Herdeiros da Guerra
36 Capítulo XXV – Ecos do passado (PARTE II)
Notas iniciais
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Ash respirou fundo, para se acalmar e agarrou o agasalho que trazia em suas mãos. Seria a primeira vez que abordaria aquele delicado assunto e não sabia como ele reagiria. Talvez, pensou tentando ser otimista, estivesse preocupada demasiadamente e a reação dele não fosse tão ruim assim. Ou poderia ser pior, falou sua parte pessimista. Porém, sabia que não tinha como prever o que aconteceria a menos que entrasse logo naquela sala, então respirou fundo mais uma vez e abriu a porta, com um sorriso no rosto e saudando animadamente:
— Oi, Ted!
Tewdric estava usando uma roupa totalmente inapropriada para o clima frio de Luaprata. Vestindo apenas uma camisa e calça de linho, ele afiava o seu machado com a expressão taciturna e não sorriu para a elfa quando esta entrou.
— Oi… — grunhiu sem nem mesmo olhar para Ash.
Timidamente, a elfa entrou na sala e sentou-se perto do orc. Apesar de sempre ter sabido que Tewdric era muito ciumento, a reação do dia anterior a deixou espantada; parecia até que Lor’themar a partiria no meio ou algo assim. Por isso, decidira que devia conversar com o orc. Só que agora, não sabia por onde começar.
— Você não está devidamente agasalhado para esse clima. — se pegou ela dizendo com uma ponta de censura – Vai ficar gripado.
Tewdric deu de ombros e continuou afiando o machado.
— Não estou sentindo frio. — respondeu ainda olhando para sua arma.
Era uma mentira deslavada: as orelhas do orc já começavam a ficar verde escuras, ele tremia involuntariamente e sua respiração formava uma fumaça branca mais densa que a de Ash.
— Então se agasalhe por mim. — pediu carinhosamente – Assim vou ficar mais tranquila. — e sorriu.
Dessa vez o orc a olhou e, como sempre, não conseguiu resistir a expressão amorosa de uma de suas elfas amadas. Largou o machado no chão, pegou ao agasalho e vestiu. Ele imediatamente parou de tremer. Ash o encarou e pensou no quanto amava Tewdric. Lembrava com clareza quando o vira pela primeira, na cozinha de sua casa, comendo como se estivesse passando fome há semanas. Fora difícil aceitar no início que ele não apenas estava em sua vida como também tirara um pouco de Kassyeh dela. Porém, agora o olhava e não imaginava a vida sem ele. Tewdric fora mais que um cunhado: ele se tornara o pai que ela e Karen perderam muito cedo. E se o que lembrava de seu pai era verdadeiro, os dois, orc e elfo, tinha muito mais em comum do que qualquer um poderia imaginar. Pensando nisso, sentou-se mais perto dele e encostou a cabeça em seu ombro.
— Você não vai me perder, Ted. — disse com a voz suave – Eu te amo, sabia?
Sem esperar aquela declaração, Tewdric sentiu o coração bater mais forte e passou o braço pelos ombros de Ash. Queria conseguir explicar à menina que sim, sabia do amor dela, mas que mesmo assim tinha medo. Mas não era o medo que ela imaginava.
— Eu sei, Ashzinha… Eu sei… — começou a falar – Eu não tô com medo que você ame mais o elfão lá que eu, não.
— E o que é então? — perguntou – Por que, desde ontem que você não fala direito comigo… — a jovem se encostou mais no orc – Parece que tá chateado, ou coisa assim…
Ele negou veementemente com a cabeça, antes de falar:
— Nunca! Jamais ficaria chateado com você! É que…. — ele fez uma pausa e a encarou – Me diga, Ashzinha. — pediu um pouco envergonhado – Você gosta mesmo do elfão grandão lá? Tipo, gosta pra casar?
Surpresa com a pergunta, Ash hesitou um pouco e depois, respondeu:
— Sim, eu gosto muito dele.
Tewdric suspirou.
— O que me dói, Ashzinha, é saber que existirão momentos em que eu não vou poder proteger você da dor. Nem você, nem suas irmãs. Nem mesmo minha Kass… Percebi isso quando aquele idiota foi embora. — a expressão do orc endureceu pro um momento – A dor que vocês sentiram… Eu não pude tirar. Eu não pude fazer nada. Eu fui um inútil.
— Não, não foi! — protestou Ash – Você estava aqui conosco! Isso foi tudo o que precisávamos!
Um sorriso triste tomou a face de Tewdric.
— Eu nunca soube lidar com essas coisas, sabe? A Kass quem me ensinou. Quando vocês entraram na minha vida, foi a melhor coisa que os ancestrais fizeram por mim. E é difícil pensar que existem coisas que machucarão vocês e que eu não vou poder fazer nada. — ele deu um urro que a assustou – Eu odeio isso!
Devia odiar mesmo, pensou Ash. Um guerreiro como Tewdric estava acostumado a resolver as coisas na base do machado. Mas quando o inimigo era invisível e estava dentro das pessoas que ele amava, a sensação de incapacidade deveria ser paralisante.
— Ok, vou lhe prometer uma coisa. — disse ela tentando animá-lo – Se um dia Lor’themar me machucar do jeito que Huaru machucou a Lux, eu deixo você partir ele em dois!
Os olhos do orc brilharam de alegria.
— Sério? — perguntou abrindo o sorriso.
— Sério. — respondeu convicta – Ele já me fez muita raiva enrolando para ficar comigo. — a jovem fez uma careta – Se me trair ou me deixar sem uma boa razão, merece ser partido no meio pelo meu pai orc!
Lágrimas brotaram nos olhos de Tewdric, que virou a cabeça pro lado, para sua menina não as visse. Pai orc… Era a melhor coisa que ele poderia ouvir vindo de Ash.
— Acho que entrou poeira do machado no meu olho. — disse limpando as lágrimas.
Ash sorriu.
— Você devia usar uns óculos de proteção, igual aos que a Lux usa quando vai mexer nas máquinas dela. — sugeriu sabendo que aquelas lágrimas nada tinham a ver com o machado.
— Vou pedir emprestado. — concordou Tewdric – Ela tá com aquele barrigão mesmo e não vai poder mexer nas coisas dela por um bom tempo.
— Você quem pensa! — exclamou Ash revirando os olhos – Ela já estava encomendando peças para fazer uma réplica da motoca do papai. Disse que quer andar com Tinuviel no carrinho do lado assim que ela nascer, como o papai fazia com a gente!
— É o quê?!! — gritou o orc dando um pulo e ficando de pé – Ela não vai fazer uma coisa dessas! Vai pôr em risco minha sobrinha assim?!
— Calma Ted! — pediu a elfa sem conter o riso – Falta muito ainda para Tinuviel nascer! Daqui pra lá, você convence ela a não fazer isso.
Ash, obviamente, duvidava que Tewdric, Rommath ou Kassyeh impedissem Luxuriah de construir uma motoca nova apenas para andar com sua filha recém-nascida, mas era algo que o orc não precisava saber. De toda forma, as palavras de Ash o tranquilizaram e ele voltou a sentar-se do lado dela.
— Acho que nunca tive um Véu de Inverno tão conturbado. — disse Tewdric encarando Ash – Na verdade, o último ano foi meio doido. Cheio de coisas.
— Ruins ou boas? — questionou a elfa.
— Ambas. E isso é bom. Significa que a vida tá andando. — ele abriu um sorriso – Espero que daqui pra frente as coisas sejam mais tranquilas.
— Ah, tenho certeza que serão! — exclamou Ash animada – Afinal, as coisas estão todas se ajeitando. Tenho a sensação que nada poderá dar errado.
O orc passou a mão na cabeça da jovem elfa e retribuiu o sorriso. Claro que Ash não via nada de errado. Ela estava apaixonada. Estava feliz. O elfão velho poderia ainda estar no alvo do guerreiro, mas enquanto fizesse sua Ashzinha sorrir daquela forma, estaria seguro. O problema era que o mundo estava muito além daquela torre em Luaprata. Não queria dizer a ela que recebera notícias não muito agradáveis de coisas que aconteciam ali perto, no Planalto do Crepúsculo. Nem o que acontecia no Monte Hyjal. Não queria que ela se preocupasse com o fato de ele e Kassyeh estarem se aprontando para partir em breve e tentar manter o mundo a salvo para sua família. Não, não. Queria que sua elfinha ficasse ali, namorando e se sentindo feliz, junto a Karen e a Luxuriah. Assim, ele poderia lutar sem medo.
O problema maior era que não apenas os inimigos o preocupavam. Tal como Rommath, Tewdric tinha consciência que Grey poderia ser um inconveniente. A notícia da gravidez de Luxuriah já se espalhara, e não demoraria até que o paladino esnobe tomasse conhecimento dela. Claro, havia a possibilidade de ele nunca relacionar aquela criança a ele mesmo. Mas ainda assim havia o risco. Como então o orc partiria para salvar o mundo com a ameaça de Grey por perto? Era um assunto que ele e Kassyeh haviam abordado superficialmente na noite anterior, mas que merecia um aprofundamento. E talvez, devesse chamar o marido de Luxuriah e o namorado de Ash para participar. E Lady Liadrin. Aquela elfa era porreta. E quanto mais gente armada contra Grey, melhor.
Ash já estava para perguntar porque Tewdric ficara tão pensativo de repente, quando ouviram um grito agudo e Karen entrou na sala como um furacão. A menina se jogou nos braços de Tewdric com vontade, e se o orc não tivesse uma musculatura tão boa, teria achado aquilo bem doloroso. Porém, ele apenas gargalhou e apertou a menina com força.
— Karenzita!!! — exclamou enlaçando a menina – Eu já estava com saudades!!!
— Ted!!! — a menina retribuiu o abraço – Vim buscar você! Eu, Saba e Salandria vamos brincar de esqui-bunda!! E você vai junto!
— Eu não vou ser convidada? — perguntou Ash franzindo a testa.
Karen olhou para irmã com as sobrancelhas franzidas, como se analisasse se deveria convidá-la ou não. Ash não sabia se caia na gargalhada com a expressão da pequena elfa ou se a esganava.
— Quem tem namorado não pode ir! — sentenciou a futura rainha com ar de superioridade – Você preferiu o Temma, então não será mais convidada para as brincadeiras!
— Tudo bem então. — disse Ash se levantando e ajeitando a roupa – Vou lembrar disso quando uma certa orquisa voltar para Orgrimmar e uma certa irmãzinha não tenha mais ninguém para brincar. — e fingiu ficar com raiva.
A pequena elfa imediatamente pulou de Tewdric para Ash, a agarrando com força.
— Eu estava brincando! — disse a menina entre risadas – Você pode vir! Você quem vai me empurrar morro abaixo!
— Interesseira! — acusou Ash.
Todos caíram na risada e Tewdric se levantou para acompanhá-las. Antes, porém, de enfrentarem a neve lá fora, Ash convenceu o orc a se agasalhar devidamente, no que foi atendida. Depois, os três, mais Salandria e Saba, passaram o resto da manhã no meio da neve, deslizando em pranchas, rindo, fazendo guerra de neve e criando o Astrogildo 2.0, que com a ajudar de Tewdric ficou maior e mais musculoso que sua primeira versão. Fora uma manhã de diversão sem igual, que todos guardariam com carinho na mente, e recorreriam a essas lembranças, sempre que os momentos sombrios da vida apareciam.
E, infelizmente, aqueles momentos eram mais recorrentes do que todos desejavam.
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A madrugada chegava ao fim em Ventobravo, mas Arshe ainda estava acordada. Era em momentos como aquele que o fato de sofrer de insônia se mostrava algo útil. Apesar de todo o castelo dormir o sono dos justos, ela continuava acordada, com uma xícara de chá já gelada a sua frente e dois volumes do diário de seu pai terminados. Aproveitara sua vigília para adiantar a leitura, mesmo que a interrompesse de tempos em tempos para verificar o estado de Lina.
A comandante continuava em seu sono profundo e perturbador. Ao lado desta, Doroteya dormira depois de sucumbir ao cansaço e à preocupação. Embora insistisse em permanecer acordada ao lado da amiga, a druidesa acabara dormindo sentada na cadeira ao lado da cama e restou para Arshe fazê-la flutuar delicadamente e pousá-la na cama, onde Doroteya continuou dormindo. E naquele momento, enquanto o sol entrava lentamente pela janela, Arshe era tomada pela sensação que o pior já passara. Levantou-se para esticar as pernas e foi até a cama. As feições de Lina pareciam menos sofridas e sua respiração estava mais ritmada. Isso significava que o remédio de Doroteya já fazia efeito, lutando contra o chumbo no corpo da comandante. Aliviada, a princesa respirou fundo, ajeitou as cobertas sobre o corpo da amiga e decidiu que era seguro deixá-la por um momento. Havia coisas que precisava saber.
A reunião de seu tio com os generais não fora um segredo para ninguém. Com Doroteya adormecida, Arshe não pode acompanhar o desenrolar dos fatos como gostaria e agora queria saber se Varian conseguiu chegar ao final da reunião sem matar ou destituir alguém do cargo. Mas agora era hora de saber. Passou as mãos pelo vestido, tentando fazê-lo parecer menos amassado, conferiu Lina mais uma vez e saiu.
Arshe pensara que teria que perguntar o que acontecera para algum de seus informantes habituais (servos e soldados), mas não precisou. Sentado no trono, com cara de quem não dormira nada, estava Varian. Seus olhos pareciam nebulosos, como se sua mente não estivesse ali, mas vagasse por um outro plano. Seus ombros estavam caídos, como se o mundo inteiro se apoiasse nele. Pela expressão de seu rosto, ele não estava apenas exausto, mas também esgotado, tanto que só percebeu a presença de Arshe quando esta o chamou:
— Tio?
Varian se sobressaltou e a encarou, confuso.
— Arshe? O que está fazendo acordada a essa hora? — perguntou.
— Tio, já é manhã. — respondeu com delicadeza.
Surpreso, Varian olhou pela janela, apenas para constatar que sim, o sol já brilhava. Suspirou e passou a mão na testa, como se tentasse apagar as lembranças da noite passada.
— Noite difícil, não é mesmo? — disse a jovem com o tom mais de afirmação que de pergunta.
— Você não imagina o quanto… — e só então se deu conta que Arshe viera de seu próprio quarto, onde Lina repousava – E a Lina? Como está? — perguntou ansioso.
— Ela parecia melhor. — disse com sinceridade – A respiração estava menos ofegante e mais tranquila. — e dando um sorriso, completou – Tenho a certeza que o pior já passou.
O alívio ficou evidente no rosto de Varian, porém, logo a preocupação voltou.
— Só me sentirei melhor quando ela estiver acordada e brigando com os soldados pela Bastilha. — Arshe riu de sua frase e Varian se permitiu um sorriso de canto de boca – Mas lhe darei um descanso para se recuperar. Assim, o general Jonas e o general Crowe poderão mostrar para mim que merecem serem chamados de general.
Arshe franziu a testa diante do comentário de Varian.
— General Crowe… — ela murmurou – Não gosto dele.
— Ficarei surpreso no dia em que encontrar alguém que goste. — comentou Varian.
— Sabia que meu pai chegou a cortejar a irmã do Barão Crowe porque meus avós insistiram que eu precisava de uma mãe? — indagou a jovem com a expressão de desgosto.
— Sério? — surpreendeu-se o rei – Bolvar nunca mencionou isso.
— Li no diário dele ontem. — ela suspirou, como se estivesse revivendo algo desagradável – Minha avó o perturbou tanto que ele foi visitá-la e me levou. Ela era uma jovem viúva com um filho um pouco mais velho que eu. Eu tinha quatro anos. Não lembro da visita, mas de acordo com o papai, o filho do Barão Crowe estava lá, visitando a tia.
— Raymond Crowe. — falou Varian franzindo a testa.
Arshe afirmou com a cabeça.
— Pelo que meu pai escreveu, o sobrinho e filho do Barão Crowe foram maus comigo. Me empurraram ou algo assim enquanto papai conversa com a viúva. Meu pai ficou furioso. — foi impossível não sorrir diante da lembrança dos cuidados de seu pai – Eu chorava alto e a moça lá disse que era coisa de criança, que não era grave e que eu estava apenas exagerando.
— Isso definitivamente não era uma coisa para se dizer a um pai superprotetor como Bolvar. — riu-se Varian.
— Com certeza não. — Arshe riu também, satisfeita que a história desanuviara um pouco a expressão de seu tio – Meu pai me pegou no braço e foi embora, sem se despedir. Parece que o Barão enviou muitas cartas pedindo desculpas e sugerindo uma nova visita para que a irmã dele e papai se acertasse. Papai nunca as respondeu e, em certo momento, as cartas pararam.
— Seu pai fez certo. Imagine você crescendo ao lado de Raymond Crowe. — e fechou a cara – Ele não é conhecido por tratar bem as mulheres.
— Pela Luz, ainda bem que meu pai teve discernimento. — vendo que seu tio estava mais relaxado, decidiu que era hora de perguntar – E a reunião com os generais? Como foi?
— Crowe estava presente, então imagine. — rosnou.
Pelo humor de seu tio, a situação de Lina e o que ela conhecia do general, com certeza foi bem tensa. Porém, ela queria saber dos detalhes.
— Prefiro que o senhor me conte, tio.
— E eu prefiro fazer isso bebendo um bom café. Preciso disso para relembrar tudo. — murmurou enquanto se levantava do trono.
Os dois então foram até o salão de refeições, onde os servos rapidamente trouxeram um café bem forte para o rei e um mais fraco para Arshe. A moça nunca fora muito fã da bebida, mas estava começando a apreciá-la, graças à influência de Lina. Todavia, preferia que o seu café viesse menos encorpado e com um pouco de creme de leite. Afinal, não podia correr o risco de tomar um café estilo rei Varian e passar os próximos três dias acordada.
Enquanto apreciavam a bebida, Varian relatou o que acontecera na reunião. Arshe ficou impressionada com o relato, nem tanto pelo que aconteceu, mas pela forma como seu tio lidara com tudo, sem matar ou destituir ninguém. Pensou no orgulho que seu pai teria de ver Varian agindo como um rei e não como um guerreiro, e mais ainda pela forma como defendera não apenas Lina, mas Lady Cláudia e todas as mulheres que, como elas, davam a vida por Ventobravo e pela Aliança. Arshe nunca estivera em uma situação como a daquelas mulheres e sabia que isso se devia ao medo imposto pela figura de seu pai. Era triste saber que era respeitada não porque era um ser humano e merecia respeito, mas por causa de sua família e seu posto.
— Pobre Cláudia… — murmurou Arshe a certa altura da conversa – Nunca vai superar a morte da irmã. Talvez, se Clare tivesse morrido de outra forma, não da forma como morreu…
— Você a conhecia? A irmã de Lady Claúdia? — quis saber Varian.
— Sim, ela chegou a iniciar os estudos em Dalaran. Era o oposto da irmã. Pequena, frágil, mas de um coração bondoso e puro. Anduin me lembra muito Clare. Crowe nunca deveria ter citado-a na reunião.
— Ele receberá uma advertência por isso. — garantiu o rei com seriedade – Mas acredito que o pior castigo será a própria Lady Cláudia que dará. Soube depois pelo tenente Lane que o Crowe estava tentando cortejá-la.
Arshe não conseguiu reprimir a risada de desdém que saiu de sua garganta.
— Um homem como Raymond Crowe jamais terá qualquer chance com a Cláudia! — sentenciou a princesa.
— Se tinha alguma, a perdeu ontem a noite. — o rei terminou sua xícara de café.
— Como alguém como ele é general, tio? — quis saber Arshe indignada – Ele mancha a reputação do exército da Aliança!
— Infelizmente, Arshe, não havia mais ninguém para preencher a vaga. Pelo menos, não alguém que tivesse a experiência no exército e o título de nobreza.
Houve um momento de silêncio e Arshe sabia exatamente o que ambos estavam pensando. Lina tinha capacidade, experiência e tempo de serviço o suficiente para estar naquele cargo. Mas não tinha o título. Arshe nunca se sentira tão envergonhada de ser nobre como naquele momento.
— Bem, pelo menos agora ele se esforçará para cair em suas graças de novo. — supôs a jovem terminando também seu café – E os homens que fizeram mal a Lina não farão mal a mais ninguém.
— Isso você pode ter certeza.
Se dependesse de Varian, aqueles três jamais voltariam sequer a ver a luz do dia. Porém, melhor que a morte ou o enclausuramento, estava humilhação. E era isso que eles teriam.
Naquele momento, um servo se aproximou dos dois, fez uma breve reverência e perguntou:
— Gostaria que eu servisse o café da manhã, majestade?
— Sim, comece a pôr a mesa. Greymane e a família logo estarão aqui. Anduin também não demorara.
Instintivamente, Arshe olhou para sua roupa. Ainda estava com o mesmo vestido do jantar e este estava todo amassado devido a noite passada em claro, sentada, lendo os diários de seu pai e cuidando de Lina. Definitivamente não era assim que queria ser vista pela família real de Guilneas.
— Ah, pela Luz, preciso me trocar! — exclamou Arshe se levantando – Estou toda amassada com tudo que aconteceu ontem e não posso aparecer assim na frente dos convidados! Com licença tio, volto já.
E sob o sorriso de Varian, Arshe se retirou rapidamente.
Durante a breve caminhada para seu quarto, Arshe se preguntou se devia mandar flores para Cláudia. Não falava com ela há um bom tempo, desde o funeral de Clare. Talvez devesse fazê-lo para que a general-brigadeiro lembrasse que ainda existiam pessoas que lembravam com carinho de sua irmã mais nova. Sim, era o que faria, pensou quando abriu a porta do quarto.
E tão logo adentrou no cômodo, soltou um grito e estacou, surpresa demais para dar um passo sequer.
Lina estava de pé e a olhava, confusa e um pouco irritada.
— O que diabos estou fazendo aqui? — perguntou com uma voz rouca e cansada.
Arshe não conseguiu responder, apenas ficou encarando-a, enquanto Doroteya ressonava suavemente, ainda adormecida na cama.
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Com o caderno dourado aberto, Vivithi conferia suas últimas anotações, o peito se enchendo de raiva e vergonha. Desde que Samanthah lhe dera o caderno, a jovem elfa tivera o cuidado de anotar tudo o que ela e seu namorado combinavam logo após ele sair. Quando aconteceu a primeira vez, ela ficou em dúvida, achando que poderia ter escrito errado. Depois, quando combinara novamente alguma coisa, ela teve o cuidado de confirmar com ele, discretamente, o combinado no dia seguinte, para verificar se escrevera certo. Sim, suas anotações estavam corretas. Mas isso não impediu de seu noivo modificar as informações dias depois.
A elfa ficara furiosa, claro. Mas, ainda assim, achou que talvez ele tivesse se enganado e não o fizera por mal. Por isso, esperou. E claro, a coisa ocorreu de novo. Dessa vez, algo passara por sua mente: estaria ele fazendo aquilo de propósito? Não, não conseguia aceitar isso. Era… Era perverso demais! Annatar não era alguém assim! Porém, como explicar aquilo sem magoar os sentimentos dele? Por isso, esperou que a coisa acontecesse uma quarta vez. Se acontecesse de novo, abordaria o assunto.
E, naquele exato momento, acontecia.
— Você está enganado. — disse com a voz trêmula.
Daquela vez haviam combinado de jantar em casa. Vivithi preparara tudo, toda a comida, comprara vinho e até um vestido especial. Annatar chegara muito tarde, aparentando estar um pouco bêbado, e ficou surpreso quando sua noiva o contestou.
— Claro que não! — disse ele franzindo a testa. — O nosso jantar será amanhã! — e apontando para a mesa feita, riu – Olha só, amor, você teve todo esse trabalho e estava enganada o tempo todo! Você é tão burrinha! — seu tom era carinhoso e também penalizado.
— Eu não sou burra!
Vivithi não foi a única a se surpreender com o tom de voz alterado que usara. Seu noivo arregalou os olhos e seu sorriso morreu no rosto.
— Você está insinuando que eu estou mentindo, Vivithi?
Agora o tom dele era raivoso e seu rosto se fechou. O coração de Vivithi se apertou e ela estremeceu. Não gostava daquela expressão dele. Lhe causava temor e angústia. A elfa apertou ainda mais o caderno entre as mãos e olhou novamente suas anotações. A raiva que tornou a sentir lhe deu mais força.
— Não estou dizendo que você está mentindo. — começou a falar, em um tom cuidadoso – Estou dizendo que dessa vez você quem está enganado e não eu!
Annatar cruzou os braços e sentou no sofá, com os olhos brilhando de raiva.
— Então me diga, espertinha, porque você acha que eu, logo eu, estou enganado? Nós dois sabemos bem quem é a pessoa que vive esquecendo e trocando as coisas aqui!
O desafio na voz dele quase a fez desistir, mas então ela respirou fundo e se aproximou.
— Eu anotei tudo. — disse mostrando o caderno – Anotei todo o nosso combinado e anotei também quando confirmei com você ontem.
Os olhos do elfo se arregalaram de surpresa quando ele viu as anotações da noiva, em sua letra fina e elegante. Depois a olhou, como se ponderasse o que ela dissera e então caiu na risada. Vivithi se surpreendeu e quase deixou o caderno cair.
— Nossa! — ele ria alto e a olhava com carinho – Quem diria, eu me enganei, vejam só! — ele pegou o caderno, deu uma conferida, negou com a cabeça, como se não acreditasse que ele seria capaz disso e depois fechou o caderno – Acho que estou pegando o esquecimento de você, meu amor!
Chocada demais com a reação dele, ela nem sequer pensou em dizer que ela não era esquecida, e que aquela não era a primeira vez que ele simplesmente distorcera só fatos. Todavia, estava tão aliviada de estar certa, de o engano ter sido dele, que nada falou. Riu junto com ele, pegou o caderno e o deixou em cima da mesa.
— Pois é, você se enganou dessa vez! — ela se sentia tão bem dizendo isso que prontamente esqueceu do confronto que estava planejando – Então, você me deve desculpas!
— Claro que devo! — ele levantou-se e lhe deu um profundo beijo.
Todas as preocupações sumiram da cabeça de Vivithi e ela aproveitou o momento. Fazia tanto tempo que ele não era tão carinhoso!
— Bem.. — começou ele depois que o beijo se encerrou – Vamos então aproveitar esse jantar? Não quero que a comida estrague!
Fora o melhor jantar que já tiveram em meses. Annatar abriu a garrafa de vinho e eles comeram tudo que estava na mesa, conversaram e riram como quando namoravam. Vivithi estava encantada! Fora tão fácil! Mal podia esperar para falar a Samanthah de seu sucesso. E quando achava que a noite não poderia ficar melhor, fizeram amor em sua cama, e ele foi tão delicado, tão atencioso, que Vivithi não demorou a chegar no clímax e se aconchegar aos seus braços.
Quando já estava quase adormecendo, Annatar lhe perguntou, com suavidade:
— Amor, quando você teve essa ideia de anotar as coisas?
Meio sonolenta, Vivithi respondeu:
— A Sam quem me deu.
— Quem é Sam? — quis saber.
— Samanthah Fendessol, esposa de Dhomm, amigo do meu tio.
— Ah… — ele sussurrou, mas não disse mais nada.
No dia seguinte, Vivithi acordou de muito bom humor. Espreguiçou-se e depois procurou o corpo de seu noivo na cama. Ele não estava lá. Então, ela sentou-se na cama, procurando por Annatar e o viu sentando a mesa, tomando uma xícara de chá e lendo o seu caderno. Sem saber o porquê, seu coração se acelerou e ela ficou com medo. Será que ele ficaria chateado em saber que ela andava anotando as coisas? Não, não deveria ficar. Então por que ela estava temerosa? Era óbvio, não queria acabar com o clima bom do dia anterior. Por isso ergueu-se da cama, vestiu o robe e foi até onde ele estava. Ficou aliviada quando ele sorriu e a pegou no colo.
— Amor, acho que precisamos conversar. — disse afetuosamente.
Ah, ele, com certeza, falaria do caderno. Apesar de ter desejado fazer isso no dia anterior, Vivithi não queria mais falar naquilo. Tinha a impressão que ia estourar aquela bolha de felicidade dos dois.
— Podemos deixar isso para lá. — murmurou ela colocando a cabeça no ombro dele – Foi só um esquecimento…
— Não é sobre isso. — falou, para a surpresa dela – Acho que devemos falar sobre você estar próxima dessa tal Samanthah Fendessol.
Vivithi o encarou, surpresa.
— O que tem a Sam?
A expressão de Annatar se entristeceu, como se ele estivesse indeciso sobre falar algo.
— Querida… Você sabe não é… As coisas sobre o marido dela….
— Ah, Annatar! — exclamou chateada – Não me diga que você se importa com as coisas que dizem sobre Dhomm! Ele é amigo do meu tio! Minha família os conhecessem há séculos!
— Eu sei querida, eu sei… — ele alisou sua cabeça – O problema não sou eu, acredite! Mas, como você sabe, as pessoas falam deles… Sua família pode pensar diferente, mas são exceção! Imagine o que minha mãe vai dizer se souber que minha noiva anda de amizade com os Fendessol!
A mãe de Annatar era uma elfa rígida e extremamente ligada às tradições dos Altos Elfos. Vivithi não gostava dela, pois a velha sempre deixava claro que achava que Vivithi não era boa o suficiente para seu amado filho. Pensar que sua relação com a futura sogra poderia piorar a deixou receosa.
Vendo que sua noiva recuava, Annatar continuou:
— Tenho medo que minha mãe não aprove nosso casamento… — e passando a mão na cabeça dela, acrescentou – Não que eu não vá deixar de casar com você mas… E nossos filhos? E se minha mãe não reconhecer nossos filhos? Você sabe que o papai faz tudo que ela quer, então ele acabaria não nos visitando também… Isso o mataria…
O coração de Vivithi começou a se apertar e ela teve vontade de chorar. Não, não queria que seu amado brigasse com a família por causa dela, nunca!
— Ah Annatar, a Sam é tão boa! — lágrimas já brilhavam em seus olhos – Não queria que pensassem coisas ruim dela e de Dhomm!
— Mas meu amor, não podemos controlar o que as pessoas pensam! Mas, se você faz questão de manter sua amizade com essa elfa… — a expressão dele foi de tristeza – Bem, talvez a mamãe não fique tanto tempo com raiva, não sei…
— Não, Annatar! — disse ela assustada – Não vou pedir que você brigue com sua família por isso!
— É sua amiga, Vivithi. — lembrou ele.
— Ela vai entender. — afirmou – Quando eu conversar com ela…
— Tem certeza que o melhor é ferir os sentimentos de sua amiga? — questionou ele – Talvez seja melhor você simplesmente ir se afastando sabe? Ela está grávida não é? Você não quereria deixá-la triste logo agora?
— Tem razão… — murmurou Vivithi – Talvez seja melhor simplesmente não ir mais lá…
Annatar sorriu.
— Você tem um coração tão bom, meu amor… — e a beijou.
E mesmo que Annatar tenha dito aquilo, Vivithi se sentia a pior pessoa do mundo. Depois que ele foi embora, folheou o caderno que Samanthah lhe dera, lembrando o quanto gostara das horas passadas ao lado dela. Sentia tanta falta de ter uma amiga! Porém, não podia simplesmente jogar seu noivado pela janela por alguém que mal conhecia. E com isso na cabeça, guardou o caderno em uma gaveta, esperando não usá-lo mais um bom tempo.
Vivithi achou que seria fácil não visitar mais Samanthah e ignorar sua existência. Era simplesmente não ir mais lá, certo? Todavia, a elfa esqueceu que Samanthah não era o tipo de grávida que costumava ficar em casa. E não precisou de muitos dias para que as duas voltassem a se encontrar.
— Vivi! — exclamou Samanthah no mercado, dois dias depois da conversa da elfa com seu noivo – Nunca mais foi lá em casa!
A alegria da elfa grávida deixou o coração de Vivithi despedaçado. Tanto é que ela sequer retribuiu o sorriso que lhe foi dirigido, apenas ficou parada, com o coração aos pulos, pensando no que fazer. Olhou para os lados, para ver se algum amigo da família de Annatar estava por perto. Claro, Samanthah logo percebeu que havia algo errado.
— Aconteceu algo? — quis saber a elfa, que, como da outra vez, carregava um monte de sacolas – Foi algo relacionado com o caderno?
Ao mesmo tempo que queria compartilhar a vitória de seu noivo ter reconhecido seu erro e estarem bem um com o outro, também não queria estragar a relação com sua sogra, caso alguém a visse por ali com Samanthah. Ficou numa indecisão horrível. Seu silêncio começou a incomodar Samanthah, que percebeu que havia algo claramente errado com a outra.
— Qual o problema, Vivithi? — perguntou preocupada – Quer conversar? Podemos ir lá pra casa. Faço um belo chá em troca da ajuda com essas sacolas. — e deu uma risada, esperando que a outra a acompanhasse
Porém, Vivithi nada disse. Ficou calada, até que Samanthah também se calou. Houve um silêncio constrangedor até que a jovem elfa apenas murmurou:
— Desculpe, estou atrasada. — e saiu quase correndo, deixando Samanthah estupefata.
Samanthah ficou plantada, no meio da feira, sem entender o que havia acontecido. Até dias atrás ela e Vivithi estavam rindo e conversando como se conhecessem uma a outra há séculos e agora a elfa a tratara como uma desconhecida. E não apenas isso, também a tratou como se algo estivesse errado com ela. Como se tivesse uma doença ou algo assim. Teria Samanthah dito algo que magoara Vivithi? Bem, era a única explicação. Fizera algo sem perceber e isso deixara a outra tão chateada que agora sequer queria falar com ela. Com o coração apertado, voltou para casa.
No caminho, a futura mãe sentia o bebê se remexer em sua barriga, mas sua mente estava focada em tentar achar o que fizera de errado. Reviu em sua mente todas as conversas que tivera com Vivithi, procurando em suas lembranças o menor sinal de que a ofendera. Mas não conseguia achar nada. Estava à beira das lágrimas quando chegou em casa.
Porém, mal havia entrado, quando ouviu uma risada na cozinha. Logo, Dhomm e Lor’themar surgiram, rindo, e quando viu que a esposa havia chegado, Dhomm abriu ainda mais o sorriso e se adiantou para ela.
— Querida, e esse monte de sacolas? Deixe-me ajudá-la!
— Sam! — exclamou Lor’themar, também se aproximando – Há quanto tempo!
A visão de Lor’themar, sorridente ali em sua sala, fez com que as emoções de Samanthah transbordassem de vez. Ela largou as sacolas no chão e colocou as mãos no rosto, chorando copiosamente. O choro inesperado fez os dois elfos estacarem e se fitarem, sem entender. Porém, logo Dhomm a estava abraçando e a consolando. Era verdade que a sua esposa chorava muito depois que engravidara, mas aquele choro era diferente. Era um choro magoado.
— O que aconteceu, meu amor! — perguntou o elfo, preocupado.
— A Vivithi me odeia! — exclamou em meio as lágrimas.
Foi a vez de Lor’themar se preocupar.
— Vivithi? Minha sobrinha? — perguntou estupefato.
Samanthah fez que sim com a cabeça.
— Não entendo… — murmurou o patrulheiro – Quando você viu Vivithi?
Enquanto Samanthah chorava ainda mais, Dhomm rapidamente explicou a Lor’themar que Vivithi passara a frequentar sua casa nos últimos tempos e que ela e Samanthah estavam bem próximas.
— Mas agora ela me odeia!- chorou ainda mais Samanthah.
— Traga uma água para ela. — pediu Dhomm para o amigo.
Rapidamente, Lor’themar providenciou o copo de água. Dhomm fez Samanthah se sentar e a consolou até que o choro da esposa cessasse. Quando a elfa se acalmou, Lor’themar pediu, carinhosamente, segurando sua mão.
— Sam… Agora me conte… O que aconteceu? Por que você acha que minha sobrinha não gosta de você? Me conte tudo….
E Samanthah, ainda abalada, contou tudo.
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A casa estava silenciosa. Era estranho. Lina nunca ficara acordada até tão tarde para perceber que até os Wood se calam em algum momento. Enquanto ouvia o ressonar do sono de suas irmãs, ela pensava no que faria a seguir. Seria o maior e mais temerário ato que jamais fizera. Porém, não tinha dúvidas que aquele era o único caminho.
Com cuidado, ela sentou-se na cama. Deixou que seus olhos se acostumassem com a escuridão antes de voltar a arrumar suas coisas. Para sua sorte, não tinha muito o que levar. Algumas mudas de roupa, seu arco e flechas, uma capa para o frio e o pouco dinheiro que conseguira juntar. Seu pai sempre lhe pagava por seus trabalhos e Lina tinha o costume de economizar para aprimorar suas armas. Agradeceu a si mesma por não ter comprado aquela aljava linda que vira na semana anterior na Vila D’ouro e ter algum dinheiro para levar para Ventobravo. Como não sabia como era a seleção do exército, se tinha que pagar inscrição ou algo assim, era bom contar com aquelas poucas moedas. Trocou rapidamente de roupa e em pouco tempo estava pronta para partir.
Contudo, Lina hesitou. Agora, mais calma, sabia que seu pai ficaria devastado quando soubesse que ela fugira. Pensou em deixar um bilhete, mas teria que acender a lamparina para conseguir escrever algo. E isso acabaria por acordar suas irmãs. Não, não deixaria nenhum bilhete. Mandaria uma carta quando chegasse à capital. Pediria desculpas e deixaria claro como aquilo era importante para ela. Tinha certeza que, com o tempo, seu pai entenderia.
Rezava para que ele entendesse.
Sair pela porta da frente estava fora de questão, então Lina abriu, com cuidado, a janela de seu quarto. Ouviu quando Linda resmungou durante o sono e se remexeu e paralisou, com a mão na janela. Porém, sua irmã não acordou. Aliviada, Lina terminou de abrir e passou a perna para o outro lado. Com agilidade, se apoiou em uma entrância da casa e conseguiu fechar apenas um pouco a janela depois de passar a outra perna. Era possível que alguma das irmãs acordasse a noite com frio e fosse fechar a janela, mas duvidava que notasse sua cama vazia. Com habilidade, Lina desceu do segundo andar até o chão e sorriu quando seus pés se firmarem. Seu coração estava aos pulos. Sim, estava fazendo aquilo. Não tinha volta.
A noite estava perfeita para viajar. Uma lua cheia imensa brilhava no céu. Se ela tivesse sorte, chegaria ao amanhecer na capital. Pensou em pegar um cavalo na calada da noite, mas logo desistiu da ideia. Os animais poderiam se assustar e fazer tanto barulho que atrairiam a atenção de seu pai. Melhor não. Também não queria gastar seu pouco dinheiro em um voo da Vila D’Ouro até Ventobravo. Então, só havia uma coisa a fazer. Pôs os dedos na boca e assoviou.
O urso não demorou a aparecer. Vicious sempre estava por perto, nos arredores da fazenda, e Lina sorriu quando ele se aproximou e a cheirou longamente.
— Ei amigo, pronto para uma viagem?
O urso urrou baixinho, em concordância, e Lina subiu em suas costas.
A jovem nunca tinha percorrido uma distância longa nas costas de Vicious e não sabia até onde o urso aguentaria. Porém, tinha que tentar. Mesmo que não pudesse fazer todo caminho de carona em seu ajudante, já ajudaria muito.
— Vamos pela estrada enquanto não amanhece. — disse para Vicious – Depois, vamos pela floresta. Não quero correr o risco de encontrar alguém conhecido.
O urso soltou um grunhido de concordância e tomou o caminho da estrada. Estava frio, então Lina se apertou contra o corpo do urso e se encolheu dentro da capa. Em algum momento durante o percurso a jovem deve ter dormido, pois quando se deu conta, estava em frente a entrada da capital, que só podia ser percebida pelas tochas que iluminavam o local. Não havia amanhecido ainda. Satisfeita, desceu de Vicious e alisou sua cabeça.
— Desculpe ter te cansado assim, amigo. — ela sorriu – Chegamos adiantados graças a você!
O urso grunhiu em concordância.
— Bem, agora, temos que achar a Bastilha!
O que Lina não imaginava era que fosse passar tanto tempo perdida no meio da cidade, tentando chegar na Bastilha. Como já tinha estado em Ventobravo antes, achou que seria fácil encontrar o caminho, mas não levou em consideração que, em sua visita, estava com Tommy, que já conhecia aqueles caminhos como se fossem a palma de sua mão. Sozinha, ela não conseguia se encontrar. Se, pelo menos, o sol já tivesse nascido…. Não, não podia esperar pro isso, tinha que chegar logo! Por isso, se resignou e pediu ajuda a um dos sonolentos guardas que guardavam as ruas. Então, com as novas orientações, pode chegar no local de destino.
Mesmo nos anos seguintes, quando subiu aquelas escadarias várias e várias vezes, Lina não esqueceu a sensação de galgar os degraus pela primeira vez. Seu coração batia forte e um sorriso grande e sincero tomava conta de sua face. A emoção era indescritível. Estava ali, no coração da Aliança, pronta para se unir ao exército! Mal podia acreditar que esse dia havia chegado!
Claro, ainda não havia ninguém no local. Mas Lina viu que haviam posto algumas mesas e várias cadeiras, provavelmente para esperar os novos recrutas. Sentiu-se tentada a pegar alguma daquelas cadeiras e sentar, mas pensou melhor. Não… Ela devia ser para os figurões que fariam o alistamento. Como estava acostumada à vida dura da fazenda com uma família gigantesca, ela não achou ruim se deitar no chão e esticar um pouco as costas. Já tivera que ceder sua cama muitas vezes às cunhadas grávidas ou sobrinhos pequenos. Mas não foi muito desconfortável, pois Vicious se enroscou nela e já não sentia mais frio. Se abraçou com o urso e acabou adormecendo.
— Moça? Moça? Está tudo bem?
A voz grave de um homem fez Lina acordar sobressaltada. Sentou-se rapidamente e olhou para a direção de onde vinha a voz. Era um homem grande, de cabelos e olhos castanhos, que a encarava num misto de confusão e preocupação. Lina coçou os olhos e não conseguiu reprimir um bocejo.
— O recrutamento já começou? — foi a primeira coisa que a jovem disse.
Sua atitude despreocupada fez o estranho franzir a testa.
— Está prestes a começar. — revelou o homem – Está procurando alguém?
— Não, vim me alistar. — respondeu.
Agora a surpresa do homem era evidente. Porém, havia algo mais em seu olhar. Lina achou por um momento que era orgulho, mas descartou a possibilidade. Ele estaria orgulhoso de quê? Enquanto se levantava e batia a roupa para tirar a poeira, Lina deixou seus olhos percorrerem o homem a sua frente. Ele vestia uma armadura brilhante, completa e com um leão em sua ombreira. Trazia uma imensa espada em sua cintura e vestia o tabardo de Ventobravo. Ele parecia importante. Talvez fosse um general.
— Uma moça tão jovem veio se alistar? É uma grande surpresa. — ele comentou sorrindo.
Imediatamente a imagem de seu pai lhe gritando veio à mente de Lina, que fechou a cara para o estranho.
— Por que? Eu deveria estar em casa cozinhando e me preparando para casar? — retrucou de forma rude.
Sem esperar aquela resposta tão áspera, o homem deixou o sorriso morrer. Analisou a jovem por um momento e então balançou negativamente com a cabeça.
— Você deveria estar onde quer estar, senhorita. — respondeu gentilmente – Desculpe se a ofendi com minhas palavras. Só estou surpreso, pois não vemos muitas moças por aqui. E, confesso, feliz também.
Lina ficou surpresa com a forma como ele respondeu e também envergonhada. Seu rosto ficou vermelho pela primeira vez em anos e ela baixou a cabeça.
— Desculpe, senhor, é que estou cansada de dizerem o que devo fazer ou não baseado em meu sexo.
— Compreendendo. — disse voltando a sorrir e Lina teve a impressão que ele entendia mesmo. Depois, o estranho apontou para um homem sentado à mesa – Ali é o alistamento.
Agora o sorriso se abriu no rosto de Lina.
— Obrigado, senhor. — e sem conseguir conter a empolgação, disse – Mal posso esperar para vestir o uniforme do exército e lutar por Ventobravo! — ela o encarou por um momento – Quero fazer a diferença nesse mundo, senhor!
E sem esperar resposta, correu para onde estava a mesa, com Vicious em seu encalço. O homem a observou por um momento e não conseguiu conter o sorriso. A menina era petulante, ambiciosa e determinada. Seria uma aquisição muito boa ou desastrosa. Apostava na primeira alternativa. Afinal, ele, Bolvar Fordragon, sabia muito bem julgar o caráter das pessoas.
Quando chegou na mesa onde deveria fazer seu alistamento, Lina olhou para trás. O homem de armadura brilhante não estava mais lá. Quem seria ele? Era importante, isso não dava para negar. Mas também fora gentil com ela, uma completa estranha que estava dormindo no chão agarrada com um urso. Se todos no exército fossem assim, seria muto fácil se adaptar. E pensando nisso, deu um sorriso empolgado para o homem que, pelas estrelas na roupa, era um sargento e que estava sentado na mesa, com uma pilha de formulários. Porém, o sargento apenas a olhou de cima a baixo e lhe entregou um dos formulários.
— Preencha esse formulário. — disse secamente.
— Um ‘bom dia’ não faz mal a ninguém. — retrucou Lina arqueando as sobrancelhas.
O sargento franziu a testa e replicou:
— Se espera que sejamos amigos dos ‘aspiras’, está no local errado, moça. Deveria ter ficado com as costuras em casa. — e sorriu com desdém.
— Deveria socar sua cara, isso sim! — sibilou a moça fechando a mão em um punho.
Vicious rosnou e o soldado olhou para o bicho, um pouco atemorizado.
— Faça isso e nada de alistamento para você, mocinha. — ameaçou.
Lina estacou. Seria pior coisa que poderia acontecer. Depois de ter fugido de casa não pode se alistar? Não, jamais. Por isso, engoliu a raiva, ainda que seu rosto estivesse rubro, e baixou a cabeça, furiosa e envergonhada.
— Desculpe. — murmurou.
— Eu não ouvi. — havia um tom divertido na voz do sargento.
— Desculpe! — disse quase sibilando – Desculpe por ter dito que vou lhe socar, mesmo você tendo feito a piadinha sem graça da costura.
— Acostume-se, mocinha. Vai ouvir muitas piadas.
Automaticamente ela lembrou-se do homem de armadura brilhante. Ele dissera algo que não gostou, mas foi humilde o suficiente para reconhecer que a ofendera. Aquele outro ali, ao contrário, parecia o oposto do estranho de armadura brilhante. Será que a educação acompanhava o posto? Quanto mais alto, mais educado? Se fosse assim, se daria bem. Só a Luz e a mãe dela sabiam o quão mal-educada Lina poderia ser.
— Tudo bem, já aguentei piada o suficiente dos meus irmãos, estou preparada. — disse querendo passar a impressão de confiança. Porém, era difícil parecer altiva quando o estômago reclamava a falta de comida. Seria bom procurar uma padaria ou algo assim por perto quando terminasse ali – Me diga logo quanto é a inscrição para eu ver quanto vai sobrar do meu dinheiro.
O sargento a encarou, primeiro confuso, mas quando viu a bolsa de dinheiro de Lina, sorriu maliciosamente. Como estava concentrada em contar o dinheiro, a jovem não reparou no olhar de cobiça do homem.
— Acho que isso aí cobre os impostos. — ele foi dizendo e pegou a bolsa da mão de Lina sem cerimônia.
— Ei! — protestou ela – Não vai nem contar?
Revirando os olhos, ele despejou as moedas em sua mão, fingiu que contava e depois colocou as moedas de volta na algibeira.
— Está faltando dez pratas. — foi o que disse.
Era exatamente o que ela temia: seu dinheiro não dava. E agora? Procurou nos bolsos alguma moeda sobrando, mas nada achou. Estava ficando em pânico. Teria que ir até a casa de Tommy e pedir dinheiro emprestado? Duvidava que seu irmão emprestasse. Era possível que a mandasse de volta a fazenda. E isso não podia, não podia mesmo permitir.
— Tudo bem, vou fazer um favorzinho para você, mocinha. Vou deixar por esse valor mesmo. — e guardou a algibeira dela dentro do colete – Quem sabe, outro dia, você possa me pagar esse favor. — e sorriu ainda mais.
Apesar da aversão que teve àquele sorriso, Lina acabou por sorrir também, pois ficou aliviada de não ter que ir procurar Tommy. Pegou então a ficha e sentou-se no local indicado pelo sargento, onde preencheu todos seus dados. Sim, sim, estava mais próximo do seu desejo. Depois que terminou, releu com calma para ver se tinha esquecido de algo. Àquela altura, outros jovens chegavam para se alistar, mas Lina não olhava para eles, pois estava ansiosa demais para prestar atenção em outra coisa.
— Aqui. — disse devolvendo o papel ao sargento – A ficha preenchida.
Assim que passou os olhos pelo papel, o soldado caiu na risada. Era uma risada zombeteira, alta e desrespeitosa. Lina sentiu novamente seu rosto arder de vergonha, pois sabia do que ele ria. De seu nome.
— Quengacilina? — disse ele em voz alta – É sério isso?
— Sim, esse é meu nome… — murmurou entre os dentes, enquanto tentava se controlar. Tinha que pensar no exército. Se socasse ele, nada de exército.
— Você é muito corajosa! Se apresentar no exército com um nome desses! — e ele continuou a rir.
— É o único que tenho…. — estava muito difícil manter a calma, por isso ela fechou os punhos. Ainda assim, suas mãos tremiam. Estava difícil manter o controle.
— Sua mãe deve ser uma sacana muito grande para colocar um nome desses em você!
Xingá-la? Tudo bem. Ameaçá-la? Tudo bem também. Obrigá-la a pedir desculpas por se sentir ofendida? Sem problemas, já teve que fazer isso em casa, quando a obrigavam. Mas desrespeitar dona Mariana? Jamais! Lina podia não ser a queridinha da mamãe, mas amava-a mesmo assim e não queria ninguém por aí dizendo aquele tipo de coisa.
Por mais que fosse verdade.
Lina não percebeu que tinha feito até sentir a cartilagem do nariz do sargento quebrar-se por baixo de seu punho e o sangue espirrar em seu rosto. A risada do homem foi automaticamente substituída por um urro de dor e ele desabou da cadeira no chão.
— Não ofenda minha mãe! — Lina ouviu-se gritar antes de praticamente pular a mesa para continuar batendo no cara.
Porém, os soldados logo agiram. Em pouco tempo três deles dominavam Lina. Vicious, quando viu a dona em perigo, avançou para os soldados. Um deles pegou a arma e apontou para o urso e atirou.
— Vicius, não! — gritou a jovem – Fuja! Fuja!
O urso, a quem Lina treinava há anos, a obedeceu quando o segundo tiro soou. Alguns soldados o perseguiram, mas Lina sabia que não o alcançariam. Vicious era rápido. Mas o que faria o urso? Voltaria para casa? Procuraria a fazenda? Não sabia. A única coisa que sabia era que estava sendo arrastada pela Bastilha, onde ela sonhara em entrar pela porta da frente, debaixo dos gritos do sargento que agredira.
— Levem essa louca! — ordenava eles aos demais – E a tranquem em uma cela!
Foi exatamente o que fizeram. A jogaram lá, sem nenhuma sutileza, fazendo com que Lina caísse de cara no chão frio de pedra. Depois, ouviu a porta da cela bater e reconheceu a voz do soldado, que lhe disse:
— Aproveite a cela enquanto não a levamos ao cárcere, Quengacilina! — sua voz era uma mistura de raiva, desprezo e uma mórbida alegria.
Lina gritou e se precipitou para as grades. O homem se afastou, rindo, com o sangue manchando o rosto. Parecia sentir prazer pelo desespero que a jovem mostrara. Porém, esse desespero não era por estar presa naquela cela. Nem em ser mandada para o cárcere. Seu grito foi de frustração e desespero, porque sabia que suas chances de entrar no exército estavam acabadas.
*********************
Kassyeh estava tão ansiosa que não conseguia ficar sentada. Andava de um lugar para o outro da sala, apertando as mãos e olhando para a porta. Claro, tentou conter a ansiedade, mas era um pouco difícil. Não pensava em outra coisa desde o dia anterior e ficou feliz que Tewdric estivesse tão chateado com o namoro de Ash que sequer percebeu que a esposa não dormira direito nem comera o usual no café da manhã. A espera a deixava com os nervos a flor da pele.
E então, finalmente, a espera acabou.
— Pronto! — anunciou Rommath entrando pela porta com um pergaminho na mão e entregando à cunhada – Desculpe a demora, quase que eu não achava a receita.
— Muito obrigada! — Kassyeh abriu o pergaminho com empolgação – Eu sequer dormi essa noite pensando nisso!
— Minha mãe teve uma reação muito parecida com a sua. — riu-se o magíster – Pena que quando Kayliel nasceu toda a empolgação foi embora… — e suspirou.
— Isso definitivamente não vai acontecer comigo! — disse convicta – Vou cuidar de todos meus doze filhos da mesma forma que cuido das minhas irmãs!
— Doze? — surpreendeu-se Rommath, mas Kassyeh não respondeu. Sentara e estava analisando o pergaminho.
A fórmula era mais complicada do que a maga esperava. Leu e releu várias, para começar a ter uma ideia do processo como um todo. Teria que abrir novamente seus livros de alquimias e rever alguns conceitos mais avançados. Sua preocupação ficou evidente, pois logo Rommath sentava ao seu lado e tentou tranquilizá-la.
— Eu sei, é um pouco complexa. — seu tom era consolador – Precisei de um bom tempo para aperfeiçoá-la para que seu efeito fosse como o desejado. Isso deixou as coisas um pouco complicadas.
— Vai valer a pena. — disse a maga com um sorriso no rosto – Mas acho que vou precisar de sua ajuda para fazer a poção. Não quero estragar tudo.
— Você quer minha ajuda? — surpreendeu-se Rommath.
— Qual o problema? Não pode me ajudar? — perguntou franzindo a testa.
Claro que Rommath ajudaria Kassyeh, mas estava sinceramente surpreso que ela estivesse solicitando isso por livre e espontânea vontade. Achava que a elfa dispensaria sua ajuda e passaria as próximas semanas debruçada sobre a fórmula tentando fazê-la. E só pedia ajuda caso falhasse. Porém, considerar que ele poderia ajudá-la e expressar isso tão facilmente mostrava para Rommath duas coisas: que o relacionamento deles melhorara significativamente em pouco tempo e que ela realmente queria muito, muito mesmo, ser mãe.
— A ajudarei no que precisar, Kassyeh. — garantiu ele.
Pela primeira vez, Kassyeh sorriu para ele.
— Obrigada. — e olhando novamente para a fórmula, perguntou – Os materiais são só esses mesmos? Parecem tão simples…
— Sim, são esses. A questão não são os ingredientes, mas o que extraímos deles.
E pelos minutos seguintes, os dois debateram a fórmula, os métodos e a eficácia. Estavam tão concentrados no pequeno pedaço de pergaminho que nem repararam quando Luxuriah entrou na sala e ficou observando os dois, boquiaberta.
O escândalo de Kassyeh quando dissera que casaria com Rommath ainda não saíra da cabeça da primogênita dos Fendessol, nem a forma fria e desconfiada com que a irmã tratava seu marido. Então, ver os dois ali, conversando concentradamente em uma atitude tão amigável era, no mínimo, surpreendente. Porém, o mais surpreendente foi o que Luxuriah sentiu ao ver a cena. Ela deveria ter ficado feliz. Deveria soltar rojões e comemorar o fato que sua irmãzinha superprotetora e ranzinza tinha finalmente cedido. Porém, não sentiu nada disso.
Luxuriah sentia ciúmes.
E o pior, não era ciúmes de Kassyeh. Estava com ciúmes da atenção que Rommath dava a sua irmã.
Aquilo era absurdo, gritava a parte racional de seu cérebro. Rommath a amava há anos. Anos! Esperara sua chance com paciência e até mesmo se dispôs a assumir a paternidade de sua filha. Todas as noites era seu carinho que a acalmava quando o terror de algo acontecer a seu bebê se abatia sobre ela. E claro, era sua boca e seu corpo que ele beijava. Então porque, de repente, teve uma vontade imensa de dar uns cascudos nele por estar tão perto de sua irmã?
Foi Rommath quem primeiro percebeu a presença de Luxuriah. Levantou a cabeça e abriu um sorriso imenso para a esposa. O coração da elfa disparou e a raiva que estava sentindo cedeu. Um pouco.
— Lux! — ele exclamou, se levantou e foi em sua direção – Eu já ia te procurar.
Os braços dele a enlaçaram e Luxuriah se aconchegou em seu peito.
— O que vocês estão fazendo? — sua pergunta saiu em um tom de cobrança.
Por um momento Rommath não sabia o que dizer. Havia prometido a Kassyeh que não falaria nada sobre a conversa deles no dia anterior, mas também prometera a Luxuriah que não esconderia mais nada dela. Por isso, olhou em direção à cunhada, que também se levantara e olhava ansiosa para a irmã.
— Lux… — murmurou a elfa se aproximando com a fórmula na mão – Eu… Eu vou te falar algo, mas quero que você me prometa que não vai contar ao Tewdric!
Luxuriah se desvencilhou de Rommath e encarou a irmã. O ciúme ainda latejava dentro dela e os olhos da elfa grávida estavam se enchendo de lágrimas. Qual a razão daquelas lágrimas, pela Nascente do Sol? Estava desconfiando de sua irmã?
— Depende do que você me contar. — disse com a voz dura e estreitando os olhos.
Kassyeh trocou olhares com Rommath e então suspirou.
— Rommath me trouxe uma fórmula de fertilidade. — revelou mostrando o pergaminho – Eu… Eu quero ficar grávida logo e a demora tem me deixado apreensiva. — Kassyeh então apertou os lábios – Não diga para o Tewdric! Não quero que ele se preocupe!
O alívio tomou conta do peito de Luxuriah. Era isso? Uma fórmula de alquimia?
— Fórmula de fertilidade? — era estranho, mas soava mesmo a cara de Kassyeh – Sério? — e não segurou o riso.
— Eu quero engravidar! — defendeu-se a elfa cruzando os braços e fazendo um muxoxo.
— Claro que quer, mas porque não espera vir naturalmente? — questionou Luxuriah – Pra que uma fórmula de fertilidade?
— Porque já faz três anos que estou com Tewdric e não veio naturalmente até agora. — falou baixando os olhos.
Aquilo realmente surpreendeu Luxuriah. Até então, jurava que sua irmã tomava as mesmas poções que Vivithi tomava para evitar gravidez, afinal, fazia várias por dia e vendia muito. Luxuriah nunca tomara porque imaginava que jamais engravidaria. Mas é claro, deveria ter suposto que, louca para ser mãe, Kassyeh jamais tomara uma gota sequer daquelas poções. Então… Três anos com Tewdric sem gravidez? Como Kassyeh jamais falara aquilo com ela? Àquela altura Kassyeh devia estar muito, muito preocupada com aquele fato, que poderia significar tanto que ela era estéril, quanto Tewdric poderia ser, ou simplesmente a diferença de raças os impedissem de ter filhos. De repente, sentiu-se envergonhada de sentir ciúmes da irmã. A encarou, se perguntando por quanto tempo Kassyeh sofria com a possibilidade de não ter filhos com Tewdric, a quem amava incondicionalmente.
— Onde você conseguiu essa fórmula? — perguntou para Rommath.
— Eu quem fiz. — respondeu ele.
— É segura? — insistiu.
— Depende. — ele sorriu – Qual sua opinião sobre meu irmãozinho? Ele nasceu graças a essa poção.
— Sua mãe tomou essa poção? Uau! — exclamou.
Rommath então contou para sua esposa o mesmo que contara no dia anterior a Kassyeh, sobre a origem da fórmula, seu processo de aperfeiçoamento e os efeitos colaterais pra lá de constrangedores. Luxuriah riu só de imaginar a possibilidade de Kassyeh e Tewdric com mais disposição para o sexo. Àquela altura, não havia mais nenhum resquício do ciúme de antes.
— Não quero nem imaginar você e Tewdric com tesão nas alturas por ai! — afirmou.
Porém não era isso que preocupava Kassyeh. Já estava preparada para o aumento de seu tesão e com as implicações que isso traria, mas se preocupava com o que sua irmã estava pensando sobre o silêncio que mantivera acerca do fato de não ter engravidado. Isso levaria a outras perguntas? Sobre outras coisas que a maga escondia?
— Lux? — chamou Kassyeh timidamente – Você não está com raiva? — quis saber, receosa.
— Por que eu estaria? — perguntou Luxuriah um pouco apreensiva. Teria Kassyeh percebido seu desconforto com a proximidade dela com Rommath?
— Por eu não ter… sabe… Falado sobre esses anos sem engravidar e tal…. — explicou baixando a vista.
Luxuriah se aproximou da irmã e a abraçou. Sentir Kassyeh perto de si acalmou de vez seu coração. Era sua irmãzinha, afinal. Se Rommath desse em cima dela, Kassyeh seria capaz de pegar o machado do marido e ela mesma cortar o cunhado no meio. Riu diante do pensamento.
— Sei que todo mundo tem seus segredos. — murmurou – Até você.
Kassyeh sorriu, aliviada. Ficaram abraçadas mais um tempo, até que a maga interrompeu o contato, quase dando pulinhos.
— Vou logo comprar os ingredientes! — avisou balançando o pergaminho – Depois, laboratório!
— E depois, sexo! — completou Luxuriah rindo.
Todos riram.
— Bem, acho que essa é a melhor parte… — disse Kassyeh um pouco constrangida – Até daqui a pouco!
E a elfa sumiu porta afora, tão rápido que parecia ter usado sua magia para chegar a porta mais rápido. Ao se verem sozinhos, Rommath abraçou novamente sua esposa. Luxuriah sentiu-se relaxar em seus braços, mas agora a preocupação sobre sua irmã começou a martelar em sua cabeça. Kassyeh queria ser mãe desde criança. Era algo que nunca escondera de ninguém. E nunca tinha passado pela mente de nenhuma delas que talvez isso fosse impossível. Seria uma piada de mau gosto do destino se, por acaso, Kassyeh, que jamais tiver ao corpo violado como o de Luxuriah, não fosse capaz de engravidar enquanto a outra carregava agora uma criança que jamais pensou que seria capaz de conceber.
— Há possibilidade de essa poção não dar certo? — perguntou ela, preocupada.
— Sempre há. — respondeu Rommath com sinceridade – Principalmente se o problema for incompatibilidade de raças.
— Não seria justo com a Kass… — murmurou balançando a cabeça, indignada – Existe meio-orc-draenei, meio-orc-humano e até meio-orc-ogro! — e dando uma pausa, Luxuriah pensou um pouco antes de falar – Os orcs tem uma vida sexual bem agitada, não é?
Rommath deu uma risada alta.
— Com certeza! — e alisando o cabelo da esposa, procurou reconfortá-la – Não se preocupe com a Kassyeh. Vou ajudá-la a fazer a poção mais precisa possível para possa realizar seu sonho. E, quem sabe, assim ela me aceita de vez na família. — o mago riu.
— Na verdade, eu acho que já aceitou. — a elfa o encarou, com as sobrancelhas erguidas – Vocês estavam até bem próximos quando eu cheguei…
Luxuriah não queria, mas seu tom saiu meio acusatório. Rommath a afastou delicadamente e a olhou, intrigado. A elfa corou. As sobrancelhas do elfo arquearam, surpreso e depois sorriu.
— Se eu não te conhecesse, diria que está com ciúmes. — comentou em tom malicioso.
— Mas você me conhecesse e sabe que não é. — desconversou.
Rommath riu ainda mais.
— Claro que não é. — disse carinhosamente – Até porque, seria um ciúme totalmente sem sentido, por dois motivos muito importantes.
Luxuriah apertou os lábios.
— Supomos, que eu estivesse com ciúmes. Hipoteticamente. — acrescentou rapidamente – Quais seriam os motivos para não tê-los?
— Hipoteticamente? — quis saber ele.
— Hipoteticamente. — confirmou.
Rommath tentou ficar sério para responder a pergunta, mas foi difícil. Um sorrisinho malicioso e satisfeito brincava em seus lábios.
— O primeiro e mais importante: eu te amo acima de tudo. — os olhos dele brilharam ao proferir aquelas palavras.
Uma vez a mãe de Luxuriah lhe dissera que Dhomm a fazia ‘se derreter’. A elfa nunca tinha entendido a expressão até aquele momento. Sentia-se derretendo completamente diante das palavras de Rommath.
— E o outro? — perguntou com curiosidade.
— Eu não sou verde.
A gargalhada de Luxuriah foi autêntica e aliviada. Abraçou Rommath novamente e o beijou.
— Obrigada por ajudar minha irmã. — disse após o beijo – Muito obrigada mesmo.
— Tudo para te ver feliz. — e colocando o cabelo dela detrás de sua orelha, sugeriu maliciosamente – Que tal aproveitarmos o tempo antes de Kassyeh chegar com os ingredientes? No quarto, apenas nós?
— Concordo.
— Hipoteticamente? — perguntou divertido.
Luxuriah lhe deu um soco no braço, mas logo estava puxando-o na direção das escadas. Sim, aproveitaria bem aquele momento.
Literalmente.
**************************
A mente de Lina não estava apenas confusa; parecia um turbilhão de imagens e sons desconectas, de lembranças embaralhadas e de dores espalhadas por todo o corpo. Ela não conseguia fazer as conexões entre o que sabia e o que sentia. Não conseguia estabelecer nenhuma relação entre aquele quarto pomposo e ela mesma. Lina tinha perdido a noção da realidade temporariamente, mas não era apenas isso que a deixava confusa e assustada. Era seu braço. Lina não sentia seu braço. Algo em seu cérebro dizia-lhe que aquilo era a pior coisa que poderia lhe acontecer, apesar de ela não saber porque. Por isso, andava de um lado para o outro, segurando o braço e olhando ao redor, com os olhos esbulhados, tentando se situar naquele ambiente tão estranho.
— Onde estou?! — gritava – Meu braço! Por que meu braço não mexe?!
Arshe estava paralisada, sem saber o que fazer, diante da descontrolada Lina. Já fora surpreendente adentrar o quarto e ver a comandante de pé, mas vê-la em um estado emocional instável piorava tudo. Na verdade, aquela mulher sequer parecia Lina. Era uma estranha de olhos injetados e vermelhos, que lhe davam um ar de loucura. Porém, o gesto protetor com o braço a fazia parecer quase inofensiva. Como uma criança machucada.
— O braço… o braço… — choramingava agarrada no braço inerte – Por que você não mexe?
Naquele momento, onde Arshe ainda encarava a amiga com receio e preocupação, Varian entrou no quarto. O rei estava próximo quando ouvira o grito da jovem e, claro, pensou que algo muito ruim acontecera com Lina. Tal como a princesa, ele ficara chocado ao ver Lina acordada, mas seu alívio instantâneo o impediu de ver de imediato o real estado da comandante.
— Lina… — sussurrou o rei com um sorriso se abrindo – Você acordou… — e fez menção de ir ao encontro dela.
— Tio! — exclamou Arshe tentando detê-lo.
Todavia, o aviso de Arshe fora desnecessário. Assim que viu o rei vindo em sua direção, a comandante gritou:
— Fique longe! — e quando ele estacou, voltou a murmurar – O meu braço… O meu braço… — e começou a dar voltas no quarto.
Varian estava petrificado, sentindo um misto de preocupação e surpresa. Olhou para Arshe, em busca de uma explicação.
— Não sei… — foi o que a princesa disse – Ela está assim desde que acordou…
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!A comandante continuava murmurando coisas sem nexos, olhando para todos os lugares como se estivesse em busca de alguma coisa. De repente, ela parou. Varian e Arshe se entreolharam. Teria ela recuperado a consciência? Poderia ser, mas ambos preferiram esperar que a própria Lina falasse. Todavia, o que a comandante fez, nenhum dos dois previra. Lina se precipitou contra a parede, batendo com força o lado do corpo dormente.
— Braço! Quero sentir o braço! — e se precipitou novamente fazendo seu ombro estalar.
— Não! — gritaram Varian e Arshe, correndo até onde Lina estava.
Na confusão que se seguiu, nenhum dos três reparou que Doroteya acordara com a gritaria. A druidesa, diferente dos outros, sabia o que estava acontecendo com Lina e se preparou para agir no momento certo. Quando a comandante começou a bater o corpo contra a parede, a druidesa se transformou em uma pantera e se jogou sobre a amiga. Derrubou Lina facilmente e voltou a sua forma humana. Antes que a comandante pudesse reagir àquele ataque, Doroteya lhe aplicou uma injeção no pescoço que fez os olhos dela girarem nas órbitas e sua consciência se esvair rapidamente.
— Lina! — exclamou Arshe se ajoelhando ao lado da amiga.
— O que você fez?! — gritou Varian pegando a druidesa pelo braço e a afastando da comandante. — O que você fez?! — perguntou novamente a sacudindo.
Doroteya o encarou, sem medo.
— O que tinha de ser feito. — ela então puxou o braço, libertando-se do aperto do rei – Lhe dei uma dose maior do remédio, para que ela pudesse apagar e não se machucar mais.
Antes que Varian abrisse a boca e dissesse alguma coisa mais, Arshe rapidamente interveio, ainda debruçada sobre a comandante.
— Tio, por favor! Doro jamais machucaria a Lina!
O silêncio se fez enquanto Doroteya e Varian se encaravam. A mulher, com um olhar de desafio. O rei, envergonhado. A injeção que nocauteara Lina ainda estava na mão da druidesa e Varian relanceou a vista para o objeto, se sentindo arrependido pela forma bruta com que agira com a jovem guilneana. Claro, ele deveria ter previsto o que Arshe afirmara, principalmente depois do dia anterior. Aquela jovem mulher, com certeza, preferiria morrer a causar algum dano a alguém que nitidamente amava muito. E se Lina soubesse que ele fora rude com Doroteya, ele estaria em maus lençóis.
— Desculpe-me… — pediu com sinceridade – Eu-
— Vossa majestade confia muito pouco nas pessoas. — disse a druidesa em tom de crítica – Você não é o único que se preocupa com a Lina.
— Eu sei e me arrependo disso. — admitiu com pesar – Por acaso a machuquei? — perguntou preocupado.
Doroteya fez que não.
— Está tudo bem. — ela depositou a injeção na mesa de cabeceira de Arshe – Não foi nada demais.
Varian se sentiu pior ainda. Como perdera o controle daquele jeito?
— Tio? Doro? — Arshe então fez um gesto atraindo a atenção dos dois – Vamos colocá-la na cama. — pediu.
A tarefa coube a Varian, que enquanto segurava o corpo desfalecido de sua amante, encarava seu rosto pálido mais uma vez. Estava em um conflito de sensações. Feliz porque Lina acordara, saindo do coma; preocupado pois o comportamento dela fora totalmente estranho e nada tinha a ver com a mulher ponderada que conhecia. E depois que a deitou novamente na cama, que fora ajeitada com carinho por Doroteya, a cobriu com o lençol e passou os dedos em sua face. Pelo menos a febre parecia ter ido embora.
— O que aconteceu? — perguntou em um sussurro, mais pra ele próprio do que para as mulheres no quarto.
— Eu sei o que houve. — respondeu Doroteya indo até onde estavam suas coisas – O envenenamento por chumbo pode causar alucinações e confusão mental nas pessoas atingidas. O fato de Lina ter acordado foi bom, mas seu comportamento me deixou preocupada. Significa que ainda há muito chumbo a ser expelido de seu corpo. — a druidesa soltou um gemido de frustração – Eu não devia ter dormido…
— Não se culpe. — disse Arshe colocando a mão no ombro da amiga – Você tem feito tanto, Doro! Nem foi para casa essa noite!
Doroteya não parecia muito convencida.
— Por que ela segurava o braço daquele jeito? — Varian ainda tinha dúvidas e agora encarava a druidesa – Ela disse algo sobre não senti-lo…
— Foi o braço atingido pelas balas, então é onde está a maior concentração de chumbo. — esclareceu – Vai ficar dormente um tempo, mas as chances de ser um dano permanente é muito pouco.
— Graças à Luz… — murmurou o rei, aliviado.
— Agora, ela vai dormir por um bom tempo. — a druidesa suspirou – A dose que dei foi bem concentrada. Ainda bem que consegui preparar a injeção antes de ela se machucar de verdade…
Ninguém queria pensar na possibilidade do que teria acontecido de Lina continuasse se jogando contra a parede. Pensar nisso fez Varian se sentir ainda pior pela forma como tratara Doroteya. A druidesa evitara o pior e ele fora um estúpido. Perguntaria a Arshe uma forma de compensar Doroteya pelo seu comportamento.
— Já que ela vai dormir por um bom tempo, — começou Arshe olhando a amiga – talvez você deva descansar um pouco em casa. Você passou a noite em claro.
— Você também. — retrucou a outra.
— Mas eu estou acostumada. — a princesa sorriu tristemente – Insônia é uma realidade para mim. — e vendo que a druidesa hesitava, continuou – Eu vou ficar aqui com ela o tempo todo. Você deixa outra injeção pronta para qualquer imprevisto. E é bom que os irmãos de Lina saibam o que está acontecendo. E tem o Theo.
Esse último argumento convenceu Doroteya. Queria ver o filho. O menino devia estar assustado com os acontecimentos, pois gostava muito de Lina. E também precisava dar uma explicação para Mel e Fey. E notícias a Tommy. Ele devia estar morto de preocupação. Se perguntou se teria coragem de contar o que acontecera. Bem, pensaria quando chegasse lá. Então, acenou em concordância com a cabeça, deixando Arshe aliviada.
— Tudo bem. Deixe-me preparar a injeção.
Enquanto Doroteya preparava uma outra dose, Varian ainda estava olhando para Lina. Quando tempo ela ainda ficaria naquela situação? Pela Luz, se pudesse trocar de lugar com ela… Preferiria mil vezes ser ele a sofrer. Suspirou e fechou os olhos, cansado de se sentir inútil. Por que, se perguntou, porque eram sempre as pessoas que amava que sofriam? Seus pais, Tiffyn, Lina… E ainda achavam um absurdo ele ser superprotetor com Anduin! Qualquer um que passasse o que Varian passara quereria proteger seu único filho a todo o custo. Contudo, as coisas continuavam acontecendo a sua volta e às vezes Varian se sentia muito mais um cachorro pé-rapado que um lobo. Um cachorro que só conseguia ficar correndo atrás do próprio rabo, sem conseguir uma solução para o que mais importava.
— Ela vai ficar bem, tio. — Arshe falou, tirando-o de seus devaneios e procurando confortá-lo – Ela acordou do coma, já foi um grande avanço.
— É, você tem razão… — concordou o rei, mas sem muita confiança – Ainda assim, eu quero ficar aqui, cuidando dela. Não quero perdê-la de vista um só momento.
— Mas você não pode. — censurou-o a princesa – Você é o Alto Rei. Tem muita coisa para fazer. E tem convidados. Pode ir fazer suas coisas sem se preocupar. Eu cuido de tudo.
A sensação de inutilidade de Varian aumentou e sua frustração estava quase transbordando. Teve vontade de gritar bem alto: que se dane ser o Alto Rei! Tudo que queria ficar com a mulher que amava, cuidando dela. Estava prestes a dizer isso, quando seus olhos se encontraram com o de Arshe. Suas palavras se perderam ao ver a censura no olhar da jovem maga. Sim, ela tinha razão. Não podia simplesmente ficar ali. E, além do mais, se Lina soubesse que ele fora relapso com suas funções quando acordasse, ele teria um grande problema.
— Tudo bem. — foi tudo que ele disse.
Tão logo a injeção ficou pronta, Doroteya se despediu de Arshe e Varian e saiu voando em sua forma de águia pela janela. O rei ainda relutou em deixar o quarto, mas se forçou a fazê-lo. Tinha afazeres a cumprir. E então Arshe assumiu o posto de cuidadora de Lina mais uma vez.
Enquanto se distanciava da Bastilha, Doroteya voou pelo céu ainda não plenamente convencida de que fazia a coisa certa. Porém, queria muito ver Theo. E Tommy também. O tempo ainda estava muito frio, ainda que não houvesse nevado no dia anterior e que o sol tinha decidido aparecer. Quando pousou em frente a casa, as penas da águia-Doro estava eriçadas de frio e ela tremia quando voltou à sua forma humana. Abriu a porta e entrou rapidamente, ansiando pelo calor da lareira.
Todos os homens da casa estavam sentados na sala e se levantaram quando ela entrou.
— Mamãe! — The se precipitou sobre Doroteya e a abraçou – A senhora está gelada!
— Está frio lá fora. — explicou a druidesa tremendo e sorrindo ao retribuir o abraço do filho – Venha, vamos para perto do fogo.
Nenhuma pergunta foi feita enquanto Doroteya se ajeitava perto da lareira, se embrulhando em um cobertor e colocando o filho no colo. Logo ela estava segurando uma xícara de chá bem quente e pode explicar para os preocupados irmãos Wood o que estava acontecendo. Tommy já tinha adiantado boa parte da história, então coube a druidesa esclarecer os últimos acontecimentos. Porém, preferiu fazer um resumo e omitir a crise de Lina daquela manhã.
— As balas que atingiram Lina eram de chumbo. Os resíduos entraram na corrente sanguínea dela e a deixaram bem mal. Mas o remédio está sendo administrado corretamente e ela logo ficará boa. — para confirmar o que dissera, Doroteya deu um sincero sorriso, mas os irmãos não pareciam muito aliviados.
— Quem está com ela no momento? — quis saber Tommy.
— Arshe. — respondeu – Ela está com o remédio para ser administrado em caso de urgência. Eu queria ter ficado, mas Arshe insistiu para que eu voltasse…
— Ainda não acredito que a Lina fez toda essa viagem com um monte de chumbo no corpo! — Fey tomava uma xícara de chá e era possível ver que suas mãos tremiam enquanto ele falava – Poderia ter acontecido algo muito pior a ela! Ela poderia ter despencado do grifo e ter morrido! — lágrimas surgiram nos olhos do homem, que as enxugou rapidamente.
— Eu devia ter convencido ela a aceitar a cura de Linda… — lamentou Mel, sem esconder as lágrimas – Melhor: eu deveria ter obrigado Lina a ser curada!
— Como se fosse possível obrigar a Lina a fazer qualquer coisa que ela não queria. — disse Tommy sobriamente – Vocês sabem muito bem que nossa irmãzinha é cabeça dura ao extremo. O que quer que vocês tivessem dito não fariam diferença…
— A tia Lina sempre foi assim? — perguntou Theo agarrado a mãe – Cabeça dura?
Apesar de ser uma pergunta séria, a fofice de Theo atacou mais uma vez e dissolveu o clima tenso na sala. Logo todos estavam sorrindo para ele, com os corações mais leve apenas por causa da presença da criança.
— Ela era bem pior, Theo. — disse Tommy sorrindo para o menino – Sua tia era tão cabeça dura que daria para usá-la como uma bigorna de ferreiro.
Todos riram, inclusive Theo, que agora estava imaginando Lina com uma bigorna no lugar da cabeça.
— Como ela conseguiu ficar no exército até hoje? — surpreendeu-se Doroteya – Se ela era tão intransigente assim? Sei que o exército exige disciplina e obediência.
— Graças àquele homem lindo e maravilhoso chamado Bolvar Fordragon! — revelou Fey com os olhos brilhando – Pena que era hétero! Que desperdício!
— O Grão-Lorde sabia lidar com nossa irmãzinha. — Mel parecia estar se recuperando do choro – E tirar o melhor dela. Talvez até melhor que o Tommy aqui.
— Verdade. — concordou Tommy – Ele teve a paciência necessária. — ele então suspirou – Pela Luz, espero que tudo isso passe logo! Não aguento ver minha irmã daquele jeito!
Doroteya pousou a xícara de chá no pires e colocou a mão no ombro de Tommy.
— Prometo que farei todo o possível para que ela melhore logo. — e se levantando anunciou – Acho que devo voltar para a Bastilha. Não vou ficar tranquila estando longe.
Instantaneamente todos os homens e o menino começaram a protestar.
— Você tá cansada, mãe! — disse Theo agarrando a mão dela – Precisa dormir um pouquinho!
— De nada vai adiantar sua presença lá se a Lina está medicada e dormindo. — reforçou Tommy – Coma algo e durma um pouco. Será o melhor para você e para Lina também.
— Tenho certeza que Arshe cuidará muito bem da Quenguinha! — garantiu Fey.
— Eu vou preparar algo para você comer, Dorozinha! — anunciou Mel saindo da sala em direção à cozinha – Por isso, fique quietinha aí!
Diante da preocupação de todos, Doroteya achou melhor não insistiu. Foi levada pela mão para o quarto por Theo, que observou a mãe colocar o pijama com uma expressão de cuidado que o deixava ainda mais parecido com o pai. Mel trouxe uma sopa para ela, que comeu sob o olhar do filho e então se deitou. Só então Theo saiu. Mas Doroteya não dormiu logo. A imagem de Lina confusa e perdida ainda estava em sua mente. Foi quando Tommy entrou no quarto, com um fardo de lenha. Eles se encararam.
— Espero não ter acordado você. — disse em tom de desculpa.
Doroteya fez que não com a cabeça.
— Eu dormi um pouco essa noite, acho a preocupação de vocês um exagero. — reclamou franzindo a testa.
— Diga isso para seu filho. — riu-se Tommy – Ele quem pediu para eu trazer mais lenha e verificar a lareira. Não quer que você passe frio.
Os olhos da mulher brilharam de amor e carinho.
— Meu filho é muito especial. — comentou se aconchegando nas cobertas.
— É sim.
Tommy então colocou a lenha ao lado da lareira e jogou algumas toras no fogo e o atiçou. Doroteya achou que ele sairia em seguida, mas ele sentou-se na cama, com uma expressão de preocupação na face.
— Está mesmo tudo bem, Doro? — perguntou – Eu vi sua cara quando você chegou. É a mesma cara de agonia que você fez quando disse que queria ir novamente pra Bastilha. Aconteceu algo, não foi?
Se havia uma coisa que Doroteya não sabia fazer era mentir. Por isso, apertou os lábios, ponderando se deveria contar. Porém, foi só encarar os olhos verdes de Tommy para saber que jamais o deixaria no escuro. Ele merecia saber.
— Sim, houve.
Então ela contou tudo que acontecera naquela manhã, omitindo porém, Varian da cena. Se soubesse das atitudes do rei, Tommy ficaria muito desconfiado. E Lina a mataria quando acordasse. Depois que ouviu todo o relato. Tommy ficou em silêncio um tempo. Depois, balançou a cabeça em afirmativa.
— Obrigado por me contar. — e inclinou-se para Doroteya, lhe aplicando um beijo nos cabelos.
O rosto da druidesa ficou em brasa e ela queria sumir de vergonha. Só que, ao mesmo tempo, estava muito feliz da demonstração de carinho de Tommy e supos que a alegria era pelo fato de ele não estar chateado por ela ter escondido os acontecimentos antes.
— Não conte aos seus irmãos. — ela se viu pedindo – Não será bom deixá-los ainda mais preocupados.
— Pode deixar, eu não contarei. Eles não tem estrutura emocional para saber do que aconteceu com a bonequinha deles mais cedo. — ele suspirou – É assim que eles ainda a veem, sabia? Como a bonequinha que eles vestiam quando era pequena. Nunca a verão como uma mulher adulta.
— É para isso que servem os irmãos mais velhos, não é? — riu-se Doroteya – Para não deixar as irmãzinhas crescerem.
— É, exatamente. — e a olhando, pediu – Agora, descanse. Quando você acordar, providenciarem um banho quente e relaxante para você encarar o desafio de lidar com minha irmã cabeça dura doente. E acho que irei com você até a Bastilha. Quero vê-la.
Doroteya assentiu.
— Tudo bem.
E antes de sair, Tommy alisou o cabelo dela mais uma vez e saiu. Doroteya teve muita dificuldade para dormir depois, já que seu coração estava acelerado e se recusava a se acalmar.
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A comida estava deliciosa, como sempre, mas Luxuriah estava nervosa demais para comer. Por isso, mexia os legumes com o garfo, tentando engolir algo de vez em quando. À sua frente, Kassyeh lhe lançava olhares preocupados, mas ainda não falara nada. Devia agradecer isso a Karen, que em vez de usar os talheres, preferia meter a mão na comida e depois chupar os dedinhos sujos de molho.
— Karen, não! — ralhava Kassyeh.
Dois anos tinham se passado da morte dos pais e, apesar de no coração de Luxuriah perdurar um vazio descomunal, ficava feliz em ver que Kass, Karen e Ash estavam bem. Kassyeh assumira o lugar da mãe e estava focada em cuidar de todas, enquanto o tempo se encarregara de levar embora a maioria da memória das duas menores, que já haviam se tornado apenas mais duas meninas élficas como outras. Porém, o tempo não levara embora as dores da primogênita. Às vezes, pensava Luxuriah, se fosse só a saudade, teria lidado melhor com isso. Mas não era. Apertou o garfo com força, tentando deter as lembranças. Não, não seria engolida por elas. Não naquele dia. Não quando encontraria com o Grão-Magister Rommath.
Vivithi não foi a única que ficou surpresa com a escolha dela. Quando chamou Kayliel para uma conversa e disse que queria um encontro com o irmão dele, o sacerdote ficou estupefato no primeiro momento. Com calma, Luxuriah lhe explicara o motivo de seu pedido, falando sobre seu inusitado tratamento de choque. Quando finalmente Kayliel se recuperou da surpresa, foi totalmente contra a ideia.
— Lux, eu acho que ele não é o melhor candidato para… — o rosto do sacerdote ficou rubro antes dele continuar – … Para lhe ajudar. Meu irmão pode ser um mago de fogo, mas é frio como o inverno de Nortúndria. Não quero que ele a magoe.
— No estado que eu estou, Kayliel, é impossível alguém me magoar ainda mais. — respondera com frieza.
Aquilo pusera um fim na conversa deles e Kayliel se comprometeu a interceder a seu favor. Luxuriah achou que demoraria um pouco, mas já no dia seguinte o amigo lhe procurara dizendo que seu irmão a convidava para um chá da tarde. Ela estranhou. Chá da tarde? Será que era a versão clássica do jantar com sexo depois? Deveria ser já que Rommath era bem velho. Bem, aquilo não importava. Ele aceitara. E ela iria. Só não esperava ficar tão nervosa por causa desse encontro.
— Lux? — chamou Ash de repente – Por que não está comendo? Tá tão bom!
A elfa deu um sorriso sincero à irmã e colocou um pouco de comida na boca. A última coisa que queria era preocupar qualquer uma delas.
— Está ótimo mesmo. — confirmou fazendo Ash ficar mais aliviada – Só estou cansada, Ash. Por isso estou comendo devagar.
— Ah!!! — disse a menina como se finalmente compreendesse – Você trabalha demais! Devia tirar férias!
— Concordo. — disse Kassyeh tentando limpar o rosto de Karen – Você passa tempo demais fora de casa. Karen fique quieta! Tem molho na sua testa! — mas a menina continuava tentando se livrar do guardanapo.
Luxuriah não pode deixar de sorrir com a cena, ao mesmo tempo que ficou com o coração apertado. A verdade que suas irmãs não sabiam era que a maior parte desse tempo fora de casa era tendo aqueles encontros desastrosos com elfos que apenas a faziam se sentir pior. Talvez devesse diminuir mais essas saídas, pensou. Além de não estarem ajudando, faziam suas irmãs sentirem sua falta e, claro, sentia a falta delas também. Pensaria nisso caso o encontro com Rommath não desse em nada.
— Vocês tem razão. — falou fazendo brotar sorriso nos rostos das irmãs – Assim que eu puder, vou diminuir minhas saídas.
— Quero sair! — gritou Karen tentando escapar da cadeirinha que a deixava na altura da mesa – Já comi!
— Não comeu tudo! — Kassyeh fez a menina voltar para o lugar – Vamos, comendo as verduras!
— Não!!! — protestou a menina.
— Coma. — ordenou Luxuriah – Ou nada de sorvete.
Fazendo biquinho, Karen voltou a comer e Kassyeh deu um sorriso agradecido à irmã. Depois que todas comeram o almoço e a sobremesa, a jovem aprendiz de magia levou as irmãs menores para escovarem os dentes e tirarem um cochilo, enquanto cabia a Luxuriah lavar a louça. Sua mente então voltou anos atrás, quando era uma adolescente e nem imaginava o inferno que sua vida se tornaria. Tivera uma quedinha pelo príncipe Kael’thas e quando contou isso a Dhomm, ele surtou. Foi a primeira briga de pai e filha, que terminou com o patrulheiro revelando o que o príncipe fizera com Samanthah. Imediatamente, o encanto que sentia por Kael’thas sumiu. Mas ele ainda era bonito e Luxuriah sempre acabava virando o pescoço para olhá-lo quando estava em Luaprata e o via. Porém, cada vez ele parecia menos bonito. Até que um dia, o príncipe aparecera com um mago sisudo e misterioso do lado. Ah, aquele parecia muito mais interessante e não havia feito nada com sua mãe. Por isso, passara a admirá-lo e a se sentir superior as meninas de sua idade. Afinal, só ela olhava para Rommath; todas as outras eram loucas pelo príncipe. Ela sentia que Rommath era só dela.
Uma bobagem de adolescente, pensou Luxuriah passando a bucha cheia de sabão pelo prato de porcelana. Mas tinha que admitir que o Grão-Magíster ainda a deixava com aquela sensação gelada no estômago. Isso a ajudaria de alguma forma? Esperava que sim.
Quando terminou com a louça, foi consertar suas armas e fazer mais flechas. Passou o resto da tarde se ocupando, até que chegou a hora de se arrumar e encarar um encontro com o Grão-Magíster. Àquela altura, estava tão nervosa que mal conseguiu apertar os botões de sua roupa. Para sua sorte, as meninas decidiram que queriam brincar na praça e Kassyeh as levou para um passeio. Conhecendo a energia de Karen, daria tempo de ela ir, fazer o que tinha que ser feito e voltar para o jantar. Esperava não estar transtornada demais como das outras vezes, ou chamaria a atenção das irmãs.
Chegar na casa de Rommath não foi problema, pois Luxuriah já fora até lá várias vezes em busca de Kayliel. Só que agora, entraria e faria coisas que jamais imaginara com o irmão do amigo. Deixou Debonzi amarrado à porta e tocou a campainha. Momentos depois, Rommath abria a porta.
Luxuriah precisou segurar o fôlego diante da visão do Grão-Magíster. Rommath não vestia suas pomposas vestes de arquimago, mas calças e camisas negras, com bordados prateados, que deixavam seu rosto e braços de fora. Pela Nascente do Sol, ele era muito mais lindo que Luxuriah imaginara. Infinitamente mais lindo. O rosto dele era de uma harmonia e beleza tão grande que fazia o príncipe Kael’thas parecer um elfo comum e sem graça. Seria por isso que ele escondia parte do rosto? Para as elfas não desfalecerem emocionadas só ao ver aquele rosto perfeito?
— Boa tarde, milady Luxuriah. — disse ele em tom pomposo – Seja bem-vinda.
A fascinação da jovem elfa foi substituída por uma leve irritação, que logo se traduziu em seu rosto.
— Não gosto que me chamem de ‘milady’. — foi dizendo, sem cerimônia, em vez de cumprimentá-lo.
Em vez de ficar chateado, Rommath deu uma risada suave. Mesmo irritada, Luxuriah tinha que admitir que foi a risada mais charmosa que já ouvira. Depois da risada do seu pai, claro.
— Minhas sinceras desculpas, Luxuriah. — pediu com sinceridade – Kayliel me avisou de seu desapego com seu título, mas preferi conferir por mim mesmo. — e dando um passo para trás, convidou com suavidade – Por favor, entre.
Em outra situação, com outra pessoa, Luxuriah simplesmente iria embora na primeira irritação que tinha. Mas o convite dele era tentador demais. Na verdade, ele era tentador demais. Se não conseguisse gostar de nada com aquele elfo, não conseguiria com mais ninguém.
— Obrigada. — seu tom não era mais irritado, mas ainda continha uma certa frieza quando ela falou. Entrou na sala e ouviu a porta sendo fechada às suas costas.
Seu estômago se apertou ao ouvir o clique da porta, exatamente como das outras vezes. Sentiu um pânico se aproximar e lutou contra ele. Sua respiração se acelerou e suspeitou que algo transpareceu em seu rosto, pois logo Rommath estava ao seu lado e ofereceu o braço com uma gentileza tão grande que a pegou desprevenida. Vacilou um pouco, mas aceitou o braço oferecido. Pelo menos ele não pulara em cima dela com as mãos nos seus seios, como acontecera certa vez. Nem pegara em seu cabelo e tentara beijar seu pescoço. Não. Ele lhe oferecera o braço. Aquilo a deixou mais segura. Conseguiu controlar suas emoções e seguiu o caminho que o mago lhe indicava até o quintal.
O local ainda não era tão deslumbrante quanto oito anos depois, mas, ainda assim, fez a elfa ficar fascinada. Rommath a levou até o mesmo local onde a pediria em casamento no futuro e sentaram-se apreciando a vista por um momento. Depois, o elfo começou a servir ele mesmo chá e doces para sua convidada.
— Fico muito feliz com sua visita, Luxuriah. — disse colocando chá em uma xícara de porcelana ricamente decorada e entregando à elfa – Faz tempo que não recebo alguém tão interessante em minha casa.
— Interessante? — se pegou perguntando. Ela, interessante?
— Sim, interessante. — repetiu agora servindo a ele mesmo – Você vem de uma família de magos, mas é patrulheira. É jovem, mas já ouço seu nome sendo dito com respeito até dentro da Torre Solfúria. Você parece viver tão intensamente quanto um ser de vida curta.
O rosto de Luxuriah ficou totalmente vermelho. Além de não estar acostumada a receber elogios, não estava acostumada a receber elogios de alguém como o Grão-Magíster. Estava começando a achar que talvez tivesse cometido um erro ao ir até ali. Seria sensato se aproximar alguém que a deixava daquele jeito, parecendo uma adolescente? Ele continuava a olhá-la e ela percebeu que tinha que dar alguma resposta. Qualquer uma.
— Não é um elogio ser comparada a um ser de vida curta. — disse tentando parecer mais calma do que realmente estava – Me faz pensar em…. — ela franziu o cenho – Humanos.
Para sua surpresa, ele fez uma careta.
— Perdoe-me Luxuriah, jamais pensaria em compará-la a tal criatura! Humanos são… — ele nada disse, apenas sacudiu a cabeça, indignado.
— Nojentos. — ela se pegou dizendo sentindo um arrepio.
— Desleais. Desonestos. Deselegantes. — Rommath deu um pequeno sorriso – Poderia passar a tarde toda enumerando o quão ruim é aquela espécie, mas porque perder nosso valioso tempo com eles?
— Verdade. — concordou – Mas acho que ainda existe algo pior que aqueles humanos.
— Sério? — surpreendeu-se o mago – O quê?
— Elfos que defendem humanos.
O rancor da jovem ficou evidente em sua frase e Rommath sabia exatamente de quem ela estava falando.
— Vejo que não concorda com a presença de seu tio em Dalaran… — comentou com um pouco de cautela.
— E porque concordaria?! É uma cidade cheia de humanos! — Luxuriah se exaltou um pouco ao falar a frase, mas não se importou nem um pouco. Rommath, contudo, não pareceu surpreso ou assustado com sua raiva.
— Os orcs nos atacaram, mataram muitos dos nossos e espalharam caos em nossas terras. E hoje somos forçados pela desesperança a nos unir com essa e outras raças bestiais e grotescas. — seus olhos brilharam se raiva enquanto ele falava – Porém, meu rancor pelos humanos é muito maior. Aquela cidade é uma maldição para nós.
Pela primeira vez desde que chegara, Luxuriah sorriu.
— Você é a primeira pessoa que não tenta defender meu tio quando eu falo isso. Obrigada. — agradeceu sinceramente.
— Por que defenderia? Se eu estivesse na posição dele, depois de tudo que aconteceu a sua família, eu teria posto aquela cidade abaixo!
A menção do acontecido fez o sorriso de Luxuriah morrer e a raiva e o desespero começarem a voltar novamente. Rommath percebeu e mudou rapidamente de assunto.
— Soube que você foi uma das patrulheiras responsáveis pelas Terras Fantasmas. — disse – Por que saiu de lá?
Nos minutos seguintes, Luxuriah deu um relato detalhado do trabalho dos elfos sangrentos nas Terras Fantasmas. Falou da frustração que era trabalhar ali, pois sempre que matava um morto-vivo, ele voltava. Era um trabalho entediante e que a deixara cada dia mais insatisfeita. Quando reclamara com a patrulheira responsável, mas ela simplesmente dissera que alguém tinha que fazer o trabalho. Aquilo fora a gota d’água.
— Eu disse que outro novato poderia fazer. — contou a elfa – E me desliguei dos patrulheiros e entrei na guilda. É muito melhor correr o mundo que ficar presa àquele lugar.
O que Luxuriah não falou foi que relacionava seu trabalho nas Terras Fantasmas ao período mais obscuro de sua vida. Quando descobrira que estava… Não, não devia pensar naquilo. Procurou se concentrar em Rommath.
— Você fez bem. — disse ele – Com seu talento, ficar aqui seria uma perda de tempo. Quando pretende voltar às missões pelo mundo?
— Não sei. As minhas irmãs querem que eu fique mais um pouco em casa, então estou considerando a ideia de dar um tempo.
Falar com Rommath era mais fácil do que Luxuriah imaginava. Ele a fazia se sentir a vontade e era um excelente ouvinte, sempre prestando atenção às suas palavras e fazendo comentários certos nos momentos certos. Aethas, Dalaran e os humanos foram deixados de lado. Pelas horas seguintes, eles passearam por outros assuntos, alguns mais amenos, outros nem tanto, e cada vez mais a elfa se sentia bem de estar ali. O deslumbre inicial com a aparência dele cedera e ela já não estava com o estômago aos giros. A única coisa que achou estranha fora que, em nenhum momento, ele fizera qualquer avanço sexual. Nenhum. Tirando o momento em que oferecera o braço para ela, não se tocaram. Luxuriah achava estranho, mas, ao mesmo tempo, estava aliviada. Adiar o sexo não era de todo mal.
Todavia, quando percebeu, já era noite e tinha que voltar para casa. Olhou preocupada para a lua que brilhava e depois encarou Rommath. Será que ele imaginava que ela ficaria mais tempo? Que passaria a noite, talvez? Por isso não fizera nada? O Grão-Magíster imitou seu movimento e também olhou para lua antes de voltar a encará-la.
— Está ficando tarde. — comentou – Suas irmãs devem estar lhe esperando.
Luxuriah fez que sim com a cabeça.
— Preciso ir. — disse se levantando – Nem percebi que o tempo passou tão rápido… — comentou imaginando se agora ele tentaria impedi-la ou algo assim.
— O tempo passou rápido mesmo. — ele se levantou também – Deixe-me acompanhá-la até a porta. — e ofereceu o braço novamente.
Por um momento Luxuriah se perguntou se era agora que ele e começaria a tocá-la. Se ele começaria a dizer palavras melosas e alisar seu cabelo, pedindo para ela ficar. Chegou a pensar que ele poderia imprensá-la na parede e apalpar seu corpo de repente. Todos esses pensamentos a deixaram tensa, e a jovem andava com seu coração batendo cada vez mais rápido, a sua adrenalina subindo até que, instintivamente, começou a se preparar para qualquer avanço dele.
— Não se preocupe. — a voz dele a fez se sobressaltar – Não farei nada que você não me peça.
Aquela informação a deixou ainda mais confusa e desnorteada que tudo. Ele percebera? Percebera seu medo e receio? Por isso não dera nenhum passo? Teria ela estragado tudo? Quando chegaram a porta, Rommath segurou delicadamente sua mão e a encarou com intensidade.
“É agora.”, pensou Luxuriah. Porém, ele apenas indagou:
— Gostaria de vir amanhã novamente? Se sentir-se a vontade, é claro.
— Sim. — respondeu ela apressadamente, como se tivesse com medo de mudar de ideia – Mesmo horário?
— Mesmo horário.
Ele abriu a porta e se despediram com um aceno.
Naquela noite, Luxuriah não dormiu direito. Passou a noite revivendo o encontro e se perguntando por que Rommath não tentara nada. Será que, na verdade, ele não tinha nenhum interesse nela? Pensar nisso a deixou triste e confusa. Triste porque não conseguira chamar a atenção do único elfo por quem tinha algum interesse e confusa porque sempre ouvia das outras elfas que os elfos não recusavam sexo, a não ser que fossem homossexual. Seria Rommath homossexual? Se era, porque ele aceitara recebê-la? Será que Kayliel não fora sincero com o irmão? Será que um dos poucos amigos que tinha havia enganado-a? Todos esses pensamentos ferviam na cabeça até que ela decidira que tinha que discutir o assunto com Vivithi pela manhã. E foi a certeza que a elfa teria uma resposta que a fez dormir.
Para sua alegria, Vivithi não a decepcionou.
— Kayliel não lhe traiu. E muito menos Rommath é gay. — garantiu a patrulheira enquanto elas faziam compras para Kassyeh no mercado. A jovem maga não fora porque Karen grudara um chiclete no cabelo de Ash e ela agora estava fazendo uma poção para tirá-lo sem cortar o cabelo da irmã – Ele é algo que quase já não existe mais no nosso povo.
— O que? — perguntou Luxuriah interessada.
— Um elfo de verdade. Como meu tio.
A mais jovem franziu a testa.
— Como assim?
— Um elfo que respeita os limites dos outros. Um elfo que sabe o que fazer e o momento de fazê-lo. Um elfo que não esteja vivendo como se o Flagelo ainda estivesse em nossas portas. — ela suspirou – Os elfos mais jovens parecem que perderam algumas tradições de nosso povo. Como o cortejo. Na minha opinião, é o mau exemplo dos orcs. — e colocou tomates na cesta.
Luxuriah ainda não tinha entendido.
— Cortejo, Lux. — disse Vivithi sorrindo – Rommath está te cortejando. Ele não vai simplesmente fazer sexo com você como a maioria desses jovens fariam. Não. Ele vai te conhecer, deixar você a vontade, criar uma intimidade, antes de tentar qualquer coisa.
— Eu não quero ter intimidade com ninguém! — esbravejou a elfa atraindo alguns olhares curiosos de outras pessoas na feira.
Calmamente, Vivithi pegou quatro maçãs e colocou na cesta de Luxuriah.
— Talvez seja o que você esteja precisando. — falou com suavidade.
Luxuriah odiava admitir, mas talvez Vivithi tivesse razão. Até então suas outras investidas não tinham dado nenhum resultado. Seria aquele o caminho? Intimidade?
— Não estou dizendo que você precisa se apaixonar e casar com ele. — a patrulheira continuou escolhendo as frutas e colocando na cesta – Apenas aproveite. Provavelmente nenhum outro elfo fará isso com você.
— Você gosta de… Cortejo? — perguntou Luxuriah curiosa.
— Não. — respondeu incisiva. E diante do olhar surpreso da amiga, continuou – Mas eu sou eu. Você é você. Suas necessidades são diferentes da minha. — e colocando a mão no ombro dela, completou – Não pense muito nisso. Deixe-se levar. Que mal vai fazer?
Nenhum, decidiu Luxuriah. E, além do mais, gostara da companhia de Rommath. Ele era um elfo fascinante e enigmático. Tinha que admitir que estava curiosa de saber como ele tentaria se aproximar dela. Como… a cortejaria. E foi assim que decidiu ir naquele dia visitá-lo. E no dia seguinte. E no outro. E no outro.
Até que aconteceu o que ela menos esperava.
*******************
Saba amava a neve. Tudo bem que ela fazia seu nariz escorrer e tinha que limpá-lo apressadamente antes da meleca congelar. Tudo bem que tinha que pôr um montão de roupa. Tudo bem que escorregava com frequência e caia, despertando risadas das amigas. Tudo estava bem porque brincar na neve era muito divertido.
Acompanhada de Karen e Salandria, fez esqui bunda até que ficaram com o traseiro doendo e os dedos dos pés e da mão ficarem dormentes. Snetto tentou várias vezes convencê-las a parar a brincadeira, mas elas não lhe deram ouvidos e só saíram de lá quando Ash praticamente as arrastou para dentro da Torre, para tomar chocolate quente ao pé da lareira.
— Vou dizer para Lady Liadrin que vocês não ouviram o Snetto! — ameaçou Ash enquanto cobria as meninas com um cobertor.
— Mas o Snetto tava se divertindo também, não é, Snetto? — perguntou Karen ignorando a bronca da irmã.
— Bem… Um pouco… — ele começou a responder, mas o olhar duro de Ash lhe revelou que aquela não era a resposta certa – Mas vocês devia ter entrado logo! Ou vão adoecer!
— Vamos nada! — disse Salandria – Somos de ferro! — e fez um muque.
As meninas riram, mas Ash não.
— De ferro nada. — ralhou a jovem caçadora – Se não cuidar, vão adoecer. E se Saba voltar doente, nunca mais a mãe dela deixa ela vir aqui.
As meninas começaram a protestar, dizendo que Saba não poderia deixar de ir e Ash ficou satisfeita que sua bronca pareceu deixar elas chateadas pela primeira vez. Mas isso não demorou muito e logo as meninas estavam rindo de novo, se cutucando e pedindo mais chocolate quente, no que foram prontamente atendidas pelas servas. Lady Liadrin chegou pouco tempo depois, marcou treino com Karen para o dia seguinte e saiu de lá levando a filha e o namorado. Em seguida, Lor’themar apareceu e Ash passou a prestar mais atenção nele do que nas meninas. Quando o cansaço começou a ser sentido por Karen e Saba, elas deixaram as canecas e o casal de lado e subiram para tirar um cochilo. Se aconchegaram uma na outra, com Galinha no meio, e logo adormeceram.
Foi quando Saba teve um sonho.
No sonho, ela não era ela. Não sabia bem o que era, mas não tinha corpo. Sentia o vento, sentia um calor ameno, mas não via mãos, nem pés, nem nada que parecesse algo físico. Sem forma, Saba pairava sobre o que ela reconheceu ser Luaprata. Pensou em Karen e imediatamente estava perto da amiga. Karen estava sentada no chão em frente a Torre Solfúria, usando um vestido branco e sua cabeça estava baixa. Parecia que ela chorava.
— Karen? — chamou Saba com a mente, pois ela não tinha corpo.
Para sua surpresa, Karen levantou a cabeça e a olhou. Seu rosto estava lavado de lágrimas e tinha uma expressão de profundo desespero. A pequena elfa levantou as mãos, como se pedisse ajuda à Saba-sem-corpo, que percebeu que a amiga usava luvas brancas como o vestido e estava coberta de joias. Só que as luvas estavam machadas de sangue.
Saba acordou assustada. Olhou rapidamente para os lados e viu Karen dormindo tranquilamente ainda agarrada a ela. Com um aperto no coração, Saba esticou a mão, querendo acordar a amiga, mas se deteve. Não, não ia acordar Karen para falar de um sonho tão ruim. Mas sua mestra dissera que devia contar tudo a Karen. Só que não queria acordá-la. Decidiu que ia deixar Karen acordar sozinha e então, contaria o sonho. Só torcia para que a amiga não ficasse assustada.
Como não queria ficar na cama se remexendo e correndo o risco de acordar Karen, decidiu sair do quarto. Se desvincilhou com cuidado da pequena elfa, que ressonou alto, mas não acordou. Galinha também continuava a dormir. Saba saiu para o corredor, querendo encontrar Kassyeh e lhe dar um apertado abraço. A maga sempre fazia a menina se sentir melhor. Só que não sabia andar direito naquela torre enorme e acabou se perdendo. Andou e andou a esmo, até que ouviu uma bonita melodia ecoando pelos corredores. Parecia alguém tocando violão. Saba teve um impulso irresistível de seguir aquele som.
O som a levou até um local afastado que nunca tinha visto antes. A sala estava vazia, a não ser por um elfo sentado em um banco. Vestido com roupas simples, como as de um caçador, ele tocava um violão com delicadeza, de olhos fechados, concentrado. Saba não disse nada, apenas ficou observando-o. Sentia algo diferente nele, algo que não soube explicar. Em determinado momento, o elfo abriu os olhos, a olhou e sorriu.
— Olá, Saba. — ele disse com uma voz melodiosa.
— Você me conhece? — perguntou a menina, surpresa.
— Claro que sim. — ele respondeu, ainda dedilhando o violão – Você é Saba, amiga da Karenzita.
A menina inclinou a cabeça, curiosa.
— Você é amigo do Ted? — perguntou.
O elfo lhe deu um sorriso.
— Por que a pergunta?
— Porque só ele chama a Karen assim. — revelou.
Por um momento ele continuou tocando, sem falar mais nada, até que seu sorriso aumentou.
— Eu sussurrei esse nome a ele. — disse misteriosamente – Afinal, haviam barreiras a serem quebradas.
Saba não viu o menor sentido no que ele falara. Como assim sussurrou pra Tewdric? Duvidava que qualquer macho tentasse sussurrar algo para o orc sem perder a cabeça. Ou ser congelado. Kassyeh não parecia, mas era bem ciumenta. O elfo deve ter notado sua confusão, porque disse em seguida:
— Sua mestra deve ter lhe dito algo sobre literalidade, não? — perguntou em tom divertido
Ainda mais confusa, ela deu de ombros.
— Se eu soubesse o que é isso… — resmungou.
A risada dele ecoou na sala, e a menina sentiu algo bom vindo do misterioso elfo. Relaxou mais. Algo lhe dizia que ele não era ruim. E como seria, se conseguia tirar aquela melodia linda do violão? Saba se aproximou mais do elfo. Ele continuou tocando e agora a olhava com uma intensidade que parecia ler sua alma. Enquanto isso, a música continuava embalando o momento e Saba sentia-se como se estivesse mergulhada em uma bolha cálida de paz e tranquilidade. Jamais se sentira assim antes, tão leve como se pudesse voar e sabia que isso era devido a música.
— Sente aqui perto de mim. — pediu o elfo apontando o banco com a cabeça.
Normalmente Saba não atenderia um pedido desse de um estranho, mas o elfo não parecia exatamente estranho. A menina tinha uma leve sensação de conhecê-lo de algum lugar, mas não conseguia lembrar de onde seria.
— Eu te conheço de algum lugar. — revelou a menina se sentando ao lado dele – Seu rosto é familiar para mim.
— Você me conhece sim, de uma certa maneira. — ele disse misteriosamente.
Devia tê-lo visto pela torre, pensou a menina. Depois, perguntaria a Kassyeh qual elfo por ali que tocava violão. Estava gostando da melodia da canção, principalmente porque transmitia um sentimentalismo tão profundo que era como se o elfo desconhecido tocasse o violão com a alma e não com as mãos.
— Você toca muito bem. — elogiou a menina olhando para o violão e admirando a destreza com que os dedos dele dedilhavam as cordas – Com quem você aprendeu a tocar?
— Com minha mãe. — ele respondeu encarando o violão – Ela tocava inúmeros instrumentos, dos mais complexos como o piano até a um simples violão.
— Eu tentei aprender a tocar tambor. — revelou a menina fazendo gesto como se batesse em um tambor à sua frente – Mas o professor disse que eu não tinha ritmo. Foi bem triste. — ela suspirou.
O elfo lhe deu um sorriso consolador.
— Todos nós temos o ritmo dentro de nós. — disse – Só precisamos encontrá-lo. Nem sempre ele está na música. Às vezes aparece em outros aspectos da vida.
— Não entendi. — disse a menina confusa.
— Vai entender um dia. — garantiu com convicção – E sei que você ajudará a Karenzita a encontrar o dela. — a música continuava fascinando Saba, mas ela prestava atenção em cada palavra do elfo – É uma de suas missões.
Era estranho que ele falasse daquele jeito, como se fosse uma espécie de mestre pra ela. Em outras ocasiões, Saba diria que já tinha uma mestra e que ela era muito boa e não precisava ouvir coisas assim de quem ela não conhecia. Mas a situação era tão estranha, tão diferente… Ela sentiu que ele podia lhe dar esses conselhos. Havia algo nele, e a menina não sabia o que era, que lhe dava uma espécie de autoridade para falar aquilas coisas. E Saba não teve raiva dele. Na verdade, queria conversar o máximo possível com misterioso elfo.
— De onde você conhece a Karen? — perguntou a menina – Você conhece as irmãs delas também?
— As conheço desde seus nascimentos. — revelou com um sorriso doce.
— Nossa, que legal! Eu conheço a Karen há pouco tempo, mas é como se conhecesse desde sempre!
— Não é fantástico quando encontramos uma pessoa assim? — perguntou o elfo com um olhar sonhador – Que nos faz pensar que a vida é muito mais do que vemos?
— É sim! Estou muito feliz de ter conhecido a Karen!
O elfo então a encarou com uma intensidade que deixou a menina desnorteada. Havia carinho, respeito e até mesmo expectativa no olhar que ele lhe lançou. Era como se ele soubesse mais sobre ela que ela própria.
— Você é uma menina muito especial, Saba. — disse carinhosamente – Cuide bem da Karenzita. Ela vai precisar de você. E diga a ela o quanto eu a amo.
Saba inclinou a cabeça e o olhou, confusa.
— E porque você mesmo não fala? — perguntou – A Karen mora aqui na torre, sabia?
Não houve tempo para o elfo responder, pois uma voz começou a ecoar pelos corredores, chamando seu nome com urgência.
— Saba! Saba! Cadê você?!
Era Karen. A pequena orquisa olhou para frente, por onde a amiga agora entrava com Galinha no colo. Virou-se para ao lado, para dizer ao elfo que agora ele podia dar o recado pessoalmente, mas ele sumira. Junto com o som do violão. A menina olhou fixamente para o banco vazio, onde ele estava momentos atrás, sem entender. Depois, olhou para trás. Para onde ele teria ido?
— Saba! — chamou novamente Karen – Por que saiu do quarto? — questionou um pouco chateada – Te procurei tanto!
Saba a encarou, parecendo confusa e perdida.
— Tinha um elfo aqui. — disse apontando para o lugar.
— Hã?
— Um elfo bonitão aqui, tocando violão. — falou como se tentasse convencer a si própria – Você deve ter ouvido. O som tava bem alto.
— Não, não ouvi nada. — estranhou a outra.
— Ele estava bem aqui! — Saba bateu com a mão no lugar onde ele estivera sentado no banco – Você viu, não viu? Quando entrou na sala deve ter visto ele.
— Não… — a expressão de Karen começou a ficar preocupada – Será que você não sonhou? Tipo, veio sonâmbula até aqui?
— Não, não, tenho certeza que não! — Saba estava ficando exasperada – Ele estava aqui, falou um monte de coisa de você, do Ted e até de mim! — e lançou um olhar de súplica para a amiga antes de perguntar – Você não acredita em mim?!
— Claro que acredito! — apressou-se Karen em dizer – Só acho… Estranho…
As meninas ficaram em silêncio por um momento, cada uma pensando no que a outra dissera. Até que Karen soltou uma exclamação, como se compreendesse finalmente.
— Será que não foi uma visão? — perguntou, agitada.
— Uma visão? — repetiu Saba.
— Isso! Uma visão! — ela estava feliz de ter achado a causa da preocupação da amiga – Você tá estudando pra ser xamã! Você vê coisas, não é? Deve ter sido uma visão!
Saba não parecia muito convencida. Tinha sido nítido demais para ser uma simples visão. Só que, apesar de estar já há alguns meses engajada nos estudos, Saba tinha consciência que não tinha estudado nem um por cento do que deveria saber. Tudo que sabia era que suas visões vinham em sonhos e não quando ela estava acordada. Será que era algum tipo de evolução ou algo assim? Havia essa possibilidade.
— Deve ter sido… — murmurou a menina se sentindo mais calma – Acho que tive uma visão. Se bem que foi visão e audição, porque tinha o violão e a música…. Mas deve ter sido isso mesmo. — ela sorriu para a amiga.
Karen retribuiu o sorriso, também aliviada. Fez um gesto com a mão, chamando Saba para acompanhá-la e a pequena orquisa se levantou do banco, segurou a mão de Karen e acompanhou-a em direção à porta.
— Venha, vamos comer alguma coisa! — Karen a puxou com suavidade para fora da sala – To morrendo de fome! Kassyeh deve ter feito algum lanche pra nós!
Saba ainda deu um último olhar para o banco antes de seguir em frente.
As duas então seguiram pelo corredor e depois começaram a descer as escadas em direção à cozinha. No meio do caminho, no entanto, Karen teve uma ideia que a fez parar no meio do caminho. Saba parou também.
— Vamos pregar uma peça na Ash? — perguntou a futura rainha ansiosa – O quarto dela é nesse andar!
Os olhos de Saba brilharam. Pregar uma peça era a forma perfeita de tirar o elfo misterioso de sua mente.
— Vamos! — concordou rapidamente.
Reprimindo as risadinhas, elas entraram no corredor que levava ao quarto de Ash, andando nas pontas dos pés para evitar chamarem a atenção. Karen olhou pelo buraco da fechadura, para ver se Ash estava lá, mas não conseguiu ver. Decidiu abrir a porta. Se a irmã estivesse no quarto, inventaria uma desculpa e tentaria fazer outra coisa depois. Se não estivesse, seria só alegria. Testou a maçaneta e o quarto se abriu. As duas olharam para dentro e constataram que não havia ninguém lá.
— Ótimo! — exclamou Karen entrando e sendo seguida de perto por Saba.
Galinha piou quando Karen o colocou no chão e passou a correr atrás da dona, que mexia nas coisas da irmã, pensando no que poderia fazer para irritar Ash. Saba olhou ao redor, achando o quarto de Ash menor que o de Karen, até que deu de cara com uma pintura na parede. Seu coração disparou na mesma hora.
— É ele! — exclamou, correndo até a pintura – É ele!
— Shh!! — pediu Karen levando o dedo em riste à boca – Podem nos ouvir!
— É ele. — sussurrou Saba apontando o quadro – O elfo que vi na sala tocando violão.
Karen se aproximou e quando viu para quem Saba apontava, ficou pálida.
— Não é possível… — murmurou olhando do quadro para a amiga – Não pode ser ele…
— Por que não? — quis saber a orquisa.
— Porque é meu pai, e ele já morreu.
A surpresa de Saba foi muito maior que a sentida por Karen. Ela tornou a olhar para a pintura, para ter certeza. Mas algo dentro do seu coração não precisa de confirmação. Sim, era realmente ele. Vira o pai de Karen. Agora, seus olhos percorreram o resto da pintura, onde aparecia outras pessoas. Eram Lux, Kass e Ash, bem mais jovens. E tinha um bebê na foto. Devia ser Karen. Por isso achara que já o conhecia, pois suas filhas mais velhas pareciam com ele. E por isso ele sabia seu nome e também o apelido de Karen. Ele era um espírito. E falara com ela.
Sua mestra lhe dissera que apenas xamãs muito poderosos falavam com os espíritos dos mortos e que, para isso, era necessária muita preparação, as ervas certas e um ritual completo. Então, como conseguira ver o pai de Karen sem querer? E como pudera falar com ele e confundi-lo com uma pessoa viva?
E como diabos ele tinha um violão se era um espírito?!
— Saba? — chamou timidamente Karen.
Toda a expressão travessa tinha sumido do rosto da pequena elfa, que agora encarava a amiga com os olhos muito arregalados, num misto de surpresa e incredulidade. Saba não a culpou. Elfos não tinham xamãs e não podiam se comunicar com seus ancestrais.
— Eu o vi realmente, Karen. — disse com mais convicção – Tenho certeza. Não sei porque, já que não fiz nenhum ritual nem nada, mas eu vi o espírito de seu pai.
Karen ficou em silêncio por um momento. Olhou para a pintura mais uma vez e apertou os lábios. Saba percebeu que a amiga era bem parecida com a mãe.
— O que ele disse? — perguntou a menina num fio de voz – Meu pai… O que ele disse?
— Ele me conhecia, chamou meu nome. Te chamou de Karenzita. Disse que foi ele quem sussurrou esse nome para o Ted. Ah! Agora entendi o que ele quis dizer com isso! — a menina colocou as mãos na cintura e balançou a cabeça afirmativamente, orgulhosa de si mesma.
— Então… — lágrimas começaram a brotar nos olhos de Karen enquanto ela falava – Ele falou de mim?
Saba sorriu para a amiga.
— Disse que te amava muito. E pediu pra eu cuidar de você. — Saba revirou os olhos – Como se alguém precisasse me pedir isso!
Sua atitude arrancou um sorriso de Karen, que enxugou as lágrimas que agora caiam de seus olhos. Depois, a menina olhou em volta, como se procurasse algo.
— Ele tá aqui agora? — quis saber, um pouco nervosa.
— Acho que não funciona assim, Karen. — ponderou Saba – Eu, tipo, não tava esperando e de repente, bum, ouvi o violão e segui o som. E ele estava lá.
— Meu pai tocava violão muito bem. — revelou – A Kass disse que ele tocava todo dia, sempre que tinha uma oportunidade. — e dando uma pausa, perguntou – Minha mãe não estava lá, estava?
— Não, só ele. — Saba então pegou a mão da amiga e pediu, com tristeza – Desculpe…
— Pelo que? — se surpreendeu Karen.
— Por eu poder ver seu pai e você não… — ela olhou para o chão envergonhada – Você deve sentir muita falta dele.
Karen pôs a outra mão em cima da de Saba e a apertou. A pequena orquisa levantou a cabeça e viu que a amiga lhe sorria.
— Não precisa se desculpar, Saba. Você nasceu com esse dom, eu não. Fico feliz de ter uma amiga que possa ver espíritos. Acho isso muito legal! E sobre sentir falta do meu pai… — a menina suspirou e ficou um pouco envergonhada – É difícil sentir falta de quem não se lembra… O que tenho mais dentro daqui – e levou a mão ao coração – é vontade de conhecê-los. O papai e a mamãe também. Mas a Luz não quis assim.
— Não é justo! — exclamou Saba, indignada.
— Não, não é. — concordou Karen – Mas você o viu e isso me deixa muito feliz! — os olhos da menina brilhavam, mas não eram mais de lágrimas, era de alegria – Se você ver ele de novo, pode dizer que, mesmo sem lembrar dele e da mamãe, eu amo os dois?
— Tenho a impressão que ele sabe. — falou Saba sabiamente – Mas vou falar se encontrar ele de novo.
Ainda de mãos dadas, elas olharam para o quadro mais uma vez. O admiraram por um tempo até que Saba puxou Karen suavemente em direção à porta. A brincadeira fora esquecida e as duas saíram do quarto de Ash calmamente, cada uma perdida em seus pensamentos. Galinha as seguiu sem soltar um pio, como se estivesse também imerso em pensamentos.
— Sabe uma coisa que achei estranha? — perguntou Saba de repente, antes de chegarem à sala.
— O que? — quis saber Karen.
— Seu pai parecia com o Ted. Não na aparência. — apressou-se a orquisa em dizer – Mas tinha algo… Não sei dizer o que. Era parecido.
— Então meu pai era muito, muito, muito especial!! — exclamou a menina feliz.
E como se tivesse sido atraído pelas palavras das meninas, o orc surgiu no topo da escada e, quando as viu, soltou uma risada alta. As meninas o olharam.
— Olha só! Duas meninas na escada! Vou pegar!
As meninas gritaram e começaram a descer a escada apressadamente. Galinha piou alto e pulou da escada para o chão com agilidade. As meninas não tiveram a mesma destreza e, assim que colocaram os pés na sala, foram agarradas por trás pelo guerreiro, que as suspendeu nos braços e as levou presas em um enorme abraço. Elas riam alto e soltavam gritinhos, de alegria e empolgação. O falcoztruz branco começou a rodear Tewdric e piar alto, acompanhando as meninas nas risadas. Karen estava feliz. Se seu pai era parecido com Tewdric, então fora o melhor pai do mundo. Tal como Tewdric era para ela.
A visão de Saba do sonho já havia desaparecido completamente da memória da pequena orquisa. A presença de Dhomm e sua conversa com Karen varrera a necessidade que sentira de contar para a amiga o que sonhara. Só lembraria daquele sonho meses depois, quando a cena que vira em seus sonhos se repetira na sua frente.
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Bolvar estava tendo um dia bom. O clima estava agradável, a Bastilha estava tranquila e sua filha amada estava de volta para as férias depois da primeira temporada em Dalaran. Era difícil ficar longe de Arshe depois de tê-la criado sozinho, mas sabia que aquilo era o melhor para ela. Restava agora aproveitar cada momento que teriam juntos antes de ela voltar aos seus estudos.
Calmamente, ele desceu as escadas da Bastilha até onde estava acontecendo o alistamento dos novos membros do exército de Ventobravo. Haviam tão poucos jovens que isso o deixou entristecido. Será que teriam menos aspirantes que no ano passado? Talvez, pensou se dirigindo até os recrutadores, a maioria já tivesse se alistado pela manhã, como aquela menina que encontrara mais cedo. Sorriu ao lembrar dela. Àquela hora, já devia ter passado pela triagem e sido designada para algum regimento. Ficou curioso em saber para onde ela fora, por isso, ao chegar na mesa do recrutador, pegou a papelada para verificar tanto a quantidade de novos inscritos quanto para onde fora a moça do urso.
— Grão-Lorde. — o sargento recrutador se levantou e bateu continência para ele.
— Sargento. — disse acenando com a cabeça – Essa é a lista dos inscritos? — perguntou pegando os papéis.
— Sim senhor. — respondeu o homem – Todos eles.
Não precisou muito tempo para que Bolvar percebesse que algo estava errado. Não havia nenhum nome feminino na lista. Impossível, pensou. A menina que vira parecia bem decidida e tinha certeza que ela fora até a mesa do recrutador. Será que tinha desistido? Era provável. Sem entender o porquê, aquilo deixou Bolvar um pouco triste.
— Algum problema, Grão-Lorde? — perguntou o recrutador diante da expressão de Bolvar.
— Alguém desistiu do alistamento, sargento? — quis saber – Na hora da inscrição?
— Não senhor. — respondeu o outro estranhando a pergunta – Algum motivo para acreditar nisso, senhor?
— Encontrei uma moça mais cedo que disse ter vindo se alistar, mas não estou achando o nome dela na lista. Ela estava acompanhada de um urso. Sabe algo sobre isso?
O rosto do homem ficou pálido e sua expressão estava nitidamente preocupada. Ele pigarreou antes de, cautelosamente, indagar:
— Ela é parente do senhor, Grão-Lorde?
Bolvar estranhou a pergunta.
— Não. Apenas alguém que encontrei.
Quando o alívio do homem ficou evidente, Bolvar teve a certeza que algo acontecera. Além disso, teve a sensação de que não gostaria da resposta para sua próxima pergunta.
— O que aconteceu, sargento? — perguntou – Onde está a moça do urso?
O homem deu um sorriso cínico que não agradou em nada ao paladino.
— Ela era louca, Grão-Lorde! Louca de pedra! — exclamou ele rindo – Acredita que ela me socou?! Bem aqui. — e mostrou o nariz – O sacerdote me curou, mas sinto que aind tem algo errado. — e tocou no nariz, que Grão-Lorde percebeu que não estava bem centrado no rosto.
— E porque ela lhe socou? — perguntou o paladino desconfiado – O que aconteceu para ela tomar essa atitude?
— Ah, foi do nada! Ela simplesmente me socou! E tentou me bater mais! Os guardas precisaram levá-la para a cela da bastilha porque ela era muito perigosa!
A imagem que Bolvar tivera da moça não condizia com aquilo que ouvia e o paladino não era de se enganar com as pessoas. Colocou os pergaminhos de volta na mesa, se perguntando se seus instintos estavam envelhecendo junto com ele.
— Não acredito que aquele tipo de pessoa estava querendo fazer parte do exército! — continuou o recrutador, olhando para seu superior em busca de aprovação – Não concorda, Grão-Lorde?
— Uma jovem que precisa ser contida por diversos soldados é alguém que eu gostaria de ter ao meu lado em um combate, sargento. — disse seriamente – Afinal, não é sempre que vejo uma moça tão jovem deixar um soldado experiente com um nariz torto.
O homem ficou seriamente surpreso com aquela resposta e não disse mais nada. Bolvar então deu as costas e foi em direção a Bastilha, disposto a visitar as celas no subsolo. Enquanto caminhava para lá, se perguntou porque estava fazendo aquilo. Não conhecia a garota, a vira apenas naquela manhã. Se ela realmente agredira o soldado sem nenhum motivo, merecia estar presa. Porém, os instintos de Bolvar continuavam a soar, como uma campainha alertando que algo estava errado. E, envelhecendo ou não, o Grão-Lorde sempre ouvia seus instintos. Relembrou a conversa que tivera com o recrutador, procurando o que o havia incomodado: primeiro foi que o homem, antes de falar do acontecido, perguntou se a moça era sua parente. Isso significava que ele fizera algo e estava com medo de retaliação. A segunda coisa foi seu alívio quando deu a negativa para o parentesco. Estranho, muito estranho. Melhor verificar. Não levaria muito tempo e poderia afastar aquela desconfiança de sua mente.
Lina estava se odiando profundamente quando ouviu os passos pesados de Bolvar se aproximar. Sentada no chão e abraçada as suas pernas, não levantou a cabeça quando duas botas lustrosas pararam à frente de sua cela. Aquilo não importava. Na verdade, nada mais importava. Podia ser quem for, até o rei, que não poderia mudar o fato que tinha arruinado a sua vida. Fugira de casa, e para que? Para acabar numa cela de prisão, com homens ao seu redor rindo de seu nome e de sua mãe? Seus irmãos adorariam aquele fim que tivera. A queridinha do papai foge de casa e é presa. Pressionou a cabeça nos joelhos, chorando copiosamente. Melhor não avisar a sua família. Seria melhor para o coração de seu pai se todos pensassem que ela simplesmente desaparecera e não que estava presa como uma delinquente.
— Senhorita?
A voz que a acordara mais cedo voltara. Devia ser o cavaleiro prateado. Porém, ela continuou com a cabeça apoiada nos joelhos. Não havia necessidade de olhá-lo se já sabia o que ele fora fazer ali.
— É agora que vou para o cárcere? — perguntou com a voz rouca.
Bolvar ficou extremamente surpreso com a pergunta dela.
— Não costumamos mandar pessoas para o cárcere só porque socaram alguém. — respondeu.
Agora Lina levantou a cabeça e o encarou. Sim, era realmente o general de mais cedo.
— Me disseram que eu ia para o cárcere, porque era criminosa. — respondeu.
— Lhe garanto que isso não vai acontecer. — afirmou o paladino – Você receberá uma pena leve, provavelmente fará alguns trabalhos na Bastilha, mas depois estará livre.
A notícia, contudo, não a deixou mais feliz. E daí que não ficaria presa? Seus objetivos já tinham ido por água abaixo.
— Você não parece aliviada com o que eu disse. — observou Bolvar.
— De que adianta ser livre se não poderei entrar no exército?! — perguntou ficando irritada novamente – Eu fugi de casa para isso e não poderei fazer o que vim fazer! Essa liberdade não é um consolo!
Bolvar já tinha ouvido falar em mocinhas que fugiam de casa para ficar com um namorado não aprovado pelos pais; já ouvira de mocinhas que fugiam para serem cantoras na ópera de Ventobravo; sabia até de uma que fugira para ser taberneira em Dalaran. Porém, era a primeira vez que vira uma que fugira para entrar no exército.
— Se queria tanto se alistar, por que socou o recrutador? — perguntou com um tom de censura.
— Porque ele ofendeu minha mãe! — gritou Lina se levantando de um pulo. Ela se aproximou das grades e a segurou, enquanto continuava a gritar com Bolvar. Ele não se moveu nenhum centímetro. – Ele pode ter desdenhado do meu sonho, pode ter rido do meu nome, mas ninguém ofende minha mãe!
Foi difícil para o paladino escolher o que o deixara mais indignado: a explosão de fúria da garota direcionada a ele ou o que ela veementemente afirmava. Se o que ela afirmava fosse mentira, realmente tinha problemas mentais. Se fosse verdade…
— Acalme-se, menina. — foi mais uma ordem que um pedido – Diga-me seu nome e me explique exatamente o que aconteceu.
— Pra que vou lhe dizer meu nome? — gritou-lhe novamente – Você vai rir também!
Bolvar não disse nada, apenas a encarou com firmeza. Lina nunca se sentira intimidada por um olhar antes, mas isso acontecia naquele momento. Sentia-se pequena diante daquele homem e acabou por obedecê-lo, sem saber porque.
— Quengacilina. — murmurou baixando os olhos – Meu nome é Quengacilina Wood.
Não se ouviu nenhuma risada na sala.
— Muito bem, senhorita Wood. — continuou Bolvar – Agora, conte-me exatamente o que aconteceu. Com detalhes.
Lina respirou fundo e começou a contar. Sem entender porque, começou sua história com o dia anterior. Contou de como sempre quisera ser do exército desde que vira seu irmão numa farda, da espera pela convocação, da negativa de seu pai, sua fuga a noite e sua chegada em Ventobravo. Falou de como o achara educado (aqui Bolvar deu um pequeno sorriso), e de como o recrutador era o oposto disso. Falou da piada dele, de como ele a tratara e de sua falta de dinheiro para pagar a inscrição toda.
— Espere. — Bolvar a interrompeu – Ele lhe cobrou para se alistar?
— Sim. — respondeu a garota – Não é assim que fazem aqui?
Uma fúria descomunal se apossou do Grão-Lorde. Como alguém ousa enganar uma cidadã da Aliança cobrando uma falsa taxa para entrar no exército?! Aquilo era expressamente proibido! Quantos jovens aquela atitude ilícita tinha afastado das suas tropas?! O paladino fechou os punhos, para se controlar.
— Quanto você lhe deu?
— Todo o dinheiro que estava na minha algibeira. — respondeu Lina sem entender porque ele lhe perguntava aquilo – Na verdade, ele levou o dinheiro com algibeira e tudo. — Lina suspirou – Eu gostava de minha algibeira, foi a mamãe quem fez… — a algibeira era uma das poucas coisas que dona Mariana costurara para ela que gostara. Agora se sentia mal por ter perdido a única ligação com a mãe.
— Como é sua algibeira? — quis saber.
— Por que o senhor quer saber? Vou precisar desse dinheiro para pagar a fiança ou algo assim? Disseram que não havia devolução da taxa!
A fúria de Bolvar só aumentava.
— Senhorita Wood, não há taxas a serem pagas para entrar no exército. — esclareceu.
Levou um momento para que Lina percebesse que, além de ofendida, fora também roubada.
— Filho da puta! — gritou revoltada – Não acredito que ele me enganou!
— Responda minha pergunta, senhorita. — insistiu Bolvar.
Para provar que a jovem fora enganada, tinha que achar sua algibeira e ter certeza que pertencia a ela mesma. Como um guerreiro da Luz, não queria deixar margem para duvidarem de sua integridade.
— Ela é de tecido, verde, com um cacho de uvas bordado. — explicou Lina – E tem meu nome no interior. Minha mãe fez isso para não se misturar com as das minhas irmãs. — sabia que era importante dar detalhes porque entendera finalmente a insistência do general. Se ele achasse a sua algibeira com o sargento, ela estaria falando a verdade.
— Quanto tinha dentro? — perguntou o paladino.
Lina lhe disse o valor.
— Além de tudo, é ladrão! — vociferou a menina indignada.
— Agora, conte-me o resto. — pediu Bolvar – Conte-me o que a levou a socar o sargento.
Aquilo não era mais necessário, pois, somente o fato do recrutador ter-lhe cobrado indevidamente, colocava em dúvida sua versão do ataque não provocado. E quando ela lhe contou o resto da história, tinha certeza que ele próprio faria o mesmo se alguém ofendesse sua mãe. Quando Lina terminou o relato, Bolvar a encarou. Tinha certeza que ela falava a verdade e agora provaria aquilo. Ninguém, ninguém macularia o exército de Ventobravo enquanto ele vivesse. E no momento em que os dois se encaravam, o estômago de Lina roncou alto e o rosto da menina ficou rubro de vergonha.
— Ela não foi alimentada? — perguntou Bolvar a um guarda, franzindo o cenho.
— Recebemos ordens de não alimentá-la, senhor. — respondeu o guarda visivelmente envergonhado.
Aquilo estava apenas piorando as coisas para o recrutador.
— Traga algo para ela comer enquanto verifico sua história. — e olhando para ela, disse – Coma, senhorita Wood, que nos veremos em breve – E se afastou da cela dela, em direção a porta.
— Por que está fazendo isso por mim? — perguntou a jovem antes que ele saísse do subsolo.
Bolvar parou e a encarou.
— Porque é o certo a se fazer. — e dando uma pausa, acrescentou – E eu gostaria que alguém fizesse algo assim por minha filha.
E, dito isso, saiu.
Não foi difícil achar o recrutador. Ele estava numa roda de soldados, ao pé da escada, contando para os mais jovens como fora atacado pela garota e que, só fora atingido, porque o urso o ameaçava e seus olhos estavam no animal. A história já era diferente da que ele contara a Bolvar. O paladino achou que, mais alguns relatos e teria sido o urso que o atacara, ao mando da menina, que talvez virasse um homem musculoso e ameaçador. Controlando sua fúria, parou em frente aos soldados que, ao notarem sua presença, se colocaram em formação e bateram continência. O Grão-Lorde agradeceu a Luz por achar o enganador em grupo. Seria bom ter testemunhas.
— Sargento. — disse olhando para o homem – Gostaria que esclarecer alguns detalhes da prisão de Quengacilina Wood.
Ao ouvir o nome, o sargento caiu na risada. Porém, ao ver a forma como o general o olhava, ficou sério de novo.
— O que tem de tão engraçado, sargento? — perguntou Bolvar seriamente.
— Ah, senhor… Esse nome é tão bizarro… — disse reprimindo uma risada.
— Por isso ofendeu a mãe dela, soldado? Por que achou o nome bizarro?
O rosto do homem ficou pálido e ele começou a gaguejar:
— E-eu não fiz isso, s-senhor! — e firmando a voz, completou – Estou sendo acusado falsamente!
Por um momento, Bolvar o encarou. O homem não conseguiu sustentar o olhar e baixou a vista. Foi nesse momento em que o paladino ordenou:
— Esvazie os bolsos, sargento.
— C-Como?! — o homem ficara pálido novamente.
— Esvazie os bolsos. — repetiu Bolvar com uma calma perturbadora.
E o sargento, com as mãos trêmulas, cumpriu a ordem. Não demorou muito para que a algibeira verde com uvas bordadas aparecessem. Bolvar a pegou e despejou as moedas em sua mão. A quantia era mesma dita por Lina.
— É minha senhor! – disse o homem – Minha namorada fez!
Bolvar o olhou brevemente e então virou a algibeira pelo avesso. O nome ‘Quengacilina’ estava bordado em letras delicadas. O homem empalideceu de vez.
— Prendam-no. — ordenou o Grão-Lorde guardando as moedas na algibeira novamente.
Ninguém questionou a ordem e o homem não reagiu. Bolvar fez questão de levá-lo até o cárcere que era onde ficava aqueles considerados traidores. E era exatamente o que aquele homem era: um traidor do exército de Ventobravo. Nunca, em todos seus anos, o paladino achou alguém nas fileiras da Aliança que tivesse uma falha de caráter tão grande que tivera a ousadia de roubar futuros aspirantes. Nem de mentir descaradamente para ele. E, o pior de tudo, ofender a mãe de alguém. Isso era inaceitável. Lembrou de Melinda. Mães eram sagradas.
Agora, era hora de dar as boas novas à nova soldado de Ventobravo.
Enquanto esperava a volta do general, Lina tentava não ficar esperançosa. Comeu o que lhe foi oferecido, mas, apesar de estar faminta, fora difícil engolir porque a comida tinha gosto de papelão. Seria seu nervosismo ou a comida da cadeia era ruim mesmo? Bem, não importava. Comeu tudo. Enquanto comia, se perguntou várias vezes se aquilo poderia ser uma peça pregada pelo sargento que agredira para lhe deixar ainda pior. Porém, assim que Bolvar entrou no subsolo, ela ficou de pé, com um frio imenso no estômago.
— Primeira regra que você tem que aprender. — ele foi logo dizendo – É que não aceitarei que você grite comigo de novo.
O coração de Lina se acelerou.
— Então… Vou entrar no exército? — perguntou num fio de voz.
— A resposta acertada para minha fala é ‘sim, senhor’, soldado. — repreendeu o Grão-Lorde, mas com a expressão serena – Sempre, ao se dirigir a mim, será ‘sim, senhor’. Entendeu?
— Certo. Digo, sim, senhor. — e um sorriso surgiu no rosto dela.
Bolvar ordenou ao guarda que abrisse a porta da cela e, assim que Lina pôs os pés fora dela, lhe entregou sua algibeira.
— Vamos até minha sala, formalizar sua admissão no exército, soldado Wood. — chamou Bolvar.
Sim, Lina iria. Na verdade, a partir daquele dia, decidiu que seguiria aquele homem até mesmo para o inferno.
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