Herdeiros da Guerra

26 Capítulo XXI – A Resposta (PARTE I)


Notas iniciais
Desculpem a demora!! E aproveitem o capítulo!!!

Capítulo XXI – A Resposta

Doroteya acordou antes do dia raiar. As velas que iluminavam o quarto já tinham se apagado, mas ela pode ver claramente as silhuetas de Lina e Arshe, cada uma em sua cama. Sorriu para a escuridão, se sentindo abençoada de ter aquelas duas ao seu lado. Todavia, naquele momento especificamente, estava satisfeita por estar acordada e sozinha. Assim, podia deixar suas lágrimas de tristeza rolarem livremente, sem precisar preocupar ninguém.

Sonhara com Liam. Fora a primeira vez que sonhara com ele, desde sua morte. Em seu sonho, ele sorria e acenava, distanciando-se dela. Doroteya gritava, implorando que ele não partisse, que pensasse no filho deles, mas Liam apenas navegava ao longe. E então, ela começara a sentir dores e percebeu que Theo ainda estava em sua barriga e queria nascer. E ela tinha que fugir. Em seu sonho perturbador, algo queria devorar seu filho. E foi assim que acordou. Ainda sentindo a dor do abandono, as dores do parto e o medo irracional de algo perseguindo-a. E como estava sozinha na escuridão, chorou.

A solidão fora presente em uma boa parte da vida de Doroteya. Ela nunca soube quem eram seus pais biológicos. Quando bebê, fora abandonada na floresta para morrer e encontrada por uma velha druida que colhia erva. Sempre imaginara o porquê do abandono: talvez fosse a pobreza dos pais, talvez ela fosse pequena e fraca e a tomaram por doente. Nunca saberia ao certo. E a única vez em que falara daquele assunto foi quando perguntou à sua mãe adotiva porque achava que eles haviam feito isso. A senhora apenas comentou:

— Eu jamais poderia imaginar um motivo para tamanha maldade.

O fato era que Doroteya não pensava muito sobre isso. Seu abandono não deixou marcas em seu coração porque, simplesmente, ela não lembrava de seus pais biológicos. E amava sua mãe. Amava-a imensamente. A velha senhora nunca explicou porque escolhera viver sozinha na floresta de Guilneas e a menina nunca perguntou. As duas não precisavam de explicação ou motivos para qualquer coisa. Eram tão ligadas que podiam passar dias sem falar uma palavra, mas sabendo exatamente o que uma queria dizer para a outra. Fora com a mãe que Doroteya aprendera tudo sobre o druidismo e a amar a natureza. Podia não ter herdado o sangue da velha senhora, mas herdara sua compaixão e respeito por todas as coisas vivas, além do profundo senso de dever para com seu povo. E não haviam duas pessoas tão fisicamente diferentes. Enquanto Doroteya era bem pequena, com a pele morena e os cheios cabelos cacheados, sua mãe era uma mulher alta, cujos cabelos vermelhos já estavam desbotados pelo tempo, e cujos olhos azuis podiam transmitir toda a paz que a menina precisava para viver. E quando a noite caia, elas sentavam na varanda, onde a menina ouvia as milhares de histórias da vida de sua mãe, e se admirava do quanto ela podia conhecer o mundo.

Foram felizes.

Por poucos anos.

Com a idade de apenas nove anos, Doroteya se viu novamente sozinha. Sua querida mãe morreu repentinamente, enquanto dormia, findando os dias de cuidados para com a terra que tanto amava. E apesar de estar sempre cuidando dos outros, de receber pessoas para cura e conselhos em sua velha cabana, ninguém fora para seu enterro. E coube à pequena Doroteya preparar o corpo, cavar a sepultura e então se despedir da única pessoa que lhe era querida naquele mundo.

Os dias após a morte de sua mãe não eram nítidos na lembrança da worgenin. Seguia as tarefas de casa mecanicamente, deixando as coisas em ordem, cuidando da horta e do jardim de sua mãe e preparando os remédios como sempre fizera. E foi somente quando alguém bateu à porta em busca de remédio foi que a menina entendeu que a mãe não voltaria mais. Chorou copiosamente enquanto preparava e embalava a poção, diante do olhar atônito de alguém cujo rosto e nome ela não lembrava. Mas foi ali que percebeu o quanto o mundo podia ser injusto.

Os anos passaram. Doroteya nunca saíra da sua floresta. Continuava atendendo os clientes de sua mãe, os mesmos que a ignoraram em sua morte. Alguns deles ainda murmuraram um 'sinto muito' no início, mas a maioria não se comoveu com a pequena garota no meio da floresta. E a pequena garota não cresceu muito em físico, mas nunca permitiu que seu coração fosse diminuído pela maldade das pessoas. Sua mãe não a perdoaria se isso acontecesse.

E quando conheceu Liam… Bem, tentara resistir a esse sentimento com o furor de uma tempestade. Mas acabou sendo vencida pelo sorriso fácil e olhos sinceros do príncipe. Na verdade, Doroteya nunca deixou de lutar naquele relacionamento. Primeiro contra o sentimento, depois contra a culpa e por último contra o rancor que despertara. Não quisera que Liam brigasse com o pai. Tentou se afastar dele quando o rei assim lhe ordenou. O rei não sabia que ela já estava grávida, mas sabia que não faria diferença se soubesse. Por isso partira, disposta a ter seu filho na floresta e lá continuar a viver até o dia de sua morte. Mas Liam fora em sua procura. Liam a persuadira a casar. E se não fosse a relutância da druidesa, teria levado-a em seu cavalo para o castelo, contrariando todos. Talvez devesse ter deixado que ele cometesse aquela loucura. Assim, o rei Greymane teria um neto para sanar a sua dor. Só que havia o dever com seu povo. Não partiria o reino que sua mãe amara daquela forma. E se manteve naquela situação por longos anos.

Theodore sanou sua solidão. Fizera ela mesma o parto na mesma cama que sua mãe morrera anos antes. Liam só soube do nascimento do filho meses depois, quando conseguiu sair da vigilância de seu pai e os visitara. Quando ele lhe perguntara, aflito, como tinha sido o parto, ela dissera que uma vizinha próxima ajudara.

Sua única mentira em toda a vida.

E assim viveram por algum tempo. Doroteya se dedicou totalmente ao filho, aos seus remédios e à floresta. Sabia que essa teria sido sua vida para sempre, se os renegados não tivessem atacado ou se a maldição dos worgens não tivesse se alastrado. A verdade, e ela sabia que se tivesse dito o que pensava teria magoado muito Liam, era que não acreditara nunca que acabaria sendo sua esposa oficialmente. Não que duvidasse do amor de Liam, jamais. Mas que duvidava que algum dia o rei Greymane a aceitasse. E caso ele viesse a morrer e Liam virasse rei, quem aceitaria uma enjeitada criada no meio da floresta como rainha? Não. Liam acabaria sendo forçado a deixá-la e casar com outra. Por isso ficava feliz na floresta. Ela e Theo desfrutavam pouco da presença dele, mas era suficiente.

Theo tinha quase dois anos quando a dinâmica de suas vidas deu uma guinada. Era uma manhã fria, quando Doroteya encontrou Rubrarosa. Estava colhendo cogumelos, com seu filho bem amarrado às suas costas (o que doía bastante, Theo estava imenso), quando viu pela primeira vez um worgen. Ela estava caída, coberta de ferimentos, dentro do rio. Doroteya se aproximou rapidamente, pensando ser um animal ferido, mas era uma worgenin. Na época, claro, não sabia que era, mas já ouvira estórias de metamorfos. Não soube porque, mas não teve medo. Se transformou em um cervo, e a levou para casa, cuidou de suas feridas e esperou que ela se recuperasse. Fora o corpo mais estranho que Doroteya já cuidara, pois a criatura estava fisiologicamente morta. Sem pulso. Sem respiração. Mas se mexia e gemia de dor. E suas curas, graças aos espíritos, funcionara. Então, apenas esperou.

Rubrarosa acordou na manhã seguinte. Doroteya estava com Theo no colo, dando o café da manhã ao menino, quando a worgenin a olhou, confusa. Virou a cabeça, analisando o ambiente e depois olhou novamente para Doroteya, que sorriu e perguntou:

— Bom dia. Está melhor?

— Você é louca? — foi a resposta.

A voz dela era deformada, como se falasse dentro de uma garrafa. E percebeu que seus olhos eram sobrenaturalmente azuis.

— Por que acha isso? — perguntou a druidesa calmamente.

— Você sabe o que sou? — perguntou a outra.

— Sei. Uma pessoa que precisava de minha ajuda. E ajudei.

Rubrarosa a olhou, incrédula e então começou a chorar. Theo, vendo o choro, saiu do colo da mãe, apanhou um lenço e foi até ela, com suas perninhas gorduchas e pequenas, sorriu e entregou o lenço, dizendo em sua vozinha infantil:

— Chole nam, tia.

O choro aumentou.

Quando Rubrarosa se acalmou, contou sua história. Morara ali, próximo a floresta, há algum tempo. Decidira estudar magia e se envolvera com um mago chamado Arugal, que fora responsável por invocar uma fera conhecida como worgens. Ela fora transformada em um. E não fora apenas isso. Havia algo lá fora, chamado Flagelo, que Doroteya nunca ouvira falar. Eram mortos-vivos, comandados por uma criatura chamara Lich Rei, que já fora humano um dia. Rubrarosa fora transformada em worgenin, morrera por isso e fora trazida de volta como algo que chamava de Cavaleiro da Morte. Em dado momento, conseguira se livrar do domínio do Lich Rei e decidira voltar para casa e alertar seu povo. Todavia seu pai não a reconheceu e atacou. E mesmo que ela tivesse berrado, aos gritos sua história, ele e os homens da vila quase a haviam matado novamente.

— Todos na vila me viraram as costas – a voz distorcida também estava embargada – Minha mãe, meus irmãos, minha namorada… Todos. — ela olhou longamente para Doroteya – Eu poderia tê-los matado facilmente. — revelou – Mas eu não seria capaz de fazer isso.

Apesar da afirmação, Doroteya sentou que havia muito ressentimento em suas palavras.

— Você pode ficar aqui. — ofereceu – Não temos muito, mas você não ficará sozinha.

Na época Doroteya não sabia como funcionava a mente de um worgen. Esses serem eram como os lobos com quem dividiam a aparência. Elegiam um líder para sua matilha e os seguia até a morte, independente do que acontecesse. Rubrarosa nunca tivera um verdadeiro líder. O controle do Lich Rei era artificial e quando enfraqueceu ela se libertou. Seu pai ou pessoas queridas a maltrataram. Jamais conseguiria seguir alguém que a odiava tanto. Naquele momento, contudo, seus instintos lhe disseram que ali estava sua líder. O instinto lupino de Rubrarosa elegera Doroteya para liderar. Sua lealdade a druidesa surgiu naquele momento e perseveraria até aquele momento. Rubrarosa estava, a partir daquele momento, disposta a lutar e morrer por aquela que salvara sua vida e sua alma e por seu filhote. Então, aceitou e se tornou a primeira amiga que Doroteya teve.

Qualquer outra pessoa pensaria que era loucura dar abrigo a uma worgenin cavaleira da Morte, alguém duplamente amaldiçoado, mas Doroteya o fez. Não tinha consciência do sentimento da outra por ela e Theo, mas talvez já o sentisse. E fora por causa de sua nova amiga que discutiu com Liam quando ele a visitara após a chegada da cavaleira da morte.

Sua primeira e última briga com ele.

— Você não pode deixar ela aqui. — dissera em particular depois de conhecer a worgenin e ouvir sua história – Ela é um perigo para você e para Theodore.

— Não, não é. — disse resoluta – Não vou deixar de ajudar uma pessoa por coisas que não são culpa delas.

— Mas-

— Sem “mas” Liam. Você a ouviu. Arugal convocou bestas a mando de seu pai. E agora elas estão por aí, sendo até mesmo usada por esse tal de Flagelo. — e estreitando os olhos, completou – Algo que você sabia e nunca me falou.

— Eu me incomodo com a presença dela aqui. — disse, ignorando a acusação.

Doroteya então revidou:

— E não sei porque se importa tanto. Você nem mesmo mora aqui.

Claro que se arrependeu depois. Não queria ter tocado naquela ferida. Porém, não queria que Rubra rosa se fosse. E depois que Liam voltou para casa, dizendo que deixaria ela se acalmar um pouco e depois conversavam, Rubrarosa anunciara que ia embora.

— Não quero atrapalhar sua vida.

— Você não atrapalha. — Doroteya contestou, com tristeza – E se é sobre o que Liam falou…

— Ele não deixa de ter razão. — a cavaleira sorriu tristemente – Nem eu mesma sei por quanto tempo me manterei são. -E melhor para vocês dois. — e apontou para Theo, que dormia.

— Rosa… — começou a worgenin.

— Não irei para longe. — avisou – Ficarei pela floresta. Impedirei worgens enlouquecidos de atacar você ou Theo. Virei sempre que tiver um ferimento para curar ou quando quiser comer sua torta de batata. — e sorriu.

E a amiga se tornou mais uma pessoa por quem Doroteya esperava. Percebeu que as visitas dela era mais constantes que as de Liam, mas nada falou. Rubrarosa também tinha o cuidado de nunca vir quando o príncipe estava lá. E fora ela quem alertara a Doroteya do aumento dos worgens e quem a impeliu a voltar para a cidade. Mesmo tendo se recusado a lutar por um povo que abandonara, Rubrarosa cuidara de Theo quando Doroteya decidira lutar. Liam entendeu depois a importância da worgenin quando viu sua esposa na mesma situação. E Doroteya pode ver os dois fazerem as pazes antes da morte do príncipe e ficara muito feliz. Lembrava muito bem a conversa dos dois:

— Quando isso tudo terminar, – dissera Rubrarosa – assuma Doroteya como esposa e mande seu pai pastar.

Liam rira e respondera:

— Farei isso. É uma promessa. E você será bem-vinda no Solário Greymane sempre que quiser.

Liam morrera no dia seguinte.

Doroteya sentou-se na cama e puxou os joelhos até encostar a cabeça neles. Liam morrera. Nunca aquela frase lhe parecera tão real. Ele estava morto. Jamais voltaria. Jamais cumpriria a promessa.

— Doro?

A voz rouca de Lina a avisou que a comandante acabara de acordar. E não era pra menos, a luz do sol já entrava no quarto, mostrando que o dia já havia raiado. Perdida em suas lembranças, não percebera. E agora, Lina olhava suas lágrimas, confusa e ao mesmo tempo preocupada.

— O que aconteceu? — perguntou ainda sonolenta.

Doroteya sacudiu a cabeça.

— Não é nada… Apenas… Sonhei com o Liam… — ela enxugou as lágrimas – Me senti tão… Sozinha… Sei lá… Besteira minha.

Lina a encarou por um tempo e depois se levantou da cama. A comandante estava completamente nua, pois dizia que assim era melhor de dormir. Caminhou até a cama de Doroteya e sentou-se lá.

— Doro – começou – se eu dissesse que lhe entendo, eu mentiria. Apesar de ser militar e ter visto muitas mortes, nunca uma pessoa tão próxima a mim morreu. — ela deu uma pausa e se corrigiu – Houve Fordragon. Eu o admirava muito e ele foi meu mentor. Ainda assim, é diferente. Você amava o Liam. Ainda ama. Vocês casaram, tiveram um filho. Não consigo sequer imaginar a sua dor. Por isso, me sentiria uma hipócrita em tentar te consolar. Então só há uma coisa que posso fazer. — ela colocou a mão no ombro de Doroteya – Traremos seu filho amanhã. Vocês ficarão lá em casa e reerguerão a vida de vocês. E espero que assim, suas lágrimas sequem.

Doroteya sorria, mas também chorava. Era choro de alegria. Abraçou Lina com força, agradecendo a todas as forças da natureza por ter conhecido Lina.

— Lina? Doro? — agora era a vez de Arshe está acordada e as olhando, surpresa – Vocês estão se abraçando peladas?! — sua voz estava horrorizada.

Lina deu uma gargalhada e se levantou:

— Eu estou pelada abraçando a Doro. Por quê? Está com ciúmes? — ela riu maliciosamente – Eu abraço você também!

E se jogou pelada em cima da princesa, que começou a dar gritinhos e a rir.

E sem que a comandante soubesse, ela se tornara a líder da matilha para Doroteya naquele momento.

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— Você só pode estar brincando! — gritou Kassyeh – Isso é uma loucura!

Sentada em uma poltrona macia, com uma xícara de chá na mão, Luxuriah desejou ardentemente duas coisas: primeiro, que estivesse tomando um bom vinho; segundo, que sua irmã pudesse ter uma reação mais racional diante do comunicado que acabara de fazer.

Naquela manhã, o sol encontrara uma Luxuriah diferente do dia anterior. Ela estava mais calma, mais controlada e muito, muito mais certa do que o futuro tinha a lhe reservar. E tudo por causa de uma decisão que tomara durante a noite.

Decidira aceitar o pedido de Rommath.

Não fora uma decisão fácil: ela teve que pesar todos os prós e contras daquele passo tão grande em sua vida. Havia muita coisa a considerar. O primeiro e mais importante também era o mais dolorido: ela ainda amava Huaru. Apesar do que acontecera nos últimos dias, de toda sua dor, de toda sua angústia, o tauren ainda estava em seu coração. E não era por menos. Ela caíra de amores por ele muito rápido, verdade, mas ele atingira seu âmago tão intensamente, que duvidava que fosse esquecê-lo na mesma velocidade. E aceitar aquela proposta ainda amando ele, seria desonesto consigo mesma e com Rommath. O único alívio para aquela culpa era saber que não enganaria o Grão-Magíster. Rommath sabia o que se passava em seu coração e não tinha ilusões a respeito dos sentimentos dela.

Havia também, é claro, suas irmãs. Kassyeh jamais aceitaria que ela se cassasse por conveniência. A maga era uma romântica inveterada, que acreditava no amor verdadeiro e todas aquelas bobagens que lera nos livros. Por mais que no momento odiasse Huaru com todas as forças, não concordaria que a irmã jogasse a oportunidade de encontrar ‘a pessoa certa’, casando com alguém só porque ele lhe ofereceu uma saída vantajosa para uma situação difícil. Sim, Kassyeh seria um problema. Quanto a Ashrial… Bem, ela estava muito mudada. Achava que a irmã não se meteria na situação e apoiaria a decisão que Luxuriah tomasse. Mas, e Karensky? O que a futura rainha diria? Luxuriah ficou surpresa consigo mesmo quando descobriu que não imaginava qual seria a reação da irmã menor se resolvesse aceitar o pedido de Rommath. Karen também fora magoada por Huaru. E ficando apenas ela para desempatar o embate das outras duas, o resultado era nebuloso para Luxuriah.

Porém, o que a fez decidir, foi sua pequena Tinuviel.

Deitada em sua casa, com os pequenos sapatinhos de pérolas em cima de seu peito, Luxuriah pensou. E pensou muito. A sociedade élfica estava mudando, mas não na velocidade que ela queria. Mesmo com tudo que acontecera com eles, Tinuviel ainda seria considerada uma bastarda. Ela sofreria com os mesmos comentários maldosos e discriminação que sue pai sofrera? Talvez não com a mesma intensidade. Talvez houvesse um olhar maldoso, um comentário sussurrado… Coisas que, com o tempo, Luxuriah poderia ajudar a sua filha a lidar. O grande problema era outro, que não havia atentado até aquela tarde: Grey. O elfo certamente tomaria aquela criança como sua e apareceria ali exigindo seus direitos. Porém, depois de tudo que ele fizera, Luxuriah não queria ele sequer respirando o mesmo ar que ela e seu bebê. Grey era um elfo esnobe (até mesmo para os padrões de sua raça) e extremamente xenófobo e preconceituoso. Definitivamente não o queria perto de Tinuviel.

E quando cogitou aceitar realmente o pedido de Rommath, viu que só teria vantagens: nada de comentários maldosos, nada de Grey, seu bebê teria um pai amoroso que se dedicaria a ela. E havia uma vantagem para a mamãe também. A libido de Luxuriah subiria até as estrelas com a gravidez, e ter alguém para saciá-la seria perfeito. E Rommath… Ah Rommath, ele era ótimo. Sabia exatamente o que fazer e onde tocá-la. Teria uma gravidez bem provida, com toda certeza.

Então, não havia mais o que pensar. Aceitaria a proposta. Estava claro que era a melhor coisa a fazer.

Daria a resposta a Rommath pela manhã.

Depois disso, dormiu perfeitamente bem e acordou disposta.

Contudo, achou por bem primeiro conversar com as irmãs antes de falar com o futuro noivo. Preferia que o choque e a possível raiva delas precedesse sua conversa com Rommath. Assim, quem sabe, já estaria tudo tranquilo quando o Grão-Magíster chegasse a torre, após receber seu bilhete.

Ledo engano. A raiva que Kassyeh destilava agora depois do anúncio fez Luxuriah perceber que havia subestimado o poder de fogo de sua irmã.

— Você definitivamente não pode fazer isso! — gritava Kassyeh – É uma loucura sem tamanho!

Luxuriah bebeu um gole de seu chá e pousou a xícara no pires.

— Por que é loucura? — perguntou calmamente.

Kassyeh estacou, surpresa com a pergunta da irmã.

— Como assim ‘por que é loucura?”, não é óbvio?!

— Não para mim. — respondeu calmamente Luxuriah.

Então Kassyeh explodiu:

— Vou lhe dizer porque é loucura! Porque você vai casar com um cara que você não ama, apenas porque está magoada com Huaru e assim vai estragar sua vida! É loucura porque você não vai dar um ‘pai’ para sua filha, mas um falso pai que estará lá apenas porque você achou conveniente. — a maga gritava e gesticulava — É loucura porque você vai jogar a oportunidade de achar um amor de verdade ao se ligar a esse elfo! Por isso é loucura!

Ash e Karen olhavam Kassyeh de boca aberta, como se tivessem vendo a explosão de uma completa desconhecida. E talvez fosse verdade. As meninas nunca tinham visto aquele lado de Kassyeh. Aquele lado gutural, irascível e descontrolado. Já Luxuriah, sim, ela sabia o quanto sua irmã poderia ser dura e cruel. E quando estava naquele estado, ninguém podia segurá-la. As coisas que Kassyeh dissera doeram? Sim, doeram. Ela falara com a intenção de machucar. Eram maldosas? Não. A maga apenas estava pensando que as palavras duras eram para o bem de sua irmã. Só que Kassyeh também a conhecia. E quando ela terminou de gritar seus últimos argumentos e encarou a expressão inexpugnável de sua irmã, soube que nenhuma de suas palavras adiantaram.

— Terminou? — perguntou casualmente a mais velha colocando a xícara no descanso ao lado da poltrona.

— Você não pode fazer isso.. — a voz de Kassyeh estava trêmula e seus punhos fechados – Vai ser o maior erro de sua vida… — e se calou.

— Suponho que você terminou agora. — comentou Luxuriah casualmente, levantando-se e pondo-se de frente a irmã – Vamos aos seus argumentos. — ela levantou um dedo – Primeiro: não, Huaru nada tem a ver com minha decisão. Não vou me casar com Rommath na esperança de magoar os sentimentos daquele tauren ou algo assim. Eu não sou uma criança. Eu não casaria por algo tão leviano. Então, não, não é por causa de Huaru. — ela levantou um segundo dedo – Segundo: gostando você ou não, Rommath me ama. Pode ser um amor unilateral, mas não duvido do amor dele por mim. E como ele me ama, também amará meu bebê. Ele não será um falso pai. Ele será o mais verdadeiro e completo pai que essa criança vai ter. — e respirando fundo, mostrou o terceiro dedo – Terceiro: não tenho a menor intenção de me permitir amar alguém de novo. Já dei uma chance ao amor e veja o que aconteceu. Não Kassyeh, não quero encontrar o amor. Quero a tranquilidade do casamento com alguém que me ame e ame minha filha. Deixo o amor para você e para as meninas. Já está mais que provado que ele não é para mim.

Kassyeh a encarou, surpresa demais para proferir qualquer palavra. Abriu a boca, na tentativa de refutar, mas apenas engasgou. Sentiu as lágrimas rolarem por sua face, incrédula que tudo aquilo estivesse acontecendo com sua família.

— Kass, — Luxuriah se aproximou e pôs a mão no ombro dela – eu peço que você me apoie. Eu sei que você não gosta dessa situação, mas eu também não gostei quando você casou com Tewdric, mas, mesmo assim, te apoiei.

— É diferente! — Kassyeh pareceu ter achado sua voz – Eu amo o Tewdric e ele me ama!

— Bem, se é por amor, Rommath me ama. E eu gosto dele.

— Gostar não é o suficiente! — replicou.

Luxuriah respirou fundo.

— Para mim, é.

Kassyeh estava aos prantos e soluçava.

— S-Se é pro causa de Grey… Tewdric dar um j-jeito nele! — e apontou o marido.

— Eu sei. — concordou a outra quando viu o orc pegando o machado – Mas não é só por isso e eu já disse. — cansada, Luxuriah só queria que aquilo acabasse logo. Tirou a mão do ombro da irmã e passou nos cabelos. — Kass, eu…

— Ash! — gritou Kassyeh assustando todas – Ash, diga que você também acha uma loucura!

Ash não queria se meter naquela briga, mas aparentemente já fora arrastada para ela. A jovem olhou de uma irmã para a outra e respirou fundo. Se fosse em outro tempo, teria apoiado Kassyeh. Mas agora conhecia a história da irmã. Sabia que não seria fácil para Lux se envolver com outra pessoa. Um novo amor significaria passar por tudo de novo: contar o segredo, esperar a aceitação, contar sobre a filha, esperar aceitação. E Luxuriah cansara de esperar dos outros. Por isso estava pegando a chance de garantir uma estabilidade sentimental para ela e a sua filha. Luxuriah nunca teria um outro amor, pensou Ash. Pelo menos não um novo amor. Será que Kassyeh não pensava que, com o tempo, Luxuriah poderia aprender a amar Rommath e ser feliz? Bem, ela teria que falar algo. As irmãs a encaravam, esperando uma resposta.

— Não acho uma loucura. — disse por fim – Lux sabe o que é melhor para ela. Se essa é sua decisão, nos resta aceitá-las. – ela deu de ombros – E nada impede da Lux vir a amar Rommath no futuro.

Era difícil dizer qual das irmãs mais velhas ficou surpresa com a fala de Ash. Se Kassyeh, por ver Ash apoiando o que ela achava uma ‘loucura’, ou Lux, pelo fato de Ash considerar a possibilidade de ela vir a se apaixonar por Rommath.

— Eu concordo com a Ash. — falou inesperadamente Karen.

— O quê?! — gritou Kassyeh.

— E não é porque estou magoada com o Huhu, digo, com o Huaru. É porque o que a Ash disse faz sentido. Lux sabe o que é o melhor para ela. E Romrom é fofo, eu acho que logo, logo, a Lux estará doidinha por ele. — e deu uma risadinha.

Kassyeh olhou para Ash e depois para Karen, sem acreditar no que ouvia. E depois, olhou para Tewdric. O marido olhava para o machado e depois para a esposa e limitou-se a dizer:

— Ainda posso matar o elfo, se você quiser.

— Tewdric! — ela chamou com a voz mais aguda que o normal – O que você acha disso tudo?!

— Acho que é melhor eu não achar nada. Aí nem a Lulu nem você vão querer me matar. Mas posso sair e caçar o elfo, se você se sentir melhor.

Kassyeh deu um grito de frustração e bateu o pé. Tewdric se encolheu. A experiência do orc lhe dizia que eles ficariam vários dias sem tentar fazer bebê. Ele suspirou, triste.

Até então, Aethas apenas observava o desenrolar dos fatos. Como tio, ele tinha a mesma opinião que Kassyeh. Como Arquimago e líder dos Fendessol, concordava com Luxuriah. Kassyeh ainda não tinha visto o impacto do que ser princesa teria em sua vida, mas Luxuriah sim. Afinal, a maga se casara antes de tudo aquilo explodir; duvidava que qualquer elfo que quisesse manter a cabeça sobre os ombros sugerisse o fim do casamento. Já Luxuriah, encararia uma gravidez sozinha, em meio a um povo ainda conservador, e sendo membro da nobreza. Como elas não conviveram com a sociedade antes de tudo ser destruído, não tinham como ter ideia do problema que seria, exceto Luxuriah, que ouvira muitas das histórias de seu pai.

Poderia sua sobrinha mais velha encarar toda a sociedade élfica e criar a filha sozinha? Lógico que sim. Lady Luelly fizera isso. E não duvidava que ela o faria, se não fosse Huaru. O abandono do tauren exauriu todas as forças daquela menina, e duvidava que ela pudesse empreender qualquer batalha emocional por um bom tempo. Então, simplesmente escolhera o caminho mais fácil e simples, onde poderia se aquietar até a dor ter passado: um casamento com alguém que nunca escondeu que a amava e que estava disposto a ser o pai de sua criança.

Todavia, como explicar aquilo para uma revoltada Kassyeh?

Simples: não havia como. Da mesma forma que seu pai, Kassyeh não seria convencida com argumentos. Apenas quando visse com seus próprios olhos. Era um dos poucos traços da personalidade de Dhomm na menina. E porque tinha que ser justamente o pior dele?

Aethas, então, se levantou. Todos olharam para ele, como se pela primeira vez tivesse notado sua presença. Kassyeh se acalmou e seus olhos brilharam de alegria: achava que tinha finalmente achado um aliado.

— Kass. — começou ele, triste porque daquela vez não ficaria do lado de sua sobrinha favorita – Parte de mim concorda com você. A outra parte, também vê o lado da Lux. — e vendo o sorriso morrer no rosto dela, apressou-se em dizer – Quero que você pense, por um momento, não no que sua irmã vai perder com esse casamento e sim o que ela vai ganhar. Lembre, que ela sempre ficou ao seu lado, apesar de tudo. E tudo que ela quer nesse momento, é sua compreensão e apoio.

A fúria de Kassyeh murchou. Ela olhou para a irmã, que agora estava com lágrimas nos olhos e com os lábios comprimidos. Seus olhos foram até sua barriga e a maga percebeu o estresse que deveria sentir o bebê com a aquela confusão. Respirou fundo, com as lágrimas ainda brilhando nos olhos, mas não estava pronta ainda para aceitar tudo. Por isso, murmurou:

— Preciso de um tempo.

E saiu intempestivamente porta afora.

Luxuriah sentiu a tensão dos ombros se esvaindo e as lágrimas rolarem. Aethas se adiantou e a abraçou.

— Achei que você fosse ficar do lado dela. — murmurou a elfa.

— Como eu disse, concordo em parte com ela e em parte com você. — Aethas apertou mais o abraço – Mas tudo que eu quero no momento é que você fique calma e tranquila. Por causa do bebê.

Ela apertou o tio um pouco mais, e depois se afastou. Olhou para as irmãs e para Tewdric e fez um sinal querendo um abraço deles também. Karen correu e agarrou a irmã, sendo seguida por Ash e, por último, por Tewdric.

— Estamos do seu lado. — disse Ash.

— Para o que você precisar. — completou Karen.

— A Kass vai me deixar por causa disso? — perguntou Tewdric, um pouco apreensivo.

Luxuriah riu alto.

— Ah, Tewdric, só você para me fazer rir agora. — ela apertou os três, com força – Claro que não vai lhe deixar. Talvez vocês passem alguns dias sem tentar encomendar um bebê, mas acho que nada mais que isso. — e soltando-os, limpou as lágrimas. — Mas você devia ir atrás dela agora.

— Sim, sim, tô indo! — disse ele antes de sair correndo.

E enquanto o orc desaparecia porta afora, uma serva entrou, fez uma reverência e avisou:

— O Grão-Magíster já chegou, alteza. Levei-o até o terraço, como a senhora requisitou.

— Ótimo. Obrigada. — e olhando para as irmãs, pediu – Só um minuto, meninas. — e saiu.

Tewdric já tinha sumido de vista e não havia sinal de Kassyeh. Bem, pelo menos o pior já havia passado.

Rommath a esperava no terraço da Torre Solfúria. Ele estava de costas, olhando o bosque lá fora, quando ela entrou. Luxuriah parou um pouco na porta, dando-se um momento para observar o mago. Ela sempre achara Rommath bonito, desde que era adolescente. Depois que passara da fase de achar o Príncipe Kael’thas irresistível, ela voltara seus olhos para o sisudo mago que sempre o acompanhava. E quando se tornou mais velha e aquele elfo de braços fortes, olhar penetrante e voz sedosa mostrou interesse por ela, foi uma grata surpresa. Na época, Luxuriah estava cansada de tentar fazer sexo e não gostar daquilo. Apesar de saber que era necessário tentar, ela odiava cada vez que alguém passava as mãos em seu corpo. Com Rommath foi diferente. Ele não tentara levá-la para cama logo que eles se encontraram a primeira vez. Não, ele quis conhecê-la. Perguntou sobre o que ela gostava, o que não gostava e descobriu que ambos odiavam os humanos com a mesma intensidade. Desde o começo tivera afinidade com Rommath e isso era um fato incontestável. Talvez, se não estivesse tão machucada, com a alma tão despedaçada, poderia ter sim, se apaixonado por ele desde o começo. Por que, quando ele a tocou, quando ele a beijou, não houve nojo. Não. Houve prazer. Pela primeira vez.

“Se eu não estivesse tão machucada….” se viu pensando de novo.

Mas aquilo era passado. E estava na hora de deixar o passado para trás. Apesar de quem mesmo agora com tudo que acontecera, a mera visão dele ainda lhe provocava arrepios.

— Obrigada por vir tão rápido. — se viu dizendo ao caminhar na direção do mago. — Trouxe morangos? — perguntou rindo.

Rommath se voltou e ergueu uma cesta de morangos.

— Espero que os morangueiros trabalhem bastante até Tinuviel nascer. — ele disse, divertido – Não quero ter que lidar com você em uma crise de abstinência

Luxuriah o acompanhou no riso e parou ao seu lado.

— Também espero. — e pegou um morango na cesta, colocando-o inteiro na boca.

Eles ficaram em silêncio por alguns instantes, enquanto a elfa comia as frutas, até que finalmente ela falou:

— Eu aceito.

Rommath piscou, confuso.

— Como?

— Aceito seu pedido. — disse novamente, sem entender porque estava com o coração aos pulos – Aceito me casar com você.

A reação dele não foi a esperada por Luxuriah. Esperava que ele sorrisse, que gritasse, que a abraçasse, mas ele ficou apenas a olhando, com a expressão aturdida, como uma criança que acaba de receber um presente inesperado. E então ele a tocou. Seus dedos foram até o delicado rosto da elfa, e o tocaram suavemente, como se tocasse uma peça de porcelana delicada. Luxuriah estremeceu com o toque.

— Eu… — murmurou – Eu…

— Você não esperava que eu aceitasse, não é? — disse ela, gostando do toque em seu rosto. Era delicado e a deixava com arrepios.

— Não… Não esperava. — ele baixou a mão e Luxuriah apertou os lábios. Queria que ele continuasse. — Quando você vai contar a suas irmãs?

— Já contei. — disse, surpreendendo-o – Kassyeh não gostou muito.

— Ah! — ele exclamou – Por isso ela tentou me congelar quando me viu! — Rommath parecia satisfeito por finalmente entender o ataque.

— Ela o quê?! — gritou Luxuriah sentindo os cabelos arrepiarem. Não acreditava que Kassyeh se prestara àquele papel. — Minha irmã fez o que?!

— Calma, calma. Tudo está bem. — pediu ele rindo – Ela precisaria de uns quinhentos anos de treinamento para conseguir me pegar desprevenido. Só lamento ter decepcionado-a quando bloqueei seu gelo.

Sem entender porque, aquilo soou tão engraçado, que Luxuriah simplesmente caiu na gargalhada. Rommath a acompanhou no riso. A elfa, por um momento, temeu que o riso virasse choro, como da outra vez, porém, isso não aconteceu. Ela e Rommath apenas ficaram rindo da situação e Luxuriah pediu que ele contasse com detalhes o que tinha acontecido. Ele o fez. Depois, pediu que ela contasse como fosse a conversa. Ela contou. E quando ainda estavam rindo, ele inesperadamente passou o braço na cintura dela e a puxou para si. Pega de surpresa, Luxuriah quase o esmurrou. Chegou a levantar o punho, porém, ele apenas a abraçou. A abraçou forte. E foi quando ela percebeu o quanto precisava de um abraço naquele momento. Deixou-se ficar nos braços dele, aconchegada, sentindo o cheiro do maravilhoso perfume que emanava de seu corpo.

— Desculpe… — murmurou ele em seu ouvido.

— Pelo que? — perguntou sem entender.

— Por abraçá-la assim, de repente. Sei que você não gosta mas… — ele suspirou — Eu só… Precisava saber se era real. — e a soltou – Prometo que nunca mais irei tocá-la sem sua autorização.

Luxuriah percebeu que aquilo realmente o incomodou. Teria sido porque ela levantara o punho em sua direção? Ou por causa de seu passado? Não sabia. A única coisa que não saia da cabeça dela era a imensa vontade de beijá-lo que se apossou de seu íntimo. E foi o que fez. Deu um passo na direção dele e o beijou. Rommath, pego de surpresa, demorou um pouco para começar a correspondê-la. Mas o fez. A estreitou novamente nos braços e a beijou com paixão. E ela retribuiu o desejo. Sim, poderia não haver amor da parte da elfa, mas o desejo por aquele elfo misterioso sempre estivera ali. E se beijaram por um bom tempo, e quando se separaram, o olhar dele era de assombro.

— Eu te desculpo. — disse ela recuperando o fôlego – Se você me desculpar por isso. — e sorriu.

— Luxuriah… — ele começou, mas ela o interrompeu, colocando o dedo em seus lábios.

— Nós vamos casar hoje. — revelou. E diante do olhar assombrado ele, continuou – Titio Aethas vai embora amanhã e quero ele presente na cerimônia. Kayliel pode fazer isso. Concorda?

Ele pigarreou antes de responder:

— Não prefere esperar uns dias?

— Não. — respondeu decidida – E mais uma coisa… — ela o abraçou – Estou grávida Rommath. Você sabe como as mulheres grávidas ficam. — e deu um sorriso malicioso – Não espere um casamento apenas de aparências. — e o beijou de novo.

A única coisa que o Grão-Magíster conseguiu pensar, enquanto ela o consumia com os lábios era que jamais, jamais deveria subestimar Luxuriah. Nem todos seus séculos de idade seriam suficientes para lidar com aquela jovem e impetuosa elfa.

*********************

A volta para Ventobravo foi mais tranquila do que Lina previra. Deixara Brienne no controle da vila por alguns dias, enquanto interrogava os Defias capturados. Depois, dependendo do que eles lhe dissessem, decidiria o que fazer. E só agora, podia lamentar seu cavalo morto. Gostava do animal. E ele não estava entre os sobreviventes. Suspirou, olhando a paisagem passar rapidamente. A única coisa boa daquela situação toda era poder voltar à cidade numa carruagem tão confortável.

Além da união recém-formada com a princesa Arshe, é claro.

A princesa naquele momento parecia querer chegar na melhor posição possível na carruagem, sem muito sucesso. Foi quando Lina se deu conta que, confortável para ela não significava necessariamente confortável para a princesa.

— Tudo bem, Arshe? — perguntou segurando a risada.

— A carruagem poderia não sacudir tanto, não acha? — resmungou a princesa.

— Pense pelo lado bom: logo você estará em sua cama. — disse a comandante sem conseguir conter o riso.

— Graças a Luz! — exclamou desistindo de ficar se remexendo – Você parece aproveitar mais que eu a viagem.

— Não tanto quanto Doroteya.

As duas olharam ao mesmo tempo para a druidesa. Ela estava em sua forma worgenin, com a cabeça para fora da carruagem, com a expressão de êxtase enquanto o vento batia em sua face. Lina e Arshe se entreolharam.

— Parece um… — começou a princesa.

— Não fale. — sibilou a comandante.

Se Doroteya ouviu a conversa resmungada, não deu nenhum sinal. Estava apenas ali, com a cabeça para fora, aproveitando o vento. Era a felicidade em pessoa. Ou worgenin

— Doro. — chamou Lina – Cuidado pra não bater com a cabeça em nada.

— Certo. — disse a druidesa sem colocar a cabeça para dentro.

As outras duas se entreolharam e riram.

Passava um pouco do horário do almoço quando chegaram à capital da Aliança. Havia uma movimentação maior que o habitual na Bastilha, o que deixou Lina intrigada. Quando desceram da carruagem e ela ordenou que levassem os prisioneiros, entendeu o motivo. O rei havia reforçado a segurança, depois do relato dos ataques na vila. Lina imaginou que a movimentação estaria ainda maior se soubessem do ataque sofrido por Arshe.

— Espero que meu tio não fique chateado por não informamos o que aconteceu comigo. — comentou Arshe quando as três começaram a subir as escadas.

— Ele vai ficar chateado. — disse Lina convicta – Mas vai entender que o motivo de eu não ter comunicado foi para não provocar um caos.

— E no final das contas, você está bem, não está? — comentou Doroteya já em sua forma humana. Aparentemente, depois da carruagem, ficar como worgenin perdera a graça.

Continuaram subindo os lances das escadas até que Arshe começou a ficar mais lenta e de repente parou no meio da escadaria. A princesa arfava e colocou a mão no ombro de Lina.

— Falta muito? — perguntou sem fôlego.

— É falta de exercício ou resquícios da doença? — quis saber Lina, preocupada.

— Acho que os dois. — disse a princesa levantando dois dedos.

— Ela ainda não descansou o suficiente. — comentou Doroteya compartilhando a preocupação da comandante – Subir essa quantidade de escadas realmente vai afetá-la.

Enquanto Arshe ainda recuperava o ar, a comandante tomou uma decisão. Num movimento rápido, pegou a princesa e colocou no colo. Depois, começou a subir as escadas, como se não tivesse carregando nada. E realmente era o que ela sentia. Arshe era tão leve quanto uma criança pequena. Tinha certeza que seus sobrinhos de dez anos pesavam mais que a maga.

— Uau, Lina! — exclamou Arshe animada – Como você é forte!

— É um dos meus charmes. — brincou a outra.

— Se você fosse um homem, — disse a princesa colocando os braços ao redor do pescoço dela – eu me apaixonaria por você agora.

Todas riram alto.

— Pode se apaixonar por mim, se quiser. Não sou preconceituosa.

—Não, não, você pertence ao meu tio. Não vou te tirar dele. — e riu.

O sorriso de Lina vacilou um pouco quando ela respondeu:

— Com todo respeito Arshe, eu não pertenço a ninguém. — e deu de ombros – Apenas me empresto aos outros de vez em quando. Seu tio, mesmo sendo rei, não é uma exceção.

Arshe ficou um pouco constrangida, mas também admirada com Lina. Era impressionante como ela não se permitia ser diminuída, da mesma forma que outras mulheres que ela conhecera.

— Desculpe… — pediu envergonhada.

— Ah, deixe de coisa. — a comandante já podia ver o alto da escadaria – Sou diferente de tudo que você já conheceu. Você vai ter que aprender a lidar comigo.

— É muito empolgante ser sua amiga! — exclamou a princesa, como se já tivesse esquecido o que acontecera.

Lina e Doroteya se entreolharam e sorriram. Arshe era uma figura.

Quando chegaram ao topo da escadaria, a comandante não ficou surpresa ao ver Varian e Anduin a espera delas. A surpresa ficou no fato de Genn Greymane está ali também. Sentiu Doroteya se encolher um pouco. Instintivamente, a comandante deu um passo para o lado, numa atitude de proteção para com a druidesa

— O que significa isso? — perguntou o rei ao ver Arshe nos braços da comandante – Está sentindo algo, Arshe? — e se adiantou.

— Estava, mas graças a Lina estou bem. — e apertou um pouco a comandante antes de descer de seus braços. — Ela é tão forte né, tio?

O rei ficou visivelmente surpreso com a intimidade que identificou entre elas.

— O que aconteceu? — perguntou olhando diretamente para Lina.

Enquanto Anduin abraçava a irmã, a comandante contou, de maneira sucinta o que acontecera no vilarejo. O controle sobre a vila, o ataque direto a Arshe, como Doroteya agiu rápido matando o agressor e depois cuidando da princesa, de como acharam o esconderijo e o antídoto e libertaram só cativos. Enquanto ouvia o relato, o rei lançava olharem a Arshe e também a Doroteya, que não o encarava e parecia mais interessada em uma pedra solta no chão. Quando Lina terminou todo o relato, o rei foi na direção de Doroteya, colocou a mão em seu ombro, e falou:

— Serei grato por toda a minha vida por você ter salvo essa menina. — disse com sinceridade – Eu jamais me perdoaria se algo houvesse acontecido com ela.

— Não foi nada, majestade. — a druidesa o olhou, encabulada e depois voltou seu olhar para o chão – Eu jamais permitiria que algo acontecesse a Arshe.

— Estou impressionado com a capacidade de seu povo, Genn. — o rei agora se dirigia ao rei worgen – Mais do que nunca, sei que fiz a coisa certa ao acolhê-los.

Lina pode ver uma veia pulsando na testa de Greymane antes que ele respondesse secamente:

— Fico satisfeito com suas palavras, Varian.

Lina duvidava que fosse verdade.

— Onde estão os prisioneiros? — quis saber o rei voltando sua atenção a comandante.

— No cárcere, meu rei. — respondeu – Deixarei eles pensando um pouco antes de interrogá-los.

— Faça isso. — concordou – E tire o resto do dia de folga. Você merece.

Normalmente Lina negaria aquela oferta, mas precisava voltar para casa. Queria ver como estava Tommy e também preparar tudo para a vinda de Theo no dia seguinte.

— Agradeço a atenção, majestade.

— Ahh!! — exclamou Arshe, aborrecida – Você não vem mais aqui hoje? — ela parecia chateada.

— Não se preocupe Arshe, amanhã bem cedo estaremos de volta. Temos compromissos, lembra? — e Lina piscou para ela. Varian estava realmente bestificado com a amizade inusitada – Até lá, descanse e aproveite a companhia de sua família. Tenho certeza que o príncipe Anduin quer ouvir com detalhes sobre sua aventura.

— Com certeza! — concordou o príncipe. Havia um pouco de inveja na fala dele.

— A comandante tem razão, Arshe. — Varian disse – Você precisa descansar. — e voltando-se para Doroteya, perguntou – Ela precisa de mais algum remédio?

— Não, majestade. — respondeu a druidesa com reverência – Apenas muito líquido, refeições reforçada e descanso.

— Ótimo. — então ele pegou delicadamente no braço da moça – Vamos, Arshe. — e olhando para Lina, disse – Vejo-a amanhã, comandante?

Claro que ele iria vê-la, ela trabalharia, certo? Só que Lina percebeu rapidamente a duplicidade da pergunta do rei. Ele queria a visita dela, mas não como comandante. Estava dizendo também que descansasse naquele dia, de todas as formas. Ela quase abriu um enorme sorriso, mas se segurou. Greymane e Anduin estavam ali.

— Com certeza, majestade. — e bateu continência. Doroteya também fez reverência ao rei.

— Tchau Lina! — disse Arshe abraçando a comandante – Tchau Doro! — disse dando um abraço na druidesa – Até manhã.

E as duas saíram, diante do olhar surpreso dos homens presentes. E quando já tinham descido metade das escadarias, Lina caiu na risada.

— O que foi? — quis saber Doroteya.

— Você viu a cara de Greymane com a atitude de Arshe? Ele parecia que queria comer o próprio rabo, de tanta raiva.

— Acho que ele queria era me comer, de tanta raiva. — discordou a druidesa.

— Que deselegante, a própria nora! — e Lina riu mais ainda.

Demorou alguns segundos para Doroteya entender a piada, e então riu também, ainda que tivesse uma expressão de nojo na cara.

— Preferiria virar comida de morto-vivo! — disse com repugnância.

Lina caiu na gargalhada e teve que parar de andar, porque não conseguia se equilibrar tamanha eram suas risadas. Doroteya logo se juntou a ela.

— I-Imagine, – disse Lina entre as risadas – as bolas murchas que ele deve ter!

Apesar da careta de nojo das duas, elas continuaram a rir.

— E nem deve ser funcional. — completou Doroteya mostrando o dedo mindinho.

Lina explodiu numa gargalhada e caiu sentada nos degraus. Doroteya a acompanhou.

— D-deve ser por isso q-que ele te-te odeia. — para comandante era difícil tentar falar enquanto ria – Não fica feliz com ninguém trepando por ai, se ele n-não pode.

Doroteya assentiu, com uma mistura de riso e nojo.

— Ele nunca vai me perdoar pela surra de cama que dei no filho dele.

Elas riram por mais um tempo enquanto falavam mal de Greymane, até que cansaram. Estavam com dor na barriga e com o rosto doendo e a sensação era maravilhosa. Levantaram e continuaram a andar até que chegaram no final da escadaria da Bastilha. Lina suspirou.

— Agora, — disse com a voz um pouco rouca de tanto rir – será uma longa caminhada até em casa… E amanhã, preciso arrumar um cavalo… — ela suspirou – Sinto todo meu ouro me dando um adeus…

— Sobre o cavalo não posso fazer nada. — comentou Doroteya – Mas posso te dar uma carona até em casa.

E transformou-se em cervo.

— Ah… — Lina ficou espantada como não tinha reparado o animal imenso e majestoso no qual Doroteya se transformava – Tem certeza, Doro? Não sou pesada demais, ou algo assim?

O cervo bufou e Lina tinha certeza que a viu revirar os olhos. Depois, Doroteya fez um sinal com a cabeça que poderia ser traduzido como “suba logo, porra”, apesar de a comandante nunca ter ouvido a druidesa dizer nenhum palavrão. No final das contas, quando a outra começou a bater o casco impaciente, Lina se aproximou, segurou um dos imensos chifres e montou.

Para sua surpresa, era extremamente confortável viajar de carona nas costas de Doro-cervo. O pelo era macio, a corrida estável, e podia se segurar sem medo nos chifres. Tinha que confessar que estava adorando a sensação. E, para sua surpresa, a velocidade de Doro-cervo era maior que a do seu cavalo e logo elas estavam na porta da casa. A comandante desceu agilmente e logo o cervo era novamente Doroteya.

— E então? — perguntou a druidesa.

— Uau! — respondeu a outra – Mais confortável que o cavalo.

— Nem precisa comprar outro cavalo, se não quiser. — ofereceu Doroteya.

Lina pensou um pouco.

— Tentador. Mas prefiro você ao meu lado. Para virar cachorro-louco-mastigador-de-gargantas.

Doroteya soltou uma risada.

— Você quem sabe.

Subiram então os degraus da casa e entraram. Depois, estacaram, surpresas.

Tommy estava sentado em um dos sofás em frente a porta e levantou a cabeça quando elas entraram. A diferença que notaram no homem era evidente, mesmo fazendo apenas poucos dias que o viram. O rosto já estava mais corado e não parecia tão fundo quando antes. As olheiras também estavam mais claras e os lábios pareciam mais rosados. Naquele momento, ele usava um pequeno estilete para escavar um pedaço de madeira. Lina percebeu então que fazia muito tempo desde que vira seu irmão escupindo algo.

— Tommy! — exclamou ela entrando e se aproximando – Você está quase parecido com um ser humano de novo!

— É bom te ver também, irmãzinha. — disse ele com um tom ainda um pouco amargo – E saiba que tenho sofrido na mão daqueles dois, que não param de me enfiar comida a força.

— Vou dar um barril de vinho para aqueles dois em agradecimento. — ela se aproximou do irmão e sorriu – É bom ver você esculpindo de novo.

Doroteya percebeu que Tommy estava tentando se manter com raiva da irmã por tê-lo feito ir a força para a casa. Provavelmente ele prometera asi mesmo, quando as viu chegando, que manteria o rosto sisudo, que não deixaria amolecer e que a trataria da forma mais indiferente possível. Porém, percebeu algo que Tommy já sabia há anos: não conseguia resistir ao sorriso raro e doce que Lina reservava para aqueles que amava. E foi pro causa disso, que ele, mesmo contrariado, sorriu também.

— É tudo que posso fazer no momento. — respondeu desviando o olhar da irmã para o pedaço de madeira em sua mão.

— Como assim? — perguntou a irmã franzindo a testa. Sentira o amargor na voz do irmão e já estava ficando preocupada de novo.

Tommy suspirou. Não teria motivos para esconder. Fey e Mel dariam com a língua nos dentes. Afinal, foram eles que deram os materiais para ele ficar se distraído, como se fosse um invalido.

— A escada. Depois que eu desço, preciso de mais umas duas horas para encará-la novamente. — e seu olhar ficou vago – Você acredita? Eu construí essa casa em poucos dias, eu corria para cima e para baixo dessa merda umas duzentas vezes a cada meia hora, e agora, não consigo subir três degraus sem ter vontade de me matar. — ele se encostou na cadeira – Detesto admitir, mas você tinha razão. Como estou, não sirvo para porra nenhuma.

Doroteya achou melhor deixar os dois conversarem e saiu de fininho para a cozinha. Prepararia alguma coisa para os três comerem enquanto Lina e Tommy se resolviam como só os irmãos sabiam fazer.

E mais do que ninguém, Lina compreendia Tommy. Se estivesse na mesma situação dele, também estaria frustrada. Ela sentou-se no braço do sofá e cutucou o queixo dele da mesma forma que fazia quando era criança e ele estava irritado com alguma coisa. A lembrança fez com que Tommy abrisse um tímido sorriso.

— Você logo correrá essa escada de novo. — disse Lina carinhosamente – E vai ser antes do que você imagina.

— Espero. — disse ele – Enquanto isso, faço umas decorações para a casa. — e apontou a madeira.

— O que você está fazendo? — quis saber, curiosa.

— Ainda não sei. Fey me pediu para esculpir um pênis de madeira, mas acho melhor que meu recomeço seja com algo menos… Nojento…

— Nojento porquê? — quis saber a irmã – Você tem um pênis sabia?

Tommy fez uma careta e encarou o pedaço de madeira.

— Nojento porque fico imaginando o que diabos o que ele faria com isso…

— Eu sei exatamente o que ele faria com isso. — disse maliciosamente.

E diante da cara que o irmão fez, Lina gargalhou. Porém, logo parou, com a mão na barriga. Já tinha rido demais naquele dia.

— Por que não faz um brinquedo? — sugeriu ela massageando o estômago – Amanhã vamos buscar o filho de Doroteya em Darnassus. Ele gostaria de um presente de boas vindas.

Tommy sentiu um aperto no estômago ao imaginar-se perto de uma criança de novo depois da morte de seus filhos. Mas procurou esconder esse sentimento da irmã.

— Você gostou mesmo dela, não é? — perguntou com a voz mais baixa, apontando para a cozinha.

— Você não sabe o quanto. — respondeu ela no mesmo tom – E você vai gostar dela também. Doroteya é um amor. Claro, quando não está rasgando gargantas por ai.

O homem lembrou de quando conhecera Doroteya e como ela pulara em cima dele, com os dentes a mostra.

— Ela andou… — ele levou a mão ao pescoço, tenso – Rasgando gargantas por ai?

— E como! — Lina riu e fez uma careta, segurando o estômago de novo – Ela rasgou a garganta de um Defia tão facilmente que parecia morder gelatina! Acho que nunca tinha visto uma garganta ser destroçada tão facilmente.

— Um Defia? — o interesse de Tommy foi imediatamente desperto e esqueceu de sua garganta – Você achou eles?

Lina assentiu com a cabeça. Os olhos de Tommy pareciam que iam soltar chamas.

— Conte-me! — exigiu o irmão.

— Vou contar, calma. Mais antes, vamos ver que cheiro maravilhoso é esse saindo da cozinha, porque estou morrendo de fome e a história é longa.

E sem discutir com a irmã, Tommy a acompanhou.

***************************

Vivithi se orgulhava de sempre cumprir as ordens que lhe davam rapidamente e, na maioria das vezes, melhor do o esperado. E daquela vez não foi diferente.

Ela fora a primeira a ver Luxuriah pela manhã. Sua amiga tinha um ar diferente dos dias anteriores e isso a acalmou. A tristeza não combinava com o rosto bonito da caçadora e fazia com que ela lembrasse daqueles dias sombrios que procederam os eventos ligados a morte de Dhomm e Samanthah. Porém, ela não esperava ouvir a notícia que a outra trazia.

— Casarei com Rommath. — anunciara Luxuriah sem cerimônia.

E depois do choque inicial, Vivithi recebera as explicações de sua amiga com calma e lucidez. Luxuriah estava certa. Era a melhor decisão que poderia tomar naquela situação.

— Quando você pretende se casar? — quis saber.

— Hoje ainda. — disse resoluta.

Vivithi não escondeu a surpresa.

— Para que a pressa? — perguntou.

— Por muitos motivos. Mas principalmente porque não quero segurar titio Aethas mais tempo. — e suspirou, resignada – Eu não gosto de admitir isso, mas ele precisa voltar para Dalaran. Casando hoje, ele poderá voltar para lá amanhã.

Algo se remexeu dentro do estômago de Vivithi, mas ela não disse nada.

— Queria me casar com o vestido de minha mãe, mas não acho justo. — continuou Luxuriah desconhecendo os sentimentos que começaram a entrar em conflito dentro de Vivithi – Ela casou com papai naquele vestido por que o amava. Kassyeh fez o mesmo. Não é justo que eu case com alguém por conveniência usando algo que carregue tantas boas lembranças. Por isso preciso que você faça algo por mim.

E por isso a elfa se colocara na estrada muito cedo, levando três subordinados em direção a casa de campo dos Fendessol. E lá, pegara todos os vestidos de grávida de Lady Luelly e os acomodara gentilmente em várias caixas forradas. Agora, faltava apenas pô-los nos falcoztruz e os levar para Luxuriah. Mais cedo, a jovem pedira apenas um e disse que confiava no bom gosto de Vivithi para a escolha. Mas a caçadora preferia dar várias opções para a inesperada noiva, além de oferecer um vasto enxoval que ela precisaria durante a gravidez.

Sim, Vivithi sempre era eficiente ao cumprir ordens.

Apesar de negar veementemente cumprir aquelas dadas por seu coração.

Enquanto acompanhava seus subordinados, que levavam as caixas, para fora da casa, tentava não pensar nas palavras ditas por Luxuriah. Não queria dar atenção nem importância à informação recebida. Porém, era como se seu interior estivesse rugindo e latejando, se remexendo dolorosamente à lembrança daquelas palavras.

Aethas iria embora no dia seguinte. Voltaria a Dalaran.

Ela então gritou repentinamente e chutou a porta mais próxima com ferocidade repetidas vezes, enquanto gritava impropérios. Nenhum de seus subordinados se atreveu a dizer qualquer coisa.

“Por que?”, gritava a sua mente, porque diabos eu me importo se aquele mago desgraçado vai ou não embora?! Seu coração já estava pronto para dar a responta, mas Vivithi realmente não queria saber.

— Cale a boca!! — gritava ainda chutando a porta – Não quero ouvir nada que você tenha a dizer, seu maldito! Eu lembro da outra vez!

Os elfos que a companharam fingiram que não estavam assustados com sua líder chutando a porta enquanto gritava com alguém que não estava lá, enquanto acomodavam as caixas nos falcoztruzes. E quando Vivithi finalmente cansou e já estava com o pé doendo, se sentia muito mais calma. Endireitou-se, fechou a casa tranquilamente, montou em seu falcoztruz e disse com a voz firme:

— Vamos.

Nenhum deles ousou dizer nada.

Claro, após alguns minutos, a mente de Vivithi voltou a latejar com suas dúvidas e a se encher de besteira. E a elfa percebeu que tinha que fazer algo. Claro, tinha que dormir de novo com Aethas, uma última vez. Isso. Última vez. E depois, esquecer tudo o que acontecera. Talvez, quem sabe dessa vez não era tão bom assim e então tiraria o arquimago de sua cabeça. Sim, seria o que faria. Uma despedida. Era assim que resolveria.

“Mas você ainda assim vai sentir falta dele…”, insistia seu coração.

Não. Não iria. Esqueceria tudo que acontecera e seguir com sua vida. Afinal, quem diabos fica encucando com alguns dias de sexo? Só porque foi bom, não significa que deva se sentir mal porque ele foi embora. Aethas era só mais um pênis ambulante. Logo acharia outro.

“E vai ser tão bom quanto foi com ele?”, falou novamente seu coração, aquele desocupado.

Claro que ia! Ele não era o único elfo com uma boa habilidade na cama por ai! Por exemplo, Rommath… Não, Rommath ia casar com Luxuriah.

Merda.

Será que Luxuriah emprestaria ele um pouco?

— Que ideia idiota! — exclamou em voz alta. — Claro que ela não vai fazer isso!

E voltou a seu dilema interior.

Sim, com certeza acharia um bom elfo mais cedo ou mais tarde. Era apenas questão de tempo. Depois que Aethas voltasse para Dalaran, ela iria em buscar de um novo amante. E nem precisaria ser um elfo. Qualquer um que soubesse o que fazer estaria bom.

Um orc seria ótimo! Nunca dormira com um orc!

Um pouco mais animada com a decisão, Vivithi conseguiu calar a voz chata e irritante de sua mente. Ficou mais calma e até cantarolou enquanto voltava para Luaprata. E foi quando estava entrando na cidade que ouviu um barulho muito alto, um lampejo de magia gélida usada e um grito surpreso. Seus subordinados puxaram as espadas, mas Vivithi reconheceu a voz que gritara.

— Esperem! — ordenou – Fiquem aqui! — e se dirigiu para onde ouvira a voz.

Quando se aproximou do local, uma sombra saiu de entre as árvores e Vivithi reconheceu um tristonho Tewdric, acompanhado dos dois bichinhos de Kassyeh. A expressão dos três era desoladora, e o orc tinha cristais de gelo na roupa e em uma das presas.

— Tewdric! — chamou ela descendo da montaria – O que houve?

— A minha Kass… — o orc estava desconsolado – A minha Kass me odeia!

Por um momento a elfa achou que ele cairia no choro, mas Tewdric apenas espirrou. Não era pra menos, já que ele parecia ter passado por Nortúndria recentemente.

— Pelo visto você e a Kassyeh tiveram um… Desentendimento… — comentou, mas pensando que parecia mais que ela tinha tentado matá-lo congelado.

— Na verdade, ela tá chateada porque a Lulu vai casar com o elfo altão lá. — ele espirrou de novo – Tentei conversar com ela, mas… — mais um espirro.

As mascotes de Kassyeh agora se jogavam no chão, para se livrar das gotas de saliva que pregaram em seus pelos após os espirros de Tewdric. Vivithi ficou com pena do orc e irritada com Kassyeh, que aparentemente estava dando um show de imaturidade.

— Ela está lá? — perguntou apontando para a floresta. Tewdric fez que sim – Pois pode voltar para a Torre que eu falarei com ela.

— Tem certeza? — ele parecia meio incerto – Eu deveria tentar mais uma vez. Sabe, coisa de marido e tal…

— Se ela não te ouviu de primeira, não vai ouvir agora. — garantiu a elfa – E você precisa se livrar desse gelo e se aquecer um pouco. Se ficar gripado, não poderá chegar perto da Lux nem de ninguém. — e diante da indecisão do orc, ordenou – Vai logo Tewdric!

No fim das contas, o guerreiro achou melhor deixar nas mãos de Vivithi. Ele não era bom nessas coisas, e já fizera tudo que podia. Pegou as mascotes, que o seguiram até lá, colocou embaixo dos braços e foi embora. Esperaria que sua Kass se acalmasse e tudo ficaria bem. Vivithi, por sua vez, voltou rapidamente aonde estavam seus subordinados, deu ordem para que eles levassem os vestidos até Luxuriah e então partiu por entre as árvores em busca da maga mal-humorada.

Não foi difícil de achar Kassyeh. Tewdric havia deixado uma trilha de cristais de gelo que já estavam derretendo, mas serviu para levá-la ate a pedra onde a maga estava sentada, agarrada às pernas e com a cara de poucos amigos.

— Olha só o que temos aqui. A felicidade em pessoa. — disse ironicamente enquanto amarrava o falcoztruz numa árvore – Sua alegria é contagiante.

— Se alguém te mandou aqui… — começou Kassyeh.

— Ninguém me mandou nada. — cortou Vivithi – Encontrei o pobre Tewdric, que parecia a caminho de uma pneumonia e ele resumiu a situação para mim.

Kassyeh deu de ombros.

— E você veio me convencer que estou errada? — desdenhou a outra.

Vivithi deu um pequeno sorriso.

— Não. Claro que não. Vim dizer o quanto você está sendo ridícula.

Kassyeh com certeza não esperava aquelas palavras e ficou olhando Vivithi se aproximar com a boca entreaberta, como se ela tivesse perdido todas suas palavras. A elfa parou perto dela, cruzou os braços e não fez nenhuma menção de se sentar. Ficou apenas esperando a maga dizer algo.

— Eu não sou ridícula. — disse ela finalmente – Ridícula é essa situação!

— Por que? — perguntou Vivithi – Apenas porque você não concorda com ela?

Kassyeh então explodiu. Se pôs de pé rapidamente e encarou Vivithi com ferocidade.

— Eu vou te dizer porque isso é ridículo! — gritou – É ridículo porque minha irmã está casando com alguém que não ama!

— Fale baixo que eu não sou surda. — comentou Vivithi casualmente, sem mudar de postura ou expressão.

— Eu falo do jeito que quiser! — gritou a maga ainda mais alto – Vou gritar para todo mundo que não concordo com isso, que isso é um erro e não vou apoiar em nenhum momento!

— Que interessante, foi quase a mesma coisa que Lux disse do seu casamento. — continuou a outra ainda calma – Só que com um pouco mais de civilidade, claro.

A postura de Vivithi estava deixando Kassyeh desconcertada. A maga estava acostumada a ver a outra soltando fogo pela boca quando ficava com raiva, mas daquela vez, parecia quem uma fúria gélida havia tomado conta da caçadora.

— É diferente. — disse em resposta a fala da outra.

Vivithi soltou uma risadinha.

— Por que é diferente? Por que é com você?

— Porque eu amo o Tewdric e ele me ama! – explodiu novamente – E Luxuriah não sente nada por Rommath.

— Ai que você se engana. — retrucou – Luxuriah gosta de Rommath. Muito. Eles tem uma história. Não como a sua, mais ainda sim, muito mais do que você imagina.

— Só gostar não é o suficiente! — a maga estava tão transtornada que pequenos flocos de gelo começou a cair ao redor delas. Vivithi permaneceu impassível.

— Como você sabe se não é o suficiente? — indagou – Você não é Luxuriah.

— Ela merece mais!

— Mais o que, Kassyeh? — Vivithi se aproximou – Mais amor? Do tipo que Huaru deu a ela? — agora os olhos da caçadora faiscavam.

Instintivamente, Kassyeh deu um passo para trás. Os flocos de neve pararam de cair.

— Não é por causa do erro de um que todos devem pagar. — respondeu com o tom de voz um pouco mais baixo – Ela poderá no futuro…

— Futuro? — perguntou Vivithi quase sibilando – Futuro? Deixe-me dizer uma coisa, Kassyeh, uma coisa que não deve ter passado ainda por sua cabecinha egoísta. Luxuriah precisa de alguém com ela agora. Agora, está entendendo? Não ontem, não amanhã. Agora. E vou lhe dizer o porque se você quer saber. — Kassyeh fez menção de falar algo, mas Vivithi a cortou – Cale-se. Cale-se e ouça! — Kassyeh fechou a boca – Ela está grávida! Ela é uma nobre solteira e grávida! Isso fez da vida de sua avó um inferno. Tanto, que ela definhou até morrer. Seu pai, sim, seu amado e idolatrado pai sofreu por isso. Muito. Se você não sabe das histórias, não tem problema, eu sei muitas e meu tio sabe todas. E caso você não lembre, Dhomm precisou fugir com sua mãe para poderem ficar juntos. — e dando uma pausa, acrescentou – É esse o futuro que você espera para essa criança?

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— Claro que não… — murmurou a maga – Mas nossa sociedade…

— Nossa sociedade é formada por hipócritas, Kassyeh! — disse a outra num tom mais firme – Hipócritas! Hipócritas que batem no ombro de Tewdric e o chamam de herói e por trás o insultam por macular alguém como você. Hipócritas, que te elogiam como uma maga digna do nome de sua família, mas por trás te chamam de louca, por manchar a honra da família! Ou você é tão cega de amor que não vê?

A jovem apenas comprimiu os lábios e nada falou.

— Rommath vai dar uma estabilidade que Luxuriah precisa no momento. — continuou Vivithi – Sua irmã foi a que mais sofreu de vocês quatro. Ela viu a morte de seus pais. Ela viveu aquilo! — a elfa precisou parar um pouco e respirar fundo ou poderia revelar o segredo da amiga – Aquilo a abalou mais que tudo. A fez se fechar para o mundo. E quando ela decidiu se abrir um pouco… BAM – Kassyeh deu um pulo de susto com a exclamação — Huaru a larga, depois de fazê-la achar que eles eram feitos um para o outro. Ela está sofrendo Kassyeh! Muito! Mas ela está pensando na criança que vem por ai. Você acha que foi fácil tomar essa decisão? Você acha que ela não considerou as consequências? Não considerou que você viraria as costas para ela por isso?

— Eu não estou virando as costas para ela! — gritou Kassyeh.

— Está! — respondeu Vivithi no mesmo tom – Está sim! Você está aqui, no meio da floresta, emburrada como uma criança porque não fizeram seus gostos, enquanto sua irmã deve está sofrendo como uma condenada e se preocupando com o que você pensa! E ela está grávida! Você não pensa no mal que está fazendo a ela? Se não está, sabe o nome disso Kassyeh? Egoísmo! Você é uma criança mimada e egoísta que está virando as costas para a pessoa que fez tudo por você!

Aquilo era demais. Kassyeh fez menção de lançar um feitiço em Vivithi, mas a caçadora foi mais rápida. Em um só movimento, seu braço foi em direção do rosto de Kassyeh, como se fosse dar um soco, mas apenas fechou a boca da maga e apertou com força. Segurou-a pelo rosto e a trouxe para perto. Kassyeh ficou tão chocada, que não se mexeu depois disso.

— Ouça o que vou lhe dizer, porque eu só falarei uma vez. — avisou apertando o rosto da outra – Você está sendo injusta com sua irmã. Sendo ingrata. Cadê o amor incondicional que você sempre afirmou ter por ela? — os olhos de Kassyeh se encheram de lágrimas, mas Vivithi continuou – Se você a amar realmente, vai apoiá-la. Ninguém está pedindo para você gostar da situação e, vá por mim, eu também não gosto muito. Tudo que ela pede é que a apoiemos. Só isso. Ela também não gostou quando você casou com Tewdric, mas ela estava lá. Ela o recebeu na família. Está na hora de você retribuir. Está na hora de você voltar para Luaprata, por um sorriso no rosto e ficar do lado dela nesse momento. Porque é isso que as irmãs fazem.

E a soltou. Na realidade, ela praticamente empurrou Kassyeh para trás, fazendo com que a maga precisasse dar alguns passos para se equilibrar. O rosto da maga estava vermelho, com a marca da mão de Vivithi claramente estampada nele. A caçadora a olhou de cima abaixo.

— Sempre disseram que você parece com sua mãe. — comentou – O que Samanthah faria agora?

E com a indagação pairando no ar, virou as costas e saiu.

Quando se viu sozinha, Kassyeh caiu sentada e pôs a chorar. Sim, Vivithi tinha razão. Detestava admitir, mas ela estava coberta de razão. Ela não estava agindo como uma irmã amorosa. Estava agindo como uma idiota. E Luxuriah… Luxuriah estava grávida! Um bebê estava a caminho! E ela quereria que a vida desse pequeno ser começasse daquele jeito? Com brigas e com a família dividida? Jamais! Vivithi perguntou o que sua mãe faria… Era óbvio. Sua mãe apoiaria Luxuriah. Mesmo que não concordasse. Samanthah gostava de pagar para ver. Esperar e observar. E se precisar, agir. Sim, era isso que devia fazer. Brigas agora só podiam a harmonia de sua família em risco. E enquanto pensava nessas coisas, Kassyeh chorava. Chorou e chorou, não soube por quanto tempo, e depois que cansou-se de chorar. Tomara uma decisão. Limpou as lágrimas, respirou fundo e se pôs a caminhar de volta para Luaprata.

De volta para casa. Para sua família.

********************************

Enquanto estavam sentados na cozinha, saboreando o almoço maravilhoso feito por Doroteya, Lina contou a Tommy tudo que acontecera no vilarejo. Tudo. Não poupou seu irmão de nenhum fato. Só deixou de fora as conversas dela com Arshe e a druidesa, porque isso não dizia respeito a missão. Era pessoal. E além do mais, seu irmão já tinha muita coisa que digerir.

Esperou que ele dissesse alguma coisa após o relato, mas Tommy apenas assumiu um ar pensativo, enquanto saboreava a comida. Por fim, Lina perguntou:

— Então, o que acha?

Tommy enfiou mais uma colherada na boca, mastigou, engoliu e finalmente falou:

— Acho que não devo aborrecer Doroteya ou ela rasgará minha garganta.

Houve um instante de silêncio e então Lina caiu na risada enquanto Doroteya sentiu o rosto ficar quente. A druidesa olhou encabulada para Tommy, que lhe deu um sorriso de volta.

— Às vezes acontece, quando um de nós perde a calma. — justificou ela.

Os dois irmãos entenderam que os “um de nós” era os worgens.

— O que fortalece minha tese de nunca te provocar. — disse Tommy convicto, arrancando mais risos de sua irmã. — Além do que, eu ficaria sem sua comida e, pela Luz, isso aqui é bom demais! — e pôs mais na boca.

— Eu me sinto segura sabendo que tenho em casa uma máquina de destruição de gargantas que cozinha. — comentou a comandante maliciosa – Se não fosse Theo amanhã, te levaria para o interrogatório. Tenho muitas coisas para perguntar àqueles desgraçados.

— Eu posso ir, se você quiser. — se ofereceu Doroteya.

— De jeito nenhum! — negou Lina veementemente – Você tem que ficar com seu filho! Matar as saudades! Quero que você passe o dia todo com ele! Aproveite o tempo.

— Ela está certa. — concordou Tommy agora olhando para o prato – Nada é mais precioso que um filho. Aproveite o seu.

O tom era triste e melancólico e fez Lina e Doroteya se entreolharem. A druidesa então se sentiu mal. Não tinha pensando ainda em como a presença de Theo poderia afetar Tommy. Será que ter uma criança em sua convivência seria bom ou ruim para Tommy? O faria se sentir mais alegre ou mais depressivo?

— Você… Se incomoda em ter meu filho aqui? — perguntou Doroteya timidamente. — Por que, se for o caso, eu posso procurar uma casa…

Lina estava tensa. Não queria que Doroteya se sentisse compelida a ir embora, ou teria que chutar o irmão dali.

— De forma alguma! — respondeu veementemente Tommy fazendo com que Lina relaxasse – Eu jamais me incomodaria com uma criança por perto!

— Ele é um bom menino. — disse a druidesa gentilmente como se ainda tentasse convencê-lo – E se por acaso ele te incomodar…

— Esqueça, isso não vai acontecer. — desconversou o homem – Só não quero ver ele triste porque a mãe prefere ir mastigar gargantas a estar com ele. — e voltou a comer.

— Sábias palavras, irmão. — disse Lina em tom pomposo, colocando a mão no ombro dele – Doroteya vai poder dar toda a tenção ao filho dela, antes de voltar ao trabalho. Então, talvez seja hora de pensar em por ele na escola, não é?

Doroteya franziu a testa.

— Lina… Será que é seguro? — indagou insegura.

— Claro que é! — quem respondeu foi Tommy – As professoras são ótimas, lá tem uma boa estrutura, muitos livros…

Ele ia continuar listando as benfeitorias da escola, mas notou que as duas mulheres silenciaram. Percebeu então que elas se encaravam, como se estivessem tendo uma conversa mental. Tommy pousou a colher no prato, ciente que havia alguma coisa errada.

— O que foi? — perguntou – Por que o menino não pode ir para a escola? Ele vira lobinho e quer estraçalhar pescoços também? — ele riu de sua piada, mas nenhuma das duas teve nenhuma reação.

— Doro? — chamou Lina.

A druidesa respirou fundo e olhou para Tommy.

— Eu não me dou bem com a família do meu falecido marido. — começou – E eles estão aqui em Ventobravo. Tenho medo deles descobrirem Theo e… — a voz dela ficou embargada – E levarem ele…

— E eles podem fazer isso? — perguntou surpreso olhando para a irmã.

— É uma família importante. — respondeu a comandante – Com muita influência. Eu não duvidaria que eles, pelo menos, tentassem. — e olhou para Doroteya – Doro vem mantendo o menino escondido por anos, para que não o perca.

— E porque está trazendo ele justo para cá? — indagou numa mistura de surpresa e indignação.

— Você mesmo respondeu, Tommy. — falou Doroteya suavemente – Nada é mais precioso que um filho. — seus olhos brilhavam – Eu sinto tanto a falta dele! E ele… Ele também deve sentir a minha, não é? — e caiu em lágrimas.

Lina olhou para o irmão. A expressão de Tommy estava difícil de ser decifrada. Ela não sabia se era tristeza, raiva ou ele simplesmente tinha mordido a língua. Mas quando ele falou, sua voz soou firme:

— Eu posso ficar com ele. Enquanto você trabalha. Desde que ele não decida correr por ai ou se pendurar em nada, acho que posso dar conta, mesmo do jeito que estou.

O choro de Doroteya cessou e seus olhos brilharam novamente, mas agora era de alegria.

— Tem certeza? — perguntou com um enorme sorriso no rosto – Eu não quero incomodá-lo…

— Incomodar o quê! — exclamou Lina fazendo uma careta – Ele não faz nada o dia todo! Vai só comer e dormir até virar gente! Pode ficar de olho em Theo. Se ele for bonzinho como você diz, não haverá problema.

— É sim! — afirmou Doroteya animada – Ele é muito quieto. Gosta de fazer trabalhos manuais e já aprendeu a ler! Então passa bastante tempo lendo contos e praticando a caligrafia!

— Olha Tommy, você pode ensinar ele a esculpir coisas! — sugeriu Lina.

— Ei, calma, calma! — pediu ele levantando as mãos – Não sabemos nem se ele vai gostar de mim…

— Claro que vai! — exclamou Doroteya animada – Vocês vão se dar muito bem! Obrigada Tommy! — e ela se levantou, foi até ele e o abraçou.

Aquele gesto pegou Tommy de surpresa. Fazia anos que uma mulher não o tocava daquele jeito. E o corpo de Doroteya era tão quente e macio… O cheiro que exalava do corpo dela era maravilhoso, parecia erva-doce com madressilvas… Talvez um pouco de hortelã…. Foi um abraço rápido, mas apertado o suficiente para que ele ficava desnorteado.

— Ei, ei, chega de amasso na minha frente! — brincou Lina.

— Ah, vou te abraçar também! — e Doroteya deu um abraço apertado na outra.

Tommy calou-se, mas nenhuma das duas percebeu seu constrangimento. E ele ficou surpreso ao perceber que sentiu um pouco de inveja da irmã. Parecia que o abraço dado a ela tinha sido mais forte e caloroso.

— Que tal fazemos uma festa para Theo amanhã? — propôs Lina muito animada – Podemos fazer um bolo, arrumar a casa com uns balões e colocar uma faixa com “Bem-vindo Theo” na sala. Fey e Mel podem cuidar da arrumação!

— Ah! Ele adoraria! — concordou Doroteya. — Theo adora festas! Vou fazer um bolo de chocolate! E salgadinhos!

E elas começaram a fazer planos, sem perceber que Tommy agora comia mais devagar e seu rosto estava vermelho como brasa. Ele ainda não se recuperara do intempestivo abraço. Todavia, não demorou muito para que ele voltasse a conversa e se animasse com a chegada do menino. E todas as sensações sentidas no abraço de Doroteya foram deixadas no fundo da mente de Tommy por um bom tempo.

*****************************

O salão da Ordem dos Cavaleiros Sangrentos ficavam numa área nobre de Luaprata, próximo à Torre Solfúria e ladeado por belos prédios residenciais. Luxuriah lembrava de sempre passar em frente ao salão mas nunca ter se tocado que ele estivera vazio até pouco tempo atrás. Quando Lady Liadrin renegou os Andassol, o lugar fora abandonado e só recentemente reocupado, após a recuperação da Nascente do Sol.

Tanto ela quanto Ash estavam acompanhando Karen, que carregava Galinha numa cesta, na primeira visita dela até onde seria seus treinamentos a partir daquele dia. A elfa até pensou em incumbir a jovem caçadora do dever de ir com a caçula, mas precisava sair um pouco da Torre. Nem mesmo a visita de Rommath com um monte de morangos a fizera esquecer Kassyeh. Não fazia ideia de onde estava a irmã e estava ficando angustiada.

Quem as levara até lá foi o jovem paladino Snetto. O rapaz era visivelmente muito tímido e Luxuriah se perguntava se era pelo fato de todo mundo saber que ele era o atual caso de Lady Liadrin.

— A matriarca está no grande salão. — disse ele após mostrar as salas mais externas do prédio. — Ela as espera lá.

O grande salão era imenso e até mesmo Luxuriah, acostumada a grandes estruturas que vira em Shattrath, ficou admirada. Karen observava tudo, estupefata, com os olhos brilhando e uma das mãozinhas no rosto.

— Uau! — falou a futura rainha – É tudo tão lindo!

— Que bom que gostou, majestade. — Lady Liadrin se aproximou do trio de princesas com um sorriso no rosto e acompanhada por uma criança élfica – Quero que conheçam Salandria. Ela está sob minha tutela. Cumprimente as princesas, Salandria.

— É uma imensa honra conhecê-las. — disse fazendo uma reverência singela.

A menina era mais jovem que Karen. Devia ter uns sete ou oito verões, no máximo. E era muito bonita. Tinha os cabelos loiros prateados e os olhos verdes eram atentos e curiosos. Ela olhava para as princesas com um imenso respeito e admiração. Luxuriah tinha a sensação de já ter visto aquela menina em algum lugar.

— Oi Salandria! — cumprimentou Karen animadamente – Eu sou Karen e esse é Galinha. — ela estendeu a cesta e mostrou o pequeno falcoztruz branco – Você também vai treinar aqui?

— Sim, vou. — confirmou a menina na mesma animação de Karen – A matriarca me trouxe recentemente de Shattrath pra morar aqui com ela. — e os olhos dela se prenderam ao falcoztruz – Que lindo, posso alisá-lo?

— Claro! Ele adora carinho!

E enquanto Salandria passava a mão na cabeça de Galinha, que estava gostando muito do carinho, Luxuriah finalmente a reconheceu.

— Ah! — exclamou – Eu te visitei no dia das crianças lá em Shattrath!

A menina então olhou para Luxuriah e também a reconheceu.

— Ah! Lux! Não tinha reconhecido você sem a armadura e o arco! — disse a menina se aproximando da caçadora – Muito obrigada por aquele dia!

Luxuriah sorriu de volta para a menina e passou a mão em sua cabeça. Lembrava da história da menina: nascida no meio de um conflito, seus pais a deixaram num abrigo em Shattrath enquanto lutavam conta as forças de Illidan. Eles nunca voltaram. O coração da caçadora se apertou mas ela forçou-se a continuar sorrindo.

— Fico feliz em saber que você está aqui e com uma tutora tão boa! — exclamou – E Luaprata é definitivamente muito melhor que Shattrath.

— E vai ser ótimo para vocês duas ter alguém de idade próxima para fazer companhia nos treinos, não é? — disse Ash animada.

— Desde que elas não fiquem conversando nos treinos, serão uma ótima companhia uma para outra. — brincou Lady Liadrin – Você não tem amigas aqui na cidade, não é Karen?

O semblante da menina ficou triste e ela fez que não com a cabeça.

— Só tenho a Saba, mas ela não tá aqui.

— Quem é Saba? — perguntou Salandria interessada.

— Minha melhor amiga do mundo! — disse Karen com os olhos brilhando – Ela mora em Orgrimmar.

— Ela é uma orquisa? — perguntou Salandria animada e com os olhos brilhando também.

— Sim, sim. Quando ela vier aqui, te apresento. Saba é mais nova que eu mais é quase do meu tamanho! — disse mostrando a altura de Saba com a mão. Salandria ficou muito impressionada.

— Que tal vermos o que o salão tem a nos oferecer, majestade? — chamou Lady Liadrin – Salandria irá conosco.

— Claro! — concordou Karen.

— Eu ficarei por aqui. — disse Luxuriah apontando para umas poltronas que pareciam confortáveis e convidativas – Estou um pouco cansada.

— No seu estado é compreensível. — concordou a matriarca.

— Eu ficarei aqui com ela. — disse Ash.

E então a matriarca e as duas meninas começaram a peregrinação pelo grande salão enquanto Ash e Lux se sentavam em um canto e ficavam apenas observando.

— Acho que Saba ficará com um pouco de ciúmes. — comentou Ash vendo ao longe as meninas animadas.

— No começo sim, mas logo as três serão inseparáveis. — previu Luxuriah – Apesar de Salandria ser mais jovem que Karen ou Saba.

— Saba logo ficará maior que as duas, mesmo Karen sendo mais velha. — imaginou Ash – Com quantos anos os orcs atingem a maturidade? — quis saber.

— Treze ou quatorze verões. — respondeu Luxuriah.

— Tão cedo? — se surpreendeu Ash – Então Saba será considerada adulta antes de Karen!

— Sim, mas duvido que isso mude a relação das duas. E não se surpreenda, lembre que os orcs vivem menos que nós.

Ash sabia disso. E seu coração sempre se apertava quando pensava naquilo, porque lembrava que o tempo de vida de Kassyeh com Tewdric seria muito menor do que sua vida sem ele.

— Você já imaginou como a Kassyeh…

— Certas coisas é melhor não imaginar. — cortou Luxuriah com a expressão de quem já pensara muito naquilo. — E nem fale disso com Kassyeh. Ela já está estressada o suficiente.

— Certo, desculpe, eu só estava pensando. — se defendeu Ash levantando as mãos.

Luxuriah suspirou e colocou a mão no rosto.

— Desculpe. Só estou preocupada. Aquela idiota saiu e nenhum sinal dela ou de Tewdric.

— Ficará tudo bem. — Ash pegou na mão da irmã – A Kass vai entender uma hora ou outra.

A mais velha a olhou com um sorriso triste no rosto.

— Você já devia saber que quando Kass bota uma coisa na cabeça ela é pior que falcoztruz empacado. E só a Nascente do Sol para desempacar. — a elfa suspirou – E eu queria tanto fazer meu casamento hoje…

— E vai fazer! — garantiu Ash – Nem que tenhamos que prender Kassyeh numa torre enquanto você casa.

Luxuriah soltou uma risadinha, mas não foi de alegria.

— Como eu queria fazê-la entender…

Ash deu de ombros, se sentindo tão perdida quanto a irmã. Karen, alheia aos dilemas das irmãs, caminhava animadamente pelo salão. Luxuriah invejou a serenidade do olhar da menina.

— Ela falou algo a você? — perguntou de repente a mais velha – Sobre Huaru?

Ash fez que não com a cabeça.

— Mas eu sei que ela sente. Eu vi a forma como ela olhou para a armadura hoje e se recusou a vestir. — Ash suspirou – Só que nossa irmãzinha sabe lidar com isso melhor que todas nós.

Agora a risada de Luxuriah foi autêntica.

— Com certeza sabe. E que a Nascente do Sol tenha piedade da pessoa pela qual ela se apaixonar no futuro!

— Coitado! — Ash franziu a sobrancelhas – Ele será atropelado pela Karen facilmente!

Elas riram um pouco e então Luxuriah olhou demoradamente a irmã antes de perguntar:

— E você? Como pretende atropelar Lor’themar?

Pega de surpresa pela mudança de assunto brusca de sua irmã, Ash não respondeu. Na verdade, pensou a jovem, ela sequer sabia se tinha uma resposta para aquela pergunta. Antes do anúncio da gravidez de Luxuriah e da partida de Huaru tudo estava mais fácil, pois ela receberia orientação da irmã mais velha. Porém, agora Luxuriah não precisava de outras preocupações em sua vida. Ash não jogaria o peso de sua situação em cima dela. Por isso, vendo que a irmã ainda aguardava uma resposta, deu de ombros.

— Sinceramente, não faço ideia. — e se encostando na poltrona, confessou – Nem sei se vale a pena. Acho que ele não sente nada por mim, afinal.

— Claro que sente. — disse a outra tranquilamente.

— Não parece. — questionou a mais jovem. — Não precisa se preocupar com isso Lux. É capaz das coisas ficarem do jeito que estão e pronto.

— Eu não preciso ser poupada de tudo não, sabia? — disse em tom de censura – Eu não vou morrer se lhe ajudar em seu caso amoroso. — Como Ash ficou calada, ela continuou – Eu sei que Lor’themar se sente atraído por você. Ele é péssimo em esconder.

— Como assim? — quis saber a outra tentando encontrar em sua mente quando Lor’themar mostrara algum interesse na frente de sua irmã.

— No café da manhã de ontem eu achei que ele ia ter um colapso com sua recém-adquirida intimidade com Kayliel. — a caçadora riu – Sério? Quebrar uma taça na mão? Isso é tão antiquado! — ficou séria de repente – Mas ele é antiquado, então tudo bem.

O olhar de Ash se iluminou.

— Então você acha… — ela segurou a respiração – Que ele ficou com ciúmes?

— Eu tenho certeza que ele ficou com ciúmes! — Luxuriah riu de novo – E Vivithi concordou comigo quando comentei com ela. Então, querida irmãzinha, não desista agora. Você só vai precisar de um pouco de paciência com aquele elfo.

Ash bufou, chateada.

— Por que ele tem que ser tão difícil? — resmungou.

— Como eu já disse, ele é antiquado. Lor’themar é do tempo que qualquer elfo só era considerado adulto aos cento e dez anos. — e diante do olhar surpreso de sua irmã, explicou – Foi antes do Flagelo. Mesmo com a maturidade biológica alcançada aos dezoito, a sociedade só considerava um elfo realmente adulto depois de, pelo menos, um século de educação. E então ele era apresentado à sociedade e podia casar, ter filhos, ser ativo. — ela ficou pensativa um momento e então continuou – Acho que, para nós jovens, que estamos acostumadas a viver com raças de vida curta por causa da Horda, é estranho. O Flagelo alterou nossa dinâmica ao exigir que pessoas recém-entradas na maturidade pudessem lutar. Mas eu ainda lembro do que papai falava, que era um escândalo quando alguém chamava uma elfa que tinha só cinquenta anos para sair. Não era bem-visto. — ela então encarou a irmã e continuou – Foi nesse contexto que Lor’themar cresceu. Para ele, é um absurdo que nós quatro já estejamos tão envolvida na sociedade. Minha gravidez então, deve estar colocando o cérebro dele a prova. — deu de ombros e concluiu – Para todos os mais velhos é difícil. Para ele, que conheceu nosso pai, é, com certeza, pior.

— Mas Rommath é mais velho que Lor’themar e não se importa! — questionou Ash.

— Rommath tem um detalhe: Kayliel. Ele é da minha idade. Ele vivenciou essa alteração na ordem das coisas mais que Lor’themar. E pode me ver como adulta, quando nos aproximamos. — e colocando a mão na barriga, acrescentou – Eu também me pergunto o porquê de Rommath gostar tanto de mim a ponto de fazer o que ele está fazendo, tendo a idade que tem, mas sinceramente? Nesse momento, não é hora de pensar nisso. E Lor’themar vai perceber. Só tenha um pouco de calma.

— E como vou lidar com ele até esse dia chegar? — perguntou angustiada.

— Normalmente. Como se nada, nunca tivesse acontecido. Isso vai fazer ele se tocar.

— Tem certeza? — Ash não parecia muito crédula.

Luxuriah viu que Karen voltava com suas acompanhantes e se levantou. Ash fez o mesmo. E antes que as outras chegassem perto o suficiente para ouvir, ela fez sua última fala.

— Você já foi a menina boba perto dele. Já foi a revoltada. E agora, será a Ash normal que todos conhecem. Se isso não mexer com a cabeça dele, querida irmã, nada mais mexerá. — e rapidamente, acrescentou – Mas uma aproximaçãozinha de Kayliel hoje a noite não faria mal. — e piscando o olho, encerrou ao assunto.

Ash agora enxergava alguma luz no final do túnel.

— É tudo tão lindo! — exclamou Karen ao chegar perto das irmãs – Estou doida para começar!

— Amanhã você começa. — disse Luxuriah feliz pela alegria da irmã – Pronta para ir para casa?

Karen fez que sim com a cabeça.

— Então se despeça de Lady Liadrin e de Salandria.

A menina fez como a irmã dissera e em pouco tempo estavam no caminho de volta para a Torre Solfúria. E novamente Kassyeh voltou à mente de Luxuriah. Onde estaria sua irmã? Será que voltaria para seu casamento? Ou se recusaria a participar do que ela chamava de ‘loucura’? Era impossível saber o que esperar de uma Kassyeh enfurecida.

Não demoraram a chegar na Torre e logo perceberam uma movimentação diferente. As servas corriam de um lado para o outro. As irmãs se entreolharam, confusas, e adentraram a sala principal da torre. E qual não foi a surpresa de todas ao verem Kassyeh, altiva, no meio do salão dando ordens a todos servos, que estavam arrumando com flores e toalhas finas a mesa de jantar, ao mesmo tempo que ditava um cardápio a duas jovens, que escreviam alucinadamente as palavras da maga.

— E nada de pimenta, ok? — dizia a maga – A Lux detesta pimenta! E não esqueça de deixar a carne bem passada. Nada de bife sangrando para uma grávida!

— Sim, alteza. — diziam as meninas tomando nota.

— E quanto à sobremesa, vocês vão…

— Kassyeh? — chamou Luxuriah, estupefata.

Kassyeh encarou a irmã e parou de falar imediatamente. Parecia envergonhada. Baixou a cabeça, apertou o vestido com as mãos, mas tinha uma última ordem a dar às servas.

— Vão adiantar as coisas que vou já falar da sobremesa.

As jovens saíram praticamente correndo de lá.

— O que está acontecendo? — quis saber Ash, sem entender nada.

— Você não está mais com raiva, Kass? — perguntou Karen ansiosa.

— E o que diabos aconteceu com seu rosto? Tem uma mão marcada aí! — exclamou Luxuriah.

A jovem maga encarou as três irmãs. Agora, com a mente mais límpida e com a raiva dissipada, percebeu o quão foi infantil e idiota pelas coisas que falou e fez. Ali, na sua frente, estava o que realmente importava.

Sua família.

— Estou organizando seu casamento. — disse – Vivithi falou que você quer casar logo por causa do titio Aethas… — a voz de Kassyeh começou a embargar – E eu não acho justo que você não tenha pelo menos um jantar decente… — as lágrimas brilhavam agora nos olhos – Já que você n-não q-quer um casamento grande… — a maga respirou fundo e olhou dentro dos olhos de sua irmã mais velha, antes de começar hesitante e com as lágrimas já correndo na face – Eu peço desculpas. P-pelas coisas horríveis que eu disse… — ela gaguejava – E-Eu não queria…

Mas Kassyeh não pode terminar a frase. Luxuriah se lançou em seus braços, já em prantos, mas o choro era de alívio. Alívio, porque, no final das contas, ali estava sua irmã. No fim de tudo, ela preferiu ficar ao seu lado, e para Luxuriah, isso era só o que importava. Não percebera o quanto era importante que Kassyeh ficasse ao seu lado até ouvir o pedido de desculpas dela. Por isso a apertou forte em seus braços e a outra retribuiu.

— Kass… — murmurou com a voz embargada.

— Ah, Lux! Sinto muito! — respondeu aos prantos.

As duas irmãs mais jovens sorriam com a cena e, como Luxuriah, estavam aliviadas. Não queriam ver sua família dividida.

— Vocês vão me fazer chorar! — reclamou Ash já sentindo as lágrimas marejarem sua vista. Pelo menos, pensou, eram lágrimas de felicidade.

— Abraço coletivo!!! — gritou Karen e se atirou em cima das irmãs.

Ash logo aderiu e ficaram as quatro abraçadas por um bom tempo enquanto os servos continuavam na correria em que Kassyeh os colocara.

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Notas finais
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