Herdeiros da Guerra
40 Capítulo XXVI – A coroação (PARTE II)
Notas iniciais
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Uma das primeiras coisas que Ash aprendeu na vida foi que só havia uma coisa mais irritante que uma Karen animada: uma Karen entediada.
A princesa tinha que admitir que Lor’themar estava se esforçando para tornar o aprendizado da futura rainha o mais interessante possível, mas era complicado manter o foco da menina por muito tempo. Após apenas poucos minutos de aula, Karen já batia o pé nervosamente, se mexia na cadeira, batia os dedos na mesa e estava levando o lorde regente à beira da loucura. Em determinado momento ele ficara tão agoniado que despenteara o próprio cabelo.
Não era por menos. Aquilo era realmente chato. Ash havia se oferecido para acompanhar a irmã nas aulas por um motivo totalmente egoísta: queria ficar mais tempo com o namorado. Lor’themar vivia ocupado na tentativa de manter tudo funcionando em Luaprata e, ultimamente, estava bem irritado com o Chefe Guerreiro. Os treinos deles estavam ficando cada vez mais raros e os momentos a sós eram um luxo que eles se permitiam apenas depois do jantar. Por isso, estava ali, numa manhã de sol, perfeita para o arqueirismo, trancada numa sala com a irmã menor e tentando não estrangulá-la.
Todavia, Ash tinha que admitir que estava gostando de aprender tanto sobre o funcionamento da cidade. Não sabia que Lor’themar tinha que lidar com tantos papéis e tantas demandas e agora entendia porque ele detestava seu cargo. O problema era que Karen parecia desgostar igualmente. A única que estava achando interessante aquelas particularidades da administração era Ash. Se não fosse a agonia de sua irmã, a aula seria, com certeza, mais proveitosa.
— Karen, pare de chutar minha cadeira. – pediu Ash entre os dentes a certa altura da aula.
— Eu não estou chutando sua cadeira! – reclamou a menina antes de deferir mais um chute – É a minha perna!
— Ou seja, é você! – ralhou a outra.
— Ela não está me obedecendo! — e chutou com mais força a cadeira e Ash se segurou para não devolver o chute ou pareceria imatura.
Lor’themar suspirou e passou os dedos nos cabelos prateados, o que serviu apenas para desarrumá-lo ainda mais.
— A troca da guarda se dá em três etapas. – continuava ele falando como se tivesse uma plateia cativa e não uma menina inquieta – Na primeira…
O lorde regente não consegui terminar a fala. Tewdric abriu a porta de supetão e gritou:
— Karenzita!!! Vim te salvar!!!
— TED!!!!
O grito da irmã ficou ecoando nos ouvidos de Ash enquanto a menina corria, com um enorme sorriso no rosto, e se atirava nos braços do orc. Tewdric a pegou e a jogou para cima muitas vezes, antes de colocá-la no braço como se fosse uma criança pequena. Lor’themar suspirou novamente, em meio a uma mistura de consternação e alívio.
— Ted, você fez xixi na calça? – perguntou a menina olhando a frente da calça do orc totalmente molhada.
— Eu derramei água sem querer. – falou o orc ficando com as bochechas ligeiramente mais verdes que o resto do rosto – Quer ir brincar na praia? – perguntou logo ele querendo distrair a menina.
— Quero! – concordou se agarrando ainda mais no pescoço de Tewdric.
— Tewdric, Karensky está no meio da aul...
Antes que Lor’themar conseguisse terminar a frase, os dois tinham sumido porta afora. O elfo largou o lápis em cima da mesa, num gesto de derrota. Ash ficou com pena do namorado.
— É difícil, eu sei. – consolou a jovem elfa.
— Não é difícil. É impossível. – Lor’themar se recostou na cadeira e pôs as mãos na cabeça – Sua irmã parece que tomou uma poção de vigor concentrada e outra de inquietação! – exclamou exasperado – Como Kassyeh conseguia ensinar algo a ela?
— Quando Karen se interessa por alguma coisa, ela se concentra e aprende rápido. – explicou – Mas quando acha chato… Bem, você viu o que acontece.
— Certo, vou ter que dar um jeito de ela achar isso interessante. O problema é que nem mesmo eu acho! – ele a encarou – Parece que a única que achou foi você.
— E estou surpresa com isso. – admitiu Ash – Mas é interessante saber como as coisas funcionam aqui. Gostaria de depois observar… – a jovem se calou e seus olhos brilharam de empolgação – Já sei! Por que não tenta explicar a Karen na prática?
Lor’themar franziu a testa.
— Na prática?
— Veja bem, em vez de dizer como acontece a troca de guarda, leve-a para ver e ajudar em uma. Deixe que ela conheça os soldados, que dê rosto a esses nomes. Você sabe como a Karen adora conhecer pessoas. – o sorriso de Lor’themar a fez continuar – Quando for falar de missões, mostre o mapa, onde será, quem vai, faça ela conhecer todo mundo. Tire-a dessa sala, pelo amor da Nascente do Sol!
A própria Ash ficou surpresa com a sua ideia e com a empolgação com que falara, mas a expressão dele lhe dizia que acertara em cheio.
— Eu já disse que você é brilhante? – perguntou ele com um sorriso de canto de boca e uma voz sensual que provocou arrepios em Ash.
— E-eu... – ela se odiou por gaguejar, mas logo firmou a voz – Apenas conheço a pestinha melhor que ninguém.
Lor’themar nada disse, apenas se inclinou sobre a mesa, beijando Ash levemente nos lábios. A jovem sentiu o coração acelerar e o sangue ferver, além de uma vontade imensa de quebrar a mesa que os separava. Quando o beijo encerrou-se, ele sorriu mais abertamente para ela.
— Já que fui dispensado, creio que posso me dar ao luxo de uma pequena folga. O que acha de um passeio pela floresta?
— Claro! – respondeu rapidamente, como se tivesse medo que ele mudasse de ideia – Antes, sugiro que você… – e ela fez o gesto de ajeitar o cabelo e sorriu, um pouco envergonhada.
— Oh, é claro! — e levantou-se apressadamente.
Lor’themar foi para frente do espelho e fez uma expressão de puro desgosto ao ver o estado de seus belos fios prateados. Nos minutos seguintes, ele o penteou e o ajeitou, sob o olhar sedento de Ash, que queria ela mesma despenteá-lo. Talvez o passeio na floresta fosse o local ideal para isso, pensou sentindo as bochechas ficarem vermelha.
Aqueles pensamentos estavam se tornando bem comum. Cada vez que Lor’themar a beijava e a abraçava, seu corpo era tomado por intensas sensações e ela desejava que o contato se tornasse cada vez mais profundo. Ela o abraçava com força, ciente que o mesmo desejo ardente que a percorria também era sentindo por ele. Só que Lor’themar sempre a afastava. Quando percebia que estavam passando dos limites, ele rompia o contato. Aquilo era injusto, pois não fora ela quem colocara os limites, nem sequer havia sido consultada! Mas o pudor de Lor’themar era mais forte que seu desejo.
Por enquanto.
O assunto já havia sido conversado com as irmãs mais velhas e com Vivithi recentemente, na noite após o aniversário de doze anos de Karen. Com a coroação se aproximando, as irmãs decidiram fazer algo simples para comemorar a data. Karen, claro, as convencera do contrário. A menina tivera a brilhante ideia de chamar todas as crianças de Luaprata para sua festa. Todas. O palácio ficou lotado de crianças das mais diversas idades e deu uma esperança inesperada a todos. Afinal, era comum ouvirem que seu povo estava a beira da extinção; todavia, ver todas aquelas crianças juntas, brincando e gritando, os ajudou a ver quem nem tudo estava perdido. Luxuriah ficou comovida e Kassyeh extasiada. Tewdric fez muito sucesso com os pequenos e, ao final da festa, já era o tio Ted de todos. O palácio precisara de uma pequena reforma também, mas tudo ficara bem. E naquela mesma noite, falando sobre como os elfos faziam mais sexo do que todos imaginavam (aquelas crianças não surgiram de árvores, afinal), Ash, timidamente, comentou que um dia poderia ter filhos, se Lor’themar decidisse tocá-la mais intimamente algum dia.
— Espere aí! — exclamou Vivithi horrorizada – Ele ainda não comeu você?!
— Vivithi! — Kassyeh parecia horrorizada – Não fale desse jeito na frente de Ash!
— Me poupe, Kass! — disse a elfa – Ela já atingiu a maturidade, é bem crescidinha e tenho certeza que está louca para arrancar as calças de meu tio!
Luxuriah gargalhou pela expressão feita por ambas as irmãs.
— Não sei porque a surpresa, Vivi. — disse Luxuriah – Sabíamos que Lor’themar era lento. Isso não em surpreende.
— Surpreende a mim! — exclamou a patrulheira – Ele está desvirtuando o nome de nossa família! Vou ter uma conversinha com ele!
— Não! — disse rapidamente Ash – Não fale nada, por favor! Seria vergonhoso!
— Vergonhoso é ele te deixar na vontade! — Vivithi estava mais irritada com aquela história que a própria Ashrial.
— E-eu darei meu jeito… — murmurou a jovem detestando ter todos os olhares para ela, principalmente em um assunto tão delicado.
Vivithi a encarou, nem um pouco convencida de que Ash conseguiria o que queria, mas foi Luxuriah quem pôs um ponto final na conversa.
— Ela conseguiu colocar arreios no falcoztruz velho, não foi? Vai conseguir arrancar as penas dele. — e rindo de sua própria piada completou – Deixe Ash fazer do jeito dela. Afinal, ninguém também está se metendo nos seus assuntos com ‘nosso’ tio. — e ela enfatizou o nosso.
Torcendo o nariz, Vivithi não falou mais nada, talvez ciente pela primeira vez que não era a única envolvida e enrolada com um tio. Kassyeh apenas balançou a cabeça e disse:
— Só lhe peço uma coisa, Ash. Não engravide antes que eu. — e suspirou.
Isso arrancou risadas de todas e o assunto foi deixado de lado. Ash pensou muito no que disse a irmã e começou a tomar as poções para não engravidar como Vivithi fazia e começou a preparar um plano para conseguir o que queria de Lor’themar. Conseguira dobrá-lo uma vez, não foi? Conseguiria de novo. Por que, se não fizesse nada, ficaria da idade de Lady Liadrin ainda virgem.
Afinal, Ash não pretendia permanecer virgem para sempre.
— Estou pronto! — anunciou Lor’themar com o cabelo já devidamente ajeitado.
Ash sorriu e levantou-se da poltrona.
— Vamos? — chamou estendendo as mãos.
Mal haviam tocado um na mão do outro quando a porta abriu e Vivithi e Rommath entraram. O ânimo de Ash mingou na mesma hora. Com certeza eles traziam relatórios para seu namorado e isso impediria o passeio dos dois. Primeiro ficou irritada, mas, assim que viu a expressão no rosto dos dois elfos, a preocupação tomou o lugar da irritação. O que teria acontecido?
“Karen!” foi seu primeiro pensamento. Será que teria acontecido algo no passeio da menina e a Tewdric na praia?
— O que aconteceu? — perguntou o lorde regente, também percebendo a tensão dos dois.
— Precisamos conversar. — foi dizendo Rommath, que entrou na sala com faíscas de magia estalando ao seu redor – É um assunto inadiável.
— É sobre Karen? — perguntou Ash preocupada.
Vivithi e Rommath a olharam como se só naquele momento notassem sua presença.
— Karen? — repetiu Vivithi – Não, nada sobre Karen. É sobre Luxuriah.
Isso não deixou Ash mais tranquila.
— Ela tá bem? Entrou em trabalho de parto?! — e Ash fez menção de ir em direção à porta, mas Vivithi a segurou.
— Calma, não foi isso. — a elfa tentou acalmá-la – Não é sobre o bebê, pelo menos não ainda.
— Acho que eu e a Ash precisamos de mais detalhes. — disse Lor’themar também ficando tenso – Afinal, o que aconteceu?
— Primeiro, precisamos de privacidade. — avisou Rommath antes de bater o cajado no chão e fechar as portas estrondosamente usando sua magia. Depois, conjurou um campo ao redor do local, impedindo que sons saíssem dali. Aquilo só deixou Ash ainda mais agoniada. Vivithi foi até o armário do tio, tirou quatro taças, as encheu de vinho e distribuiu a todos. Mesmo a contragosto, o grão magíster convenceu todos a sentar e Ash bebericou de sua taça. Seus dedos tremiam. Por que todo esse protocolo, afinal?
— Conversei com Aethas hoje pela manhã. — começou Vivithi – Ele não será o representante do Kirin Tor na coroação de Karen. Serão Rhonin e Vereesa. — e tomou um gole exagerado de sua taça.
Ash franziu a testa. Era só isso? O Kirin Tor mandaria duas pessoas desconhecidas para a coroação? Para que toda aquela agitação afinal? Contudo, a expressão que Lor’themar fez disse a Ash que havia algo naquela história que ela não sabia. O lorde regente sequer pegou a taça de vinho. Levantou-se abruptamente e pôs as mãos na mesa, seus olhos ardendo de uma fúria que Ash jamais vira antes.
— Vereesa? Aqui?! Nem por cima do meu cadáver! — exclamou com vigor – Ainda mais acompanhada daquele humano que ela chama de marido!
Ash engasgou com o vinho.
— Humano?? Aqui?! Do que vocês estão falando?! — indagou alarmada.
Lor’themar não respondeu. Em vez disso empurrou a cadeira e afastou-se da mesa, visivelmente transtornado.
— Vereesa Correventos. — falou Rommath franzindo a testa – Irmã mais nova de Sylvana Correventes, casada atualmente com o líder do Kirin Tor, Rhonin. Um humano.
Irmã da Rainha Banshee? Uma Correventos… Uma elfa como ela. Uma elfa… Casada com um humano? Uma mistura de nojo e surpresa passaram pelo rosto de Ash. Um arrepio de repulsa passou por seu corpo, ao lembrar do que acontecera com Luxuriah. E teria um ser daquela raça na sua cidade? Na coroação de sua irmã? Não era a toa que Lor’themar parecia prestes a explodir. Mas… Seria só isso mesmo? Porque a primeira coisa que Lor’themar falara foi o nome da elfa. Uma onda de ciúmes inundou seu peito e ela apertou a taça com força.
— Vereesa não vai entrar nessa cidade. — afirmou o lorde regente – Ela deixou bem claro que não era do nosso povo e que queria esquecer que já fizera parte de nós. — ele apertou as mãos – Ela não passará sequer da entrada das Terras Fantasmas!
— Quem afinal é ela? — quis saber Ash – É apenas a irmã de Sylvana Correventos? — ela olhava diretamente para Lor’themar esperando uma resposta.
— Segure o ciúme, Ash. — avisou Vivithi levantando uma sobrancelha – Meu tio não teria tanto mal gosto de se envolver com aquele tipinho.
O rosto de Ash ardeu de vergonha.
— Não é nada disso! — defendeu-se – Só quero saber… Quero saber porque parece que Lor’themar está mais preocupado com ela do que com um humano perto de Luxuriah!
— Esse é um problema grave, pequena Ash, é sim, mas a única coisa que consigo pensar é naquelazinha adentrando a minha cidade novamente, depois de sair daqui nos amaldiçoando. — e respirando fundo por um momento, acrescentou – Desculpe, não quero desmerecer a preocupação com Luxuriah.
Rommath virou-se para Ash e começou a explicar o mais calmamente que conseguiu:
— Quando houve a primeira invasão dos orcs, a família de Vereesa e de Sylvana foi morta por orcs. Foi uma batalha muito sangrenta para nosso povo, antes de conseguirmos expulsá-los. Tivemos muitas baixas.
— Mas era outro tempo! — contestou Ash – Os orcs estavam com sede de sangue. Não é? Estavam sob o domínio da Legião! Hoje eles não são assim!
— Verdade, mas muitos de nós ainda guardam um grande ressentimento por esse tempo. É a desvantagem de viver muito tempo, sabe? Certas coisas dentro de nós também demoram a morrer. — o elfo suspirou – Pois bem, Vereesa faz parte de um grupo que não aceitou quando decidimos nos unir à Horda, à época em que a Nascente foi destruída e os humanos nos abandonaram. Preferiram ir embora, renegar suas origens. Eles formam hoje o Pacto de Prata em Dalaran. São um dos muitos espinhos na carne de Aethas.
— E porque meu tio vai permitir que essa… — chamá-la de ‘elfa’ parecia ser uma ofensa para seu próprio povo, por isso Ash apenas repetiu – Essa! Por que vai permitir que ela venha em seu lugar?
— Excelente pergunta Ash. — concordou o lorde regente – Por que? — perguntou a Vivithi.
— Primeiro, tio, não desconte em mim sua raiva. — avisou com o dedo em riste – Estou entregando a mensagem.
A raiva de Lor’themar arrefeceu um pouco mais e ele sentou-se novamente.
— Desculpe, minha querida. — pediu sinceramente – Mas você sabe como esse assunto me deixa…. Me deixa assim.
— Sim, eu sei. — afirmou a elfa, empertigada – Está perdoado.
E passou a contar o que Aethas lhe dissera aquela manhã. No início não era pretensão de Vivithi contar ao seu tio naquele mesmo dia, mas Rommath a convencera da urgência. A coroação de Karen seria em poucos dias e quanto mais rápido resolvem, melhor seria. Ver um humano estando às vésperas do parto não seria bom para Luxuriah. Aquilo poderia acelerar o parto ou coisa pior. A elfa acabou sendo contagiada com a urgência do outro e agora estavam ali, com aquele pepino imenso pra resolver.
— Nunca pensei que diria isso, mas admiro a postura de Aethas. — afirmou Lor’themar – Nunca pensei que ele poderia se posicionar dessa forma ao nosso favor. Acredito que você está fazendo muito bem a ele. — disse para a sobrinha num tom malicioso. Vivithi desmanchou a cara amarrada de vez e sorriu para o tio – Porém, isso nos deixa com esse imenso problema para resolver.
— Quero deixar claro que não permitirei a presença desse humano aqui. — falou Rommath – Não comprometerei o bem-estar da minha esposa e filha.
— E não quero a presença de Vereesa. — afirmou Lor’themar.
— E agora, precisamos dizer isso ao Kirin Tor sem que isso resulte na expulsão da Horda de Dalaran. — finalizou Vivithi – Como vamos conseguir isso?
O silêncio se fez na sala. Todos provaram de suas taças, sem dizer uma palavra, cada um imerso em seus pensamentos. Para Ash, seria muito melhor se seu tio simplesmente fosse embora daquela cidade flutuante e viesse para Luaprata. Seria maravilhoso tê-lo por perto. E, como ele estava naquele rolo com Vivithi, não seria ótimo se os dois se acertassem de vez e até casassem? Porém, ela sabia, pelas aulas que assistira com Karen, como era delicada a posição de seu povo e como a aliança que eles mediavam com o Kirin Tor ajudava a Horda. Sair de Dalaran seria um golpe duro para sua facção e, em tempos de Garrosh Grito Infernal como Chefe Guerreiro, como isso respingaria em sua família? Só havia uma coisa a ser feito: alguém teria que ir a Dalaran propor uma mudança de forma que não abalasse a relação diplomática entre eles.
— Alguém precisa ir lá. — falou Rommath como se lesse seus pensamentos – Conversar com Rhonin. Detesto admitir, mas aquele humano é bem ponderado. Para um humano, claro.
— Eu decididamente não irei. — declarou Lor’themar – Não quero ver nenhum daqueles olhos azuis na minha frente. Já me basta Halduron.
Vivithi caiu na risada.
— Eu adoraria ir, mas aparecerei dias depois no baile com Aethas, então isso seria mal interpretado. — disse a elfa.
Ash então tomou uma decisão.
— Eu irei.
Todos a olharam, espantados. Depois de um momento, o lorde regente balançou a cabeça.
— Não. — falou seriamente – Você não vai.
— Você não pode me impedir. — retrucou ela.
O lorde regente ficou ainda mais abismado.
— Ash… — começou.
— Eu sou uma princesa. Um cargo que você mesmo nos empurrou. — lembrou a jovem – Preciso usar isso ao meu favor. Se eu chegar com uma pequena comitiva em Dalaran isso não vai levantar nenhuma desconfiança. A princesa dos humanos já fez isso, não é? — perguntou olhando para Vivithi, que afirmou com a cabeça – Pois bem, eu irei lá, e pedirei uma reunião com o conselho, para… Para.. — ela pensou um pouco – Falar sobre os planos de governo de Karen ou algo assim. Ganho a simpatia do… Do humano… — ela estremeceu – E peço uma reunião particular com ele e a tal Vereesa e…
— E fala o que os humanos fizeram a sua irmã? — desafiou Lor’themar nem um pouco satisfeito com a ideia – Ash, não podemos arriscar o segredo de Luxuriah. Pela Nascente do Sol, não quero arriscar você assim!
Por mais que a fala dele tenha tocado-a profundamente, Ash não foi demovida de sua decisão.
— E vai arriscar minha irmã e minha sobrinha com a possibilidade desse humanos vir aqui?! De jeito nenhum! — ela se levantou de supetão – Eu vou! E falo o que quer que seja para proteger Lux e Tinuviel! E sua obrigação é me apoiar! — concluiu apontando o dedo para Lor’themar.
Rommath e Vivithi se entreolharam, espantados demais para dizer qualquer coisa. Lor’themar, ao contrário, estava furioso com o embate, mas também estava orgulhoso de Ash. Ela era realmente brilhante! Claro, a melhor solução era realmente enviar uma princesa. Karen e Luxuriah, obviamente, estavam descartas. Kassyeh poderia ser uma boa solução, se não virasse uma besta assassina quando o bem-estar de suas irmãs estava arriscado. E Kassyeh não sabia do segredo de Luxuriah. Não teria a mesma determinação que Ash em resolver aquilo. E a última coisa que Lor’themar queria era que Kassyeh descobrisse o passado de Luxuriah naquele momento. Ash sem dúvida era a melhor opção. Mas seu coração não queria aceitar que ela corresse nenhum risco. Nenhum.
— Ash… Entenda minha preocupação… — suplicou.
— Entenda a minha. — retrucou novamente.
Lor’themar pôs a mão na testa, como se não soubesse mais o que dizer.
— Deixe-a ir Lor’themar. — falou Rommath – Ash é uma excelente opção e tenho certeza que dará conta do recado. Ela é boa com as palavras e tem o raciocínio rápido. Veja que ela conseguiu até deixar você sem palavras.
Lor’themar deu uma risada desanimada.
— Podemos providenciar uma boa guarda para ela. — emendou Vivithi – Lady Liadrin ficará satisfeita em designar seus melhores paladinos para acompanhá-la.
— Eu ficarei bem. — concluiu Ash encarando-o.
Lor’themar sentiu o coração apertado. Ash era a melhor coisa que acontecera em sua vida. Conseguiria não enlouquecer ao pensar nela tão longe e sem ninguém por perto para mantê-la salvo? Sim, Aethas estaria lá, mas ele confiava em Aethas tanto quando confiava em deixar uma raposa cuidar de um coelho. E como explicaria para Luxuriah que a irmã se ausentaria para ir até Dalaran? Só que ele não conseguia pensar em outro jeito.
— Vamos falar com Lady Liadrin. — disse se levantando – Sei que ela tem contatos dentro do Kirin Tor e quero que elas os acione. E vamos manter isso em segredo de suas irmãs.
Ash o presenteou com um lindo sorriso.
— Devemos esperar a carta do Kirin Tor chegar. — lembrou Rommath – Eles enviarão os nomes dos representantes e, no mesmo dia, Ash deverá ir à Dalaran.
— Você deve deixar claro que os quer aqui, mas não aqueles dois. — aconselhou Vivithi.
— Não se preocupem, eu saberei o que fazer. — garantiu.
Porém, assim que fechou a boca, Ash começou a se perguntar se realmente conseguiria. Mas agora era tarde. De qualquer jeito, ela teria que conseguir. Pelo bem de sua família. Por isso, partiu em busca da Matriarca dos Cavaleiros Sangrentos com os demais, para que pudessem organizar uma comitiva discreta que passasse despercebida por sua desconfiada irmã mais velha e pelo arisco conselho do Kirin Tor.
Tirar as calças de Lor’themar deveria ficar em segundo plano por enquanto.
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Quem chegou cedo na Bastilha de Ventobravo naquela manhã foi pego de surpresa com uma máquina esquisita colocada bem no início da escadaria. Era quadrada, com umas pontas que pareciam espinhos e que, às vezes, se mexia inesperadamente. Junto dela, uma gnomida de cabelos rosas, amarados de cada lado da cabeça, que trabalhava na máquina como se fosse a coisa mais normal do mundo fazer aquilo de frente para o posto de comando máximo da Aliança. Quando os soldados se aproximaram para pedir explicação, a pequena criatura tirou um papel do bolso e o balançou para que todos pudessem ver.
— Tenho autorização para estar aqui. — disse em sua voz aguda, que parecia de uma criança.
E tinha mesmo. Por isso, a deixaram em paz, ainda que um ou outro soldado parasse de vez em quando para olhar a agilidade com a qual a gnomida martelava.
Jon e Brienne foram dois que pararam seu caminho em direção à bastilha para observar o desenrolar da estranha cena. Quando a gnomida viu que estava sendo observada mais uma vez, balançou novamente o papel no ar e gritou:
— Autorização!
E continuou o trabalho.
— O que é afinal isso? — perguntou Jon confuso.
— Não faço ideia. — admitiu Brienne – Eu não fui informada de nada.
Já estavam pensando em abordar a pequena criatura de cabelo rosa e sanar a curiosidade de ambos, quando viram Amara vindo na direção deles. A jovem trazia um imenso sorriso no rosto, uma caixa nas mãos e vestia o uniforme da AVIN.
— Bom dia, amiguinhos! — cumprimentou alegremente.
— Amara! — exclamou Brienne – Que bom te ver!
— Passeando? — gracejou Jon.
Amara mostrou o dedo do meio para ele antes de responder:
— Vim a pedido do mestre Shaw. — afirmou – Ele quer que eu dê uma olhada por ai.
Sempre que falava do trabalho na AVIN, Amara dizia para todos que apenas ‘dava uma olhada por aí’. Claro que isso apenas era uma desculpa, porque, na maior parte das vezes, ninguém sabia o que as pessoas da AVIN faziam ou onde estavam. E quando alguém chegava com aquele uniforme, todos tendiam a agir diferente, tensos, como se tivessem medo que eles lessem sua mente e descobrissem seus segredos mais sombrios. Jon comentara com Brienne que não fazia sentido você ser espião e andar de uniforme e a jovem retrucara que estavam em Ventobravo, não precisavam de espiões o tempo todo. Apenas Amara sabia como a coisa funcionava.
A grande questão é que ela estava por ali apenas para distrair todos. O verdadeiro agente que procurava traições, falhas ou informações, não andava fardado. Como ela ainda estava no início de carreira, servir como distração era sua obrigação. E ela achava divertido.
— Minha mãe fez biscoitos. — disse a jovem entregando a caixa aos dois – E perguntou se vocês vão à caça dos ovos esse ano.
— Claro! — afirmou a subtenente abrindo a caixa e pegando um biscoito – Não perderíamos por nada nesse mundo.
— Cara, isso é muito bom! — falou Jon enfiando um biscoito na boca.
Amara sorriu, contente por estar na bastilha novamente. Adorava a AVIN, mas sentia falta dos amigos.
— Como estão as coisas por aqui? — quis saber.
Os dois apontaram ao mesmo tempo para a gnomida e sua máquina estranha.
Diferente de todas as pessoas, Amara não se mostrou surpresa, pelo contrário. Emitiu uma breve exclamação e disse:
— Ah, é hoje. — como se não fosse nada incomum ver aquela cena.
— Você sabe o que significa isso? — quis saber o rapaz apontando para a gnomida que balançava autorização novamente para outro soldado.
— Hoje é a visita dos pais da comandante. — disse simplesmente.
— Isso nós sabemos, mas onde a gnomida se encaixa? — quis saber Brienne.
— O nome dela é Vanellopi. Ela é uma engenheira, amiga da comandante. Ela criou aquela máquina para que os pais da comandante, que são idosos, e o sobrinho cadeirante poderem subir a escadaria sem problemas. — explicou a jovem.
— É para isso que serve a máquina? Para subir escadas? — admirou-se Jon.
— Provavelmente.
Olhando agora com cuidado, os dois perceberam que os espinhos que pareciam sair da máquina na verdade pareciam mais com pernas articuladas, onde Vanellopi agora besuntava abundantemente de óleo.
— Como você sempre sabe dessas coisas, hein, Amara? — Jon franziu a sobrancelhas.
— Ouço por aí. — respondeu e sorriu.
Amara sempre foi mais atenta que os outros e sempre conseguia as informações primeiro, mas, desde que entrara na AVIN, essa habilidade havia melhorado consideravelmente. Se antes ela sempre dizia onde tinha obtido as respostas, agora nunca respondia nada diretamente e quando respondia era apenas com um ‘ouvi por ai’ ou ‘alguém me contou’. Os amigos estavam começando não fazer mais perguntas. Era melhor apenas ter a informação e pronto.
— Olha! — exclamou Amara de repente – Lá vem a comandante!
Lina chegou aquela manhã na bastilha em seu cavalo, sendo seguida por uma carruagem simples. Logo que chegou, ela apeou, entregou o cavalo ao cavalariço e foi até a carruagem, onde ajudou uma senhora a descer. Depois, tirou uma cadeira de rodas de cima da carruagem enquanto um senhor descia. Por fim, uma jovem segurando um menino saíram e o menino foi acomodado na cadeira de rodas. Quando eles se aproximaram de onde estava a gnomida, os três seguraram o fôlego.
— Aquela garota é a cara da comandante! — exclamou Jon.
Como se tivesse ouvido o que o rapaz falara, a menina olhou onde estavam os três e acenou para eles. Amara entendeu o gesto amistoso como uma oportunidade de se aproximar.
— Vou lá! — avisou e, antes de seus colegas dissessem algo, ela saiu.
Sem muita opção, Jon e Brienne foram em seu rastro.
Enquanto isso, Lina apresentava os pais para Vanellopi.
— Pai, mãe, essa é Vanellopi. Ela é a engenheira que falei a vocês.
— É um enorme prazer! — falou animadamente a gnomida apertando a mão dos Wood com empolgação – Quando a Lina me pediu esse favor, fiquei honrada. Ela já salvou meu traseiro pequeno várias vezes!
— Pela Luz! — exclamou dona Mariana colocando a mão no rosto, envergonhada – Uma criaturinha piquinininha como ocê num era pra falar palavra feia!
— Mãe, ‘traseiro’ não é uma palavra feia. — disse Lina – E todos temos um.
Todos riram, mas dona Mariana só balançou a cabeça, negativamente.
— Nossa, que máquina incrível! — exclamou Pietro, se inclinando na cadeira para vê-la mais de perto – Vamos andar nela?
Antes que Vanellopi respondesse, Amara chegou, com seu imenso sorriso e sua animação.
— Bom dia, comandante! — cumprimentou alegremente Amara, batendo continência.
— Amara! — Lina sorriu satisfeita – Que bom te ver! Conheça meus pais, Sebastian e Mariana Wood. E esses são meus sobrinhos, Pandora e Pietro. Pessoal, essa é Amara Chase, da AVIN.
Amara os cumprimentou alegremente e o senhor Wood comentou, surpreso:
— Taum novinha nu exército!
— Pai, ela tem a idade que eu tinha quando entrei. — lembrou Lina.
— Muito nova! — reforçou o senhor.
A comandante apenas riu e quando viu Jon e Brienne, apresentou-os aos pais também.
— A senhora está bem, comandante? Depois de ontem? — perguntou o rapaz.
O olhar que Lina lançou até ele o fez perceber que tinha dito uma coisa totalmente inapropriada, e Jon teve vontade de deitar em posição fetal no chão e chorar.
— O qui acunteceu ontem? — perguntou dona Mariana olhando para a filha, preocupada.
— Nada de mais, mãezinha. Apena sofri um corte na testa. Vê. – ela afastou o cabelo e mostrou a pele curada para a mãe – Doroteya curou ontem mesmo.
— Ah bom! — disse a senhora, aliviada.
— Bem, a conversa está ótima, mas temos que subir a escadaria. — e apontou para a máquina de Vanellopi – Vamos?
— O queê? — exclamou Sebastian – Eu num vô subi aí nem a pau!
— Paizinho! — ralhou a comandante – O senhor não vai aguentar subir esses degraus todos!
— Vô sim! — disse o velho incisivo.
— Não vai! — retrucou Lina.
— Vô sim! — exclamou mais uma vez, batendo a bengala no chão – Num subo aí di jeitu ninhum!
— Ah, tu vai sim! — quem falou foi dona Mariana, lançando um olhar gelado com seus imensos olhos verdes – Nossa minina teve mó trabaio pra facilitá nossa vida e essa coisinha fofa e pequinininha fez essa coisona só pra gente! — Vanellopi ficou muito feliz com os elogios de dona Mariana, que continuou – Aí um véi teimosu como tú num qué usá? Vai usá sim! Podi subí! — e apontou o dedo para a entrada.
Resmungando, o idoso se aproximou da máquina, com relutância. Antes de subir bateu com a bengala várias vezes, para se certificar que era firme e então subiu. Lina ficou aliviada, pois temia ter que colocar seu pai nos ombros como um saco de batata para pô-lo ali. Sorriu para a mãe.
— Obrigada, mãezinha. Eu não queria ter que arrastar o velho pela perna.
— Da próxima vez eu dexo ocê arrastá ele. — avisou a senhora bem alto para o marido ouvir antes de entrar na máquina.
Os sobrinhos também entraram e Lina virou-se para os três jovens que ainda estavam por perto.
— Não quero que nada sobre o incidente de ontem chegue aos ouvidos dos meus pais, entenderam? — falou em uma voz baixa – Avisem aos outros.
— Sim, senhora. — disse os três antes de Lina subir na máquina também.
E enquanto viam o invento de Vanellopi criar vida e os espinhos virarem pernas que subiram sem dificuldade a imensa escadaria, todos os três tinha o mesmo pensamento: o olhar da mãe de Lina era exatamente o mesmo que ela daria para um soldado insubordinado. E que, apesar de parecer com o pai, a comandante, sem dúvida, herdou o poder de ordenar e ser obedecida da mãe.
Quando chegaram ao final da escadaria, todos desceram e, por um instante, Lina achou que seu pai começaria a reclamar, mas o idoso apenas deu de ombros.
— Num foi taum ruim assim. — resmungou.
Dona Mariana sacudiu a cabeça em negativa. Que marido teimoso que tinha!
— Muito obrigada Vanellopi. — agradeceu Lina – Fico lhe devendo uma.
— Que nada, o prazer foi meu! Você sabe que adoro um desafio e quando você pediu uma máquina para subir escadas! — ela assobiou – Que maravilha!
— Sairemos ao pôr do sol. — avisou a comandante.
— Estarei aqui para pegá-los! — e levantou o polegar animada antes de pular em sua máquina e começar a descer as escadas de novo.
Assim que começaram a caminhar até a entrada da bastilha, o coração de Lina disparou quando viu Varian em pé, esperando por eles. Não imaginava que ele estaria ali, pois supunha que, como rei, Varian os esperaria na sala do trono. Só que, obviamente, não fora o que acontecera. Um nervosismo tomou conta de Lina e ela sentiu as mãos suando. Passou as palmas na roupa discretamente enquanto se aproximavam, seus pais e sobrinhos visivelmente surpresos por verem o rei parado ali. Olhou de esguelha para o pai e a mãe que fitavam boquiabertos a imagem imponente de Varian. Passou por sua cabeça que nunca, jamais, apresentara um homem a família e o faria agora. Claro, seus pais não sabiam do relacionamento dos dois, mas, ainda assim, sentia como se pudesse ser descoberta a qualquer instante e seu pai decidisse cobrir Varian de porrada com sua bengala.
— M-majestade. – Lina se odiou por gaguejar e aproveitou que se curvara para evitar os olhos de Varian.
— Comandante. – disse ele calmamente – Então, essa é sua família?
Os pais de Lina se ajoelharam numa atitude humilde e devota. Pandora imitou o gesto dos avós e Pietro apenas baixou a cabeça.
— Por favor, levantem-se. – pediu Varian – Não há razão para tanta cerimônia.
Quando os Wood se levantaram, Lina percebeu, em choque, que seus pais choravam. Dona Mariana puxou um lenço do bolso e escondeu as lágrimas, envergonhada, enquanto o senhor Sebastian lutava contra as lágrimas que rolavam discretamente em seu rosto. Ele tirou o chapéu velho de palha e o apertou entre os dedos cheios de calos.
— É uma honra muito grandi, majestadi... – murmurou o senhor sem conseguir sequer encarar o rei. – Vossa grandeza num sabi comu tamu feliz... – e passou as mãos no rosto enrugado e desgastado do sol.
Lina ficou totalmente abalada com o choro dos pais. Pela primeira vez se tocou do profundo sentimento que eles tinham por seu rei e como aquele momento era grandioso para os dois. Como comandante, Lina já se acostumara a presença de Varian, e como amante, estava acostumada a vê-lo nu, a vontade, com um sorriso malicioso nos lábios. Porém, agora o via novamente pelos olhos humildes de sua origem, onde o sentimento de pequenez predominava. Viu Varian como seus pais deviam ver, em sua armadura reluzente, o brasão de Ventobravo destacado, sua figura alta e imponente se destacando na entrada, como uma entidade muito superior a reles mortais como eles.
— Não vai me apresentar seus pais, comandante?
A voz de Varian soou quase etérea em meio aos pensamento de Lina, e ela levantou a cabeça, ciente de seu rosto vermelho e corado. O rei com certeza estava estranhando sua inesperada falta de jeito.
Varian não estava apenas estranhando o comportamento de Lina, mas também estava extasiado com ele. A mulher forte e temperamental que conhecia tão bem na cama e no trabalho, parecia uma menina envergonhada apresentando o primeiro namorado aos pais. O rosto corado destacava as sardas e os olhos verdes e fazia com que Varian tivesse vontade de tomá-la nos braços e beijá-la profundamente. Porém, apenas sorriu, encorajador.
— C-claro... – balbuciou Lina ciente do olhar penetrante de Varian antes de pigarrear e tentar manter sua voz firme – Majestade, gostaria de lhe apresentar meus pais, Sebastian e Mariana Wood. – e olhando para os pais, continuou – Pai, mãe, tenho a honra de lhe apresentar o rei Varian Wrynn de Ventobravo.
O senhor Wood já havia controlado mais sua emoção, mas dona Mariana ainda chorava de cabeça baixa, apertando o lenço em sua mão. Varian deu um passo à frente e segurou suavemente a mão pequena da senhora. Ela então o encarou, surpresa demais para dizer qualquer coisa.
— Não chore, minha senhora. – disse o rei com doçura – Para mim, é uma grande alegria receber os pais da comandante, que tanto já fez pelo meu reino. – e então sorriu – Gostaria que trocasse as lágrimas por um sorriso.
Timidamente, dona Mariana sorriu. Lina ficou com o peito mais leve. Pandora então deu uma cutucada de leve na tia, que a olhou. A jovem então fez um gesto com a cabeça em direção do rei.
— Ah! – aquela situação estava deixando-a realmente confusa – Majestade, esses são Pandora e Pietro.
Quando os olhos do rei pousaram na jovem Pandora, ele arregalou os olhos, surpreso e depois olhou para Lina como se pedisse uma explicação. A jovem então se adiantou e disse, animadamente:
— É uma honra majestade. Sou a filha perdida da comandante.
O rei pareceu chocado e Lina teve vontade de matar a sobrinha. Como aquilo estragaria o passeio dos pais, ela apenas deu um sonoro e dolorido cascudo na menina, que ficou segurando a cabeça depois, com um beicinho chateado.
— Os dois são meus sobrinhos! – rosnou Lina – E sem piadinhas na frente do rei, Pandora!
Para a surpresa de todos, o rei deu uma risada.
— Fiquei inclinado a acreditar na menina, comandante. — falou espirituoso – Ela parece bastante com você.
— Pena que não tem minha educação. – continuou Lina olhando a menina com olhos fulminantes.
— Foi só uma piadinha, tia. Até o rei gostou! – resmungou, mas com um sorrisinho no rosto.
Lina teve vontade de lhe dar outro cascudo, mas se segurou, pois a atenção do rei estava em Pietro agora. Ao ver o menino preso a uma cadeira de rodas, o coração de Varian se condoeu. Abaixou-se e ficou com um joelho no chão, para ficar na altura dele, que corou absurdamente ao se ver tão perto do rei.
— Então, meu jovem, pronto para conhecer a Bastilha? – perguntou numa voz carinhosa.
Pietro era fã incondicional do rei Varian. Antes de sua doença, o menino sonhara em, como a tia Lina e o tio Tommy, entrar para o exército e ser um poderoso guerreiro. A doença lhe tirara o sonho de servir à Ventobravo, mas nunca o sonho de um dia conhecer o maior campeão dos humanos. E agora, frente a frente com o rei que sempre admirou, Pietro ficou sem palavras. E quando Varian estendeu a mão e pegou a do menino, as lágrimas começaram a cair em seu rosto jovem e inocente.
— Ei, nada de choro. – Varian limpou as lágrimas do menino – Hoje é dia de alegria.
Pietro sorriu timidamente.
Passos apressados foram ouvidos e logo a figura de Arshe surgiu, esbaforida. Ela vestia um vestido simples e dispensara a maquiagem naquele dia, preferindo apenas um batom levemente rosado. O rosto de Pietro ficou imediatamente vermelho e ele observou a princesa com os olhos arregalados. Para o menino, a visão de Arshe era como de uma entidade superior e divina que ele jamais vira antes. Seu coração acelerou e Pietro torceu para estar com uma boa aparência.
— Ah, Arshe chegou. – disse o rei se levantando.
— Bom dia! – cumprimentou animadamente – Vocês devem ser os pais de Lina!! Eu ia recebê-los também, mas acordei um pouquinho tarde! – ela soltou uma risadinha – Bem, eu sou Arshe Fordragon, princesa emérita de Ventobravo e melhor amiga da filha de vocês! É um prazer imenso conhecê-los!
Arshe falou tudo num fôlego só e logo estava abraçando dona Mariana, como se fossem velhas amigas. O jeito espontâneo da princesa deixou os pais da comandante totalmente extasiados e os dois ficaram bem mais à vontade com a chegada dela.
— E vocês devem ser os sobrinhos preferidos! – disse agora ela se dirigindo a Pietro e a Pandora – Nossa, Lina, ela é sua cara mesmo! Vai balançar os corações dos soldados jovens, seja de amor ou medo! – Arshe riu da própria piada.
Pandora abriu um sorriso para a princesa, animada com a oportunidade.
— Princesa Arshe, sabia que todas minhas tias morrem de inveja da tia Lina por ser sua amiga? — disse com entusiasmo.
— Eu soube. – respondeu dando uma risada – Mas acho que elas deviam ter inveja por eu conseguir ser amiga da Lina que é tão difícil de conquistar! – e deu um abraço em Lina.
— Pare com isso Arshe! – ralhou Lina tentando afastar a outra – Os soldados vão perder o respeito por mim se me virem de amasso com você!
A princesa apenas riu e soltou a comandante.
— Eu não me importo de ganhar um abraço! – foi dizendo Pandora, que logo recebeu um abraço apertado de Arshe – Posso ser sua amiga também?
— Claro! – os olhos da princesa brilharam – Quanto mais Woods melhor!
— Não diga isso perto dos meus irmãos, eles já procriaram o suficiente! – avisou Lina.
Arshe dirigiu um sorriso para todos e voltou a sua vista para Pietro, que corou ainda mais.
— E esse menino bonito é Pietro né? Anduin está louco para lhe conhecer! Ele tem quase a sua idade e tenho certeza que serão amigos!
— Você parece um anjo… — murmurou Pietro com os olhos brilhando.
Arshe corou absurdamente diante da frase.
— Nossa, foi o melhor elogio que já recebi na minha vida! Que galante! — e se aproximando do menino, sussurrou – Cuidado ou posso me apaixonar! — e piscou o olho para ele.
Pietro baixou a cabeça e coçou a cabeça, ainda mais envergonhado.
Depois, a princesa olhou para todos e tomou a dianteira da visita.
— Venham, deixe-me mostrá-los a bastilha. – chamou animadamente – Depois da visita, teremos um belo almoço no salão! Espero que gostem!
Varian ofereceu o braço a dona Mariana.
— Importa-se que eu a acompanhe, senhora Wood?
O rosto da senhora ficou muito vermelho e ela soltou uma risadinha encabulada.
— Oxi,,claru qui naum.
Foi o marido dela quem não gostou.
— Hum! Qui istoria é essa, Mariana? Quim tem qui autorizá é eu! – e olhou feio para o rei, visivelmente com ciúmes.
Lina teve vontade de dar uns cascudos no pai como dera em Pandora. Como ele podia em um momento está todo emocionado com a presença de Varian e agora o olhava como se o rei fosse roubar a sua velha mãezinha?! Começou a pensar que não fora uma boa ideia trazê-los ali. Porém, Varian apenas sorriu e se dirigiu ao senhor:
— O senhor se importa que eu acompanhe sua adorada esposa? Prometo não roubá-la.
Varian estava brincando com seu pai, conhecido por ser muito ranzinza e ciumento?! O coração de Lina pulou no peito e olhou para o pai, temendo sua resposta, mas o velho apenas riu, mostrando os dentes brancos e afirmou com a cabeça.
— Haha, num perco a Marizinha pra ninguém, nem pra rei! – ele riu e sua esposa e o rei o acompanharam – Podi í!
— O senhor pode me acompanhar! – sugeriu Arshe dando um sorriso iluminado para o senhor Wood.
— Vá cum a minina, Sebastian. – autorizou dona Mariana – E dexe di conversa irnutil perto du rei.
Era estranho como, em pouco tempo, seus pais pareciam tão à vontade ao lado de Varian e Arshe, pensou Lina. É verdade que o rei se mostrara bem acessível, vindo inclusive recebê-los, E Arshe... Bem, tinha aquele jeito dela, mas, ainda assim, Lina achara que os dois idosos ficariam escabreados toda a visita e que teria que se virar para fazê-los se sentir mais à vontade. Porém, a medida que entravam na bastilha, Varian conversava animadamente com dona Mariana, arrancando risadas envergonhadas da senhora. Vendo a cena, pensou que em pouco tempo teria que lidar com seu pai querendo matá-lo, mas o velho senhor estava entretido com a princesa e participava da conversa também. Em poucos minutos, Varian e Arshe conquistaram os dois Wood mais cabeça duras!
— Ei, tia… – sussurrou Pandora ao seu lado – O rei é bem bonitão né?
— Olha a boca, menina! Respeite o rei! — grunhiu Lina.
— Elogio não é falta de respeito. — retrucou a jovem enquanto empurrava a cadeira de rodas de seu irmão – E vai me dizer que a senhora não acha ele bonito?
Varian bonito? Não. Esse adjetivo era muito simplista. Varian era lindo. Maravilhoso. Sensual. Exuberante. Tudo isso e muito mais. Só que isso não era algo que se dizia para a sobrinha de quinze anos.
— O que eu acho ou deixo de achar não importa, Pandora. — um soldado passou por elas e deu uma boa olhada em Pandora, mas prosseguiu rapidamente quando Lina o olhou feio – Eu tenho que ser profissional aqui.
— Resumindo, a senhora acha ele bonitão, mas seria antiético dizer. — conclui a jovem.
Lina deu um sorriso de canto de boca.
— Algo assim. — afirmou.
— Eiei, tia! — chamou Pietro – E a princesa Arshe? Ela é comprometida?
A comandante parou de andar de repente, encarando os sobrinhos com as sobrancelhas franzidas.
— Vocês dois estão muito assanhadinhos para meu gosto! Andem logo e deixem de conversa!
Os sobrinhos acataram as ordens e logo estavam perto novamente do outro grupo, onde ouviram Arshe comentar, surpresa:
— Então o senhor produziu uma uva própria?
— Sim, sim! — disse o idoso com o peito estufado de orgulho – Foi misturandu um monte de uva nuns anos aí. A gente vai cruzandu as mudas inté acha uma diferente. Chamei a uva di Mariana!
Dona Mariana ficou vermelha e deu uma risadinha.
— Então esse vinho é da uva Mariana? — perguntou Varian segurando uma garrafa de vinho. Seu pai já havia entregue o presente – Estou louco para provar.
— Quero um pouco também! — pediu Arshe.
— Mas é claro! — concordou o rei.
Logo chegaram ao salão, onde Anduin esperava. O motivo do príncipe não ter ido recebê-los fora que Greymane estava o mantendo preso a uma conversa que não parecia agradar ao jovem. Quando os viu, o rosto de Anduin se iluminou e ele sorriu. Greymane olhou para trás e quando os viu, fez uma careta. Será que um bando de plebeus na bastilha o incomodava? Lina praticamente estufou o peito. O rei cachorro louco podia achar ruim o quanto fosse! E ai dele se dissesse qualquer coisa ruim aos seus pais!
— Senhor e senhora Wood, deixe-me apresentar meu filho, príncipe Anduin Wrynn. Filho, esses são os pais da comandante Wood e seus sobrinhos.
— É um prazer conhecê-los. — falou Anduin alegremente quando todos fizeram uma reverência a ele.
— Algum problema, Genn? – quis saber Varian ao ver que Greymane ainda os olhava, com a testa franzida.
— Nada, Varian. — disse – Vou deixá-lo com suas visitas. — e sem dirigir a palavra aos outros, saiu.
A língua de Lina coçou com vontade de dizer alguma coisa com o rei sem reino, mas sequer precisou. Seu pai esperou Greymane desaparecer e, com muito menos controle que a filha, disse:
— Que homi mal-educado!
O coração de Lina disparou de ansiedade.
— Pai, esse é o rei Greymane. — alertou Lina – O senhor não devia falar isso.
— É muito mal-educado pra sê um rei! — continuou o senhor sem nenhum senso do que podia sofrer com sua opinião.
— Perdoe meu pai, majestade. – pediu a comandante, temendo o que mais seu velho pai poderia dizer – Ele não tem muito controle de sua sinceridade.
— Não há o que perdoar, comandante. – disse Varian sorrindo – A sinceridade do seu pai me agrada. Lembra muito a sua.
Lina fez muito esforço para não sorrir para Varian naquele momento. Manter a compostura naquela situação era mais difícil do que lidar com ele normalmente.
— Vocês quem devem perdoar o mal jeito do rei Greymane. — pediu Anduin em seguida – Ele ainda sofre com a falta do filho que morreu.
Dona Mariana apertou o braço de Varian e lágrimas surgiram em seus olhos.
— Pobrezim! Perdeu o fió? É a pió coisa qui podi acuntecê cum alguém! — ela balançou a cabeça – Eu murriria se um dus meus mininu morresse!
A dor que viu nos olhos verdes da mãe de Lina comoveu Varian. Seu olhar relanceou até a comandante e então ele falou:
— Deve ser muito difícil para a senhora ter uma filha no exército.
A senhora afirmou com a cabeça.
— Vossa majestadi num sabe como eu sôfro! – disse enxugando as lágrimas com o lenço que trazia nas mãos — Todo dia eu rezo minha Luz, proteja minha Quengacilina!’
Lina teve vontade de morrer e seu rosto ficou extremamente vermelho diante da fala da mãe. Como ela tinha coragem de falar aquele nome horroroso na frente de Varian e Anduin?! Pelo menos nenhum dos dois disse nada e continuaram ouvindo a senhora atentamente.
— Sabi, majestadi, ela foi a fia mar corajosa minha. — continuou dona Mariana – Cum as outra, eu mi preocupava direto: se machuô? Tá sigura? Arguém quebrô o coração dela? Mar a Quengacilina? — ela fez que não com a cabeça – Essa eu num mi preocupava. Ela sabi si cuidá sozinha desde sempre! Forti comu um cavalo e tão teimosa quantu um! Nunca precisô de mim. — ela olhou para Lina com amor – Tenhu muito orguio dela e muito medo de perdê ela tumbém.
Era difícil enxergar Lina como filha de alguém, percebeu Varian. Durante anos, ela sempre foi uma soldado, a discípula de Bolvar, a capitão de Nortúndria. Depois, passou a vê-la como mulher e amante, prendendo seu coração e mente à existência dela e temendo por sua segurança. Agora, via Lina como algo mais. Ele não era o único que queria bem a ela e se preocupava com seu bem-estar. Ali estavam dois idosos, seu povo, castigados pelo sol e pelo trabalho, temendo por alguém que estava mais que disposta a morrer por ele.
— Mamãe, por favor. — pediu Lina com o rosto ainda mais vermelho que antes – É meu trabalho.
— Sua mãe está certa em se sentir preocupada. — falou Varian – Acredito que seu pai também se preocupa.
— Por mim, ela num tava nem aqui! — disse o senhor Sebastian batendo a bengala no chão – Mar ela fugiu e vêi pra cá e a Marizinha num dexô eu levar di vorta! — e olhou de esguelha para a filha – Mar tenhu muito orguio dela tumbém! Ela luta pra proteger nóis! Pra qui nós possa prantar as uva!
— Pra eu ter mair orguio dela, só no dia qui ela casá! — completou a senhora sorrindo esperançosa.
— Mãe! — exclamou Lina sem acreditar no que ouvia.
Todos riram, menos Lina.
— Ah, Lina, deixa sua mãe! — disse Arshe – Eu também adoraria te ver num vestido branco entrando na igreja. — e piscou o olho para Lina.
— Eu poderia realizar o casamento! – se ofereceu Anduin.
— Eu levo as alianças para o altar! – animou-se Pietro levantando a mão.
— Agora só falta o noivo! – gracejou Pandora.
Resistindo ao impulso de olhar para Varian, a comandante olhou feia para os ‘casamenteiros’.
— Vocês estão muito engraçadinhos hoje… – resmungou.
— Viu fia, num sô só eu qui quer qui ocê casi! – falou animadamente dona Mariana.
— Ahm mar isso nunca vai acuntecer! — falou o pai da comandante – Num ixisti homi nesse mundo que valha a minha fia!
— Num diga isso, Sebastian! — ralhou dona Mariana – Tenho certeza qui tem muito homi baum eim Ventobravo! A nossa fia qui é difirci.
— Num tem homi aqui nessa cidadi não. É tudo viado! Tudo viado! — afirmou o senhor com convicção – Si tivesse homi di verdadi, já tinha aparicido um pra conquistar minha Linazinha! Inquantu num aparecê um, digo qui só tem viado aqui!
— Ocê tá ofendendu o rei, Sebastian! — a voz de dona Mariana estava perigosamente alta – Ele é homi, sabia?
O senhor Sebastian olhou bem para Varian e Lina achou que ele fosse pedir desculpas.
— Si num acha minha Lina bunita, é viado tumbém!
Lina teve vontade de se jogar no chão e ficar em posição fetal. Metade das coisas que seu pai disse eram suficiente para condená-lo a forca, mas a realeza presente, Varian, Anduin e Arshe, estavam se divertindo muito com seus pais. Se a comandante não os conhecesse, diria que estavam zombando de sua família, mas no caso daqueles três, sabia que estavam realmente achando engraçado, só não sabia se a graça era a desinibição de seu pai ou o rosto vermelho e constrangido da comandante.
— Ah, senhor Sebastian, sua filha é muito bonita. — disse Varian – Mas, sinceramente, acho que nem mesmo eu conseguiria conquistar o coração dela.
O velho Sebastian sorriu, satisfeito.
— Tumbém acho!
— Será que podemos continuar a visita? – pediu Lina torcendo para que nenhum soldado tivesse ouvido aquelas coisas. Com que moral daria ordens a partir daquele momento?
Desde que começaram a se envolver, Lina se tornara tanto um mistério quanto um desafio para Varian. O rei nunca havia tido antes alguém que mexesse tão profundamente com sua mente e coração, e ao mesmo tempo o deixasse desnorteado. Conhecer esse outro lado de Lina, o lado mais humano, o lado família, vê-la ali corando diante das coisas ditas por seus pais e desvendar suas raízes era muito mais gratificante do que imaginara. Estava mais do que satisfeito de ter convidado os pais dela para visitar a Bastilha. Estava extasiado.
— Vamos. – disse Varian pegando o braço de dona Mariana novamente – Temos muita coisa ainda para ver. — e encarou Lina, que se perguntou o que mais seria revelado ali antes do final do dia.
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A biblioteca da casa do Grão Magister Rommath era majestosa e suntuosa, cheia de séculos de livros coletados por todo mundo. Eram três andares de estantes e mais estantes, com uma abertura que deixava que qualquer um no primeiro andar visse os livros que estavam nos demais andares. Escadas de mármore permitiam o livre trânsito dentro do cômodo sem que ninguém precisasse entrar por outra parte da casa. Era a menina dos olhos de Rommath, mesmo que fizesse algum tempo que ele não adicionasse nada à sua coleção.
Apesar da quantidade imensa de livros, Kayliel sentia que não havia o suficiente, pelo menos do assunto que ele pesquisava.
Sendo seguido por um livro flutuante e uma pena, que anotava tudo que ele dizia, o sacerdote separava livros que falassem sobre parto, especialmente parto de elfas. Na mesa central da biblioteca, pilhas de livros já lidos se espalhavam, sendo constantemente alimentadas com as descobertas que o elfo fazia nas estantes. Naquele momento, ele achara um livro sobre como a magia arcana podia auxiliar em partos difíceis, quando a criança não estava na posição correta. Já lera dois sobre aquele assunto, mas torcia para que o novo achado trouxesse informações adicionais.
— Livro “Magia Arcana e parto normal” de Elise Andaluz. — recitou ele e a pena mágica anotou – Estante 157, piso dois, seção 37.
Era importante saber de onde tirara cada livro ou Rommath o comeria vivo se deixasse a biblioteca dele desarrumada. Kayliel olhou mais uma vez naquela prateleira, mas não viu nada mais que o interessasse. Desceu da escada usada para tirar os livros dos lugares mais altos e voltou para a mesa no primeiro andar. Abriu espaço para o novo livro, sentou-se e o abriu na primeira página. Era hora de lê-lo e saber se havia algo que o auxiliasse.
Aquela era a rotina de Kayliel desde o Véu de Inverno. Quando não estava cuidando de Luxuriah, estava enfurnado ali na biblioteca, procurando qualquer informação que pudesse ajudá-lo com o parto. Claro, ele já trouxera algumas crianças ao mundo, inclusive algumas de outras raças, mas a situação de Luxuriah era nova e diferente de tudo que ele conhecia. Ela não deveria ser capaz de engravidar e, se isso acontecesse, não seguraria a criança. Porém, essas duas coisas aconteceram e ele às vezes se perguntava se não era um sinal que o parto transcorreria sem problemas e que se preocupava a toa. Porém, algo dentro dele lhe dizia que era melhor estar preparado. Que nunca, jamais, se perdoaria se algo acontecesse àquelas duas. Isso o destruiria, destruiria seu irmão e a todos os Fendessol.
Também era uma forma de deixar Arshe fora de seus pensamentos.
Mesmo com a conversa que tivera com Ash, não ficara aliviado por muito tempo. Estava ciente que esquecer o amor que sentia pela princesa de Ventobravo era o melhor a ser feito, que aquele último arroubo de desejo acontecera apenas pela proximidade do Véu de Inverno, porém, era tão difícil mantê-la longe de seus pensamentos! E mesmo quando conseguia, se atolando no estudo, a sua imagem de olhos marejados ainda aparecia em seus sonhos. Acordava então com o coração em frangalhos e corria para a biblioteca, para estudar mais.
Quando não precisava examinar Luxuriah e o sofrimento era tanto que não conseguia ler nada, ele simplesmente deitava no divã da biblioteca e ficava olhando para o teto, afogando-se em autopiedade e censura. Nesses momentos, relembrava quando conhecera Arshe.
Arshe mal tinha saído da adolescência humana quando Kayliel a vira pela primeira vez. Como recém-ingressado nas fileiras do Fendessol, o elfo ainda se adaptava à rotina de Dalaran enquanto lidava com o mau humor de seu irmão mais velho, que odiava a cidade tanto quanto amava Luxuriah. Quando relanceou a vista para a jovem humana pela primeira vez, quando ambos estavam na biblioteca. Ela equilibrava precariamente quatro livros nas mãos e procurava um quarto na mesma sessão em que ele estava. Kayliel teve que olhar de novo, pois seus olhos o enganaram: achou ter visto uma elfa desconhecida, pertencente ao Pacto de Prata. Mas não. Arshe era mais linda que qualquer elfa que já tivesse posto os olhos. Os cabelos negros contrastavam com a pele pálida, mas os lábios dela eram tão vermelhos quanto seus olhos eram azuis. Ficou arado, olhando-a, encantado demais para fazer qualquer coisa. E só quando a jovem o olhou fixamente, é que ele percebeu que talvez sua reação tivesse sido um pouco exagerada.
— Senhor. — ela lhe dissera com a voz fria – O senhor está me constrangendo.
A forma firme com a qual ela lhe falou deixou claro que ela não era apenas um rosto bonito, mas tinha uma personalidade forte que transparecera claramente naquelas poucas palavras.
— Sinto muito. — ele conseguiu balbuciar – Mas é que você é mais linda que qualquer elfa que eu já vi.
As bochechas dela ficaram rosadas, mas Arshe não lhe disse nada. Apenas apanhou o livro na estante e saiu.
Dias depois, voltaram a se reencontrar, e dessa vez Kayliel teve o cuidado de não a fitar demoradamente. Porém, não conseguia parar de pensar como uma jovem humana conseguia ler livros em um ritmo tão rápido, pois Arshe já entregara os quatro livros que pegara anteriormente e recolhia outros nas estantes. Ela se interessava por magia de gelo, ele percebera pelos títulos dos livros. E também não sabia mensurar a própria força, pois, em determinado momento, pegou mais livros do que suportava e todos eles foram ao chão. Kayliel correu para ajudá-la e percebeu que o rosto dela ficara avermelhado assim que o vira. Depois que colocou os livros em cima da mesa, Arshe falou:
— Obrigada.
— Não há de quê. — ele respondeu. E sem se conter, continuou – Meu nome é Kayliel. E o seu?
Ela hesitou um pouco e então falou:
— Arshe.
Daí em diante sempre se esbarravam na biblioteca. E trocavam olhares quando se viam pelas ruas. E, analisando agora, Kayliel percebeu que tudo fora culpa sua. Ele falara com ela. Ele a cercara. E, finalmente, a conviara para um vinho em uma taverna. E foi ela quem primeiro percebera o perigo disso.
— Não podemos. Você é dos Fendessol e eu sou filha de um importante General da Aliança.
O ânimo dele mingou, mas só por um instante.
— Que tal por trás da biblioteca?
Arshe sorriu.
— Certo.
Relembrar aquele tempo, aqueles primeiros hesitantes passos, era muito mais terrível do que relembrar a conversa dos dois no véu de Inverno. Porque, naquele tempo, ambos tinham esperança. Ambos eram felizes. Até que ele estragara tudo.
Kayliel sabia que não aguentaria aquela situação por muito tempo, mas não tinha mais forças para evitar aquelas lembranças quando elas chegavam. Então, deixava-se consumir até derramar-se em lágrimas, para depois se levantar, lavar o rosto e voltar aos estudos. Por isso havia perdido peso, estava com olheiras horríveis e simplesmente não se importava. Sequer havia encomendado uma roupa par ao baile de Jardinova do Kirin Tor e se perguntava se realmente queria ir.
Nos anos anteriores, após a separação, ele não perdia a festa por nada no mundo. Vestia-se com esmero, caprichava no visual e torcia para Arshe estar lá. Ela nunca fora. E agora, mesmo que fosse, haveria a chance disso aumentar sua dor a um nível que ele finalmente não suportasse nem com estudo ou lágrimas. Se isso acontecesse, o que faria então? Esperaria a sobrinha nascer para então por fim à sua vida? Não… Jamais faria isso com Rommath. Era capaz de ele e Luxuriah caçarem Arshe e matá-la pelo simples prazer de culpa-la pelo seu desatino. Não, não tiraria a própria vida. Só que a cada dia estava mais difícil de viver, de respirar, de existir. Dalaran não era mais um lugar de esperança, mas de amargura. Talvez fosse melhor não ir ao baile. Não poderia arriscar sua sanidade tão próximo ao nascimento de Tinuviel.
Kayliel percebeu que sua mente tinha voado naqueles pensamentos macabros e que não saíra sequer do primeiro parágrafo do capítulo um do livro.
— Imbecil! — praguejou.
A caneta flutuante anotou o impropério na mesma hora.
— Não era para anotar isso! — exclamou.
A caneta fez mais uma anotação.
Suspirando, ele estalou os dedos e a caneta flutuou até a mesa e voltou para o tinteiro. O livro pairou por um momento, fechou-se e foi até Kayliel, que o pegou e o abriu na última página escrita. Lá estavam o “imbecil” e o “não era para anotar isso”. Deu um sorriso, o primeiro que dava em semanas. Pediria para seu irmão calibrar a caneta para não escrever palavras fora do contexto requerido. Pegou uma poção de pagar tinta e já ia apagar as frases infelizes quando houve uma batida na porta da biblioteca.
— Entre. — disse automaticamente, sem levantar a cabeça.
Ouviu passos se aproximando enquanto apagava o livro e depois, uma voz bem conhecida exclamou estupefata:
— Você está um caco!
Levantou a cabeça, surpreso, e viu Luxuriah parada em frente a sua mesa, com a barriga imensa projetando-se através de um vestido simples. Kassyeh estava do lado dela e trazia um pacote grande e um sorriso no rosto.
— Lux! Kass! — exclamou se levantando. Era bom ter uma distração para sua mente perturbada – Que surpresa! Por que estão aqui? Você está sentindo algo, Lux?
— Só pena de te ver nesse estado. — e deu uma olhada nas roupas dele – Essa é sua roupa confortável de estudar? Bem que Rommath disse que era horrível!
— Roupas confortáveis de estudar são tudo de bom! — disse Kassyeh defendendo o sacerdote – Eu também fico horrível nas minhas! — e sorriu.
Kayliel ficou sem fala por um momento. Pela Nascente do sol, bem que seu irmão lhe dissera que a poção deixava Kassyeh fabulosa. Sentiu-se tentado a ajeitar o cabelo apenas para que ela pudesse achá-lo bonito, mas logo afastou o pensamento da cabeça e voltou os olhos para sua cunhada. Era melhor manter os olhos longe de Kassyeh ou Tewdric poderia não entender que o fascínio era consequência da poção e querer partir ele em dois.
— Você tem dormido direito? — perguntou Luxuriah analisando agora o rosto dele – Suas olheiras estão cada vez piores! E essa magreza? Quer que Tinuviel tenha um susto quando sair e ver você nesse estado?
O som da sua gargalhada saiu seco e Kayliel percebeu o quanto estava desacostumado a rir nos últimos tempos.
— Desculpe. — pediu com sinceridade – Apenas estou empenhado em cobrir todas as possibilidades para seu parto.
— Ei, não jogue a culpa desse seu estado em mim. — criticou a caçadora.
— Não, não, de jeito nenhum! — apressou-se em dizer – Eu apenas…. Me empolgo às vezes. Problema meu, não seu.
Luxuriah o encarou, cética diante da explicação dele. Porém, decidiu deixar aquilo passar por enquanto.
— Como eu sei dessa sua empolgação – começou ela deixando claro sua desconfiança – e Rommath me disse que você ainda não tinha encomendado sua roupa para o baile do Kirin Tor, eu tomei a liberdade de encomendar uma. — e apontou para o pacote que Kassyeh trazia nas mãos.
Aquilo era mais surpreendente que a visita inesperada. Luxuriah mandara fazer uma veste para ele ir a um baile do Kirin Tor?! Pela Nascente do Sol, Luxuriah não devia estar bem da cabeça!
— Sei exatamente o que você está pensando! — avisou a elfa estreitando os olhos – E não, não estou louca! Não concordo com sua ida lá, não queria que nem você, nem Vivithi fossem. Pela Nascente do Sol, queria meu tio de volta e aquela pedra voadora em chamas! — os olhos dela brilharam de ira – Porém, não posso impedi-los de ir. E você tem sido o melhor cunhado do mundo. — Luxuriah sorriu, sua raiva dando lugar à ternura – Mais que um cunhado Kaylieil. Você se tornou o irmão que nós não tivemos. Por isso… — ela suspirou – Quero te ver bem e te ver bonito para essa festa.
A garganta de Kayliel se apertou e seu coração doeu mais do que doía antes. Claro, aquele era o motivo pelo qual não podia desistir, não podia se render àquela dor que o atormentava todos os dias. Apesar de todo seu tormento, havia pessoas que o amavam, que precisavam dele. Sua família aumentara e agora não era apenas os sentimentos de seu irmão que estavam em jogo, mas de todas as irmãs Fendessol. Todavia, eram aqueles sentimentos que o acorrentavam a uma vida sem Arshe, solitária e sem perspectiva. Perguntou-se como era possível que algo tão bom quanto o amor fraternal podia ter um lado tão obscuro quanto aquele. Como ser querido por sua família podia se tornar um grilhão que o impedia de ser verdadeiramente feliz. Só que fora uma decisão sua, tomada muito antes da entrada delas em sua vida. Decidira por ele e por Arshe, e agora pagava o preço.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Luxuriah e Kassyeh esperavam uma resposta dele e Kayliel não as decepcionaria. Sorriu com sinceridade e estendeu a mão para o pacote que Kassyeh trazia.
— Agradeço de coração, Luxuriah, pelo presente. E tenha certeza que não há nada no momento que me atraia naquela cidade. — era verdade. Arshe não estava lá.
Parecendo aliviada, Luxuriah fez um gesto com as mãos para Kassyeh entregar logo o pacote, e logo acrescentou:
— Quero ver você vestido nele! Vamos, vamos ao seu quarto!
O sacerdote então foi conduzido até o quarto e ficou extremamente envergonhado por ter duas elfas maravilhosas lá. Lembrou das gracinhas que sua mãe fazia quando era adolescente, quando dizia que mal podia esperar para atrapalhar seus namoros ali. Só que ele nunca levara mulher nenhuma ali e mesmo sendo suas irmãs postiças ali, a sensação era estranha.
— Precisa de um servo que te ajude? — perguntou Luxuriah sentando-se muito à vontade em sua cama.
— Não é necessário. — disse Kayliel com o rosto vermelho de vergonha – Vou até o closet e já volto.
Kayliel desapareceu closet adentro e Kassyeh comentou:
— Ele parece bem desconfortável. Deveríamos esperar na sala?
— Nãm! — Luxuriah torceu o nariz para a sugestão – Provavelmente a vergonha dele é porque você está aí toda sexy e ele tá com medo de Tewdric o matar.
A maga caiu na gargalhada e foi acompanhada pela irmã.
Alguns minutos depois, Kayliel apareceu. As vestes eram negras com detalhes trabalhadas em prata. O estilo sin’dorei era perceptível nas formas e linhas que atravessavam o tecido e gritavam luxo e exuberância. Mesmo pálido e com olheiras, Kayliel sabia que estava fabuloso como há muito tempo não estivera e isso se confirmou quando se olhou no espelho.
— Uau… — murmurou passando a mão no tecido – Você caprichou, Lux.
— Eu tenho um excelente gosto. — confirmou a elfa se levantando e se aproximando do cunhado – Ficou bem melhor em você do que eu imaginava. — mas então ela franziu o cenho e puxou as vestes na altura da cintura dele – Você está magro demais! Precisa fazer um regime de engorda até a festa!
Sorrindo com carinho, Kayliel sentiu-se de repente aliviado. Sim, aqueles grilhões valiam a pena. O amor ainda estava em sua vida, afinal, ainda que numa forma diferente da qual ele ansiava.
— Pode deixar, vou comer bastante. — garantiu – Agora, vou tirar essa belezura aqui antes que eu suje. — e antes de voltar para o closet, perguntou – Gostariam de um chá no jardim?
— Claro! — respondeu Kassyeh – Posso colher morangos para a Lux enquanto isso. — a maga riu – Ela aproveitou a entrega do vestido para reabastecer-se de morangos!
— É lógico! — a caladora colocou as mãos na cintura – Esse rapaz precisa pagar minha preocupação com morangos!
Em pouco tempo estavam os três no jardim, com um bule quente de chá enchendo o ar com seu aroma, beliscando doces, enquanto os servos colhiam morangos para Luxuriah. Apesar de Kassyeh estar mais que disposta a colhê-los ela mesmo, os jovens fizeram questão de fazer aquilo pelas princesas. Por fim, a maga aceitou e sentou-se ao lado da irmã.
— Ainda é difícil em acostumar com esse mimo todo. — comentou ela.
— Pois eu estou adorando. — disse Luxuriah assoprando o vapor do chá – No começo foi chato, mas é ótimo ter tudo sempre prontinho e à mão. Me lembra do tempo que tínhamos Hobbs perto de nós. — a elfa sorriu tristemente.
— E você gosta de meter medo nas coitadas também. — alfinetou Kassyeh rindo.
— Claro! — confirmou a outra maliciosamente – É minha diversão para o tédio da Torre! Eu não estou podendo fazer sexo loucamente como você. — ela apontou para a barriga – Está cada dia mais difícil!
Kayliel escondeu a vermelhidão do rosto por trás da xícara de chá.
— Eu não estou fazendo sexo loucamente! — defendeu-se Kassyeh – Só o suficiente para fazer um bebê!
Luxuriah lembrou da cena de Tewdric mais cedo e balançou a cabeça, incrédula.
— Por que você decidiu contar a Tewdric da poção? — quis saber Kayliel, tentando se sentir um pouco à vontade naquela conversa – Rommath tinha dito que você não ia contar a ele…
Kassyeh baixou a xícara e a pousou no pires, antes de encará-lo. O sacerdote ficou totalmente sem jeito. A poção tinha um efeito e tanto!
— Uma coisa que minha mãe disse há muito tempo para nós. Relacionamentos são construídos na base da confiança. Se você não confia em quem divide a cama com você, como poderão construir um futuro juntos? — elfa suspirou – Eu pensei muito sobre isso e decidi contar. Foi a melhor coisa que eu fiz. Contar com o apoio e a compreensão dele nesse momento é muito importante. Principalmente porque eu saio do controle às vezes! — e riu.
— Às vezes?! — exclamou Luxuriah – Que tal desde que começou a tomar a poção?
Todos riram e a mente de Kayliel voltou-se novamente para Arshe. Confiança… Se ele tivesse confiado mais nos sentimentos dela, na vontade dela de lutar… Se tivesse depositado sua confiança nela, como Kassyeh fizera com Tewdric e como Luxuriah fizera com seu irmão, estariam juntos ainda, ou as diferenças do mundo os teriam engolido? A tristeza se apoderou dele de novo e o elfo se perguntou se conseguiria lidar por muito tempo com todas aquelas mudanças bruscas de sentimentos.
— Quem você levará como par no baile? — perguntou Luxuriah de repente.
Kayliel foi pego de surpresa. Não pensara naquilo em nenhum momento.
— Ninguém. — respondeu – Não pretendo levar ninguém.
Tanto Kassyeh quanto Luxuriah fizeram caretas.
— Ir sozinho a um baile é deprimente. — sentenciou a caçadora.
— Vai dar uma impressão errada às pessoas. — complementou Kassyeh.
A impressão errada? Pelo contrário. Daria a impressão exata da miserabilidade em que vivia.
— Não tenho interesse em levar ninguém. — disse um pouco mais resoluto que antes – Não gostaria de ir com alguém só por ir e não há ninguém que eu queria como companhia no momento.
“A não ser Arshe, mas isso é impossível…” resmungou seu coração, mas Kayliel o ignorou.
— Ninguém está mandando você casar não, Kayliel. — retrucou Luxuriah em tom de censura – Mas você anda tão sozinho… Só lendo e tendo essa minha barriga grande por companhia. Isso é solitário.
Envergonhado pela forma como falara, baixou a cabeça.
— Desculpe pelo tom rude. — pediu – Eu só… Não quero falar sobre isso. — e tomou um gole grande de chá
Luxuriah e Kassyeh se entreolharam. A preocupação delas era a mesma. Kayliel poderia estar ainda ligado à humana. Só que nenhuma das duas colocaria aquilo em palavras. Nem o pressionariam. O estado dele já era preocupante o suficiente. Luxuriah decidiu que, naquele dia mesmo, conversaria com Rommath sobre Kayliel. Haveria um jeito de ajudar seu cunhado? Por que era óbvio que algo o consumia, algo que estava além do que qualquer um deles imaginava. Só que pressioná-lo obviamente não era um caminho. Se Luxuriah imaginasse o que realmente se passava no coração de Kayliel, teria se desesperado. E se sentisse um terço da dor que ele sentia, enlouqueceria de preocupação. Só que ela não sabia. Ninguém sabia.
— Mais chá? — perguntou ele tentando espairecer a tensão no ar.
As irmãs aceitaram e Kassyeh mudou inteiramente de assunto. Em poucos minutos, estavam mais à vontade e os servos traziam dúzias de morangos para Lxuuriah. As irmãs então convenceram Kayliel a deixar os estudos de lado naquele dia e acompanhá-las de volta à Torre Solfúria. E ele foi. Foi porque já ficara tempo demais perdido em seus pensamentos. Foi, porque estava cansado de se sentir sozinho. Kayliel as acompanhou porque queria ter a ilusão de que, pelo menos por um momento, não estava sozinho.
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— Eu queria ir à praia!
O pedido de Theo pegou Doroteya de surpresa. Estavam na cozinha, onde a druidesa limpava o local depois que Lina saíra com a família. Após o pedido, o menino a olhava com ansiedade, esperando sua resposta, mas a única coisa que ela conseguia pensar era de onde ele tirara aquela ideia. Como se lesse seus pensamentos, Tommy apareceu na janela em cima da pia, com uma tesoura de podar na mão.
— Eu tinha dado essa ideia a ele. – explicou – De levá-lo à praia em um dia de sol. Mas eu estava pensando no verão, Theo.
— Ah, mas tá sol hoje! – lembrou o menino – E tá calor!
Era verdade. A primavera estava tão quente quanto o inverno fora frio. Doroteya já tinha inclusive trocado seus vestidos pesados por outros mais leves e que não a faziam ter vontade de arrancar roupa e sair correndo para pular no canal.
— Por que essa vontade tão repentina, Theo? — perguntou Doroteya. Seu filho não era dado a rompantes como aquele e isso a intrigava.
O menino ficou visivelmente envergonhado.
— Deixe pra lá… — murmurou baixando a cabeça. — Esperamos o verão. — e fez menção de deixar a cozinha.
Aquilo foi como uma facada no coração de Doroteya.
— Ah, não! — exclamou ela e se aproximando dele – O senhor vai começar a esconder as coisas de sua mãe agora? — e cruzou os braços.
Theo parou e encarou a mãe.
— A senhora promete que não ficará brava? — perguntou o menino angustiado.
— Só se você tiver feito algo errado. — respondeu sinceramente. Sempre prezara por um relacionamento aberto com o filho e não começaria a esconder nada nem o deixaria fazer o mesmo – Você fez algo errado, Theodore?
O uso do nome completo do menino não apenas o deixou tenso como teve o mesmo efeito em Tommy. Os dois se entreolharam brevemente e o engenheiro fez um gesto com a cabeça, incentivando-o:
— Seja o que for Theo, não se deve esconder de sua mãe. — falou.
Theo baixou a cabeça por um momento para depois confessar:
— É que eu queria ter ido à Bastilha com Pietro. — suas bochechas ficaram vermelhas – Mas como não posso, pensei que seria legal fazer algo diferente pra contar a ele quando chegar.
Isso foi muito pior do que Doroteya estava esperando, mas não pela questão de Theo ter vontade de ir a Bastilha. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, ele quereria sair dos limites que lhe foram impostos. O que lhe atingira foi perceber o quanto Theo se sentia sozinho, sem a companhia de outra criança. Porque, na verdade, o que estava evidente ali era que ele queria ter ido porque Pietro fora. Poderia ser a bastilha ou outro lugar, a questão era acompanhar o novo amiguinho. E como não podia, queria fazer algo tão legal quanto o outro fizera, para poder compartilhar suas experiências.
— Não estou chateada com você, Theo. — disse ela suavemente. Depois, se voltou para Tommy e perguntou – Onde as pessoas costumam tomar banho de mar aqui?
Ele, que observava a cena mais que preocupado, foi pego de surpresa pela pergunta repentina, mas logo respondeu:
— Depois do porto há uma praia muito boa, de areias limpinhas e não tem pedras nem correnteza forte. Nos fins de semanas de verão, enche de gente. Como hoje é dia de semana e ainda primavera, é provável que não tenha ninguém..
Doroteya ficara mexida com os motivos do filho, só que ainda hesitava em levá-lo para tão longe.
— Vamos, será legal! – insistiu Tommy – Você poderá finalmente inaugurar aquela roupa de banho que Mel e Fey fizeram para você.
— Mas e o jantar? – quis saber ela – Seus pais vão chegar com fome da visita.
— Ah, qualquer coisa nós levamos os velhinhos para a Rosa Dourada. É a taverna preferida deles!
— Então, mãe? – perguntou Theo com as esperanças renovadas.
Como resistir aqueles olhos tão brilhantes e felizes, principalmente depois de uma revelação tão dolorosa quanto a que ele fizera?
— Certo. – cedeu a druidesa – Vamos apenas terminar a limpeza, ok?
— Oba! – comemorou o menino.
— Eu cuido de fazer uns sanduíches para nós. – se ofereceu Tommy, contente com a resolução – E pegar os apetrechos no quarto dos meus irmãos. Eles tem um monte de bugiganga para praia…
Em menos de uma hora os três iam na direção do porto de Ventobravo, com Tommy montando seu novo cavalo e Theo galopando na mãe-cervo. Doroteya tinha se oferecido para levar os dois em suas costas, mas Tommy recusou gentilmente, pois não se sentia à vontade de usar Doroteya como montaria.
— Bobagem! – dissera ela ainda insistindo – Lina faz isso o tempo todo!
— Prefiro não cansar você. – dissera – Ao final do dia, depois de sol e mar, você verá que eu estou certo.
Doroteya concordou e se encaminharam. Apesar de o porto não ser muito distante da casa de Lina, a praia ficava um pouco mais escondida e eles tiveram que tomar um caminho alternativo. Quando chegaram, não havia ninguém no local e isso deixou a Theo e principalmente sua mãe muito felizes. Tommy amarrou o cavalo em uma pequena barraca velha, onde provavelmente todas as pessoas deixavam suas montarias e colocou água para o animal. Depois, se dirigiram à areia, levando todos os objetos que Tommy havia trazido.
— Por que tantos apetrechos para ir para a praia? – perguntou Doroteya.
— Em Guilneas vocês não usavam guarda-sol nem esteira? – estranhou Tommy.
— Não tínhamos como ir à praia. – esclareceu ela – O mar ficava além dos muros. Apenas nadávamos no rio perto de casa.
— Então vocês nunca foram à praia? – perguntou atônito.
— Não. Como nunca tínhamos patinado no gelo antes. Você tem nos proporcionado momentos maravilhosos, Tommy. – e sorriu para ele.
Se havia uma palavra para descrever o que sentiu naquele momento, Tommy esquecera. O sorriso de Doroteya tinha o efeito de varrer de sua mente qualquer coisa que não fosse o desejo de abraçá-la e implorar para que sorrisse sempre daquela forma. Ciente que seu rosto adquirira uma cor escarlate, desviou a vista para frente, onde Theo já arrancava a roupa para correr para o mar.
— Espere aí, campeão! – chamou ele – Nada de entrar no mar sozinho!
— Tá certo! — gritou Theo de volta parando onde a água começava.
— Onde vamos colocar esse guarda-sol? – perguntou Doroteya.
— Deixe isso comigo. – disse – Pode ficar de roupa de banho e ir com Theo para o mar.
Doroteya não respondeu nada, mas desviou o olhar para baixo, onde mexeu nervosamente com os pés na areia.
— E-eu não vou… – murmurou sem jeito – Vou ficar aqui aguardando vocês dois…
— Por que? – perguntou Tommy surpreso – Você ainda está chateada com a história de mais cedo?
— Não, não! — se apressou em dizer – Não é isso.
— E o que foi então?
Sem saber como explicar, olhou para onde estava o filho. Theo corria alegremente chutando a areia, foi até a beira do mar novamente, molhou os pezinhos e depois gritou:
— Tá gelada! – e voltou a correr pela areia.
O amor que Doroteya sentia por aquele menino transcendia qualquer outro sentimento que já experimentara na vida. Sua gravidez solitária e o parto autorrealizado a fizeram dar ainda mais valor ao pequeno ser que colocara no mundo e que agora corria cheio de alegria entre o mar e a areia.
— Eu não gosto de mostrar minha pele... – explicou e passou as mãos pela barriga em atitude protetora – Theo foi um bebê grande... Depois que ele nasceu.... Bem, meu corpo não voltou a ser o mesmo. Nunca mostrei a ninguém além do pai de Theo e…. – ela suspirou não disse mais nada.
Tommy entendeu. Já tinha visto aquela atitude em sua esposa e nas também nas irmãs. Era o que ele, como homem, não entendia nem sabia mensurar. Trazer um filho ao mundo era doloroso e deixava marcas no corpo. Então, lembrou-se da mãe, que naquele momento estava aproveitando muito a visita à bastilha, e de suas palavras. Tomou a mão de Doroteya gentilmente, fazendo-a olhar para seu rosto.
— Doro, sei que eu sou homem e tal, que nunca poderei entender essa situação de vocês mulheres mas… Bem, uma vez minha mãe disse que conhecia cada marca feita por cada um de seus filhos. Ela sempre me mostrava uma estria nas costas e dizia: essa é sua, Tomilho. – ele riu – Eu gosto do jeito que minha mãe lida com isso, e acho que você deveria se orgulhar, como ela. Olhe o menino lindo que você trouxe ao mundo e criou sozinha! – e ambos olharam para Theo, que agora cutucava o buraco de um siri – Vá por mim, nada que você esconde ai vai fazer você ser menos maravilhosa que você é.
Emocionada, Doroteya deu um abraço apertado em Tommy.
— Acho que preciso ouvir as histórias de sua mãe. – disse sorrindo.
Tommy adorou aquele abraço e ficou frustrado quando Doroteya o soltou. Depois, a druidesa correu até onde Theo estava, tirou o vestido leve que usava, jogou a roupa na areia, pegou a mão do filho e correram para mar.
Foi naquele momento que ele percebeu que estava apaixonado por Doroteya.
Aquilo clareou a mente dele, permitindo finalmente ver que, não apenas estava apaixonado por ela, mas fazia tempo que nutria aqueles sentimentos. Quando começara? Quando passaram o Véu de Inverno juntos? Quando plantavam a horta? Ou aquele sentimento remetia àquela tarde quando assistiram o pôr do sol e dividiram laranjas? Não saberia dizer. Talvez estivesse apaixonado desde o dia em que a vira e que ela corta seus cabelos emaranhados e tirara sua barba, revelando-o ao mundo depois de dois anos de esquecimento. Só que nada disso importava. Importava que agora, vendo-a submergir nas ondas com Theo, ambos em gargalhadas, percebia que estava numa encrenca bem grande. Como chegar junto ao coração de alguém que via a imagem de seu amado morto todos os dias no rosato do filho?
— Tommy! — gritou Theo acenando – Não vem?
— Tô indo! — gritou de volta. Não era hora de pensar naquilo. O faria depois, no silêncio de seu quarto.
Logo estava apenas de calção, sentindo uma vergonha enorme por saber que Doroteya olhava seu peito nu. Pela Luz, esperava estar pelo menos bonito. Correu para a água, entrou no mar e logo estava do lado dos dois, jogando água uns nos outro e rindo. Agora que seus olhos sabiam que olhavam para a mulher que o conquistara, conseguia perceber coisas que não via antes. Como ela parecia mais jovem com os cabelos molhados e grudados no rosto. Como o sorriso dela era fácil e bonito. Como o corpo tinha curvas maravilhosas e não aquela magreza que podia ver em muitas mulheres. Doroteya era tão real e ao mesmo tempo tão etérea que ele tinha medo de sua existência ser apenas um sonho.
— Tommy! — gritou Theo surgindo entre as ondas – Você sabe nadar?
— Sim, sei. — respondeu – Por que?
— Pegue no pescoço da mamãe. — disse o menino apontando para Doroteya.
— Como?! — o rosto de Tommy ficou vermelho e ele se perguntava se Theo sabia dos seus sentimentos.
— Vamos fazer uma coisa, mas a mamãe disse que você teria que saber nadar ou seria perigoso. — esclareceu o menino – Certo, mãe?
— Isso mesmo! — Doroteya ficou de costa para os dois – Segurem firme!
Theo abraçou a mãe com vontade. Tommy hesitou um pouco, mas fez o mesmo. Tentou não pensar na pele molhada da druidesa contra a sua e desejou que não tivesse aceitado fazer o que quer que fosse. Mas esse pensamento foi arrancado com tanta velocidade de sua cabeça que ele precisou de um momento para entender o que estava acontecendo. Doroteya se transformara num imenso peixe-boi e submergiu levando ele e Theo para dentro do mar. Tommy precisou se segurar com mais força para não se soltar o peixe-boi-Doro e sentiu que eles iam mais e mais fundo. Depois, Doroteya deu meia volta e logo estavam novamente na parte rasa do mar. Quando emergiram, ouviu claramente as risadas de Theo e as batidas descompassadas do seu coração.
— Hahahaha! Vamos de novo, mãe? — pediu o menino.
A druidesa, que ainda estava transformada, olhou para Tommy, como se pedisse a opinião dele. Tommy se perguntou se o fato de achá-la linda na forma de peixe-boi o fazia um doente.
— Vamos de novo! — confirmou o homem rindo também e já agarrando Doroteya mais uma vez. Fora assustador, mas fora maravilhoso também.
Mergulharam daquela forma várias vezes, até Doroteya se cansar. Depois, foram para a areia, onde fizeram castelinhos, fortalezas e Theo tentou reproduzir a muralha de Guilneas. Depois, cataram conchas e Tommy mostrou para o menino quais devia pegar e quais ainda tinham bichinhos morando dentro e não devia incomodá-los.
— E nunca pegue uma estrela-do-mar. — avisou – Elas não devem ser tiradas da praia, porque é o lar delas.
— Eu não faria isso. — garantiu o menino – Seria fazer o mesmo que os mortos-vivos fizeram com nossa casa.
Diante do comentário do filho, Doroteya passou a mão nos cabelos molhados dele e o abraçou. Ser expulso de sua casa era uma dor que Tommy não podia mensurar. Lembrava vagamente de quando ele e os irmãos tiveram que se esconder em cavernas quando os orcs chegaram para não serem mortos pela onda de massacre. Mas depois voltaram e tudo se normalizou. Será que um dia Doroteya e Tommy se sentiriam em casa em outro lugar?
— Espero que vocês um dia possam retornar ao seu lar. — disse Tommy com sinceridade.
Doroteya o encarou e o coração de Tommy se descompassou. O cabelo dela já estava secando e seus cachos cheios de sal se projetavam ainda mais rebeldes que antes, lhe dando um ar selvagem que ele achava muito sensual. Ela lhe sorriu antes de dizer:
— Perder nosso lar foi doloroso, mas achamos outro lar. — ela tocou em sua mão e segurou-a por um momento – Vocês são nosso lar agora. Não sei o que seria de nós se não tivéssemos encontrado tanto amor na bagunça dos Wood. — e sorriu.
— Quando eu crescer, vou reconquistar Guilneas! — disse Theo simulando uma luta de espada – Mas quero continuar morando aqui com você, Tommy.
Os olhos dele se encheram de lágrimas. Apertando os lábios, não soube o que dizer. Sabia que seu coração não pertencia apenas a Doroteya, mas também a Theo. E ouvir ambos dizer aquelas coisas o deixava mais esperançoso do que gostaria. Sua mente já pensava em como seria maravilhoso ter aqueles dois como sua família. Não… Eles já eram sua família de certo modo. Mas seu coração atrevido desejava mais.
— Vocês me deixam feliz dizendo isso… — murmurou limpando as lágrimas dos olhos.
Doroteya ainda não largara sua mão e a apertava com mais força. Se encararam por um momento e, por um instante, Tommy quis revelar o que sentia. Mas antes que pudesse fazê-lo, Theo gritou:
— Um siri! — e correu até o bicho.
Doroteya soltou a mão dele e correu até o filho, com medo que o crustáceo afundasse as pinças nos dedinhos de seu filho. Tommy ficou parado por um momento, satisfeito de não ter dito nada. Não podia ser tão imprudente. Decidiu deixar aqueles pensamentos guardados até poder analisá-los para não tomar nenhuma atitude precipitada que machucasse Doroteya ou Theo.
A exploração durou até que a fome bateu. Voltaram até onde tinham deixado as coisas e Tommy mostrou uma bomba de água doce que tinha ali para dar de beber aos cavalos. Os três então usaram a água para tomar um outro banho e tirar o sal do mar, pois o engenheiro alertara que isso podia causar queimaduras. Sentaram sob o guarda-sol e dividiram os sanduíches, os sucos e a água que trouxeram. Depois de encherem a barriga, aproveitaram a sombra para deitar um pouco na toalha. Enquanto descansavam, Tommy refletia sobre o desejo de Theo de lutar pela reconquista de Guilneas. Será que ele seria druida igual a mãe? Bem, nunca o vira estudar druidismo, mas podia ser porque ele ainda era novo.
— Theo? — chamou.
O menino não respondeu. Tommy então se apoiou nos cotovelos para encará-lo e viu que o menino adormecera. Sua vista relanceou para Doroteya. Ela o olhava com seus luminosos olhos cor de mel e sorriu.
— Acho que teremos que encurtar a visita. — brincou ela falando baixo para não acordar o filho – Acho que foi diversão demais pra ele.
— Parece que sim. — Tommy então sentou-se na toalha de praia – Doro, Theo já começou os estudos para ser druida?
Doroteya não escondeu sua surpresa.
— Achei que você tinha percebido que ele não deseja o druidismo. — a frase foi dita em tom de espanto e não de crítica.
— Sei lá, achei que ele ainda era novo para isso ou algo assim… É que ele já falou tantas vezes em reconquistar Guilneas…
— Verdade… Mas acho que ele pende mais para ser espadachim, como o pai… — ela suspirou – Pensei em pedir para Rubrarosa ensiná-lo, mas sei que ela diria não. Ela tem problema com… Com o que ela se tornou.
Tommy sabia que quem cuidara de Theo durante todo aquele tempo fora uma Cavaleira da Morte. No começo achara que era uma loucura, mas depois percebeu que o coração de Doroteya jamais se enganaria sobre a índole de uma pessoa. Ela não via as aparências, mas seu interior. Tommy gostaria de saber o que ela via quando o olhava.
Se Tommy tivesse apenas uma ideia do que Doroteya sentia, ele estaria bem mais animado do que angustiado. A druidesa não sabia exatamente o que sentia pelo homem, mas entendia que o desejo estava presente. Ainda não esquecera o sonho do dia anterior, mas conseguira controlar suas reações perto de Tommy o suficiente para não se constranger mais. Só que ali, apenas os dois acordados naquela praia, ideias viam na mente de Doroteya e ela tentava escapar deles. O peito nu de Tommy e com o qual ele estava preocupado era discretamente admirado pela druidesa, que tentava se convencer que apenas estava satisfeito de vê-lo tão bem. E quando olhava para seu rosto sério, podia ver que o peso a mais deixava seu rosto menos parecido com o de Lina e mais parecido com o de seu pai.
Como estava alheio aos pensamentos dela, Tommy continuou falando sobre a questão do treinamento de Theo.
— Mas o que você acha pessoalmente disso? Dele aprender a lutar com espadas?
Doroteya pensou por um momento e depois sentou-se como ele. Olhou para o filho, que dormia om a boca aberta e os lábios cheios de migalhas de pão e sorriu. Era o retrato da inocência. Se dependesse dela, Theo permaneceria naquela idade e naquela pureza para sempre. Mas, por experiência própria, ela sabia que isso era impossível.
— Eu tinha quase a idade dele quando minha mãe morreu. — revelou ela – Apenas dois a mais. Se eu não tivesse recebido treinamento de minha mãe desde cedo, acho que eu não teria sobrevivido sozinha. Sei que ele vai crescer. — delicadamente Doroteya passou os dedos pelo cabelo do menino – Sei que não estarei sempre ao lado dele. E por mais que me doa pensar em meu menino com uma arma na mão, ferindo outros seres, sei que seria muito pior se ele fosse ferido por não saber se defender. — ela suspirou – Então, eu me sinto mal, mas não me oporei a isso. Só queria alguém que eu confiasse para ensiná-lo.
— Eu posso ensiná-lo. — ofereceu-se Tommy sem pensar um segundo sequer – Eu sou guerreiro, posso ensiná-lo a ser um.
— Você já faz tanto por ele Tommy… — murmurou Doroteya – Não seria pedir demais de você?
— Eu faria qualquer coisa por vocês dois. — confessou – Qualquer coisa.
Sentindo o rosto esquentar, Doroteya questionou:
— São palavras muito pesadas, Tommy. Dizer que faria qualquer coisa… — ela não concluiu a frase.
— São verdadeiras. — garantiu ele – Por vocês dois… Eu seria capaz de tudo.
Doroteya sabia que era verdade. Por isso, levou a mão ao rosto de Tommy e tocou-o. Ele estremeceu.
— Eu sei. — foi tudo que disse.
Por um segundo, tudo desapareceu. O receio que ele sentia, as dúvidas que ele tinha. Os dois não conseguiam tirar os olhos um do outro e tiveram a sensação que o tempo parara. Apenas o vento e o barulho do mar os dizia que o mundo ainda estava por ali. E quando percebeu que não conseguia mais segurar o que sentia, Tommy se inclinou lentamente na direção de Doroteya. Ela não se afastou. Seus lábios se encontraram num contato tímido, mas que logo acendeu o desejo que já latejava em seus corpos. Tommy colocou os dedos por dentro do cabelo dela e a puxou para mais perto de si. Doroteya o abraçou com força, pressionando os dedos contra a pele das costas dele. O beijo que começara sem jeito e quase virginal, logo se transformara em um beijo ardente, onde os dois sentiam que explodiriam se não dessem vazão aquele sentimento. Não souberam mensurar quanto tempo demorou, mas, quando finalmente se separaram, estavam sem fôlego e um pouco incrédulos que aquilo acabara de acontecer.
O silêncio reinou por alguns momentos. Nem Tommy nem Doroteya sabiam o que dizer um para o outro. Apenas se encaravam, como se tentassem recolocar os pensamentos em ordem. Sim, sabiam o que tinha acabado de acontecer. Mas não sabiam exatamente o que fazer com aquele passo que fora dado.
— Doro… — murmurou Tommy.
Antes que ela pudesse falar qualquer coisa, o vento mudou de direção, trazendo um cheiro conhecido pela druidesa e que a deixou imediatamente em alerta. Em sua forma humana, o olfato de Doroteya era melhor do que a média das pessoas, por isso pode notar a sua presença ínfima no ar. Sem ter o mesmo talento que Doroteya, Tommy se assustou quando ela rapidamente virou a cabeça para o lado, os olhos alertas e arregalados, como um animal assustado. Seu primeiro pensamento foi que ela estava muito aborrecida. E ele não estava longe da verdade. Só que Doroteya não estava aborrecida. Doroteya estava preocupada.
Porque o cheiro que ela sentia, era um dos atacantes de Lina. E ele estava perto.
Se não tivesse com as emoções em ebulição por causa do beijo de Tommy, ou se não estivesse ciente que seu filho se encontrava tão perto de um assassino, talvez sua reação tivesse sido mais comedida. Só que não era o caso. Doroteya se levantou de supetão, derrubando o guarda-sol e acordando Theo no processo. O menino despertou confuso e assustado e sua mãe sentiu isso, que só serviu para que Doroteya ficasse ainda mais agitada.
— Mãe? — chamou o menino confuso.
— Nem uma palavra! — ordenou Doroteya com a voz rouca. Ela se transformara tão rápido que Tommy só reparara naquele momento. Doroteya deu alguns passos para a frente e farejou o ar. O assassino estava perto. Muito perto.
Perigosamente perto de Theo.
E de Tommy.
— Proteja-o. — rosnou ela para Tommy antes de ficar de quatro patas e sair correndo na direção da estrada de terra que seguiram para chegar ali.
— Tommy! — chamou Theo assustado – O que está acontecendo?
Tommy também queria saber. Em um momento, ele beijava Doroteya e ela correspondia. No outro, ela se transformara em sua forma lupina e saíra correndo loucamente. Tentou organizar seus pensamentos, mas não estava conseguindo.
— Eu não sei… — murmurou ele par ao menino – Ela simplesmente levantou e… Foi-se…
— Ela sentiu algum cheiro? Farejou algo? — perguntou o menino – A tia Rosa já agiu assim quando sentiu alguma ameaça por perto.
“Proteja-o” foi a frase que Doroteya disse antes de sair correndo. Por um momento, ele ficou aliviado, pois não era com ele que ela estava chateado. Depois se odiou por isso, pois significava que havia algo por ali ameaçando eles. Ameaçando Theo. Olhou para o menino, que estava visivelmente muito mais calmo que ele próprio, e então disse:
— Me ajude com essas coisas, rápido! — ele olhou para os lados – Se estamos em perigo temos que sair daqui e não podemos deixar rastros.
— E depois?
— Depois vamos atrás de sua mãe. — Tommy abriu a cesta de piquenique e tirou uma faca de lá.
(CONTINUA...)
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