Herdeiros da Guerra

32 Capítulo XXIII – Véu de Inverno (PARTE III)


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A noite do dia vinte e quatro finalmente chegara. Em toda Azeroth, as mais diversas raças comemoravam o feriado, cada um com sua maneira e costumes. Era uma noite na qual podia-se até pensar que não havia guerra nem ódio no mundo.

Em Luaprata, o jantar organizado por Kassyeh ainda não começara, mas toda a família já estava reunida no salão de festa. Alguns petiscos foram servidos, enquanto todos ouviam atentos o ágeis dedos de Ash tocando o piano, enquanto Karen entoava uma melodia festiva em sua voz doce e infantil. Todos estavam calados, ouvindo embevecidos a menina cantar sobre neve, presentes e amor. Até mesmo os servos deixaram o trabalho um pouco de lado para presenciar a cena. E quando as duas irmãs terminaram, todos as aplaudiram com empolgação.

Ash adorava tocar piano. Uma de suas memórias mais antigas do pai era dele ensinando as notas músicas em cada uma das teclas. Até hoje, toda vez que tocava, lembrava dele falando com sua voz profunda. Sempre que podia, tirava um tempo para praticar o instrumento, ainda que sacrificasse outras coisas. Era o momento dela e de Dhomm.

Tocar piano também ajudara no seu treinamento de caçadora. Da mesma forma que tinha que ser rápida com o arco, tinha que ser rápida com as teclas. Seus dedos tinha quem estar atentos e aposto a tudo e responder bem rápido. Uma coisa acabava levando a outra e isso a agradava.

A ideia do sarau de Véu de Inverno de Kassyeh fora algo que Ash torceu o nariz no começo, mas que agora concordava que isso deixara a noite mais bonita e mais aconchegante. A primeira a cantar tinha sido a própria Kassyeh, sendo que ela mesma tocou o piano. Luxuriah foi logo em seguida, com a maga ainda comandando o instrumento. Depois, tinha sido sua vez. Ash não queria muito cantar, mas acabou concordando e até que se saíra bem. E por último, fizera dupla com sua irmãzinha. Àquela altura, todos estavam felizes relaxados e com bastante fome. Os petiscos já haviam acabado e Kassyeh conduziu todos a mesa.

Naquela noite, a família Fendessol não estava só. Lor’themar e Vivithi comemoravam pela primeira vez com eles, e isso deixava a jovem elfa num misto de alegria e nervosismo. Desde que eles voltaram a treinar, ela e o lorde regente só tinham conversado sobre coisas técnicas e mal se viam depois que as aulas acabavam. Aquilo a deixava frustrada e com raiva. Já havia feito tudo que lhe disseram para fazer mas Lor’themar parecia cada vez mais distante. E quanto mais o tempo passava, mas Ash se perguntava se valia a pena cultivar aquele sentimento.

Antes do jantar ser servido, Kassyeh atraiu todas as atenções batendo com uma colher na sua taça de vinho. Todos na mesa a olharam. A elfa se levantou, com o rosto um pouco vermelho e começou a falar:

— Antes de começarmos a comer, eu gostaria de propor um brinde. Esse ano foi muito intenso para todos nós. Nossa família cresceu, e nossa união está mais forte que nunca. — ela olhou para Luxuriah e sorriu – Então, vamos brindar a isso e desejar que o no próximo Véu de Inverno possamos estar maiores e mais unidos que nunca.

Todos levantaram suas taças e brindaram. Sorriram uns para os outros e Rommath deu um rápido beijo em Luxuriah. Tewdric preferiu acariciar a bunda de Kassyeh discretamente, mas todos viram e riram. E o jantar começou a ser servido.

Apesar do clima leve e festivo do jantar, haviam ali duas pessoas que não se sentiam no clima da festa. Tanto Vivithi quanto Kayliel sorriam e conversavam, mas cada um deles estava mergulhado em suas agruras pessoais, lutando para deixá-las de fora do momento.

O sacerdote só voltara à Torre Solfúria nos dias anteriores. Após chegar de Dalaran, estava tão destroçado que realmente adoecera. Passara pelo menos dois dias com febre e um inchaço tão grande na garganta que teve que concordar com Rommath em chamar um curandeiro para olhá-lo. O curadeiro, um conhecido de Kayliel, não conseguiu encontrar claramente o motivo da doença e acabou atribuindo ao frio que fazia nos últimos dias. Receitou umas poções e Kayliel as tomou sem questionar. Demorou alguns dias para que ele estivesse bem o suficiente para ser permitido chegar perto de Luxuriah. Até lá, seu irmão o via pelo menos três vezes ao dia, para garantir que ele estava vivo.

Só que Kayliel não se sentia vivo, pelo contrário. Algo dentro dele morrera, deixando para trás apenas uma carcaça que se movia. O adeus definitivo de Arshe o lançara em um estado de torpor, onde fazia tudo automaticamente, sem nenhum interesse ou prazer. Até mesmo naquele momento, à mesa com sua família, parecia irreal, como se acontecesse através de uma névoa densa e difusa.

— Kayliel? — ouviu alguém o chamando – Kayliel?

Era Ash. Ao seu lado, a princesa o chamava com a expressão preocupada.

— Oi? — perguntou se sentindo um idiota.

— Estava perguntando se você está se sentindo melhor, mas parece que não. Está passando mal?

— Não, não, estava apenas divagando. — ele tomou um pouco do vinho a sua frente – Pensando em tudo que tenho que fazer depois que me recuperei.

— Ah… — ela não estava muito convencida – Está tudo bem mesmo? — insistiu.

— Claro… — murmurou e então começou a comer, para tentar evitar novas perguntas.

— Sua cara de bunda me diz o contrário. — retrucou.

Kayliel acabou rindo da fala de Ash e ela riu de volta.

— Tente deixar os problemas para depois do feriado. — propôs ela – Divirta-se! É nosso primeiro Véu de Inverno como família!

Kayliel a encarou por um momento e depois assentiu. Ash tinha razão. Estava rodeado de pessoas boas e por quem ele tinha alta estima. Tentaria ficar bem ao menos por aquela noite.

— Tudo bem. — garantiu ele – Problemas depois do feriado.

— Um brinde a isso! — exclamou Ash levantando uma taça, na qual Kayliel encostou a sua. Seria um esforço titânico, mas ele tentaria.

Vivithi, ao contrário de Kayliel, não estava letárgica. Desde o dia anterior, uma ideia nascera e se instalara em sua mente deixando-a nervosa e ao mesmo tempo eufórica. Ela queria fazer aquilo. Queria muito. Mas havia uma tênue linha ética que ainda a prendia. Uma linha que a lembrava do quanto sofrera porque outra pessoa fizera exatamente o que ela queria fazer agora.

Vivithi queria usar os sentimentos de Aethas para manipulá-lo e conseguir o que queria. Sim aquilo era imoral. E sujo. Mas ela o desejava. Desejava tanto que doía. Mas ela não queria os sentimentos dele, queria apenas o corpo. Pensava então em ir vê-lo, seduzi-lo, aproveitar a paixão que ele sentia para se satisfazer. E no final, não seria bom para os dois? Aethas também a teria. E será que ele realmente estava apaixonado? Afinal, aquele elfo era meio burro e nunca tivera um relacionamento sério. Devia confundir desejo carnal por paixão. Sim, deveria ser isso. Então, não haveria problema, não é mesmo? Por que não tinham sentimentos de verdade no meio…

Ao seu lado, Lor’themar a observava sem que ela percebesse. O lorde regente sabia o que estava passando na cabeça da sua sobrinha, pois ela lhe confidenciara sua ideia. Lógico, ele fora contra. Não queria que ela se rebaixasse aquele nível.

— Vivithi, desista dessa ideia. — murmurou apenas para ela ouvir – Isso não é algo digno de você, menina.

— Tio, se eu não fizer, eu vou explodir. — murmurou de volta – Você não faz ideia de como me sinto.

— Faço sim, por isso digo que essa ideia é péssima.

— Parece até que você o está defendendo. — criticou a patrulheira.

— Estou defendendo você. — justificou – Se isso sair do controle, não quero que você se machuque.

— Eu ficarei bem, titio. E você devia se preocupar com outras coisas. Como, por exemplo, o que fará sobre ela. — e apontou Ash com o queixo.

A jovem estava falando com Kayliel, obviamente tentando animá-lo. Ela disse alguma coisa que o fez rir e ela riu de volta. Havia uma intimidade no ar que deixou o lorde regente com ciúmes.

— Talvez ele já esteja esquecendo a humana, já que ela não respondeu a carta dele… — comentou Vivithi.

— Rommath acha que deixamos passar algo. — disse ele – Kayliel esteve em Dalaran dez dias atrás e voltou doente. De acordo com Rommath, ele costuma adoecer quando tem um grande estresse emocional.

— Muita gente tá adoecendo nesse inverno. — ela bebericou de seu vinho – Não significa que ele viu a humana. — e olhando de esguelha para o tio e alertou – Decida logo tio, antes que alguém decida por você.

Lor’themar nada falou, apenas tomou um grande gole de vinho.

O jantar continuou animado, independente das questões pessoas de alguns convidados. A comida estava fabulosa, como sempre. Saba e Karen estavam agitadíssimas, como sempre. Luxuriah ralhava com elas, como sempre. E Tewdric ficava tentando bolinar com Kassyeh por baixo da mesa, como sempre. A única coisa que faltava, para Luxuriah, era a presença de seu tio e deixava aquilo bem claro para quem quisesse saber.

— Minha maior esperança é que um dia titio veja o erro que é estar no Kirin Tor. — disse para Rommath, mas todos puderam ouvir – Como ele pode ficar em um lugar que sequer o deixam passar o feriado com a família?!

— Não é que eles não deixam, Lux. — falou Kassyeh – Você sabe que ele quer tirar mais dias de folga quando Tinuviel nascer…

— Ele poderia ter vindo para o jantar! — exclamou a outra chateada – Duvido que ele esteja trabalhando agora! Deve estar sozinho em casa, fazendo absolutamente nada! Poderia ter vindo, jantado conosco e voltado!

Aethas sozinho em casa. Essa informação fez as orelhas de Vivithi tremerem. Sim, sim, perfeito! Ela sorriu e Lor’themar baixou a cabeça, suspirando. Parece que ela decidira agir, afinal.

— Ô Lulu. — chamou Tewdric – O titio deve ter tido lá os motivos dele…

Luxuriah sabia que Tewdric se referia a Vivithi. O orc lhe contara o que acontecera durante a viagem dele e de Kassyeh a Dalaran, mas aquilo ainda não a convencia. Afinal, se ele estava tão apaixonado por Vivithi, mais um motivo para estar ali. Se ela não desgostasse tanto daquela maldita cidade, teria ela mesma ido buscá-lo. Com ela lá, o tio viria, com certeza. A elfa lhe diria umas boas verdades e o mandaria ter autocontrole e ficar perto de Vivithi. Inclusive, isso poderia ser uma chance para os dois, afinal, as pessoas sempre ficavam mais emotivas no Véu de Inverno…

— Não fique chateada, minha cara. — falou Rommath passando a mão em seu rosto – Pense que você poderá cobrar dele uma boa estadia aqui quando o bebê vier, e Aethas não conseguirá dizer não a você logo após dar a luz.

— Uhhh, como ele é malvado! — exclamou Saba rindo.

— Não é? — riu-se Karen – Romrom sempre tem boas ideias!

— Obrigado meninas. — agradeceu o Grão Magíster – E estou vendo que ainda tem verduras nos pratos de vocês…

As meninas fizeram cara de nojo e ficaram cutucando as verduras com o garfo.

— Vão por mim, ele não vai deixá-las em paz até essas verduras serem comidas. — avisou Kayliel.

— O Romrom te criou, não foi Keke? — perguntou Karen – Que nem a Lux fez com a gente?

Kayliel deu uma boa olhada no irmão, que lhe lançou um sorriso de cano de boca. Kayliel às vezes o detestava e às vezes o amava muito. Na verdade, o amava mais que o detestava.

— Foi. Minha mãe já era bem velha quando eu nasci e-

— Velha tipo Lady Liadrin? — interrompeu a futura rainha.

— Mais velha. — quem falou foi Rommath – Minha mãe tinha quase o dobro da idade de Liadrin quando ele nasceu. Foi uma coisa bem fora do comum. As elfas não costumam ter filhos depois dos oitocentos anos.

As meninas ficaram impressionadas. Para elas, qualquer um mais velho que Lady Liadrin deveria ser, no mínimo, um Aspecto Dracônico.

— Pois é. — concordou Kayliel – A mamãe casou com um elfo mais jovem que não tinha filhos ainda e-

— Que nem Lady Liadrin? Ela também gostava de elfos novinhos? — interrompeu Karen mais uma vez.

— Não tão jovem. — o sacerdote franziu a testa – Meu pai tinha uns… Quinhentos anos? — perguntou olhando para Rommath.

— Quinhentos e oitenta e sete. Muito mais novo que eu. — o elfo suspirou e balançou a cabeça. Nunca entendera aquela paixão da mãe. Pelo menos não até se apaixonar por Luxuriah.

— Como você sabe a idade exata do pai de Kayliel? — perguntou Luxuriah curiosa.

— Porque eu queria saber exatamente o quanto mais novo que eu ele era. — o elfo bufou – Vejam bem, não é como se eu não gostasse dele, eu até gostava. Ele fazia minha feliz, e isso era o que importava. Mas… Por que alguém tão novo?

— Ninguém manda no coração. — disse Ash.

Aquela resposta, com certeza, serviria para a maioria dos que estavam ali na mesa.

— Pois bem. — continuou Rommath – Como o dito cujo não tinha filhos, minha mãe decidiu ter um. O problema foi que, depois de Kayliel nascer, ela simplesmente percebeu que não tinha mais paciência. Ela só queria se divertir com o marido. Então, sempre me pedia pra ficar com ele. Depois de um tempo, eu achei melhor assumir logo essa parte. Assim, minha mãe ficou com a parte boa; pegava ele limpinho e feliz e me devolvia quando ele ficava sujinho e mal humorado. — ele olhou para o irmão – Acho que fiz um bom trabalho, ele sobreviveu, não foi?

Todos riram e Kayliel ficou vermelho e baixou a cabeça.

— Você tem raiva de sua mãe por isso? — quis saber Saba olhando para o sacerdote.

— Não, não. — respondeu veementemente – Era sempre bom estar com ela. A mamãe sempre estava de bom humor e fazia tudo que eu queria. O chato era Rommath.

— Porque eu era a mãe. — retrucou o mago.

Mais risadas.

— É bom saber que a pequena Tinuviel terá pessoas bem experientes para cuidar dela, apesar dos pais serem, tecnicamente, pais de primeira viagem. — falou Lor’themar.

— E você Temma, nunca pensou em ser papai? — quis saber Karen.

Surpreso com a pergunta, o elfo riu sem jeito.

— Algumas vezes pensei sim, Karen. Mas o destino acabou me levando por outros caminhos.

A menina ficou olhando para ele como se aquilo não fizesse sentido, mas depois deu de ombros e voltou a atenção para Rommath novamente.

— Como era sua mãe? — quis saber.

— Linda, elegante, inteligente e com pouca paciência. — disse com orgulho.

— Nossa, parece que você tá descrevendo a Lux. — riu-se a menina.

Rommath virou-se para sua esposa, um pouco surpreso. Era verdade. Havia um pouco de sua mãe em sua esposa.

— Minha mãe tinha menos paciência que a Lux. — disse Kayliel – E um pouco menos de responsabilidade também.

—Nossa, ela devia dar medo então. — comentou Tewdric e Kayliel e Rommath concordaram com a cabeça.

— Onde tá a mãe de vocês? — perguntou Saba inocentemente.

Kayliel e Rommath se olharam por um momento e o sacerdote baixou a cabeça, visivelmente triste.

— Ela morreu no ataque do Flagelo. — respondeu Rommath – Ela e o pai de Kayliel. O meu pai já está morto há bem mais tempo.

Saba e Karen ficaram visivelmente tristes com a notícia, e Kassyeh tratou logo de cortar aquele assunto.

— Sem coisas tristes hoje, por favor. Vamos falar de coisas alegres.

— Tem razão. — concordou Rommath – Deixem-me contar sobre como era Luaprata alguns séculos atrás.

E a conversa mudou de foco e as meninas ficaram alegres de novo. O resto do jantar aconteceu normalmente, as sobremesas foram servidas e depois todos foram para os sofás novamente, para continuar as conversas. As meninas já queriam abrir os presentes, mas Kassyeh foi enfática: só à meia-noite. Até lá, elas tiveram que se contentar em ficar longe dos pacotinhos coloridos. Quem não gostou muito disse foi Ash, que acabou sendo o alvo das brincadeirinhas das meninas, até que deu a desculpa de ir ao banheiro para fugir das pestinhas e foi se refugiar na varanda.

Estava frio lá fora. Ash se arrependeu de ter saído sem pegar a capa. Já estava pensando em voltar quando a porta de vidro de abriu e Kayliel apareceu com sua capa na mão.

— Lux pediu para eu entregar. E disse que você demorasse um pouco, as meninas parecem que estão armando algo para você.

— Ah, claro, como sempre… — ela pegou a capa – Obrigada.

— De nada.

Ash jogou a capa por cima dos ombros e encostou-se a varanda. Kayliel pensou por um momento em voltar para o salão, mas acabou sentando em uma das cadeiras. Estava gelado, mas ele precisava de um pouco de ar fresco. Sua mente acabou voltando para Arshe e se perguntando em como ela estaria.

— Você realmente não parece bem. — comentou Ash – Não seria melhor você se recolher por hoje?

— Se eu ficar sozinho, será pior. — disse.

— Nossa, por que?

Arrependido de ter deixado escapar aquilo, Kayliel deu de ombros.

— Nada, Ash. Eu… Eu só estou com problemas…

A elfa o analisou por um momento, foi até onde ele estava e sentou-se na cadeira ao seu lado.

— Quer conversar a respeito? — quis saber – Sabe, desabafar pode ajudar… E eu teria um bom motivo para não ficar lá dentro. — e riu.

Conversar… Sim, ele adoraria conversar. Adoraria ter alguém com quem dividir aquela dor, que pudesse ajudá-lo a lidar com tudo aquilo. Mas essa pessoa não existia. Se ele contasse qualquer coisa que fosse a Ash ou a qualquer outra pessoa, o mínimo que poderia acontecer é despertar o ódio dessa pessoa.

— Você não pode me ajudar. — disse.

— Como você sabe? — questionou ela.

— Você me odiaria, Arshe.

— Arshe? — Ash franziu a testa – Quem é Arshe?

O pânico tomou conta Kayliel e ele simplesmente perdeu a voz. Ficou olhando para Ash, tentando achar uma explicação razoável para tê-la chamada por outro nome, e não conseguia. A elfa continuava o encarando, confusa e ao mesmo tempo preocupada e ele não conseguia sequer formular uma frase.

— Acho que já ouvi esse nome em algum lugar… — murmurou Ash desconfiada.

— Ash… — com a voz trêmula, Kayliel segurou sua mão – Por favor, pela Nascente do Sol, por tudo que é mais sagrado nesse mundo, não diga a ninguém que você ouviu esse nome!

Ash ficou ainda mais desconfiada, mas também ficou com pena. Kayliel parecia que surtaria a qualquer momento. Então, uma coisa passou pela mente da jovem: seria Arshe a pessoa que estava causando toda aquela aflição em Kayliel? Se era alguém por quem ele se apaixonara só podia… Os olhos delas se arregalaram e ela soltou a mão dele. Compreendera enfim.

— Arshe é a humana?! — questionou chocada.

Kayliel fechou os olhos, derrotado. Era o fim.

— Sim, é.

E inesperadamente, ele começou a contar tudo. Contou desde quando conhecera Arshe até o fatídico dia 15. Ele não deixou nenhum detalhe de fora, nem mesmo o fato de que iria pedi-la em casamento no passado, no arrependimento que sentia por tê-la deixado, na sua eterna dúvida sobre sua lealdade. Tudo. Ele contou absolutamente tudo. Não tinha mais forças para esconder nada. E depois que terminou de falar, se recostou na cadeira, sentindo um profundo e intenso alívio. Pronto. Acabara. O que quer que Ash fizesse com aquela informação, ele não questionaria.

Depois de ouvir todo o desabafo de Kayliel, Ash ficou sem saber o que fazer. Estava com raiva dele, muita raiva por ter se deixado levar assim por uma simples humana e mais ainda por ele ter cogitado até mesmo deixar sua família por isso. Sim, ela estava furiosa! Queria levantar da cadeira e gritar com ele. Queria chutá-lo. Queria pegá-lo pelos cabelos e jogá-lo da varanda. Queria dizer o quanto ele a decepcionara. Mas uma vozinha dentro de sua cabeça, que tinha uma voz muito semelhante à de sua mãe, lhe dizia que não era hora de julgar Kayliel. O elfo estava confuso, magoado e visivelmente perdido no emaranhado de seus sentimentos. Olhou para dentro do salão, onde todos conversavam e se divertiam e pensou: e se fosse Karen? O que faria se sua irmãzinha confessasse que se apaixonara por um humano? Ela teria coragem de jogá-la aos leões? A resposta era simples: não. Então, ela não faria aquilo com Kayliel. Já gostava do sacerdote como se fosse um irmão e do que adiantaria causar qualquer transtorno àquela altura dos acontecimentos? Só traria tristeza para todos, principalmente para Luxuriah e Rommath. E como Kayliel mesmo falara, tudo acabara.

— Eu não vou te entregar. — disse causando espanto nele – Se tudo acabou, como você disse, para quê eu diria?

— Sim, acabou. — confirmou.

— Eu realmente não entendo como você pôde gostar de uma humana e muito menos como ainda sofre por ela mas… — Ash olhou para dentro novamente e seus olhos se encontraram com os de Lor’themar – Quem sou eu para julgar? Ninguém manda no coração não é mesmo?

Kayliel não conseguia descrever o quão feliz estava.

— P-Posso te dar um abraço? — perguntou.

Ash riu.

— Claro.

Kayliel a abraçou e quase que imediatamente começou a chorar. Ash deu umas tapinhas nas costas dele, sem saber muito bem como consolá-lo. Normalmente ela era quem chorava e não consolava. Mas ficou feliz por perceber que já conseguia lidar com seus sentimentos e com os dois outros de forma mais madura. Quando Kayliel se acabou e se afastou, ela lhe ofereceu um lenço. Ele aceitou.

— Desculpe por estragar sua noite. — pediu envergonhado.

— Não estragou. — garantiu a elfa – É bom poder ajudar meu novo irmão. — e sorriu.

Kayliel sorriu de volta.

— Quando houver qualquer coisa em que eu puder ajudá-la, não hesite em me procurar. — pediu – Quero a oportunidade de agir como um irmão para você também.

Ash olhou novamente para dentro do salão. Lor’themar ainda a encarava.

— Talvez você já possa me ajudar.

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Tommy decidiu fugir. Era por volta de cinco da tarde quando percebeu que não aguentaria mais um minuto na fazenda.

Tudo começou quando eles finalmente chegaram. Levava em torno de cinco horas a cavalo para chegar na fazenda e, por conta do atraso de Lina, já era noite e nevava quando aportaram no vinhedo dos Woods. Depois de guardarem os cavalos, caminharam até a entrada da fazenda. Pelas janelas era possível perceber que todos já estavam lá e que eles eram os últimos. Sequer haviam tocado na maçaneta quando a porta se abriu e a pessoa que a abrira falou, em tom de censura:

— Aposto que vocês se atrasaram por conta do trabalho da Lina! — quem falara foi Linda, uma de suas irmãs – Já é noite e estávamos famintos esperando por vocês!

Ele e seus irmãos se entreolharam, já preocupados com a discussão que viria a seguir. Lina com certeza já começaria a briga no batente da porta e era provável que a discussão se entendesse até a cozinha. Porém, a comandante continuava com o bom humor da tarde e simplesmente ignorou a irmã. Passou por ela como quem passa por um móvel velho e foi direto para a sala.

— Mamãe, papai, chegamos! — disse abrindo os braços para o casal de idosos.

Era difícil dizer quem estava mais surpreso, se Linda ou os outros irmãos. Para evitar quaisquer perguntas, Tommy puxou Fey e Mel para dentro e Linda fechou a porta. Ela continuava atordoada. Lá dentro, ele pode ver que a casa mudara naqueles dois anos. Haviam aumentado consideravelmente a sala e a cozinha. Quaisquer outros cômodos fora abolido do térreo. Aquilo era bom, pois todos poderia comer no mesmo lugar naquele ano.

Quando era pequeno, Tommy lembrava que aquele andar era o único da fazenda. Com o tempo e com os filhos crescendo, saindo de casa e ganhando a vida, a fazenda foi aumentado. Quem podia, ajudava. E fora providencial, pois com a família cada vez maior, Tommy ainda se surpreendia que todos coubesse ali, mesmo com o aumento do prédio e os andares a mais.

— Tomilho? — ouviu a mãe falar – É meu fí Tomilho?

Dona Mariana também estava diferente. Havia novas rugas e quilinhos a mais em seu corpo, mas Tommy a achava a mulher mais linda do mundo. Ainda que ela insistisse em chamar todos os filhos pelos nomes horrorosos que escolhera.

— Sou eu, mãe. — disse um pouco envergonhado.

A senhora então o abraçara e chorara.

Seu pai foi menos emotivo. Com a bengala., dera três pancadas em suas pernas e o encarara com a expressão furiosa.

— Issé coisa qui si faça mulequi? — reclamou – Tu somi e dexa eu e tua mãe cum os coração nas mão?! — e deu mais uma bengalada.

Ainda bem que o velho Sebastian não tinha mais força nas mãos, ou aquilo teria doído e muito.

— Desculpe. — foi tudo que conseguiu dizer.

Depois disso, todos os outros irmãos vieram falar com ele, abraçá-lo e querer saber como ele estava. Em outros tempos ele teria adorado falar com todos, tranquilizado-os e também ouvir as novidades. Por um momento, achou que poderia fazê-lo. Até que, durante o jantar, todos começaram a discutir suas decisões e a dizer o que ele teria que ter feito ou não. E a falar sobre Ana e as crianças. Todos. Ao mesmo tempo.

Se os Wood fossem uma família pequena, talvez Tommy pudesse ter aguentado. Porém, eles eram muito numerosos. Muito mesmo. Fazia anos que eles não cabiam todos na fazenda quando chegava o feriado. Alguns de seus sobrinhos, os casados e com filhos, preferiam ficar na estalagem na Vila D’ouro que na fazenda. Outros, como era o caso dele, Lina, Fey e Mel, gostavam de ficar no celeiro. O restante se exprimia nos andares da casa e muitas vezes usando a sala e cozinha para dormir. Mas ninguém faltava o Véu de Inverno. Só ele o fizera nos dois últimos anos. Então, era compreensivo que seus pais e o resto estivessem chateados com ele.

Lina, que até então conseguira se manter afastada de quaisquer discussão, se incomodou com todo aquele falatório. Em determinada altura do jantar, já de saco cheio, ela protestou:

— Deem um pouco de espaço ao Tommy! — protestou Lina – Vocês não veem que ele não quer falar sobre isso?

Foi o suficiente para tudo começar.

As primeiras que começaram a brigar com Lina foram, obviamente, Lícia e Linda. Tommy sabia que Lina e Lícia tinham se encontrado em Dalaran e brigado feio (Doroteya contara), mas o que vira ali fora do normal. Elas começaram a gritar uma com a outra e se xingar. Todo o bom humor de Lina fora embora tão rapidamente quando uma flecha lançada a favor do vento. Logo, os outros irmãos começaram a brigar também. Fey e Mel ficaram do lado de Lina. Seus pais apenas observavam tudo, com a tranquilidade de quem criara aquele monte de filhos e se acostumara com as batalhas entre os mesmos. Porém, em determinado momento, Tommy explodira.

— Chega! — gritou se levantando.

Todos se calaram.

— Eu não quero dizer como eu estou, nem quero falar sobre Ana, nem nada! Dá pra vocês me deixarem em paz?! — e bateu com o punho na mesa

Ninguém disse nada. Aquela não era uma reação típica dele e isso chocara todos. Tommy encarou cada um deles e se sentou novamente. O jantar prosseguiu, dessa vez da forma mais silenciosa que ninguém jamais vira.

Quando o jantar terminou, ele decidiu evitar as conversas. Foi em direção ao celeiro, onde alguma alma caridosa já deixara as quatro camas prontas. O que mais gostava do celeiro era que, por não ter aquecimento, ninguém mais queria ficar ali além dele, Fey, Mel e Lina. Para que os irmãos não congelassem, havia um braseiro no meio do quarto, que dava calor o suficiente apenas para eles não morrerem por hipotermia. Era o preço a se pagar pela privacidade.

O braseiro estava apagado, então Tommy decidiu acendê-lo logo. Colocou bastante madeira, acendeu o fogo e depois vestiu o pesado pijama que Fey costurara; pijamas adequados e mantas grossas eram essenciais ali. Não demorou muito e seus irmãos se juntaram a ele, com a expressão de cautela.

— Está tudo bem? — quis saber Mel.

— Não. — respondeu – Eu devia ter ficado em Ventobravo.

— Você aguenta. — disse Fey tentando animá-lo.

— Acho que não… — murmurou.

Lina foi a última a chegar. Olhou longamente para Tommy, mas não disse nada. Se despiu e começou a vestir o seu pijama, quando Tommy notou algo que não vira até então.

— Lina, o que é isso em seu pescoço?

Era uma gargantilha de ouro. Ela descia elegantemente pelo pescoço de Lina e terminava em um belo pingente, onde o símbolo da Luz estava gravado. Havia uma minúscula pedrinha de diamante no centro do pingente, que dava a joia uma singela sofisticação.

— Ganhei. — disse sem olhar para os irmãos – De Véu de Inverno.

Fey e Mel praticamente pularam das camas e se penduraram no pescoço da irmã, quase arrancando a gargantilha. E o pescoço de Lina junto.

— Foi seu namorado que te deu?! — perguntou Fey entre gritinho.

— Pela Luz, é ouro puro! E tem diamante! — gritou Mel histérico.

— Saiam de cima de mim! — Lina chutou os irmãos – Sim, é foi ele quem me deu e sim é de ouro! Satisfeitos?!

A comandante estava com o rosto em brasa. Vestiu o pijama rapidamente e se meteu debaixo das cobertas. Seus irmãos se entreolharam, chocados. Lina nunca corava. Lina nunca aceitava presentes de homem nenhum.

— É, parece que esse cara é importante para você… — falou Tommy com cautela.

Silêncio.

— Você poderia nos dizer quem é… — pediu Fey no mesmo tom do irmão – Só pra gente saber se ele não é um sacana ou algo assim…

— Não. — ela virou as costas para eles – Agora me deixem dormir.

Os irmãos se entreolharam. Se não fosse o conselho de Doroteya mais cedo, teriam insistido. Porém, nada disseram. Cada um se ajeitou em baixo das pesadas mantas e ficaram em silêncio. Até que Lina falou:

— Se alguém perguntar sobre essa gargantilha, digam que foi Arshe quem me deu. — pediu.

— Pode deixar. — garantiu Tommy.

Mais silêncio.

— Eu gostaria de contar a vocês. — confessou a comandante – Mas não posso.

— Ele é casado? — a voz de Fey soou muito preocupada.

— Não. — respondeu, para o alívio dos irmãos.

— Quando você estiver pronta para nos dizer, estaremos aqui. — garantiu Mel com delicadeza.

Lina se remexeu, incomodada.

— Acho que esse dia não chegara. — disse por fim – Ele é um nobre. Isso não tem futuro.

Tommy sentou-se na cama, todo o sono abandonando seu corpo.

— Então porque você está envolvida com ele?! Perguntou aturdido — Se você mesma não vê futuro?

— Não sei… — foi a resposta de Lina.

Mas os irmãos sabiam. Só havia uma explicação para isso. A irmãzinha deles estava realmente apaixonada. Havia muito que Tommy podia dizer, mas nenhuma delas ajudaria Lina naquele momento. Seriam apenas críticas de um irmão protetor e ciumento. Então, levantou-se e foia té a cama de Lina. Deu um beijo na bochecha dela e sussurrou:

— Estarei aqui para o que você precisar…

— Obrigada.

Tommy voltou para sua cama e Lina tocou na gargantilha. A gargantilha que Varian tinha lhe dado. A gargantilha que pertencera à Rainha Taria, mãe dele. A mesma que ela relutara em aceitar, mas no final não resistiu aos apelos do rei. E sem entender porque, Lina chorou baixinho.

No dia seguinte, após uma noite em que Tommy passara pensando na situação da irmã, tudo recomeçara. Primeiro fora Varão, seu irmão mais velho, que o procurara enquanto ele limpava a neve da entrada da fazenda. O primogênito dos Wood jogara conversa fora por um tempo, até insistir sobre o estado de Tommy. E ofereceu para apresentar alguém a ele. Tommy recusou gentilmente e continuou o trabalho. Depois, fora Fragonildo, o sexto irmão. Mesmas perguntas, ofereceu também para apresentar alguém. Tommy recusou com um pouco mais de ênfase. Então foi Lícia, a penúltima. Perguntas, oferecimento de amiga. Recusa educada, mas um pouco irritada. Ao todo, quatorze de seus irmãos fizeram a mesma coisa, com um intervalo de tempo pequeno. Parecia que todos se colocaram numa corrida para saber quem apresentaria o novo amor da vida de Tommy. E ele achava que, se mais alguém chegasse com a mesma conversa, ele atingiria a pessoa com a pá. Pela Luz que Fey, Mel e Lina o conheciam o suficiente para não tentar aquilo. Além do mais, quem eles ofereceriam? Fey e Mel só tinham amigos gays, de ambos os sexos. E Lina tinha Arshe e Doroteya. Definitivamente a princesa estava fora de questão. E Doroteya…

Tommy parou com a pá na neve. Doroteya. Sim, ela seria alguém por quem ele se apaixonaria. Ela era doce, meiga, tinha uma alma boa e não havia sorriso em Azeroth mais lindo que o dela. Só que, como ele, Doroteya já tivera seu grande amor. E como ele, ela ainda sofria. Não, era algo que definitivamente não daria certo.

Terminou seu serviço e foi guardar a pá. No caminho, um de seus sobrinhos mais velhos o chamou. Ele foi. E quando recomeçou tudo de novo, as mesmas perguntas e o mesmo oferecimento, Tommy jogou a pá no chão, espumando de ódio e diante do olhar atônito daquele Wood, Tommy saiu pisando com raiva na neve, direto para o estábulo.

Ele não se despediu de ninguém. Ele sequer pegou uma capa de viagem. Ele só selou seu cavalo e foi embora. Durante os primeiros quilômetros, ele pensou que em pouco tempo Lina apareceria na estrada, gritando seu nome e o convenceria a voltar. Mas Lina não veio. Ninguém veio. E ele continuou trotando, de volta para Ventobravo.

Foram seis horas em cima do cavalo, sem pausa, sem descanso. Como havia nevado naquele dia, fora bem mais difícil transitar pela estrada. E quando chegou em Ventobravo, já com a noite avançada, estava com fome, com frio, cansado e muito triste. Ao passar pelas casas onde as luzes estavam acesas e ouvia-se os risos das pessoas, ele se arrependia um pouco. Talvez tivesse sido muito intempestivo. Deveria ter aguentado um pouco mais e voltado no dia seguinte, assim não magoaria seus pais. Porém, já era tarde. Já fizer a besteira. Restava agora chegar em casa e descansar.

Tommy acreditava que Doroteya e Theo já dormiam, por isso decidiu não entrar pela porta da frente. Desceu do cavalo quando chegou em frente a casa e levou o animal para o estábulo de Lina. Aquela hora, estava nevando forte. Com os dentes batendo de frio, ele colocou o cavalo junto aos outros bichos e demorou um pouco mais lá, aproveitando o calor do aquecimento. Riu ao pensar que os ajudantes e as montarias de Lina estavam mais confortáveis que ele e os irmãos no celeiro. Colocou também uma manta no cavalo e o deixou lá.

O quintal da casa deles não tinha iluminação. Quando Tommy fechou a porta do estábulo, toda a luz ficou lá dentro e ele caminhou na escuridão até a casa. Pensava em passar na cozinha, pegar algo pra comer e correr para seu quarto, quando foi atingido no peito por algo muito pesado. Caiu para trás, sentindo uma imensa pressão no tórax que o impossibilitava de gritar ou falar. O que o atingira ainda estava por cima dele. Foi quando ouviu um rosnado forte, bem perto do seu rosto. Por um momento achou que era seu fim, mas a criatura parou repentinamente de rosnar, cheirou o ar e então falou, surpresa:

— Tommy?

Era Doroteya em sua forma worgenin. Ele soube pela voz rouca e abafada. Ele quis dizer que sim, era ele, mas não conseguiu falar só emitir um chiado. Deve ter sido eficiente, já que o peso saiu de cima dele e mãos o ajudaram a levantar.

— Tommy, o que está fazendo aqui? E por que essa furtividade toda? Eu quase te matei, sabia?

Sim, ele sabia. E agradecia que ela não tivesse feito isso.

— Venha, vamos entrar.

Quando entraram pela cozinha, Doroteya já estava em sua forma humana de novo. Tommy respirou fundo, massageando o lugar onde ela o atingira.

— Bom saber que não precisamos nos preocupar com ladrões… — foi o que ele conseguiu falar.

Doroteya lhe lançou um olhar reprovador.

— Você veio no meio dessa nevasca? — perguntou preocupada – Por Eluna, você poderia ter congelado! Veja, está todo molhado! Venha, você tem que se aquecer.

Ela o levou até a sala, onde Theo estava sentado com um jogo de damas entre as pernas. O menino o encarou, surpreso, abriu um imenso sorriso e se precipitou até onde ele estava, derrubando todas as peças do jogo, que se espalharam pelo chão.

— Tommy! Tommy! — gritava o menino o abraçando forte.

O coração de Tommy se aqueceu de felicidade e todo o arrependimento de sua fuga desapareceu.

— E aí, campeão? Ainda acordado?

— Eu e a mamãe estávamos jogando! — disse animado – E você? Voltou pra ficar com a gente?

— Mas é claro. — respondeu assanhando o cabelo do menino.

Os olhos de Theo brilharam de alegria.

— Querido, deixe Tommy sentar perto da lareira. — pediu Doroteya – Ele está molhado e congelando.

Theo pegou a mão de Tommy e o levou até o pé da lareira. Só quando chegou lá foi que Tommy percebeu que seus dedos estavam roxos. Colocou as mãos o mais perto possível do fogo, torcendo para que nenhum deles necrosasse por causa de sua temeridade. Sentiu algo ser colocado em seus ombros e ao olhar para cima, viu Doroteya o envolvendo em uma manta. A druidesa sorriu para ele e foi para a cozinha. Tommy se acomodou debaixo da manta e ainda mantinha as mãos perto do fogo quando Theo se aconchegou do seu lado. O menino pegou uma de suas mãos, soprou nela e ficou aquecendo-a com suas mãozinhas pequenas.

— Já abriu os presentes? — perguntou.

— Já sim. — respondeu Theo – Adorei minhas ferramentas! Vou poder ajudar você com elas?

Tommy havia feito pequenas ferramentas de madeira para Theo, assim o menino poderia brincar e até ajudá-lo, sem correr o risco de se machucar com as perigosas ferramentas de verdade.

— Claro que vai! Assim que eu voltar a trabalhar!

Naquele momento, Doroteya voltava da cozinha com um prato fumegante de comida. Tommy só percebeu o quão faminto estava quando ela colocou o prato em seu colo. Como estavam apenas ela e Theo, Doroteya não fez um jantar muito pomposo e se limitou ao que ela e o filho mais gostavam: arroz com legumes, torta de batata, um suflê de espinafre para ela e frango cozido para o filho. Por sorte, Doroteya gostava de cozinhar sempre um pouco a mais e havia muita comida ainda.

— Duvido que você tenha jantado. — comentou a druidesa – Então quero ver o prato limpo. Sei que não é a ceia de Véu de Inverno que você está acostumado mas…

— Parece maravilhoso. — disse com sinceridade e comeu vorazmente.

Enquanto comia, Theo trouxe todos os presentes que ganhara para mostrar a ele. Havia um que chegara pelos correios naquela tarde e era das ‘tias’ de Darnassus. Tommy sorria e comentava sobre os presentes enquanto comia, sendo observado por Doroteya, que nada falava. Depois do prato limpo, perguntou se podia repetir e a druidesa pegou o prato e foi pra cozinha. Caprichou ainda mais no segundo prato e entregou.

Tommy comeu até se sentir saciado. Depois, Doroteya ainda lhe trouxe a sobremesa: um delicioso pudim de pão. Dessa vez, Theo o acompanhou na comida. Ele já se sentia bem melhor ao final da refeição e se pôs a jogar com o menino as damas que este ganhara de Fey.

— Eu estou tão feliz que você esteja aqui, Tommy! — disse o menino animado – É tipo, como se eu tivesse um pai de novo.

Doroteya e Tommy se olharam, chocados com a revelação de Theo. Por um momento, Tommy achou que fosse chorar, mas conseguiu conter o aperto na garganta. Passou a mão mais uma vez pela cabeça de Theo e murmurou:

— Estar com você é como ter meus filhos de volta.

Theo abriu ainda mais o sorriso e voltou sua atenção para o jogo.

A madrugada já estava avançada quando Theo finalmente dormiu, no colo de Tommy. Doroteya fez menção de pegar o filho, mas Tommy disse:

— Deixe que eu levo ele.

Então, colocou o menino no braço e subiu as escadas No quarto em que Theo dividia com a mãe, Tommy o colocou com suavidade na cama, tirou seu sapatos e o cobriu bem. Deu um beijo nos cabelos do menino e então voltou para sala. Ao chegar lá, viu duas canecas fumegantes no chão perto da lareira, onde Doroteya estava. Tommy suspirou. Chegara a hora de responder perguntas. Sentou-se de frente a ela, pegou uma das canecas e deu um sorriso sem jeito.

— Você fugiu de casa. — Doroteya foi logo falando.

— Foi. — admitiu envergonhado.

— O que aconteceu? — quis saber.

Não havia censura em sua fala, apenas preocupação. Tommy então contou tudo que acontecera, desde a noite anterior até aquela tarde. Claro, deixara de fora o pensamento em que ela seria a pessoa por quem se apaixonaria, afinal, porque falar aquilo? Provavelmente só a deixaria irritada e envergonhada. Quando terminou o relato, tomou um gole da caneca. Era chocolate quente e estava maravilhoso.

— Lícia já tinha falado em apresentar alguém a você. — revelou Doroteya – Foi por isso que ela e Lina brigaram feio em Dalaran.

— Sério? — Tommy estava surpreso – Poxa, Lina poderia ter me dito. Eu tinha me preparado pra essa avalanche de irmãos casamenteiros.

— Não acho que qualquer coisa que ela tivesse dito teria te preparado. — argumentou a druidesa – E a propósito, você sabe que ela vai arrancar seu couro, certo?

— Sei sim… — ele tomou mais do chocolate quente – Pelo menos eu tenho você para me curar, não é?

— Só se ela deixar. — disse com seriedade e também bebeu da caneca.

Tommy começou a rir e logo Doroteya estava o acompanhando. Tomaram mais do chocolate quente enquanto observavam o fogo da lareira. Doroteya jogou mais um pedaço de madeira lá, enquanto Tommy a observava. Os imensos olhos dela refletiam o fogo de uma forma surreal, quase sobrenatural. Ele agarrou a caneca com mais força e, de repente, se viu perguntando:

— Você pensa nisso Doro? Em conhecer alguém e se casar no futuro?

Doroteya estranhou a pergunta e isso ficou nítido em seu rosto. Tommy já estava para pedir desculpas, quando ela respondeu:

— Não sei… Se você me perguntasse isso dois meses atrás eu diria não categoricamente, mas agora… — ela suspirou – Lina disse que eu to me curando aos poucos, por isso estou mudando de ideia, mas é complicado. Eu tenho um filho e nós temos uma história complexa. Eu não quero envolver mais alguém nisso… Além do mais, a pessoa que se interessasse por mim teria que conquistar meu filho também, sabe? Eu jamais ficaria com alguém de quem Theo não gostasse.

Sem saber porque, o coração de Tommy disparou naquela hora e uma sensação boa o preencheu.

— E você Tommy? — perguntou ela – Você fugiu de casa só porque queriam lhe apresentar alguém…

— Não quero que ninguém me force uma pessoa. — foi dizendo ele – Isso não quer dizer que não me envolveria com ninguém. Só que… — ele a encarou – Teria que ser uma pessoa muito especial. Uma pessoa com quem eu me visse formando uma família de novo. E que conseguisse lidar com os três irmãos loucos que moram comigo!

Os dois caíram na risada e Tommy teve a impressão que os olhos de Doroteya brilharam mais naquela hora.

— Espero que você ache essa pessoa, Tommy. — desejou ela com suavidade.

— Desejo o mesmo para você, Doro.

Eles se encaram um tempo e depois voltaram a tomar suas bebidas. Conversaram um pouco mais sobre outros assuntos, e por fim a druidesa levantou.

— A lareira do seu quarto está apagada. Quer que eu a acenda?

— Não, não, vou ficar aqui na sala mesmo. Vai demorar muito para o quarto aquecer e já passei frio o suficiente por hoje.

— O sofá é pequeno para você. — lembrou-lhe a druidesa.

— Fico no chão mesmo.

Ela o encarou, pensativa.

— Você pode ficar lá no quarto. — Doroteya sentiu as bochechas ficarem quentes, sem saber porque – Tem um colchão debaixo da cama que poderíamos pôr perto da lareira…

Surpreso com o oferecimento, Tommy não estava muito certo.

— Tem certeza? Não quero tirar sua privacidade.

— Só espere do lado de fora enquanto me troco para dormir e está tudo bem. — ela sorriu.

Tommy sentiu um rebuliço no estômago e ficou vermelho.

— Pode deixar madame, não a constrangerei. — disse em tom pomposo.

Doroteya caiu na risada e Tommy a acompanhou. Pouco tempo depois, estavam no quarto, Tommy devidamente instalado no colchão extra no chão perto da lareira e Doroteya na cama de casal com Theo. E apesar do dia cansativo, tanto Tommy quanto Doroteya demoraram a dormir, cada um ciente da presença do outro no quarto.

****************

Aethas elegeu aquele como o pior Véu de Inverno de sua vida. Até então, o pior tinha sido aquele após a morte de Dhomm e Samanthah. Todavia, mesmo com a recente perda, ele e as sobrinhas estavam juntos e conseguiram sobreviver àquele feriado graças a sua união. Só que, daquela vez, Aethas estava sozinho.

Não havia ceia em sua casa aquela noite. Na verdade, ele não comia nada desde cedo. Jogado no sofá, a única coisa que entrava em seu estômago era vinho. Já estava na segunda garrafa e torcia para que o torpor da embriaguez logo tirasse sua consciência. Porém, até isso parecia difícil. Por várias vezes, ele pensou em se teleportar para Luaprata. Seria fácil surgir aquela hora na Torre Solfúria e, sem dúvida, suas sobrinhas ficariam muito felizes. Mas então veria Vivithi também. Estaria pronto para lidar com isso? E esse não era o único problema. Ir até uma das principais cidades da Horda sem comunicar ao conselho seria mal visto. Claro, poderia guardar segredo e tinha certeza que ninguém em Luaprata o entregaria, mas e se decidissem analisar os vestígios arcanos de sua casa e percebesse o portal? Sim, isso era possível de acontecer. O recém-iniciado reinado de Garrosh Grito Infernal estava deixando todos com os nervos a flor da pele. O orc era belicoso e fechado a diplomacia. Quando tempo até que ele os lançassem a uma onda sem fim de desconfiança?

Esvaziou mais uma taça de vinho e se recostou no sofá. Queria dormir. Dormir e acordar apenas quando os sentimentos dele estivessem em ordem, como sempre estiveram. Fechou os olhos por um momento, sentindo finalmente o torpor do álcool tomar conta de seu corpo. Sim, o sono chegava. E quando sua mente estava em um estágio de semiconsciência, a campainha tocou.

Assustado, Aethas derrubou a taça que ainda estava em sua mão. Visita? Aquela hora? Quem seria? A primeira coisa que pensou foi que Luxuriah tinha ido buscá-lo. Se fosse isso, duvidava que resistiria. A segunda alternativa era que Kassyeh decidira fazer uma surpresa. A campainha tocou mais uma vez e ele se levantou. Seria ótimo com certeza, mas sua sobrinha ficaria horrorizada em vê-lo de pijama, semialcoolizado e de estômago vazio. Sim, ela saberia que nenhuma comida fora feita na casa naquele dia. Seria um problema e tanto, mas a presença de Kassyeh, principalmente se estivesse na companhia de Tewdric, seria muito bem-vinda. Por isso, quando a campainha tocou a terceira vez, alisou o pijama, torcendo para que conseguisse convencer quem quer que fosse que a sua comemoração apenas terminara mais cedo e que ele já havia se recolhido. A campainha tocou uma quarta vez pouco antes de ele abrir a porta.

Era Vivithi.

Vestida com uma capa vermelha com detalhes dourados estava a elfa que lhe tirara a paz nos últimos tempos. Definitivamente não era uma alternativa que ele consideraria. O mago ficou parado, atônito, sem conseguir esboçar nenhuma reação diante da presença dela. Por fim, foi Vivithi quem agiu. Ela o empurrou para dentro de sua casa, fechou a porta e o beijou com voracidade.

No primeiro momento ele não resistiu. Achou que talvez estivesse dormindo e aquele fosse um sonho bom. Mas seria bom mesmo? E todos os sentimentos contraditórios que sentia desapareceram só por causa de um beijo? Porém, o que quer que fosse aquilo, era bom. Ele a envolveu em um abraço e a apertou em seus braços. Vivithi rapidamente tirou a capa, revelando o corpo totalmente nu por baixo daquela ínfima proteção. Os dedos ágeis da caçadora já tiravam o pijama de Aethas quando ele deu um passo para trás, levando-a até o sofá, onde finalmente saciariam o desejo que torturava os dois.

Inebriado pelo momento e na confusão de ser aquilo um sonho ou não, Aethas esqueceu-se da taça de vinho quebrada. E quando seu pé pisou em seus cacos e um pedaço grande de vidro entrou em seu pé, ele gritou de dor e desvencilhou-se de Vivithi. A elfa, sem entender o que acontecera, tentou abraçá-lo de novo, mas parou quando viu o sangue escorrer pelo pé do mago e ficou sem reação.

A dor da ferida fez Aethas despertar. Não era sonho. Vivithi estava realmente ali, nua, em sua casa, tentando seduzi-lo. Uma raiva imensa se apossou dele, e rapidamente afastou-se da elfa. Pulando com apenas um pé, se encaminhou para a estante, onde diversas poções repousavam, procurando alguma para fechar aquela ferida. Quando pegou uma delas, sentiu dedos tocarem seu braço.

— Você precisa sentar e tirar esse vidro do pé. — ouviu-a dizer.

— Não toque em mim! — exclamou ele puxando o braço – E fique longe!

Sob o olhar atordoado dela, Aethas mancou de volta para o sofá, sentou-se e finalmente olhou o pé. O vidro atravessara o peito do pé e ele sentiu uma vertigem ao ver aquilo. Fechou os olhos e segurou firme a poção. Tinha que tirar o vidro antes de tomá-la, só que duvidava que conseguisse.

Quando decidira ir até ali, Vivithi tinha certeza que seria fácil. Fugira da festa na torre Solfúria e usara uma das muitas pedras de teleporte que guardava. O bom de estar sempre fazendo coisas para seu tio era que tinha um suprimento bom daqueles portais para usar. Decidira tirar a roupa e chegar usando apenas a capa na casa dele; facilitaria e muito as coisas. Só que agora estava numa situação no mínimo inusitada. Estava totalmente nua na sala de Aethas, onde o mesmo sangrava profusamente com um caco imenso de vidro enfiado no pé. Pra começo de conversa, como aquele vidro fora parar ali?

Aethas não parecia ter forças para arrancar o caco que transpassara seu pé e estava tão pálido que Vivithi achou que ele fosse desmaiar. Por isso, precipitou-se na direção dele.

— Saia... — protestou ele com a voz fraca – Saia daqui…

Vivithi não lhe deu ouvidos. Segurou com força o pé dele e puxou o vidro de uma vez só. Aethas gritou de dor e a elfa teve que tomar a poção de sua mão, abri-la e fazê-lo beber. Depois, aguardou.

A vista de Aethas foi clareando aos poucos. Com a respiração se normalizando, ele levantou a cabeça e a encarou. Vivithi continuava nua, olhando-o com um misto de desejo e preocupação. E naquela hora, por um momento, ele a odiou profundamente.

— O que você está fazendo aqui? — perguntou enraivecido.

— Ah, tudo bem, não precisa agradecer por eu ter tirado o vidro do seu pé. Não foi nada. — disse com ironia.

— Para início de conversa, ele não estaria ali se não fosse você. — retrucou.

— Claro, porque fui eu quem quebrou alguma coisa ali e para completar, enfiei o caco propositadamente em seu pé. — continuou.

Eles se encaram por um momento, com aquela raiva de antes surgindo nos dois. Aquela mesma raiva que os levou a brigar no casamento de Kassyeh e depois fazerem sexo como dois loucos no escritório. A raiva que também impulsionava o desejo.

— Quer um agradecimento? — perguntou ele – Muito obrigado! Agora pode ir embora!

Vivithi não fez menção de sair, muito pelo contrário. Agarrou a gola do pijama dele e o debruçou-se sobre ele. Aethas sentiu os lábios ansiosos dela nos seus e sua raiva mingou. Deixou que ela voltasse a passar as mãos em seu corpo, mas aquilo só durou um momento. A lucidez causada pela dor não abandonara seu corpo, e ele se viu jogando-a para o lado e se levantando do sofá.

—Não. — disse resoluto – Não.

Houve um momento de silêncio enquanto eles se encaravam. Vivithi não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Aethas dissera não. Uma fúria sem tamanho se apossou da elfa e ela teve que fazer um imenso esforço para não se atirar sobre ele e esganá-lo.

— Então toda aquela bobagem de estar apaixonado era mentira? — indagou furiosa.

Aethas, que não esperava aquela pergunta, ficou confuso.

— Não! Claro que não! Eu não menti!

— Então porque está me dispensando? — ela se levantou e parou em frente a ele, toda sua nudez exposta – Não me deseja mais?

Sim, ele desejava. Desejava mais que tudo. Mais que qualquer coisa.

— Sim, Vivithi. Eu te quero. Muito.

— Então, venha. — ela o enlaçou – Me abrace, me beije, me possua.

Delicadamente, Aethas desvencilhou-se do seu abraço mais uma vez.

— Não Vivithi. Não antes de colocarmos alguns pontos nos is.

O desejo do olhar dela foi substituído pela raiva.

— Não há nada para ser colocado aqui Aethas, a não ser seu pau dentro de mim. Então vamos parar com essa falação toda e ir ao que interessa.

Aethas ficou bestificado com a fala dela.

— É isso que importa para você? — perguntou enraivecido – Sexo? Tudo se resume a isso?!

— E ao que mais seria?! — exclamou ela elevando o tom – O que mais é importante?!

— Sentimentos! — respondeu no mesmo tom – Eu tenho sentimentos! Eu estou apaixonado por você, não dá pra entender isso?!

— É justamente por isso que eu vim! — gritou a elfa – Você me deseja. Você me quer. Então não resista a isso.

Por um momento ele não disse nada. Ficou apenas encarando-a, sem conseguir acreditar no que ouvia. Vivithi estava ali porque achava que ele não resistiria a ela. Que, independente de estar magoado ou não, ele acabaria se rendendo a ela. Aquela elfa estava usando os sentimentos que ele tinha contra ele próprio.

— Vivithi… — começou ele com a voz baixa – Você veio aqui achando… Pensando… — ele não conseguia nem expressar aquilo com palavras – É esse tipo de pessoa que você é?

Não foi o que ele disse, mas a forma que fizera. Aethas soou tão magoado que Vivithi se odiou. Deu um grito frutado que o assuntou e pegou a primeira coisa que viu na frente, um abajur, e jogou-o no chão. Aethas deu um passo para trás, temendo que aquela fúria se voltasse contra ele.

— É exatamente por isso que não quero seus sentimentos! — gritou – Eu não quero me sentir assim de novo! Não quero ser manipulada e usada nunca mais! Não quero ninguém me dizendo o que devo ou não sentir ou fazer! Nunca mais!

A explosão trouxe lágrimas inesperadas e Aethas ficou sem ação. Vivithi foi até onde sua capa estava e pegou-a. Fora um erro vir até ali, pensava, seu tio tinha razão. A elfa já estava com a mão na maçaneta quando sentiu dedos tocarem suavemente em seu braço.

— Vivithi… — ouviu seu nome ser dito de forma suave – Eu… Eu não sei porque a fiz pensar isso eu… — Aethas não sabia o que fazer. As acusações dela eram fortes e graves e ele ficou repassando mentalmente tudo que dissera tentando encontrar onde errara. — É assim que eu a faço sentir? Eu… Eu parece manipulador? Pareço estar usando-a? Por isso você tentou fazer o mesmo? — sua voz soava angustiada agora – Eu…

— Não foi você… — ela disse em um fio de voz – Foi ele…

— Ele quem?

Vivithi não respondeu. Apenas negou com a cabeça, as lágrimas ainda brilhando nos olhos. Ficaram em silêncio por um tempo, até que a patrulheira perguntou:

— Por que você foi se apaixonar por mim? — sua voz estava estrangulada – Por que não foi só sexo, como todos os outros? Por que você tinha que trazer tudo isso a tona?

Apesar de não saber o que seria ‘tudo isso’ a que ela se referia, decidiu explicar:

— Eu não sei Vivithi. Isso… esse sentimento, me pegou de surpresa tanto quanto a você. Mas… Se eu fosse explicar… Acho que eu começaria a partir do momento em que percebi o quanto eu estava enganado com você. — viu as lágrimas se transformarem em surpresa e decidiu não parar – Eu sempre te achei uma elfa promíscua, que era um mal exemplo para minhas sobrinhas e que só servia para me irritar, mas, pela Nascente do Sol, como eu estava enganado. Primeiro que tudo, a vida sexual é sua, e nunca coube a mim ou a ninguém lhe julgar por isso. Eu estava sendo um imbecil moralista. Segundo, minhas sobrinhas te amam. Você foi um exemplo muito melhor que eu na vida delas! Você estava lá para ajudá-las. Você apoiou Luxuriah de um jeito que eu jamais poderia. Se não fosse você, minha sobrinha poderia nunca ter se recuperado daquilo tudo e eu jamais terei palavras o suficiente para te agradecer. — nesse ponto, era ele quem chorava – E terceiro.. Eu nunca me senti tão próximo de alguém. Nós nunca falamos de sentimentos, mas nós nos entendíamos. Quando estou com você… É como se tudo ficasse melhor e mais iluminado. Eu gosto de tocar em sua pele, gosto de beijá-la, mas também gosto do seu riso, e da forma como você dorme com a boca entreaberta. — ele riu um pouco – E é isso. Eu não queria, mas aconteceu. E eu jamais, em tempo algum, faria qualquer coisa que a magoasse. Então, se eu fiz qualquer uma dessas coisas que você disse, sinto muito. Muito mesmo.

A garganta de Vivithi estava apertada. Ela queria acreditar no que ele dizia. Queria muito. Mas algo dentro dela ainda resistia a isso. Não era a primeira vez que palavras bonitas eram ditas a ela para logo depois se mostrarem falsas.

— Então porque você não me quer? — insistiu.

— Eu quero. Mas também quero saber porque meus sentimentos lhe assustam tanto.

Com os lábios comprimidos, ela desviou a vista. Não, não queria falar. Aethas a encarou por um momento, sem saber o que fazer. As palavras de Tewdric voltaram a sua mente: alguém a magoara. A magoara tanto que ela simplesmente não acreditava em nada do que ele dizia. Aethas chegou a um impasse. O que quer que ele falasse, determinaria o futuro dos dois. Ele não queria afastá-la. Não queria perder a oportunidade de chegar até o coração dela. E foi ali que ele decidiu jogar seu orgulho pela janela. Pegou delicadamente a mão dela e disse:

— Tudo bem. Não precisa falar nada. Venha. Vamos subir.

Vivithi o encarou, desconfiada.

— O que pretende com isso? — perguntou.

Ele deu uma risada seca e sem alegria.

— Eu pretendo passar a noite com você, Vivithi. Sem perguntas, sem cobranças. Do jeito que você quer.

Em vez de deixá-la feliz, aquilo a deixou chateada consigo mesma. Comprimiu os lábios, lutando contra aquele sentimento.

— Esqueça tudo. Venha. — pediu ele novamente – Se esse é o único jeito que tenho de ter um pouco de você comigo, não me importo.

Aquilo só a fez se sentir pior. Ele lhe daria o que ela viera pegar. Porém, não era exatamente assim que seu noivo a tratara? Fazendo-a abrir mão do que queria apenas para deixá-lo feliz? Então, ela largou a mão dele e deu um passo para trás. Aethas a fitou, surpreso, quando ela foi até o sofá, se sentou e apontou para que ele fizesse o mesmo. Aethas sentou-se também, tomando cuidado para evitar os cacos de vidro.

— Eu vou te falar porque não posso retribuir seus sentimentos. — revelou – O motivo pelo qual não quero nem pretendo me relacionar seriamente nem com você nem com ninguém. Se, depois disso, você ainda quiser ficar comigo, nos meus termos, será por sua conta e risco. Eu jamais poderei ser a pessoa que você quer.

— Você já é a pessoa que eu quero. — retrucou o mago – Mas, se isso fará com que as coisas se esclareçam entre nós, estou ouvindo.

Vivithi olhou para a garrafa de vinho quase vazia na mesa de centro e para o vidro no chão antes de pedir:

— Pegue duas taças e abra mais uma garrafa de vinho. Vai ser uma história longa.

******************

A nevasca que caia na cidade de Ventobravo naquela noite de Véu de Inverno não apenas deixou a capital mais fria, mas também trouxe lembranças para os moradores que a observavam por suas janelas. Varian era um desses. A maioria das lembranças, infelizmente eram tristes, mas havia uma especial que ele cultivava com carinho. Fora o primeiro Véu de Inverno de Anduin e a mãe do menino ainda vivia. Lembrava do jantar formal, das muitas pessoas que apareceram, mas o que mais amara naquela noite, tinha sido mostrar a neve caindo ao menino, que a observava pela janela com os grandes olhos azuis arregalados. Sua esposa estava ao seu lado, rindo do espanto do filho. Um feriado bonito, que não se repetira. Desde então, todos os outros eram repletos de tristeza e dor para o Alto Rei.

Mas aquele estava sendo diferente.

Não houvera um grande jantar dessa vez. Os convidados foram apenas Greymane, que já era hóspede da Bastilha, sua esposa, a rainha Mia, e a princesa Tess. Fora uma ceia pequena, discreta, mas que ajudou a aprofundar as relações com a família real de Guilneas. Diferente do marido, a rainha Mia parecia lidar melhor com a perda do filho, Liam. Já Tess, herdara a teimosia do pai e insistia várias vezes para o assunto se voltar à retomada de seu reino. Com delicadeza, Arshe conseguira levar a princesa para outros assuntos, sempre a lembrando do momento bonito que era o Véu de Inverno. Anduin ajudava, dando bastante atenção às duas mulheres, que não conseguiram resistir à fofura do jovem príncipe.

Para o rei, o que faltava naquela noite para ela ser ideal, era a presença de Lina. Porém, no dia anterior, receber um presente feito especialmente para ele e a alegria de vê-la aceitar o seu tinha sido o suficiente para dar um pouco de satisfação ao guerreiro. Varian sabia que Lina era uma mulher de convicções fortes e pouco maleável. Quando decidira presenteá-la como colar que pertencer a sua mãe, sabia que ela ofereceria resistência, por isso deixara para fazê-lo ao se despedirem. Lina ficou surpresa ao receber a pequena caixa azul, mas a abriu sem dizer nada. Só quando viu do que se tratava, falou:

— Não vou aceitar algo que provavelmente custou mais que o meu salário anual, Varian.

— Ajudaria se eu dissesse que não paguei nada por isso? — perguntou com um sorriso.

— Também não vou aceitar coisas que pertenciam a sua falecida esposa. — disse em um tom mais firme e nitidamente de censura.

— Também não é o caso. — revelou – As joias de Tiffin pertencem a Anduin, para que ele possa dá-las a sua futura esposa. Essa pertenceu a minha mãe.

Lina ficou muda por um instante e tirou a corrente da caixa. Varian escolhera aquela porque era discreto, bonito e ela poderia usá-la até mesmo por baixo da armadura. E também havia ali uma proteção divina feita por Uther, muito tempo atrás. Varian perguntara a um velho paladino que o visitara dias atrás se a proteção ainda existia e o senhor garantiu que estava tão forte quanto sempre estivera.

— Varian… — começou a comandante analisando a corrente – Esse é o tipo de presente que se dá a uma esposa e não a uma amante.

— Estou dando para a mulher que fez minha vida ficar muito melhor nos últimos tempos.

Ela corou.

— Não fiz isso para ganhar recompensas.

— Mais um motivo para eu lhe dar isso. — e segurando na mão dela, pediu – Por favor, aceite.

No fim ela aceitara. O próprio Varian colocou a gargantilha no pescoço de Lina. Depois ela lhe dera um rápido beijo e saíra pela passagem secreta. E agora, na noite fria de Véu de Inverno, aquela lembrança o aquecia. Mal podia esperar para que ela voltasse de sua viagem. A vira no dia anterior, mas a saudade já era imensa.

— Que sorriso bonito é esse do meu titio! — exclamou Arshe chegando perto dele e colocando um pacote em seu colo – Hora dos presentes! Venha! Anduin está chamando.

A família Greymane já tinha se recolhido. Varian já havia presenteado-os, mas eles provavelmente fariam sua própria troca em seus aposentos. Então, só estavam ele, Anduin e Arshe. O menino tinha uma pilha de presentes aos seus pés e abria todos com gosto. A maioria era livros, reparou o pai, suspirando. É, estava na hora de aceitar que seu filho não era um guerreiro afinal.

— Abra o meu, tio! — pediu Arshe.

Era um belo par de abotoaduras. Varian achou-as bonitas, mas pensou quando usaria; armaduras não costumavam ter abotoadoras.

— Obrigado, querida.

— O meu pai!

Anduin lhe dera um livro. Bem a cara dele.

— Obrigado, filho. — e passou a mão na cabeça dele.

— A comandante lhe deu presente? — quis saber o príncipe.

— Deu. Aquele pijama que você me viu nele ontem. — e riu, lembrando da cena.

Arshe e Anduin o acompanharam no riso, mas o menino ruborizou violentamente, talvez ainda lembrando da cena inapropriada que presenciara.

— Como começou, pai? — perguntou – Como vocês dois começaram a ficar juntos?

Varian relembrou o baile e a misteriosa mulher cujo rosto ele não reconhecera.

— No baile, quando a comitiva de Guilneas chegou.

— Aquele baile que você fugiu e eu fiquei te procurando? — questionou.

O rei deu uma gargalhada.

— Você acaba de descrever todos os bailes que participo, filho. — Anduin também riu – Sim, foi esse mesmo. Eu estava justamente com ela quando você tentou me achar. Eu não a reconheci no primeiro momento. Lina estava… Deslumbrante. Eu estava acostumado a vê-la séria, sisuda, vestindo a armadura e de repente, ela parecia totalmente diferente.

— Ela estava linda, mesmo. — confirmou Arshe – Eu ainda tenho que convencer Fey e Mel a fazer um vestido mais bonito que aquele para mim.

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— E então? — insistiu o príncipe.

— Nós conversamos, bebemos vinho e depois… — Varian definitivamente não queria relatar para o filho o sexo tórrido na biblioteca, enquanto o mesmo o procurava pelos corredores.

— Então você a beijou? — perguntou Anduin.

— É, foi. — respondeu desconversando.

Anduin tinha apenas treze anos, mas já podia perceber que o pai lhe escondia detalhes daquela noite. Talvez fosse melhor assim. Já tivera detalhes demais no dia anterior e estava tentando lidar com a culpa de não conseguir tirar os seios da comandante de sua cabeça.

— É uma pena que a comandante não seja nobre. — lamentou Anduin – Se vocês casassem, eu teria uma madrasta, não é? Não é uma mãe, mas é algo parecido.

Varian ficou estupefato com a declaração de Anduin e aparentemente Arshe também. Vendo o que suas palavras causaram, ele tentou desconversar:

— Ah, bobagem minha. A comandante nem tem idade para ser minha mãe não é? Eu… Eu vou pegar mais um pedaço de torta. — e foi até a mesa.

Saber que seu filho sentia falta de uma figura materna era uma coisa, mas vê-lo dizer ali, em pleno Véu de Inverno que desejava algo assim era outra completamente diferente. Anduin externara algo que deixara sem pai sem saber o que dizer.

— Não se preocupe tio. — falou Arshe com suavidade – Hoje é um dia em todos sentimos falta dos que partiram. É comum esse tipo de pensamento passar na cabeça de quem cresceu sem mãe.

— Você pensava nisso? — quis saber o rei.

— O tempo todo. Lembra que sempre que eu gostava de uma professora eu tentava empurrar meu pai para ela? — a jovem riu – Anduin não faz isso porque ele é maduro pra idade que tem, mas agora, acho que viu na comandante uma oportunidade que nunca houvera antes. Se não contarmos com a Lady Prestor, claro. — ela deu uma risada maliciosa.

— Pela Luz, não me lembre disso.

Os dois riram e Arshe continuou:

— Acho que se Anduin se aproximar de Lina como eu fiz, não demorara para ter essa imagem de mãe postiça mais forte na cabeça. A Lina é superprotetora. Ela tem um ar de mãe leoa mesmo. — a princesa sorriu e seu tom de voz ficou mais meigo quando ela continuou – Quando eu to perto dela, eu me sinto protegida e segura. Como sou velha demais pra ela ser minha mãe, a vejo como uma irmã. Mas Anduin… — ela sacudiu a cabeça – Mesmo que ele diga que Lina não tem idade para ser a mãe dele, ela tem sim. Minha mãe deu a luz a mim com dezesseis anos. Para ser mãe de Anduin, Lina precisava ter dado a luz aos quinze. Antigamente não era incomum, era?

Não, não era, mas Varian não queria pensar nisso. Ele estar envolvido com Lina já era algo que poderia dar muitos problemas. Ela não era nobre e jamais poderia assumir um compromisso sério. Por causa disso, aquele caso poderia estragar a vida e carreira de Lina. Claro, Varian faria de tudo para impedir isso, caso descobrissem deles, mas qualquer um começaria a duvidar da competência dela. Diriam que ela chegara aquele posto por ser amante do rei e não capaz. E caso ele morresse cedo, haveria uma pressão para retirá-la do cargo… Não, o que os dois tinha deveria ser guardado só entre aqueles que confiavam. Mas isso estava começando a incomodá-lo. Varian começava a querer mais. Queria que Lina não apenas fizesse sexo com ele, queria dormir nos braços dela. Queria vê-la sorrir todo momento e não apenas naquelas poucas horas esporádicas que passavam juntos. E pela Luz, se Anduin começasse a ver nela a mãe que não teve, seriam dois Wrynn sofrendo a ausência da comandante. Esperava que isso não acontecesse. Mas, e se acontecesse? E se Anduin se aproximasse dela? Seria ele capaz de proibi-lo, a fim de protegê-lo? Não. Então, só restava torcer para que a vergonha de ter visto os peitos de Lina mantivesse Anduin afastado da comandante.

Anduin voltou com um pedaço enorme de torta e sentou novamente próximo aos presentes. Eles continuaram abrindo os pacotes e Arshe se espantou com o que ganhara do tio: um lindo colar de safira com brincos combinando.

— Tio! Que lindo! — ela tocou na joia – São perfeitos!

— Você tem estado sempre doente e desanimada, então decidi dar algo que sabia que faria seus olhos brilharem. — explicou o rei – E claro, você brilhará com eles.

Arshe deu um apertado abraço no tio. Era verdade que estava sempre doente e sentia-se mal ao lembrar do motivo. O que Varian diria se soubesse que sua doença nada mais era que um coração quebrado devido a uma desilusão amorosa com alguém da facção rival?

Os últimos dias para Arshe tinham sido difíceis. A revelação de Kayliel reacendera todas as lembranças que ela vivera, tanto do abandono quanto da morte de seu pai. Então, a princesa tivera que lidar com suas dores distintas, mas igualmente traumáticas. O que mais doía, ela tinha que admitir, era o fato de ter sido excluída da decisão tomada pelo elfo. Arshe odiava não ter voz nas decisões que incluíam sua vida; até mesmo Varian quis saber sua opinião de ser elevada a princesa, então porque Kayliel não conversou? Por que não a ouviu?

Mas… E se tivesse ouvido? Aquele pensamento a atormentou durante dias. Se ela tivesse chegado até ele naquele dia? E se tivesse aceitado o pedido e depois soubesse da morte do pai? Teria sido pior? E se ele tivesse proposto a separação a pós saber a morte de sue pai? Ela também acharia que era o melhor caminhou ou insistiria no relacionamento? Não havia como saber. Certa vez, ouvira de um dragão da revoada bronze que existiam muitas linhas temporais onde coisas que eram só pensamento aqui, lá era realidade. Se pegou pensando na Arshe de outro mundo que ficara com Kayliel. Seria ela feliz? Ou desejaria que ele a tivesse abandonado repentinamente e sem dizer nada?

No fim das contas, nada adiantava. Estava acabado. Era hora de tentar recomeçar de alguma forma. Talvez deixar o coração aberto para as possibilidades quem sabe… Ou simplesmente fazer o que Lina lhe falou, ir vivendo a vida e esperar. Esperar a dor passar e tudo se ajeitar. Não diziam que o tempo cura tudo? Pois que passe o tempo e que venha a cura.

— Arshe?

A voz de Anduin a tirou do estupor e viu que seu tio e irmãozinho a olhavam estranhamente.

— O que foi? — perguntou.

— Você parecia estar em outro mundo. — disse o príncipe.

— Talvez eu estivesse. — e sorriu.

— Acho que estamos todos cansados. — disse o rei se levantando – Hora de dormir.

Arshe se despediu dos dois efusivamente, pegou seus presentes e foi para o quarto. Vestiu seu pijama e se enfiou debaixo das cobertas. De sua cama era possível ver a neve que caia e sua mente começou a divagar. Lembrou de sua infância, de como seu pai as vezes a deixava dormir na cama dele quando ela tinha pesadelos ou quando fazia frio. Lembrou-se da forma como ele a pegava pela mão e pulavam no meio da neve. Dos bonecos feitos que sempre ficavam horrorosos… Lembrou também da primeira vez que beijou Kayliel, dos sentimentos contraditórios e do medo. Lembrou da primeira vez que fizeram amor, no quarto dele em Dalaran, onde ela entrara invisível. Lembrou de todas as vezes que riram e sonharam juntos. Arshe então percebeu o que deveria ser feito para curar seu coração. Precisava de lembranças novas. Lembranças que não doessem. E com isso em mente, se deixou levar pelo sono.

******************

— Foi realmente a princesa Arshe quem lhe deu essa gargantilha? — perguntou uma das meninas Wood.

— Sim. — respondeu Lina pacientemente. Era pelo menos a vigésima a lhe perguntar a mesma coisa.

A menina arregalou os olhos surpresa e Lina riu.

Apesar da fuga de Tommy, as coisas até que estavam bem calmas. Calmas no sentido Wood, claro. Ao perceber a ausência do irmão, Lina saiu interrogando todos e claro, gerando muita confusão. Por fim, um dos seus sobrinhos admitiu que deixara o tio irritado e que ele saíra a cavalo, a todo galope. Como Tommy saíra sem nenhuma capa e sem jantar, a comandante achou que ele tinha ido apenas esfriar a cabeça e logo voltaria. Com o início da ceia de Véu de Inverno e o decorrer do tempo, percebeu finalmente que Tommy não voltaria.

No primeiro momento ela quis sair quebrando os dentes de todos os irmãos, ao saber que eles estavam sendo inconvenientes com Tommy, mas Fey e Mel a convenceram que a última coisa que precisavam era mais estresse naquela noite. Lina só seguiu o conselho dos dois porque sabia que Tommy não estaria desamparado e sozinho quando chegasse em Ventobravo. Haveria Doroteya e Theo para lhe fazerem companhia. Por fim, limitou-se a comer e lançar olharem chateados para todos.

Os Wood eram uma família numerosa, por isso, a quantidade de perus era tão grande que podia-se pensar que eles extinguiram aquelas aves de Azeroth. Havia tanta comida ali que poderia alimentar um pequeno vilarejo por uma semana. Bem, eles eram quase um pequeno vilarejo. Com o prato abastecido de tudo de bom que tinha ali, Lina sentou-se perto do pai, que pediu para a filha lhe contar como andavam as coisas na capital e ela passou a relatar todos os acontecimentos. A certa altura do relato, a mãe lhe perguntou:

— É verdadi qui tu agora é amiga da Alshe?

— Arshe mamãe. — corrigiu Lina carinhosamente – E sim, somos.

O burburinho foi geral, mas Lina tentou ignorar e continuar a comer. Naquela noite, não usava um vestido novo e cheio de detalhes como as irmãs, preferindo uma roupa mais confortável como as que costumava usar no dia a dia. Porém, mesmo que sua camisa estivesse com a gola toda fechada, suas irmãs perceberam o brilho dourado em seu pescoço.

— Deu para suar joia agora Lina? — perguntou Lícia – É influência da princesa?

— Influência não. — respondeu calmamente – É só um presente. Seria mal educado não usar algo que a Arshe me deu com tanto carinho.

Foi quando todas as meninas correram e pediram para ver a joia. Lina calmamente tirou a gargantilha de dentro da roupa e mostrou-a a quem quisesse ver. Tinha que admitir que adorou a inveja que viu nos olhos das irmãs e de algumas cunhadas pelo presente que ganhara. Se perguntou qual seria a reação delas se soubesse que foi o rei quem lhe dera aquilo.

— Como você conseguiu ficar amiga de uma pessoa tão fina e educada como Arshe Fordragon? — questionou Linda incrédula – Se Lícia não tivesse me contado o que viu, eu nem acreditaria.

— E por que eu não conseguiria ser amiga de alguém fina e educada? — questionou a comandante.

— Por que você é o oposto disso. — respondeu a outra.

Lina lhe lançou um olhar irritado, mas deu de ombros. Oposto ou não, ela era amiga de Arshe. As irmãs que lidasse com isso.

Quem conhecia Lina muito bem estava espantado da tranquilidade da comandante naquele Véu de Inverno. Apesar das muitas provocações, Lina agira de uma forma muito mais contida do que das outras vezes e seu pai se perguntava o que teria acontecido. Se o velho vinicultor tivesse perguntado aos seus filhos Fey e Mel receberia uma meia resposta pra lá de mentirosa. Afinal, não podiam dizer o que pensavam: os dois acreditavam que o bom humor de Lina, que a impedira de quebrar dentes e ossos ali, era por causa do misterioso amante. E eles estavam certos. Varian não saia da mente de Lina e a visita do dia anterior a deixara tão feliz que nem mesmo suas invejosas irmãs conseguiam deixá-la com muita raiva. Apenas um pouco de raiva, o suficiente para ela controlar.

— Mar cumo mermu tu viro amiga da principesa? — perguntou seu pai muito interessado.

Lina então começou a contar das suas investigações contra os Defias, deixando de lado os pormenores que eram segredo do exército, e de como Arshe acabou atacada. Contou tudo que podia contar à família, falando inclusive de Doroteya, que também se tornara amiga das duas. Quando encerrou o relato, todas as crianças Wood a olhavam com reverência.

— Você salvou a vida dela… — disse uma das meninas com os olhos brilhando.

— Não, quem salvou foi a outra lá, a druidesa. — retrucou Lícia.

— Mas quem achou o remédio foi a tia Lina. — um dos meninos a defendia – Isso foi tão legal tia!!

E Lina se tornara a heroína da noite. Até que estava gostando da atenção que recebia, quando Lícia decidiu que estava na hora de tirar a tranquilidade dela.

— Quem sabe agora com uma amiga da nobreza, a Lina não se ajeita e arruma um homem. — disse olhando diretamente para o pai.

Por um momento, a comandante teve vontade de jogar a faca em sua irmã, mas nem teve tempo. Seu pai já começou a falar quase instantaneamente:

— Omi? Lina num precisa de omi! Lina já é mar omi que todo omi de Ventobravo! — o senhor idoso estava revoltado – E mermo qui num fosse, num tem omi lá pra minha fia. É tudo viado! Tudo viado!

Fey e Mel não resistiram e caíram na gargalhada. A dona Mariana, mãe da ninhada Wood, logo interveio:

— E tu quer qui a minina fique moça veia, Sebastian? Ela num tem fio nenhum, quem vai cuida dela quando ela for veia qui nem nois?

— Provavelmente ela morre antes de envelhecer, mãe. — disse Lícia rabugenta – Essa é a sina dos comandantes do exército.

— Para de augorar tua irma, Quengalícia! — era raro a mãe ralhar uma de suas favoritas, mas dona Mariana odiava falar de morte, principalmente no Véu de Inverno – Num fala de morte que isso atrai a bixa!

Lícia resmungou mais alguma coisa e depois se calou. O senhor Sebastian ainda praguejou mais um pouco, mas também ficou calado. As discussões voltaram para outras coisas por algum tempo, mas logo que dona Mariana se retirou, após a sobremesa, os irmãos começaram a questionar quanto tempo Lina ficaria no cago, antes que acabasse como seu antecessor, o Grão Lorde Fordragon. Lina já estava perdendo a paciência e se armando para a briga, quando a mão calejada de seu pai pegou em seu braço.

— Fia, me ajudi a subi? — pediu – Quero me deitá com tua mãe.

Preferindo mil vezes a companhia do pai, Lina ajudou o velho senhor a se levantar e a subir as escadas devagar. Enquanto o velho galgava degrau por degrau, a comandante se lembrou do que Arshe dissera sobre seu pai, do quanto sentia a falta dele. E ali, olhando o quão frágil havia se tornado o homem que antes carregava barris de vinho nas costas e agora mal conseguia subir um degrau, ela se deu conta que talvez o momento de ela se despedir dele não estivesse longe. Sem conseguir se controlar, as lágrimas começaram a cair e seu pai a encarou, preocupado.

— Ta sintindu algo, minina?

— Não pai. — ela limpou as lágrimas – Só estou preocupada com o senhor.

O pai então entendeu. Deu uma batidinha no braço da filha e falou:

— Ainda vô vivê muito minina. Quero vê seur minino ainda.

— Como? — perguntou surpresa, sem conseguir acreditar no que ouvia.

— Seur minino. Seur fí. — e como ela ainda estava espantada, explicou — Oxi, eu digo aquerla coisa, mas sei que tu vai um dia se amarra cum alguém. — o velho deu uma risada – Tu é bunita, mas tem o gênio dos cão, como eu, por isso tá demoranu. Mar acha. E tinhosa como tu é, vai ser um omi bão e bunito, pras suas irmãs ficarem si ruendu!

Sem se conter, Lina caiu na risada e abraçou seu pai. Ele parecia bem menor do que no ano anterior, e ela se perguntou se era o jeito encurvado com que ele andava agora.

— Um dia quem sabe pai. Um dia. — disse com o rosto no ombro dele.

— Vai sim. E queru tá vivo pra vê isso.

Eles chegaram até a porta do quarto e o velho homem deu um beijo na testa da filha e depois alisou seu rosto com carinho.

— Durma im paz fia, que a Luz ti guardi.

— Você também pai.

E depois que ele entrou e Lina virou as costas, ela respirou fundo e engoliu as lágrimas. Seu pai ia viver muito ainda. Não era momento de chorar. Era momento de descer de volta para sala e fazer inveja para todas as irmãs de sua amizade com Arshe e de como agora tomava até chá da tarde na bastilha. Afinal, porque esperar para começar a fazer suas irmãs se roerem de inveja?

************************

O chão da sala de jantar da Torre Solfúria estava coberta de papéis coloridos rasgados, frutos do trabalho intensivo de Karen e Saba em abrir os presentes.

Todos os presentes.

Até os que não eram delas.

No meio do mar de papéis, as macotes de Kassyeh corriam feito loucas, espalhando ainda mais a bagunça e Galinha, que agora não precisava mais de um cesto, corria junto com eles. O pequeno falcostruz chegou a pegar uma das fitas que rolava no chão, pensando ser uma minhoca e tentou comê-lo. Kassyeh correu para evitar que o bicho se engasgasse e Galinha aprendeu sua lição. Nada de fitas coloridas.

Tudo começara assim que bateu a meia-noite. As meninas olharam com ânsia para Kassyeh, que sorriu e disse:

— Tudo bem, já podem abrir.

Embalagens voaram enquanto as meninas trucidavam todo papel colorido que guardavam os presentes e as mascotes foram à loucura. Karen adorou cada um dos que ganhou, desde os brinquedos, até os polidores de armadura. Como a futura rainha recebera presentes não só da família, mas de muitos nobres, Kassyeh teve o cuidado de comprar outros presentes para Saba, para que as duas recebessem a mesma quantidade. Porém, chegou um momento em que elas abriam tão rápido os pacotes, que nem sabia se era de uma ou da outra e a maga chegou a conclusão que não teria feito diferença: no final, elas repartiriam os presentes que ganharam das outras pessoas.

Depois de abrirem todos os presentes e agradecerem, as duas ficaram olhando com curiosidade para os presentes que ainda estavam debaixo da árvore. Eram os de Ash e Vivithi. A jovem caçadora viu os olhinhos de sua irmã menor brilhando e convidou:

— Querem abrir os meus comigo, Karen e Saba?

Ela não precisou repetir o convite e quase não precisou abrir nenhum. As meninas fizeram o serviço. Ash acabou caindo na risada, pois cada vez que abriam um, as duas faziam caras e bocas de satisfação como se o presente fosse para elas e então o entregavam para a dona. Depois, só sobraram os de Vivithi e Karen olhou em volta, procurando-a.

— Cadê a Vivi? Ela não vai abrir os presentes?

Foi quando todos sentiram a falta da caçadora. Lor’themar, mal acreditando que a sobrinha tinha realmente colocado em prática o plano, ficou calado, na esperança que ninguém o perguntasse nada. Ledo engano.

— Temma! — Karen aportou do seu lado junto com Saba – Cadê a Vivi?

— Foi visitar um amigo. — Lor’themar disse a primeira coisa que passou em sua cabeça – Ela deve estar voltando logo.

Luxuriah e Tewdric se entreolharam. Os dois pensaram a mesma coisa e agora se perguntavam se podia ser verdade.

— Mas e os presentes?! — insistiu Saba.

— Ela abre quando chegar.

As meninas ficaram decepcionadas.

— Acho que já está na hora de dormir. — avisou Kassyeh – Vocês duas, já pra cima!

Sob muitos protestos, as duas subiram, com Galinha em seus calcanhares. Kassyeh e Tewdric se retiraram também, pois a maga queria ter a certeza que as meninas iriam direto para a cama. Como esse era um trabalho árduo, ela sabia que não voltaria para sala. Se despediu de todos e subiu. Tewdric deu uma última olhada na sala e falou com um sorriso imenso:

— Lulu, amanhã você vai ter uma surpresa!!

— Lulu é seu rabo, Tewdric! — respondeu – E que surpresa é essa que você fala faz tempo?

O orc nada falou, apenas riu mais ainda. Depois, deu uma olhada em Lor’themar, olhou novamente para Luxuriah e picou o olho antes de subir. Ela entendera o recado. Tão logo deixou de ouvir o barulho das meninas, a elfa olhou diretamente para Lor’themar e o lorde regente se encolheu um pouco.

— Quem foi esse amigo que a Vivithi foi visitar? — perguntou sem rodeios.

O elfo realmente não queria ser metido nisso, mas não viu outra saída a não ser responder:

— Você sabe. — a resposta soou um pouco ríspida e Rommath olhou feio para ele.

Luxuriah ficou surpresa com aquilo, sem sombra de dúvidas. Vivithi teria ido por livre e espontânea vontade ver Aethas? O que a fez mudar de ideia? E como seria a reação de seu tio? A caçadora estava louca para fazer muitas perguntas, mas sabia que Lor’themar não teria como responder nenhuma.

— De quem vocês estão falando? — quis saber Ash – Vivithi está envolvida com alguém, é isso?

— Longa história Ash. — disse Luxuriah – Muito longa. — a elfa bocejou com vontade e se espreguiçou – Acho que por hoje já chega. Vamos Rommath?

— Vamos.

Ele a ajudou a se levantar e Luxuriah encaminhou-se para a escada.

— Não vai subir, Ash? — perguntou a elfa.

Ash tinha muita coisa que ainda queria fazer aquela noite. Olhou para Lor’themar e depois para Kayliel antes de se levantar.

— Claro. Irei. Boa noite. — disse olhando para os elfos que ficaram.

Os três subiram e restou apenas Lor’themar e Kayliel. O lorde regente olhou longamente para o sacerdote, se perguntando o que ele escondia por trás daquela palidez estranha. Era claro que aquele jovem elfo estava escondendo alguma coisa e o outro se perguntava constantemente o que seria. O mais provável é que fosse a humana, mas e se fosse outra coisa. Se fosse outra pessoa? Lor’themar apertou a poltrona com força, não querendo pensar naquilo.

Kayliel percebeu que estava sendo observado, mas não se importou. Continuou sentado placidamente no mesmo lugar que ocupara quando voltou da conversa com Ash. Lembrou do que ela pediu e se perguntou se seria capaz de dar aquilo a ela. Queria ser. Ash era alguém que Kayliel apreciava e não queria decepcioná-la.

— Ouvi dizer que você estava doente. — Lor’themar começou a falar, sem se conter – O que você tinha?

— Virose. — respondeu calmamente o sacerdote – Peguei em Dalaran.

— Dalaran costuma trazer coisas nem sempre agradáveis. — comentou despretensiosamente.

— É verdade. — Kayliel sorriu – Mas foi uma excelente viagem, me fez repensar algumas coisas.

— Mesmo? — se surpreendeu o outro – Que tipo de coisas?

Kayliel se ajeitou na poltrona, um pouco incomodado. Depois, se inclinou para a frente e cruzou as mãos obre o colo.

— Sabe Lor’themar foi bom você me perguntar isso, pois há algo que eu quero falar com você. — ele deu uma pausa, indeciso por um momento e depois perguntou – Mas, será que você poderia manter segredo? Não gostaria que Rommath soubesse.

Um arrepiou percorreu a espinha de Lor’themar. Será que Kayliel ia confessar o que estava pensando? Se fizesse isso era um burro, pois, por mais que Karen fosse a herdeira do trono, Lor’themar era o lorde regente até a coroação da menina. Dependendo do que o sacerdote lhe dissesse, poderia condená-lo por traição.

— Não contarei nada. — garantiu o lorde regente, mas estava mentindo – Pode falar.

Kayliel pareceu hesitar um pouco e então começou:

— Eu fui a Dalaran na esperança de ver Arshe.

Era exatamente o que Lor’themar desconfiava. Porém, para não assustar Kayliel em sua confissão, perguntou:

— E quem é Arshe?

Kayliel caiu na risada.

— Ora Lor’themar, para que tentar disfarçar? Eu sei que você sabe. Nada de joguinhos, certo? Meu assunto é sério.

O lorde regente deu um sorriso de canto de boca e assentiu:

— Certo, sem jogos. Mas me diga, você a viu?

— Vi. — confirmou – Apenas de relance. Não cheguei a falar com ela… — ele suspirou – Mas quer saber? Foi a melhor coisa que me aconteceu. Eu não senti nada quando a vi. Nada. Foi… Libertador! — o elfo estava rindo ao final da frase.

Sinceramente surpreso com aquele comportamento. Lor’themar se perguntou se ele, Vivithi e Rommath não tinha supervalorizado a carta ao Kirin Tor e apostado tanto em uma recaída de Kayliel. Aparentemente o elfo, apesar do deslize, estava muito bem. Sem saber porque, aquele fato o deixou extremamente incomodado.

— Fico feliz em saber disso, Kayliel. — disse Lor’themar – Você sabe que tenho muitas ressalvas com aquela raça. Não apenas eu. As princesas e seu irmão também. É bom saber que não há anda para nos preocuparmos.

— Não, não há mesmo! — garantiu ele – Eu estava conversando justamente sobre isso com Ash mais cedo.

— Ah! — ele exclamou – Era sobre isso que vocês conversavam?

Kayliel fez que sim com a cabeça.

— Eu precisava desabafar. Queria que alguém soubesse o quão bem eu me sentia de me livrar de tudo aquilo. Mas, obviamente, não podia fazer com meu irmão. Ele… Bem, você sabe como é ele. Então, contei a Ash.

— E o que Ash achou disso?

Como a irmã mais velha, Ash odiava muito os humanos. A princesa, com certeza, reprovou a atitude de Kayliel. Talvez estivesse até com raiva dele. Afinal, depois que eles voltaram da varanda já não sentaram juntos e não haviam trocado nenhuma palavra.

— Ela ficou chateada no início. — revelou Kayliel para alegria de Lor’themar – Mas depois… Ela foi bem compreensiva. — ele sorriu – A Ash é um amor de pessoa… Nem consigo acreditar o quanto ela me apoiou sabe? Eu estava precisando de alguém assim, que me entendesse… Quem diria, foi logo a Ash.

— Lady Ashrial tem um coração bom. — disse Lor’themar apertando as mãos.

— Tem sim! E deve ser por isso que você gosta dela, não é?

Lor’themar tomou um susto quando ouviu isso. Quem tinha falado algo assim para Kayliel? O sacerdote agora o encarava, ansioso. Seria uma piada, uma brincadeira?

— Tenho muito respeito por Lady Ashrial. — disse mecanicamente – E é só.

Por um momento, Kayliel pareceu muito surpreso. Depois, ele deu uma risada e se recostou na poltrona. Lor’themar franziu a testa, estranhando a reação.

— Então… Você não tem nenhum interesse romântico em Ash? — insistiu o elfo.

— Não. — respondeu Lor’themar ficando com ainda mais raiva.

— Nossa, que bom! Estou aliviado. — ele pôs a mão no peito – Então não há nenhum problema em eu investir nela, não é? Assim, como você sabe, temos muita afinidade e-

Kayliel não conseguiu terminar a frase. Em poucos segundos, o enorme elfo estava praticamente em cima dele, segurando suas vestes com força e o sacudindo com vigor.

— Fique longe dela, Kayliel! — Lor’themar gritou – Fique longe!

— Mas você disse que não-

— Isso não é da sua conta!

— Mas é da minha. — disse Ash tranquilamente atrás de Lor’themar.

O lorde regente ficou sem ação por um momento. Ainda segurando Kayliel pelo colarinho, virou-se lentamente na direção da voz. Ash estava no final da escada, o encarando com seriedade e censura.

— Solte Kayliel. — ordenou ela.

Lor’themar soltou. Kayliel caiu no chão com um baque e soltou um palavrão. Depois, ele levantou-se, ajeitou as vestes e se encaminhou tranquilamente para a escada. Ao passar por Ash, o sacerdote deu um tapinha no ombro da moça.

— Pronto, irmãzinha. — e riu – Foi melhor do que o esperado, não é?

Ash sorriu de volta.

— Verdade. Obrigada.

— Ah, você sabe que pode contar comigo. — ele ainda acenou alegremente para Lor’themar antes de subir as escadas. Apesar do sofrimento dos últimos dias, Kayliel agora estava muito feliz. Ash resolveria o problema dela. Já bastava ele de sofredor naquela família.

O cenário que o sacerdote deixou para trás era, no mínimo, tenso. Ash, de braços cruzados, se aproximou de Lor’themar, que se sentiu acuado pela primeira vez depois de séculos.

— Vocês dois… — começou ele confuso – Isso foi… Armado?

— Foi. — disse Ash tranquilamente – Ideia minha.

O elfo não conseguia acreditar no que ouvia.

— Então, Kayliel…

— Não viu humana nenhuma em Dalaran. — mentiu Ash. Porém, ela mentia muito melhor agora e Lor’themar, na situação que estava, jamais perceberia a mentira.

— Mas… — o elfo tentava organizar seus pensamentos, mas a presença de Ash ali e a certeza que ela vira e ouvira tudo pareceu ter esvaziado seu cérebro – Por quê?

— Porque quero respostas! — a princesa o encarou antes de exigir – Vamos, comece a falar!

— Pequena Ash, eu-

— Nada de ‘pequena Ash’! — exclamou irritada – Você me deve explicações Lor’themar e acho bom começar agora!

Ele passou a mão pelos cabelos, agoniado.

— Ash, eu…. O que exatamente você quer que eu explique? — perguntou angustiado.

— Quer a lista? Pois bem, vamos começar. — ela respirou fundo. Ela descruzou os braços e levantou um dedo – Primeiro, você veio todo preocupado comigo, com meu bem-estar lá na mansão no casamento da Kass. Você me beijou. Depois disso você começou a agir como se eu tivesse uma doença contagiosa!

— Ash, eu n- — mas foi logo interrompido.

— Calado! — ela não o deixaria falar agora – Eu não terminei! — calou-se para ver se ele falaria alguma coisa, mas Lor’themar não ousou abrir a boca. Então levantou outro dedo – Continuando, você ficou frio comigo, como se eu tivesse feito algo de muito errado e ao mesmo tempo ficava lançando olhares para mim e para o Kayliel.- levantou um terceiro dedo — Depois, todos ficavam me falando ‘Lor’themar gosta de você’ ‘Lor’themar está com ciúme’, mas que saber, eu nunca vi isso! Nunca! Então das duas uma, ou todos estão enganados ou estão mentindo!

— Nenhum dos dois… — murmurou – Eles estavam certos…

— Mas não foi isso que você acabou de dizer pro Kayliel! Você disse que não sentia nada por mim! Eu ouvi!

Profundamente arrependido, Lor’themar a encarou. Ash continuou de pé, com o olhar acusador. Ela estava tão furiosa que se espantara que ainda não tinha pego os enfeites da sala e começado jogar nele. Mas ficara apenas ali, o encarando com voracidade e sua semelhança com Luxuriah nunca foi tão nítida. Lor’themar também via ali seu velho amigo Dhomm e sabia muito bem que quando alguém ligava a fúria daquela família, ela só se aplacava quando eles conseguiam o que queriam.

— Ash…- começou — Eu queria que você entendesse que-

— Estou cansada de tentar entender você, Lor’themar. — gritou – E você não tem mostrado respeito nenhum pelos meus sentimentos! — acusou deixando-o perplexo – Não faça essa cara, diferente de você nunca escondi o que eu sinto. Mas já que estamos colocando em pratos limpos, vou ser clara: eu gosto de você. Estou apaixonada por você. Sempre estive, desde que você me tirou do porão quando eu era criança! E eu quero ficar com você! Mas você só tem me deixado frustrada e angustiada! E eu não quero isso! Não quero sofrer com a minha avó e como a Lux sofreu! Eu quero algo bom e legal, como a Kass tem com o Ted! E se você não pode me dar isso, não tem o direito de ameaçar quem quer!

— Então, você e o Kayliel…

— Não temos nada, mas poderíamos! E se não for ele, será outro! Sabe porque? Porque eu me recuso a ficar sofrendo por você! — ela deu uma pausa, respirou fundo e continuou – Por isso, quero logo que você me diga o que sente. Diga logo o que você quer de mim e vamos por um ponto final dessa situação.

Lor’themar não conseguia acreditar que tinha se posto naquela situação. Sim, tinha consciência que a culpa era sua. Ash não estaria ali, em frente a ele, furiosa e magoada se ele tivesse sido sincero desde o começo. Quando se tornara tão covarde assim? Porém, queria poder explicar a Ash suas dúvidas e ressalvas.

— Ash… — esperou para ver se ela diria alguma coisa, mas ela permaneceu calada – Eu sei que não fui a pessoa mais sincera do mundo, mas… Eu tenho meus motivos. Eu… Não quero te magoar.

— Tarde demais, você já fez isso. — avisou.

Aquilo foi como um soco no estômago dele.

— Eu entendo… — murmurou – Mas veja bem, eu sempre fui muito amigo do seu pai. Eu… Cada vez que eu olho para você… Que eu desejo você… Eu fico imaginando que ele me odiara por isso…

— Mais do que o odiaria por ferir meus sentimentos? — retrucou.

Ele não tinha resposta para isso.

Ash o encarou por um tempo, se odiando por tudo que sentia por ele. Queria muito gritar mais, falar mais, exigir mais, só que também estava cansada.

— Você tem essa noite para pensar. — disse ela apontando o dedo para ele – Se gosta de mim o suficiente para ficar comigo ou se vai dar para trás. E vou lhe avisar: se sua resposta for a segunda, não vou admitir que você se meta na minha vida nunca mais. Se quiser continuar como meu professor, ótimo. Se não, não vou me importar também. Mas pense bem, Lor’themar. Por que eu já me decidi. Espero que você faça o mesmo. — e deu as costas a ele, subindo as escadas.

Lor’themar ficou observando-a sumir escada acima e se sentou lentamente no sofá. Vivithi estava certa. Alguém se adiantara e decidira por ele. Restava agora saber o que ele faria diante daquilo.

E rezar para a Nascente do Sol para ser a decisão certa.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Comentem!!!!