os punhos e Lor’themar teve que se segurar para não puxar Ash para seus braços e protegê-la. Porém, apesar da fúria do paladino, Ash continuava firme e não vacilou em suas respostas. Ele estava espantado e orgulhoso.
— Você fala de amor e confiança, mas o que saberia sobre isso? Você não sabe o que me levou a virar as costas para ela naquela noite! — exclamou Grey.
— Ah, sei sim. — falou Ash com simplicidade.
No primeiro momento, Grey não acreditou nela. Mas depois, vendo a postura dela, percebeu que era verdade.
— Então… você sabe que sua irmã é uma assassina. — murmurou ele entre os dentes.
— Como disse? — Ash não acreditava no que ouvira.
— Eu disse que sua irmã é uma assassina! — gritou ele – Ela matou o próprio-
A frase não chegou ao fim. Ash fechara a mão, enfurecida, e aplicou um soco no queixo do elfo, exatamente como Tewdric ensinara. Assim que o fez, se arrependeu, porque acabara de macular um local sagrado. Mas ela não sentiu nada de ruim vindo de seu peito, então imaginou que Anveena não devia se importar com detalhes mortais como aquele.
Grey não acreditou que aquela menina ousara a socá-lo. A raiva que sentia de Luxuriah, de Romamth e aquele insulto nublaram sua cabeça e ele mal sentiu quando sacou a espada.
Ouviu-se vários sibilar de aço e logo todas as espadas presentes naquele espaço foram sacadas. Ash permaneceu de pé, os punhos fechados, olhando para Grey e não sentiu nem um pouco de medo com a ameaça dele. E não era apenas porque agora todos os Cavaleiros Sangrentos, Lady Liadrin e Lor’themar puxaram suas espadas para Grey. Não era porque Vivithi já tinha três flechas na corda do arco, todas apontando para a cabeça de Grey. Nem porque Rommath estava com as mãos em chamas e apontava para o rival. Nem mesmo porque todo elfo presente havia sacado sua arma e evocado suas magias na direção do paladino. Não. Ela não estava com medo porque sabia que ali, na Nascente, nada poderia machucá-la. E bastava uma palavra dela para que Grey tivesse a morte mais horrível de todas, sendo cortado, perfurado e queimado por centenas de elfos que não aceitavam que sua princesa fosse ameaçada. Só que Ash jamais permitiria que o lugar mais sagrado dos sin’dorei fosse maculado.
— Guarde sua espada, Grey. — ordenou Ash – Vá embora. E não se aproxime mais de mim ou de minhas irmãs.
Sabendo que não tinha como fazer mais nada sem arriscar sua vida, Grey guardou sua espada. Porém, nenhum dos outros elfos baixou sua arma.
— Eu irei, princesa. — avisou – Mas vocês ainda me verão.
— Para o seu bem, eu espero que não. — foi o que Ash falou.
E sem dizer mais nada, Grey foi embora.
Apenas com quando o elfo sumiu da vista de todos, as armas foram guardadas. Ash se virou para seus súditos.
— Agradeço a todos pela preocupação com meu bem-estar e peço perdão por toda essa situação que atrapalhou a peregrinação de vocês.
— Não peças desculpas, vossa alteza. — disse um elfo que tinha a aparência de ser velho – Perdemos nosso rei e príncipe uma vez. Não deixaremos que isso aconteça novamente.
Ash sorriu para todos.
— Farei de tudo para merecer a devoção de vocês. — afirmou com convicção.
Lor’themar logo estava do lado dela e a pegou suavemente pelo braço, afastando-a do aglomerado de elfos. Ele estava visivelmente furioso, sentimento este compartilhado por Rommath, Vivithi e Liadrin. Voltaram até a torre dos Cavaleiros Sangrentos e só então o clima pesado começou a arrefecer.
— Eu sabia que ele traria problemas no momento que chegou aqui pedindo para ingressar nas minhas fileiras. — disse a matriarca – Quando neguei o pedido achei que ele iria simplesmente embora. Devia saber que não seria fácil. O avô dele era assim. O pai também. Toda a família!
— Se eu puser os olhos nele novamente… — Rommath não terminou a frase e nem precisava. Todos sabiam.
— Vou organizar meus patrulheiros e dar ordens para ninguém deixar Grey se aproximar da Torre. — falou Vivithi – E darei ordens para enchê-lo de flechas caso recuse-se a manter-se longe.
— Ash… — chamou Lor’themar preocupado com seu silêncio – Como você está?
Pela primeira vez Ash conseguiu compreender Luxuriah. Sua irmã tentara durante anos mantê-las protegidas e longe de seus segredos e problemas. E de Grey. Na época elas eram frágeis e não saberiam lidar com aquilo. Só que agora, Luxuriah era quem estava frágil. E cabia a Ash mantê-la protegida de tudo e de todos.
— Eu estou bem. — ela respirou fundo – Estou bem. — repetiu – Luxuriah não saberá de nada disso.
Não era preciso avisar, todos ali concordavam.
— Estou orgulhosa de sua postura, princesa Ash. — elogiou Lady Liadrin – E me sinto ainda mais honrada de acompanhá-la a Dalaran. Depois dessa situação, o Kirin Tor não será problema para você.
— Espero que esteja certa, Liadrin. — falou Ash.
Apesar da fala, Ash sentia-se mais confiante que nunca. Sim, enfrentara Grey. Defendera sua irmã uma vez. O faria de novo. E de novo. E mais uma vez. Mas antes de ficar tranquila, havia alguém com quem ela queria conversar.
— Vamos para casa. — pediu – Preciso falar com o Ted.
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Havia um silêncio solene no ar enquanto Anduin dizia algumas preces ao lado do túmulo de seus avós. As lápides ficavam em um lugar calmo afastado da Bastilha, ao lado de um lindo jardim, plantado exclusivamente em homenagem aos reis mortos. De cabeça baixa e mãos enlaçadas em oração estavam os pais de Lina, cujas lágrimas já haviam secado, mas seus rostos ainda estavam contraídos em dor e emoção. Pandora e Pietro também rezavam, mas de forma contida e sem a emoção dos avós. Varian e Arshe estavam lá também, cada um preso em seus pensamentos olhando as lápides no jardim com expressões enlutadas, mas firmes. Lina preferira ficar afastada, no corredor externo e coberto do castelo, olhando para fora, para aquela cerimônia simples que tanto seus pais ansiavam.
Era bom também poder respirar um pouco de todo vai e vem emocional que a visita estava lhe causando. Seus pais eram intensos demais, falavam demais e mostravam demais, fazendo com que toda a muralha que ela construíra para manter Varian longe de sua intimidade ruísse graças à simpatia de dona Mariana e a rabugice de seu Sebastian. Ela colocou os dedos nas têmporas e as massageou.
— Dia ruim? — perguntou uma voz.
Lina teve um pequeno sobressalto e sua mão instintivamente foi até a arma que ela não trazia no momento. Porém, assim que viu o dono da voz, se acalmou.
— Tenente. — cumprimentou ela ao ver a figura de Horatio Lane com seu eterno terno e óculos escuros.
— Comandante. — disse ele em sua voz rouca e cruzando os braços.
— Sorte sua eu não estar armada ou poderia ter dado um tiro em sua testa. — reclamou franzindo as sobrancelhas – Essa mania de chegar sem ser visto foi aprendida na AVIN?
Ele lhe deu um pequeno sorriso.
— Aprendi na vida, comandante.
Os dois se entreolharam e sorriram um para o outro. Lina gostava de Horatio, pois ele era sincero, leal e duro na queda. Tal como ela, Horatio era de família humilde e sem títulos, e isso também limitava seu crescimento no exército. Porém, o tenente parecia satisfeito em ter uma divisão própria que investigava os crimes após eles acontecerem e não antes, como fazia antigamente na AVIN. De acordo com o que ele lhe falara um dia, isso o satisfazia mais, porque olhava para os crimes que muitos não se interessavam, aqueles cometidos dentro da própria Aliança.
— Eu soube que houve um ataque na bastilha. — disse ele olhando para onde estava o rei Varian – E que apenas um dos atacantes foi pego.
— Exato. — confirmou exasperada.
— Soube também que Crowe atrapalhou mais que ajudou. — continuou.
Lina bufou.
— Essa é uma pergunta oficial? — quis saber.
Falar mal de seus superiores era uma falta grave em seu serviço.
— Estou de folga, comandante. — esclareceu – Vim ver Cláudia. — e dando uma pausa, completou – E lhe fazer um convite.
O fato de ele ter ido de sua casa no Cerro Oeste até Ventobravo para ver Lady Cláudia não era surpresa. Desde o Véu do Inverno corriam boatos sobre os dois e eles não faziam nenhuma tentativa de tentar abafá-los. Claro, o romance entre uma lady e um homem comum causava muito mais estranheza do que se fosse o contrário, mas nenhum dos dois pareciam se importar. Lina admirava a coragem de Lady Cláudia e invejava sua posição. Ela poderia fazer o que quiser, ninguém abriria a boca para dizer que seu posto era por causa do homem que escolhera.
Mas qual era o convite que ele falara?
— Um convite? — perguntou surpresa.
— Sim, um convite. Mas antes, me diga: como foi salvar a vida de Crowe? — havia um pouco de divertimento na pergunta.
— Uma perda de tempo e uma frustração para muita gente, inclusive eu mesma. — respondeu num misto de consternação e satisfação.
— É verdade que você o esbofeteou? — pela forma como Horatio perguntou, Lina percebeu que ele torcia para que fosse verdade.
— Bem que eu queria, mas apenas sacudi. Acho que sua fonte exagerou.
— Uma pena. — disse com sinceridade.
A pequena cerimônia presidida por Anduin continuava e Lina achou que Horatio ter ido até ali era um bom presságio. O bilhete que pedia por sua cabeça estava bem escondido em sua roupa, já que ela não queria correr o risco de um de seus irmãos, principalmente Tommy, o encontrarem. Já estava pensando em entrar em contato com o tenente e era melhor que aquilo não ficasse registrado em nenhum lugar, principalmente no correio mágico.
— Horatio, tenho um pedido para lhe fazer. — disse voltando-se em sua direção – É como amiga e não como comandante.
O tom urgente causou mais estranheza no tenente que as palavras, que tirou os óculos escuros e guardou no bolso no terno.
— Qual o problema, Lina?
— Primeiro, gostaria que você me prometesse que ninguém saberá disso. Nem a AVIN, nem o rei, nem mesmo Lady Cláudia.
Horatio olhou para onde o rei estava e percebeu que Varian os observava. A expressão do rei não era uma das melhores.
— O rei não pode saber… — repetiu Horatio sem tirar os olhos de Varian – Acredito que você não quer preocupá-lo.
Lina seguiu o olhar de Horatio e encarou Varian. A expressão dele imediatamente se transformou e ficou mais serena, diferente de como este encarara o tenente. Lina sentiu-se mal pelo que ia fazer, mas era para o bem de todos.
— Vamos para dentro. — pediu ela.
Entraram na Bastilha e saíram do campo de visão de Varian. Lina então enfiou a mão no bolso do colete e tirou o pergaminho. Estendeu para Horatio e ficou calada, esperando que ele lesse sobre a recompensa por sua cabeça. O tenente leu e releu o pergaminho e então o guardou no terno, sem nenhuma expressão.
— Entendo. — disse – Apenas você tocou esse bilhete? — perguntou.
— Apenas eu e você, desde que eu o peguei.
— Ótimo. Isso facilita as coisas. Pedirei para minha equipe analisar e começar as investigações. — e diante do arquear das sobrancelhas de Lina, explicou – Eles jamais falarão algo que eu não permita. Além do mais, nenhum de nós quer o rei preocupado com você. Ele não conseguiria lidar com a ameaça sobre mais uma mulher amada.
O rosto de Lina ficou escarlate.
— Tenente, sobre esses boatos…
— Comandante. — ele a interrompeu com carinho – Uma coisa que eu sei sobre homens como o rei Varian Wrynn: ele não demostraria tanto sentimento por uma pessoa sem que fosse correspondido.
Isso a deixou ainda mais envergonhada.
— Não se sinta constrangida, Lina. — ele lhe sorriu, encorajador – Eu estou na mesma situação. Na verdade, acho que a minha é bem mais problemática. — e tirou algo do terno e lhe entregou.
Era um convite de casamento.
Lina levou a mão à boca, surpresa demais para falar algo.
— Sei que oficialmente eu e Cláudia não podemos nos casar. — Horatio agora perdera um pouco da postura sisuda e fria – Mas não conseguimos mais ficar separados. Conversamos com os pais dela e o lorde e a lady Hightower consentiram. Eles estão desapontados com a sociedade desde o que aconteceu com a jovem Claire. Como arquiduque, o lorde Hightower não responde a ninguém a não ser o rei e duvidamos que vossa majestade nos impeça. Poderá não dar sua benção, mas não impedirá.
Já recuperada do choque, Lina conseguiu perguntar:
— Mas quem casará vocês? Digo, quem celebrará a cerimônia? — ela sabia que nenhum sacerdote ou paladino o faria, pois seria ir contra as leis do reino.
— Estamos pensando em buscar um druida ou xamã. Essas classes não costumam se importar muito com convenções sociais.
— Conheço uma druidesa que adoraria celebrar essa cerimônia. — Lina falou sem pensar, pensando em Doroteya e seu passado com Liam.
Horatio demostrou surpresa e então sorriu.
— Agradeço, Lina. É muito importante para nós.
— Vocês são tão corajosos. — elogiou a comandante, deslumbrada – Ir contra tudo… Eu não sei conseguiria…
— Sei que conseguiria, Lina. Sei sim. Principalmente se estivesse em nossa situação. — ele a olhou e sorriu, sem conter a alegria – Seremos pais em breve.
Demorou alguns segundos para Lina processar a informação e quando o fez, soltou um pequeno grito, que logo estacou com as mãos na boca. Numa mistura de choque e alegria ficou sem saber o que fazer, o que arrancou uma risada de Horatio. Foi só então que ela o abraçou desajeitadamente.
— Parabéns Horatio! — disse com sinceridade – Estou muito, muito feliz por vocês!
— Obrigado. — o sorriso dele parecia que crescia a cada momento – Foi inesperado, mas estamos muito felizes.
Lina e Horatio se separaram.
— A festa será na mansão Hightower? — perguntou.
— Sim. Leia e veja os detalhes.
Abrindo o convite branco e dourado, Lina leu as informações. A festa, para sua surpresa, seria no mesmo dia do baile do Kirin Tor. A cerimônia seria pela tarde e a festa se estenderia pela noite. Havia uma observação feita à mão em uma caligrafia delicada diferente da que trazia as demais informações que pedia para Lina chegar mais cedo e a convidando-a pernoitar na mansão.
— Hã…. — disse ela analisando o convite – Confesso que não entendi as observações. Por que devo chegar mais cedo?
— Vou deixar que ela lhe explique. — e Horatio apontou por cima de seu ombro.
Lady Cláudia caminhava na direção deles, com um pacote nas mãos e um sorriso no rosto. A general parecia muito mais feliz e mais bonita do que a última vez que Lina a vira, mas talvez fosse uma impressão por Lina saber que ela estava grávida e ia casar em breve.
— General. — Lina bateu continência.
— Ah, Lina, esqueça isso. — para a surpresa da comandante, ela ganhou um abraço – Me diga que você aceitou!
— Claro! — Lina realmente não era fã de grandes demostrações de afeto, mas deixou-se ser abraçada por Cláudia – Não perderei seu casamento por nada!
Cláudia a olhou sem entender e depois encarou o noivo.
— Achei melhor que você fizesse o convite. — esclareceu Horatio.
— Hã? — perguntou Lina sem entender. Ela já não tinha sido convidada?
Sorrindo um pouco mais timidamente agora, Cláudia entregou uma caixa branca a Lina. A comandante encarou o objeto sem entender e então o abriu. Dentro, havia um pequeno vidro de perfume e um bilhete que dizia: “Aceita ser nossa madrinha?”
Lina perdeu totalmente a voz. Encarou Lady Cláudia se perguntando o porquê do convite. Afinal, por mais que se conhecessem há algum tempo, elas não eram íntimas. O que a motivara a fazer um pedido daqueles?
— Eu… — começou a comandante confusa – Não entendo… Por que eu?
— Comandante, sei que não somos próximas. Não como você é da princesa Arshe. Porém, sinto que temos mais em comum do que imagina. — a general lhe deu um sorriso malicioso – Sabe de que eu falo, não é?
Então Lady Cláudia sabia também. Lina estava começando a ficar apavorada com a quantidade de pessoas que já sabiam sobre ela e de Varian.
— Além do mais, minha irmã já é falecida. — a tristeza se apossou do rosto bonito por um momento – Não tenho amigas desde que os boatos sobre Claire se espalharam. Depois, não quis mais contato com aquele tipo de pessoa. Pensei então se você aceitaria ser minha madrinha e que possamos construir uma relação mais estreita a partir de agora.
Lina passou os dedos pelo vidro de perfume.
— E-eu não sei o que dizer. — gaguejou.
— Diga sim. — pediu a general.
E havia como dizer não?
— Claro que aceito, milady. — respondeu enfim – Aceito ser sua madrinha.
— Chame-me de Cláudia. — pediu segurando em sua mão.
As duas sorriram uma para a outra por um momento.
— Bem, meus irmãos terão que se virar para fazer um vestido para mim até essa data. — brincou Lina olhando o convite novamente.
— Eles já estão sabendo. — revelou Horatio – Passamos no ateliê deles semana passada para pedir o vestido de Cláudia e falamos que você seria convidada a madrinha.
— Eles sabiam há uma semana?! — perguntou Lina abismada.
— Pedi para que eles não contassem. — disse a noiva em tom de desculpas – Eu sabia que seus pais estavam chegando e não quis lhe incomodar.
Lina não ia dizer a noiva que mataria seus alfaiates em breve, por isso apenas deu de ombros.
— Não seria incomodo. Mas confesso que foi uma boa surpresa. — Lina olhou novamente o pacote – Estou curiosa para saber o aroma desse perfume!
— Deixe-me ajudá-la. — Horatio pegou o pacote enquanto Lina pegava o frasco.
Quando Lina abriu o frasco, um cheiro cítrico e enebriante encheu o ambiente. A comandante lembrou imediatamente de florestas, lagos e ar livre. Talvez Lady Cláudia a conhecesse melhor do que imaginava, porque aquele aroma era a sua cara.
— Amei! — exclamou.
A general estava com a mão na boca e a expressão contraída.
— Tudo bem, Cláudia? — perguntou Horatio preocupado.
— Cheiro forte, só isso. — disse.
— Ah! — Lina tapou o frasco – Mulheres grávidas têm o olfato bem apurado. — ela pôs o frasco de volta na caixa e fechou.
Naquele momento, a cerimônia do jardim terminou e Varian e os demais entraram novamente na Bastilha. Cláudia e Horatio bateram continência para o rei, que acenou de volta para eles.
— General. Tenente. — ele os cumprimentou.
— Majestade. — disseram em uníssono.
— Minha fia ganhou presente? — perguntou dona Mariana percebendo a caixa nas mãos de Lina.
— Digamos que sim, mãe. — Lina ficou sem jeito segurando a caixa, mas apontou para Cláudia — A propósito, pai, mãe, deixem-me apresentá-los a general-brigadeiro Lady Cláudia Hightower. E o tenente Lane vocês já conhecem.
— Ah, é o mininu dos Lane. — falou o senhor Sebastian reconhecendo o tenente – Tudim é ruivu! Lembru do seu avô muito bem, eu vindia vinhu a ele.
— E minha família sempre vendeu madeira para sua fazenda. — Horatio sorriu para os idosos – Há quanto tempo, senhor e senhora Wood. — se adiantou para apertar a mão dos idosos.
— Eu conheço seu sobrinho. — disse Pandora lembrando dos Lane – Ray Junior. Ele estudou comigo antes de vir pra Ventobravo.
Horatio acenou com a cabeça.
— Depois que meu irmão faleceu, minha cunhada e meu sobrinho vieram para Ventobravo morar comigo.
— Como eles taum? — perguntou dona Mariana.
— Muito bem. Elena casou de novo e Ray Júnior mora com ela e o padastro. — revelou.
— E essa moça bunita é sua namorada? — perguntou o senhor Wood para ele.
— Minha noiva. — disse com orgulho.
Varian, Arshe e Anduin não esconderam sua surpresa. Lina então percebeu que Cláudia ainda não havia informado ao rei seus planos. Como será que Varian reagiria a isso? E o mais importante, como Lina reagiria à reação de Varian? Apesar de estar confiante que Varian não proibiria aquela cerimônia, ela se perguntava se ele não seria pressionado a fazê-lo. E se o fizesse, como ficaria a relação dos dois? Bem, saberia em breve, pois Lady Cláudia logo falou:
— Majestade, tem um minuto? — pediu a general – Eu e o tenente Lane queremos discutir um assunto.
— Sim, general. — afirmou o rei fazendo um aceno com a cabeça para que ela o acompanhasse.
Então, Varian, Horatio e Cláudia saíram do recinto. Quase que instantaneamente as cabeças se voltaram para Lina, aguardando uma explicação. Com calma, Lina explicou tudo para os presentes e falou do convite, mostrando o presente que ganhara. Arshe arregalou os olhos azuis, emocionada.
— Isso é tão lindo! — os olhos dela marejaram – Eles vão ficar juntos apesar de tudo! Contra as convenções! Contra as regras!
Lina se perguntou se as lágrimas de Arshe era de emoção ou tristeza por não ser ela a fazer aquela loucura.
— Estou um pouco chocado. — admitiu Anduin – Não imaginava que o arquiduque Hightower consentisse em algo assim. Principalmente depois dos boatos sobre Lady Claire.
— Foi exatamente por causa de Claire que eles consentiram. — esclareceu Lina – Foi um golpe muito duro e afetou a crença dos dois na sociedade.
— Oxi, qual é o probrema? — quis saber dona Mariana espantada – Os bixim se amam! Pu quê num podem casá?
— Mãe, não é permitido casamento entre nobres e plebeus. — Lina sentiu-se imensamente triste ao colocar aquilo em voz alta. — Lembra?
Dona Mariana ficou imediatamente triste.
— Da merma forma qui ocê num pódi virá generar? — perguntou seu pai.
— Isso mesmo, papai.
Foi a primeira vez que Anduin se deu conta das limitações que as leis impunham ao seu povo. Olhou para Lina, em sua roupa civil, tão diferente da armadura de comandante do dia a dia. Pensou na armadura completa e reluzente de Lady Cláudia e percebeu que Lina jamais chegaria àquele posto. Da mesma forma que ela e seu pai nunca poderiam casar e, junto com ele, formarem uma família. Seus olhos se encheram de lágrimas, pensando o quanto aquilo era injusto. Por que o nascimento fazia uns melhores que os outros, afinal? Crowe era general, nobre e não tinha a competência de Lina. E fora a comandante, uma plebeia, quem devolvera o sorriso e a alegria ao seu pai. Era completamente injusto.
— Ah!!!! — Arshe deu um gritinho agudo que fez todos se encolherem – E agora?! Como irei para o casamento de Lady Cláudia se é no mesmo dia do baile do Kirin Tor?! — perguntou preocupada.
— Maninha, você não poderia ir a esse casamento mesmo que fosse em outro dia. — lembrou Anduin – Não é oficial e é contra as leis do reino.
— Não!!!! — Arshe agora derramava lágrimas sentidas – Não acredito! É verdade! Lina, me console! — e se atirou nos braços da comandante.
Qual o problema das pessoas naquele dia?!, pensou Lina que achava que já tinha gastado sua cota de abraços para o mês todo. Deu dois tapinhas nas costas de Arshe e a afastou.
— Casarmento oficiar é só um detalhe! — disse o senhor Sebastian – Se eles si amam, até amancebar dá certu!
— Verdadi. — concordou dona Mariana – Meur pais eram só amancebado puquê num tinham dinheiro pro cartório e viverum feliz por cinquenta anu!
Mas Arshe ainda estava devastada com porque não iria ao casamento. Lina então colocou a mão no ombro dela e apertou levemente. A princesa a olhou.
— Eu trago um pedaço de bolo para você.
O sorriso voltou imediatamente ao rosto de Arshe.
— Verdade? — perguntou e antes que Lina respondesse, a abraçou novamente – Você é a melhor amiga do mundo!
— Tá, tá! Chega! Nem mais um abraço! — Lina soltou-se do abraço e pôs uma boa distância da princesa – Que desespero por um bolo!
— Ei, tia! — chamou Pandora que agora lia o convite – Nós bem que podíamos ir com a senhora nesse casamento! Aqui diz que o convite é extensível a toda sua família! E eu nunca fui em um casamento chique.
— É, seria ótimo! — apoiou Pietro – Muito salgadinho e bolo! Eu quero ir!
— Mas nessa data vocês já estarão de volta à fazenda. — lembrou Lina.
— E daí? Podemos ficar mais tempo! — exclamou a jovem – E eu lhe garanto que nem eu nem Pietro temos pressa em voltar para casa.
Foi a expressão no rosto de Pietro que fez Lina decidir.
— Tudo bem. — permitiu – Vocês ficarem uns dias a mais não tem problema. Mas lembrem que terão que ajudar nas tarefas de casa.
— Como se não ajudasse em casa! — desdenhou a adolescente – Pelo menos aqui não tem um milhão de pessoas pra sujar o banheiro.
Arshe fez uma expressão de nojo e Lina revirou os olhos. Sua sobrinha não sabia ficar calada mesmo.
— Por que não visitamos mais coisas enquanto meu pai volta? — convidou Anduin.
— Seria ótimo. — foi logo dizendo Lina.
A visita então continuou. Visitaram os jardins do castelo, a biblioteca, a sala do mapa e novamente passaram pela sala do trono até um servo se aproximou de Arshe, sussurrou algo e ela afirmou com a cabeça. Depois, a princesa anunciou:
— O almoço está pronto e tio Varian está nos esperando no salão de refeições.
— Firnamente! — disse o pai de Lina – To morrendu de fomi!
— Olha os modus, Sebastian! — foi logo avisando a mulher – Tamu no castelo, aqui a coisa é chique toda! Num vá cumê qui nem um insfomiadu!
— Mar eu num como qui nem um insfomiadu! — reclamou o senhor.
— Ar vezis ocê comi sim!
Sabendo que jamais ganharia aquela discussão, o idoso apenas ficou resmungando coisas incompreensíveis depois da bronca da esposa.
No salão, Varian os esperava em pé, com as mãos apoiadas na cadeira de espaldar alto, onde sempre se sentava. O rei estava preocupado. Claro, ficava muito feliz por Lady Cláudia ter encontrado o amor, estar grávida e casar, mas tudo isso o colocava numa situação muito, muito difícil. Ninguém, exceto ele, poderia impedir aquele casamento e jamais faria algo que machucasse ainda mais a família Hightower. As feridas do que acontecera com a filha mais jovem ainda estava aberta e o nobre se recusava a participar até de reuniões mais importantes. Muitos diziam que era vergonha, mas Varian via a verdade: era desprezo pela sociedade. Um desprezo que ele próprio às vezes sentia.
Haveria pressão. Muita pressão. Pediriam para retirar os títulos do Arquiduque. Pediriam para proibir o enlace ainda que este não fosse oficial. Alguns poderiam até mesmo dizer que tirariam o apoio financeiro das tropas se essas providências não fossem tomadas. Em outros tempos, Varian tomaria logo uma atitude que desencorajasse o arquiduque a apoiar aquilo. Porém, se o fizesse agora, seria hipocrisia de sua parte. Não queria ele fazer o mesmo? Não estava em posição semelhante? A diferença era que ele, como rei, não poderia quebrar as próprias leis sem perder o respeito de todos. E mudar a lei àquela altura, desencadearia mais problemas que solução. Lina jamais apoiaria que ele desestabilizasse o reino por causa do relacionamento deles.
Enquanto pensava nessas considerações, seus convidados entraram. Endireitou-se e sorriu para eles.
— Espero que estejam com fome. — disse ao senhor e senhora Wood – Temos bastante comida.
— É assim qui eu gostu! — falou o pai de Lina olhando para a mesa.
— Sebastian! — ralhou a mulher.
— Deixem para brigar depois. — foi dizendo Lina ao conduzir seus pais à mesa – Não devemos deixar o rei esperando.
Arshe havia cumprido a promessa e o almoço foi simples, mas farto e delicioso. Lina se pegou olhando várias vezes para Varian e se perguntando o que ele estava pensando a respeito de Lady Cláudia e Horatio. Ele parecia preocupado, ao mesmo tempo que sorria e conversava com seus pais. Mas Lina o conhecia. Havia angustia em seu olhar. E isso a angustiava também.
— Tia, a senhora não está comendo.
Lina encarou a sobrinha e percebeu que Pandora a observava de um jeito que a deixou perturbada. Conhecia aquele olhar. Uma vez, dissera a Bolvar Fordragon que os Wood nasciam desconfiados e não era brincadeira. A adolescente notara algo e agora a questionava silenciosamente.
— Ainda estou cheia do café da manhã. — respondeu desviando a vista para o prato.
— Hummm… — a jovem murmurou estreitando os olhos.
— Se a senhora não quiser, eu como! — gracejou Pietro – Mando pra dentro!
— O senhor não vai comer demais. — ralhou a irmã mais velha – Senão depois fica com dor de barriga!
— É uma dor de barriga feliz.
Anduin riu.
— Eu lhe entendo. — falou o príncipe em tom de confidência.
Os dois meninos desandaram a conversar sobre comida e Lina sorriu. Apesar de Pietro parecer mais jovem, eles tinham quase a mesma idade e pareciam se entender quando o assunto era o apetite grande de ambos. Porém, Lina agora percebia a dificuldade com a qual seu sobrinho pegava a colher e levava à boca. Pandora acompanhava o movimento do irmão com atenção, como se temesse algo. A comandante fez uma nota mental de conversar com a sobrinha sobre isso depois. Mas os observando agora, a ideia de trazê-los para morar com ela ficavam mais fortes. As despesas aumentariam, mas com Tommy voltando a trabalhar, ficaria fácil manter os dois e providenciar o melhor tratamento para o menino. E já poderia começar a treinar Pandora para entrar no exército.
— Fia! — sua mãe a chamou – O rei tá falandu cum ocê!
Distraída, Lina não percebera que fora citada na conversa. Sua cabeça se voltou para Varian e seus olhos se encontraram. Não conseguiu impedir seu rosto de ficar escarlate ao encará-lo. Pandora, claro, percebeu.
— Desculpe, majestade. — pediu com formalidade – Eu estava distraída.
— Eu estava perguntando porque você nunca me contou sobre a ideia de seu pai para escapar dos orcs quando aconteceu o ataque a Ventobravo. — ele repetiu.
— Bem, majestade, eu não queria evocar lembranças ruins.
A queda de Ventobravo, mais de duas décadas atrás, não era um assunto que as pessoas costumavam falar, principalmente com o rei. Afinal, fora quando Varian, ainda criança, vira seu pai ser morto.
— Entendo sua preocupação, mas saber de uma família que sobreviveu e da forma como vocês fizeram, enche meu coração de alegria. — disse.
A história não era novidade na família Wood e sempre era repetida em toda reunião, por isso, tanto Pandora quanto Pietro reviraram os olhos quando seu avô começou a contar pela milésima vez a forma como os Wood sobreviveram à invasão órquica.
Lina era pequena, mas conseguia lembrar com detalhes impressionantes aquele tempo vivido. Lembrava da correria pela casa, de adultos e crianças chorando, dos irmãos correndo pela casa para pegar dinheiro e comida e, por fim, do seu pai gritar, com a voz potente:
— Eles num taum aqui ainda! Carma!
Sebastian Wood na época não era o idoso frágil de agora. Era um homem alto, em seus cinquenta anos, de olhos brilhantes e astutos. E imponente. Com aquele grito, conseguira fazer com que todos os Wood desacelerassem e o escutassem. Afinal, os orcs não estavam ali mas estariam em breve. Ventobravo já caíra. A morte do rei já era conhecida. Fazendas nas proximidades da capital foram queimadas e a Horda em breve chegaria naquela região. E seu pai, um homem analfabeto, mas cujo conhecimento daquela região excedia o de muitos generais, teve um plano para lidar com a situação.
— Nós vai pras cavernas. — disse confiante – Levi só cumida e umas ropa. Or mininu piquenu leva um brinquedu. Marizinha, pegue o bilhete du rei. Isso eu num dexô pra trás.
— O que ocê vai farzê, Sebastian? — perguntou a mulher, assustada.
— Võ butá fogo antes dos orc fazê isso.
E foi o que ele fez. Com poucas coisas (a sorte era que eles tinham muito pouco mesmo), a família se afastou da casa na direção das cavernas mais afastadas. Lina lembrava de estar chateada porque não queria deixar o pai. Ela chorava e berrava e se atirou no chão várias vezes. Não queria ir sem o pai. Quando um dos irmãos mais velhos tentou pegá-la no braço, ela o mordeu com tanta força que quase arrancou o pedaço e deixaria uma cicatriz bem feia. Por fim, dona Mariana deixou ela ficar. Lina então assistiu seu pai e Tommy despejarem querosene na casa pequena deles, no celeiro e, com uma tocha, atearem fogo em ambos. Ela viu a casa que amava queimar e seu pai vertia lágrimas grossas. Pegou a mão dela e disse:
— A gente vai construí otra. — falou como se fosse ela quem estivesse chorando a perda da casa.
O plano funcionou. Quando os orcs se aproximaram, viram a casa e o celeiro queimados e supuseram que outros já haviam passado por ali. Assim que eles se afastaram, todos queriam voltar e reconstruir a casa, mas seu Sebastian não deixou.
— Vão vortá ainda. Vamu só cubrir os rastro nosso.
Nos meses seguintes, eles se camuflaram. Encheram os caminhos de mato, plantaram uma trepadeira na cerca que logo tomou a visão da casa queimada e fizeram de tudo para dar um ar de abandono. A única coisa que o patriarca dos Wood não conseguiu fazer foi deixar as videiras morrerem. Nem ele nem dona Mariana teriam coragem de pôr fogo em suas uvas ou deixarem-nas morrerem. Se o orcs tivessem prestado atenção nas belas e bem cuidadas frutas, veriam que haviam humanos por ali que cuidavam delas. Mas nunca repararam. E passou-se mais de um ano antes que eles voltassem para casa.
— Agura dá pra vortar. — disse dona Mariana.
O medo, claro, estava presente. Mas eles voltaram mesmo assim. Todavia, a casa continuou com a madeira queimada. O pai de Lina ainda tinha medo, por isso só fez ajeitar o telhado e deixar as paredes precariamente em pé. A casa ficou assim por mais um ano e então a mãe de Lina convenceu o marido a reerguer a casa. Porém, o mato ainda dominava a parte de fora da casa.
Quando as tropas de humanos começaram a aparecer novamente, se espantaram daquela família viver tão perto dos orcs e continuarem vivos. Sebastian Wood chegou a ser acusado de cooperar com a Horda, afinal, a história dele era absurda demais. Mas foi justamente por ser absurda que acreditaram. E, além do mais, os próprios humanos quase não acharam aquela fazenda perdida em meio aos arbustos plantados para mantê-la em segurança.
— Ninguém queria acreditar que o papai fosse tão esperto. Mas ele enganou a Horda direitinho! — exclamou a comandante orgulhosa.
— Istudu num qué dizê qui a pessoa é sabida. — decretou o idoso.
— Foi o que eu disse ao meu pai quando eu quis sair da escola, mas ele não se convenceu. — disse Pandora com um suspirou.
A risada foi geral.
— Parece que inteligência e esperteza é de família. — comentou o rei encarando Lina – Um brinde a isso. — e levantou a taça de vinho.
Com o rosto em brasa, Lina acompanhou os outros no brinde. E nem reparou que sua sobrinha mantinha um olho nela e no rei.
A adolescente estava estranhando o comportamento de sua tia. Estranhando muito. Parecia até que ela era uma de suas colegas de sala quando ficavam na frente do paquera. E o rei também agia meio estranho. Ele não tirava os olhos dela. Muito estranho.
E isso dava margem para a mente de Pandora trabalhar febrilmente.
Depois da sobremesa, todos foram até o jardim, onde se sentaram em meio às árvores e tomaram licor e café. Seu pai, cheio de histórias para contar, não calava um só minuto e a família real era uma ouvinte atenta e interessada.
A determinada altura da conversa, Lina viu o tenente Lane aparecer em seu campo de visão e acenar discretamente para ela.
— Com licença. — ela pediu ao se retirar.
O rei não ficou satisfeito em ver Lina indo ao encontro do tenente.
Pandora percebeu.
— O que foi tenente? — perguntou Lina ao chegar até ele.
— Um homem foi pego rondando a bastilha. — disse com a voz baixa – Cláudia quer interrogá-lo, mas estou insistindo para você fazer isso. Estou aproveitando que ela não almoçou ainda para pressioná-la a deixar você fazer.
Aquele era o tipo de informação que Lina estava esperando. Alguém detido. Precisava garantir que eu homem ficasse lá até poder levar Doroteya para confirmar se tinha o cheiro de um dos atacantes.
— Pois diga a ela que vá comer agora, que estou indo verificar isso. Diga que, como madrinha de casamento, não quero uma noiva caindo por aí fraca por ficar sem comer. E ela está grávida, pela Luz!
Horatio não pode deixar de sorrir.
— Direi a ela.
Quando Lina voltou, a primeira coisa que ouviu foi Varian comentar tentando parecer desinteressado:
— Espero que não seja outro problema inesperado, comandante.
— Claro que não. — disse Lina com simplicidade – São apenas uns papéis que eu preciso assinar. Como Lady Cláudia foi almoçar agora, quero deixar tudo pronto para quando ela voltar. Então, será apenas um instante.
Antes que o rei pudesse falar algo, Pandora se levantou de um pulo e exclamou:
— Quero ver sua sala tia! Posso ir?
— Se ela for eu quero ir também! — completou Pietro.
— Melhor vocês ficarem com papai e mamãe. — disse Lina incomodada com o oferecimento de seus sobrinhos.
— Mas não é só assinar um papel? — retrucou a jovem – A gente volta logo né? Vovô continua aí contando a história que a gente já ouviu um milhão de vezes...
Se negasse mais uma vez, Lina seria questionada sobre o real motivo de ir. Amaldiçoando sua sobrinha por ser intrometida demais, ela fez um gesto que eles a acompanhassem e saiu pedindo desculpas mais uma vez. Quando estavam dentro da bastilha, já longe dos ouvidos de todos, Pandora falou:
— Não é só uns papéis, não é, tia?
Lina parou e a encarou, com a testa franzida.
— Você está espertinha demais para meu gosto. — foi o que disse.
A menina sorriu, maliciosa.
— A senhora não faz ideia do quanto. Por exemplo, eu vi que o rei não tira os olhos da senhora e que a senhora parece que tem a minha idade e tá vendo o crush.
A comandante empalideceu e não conseguiu dizer nada.
— Eu acertei né? — a menina agora dava pulinhos – Nossa tia e o rei tem um ‘lance’, Pietro! — disse animada para o irmão.
— Se ela casar com ele, a gente vira nobre? — perguntou o menino animado.
— Acho que sim! — ela respondeu rindo.
— Chega! — Lina gritou fazendo os meninos se assustarem – Não é nada disso, Pandora! Eu não tenho nada com o rei!
— E por que não? — quis saber a menina – Ele parece muito afim.
Sem conseguir pensar em uma resposta apropriada, Lina só fez respirar fundo tentando se acalmar.
— Se a senhora não quiser, eu quero! — Pandora estava animada – Tipo, todo mundo diz que eu sou sua cara mesmo! Tenho essa vantagem! Aposto que ele ia me querer!
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Quando menos Pandora esperava, sua tia estava em cima dela, pegou suas duas orelhas e as puxava com força.
— Nem invente de dize ruma palavrinha ao rei, Pandora, ou eu arranco suas orelhas e sua língua! — ameaçou.
— Certo, certo! — choramingou a menina.
Mas assim que Lina a soltou, Pandora voltou a rir.
— Então a senhora tem algo mesmo com o rei, né? Não sabia que era tão ciumenta, tia…
Lina levou as mãos ao rosto, desesperada.
— A gente não vai contar nada a ninguém, tia. — disse Pietro com pena da reação da tia – A Pandora tá só brincando em querer o rei.
— Estou não. — cortou a menina – Eu pegava ele de boa! Mas abro mão pela senhora, que é minha tia favorita!
Respirando fundo para se acalmar, Lina percebeu que não tinha muito o que fazer. Agora que Pandora e Pietro sabiam sobre seu caso e haviam descoberto por si próprios, sua situação estava ficando difícil e insustentável.
— A sorte de vocês é que amo os dois. Se fossem os filhos de Allan eu já os teria pendurado na torre mais alta da bastilha. — resmungou.
— Eles são burros, não teriam percebido o que percebi. — declarou a jovem, convencida.
— Se eu te apresentar a Mathweus Shaw ele vai querer te recrutar para a AVIN como fez com Amara… — murmurou a comandante.
Pandora fez uma careta.
— Não quero trabalhar na AVIN. Quero chegar a general, como Lady Cláudia. Depois que a senhora casar com o rei, eu vou poder. E Pietro teria seu tratamento com o profeta Velen.
— Eu nunca vou casar com o rei, Pandora. Já que é tão esperta, deveria saber disso.
— Do jeito que ele te olhava, tia, duvido que ele não queira. E ele é rei, pode ter o que quiser.
— As coisas não são bem assim, menina… Mas não vamos falar sobre isso aqui, onde qualquer um poderia ouvir. — Lina olhou para os lados e ficou mais calma por ver que só tinham eles ali. — Vamos logo resolver isso. E, Pandora, por que diabos você está de olho no rei?! Tem um príncipe quase de sua idade bem ali!
— Gosto de homem com cara de homem. — sentenciou a menina.
Para o bem da sua saúde mental e para não espancar a sobrinha, Lina preferiu não perguntar mais nada, apenas disse:
— Não comentem isso com ninguém, certo? Não quero atenção demasiada sobre mim. Já basta todos saberem sobre os sentimentos de Varian…
— Como assim? — perguntou Pietro.
Lina então explicou, com a voz baixa, toda a situação para os dois, parando de falar quando alguém passava perto. Depois de ouvir tudo atentamente, Pandora perguntou:
— Ah, então posso contar às tias que o rei tá afim da senhora né? Já que todos aqui sabem mesmo? Será ótimo ver a cara de inveja deles! Principalmente se eu completar: “mas a tia Lina não quer saber dele”! — e riu.
Lina também deu um pequeno sorriso.
— Certo, isso você pode contar.
E a conversa parou porque chegaram na sala de Lina, onde um homem estava sentado, ladeado de Jon e Brienne. Nem os soldados nem o prisioneiro esconderam sua surpresa ao vê-la ali com dois adolescentes à sua cola. Jon olhou para Pandora e instintivamente ajeitou o cabelo e estufou o peito, numa tentativa de ficar mais imponente. A jovem não lhe deu atenção.
— Não sei porque chamar a comandante por algo tão bobo. — disse o homem – Eu já disse que estava apenas caminhando.
— Perto demais de uma área que foi atacada e com atitude suspeita. — falou Jon falando mais grosso que o normal. Brienne o olhou de esguelha e franziu o cenho.
— Atitude suspeita? Há! Vocês só estão incomodando cidadãos inocentes!
Analisando o homem a sua frente, Lina entendeu porque ele fora trazido. Ele não parecia um cidadão comum. Suas botas eram de solas lisas, das que não deixavam rastros. Olhou para sua cintura. Junto ao cinto, duas adagas. Um ladino? Queria esconder os rastros? Por quê?
— Se você era um cidadão inocente, o que fazia numa área restrita? — perguntou a comandante.
— Saí perseguindo um coelho e entrei naquela área sem querer. — disse como se tivesse ensaiado a resposta.
— Perseguindo coelho com essas faquinhas? — Pandora não aguentou ficar calada – Até o Pietro aqui sabe que isso é mentira! Coelhos se pegam com armadilhas ou bestas!
— Pandora! — exclamou Lina.
— Sério tia, dá pra ver na cara dele que ele tá mentindo!
— E dá pra ver na sua cara que você é da família da comandante. — falou o homem com o rosto endurecendo – Comandante, não devia trazer crianças para o trabalho ou elas podem se machucar. Principalmente uma tão parecida com a senhora. — e sorriu.
Lina travou o maxilar e seus olhos pareceram ficarem chamas.
— Prendam-no e joguem-no na masmorra até segunda ordem. — ela ordenou.
O homem ficou estarrecido.
— Sob que acusação? — explodiu.
— Ameaça a menores de idade. Afinal, você acaba de ameaçar minha sobrinha.
— O quê? — ele gritou.
Tranquilamente, Lina se voltou para a sua jovem.
— Pandora, você se sentiu ameaçada, não é mesmo?
— Claro, tia. — respondeu alegremente – Muito ameaçada!
— Se ele fizer algo com minha irmã, quem cuidará de mim? — choramingou Pietro fingindo uma voz de choro.
— Além de tudo, perturbou Pietro, que tem a saúde frágil. Muito grave mesmo. Vamos adicionar isso às acusações. — continuou a comandante – Podem levá-lo.
O homem saiu sendo escoltado e não tirava os olhos injetados de ódio da comandante. Assim que Jon e Brienne sumiram com ele, Lina respirou fundo. Algo agora passava por sua cabeça. Pandora era muito parecida com ela. E se a atacassem por engano? Não… Mesmo um retardado poderia ver os anos a menos que a menina tinha. E o bilhete dizia que ela não poderia ser atacada fora do serviço. Ainda assim, o ódio que vira no prisioneiro a preocupara. Se fosse mesmo daquele grupo… Eles podiam mudar de ideia. Seu primeiro impulso era mandar Pandora, Pietro e seus pais para a fazenda e, se possível, Theo também. Porém, não podia tomar essa atitude m entregar que sabia do bilhete. Se é que já não sabiam, afinal, ela tinha o corpo de um deles. O que deveria fazer, afinal?
— Tia, o que foi? — perguntou o menino, preocupado.
Lina não respondeu no primeiro momento. Caminhou até sua mesa, tirou duas adagas de lá e entregou uma a cada sobrinho.
— Por precaução. — e diante do olhar questionador deles, completou – Explico depois.
Talvez fosse hora de avisar em sua casa sobre o perigo que corria.
— Prefiro uma lança. — disse Pandora – Bem mais mortal.
— Vamos voltar para lá. — disse ignorando a menina – E lembrem-se, nenhuma palavra sobre o que ouviram aqui!
— O que eu ganho isso? — gracejou Pandora.
— Ficar viva. — resmungou.
E suspirando, Lina se perguntou quanto tempo levaria para não se aguentar e dar uma surra em Pandora depois que ela fosse morar em sua casa.
********************
Tewdric observou Karen moldar a areia molhada da praia em forma de muralha e depois pôr conchas em cima, para imitar os espinhos da muralha de Orgrimmar. Sorriu. Tirá-la de dentro da sala com Lor’themar foi uma coisa boa a fazer; Karen parecia muito mais feliz agora. Tewdric se preocupava que o cargo a que a menina seria submetida em breve e as responsabilidades que ele trazia a fizessem crescer rápido demais e tirassem aquela serenidade inocente de sua face. Sabia que não podia evitar as agruras da vida para sua menina e isso o angustiava mais que tudo. Por hora, porém, estava tudo bem. Karen havia tirado o vestido pomposo que usava mais cedo e o pendurara num dos arbustos perto da areia. Depois, apenas de regata e shorts, a combinação que usava por baixo das roupas, mergulhara nas águas do mar de Quel’talas e se pôs a brincar. Com alegria, Tewdric percebeu que a única preocupação da menina no momento era tentar moldar os prédios dentro de sua muralha de areia para ficarem o mais parecido possível com a capital da Horda.
— Acho que você deveria construir os prédios de dentro primeiro e só depois a muralha. — observou o orc com um sorriso.
Karen analisou sua construção por um momento e depois assentiu sorrindo.
— Você tá certo, Ted!
E rapidamente a menina derrubou as muralhas e passou a fazer os prédios.
— Você lembra bem de Orgrimmar, mesmo tendo ficado pouco tempo lá. — comentou o orc com uma pontada de orgulho.
— Sou boa pra decorar as coisas, Kassyeh diz. Lembro até as coisas chatas que Lor’themar falou do que tenho que fazer como rainha. — a menina bufou – Eu não sabia que tinha tanta coisa chata…
— Está arrependida? — perguntou Tewdric preocupado.
Karen fez que não com a cabeça energicamente.
— Só estou pensando uma forma de deixar tudo divertido sem enlouquecer o Temma. — e deu uma risada.
O coração de Tewdric sempre explodia de felicidade quando ouvia a risada de Karen. Para ele, era o som mais lindo e maravilhoso do mundo. Morreria para garantir que aquele som continuasse a ecoar pelo mundo e mataria quem quer que tentassem apagá-lo. Para o orc, Karen era mais que uma cunhada jovem e divertida. Ninguém negava que eles eram como pai e filha, apesar de sua convivência ser de apenas poucos anos. Só que ninguém, exceto Kassyeh, sabia do real alcance do amor dele pela menina. Para Tewdric, Karen era a personificação de tudo que lhe foi negado na vida.
Tewdric não gostava de falar de seu passado. Poucos sabiam o que tinha acontecido com o orc. A história que ele contava quando perguntado sobre sua história era que seus pais foram mortos pela Aliança e ele cresceu num lar comunitário. Não entrava em detalhes. E os detalhes faziam muita diferença.
O ‘lar comunitário’, na verdade fora um dos campos de concentração para escravos orcs mantidos pelos humanos.
Tewdric havia nascido escravo.
A lembrança mais persistente em Tewdric era a fome. Estava sempre com fome. Todos estavam. Nunca havia comida suficiente. A comida distribuída era pouca e, às vezes, os guardas humanos jogavam um pouco de comida de suas guaritas e se divertiam vendo as crianças correndo para a comida e brigando por ela como se fossem cachorros. Tewdric nunca ia. Mesmo criança, ele tinha um orgulho ferrenho que muitos orcs já havia esquecido. Por isso, ficava observando os outros brigarem pela comida, com o estômago doendo, e o ódio corroendo suas entranhas.
Mas a pior lembrança não era aquela.
Frequentemente alguns nobres apareciam na calada da noite no campo de concentração e conversavam baixinho com os guardas. Estes recebiam dinheiro e iam até as crianças e recolhiam algumas que os nobres apontavam. Como havia promessa de comida, as crianças não hesitavam em ir. Tewdric observava que, quando voltavam, as crianças estavam caladas, chorosas e se encolhiam no canto, sem querer falar sequer com os pais. E não queriam ser escolhidas de novo. Mas, as vezes a fome falava mais alto e elas iam e voltavam chorando ainda mais. Era estranho, pensava o menino orc. Por que chorar se recebem comida?
Uma noite, Tewdric foi escolhido. No começo, ele relutou em ir. Lembrava do choro das crianças quando voltavam. Porém, a fome estava maior que o normal e ele aceitou. Recordava do guarda ter olhado com um pouco de pena quando o escolheu, mas não associou isso ao que aconteceria depois.
O guarda o levou até uma tenda armada nas proximidades do campo de concentração. Tewdric foi empurrado para dentro e ficou boquiaberto. Nunca vira tanto luxo antes. A próxima vez que veria coisas tão bonitas assim seria quando, anos mais tarde, visitaria Luaprata, já adulto. Mas ali, era um menino assustado, desconfiado e com fome.
— Entre, pequeno. — disse o humano gentilmente – E coma.
Nunca um humano falara com ele daquele jeito, mas a queimação em seu estômago o impeliu a mesa. Com as mãos, Tewdric comeu tudo que pode, ignorando o sorriso satisfeito do homem a sua frente. Depois que se saciou o menino encarou seu anfitrião, sem entender porque ele parecia tão feliz em tê-lo ali. E como não falou nada, o homem perguntou:
— Você não fala?
— Falo. — disse o menino, percebendo que era primeira vez que falava com um não-orc – Só não tenho o que dizer.
O homem deu uma gargalhada. Anos depois, revisitando as lembranças, Tewdric perceberia que ele estava um pouco alcoolizado. E fazia sentido, pois ele sempre estava com uma taça de vinho na mão.
— Quer um pouco? — perguntou o humano oferecendo uma taça – É bom.
A curiosidade fez Tewdric aceitar. Provou do vinho e fez uma careta.
— Eca. — e devolveu a taça.
O homem riu ainda mais.
— Sabe porque veio aqui? — perguntou ele.
— Pra comer. — respondeu Tewdric.
Mais risadas.
— Também. Você veio fazer algo para mim.
O menino o olhou, sem entender.
— Eu te alimento e você faz algo para mim, entende?
Tewdric fez que sim.
— Ótimo. — o homem se levantou com um olhar estranho – Ótimo mesmo… Você é um menino bem bonito.
E quando deu por si, Tewdric estava jogado no chão, com o rosto pressionado no tapete requintado, o homem em cima dele e a dor e a vergonha lhe consumindo.
Naquela hora, o orc fechou os olhos e estremeceu. Uma onda veio mais forte e derrubou o castelo de areia que Karen criava. A menina havia percebido a mudança de humor dele e o encarou.
— O que foi, Ted? — perguntou.
— Nada, Karenzita. — ele sorriu para ela – Não foi nada. — e se levantou – Que tal mais um mergulho antes de irmos para casa? Já é quase hora do almoço!
— Vamos! — falou animada.
Os dois correram de mãos dadas e se jogaram no mar.
Enquanto mergulhava, Tewdric voltou-se as lembranças. Lembrou de voltar ao campo de concentração tão triste quanto as outras crianças antes dele. Lembrou de sentar num canto, com nojo de si mesmo. Lembrava de vomitar toda a comida que o humano lhe dera e ficar deitado sob o vômito, sem coragem de levantar. Lembrava de ter passado dias assim, até uma menina jogar um balde de água em cima dele e lhe dizer:
— Vai morrer por causa disso?
Era uma das meninas que fora levada antes dele. Na verdade, ela era bem bonita e sempre acabava indo várias vezes.
— Como você consegue? — perguntou ele abismado.
— Tenho um irmão pequeno. — ela disse – Se eu for várias vezes e trouxer comida, ele não precisará ir. Não temos pais. — ela completou.
Tewdric se sentou. Olhou para si mesmo com nojo. Não era assim que um orc deveria se comportar.
— Tem mais água aí?
Ela fez que sim.
Depois que Tewdric se lavou, a menina se afastou.
— Como é seu nome? — ele teve forças para perguntar.
— Não tenho. Nunca ganhei um. — ela apontou para os humanos – Eles me chamam de lindona. Acho que esse pode ser meu nome um dia.
Encontrara Lyndonna somente anos depois em Orgrimmar. Ela continuava muito bonita e tentou seduzi-lo. Naquela época, já estava apaixonado por Kassyeh. E mesmo que seu coração estivesse livre, olhá-la era como ver a si mesmo naquele dia. Ele jamais poderia ter nada com ela. Pensou que deveria ter, ao menos, perguntado por seu irmão.
Depois do banho de mar, Tewdric ajudou Karen a vestir-se novamente. Os cabelos molhados da menina grudavam em seu rosto e ela ria enquanto o orc tentava não rasgar a seda delicada de sua roupa ao enfiar o vestido por sua cabeça.
— Você tem que afrouxar as fitas, Ted! — ela disse.
— Certo, certo… — resmungou o orc.
Enquanto puxava as fitas de cetim, olhou para os próprios dedos e sorriu. Saber que conseguira vingar a humilhação que sofrera foi o que dera forças para ele continuar e, um dia, encontrar sua amada Kassyeh. Fora alguns dias depois. Era madrugada e Tewdric dormia no chão, em cima de um montinho de feno que ele próprio recolhera. O guarda o acordou com o pé e disse:
— Venha. Tem comida para você.
Tewdric sorriu. Estava esperando por aquilo.
O menino acompanhou o guarda sem hesitação. O mesmo humano o esperava de novo.
— Olá, menino bonito.
O menino orc abriu ainda mais o sorriso.
Naquela noite comeu com vontade, ciente que poderia ser sua última refeição. O humano parecia animado com a receptividade dele, pois não parava de elogiá-lo.
— Você parece mais simpático hoje. — ele dizia – Vai gritar como da outra vez? — provocou.
Tewdric fez que não. Não haveria gritos naquela noite. Não de sua parte, pelo menos.
— Gosto quando vocês cooperam. — ele comentou – Não são tão burros quanto dizem, afinal.
Com a boca cheia, o menino concordou.
Depois de matar a fome, Tewdric apontou para a taça de vinho. O homem lhe deu. Ele tomou um gole, dessa vez sem fazer careta. O humano estava estasiado com seu comportamento.
— Você é um bom, bom menino. — e fez um gesto para que Tewdric se aproximasse – Eu poderia até tirar você daqui, se você continuar bonzinho assim. Você vai ser bonzinho?
— Vou. — respondeu sorrindo e mostrando suas pequenas presas.
— Acho que podemos até tentar algo diferente hoje…
Quando o homem se despiu e direcionou a cabeça de Tewdric para seu pênis, o menino foi de boa vontade. Então, o grito do humano ecoou na noite e os guardas entraram rapidamente na tenda. Tewdric, com uma única e precisa mordida, arrancara o órgão do homem fora e agora exibia-os com orgulho na boca manchada de sangue para os guardas. Depois cuspiu no chão e disse:
— Ele não vai mais machucar nenhum de nós.
Por um momento, os guardas não sabiam o que fazer. Mais velho, Tewdric pensou que eles provavelmente não concordavam também com o que aquele humano fazia com as crianças, mas nunca teriam coragem de se colocar contra alguém poderoso. Talvez por isso tenha sobrevivido. Mesmo que o homem tenha ordenado sua morte, Tewdric sobreviveu. Mas apanhou. Muito. Sentiu os ossos de seu corpo quebrando enquanto os guardas o chutavam, mas não conseguia parar de sorrir. Alguns de seus dentes caíram, mas felizmente era seus dentes de leite. Ele também foi cortado e ainda tinha uma cicatriz nas costas. Só quando parou de rir e de se mexer é que foi jogado de volta ao campo de concentração. Logo, todas as crianças molestadas sabiam o que ele havia feito. Seu nome como campeão começara a ser construído naquele dia.
Nos dias que se seguiram, enquanto estava jogado no chão do campo de concentração morrendo aos poucos, Tewdric não percebeu a movimentação atrás dos muros. Com os olhos inchados, o menino não viu a Horda de Thrall invadir aquela prisão e matar os guardas. Apenas quando braços fortes o pegaram, já quase sem vida, e o curara, ele percebeu que algo estava diferente. E a imagem que vira depois de dias de escuridão tinha sido de Thrall, chefe guerreiro da nova Horda, que usava seus recém-adquiridos poder de xamã para sarar suas feridas. Era nos braços dele que Tewdric estava.
— Está tudo bem, pequeno. — ele lhe dissera – Você está livre agora.
Já fazia mais de uma década, mas Tewdric ainda sorria ao lembrar do momento.
— Prontinho. — disse exibindo para Karen o vestido afrouxado – Vamos vestir.
Com o vestido colocado e colado no corpo por causa da água do mar, Karen apontou para o orc e pediu:
— Ombro! Ombro!
Rindo, Tewdric a colocara no ombro e saiu correndo até a torre. Valia a pena tudo que passara para viver aquele momento. Tewdric jamais imaginava que pudesse ser tão feliz e amar tanto. A criança violentada que ele fora virara um guerreiro sanguinário e violento. Mas suas elfas mudaram tudo. Kassyeh fora a primeira pessoa a amá-lo; Karen foi a primeira a precisar dele. Ele nunca tivera amor e nunca fora útil para ninguém a menos que sua utilidade fosse provada com sangue. Mas não com elas. Não com Karen. Ela precisava de seu amor.
Lembrava com nitidez a primeira vez que vira a menina. Já havia conhecido Ash antes, mas quando pôs os olhos na criaturinha de cabelos longos e dourados, que o olhou com surpresa e depois lhe abriu um sorriso, sentiu algo que envolveu seu coração de forma tão plena que ele teve vontade de chorar. Parecia que todas as coisas ruins que aconteceram em sua vida haviam sido apagadas apenas pela visão daquele sorriso. E os sentimentos só aumentaram quando a menina, sorrindo, o abraçou com força e anunciou sem nenhuma hesitação:
— Você será meu Ted a partir de hoje!
Sim, ele sempre seria o Ted dela. O era, desde o momento em que se encontraram, e seria enquanto vivessem.
Antes daquelas elfas entrarem em sua vida, Tewdric não acreditava em nada do que os orcs acreditavam: espíritos, ancestrais, o que quer que fosse. Mas o encontro com Kassyeh e depois com Karen o fizeram acreditar que existia algo, afinal. E aquele algo, por algum motivo, o presenteara com as criaturas mais perfeitas e maravilhosas do universo.
Os cabelos de Karen se agitaram em torno da cabeça dela enquanto a menina era carregada por seu pai orc. Ela gargalhava e ele então girava e pulava, fazendo-a gargalhar ainda mais. Tewdric pensou em como seria dali a alguns anos, com Karen crescida e chamando a atenção de machos por ali. Bem, teria que manter o machado afiado e por perto para algum possível engraçadinho que só quisesse se divertir com ela. Não admitiria ninguém que a amasse menos do que ele a amava.
— Ted. — ela lhe chamou em determinado momento.
— Oi, Karenzita.
— Você acha que eu serei uma boa rainha? — perguntou preocupada.
Teria sido a visão da torre que trouxera esses pensamentos à menina. Tewdric achava que sim, por isso, respondeu sem hesitar:
— Tenho certeza que será! — disse com convicção – A rainha mais perfeita e maravilhosa que esses elfos já viram!
Isso arrancou uma gargalhada da menina.
— Está preocupada? — quis saber ele – Em não dar conta?
— Não quero decepcionar ninguém. — ela disse enquanto se segurava na cabeça dele – Eu já ouvi falar dos reis anteriores e todos eles fizeram o povo triste… — ela suspirou – Não quero deixar ninguém triste.
Tewdric apressou o passo enquanto falava:
— Você deixará alguém triste em algum momento, porque não dá pra agradar todo mundo ao mesmo tempo. — ele avistou uma pedra e pulou para cima dela, arrancando uma risada da pequena elfa – Sua preocupação tem que ser deixar seu povo seguro e garantir que nada falte a eles. Isso vai exigir que você faça algumas coisas que não lhe deixará muito contente, mas será o certo.
— E como eu saberei que será o certo? — perguntou angustiada.
— Você saberá. — ele disse simplesmente.
Chegaram na entrada traseira da torre e Tewdric a pôs no chão. Karen ajeitou o vestido e o encarou. Seus olhos transmitiam um medo que deixou o coração de Tewdric apertado.
— Você estará comigo? — perguntou com a voz meio baixa e um pouco mais aguda que o normal – Pra me ajudar a ver o certo?
Tewdric sorriu e tirou passou a mãos nos cabelos dela, tentando ajeitá-los. Estavam meio duros, por terem secado após o banho de mar sem que o sal fosse tirado.
— Claro que sim. Estarei sempre, sempre com você.
—Promete? — insistiu a menina.
— Prometo.
Karen ainda não parecia convencida.
— Mas e quando você e Kassyeh tiverem bebês, você não vai me esquecer?
— Claro que não! — exclamou o orc – Como eu esqueceria minha filhinha mais velha?!
Os olhos de Karen brilharam, cheio de lágrimas.
— Você vai me amar da mesma forma?
Tewdric se abaixou e olhou bem nos olhos dela.
— Olha, vou te contar um segredo. — ele começou, bem sério – Eu terei um monte de bebês com a Kassyeh. E vou amar todos eles. Mas, aqui entre nós… — ele olhou para os lados como se quisesse verificar que Kassyeh não estaria atrás dele – Eu sempre vou te amar um pouquinho mais que todos eles. — sussurrou mostrando com os dois dedos o quanto ia amá-la mais.
Karen sorriu, pegou os dois dedos de Tewdric e os abriu bem mais.
— Vai em amar um poucão a mais que os outros. — anunciou como se aquilo resolvesse tudo.
— Sim, vou sim. — confirmou ele rindo – Mas não conte a Kass. Ela pode não gostar.
— Será nosso segredo. — sussurrou a menina colocando as mãos em concha na boca.
— Será. — sussurrou ele de volta com as mãos em concha na boca do mesmo jeito.
Eles riram e então entraram na torre.
A areia trazida por eles se espalhou pelo chão e logo haviam servas atrás deles limpando.
— Acho que a gente deveria ter tirado a areia antes de entrar… — observou a menina.
— É… — confirmou ele – Espero que Kass não brigue conosco.
Riram e continuaram andando e espalhando areia quando ouviram as vozes de Ash, Lor’themar e os demais voltando. Imediatamente Karen pensou que seria uma excelente ideia molhar a irmã e enchendo-a de areia. Porém, assim que Ash e os demais que foram à Nascente do Sol entraram na sala, um servo foi até Karen com uma bandeja na mão e uma carta pousada nela.
— Carta para Vossa Majestade. — disse baixando a bandeja que continha a carta.
— Oba! Deve ser carta de Saba.
E rasgou o envelope roxo com o símbolo do Kirin Tor e tirou a carta de dentro e a leu ali, em pé mesmo, em frente a toda comitiva de Ash que agora olhava a menina num misto de pânico e surpresa. Tewdric percebeu que Ash parecia a mais assustada e todos ficaram tensos enquanto Karen lia a carta e a expressão animada foi substituída por tédio.
— Ah, é só o povo do Kirin Tor dizendo quem vem pra minha coroação. — a menina jogou a carta em cima da mesa – Pensei que fosse de Saba.
O alívio em todos foi tão forte que Tewdric arqueou as sobrancelhas e encarou-os.
— Karenzita. — disse ele colocando a mãos no ombro dela – Que tal ir tomar banho para o almoço? A Lulu vai brigar em te ver assim.
A menina bufou.
— É mesmo. Vou indo.
Pisando duro, visivelmente decepcionada com a carta que recebera, ela passou pela irmã e fez questão de jogar areia em Ash antes de subir correndo as escadas e rindo. Porém, daquela vez, Ash não conseguiu ficar chateada nem responder ao trote da irmãzinha. Na verdade, ela mal conseguia se mover. A carta do Kirin Tor chegara mais rápido que todos previram, no mesmo dia em que souberam que Aethas não seria representante. Por muito pouco Luxuriah não ficara sabendo. Se a elfa estivesse ali, e não Karen, seria tarde demais para os planos que preparara. Enquanto ainda se recuperavam do susto, Tewdric caminhou tranquilamente até a carta, pegou-a e leu. E entendeu o que estava acontecendo.
— Um humano, hein? — disse entregando a carta já lida a Ash – Não admira que todos vocês estejam com o ‘fator cú na mão’ ativado.
— O quê? — perguntou Ash recebendo a cara.
— ‘Fator cú na mão’. — repetiu Tewdric didaticamente – É essa cara de quem tá vendo tudo se encaminhar para o desastre. Como vocês estavam quando Karenzita pegou a carta..
Rommath foi o primeiro a se recuperar. Deu uma tosse com a mão fechada sobre a boca e encarou o orc.
— Tewdric, você sabe, esse assunto é muito delicado e a minha esposa esta-
— Sei, sei, sei. — disse o orc abanando a mão impacientemente – A Lulu vai parir e tem um humano vindo. Ela odeia muito os humanos e isso é um problema. Já entendi. E acredito que vocês também tem uma solução.
Todos se encararam e olharam para Ash. A elfa passou os olhos na carta e suspirou. Em poucas palavras, explicou a Tewdric sua decisão, a visita que fizeram à Nascente do Sol naquela manhã e como pediram escolta a Lady Liadrin.
— Por que o elfão aqui não vai com você? — e deu um tapinha no peito de Lor’themar.
— Meu cargo de lorde regente é bem inferior ao de Ash como princesa. — explicou – Porém, se eu for com ela, parecerá intimidação.
— E ninguém do Kirin Tor, com a exceção de Aethas, sabe do relacionamento deles. — concluiu Vivithi.
— Por isso, tem que ser a Ash. — completou Rommath
— Ahhh, a Ashzinha vai tirar de letra! — exclamou Tewdric colocando a mão no ombro dela – Quer que eu vá com você?
Ah, como Ash queria que ele fosse! Adoraria ter Tewdric ao seu lado lá, mas havia outra preocupação tão grande quanto um humano dentro de Luaprata e perto de Luxuriah.
— Eu queria e muito, Ted. — disse ela com sinceridade – Mas você precisa ficar. — ela respirou fundo e falou – Grey está aqui.
E se pôs a contar o que acontecera na Nascente do Sol após conversar com Lady Liadrin.
O orc ouviu tudo em silêncio, com a expressão indecifrável no rosto. Alguém estava por perto, ameaçando sua família. Não. Jamais alguém destruiria sua felicidade. Por isso, quando terminou o relato. Ele assentiu com a cabeça, segurou os dois ombros d eAsh e falou:
— Você vai conseguir, Ashzinha. — sorriu para ela e então se pôs a subir as escadas em silêncio.
A atitude do orc foi tão inesperada que todos se entreolharam mais uma vez, ainda mais preocupados. Não era o tipo de reação esperada do orc.
— Ted! — gritou Ash – O que você vai fazer?
O orc parou no meio das escadas e olhou para Ash.
— Vou afiar meu machado.
E continuou seu caminho.
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Haviam lhe dito que não seria tão difícil assim. Que, constantemente, a comandante saia em patrulha e que era só pegá-la. E o dinheiro era bom. Muito bom. O homem se perguntava com quem a mulher chamada Lina Wood havia mexido para que desembolsassem tanto dinheiro por sua cabeça.
Porém, a mulher era dura na queda. Não apenas conseguira se livrar do ataque como ainda derrubou um de seus comandados. Lembrou da cara de retardado do General Crowe e pensou que se aquele era o tipo de líder do exército da Aliança, não era a toa que a Horda pintava e bordava por ali. Mas, pensando bem, haviam pessoas como a comandante Wood, que davam trabalho para morrer. Era uma pena que a ordem tenha sido tão explícita quanto a matá-la em serviço. Já rondara por sua casa e percebera que não tinha a melhor das seguranças. Seria fácil entrar lá e dar cabo dela.
Isso não importava, no final das contas. Mataria a mulher, teria aquele dinheiro e poderia bancar umas boas festas e mulheres com ele. Talvez até umas elfas, se tivesse sorte. Sorriu consigo mesmo. Agora que um dos seus foi morto, só precisariam dividir o dinheiro por três. Esperava que o outro imbecil não fosse pego tentando achar uma nova brecha na segurança da bastilha.
Esses eram os pensamentos de um dos atacantes de Lina enquanto saia de Ventobravo, para ir em busca de alguns venenos e outras coisas que pudesse usar naquele serviço. Além do mais, não queria seu nome rondando pelo submundo da cidade quando a comandante morresse. Apesar de ser representante da lei, coisa que os contrabandistas não gostavam muito, ela tinha um respeito ímpar até mesmo entre os criminosos. Temida, odiada, mas, ainda assim, respeitada. Melhor não arriscar ninguém percebendo um assassino de aluguel recrutando antes da morte da comandante da Bastilha.
Cavalgando displicentemente, o homem não prestou atenção em um vulto que se aproximava com velocidade, mas seu cavalo sentiu o perigo. O bicho começou a relinchar e a se agitar tão logo sentiu o perigo se aproximando.
— Eia! — disse o homem tentando controlar seu cavalo – Calma, rapaz.
Foi quando ouviu o rosnado alto e virou a cabeça para trás. Um lobo imenso se aproximava e seu sangue gelou. Tirou a arma da cintura e disparou na direção do bicho.
Doroteya estava cega de raiva e a maldição a tinha deixado praticamente incapaz de raciocinar. Aquele era o problema que muitos worgens enfrentavam: ter a sede de sangue desperta e não conseguir controlar. Por isso, sua mente nem mesmo registrou a arma. Apenas ouviu o disparo e a bala passando bem perto de sua cabeça. Foi quando seu instinto de sobrevivência a fez dar uma pausa e rosnar para o dono do cheio que tanto a perturbava.
Quando percebeu que não era um lobo, mas um worgen, o homem ficou preocupado. E quando a criatura ficou em duas pernas e uivou de ódio, viu que era uma fêmea e sua cabeça entrou em parafuso. Lhe fora avisado que a comandante tinha uma worgenin sobre seu comando e que tinha que ter cuidado com ela. Mas seria mesmo aquela a worgenin da comandante? Pois, quando saíra da cidade, as notícias eram que todos estavam na bastilha. Porém, sendo ou não a worgenin certa, estava com muita vontade de arrancar sua cabeça por algum motivo e não poderia deixar aquilo acontecer. Apontou na direção dela e atirou pela segunda vez.
Doroteya ficou novamente em quatro patas antes de saltar para o lado e se livrar de mais uma bala. O homem começou então a disparar um tiro depois do outro enquanto Doroteya corria ao redor dele, deixando o cavalo mais perturbado ainda. Por fim, o animal pinotou, derrubando o cavaleiro. Assim que caiu de cortas no chão, o homem viu sua montaria sair correndo e a fera worgen pular em cima dele.
Não deu tempo dar um tiro, mas o homem usou a arma para aparar a mordida de Doroteya, que estava direcionada à sua garganta. Por um instante, ficou aterrorizado; não era por menos que muitos membros da Aliança não queriam se aliar àquelas bestas. Eles eram irracionais e selvagens. E poderia facilmente destroçar seu pescoço se ele não fizesse algo.
Foi quando lembrou de algo guardado para a worgenin da bastilha. Sim, usaria sua arma secreta. Se aquela fosse mesmo a cadelinha da comandante, já adiantaria o serviço. Senão, seria um bom teste. Segurando a arma com uma só mão e ainda tentando manter os dentes de Doroteya ali, ele rapidamente tirou um saco do bolso e jogou um pó no rosto da sua atacante.
A dor sentida por Doroteya foi insuportável. Ela deu um grito rouco que lembrava mais um grunhido e soltou a arma do homem. Rolou para o lado e passou a esfregar as garras no rosto, como um carrocho quando é molhado contra a vontade. O homem sorriu. Aquele pó era conhecido como mata-cachorro e desnorteava o olfato de qualquer lupino ou canino. Era ótimo contra caçadores e worgens. Vendo Doroteya ganir e esfregar o nariz, ele decidiu por um fim na criatura rápido. Apontou a arma mais uma vez para a cabeça dela e pôs o dedo no gatilho.
— Doro! — um grito se ouviu.
O homem rapidamente olhou para a origem do som e viu ao longe um homem em um cavalo se aproximando. Um combate era o suficiente, dois não estava em seus planos. Por isso, rapidamente sumiu nos arbustos que ladeavam a estrada e assobiou forte, chamando seu cavalo novamente. Quando Tommy finalmente chegou até Doroteya, o assassino já havia sumido.
A worgenin estava desesperada. Ouvira a voz de Tommy, mas não conseguia sentir seu cheiro nem vê-lo. O que quer que o homem soltara nela, fazia seus olhos coçarem e seu nariz arder como se tivesse aspirado brasa. Ela sequer tinha noção que dava voltas na estrada, como um cão ferido, rasgando o próprio nariz com as garras e tentando se nortear novamente.
Tommy sentira que gastara uma eternidade entre arrumar as coisas do piquenique e achar Doroteya. Temia pelo bem dela, principalmente depois de ouvir os vários sons de tiros. Tentou fazer o cavalo andar mais rápido, mas não parecia o suficiente para ele.
— A mamãe! Ta vendo a mamãe? — perguntava Theo, que vinha agarrado à sua cintura, a cada vez que passavam por uma curva.
— Lá está ela! — exclamou quando ela surgiu em seu campo de visão – Doro!
Havia alguém lá e Tommy lamentou mais uma vez ainda não ter providenciado a sua espada nova. Porém, ao vê-lo se aproximando, quem quer que fosse fugiu rapidamente, enquanto Doroteya gania de dor, fazendo Theo se agarrar ainda mais em sua cintura.
Assim que pararam, Theo praticamente pulou do cavalo e correu até onde Doroteya estava.
— Mamãe!
Ouvir a voz do filho, mas não poder vê-lo ou sentir seu cheiro deixou Doroteya ainda mais angustiada. Passou mais uma vez as garras no rosto, como se quisesse arrancá-lo e chorava de dor e frustração. Mas quando Theo agarrou suas pernas, chamando seu nome, ela deslizou até o chão e colocou a cabeça no colo do menino.
— Ela tá sangrando! — gritou o menino em lágrimas – Tommy! Tommy!
Ao chegar perto dela, a primeira coisa que Tommy percebeu foi o cheiro, sutil, mas presente. Passou a mão pelo rosto de Doroteya, viu o pós amarelo grudado em seu êelo e se arrepiou de temor.
— É pó mata-cachorro. — disse para o menino – Precisamos de água.
Theo colocou a cabeça da mãe com carinho no colo de Tommy e correu até o cavalo para pegar o cantil. Tommy tentava consolar Doroteya com palavras calmas, mas ele próprio estava aterrorizado. Aquele pó era conhecido e muito temido por amantes da natureza e pelos caçadores. Ele queimava a vias nasais e a retina dos lobos e cachorros, provocando uma dor horrível. Quem quer que tivesse feito aquilo, sabia que causaria um sofrimento imenso a Doroteya. A raiva borbulhou dentro dele e queria ter tido a chance de perseguir o vulto que vira mais cedo.
— Doro! — chamou ele – Calma, isso vai ajudar.
E derramou a água no rosto dela.
O alívio foi imediato e a worgenin se encolheu no colo dele. Só que Tommy sabia que o alívio era passageiro. A água que tinha não era suficiente e Doroteya precisaria de cura e rápido. Como druidesa, sabia que ela poderia se curar, mas duvidava que ela tivesse capacidade de se concentrar e curar-se naquele estado. Precisava levá-la para casa.
Foi quando uma ideia lhe ocorreu.
— Doro, volte a sua forma humana. O olfato dos humanos não é tão apurado.
A worgenin balançou a cabeça em negativa, sem conseguir dizer uma palavra. E assim que a água acabou, ela voltou a ganir e choramingar.
— Ela não consegue. — disse Theo desesperado – Está confusa demais!
Só havia um jeito então.
— Vamos levá-la para casa assim mesmo. — resolveu o homem pegando Doroteya nos braços – Doro, aguente só um pouco, certo? Logo, logo eu vou tirar isso de você.
Foi um pouco difícil subir no cavalo com Doroteya em sua forma worgen e choramingando de dor. Mas, por fim, conseguiu. Theo subiu novamente atrás dele e o segurou pela cintura.
— Segure firme, Theo. — ele disse antes de bater com os dois calcanhares no cavalo.
O animal começou a correr e Tommy teve que fazer um grande esforço para guiar um animal com uma mão enquanto a outra segurava Doroteya firmemente. A água aliviara a queimação um pouco, mas Tommy sabia que era questão de tempo até que a queimação voltasse. Por isso, agitou ainda mais as rédeas, impulsionando o animal. Precisavam chegar em casa o mais rápido possível.
Se sentira que demorara para achar Doroteya, o tempo pareceu se estirar ainda mais no caminho para sua casa. Por um momento ele teve vontade de pular no canal em frente a sua casa com Doroteya para aliviá-la, mas lembrou que o canal era de água salgada e que apenas deixaria tudo pior. Por isso, quando viu o telhado de sua casa à distância, foi avisando a Theo:
— Vou entrar pelo quintal. Você desça e segure o cavalo enquanto eu cuido de sua mãe. Leve-o para o estábulo, certo?
— Certo!
E foi o que ele fez. Sequer desmontou. Entrou direto pelo quintal, batendo o portão com força e fazendo os outros animais que estavam lá emitirem sons de desagrado. Assim que Theo desceu, ele pulou da montaria com Doroteya nos braços e correu até o chuveiro do quintal. Abriu o no máximo e sentou-se em baixo do jato frio com Doroteya ainda em seu colo.
A água lavou o rosto e o corpo da worgenin, acabando com seu sofrimento momentaneamente. E, enquanto o pó saia de seu corpo, Doroteya relaxava e seu corpo voltou automaticamente à forma humana. E o que Tommy viu em seu rosto o fez querer gritar de ódio. Os olhos de Doroteya estavam tão inchados que ela não conseguia abri-los. Além disso, as pálpebras estavam roxas, como se alguém a tivesse esmurrado com força. Suas bochechas e nariz estavam rasgados, em carne viva, ferimentos feitos por ela mesma em seu momento de desespero. E não era apenas isso. O nariz dela também estava roxo e ainda sangrava. Tommy imaginou que deveria estar em carne viva por dentro como estava por fora.
— Mãe?
Theo foi até o banheiro e Tommy não pode evitar que ele a visse naquele estado. Os olhos do menino encheram-se de lágrimas mais uma vez e ele pegou na mão de sua mãe. Doroteya deu um suspiro quando sentiu o toque do menino, mas não disse nada. Talvez nem pudesse. O pó deveria ter queimado sua garganta também.
— Theo. — começou Tommy sério – Preciso que você seja forte por sua mãe agora, ok?
Theo enxugou as lágrimas com uma mão e fez que sim com a cabeça.
— Vá até o quarto de Lina e pegue as poções de cura que tem lá. Traga-as para sua mãe. Pode fazer isso?
— Certo. — e apertando a mão de sua mãe, disse – Volto já, mãezinha.
Doroteya protestou fracamente quando o menino a soltou, mas Tommy a tranquilizou.
— Ele volta já. — murmurou docemente em seu ouvido – Estou aqui com você. — e beijou sua testa.
Com Doroteya mais calma em seus braços e água caindo abundantemente sobre os dois, a mente de Tommy começou a querer saber o que tinha acontecido afinal. Quem era o homem que a assustara tanto que a obrigou a persegui-lo sozinha, para não envolver ele e Theo? Era alguém que sabia lutar com worgens, isso era óbvio. Seria algum infiltrado da Horda? Alguém a mando dos renegados? Lina saberia se fosse, pensou. Ela não deixaria Doroteya e seu filho correr perigo se soubesse. E, que diabos, ele quem devia protegê-la e não ao contrário. Já perdera Ana, não perderia Doroteya de forma alguma!
— Aqui! — exclamou Theo chegando com vários frascos de poção – Não sabia quantos seriam suficientes e trouxe todos…
— Ótimo. — Tommy pegou um, destapou com a boca e levou o vidro até a boca de Doroteya.
A worgenin quase não conseguiu tomar o primeiro frasco. Ela tossia e regurgitava, como se fosse muito doloroso beber qualquer coisa.
— Vamos lá, Doro. — murmurou pegando o segundo frasco – Sei que dói, mas faça um esforço.
O segundo frasco ela desperdiçou menos e o terceiro foi mais fácil tomar. No quarto frasco, os olhos dela desincharam e ela os abriu. Estavam vermelhos, mas não pareciam machucados.
— Tommy… — ela murmurou o encarando.
— Oi. — disse ele sorrindo – Mais uma e você fica boa de novo.
— Acabou. — disse Theo angustiado – Essa era a última.
— Vou procurar mais lá dentro. — avisou Tommy – Ela está melhor, vamos levá-la para o quarto.
Theo fechou o chuveiro enquanto Tommy carregava sua mãe para dento de casa. Levaram-na até o quarto que ela dividia com o filho e o homem a deitou na cama.
— Não…. — murmurou Doroteya fracamente – Vai molhar…
— Não pense nisso agora. — ele disse.
Mas ela continuava agitada. Theo então trouxe algumas toalhas e eles a enrolaram nela e estenderam outras pela cama. Foi quando Doroteya se acalmou.
— Fique aqui um pouco com ela. — pediu ao menino – Vou procurar outros frascos de cura.
— Certo.
Só que não havia mais nenhum. Tommy revirou as coisas de Lina e só achou as poções dela para não engravidar. Fez uma careta e foi no quarto dos irmãos. Depois de uma buscarápida, onde só achou lubrificante, preferiu sair de lá. Foi nos armários, na despensa e nada. Teria que sair e comprar, mas não o faria. Esperaria Lina chegar. Não deixaria Doroteya e Theo sozinhos. Quando voltou ao quarto, o menino estava enxugando os cabelos da mãe. Seu rosto estava contraído de dor e Tommy se sentiu um inútil por deixar aquela situação ocorrer.
— Vá tomar um banho, Theo. — ele sugeriu – Tirar essa poeira e relaxar. Eu fico aqui com ela.
O menino parou o que fazia e fez que sim com a cabeça. Deu um beijo na testa da mãe e saiu do quarto na direção do banheiro. Tommy foi até onde o menino estava antes e passou ele mesmo a enxugar o cabelo de Doroteya. Olhou para seu rosto. Pelo menos os vergões feitos pelas garras tinham sumido.
— Tommy… — disse ela fracamente.
— Estou aqui.
— A Lina…?
— Não chegou ainda,
A worgenin se remexeu, incomodada.
— Diga a ela que era um deles. Que tome cuidado.
— Como assim?
Mas ela não respondeu. Se encolheu na cama e Tommy imaginou que ela devia estar exausta. Deixou-a naquela posição e não a incomodou mais.
Porém, o que ela disse agora o preocupava. O que Lina tinha a ver com isso? E quem era o ‘eles’ a quem Doroteya se referia? Foi então que o ataque na Bastilha no dia anterior voltou a sua mente. Lina dissera que não era nada. Mas chegara em casa com outra roupa porque a sua fora coberta de sangue. E Doroteya estava em cima do telhado. Estaria só olhando o pôr do sol ou vigiando? Sua irmã teria que responder muitas perguntas quando chegasse.
O resto do dia se arrastou, na opinião dele. Depois que Theo saiu do banheiro e se vestiu, ficou fazendo companhia à mãe enquanto Tommy tomava um banho. Depois, o homem passou a limpar a casa e deixar tudo em ordem para seus pais não notarem nada de estranho. A última coisa que queria era deixar os idosos estressados. Por isso, limpou, arrumou e cozinhou. A determinada altura da tarde, Theo se juntou a ele na cozinha.
— Consegui fazer ela trocar de roupa e pôr a camisola. — disse o menino – Agora ela tá dormindo.
— Muito bem, campeão.
Theo deu um sorriso triste e se adiantou para abraçar Tommy.
— Vai ficar tudo bem. — disse ele alisando os cabelos ruivos do menino – Sua mãe vai ficar bem.
— Estou com medo, Tommy. — murmurou Theo apertando-o ainda mais – Por que fizeram isso com a mamãe?
— Eu vou descobrir, certo? — tranquilizou-o – Agora me ajude com as verduras…
Lina e os demais chegaram no final da tarde. O barulho quando todos entraram tagarelando animadamente deixou Tommy perturbado. Se continuassem assim, acordariam Doroteya. Mas ele não poderia pedir silêncio sem contar o que acontecera.
— Ô chêro baum de comida! — disse seu Sebastian – É a janta?
— Véio insfomiadu! — reclamou dona Mariana – Ocê cumeu faz pouco tempu!
— Oxi, vô tê fomi mais tarde!
— Intau mais tardi ocê elogia a cumida!
O velho ficou resmungando mas não disse mais nada.
— Dêxi de resmungo. Vamu discansar um poco que andamu por dimais. E eu vô tumá um banhu que tô toda suada!
Dona Mariana se encaminhou para o elevador e o senhor Sebastian foi atrás. Logo eles tinham sumido no andar superior.
— Theo! — exclamou Pietro – Hoje foi muito legal! A bastilha é imensa! Pena que você não foi!
— Nós fomos à praia. — disse Theo, mas sem muita animação.
— Foi? — Pietro não percebeu a tristeza do menino – Me conta como foi!
— Vão conversar lá fora. — sugeriu Tommy – Enquanto Lina me ajuda na cozinha.
Pandora notou que nem seu tio nem Theo estavam muito animados, mas não comentou nada. Saiu empurrando a cadeira de seu irmão até o quintal, onde eles sentaram nos bancos e Pietro começou a contar do passeio animadamente.
— O que foi? — perguntou Lina quando se viu a sós com o irmão – Você tá com uma cara horrível. — e olhando para os lados, estranhou – Cadê Doroteya?
— Doroteya? — Tommy agora estava com muita raiva e segurou o braço da irmã com força – Vou lhe dizer onde ela está. Lá em cima, machucada, por causa de um alguém que ela perseguiu! E você sabe algo dessa história!
Lina não sabia se ficava surpresa com o que ele dizia ou a forma como falava com ela. Por isso, a primeira coisa que fez foi tirar a mão do seu irmão de seu braço e desafiá-lo com o olhar.
— Acho bom você explicar o que tá acontecendo, Tommy, antes que me acusar de qualquer coisa!
Os irmãos se encararam por um momento, a tensão estalando no ar até que Tommy suspirou, os ombros caindo, como derrotado. Sentou-se pesadamente a mesa e fez um gesto para Lina se sentar também.
— Estou bem em pé. — disse ela cruzando os braços.
Tommy deu de ombros e começou a contar tudo. A ida a praia, a diversão, como Doro tinha autorizado ele a treinar Theo. Só não contou do beijo, afinal aquilo era entre Doro e ele. Quando contou da fuga dela, o ataque e o pó mata-cachorro, Lina descruzou os braços e sentou-se também. Estava agora perplexa. Tommy terminou o relato com o que Doroteya lhe falara antes de dormir.
— Ela não deveria ter perseguido ninguém sozinha. — disse Lina franzindo a testa – Ela sabe que é um problema meu! Eu jamais quereria que ela corresse um risco desnecessário!
— O que é um problema seu, Lina? — perguntou Tommy.
Lina fechou os olhos com força. O que mais aquele dia reservaria de surpresa para ela? Horatio sabia dela e Varian. E Cláudia. E Pandora e Pietro. Agora, o irmão sabia da ameaça à sua vida. Tudo estava sendo escancarado e a comandante estava um pouco desnorteada. Mas, com o ataque a Doroteya, Tommy teria que saber, porque talvez o atacante o tenha visto. Talvez tenha visto Theo.
— Só um minuto. — ela disse e se levantou.
Foi até a porta da cozinha e chamou Pandora.
Tinha tido uma conversa rápida com a menina, nos poucos instantes que ficaram sós. Ela não poderia dizer sobre ela e o rei a ninguém, principalmente a Tommy. Sobre o rei ser apaixonado por ela, podia dizer às tias, mas a mais ninguém. Pandora aceitou, com relutância. Precisou Lina lembrá-la que faria de tudo para que ela e o irmão fossem morar em Ventobravo, onde veriam tudo se desenrolar pessoalmente, para conseguir a promessa de discrição da menina. Ameaçá-la com os dentes quebrados não fora suficiente.
— Oi, tia. O Theo já nos contou tudo. — foi avisando assim que entrou.
— Sente aí que tem mais. — avisou a comandante.
Então, o resto da história foi contado. Como a cabeça dela estava a prêmio e os detalhes da recompensa. O ataque a bastilha. Como Doroteya memorizar ao cheiro dos atacantes. Tudo. Pandora pensou em fazer uma piada, dizendo que se soubesse quem tava oferecendo o dinheiro, levaria ela mesma a cabeça da tia, mas lembrou que estava ao alcance da mão de Tommy e podia levar uns cascudos. E também a tia seria bem mais valiosa viva e casada com o rei. E gostava muito dela. Melhor ela viva. Por isso, não fez a piada.
— O que diabos você anda fazendo, Lina? — murmurou Tommy com a preocupação estampada no rosto – Para estarem querendo tanto sua cabeça?
Lina sentiu os olhos de Pandora sobre ela, mas não desviou a vista de seu irmão.
— Isso não importa, Tommy. Na verdade, a única coisa que importa agora é o estado de Doro. Vou comprar as poções para ela e vai ficar tudo bem. Depois, lhe darei uma bronca por ela ter se arriscado tanto.
— Você não parece nenhum pouco preocupada, tia. — comentou Pandora – Com sua cabeça a prêmio por aí.
— Não estou mesmo. — ela falou, confirmando os temores de seu irmão – Sempre corri risco e esse não é diferente dos outros.
— Claro que é! — Tommy deu um murro na mesa da cozinha – Lina, tem assassinos profissionais atrás de você!
— Só quando eu estiver em serviço! — lembrou ela – E Horatio já está trabalhando nisso! Tudo vai se resolver, mas se você ficar surtando, Tommy, vão saber que eu sei e, aí sim, o risco será maior!
Tommy colocou as duas mãos no rosto, em desespero. Sua irmã era louca, era a única explicação. Tinha que sair um pouco de perto dela, ou poderia estapeá-la.
— Preciso arejar a cabeça. — avisou se levantando – Eu mesmo vou comprar as poções. Fique em casa. — ordenou com o dedo em riste pra ela.
— Você não manda em mim, Tommy. — lembrou ela com o tom sério.
— Falarei para o papai dessa história. — ameaçou ele.
— Duvido. — desafiou Lina – Você não faria isso porque uma notícia dessas traria mais angústia do que papai e mamãe aguentariam e você não seria capaz de vê-los sofrer.
Tommy apertou os lábios, frustrado porque ela dizia a verdade.
— Não me desafie, Quengacilina. — murmurou.
— Digo o mesmo, Tomilho.
Os dois se encararam por um tempo e depois Tommy saiu, pisando duro, porta afora. Lina suspirou e, sem dizer nada, se levantou e subiu as escadas, em direção ao quarto de Doroteya. Pandora, sozinha na cozinha, sorriu, excitada.
Morar em Ventobravo era muito mais animado que na fazenda.
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(CONTINUA...)
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