Herdeiros da Guerra
39 Capítulo XXVI – A coroação (PARTE I)
Notas iniciais
Doroteya batia um bolo na cozinha, enquanto olhava o sol entrando pela janela, iluminando as ervas que agora mantinha em vasos na cozinha. O inverno se fora, a primavera chegara e agora o pequeno jardim crescia vigorosamente, sendo bem cuidado pela druidesa atenta. Sorriu, admirando o dia maravilhoso que começava, pensando em o quanto amava as pessoas que comeriam daquele maravilhoso bolo que fazia, quando ouviu um barulho as suas costas. Virou-se e viu Tommy, entrando na cozinha. Seu coração disparou. Ele estava sem camisa, e seu peito, agora definido, reluzia com os raios de sol que entravam da janela. Quando seus olhos se encontraram, um sorriso lindo tomou conta de seus lábios.
— Doro… — chamou ele com a voz suave.
— Oi… — cumprimentou a druidesa sorrindo e sentindo o rosto arder.
Ele se aproximou mais e abriu os braços.
— Como estou? Estou bonito? — perguntou.
— Errr… — foi tudo que ela disse, diminuindo o ritmo em que batia o bolo. Seus olhos agora desceram para o peito reluzente e não conseguiram mais sair de lá.
— Estou bonito? — repetiu.
Sem saber porque de repente sua voz sumira, Doroteya só pode continuar batendo o bolo, numa velocidade muito lenta. Tommy abriu ainda mais seu sorriso e caminhou até ficar em frente a ela. Colocou o dedo na massa da tigela e provou, olhando-a intensamente.
— Muito bom… — ele sussurrou.
Sem saber o que fazer, a druidesa apenas encarava os penetrantes olhos verdes.
— Sabe, poderíamos fazer algo bem interessante… — murmurou Tommy tirando a tigela de suas mãos e colocando-a na pia.
— É-É? — gaguejou tropeçando nas palavras no momento em que ele grudou seu corpo no dela e aproximou o rosto.
— Sim… — sussurrou de forma sensual – Podemos… Martelar…
— O quê? — perguntou Doroteya sem entender.
— Martelar! — e ele riu divertido, com um martelo que surgira do nada em sua mão.
Diante do olhar confuso da druidesa, ele começou a martelar a parede. Martelar. Martelar. Martelar.
E foi quando Doroteya acordou.
As marteladas que se infiltraram em seus sonhos ecoavam pelas paredes do quarto enquanto a mulher sentava-se na cama, confusa e com o coração ainda acelerado. O que fora aquele sonho? Passou a mão pelos seus cabelos rebeldes, incomodada com a sensação estranha que tomava conta de seu corpo e alma naquele momento. Respirou fundo para acalmar as batidas de seu coração, que pareciam estar no mesmo ritmo do barulho lá fora. Sentiu-se de repente muito envergonhada. Não queria pensar nem analisar aquele estranho sonho, onde Tommy a olhara de forma tão intensa e maliciosa. Não queria pensar que gostara daquilo. Como poderia ter esse tipo de sonho ao lado de seu filho? Olhou rapidamente para o lado, para onde Theo dormia, mas ele não estava lá. Antes de entrar em desespero, lembrou-se de que mais cedo Lina viera buscá-lo para ir à feira e do menino lhe sapecou um beijo. Ela dormira novamente em seguida. E então tivera aquele sonho. Enrubescendo, jogou os lençóis para o lado, e ficou de pé, como se quisesse se livrar do sonho com aquele gesto. Rapidamente vestiu o robe por cima do pijama e saiu do quarto.
Assim que saiu para o corredor, viu que, na escada, estava Tommy, martelando com vontade, concentrado e com a testa franzida. Ele estava sem camisa, como em seu sonho, e o suor escorria pelo peito, agora bem mais musculosos do que meses atrás. O rosto de Doroteya ardeu, e as sensações do sonho a dominaram novamente. Parou onde estava e ficou admirando o homem que continuava seu trabalho, alheio a sua presença. Pouco depois ele finalmente parou, respirou fundo, colocou o martelo de lado, pegou uma toalha e limpou o suor. Quando ele se espreguiçou, virou a cabeça para estirar os músculos do pescoço e então a viu.
— Doro! — exclamou ele rindo – Bom dia!
O olhar era bem diferente daquele de seu sonho, mas, ainda assim, e Doroteya não conseguiu dizer uma palavra.
— O que foi? — perguntou Tommy, o rosto ficando preocupado – Eu a acordei? Está chateada?
Isso a tirou de seu torpor.
— Não! — disse apressadamente – Eu só… — ela respirou fundo – Só estou acordando ainda…
Aliviado, ele abriu ainda mais o sorriso. Levantou-se e a druidesa percebeu que ele estava do outro lado da escada, como se flutuasse. Então, abriu uma portinhola e mostrou a ela o seu trabalho.
— O elevador está pronto! — anunciou – Veja!
Doroteya precisou de um esforço extra para fazer suas pernas se moverem. Quando se aproximou, pode ter uma boa visão do elevador rústico que Tommy concluíra. Era uma plataforma, fechada em três lados com madeira, mas que se abria para a entrada do usuário e para o corredor do primeiro andar.
— Ficou ótimo! — elogiou ela, sua tensão se dispersando – Já testou?
— Ainda não. Quer testar comigo? — quis saber.
— Bem… — ela olhou para o pequeno espaço do elevador, onde provavelmente seus corpos se tocariam – Preciso ir no banheiro. — disse rapidamente – É urgente.
Tommy acenou com a cabeça, sem perceber a hesitação dela.
— Tudo bem. Depois lhe mostro.
Doroteya saiu tão rápido de lá que Tommy gargalhou imaginando que ela deveria estar bem apertada mesmo. A imagem dela em forma de cervo fazendo xixi na floresta ainda povoava sua imaginação e, desde que ela lhe dissera que fazia isso às vezes, ele a importunava com questões sobre a situação: já fizera xixi em cima de algum bichinho? Já teve algo grudado no pelo que aparecera em sua roupa depois? Alguém já a flagrou naquele momento? Isso o divertia e a deixava encabulada, mas ela sempre respondia. E ainda rindo, ele pôs o elevador para funcionar, enquanto, no banheiro, Doroteya tinha seus próprios pensamentos, e nenhum dele era referente ao que imaginava Tommy.
No banheiro, Doroteya se despiu e logo entrou no chuveiro. Diferente de Lina e Arshe, ela não gostava de banheiras e só se sentia realmente limpa quando a água escorria por seu corpo. Deixou-se ficar sob o jato, e olhos fechados, querendo que a água limpasse toda a culpa que lhe assaltava agora. Sonhara com Tommy de uma forma inapropriada, admitia. De onde saíram aqueles pensamentos? Tommy nunca lhe faltara com respeito, nunca fizera nada que pudesse despertar aquelas sensações, mas agora estavam lá. Não, tinha que se livrar delas. Não tinha o direito de pensar daquela forma. Não tinha, porque Liam estava morto.
E seu corpo morrera com ele.
Colocando a mão no ventre, lembrou que já fazia um ano que simplesmente parara de menstruar. Foi logo após Liam morrer. Primeiro pensou que fosse por causa de sua maldição dos worgens, mas logo em seguida soube que outras worgenis continuavam com seus ciclos sem nenhum problema. Ela não. Era como se algo dentro dela tivesse se apagado, sumido, suprimido. Não se sentia uma mulher completa. Sentia como se faltasse um pedaço de si mesma. Então, qual o direito que tinha de desejar algo mais que seu próprio luto?
— Esqueça disso… — murmurou para si mesma – Ele jamais a olharia de outra forma além de como ‘mãe de Theo’.
Desligou o chuveiro e foi se vestir.
Quando saiu do quarto, já vestida e penteada, Tommy não estava mais na escada. O elevador estava rente ao chão, o que significava que ele havia funcionado. O engenheiro também já limpara tudo e parecia que o elevador sempre estivera ali, desde o começo. A ideia de colocar o elevador fora de Lina, pois além de seus pais já idosos que em breve viriam, a comandante também convidara dois sobrinhos: uma adolescente chamada Pandora e seu irmão, Pietro. Pelo que a amiga lhe falara, aqueles dois eram muito queridos e, sem dúvida, seus favoritos. Tommy concordara que o elevador era essencial, pois Pietro não andava e se locomovia numa cadeira de rodas. Assim, ele mesmo o fizera e instalara na escada. Doroteya não perguntara porque Pietro andava numa cadeira de rodas, mas acreditava que o assunto seria abordado quando o menino chegasse.
Ao entrar na cozinha, pensou em fazer um bolo e a ideia a deixou envergonhada. Xingando-se mentalmente, afastou esses pensamentos, pegou os ingredientes e passou a bater o bolo com voracidade. Teve vontade de se xingar quando se aproximou da janela, exatamente como em seu sonho. Seu coração se acelerou na mesma hora, mas relaxou quando viu pela janela da cozinha que Tommy estava lá fora e definitivamente não tinha como chegar por trás dela. O homem estava ajeitando a pequena cerca que criara para a horta que Doroteya sugeriu que tivessem. Assim sempre teriam verduras e legumes frescos. As cercas eram para impedir que os animais de Lina pisoteassem as mudinhas recém-plantadas. A druidesa sorriu pensando se, em breve, não teriam como colocar um galinheiro ali também. Ter ovos frescos seria excelente, principalmente porque era o único produto, além de leite, que ela consumia dos animais. Tommy terminou o ajuste e viu que ela o olhava pela janela da cozinha e sorriu, se dirigindo para lá. Doroteya começou a bater o bolo mais rápido.
— Ficou bom, Doro? — perguntou apontando para a horta com o martelo.
— Está ótimo! — exclamou, satisfeita pelo fato de ele estar completamente normal – Mal vejo a hora dos tomates ficarem bons!
— Se eles continuarem crescendo nesse ritmo, teremos muitos tomates antes do Jardinova chegar. – ele lhe sorriu – Você tem o dedo verde, hein?
Doroteya parou de bater o bolo, sem entender.
— Dedo verde? — perguntou.
— Quando uma pessoa tem mão boa para plantar, dizemos que ela tem ‘dedo verde’. — explicou se encostando na janela pelo lado de fora – E acho que você tem um desses.
— Eu sou uma druidesa não é? — riu-se ela pousando a vasilha do bolo na pia. Estava na hora de colocá-lo no forno.
— É verdade. — ele a observou despejar a massa na forma untada – É para papai e mamãe? — perguntou – Está bem cheiroso.
— É sim. — respondeu – Vou colocar uma calda por cima e vais er nossa sobremesa hoje. Mas quero fazer mais um. Seus sobrinhos gostam mais de bolo de chocolate, não é? Lina comentou algo assim.
— Ah, eles comem de tudo, não se preocupe! Lina apenas gosta de mimá-los!
— Ela era assim com seus filhos? — quis saber.
O assunto já deixara de ser um tabu na casa. Apesar de ainda ficar triste com a falta que sentia dos filhos, Tommy deixara o sofrido luto para entrar no estágio de uma nostálgica saudade. Claro, sempre sofreria pela perda dos filhos, mas a dor estava se tornando mais suportável a cada dia.
— Ah, com eles era muito pior! — um sorriso se abriu – Ela os mimava o tempo todo!
A lembrança foi precedida de um silêncio respeitoso e Tommy então se desencostou da janela.
— Preciso de um banho! — falou se encaminhando para a porta da cozinha – Parece que é verão e não primavera!
— Ei! — exclamou Doroteya barrando a entrada dele na casa – Lembra do que Lina falou? Quando trabalhar no quintal, use o chuveiro de lá! Ela não quer a casa suja!
Tommy revirou os olhos e se encaminhou para o chuveiro do quintal, que ficava do lado do estábulo.
— Quem vê a comandante toda posuda na Bastilha será que desconfia que ela é uma dona de casa muito chata? — perguntou ele abrindo a porta do banheirinho e desaparecendo lá.
— Eles com certeza sabem que ela mantêm tudo em ordem! — gritou-lhe Doroteya da cozinha arrancando risadas dele.
Aquela conversa despretensiosa com Tommy a relaxou e ela pôs o bolo no forno. Era tão fácil conversar com ele! Tommy parecia entendê-la como ninguém antes. Claro, havia Lina e Arshe, mas era diferente. Ele se tornara um baluarte para ela, principalmente por causa da relação que o homem tinha com seu filho. E, por Eluna, Theo estava tão apegado a Tommy que já estava até pegando os trejeitos dele! Recentemente o menino fizera questão de cortar o cabelo bem rente, igual ao de Tommy, se desfazendo dos cachos cultivados desde sempre. Apesar de ter chorado ao ver os caracóis ruivos caírem no chão enquanto manipulava a tesoura, ficou satisfeita com a alegria do menino. E como ele parecera ainda maior com o cabelo curtinho! Logo Theo faria 8 anos, e as lembranças que tinha tanto de Guilneas quanto do pai ficariam mais e mais difusas. Será que ele se tornaria mais um cidadão de Ventobravo que um guilneano? Perderia a vontade de reconquistar Guilneas, como outras crianças vinham fazendo desde a derrota na guerra? Só o tempo diria.
Doroteya colocou o bolo no forno e foi lavar os pratos, já estranhando a demora de Lina. Porém, como a comandante fora bem cedo, horário de maior movimento na feira, e com uma lista enorme de coisas para comprar, era de se esperar que demorasse. Naquele dia, a única tarefa da comandante era fazer a verificação da ronda da bastilha à tarde. Desde seu incidente no Véu de Inverno e da defesa do rei a ela, parecia que o general Crowe entrara em uma competição silenciosa por poder contra Lina. E a situação só se agravara com os boatos que Varian era apaixonado por ela. Isso parecia ter desencadeado uma onda de inveja inusitada entre os de maior patente, e uma paixão que beirava a religiosidade dos de baixa patente por Lina. A bastilha parecia ter se dividido em duas, porém, o mais impressionante era que nada parecia atingir Lina. A comandante erguera uma barreira de placidez ao seu redor que era impenetrável.
— Que os outros se matem! — havia dito ela certa vez – Mas não o façam dentro da bastilha, para eu não ter que mandar limpar a sujeira!
Doroteya riu da lembrança. Lina era incrível mesmo.
— Lembrando de uma piada?
Gritando assustada, Doroteya deixou a vasilha que segurava cair. Por sorte, a pia estava cheia de água e o objeto não se partiu. Levantou os olhos e Tommy estava parado na janela da cozinha, com a cabeça toda ensaboada e um sorriso envergonhado no rosto.
— Desculpe! — pediu sem olhar para ela – Esqueci de repor minha muda de roupa limpa no banheiro. — explicou com o rosto escarlate – Poderia pegar para mim?
No início ela pensou que a vergonha dele era porque estava fazendo aquele pedido, mas logo reparou que Tommy usava apenas uma minúscula toalha que cobria suas partes. Ela sentiu que enrubescia também.
— Vou pegar. — disse rapidamente, se afastando com igual velocidade da cozinha.
Por que tudo naquele dia decidira convergir para que lembrasse daquele sonho? Já estava quase esquecendo-o, aí Tommy aparece seminu na janela fazendo-a relembrar da sensação que tivera ao acordar! Devia ser uma provação de Eluna, era a única explicação, pensou enquanto apanhava uma roupa para ele no quarto que antes era de Fey. Lembrou também de levar uma roupa de baixo, e seu rosto ficou ainda mais quente.
Desceu rapidamente e entregou a roupa ao homem, e os dois evitaram que seus olhos se encontrassem.
— Obrigado. — murmurou ele antes de voltar correndo para o banheiro.
Porém, o mal já estava feito. Em vez de voltar a lavar os pratos, Doroteya se pegou olhando pela janela e vendo o resto do banho de Tommy. O banheiro só permitia que ela visse dos joelhos para baixo e dos ombros para cima, mas era o suficiente para sua imaginação trabalhar. Pensava em como seria alisar a pele molhada dele, em como suas mãos calejadas tocariam em seu corpo… Qual seria o gosto dele? Devia ser bom, porque o cheiro era maravilhoso… E não era cheiro de perfume, era o cheiro da pele de Tommy, de seu suor e dos seus cabelos… Como worgenin, ela tinha um olfato muito apurado e, às vezes, até evitava ficar perto dele em sua forma lupina, pois o cheiro dele era ainda mais forte e a deixava estranhamente entusiasmada.
Será…. Pensou com o coração aos pulos, que estava desejando Tommy?
Um barulho na porta da frente a tirou dos devaneios e ela pôs a lavar a louça com vigor, evitando olhar para o quintal. Logo ela ouviu os as vozes animadas de Theo e Lina e seu coração se acalmou instantaneamente. Não havia espaço para ninguém mais em sua mente quando seu filho aparecia.
— Bom dia, vocês dois. — disse sorrindo se virando para a porta quando eles entraram.
— Olha mãe, compramos um montão de coisas! — disse Theo com os bracinhos cheios de sacolas – Compramos até o pão daquela padaria que a senhora gosta!
— Como temos muita coisa para fazer hoje, decidi que era melhor já trazer o pão da manhã pronto. — explicou Lina – Você já tá fazendo? — perguntou vendo que o forno estava sendo usado.
— Não, é bolo. — explicou e ficou com o rosto em brasa, sem entende porque – Que bom que você trouxe o pão, eu tinha esquecido completamente dele!
— Com o sono que você estava mais cedo, imaginei que isso aconteceria. — Lina riu – Você nem abriu os olhos para falar comigo!
— A tia Lina ficou com medo que você não lembrasse que eu ia sair com ela e achasse que alguém tinha me sequestrado! — disse Theo muito sério.
— Foi quase isso. — a druidesa se abaixou e deu um beijo no filho – Vou já fazer um café, mas primeiro vamos guardar essas coisas, certo?
Os três trabalharam rápido e quando Tommy entrou na cozinha, devidamente limpo e vestido, tudo estava guardado e eles já tomavam café e comiam pão. Tommy e Doroteya se olharam brevemente, mas logo desviaram a vista um do outro.
— Parece que minha irmãzinha está aproveitando que o Crowe anda querendo se mostrar ao rei. — riu-se Tommy – Você sempre foi de chegar na bastilha ao nascer do sol e hoje fez até umas comprinhas!
Tommy sabia da implicação de Crowe com sua irmã, mas imaginava que isso se devia ao problema com os Jones. Como estava afastado do exército, Tommy não ouvira um boato sequer sobre a paixão do rei, e sua bondade o fizera imaginar que a visita de Varian fora pura e simplesmente por todo serviço prestado pela irmã a Ventobravo. Era melhor que fosse assim, pensava a comandante. Tommy jamais reagiria bem a ideia do rei apaixonado por ela.
— Eu gosto que tia Lina passe mais tempo em casa. — disse Theo tomando uma xícara grande de leite com canela e mel.
— Bem, ao menos alguém aqui curte minha companhia. — brincou Lina alisando a cabeça de Theo – Já que meu próprio irmão quer me ver pelas costas!
— Só estou surpreso de você ainda não ter arrancado a cabeça do generaleco com ele se achando pela bastilha. — explicou-se Tommy sentando ao lado e Theo.
— Claro que me incomoda vê-lo se achando o dono de tudo. — disse Lina enchendo sua caneca com mais café – Mas de quê adianta ele se achar se quem manda mesmo sou eu? — e deu um sorrisinho atrevido.
Todos deram risadas, mas apenas Lina sabia como aquilo a incomodava. Incomodava e muito. Mas também era engraçado, porque Crowe a considerava uma inimiga, enquanto para ela, ele era apenas um mosquito incômodo zunindo em seu ouvido. As atitudes do general já o fizeram ser motivos de piadas, principalmente entre os recrutas. Muitos até disseram que Crowe estava competindo com ela não pelo controle da bastilha, mas pelo coração do rei. Riu ao pensar nisso.
— Hoje tenho mais um motivo para chegar mais tarde. — esclareceu – Vou ajudar Mel e Fey com o vestido de Arshe e os apetrechos deles. Ela fez questão de dizer que queria eu e Doro lá para opinar sobre o vestido.
— Por que tia? — quis saber Theo agora devorando um pedaço de pão.
— Porque é o vestido para o baile de Jardinova do Kirin Tor. — explicou – Ela foi convidada porque é uma ex aluna de lá. E como é o primeiro baile do Kirin Tor que vai como princesa também, ela quer que seja o vestido mais bonito de todos.
A verdade era um pouco mais complicada que aquilo também. Arshe iria para o primeiro baile depois que rompera com Kayliel. Era uma possibilidade que ele estivesse lá, como também era possível que não. Era a oportunidade de Arshe de mostrar sua superação. Como era um baile do Kirin Tor, ou seja, neutro, ela não poderia levar Lina como escolta daquela vez. Nem mesmo podia levar escolta. Isso fazia o cérebro de Lina fervilhar, mas não podia fazer nada.
Não tinham ainda terminado de comer quando Fey e Mel chegaram, com o vestido devidamente ensacado e todas as coisas deles. Os dois estavam com olheiras, pois passaram a noite toda adiantando a costura para que Arshe pudesse fazer a prova naquela manhã. A princesa tinha alugado uma carruagem apenas para levá-los até a bastilha, pois não queria que ninguém visse sequer um vislumbre do seu traje, ainda que seus irmãos houvessem garantido que ele iria dentro de uma capa preta. Lina até que gostava da ideia de deixar Crowe atarefado com as centenas de soldados em seu rastro enquanto olhava a prova de vestido de Arshe. Se não tivesse que reorganizar tudo depois, seria bem mais satisfatório.
— Ainda comendo? — foi logo dizendo Mel – Temos que ir!
Se seu irmão não fosse careca, Lina tinha certeza que ele estaria descabelado.
— Tenha calma! — reclamou Lina – Sentem e comam alguma coisa!
— Se eu comer vou vomitar! — choramingou Fey que, diferente do irmão, tinha muito cabelo e este estava todo desarrumado – Estou ansioso demais pra saber a opinião dela!
— Estamos irmãozinho, estamos! — completou Mel.
— A carruagem nem chegou! — lembrou a comandante.
Todavia, assim que falou, ouviram o barulho dos cavalos e da roda parando lá fora. Os alfaiates a olharam de forma tão intensa que Lina achou que a matariam se não se mexesse naquele momento.
Lina respirou fundo e colocou a caneca na mesa. Doroteya fez o mesmo. Se despediram de Theo e de Tommy, que deu um sorriso lindo para Doroteya, que ficou sem jeito e saiu da cozinha olhando para os próprios pés. Ajudaram Fey e Mel a carregar as coisas para a carruagem e partiram em seguida. Tão logo chegaram na bastilha, vários soldados abriram o sorriso aliviado ao verem Lina descendo da carruagem. Doroteya achava que o sorriso lhe lembrava de crianças sorrindo quando a mãe vem lhes socorrer. Seria Lina a mãe da bastilha?, pensou rindo consigo mesma.
— Ah, um sorriso finalmente. — disse-lhe Lina pegando as coisas de seus irmãos.
— Como? — perguntou, a culpa voltando a bater em seu coração.
— Você estava muito séria essa manhã. — explicou a comandante – Passou toda a refeição calada. — e a encarando, perguntou – Ainda é por causa da missa?
Semanas atrás, quando fez um ano da morte de Liam, foi feita uma grande cerimônia na capela da Luz em sua homenagem. Claro, Greymane deu ordens expressas para que ninguém deixasse Doroteya participar da missa. Lina quis quebrar a cara do rei cachorro em duas, mas a druidesa a acalmou. Ela não queria ir. Sabia que o local da cerimônia não importava. A alma de Liam receberiam as preces de todos em qualquer lugar. Então, decidiu fazer algo na casa deles. Improvisou umas palavras e algumas velas. Theo falou das coisas boas que lembrava o pai. Rezaram todos juntos e Fey e Mel choraram copiosamente. Tommy pegara sua mão e a consolara. Apesar de Lina não querer ir na capela, Doroteya disse que era dever dela como comandante e que o melhor a ser feito era oferecer uma vela para Liam, ela mesma, quando estivesse lá. Claro, chorara por isso, mas ao refletir depois, percebeu que chorara não apenas pelas saudades que sentiam de Liam, e sim pelo fato de que era muito fácil demonizar o amor. Bastava que algumas pessoas não aprovasse, ou tivessem inveja, para que algo tão bonito se perdesse. Era isso que acontecera com seu amor por Liam: fora tão machucado e ferido que perdera a essência de pureza que tinha. Foi quando percebeu o quanto estava cansada de se sentir culpada por simplesmente amar.
— Não, não é por causa da missa. — disse pegando a caixa de costura.
— E o que é então? — insistiu a outra.
Doroteya estava pensando no que responder quando Fey e Mel começaram a fazer escândalo porque elas não andavam rápido suficiente. Então, subiram as escadas da bastilha, sob as reclamações dos dois, até chegarem à entrada. Quando viram Lina, os soldados ficaram mais eretos, como se quisessem passar a impressão de serem ainda mais intimidadores. E já estavam lá dentro quando um soldado se encaminhou rapidamente na direção dela.
— Comandante! — chamou parecendo angustiado – Ainda bem que você chegou! Tem um-
— Só entro em serviço ao meio-dia, Sanchez. — Lina o cortou – Procure o general Crowe.
— M-Mas, senhora… — gaguejou ele – É urgente!
O lado responsável de Lina falou mais alto e ela parou de andar para atender o soldado. Fey e Mel reviraram os olhos e pararam também. Depois que o soldado falou tudo e que Lina lhe dera diretrizes de como agir, o rapaz abriu um sorriso e foi logo resolver a situação. A comandante bufou.
— Se Crowe quer competir comigo deveria, pelo menos, fazer seu trabalho direito. — resmungou antes de voltar a andar, dessa vez mais rápido.
Fey e Mel se entreolharam. Diferente de Tommy, os dois conheciam os boatos do castelo, pois tinham amigos no exército. Porém, Lina não sabia que eles sabiam. Na verdade, se ela desconfiasse do que eles sabiam, ficaria horrorizada.
Pois eles já sabiam que seu amante secreto era o rei Varian.
Na verdade, não foi difícil para os dois descobrirem. Tal como Amara, Fey e Mel eram pessoas que não deixavam escapar nada. Então, quando o rei aparecera na casa deles com um buquê de flores, um alerta acendeu em suas cabeças. E bastou uma olhada mais detalhada no físico do rei para perceberem que suas medidas eram exatamente as mesmas que Lina lhes dera para costurar o pijama. Aliado a isso, a lembrança da atitude dela no Véu de Inverno, de querer esconder a identidade do amante, seu choro e hesitação, os fez perceber a grande enrascada que sua irmãzinha estava metida. Além da imensa sorte que ela tivera, é claro. Os boatos apenas confirmaram as suspeitas dos dois. Então, tiveram uma conversa entre si. Como os boatos lhes diziam que sua irmã não queriam o rei, eles os alimentaram ainda mais. Sabiam que disso dependia a carreira dela. Sempre que alguém comentavam algo, faziam questão de pintar Lina como uma mulher fria e que não gostava de relacionamentos, e que costumava não se interessar por nada que não fosse o exército. Fora fácil alimentar essa imagem, porque muitos já a tinham. Assim, puderam manter aquele romance escondido e, principalmente, manter Tommy alheio a tudo.
Arshe os esperava no quarto. As servas olharam com surpresa ao verem Fey e Mel entrando, mas os irmãos de Lina foram logo dizendo:
— Nós não somos perigo para mulher nenhuma! — anunciou Mel sem nenhum pingo de vergonha.
— Se fosse o rei aqui, aí sim, podiam ficar preocupadas! — completou Fey.
Lina caiu na risada e foi só por isso que as servas riram também. Elas também sabiam do boato e torciam secretamente para que o rei se cassasse com Lina. Ver um rei casar com uma moça saída do campo seria a realização da vida daquelas mulheres que já tinham passado maus bocados nas mãos de alguns nobres.
— Vocês demoraram! — reclamou a princesa assim que entraram – Estou louca para ver meu vestido!
— Bom dia para você também, alteza. — zombou Lina colocando as coisas dos irmãos em cima da mesa.
Arshe revirou os olhos.
— Aiai, você sabe como estou ansiosa com essa prova! — reclamou, mas, mesmo assim, disse – Bom dia pessoal! Pronto! Posso ver o vestido agora?
Como conhecia Arshe o suficiente para não ficar chateada com aquilo ou enchê-la de bolachas, Lina apenas riu e começou a ajudar seus irmãos a montarem seu ambiente de trabalho, acompanhados de Doroteya. Quando tiraram o vestido de sua capa protetora, Arshe deu um gritinho de felicidade.
— É lindo! — exclamou se aproximando e tocando no vestido com reverência.
— Ele ainda não está pronto. — disse Fey com as bochechas corando diante do elogio de Arshe – Mas já dá para ter uma ideia de como vai ficar.
— Não tá pronto, mas já é o vestido mais bonito que eu vi! — Arshe acariciava o vestido com um carinho descomunal.
— Levamos a sério seu pedido de que seu vestido fosse mais bonito que o de nossa irmãzinha no baile passado. — proclamou Mel com visível orgulho.
— Como se você precisasse pedir isso. — disse Lina cruzando os braços – Esses aí arrancariam as próprias tripas para costurar algo para você, caso faltasse linha!
Exceto Doroteya, todos os outros fizeram careta diante da sugestão. E não demorou muito para que Arshe estivesse finalmente com o vestido no corpo, em cima do seu banquinho de prova, com Fey e Mel ao seu redor, propondo ajustes e outras coisas. Lina ficou sentada ao lado de Doroteya, observando a cena e rindo ocasionalmente dos comentários dos três.
— Você fica bem de vermelho. — elogiou Doroteya.
— Ideia minha. — orgulhou-se Lina – Está na hora de ela parecer uma mulher e não uma menina de doze anos.
— Qual o problema de parecer ter doze anos? — perguntou Arshe franzido a testa.
— Porque você não tem doze anos! — exclamou Lina fechando a cara – Tá na hora de começar a parecer mais mulher, Arshe, ou não vai atrair pretendentes nenhum!
Arshe resmungou alguma coisa, mas não disse mais nada. As servas se entreolharam e balançaram a cabeça afirmativamente. Concordavam com Lina. Arshe precisava mesmo de uma mulher mais velha para conduzi-la à maturidade: a jovem ainda era muito mimada e infantilizada, por ser sempre superprotegida por todos os homens a sua volta. Lina arrancara Arshe de dentro de sua concha e a levara para o mundo, mostrando como a realidade era. E isso estava visivelmente mudando a princesa. Primeiro, Lina começara levando-a para caminhar toda a tarde, para que tomasse sol e fizesse um pouco de exercício. Isso tirara a palidez exagerada que Arshe tinha e lhe deram um ar rosado e saudável, que fez com que a beleza aristocrática da jovem se destacasse ainda mais. Além disso, também estava cuidando de sua alimentação, a incentivando a comer de forma mais saudável e reduzindo o açúcar consideravelmente. Isso melhorara e muito a insônia da maga, que agora estava praticamente sem olheiras. E seu corpo também mudara. Arshe agora adquiria uma musculatura discreta, porém firme e os seus seios pareciam maiores e mais arredondados. A princesa nunca estivera tão linda.
Anduin também fora afetado. O menino sempre tinha um tempo com a comandante, que assumira sua educação militar e estava lhe dando treino com adagas e com arcos. O menino não era bom em combate, mas a intenção de Lina era que ele pudesse se defender, não atacar. Por isso, os treinos eram em seus períodos de folga; a maior parte do tempo de Anduin ainda era gasto entre os livros.
Essas pequenas coisas fizeram tanta diferença na dinâmica da bastilha que as conversas na cozinha diziam que a comandante estava se tornando a dona daquele castelo. As mais velhas diziam que ela já era dona daquele lugar muito antes de ser dona do coração do rei, e isso as agradava muito. Lina era uma presença feminina reconfortante e forte em um lugar que fora tão masculino por tanto tempo. Nenhuma serva mais se sentia insegura andando entre tantos soldados homens. As mais velhas lembravam muito dos assédios que sofriam antes de Lina e que ninguém tinha coragem de contar, afinal, Fordragon era homem e, apesar do bom coração, elas tinham receio de que ele fosse julgá-las. Com Lina, quando as primeiras reclamações surgiram, ela agiu tão rápido e puniu tão exemplarmente os culpados, que os assédios praticamente pararam. O ambiente era outro agora. A torcida para que Varian conquistasse o coração da reservada comandante era tanta que muitas senhoras já planejavam por poções do amor na comida dela.
— Esse decote tá muito pequeno. — reclamou Lina se levantando e indo até onde Arshe estava – Vejam, ela tem peitos agora. Que tal mostrar um pouco?
— Ela é uma princesa! — ralhou Mel – Não pode usar nada muito provocativo!
— Não estou dizendo que ela vá mostrar os mamilos! — defendeu-se – Mas um pouquinho de peito não fariam mal nenhum!
Arshe analisou sua imagem no espelho e ficou pensativa.
— O que acha Doro? — perguntou olhando para a druidesa.
Doroteya percorreu seus olhos no vestido antes de falar:
— É uma boa ideia. Como Lina disse, você deveria parecer mais mulher. Um leve decote mostraria isso.
Arshe abriu um sorriso.
— Certo! Um pouco de decote então! Mas só um pouquinho! — avisou olhando para os alfaiates.
— Agora mesmo! — disse Mel sorrindo como se nunca tivesse se oposto à ideia. Lina revirou os olhos.
Logo eles começaram a mexer até o decote estar em um tamanho que tanto Lina quanto Arshe concordaram. Era um decote que Lina achava muito pouco, pois mostrava apenas a curvatura dos seios da princesa, mas, comparado ao que ela sempre usara, era quase uma indecência.
— Ficará lindo. — disse a comandante com sinceridade – Você será a mulher mais linda do baile. — afirmou com convicção.
— Ahhh… — os olhos de Arshe se encheram de lágrimas – Obrigada, Lina. — rapidamente Fey deu um lenço para a princesa limpar os molhados olhos azuis – Você não sabe quanto significa para mim ter você e Doro comigo hoje. Sabe, não parece muito, só uma prova de roupa, mas…
Lina tocou na mão da princesa e sorriu.
— Eu sei. — e olhando para Doroteya, que também sorria, complementou – Nós sabemos.
Arshe sorriu também.
Houve uma batida na porta e Arshe deu um gritinho angustiado que fez Lina colocar a mão no ouvido. Que voz aguda!
— Ninguém entra! — foi dizendo a princesa – Ninguém vai ver meu vestido antes da hora!
— Calma Arshe. — pediu Lina levantando as mãos – Eu verei quem é.
— Se for titio ou Anduin, diga a eles que não tem autorização de me ver antes da hora! — foi dizendo a princesa antes de ser coberta por um bimbo pelos alfaiates.
Mas não era Varian ou Anduin, mas Brienne. A subtenente bateu continência para Lina, que retribuiu.
— Comandante, poderia vir comigo?
— Ela tá de folga! — gritou Arshe detrás do biombo – Procure Crowe!
Brienna ficou sem jeito e Lina teve um pouco de pena da jovem.
— Vou só ouvir o que ela tem a dizer, Arshe. — disse saindo e fechando a porta atrás de si, ainda ouvindo as reclamações da princesa. Suspirou antes de dizer – Fale, Brienna.
— Detectamos uma falha na segurança na ala leste. — disse seriamente – Achamos as defesas mágicas quebradas e alguns rastros. Mas não achamos ninguém.
Toda a serenidade e tranquilidade de Lina foram embora no mesmo instante. Sua postura mudou e o ar de comando tomou conta de sua face. Só aquela atenção da parte dela já deixou a jovem subtenente mais calma. O primeiro impulso de Lina foi ir verificar o local, mas lembrou que agora havia um pavão em forma de general mostrando o rabo cheio de plumas por ai. Por isso, hesitou.
— Já reportou isso ao general Crowe? — quis saber.
— Tentei. Mas ninguém acha o general em lugar nenhum.
“Estava demorando…” pensou Lina. Mas não foi isso que ela falou.
— Certo. Vamos verificar essas falhas. — foi o que disse – Traga minhas armas, estão na minha sala, e junte alguns soldados.
A expressão de alívio no rosto de Brienne foi visível.
— Sim, senhora!
— Espere apenas eu dar notícias a uma princesa que ficará bem chateada. — avisou Lina antes de entrar no quarto.
Apesar de ter dito isso, Lina estava tranquila. Sabia que o desgosto de Arshe ficaria todo para Crowe e não para ela. E quando Arshe ficava irritada, não era muito agradável. Já podia imaginar a princesa dando um charmoso e educado sermão em Crowe, com os olhos azuis brilhando em fúria. Afinal, a ausência do comandante pôs a bastilha em risco. E atrapalhou a prova de seu vestido. É, seria divertido de se ver, pensou Lina. Por isso, voltou para o quarto com um leve sorriso no rosto e uma determinação no olhar.
*****************
Aethas já estava acordado desde a primeira luz do sol, mas não queria levantar e nem mesmo se mexer. Com Vivithi em seus braços, ele aproveitava a luminosidade que entrava pela janela para admirar o rosto perfeito da elfa, que dormia profundamente.
Era como estar num sonho, pensava o elfo. Até pouco tempo atrás odiava aquela criatura e agora não imaginava como vivera tanto tempo sem ela. Ainda que o relacionamento deles não pudesse sequer ser chamado de relacionamento, estava feliz da forma como as coisas estavam se encaminhando. Primeiro, arrumara aquele quarto, para o desgosto dos muitos elfos que visitavam Dalaran. Afinal, o melhor local da estalagem agora era apenas dos dois, por tempo indeterminado. Foi uma surpresa ver as coisas que Uda arrumou para que eles se sentissem mais à vontade. Ela realmente queria passar a perna no Kirin Tor, pensou sem saber se ficava feliz ou preocupado com a orquisa. E quando, relutante, levara Vivithi para conferir o local, a elfa logo aprovou.
— Nossa, está muito bom! — dissera se encaminhando diretamente para a janela – Tem flores no quintal agora? — admirou-se vendo os vasos coloridos onde antes tinha apenas um local cinza e vazio.
— Acho que Uda está tentando algo diferente. — disse o elfo, mas é claro que não era aquilo. Ele mesmo pedira que a orquisa deixasse aqueles vasos ali e pelo visto acertara em cheio.
— Está tudo ótimo. — ela dissera virando-se para ele – Agora, feche a porta e tire a roupa.
Aethas sorriu lembrando da cena. Gostava da forma direta de Vivithi e como ela evitava os joguinhos de sedução que a maioria das elfas adorava. Isso fazia com que não fosse apenas ele quem a procurasse, mas que ela também o fizesse. Certa vez ele recebera um chamado dela no meio de uma reunião do Kirin Tor e precisara sair correndo, com a desculpa que estava apertado, para atendê-la. Combinaram de se encontrarem assim que ele saísse de lá e quando ele chegara no quarto da estalagem ela o esperava, nua, na cama.
Mas não era apenas sexo que aquelas paredes já contemplaram. Apesar de não querer alimentar esperanças, que poderiam facilmente se estilhaçar como cristal, Aethas podiam perceber as sutis mudanças que Vivithi deixava escorregar por entre as brechas de sua muralha de proteção. Começara com as visitas se entendendo mais tempo que o previsto e os dois acabaram dormindo ali. Claro, Vivithi não gostara e brigaram, pois ela queria ter ido embora. Fora clara ao dizer que ele tinha que acordá-la para que ela pudesse voltar para casa. Ele, obviamente, aceitou. Porém, depois das primeiras duas vezes que ele a acordou e a mandou para casa, Vivithi dissera, de forma curta e grossa:
— Me deixe dormir, caralho!- e virara para o lado na cama.
E, claro, ele deixara.
Agora, enquanto estava abraçado ao corpo nu dela, com as pernas entrelaçadas, sabia que jamais amaria outra pessoa da mesma forma. Como não desejar estar com ela, quando se olhava aqueles lábios pequenos, ligeiramente entreabertos, que respirava delicadamente perto de seu rosto? Como não admirar o corpo bronzeado, que reluzia ao sol, como se fosse uma pedra preciosa? E como não amar a alma iluminada e restaurada que habitava naquele corpo? Era de se impressionar que apenas ele, de todos os elfos do mundo, havia conquistado aquele espaço na vida dela. Com uma criatura tão maravilhosa, ele já deveria ter matado vários pelo direito de sequer tocá-la. Mas era melhor assim. Sabia que tinha um tesouro escondido e faria de tudo para preservá-lo.
Ainda que, por vezes, se arriscasse.
E ele arriscara muito recentemente.
O baile de Jardinova do Kirin Tor era uma tradição consolidada há séculos. Como membro do conselho, era imprescindível sua presença. Todos os anos Aethas ia desacompanhado, passava a noite dançando com mulheres de todas as raças e depois terminava a noite meio bêbado em sua sala, sentindo-se sozinho e miserável. Porém, aquele ano seria diferente.
Vivithi seria sua acompanhante.
Tomar a decisão de convidá-la não fora difícil, mas ele certamente ponderara muito a respeito. Iria expor a todos sua proximidade com ela, ainda que não expusesse a situação dos dois. Mas queria muito a companhia da elfa naquela noite. Só que o principal problema era: Vivithi aceitaria ir? Aquela era uma questão delicada, mas Aethas decidira pedir a companhia dela de uma forma muito, muito mais arriscada que a própria situação em si.
Ele lhe mandara flores.
O arranjo estava esperando por ela em cima da cama, semanas atrás. Uda tinha ordens de colocá-lo lá quando Vivithi chegasse sozinha, pois Aethas queria lhe dar tempo para pensar. E para decidir matá-lo ou não.
Aethas não vira a expressão de Vivithi ao ver o arranjo, nem sua reação. Ele não vira que, no primeiro momento seu rosto ficara sombrio, depois duvidoso antes dela, por fim, pegar o arranjo. E foi quando sorriu. Estava sozinha afinal, podia se dar o luxo de fraquejar um pouco. Segurou o buquê com delicadeza, sentiu o perfume das flores e depois notou o cartão. A mensagem de Aethas dizia o seguinte:
“Srta Vivithi Theron,
Gostaria de convidá-la para ser minha acompanhante no baile de Jardinova, que acontecerá no sábado dia 31 do mês que entra, na Cidadela Violeta na cidade de Dalaran. Seria um prazer ter sua companhia no evento.
Sinceramente,
Arquimago Aethas Fendessol”
Vivithi arqueou a sobrancelha, achando aquilo tudo formal demais. Mas então olhou atrás do cartão e viu outra mensagem, mais comprida, também escrita por ele.
“Sei que você detesta essas demonstrações de carinho, porém, minha natureza um pouco tradicionalista me fez querer arriscar, afinal, gosto de fazer as coisas como manda o figurino. Na maior parte do tempo pelo menos. Sei que te devo um vestido, então conversei com o alfaiate Marko Berthas e com mestra joalheira Kalinda para fazerem um vestido maravilho para você, por minha conta, claro. O vestido estará pronto em breve, independente de sua resposta, mas eu adoraria tê-la ao meu lado.
PS: Pedi que fizessem o vestido ao “estilo Vivithi”. Eles ficaram muito animados com a ideia.”
Essa mensagem sim lhe arrancara um enorme sorriso. Não apenas isso, fizera brotar uma alegria tão grande em Vivithi que a fez se sentir uma adolescente de novo. Ela tinha vontade de agarrar as flores, se jogar na cama e rolar para os lados de tanta felicidade. Teve vontade também de correr de volta para Luaprata e contar tudo a Luxuriah, rindo alto e pulando. Porém, claro, não fizera nada disso. Apenas sentou na cama, sorrindo e olhando as flores. E assim que Aethas entrou no quarto, alguns minutos depois, ela simplesmente disse:
— Sim.
E fizeram o melhor sexo da vida dos dois.
Agora, Aethas esperava que a chegada dos dois no baile não gerasse uma crise para os Fendessol dentro do Kirin Tor.
Enquanto estava imerso naqueles pensamentos, Vivithi se mexeu e abriu os olhos delicadamente. O coração de Aethas disparou quando os lábios que ele antes admirara falaram suavemente ainda com sinais de sono:
— Bom dia…
— Bom dia. — respondeu.
Vivithi olhou para o teto, ainda sonolenta.
— Faz tempo que amanheceu? — perguntou esfregando os olhos
— Não, amanheceu a pouco. Você tem compromisso?
Ela assentiu, aparentemente contrariada com o fato.
— Halduron aparentemente não confia em mim o suficiente para a proteção de Luaprata durante a coroação. — o rosto dela agora exibia um desgosto que não combinava com uma manhã tão agradável – Fica andando pelas ruas, fazendo inspeções desnecessárias e querendo me desautorizar na frente de meus comandados.
Aethas se apoiou no cotovelo, visivelmente incomodado com o relato.
— Já procurou seu tio e apresentou uma queixa forma? — quis saber.
— De jeito nenhum! — respondeu a elfa, para a surpresa dele – Vou mostrar aquele Alto Elfo metido como um patrulheiro de verdade se comporta!
Apesar de ter ficado do lado dos sin’dorei quando houve a cisão entre o seu povo, Halduron conservava os olhos azuis, como os quel’dorei do Pacto de Prata, além de ser um dos que mais defendiam a reaproximação dos dois grupos. Somos da mesma raça, ele dizia. Devíamos acabar com essa divisão, era um de seus motes favoritos. Aethas admirava a fé do elfo e ao mesmo tempo lamentava a sua ingenuidade. As feridas abertas por Kael’thas não seriam saradas apenas com um belo discurso. Nem mesmo ele era tão otimista.
— Então vocês vão inspecionar juntos a segurança da coroação? — quis saber Aethas, chateado com a chateação de Vivithi.
— Eu vou inspecionar e, aparentemente, ele vai inspecionar minha inspeção. — ela bufou de raiva – Ah, só esse pensamento já estraga minha manhã! — reclamou.
Aethas então a envolveu em seus braços e a beijou com vontade. Vivithi se entrelaçou ainda mais nele, aprofundando o contato. Porém, assim que o beijo se findou, ela não continuou com as carícias; se afastou delicadamente dele e sentou-se na cama.
— Não quero me atrasar. — explicou – Ou darei motivos para que Halduron sinta que tenha razão.
— Tudo bem. — murmurou o mago, escondendo sua tristeza de não poder ficar mais tempo com ela – Quer que eu peça o café da manhã enquanto você toma banho?
Vivithi fez que não com a cabeça.
— Vou tomar banho em casa e engolir algo antes de sair. — e dando um olhar malicioso para ele, explicou – Se eu ficar aqui mais um pouco, não sei se conseguirei sair cedo… — e piscou o olho.
O coração de Aethas bateu tão rápido que parecia que pularia para fora do peito.
— Eu jamais quereria atrapalhar seu trabalho. — endossou ele piscando de volta.
Os dois sorriram e Vivithi se pôs a vestir-se, enquanto Aethas a observava. Queria tê-la em frente aos seus olhos o maior tempo possível.
— Já sabe qual dia você vai para Luaprata? — perguntou ela vestindo a roupa.
— Acredito que após o baile. — respondeu sentando-se na cama – Como é possível que Luxuriah tenha o bebê logo após a coroação, sei que ficarei um bom tempo lá, por isso estou adiando a ida.
— O que o conselho está achando do fato de você ser o representante do Kirin Tor na coroação de sua sobrinha? — quis saber a elfa com um sorriso provocante.
— Eu não serei o representando do Kirin Tor na coroação de Karen. — disse Aethas.
Vivithi estava no meio do processo de pôr a bota no pé e parou, chocada, e o encarou.
— Por que eles te tiraram dessa posição? — a voz dela já destacava a raiva crescente – Você sempre foi o representante deles entre nosso povo!
— Dessa vez fui eu quem recusou. — falou ele, deixando-a ainda mais chocada – Sei que parece estranho para você, e vai parecer para as meninas também, mas achei que seria hipocrisia de minha parte. Os meus sentimentos no momento em que a coroa for posta na cabeça de Karen, será de que tudo transcorra na paz para ela e meu povo, independente do que isso significar para o Kirin Tor. Portanto, não conseguirei ser neutro nessa ocasião.
Da mesma forma que Aethas notara mudanças da parte de Vivithi desde que eles começaram a se encontrar, a elfa também notara algumas em Aethas. Todavia, enquanto as mudanças de Vivithi estavam em um plano mais interno do coração da elfa, as de Aethas eram com sua relação com o Kirin Tor. O arquimago andava mais impaciente e intolerante com as desconfianças e atitude do conselho dos magos e, apesar de deixar esses sentimentos escondidos deles, os deixava bem amostra para Vivithi. No começo ela ficou preocupada, pois caso Aethas perdesse a paciência e a compostura dentro do Kirin Tor, isso afetaria diretamente os elfos sangrentos. Porém, com o tempo, ela começou a gostar de ver aquela veia rebelde surgindo dentro do sempre certinho Aethas Fendessol. Além do mais, essa mudança não era apenas culpa do elfo, mas uma consequência da forma com a qual ele vinha sendo tratado dentro de Dalaran.
— Quem representará o Kirin Tor na coroação, então? — perguntou Vivithi, mas, antes mesmo da resposta, ela sabia quem seria.
— Rhonin e Vereesa. — respondeu ele confirmando o temor de Vivithi.
— Luxuriah não vai gostar disso. — avisou a elfa voltando a vestir suas roupas.
— Não, não vai. — concordou Aethas – Mas precisará entender. Acredito que precisarei conversar com Rommath para me ajudar a lidar com ela. — e vendo que Vivithi estava quase pronta, quis saber – O casamento deles continua bem?
— Muito bem. A harmonia dos dois é quase tão boa quanto a de Tewdric e Kassyeh, com a diferença que eles dois não estão no cio.
Aethas deu uma gargalhada e Vivithi pensou em como ele ficava bonito daquele jeito: sem roupa, entre lençóis de seda e com uma expressão divertida no rosto. Não parecia em nada o elfo sisudo e chato de antigamente.
— A conversa está maravilhosa, mas tenho que ir. — avisou Vivithi se aproximando dele e o beijando suavemente nos lábios – Até mais.
— Até… — murmurou ele sentindo o coração apertado.
Vivithi tirou uma esfera da bolsa e jogou-a no chão. Um portal apareceu e era possível ver Luaprata através dele. Vivithi mandou um beijo para Aethas e atravessou o portal. Quando a magia arcana sumiu, Aethas deslizou por dentro dos lençóis e rolou para o lado em que Vivithi dormira. Aspirou o cheiro dela por longos momentos, como se precisasse de sua essência para encarar o dia lá fora. E talvez precisasse mesmo.
Em Luaprata, Vivithi saiu do portal em seu quarto, na torre Solfúria. Sem perder tempo, tomou um banho rápido, vestiu-se com seu uniforme de patrulheira e saiu. Quando passou pelo salão de refeições, viu as servas colocando a mesa, mas não havia ainda nenhuma das meninas lá. Aquilo era bom, porque, se Karen ou Luxuriah insistisse para que ela tomasse café com todos, dificilmente diria ‘não’. Aproveitou a ausência para pegar uma maçã na mesa e correr para fora. Devorou a maçã em seu caminho para o estábulo, onde seu falcoztruz e comandados já a aguardavam: Vivithi deixara ordens para estarem todos bem cedo lá.
— Vamos. — ordenou ela após subir em seu falcoztruz.
As ruas de Luaprata estavam muito mais movimentadas que o normal. Com a coroação se aproximando, todos os elfos sangrentos restantes estavam voltando à sua terra natal para celebrar esse novo começo. Além disso, representantes de diversas raças estavam sendo enviados por seus líderes. Os taurens já haviam chegado e se estabelecido na zona oeste da cidade. Os goblins encheram a travessa do assassino, onde faziam diversos negócios enquanto esperavam a cerimônia. Os trolls e mortos-vivos chegariam nos próximos dias e o Chefe Guerreiro Garrosh Grito Infernal mandara um aviso dizendo que ele e sua comitiva viriam apenas no dia anterior à coroação. Vivithi achava que era melhor assim. Com o humor instável do orc e seu conhecido desgosto pelo casamento de Kassyeh e Tewdric era melhor que ele ficasse por ali o mínimo possível.
Ao sair da cidade, Vivithi e seus comandados pegaram o caminho sudeste, passando pelo retiro dos andarilhos, onde ela acenou para alguns conhecidos e se encaminhou para os limites do território dos elfos, em Tor’Watha. Aquele local dava arrepios na patrulheira: apesar de todos os esforços dos patrulheiros e magos, os trolls Amani continuavam a perturbar as fronteiras do reino. A tribo Amani estava ali desde que os elfos podiam se lembrar e, junto com os murlocs, era um dos problemas mais frequente que tinham. Como eram inimigos mortais dos trolls Lançanegra, a tribo que pertencia à Horda, havia a possibilidade de eles atacarem a cidade ao verem-na cheia da tribo inimiga. Era um perigo que não podiam correr.
Normalmente resolveriam o problema com os Amani apenas utilizando um bom número de patrulheiros ali para impedir sua entrada nos limites do território sin’dorei. Contudo, ninguém queria arriscar a segurança da cerimônia nem a de Karen. Por isso, Vivithi dissera que o ideal era erguer uma barreira mágica poderosa para impedir a entrada dos Amani em seu território. A ideia foi aceita com entusiasmo e Lor’themar dissera que o magíster Ocaso, um poderoso mago, lideraria o levantamento da barreira mágica. Só que não foi ele quem Vivithi avistou realizando o reconhecimento do terreno.
— Rommath?! — exclamou surpresa.
O Grão Magíster Rommath estava analisando o ídolo troll que marcava o início das terras de Tor’Watha quando ouviu a chegada dela. Virou-se e acenou com a cabeça para a elfa, que logo apeou de sua montaria e se dirigiu até onde ele estava.
— Veio supervisionar o magíster Ocaso? — perguntou olhando em volta e procurando o mago.
— Não. — respondeu o elfo – Vim eu mesmo levantar as defesas.
— Por que? Não confia em Ocaso? — Vivithi se surpreendeu porque os dois magos se davam muito bem e sempre elogiavam um ao outro.
— Claro que confio em Ocaso. — respondeu Rommath sem estranhar a pergunta – Pedi que ele fosse auxiliar Erona na defesa noroeste e deixasse essa comigo. Os Amani são perigosos, mexem com aquela magia dos Loa que desconhecemos. — o elfo tocou no ídolo que se erguia cinzento em meio à floresta verde e exuberante – Quando eles se derem conta da chegada dos Lançanegra, vão recorrer a todos os artifícios que possuam. Eu já lidei mais com esse tipo de magia que Ocaso, então decidi tomar a frente.
— Isso deixará todos mais tranquilos. Principalmente Luxuriah. — disse Vivithi com um sorriso malicioso.
Rommath soltou uma gargalhada.
— Também levei isso em conta. — falou em tom de confidência e piscou o olho como se pedisse segredo.
A presença de Rommath naquela manhã, além de tornar muito mais fácil e tranquilo o trabalho, também fora providencial. Vivithi decidiu que já ia dar a ele a notícia de Aethas e do Kirin Tor. Como os dois tinham uma relação muito melhor que os dois elfos, era mais fácil Rommath a ouvir do que ouvir o tio da esposa. Decidiu que falaria apenas quando as defesas fossem levantadas.
— O que estamos esperando? — perguntou Rommath quando percebeu que Vivithi não dera o comando para começar, mesmo já tendo reunido seus comandados ali.
— Halduron. — limitou-se a dizer franzindo a testa em desgosto.
Rommath não precisou de mais nenhuma explicação.
Quando Halduron chegou, minutos depois, uma tensão havia se instalado entre os elfos. Várias sentinelas Amani rondavam o local, permanecendo a distância, fora do alcance das flechas e da magia, mas perto o suficiente para perturbar a todos. Se os trolls fizessem qualquer movimento de ataque, haveria um combate e seria mais difícil deixar as coisas tranquilas para a coroação. Os Amani eram poucos, mas eram traiçoeiros e letais.
— Vivithi. Rommath. — cumprimentou Halduron após descer de sua montaria – Vejo que os Amani estão interessados em nossa presença.
— E porque não estariam? — perguntou Rommath – Temos um bom número de gente armada aqui e estamos nos limites de suas terras.
— Eles temem um ataque, mas não começarão um. — deduziu Vivithi vendo a movimentação dos trolls – Sabem que, se quiséssemos atacar, já teríamos feito.
— Ou apenas são estúpidos demais para tomar uma decisão. — gracejou o chefe dos patrulheiros.
— Se eles fossem estúpidos, já teríamos nos livrado deles há séculos. — retrucou Vivithi.
Halduron a encarou e Rommath percebeu as faíscas de descontentamento no ar, de ambos os lados. Vivithi cobiçava o posto de Halduron, não era segredo para ninguém. Porém, a elfa jamais o prejudicaria de propósito, mas isso não deixava o elfo menos cauteloso em relação a ela. Se estivesse no lugar de Halduron, Rommath valorizaria mais a elfa e a transformaria em aliada. Halduron era um excelente patrulheiro chefe, mas o grão magíster acreditava lhe faltava um pouco de visão.
— Podemos começar? — perguntou Rommath batendo com seu cajado no chão e emitindo uma onda arcana que deixou os trolls atiçados.
— Vamos. — disse o chefe dos patrulheiros.
Vivithi tinha certeza que poderia ter feito aquilo sem precisar de Halduron por perto. Sua tarefa consistia em proteger os magos enquanto estes erguiam o escudo. Qualquer ataque, fosse de troll ou de algum animal, quebraria sua concentração e os obrigariam a recomeçar o trabalho. Com os patrulheiros para protegê-los, podiam se concentrar sem perigo nenhum. A barreira levou um tempo para ser levantada e exigiu bastante poder tanto de Rommath quanto dos outros magos que estavam lá. No final do ritual, a face do elfo estava coberta de suor e ele respirava rápido, como se tivesse corrido uma maratona. Todos os magos exibiam o mesmo cansaço.
— Pronto. — disse Rommath depois de um tempo – Os Amani não incomodarão a coroação.
— A barreira se entende por todo o limite do território deles? — quis saber Vivithi.
— Sim. E se acontecer de ela ser quebrada, eu saberei na mesma hora. Mas acho improvável. — Rommath tirou um lenço do bolso e enxugou a testa – Algo mais? — quis saber olhando para Halduron.
O chefe dos patrulheiros fez que não com a cabeça.
— Vou verificar a peregrinação à Nascente do Sol. Temos que nos certificar que não há nenhum infiltrado entre os fiéis. — e virando-se para Vivithi, disse – Verifique as defesas sudoestes. Conversaremos mais tarde.
Vivithi bateu continência, mas não falou nada.
Assim que Halduron se afastou a elfa bufou, visivelmente incomodada.
— Espero que ele não apareça de surpresa na Vila Brisabela para ver se ‘está tudo bem’. — ironizou Vivithi fazendo aspas com os dedos. Rommath soltou uma risada.
— É impressão minha ou os ânimos de vocês dois andam mais acirrados? — o elfo recebeu uma taça de mana líquida oferecida a ele por uma das magas de seu círculo.
— Não é impressão sua.
O motivo era sabido pelos dois, mas nenhum deles poria em palavras. Aethas Fendessol. Esse era o motivo da reserva de Halduron com Vivithi ter aumentado. Os boatos que os dois estavam tendo um caso começaram entre os servos e logo se espalharam. Depois, elfos que visitaram Dalaran falaram que ela se encontrava com o mago n’O Animal Imundo, onde tinham um quarto reservado. Rommath tinha suas queixas de Aethas, mas o envolvimento dele com Vivithi nada tinha ver com o trabalho da elfa. Todavia, tal como Rommath e Lor’themar, Halduron tinha um pé atrás com Aethas, mas pelo motivo diferente. Enquanto Lor’themar e Rommath achavam que Aethas era muito ‘em cima do muro’ e não favorecia a Horda tanto quanto deveria, Halduron achava que Aethas não empregava esforços suficientes para reunir seu povo novamente.
— Gostaria de ver como Lady Liadrin vai reagir a Halduron fiscalizando os fiéis. — comentou Rommath tentando melhorar o humor de Vivithi – Apesar de não querer estar por perto quando isso acontecer.
— Ela ainda está estressada com meu tio? — quis saber Vivithi sorrindo ao pensar no que a Matriarca dos Cavaleiros Sangrentos ia dizer ao chefe dos patrulheiros.
— Está, e muito. Reclama que Lor’themar não tem dado o devido valor ao treinamento de Karen e que sobrecarrega a menina de aulas inúteis. — Rommath deu de ombros – Em contrapartida, seu tio a acusa de desviar o foco de Karen das responsabilidades dela como herdeira.
— Quando aqueles dois vão entender que, no final, é a Lux quem decide tudo? — gracejou Vivithi e os dois começaram a rir.
— Já deviam ter percebido! — exclamou Rommath e riram ainda mais.
O trolls Amani estavam mais perto do grupo de elfos agora, depois que uma parte das forças foram embora. Vivithi e Rommath perceberam a aproximação e decidiram que era melhor se retirarem. Se os trolls descobrissem a barreira já naquele momento, teriam mais tempo para estudá-la e tentar desfazê-la. O ideal era que a proteção continuasse invisível e imperceptível o maior tempo possível. Quando estavam subindo nas montarias para começar a retirada, Vivithi decidiu que aquela era a melhor hora para conversar com Rommath, longe dos ouvidos de qualquer pessoa, principalmente de Luxuriah.
— Ei! — chamou antes que ele se afastasse em seu falcoztruz – Precisamos conversar.
Rommath aguardou que Vivithi emparelhasse sua montaria com a dele e esperou, curioso que ela começasse a conversar.
— Antes de mais nada. — começou Vivithi – Luxuriah não pode saber disso. Pelo menos não por enquanto.
E então, explicou a situação.
***********************
Lina não gostava de fazer patrulha sem sua armadura. Já vira muitos soldados de alta patente perecerem por se acharem bons demais para usá-las. Todavia, não teria tempo de voltar em casa e por sua vestimenta de comandante a tempo de visualizar a falha da segurança alertada por Brienne. Se fosse uma falha grave, deveria ser ajustada e uma patrulha deveria acontecer na bastilha para verificar se houvera a entrada de algum suspeito. Por isso, usando apenas suas roupas civis e portando suas armas, ela se encaminhou para o local apontado por Brienne. Estava com ela e mais dois soldados.
— Como está Amara? — perguntou a comandante quando se aproximavam do local – Se dando bem na AVIN?
— Ah, ela já foi promovida! — falou a subtenente com orgulho – O mestre espião Shaw está muito satisfeito com o trabalho dela!
— Espero que ela progrida bem por lá. — desejou sinceramente Lina – E que tome sempre cuidado. Trabalhar na AVIN, na minha opinião, é mais perigoso que um soldado de fronte.
Era verdade. Um soldado, quando ia a batalha, não ia sozinho. Estava junto aos seus camaradas, unidos, em prol da vitória daquela batalha. Um membro da AVIN, ao contrário, normalmente trabalhava sozinho, se arriscando em lugares ermos, no território do inimigo, em busca de informações que nem sempre estavam lá. E se fosse pego…
— Esse é o local, comandante. — falou Brienne tirando-a de seus pensamentos.
No primeiro momento, olhos destreinados diriam que não havia nada errado ali. Todavia, Lina podia ver os locais onde as proteções haviam sido desfeitas, pois a ondulação mágica não estava mais lá. Aliado a isso, marcas de pisadas foram cobertas com folhas para aparentar uma cobertura natural. Lina abaixou-se e afastou as folhas. Analisou as marcas por um momento, desejando agora que Doroteya estivesse lá para farejar o cheiro. Talvez quem fizera aquilo ainda estivesse por perto. Os rastros eram muito recentes.
— São quatro. — disse a comandante de levantando – Estavam desmontados, pelo menos quando passaram aqui. Não tem marcas de retorno, então podem ter ido embora voando ou estarem por perto. Muito perto. — ela olhou para cima, para a copa das árvores, estreitando os olhos – Tragam reforços e chamem os magos para refazerem a barreira mágica. Eu acredito que-
— Comandante Wood! — ouviu alguém chamá-la.
Era o General Crowe. Lina teve que fazer um grande esforço para não revirar os olhos. O general vinha empertigado e Lina se perguntou se aquele jeito de andar todo duro era porque alguém enfiara uma estaca em sua bunda. Reprimiu o riso e fez uma anotação mental de falar isso para Arshe e Doroteya depois.
— General Crowe. — ela bateu continência. Gostando ou não, ele era seu superior.
— O que está fazendo aqui? Não entra em atividade apenas ao meio-dia? — perguntou sem esconder seu desagrado em vê-la ali.
— Sim, apenas ao meio-dia. — repetiu Lina tomando cuidado para soar profissional. Diferente de Crowe, ela não queria prestar nenhum papel imbecil – Mas, diante de uma emergência, acredito que é meu dever atender, independente do horário.
Crowe franziu o cenho, incomodado com a resposta.
— Se era uma emergência, por que não fui chamado? — perguntou, agora olhando feio para Brienne.
— Eu o procurei, general. — explicou a subtenente mantendo sua postura ereta, sem se preocupar com a irritação na voz de Crowe – Mas não o encontrei.
Crowe apenas resmungou, mas não disse mais nada. Aquela reação dizia a Lina que ele sabia muito bem que estava errado e que havia uma grande chance que ele sequer estivesse na bastilha. Empertigando-se mais uma vez (Lina se perguntou se a estaca entrara mais em sua bunda), ele se encaminhou pomposamente até o local. Ele nem se deu ao trabalho de verificar as marcas, na verdade, ele pisoteou-as, deformando-as. Lina xingou-o mentalmente, pois agora o cheiro se perderia e não poderia trazer Doroteya para verificar.
— Alguém desfez as barreiras mágicas. — disse Crowe em tom pomposo – Devem estar planejando atacar a bastilha.
“Gênio...” pensou Lina irritada “Agora diga algo que eu não sei...”. Porém, deixou que ele continuasse pensando que era útil. Era mais fácil lidar com Crowe quando este falava pelos cotovelos, se achando importante.
— Temos que reforçar tudo e descobrir quantos são e-
— São quatro. — cortou Lina sem conseguir se conter.
Crowe a olhou, espantado.
— Como sabe? — perguntou estreitando os olhos.
— Pelas marcas no chão. — ela respondeu tentando manter a calma.
— Que marcas? — questionou o general encarando-a.
Lina apontou para baixo dos pés dele, que deu um pulo para trás, como se o chão fosse mordê-lo. Com a paciência de quem ensina uma criança, Lina se abaixou e explicou didaticamente o significado de cada rastro e o que eles lhe diziam. O general a encarava com os lábios comprimidos enquanto os soldados se entreolhavam, tentando não rir.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— E essa marca aqui, do que foi? — Crowe apontou um rastro no chão, tentando não perder a compostura e se mostrar superior a Lina.
— Foi o senhor quem fez. — respondeu Lina – Quando pisou sobre as demais.
O rosto de Crowe enrubesceu. Colocou o punho fechado em frente a boca e pigarreou, como se pensasse no que faria a seguir.
— Bem, como parece que a comandante tem tudo sob controle, vou voltar à minha ronda. — ele falou como se estivesse fazendo um favor a Lina – Comandante, quero o relatório do reparo na minha sala ainda hoje!
— Sim, senhor. — disse Lina querendo esganá-lo.
Assim que Crowe virou as costas e Lina já agradecia à Luz por ele está indo embora, houve uma movimentação nos arbustos por perto. Foi um movimento tão silencioso, tão furtivo que apenas Lina, acostumada a caçar e criada na floresta, percebeu.
— Cuidado! — gritou ela se jogando por cima de Crowe.
Todos se jogaram no chão a tempo de evitarem a chuva de adagas, que ficou cravada na parede. Crowe, com a boca cheia de areia e sem entender, se livrou de Lina, já pronto para gritar com ela, quando viu uma sombra vindo para cima dele. Lina o empurrou e as adagas se fincaram no chão, onde ele estivera.
— Ataque! — gritou Lina se colocando de pé – Deem o sinal! — e ela mesma atirou na sombra que os atacava.
Brienne correu para fazer soar o alarme, mas uma segunda sombra entrou no caminho dela. Só que dessa vez ela não foi pega se surpresa. Puxou a espada e começou a lutar com o seu atacante, que a impedia de chegar até a trombeta mágica. O mesmo aconteceu com os outros soldados e todos se viam agora em uma batalha, sendo observados pelo general Crowe, que continuava caído no chão, com os olhos arregalados de surpresa, como se não tivesse acreditando que estava no meio de uma batalha.
Lina sentia-se nua e exposta naquele combate, pois não usava nenhuma armadura e seu oponente era um ladino experiente, que forçava um combate corpo a corpo. Normalmente sua perícia secundária com a espada a deixaria pronta para essa ocasião, mas sua desproteção a deixava inclinada a evitar aquela situação. Mas, cada vez que se distanciava de seu atacante para atirar, ele a seguia prontamente, sumindo e aparecendo à sua frente. Lina cansou-se de fugir e simplesmente jogou sua arma nele, que desviou, surpreso, do objeto, e viu que ela puxara uma espada. Se tinha que lutar de peito aberto, o faria.
As espadas batiam umas contra as outras e Lina viu, com irritação, que Crowe ainda estava no chão, com uma expressão abestalhada. Pela Luz, aquele homem nunca participara de um combate?! Com a raiva explodindo em seu peito, Lina fez um movimento ousado e feriu seu oponente, desarmando-o no processo. Ela também lhe aplicou um chute no peito e o jogou para longe. Quando fez isso, se atirou sobre Crowe e o pegou pela lapela da roupa e o sacudiu.
— Acorde, homem! — gritou – Você quer ser morto?!
Essa atitude dela, de tentar tirar Crowe de seu estupor, rendeu ao oponente de Lina uma vantagem. Ele recuperou a arma e partiu para o ataque novamente. A comandante percebeu, pelo movimento do olhar de Crowe, que o homem estava atrás dela. Virou-se para se proteger com a espada, mas a adaga do ladino ainda a atingiu, cortando seu supercílio e fazendo o sangue jorrar pelo rosto de Lina. A comandante conseguiu impedir que o golpe fosse pior, mas agora o sangue caia por seu olho esquerdo, impedindo-a de mantê-lo aberto. Porém, quando o sangue de Lina caiu sobre o general, este pareceu se tocar da luta que acontecia ao seu redor. Cambaleou até o alarme e o fez soar. Quando ouviram o alarme, os atacantes começaram a debandar.
— Não os deixem fugir! — gritou Lina correndo atrás de seu oponente, mesmo com a vista prejudicada.
Os soldados atacaram ainda com mais vontade e Lina viu sua arma de fogo no caminho. Soltou a espada e pegou a arma e disparou contra seu oponente. Ele cambaleou e caiu no chão. Os outros oponentes continuavam a resistir e Lina parou sua corrida, tentando limpar o sangue que não parava de jorrar de sua ferida. Um corte no supercílio era um dos piores ferimentos em uma batalha, pois era uma região que sangrava muito e diminuía a visibilidade do olho atingido. Foi nesse momento de distração que o homem que a atacara assobiou alto. Grifos saíram do meio das árvores e tentaram chegar aos seus donos. Porém, os soldados não os deixariam partir. Um deles, todavia, lançou uma bomba de gás, que fez com que uma nuvem podre que fez arder os olhos e o nariz dos soldados. Como estava mais afastada dos outros, Lina não sentiu muito os efeitos da bomba e viu claramente quando seu oponente subiu no grifo e levantou voo. Mesmo com um olho só, a comandante mirou no homem e, com uma salva de tiros, acertou-o e derrubou o grifo, que caiu na floresta mais a frente. Se o tiro não o tivesse matado, a queda certamente o fez. Olhou rapidamente ao redor e viu que a névoa de gás tinha se dispersado um pouco e que todos seus soldados estavam todos vivos, apenas desorientados. Crowe ainda os encarava, no local do alarme que não fora atingido pela bomba, como se todos fossem criaturas muito bizarras.
— Estão todos bem? — quis saber Lina.
Eles fizeram que sim com a cabeça, ainda tossindo.
— Ótimo. — disse aliviada – Fiquem aqui, vou verificar o que caiu na floresta.
— Comandante, você está sangrando! — avisou Brienne, apontando o ferimento no supercílio.
— Foi só um corte. — Lina então tirou um lenço do bolso e pressionou o corte – Eu não demoro.
Porém, antes de Lina ir, ouviu-se passos correndo se aproximando. Era o reforço, pensou Lina. Só que não era apenas isso. Doroteya e Arshe chegaram, junto com os soldados.
— Arshe! — foi logo gritando Lina – Saia já daqui! Podem haver outros!
— Lina!! — gritou também a princesa – Você está coberta de sangue!!
— Foi só um corte! — e pegando pelo braço dela, a entregou a Brienne – Tire ela daqui, agora! — e virando-se para Doroteya, ordenou – Venha comigo!
Antes de seguir a ordem, Doroteya fez um movimento suave de mãos e o corte na testa de Lina sumiu, bem como os machucados de todos os que estiveram na luta. A cura deixou Arshe mais tranquila e ela concordou em ser levada para longe, mas foi logo avisando:
— Quero saber o que aconteceu aqui!
— Eu também… — murmurou antes de virar-se para Dorotea novamente – Vamos!
Doroteya se transformou em uma enorme águia e Lina montou nela. Levantaram voo e em pouco tempo estavam onde o atacante havia caído. Por um momento, Lina pensou que ele não estaria mais lá, que seus amigos teriam levado-o, mas se enganara. O homem estava lá, bem como o grifo ferido. O pobre animal ainda se mexia, com sangue escorrendo onde o tiro atingira e com a asa quebrada, emitindo grunhidos agudos e angustiantes. Lina verificou o homem; estava morto. Ela puxou o corpo para longe de sua montaria e Doroteya, com os olhos marejados, curou o grifo. O animal, já curado, abriu as asas e gracejou, como se agradecesse à druidesa.
— Não precisa agradecer, amiguinho. — a druidesa tirou os arreios e a sela dele – Voe em liberdade. — e tocou o bico dele.
O grifo gracejou mais uma vez e então abriu as asas e voou.
— Sinto muito. — disse a comandante – Tive que atirar nele.
— Tudo bem. Às vezes essas coisas são necessárias. — e olhando o homem, perguntou – Está morto mesmo?
Lina fez que sim.
— Temos que movê-lo daqui antes que os outros apareçam. — disse.
— Outros? — perguntou Doroteya, surpresa.
— Haviam mais três, mas apenas consegui deter a fuga desse. — ela respirou fundo, antes de continuar – Eles podem voltar para evitar que seu comparsa seja reconhecido, por isso temo que voltem para recuperar o corpo. E, claro, podem ter mais pessoas envolvidas. — e diante do olhar questionador de Doroteya, explicou – Duvido que esse ataque tenha sido planejado só por esses quatro. As defesas foram derrubadas por um mago e nenhum deles era usuário de magia. — Lina se abaixou e encarou o corpo à sua frente – Se meus instintos estão certos, há outros desses esperando sua volta ou seu fracasso.
— O que faremos então? — a druidesa estava preocupada.
— Não é incomum ataques à bastilha, mas um feito assim, em plena luz do dia e na presença de um general… Deve ser algo grande… — e olhando para a amiga, pediu – Vá até a bastilha e traga um grupo para movermos esse corpo. Vou ficar aqui vigiando.
— Mas você ficar aqui, sozinha… — era perceptível que ela estava receosa de deixar a outra.
Lina não disse nada, apenas assobiou forte e um urso espectral apareceu, rugindo.
— Não estarei despreparada. — garantiu – Não vou ser pega de surpresa de novo. — e vendo que Doroteya ainda hesitava, garantiu – Quanto mais cedo você for, mas cedo você volta. — e sorriu.
Sabendo que não tinha como demover Lina daquela decisão, Doroteya suspirou, virou uma águia e voou.
Lina respirou fundo e sentou-se no chão. Estava um pouco tonta. Talvez fosse o sangue que perdera. Ou a adrenalina que passara. Ou tudo junto, mais a raiva que sentira de ver Crowe ser um inútil na batalha. Olhou para o corpo mais uma vez e então puxou o capuz que cobria seu rosto. Era um desconhecido. Procurou em seus braços a marca dos Defias, mas não achou nenhuma. Quem seria ele? Começou então a procurar nos bolsos, em busca de alguma pista. Estava quase desistindo quando seus dedos tocaram em um pedaço de pergaminho. Com o coração aos pulos, Lina puxou o papel de dentro da roupa do ladino e o desdobrou com cuidado. O que viu fez o sangue gelar em suas veias.
Era um cartaz de recompensa. Lina já vira muitos daqueles quando pegava assassinos de aluguel. Quando o submundo queria alguém morto, mandava espalhar cartazes como aqueles com o nome da pessoa, um desenho dela, a recompensa e como a pessoa deveria ser morta. Aquele cartaz, que Lina segurava entre os dedos trêmulos, era uma recompensa por sua própria cabeça.
“Lina Wood. Vinte e oito anos. Comandante das forças de Ventobravo. Recompensa: 500.000 peças de ouro. Como deve ser morta: no exercício do dever. Em nenhum momento devem desconfiar que sua morte não foi por seu trabalho. Se houver desconfiança que ela for morta por outro motivo, a recompensa não será paga. Matar, de preferência, junto a outros soldados.”
O coração de Lina disparou e ela segurou sua arma com mais força. De repente a floresta lhe parecia mais opressora, mesmo que a luz do dia se infiltrasse pela copa das árvores.
“Calma, Lina!”, ordenou a si mesma. “Você não os verá se aproximando se perder o controle!”.
Com cuidado, ela levantou do chão e examinou tudo ao seu redor. Estava quieto e calmo. Nenhum movimento anormal, nenhum barulho que não fosse o da natureza. Respirou fundo, mantendo o controle das batidas de seu coração e começou a andar para trás, segurando sua arma com força, até ficar com as costas no tronco de árvore. Não seria pega facilmente. Ficou alerta a todo e qualquer som e movimento até que ouviu um guinchado e reconheceu como sendo o de Doroteya. Foi com alívio que viu a águia gigante planar até pousar ao seu lado e virar a worgenin novamente.
— Eles estão vindo. — informou – Eu decidi vir antes para não te deixar só e… — a druidesa encarou a amiga e viu seu rosto pálido – O que foi, Lina?
Lina não disse nada, apenas estendeu o cartaz para Doroteya. Foram necessários alguns instantes para que a druidesa percebesse do que se tratava.
— Lina! Sua cabeça foi posta a prêmio! — exclamou aterrorizada.
— Parece que sim. — agora que estava na companhia da outra, Lina ficara mais calma – Mas não se preocupe, eles não vão me caçar em casa. O prêmio exige que eu seja morta no exercício de minha função. Theo não está em perigo.
Doroteya agora encarou como se ela fosse louca.
— Eu sei que Theo não está em perigo, mas você está! — e sacudindo o cartaz, disse – Precisamos contar isso ao rei!
— De jeito nenhum! — cortou Lina tomando o cartaz da mão de Doroteya – Nem ele nem Arshe devem saber disso! Só os colocará em risco!
— E você?! — argumentou Doroteya tentando tomar o papel de Lina, mas a comandante o ergueu acima da cabeça e Doroteya, mesmo pulando, não conseguia pegá-lo – Você está em risco!
— Eu vivo em risco. Isso não muda nada. — e franzido o cenho, completou – Mas confesso que quero saber quem colocou minha cabeça a prêmio.
Doroteya parou de pular para pegar o papel e calculou se, em sua forma worgenin, o alcançaria. Sim, conseguiria, mas antes que pudesse fazê-lo, Lina dobrou rapidamente o papel e o pos dentro de sua roupa. A druidesa suspirou fundo, frustrada.
— Vai levar para a AVIN, então? — perguntou esperançosa.
— Levar para a AVIN, seria o mesmo que mostrar a Varian. — ela fez que não com a cabeça – Preciso de alguém que guarde segredo, e acho exatamente que sei a quem recorrer. Alguém que manterá minha família e a bastilha longe disso.
Antes que Doroteya se opusesse, ouviram a guarda chegando, para buscar o corpo. A druidesa tentou argumentar mais uma vez com Lina.
— Arshe ficará magoada se você não contar a ela. — disse.
— Se ela não souber, não se magoará. — e olhando para a druidesa, completou – E sei que vocês duas também tem seus segredinhos próprios. Então, não me sinto mal fazendo isso. Agora, nem uma palavra sobre isso, ok?
— Ok… — murmurou desgostosa.
E o assunto foi momentaneamente deixado de lado.
A guarda chegou e logo o corpo foi removido do local. Lina e Doroteya seguiram junto aos soldados e a druidesa adotou a forma de pantera. A comandante imaginou que assim ela conseguiria sentir qualquer cheiro desconhecido se aproximando e daria o alerta. Não gostou de imbuir aquela paranoia em sua amiga, mas agora era tarde. Se tivesse pensado um pouco mais, teria mantido Doroteya alheia aquilo, da mesma forma que intencionava fazer com Arshe e Varian. Não se fecharia numa concha e pularia aterrorizada a cada sombra que surgisse, nem queria que ninguém o fizesse. Agora era tarde e teria uma conversa séria com Doroteya depois.
Quando voltaram aos corredores da bastilha, Lina percebeu que sua blusa estava manchada de sangue e terra. Suspirou. Teria que aturar os irmãos reclamando que ela estragara outra roupa que eles fizeram. Também teria que trocar de roupa assim que chegasse em casa, para que os pais não a visse daquele jeito. Afinal, seus pais e sobrinhos eram esperados para jantar. Porém, ainda tinha uma pendência para resolver, a barreira mágica.
— Comandante. — disse Jon assim que a viu – O rei a chama na sala do trono.
Lina tentou não parecer ansiosa com o chamado. Varian já ouvira falar do ataque e, com certeza, estaria preocupado. Esperava que Arshe não tivesse exagerado muito no drama ou Varian imaginaria que teria que se preparar para seu funeral.
Mas não era bem o funeral de Lina que estava sendo anunciado na sala do trono. De joelho no chão, a cabeça baixa e o rosto escarlate, o general Crowe tinha a postura de quem estava sendo condenado a morte. No primeiro momento Lina achou que era Varian quem estava falando com o infeliz homem, mas era pior, muito pior. Arshe estava delicadamente postada em frente ao trono, com as mãos unidas em frente ao delicado vestido e o queixo levantando, em uma postura que era o mais perto de fúria avassaladora que poderia ser vista em uma dama. Ao lado dela, Anduin também parecia desgostoso, com uma ruga no meio das sobrancelhas loiras e os olhos azuis refletiam tristeza e decepção.
“Eles podem não ser irmãos de sangue, mas são de alma, com certeza.” pensou Lina. Decidiu ficar fora de vista por um momento, para não interromper a conversa que se seguia.
— Sair de seu posto durante o dia é um erro grave, general. — dizia Arshe em tom imperioso – Mas acho que não preciso lembrá-lo disso.
— Eu sei, vossa alteza. — o homem olhava apenas para o chão, possivelmente vendo apenas as pontas dos sapatos de Arshe – E não há desculpas para minha falha.
— Sua saída da bastilha colocou todos nós em risco. — continuou ela e Lina pensou que Arshe tinha a postura exata para ser uma rainha – Em especial os soldados que foram fazer a verificação da falha da segurança. — Arshe não disse o nome de Lina, mas todos sabiam de sua presença no local.
— Se me permite falar, alteza… — pediu Crowe humildemente.
— Me pergunto se quero ouvir o que você tem a dizer. — ponderou a princesa.
— Eu quero. — disse Anduin de repente – General, explique-se.
Crowe então começou a falar sobre um problema de família, que seu pai andava doente há meses, desde que sua reputação tinha sido posta em dúvida e que tinha que agora cuidar dos negócios da família. Repetiu várias vezes em como o Barão Crowe estava mal por causa de boatos infundados e Lina viu Arshe e Anduin se entreolharam. Ambos sabiam que aquilo ainda era por causa dos irmãos Jones. A comandante arriscou uma olhada no rei e percebeu que ele segurava com força os braços do trono. Se perguntou se Crowe percebia que o rei sequer ouvia suas desculpas, só parecia pronto para arrancar sua cabeça.
— Se seu pai está tão doente, general, porque não tira uma licença e vai cuidar dele? — quis saber Anduin – Se fosse meu pai, eu quereria ficar por perto…
— Eu tenho responsabilidades para com a bastilha, vossa alteza. — respondeu – Por isso estou aqui.
— Um ataque aconteceu na bastilha sob sua responsabilidade, general. — observou Arshe suavemente.
Crowe teve a decência de não tentar refutar Arshe. Naquele momento, Varian se levantou e Arshe e Anduin o encararam, ansiosos. Tal como Lina, eles temiam que o rei acabasse tomando alguma atitude drástica, como quebrar o pescoço de Crowe. O general podia ter errado feio, mas uma execução por parte do rei não seria bem-vista. E, pela expressão de Varian, era exatamente isso que ele queria fazer.
“Não acredito que salvarei esse imbecil pela terceira vez!”, pensou Lina antes de prontamente se adiantar para dentro da sala, como se tivesse acabado de chegar.
— Majestade. — ela bateu continência e viu os olhos de Varian se arregalarem, surpreso. O rei parou no meio do caminho até Crowe.
— Lina! — Arshe saiu de sua postura de rainha do gelo e se atirou sobre Lina, a abraçando – Fiquei tão preocupada!
— Arshe, vou sujar seu vestido. — disse Lina afastando a jovem delicadamente – E eu estou bem. Foi só um corte.
— Lina, você está coberta de sangue! — disse Anduin se aproximando. O menino também queria abraçá-la, mas era tímido demais para fazer isso – Tem certeza que está tudo bem?
Antes que Lina conseguisse responder, Arshe começou a apalpá-la, sem nenhuma vergonha de ser observada e, apesar dos protestos da comandante, ela só parou quando se deu por satisfeita.
— Ótimo, nenhuma flecha esquecida dessa vez. — disse aliviada.
Lina não pode deixar de gargalhar.
— Eu disse que estava bem. — e virando-se para Anduin, falou em tom reconfortante – Eu cortei o supercílio, apenas isso. Você sabe como esse tipo de corte sangra.
O menino ficou visivelmente aliviado.
— Sim, eu sei. Que bom que está tudo bem. — e lhe presenteou com um lindo sorriso, que Lina correspondeu.
— Comandante. — falou Varian abrindo um sorriso aliviado e Lina sentiu aquele arrepio familiar que a voz dele lhe causava – Fico feliz em vê-la bem. — ele parecia mais que feliz. Parecia que toda a fúria tinha simplesmente sumido do rosto do rei.
— Obrigado, majestade. — e fez uma mensura.
— Pode me dizer o que aconteceu? — Varian voltou a andar e parou em frente a Crowe, com as mãos para trás.
— Antes de mais nada, majestade, permita-me fazer uma sugestão. — pediu.
Varian a encarou e Lina viu o mesmo olhar que costumava a ver quando estavam apenas os dois. Era desejo. Mas seria desejo por Lina? Não… Varian desejava vingança. Lina sentiu-se estremecer.
— Fale, comandante. — permitiu.
— A barreira precisa ser reerguida com urgência. Depois, uma varredura deve ser feita na bastilha. Todos devem mostrar suas identificações e a guarda ser reforçada nos aposentos de vossa majestade, do príncipe Anduin e da princesa Arshe. — Lina viu que Arshe franziu o cenho, insatisfeita por ter guardas à sua porta, mas Lina sabia que era o melhor a ser feito – Também sugiro duidas em forma feral para percorrer o castelo em busca de rastros que fujam de nossos olhos. E também deve ser dado um alerta para que essas precauções possam permanecer por, pelo menos, três dias. — concluiu.
Era orgulho o que via agora no olhar dele?, se perguntou Lina. Talvez estivesse imaginando coisas.
— Acha que pode fazer o que a comandante disse, Crowe? — perguntou o rei olhando diretamente para o homem – Ou isso está além de sua responsabilidade?
Crowe engoliu em seco. Era uma humilhação imensa que ele tivesse que fazer o que Lina aconselhara. Era quase como rebaixá-lo. Talvez essa fosse a intenção de Varian.
— Sim, majestade. — o homem se viu obrigado a dizer – Posso fazê-lo, se o rei assim desejar.
— Sim, eu desejo. Vá e faça exatamente como a comandante sugeriu. Depois, tire uns dias de folga. Cuide de seu pai. — e com um gesto de mãos, o dispensou.
Crowe se levantou e saiu da sala, fazendo uma reverência. Antes, porém, trocou olhares com Lina e ela não gostou do que viu ali. Depois que ele saiu, Lina deu um passo a frente. Estava preocupada.
— Majestade, quem cuidará da bastilha? — perguntou ansiosa, mas mantendo sua postura – Eu receberei meus pais nos próximos dias.
— Sim, para as férias que você não pode aproveitar no Véu de Inverno. — lembrou-se o rei – Lady Cláudia está de volta do Planalto do Crepúsculo. Eu a recebi mais cedo. Ela ficará feliz com a tarefa, sem dúvida. Agora, acredito que você deve ir com Arshe. – ele sorriu para ela, divertido – Seus irmãos desmaiaram quando ela disse que você estava coberta de sangue. Acredito que você deva acalmá-los.
— Vamos! — Arshe a pegou pelo braço – Você aproveita e termina de ver minha prova! Você não vai precisar trabalhar o resto do dia, né, tio? — e ela piscou para Varian.
— Claro que não. Vá fazer companhia a Arshe.
— Mas e o relato? — tentou questionar – Do que aconteceu?
— A subtenente Taylor pode dá-lo. — disse o rei fazendo um gesto para que Brienne se adiantasse.
Lina tentou argumentar mais uma vez, dizer que preferia ver se estava tudo bem na bastilha, mas não teve mais tempo. Ladeada por Arshe e Anduin, acabou sendo arrastada para o interior da bastilha. Varian estava satisfeito e Crowe furioso. Ninguém percebeu que Doroteya havia sumido. A druidesa decidira, por conta própria, começar sua investigação.
**********************
Luxuriah estava em uma situação difícil e não poderia pedir ajuda a ninguém. Pelo menos, não sem ferir gravemente sua dignidade.
Naquela manhã, decidira que era hora de terminar o conserto da motoca de seu pai. No primeiro momento, pensara em fazer outra, mas Ash lhe dissera que seu pai, com certeza, adoraria que a neta andasse na motoca que ele construíra e onde suas filhas andaram. Luxuriah acatou a opinião e se prepara para começar os reparos. Porém, nas semanas anteriores, apesar das peças já terem chegado, todos sempre arrumavam alguma coisa para entretê-la e mantê-la longe do trabalho pesado. Porém, ela se enfezara e, disposta a terminar o serviço, dispensou todos aproveitando a volta de Kassyeh e Tewdric do Planalto do Crepúsculo. Assim qualquer coisa que queriam discutir com ela, era delegado à irmã e pudera escapulir e terminar os ajustes. Agora, a motoca estava pronta, limpa e reluzente, pronta para o uso.
O problema era que, para limpar a corrente, Luxuriah sentara no chão e agora não conseguia se levantar.
Tinuviel crescera mais do que Lorena ou Kayliel esperavam. A barriga de Luxuriah era maior que a média das elfas e os dois elfos sacerdotes temiam que o tamanho da menina prejudicassem o parto. Claro, eles não haviam dito isso diretamente para ela, mas Luxuriah entreouvira a conversa. Aquilo a deixara nervosa? Claro. Porém, a gravidez estava sendo tão tranquila que ela finalmente relaxara e aproveitara aquele momento. Agora, as vésperas do nascimento da filha, seus temores eram ínfimos. E fora isso que a fizera sentar-se no chão com dificuldade, vestida seu macacão de trabalho novo e fizera o serviço da motoca. E fora por causa desse serviço que agora estava no chão, com as mãos sujas de graxa e sem conseguir se levantar.
Claro que poderia simplesmente gritar para uma serva vir levantá-la, mas era humilhante demais para a orgulhosa Luxuriah. Esperar alguém chegar também não era uma opção, pois ela precisava ir ao banheiro e a última coisa que queria era que alguém a achasse como as calças molhadas além de presa ao chão. Tinha que se virar sozinha.
— Vamos lá Lux. — disse para si mesma – Você enfrentou o Lich Rei em pessoa. Você consegue levantar do chão com essa barriga sem ajuda!
A primeira coisa que ela precisava fazer era se afastar da motoca. Para isso, colocou os dois pés no chão e, com a ajuda das mãos, foi empurrando a si mesma. Quando estava a uma distância segura da moto, limpou o suor do rosto na manga da bata de trabalho e olhou ao redor, pensando qual seria seu próximo passo. Olhou para a parede e teve uma ideia. Ficou de quatro e começou a engatinhar até a parede, desejando que ninguém entrasse na sala e a visse daquela forma. Quando chegou até onde queria, sentou-se pesadamente com as costas contra a parede. Apoiou os pés com firmeza no chão mais uma vez, e começou a tentar se erguer. Porém, sempre acabava escorregando, pois não tinha onde apoiar as mãos. Já estava na terceira tentativa quando ouviu alguém se aproximar no corredor e adentrar a sala, fechando a porta com força logo em seguida.
— Lulu, você precisa me ajudar!
Tewdric a olhou no momento em que Luxuriah estava quase de cócoras, tentando segurar nas paredes em meio a mais uma subida desajeitada.
— O que você tá fazendo, Lulu? — perguntou o orc curioso.
— Cale a boca e me ajude a levantar! — rosnou ela entre os dentes.
O orc se adiantou e a pegou por baixo dos braços e a levantou sem dificuldade. Quando ficou de pé, Luxuriah sentiu um alívio tão grande que, por um momento, achou que tivesse feito xixi nas calças. Mas era só o prazer de estar de pé. Se alongou e esticou a coluna, muito feliz.
— Lulu, me ajuda! — pediu Tedwric mais uma vez.
— Você vai ter que esperar. — disse a elfa se encaminhando para o banheiro.
Depois de se aliviar e conseguir se levantar do vaso sozinha (lá tinha onde se apoiar), Luxuriah lavou bem as mãos e voltou. Encontrou Tewdric de frente para a janela, com as mãos nos cós das calças e abanando suas partes com uma expressão de dor. Luxuriah não conseguiu reprimir a risada.
— Ta assado de novo? — perguntou entre gargalhadas.
— Você rir porque não é com você. — choramingou o orc.
Isso só fez Luxuriah rir ainda mais.
— Ora, pensei que fazer sexo descontroladamente te deixaria feliz. — argumentou se aproximando da motoca novamente e a analisando. Estava se sentindo orgulhosa de si mesma. A motoca estava igual a quando Dhomm estava vivo.
— Fazer sexo descontroladamente me deixa feliz! — retrucou Tewdric se aproximando dela – Mas a Kassyeh tá muito mais descontrolada que o normal! Desde que chegamos do Planalto ela não sai de cima de mim! Aqui dentro só sobrou os mancos e aleijados! — falou apontando para o saco.
Gargalhando, Luxuriah foi até a bancada de trabalho e colocou um copo de água bem grande para si mesma.
— É a poção de Rommath. — explicou a elfa – Está mais forte para aumentar a fertilidade. Mas achei que teria o mesmo efeito em você.
— Seu elfão marido disse que provavelmente meu corpo não reage da mesma forma. — explicou Tewdric enchendo um copo de água também e jogando na frente da calça – Eles vão fazer outra mais forte ainda.
Luxuriah olhou para a frente da calça molhada de Tewdric e teve um pouco de pena dele. Apenas um pouco.
— Por que você não procura Kayliel para ele te curar? Assim você poderá atender os desejos da minha irmã de novo.
— De jeito nenhum! — reclamou o guerreiro, indignado – E meu orgulho orc?
— Seu orgulho orc foi embora quando você molhou sua calça e fez parecer que você fez xixi na roupa. — retrucou a elfa.
Olhando para a roupa, Tewdric percebeu que ela tinha razão e grunhiu.
— Mas tá ardendo… — choramingou de novo.
Balançando a cabeça em negativa, Luxuriah se dirigiu até seu armário na parede da sua oficina. Abriu as portas e procurou entre as ferramentas e peças as poções que mantinha por lá para uma emergência. E aquela situação era definitivamente uma emergência. Pegou uma poção de cura e outra de vigor e entregou ao cunhado.
— Tome para se curar e para ter energia. — ela sorriu – Quero minha irmã feliz.
— Obrigado Lulu! — ele pegou as poções – Mas será que preciso da de vigor? Eu tenho muito vigor!
— Se não quiser… — ela fez a menção de pegar a poção de volta, mas ele a segurou com força.
— Não! Vou ficar por via das dúvidas!
Rindo, ela fechou o armário.
— Certo, por via das dúvidas… — falou deixando claro em seu tom que não acreditava nenhum pouco nele.
Tão logo o orc estava com as poções na mão, ouviu-se uma voz ressoar nos corredores que fez Tewdric se arrepiar da cabeça aos pés:
— Tewdric!! — era a voz de Kassyeh, cantarolando o nome do marido – Cadê você?!
Mais que depressa o orc tomou as duas poções e respirou fundo, como se preparasse para enfrentar uma batalha. E se ele estava assado ao ponto de jogar água nas partes íntimas, era exatamente o que estava fazendo.
— Aqui, minha Kass! — chamou Tewdric, ainda que relutante.
Kassyeh entrou toda sorridente na sala, resplandecendo de tanta alegria. A poção da fertilidade tinha outro efeito colateral além do tesão descontrolado: Kassyeh estava visivelmente mais atraente que antes. Com certeza a aparência melhorada era uma forma de atrair seu parceiro. Como se fosse necessário, pensou. Só de ver Kassyeh, Tewdric se derretia. Esperava de todo o coração que o cunhado não ouvisse os suspiros dos guardas quando Kassyeh passava ou visse seus olhares de desejo.
— Ah, Lux! — Kassyeh sorriu ainda mais para a irmã – Terminou a motoca?
— Sim, sim, o que você acha? — perguntou animada.
A maga analisou o veículo e deu um imenso sorriso. Pela Nascente do Sol, Kassyeh estava tão maravilhosa que até Lux sentiu vontade de apertá-la!
— Está exatamente como papai deixou! — surpreendeu-se ela – Você fez um excelente trabalho! — e depois franziu a testa – Mesmo que eu não concorde de você está fazendo isso com esse barrigão!
— Não reclame de mim fazendo minhas coisas com o barrigão que não reclamarei quando for a sua vez. — disse Luxuriah com um sorriso de canto de boca – Espere só para ver como todos pegarão em seu pé!
— Mal posso esperar! — ela passou a mãos na barriga – Quem sabe em breve não?
Sempre que Kassyeh manifestava seu desejo de ser mãe, Luxuriah se sentia mal. Confessara a Rommath a culpa que sentia por viver algo que sua irmã tanto desejava e que achava que não merecia, mas seu marido lhe dissera que não devia pensar nessas coisas. Sua culpa não poria um bebê na barriga de Kassyeh. Tewdric sim. Porém, era visível que o orc estava exausto e precisava de um descanso. Sentindo que devia uma a Tewdric por tirá-la da situação embaraçosa mais cedo, decidiu tirar Kassyeh um pouco da cola dele. Além do mais, passar um tempo com ela nunca era ruim.
— Então, você vai ficar só namorando ou vai dar um pouquinho de atenção a sua irmã? — perguntou Luxuriah fazendo uma careta – Desde que chegou você só quis saber de Tewdric e deixou eu e Tinuviel para lá… — ela deu a entonação mais triste possível a voz e isso surtiu efeito.
— Ah, Lux! — Kassyeh se adiantou e a abraçou – Desculpe, é a empolgação da poção. Você quer fazer o quê?
— O que acha de vermos como anda a decoração do quarto da bebê? — apesar de Luxuriah ter passado lá mais cedo, sabia que a irmã ainda não tinha visto – Você aproveita e me conta mais um pouco das últimas do Planalto do Crepúsculo.
— Tudo bem! — e olhando para o marido, sugeriu – Por que não vai ficar um pouco com Karen? Ela estava reclamando que o estudo com Lor’themar estava chato.
— Isso, vá salvar sua Karenzita do malvado Lor’themar! — gracejou Luxuriah.
Tewdric respirou fundo e estufou o peito. Colocou as mãos na cintura e falou, em tom pomposo:
— Vou salvar minha Karenzita! — e saiu correndo porta afora. Luxuriah torcia para que ele aproveitasse a folga.
As duas irmãs então saíram da oficina de Luxuriah e se dirigiram para os andares mais altos da Torre Solfúria. Iam devagar, pois a barriga enorme da caçadora limitavam seus movimentos. Além disso, ela se cansava fácil.
— Será que Kayliel não se enganou e tem dois bebês aí? — gracejou Kassyeh quando a irmã reclamou do peso da barriga.
— Se ele tiver se enganado, eu mato ele. — rosnou Luxuriah – Só fizemos enxoval para uma criança!
— Com a quantidade de roupinha que Tinuviel tem, daria para vestir uns cinco bebês! — brincou a maga, mas era verdade. As duas riram.
O quarto separado para a Fendessol que estava a caminho era do lado do quarto de Luxuriah. A pintura das paredes seguia o padrão das cores de Luaprata, vermelho e dourado, mas fora arrumado com a delicadeza que se esperava de um quarto de bebê. O berço era o mesmo que todas as irmãs usaram, feito por Dhomm há anos e que tinha sido resgatado do porão da casa das meninas e reformado pela própria Luxuriah. O colchão e travesseiros eram novos, mas a manta que os cobria também pertenceram às elfas, tendo sido confeccionado por Samanthah. Kassyeh sentiu os olhos marejarem, mas não queria chorar na frente da irmã. Luxuriah poderia simplesmente começar a chorar também e todos estavam se esforçando para mantê-la calma. Só que ali, vendo que a irmã que por tanto tempo evitara falar dos pais agora resgatava lembrança de ambos, mostrava o quão maravilhosa aquela gravidez estava sendo. Luxuriah ia cada vez mais deixados a dor para trás e abraçando a alegria novamente. Kassyeh mal podia esperar para ter a pequena Tinuviel nos braços e agradecê-la por fazer sua família ainda mais feliz.
— Eu pensei em colocar um quadro nessa parede. — falou Luxuriah sentando-se na poltrona de amamentação e apontando a parede em frente ao berço – Mas não sei que quadro colocar. O que você acha?
Kassyeh analisou o local.
— Por que não uma pintura da Nascente do Sol? — sugeriu – Será lindo, combinará com a decoração e é uma forma de dizermos que queremos a proteção dela para Tinuviel.
Luxuriah considerou a ideia.
— É, seria uma boa. — e olhou para a irmã quando esta sentou-se na poltrona do lado – O que você acha que poderíamos por aqui, além do quadro?
— A bebê! — brincou a maga.
— Com certeza eu quero que isso aconteça logo. — e deu tapinhas na barriga – Não aguento mais os chutes, as idas constantes ao banheiro, o fato que não estou combatendo as forças de Asa da Morte…
— Eu preferia estar aqui, grávida, que está no meio dessa guerra toda. — Kassyeh balançou a cabeça – Parece que as batalhas não acabam nunca…
— Como estão as coisas no fronte sob a liderança de Grito Infernal? — Luxuriah estava louca para perguntar aquilo, mais ainda não tivera a oportunidade.
Kassyeh começou seu relato falando sobre os novos aliados da Horda, um clã de orcs chamado Presas do Dragão, liderados por uma orquisa chamada Zaela. Contou que esses orcs tinham o hábito de capturar e enfeitiçar dragões para servir a eles e que, pessoalmente, ela não concordava com a prática, mas o Chefe Guerreiro parecia não se importar. Ainda assim, eram valorosos aliados. Falou também que a Horda conseguira muitas vitórias, ainda que os embates com a Aliança às vezes prejudicassem o avanço da luta contra o Martelo da Perdição. Disse que, em breve, eles fariam um assalto ao Bastião do Crepúsculo, para que pudessem derrotar Cho’gar, um ogro que já era um inimigo conhecido dos orcs. Detalhou as incursões que participou e como conheceu ervas novas e desenvolveu algumas receitas novas de alquimia. Luxuriah ouvia tudo com atenção, fazendo muitas perguntas sobre o avanço deles naquela localidade, visivelmente chateada por não estar lá. Por isso, Kassyeh contou tudo que pode sobre a investida, para o prazer da irmã.
O que a maga não contou à irmã, nem pretendia contar, eram os olhares desconfiados dos orcs em relação a Tewdric e a ela própria. Não contou que, mesmo sendo um campeão reconhecido da Horda, seu marido estava enfrentando uma resistência por parte de seus companheiros de raça maior do que jamais vista antes. Era possível que essa nova resistência proviesse dos novos aliados, pois os Presas do Dragão era clã com tendências xenófobas e que pareciam desconfiar de todos aqueles que não fossem orcs. Claro, poderia ser outros fatores também. Talvez a posição de Kassyeh como princesa e o fato de Tewdric agora viver entre os elfos tivesse feito os orcs ficassem incomodados, bem como os boatos que ouvira que eles jamais poderiam ter filhos, e que aquele enlace era perda de tempo. Talvez fosse simplesmente por ela não ser orquisa e estar roubando um “bom partido” da raça. O que quer que fosse, ambos sentiram a diferença na forma como eram tratados. Até mesmo achar um quarto onde pudesse ficar apenas os dois no acampamento de Zaela tinha sido difícil. Quando Kassyeh tentara abordar o assunto, Tewdric apenas dera de ombros e resmungara:
— Podem reclamar o quanto quiserem. Eu não me importo.
Ainda assim, Kassyeh sentia-se mal. Sua situação melhorou apenas quando encontrou com Nabby e Hermenegilda, que estavam por aquelas bandas também a chamado do Chefe Guerreiro. Uma noite enquanto Tewdric cumpria uma ordem na Ravina de Sangue, sozinho, as três dividiram uma cerveja e Kassyeh acabou se abrindo para as companheiras de guilda. As duas se entreolharam e admitiram que também ouviram boatos dos mais diversos tipos, mas que a maga não tinha com que se preocupar.
— Se Tewdric fosse um orc criado dentro de um clã, com uma tradição forte sobre seus ombros, seria muito pior. — dissera Nabby balançando as perninhas na cadeira da taverna – Mas ele é órfão. Foi criado de qualquer jeito, sem ninguém se importar muito com ele. Então, começam a se importar agora, depois de tanto tempo? Hum! Não é a toa que Tewdric tá pouco se lixando para o que dizem! — a goblina tomou mais um gole de cerveja e fez uma careta – Ei Lutz, você mijou aqui dentro foi? Essa cerveja tá uma bosta! — ela gritou para o estalajadeiro – Eu não vou pagar nada por ela, viu?!
— Boa tentativa Nabby, mas eu te conheço! — gritou o orc de volta, rindo – Você não vai beber de graça de novo!
— Droga… — resmungou goblina.
Kassyeh e Hermenegilda riram.
— Tú não tem que te preocupar. — disse a trollesa colocando a mão no ombro de Kassyeh – Nem se culpar por nada. Tewdric tá contigo porque ele quer! Tu quer tá com ele também! Esses orcs tão tudo é com inveja do Ted porque ele tem uma elfa boazuda com ele! — e piscou o olho para ela.
Kassyeh riu e se sentiu melhor. Decidiu seguir o conselho de Hermenegilda e Nabby e não ligar para aquilo. Mas era bem difícil. Principalmente agora, com a poção de fertilidade mexendo com seu corpo. Tinha horas que estava explodindo de felicidade e outras que chorava sozinha, escondida. Todavia, mais uma vez, manteve seus sentimentos para si mesma.
— Você vai participar do assalto ao Bastião do Crepúsculo? — quis saber Luxuriah preocupada.
— Não sei. Depende de quando for. Não sairei de perto de você tão cedo. — e pegou a mão da irmã com carinho – Quero estar com você nesse momento. A Horda tem muito heróis, confio neles para deixar esse mundo melhor enquanto cuido de minha família.
Os olhos de Luxuriah marejaram e ela apertou a mão de Kassyeh.
— Essa gravidez está acabando comigo! — reclamou limpando as lágrimas – Qualquer coisinha e já começo a chorar! Acredita que ontem Lady Liadrin me ajudou subir as escadas e chorei emocionada?
A maga riu e acariciou os cabelos da irmã.
— Acredito sim. Mas não se preocupe, daqui a pouco Tinuviel chega e você volta ao mal humor de sempre!
Riram e se abraçaram. Apesar de tudo, pensou Kassyeh, de qualquer coisa que qualquer um dissesse, o mais importante para ela era sua família e sabia que, por eles, estava disposta a encarar qualquer coisa.
— A propósito! — exclamou Kassyeh soltando Luxuriah – Sabia que conheci Garona? A meio-orc meio-draenei?!
— Foi mesmo? — perguntou Luxuriah animada. Conhecer um mestiço provavelmente aumentara a esperança de Kassyeh.
— Foi. Eu disse a ela que pretendia ter um bebê e que ele seria meio-orc também!
— E o que ela disse? — quis saber a outra.
— Que eu não fizesse isso. Que um mestiço só sofreria. — respondeu a maga triste – Mas eu disse a ela que seria diferente, que ele era desejado e seria amado. Aí ela deu de ombros, me deu as costas e sumiu.
— Bem, você não deve se surpreender com isso. Eu soube que ela sofreu muito. Mas, como você mesma disse, será diferente. — e sorriu encorajando a irmã – Será o meio orc meio elfo mais amado do mundo!
Era o que Kassyeh mais desejava. Deram as mãos mais uma vez e ficaram em silêncio, observando a luz do sol refletir nos detalhes dourados do quarto do bebê que estava a caminho, cada uma imersa em seus pensamentos.
********************
Tommy estendeu a toalha branca sobre a mesa de madeira que ele havia construído recentemente para o quintal, para ocasiões como aquela, onde receberiam a família para um jantar ao ar livre. Alisou o tecido, deixando-o sem pregas e ajustado à mesa, sorrindo a seguir. Foi até a cozinha e trouxe os pratos sendo seguido por Theo, que trazia os copos.
— A gente devia por uma florzinha num vaso na mesa. — sugeriu o menino – Igual eu vi no ateliê de tio Fey e tio Mel. — sugeriu o menino.
— Boa ideia! — disse ele – Tem um vasinho na dispensa, pegue enquanto eu ajeito os pratos.
Theo saiu correndo e Tommy passou a organizar os pratos. O sol estava se pondo e a qualquer momento seus pais chegariam. A comida estava pronta, tendo sido feita por ele mesmo, já que Lina e Doroteya ainda estavam na bastilha. Se perguntou o motivo da demora delas e pensou que a culpa devia ser de Fey e Mel que provavelmente não queriam largar Arshe. Assim que os pratos estavam devidamente organizados, junto com os copos e a florzinha na mesa, tal como sugeriu Theo, os dois ouviram um barulho na porta e o menino exclamou:
— Chegaram! — e saiu correndo.
Tommy o acompanhou, mas antes deu uma última olhada na mesa arrumada e sorriu.
Assim que chegou a sala, Tommy percebeu que havia algo errado. Mel estava sem camisa, usando apenas sua echarpe. A camisa dele estava com Lina, que não parecia feliz de usar uma camisa de estampa de oncinha rosa.
— O que houve? — perguntou.
— Nossa irmãzinha foi atacada! — Mel se adiantou e segurou Tommy pelos ombros, sacudindo ele – Atacada! Acredita? Atacada!!
— Atacada? — perguntou Tommy segurando os braços de Mel para que ele não o sacudisse mais – Como assim?
— A atacaram, ora mais! — exclamou Fey caindo no choro – Ela ficou coberta de sangue!
Lina revirou os olhos enquanto os irmãos reclamavam para Tommy como aquele trabalho era perigoso, que nunca deviam ter concordado com aquilo, que se ela morresse eles morreriam também, dentre outras coisas.
— Certo, esperem. — pediu o engenheiro – Lina, me conte o que aconteceu.
Enquanto abraçava Theo, que ficara preocupado com o desespero dos alfaiates, ela resumiu a história, dizendo que tinha sido apenas um corte, que tudo estava bem, que a barreira fora reerguida e que o perigo já passara. Aproveitou e contou do esporro que Crowe recebeu e que aquilo já fora o suficiente para valer a pena o combate.
— Está tudo bem. — garantiu ela tanto para Tommy como para Theo – Eles estão apenas exagerando.
— Cadê minha mãe? — perguntou Theo percebendo a ausência de Doroteya – Ela ficou machucada também? — o menino estava assustado.
O coração de Tommy acelerou diante da possibilidade.
— Não, ela está bem. Ela não estava na hora do combate. — disse a comandante acalmando-os – Está a caminho, só parou para comprar algo no mercado. — e se espreguiçando, continuou – Vou tomar um banho antes que mamãe e papai cheguem. E nenhuma palavra sobre isso para eles, entenderam? — avisou com o dedo em riste para Fey e Mel – Nenhuma palavra!
Os dois resmungaram algo que parecia uma concordância e Lina ficou satisfeita. Logo ela tinha subido para tomar banho e os irmãos a acompanharam. Com certeza queriam se certificar que sua bonequinha realmente não estava mais machucada.
— Tia Lina é bem valente, não é? — disse Theo encantado para Tommy – Ela não tem medo de nada!
— É verdade. — Tommy suspirou – Mas, às vezes, é bom ter medo, Theo.
— Por que? — peguntou o menino surpreso.
— O medo te preserva. Não deixa você tomar atitudes precipitadas. Acho que eu ficaria mais tranquilo se sua tia tivesse pelo menos um pouquinho de medo de vez em quando…
O menino ficou pensativo por um momento. Depois, balançou a cabeça afirmativamente.
— Entendi, Tommy. — e sorriu.
Tommy alisou a cabeça dele, feliz por poder ajudar Theo a compreender o mundo. Torcia para que estivesse sempre presente para ajudá-lo a chegar na vida adulta como um homem de caráter. Não seria difícil, pois o menino era uma alma pura e bondosa.
— Vamos continuar a arrumação? — chamou ele – Pode pegar os guardanapos para mim? Estão no armário embaixo da escada.
— Certo!
Enquanto Theo trazia os guardanapos, Tommy pegou os talheres e passou a arrumá-los ao lado dos pratos. Seus pais não gostavam de comer de garfo e faca, por isso colocou colheres para os dois. Theo logo trouxe os guardanapos e ele os arrumava quando ouviu um barulho vindo do telhado. Parecia que algo muito pesado tinha caído lá e agora andava sobre as telhas.
— Theo, entre. — mandou preocupado.
O barulho continuou e o menino obedeceu. Tommy olhou em volta e se xingou por ainda não ter providenciado sua nova espada. Pegou uma das facas de cortar carne e colocou na cintura. Tentando não fazer barulho, pegou a escada e ajustou para subir no telhado. Torcia para que, o que quer que fosse, não o derrubasse lá de cima antes que ele pudesse surpreendê-lo.
Ao chegar no último degrau, Tommy pode ver o que estava provocando o barulho. Uma enorme pantera cinza, com uma lua tatuada no ombro, observava ao redor com seus olhos cor de âmbar atentos. O vento soprou e agitou sua juba, ao mesmo tempo em que o animal farejou o ar intensamente e virou-se para mirá-lo. Teve a impressão de ver um sorriso na pantera.
— Doro? — perguntou surpreso.
A pantera fez que sim.
— Poxa, você me deu um susto grande. Até vim armado! — ele brincou e mostrou a faquinha de carne.
Ele achou que o ruido que ela fez deveria ser uma risada de pantera.
— Venha, estamos terminando de arrumar a mesa. Tá ficando lindo.
Doroteya fez que sim e, com agilidade, pulou para o muro e depois para o chão. Quando Tommy terminou de descer as escadas, ela já estava em sua forma humana e sorria embaraçada.
— Desculpe o susto. — pediu delicadamente.
O sol poente refletia em seu rosto e parecia que os olhos cor de mel estavam em chamas. Tommy sentiu-se ficar desconcertado.
— Tudo bem, mas o que você estava fazendo ali em cima? — quis saber.
A druidesa sorriu.
— Queria apenas ver o pôr do sol. — disse singelamente.
Não era mentira, mas não fora apenas aquilo que Doroteya fora fazer em cima da casa. Desde o ataque a Lina e o que ela ficara sabendo, Doroteya decidiu agir. Enquanto Lina voltara para a sala do trono para falar com Varian, a druidesa permaneceu no local que acontecera o ataque. Farejou demoradamente todos os rastros, por um bom tempo. Depois, passou mais um tempo andando pela bastilha, identificando os cheiros das pessoas que estiveram naquele local. Ao final, quando voltara para o quarto de Arshe, Doroteya já tinha identificado os donos de todos os cheiros, menos de três. Acreditava que aqueles eram os cheiros dos atacantes de Lina. Fixou-os em sua memória e sabia que, quando só sentisse de novo, lembraria e atacaria. Quando Tommy a achara em cima da casa, ela estava se certificando que nenhum dos assassinos estavam por perto. Foi quando percebeu que dali era possível ver o sol mergulhando no oceano e a Lua surgindo no céu. Fez uma prece silenciosa a Eluna, pedindo para conseguir manter todos em segurança.
— Você gosta de ver o pôr do dol, não é? Lembra quando assistimos a um quando cheguei? — perguntou ele sem saber porque corava – Devíamos qualquer dia desses ir assistir novamente, eu você e Theo.
Agora era a vez de Doroteya corar.
— Eu adoraria. — respondeu.
O dois se encararam por um momento e Tommy abriu a boca para dizer algo, mas foi interrompido pela chegada de Theo, que vira pela janela da cozinha que sua mãe estava de volta.
— Mãe! — o menino correu a abraçou – Era a senhora em cima do telhado?
— Era sim. — ela riu – Desculpe se os assustei.
— Tudo bem. — disse o menino – Tommy me explicou que às vezes é bom ter medo.
— Tommy está certo. — e olhando para Tommy perguntou – Posso ajudar em alguma coisa ou você já fez tudo?
— Poderia fazer o molho do espaguete? — pediu ele – Você faz melhor que eu.
— Claro! Vamos.
Estavam terminando os últimos preparativos para o jantar quando ouviram uma carruagem parando em frente a porta e um sino ser tocado.
— Pronta para conhecer o senhor e a senhora Wood? — perguntou Tommy para Doroteya.
— Com certeza. — e sorriu.
Lina e os irmãos também ouviram o sino e desceram. Logo estavam todos na rua, observando o cocheiro ajudar uma senhora a sair da carruagem. A primeira coisa que Doroteya notou foram seus olhos verdes profundos e cintilantes e agora sabia de onde saíram os olhos dos irmãos Wood. A mãe Wood era baixinha, gordinha e tinha os cabelos claros já ficando grisalhos. Apesar das muitas rugas ao redor dos olhos, ela preservava uma beleza simples e modesta que fez Doroteya lembrar de sua própria mãe. Fey e Mel logo se adiantaram e a abraçaram.
— Mãezinha! — eles diziam se parar – Que saudades!
— Ocês taum muito magros! — foi a primeira coisa que ela disse, franzindo as sobrancelhas – Num tão comendo nãum?
— Mãe, eles estão passando muito tempo no ateliê comendo besteira. — foi logo dizendo Tommy – Espero que eles passem um tempo em casa, agora que a senhora está aqui.
Fey e Mel fizeram cara feia para o irmão quando este se adiantou e abraçou a mãe.
— Tomilho, meu fio! Tá taum bunito! Agora sim, ocê tá baum! — e o encheu de beijos.
— Não monopolize a mamãe! — brincou Lina antes de se adiantar e beijá-la também.
O próximo que desceu com dificuldade foi o senhor Wood. Ele demorara porque se recusava a aceitar a ajuda do cocheiro ou dos filhos para descer. Brigou com todos, dizendo que não era inválido e que podia descer sozinho. Foi o suficiente para Doroteya saber de onde viera a personalidade de Lina.
— Pai! — Tommy foi o primeiro a ir até o pai e recebeu duas pancadas fortes de bengala nas pernas – Ai, pai!
— Puquê tu fugiu, minino ruim?! — o pai ralhava e batia nas pernas dele – Tua mãe ficou cum o coraçaum nas mão! Se ocê tivesse matadu ela eu matava tú!
— Ta bão, Sebastian! — a mãe foi em socorro do filho – Os otro tumbém tiraru a paciência do minino.
Foi só quando a mulher falou que ele parou, ainda resmungando.
— Oi, paizinho. — Lina se adiantou para abraçá-lo e o homem abriu um imenso sorriso – Também estava com saudade!
— Com ela o senhor não briga, né? — disse Tommy se fingindo de chateado – Ela também foi-se embora no Véu de Inverno.
— Puquê Alambique fez merda! — disse o velho – Si num tivessi feito, minha fia num tinha ido imbora.
Tommy balançou a cabeça, como se não acreditasse naquilo e Doroteya apenas riu. Realmente o que ouvira de Lina e do pai era bem verdade.
— Ei! — ouviu-se uma voz vinda da carruagem – Podem me ajudar aqui?
Fey e Mel correram e o cocheiro desceu uma cadeira de rodas da bagagem. Logo uma jovem saiu carregando um menino mais ou menos da idade de Theo nos braços. Doroteya soltou uma exclamação. A adolescente era uma versão mais jovem de Lina. Os mesmos olhos verdes, o mesmo queixo e até a mesma forma de franzir o cenho. A diferença estava no cabelo, mais claro e mais cheio e também o rosto era um pouco mais redondo. Fora isso, poderia ser a cópia de Lina. Ela pôs o menino na cadeira de rodas e ajustou um cinto dele. A druidesa viu que o menino também tinha os olhos verdes e o cabelo era da mesma cor da jovem. Deviam ser irmãos.
— Pãozinho! — Lina chamou e abraçou a menina forte – Você está mais linda que da última vez que te vi! — e piscou o olho.
A jovem caiu na risada.
— Você também, tia! Sempre linda! — até a voz dela era parecida com a de Lina!
— E você, Pietro! — Lina agora falava com o menino – Está mais bonito também!
— Obrigada, tia. — o menino tinha um sorriso doce que lembrou Doroteya o sorriso de Tommy – Mas só acredito se eu ganhar um beijo.
Todos riram e Lina aplicou um demorado beijo na bochecha dele.
— Sempre é bom ganhar beijo de mulheres bonita, não é? — e piscou o olho para a tia.
Lina ficou com as bochechas vermelhas e deu um abraço apertado nele.
Doroteya olhou para Theo, que estava a seu lado segurando sua mão e sorriu. Lembrou-se quando se reencontrou com o menino depois de estar longe e sabia como Lina e os outros estavam se sentindo. Apesar de querer muito conhecer os pais e sobrinhos deles, não teve coragem de quebrar o clima familiar. E foi só quando a carruagem foi embora e eles se organizavam para entrar, que o senhor e a senhora Wood repararam na presença dela e de Theo na varanda.
— Oxi! — disse a senhora Wood – Num vem abraça seus avô não, mininu? Venha, venha!
Era claro que ela estava falando com Theo e o menino olhou para a mãe, confuso. Doroteya olhou para Lina que afirmou com a cabeça. A druidesa então fez um gesto para que ele fosse e o menino soltou sua mãe e caminhou envergonhado para a senhora. Dona Mariana então o abraçou com força, como se o conhecesse a vida toda e lhe aplicou um beijo caloroso.
— Num via pidi a bença a vovó não? — perguntou ela carinhosamente.
— Er.. A benção… Vó? — falou o menino sem jeito.
— A Luz te abençoi meu netim! — e o abraçou de novo – Agora vá falá cum seu avô!
Theo e dirigiu ao senhor Sebastian, que o abraçou com o mesmo carinho que a mulher fizera.
— A benção? — pediu Theo sorrindo. Ele gostava de ser abraçado.
— A Luz te abençoi, netim! — disse o senhor. E depois olhou para a esposa – Esse é fio de quem? — perguntou.
— I issu importá, Sebastian? — a senhora balançou a cabeça, como se o marido fosse um caso perdido.
— Seu nomi, nentim? — perguntou o velho alisando a cabeça do menino – Seu vô é véio e num lembra o nomi di ninguém.
— Theodore! Mas pode chamar de Theo! — disse o menino animadamente.
— Ah! Theo! — O velho pegou a mão do menino – Que nome bunitu!
— Muito comum. — reclamou dona Mariana – Essi mininu lindu merecia um nomi bem estiloso!
— Sua ideia de nome estiloso, mãezinha, é diferente da nossa. — reclamou Lina e os irmãos balançaram a cabeça, em concordância.
Doroteya ficou se perguntando se Lina havia falado para os pais sobre ela e Theo e por isso os idosos já chegaram tratando-o como neto. Só que, se Lina tivesse feito isso, com certeza teria avisado a ela. O que estava acontecendo então?
— E essa moça taum bunita?! — dona Mariana se aproximou de Doroteya. Elas eram mais ou menos da mesma altura, e a druidesa sorriu para a senhora.
— Meu nome é Doroteya. — disse com um aceno de cabeça – Sou amiga da Lina. Estou passando um tempo morando aqui.
— Oxi! Achei que fossi namorada nova do Tomilho! — estranho o senhor Sebastian.
Tommy e Doroteya ficaram estranhamente vermelhos diante do comentário do pai Wood, enquanto só demais filhos riam da expressão encabulada dos dois.
— N-Não s-senhor! — gaguejou Tommy para o pai – Somos só amigos, papai!
— Ié? — perguntou.
— É. — confirmou o homem.
— Froxo! — reclamou o idoso visivelmente desgostoso.
As risadas foram ainda maiores e dona Mariana segurou a mão de Doroteya, que parecia incapaz de dizer uma só palavra.
— Num sim importi com esse véio safadu não. Ele vivi tentandu arrumá casório pros fío sorteiro. Menos pra Quengacilina. Essa ele num qué qui casi.
— Num quero mermo não! — exclamou ele.
— Aiai, Sebastian! — e a senhora revirou os olhos tal como a filha comandante costumava fazer.
O senhor não disse nada, apenas colocou a mão nas costas e se esticou, como se colocasse os ossos no lugar.
— Eu quero é mi sentá agora! — e olhando para Theo, perguntou – Ajuda o vô a entrar im casa?
— Claro! — respondeu o menino.
E enquanto Theo entrava animadamente com o pai de Lina, dizendo tudo que prepararam para o jantar, a mãe entrou acompanhada de Tommy e Doroteya olhou para Lina que se acabava de rir.
— Papai e mamãe já estão casando vocês dois. — e a comandante riu mais ainda – E já adotaram o Theo!
— Ele não é nosso primo, não é? — perguntou Pandora rindo.
— Não. — respondeu Lina – É filho de Doroteya.
Doroteya então entendeu que não era a primeira vez que os pais de Lina confundiam uma criança com alguém da família.
— Isso é comum? — perguntou agora mais tranquila.
— Uma vez eles levaram os dois filhos do açougueiro para a fazenda sem querer e só descobrimos três dias depois, quando a família já oferecia recompensa pela volta dos meninos. — falou Fey caindo na risada.
— E lembra quando a filha dos Madruga fugiu lá pra fazenda porque estava com raiva da mãe e só percebemos que ela não era da família quando Tommy foi nos visitar? — Mel riu com o irmão – Acho que a menina passou um mês lá em casa!
— É melhor deixar eles pensarem assim, Doro. — disse Lina – Eles amam ter os netos em volta e Theo precisa de avós legais não é? — e piscou o olho para ela – A propósito, Doro, essa é minha sobrinha, Pandora, mais conhecida por Pãozinho. — Pandora revirou os olhos, mas sorria – E esse é Pietro, irmão dela e meu sobrinho favorito. — e beijou o menino de novo – Meninos, essa é Doroteya, uma amiga minha que está morando aqui em casa com o filhinho, que foi sequestrado por papai.
Agora que entendera a situação, Doroteya também ria com os Wood.
— Mas aproveitando a situação, eu quero pedir algo para vocês dois. — Lina falava sério e os sobrinhos pararam de rir para prestar atenção – Se alguém perguntar se Theo é primo de vocês, digam que é. Certo?
— Por que? — quis saber Pietro.
— Apenas façam isso por sua tia, ok? — pediu a comandante.
— Eu ganho o que com isso? — gracejou Pandora.
— Que tal continuar com todos os dentes da boca? — ameaçou Lina com o punho fechado.
Em vez de ficar com medo, Pandora riu. Logo Lina riu também e Doroteya percebeu que a dinâmica das duas era excelente, como a com os irmãos.
— Você pedindo tão delicadamente assim, tia, não tem como não fazer!
— Ótimo! — Lina deu um sorriso agradecido aos sobrinhos – Vamos entrar agora? Vocês devem estar morrendo de fome.
— Eu comeria um dragão! — disse Pietro fazendo a tia rir.
E todos entraram e foram para o quintal, onde Theo já havia se convertido no neto favorito dos pais de Lina.
Além de ter arrumado a mesa, Tommy também havia colocado lâmpadas no quintal, que foram acesas assim que a noite caiu de vez. Lina ajudou os irmãos a colocarem a comida na mesa e logo todos comiam com gosto. Os Wood mais velhos tinham trazido, além de sua bagagem, um suprimento generoso de vinho, uvas e suco da fruta. Assim, enquanto comiam fartamente, também bebiam e Doroteya ficou impressionada com a quantidade de carne que os dois idosos conseguiam comer e a quantidade de vinho que conseguiam beber. Quando dona Mariana viu que a jovem não comia das costelas assadas no forno, perguntou o problema. Doroteya então disse que não comia carne e a senhora Wood falou:
— Por isso ocê num cresceu.
Até a própria Doroteya riu. Depois, ela tentou explicar que quando criança comia carne, mas depois de aderir ao druidismo, adotara aquele estilo de vida, mas isso não convenceu dona Mariana. Pandora então perguntou, surpresa:
— Você nunca comeu carne depois que virou druida?
— Só quando estava grávida. — explicou – Porque eu tinha um desejo tão grande por carne que a comia quase crua. — e observou o filho rir enquanto comia um pedaço generoso de costela.
— Ocê divia ficá grávida mais vezes. — continuou dona Mariana – Num cumê carne faz mal!
Lina gargalhou alto e Doroteya pôs a mão no rosto, envergonhada. Tommy imaginou que Doroteya devia ter uma menina, para ser tão fofa quanto ela própria.
— I vinhu? — quis saber o senhor Sebastian vendo que ela tomava suco, junto com as crianças – É puquê é druida tumbém?
— Não, é porque eu não tomo nenhuma bebida alcoólica mesmo. — explicou – Falta de costume.
— Apois se tá cum os Wood, tem que bebê cum os Wood. — disse o velho – A carne eu dexo passá, mar o vinhu não! Lina, minha fia, traga um copo pra sua amiga. — e pegou a garrafa.
— Papai, não obrigue Doro a beber. — Tommy foi em defesa da druidesa.
— E ainda mi diz qui num namora ela? — gracejou seu Sebastian – Todo protetó cuma moça?
Tommy ficou escarlate e baixou a cabeça. Fey e Mel riram tanto que engasgaram. Tommy não os ajudou.
— Tudo bem, Tommy. — disse Doroteya docemente – Vou experimentar o vinho. — e olhando para o senhor Wood, falou, sorrindo – Seus filhos sempre falam tão bem dele. Mas só uma taça.
— Duvidu ocê bebê uma taça só! — brincou o velho.
Antes de Doroteya beber, entretanto, Lina lhe explicou a forma certa de beber o vinho. Primeiro deve-se girar a taça na mão, para que o líquido solte o aroma. Depois, cheira-se o vinho, que deve ter determinados aromas, dependendo da uva, ou pode estar estragado. E, por fim, bebe-se, mas não deve engolir de imediato. O vinho tem que passar cinco segundos na língua, para que o sabor seja intensificado. Doroteya fez todo o processo e, assim que baixou a taça, todos a olhavam, em expectativa.
— É delicioso. — disse com um sorriso.
Todos comemoraram, mas Doroteya bebeu apenas uma taça mesmo. Seu Sebastian entendeu que, como fora a primeira vez dela com a bebida, tinha que ir com calma mesmo.
Quando o jantar chegou ao fim, os pais de Lina se retiraram, depois de elogiar o bolo com calda de amora de Doroteya. Fey e Mel ajudaram os pais a subirem as escadas, dizendo que já iam se recolher também porque o dia tinha sido estressante. Lina fechou a cara para os irmãos e eles não disseram mais uma palavra. Theo chamou Pietro para jogarem dama na sala e o menino ficou muito animado. O próprio Theo empurrou a cadeira do novo amigo para a sala e, mesmo do quintal, era possível ouvir suas vozes animadas. Assim, ficaram Lina, Pandora, Doroteya e Tommy, comendo mais um pedaço de bolo antes de começarem a arrumação.
— Foi realmente o senhor quem cozinhou tudo isso, tio? — perguntou Pandora surpresa.
— Foi sim. — confirmou – Exceto o bolo, que foi feito pela Doro. Tava bom? — quis saber, ansioso.
— Muito bom! E o bolo também. — complementou olhando para Doroteya – Você deveria tentar por um pouco de vinho na calda do bolo a próxima vez. A vovó faz e fica uma delícia!
— É uma excelente ideia. — elogiou a druidesa – Tentarei sim.
— Eu te ensino. — se ofereceu Tommy.
— Ah, obrigada. — agradeceu e o rosto de Tommy ficou vermelho.
Todos já tinham terminado o bolo, mas ninguém fez menção de se levantar. Lina encheu mais uma taça de vinho para ela e para o irmão e Pandora fez um bico olhando para a bebida.
— Nem peça. — foi dizendo Lina – Você não tem idade para beber.
— Você tá parecendo minha mãe… — reclamou.
Doroteya percebeu que o brilho nos olhos de Pandora arrefeceu ao falar da mãe. A menina ficou claramente acabrunhada e Doroteya olhou para Lina, em busca de resposta.
— Como estão as coisas com seus pais? — perguntou a comandante com um tom mais gentil.
Pandora baixou a cabeça e olhou para os dedos, em cima da mesa. Parecia medir as palavras. O silêncio durou alguns instantes. Quando olhou de volta para a tia, os olhos estavam molhados.
— Pietro está piorando. — murmurou com os lábios trêmulos – E eles simplesmente não se importam.
Enquanto Lina abraçava a jovem, Tommy sussurrou um resumo da história para Doroteya. Pietro era o irmão mais novo de Pandora e o último filho de Varão, o primogênito dos Wood. Ninguém esperava que a cunhada pudesse engravidar depois do nascimento de Pandora, que fora complicado, mas quando a menina tinha cinco anos, nasceu o irmãozinho. Doroteya ficou surpresa, pois isso significava que Pietro tinha dez anos, três a mais que Theo, mas o menino era franzino e pequeno para a idade. Tommy disse que, quando nascera, Pietro aparentava ser um bebê saudável, mas com o tempo ele foi perdendo os movimentos das pernas, até ficar sem poder andar. A família falara com sacerdotes, magos, toda a sorte de curandeiros, mas ninguém soube dizer o que o menino tinha. E agora, de acordo com Pandora, ele piorava.
— E-Ele tá perdendo a força nos braços também… — murmurava a garota entre lágrimas – Eu já vi acontecer. As pernas começaram assim. — e desabou no choro depois.
Lina encheu uma taça de vinho e entregou para ela. Tommy fez cara feia, mas Lina o ignorou. A jovem tomou um gole longo do vinho e foi se acalmando. Lina pegou a taça da mão trêmula dela e pôs em cima da mesa.
— Por que você diz que seus pais não se importam? — quis saber a comandante.
Pandora soluçou e Tommy lhe estendeu um lenço. A menina aceitou e limpou as lágrimas e o nariz.
— Eu avisei o que estava acontecendo. — disse mais controlada. O vinho a acalmara – Mamãe disse que não tinha nada a fazer, que não tinha remédio. Como se não fosse nada demais! Como se fosse uma gripe! — a garota agora estava com raiva – E p-pa-pai… — ela apertou os lábios – Ele disse que era melhor que ele morresse logo, assim não dava mais trabalho!
E desabou em lágrimas de novo.
Doroteya estava abismada. Como podia pais fazerem isso com seu próprio filho?! Como podiam simplesmente ignorar a existência da criança, ignorar seu próprio filho?! Lembrou de si própria, abandonada recém-nascida na floresta. Se fosse Theo, ela cuidaria dele, não importando o quão doente ele ficasse! Se viu apertando as mãos com força na mesa e seus dentes rangiam. Tommy a olhou, assustado.
— Doro, você tá se transformando! — murmurou.
A druidesa percebeu que o engenheiro estava certo e suas mãos ficavam longas e peludas. Ela respirou fundo, se acalmando. Era um dos motivos que os worgens evitavam as bebidas. Era muito fácil perder o controle. Ainda bem que Pandora não viu, estava com a cabeça nos ombros da tia, que a consolava com uma expressão não muito diferente da worgenin.
— Vocês já deviam ter se mudado para cá. — disse Lina alisando os cabelos da jovem – Vocês dois. Dávamos um jeito de alojar vocês. E cuidaríamos dos dois.
— Eu também queria vir. — fungou Pandora o rosto afundando no ombro da tia – E Pietro também. Mas mamãe disse que eu não viria, que se a senhora quisesse, ficasse só com Pietro. — ela soluçou – Eu não posso me separar do meu irmãozinho!
— Claro que não pode, meu amor. — consolou Lina alisando seus cabelos – Mas vou mandar uma carta para seu pai retardado. Vou dizer que me responsabilizo pelos dois.
— Ele não vai querer, porque vive reclamando que eu não ajudo no vinhedo, que só atraso o trabalho por cuidar de Pietro. — a tristeza da menina foi virando raiva e ela se afastou um pouco do ombro da tia – E eles falam na frente dele! Acredita? Meu irmãozinho finge não ouvir, mas chora depois!
— Varão sempre foi o mais estúpido de nós. — falou Tommy desgostoso – Talvez eu devesse mandar a carta, Lina. Se você mandar, será um ‘não’, com certeza. Se eu pedir, talvez ele considere.
— Tem razãol. — comentou Lina – Vamos tentar.
— Tia, tio, vocês dois são o máximo. — disse a menina, sorrindo, apesar das lágrimas que ainda manchavam sua face – Mas acho que não vai adiantar. — a tristeza voltara tão rápido quanto se fora – Eu sou boa com as mudas sabe? Sei cuidar bem. Eles querem que eu faça o serviço sempre. Eu levo Pietro para o campo e passo um tempo lá cuidando das mudinhas junto com ele. Mas Pietro não pode tomar muito sol, por isso assim que fica quente, pego ele e vamos fazer outras coisas.
— Parece que você cuida muito bem de seu irmãozinho. — comentou Doroteya sorrindo para ela. Pandora sorriu de volta. — O que vocÊs fazem depois do trabalho com as mudas.
— Ah, fazemos de tudo. — o brilho voltou ao olhar da jovem – Ele me ajuda com meu treino com bastão, vamos pro rio, nadamos. Sm, ele nada! Eu ensinei ele a nadar usando os braços e as costas! — ela falava com orgulho – Depois, vamos consertar ferramentas dos vizinhos. Eu… Eu estou juntando dinheiro… — e olhou para a tia, um pouco envergonhada — Quero levar ele a Exodar.
— O quê?! — Lina gritou.
— Talvez o profeta Velen possa ajudar! — justificou a menina – Talvez ele possa pausar a doença ou algo assim!
— Isso é possível? — perguntou Tommy à druidesa.
— Não sei… — respondeu Doroteya.
— Pandora! — exclamou Lina seriamente – Você quer levar seu irmão para o outro lado do oceano!
— Você me ajudaria? — quis saber a menina, os olhos brilhando de lágrimas novamente – Por Pietro?
Lina suspirou e então alisou o rosto da menina. Era óbvio que ela faria tudo por sua sobrinha.
— Claro, querida. — respondeu gentilmente — Mas precisamos falar sobre isso seriamente antes de você tomar uma atitude.
— Por que não leva ela lá para cima, Lina. — sugeriu Tommy – Pandora viajou muito hoje, precisa descansar. E vocês podem conversar sobre isso.
— Só um momento. — disse a menina limpando o rosto – Pietro não pode ver que eu chorei, ou fica preocupado.
Assim, os quatro começaram a arrumar o quintal, tiraram os pratos, guardaram a comida que sobrou (quase nada), e recolheram a mesa. Quando estava com o rosto normal, Pandora acompanhou Lina até o quarto. Elas tentaram levar os meninos, mas ele pediram para jogar mais uma partida e a comandante concordou. Quando estavam sozinhos na cozinha, com Tommy lavando os pratos e Doroteya enxugando, ele continuou a história.
— No começo minha cunhada cuidava do filho sem problemas. — explicou – Mas a medida que Pietro crescia, ele dependia de mais ajuda. Para se locomover, ir ao banheiro, essas coisas. E ele adoece com facilidade. Fica mais gripado que a média das outras crianças. Então, ela foi cansando. — ele falava em voz baixa para que os meninos na sala não ouvisse. – Eu sei que é difícil entender, eu mesmo não entendo, mas minha cunhada já tem mais de cinquenta anos. Tem a mente fechada e o corpo cansado do trabalho no campo. Ela acha que está sendo punida, que Pietro é um castigo.
— Isso não é motivo para tratar o filho desse jeito! — criticou Doroteya fervorosamente – Nem para deixar de se importar com ele. — ela apertava o pano de prato com força – Descartar a criança assim, é errado!
Tommy ficou surpreso com a intensidade com a qual ela falava.
— Nossa Doro, isso te afetou bastante, não é?
Doroteya relaxou e puxou a cadeira da mesa, se sentando pesadamente. Tommy estranhou, deixou a louça de lado e sentou-se também. A druidesa então começou a contar sua história, onde ela mesma fora abandonada quando bebê, por ser pequena demais e como sua mãe a achara na floresta e a criara. Tommy ficou surpreso, mas conseguiu entender porque a história de Pietro a afetara tanto.
— Sinto muito, Doro. — ele estendeu a mão e pegou a dela – Mas não se preocupe. Pietro não está sozinho. Ele tem a Pandora. Ela cuida dele desde que a mãe… Bem… Ela o ama e fará tudo por ele. Então, não precisa ficar assim…
— Que bom… — murmurou ela e sem jeito, acrescentou – Desculpe…
— Pelo quê? — perguntou ele sem entender.
— Por ter perdido o controle duas vezes hoje e te assustado. Acho que não devo beber mesmo! — ela riu – Nós, worgens, somos suscetíveis a mudanças bruscas de humor…
— Desde que você não estraçalhe minha garganta, por mim tudo bem. — os dois riram – Porque não pega os meninos e sobe? Eu cuido da limpeza.
— De jeito nenhum. — ela se levantou – Você já fez a comida hoje! Vou te ajudar! Vamos, vamos logo terminar isso!
Tommy sorriu e se levantou também. Logo os dois terminaram de arrumar a cozinha e foram para sala, onde Pietro e Theo ainda jogavam damas animadamente, como se fossem amigos desde sempre. Então, Doroteya fez um leite quente para todos e ficaram um bom tempo ali, vendo os meninos jogarem e conversando sobre o dia seguinte, mantendo as tristezas e frustrações de lado, até que chegou a hora de se recolherem e Tommy se despediu dos meninos e de Doroteya com um rápido beijo na sua cabeça que fez a druidesa imaginar se sonharia com ele novamente naquela noite.
(CONTINUA.....)
Fale com o autor