Herdeiros da Guerra

22 Capítulo XIX – Todas nós (PARTE I)


Notas iniciais
Música do capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=plUBhAf_dCQ

Kassyeh não conseguia conter a animação. Enquanto as servas traziam as bandejas e arrumavam a mesa para o jantar, ela andava de um lugar para o outro arrumando objetos, ajeitando o vestido e olhando constantemente na direção da porta de entrada, esperando ver a qualquer momento a irmã entrar para começarem a comemoração.

Estava muito, muito feliz. A ideia de ter um bebê novamente em casa, um pequeno ser para acalentar e mimar, a deixava eufórica. Quando Ash nascera ela ainda era muito pequena para ajudar a mãe; Karen, quando chegara, fora uma aventura maravilhosa. Kassyeh não só ajudara a mãe a cuidar da menina, mas também assumira essa responsabilidade após a morte de Samanthah. Uma criança agora encontraria uma Kassyeh ávida por um bebê e com muito mais experiência. Seria com certeza o ser mais amado e bem cuidado de toda Azeroth.

Era estranho, a elfa se forçou a admitir, que o bebê em sua vida estivesse vindo de sua irmã e não de seu próprio ventre. Estranho, porque Luxuriah nunca dera mostras que queria ser mãe; na verdade, pensando agora, Kassyeh percebeu que Luxuriah sempre tratou o assunto como se fosse impossível pensar que um dia ela pudesse se tornar mãe. Como se fosse uma coisa a qual não estava destinada. Bem, a maga entendia que algumas elfas simplesmente não queriam ser mães. Luxuriah gostava de crianças, é verdade, mas talvez nunca se imaginasse totalmente responsável por uma. Às vezes acontecia. Talvez tenha sido por isso o susto tão grande que a caçadora teve quando se viu grávida.

E pensar em Luxuriah grávida era realmente estranho. E também, tinha que admitir, lhe causada um pouco de inveja. Não aquela inveja ruim que as pessoas nutriam contra as outras, desejando o mal. De jeito nenhum. Era mais uma inveja boa, branda, onde se estar feliz pela pessoa, mas poxa, eu queria também! Kassyeh se sentia muito mal de pensar aquilo e jurou para si mesma que não deixaria sua irmã sequer imaginar que tal coisa pudesse passar pela sua cabeça. Luxuriah já estava nervosa demais com essa gravidez. Não podia se estressar com os delírios fantasiosos e um pouco invejosos de sua irmã.

— Você está estranha.

Kassyeh praticamente pulou assustada quando ouviu a voz de Tewdric tão perto dela. Estava absorta em seus pensamentos e não viu o marido chegar com aquela expressão de que sentira que alguma coisa errada estava acontecendo.

— Como? — foi a única coisa que conseguiu falar.

— Você está estranha. — repetiu preocupado – Está assim desde que chegou.

— Não é nada. — disse rapidamente, mas depois se corrigiu – Não é nada ruim, não se preocupe. Estou apenas ansiosa. — e lhe deu um sorriso.

— Ansiosa com alguma coisa que envolve a Lulu? — perguntou o orc sem rodeios.

Tewdric deveria ganhar um prêmio por sua capacidade de observação, pensou a maga. E junto com ele, outro por sempre fazer as pessoas acharem que ele não estava prestando atenção em nada, quando na verdade parecia assimilar tudo que acontecia a sua volta, mesmo que estivesse de costas e vendado.

— Certo, vou lhe contar. — sussurrou antes de pegar a mão dele e se afastar um pouco das servas – Mas você não pode fazer alarde.

— Certo. — respondeu ele.

Kassyeh abriu um enorme sorriso.

— Teremos um bebê na família! — comentou tentando manter a voz baixa, mas cheia de excitação.

A reação de Tewdric foi inesperada. Ele emudeceu e deixou o queixo cair. Ficou olhando para ela com os olhos arregalados e brilhando de uma emoção que ela demorou um pouco para entender e, quando o fez, a entristeceu.

— Não, Tewdric. — murmurou baixando a vista – Eu não estou grávida...

Mesmo sem olhá-lo, Kassyeh pode sentir a decepção dele na forma como ele deixou os ombros cair, derrotado.

— Ah… — foi tudo o que ele disse.

A decepção na voz dela a arrastou como se fosse um tsunami. Kassyeh sentiu seu coração apertar e apertou as mãos como se quisesse transferir a dor do coração para os punhos apertados.

— Desculpe, eu… — não queria que sua voz estivesse tão trêmula, mas não pode evitar — E-Eu…

— Ei, ei! — Tewdric a abraçou – Calma, não tem porque você me pedir desculpas. Nosso bebê virá quando os ancestrais acharem que ele deve vir. — sentenciou Tewdric — Eu só… — ele separou o abraço e a olhou – Você falou de bebê e achei que estava falando de nós.

Realmente, ela pensou, Tewdric jamais desconfiaria que falava de outra pessoa. Afinal, os únicos naquela torre que estavam transando como dois coelhos loucos no cio em busca de um bebê eram eles. Pelo menos era o que pensava. Então, respirou fundo e deixou o sorriso voltar ao seu rosto.

— A Lux tá grávida!

A expressão do orc tornou-se estranha e cômica. Ele ficou de boca aberta, olhando-a como se esperasse que ela dissesse que era uma brincadeira. Como Kassyeh não o fez, ele apenas murmurou:

— A Lulu? Grávida? — Tewdric estava incrivelmente surpreso. — Sério?

— É, estou tão animada que esqueci como isso vai soar estranho para as outras pessoas. — e o encarando, repetiu com um enorme sorriso — A Lux vai ter um bebê!

Tewdric então deu um enorme sorriso, que logo foi substituído por uma expressão pensativa. Ele colocou a mão no queixo e ficou calado alguns instantes. Antes que Kassyeh pudesse perguntar alguma coisa, ele comentou:

— Será que vai ter chifres?

— Como?

— Chifres. — ele fez um movimento em volta da cabeça como se tivesse desenhando chifres imaginários – Huaru é um tauren e a Lulu é uma elfa… Um elfo com chifres? — ele fez novamente o movimento – Será que vai parecer tipo, um draenei? — ele fez uma careta – Espero que não.

Kassyeh então compreendeu que Tewdric estava pensando que o pai da criança seria Huaru. Bem, seria a segunda decepção do orc naquela conversa. Afinal, Tewdric odiava Grey com todas suas forças.

— Tewdric… A Lux não tá grávida do Huaru. — e dando uma pausa, continuou — O pai é o Grey.

Agora o orc parecia estupefato. E depois de um momento, irado.

— Daquele elfo maldito?! Tem certeza?

A elfa não sabia se era incredulidade ou raiva. Talvez fosse os dois. Percebeu agora que provavelmente a pessoa que tivesse mais chances de ficar incomodado com aquela situação não era Huaru, mas Tewdric. Apesar de Kassyeh não imaginar que ele fosse desgostar da criança só por ser filha de Grey.

— Kayliel disse que ela tá com três meses de gravidez. — explicou — Ela e Huaru só estão juntos há um mês.

A expressão no rosto de Tewdric se tornou sombria e Kassyeh ficou mais preocupada.

— Tewdric… Eu sei que você não gosta do Grey, mas...

— Tô pouco me importando com esse elfo. — retrucou – Vou amar muito essa criança porque será filha da Lulu. Minha preocupação é outra. — e olhando para a porta, coçou o queixo. — Foi por isso que ela foi conversar com ele não é? Para contar?

— Isso. — a animação de Kassyeh voltou com força total — Ela foi contar. Ela estava muito assustada mas eu tenho certeza que vai dar tudo certo! E quando eles voltarem, comemoraremos.

Tewdric não sorriu. Continuou com a expressão pensativa em seu rosto.

— Eu não ficaria tão animada. — disse o guerreiro sinceramente.

— Por que não? — perguntou exasperada. Por que diabos todos estavam duvidando de Huaru? — Ele a ama! Vai ficar um pouco chocado, é verdade, mas depois…

— Kassyeh, — interrompeu Tewdric colocando a mão em seus ombros – escute. Huaru é um tauren bom. Um paladino exemplar. Mas é muito jovem ainda. Ele está deslumbrado com a Lux. Pode amar ela? Sim, acho que sim. Mas uma criança de outro macho… — ele balançou a cabeça em negativa – Não são todos que conseguem aceitar isso.

A maga fechou a cara e perguntou, irritada:

— Você não me aceitaria então naquela época se eu tivesse grávida?

Para sua surpresa, Tewdric gargalhou.

— Eu quereria você mesmo que você tivesse vinte filhos! — e ainda rindo, completou – Mas eu sou diferente.

Kassyeh estava pronta para discutir mais, defender seu ponto de vista, mas um movimento próximo a porta a fez esquecer de Tewdric momentaneamente. Huaru acabara de entrar. Tewdric logo reparou na expressão do rosto do tauren e no fato que ele não estava com Luxuriah, e já se preparou para o pior. Contudo, sua esposa estava animada demais para prestar atenção.

— Huaru! — Kassyeh se adiantou com um grande sorriso no rosto e o abraçou – Finalmente! — e afastando-se, o encarou – Podemos começar a comemorar?

O tauren apenas a encarou, com um olhar perdido.

— O que foi? — perguntou a maga ainda com um sorriso no rosto – Cadê sua animação? Teremos um bebê!

Tewdric pode ver a profunda tristeza no rosto de Huaru.

— Kassyeh… — murmurou ele.

A maga teve um mal pressentimento. Seu sorriso titubeou. Ela olhou em volta e viu que sua irmã não estava lá. Rapidamente deu um passo para trás.

— Cadê a Lux? — perguntou em um tom mais seco.

— Kassyeh… — repetiu o paladino parecendo envergonhado – Eu… — mas ele não conseguiu completar a frase.

Kassyeh não acreditou no primeiro momento. Por mais que sua mente gritasse, seu coração o calava. Claro, era um mal entendido. Huaru não faria aquilo. Não o Huaru que ela conhecia. Aquele mesmo que tinha atravessado o mar para acompanhar sua amada. Esse tauren não a abandonaria, certo? Então porque aquela expressão? Por que a vergonha? E onde estava sua irmã? Ficou encarando-o, como se esperasse que a qualquer momento o paladino caísse na risada e a abraçasse, e Luxuriah aparecesse dizendo ‘buu’ e começasse a rir dela. Então eles comemorariam, certo? Porque um bebê estava vindo. E daí que não era dele? Ele a amava.

Certo?

— Você… — murmurou ela dando mais um passo para trás – Você…

Huaru apenas baixou a cabeça.

E então ela entendeu.

No primeiro momento a dor foi silenciosa. A mágoa se espalhou por toda sua alma enquanto seus olhos marejavam. Kassyeh apertou os lábios, provando o gosto salgado de suas lágrimas quando estas rolaram por sua face. Ficou assim, parada, chorando, por alguns instantes. Até que a frustração e a raiva se misturaram a mágoa.

Então Kassyeh explodiu.

— Seu cretino! — gritou a maga e se jogou em cima de Huaru, dando lhe um sonoro tapa na cara. O tauren ficou aturdido – Seu canalha! Você disse que a amava! — e o atacou ferozmente com as mãos, dando-lhe um tapa atrás do outro. Huaru não tentou se defender.

Quem estava na sala naquele momento ficou abismado. Ninguém ouvira a conversa de Kassyeh e Tewdric. Fora Ash e Kayliel, ninguém sabia a tensão do momento. E mesmo estes dois, que não esperavam um desfecho bom daquela situação, ficaram chocados com a cena. Em um momento estavam todos esperando a janta e logo em seguida viram Kassyeh gritar e pular em cima do tauren com a fúria de uma leoa defendendo os filhos. Aquilo deixou todos perplexos e, no caso dos que sabiam da situação, tristes. Afinal, mesmo com suas desconfianças, tanto Ash quanto Kayliel ainda conservavam um pouco de esperança, que acabara de ser destruída pela explosão de Kassyeh.

O mais preocupante, contudo eram os que nada sabia e agora encaravam a cena petrificados e confusos. Karen e Saba arregalaram os olhos, assustadas, enquanto Kassyeh continuava a avançar com as mãos para Huaru. Lor’themar, perplexo, não conseguiu se mover do lugar. As servas ficaram boquiabertas e sem ação. Aethas e Vivithi não estavam presente.

— Você disse que a amava! — Kassyeh continuava a gritar, estapeando Huaru e o ferindo com suas unhas — Seu canalha escroto, você disse que a amava!

Huaru não se mexeu para se proteger dos golpes de Kassyeh. Apenas murmurou:

— Eu a amo…

— Mentiroso! — lhe gritou Kassyeh – Você é um canalha mentiroso! Que tipo de amor é esse, hein?! Que tipo de amor desiste assim?! Covarde! É isso que você é! Um grande covarde!!!!

Tewdric então decidiu agir. Ele se adiantou e segurou a maga pela cintura, tirando-a de cima do paladino. A elfa, contudo, continuou se contorcendo, tentando chegar até o seu objeto de ódio, enquanto continuava a esbravejar a plenos pulmões:

— Não é amor! Você nunca a amou! Você foi só mais um mentiroso que a fez sofrer! A ama?! Isso é amor?! — lágrimas de ódio rolavam em seu rosto – Que tipo de amor é esse que não aceita? Que abandona? Que vira as costas? Hein?!!

O tauren fechou os olhos.

— Você não entende… — murmurou — É complicado…

— Não, não é! — gritou-lhe a elfa – Ou se ama ou não! E quando se ama, não se desiste assim! O amor não é covarde! Não se esconde! Não deixa de lado! O amor encara junto! O amor supera as coisas! O amor não pode ser contido! — ela finalmente parou de se contorcer e falou agora, numa voz trêmula — Isso que você diz sentir, seu grande idiota, não é nem nunca foi amor… Você não a ama... Nunca a amou…. É apenas mais um mentiroso… — e então, finalmente o choro a venceu.

Kassyeh sucumbiu às lágrimas e suas palavras foram abafadas pelos seus soluços. Tewdric não precisava mais contê-la. Ele afrouxou o abraço e a elfa simplesmente deslizou em seus braços, exausta, como quem desiste de uma batalha que não pode ser ganha. Ela simplesmente fez isso. Desistiu de Huaru. Desistiu daquele que tanto defendera e quem confiara que podia fazer sua irmã feliz. Desistiu de acreditar nele. Não havia mais como acreditar. Só havia agora a sua irmã, com quem se preocupar. E passou a chorar pela dor de Luxuriah.

Quando viu a explosão de Kassyeh ceder, Kayliel logo se adiantou. Cruzou a sala rapidamente em direção a porta e passou pelo tauren como se ele não existisse. Não estava interessado em Huaru. Sua preocupação era Luxuriah. Por isso, ele desapareceu porta afora, em direção ao quarto da princesa.

Ash foi a segunda a agir. Mas não foi em busca de Luxuriah nem de Kassyeh. Ela olhou pela primeira vez naquele dia diretamente para Lor’themar e falou com a voz firme:

— Vamos tirar as meninas daqui.

O elfo assentiu.

— Venham garotas. — disse ele falando com Saba e Karen.

A jovem elfa, contudo estava confusa demais para fazer qualquer coisa. Olhava para Huaru, com aquela expressão envergonhada e perdida em pé em frente a porta, para Kassyeh, que desabara no chão em prantos e Tewdric que a acolhia em um abraço acalentador. Nada fazia sentido para Karen, e a menina começou a se desesperar.

— O que está acontecendo? — perguntou muito assustada – O que está acontecendo?! Cadê a Lux? — o pânico começou a tomar conta da sua voz – Cadê minha irmã?!

Seus olhos estavam arregalados e assustados e ela olhava para Ash e depois para Lor’themar repetidas vezes. Saba não conseguia falar nada. Sentia-se ainda mais perdida que Karen. Nunca presenciara tamanha fúria em Kassyeh. A pequena orquisa estava chocada demais para sequer consolar sua amiga. Cabia então a Ash tentar acalmar sua irmã caçula.

— Venha Karen… — chamou Ash delicadamente pegando em sua mão – Vamos dar uma volta…

— Não! — gritou a menina puxando a mão de volta – Não! Quero a minha irmã! Cadê minha irmã?! Cadê a Lux?! — e desabou a chorar.

A reação de Karen não fora inesperada para Lor’themar. A menina tinha perdido os pais muito jovem e sempre fora poupada de qualquer dor. Agora estava diante de uma situação onde, além de não compreender o que acontecia, o desespero de Kassyeh sugeria algo horrível com Luxuriah. Lor’themar também estava alheio a situação, mas sua experiência dizia que não era nada bom. E também estava preocupado com Luxuriah.

Se algo tivesse acontecido com a princesa, ele prepararia um excelente churrasco naquela noite.

Mais preparado para lidar com aquele tipo de situação, Lor’themar suprimiu sua preocupação e se ajoelhou de frente a Karen e a Saba. Apesar de não chorar, a pequena orquisa estava atordoada também.

— Sua irmã está bem, Karen. — disse numa voz consoladora. — Acho que ela apenas teve uma discussão com o namorado e Kassyeh não gostou. — ele torcia para isso ser verdade, mas no momento queria apenas acalmar a rainha – Coisa de adultos, eles logo vão resolver. Até lá, vamos dar uma volta? Podemos passear no bosque e depois vamos ver Luxuriah, certo?

Ash duvidava que Karen fosse aceitar tão facilmente as palavras de Lor’themar, mas o lorde regente fora tão convicto e tão acalentador em seu modo de falar que fez a pequena elfa relaxar e concordar. Ele então se levantou, pegou as duas pelas mãos, olhou para Ash, apontou Kassyeh com os olhos e saiu pela outra porta com as meninas. Agora restava a jovem caçadora acalentar Kassyeh e cuidar de Luxuriah.

A maga continuava chorando, amparada por Tewdric. Talvez em outra situação o orc tivesse partido Huaru em dois, mas naquele momento, sua preocupação era a esposa. O paladino continuava parado na porta, sem ação. Ash então, se encaminhou até onde estava o tauren. Talvez ele esperasse outro ataque físico, porque se empertigou, disposto a aceita o golpe. Porém, Ash não levantou um dedo. Apenas o olhou intensamente. Eles se encaram por alguns instantes, como se lutassem silenciosamente. E então, como se o julgasse indigno do embate, ela lhe virou as costas e foi até Kassyeh. Abaixou-se e falou suavemente com a irmã:

— Kassyeh, venha… Vamos ver como está a Lux… Isso é o mais importante de tudo...

Kassyeh não respondeu, mas assentiu com a cabeça e levantou-se com dificuldade. Tewdric a apoiou e eles se encaminharam para a porta. Quando estava passando por Huaru, Ash o encarou novamente e falou com a voz seca:

— Eu te odeio.

E saíram, deixando o tauren sozinho na sala, em cuja a mesa exalava o cheiro delicioso do jantar que, naquela noite, ninguém comeria.

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— Você ouviu algo? — perguntou Vivithi interrompendo o beijo de Aethas.

Os dois estavam no quarto dela, que ficava bem em cima da sala. Depois da viagem, eles tinham combinado de se encontrar apenas a meia-noite, quando todos já estivessem dormindo. Porém, com a demora do jantar e sem as sobrinhas mais velhas para repararem em sua ausência, Aethas sentiu que simplesmente não podia mais esperar. Esperou que Vivithi encontrasse seus olhos e então fez um gesto com a cabeça, indicando as escadas. A elfa compreendeu na hora. Lor’themar estava ocupado demais com Karen e Saba, e Tewdric e Huaru estavam distraídos um com o outro. Assim, ela assentiu e foi primeiro. O elfo esperou alguns instantes e então foi atrás. E momentos depois, estavam ambos nus, na cama dela, transando como se o mundo fosse acabar se não saciassem logo aquele desejo.

Nenhum dos dois conseguia compreender tanta atração, tanta volúpia. Vivithi já tivera inúmeros amantes. Aethas também não era inexperiente, mas, mesmo assim, nunca sentiram tanta ânsia por uma pessoa como sentiam um pelo outro naquele momento. Sim, eles continuavam se detestando, e talvez por isso a vontade se tornava cada vez maior. Entretanto, como explicar a paixão ardente que queimava em seus corpos cada vez que se tocavam?

Fora intenso, apesar de rápido. Estavam preocupados que percebessem sua falta. Afinal, eram dois elfos orgulhosos. Admitir publicamente que estavam juntos, ainda que para sexo casual, era inadmissível. Por isso, se esforçaram para aplacar aquela vontade e voltar o mais rápido possível para a sala.

Foi quando eles perceberam o quão difícil era se separar. Mesmo depois do sexo, era simplesmente impossível querer sair dali. Aethas queria continuar dentro dela, se movimentando, beijando seus lábios e seus seios, saboreando o corpo de Vivithi como se fosse uma taça do melhor vinho a ser degustado. Vivithi queria mordê-lo, apertá-lo, passar suas unhas no corpo de Aethas até verter sangue. Queria ver a dor e o desejo em seus olhos até ficar satisfeita, não apenas sexualmente. Afinal, ele os colocara naquela situação. Deveria sofrer por isso. Sofrer e dar prazer a ela, ter prazer e sofrer mais ainda. Era estranho, mas esse era o desejo da elfa.

E mesmo assim, mergulhados um no outro, eles ouviram o grito. Aethas se frustrou com a interrupção do beijo, mas então reconheceu a voz que gritava.

— Kassyeh… — murmurou preocupado.

Os dois se encararam e rapidamente se separaram. Procuraram as roupas caídas pelo chão e se vestiram rapidamente. Os gritos continuavam e Vivithi conseguiu entrever algumas palavras. Era sobre amor. Amor e mentira.

— Ela está brigando com Tewdric?! — perguntou perplexa.

— Não! — respondeu o mago convicto – Eles jamais brigariam assim.

— Então, com quem?

— Veremos.

Saíram do quarto rapidamente e se lançaram em direção a escada. Os gritos já tinham silenciado, e passos apressados foram ouvidos na escada. Vivithi congelou. O que diria para a pessoa que a visse ali, sozinha no corredor com Aethas e sem tentar matá-lo?

Era Kayliel. O elfo sequer olhou para eles e continuou apressado seu caminho. Sua expressão era preocupante

— Ei, Kayliel! — chamou Aethas, mas o elfo não respondeu.

— Ele entrou no quarto de Luxuriah… — observou Vivithi.

Aquilo estava ficando mais estranho. Eles se encararam e sem dizer nenhuma palavra, foram atrás do sacerdote.

Dentro do quarto, Luxuriah estava caída no chão. Chorava baixinho, como uma criança machucada. Kayliel se adiantou e foi até ela. Quando a tocou, Luxuriah gritou:

— Me deixe em paz! — e se enroscou em si mesma, assumindo uma posição fetal no chão.

— Lux… — disse Kayliel em tom acalentador – Se você está sentindo alguma dor… Deixe-me examiná-la…

A elfa negou veementemente com a cabeça.

— A dor que eu sinto… — murmurou ela — Você não pode curar…

Aethas se adiantou na direção da sobrinha, mas Vivithi o segurou.

— Espere. — disse a elfa.

Kayliel continuava agachado, e seus olhos percorreram o corpo de Luxuriah. Tinha que saber como estava o bebê, mas se ela não deixava que ele a tocasse, ficaria difícil. Apenas a ausência de sangue o tranquilizava.

— Lux. — falou novamente Kayliel com a voz confortadora – Estaremos no corredor caso você precise de alguma coisa.

A elfa nada respondeu. Kayliel então se levantou e fez um gesto para que Vivithi e Aethas o acompanhassem. O arquimago ainda relutou, mas Vivithi o agarrou sem nenhuma cerimônia pelo braço e o puxou dali. Ela também estava preocupada com Luxuriah, mas estava claro que ela não falaria nada. Por outro lado, Kayliel parecia saber de alguma coisa. E seria ele quem tiraria suas dúvidas.

Já no corredor, depois que Kayliel fechou a porta, ele fez um gesto para que eles se afastassem um pouco da porta.

— O que está acontecendo? — perguntou Aethas.

Kayliel suspirou.

— Bem, é uma situação delicada… — disse.

Aethas não gostou muito do que ouviu.

— Situação delicada?! — exclamou exasperado – Minha sobrinha está ali no quarto, deitada no chão, sem querer contato com ninguém e você vem me falar de situação delicada?! Sabe quando foi a última vez que eu a vi desse jeito?! — e fez menção de ir para o quarto.

Vivithi novamente o puxou, e dessa vez com bem mais força, e falou, contrariada:

— Você não está vendo que a única pessoa que pode nos esclarecer qualquer coisa é ele, seu idiota?!

— É minha sobrinha que está sofrendo ali! — gritou Aethas.

— Eu também estou preocupada com ela, mas você realmente acha que vai ser mais bem-sucedido que Kayliel falando com a Lux?!

Os dois ficaram se encarando e Aethas puxou o braço, livrando-se do aperto de Vivithi, antes de se virar para o sacerdote e praticamente ordenar:

— Conte tudo.

E foi o que Kayliel fez. A medida que explicava a situação, viu as expressões de Aethas e Vivithi ficarem cada vez mais chocadas e surpresas, e passando depois para a incredulidade e raiva e por fim, a tristeza que foi seguida por um silêncio perturbador.

Antes que algum dos dois pudesse esboçar alguma reação diante das notícias, ouviu-se passos nas escadas e Tewdric, Ash e Kassyeh surgiram. A jovem maga estava visivelmente transtornada, e andava amparada por seu marido. O rosto de Ash, ao contrário, era uma máscara indecifrável; era impossível saber o que ela estava pensando. Poderia ser raiva, angustia, mágoa, tristeza, qualquer coisa. Ash estava calada e contia quaisquer sentimentos que estivesse sentindo no momento. E fazia isso para tentar manter o controle da situação, já que Kassyeh nitidamente era incapaz de fazer.

— Kass! — Aethas se adiantou e abraçou sua sobrinha.

— Tio… — murmurou a maga – E-Eu a-acreditei n-nele… — gaguejou.

— Eu sei querida. Todos nós acreditamos…

Enquanto Kassyeh era consolada, Ash se voltou para Kayliel.

— Como ela está? — perguntou.

— Ela não me deixou examiná-la. — contou – Mas fisicamente parecia bem. Não havia sangue.

— Ela pode perder o bebê? — quis saber Vivithi.

— É uma possibilidade que não posso descartar. — confessou o sacerdote – Mas quando a examinei mais cedo, o bebê parecia bem forte e bem acomodado.

As duas elfas se calaram.

Tewdric então se aproximou.

— O que faremos? — perguntou o orc. — A Lulu não pode ficar sozinha agora.

— Seria interessante darmos um tempo a ela. — sugeriu Kayliel para o espanto de todos – Sei que vocês estão preocupados, e eu estou também, mas se chegarmos todos lá agora, isso só a estressará mais. Deixe-a se acalmar um pouco e depois Ash e Kass podem vê-la. — e se voltando para a maga, acrescentou – Mas você precisa se acalmar primeiro.

Kassyeh assentiu.

— Tem uma sala aqui nesse andar. — revelou Vivithi – Podemos esperar lá enquanto tanto a Kass quanto a Lux ficam mais calmas.

Todos assentiram e então Tewdric perguntou:

— E quanto a Huaru?

Houve um mal estar geral antes que Ash respondesse:

— Ele não é problema nosso.

E foi o suficiente para resolver aquela questão, por enquanto.

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Lor'themar levou as meninas para verem a lua brilhando sobre as águas do lago, enquanto tentava entender o que estava acontecendo. Contudo, era difícil elaborar qualquer linha de raciocínio enquanto tentava distrair duas meninas chorosas e assustadas. Aquilo não podia ter acontecido em hora pior; tanto Karen quanto Saba já estavam agitadas e nervosas com a partida da pequena orquisa, marcada para o dia seguinte. Só isso já era motivo para ficar preocupado com o estado emocional da futura rainha. E então, Kassyeh surta com Huaru. Qual teria sido o motivo de tanta fúria?

— Eu não queria ir embora… — murmurou de repente Saba.

Elas estavam sentadas na beira do lago, onde colocavam folhas vermelhas na água, como se fossem barquinhos.

— Eu não queria que você fosse. — respondeu Karen.

Lor’themar as observou e lembrou de si próprio e Dhomm quando eram crianças. Sentiu um aperto no peito ao pensar no amigo, que morrera sem poder estar presente ali, naquele momento quando sua filha caçula precisava dele. Então, se aproximou de onde elas estavam, sentou no chão, ao lado das duas e também pegou uma folha. Colocou-a delicadamente no lago e agitou a água para que afastasse sua folha das demais. Enquanto isso, as meninas o observavam.

— Estão vendo essa folha que pus na água?

Elas assentiram.

— Vejam como ela está se distanciando das outras. Ela está longe porque eu agitei a água. Mas me digam, ela deixou de ser uma folha porque está longe?

— Não. — responderam em uníssono.

— Da mesma forma, vocês não vão deixar de ser amigas por estarem longe. — olhou bem para as meninas, e sorriu calorosamente antes de continuar — Vejam bem, Karen terá muito que aprender para ser rainha. E você Saba, tem muito que aprender para ser uma boa membro da Horda. Cada uma de vocês terão coisas para fazer e por isso terão que ficar um tempo sem se ver. — ele apontou a folha – Como a folha que foi pra longe por causa da minha mão. Mas não vão deixar de ser amigas. Como a folha não deixou de ser folha. — ele deu uma pausa antes de falar – Dhomm não deixou de ser meu amigo porque morreu. — sua voz ficou um pouco mais baixa – Sinto sua falta todos os dias.

As meninas olharam para ele e depois novamente para folha. Então, deram as mãos e ficaram encarando o lago. Em seguida, Lor’themar sentiu as pequenas mãozinhas apertarem sua mão e olhou para as meninas, que o consolavam. Encarou os olhos verdes intensos de Karen e o castanho suave de Saba. Elas eram tão diferentes, mas ao mesmo tempo tão iguais! Lor’themar sabia que aquela seria uma amizade verdadeira e que, no futuro, a separação delas seria muito, muito pior que apenas uma volta a Orgrimmar. Karen viveria centenas, talvez milhares de anos. Saba viveria, no máximo, setenta anos. Orcs viviam pouco. Mas sabia que, da mesma forma que ele guardava Dhomm no coração, Karen guardaria Saba. Mas isso era uma coisa para ficar só na cabeça dele. Jamais teria coragem de falar aquilo para qualquer uma das duas.

— Eu sei que temos obrigações. — falou Saba de repente – Mas eu queria ficar aqui para ajudar Karen.

— Ajudá-la a ser rainha? — perguntou o lorde regente.

A pequena orquisa negou com a cabeça.

— Ajudar com o que tá vindo.

O elfo franziu a testa.

— Como assim, Saba?

Saba deu de ombros e olhou para Karen.

— Sei lá, to sentindo alguma coisa desde que voltamos da Nascente do Sol. Sinto aqui. — ela apontou para o peito – Sinto que algo vai acontecer. Só não sei o quê.

Lor’themar ficou impressionado. Já ouvira falar que algumas pessoas despertam dons adormecidos quando tocavam na Nascente do Sol. Teria isso acontecido com Saba? Bem, com certeza algo realmente aconteceu, para explicar o comportamento de Kassyeh e Huaru. Mas se fosse algo no plano da vida particular de Luxuriah, não era necessário que Karen ficasse sabendo de tudo e sofresse por isso. Ela deveria ser poupada de estresses desnecessários.

— Se algo acontecer, — disse Karen para a amiga – eu peço sua ajuda.

— Se algo de muito ruim acontecer, — disse Lor’themar frisando o ‘muito ruim’ — e Karen precisar de você, eu mesmo vou te buscar Saba. Até lá, vocês podem escrever cartas uma para a outra.

As meninas deram gritinhos de alegria e se jogaram em cima do elfo. Pego de surpresa, Lor’themar acabou caindo para trás com as duas por cima de sue peito. Riu alto e se perguntou quando fora a última vez que se sentira tão bem assim. Não fazia ideia.

— Certo, meninas, certo. — ele se levantou – Vocês precisam comer algo. Já passou da hora da janta.

— Será que ainda estão brigando? — perguntou Karen olhando para a Torre.

Lor’themar pensou um pouco.

— Deixem-me ver. Fiquem aqui.

E voltou para a Torre.

Enquanto caminhava, pensou que poderia muito bem mandar uma carta solicitando a mãe de Saba a prorrogação de sua estadia ali. Poderia até mesmo ir ele próprio pedir isso. Mas sabia tanto Karen quanto Saba tinham que aprender a lidar com separações daquele tipo. Principalmente pelo fato das duas trilharem caminhos diferentes e serem de raças diferentes. E quando Saba fosse adulta e pudesse decidir sua própria vida, seria muito bem recebida em Luaprata se assim desejasse. Até lá, ambas tinham muito o que aprender e amadurecer. Mas uma coisa o agradava e muito: a futura rainha já tinha sua primeira seguidora incondicional.

Ao chegar na sala de jantar, não viu ninguém além das servas.

— Onde estão todos? — perguntou.

— O tauren saiu. — respondeu uma delas – Não disse nada. Apenas saiu.

— As princesas estão lá em cima, com a senhorita Vivithi, o senhor Aethas e o sacerdote Kayliel. — disse outra.

Lor’themar assentiu com a cabeça.

— Bem, tire os pratos da mesa e deixe apenas dois. Aqueçam rapidamente a comida. Vossa majestade e sua amiga vão jantar.

— Sim lorde regente. — disse elas antes de começarem a ajeitar as coisas.

Por mais problemas que possam acontecer, pensou ele, crianças não devem ficar sem comer. Por isso, foi em busca das meninas, que estavam de mãos dadas, no mesmo lugar que as deixara, e as trouxe de volta.

Tanto Karen quanto Saba resistiram um pouco a jantar só as duas. Lor’themar estava sem fome e definitivamente todos os outros também estavam, mas acabou comendo um pouco para incentivar as meninas. Depois dos pratos limpos, Saba falou, resoluta:

— Karen, está na hora de você ver a Lux.

— Você acha? — perguntou a pequena elfa, duvidosa – E se tiver briga ainda?

Saba negou veementemente com a cabeça.

— Você pode ir ver ela agora. Eu sinto isso.

Lor’themar tava impressionado. Será que realmente a Nascente do Sol despertara algo em, Saba? Talvez devesse mandar seus contatos em Orgrimmar ficarem se olho na menina.

— Acho que Saba tem razão. — disse – Venham.

Eles subiram as escadas em direção ao quarto de Luxuriah. E antes que pudessem chegar nele, Lor’themar ouviu sussurros vindo de uma das salas de reuniões do andar.

— Primeiro aqui, meninas.

Ele estava certo em ir lá primeiro. Na sala, estavam todos os que podiam esclarecer o que estava acontecendo.

E é claro, Ash estava lá. Seus olhos encontraram os dela, mas a elfa rapidamente desviou a vista. Lor’themar sentiu-se um pouco incomodado com o fato dela está sentada tão perto de Kayliel.

— Quero ver a Lux. — foi a primeira coisa que Karen disse.

Todos olharam para Lor’themar.

— Acredito que Karen precise ver como está a irmã para ficar completamente tranquila. — falou suavemente.

Kayliel assentiu.

— Acho que está na hora. Mas deveriam ir todas as irmãs.

Ash foi a primeira a se levantar. Kassyeh foi logo em seguida. Saba deu um rápido abraço em Karen e sussurrou em seu ouvido:

— Vai dar tudo certo.

Depois, as duas elfas mais velhas a pegaram pela mão e a conduziram dali, Quando as três saíram, o lorde regente olhou firmemente para os que ficaram e ordenou com sua voz potente:

— Agora me contem tudo que está acontecendo.

****************************

Luxuriah estava imersa em seu próprio silêncio. Tudo que podia ouvir eram as batidas de seu coração. Deitada no chão, abraçando o próprio corpo, permitiu-se pensar se seu coração estaria sincronizado com o do seu bebê.

A dor era tanta! Depois de tanto tempo, resolvera abrir seu coração para alguém. Permitira que alguém chegasse no âmago de sua alma e ali habitasse. Permitiu-se sonhar com um amor que duraria o tempo de uma vida e que para ela pudesse ir muito além do tempo. Pensara, pela primeira vez depois da morte de seus pais, que poderia sim ser feliz de novo, sem mentiras, sem subterfúgios, sem segredos. Achava que podia expor sua alma nua e não ser machucada.

Pela Nascente do Sol, como estivera enganada!

Ele fora embora. Simplesmente isso. Virara as costas e fora embora. Jogou fora tudo aquilo que viveram. Provou que todas as suas palavras não foram nada mais que mentiras bem contadas.

Huaru provara que não era muito diferente de Grey.

E agora, o que restava a ela? Reunir seus cacos e tentar de novo? Não acreditava que era possível. Porque, por mais que odiasse, seu amor por Huaru ainda estava ali. Se nada sentisse por ele, seria fácil. Mas como fazer para se livrar daquele amor?

Lembrou novamente dos pais. Eles se amavam tanto. Apesar de toda a dor que a morte deles trouxeram, sabia que tinha sido misericordioso ambos morrem no mesmo dia. Não conseguia imaginar um sem o outro. Como agora não conseguia se imaginar sem Huaru.

Será que tudo tinha sido realmente uma mentira? Será que, em todos aqueles dias, na cachoeira, no Poço das Visões, na casa de campo, na sua casa em Luaprata, será que todos aqueles momentos foram apenas brincadeiras para ele? Será que, em algum momento, ele realmente a amou?

Não… Se tivesse amado, não teria ido embora. Se realmente sentisse tudo que lhe dissera não tinha virado as costas para ela e para seu bebê. Bebê… Nunca mais conseguiria ouvir aquela palavra sem lembrar dele, da forma suave como pronunciava aquele apelido bobo e a fazia derreter.

Quando se tornara tão fraca? Quando se permitira descer a um ponto tão baixo que agora jazia no chão, enroscada em sua própria dor, sentiu-se tão diminuta quanto jamais fora antes?

Os humanos destroçaram seu corpo. Enraizaram um ódio nela que era imensurável. Fizera com que ela se sentisse suja. Mas não era assim que eles eram, os humanos? Sempre prontos para levar a dor e a destruição por onde passavam? Fora terrível, mas não surpreendente. Huaru, ao contrário, lhe prometera o amor suave de um dia cálido de verão, para depois jogá-la numa tormenta glacial. Não seria ele muito pior que os humanos?

E ainda havia aquele pequeno ser ali no seu ventre. Um pequeno milagre que crescia forte, sobrevivendo a duas grandes decepções. Primeiro, de seu pai biológico. Depois, daquele que poderia ter sido seu pai. Seu pequeno milagre não teria quem chamar de pai. Não teria quem a embalasse de noite quando o cansaço de sua mãe fosse tanto que ela sequer conseguisse abrir os olhos. Não teria com quem brincar e dividir segredos que não podiam ser compartilhados com a mamãe mandona. Não haveria quem a ensinasse que a mamãe a ama apesar dos gritos e dos castigos. Não haveria quem ter ciúmes da pequena elfa, se fosse uma linda menina. Nem quem ensinar a ser um respeitoso elfo, se fosse um menino. Claro, haveria amor por todo lado. Havia Tewdric. Kassyeh. Ashrial. Karensky. Mas não haveria um pai.

Não haveria Huaru.

Sofria também por seu bebê porque sabia que o tauren seria um excelente pai. Seria o melhor de todos. Mas sua criança não conviveria com ele. Não teria aquele sorriso sincero de menino tímido. Ela se odiava naquele momento por querer Huaru perto, porque sabia que ele seria o melhor pai do mundo. Queria ele perto porque naquele momento de dúvida e de confusão desejava o abraço de seus braços fortes. Desejava que ele entrasse pela porta e pusesse um fim a toda dor.

Se odiava porque queria Huaru de volta.

Se odiava porque queria chamar por ele.

E se odiava mais ainda porque sabia que não faria nada, a não ser ficar ali no chão, lamentando.

Porque era orgulhosa demais para mendigar o amor de quem quer que fosse.

Ficou novamente pensando apenas nas batidas de seu coração e tentando sentir o coração de seu bebê. E então a porta se abriu. Seu coração se acelerou e ela ansiou por ouvir as passadas fortes do paladino e o som dos seus cascos. Mas o que ouviu foram pequenos e graciosos pares de pés se aproximando. Sentiu-se mal por sua frustração: afinal, eram suas irmãs. Deveria ficar feliz, mas só ficou ainda mais triste.

Karen ainda não sabia o que acontecera, mas aquilo não importava. Luxuriah importava. Por isso, sem falar uma palavra, se deitou no chão e abraçou fortemente a irmã. Luxuriah ficou um pouco surpresa com o gesto, mas logo percebeu o quanto estava precisando daquilo: um singelo e reconfortante abraço. Por isso, enlaçou a irmã caçula e beijou sua cabeça. As lágrimas rolavam novamente em seu rosto. Logo, Kassyeh e Ash se juntaram ao abraço. E ficaram ali, as quatro, deitadas no chão, abraçadas. Não importava se eram princesas. Se eram lendas no mundo lá fora. Não importava nada nem ninguém. Por que elas ainda tinham umas às outras.

— Estamos com você Lux. — disse Karen, que nunca soube o quanto suas palavras foram decisivas para sua irmã. — Estaremos sempre com você. Todas nós.

— Todas nós. — repetiram Kass e Ash.

E Luxuriah sabia que, por elas, jamais seria abandonada.

E seu coração se acalmou.

**************************** Quando amanheceu em Ventobravo, a Bastilha já estava em polvorosa. Pelo menos uma dúzia de soldados andavam de um lado para o outro ajeitando os últimos detalhes para embarcarem na missão comandada por Lina. O alvoro talvez não se devesse à missão em si; todos ali já estavam acostumados ao trabalho difícil no exército de Ventobravo. O que causava a comoção era a presença da princesa Arshe no grupo.

E não era apenas isso. Enquanto princesa observava os servos ajustarem a cela de seu cavalo e colocarem suas coisas nele, o rei Varian e o príncipe Anduin assistiam a tudo, apreensivos. A presença do rei só reforçava o nervosismo dos soldados e a certeza que aquela não seria uma missão comum.

A comandante Wood, Lina, todavia não parecia afetada pelo alvoroço de seus soldados. Ela estava ajustando as rédeas e a sela de seu próprio cavalo, enquanto um enorme tigre espectral de olhos azuis faiscantes repousava ao seu lado.

— Você parece bem tranquila. — comentou Doroteya.

Lina terminou de ajeitar a sela e a encarou. Doroteya estava em sua forma humana, com os cabelos cacheados soltos e um enorme sorriso no rosto. Lina sorriu para ela também.

— Não adianta eu ficar conjecturando o que vai acontecer. — disse simplesmente – Só preciso estar pronta para tudo. — e apontando com o queixo na direção de Arshe, completou – E estar pronta para ela.

Na noite anterior, Lina tivera que praticamente arrastar Arshe de volta para a Bastilha, tirando-a das garras de seus irmãos. E só conseguiu porque ameaçou de deixá-la de fora da missão se não estivesse bem descansada. Agora, a princesa não estava mais com as olheiras do dia anterior e seus olhos estavam límpidos e seu semblante descansado. Aparentemente o elixir de Doroteya era muito bom.

— Não sei se te agradeço ou te xingo. — disse Lina voltando a olhar para a druidesa – Ela parece muito bem.

— Ouvi dizer que Arshe é uma maga tão boa quanto a Grã-Senhora Proudmore. — comentou a outra – Então vai ser de muita ajuda na missão caso tenhamos um combate.

Lina fez uma careta.

— Discorda? — perguntou Doroteya.

— Não é isso. — ela franziu a testa – É que detesto Jaina Proudmore.

Doroteya deu de ombros.

— Dizem que ela é uma das melhores magas do mundo.

— Ela pode até ser, mas continua um pé no saco. Todo aquele discurso pacifista dela… Eu simplesmente não acredito.

— Não acredita que possa haver paz? — perguntou a druidesa.

— Não acredito que a sanidade dela vai durar muito se ela continuar a se recusar a enxergar o mundo como ele é. — retrucou – Todos nós queremos a paz. Exceto alguns maníacos por ai, ninguém quer ver guerra o tempo todos. Mas a forma como ela defende, é utópica demais. Acho que ela ainda vai ver essas ideias dela ruírem e ruirá junto com elas.

Doroteya não respondeu. As ideias de Lina pareciam fazer sentido.

— Oh! — exclamou a druidesa – Acho que vou dar uma volta por ai. — disse repentinamente.

— Por que? — estranhou a comandante.

Doroteya sorriu.

— O rei vem vindo ai.

E se transformou num cervo e saiu galopando feliz.

A risada de Lina foi inevitável.

— Comandante. — a voz de Varian reboou a sua volta como um trovão. Lina sentiu todos os pelos do seu corpo se eriçarem e agradeceu por usar um rabo de cavalo. Tinha impressão que seus cabelos poderiam ter ficado de pé apenas em ouvir a voz dele.

— Majestade. — conseguiu falar em um tom imparcial e militar – Está quase tudo pronto. Alguma ordem?

— Quero falar com Lina e não com a comandante. — disse ele em um tom que misturava divertimento e autoridade.

Um pequeno sorriso brincou nos lábios de Lina.

— Ela está indisponível majestade. A comandante precisa colocar as coisas em ordem.

— Tudo bem, posso esperar o fim da missão. — disse ele sentindo pela primeira vez que poderia atrapalhar mais que ajudar naquele momento – Tudo sob controle?

— Como sempre majestade.

Varian assentiu. Queria dizer muitas coisas para ela, mas percebeu que aquela não era hora nem o lugar. Aparentemente Lina estava sabendo lidar bem melhor com a situação estranha que agora existia entre os dois que ele. Não pode deixar de se sentir um pouco envergonhado.

Olhando em volta, viu o quanto todos os observavam, mas eram as ordens da comandante que eles aguardavam. Os últimos preparativos já tinham sido feitos e os soldados os olhavam, em busca de um direcionamento. O rei então percebeu que todos ali orbitavam ao redor da comandante, como pequenas mariposas ficam em torno da luz.

— Todos a esperam comandante. — disse por fim.

Lina o encarou antes de olhar em volta. Percorreu com os olhos todos os seus soldados então parou em Arshe, que estava parada ao lado de Anduin, a encarando. Arshe sorriu para ela alegremente. Lina apenas acenou com a cabeça.

— Cuidarei dela. Não se preocupe, majestade.

Varian assentiu.

— Cuide-se também.

A vontade dele era tocá-la, nem que fosse apenas um leve roçar de dedos, para se despedir. Mas os olhos firmes dela lhe diziam para não fazer aquilo e Varian sabia que ela estava certa. Por isso, apenas acenou com a cabeça e ela bateu continência. Todos os outros soldados a imitaram logo em seguida, ao mesmo tempo, como se tivessem ensaiado. Varian não entendeu porque, mas vê-la ali, naquela posição, o deixava feliz, mas incomodado. Então, olhou-a mais uma vez antes de afastar-se em direção a Arshe e a seu filho.

— Tome cuidado. — disse ele para a jovem maga – E obedeça todas as ordens da comandante. Todas. – frisou bem o rei.

— Pode deixar, tio. – Arshe deu um abraço apertado em Varian – Obedecerei a ela como obedeceria o meu pai.

— Você não obedecia muito ao seu pai… — observou Anduin com um gracejo.

— Mas eu tentava! — defendeu-se ela.

Todos os três riram e o rei e o príncipe se afastaram. Agora, a jovem estava nas mãos da comandante, assim como Doroteya e os outros soldados. Varian tentou relaxar, mas sabia que não o faria até que aquelas duas estivessem de novo a salvo dentro dos portões de Ventobravo.

Nem ele, nem ninguém previu a angustiante situação em que elas se encontrariam quando cruzaram o portão de Ventobravo dias depois.

***************************

Huaru observou a lua percorrer o céu, sumir entre as árvores e o sol surgir sem sequer se mover do lugar. Estava sentado em uma pedra, na floresta, afastado da Torre Solfúria e imerso em seus pensamentos. Estava ali, naquele lugar, desde que deixara o prédio na noite anterior.

Depois que todos saíram e o deixaram só na sala de jantar, ele sabia que não poderia permanecer ali por mais um minuto sequer. Precisa de um lugar calmo, para por ser pensamentos em ordem e lidar com o turbilhão de emoções que tomava conta de seu peito. E jamais conseguiria isso na Torre Solfúria, onde provavelmente todos o odiavam naquele momento. Por isso, se retirara para a floresta de Luaprata, sentara-se em uma pedra numa das colinas e passara a contemplar o céu em busca de alguma paz.

Ou procuraria uma resposta?

Provavelmente, as duas coisas.

Luxuriah estava grávida.

Quando ouvira aquelas palavras, lhe pareceu que era bom demais para ser verdade. Seria um milagre? Um presente da Luz para ele? Não apenas encontrara o amor de sua vida, mas agora teriam um filho? Não era apenas a diferença de raças que poderiam tornar as coisas bem difíceis, mas tudo pelo que Luxuriah tinha passado. Uma criança! Um bebê para eles!

Mas aí depois, veio a constatação. A criança não era dele, era de Grey. E foi nesse momento em que toda a confusão se instalou. Foi o momento em que ele se viu diante do maior dilema de sua vida. Porque, ele sabia, que não era justo.

Não era justo com Grey.

Além de lhe tirar a mulher que o amava, também tirar-lhe-ia o filho ou filha?

Claro, Luxuriah pôde decidir. Ela deu a opção a Grey de aceitá-la e ele a rejeitou. Huaru a acolheu. E juntos, eles estavam felizes. Fora uma decisão dos dois. Mas uma criança… Ela não teria como escolher. Luxuriah com certeza não deixaria Grey se aproximar, e a única referência de pai que ele ou ela teriam seria do tauren. E isso era injusto. Por que, mesmo sendo um imbecil, Grey ainda era o pai. Ele deveria ter o direito de poder decidir também. Pelo menos era isso que Huaru pensava.

Só que, Luxuriah não dera a chance de explicar. Nem ele sabia exatamente como explicar. E também havia o ciúme. O ciúme intenso que o corroía, em saber que havia um pouco daquele elfo dentro de Luxuriah. Em saber que agora, eles estariam ligados para sempre. Que agora ele poderia se reaproximar dela. E teria motivos para isso. Teriam um bebê! Talvez ao vê-lo de volta, Luxuriah preferisse ficar com alguém de sua raça. Alguém que pudesse ser seu consorte. Talvez por isso o tivesse dispensado tão fácil.

Não… Luxuriah não era assim. Ela era a pessoa mais sincera e maravilhosa que ele conhecia. Ela era uma em um milhão. Uma luz no meio da escuridão. Então, por que diabos, ele simplesmente foi embora? Por que não ficou? Poderia agora, ter uma futura esposa e um bebê a caminho!

Mas não era justo. Não era justo tomar aquilo de Grey sem que ele, pelo menos, tivesse lutado por isso.

Que confusão!

Enquanto se debatia entre esses pensamentos contraditórios, Huaru ouviu passos se aproximando. Pelo som, não era nenhum elfo. Então só poderia ser uma pessoa.

— Veio me cortar ao meio? — perguntou Huaru quando Tewdric apareceu em meio as árvores.

— Vontade não me falta. — respondeu o guerreiro sinceramente – Mas a Lulu ainda te ama.

Ouvir aquilo o deixou ainda pior. Baixou a cabeça e a colocou no meio das mãos. Não teve vergonha em parecer patético diante do orc, pois era assim que se sentia.

— Como ela está? — quis saber.

— Como você acha? — retrucou Tewdric.

Huaru balançou a cabeça, como se não quisesse pensar naquilo. Só de pensar que causara dor a Luxuriah o deixava com o coração em pedaços.

— Isso dói? — quis saber o orc – Imagine então o que ela não deve tá sentindo… — e andando de um lado para o outro, continuou – A dor de ser abandonada de novo, e dessa vez com uma criança dentro dela…

Huaru sacudiu a cabeça.

— Não fale nada, por favor. — pediu.

— Por que? — Tewdric se aproximou mais, e sua voz saiu fria quando falou – Você não se importa mesmo.

Huaru ergueu a cabeça, furioso.

— Claro que me importo! — vociferou – Eu a amo!

Tewdric soltou uma risada.

— Jeito estranho esse seu de mostrar seu amor…

O tauren não aguentou. Se levantou rapidamente, se colocando de pé em frente ao orc, numa nítida postura de desafio. Tewdric sequer piscou. O encarou com a mesma intensidade e ergueu a cabeça como se indagasse se aquilo era tudo que o outro tinha a oferecer. Se Huaru achava que podia intimidá-lo, estava muito enganado.

— Você não sabe de nada, orc! — Huaru falou com fúria, com os olhos em brasa e a respiração saindo forte de suas narinas – Você não sabe o que se passa em meu coração!

Tewdric riu, mostrando todas as suas presas. Ergueu a cabeça, com desdém.

— Sinceramente, nem quero saber. — respondeu no mesmo tom – Estou pouco me lixando para seus sentimentos, tauren. Só quem me importa é a Lulu. E é por isso que estou aqui.

Uma centelha de esperança brilhou nos olhos do paladino.

— Ela pediu para me ver? — quis saber.

— Não. — respondeu Tewdric gostando de ver a decepção tomar conta do outro – Nem vai pedir. Você quem deu as costas, amigo, e você quem deve voltar, se assim quiser. — e dando de ombros, completou – Só não espere ser tão bem-aceito como foi antes.

Huaru lembrou da reação de Kassyeh e de Ashrial e entendeu bem o que ele quis dizer. Se perguntou se, àquela altura, Karensky também o odiava. Então, baixou a cabeça e se afastou em direção a pedra novamente.

— Você não entende. — disse – É complicado.

— Entendo sim. — Tewdric deu de ombros – Se tem alguém que entende sou eu.

Contudo, o paladino negou com a cabeça.

— Não, não entende.

Tewdric revirou os olhos. Crianças. Sempre acham que ninguém os compreendem. A diferença entre Huaru e Karen era que a menina, se estivesse no lugar do tauren, provavelmente lidaria melhor com aquele problema que ele. Ah, e os chifres. Karenzita não tinha chifres, graças aos ancestrais.

— Talvez eu não entenda da forma como os paladinos e os taurens entendem, mas sei como machos pensam. — ele se aproximou — De alguma forma, seu problema não é a Lulu. Nem o bebê. Seu problema é com o elfo maldito. É o Grey. Não é?

Huaru virou-se e o encarou, surpreso. Estava tão evidente? Não… Era evidente para Tewdric. De alguma forma ele conseguia entender aquilo. Até que ponto ele entenderia? Sentando-se novamente, Huaru nada disse, apenas confirmou com a cabeça.

Tewdric foi até onde o tauren estava e sentou-se ao seu lado. Como nenhum dos dois portavam armas, as chances de arrancarem a cabeça um do outro era bem menor. Por isso, conseguiram ficar lado a lado naquele momento.

— Eu queria que ele simplesmente sumisse da vida dela. — confessou o paladino. — Ele não a merece. Nunca mereceu.

— Mas agora com uma criança, é impossível. — constatou o guerreiro. — Ele sempre estará lá. Mesmo que não esteja presente. É isso que o incomoda.

Era isso e muito mais. Só que simplesmente não sabia como começar a explicar todas as coisas que passavam por sua cabeça.

Ficaram em silêncio por um tempo. Huaru não iria se enganar em pensar que teria em Tewdric um aliado. O orc poderia não estar com o machado nas mãos tentando parti-lo em dois, mas deixara claro que sua preocupação não era com ele. Será que se contasse tudo, se despejasse o que sentia, poderia desamarrar todos os nós que sua mente criara? Será que poderia tornar Tewdric seu confidente?

Não. Por que, por mais que o entendesse, o orc não confiava nele. E Huaru pode comprovar isso logo em seguida. Tewdric se levantou e apontou para o céu.

— Você tem até o fim do dia para decidir o que fazer. Se é se arrastar e pedir perdão a Lulu e rezar, rezar muito para que ela o aceite de volta ou ir embora daqui e nunca mais voltar. Aí, você esquecerá a Lulu, a minha Kass, a Ashzinha e a Karenzita. Todas elas. Você sumirá da vida das minhas meninas. — e engrossando a voz, continuou – Você deverá tomar uma decisão. Porque, se eu vier aqui depois do sol se pôr e você estive ai com essa cara de bunda, aí sim, você cantará suas dúvidas para meu machado. — e dando as costas, completou – Se tem um momento em que você deve provar que é um tauren e não um filhote, esse momento é agora.

E foi embora, deixando Huaru novamente com seus pensamentos em ebulição e um cronometro sobre sua cabeça.

*************************************

Rommath fora chamado de manhã bem cedo até a Torre Solfúria. Nada de anormal. Lor'themar costumava fazer suas reuniões assim que o sol raiava, pois assim dava tempo para agilizar todas as coisas que fossem decididas. O mago pensava que finalmente naquela manhã os papéis dele e Halduron seriam definidos. Como a futura rainha era ainda muito nova, haveria um conselho para ajudá-la a governa, tão logo fosse coroada. O lorde regente estaria nele, sem dúvida, assim como as demais princesas. Qual seria então sua posição?

Sua preocupação era compreensível: durante anos fora amigo do príncipe Kael'thas e assistira sua ascensão e queda. Todo esse processo deixara uma marca muito forte em Rommath, algo que era impossível de se esconder. E agora, depois de tantos anos do fim do reinado dos Andassol, quando seu povo estava frente a uma nova esperança, colocada nas mãos daquela criança, Rommath estava disposto a não deixar que os erros passados fossem repetidos novamente.

Porém, quando chegou, não viu o líder dos patrulheiros. Estavam na sala apenas Lor'themar, Vivithi, Karensky e Saba. A pequena orquisa e a jovem elfa estavam abraçadas. E pareciam que estava assim fazia algum tempo. Havia uma maleta no chão e Rommath então entendeu que seria responsável por mandar a amiga de sua futura rainha para casa. Uma tarefa que, aparentemente, seria bem dolorosa para as meninas.

Quando notaram a presença de Rommath, todos o cumprimentaram com a cabeça. O mago pensou em dizer 'bom dia', mas dada as circunstâncias, isso não soaria muito bem.

— Então, — foi o que disse – o que temos hoje?

— Saba irá para casa. — respondeu o lorde regente – Quero que você abra um portal para Orgrimmar. Vivithi a acompanhará.

— Por que não posso ir com a Vivi? — questionou Karen sem se separar do abraço.

— Já explicamos isso Karen. — falou Vivithi com delicadeza – Agora que você será a rainha, não pode mais ficar andando de um lado para o outro indiscriminadamente. É perigoso.

— Mas é Orgrimmar! — protestou Saba – Lá não é perigoso!

Lor'themar, Vivithi e Rommath se entreolharam. Claro que para a pequena orquisa, sua cidade natal não parecia perigosa. Era a capital da Horda. O lugar mais fortificado de toda Kalimdor. Como explicar para ela que o problema era que seu chefe guerreiro não era digno de inteira confiança dos sin'dorei?

— É protocolo, Saba. — falou suavemente o lorde regente – Apenas isso. Vocês vão ter que se acostumar com essas coisas. A vida de Rainha de Karensky será cheio deles.

As meninas então se separaram. Olharam uma para a outra e sorriram. Eram sorrisos tristes, mas esperançosos. Os sorrisos prometiam um reencontro no futuro e a quebra de muito desses protocolos. As meninas não precisaram pôr em palavras aqueles pensamentos. Era como se soubessem disso instintivamente.

— Vou te escrever sempre. — prometeu Karen.

— Responderei todas suas cartas.

E se abraçaram mais uma vez.

Rommath estremeceu. Lembrou de sua amizade de infância com Kael'thas. Lembrou do quanto aquelas meninas lembravam o que os dois foram um dia. Porém, rapidamente empurrou a lembrança para o fundo de sua mente e então começou a conjurar um portal. Saba e Karen se soltaram e Vivithi pegou a mão da orquisa e sua bagagem. Quando o portal se consolidou, Saba olhou para Karen mais uma vez, sorriu e acenou para ela. Karen retribuiu. E então a Vivithi e Saba entraram pelo portal. Por um momento, Karen teve vontade de correr atrás delas e entrar no portal também. E só houve um motivo pelo qual ela não fez isso.

— Pronto. — disse Lor'themar quando o portal se extinguiu – Vivithi vai deixar Saba em casa, conversar com a mãe dela sobre as cartas e as futuras visitas e usar sua pedra de retorno para voltar para casa. E você já saberá quando a verá de novo, majestade.

Karen comprimiu os lábios.

— Sei que você está chateada. — continuou o lorde regente – Mas, como te falei ontem, vocês duas têm responsabilidades e-

— Não é isso. — interrompeu Karen – Não estou preocupada com isso. Sei que verei Saba em breve. — a jovem elfa lembrou que Saba tivera um sonho na noite anterior que dizia que elas se veriam mais cedo do que imaginavam – Não é isso que me preocupa.

— O que a preocupa, majestade? — quis saber Rommath.

Lor'themar desejou que o elfo não tivesse perguntado aquilo.

— É a Lux. — respondeu sinceramente a menina – A briga dela com o Huhu. — e olhando para o lorde regente, perguntou – Você agora pode me dizer o que está acontecendo?

As orelhas de Rommath tremeram de expectativa. Como assim? Houve uma briga entre Luxuriah e o tauren? Teriam eles se separado? Será que ele não precisaria esperar setenta anos para tentar novamente conquistar a elfa? Lor'themar lhe lançou um olhar de reprovação, como se soubesse exatamente o que o outro estava pensando. Sua expressão dizia que ele deveria se conter, e Rommath acenou discretamente com a cabeça. Sim, iria se conter. Pelo menos na frente da futura rainha.

— Claro Karen. — respondeu Lor'themar – Lhe contarei o que está acontecendo.

— Se a princesa Karensky não se importar, — disse Rommath suavemente – gostaria de saber também qual o problema, para poder ajudar a princesa Luxuriah no que for necessário.

— Claro. — respondeu amigavelmente a menina antes que Lor'themar pudesse dizer alguma coisa contra – Do jeito que a Lux tava ontem, ela vai precisar de todos nós.

Lor'themar encarou Rommath com uma fúria contida. Não podia ver todo o rosto do mago, mas sabia seus olhos diziam que ele estava sorrindo. Era óbvio que ele se aproveitara da amorosidade de Karen para descobrir a situação de Luxuriah. Porém, a raiva de Lor'themar foi-se tão rápida quanto veio. Aquilo poderia ser bom. Se Huaru fosse embora, se é que já não tinha ido, Luxuriah estaria solteira novamente. Pelo que conhecia da elfa, era impossível que ela desse uma nova chance a Grey. Então, ela estaria sozinha, carente, e com uma criança no ventre. Talvez, Rommath tivesse uma chance de se aproximar. E Rommath, apesar de seu jeito rude e pouco amigável, era alguém da inteira confiança de Lor'themar. Seria um excelente partido para a princesa mais velha.

— Muito bem. — disse o elfo – Por que não conversamos enquanto tomamos um chá? Vossa majestade não comeu nada hoje ainda.

— Não tenho fome. — disse a menina.

— Mas precisa se alimentar. — e estendendo a mão, chamou – Venha.

Karen hesitou um pouco, mas foi. Rommath os seguiu. Logo, eles estavam sentados na mesa na sala de jantar, os elfos saboreando uma xícara de chá, Karen tomando um copo de leite com mel e canela enquanto provavam dos muitos pães dispostos na mesa. Ninguém além deles tinha tomado café da amanhã.

Com delicadeza e sobriedade, Lor'themar narrou os fatos da noite anterior. Apesar de estar com muita vontade de assar um tauren, ele tentou deixar sua voz o mais imparcial possível. Karen tinha que aprender a lidar com as coisas da forma mais sóbria possível. Quando um governante se deixa tomar pelas emoções, comete erros terríveis. Kael'thas Andassol era um excelente exemplo disso. Por isso, explanou tudo de forma a deixar a futura rainha ter apenas os fatos e então formar suas próprias impressões para só então tomar sua decisão.

— Então o tauren a abandonou? — perguntou Rommath em um tom irritado.

Lor'themar teve vontade de jogar a mesa na cabeça dele. Afinal, tomara cuidado para falar com Karen e agora ele jogava essa em cima da menina? Esperava que o mago tivesse entendido o olhar fulminante que lhe lançou.

— Não. — para a surpresa dos dois, foi Karen que respondeu – Eu não acredito que o Huhu a abandonou.

— Não? — perguntou Lor'themar tentando esconder sua surpresa – Por que acha isso, majestade?

— Eu conheço o Huhu. Ele não faria isso.

— Mas ele foi embora. — disse Rommath ignorando os olhares de Lor'themar.

— Não, não foi. — respondeu com convicção a menina – O martelo dele ainda está ali. — e apontou para a arma esquecida por todos, que estava no canto da sala – Ele não foi embora. Acho… Acho que está por aí. Ele deve estar confuso. Eu estou confusa. Então ele deve estar confuso também.

Os dois se calaram. Não queriam acabar com a esperança de Karen, mas ambos sabiam que era apenas uma questão de tempo até Huaru ir embora. Ficaram em silêncio por um tempo, até que a menina terminou seu leite e se levantou.

— Vou atrás dele. Do Huhu. — disse inesperadamente.

— Majestade. — disse Rommath surpreso – Tem certeza?

— Talvez não seja uma boa ideia. — completou Lor'themar.

Mas Karen parecia resoluta.

— Ele está confuso. Vou conversar com ele. Vou ajudá-lo.

— Você nem sabe onde ele está. — avisou o lorde regente.

— Vou achá-lo. — disse convicta – Ele deve estar em algum lugar pensando. Vou atrás de um lugar bom para pensar. E então vamos conversar. Tudo vai se resolver. — e afastando a cadeira, saiu da mesa e sumiu rapidamente porta afora antes que qualquer um dos dois elfos pudessem impedi-la.

Os elfos ficaram um momento em silêncio, antes de Rommath finalmente falar:

— O tauren vai embora. E sabemos quem ficará feliz por isso.

— Verdade. — respondeu Lor'themar pensativo – Lady Liadrin ficará muito feliz em assumir o treinamento de Karensky.

Rommath riu alto. Lor’themar entendera errado.

— Eu estava me referindo a mim mesmo.

E o lorde regente teve certeza que havia um enorme sorriso por trás do capuz do mago.

**************************

O dia estava ameno e claro, perfeito para uma cavalgada, pensou Arshe. Mas ela não estava ali para passear, nem aproveitar a natureza. Antes de tudo, estava ali para afastar a sombra de Kayliel de seus pensamentos.

O elixir que Doroteya lhe dera a ajudara a dormir bem na noite passada. Dormir era forma de falar, na verdade. Depois que tomara do líquido dourado, Arshe simplesmente apagou após pôr a cabeça no travesseiro e só acordara naquela manhã. Seu corpo estava descansado e ela estava totalmente disposta, como não se sentia há muito tempo. E agora, com o sol batendo em seu rosto e o vento em seus cabelos, ela sentia que podia deixar as preocupações para trás, junto com a poeira da estrada e se focar em fazer o melhor para seu povo. E também precisava impressionar a comandante. Podia sentir os olhos vigilantes dela em sua direção.

Como se tivesse sido invocada pelo pensamento de Arshe, a comandante apareceu cavalgando ao seu lado.

— Você deveria puxar o capuz sobre a cabeça. — disse Lina – O sol queimará sua pele.

— Acho que você tem razão. — concordou a princesa antes de puxar o capuz da capa com uma das mãos enquanto segurava as rédeas com a outra – É que o clima está tão gostoso que acabei esquecendo que queimo fácil.

— Você é tão branca que não sei como ainda não derreteu nesse sol. — comentou a outra.

Normalmente aquele comentário deixaria Arshe um pouco irritada, mas vindo da comandante, ela sabia que não tinha sido dito com maldade. A comandante era uma pessoa direta e sincera; não fazia comentários jocosos com o objetivo de irritar ou denegrir. Apenas constatava os fatos e só. Era uma característica que seu pai sempre elogiara nela. Com Lina, não havia a necessidade de se preocupar com subterfúgios, jogos ou disfarces. Ela era transparente como o cristal.

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— O que acha que vamos encontrar lá? — quis saber a princesa, aproveitando a proximidade da comandante.

— Problemas. — respondeu sinceramente – Posso parecer pessimista, mas lembro bem da cena que encontrei na clareira. — e suspirando, acrescentou — Espero que eu esteja errada.

— Pela Luz, você estará. — falou Arshe animadamente.

Lina lhe lançou um olhar preocupado, mas depois deu um pequeno sorriso. Arshe sempre foi uma otimista inveterada.

— Seu pai uma vez me disse que você via o mundo através de uma lente cor-de-rosa. — comentou a comandante ainda com um pequeno sorriso – Parece que ele estava certo.

Arshe queria dizer que o mundo não era mais tão cor-de-rosa quanto era antes. Que não apenas a morte de seu pai, mas também a partida de Kayliel, fez com que ela enxergasse outras cores, muito mais sombrias, como o preto e o cinza. Que seu mundo desbotara tanto que quando ela já estava enxergando as cores novamente, a mera presença daquele que o manchara a fez correr e se embrenhar no mato como um coelhinho covarde. Sim, Arshe queria falar. Mas jamais poderia fazê-lo.

O semblante da princesa após sua fala, fez Lina franzir um pouco a testa. Por um momento, uma sombra perpassou pelos olhos azuis e fez a comandante duvidar do que acabara de falar. Mas, não estava ali para analisar a jovem maga, e sim para achar quem matara seus homens. Por isso empurrou os pensamentos para o lado e continuou a se concentrar no caminho.

O sol já estava a pino quando eles visualizaram as primeiras casas do vilarejo. Levara toda a manhã para irem até o ele, localizado ao sul da floresta de Elwynn e já próximo à fronteira entre o Cerro Oeste e a Floresta do Crepúsculo. Um arrepio percorreu a espinha da comandante. O lugar em si já não favorecia: tanto o Cerro Oeste quanto a Floresta do Crepúsculo tinha histórico de ação dos Defias. E ela não fora a única a perceber.

— O Cerro Oeste não foi reduto dos Defias? — perguntou Arshe apreensiva olhando além da margem direita do rio, onde se podia visualizar ao longe a terra árida do Cerro Oeste.

— Sim. — respondeu a comandante antes de ordenar – Alto!

Todos só cavalos e Doroteya que ia na forma de cervo, pararam a alguns metros da entrada da vila. Arshe imaginou que Lina daria muitas instruções aos seus soldados, mas ela se limitou a olhá-los, com uma expressão dura no rosto. Nada mais precisou ser dito. Até mesmo a princesa, que não trabalhava com a comandante e cujo contato era limitado a praticamente as falas passadas de seu pai e os poucos dias anteriores, entendeu o recado. Os olhos da comandante dizia: cuidado, não baixem a guarda.

Eles começaram a cavalgar devagar até a cidade. Arshe sentiu um arrepio na espinha ao perceber o quão lúgubre era o lugar. Mesmo com o sol a pino havia uma névoa que se infiltrava entre as casas, fazendo o dia perder um pouco a cor. As casas do lugar eram feitas de madeira, cuja tintura há muito desbotara. Um único canteiro de rosas jazia morto e amarelado no centro da vila, que era uma pequena praça onde alguns poucos aldeões idosos estavam sentados. Quando viram aquela comitiva entrando, prontamente abandonaram os bancos e voltaram para suas casas. A comandante parou seu cavalo na praça e olhou para todos os lados, pensando em onde ir primeiro.

— Capela, hospedaria, prefeitura… — murmurou a comandante pensativa – A prefeitura é o melhor lugar.

Ao sinal dela, todos apearam e Doroteya voltou a sua forma humana. Eles amarraram os cavalos na praça e seguiram a comandante em direção a prefeitura.

— Atrás de mim, alteza. — ordenou Lina a Arshe, que imediatamente se colocou um passo atrás da outra. Doroteya ficou ao lado da princesa, atenta a qualquer movimento.

A prefeitura era um prédio pequeno, não muito maior que as casinhas ao redor. Não havia ninguém a vista quando chegaram, e a comandante então tocou um sino que estava na porta. Alguns instantes depois um homem de vestes muito humilde atendeu. Ele arregalou os olhos ao olhar para a comandante e depois para trás desta.

“Ele parece assustado”, pensou Arshe. Se bem que, qualquer um que visse a expressão da comandante, que estava toda paramentada com sua armadura completa e envergava o tabardo de Ventobravo, ficaria aterrorizado. E ainda havia uma dúzia de soldados, além dela e de Doroteya.

— Pois não? — perguntou o velho.

— Quero falar com o prefeito da vila. — disse Lina em seu tom inflexível e militar, que não deixava margens para negativa.

— Pois não senhora. — respondeu prontamente o velho antes de abrir completamente a porta.

Antes de entrar, a comandante ordenou a dois jovens soldados.

— Fiquem aqui.

Os dois bateram continência e se postaram cada um de um lado da porta. Os demais adentraram o recinto.

A prefeitura tinha um aspecto melhor por dentro que por fora. Havia estantes de livros, algumas mesas e uma lareira no centro da sala. Mesmo não sendo inverno, Arshe notou algumas cinzas ainda brilhando. “Deve ter sido uma noite fria”, pensou.

Logo estavam de frente ao prefeito. Ele era um homem baixo, de cabelos negros e que usava um monóculo. Estava sentado na mesa maior que ficava bem no meio da sala, consultando diversos papéis. Quando viu a comandante, ele ficou branco como uma vela.

— Pela Luz, já pagamos os impostos desse ano! — foi a primeira coisa que ele disse.

A comandante arqueou uma sobrancelha.

— Não estou aqui para cobrar impostos. — disse se aproximando.

O homem pareceu bem aliviado diante da frase. Então, fez um sinal para que ela sentassem. Lina, contudo, permaneceu de pé.

— Sou a comandante Wood das forças de Ventobravo. Tenho algumas perguntas para fazer ao senhor. — disse de forma direta – Sobre um ataque a um grupo de soldados nas proximidades de sua vila.

— Ataque? — o homenzinho parecia confuso e olhou para o velho que atendera a porta – Houve um ataque?

O velho assentiu.

— O senhor estava viajando. — falou numa voz rouca – Foi a três dias.

— E por que não fui informado? — quis saber.

— Não foi na vila, senhor, então não achei que fosse necessário.

— O senhor parece bem informado. — comentou a comandante mudando a atenção do prefeito para o velho – O que sabe do acontecido?

O velho pareceu de repente muito mais assustado que quando abrira a porta.

— Só sei o que ouvi na estalagem, senhora. — murmurou baixando a cabeça – Os lenhadores falaram de corpos e soldados perto do lago. — e balançando a cabeça, concluiu – É tudo o que sei.

Arshe sabia que o velho estava mentindo. Ela deu um passo na direção dele e já estava articulando uma frase quando o braço de Lina se ergueu, atrapalhando seu caminho.

— Então conversaremos com os lenhadores. — disse sem nenhuma flexão na voz – Muito obrigada pela atenção. — e olhando para o prefeito, continuou – Faremos algumas perguntas na vila, então ficaremos um pouco mais. Espero que o senhor não se incomode.

Ninguém em sã consciência diria que se incomodaria, pensou Arshe. Não apenas por ser a comandante do exército de Ventobravo, mas a própria Lina impunha um temor que faria qualquer um acatar suas palavras.

— F-fique a vontade, c-comandante. — gaguejou o prefeito – A m-maioria dos lenhadores ainda estão na floresta, mas p-poderá encontrar alguns aldeões na estalagem.

— Agradeço a informação. — disse Lina antes de acenar com a cabeça e se retirar.

Todos a seguiram e logo que estava novamente na praça, Arshe interpelou a comandante:

— Aquele velho mentiu. — disse com a voz bastante perturbada.

— Eu sei. — respondeu serenamente a comandante.

Arshe arregalou os olhos, incrédula.

— E porque não fez nada?

A comandante a encarou:

— Você tem como provar que ele estava mentindo? — indagou.

— Não, mas…

— Não há “mas”. — cortou – Uma coisa que você tem que aprender, alteza, é que por mais que saibamos que a pessoa mente, que é culpada, precisamos provar isso. Eu sei que ele está mentindo. Você também. Porém, lembre que ele pode ser uma vítima e está sendo ameaçado. E eu não posso levar ninguém em custódia por “achar”. Se começássemos a fazer isso, as pessoas se voltariam contra nós. — e dando de ombros, concluiu – Mas isso nos dar a certeza que estamos no rumo certo. Precisamos apenas achar as provas agora.

Arshe quis contestar, dizer a comandante que se ela ficasse a sós com o velho poderia fazer ele tropeçar nas palavras e confessar. Mas calou-se pois havia prometido ao seu tio que faria o que Lina mandasse. E se aquele era o jeito dela trabalhar, não atrapalharia.

— O prefeito não sabe de nada. — a comandante parecia falar com ela mesma – Ele está preocupado demais com o dinheiro. Típico. Mas ali haverá algo.

Lina então se encaminhou para a estalagem. Designou dois guardas diferentes para a porta e entrou com os demais. O interior da estalagem era bem diferente da prefeitura. Cheirava a bebida barata e comida estragada. Arshe levou a mão ao nariz, nauseada, quando viu um prato de comida velha caído no canto, onde dois ratos de banqueteavam. Com certeza ali era um lugar onde ela não almoçaria.

Havia, pelo menos, seis homens na estalagem, bebendo em grandes canecas quando elas entraram. Todos olharam para o grupo e logo havia animosidade no ar. Arshe instintivamente deu um passo para trás, um pouco intimidada com a forma como foram encaradas, mas a mão confortadora de Doroteya pousou em seu braço e a princesa se sentiu um pouco melhor.

Lina, ao contrário da maga, não estava nenhum pouco intimidada ou incomodada. Se dirigiu ao balcão, onde uma senhora esteve limpando copos antes delas entrarem. Agora, ela apenas as observava, com uma expressão semelhante à do velho da prefeitura.

“Eles estão sendo intimidados.” percebeu a maga. “Alguém está impondo o medo a esses aldeões.” Isso a deixou um pouco melhor. Se eles tinham medo, era porque não era cooperadores. Eram vítimas. Tal como supôs Lina.

— Bom dia senhora. — cumprimentou Lina ao chegar ao balcão – A senhora é a dona do estabelecimento?

A mulher fez que sim.

— Gostaria de fazer algumas perguntas.

— Eu não sei de nada. — disse a velha categoricamente.

Lina arqueou a sobrancelha.

— Como a senhora pode afirmar isso se eu nem ao menos perguntei nada? — indagou suavemente.

A palidez tomou conta do rosto da velha, que deixou um dos copos cair. Quando ela se abaixou para pegar, olhou furtivamente na direção de uma das mesas do lugar. Lina percebeu o olhar, mas não virou-se de imediato. Esperou a velha apanhar o copo, colocar no lugar e pegar outro.

— Não há nada que o exército queira saber que eu possa informar. — respondeu a velha sem olhar para Lina.

A comandante deu um pequeno sorriso.

— Tudo bem. — respondeu, para o espanto da velha – Se não se importa, ficaremos um pouco.

Com um aceno de cabeça, mandou duas soldadas ficarem de prontidão perto da porta, e encaminhou-se com Doroteya e Arshe para uma das mesas. A princesa relutou em sentar nos bancos, mas percebeu que ele estava razoavelmente limpo e então acomodou-se. Fez menção de baixar o capuz, mas o olhar severo de Lina a interrompeu. Talvez fosse melhor permanecer incólume.

— Querem beber algo? — perguntou a comandante.

— Pela Luz, não! — respondeu a princesa com a voz baixa.

Doroteya riu e foi quando Arshe percebeu que a comandante estava apenas brincando. Se sentiu mais aliviada por estar na companhia tanto dela quanto de Doroteya. Se fosse outra pessoa comandando aquela missão, duvidava que fosse se sentir tão à vontade.

— Bem. — Lina começou a falar com a voz alta, para que todos pudessem ouvir – Não tem jeito. Teremos que interrogar todos os aldeões um por um. Eu preferia que fosse voluntário, mas pelo visto não será.

A tensão do ar aumentou. Arshe percebeu que, pelo menos, dois dos homens não tiravam os olhos delas. Outro reversava o olhar entre as três sentadas numa mesa, os demais soldados ao redor e a porta, onde as soldadas estavam.

— É uma pena que não vamos poder jantar em casa hoje, meninas. — falou novamente Lina em voz alta. — Acho que teremos que ficar alguns dias aqui.

— Espero que nesta estalagem. — comentou Arshe também com a voz alta – Gostei do lugar.

Ela odiara. Mas entrava no jogo de Lina.

— Muito agradável. — continuou Doroteya – Não me importarei de passar uns dias aqui.

— Talvez eu até chame mais soldados. — continuou a comandante. E olhando para seus subordinados, perguntou – Vocês acham que nossa tropa gostaria daqui?

Todos concordaram animadamente. A velha senhora começou a chorar. Um dos homens se levantou e acabou derrubando a cadeira, de tanto nervosismo. Ele se encaminhou apressadamente para a porta, mas foi detido pelas duas jovens que estavam lá.

— O senhor está bem? — perguntou uma delas – Parece pálido.

O homem olhou para trás e depois gaguejou algo incompreensível.

Lina por fim se levantou. Mas, para surpresa se Arshe, não foi em direção ao homem da porta. Ela se encaminhou para uma mesa, onde um homem solitário estava.

— Acho que temos que conversar, senhor. — disse resoluta.

O homem fez menção de se levantar, mas rapidamente puxou uma adaga e atacou a comandante. Lina, que já esperava o ataque saltou para trás e puxou sua espada. Os demais homens puxaram armar e todos começaram a atacar. Os soldados revidaram, e logo havia barulho de armas se batendo, o grito da dona da estalagem e mesas e cadeiras sendo quebradas.

O homem que atacara Lina sabia que não tinha chance contra a comandante com apenas uma adaga. Então, quando o barulho de luta já tomava o lugar, ele virou a mesa rapidamente, forçando-a a dar alguns passos para trás. Quando Lina perdeu um pouco o equilíbrio, o homem pegou um dos lampiões que estava pendurado na parede e o jogou na direção dela. Lina levantou os braços e conseguiu proteger o rosto, mas o vidro do lampião partiu-se e ateou fogo em seus cabelos. Ela gritou mais de raiva que de dor e, para a surpresa do atacante, deferiu um poderoso chute na mesa virada, conseguindo prendê-lo entre a parede e o móvel. Foi quando sentiu algo gelado em sua cabeça. Arshe apagara o fogo com sua magia de gelo.

— De nada! — ouviu a princesa gritar antes de prender o homem na parede no gelo.

Doroteya há muito se transformara em um lumiscante e conjurava feitiços, tanto de ataque quanto de cura. A druidesa rapidamente curou a queimadura que Lina sequer tinha notado. Arshe também se envolvera no combate, após conjurar um escudo de gelo para si própria e passar ao ataque. Os soldados que haviam ficado lá fora entraram quando ouviram o barulho, mas não era mais necessário. Em pouco tempo, os que estava ali dominaram os demais. Dois jaziam mortos, mas os outros quatro estavam feridos, devidamente amarrados, mas sem risco de morrerem.

— Já sabemos a quem perguntar. — disse Lina satisfeita olhando os prisioneiros – Estão todos bem? — perguntou se dirigindo aos seus soldados.

Todos responderam afirmativamente.

— Vamos levar esses aqui para a prefeitura e os interrogaremos lá.

O homem que havia atacado primeiro e que jogar ao lampião cheio de querosene em Lina ainda estava vivo e, enquanto estava sendo amarrado, encarou com um olhar fulminante a comandante.

— Vocês não poderão nos deter. — sibilou – Nós somos mais fortes.

— Veremos. — a comandante limitou-se a dizer.

— Vocês do exército são apenas cães! — continuo ele enraivecido – Cães a serviço daquele rei fraco e inútil que temos, que passa seu tempo dentro de seu palácio, gastando o dinheiro que nós ganhamos com nosso trabalho!

As mãos de Arshe se crisparam e a sala ficou subitamente mais fria.

— Não fale assim do meu tio! — protestou Arshe irritada – Ele não é assim!

Lina sentiu seu sangue gelar. Por que diabos Arshe acabara de se revelar quando ainda não sabiam quais perigos mais restavam?!

— Tio? — o homem parecia surpreso e incrédulo – Arshe? Arshe Fordragon? — e diante do silêncio que se seguiu depois, ele inesperadamente começou a rir. — A princesa saiu de seu esconderijo? — e continuou a gargalhar — Vai facilitar as coisas!

Naquele exato momento, ouviram-se o relinchar dos cavalos ao longe. Lina então percebeu que ninguém estava mais lá fora e se precipitou para a saída. Todos a acompanharam. A comandante chegou a tempo de puxar seu arco e tentar salvar a vida dos cavalos. Ela atirou três flechas seguidas que mataram os homens que apunhalavam os animas. Doroteya se transformou em um gato imenso e correu até eles. Logo ela estava curando-os, enquanto Lina terminava de lutar com os assassinos.

— Em guarda! — gritou Lina antes que a chuva de flechas começasse, vinda da floresta.

Um dos soldados logo caiu, com uma flecha no pescoço. Os demais conseguiram levantar os escudos e se protegerem. Lina ordenou que seu ajudante fosse até a origem das flechas e passou a atirar naquela direção. Ouviu-se os gritos de alguém e logo seu tigre espectral voltava. Ela passou a mandar que ele atacasse todos que conseguia distinguir enquanto fazia o mesmo. Ordenou que seus soldados fossem até a floresta assim que as flechas diminuíram e também correu para lá. Logo a batalha se transferiu para a mata. Eram quatro arqueiros, que foram logo contidos pelos soldados.

— Podem haver mais. — gritou a comandante – Reagrupar!

Voltaram para a praça, onde agora Doroteya curava o soldado atingido pela flecha no pescoço. Outros três estavam feridos e a druidesa tratou de se apressar. Enquanto isso, Lina olhava com furor os cavalos mortos. Apenas dois sobreviveram ao ataque direto e às flechas. Arshe podia ver a fúria brilhando nos olhos verdes.

— Quando tudo estiver limpo, — começou a comandante se dirigindo a ela – você volta para a cidade, princesa. Doroteya e Brienne a acompanharão. Vocês pedirão reforços.

A contragosto, Arshe assentiu.

— E os homens presos na estalagem? — perguntou.

Lina virou a cabeça na direção do prédio, em alerta. Não deixara ninguém de vigia. Xingando a si mesma, ordenou que metade do efetivo ficasse ali com os feridos e se encaminhou com os demais para a estalagem. Arshe a acompanhou e Doroteya, já tendo curado os soldados, fez o mesmo.

Assim que entraram, viram o corpo da dona da estalagem no chão. Os homens haviam sumido.

— Maldição! — Lina chutou uma cadeira – Eles escaparam.

A comandante passou a andar de um lado para o outro, enfurecida. Como poderia ter sido tão amadora a esse ponto? Estava tão preocupada em manter Arshe a salvo que havia tomado atitudes de principiante.

— Por onde eles saíram? — questionou Arshe olhando ao redor – Eu e Doroteya teríamos visto se tivessem saído pela frente.

— Pelos fundos. — respondeu a druidesa – E não se culpe Lina, fomos pegos de surpresa.

Mas Lina já se culpava e muito. Enquanto a comandante pensava para onde eles teriam ido, Arshe seguiu para os fundos da estalagem. Embaixo da escada, havia uma porta entreaberta.

— Aqui Lina. — chamou apontando — Eles devem estar per-

Mas a princesa não terminou a frase. O homem que a reconhecera saltou das sombras e, agilmente, apunhalou a jovem pelas costas. Arshe gritou quando sentiu seu pulmão ser perfurado e cuspiu sangue. Logo em seguida, sentiu seu corpo todo arder, como se tivesse em chamas.

— Morte à realeza! — gritou o homem.

Foram suas últimas palavras.

Doroteya se transformara em worgenin. Ela pulou na direção do homem que, horrorizado diante da figura bestial a sua frente, não conseguiu esboçar nenhuma reação. O som da garganta sendo mastigada preencheu o lugar, enquanto os outros três comparsas, que aguardavam furtivamente para atacar também, se viram sem ação ao ver seu líder ser destroçado bem na sua frente e acabaram revelando suas posições. Isso deu tempo da comandante agir. Ela atirou nas pernas de um deles. Brienne, uma das soldadas, seguiu seu exemplo e perfurou o joelho de outro. O terceiro teve sua mão decepada quando tentou erguer sua arma.

— Arshe! — gritou a comandante correndo até a princesa – Arshe!

Arshe tentou responder, mas não conseguiu. E não era apenas a dor aguda da adaga em suas costas. Havia algo que a paralisava. Que a queimava.

— Doroteya! — chamou a comandante.

Doroteya se levantou rapidamente. De sua boca ainda pingava sangue fresco quando ela se inclinou sobre Arshe. A druidesa rapidamente tirou a adaga e começou a curar o ferimento. A ferida fechou-se. A comandante estava quase suspirando aliviada quando o ferimento abriu-se novamente. Doroteya estava tão surpresa quanto a comandante. Ela novamente curou a ferida, que teimava em abrir. E então, um líquido verde começou a verter do ferimento. Ambas reconheceram o que era.

— Veneno vil. — disse Doroteya angustiada – Ela foi envenenada.

E Lina sentiu-se cair no abismo ao mesmo tempo que uma convulsão tomou conta do corpo de Arshe.

********************

Ventobravo. Enquanto andava pelos corredores da bastilha, a jovem Arshe, que mal havia entrado na adolescência, saltitava pelos corredores, sonhando em quando percorreria aqueles corredores usando os volumosos vestidos das mulheres adultas e quando teria sua mão beijada por um belo e nobre príncipe, que arrebataria seu coração. Mas naquele momento, o único homem que importava em sua vida, estava atrás das portas que ela abriu de supetão.

— Pai! — gritou com sua voz aguda.

O belo homem estava sentado numa mesa, vestido com sua armadura. O sorriso dele se abriu quando a viu.

— Arshe! — disse Bolvar arrumando os papéis da mesa – Por que não está em sua aula?

— Estava um téééédiooooo!!! — disse dando ênfase a última palavra – Quero ficar um pouco com o senhor!

— Querida, estou recebendo uma nova recruta. Espere um pouco, certo?

Foi quando ela percebeu que havia mais alguém na sala. Uma moça de cabelos muito pretos e profundos olhos verdes. Seu cabelo estava solto e um pouco desgrenhado, e Arshe pensou que ela precisava de um banho. Quando as duas se olharam, a menina percebeu a forma selvagem com que a jovem a encarou. E ficou com medo.

— Essa é Lina Wood. — disse o pai – Tão jovem e já quer servir ao seu povo. — havia uma pontada de orgulho na voz dele.

De repente, Lina estava bem próxima a ela, com os olhos em chamas. Arshe ficou paralisada de medo. A jovem então agarrou seu braço com força.

— Amanhã, você me obedece. — disse — Não questionará e só fará o que eu ordenar. Lutará se eu permitir e fugirá se eu ordenar. Entendido?

— Pai! — chamou Arshe assustada – Do que ela está falando?

Mas quando olhou para mesa, seu pai não estava mais lá. Havia uma enorme pedra de gelo em seu lugar. E foi horrorizada que Arshe percebeu que seu pai estava dentro da pedra de gelo. Morto. Congelado. Por toda a eternidade.

— Não! — gritou tentando se desvencilhar do aperto de Lina – Não!

Então toda a sala começou a queimar. Enquanto Lina mandava que ela a seguisse, que fugisse, Arshe se achava paralisada no meio do fogo, enquanto via o gelo derreter e o cadáver de seu pai entrar em combustão até sobrar apenas uma carcaça podre que, para seu total terror, moveu-se em sua direção.

— Pai! Não! — e sentiu as chamas lamberem sua pele.

***********************

— Não consigo baixar a febre. — disse Doroteya muito preocupada.

A noite já havia caído no vilarejo. Depois que Arshe fora atingida, Lina a deixara aos cuidados de Doroteya e comandou uma verdadeira missão de pente fino no lugar. Pegou todos os aldeões, até os mais velhos, e os reuniu na praça, sob o olhar feroz de seus comandados.

— Espero que saibam que a pessoa atingida por um dos nossos prisioneiros foi Arshe Fordragon, princesa emérita de Ventobravo. — ela deu uma pausa, esperando os efeitos de suas palavras pairarem sobre todos, antes de continuar – Saibam que o que acontecer com ela será de responsabilidade de todos que se recusarem a colaborar conosco. E não preciso dizer quais são as consequências de ferir um membro da família real.

Não fora necessário mais nada. Todos começaram a falar ao mesmo tempo. Levou alguns instantes para que a comandante reorganizasse tudo, mas logo chegou ao que acontecia.

A vila tinha sido sequestrada há alguns meses, quando um grupo dos Delfias se instalaram. Eles mataram os jovens que resistiram e levaram os outros a um lugar que ninguém sabia. O novo prefeito chegara depois e, por ser de outra vila, nada sabia. Os criminosos mantinham o lugar como posto avançado, mas nada realizavam ali. Havia outro lugar, já após o rio, onde estava sua verdadeira base. Tinha sido de lá que tinha sido deferido o ataque ao grupo de soldados dias antes, pois estes perceberam algo errado.

— Quantos são? — quis saber Lina.

Ninguém soube lhe responder e, pelo medo deles, sabia que era por realmente não deterem aquela informação. Só que a comandante sabia exatamente onde buscá-la.

Antes, porém, passou novamente para ver Arshe. Haviam instalado a moça no quarto do prefeito, localizado no andar em cima da sala onde eles estiveram, o lugar mais confortável que acharam. Havia uma cama grande e uma mesa onde Doroteya dispôs seu pequeno laboratório de alquimia. Por sorte, a druidesa já tinha começado a estudar o veneno, quando o recuperaram dos corpos dos soldados mortos e agora tentava desesperadamente achar um antídoto para Arshe. Ela estava em sua forma worgenin e Lina sabia que aquilo era, em parte, para que não vissem o tom arroxeado de sua boca.

Doroteya, quando vira o veneno escorrendo do ferimento Arshe, não pensou duas vezes. Voltou a sua forma humana e passou a sugar o veneno com sua boca e a cuspi-lo. Lina tentou impedi-la, mas a druidesa não permitiu ser interrompida. Sugou o veneno vil até sentir apenas o sangue da princesa em seus lábios. Depois disso, conseguiu que a ferida fechasse, mas não totalmente. Uma linha escura e vermelha ainda estava lá. E o veneno já circulava no sangue da jovem maga. Era necessário então, um antídoto.

— E você, como está? — perguntou Lina com um aperto no peito.

— Ótima. — respondeu a worgenin.

Mas pela voz um pouco pastosa, a comandante sabia que a boca da outra ainda estava um pouco inchada. Na cama, Arshe se revirava, coberta de suor e pronunciando coisas ininteligíveis. As vezes ela gritava inesperadamente e depois voltava a balbuciar. Doroteya se aproximou, pegou uma pequena toalha que estava sobre a cabeça da princesa, molhou em um pouco de água, torceu e pôs em sua testa novamente.

— Não há como levá-la para Ventobravo. — disse a comandante – Não há nenhuma carruagem na vila.

— Nem eu aconselharia que ela fosse. — a druidesa passou a mão no cabelo de Arshe – Ela provavelmente não resistiria.

As duas ficaram paradas olhando a princesa agonizante, enquanto na mesa o pequeno laboratório de Doroteya emitia um pouco de fumaça ao ferver diversas ervas. A comandante já fizera buscas em toda vila, mas não havia nenhum remédio. Assim como não havia comida estocada. Os Delfias haviam confiscado tudo.

— Vou interrogar os prisioneiros. — disse por fim a comandante, sabendo que de nada adiantava ficar ali – Os soldados já vasculharam a floresta ao redor. Estamos seguros por enquanto. Mas é imprescindível sabermos a localização da base e pegar todos de surpresa. Não quero um ataque enquanto Arshe está assim. Precisa de algo?

— Mais ervas. Preciso testar tudo.

Lina assentiu.

— Jon conhece ervas. Ele irá colher todas que achar. Volto em breve.

Lina já se encaminhava para a porta quando Arshe de repente gritou:

— Kayliel!

As duas foram pegar de surpresa. Doroteya se precipitou para cima da princesa e passou a toalha sem eu rosto molhado de suor. Lina voltou-se rapidamente, preocupada.

— Kayliel – gritou novamente a princesa, agora com lágrimas rolando – Por que você me deixou Kayliel?!

Lina e Doroteya se entreolharam. Nunca tinham ouvido falar que Arshe tivera nenhum namorado, muito menos um com um nome tão incomum.

— Por que?! — ela gritou – Por que?! Por que preferiu a Horda a mim?!

Tanto a comandante quanto a druidesa ficaram estáticas, sem nenhuma reação diante do que Arshe acabara de falar.

— Por que??? — a voz dela diminuiu de volume enquanto chorava compulsivamente – Porque você fez eu te amar tanto para depois ir embora sem um adeus?! Por que não me deixou vagar por Dalaran incólume? Por que teve que me mostrar amor e me deixar… — ela tremia muito e ergueu uma das mãos – Pai… Pai… Por que pai? Por que tive que ir lá? Por que não te ouvi? Pai! Cadê você pai?!

E outra convulsão tomou conta de seu corpo.

Doroteya correu até a bancada e pegou mais uma poção. Lina saiu de seu estupor e pôs a segurar a cabeça da princesa enquanto Doroteya derramava o líquido em sua garganta. A convulsão passou, mas Arshe continuava a balbuciar.

— Kayliel… Lembra, lembra quando nos conhecemos? — ela murmurava com um sorriso um pouco doentio no rosto – Você disse que eu era mais bela que todas as elfas…

Doroteya e Lina se encararam. Será… Será que Arshe havia tido um caso com um membro da Horda em seu período em Dalaran? Pelo que ela falava, ele seria um elfo… ? Um elfo sangrento? Lina cobriu a boca, estupefata demais para fazer qualquer outra coisa.

— Pai…. — continuou Arshe, voltando a chorar – Pai, porque você está queimando?! Por que estamos queimando?! Você me odeia, pai?! — e passou a chorar e a se contorcer.

Foi quando alguém bateu à porta. A comandante sentiu seu sangue gelar. Se qualquer pessoa que ouvisse Arshe falando espalhasse as palavras da moça, ela seria acusada de traição. Rapidamente Lina foi naquela direção e abriu a porta de supetão. Era Jon e Brienne.

— Comandante, nós…

— Vão procurar ervas! — foi o que ela ordenou – Agora!

Os dois saíram praticamente correndo.

— E não deixem ninguém vir aqui até vocês voltarem! — gritou do alto da escada.

Para os dois jovens, as ordens significavam que o estado de Arshe tinha piorado. Mas para Lina, era imprescindível que ninguém se aproximasse dali e ouvisse qualquer coisa que Arshe gritava.

— Ela está apenas delirando. — disse Doroteya quando Lina fechou a porta na chave – Ninguém poderia acusá-la de nada.

— Prefiro não arriscar que ninguém a ouça e saia por ai dizendo qualquer coisa. — e voltando para junto da cama, perguntou – As pessoas costumam inventar coisas quando estão delirando?

Doroteya ficou um momento calada, antes de falar.

— Não. Elas apenas misturam os fatos, deixam seus medos aflorar, potencializam a dor…

Como se fosse uma deixa, Arshe voltou a murmurar.

— Aquele dia… Kayliel… Você disse que nosso amor era maior que facções. Maior que todo o ódio… Você mentiu pra mim Kayliel? — e chorou – Traí meu povo para ser traída por você? — uma tosse se apossou de Arshe, sacudindo seu corpo. Doroteya lhe deu água e a tosse aliviou – Pai… Meu pai morreu… E você foi embora no mesmo dia… Onde você estava quando precisei de você mais que nunca?! — As lágrimas voltaram – Papai morreu… Morreu… Me deixou tão sozinha... Sem ninguém… De que adiantava tudo? De que adiantava a vida se a duas pessoas que eu mais amava me deixaram no mesmo dia… — as mãos dela se crisparam, como se quisesse agarrar algo – Pai, você prometeu?! Prometeu que dançaria comigo no dia do meu casamento! Você era tudo que eu tinha, pai! Cadê você, pai?! Ele lhe transformou? Foi isso? Você virou um servo dele e por isso eu nunca pude velar seu corpo?! Todos mentiram! Eu sei – ela gritava novamente – Todos mentiram para mim eu sei e fingi acreditar! Mentiram! Cadê ele? Cadê meu pai?! Cadê o corpo do meu pai!?! Por que vocês não deixaram eu me despedir dele?! — agora, Doroteya e Lina também choravam, diante do desespero de Arshe, e enquanto ela ainda gritava – Pai!! Você nunca vai conhecer seus netos, pai! Você nunca… — e o grito virou um choro angustiado.

A imagem de Bolvar veio com força na mente de Lina. O melhor homem que ela conhecera na vida, além do próprio pai. Ela lembrou de o quanto o admirava e do quanto sabia ser admirada por ele. Lembrou que Bolvar a ajudou no momento mais difícil de sua vida. Lembrou que a coisa que ele mais amava no mundo era sua filha, que agora jazia ali naquela cama, agonizando, morrendo um pouco a cada minuto enquanto se afogava em delírios e dores, embalada pela canção da loucura e da morte. E então decidiu que não podia esperar. Não deixaria Arshe morrer. Em nome de tudo que Bolvar foi e ainda era para ela, faria o que quer que fosse para manter aquela jovem viva. Não se importava se ela tivesse um caso com um elfo sangrento. Não se importaria nem mesmo se fosse com Garrosh Grito Infernal. Salvaria Arshe e a manteria segura de tudo.

Não importava o que custasse.

— Vou atacar a base dos Delfias. — disse com a voz embargada para Doroteya – Lá eles podem ter o antídoto.

Por um momento pensou que Doroteya ia se opor. Mas a druidesa apenas falou:

— Se você achar uma amostra pura do veneno já serve. Ou a fórmula dele.

— Vou deixar seis soldados na vila e levarei o resto.

Doroteya assentiu.

— Cuide-se.

Lina saiu de lá resoluta, enquanto Arshe continuava a chamar pelo pai e por Kayliel. Ficou imaginando a dor que a garota tinha sentido durante todo esse tempo. Perdeu o pai e não pode se despedir. Perdeu um grande amor no mesmo dia, também sem se despedir. A culpa por ele ser de outra facção apenas piorava tudo. E então entendeu porque ela sempre parecia doente. Era tristeza. Arshe cultivava uma tristeza imensa em seu coração e jamais poderia se abrir com alguém sem enfrentar a fúria do próprio povo. Então ela se escondia naquela casca fútil de princesa, enquanto queimava por dentro. Fingia ter uma família enquanto se sentia solitária.

Quando saiu para a noite, Lina olhou para o céu.

— Vou cuidar dela, Bolvar. — disse para as estrelas – Da mesma forma que você cuidou de mim. — e olhando para frente, seguiu para a estalagem – Está na hora de parar de ser boazinha.

Para chegar na base dos Delfias, precisava da localização. Já havia interrogado só prisioneiros e eles se recusavam a falar. Mas ela havia feito tudo dentro da lei. Era hora de desviar um pouco do caminho reto e voltar a ser a Lina selvagem que achava que o importante era os fins e não o caminho.

— Vou esquecer um pouquinho do que você me ensinou essa noite, Bolvar. — murmurou para si mesma — Mas sei que você vai me perdoar. É por sua filha.

Assim que chegou na porta, ordenou aos que estavam lá:

— Reúnam todos e diga que preciso falar com eles. Mas só depois do interrogatório.

— Vai falar com eles de novo, comandante? — a moça lhe falou desesperançada – Eles não falam nada.

— Vão falar. — falou com convicção – Vocês estão proibidos de entrar aqui. Não importam o que ouçam. Não entrem.

Os soldados estremeceram. Parecia que os olhos de sua comandante estavam em chamas. E talvez realmente estivessem.

Dentro da hospedaria os homens estavam sentados afastados e amarrados em cadeiras. Tinha mais dois soldados lá dentro. Lina os dispensou.

— Comandante Wood. — disse o homem com a mão decepada. A expressão dele era uma mistura de dor e deboche – Como vai a princesa?

— Melhor que vocês. — respondeu serenamente enquanto tirava o tabardo.

— Ahh! Vai fazer um estripe para nós? — disse o com a flecha na perna – Sempre quis saber como você seria embaixo dessa armadura.

— Não se animem. — ela não parecia nenhum pouco afetada pela fala deles e agora tirava as luvas – Apenas não quero manchar o símbolo da minha cidade com o sangue de vocês. — e sorriu.

Os homens então entenderam e se calaram.

— Vocês vão me dizer onde é sua base. Quantas pessoas estão lá. E onde posso achar o antídoto do veneno. — ela se aproximou primeiro do homem sem a mão e segurou seu rosto delicadamente – Você já espremeu uvas com as mãos? — ela colocou os polegares embaixo dos olhos dele – Elas fazem ‘ploft’! É bem legal.

— Você não pode fazer isso! — gritou o mão decepada – Não é você a discípula de Fordragon? O homem mais justo do reino?

— Ela tirou férias. Sou apenas a caçula dos Wood. E vou mostrar a vocês tudo o que aprendi sendo a mais jovem de dezoito irmãos. A propósito, acho que vocês podem ser úteis ao reino e também a minha família. Tenho umas perguntas mandadas pelo meu irmão. — ela sorriu – Vamos começar?

CONTINUA....