Herdeiros da Guerra
16 Capítulo XIV – O mundo se despedaça PARTE II
Notas iniciais
E então chegou o grande dia. Por determinação de Luxuriah, Kassyeh e Tewdric dormiram separados na noite anterior ao casamento, pois a caçadora disse que a irmã precisava descansar para estar linda no dia seguinte. O orc reclamara, fizera manha, mas não teve acordo: ele teve que dividir o quarto com Aethas enquanto Kassyeh dormia com Karen e Saba.
– Por que a Lulu é tão má comigo? – choramingava o orc deixando Aethas, que tinha o sono muito leve, acordado a noite toda.
E os noivos não se viram até a hora da cerimônia, já que Kassyeh fora rodeada de servas que tinha como único objetivo deixá-la formidável. A elfa estava de tão bom humor que não reclamou dos mimos. Suas irmãs também foram atendidas, bem como Saba. Vivithi fizera questão de se arrumar em Luaprata e vir acompanhada do tio, pois dissera que queria que todos vissem seu vestido apenas quando ela estivesse totalmente produzida.
O casamento seria celebrado por Kayliel e estava programado para a hora do crepúsculo. O jardim seria o palco da cerimônia e os convidados se espalhariam por todo o terreno que pertencia à propriedade dos Fendessol. Havia espaço bastante para receber todos da guilda e mais os elfos sangrentos que habitavam Luaprata. Luxuriah tinha providenciado comida e bebida para um exército e o bolo era gigantesco, branco, com sete andares e enfeitado com pequenas fênix, o símbolo dos sin'dorei. Taças e mais taças de cristal estavam esperando para serem cheias em várias mesas na parte de trás do jardim e os barris de cerveja estavam estrategicamente colocados entre as mesas. Para animar a festa, Luxuriah chamara a banda dos Chefes Taurens, com quem fez um acordo secreto: ela e as irmãs cantariam no casamento. Seria uma surpresa para Kassyeh.
A ideia foi muito bem recebida por Karensky, que imediatamente sugeriu cantar uma musica animada para que todos pudessem dançar. A música escolhida por Luxuriah era mais lenta e era destinada para a dança dos noivos. Quem teve problemas com a ideia fora Ashrial. Não que ela não quisesse homenagear a irmã, mas porque duvidava de sua coragem para cantar em frente a tantas pessoas.
– Feche os olhos e cante. – dissera Luxuriah.
E mesmo com imersa em terror absoluto, Ash aceitou cantar.
Quando os primeiros convidados chegaram, estavam Luxuriah, Ashrial e Karensky prontos para recebê-los. Kassyeh só apareceria na hora da cerimônia. Todas as três estavam excepcionalmente belas e a mais jovem carregava Galinha numa cesta, enfeitado com um laço de fita vermelha. Saba estava do seu lado, sorridente e animada. Aethas se postava junto a Ash, trajando suas luxuosas vestes da gala e ao lado de Luxuriah estava Huaru, com roupas tradicionais dos taurens, e o jovem tauren parecia muito animado em estar ao lado da namorada.
Quando Huaru a viu mais cedo, com seu vestido vermelho e os cabelos presos em uma trança ao redor da cabeça e enfeitada por uma singela coroa prateada, o paladino disse seriamente:
– Eu queria dizer que você está bonita, mas seria mentira.
A caçadora o olhou, horrorizada.
– Bonita seria pouco. – completou o paladino rindo – Você está tão linda que acho que nenhuma palavra em nenhuma língua seria capaz de expressar o quão maravilhosa você está.
Luxuriah apertou os olhos para ele e disse:
– Você devia dormir hoje com seu irmão só por causa da brincadeira sem graça!
Para sua surpresa, Huaru segurou sua cintura e falou só para ela ouvir:
– Você iria aguentar ficar longe de mim?
A caçadora então riu e lhe aplicou um demorado beijo.
– Você está ficando safadinho. Acho que estou ensinando bem!
Agora que estavam ali, recebendo os convidados, Huaru se perguntava o que os elfos sangrentos pensavam quando os viam de mãos dadas. Mas como a própria Luxuriah parecia não se importar nenhum pouco com isso, ele deixou o pensamento para lá.
E os convidados foram chegando. Os elfos sangrentos faziam profundas reverências às irmãs, que ficavam extremamente sem jeito. Até mesmo Karensky, expansiva e desinibida, exibia um sorriso nervoso ao ver que um após o outro os elfos se curvavam perante ela e diziam:
– Nossa futura Rainha. – e completavam — Que a Nascente do Sol lhe ilumine.
A pequena elfa apenas sorria e acenava com a cabeça.
– Isso é tão estranho... – admitiu para Saba.
– Acho que isso é normal para uma Chefa Guerreira. – ponderou a pequena orquisa.
– Você ainda não viu nada Karensky. – disse Luxuriah seriamente – Não serão apenas reverências que você receberá quando for coroada.
Karensky não respondeu, apenas aconchegou Galinha mais ao peito.
Ashrial, surpreendentemente, não parecia nenhum pouco preocupada com aquela atenção. Ela logo tinha percebido que quando os elfos chegavam se dirigiam a Karen, o que a deixava livre para fazer algo que lhe era bem mais importante: esperar a chegada de Lor’themar.
Os treinos deles haviam começado, mas por enquanto eram somente instruções básicas. Ele lhe falara sobre o trabalho dos patrulheiros, como eles se viravam sem um ajudante, e lhe dera conselhos sobre como usar melhor seu arco. Com a aproximação do casamento e o corre-corre que se estabelecera na casa, os encontros eram curtos e ambos nunca estavam sozinhos. Mas ela sabia que isso ia mudar no momento em que se mudasse para a Torre Solfúria.
Porque sabia que ele ia continuar morando lá.
Fora um pedido de Luxuriah, para que o lorde regente pudesse continuar participando das decisões e orientando Karen. Ash amou Luxuriah nesse momento mais que nunca. E agora, a jovem caçadora e futura patrulheira perscrutava os convidados em busca de seu tutor.
Não demorou muito e o lorde regente chegou acompanhado de sua sobrinha. Só que nem mesmo Ash prestou atenção em Lor’themar, pois não havia como não olhar para Vivithi.
A elfa estava vestida, se é que poderia ser dito assim, apenas de joias. O bustiê pequeno que cobria os seios era feito de fios dourados e diamantes. Finas correntes enfeitavam sua cintura e o cinto, com as mesmas pedras do vestido, sustentavam dois singelos tecidos dourados que cobriam precariamente as partes íntimas da elfa. Quase ninguém reparou que os cabelos prateados estavam bem presos a uma tiara que imitava o estilo do bustiê.
Aethas não conseguia acreditar no que estava vendo. Vivithi estava... Estava... Ele tentava não pensar nas palavras deslumbrante, maravilhosa, estonteante, linda. Ela estava isso e tudo mais. Mas não queria, não podia pensar daquela forma. Não podia admitir que ali estava a criatura mais exuberante e tentadora que jamais vira. Não, não podia. Por isso pensou que ela era uma depravada. Sim, assim era melhor. Uma pervertida que aparecia seminua no casamento de sua sobrinha. Mas esse pensamento não permaneceu muito tempo em sua cabeça. A palavra 'maravilhosa', e 'tentadora' agora giravam e giravam na cabeça dele. E quando Vivithi o olhou e sorriu com um ar divertido, ele percebeu que estava de boca aberta, encarando-a. Rapidamente comprimiu os lábios e lhe lançou um olhar de censura.
– Vivi! — exclamou Karen também admirada — Você tá linda demais!!!
– Ele ficou realmente muito bom. — disse Luxuriah sorrindo — O que acha amor, de eu usar um desses? — brincou com Huaru.
O paladino analisou a roupa de Vivithi e depois assentiu.
– Desde que você me deixe furar os olhos de todos os machos que te verem, por mim tudo bem.
Houve uma explosão de risos, exceto por Aethas, que ainda lutava contra seus pensamentos e tentava lançar um olhar de indiferença a Vivithi.
– Eu jamais teria coragem de usar algo tão... — Ash pensou em algo que não ofendesse Vivithi — Brilhoso...
– Você tem seu próprio brilho Ash. — falou de repente Lor'themar sorrindo para a jovem — Ele acabaria ofuscando essa roupa.
Ash ficou muito vermelha e baixou os olhos. Luxuriah trocou um olhar com Huaru, que acenou com a cabeça. A caçadora olhou rapidamente para Aethas, para ver se seu tio percebera algo, mas ele estava mais interessado em manter os olhos sobre Vivithi.
Chegando perto de Vivithi, Saba perguntou curiosa:
– Se der um ventinho, essa roupa vai mostrar tudo?
– Não, não vai. — garantiu Vivithi sorrindo para a pequena orquisa — Parece um tecido, mas isso aqui é feito com fios de ouro. É metal.
Saba e Karen exclamaram um 'uau' e olharam mais de perto a roupa.
Aparentemente já recuperado do impacto que sofrera, Aethas achou que sua voz já estava firme o suficiente para falar. Mas não foi a Vivithi que ele se dirigiu.
– Muito me surpreende o lorde regente permitir que sua sobrinha apareça em público dessa forma. — falou o arquimago secamente.
Lor'themar gargalhou.
– E por que não? Ela é linda, tem que mostrar sua beleza para que todos possam admirá-la. — e segurando carinhosamente o queixo de Vivithi continuou — Ela herdou toda a beleza do meu lado da família, claro. É tão linda quanto o tio.
– Nossa como ele é convencido! — exclamou Saba.
– Convencido não, pequena Saba. Consciente. — respondeu ele piscando charmosamente para a menina, que riu envergonhada.
Vivithi apertou um pouco mais o braço do tio, em agradecimento, e então olhou superior para Aethas.
– Meu caro Aethas, se uma de suas sobrinhas quisesse algo assim, duvido que você impediria.
Ele apertou mais os olhos.
– Nenhuma de minhas sobrinhas usaria algo indecente assim!
– Eu usaria! — disse Karen sem nenhum constrangimento — Se eu fosse grande como a Vivi né? Pequena assim não dá.
Aethas encarou a menina, horrorizado, enquanto todos riam abertamente.
– Vamos para nosso lugar Vivithi. — chamou Lor'themar quando viu que uma fila se formar atrás deles para cumprimentar as irmãs — Estamos atrapalhando o fluxo.
– Vamos tio. — Vivithi ainda olhou para Aethas e lhe deu o sorriso mais malicioso que poderia dar antes de se retirar.
A fila realmente estava enorme e aos poucos os elfos foram sendo substituídos pelas outras raças da Horda. Esses outros convidados não eram tão formais quanto os sin’dorei e logo abraçavam as meninas ou sacudiam suas mãos fervorosamente. E foi enquanto as irmãs saudavam os membros da guilda, que um acidente quase aconteceu no local. Um tipo de golem apareceu no céu, voando desnorteado e balançando de um lado para o outro. Luxuriah ficou enjoada só de olhar o movimento do veículo, que passou bem baixo, perto das elfas que instintivamente se abaixaram e foi pousar com um baque num morro próximo.
– Será que o piloto está bem? – perguntou Karen preocupada.
– Isso é coisa da Nabby. – afirmou Luxuriah – Ela sempre escapa, então não precisa ficar preocupada.
E realmente pouco tempo depois a goblina chamada Nabby apareceu e cumprimentou todas animadamente, segurando um capacete meio amassado, mas com a roupa impecavelmente limpa.
– Estou muito, muito feliz de ter vindo! – afirmou Nabby apertando as mãos de Luxuriah – Adoro a Kassyeh e adoro o Tewdric. – e piscando o olho, acrescentou – Você tá gostosa Luxuriah! – e deu uma risada antes de sair.
– Parece que Vivithi tem uma concorrente no quesito vestuário. – comentou Ash enrubescida – Ela tá nua...
– Ela não tá nua. – discordou Karen – A roupa dela é verde igual à cor da pele. Ai parece que ela ta só com uma coisinha dourada cobrindo lá embaixo.
– Lá embaixo mesmo! – brincou Saba.
– Olha quem fala, ela é do seu tamanho Saba! – riu-se Luxuriah.
– Mas eu ainda cresço, ela não. – sentenciou a pequena orquisa.
A fila toda riu e os cumprimentos continuaram. Quando o sol já se aproximava da linha do horizonte, os convidados foram encaminhados aos seus lugares e Tewdric apareceu acompanhado de Mhuu. O orc estava muito elegante, com a roupa escolhida por Luxuriah. Ele havia caprichado no visual, e os cabelos negros e espessos estavam amarrados em um pequeno rabo de cavalo. No resto da cabeça que era raspada reluziam as tatuagens de guerra órquicas, ainda que discretamente. Tewdric estava imponente, Luxuriah tinha que admitir.
– Você espera a Kassyeh aqui Tewdric. – disse a caçadora levando-o para o altar onde Kayliel já o esperava – Nervoso?
Tewdric deu uma risada.
– Claro que não. Só louco para tirar essa roupa!
– Contenha-se, por favor. – ela franziu a testa ao notar um volume no bolso da camisa – O que é isso?
– Segredo. – sorriu o orc misterioso.
Luxuriah achou melhor não se preocupar ou acabaria deixando a irmã viúva.
– Certo, vamos fazer os últimos preparativos e a Kassyeh já vem.
Acertaram os últimos detalhes e Luxuriah deu o sinal para a música começar. Além dos Chefes Taurens, que já estavam apostos, havia também um conjunto de elfos com flautas, violinos, harpas e piano. Tudo para dar um ar mais clássico às músicas e para tocarem a melodia de entrada da noiva.
E eles tocaram.
Quando Kassyeh apareceu na porta, com um colar trançado entre as mãos e um sorriso imenso no rosto, o coração de Tewdric disparou. Ela não estava apenas linda; ela estava estupenda. O vestido que pertencera à Lady Luelly e a Samanthah descia delicado em seu corpo, como se houvesse sido feito para a jovem maga. Na cabeça ela usava uma coroa de pequenos fios prateados enfeitando os cabelos escuros que estavam presos num singelo coque. A única joia além da coroa eram brincos também prateados, que reluziam como os olhos da noiva. À sua frente, Hotch e Littleflame vinham lado a lado, cada um com um buquê de botões-da-paz na boca, marchando vigorosamente e abrindo caminho para sua dona. Quando Kassyeh chegou ao altar e Tewdric tocou suas mãos, percebeu que o colar trançado que ela carregava nas mãos era o Sol que ela havia lhe dado há algum tempo e pedira de volta para ajeitá-lo. Agora, o orc via, ele estava mais reluzente e parecia pulsar de energia. Sorriu para sua elfa, e ela lhe retribuiu.
– Anar'alah belore. – começou Kayliel saudando a todos.
A pedido da noiva, com exceção das saudações, a cerimônia seria realizada no idioma comum, para que todos pudessem entender. Kassyeh também pedira que o sacerdote fosse breve, pois os elfos poderiam facilmente assistir a uma cerimônia de horas a fio, mas os demais convidados, e principalmente o noivo, não suportariam.
Sendo assim, Kayliel foi breve. Fez um rápido discurso sobre o amor em todas as suas formas e como a diferença de raça não deveriam ser mais importantes que os sentimentos cultivados entre o casal. Nesse momento o elfo deu uma pausa e pigarreou, como se quisesse afastar algo de seus pensamentos e então continuou. O sacerdote então convidou os noivos a trocarem suas juras através dos colares imbuídos de magia. Kassyeh desenrolou o Sol de suas mãos e colocou no pescoço de Tewdric enquanto murmurava:
– Dalah'surfal... – o guerreiro sabia que aquilo significava “meu amor” na língua dos elfos.
O colar brilhou no peito de Tewdric, que sentiu o calor do objeto passar por sua roupa, por sua pele e chegar ao seu coração.
Kayliel sorriu e continuou:
– E agora, para encerrar...
– Espere aí. – falou Tewdric alto, interrompendo o sacerdote.
Todos, inclusive Kassyeh, o olharam surpresos.
– Pois não? – perguntou Kayliel.
– Falta eu dar o colar. – disse o orc colocando a mão dentro da camisa.
Para o espanto de todos, Tewdric tirou um colar com uma lua de cristal na ponta. A Lua. Desajeitadamente, ele colocou no pescoço de Kassyeh, que o mirava com os olhos abertos sem acreditar no que via e murmurou também, num sotaque pesado:
– Dalah'surfal.
A Lua deveria ser o colar mais gracioso dos dois e pulsar uma magia cálida e suave. Todavia, o colar que Tewdric fizera era extremamente grosseiro. Com certeza ele tentou imitar a delicadeza dos fios élficos, mas obviamente não conseguiu. O colar ficara longo demais, grotesco demais e visivelmente horroroso.
Todavia, Kassyeh não viu nada disso. Ele não era elfo, não precisava fazer aquilo, mas fez, para garantir a legitimidade da união. Com os olhos cheios de lágrimas, passou as mãos no colar tosco, mas tudo que viu foram as intenções e o amor de Tewdric. Nada importava mais.
– Não ficou muito bom... – admitiu o orc parecendo envergonhado – Mas fiz o mais parecido que deu.
– É lindo... – murmurou a noiva com as lágrimas escorrendo na face – Eu adorei...
– Por que você tá chorando? – perguntou o noivo aterrorizado – Por que ela tá chorando? – perguntou a Kayliel.
– Bem, ela está chorando de felicidade... – explicou o sacerdote ainda surpreso com o gesto do orc.
– Nada de lágrimas Kass! – reclamou Tewdric – Eu já disse! Se tá feliz, sorria, sorria!
Ela sorriu. O sorriso mais lindo que ele jamais vira.
– Bem... — continuou Kayliel – A Nascente do Sol os uniu para toda a eternidade. Que possam prosperar e crescerem juntos. Shin'do Sin'dorei. – e levantando as mãos, encerrou dizendo – Que o sol eterno os guie!
Uma nuvem de pétalas de rosa começou a cair sobre os noivos, sendo lançados pelos convidados. As mascotes de Kassyeh tomaram aquilo como uma permissão para sai de sua postura formal e começaram a destroçar os buquês que tinha nas bocas. Tewdric tomou Kassyeh nos braços e aplicou um profundo e apaixonado beijo. As palmas os acompanharam e Huaru notou que Luxuriah enxugava o rosto com as mãos.
– Está chorando bebê? – perguntou com um sorriso no rosto.
– Não, entrou um cisco no meu olho. – respondeu a elfa sem conseguir esconder o embargo na voz.
E então, o momento mais esperado por todos começou: a festa. A comida e a bebida passaram a ser servida aos montes enquanto os noivos iam cumprimentando todos que compareceram. Kassyeh viu que alguns nobres elfos olhavam Tewdric com um sinuoso desprezo, mas o orc pareceu não notar. E sinceramente, ela não se importava. Ela podia ser uma princesa, mas ainda mandava em seu coração e no seu destino.
Enquanto os noivos seguiam com os cumprimentos, Luxuriah foi se preparar para cantar. Estava tranquila e queria que sua voz soasse pura e calma depois de chorar tanto. Não entendia o porquê daquela emoção toda. Casamentos eram emocionantes sim, mas não se reconhecia derramando lágrimas e mais lágrimas numa cerimônia daquelas. Talvez tivesse sido o gesto de Tewdric que mexera com ela tanto quanto mexera com sua irmã. Ninguém esperava aquela sensibilidade de um orc, de dar a Lua a sua elfa amada, ainda que o colar fosse horroroso e não tivesse um pingo de magia. Mas ele fizera mesmo assim. Ganhara pontos com Luxuriah.
– Vou precisar de um tempinho amor. – disse ela com a voz pesarosa por ter que deixar Huaru por uns instantes.
– Tudo bem bebê. – Huaru lhe deu um sorriso – Vou procurar o Mhuu e ver o que ele tá aprontando. — e beijou sua elfa antes de sair.
Não foi difícil encontrar Mhuu. Ele estava perto de um dos barris de cerveja, bebendo com vontade. Só quando se aproximou mais do irmão foi que Huaru percebeu que havia algo estranho.
– Mhuu? – perguntou ao chegar ao lado do irmão.
– Huaru! – exclamou ele com uma alegria desmedida – Que bom que você chegou!
– Você está bem? – perguntou o caçula estranhando a reação tão alegre.
– Você vai me dizer! Como estou? – perguntou parecendo um pouco nervoso.
– Como assim?
– Estou bonito? Elegante?
Huaru o olhou atônito.
– Sério que você está me perguntando isso?
Mhuu franziu a testa.
– Claro que estou! – e baixando a cabeça, perguntou – Os pelos de minha testa estão arrumados?
O paladino estranhava cada vez mais o comportamento do irmão.
– Parecem iguais aos outros dias. – e insistindo, perguntou novamente – Você está realmente bem Mhuu?
– Claro que estou! Um macho não pode se preocupar com a aparência? – e olhando para o lado e depois para o irmão, pediu nervosamente inclinando a cabeça – Dá uma lambida nos pelos para deixar eles direitinho?
– Eu não vou lamber seus pelos! — exclamou perplexo.
– Que isso irmãozinho, só uma lambidinha! — e olhando para o lado de novo, acrescentou nervoso – Antes que ela chegue!
Ah, então tinha fêmea na história...
Mesmo assim Huaru se recusava a lamber a testa de seu irmão na frente de todos e se limitou a lamber a mão e passar na testa do xamã. Isso pareceu deixar Mhuu mais aliviado.
– Valeu irmãozinho, eu estava... – e então ele ficou nervoso de novo – Ela ta vindo, ela ta vindo!
Huaru olhou em volta, esperando ver qual taurena havia deixado seu irmão naquele estado, mas não percebeu a aproximação de nenhuma. Já estava para perguntar a seu irmão quem era ‘ela’ quando ouviu uma voz falar bem próximo a eles:
– Oi bonitão!
Ao seguir a direção da voz, Huaru percebeu que partira de Nabby, a goblina que quase causara o acidente com o golem e que estava vestida... Bem, estava pouco vestida. Mhuu ficou claramente sem jeito.
– Olá Nabby, há quanto tempo. – falou tentando parecer desinteressado.
– Pois é, faz tempo que não vejo esse corpo gostoso de tauren por ai. – e riu piscando o olho.
Então Huaru percebeu que estava diante da tal ‘goblina fogosa’ que seu irmão falara.
– Olha, o bonitão da Luxuriah! – exclamou a goblina reconhecendo Huaru.
– Sou Huaru, prazer. – disse sentindo-se envergonhado pelo ‘bonitão’.
– É meu irmão caçula. – apresentou rapidamente Mhuu – Entrou na guilda faz pouco tempo.
– E já entrou causando hein? – Nabby riu – Catou a Lux, coisa que ninguém mais fez. Você deve ser tão bom de cama como seu irmão!
Huaru achou por bem sair dali.
– Bem, vou ver como está a Luxuriah. Até mais Nabby. — e olhando pro seu irmão, aconselhou – Juízo Mhuu.
Mas ao se distanciar, ouviu Nabby perguntando ao tauren onde eles poderiam ficar mais a vontade e duvidou que seu irmão seguisse o conselho.
****************************
Quando Kassyeh e Tewdric terminaram de cumprimentar todos, o que levou menos tempo do que a elfa esperava, pois Tewdric não ficava muito tempo no mesmo lugar, eles foram chamados por um dos servos a tomar o lugar para a dança.
– Não precisa fazer isso se não quiser. – disse Kassyeh.
– Quase tive as pernas quebradas pela Lulu ensaiando. Acho que não vai ser tão difícil! – disse Tewdric animadamente.
O casal se posicionou no centro da festa e todos se levantaram para ver. A música começou suave e logo uma voz gentil e melodiosa começou a cantar. Kassyeh virou o rosto em direção ao palco quando reconheceu a voz de Luxuriah. A irmã a encarou, sorriu e fez um gesto com a cabeça para que começasse a dança. A maga deu os primeiros passos que foram seguidos desajeitadamente por Tewdric. Apesar disso, logo estavam no mesmo compasso e ele não pisou no pé dela uma única vez.
– Você dança muito bem. – elogiou Kassyeh.
– A Lulu me ameaçou bastante. – riu-se ele – Tanto que eu acabei aprendendo!
– Ela lhe disse que ia cantar?
Tewdric fez que não com a cabeça.
–É a primeira vez que vejo a Lulu cantar. A voz dela é linda. – e apertando a cintura da sua amada, acrescentou – Não é mais que a sua.
– Mentiroso! – disse ela entre risos – Mas vou deixar passar.
A canção cantada por Luxuriah embalou a dança, e tanto uma quanto a outra deixou os convidados encantados. A figura da jovem caçadora cantando docemente para a irmã e para o cunhado, naquele vestido vermelho esvoaçante, fez com que os elfos sangrentos logo percebessem que a essência de seu povo não havia morrido afinal. E aos poucos, os casais foram entrando na dança, levados pela canção, ainda que deixassem o centro para os noivos.
A música fluía acalmando todos os corações presentes.
Todos menos um.
Ash estava impaciente, muito impaciente. Ia de um lado para o outro, torcendo as mãos nervosamente, enquanto Luxuriah cantava. Logo seria sua vez. E ela estava em pânico.
– Algum problema?
A jovem olhou rapidamente para ver quem falava e viu Vivithi parada, observando-a risonha, enquanto segurava um cálice de vinho.
– Eu vou cantar. – disse num fio de voz.
Vivithi riu.
– Com essa voz fraquinha acho difícil você cantar.
– Estou nervosa, muito nervosa... – murmurou.
– Percebe-se. – Vivithi se aproximou – Devia relaxar.
– Não consigo! – explodiu Ash – Eu não devia ter concordado com isso! Como vou cantar pra minha irmã se meus joelhos não param de tremer?! — ela estava quase chorando.
– Ok, sem choro. – cortou a patrulheira – Vamos dar um jeito nesse nervosismo. Venha. – e virou-se se afastando.
Ash olhou sem entender, mas acabou seguindo-a. Se Vivithi pudesse dar um jeito naquele seu nervosismo, seria eternamente grata.
Foram até a parte de trás da casa, aonde garçons goblins e servos elfos iam e vinham com enormes bandejas de comida e de bebida. Vivithi se aproximou de um dos goblins, perguntou algo e o pequeno apontou um armário. Ela fez um gesto para Ash a acompanhar e se aproximou do local indicado. Lá de dentro ela tirou uma garrafa marrom tapada por uma rolha de madeira. Abriu a garrafa agilmente e um cheiro forte e amargo encheu o ar à volta delas. Então Vivithi despejou o líquido transparente em um copo e o ofereceu a Ash.
– Beba.
– O que é isso? – perguntou a outra sem pegar no copo.
– Algo que vai te deixar mais relaxada.
Ash ainda olhava com dúvida.
– Veja bem Ash. – explicou Vivithi sem muita paciência – Ou você bebe, relaxa e dá um show lá no palco, ou vai cantar tremendo como uma vara verde e acabar vomitando em cima de Samuro. – e dando um sorriso malicioso, acrescentou – Beba. Tenho certeza que meu tio vai adorar te ouvir cantar...
O rosto de Ash ficou rubro e ela se perguntou se Vivithi havia percebido. Claro que havia, até Kassyeh reparara. Mas o que ela dizia era verdade. Lor’themar ia ouvi-la. Se ela pudesse cantar, lógico. Então, decidiu beber. Pegou o copo e entornou rapidamente. A bebida desceu rasgando e logo as pernas de Ash ficaram mais leves.
– Mais um pouco. – disse Vivithi enchendo mais um copo – Para fazer efeito logo.
A jovem caçadora aceitou sem protestar e bebeu mais. Agora sua cabeça parecia mais leve.
– Muito bem. – elogiou Vivithi – Agora vamos, a música de Luxuriah vai já acabar.
Elas foram e Ash percebeu que seus pés seguiam automaticamente, e que ela parecia não controlá-los. Preferiu não pensar nisso e se postou atrás do palco assim que Luxuriah acabou a música. Vivithi fez um gesto encorajador e se afastou. Logo Luxuriah passava pela irmã e falou preocupada:
– Você está pálida. Tem certeza que vai fazer isso?
Ash assentiu com a cabeça. Não queria correr o risco de falar e vomitar.
– Pois vá. E boa sorte minha irmã.
Deu-lhe um beijo na testa e se afastou.
Era agora ou nunca. Ash subiu no palco, ainda com as pernas sem lhe obedecer bem e parou em frente à festa. A banda a olhou e ela sacudiu a cabeça, permitindo que eles começassem a tocar. E logo a melodia enchia o ar. Ash viu quando Kassyeh a olhou espantada, mas desviou logo a vista ou não conseguiria emitir uma só nota musical. Procurou algo para fixar a vista e viu Lor’themar, olhando-a seriamente. Ash então sabia o que fazer.
Começou a cantar sem tirar os olhos do lorde regente. Cantou nota após nota, percebendo então que a música que cantava falava muito do que sentia em relação a ele. Então, passou a cantar, não para a multidão, mas para Lor’themar, torcendo que ele entendesse os sentimentos que estavam atrelados àquela canção.
O tempo parecia não passar e os olhos deles estavam colados um no outro. Então, de repente, a música acabou. Ash ficou desnorteada por um momento, percebendo pela primeira vez uma multidão de olhos observando-a e aplaudindo vigorosamente. Murmurou um agradecimento e saiu cambaleando do palco.
– Você foi ótima Ash! – exclamou alegremente Karen, que esperava sua vez atrás do palco.
– Acho que vou vomitar... – murmurou se encolhendo e abraçando as pernas.
– Deixa de frescura, foi só uma musiquinha. – censurou a caçula – E agora é minha vez!!!!
Karen saiu saltitando em direção ao palco e Ash se forçou a ficar de pé. Caminhou em direção à festa antes de decidir procurar um lugar para se esconder. Todavia, antes que o fizesse, Lor’themar apareceu em sua frente. Ela congelou.
– Cantou bem pequena Ash. – ele sorria – Como está se sentindo?
– Pronta para desabar. – ofegou.
Ele riu.
– Então não vamos deixar isso acontecer. – ele ofereceu a mão a ela no momento que Karen começava a cantar – Me concede essa dança?
Ela concederia mesmo que estivesse com as duas pernas quebradas.
– Claro. – e pegou na mão dele.
A música que Karen cantava era bem animada e Lor’themar passou a mão por sua cintura enquanto seguiam o ritmo frenético da dança.
– Você está muito bonita. – elogiou Lor’themar.
Ash enrubesceu.
– É o vestido da vovó Luelly. – respondeu – Qualquer uma fica bonita com ele.
– Isso não é verdade. – eles giraram rapidamente e a cabeça de Ash latejou – O vestido é bonito sim, mas ele jamais poderia ofuscar sua beleza.
O coração dela parou por um momento.
– Não sou tão bonita assim... – murmurou.
Lor’themar pôs as duas mãos na cintura dela, a levantou e rodou, como os outros casais fizeram, seguindo os passos conhecidos daquela canção.
– Você não é bonita Ash. Você é linda. – garantiu ele com convicção.
Ela quase acreditou.
– Se você não fosse linda, não haveria quase uma dúzia de elfos me procurando pedindo sua mão. – continuou.
Giraram novamente e ela o encarou com os olhos arregalados.
– Minha mão?! – perguntou abismada.
– Sim. Vários lordes tem o interesse de desposá-la.
– Porque eu sou princesa. – retrucou – Apenas por isso.
O braço dele apertou a cintura dela mais um pouco, antes de girá-la.
– Não é por isso. Se o interesse fosse por título, eles teriam vindo pedir a de Karensky para assim poderem se tornar reis. Mas eles não pediram a mão da rainha. Pediram por você. – e sorrindo acrescentou – Não os culpo por isso.
A garganta de Ash ficou seca.
– E o que você respondeu? – perguntou com um pouco de pânico na voz. Sabia que Lor’themar não tinha poder de decidir isso, mas se ele tivesse sido receptivo àqueles pedidos significaria que ele não tinha interesse nenhum nela.
Diante da pergunta, o lorde regente se calou por um momento pensativo. Deram mais um giro antes de ele responder:
– Disse que se a queriam, procurassem conquistá-la. Contudo, — ele sorriu – soubessem que eu estaria de olho para saber as reais intenções deles. – e vendo Tewdric e Kassyeh passarem por eles e o orc o fuzilar com os olhos, acrescentou – E não serei apenas eu.
Aquilo a deixou confusa. Ele ficaria de olho? Por quê? Por que se sentia responsável? Por que agora seria seu tutor? Por que afinal?
– Lor’themar... – começou quando a dança foi acabando – Você me acha realmente bonita?
Ele sorriu.
– Sim pequena Ash. Qualquer elfo com o mínimo de bom senso a desejaria para si.
– Até você? – perguntou ela num impulso.
Ash se arrependeu no momento em que as palavras saíram pela sua boca. Seria ainda o efeito da bebida ou o efeito dos braços dele ao redor de seu corpo? Pensou em retirar a pergunta, mas antes que o fizesse, Lor’themar respondeu.
– Sim, pequena Ash, até eu. – e sorriu antes de continuar – Se tivesse uns trezentos anos a menos, eu até tentaria. Agora, estou velho demais para você.
A música parou repentinamente e Lor’themar a soltou.
– Eu não me importo com sua idade. – disse antes que pudesse se arrepender.
Lor’themar lhe sorriu e fez uma reverência. Esperava que ele respondesse, mas antes que isso acontecesse, Tewdric apareceu de repente.
– Vamos dançar Ashzinha? Quero mostrar como tô melhor.
E sem esperar resposta, pegou a mão dela e a levou e volta à turba dançante.
Lor’themar levou a mão à nuca, preocupado. Seria o que estava pensando?
Quando se virou para ir pegar uma bebida, Kassyeh estava atrás dele, encarando-o com um ar sombrio.
– Algum problema alteza? – perguntou ele o mais formal possível.
– Ainda não Lor’themar. – respondeu ela secamente – Mas isso pode vir a acontecer.
– Não estou entendendo.
Kassyeh se aproximou dele e sussurrou:
– Não desperte o que você não tem intenção de corresponder. – e sem esperar resposta, saiu.
Mais do que nunca Lor’themar desejou uma bebida.
**************************
Luxuriah sabia que devia estar com algum problema. Estava chorosa demais. Aquele não era seu normal. E ainda assim chorara na cerimônia e chorava agora ao ouvir Ash cantar. Procurou se afastar da turba da festa para evitar olhares surpresos em sua direção enquanto limpava as lágrimas.
– Bebê, tudo bem?
Huaru chegara e lhe lançara um olhar preocupado.
– Não sei o que tá acontecendo comigo! – confessou ela entre lágrimas – Não paro de chorar! Isso não sou eu!
O jovem paladino se aproximou e abraçou-a fortemente. Passou a mão por suas costas, acalmando-a.
– Todos tem o direito a um momento sensível bebê. O seu é agora. – consolou.
– Não quero momento sensível. Quero meu eu de volta! – murmurou enraivecida.
– Gosto de todos seus ‘eus’. – disse ele carinhosamente – Amo você de qualquer jeito.
Luxuriah levantou a cabeça rapidamente e o encarou.
Amor? Huaru disse que a amava?
Sim, ele dissera.
Seu coração disparou. As palavras se formaram em sua garganta tão rápido que não teve sequer como raciocinar sobre elas.
– Eu também te amo... – murmurou.
Era a primeira vez que Luxuriah dizia aquelas palavras a alguém. Instintivamente soube que Huaru sabia daquilo. O jovem tauren sorriu, inclinou a cabeça e a beijou. Eles prolongaram o beijo o máximo de tempo possível, até que algum dos garçons parou atrás deles eles dizendo um esganiçado ‘com licença’. O casal estava bloqueando a passagem. Rindo, Huaru a puxou para mais junto do corpo e deu dois passos para trás. O goblin não agradeceu e seguiu o caminho. Lá na festa, a voz de Karen começou a ser ouvida e as batidas de pés acompanharam a música animada.
– Se você aceitar moça – disse alargando o sorriso – poderia dançar comigo? Luxuriah sorriu com a lembrança.
– Tudo bem. Só não estranhe se eu pisar no seu pé. – e sorrindo também, acrescentou – E pode me chamar de Luxuriah.
De mãos dadas, os dois entraram na turba dançante.
Era estranho, pensou a caçadora deslizando nos braços de Huaru. Estranho que conhecesse aquele jovem tauren há mais ou menos um mês, mas parecia que estavam juntos desde sempre. Ele a conhecia melhor que suas irmãs, e a aceitava com seu passado maculado e a amava como nunca fora amada. Pela primeira vez, desde que seus pais morrera, realmente se sentia segura.
Queria que aquela sensação não acabasse nunca.
A música animada de Karen continuava e os convidados empolgados com a dança. Luxuriah viu de relance Lor’themar e Ash e franziu o cenho preocupada. Mas logo eles dois forma engolidos pelas outras pessoas e sumiram de vista.
– Não se preocupe. – disse Huaru acompanhando o olhar dela.
– Claro que me preocupo. – respondeu – Ash pode se machucar nutrindo esses sentimentos por Lor’themar.
– A Ash?- o paladino parecia surpreso – Pensei que você estava preocupada com os sentimentos que Lor’themar nutre por ela.
Luxuriah o encarou, com os olhos arregalados.
– Como?
– Você não notou? — Huaru apertou mais sua cintura para que a turba dançante não a afastasse dele – A forma como ele a olhou... Ele gosta dela.
Agora a caçadora estava boquiaberta.
– Você... – começou ela devagar – Tem certeza?
Ele assentiu.
– Sou bom em perceber os sentimentos dos outros. – falou ele com um certo orgulho.
– Ah é? – ela sorriu maliciosa – Então... O que estou sentindo agora? – e se apertou mais ao corpo dele.
– Está com vontade de fazer algo que não podemos fazer em público. – respondeu com um sorriso.
Luxuriah caiu na risada.
– É, você é bom mesmo!
Eles continuaram dançando e Luxuriah lembrou-se da dança que eles compartilharam em Orgrimmar. Então, subiu nos pés dele, como fizera da outra vez e se agarrou forte. Huaru entendeu a dexa e começou a dançar e girar com ela rapidamente. Diferente do casamento na capital da Horda, ali os convidados elfos não lhes deram espaço e aplaudiram, e sim ficaram olhando com curiosidade enquanto a princesa gargalhava feliz enquanto seu parceiro tauren a girava graciosamente.
– Ai, ai, tô ficando tonta! – disse ela pouco antes da música acabar – Preciso de ar!
– Certo! Vamos sair daqui.
Ele a levou para as mesas e a ajudou a sentar. O rosto de Luxuriah estava muito vermelho e ela se abanava com a mão. Huaru então pegou duas canecas de cerveja, e Luxuriah esvaziou a dela de um gole só e pegou a dele.
– Nossa, você está realmente com sede! – brincou.
– Sim, estava mesmo! – admitiu.
E terminou de beber a caneca dele.
Huaru sentou de seu lado e pegou em sua mão. Luxuriah sorriu para ele, encostou a cabeça no braço forte do paladino e suspirou.
– Cansada bebê? – perguntou Huaru.
– Muito. Essas últimas semanas tem sido tão estressantes... – ela suspirou – Quando fui a Orgrimmar buscar a Kass, não imaginava que aconteceria essa enxurrada de fatos, um atrás do outro.
– Está triste com tudo isso? – perguntou ele sentindo um aperto no estômago.
Luxuriah levantou os olhos e o encarou.
– Claro que não! – respondeu surpresa com a pergunta dele – Como estaria triste se esses fatos me trouxeram você?
Huaru abriu um sorriso envergonhado e a aconchegou mais um pouco junto ao seu corpo. Sim, todos aqueles fatos findaram por uní-los. Não podia deixar de pensar que os espíritos os aproximaram por algum motivo. Sim, havia algo maior que eles dois naquilo tudo, mas o jovem paladino ainda não conseguia ver. Talvez só o visse quando já tivesse acontecendo. Ou, depois de acontecerem. Mas não queria se preocupar naquele momento. Tudo que queria era continuar com seu braço em volta do corpo dela, sentindo o cheiro de rosas que desprendia de seus cabelos e o desejo incontido de tê-la todas as noites. Sim, era tudo que ele queria. Ela.
Enquanto Huaru ponderava sobre aquelas coisas, duas figuras saíram da multidão que dançava que se encaminharam até eles. Tewdric e Ashrial caminharam com dificuldade entre os convidados, até chegarem na mesa onde o casal estava. O noivo estava carrancudo e Ashrial tinha o rosto vermelho e suado.
– Tiraram minha Kass pra dançar! – reclamou ele assim que pôs os olhos em Luxuriah.
– E você queria o quê? – perguntou ela sem se abalar – É costume os convidados dançarem com os noivos. – e franzindo a testa, continuou – É compreensível que as elfas tenham medo de você, mas a Kass é princesa. Muitos vão querer dançar com ela para conquistar sua simpatia.
– Não quero ninguém tentando conquistar a simpatia da minha elfa! – vociferou o guerreiro.
– Pois vai ter que aceitar. É uma das nossas obrigações como princesas. – Luxuriah balançou a cabeça – Não que eu goste disso, mas se aceitamos o fardo, temos que ir até o fim. – e antes que Tewdric abrisse a boca para contestar, ela repreendeu – Deixe de choramingos Tewdric! A Kass tem que dançar porque é nossa obrigação. Daqui a pouco, haverá uma fila para dançar com a Ash também.
A jovem caçadora, que até então apenas ouvia a discussão, se assustou.
– O que eu tenho a ver com isso? – perguntou.
Luxuriah revirou os olhos.
– Vão te tirar pra dançar e você não pode dizer não. Conversamos sobre isso, lembra?
Sim, ela lembrava. Mas preveria não lembrar.
– E você, vão te tirar pra dançar? – quis saber Huaru se sentindo incomodado da mesma forma que Tewdric se sentia.
– Provavelmente não. – e sorrindo maliciosamente, acrescentou — A maioria dos elfos aqui preferia nem lembrar da minha existência.
Huaru achou por bem não perguntar os motivos.
– Mas Lux... – Ash torcia as mãos nervosamente – Se eu explicasse, com jeito, que não sei dançar bem....
– Todos saberiam que é mentira, pois te viram dançando com Lor’themar. – sentenciou a irmã.
Sim, Ash queria um buraco para se enfiar.
– Não gosto daquele elfo perto da Ash. – resmungou Tewdric – Ela é uma menina ainda, não é para elfos adultos como ele estarem se engraçando pra cima dela.
Os olhos de Ash brilharam. Tinha entendido bem? Tewdric achava que Lor’themar podia ter interesse nela? Normalmente Tewdric não se enganava aquele respeito, então poderia...
A fala seca de Luxuriah cortou seus pensamentos.
– Pois então se prepare para surtar com a quantidade de pretendentes que vão aparecer atrás da Ash. Principalmente depois de ouvirem ela cantar. – e olhando para a irmã falou com suavidade – A propósito, você esteve ótima.
– Como assim pretendentes? – o orc pareceu confuso.
Não foi Luxuriah quem respondeu, mas Huaru.
– Acredito que como Ash é a única das princesas solteiras que é adulta, muitos vão tentar casar com ela. Não é mesmo bebê?
A caçadora assentiu.
– A Karensky é uma criança ainda, ninguém vai se adiantar e pedir a mão dela. Seria de mal tom. A Kassyeh tá casada com você, e convenhamos, estou surpresa de alguém ter pedido pra dançar com ela, todos aqui parecem ter medo de você. – Tewdric pareceu um pouquinho mais feliz depois de ouvir aquilo – E eu, tenho meu tauren lindo e gostoso. – e como que para enfatizar, deu um beijo rápido na boca de Huaru – Logo, a Ash se tornou o melhor partido de Luaprata. – e encarando a irmã, indagou – Acha que pode lidar com isso?
Ash não precisou responder. Sua face pálida era o suficiente para que todos pudesse ver o pânico que se instalava na jovem.
Antes que qualquer um pudesse dizer qualquer coisa que acalmasse a jovem, Karen e Saba chegaram ruidosamente na mesa e se penduraram no noivo, rindo animadamente.
– Você viu eu cantando Ted? Viu? – perguntou a pequena elfa animada.
– Eu dancei com um menino elfo enquanto a Karen cantava. – disse Saba, e dando uma pausa, franziu o cenho – Pelo menos eu acho que era um menino...
A tensão do guerreiro se esvaiu por completo ao encarar as meninas. Pegou as duas no colo, que riram alegremente ao serem erguidas. Galinha piou alto no braço de Karen, também animado.
– Ah, a Karenzinha foi ótima, a melhor cantora que existe! – disse com um sorriso bobo – E cuidado com esses meninos elfos Saba, se algum se engraçar pra você, me avise que vou lá e dou uns cascudos nele!
As meninas riram mais ainda.
– Sei não... Esse orc... – murmurou Luxuriah balançando a cabeça, mas rindo também.
– Vamos dançar Ted!!! – gritou Karen de repente – Vamos, vamos!
– Vamos! – concordou o orc animado.
– E eu? – perguntou Saba com um muxoxo.
– Vamos dançar os três! – o orc então saiu com as duas meninas no braço, cujas gargalhadas se sobrepuseram ao barulho do local.
Logo, Tewdric, Karen e Saba haviam sumido no meio da turba de dançantes.
Não demorou muito e um elfo se aproximou da mesa, pedindo para dançar com Ash. A jovem elfa olhou rapidamente para a irmã, como se pedisse ajuda, mas Luxuriah apenas arqueou as sobrancelhas. Sem escapatória, a jovem elfa aceitou o convite e voltou ao centro da festa.
– Quer dançar mais bebê? – perguntou Huaru ao ficarem a sós.
Luxuriah fez que não com a cabeça.
– Quero apenas ficar aqui com você. Só nós dois. – e a caçadora não soube explicar porque, de repente, pareceu tão importante receber o abraço dele.
E ficaram ali, sentados lado a lado, Huaru com o braço em torno de sua elfa, enquanto observavam a festa continuar sob os acordes animados dos Chefes Taurens.
******************
A festa de casamento de Kassyeh e Tewdric adentrou a madrugada. Quando a bebida já havia sido bastante consumida, os elfos sangrentos começaram a se deixar levar pela alegria dos demais povos da Horda que compunham a Guilda do casal. Elfos agora dançavam com trolesas, elfas com taurens, e nem mesmo os goblins e renegados ficaram de fora. Todos acharam um par com quem compartilhar pelo menos uma música.
Mas foi inegável que a grande estrela da festa foi Karensky. A menina brilhou de uma forma que ninguém duvidou de seu poder de carisma. Logo após a dança a três com Tewdric e Saba, ela passou a convidar quem passasse por ela para uma dança. Os nobres mais velhos comentavam que ela possuía a simpatia e a graça da avó, Lady Luelly, e transmitia a confiança do avô, o rei Anasterian. E antes que a noite chegasse ao fim, não havia um só elfo que não tivesse aceitado a menina como Rainha dos Sin’dorei.
Saba não teve o mesmo fôlego da amiga. Depois de dança com Tewdric e com mais alguns convidados, sentou-se na mesa onde estavam Luxuriah e Huaru e acabou adormecendo. O paladino, então, se dispôs a levar a menina para o quarto. Quando voltou, encontrou sua namorada também adormecida, sentada na cadeira. Sorrindo consigo mesmo, pegou-a levemente e também a levou. Porém, quando a deitou na cama, Luxuriah abriu os olhos, confusa.
– O que aconteceu? – perguntou com a voz meio enrolada.
– Você adormeceu. – explicou – Então te trouxe para o quarto. – e vendo que ela sentava na cama e esfregava os olhos, quis saber – Quer voltar para a festa?
Luxuriah pensou um pouco e fez que não.
– Kassyeh está se saindo bem. Karen, sem comentários. Tewdric ainda não matou ninguém. E Ash parece que ainda não surtou. Acho que elas vão sobreviver sem mim. — e sorrindo maliciosamente, passou a mão no peito de Huaru – Podemos continuar a festa só nós dois, o que acha?
– Precisa perguntar? – indagou ele antes de beijá-la com vontade.
Lá fora, enquanto Karen distribuía sorrisos e simpatia, Ash torcia para que tudo acabasse. Seus pés doíam das inúmeras danças, sua cabeça começara a latejar por causa da bebida e, o pior de tudo, não vira mais Lor’themar em lugar algum.
Estaria ele com alguma elfa em algum canto da festa? Tinha visto vários casais saírem de fininho em procura da floresta, e se perguntava se o lorde regente não tinha arrumado nenhuma companhia com quem quisesse ficar a sós.
Aquele pensamento só fez sua cabeça doer mais ainda e ela desejar sumir. Porém, quando mais uma música terminou, ela teve uma ideia, pelo menos para acabar com o suplício da dança. Iria procurar Vivithi. Precisava agradecer pela ideia dela e aproveitava para pedir ajuda a elfa. Se estivesse do lado dela, dificilmente alguém iria preferir dançar com ela do que com a patrulheira seminua. E em último caso, imploraria para que Vivithi dispensasse os pretendentes em seu lugar, inventando alguma desculpa para ficar na companhia dela. Era princesa certo? Ninguém estranharia uma princessa resolvendo assuntos reais no meio de uma festa, certo?
E aproveitaria para perguntar se ela tinha visto o tio em algum lugar...
Porém, antes que pudesse escapar, alguém tocou levemente seu braço.
– Me concede essa dança?
Ash se virou, totalmente desanimada, antes de perceber quem se dirigia a ela.
– Tio Aethas! – exclamou aliviada.
– Parece que você tem tido uma noite cheia. – brincou o mago antes de começar a dançar com a sobrinha.
Ash deixou-se ser conduzida pelo tio. Pelo menos não era nenhum elfo ávido por sua atenção.
– Sim... – murmurou a jovem – Meus pés doem, minha cabeça dói... E não posso recusar nenhum pedido de dança...
– As responsabilidades de uma princesa. – disse ele – Lembro que nas festas de antigamente, as moças ficavam alvoroçadas para convidar o príncipe Kael’thas. Mas ele gostava da atenção e não reclamava de ser tirado para dançar a noite toda.
– A Karen deve ter puxado ao lado dele da família. – comentou Ash ao ver a irmã passar dançando com um nobre elfo, com uma animação de fazer inveja – Olha a alegria dela!
Aethas riu.
– Não, eu a compararia a Lady Luelly. Kael’thas não era tão simpático assim. – ele apertou os lábios ao lembrar do príncipe – Já Lady Luelly era encantadora. – e sorrindo, acrescentou — Você parece com ela.
A jovem ruborizou.
– Que nada, ela era linda. Eu não sou.
Franzindo a testa, o arquimago perguntou:
– De onde você tirou essa ideia menina? Você é linda. Se não fosse, porque tantos elfos loucos pela sua atenção? – e diante do silêncio da sobrinha, balançou a cabeça – E além de tudo, tem uma voz linda. Você cantou bem. Nem tremeu.
Os dois riram.
– Graças a Vivithi. – disse Ash – Se não fosse por ela, eu não teria cantado.
A menção do nome da patrulheira fez as orelhas de Aethas tremerem. Mas Ash não reparou.
– É mesmo? Fico surpreso por ela ter sido capaz de te ajudar. – e sem conseguir se conter, perguntou como se não tivesse interesse nenhum na resposta – Como ela te ajudou?
Ash hesitou um pouco em responder, mas como não havia ocorrido nenhuma discussão entre Aethas e Vivithi desde que o mago chegara, ela achou que poderia dizer sem problemas.
– Ah, ela me deu uma bebida para me acalmar. Duas doses. Era algo amargo, transparente, não sei que bebida era... Mas me ajudou muito.
O mago sentiu que ia explodir de ódio. Aquela depravada induzindo sua inocente sobrinha a beber? Pior, provavelmente uma bebida órquica extremamente forte! Ah, ela iria ouvir... Iria procurar a elfa e exigir explicações imediatamente! Mas nada demonstrou para Ash. Não queria que a menina se sentisse mal ou que o impedisse de fazer o que tinha vontade.
– Que bom. – disse com uma voz fria, mas calma – Que bom que tudo deu certo...
A música parou nesse momento e rapidamente um elfo apareceu do nada para tirar Ash para dançar. A jovem aceitou com um sorriso forçado na face.
Aethas então se viu livre para achar Vivithi. E sim, naquela noite iria dizer tudo o que pensava sobre a elfa, e esperava que ela estivesse pronta para ouvir tudo o que guardava dentro dele.
***************
Fazia anos que Vivithi não se divertia tanto em uma festa. Tinha aproveitado cada minuto do casamento de Kassyeh e Tewdric: dançara com todos que achara interessante dançar, conversou com pessoas que não via a anos e conheceu outras tantas, provou comidas maravilhosas e é claro, as bebidas. Só havia as melhores bebidas na festa. Luxuriah providenciara para que ninguém tivesse do que reclamar. Ou estivesse bêbado o suficiente para não reclamar.
Andando pela festa, a patrulheira procurava um alvo em potencial, mas não achara ninguém que realmente gostaria de levar para a cama. Sabia que Luxuriah não se importaria se ela pegasse um dos quartos vagos, afinal, já fizera isso outras vezes. Mas no momento, a única coisa que despertava seu interesse era o vinho maravilhoso que bebia. Por isso, quando sua taça secou e a garrafa também, se pôs a procurar um pouco mais daquela maravilha. Passou por algumas mesas, surrupiou algumas uvas que desapareceram rapidamente em sua boca, mas nenhum sinal do vinho que queria.
Não era nenhum problema afinal. Sabia onde encontrar mais.
Estava se dirigindo à parte de trás da casa quando encontrou uma cena bem incomum: um enorme tauren, que ela reconheceu como sendo o irmão mais velho de Huaru, beijava com voracidade uma goblina, que estava em pé em uma das muitas cadeiras espalhadas pela festa. Tentou passar discretamente para não incomodar o casal, mas logo que o beijo acabou a goblina a viu e abriu um imenso sorriso. Vivithi a reconheceu imediatamente e retribuiu na mesma empolgação.
– Vivi! – a goblina pulou da cadeira agilmente e foi em sua direção – Há quanto tempo!!!
– Nabby! – Vivithi a abraçou – Muito tempo mesmo! O que tem feito de bom?
– No momento, agarrando esse bonitão aqui! – e piscou o olho.
Mhuu coçou o pescoço, nitidamente encabulado com o comentário, mas não disse nada.
– Então você anda muito bem! – disse a caçadora explodindo em gargalhadas.
Nabby a acompanhou, mas logo retribuiu a pergunta:
– E você? Está sozinha? – e franzindo a testa comentou – Isso é incomum.
– Pois é, ainda não vi ninguém interessante por aqui. – a elfa deu uma olhada em volta e suspirou – Por isso estou procurando mais vinho! A melhor companhia sempre!
– Com certeza! – concordou a outra.
– E a propoósito você está linda Nabby! – ela pegou na mão da amiga e a girou – Linda sua roupa! Ouro?
A goblina fez que sim.
– Ouro e seda! E a sua também hein? Um arraso! Ouro e diamantes?
– Com certeza! – Vivithi girou quase mostrando tudo ao fazer aquilo – A Deynna desenhou e a Keeli fez! Um excelente trabalho!
– Nossa, foram elas também que fizeram a minha roupa! – a goblina falou encantada.
– Por isso está tão maravilhosa! Aquelas duas juntas ainda vão conquistar Azeroth!
Elas riram e com certeza passariam mais tempo conversando se Mhuu não desse uma discreta tossida lembrando de sua presença.
– Ah, desculpe, eu atrapalhei vocês.... – lamentou a elfa sinceramente.
– Que nada! – Nabby balançou a mão displicentemente — O Mhuu já estava me levando para ver o quarto dele aqui na casa, né Mhuuzinho? – perguntou toda dengosa piscando para o tauren.
O xamã baixou a cabeça encabulado e as duas arqueiras apenas riram.
– Pois eu vou continuar minha procura por mais bebida. – avisou Vivithi balançando a taça vazia – E vocês aproveitem bem a noite. – e se abaixando um pouco murmurou para Nabby – Você vai adorar as camas daqui, são fofas e silenciosas!
– Perfeito! – devolveu a goblina com um risinho.
E com um aceno, Vivithi continuou seu caminho em busca do vinho, deixando o casal livre para ir em busca do quarto de Mhuu.
A cozinha era um local inascessível para os convidados da festa; os goblins e elfos tinham ordens expressas de não permitir que nenhum desavisado cruzasse a porta da cozinha. Só que ela não era uma simples convidada. Por isso, pode entrar tranquilamente onde estavam as bebidas, encher a sua taça, pegar um salgado fumegante de uma bandeja que passou por sua frente, bebericar seu vinho e, pensando melhor, pegar logo a garrafa também, sem que ninguém ousasse lhe dirigir um olhar de desagrado. E estava saindo pela sala, feliz e satisfeita, quando Aethas entrou pela porta.
Vivithi estava de extremo bom humor, por isso não se afetou com a presença do seu desafeto. Iria apenas ignorá-lo, continuar seu caminho e, quem sabe, procurar mais um parceiro de dança. E qual não foi sua surpresa quando, ao cruzar com o arquimago do Kirin Tor, este pegou bruscamente em seu braço puxando-a para o escritório da casa e fechando a porta com a chave. A surpresa da elfa foi tanta que ela deixou a taça cair de sua mão e por pouco a garrafa não teve o mesmo destino. Quando estavam a sós e a patrulheira recuperada do susto, pensou se devia perguntar o motivo da interrupção de seu caminho ou simplesmente estilhaçar a garrafa de cristal na cabeça de Aethas. Como estava de bom humor, decidiu que a primeira alternativa seria mais sensata.
– Posso saber o que significa isso? – perguntou num tom seco.
– Como você ousa?! – gritou-lhe o mago se aproximando perigosamente – Como ousa fazer aquilo com Ash?!
A elfa levantou o queixo e encarou o mago altiva antes de falar no mesmo tom:
– Fale baixo comigo, que eu não sou nenhuma de suas putas de Dalaran!
Aquilo serviu para Aethas perder um pouco de sua compostura e Vivithi aproveitou para colocar a garrafa pesadamente em cima da mesa do escritório. Não queria cometer nenhum assassinato na festa de sua amiga.
– Sua.... – Aethas tentou não prestar atenção no corpo de Vivithi, que ameaçava deixar transparecer mais que o necessário a cada movimento da elfa – Você deu bebida a Ash! – acusou.
Vivithi franziu a sobrancelha.
– Esse piti de frescura todinho é porque eu dei um copo de bebida pra Ash? – ela gargalhou – Sério?!
A risada dela fez a raiva de Aethas voltar com força e ele deu dois passos em direção a ela.
– Já não basta no que você transformou Luxuriah e agora que levar Ash pelo mesmo caminho?! — a voz dele se alterou novamente
– Eu transformei Luxuriah?! – rebateu a patrulheira – Transformei?! Eu ajudei aquela menina a lidar com sua dor no pior momento de sua vida!
Foi a vez de Aethas rir.
– Ajudou? Você transformou minha sobrinha numa mertetriz como você é!
– Desculpe lhe desapontar meu caro arquimago, mas nunca cobramos para ninguém se deitar conosco. – disse em tom malicioso – Quem foi para cama comigo e com a Lux, ou com nós duas juntas, foi por puro e simples prazer.
Uma vermilhão intensa que podia ser tanto de raiva quanto de vergonha se espalhou pela face de Aethas. Vivithi não conseguiu segurar o sorriso e isso o deixou ainda mais revoltado.
– Você não tem nem a decência de negar! – sibilou entre os dentes.
– Negar porque? Negar minha sexualidade? Meu prazer? – ela deu de ombros e se dirigiu à mesa — Desculpe se minha liberdade lhe incomoda, mas não vim a esse mundo para agradar seus pudores! – e pegou a garrafa, abriu e tomou um gole no gargalo mesmo. Se era pra chocar, iria fazer como ninguém.
– Isso não é liberdade, é libertinagem!
Ela se virou rapidamente e colocou a mão entre as próprias pernas.
– Isso aqui é meu e eu dou para quem eu quiser! Minha família nunca se importou com isso, porque vem você, que não significa nada em minha vida, me dar lição de moral hein?!
Aethas deixou seu olhar se fixar um pouco onde estava a mão dela e tentou não pensar no que estava atrás do singelo tecido dourado. Com certeza aquela palpitação que sentia perto da patrulheira nada mais era que a quantidade de vinho que tinha bebido.
– Não me importo com o que você faz com... Com... – ele não falou nada, apenas apontou para onde estava a mão dela – Mas você não tinha o direito de fazer o que fez com a Luxuriah!
Vivithi estreitou os olhos e cruzou os braços.
– Tem razão. – falou suavemente para espanto do mago – Eu não tinha o direito. Tinha o dever! – e e se aproximando dele, aumentou novamente o tom de voz – E você, Lorde Fendessol, o que fez por sua sobrinha quando ela foi violentamente estuprada por sete humanos hein? – ele arregalou os olhos e ela continuou – A propósito, devo lembrá-lo que eles fizeram isso em cima do cadáver de Dhomm e Samanthah!
Engolindo em seco, Aethas a encarou sem saber o que dizer. Mas aquilo só durou um momento. Logo, ele rebateu:
– Eu fiz tudo que eu pude!
– O seu tudo foi tentar levá-la para Dalaran, uma cidade cheia de humanos! – Vivithi descruzou os braços e pôs as mãos na cintura – Você acha que realmente ela iria ficar bem num lugar como esses?!
– Nem todos os humanos são maus! – exclamou.
Vivithi se aproximou tão rápido dele, com os olhos em chamas, que Aethas deu um passo para trás, com medo que ela o atacasse.
– Ela foi estuprada Aethas! – gritou a elfa – Estuprada! Não foi uma simples batalha! Ela viu os pais morrerem e foi desonrada da pior forma que uma elfa podia ser! Ela era uma criança! – os olhos de Vivithi agora estavam cheios de lágrimas – Eu estava lá! Eu vi! A Lux tem sorte de estar viva! Se tivéssemos demorado mais um pouco, eles a teria matado, não com suas armas, mas com seus corpos! Ela sangrava entre as pernas, Aethas, como se uma espada tivesse atravessado seu ventre! – ela limpou as lágrimas que escorreram pelo seu rosto, antes de baixar um pouco a voz, mas continuou no mesmo tom duro – Aqueles humanos destruíram a alma dela.... E você queria jogá-la dentro de uma cidade cheia de humanos!
Daquela vez ele não tinha uma resposta. Não sabia se foram as palavras de Vivithi ou suas lágrimas pelo que acontecera com Luxuriah que mexera com ele. Não tinha dúvidas que a patrulheira tinha sentimentos sinceros por sua sobrinha, mas o incomodava a forma como aquela amizade se desenrolara. Mas no momento, o que ele queria fazer era se defender. Afinal, ele não era o vilão daquela história.
– Dalaran foi minha primeira opção sim. – disse tentando recuperar a compostura – Mas quando Luxuriah negou-se a ir eu tentei voltar. E seu tio não deixou. – disse apontando o dedo para ela.
A risada que Vivithi deu foi sarcástica.
– E você não foi macho o suficiente para bater de frente com meu tio e ficar ao lado de sua família! – devolveu.
– Nosso povo estava numa situação difícil, você sabe! – exasperou-se Aethas – Estavamos sem aliados e prontos para sermos expulsos do Kirin Tor por causa de nosso tratado com a Horda! Estavámos fracos, abatidos e vulneráveis! Lor’themar me disse tudo isso e me mandou voltar a Dalaran! Me garantiu que minhas sobrinhas ficariam bem!
– E elas ficaram. Mas não graças a você!
O arquimago engoliu em seco. Ele e Vivithi se encararam por alguns segundos antes dele continuar:
– E você se considera a grande salvadora de Luxuriah não é? – sibilou apertando os olhos – Fazendo-a dormir com metade dos elfos de Luaprata após ter sido estuprada!
Para sua surpresa, Vivithi suspirou e balançou a cabeça, como se estivesse lidando com uma criança teimosa. A elfa caminhou novamente até a mesa e pegou a garrafa.
– Você fala como se tivesse sido bom, como se tivesse sido fácil. – ela tomou um gole grande do vinho direto na boca da garrafa – Vocês, elfos, orcs, taurens, qualquer macho que seja, vocês não entendem, nunca entenderão...
– Nunca entenderei o que? – perguntou Aethas se aproximando dela.
Ela se virou novamente e o encarou.
– Como é difícil se amar quando você se sente suja e tem nojo de si mesma. – respondeu pesarosa – Como é difícil permitir que alguém te toque... Quando tudo que você quer é arrancar a própria pele. – ela levantou um dedo e tocou o braço de Aethas, que estremeceu – Vocês não sabem o quanto custa para nós amar de novo depois que alguém arranca o melhor que você tem.
– Você fala como se você tivesse... – a voz dele morreu e ele arregalou os olhos.
Vivithi negou com a cabeça.
– Graças a Nascente do Sol, nunca. – e dando uma pausa, bebeu mais – Pelo menos não meu corpo. – ela tomou outro gole enquanto ele se perguntava o que ela teria quisera dizer com aquilo. – Sim, eu aconselhei a Lux. Disse-lhe o que precisa fazer. Disse que ela podia tentar outra maneira. Mas ela decidiu encarar de frente. Tratamento de choque, ela chamava. Foi difícil. Ela vomitou nas primeiras vezes. Chorou. Bateu em seus amantes. Bateu em si mesma. Bateu até em mim. – ela soltou uma risada seca — Mas conseguiu. E me sinto orgulhosa por isso. Porque se ela não tivesse feito, hoje ela não estaria feliz e amando Huaru.
– E você acha que é mérito seu? – perguntou ele sarcástico.
– Não. – respondeu ela tranquilamente – É dela. Todo dela. E por mais que você ame a Lux, você não é elfa Aethas. Você jamais poderia ajuda-la. Talvez, ela o tivesse odiado pura e simplesmente por você ter um pênis. – e bebeu o resto da garrafa, depositando-a seca em cima da mesa.
Sem acreditar que tinha ouvido aquilo, Aethas se aproximou mais ainda de Vivithi. Apesar da madrugada estar avançada e fazer horas do início da festa, a elfa ainda estava maravilhosamente perfumada. Ele tentou ignorar aquelas sensações.
– Por que ela me odiaria? – questionou.
– Como eu disse, vocês machos não entendem. – Vivithi deu de ombros.
Aethas apertou os lábios, frustado.
– E sobre a bebida de Ash, vá por mim, ela precisava. – continuou a patrulheira — E você não precisa se preocupar com a possível depravação dela, a menina já está completamente apaixonada. E duvido que ela deixe qualquer um encostar o dedo nela que não seja ele.
– Como é?! – Aethas deu um passo para trás, tamanho foi o susto – A Ash tá o quê?!
– Apaixonada meu caro arquimago. Sabe o que é isso? – gracejou dando um sorriso malicioso para ele.
– Como... – ele engasgou – Ela é só uma criança... E quem é ele?!
Vivithi riu mais ainda da reação dele.
– Isso ela quem tem que te contar. – e se espreguiçando, disse – E se já terminamos aqui, quero voltar para a festa.
– Quem disse que terminamos? – perguntou ele quase sem conseguir desgrudar os olhos do corpo dela – Ainda tenho muita coisa pra dizer!
– Não, não tem. – sentenciou a elfa – E você sabe disso. A menos, é claro, que seu interesse seja outro.... – e riu-se.
Aethas ficou vermelho e franziu o cenho.
– Eu jamais me interessaria por você! – disse com mais ênfase do que pretendia.
– Será mesmo? – Vivithi de repente sentiu uma vontade imensa de provocar o arquimago e se aproximou um pouco mais dele – Você se preocupa tanto com o que eu faço... Dá para desconfiar... – e lhe presenteou com um sorriso malicioso.
– Eu estou pouco me lixando para o que você faz! – respondeu Aethas altivo – Minha preocupação é com minhas sobrinhas! Apenas!
Vivithi continuou sorrindo e deu de ombros.
– Acredito que é melhor assim meu caro Aethas. Melhor para você, lógico. – ela o olhou de cima abaixo antes de completar – Duvido que você fosse capaz de me causar sequer um arrepio na espinha... E um ‘não’ meu poderia matar seu ego, não é mesmo?
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Ao terminar essas palavras, Vivithi deu as costas a Aethas e se dirigiu à porta.
O arquimago tremia de raiva dos pés à cabeça. A elfa podia não saber, mas já havia atingido profundamente o ego de Aethas. Ele podia não entender de amor, como havia confessado a Huaru e a Tewdric, mas de sexo ele entendia e entendia muito bem. E tinha convicção que poderia fazer qualquer uma implorar por seus carinhos, se assim quisesse.
Até mesmo Vivithi.
Por isso, impulsionado pelo orgulho ferido e pelas sensações potencializadas pelo vinho consumido, ele não a deixou ir embora. Pegou em seu braço e a puxou para junto dele. Apertou sua cintura e a beijou com voracidade.
Pega de surpresa, Vivithi não reagiu a tempo de se livrar dos braços de Aethas. E depois que ele começou a beijá-la, se perguntou se realmente queria se livrar dele. Os lábios dele eram macios e vorazes, como se quisesse consumi-la inteiramente. Deixou que ele a apertasse contra seu corpo e estremeceu quando as mãos dele acariciaram suas costas, subindo em direção a nuca. Ele enfiou os dedos nos cabelos dela e a acariciou antes de segurar com força em seu penteado e puxar sua cabeça para trás. Vivithi emitiu um gemido de dor e surpresa, que logo foi substituído por um suspiro de prazer, quando Aethas beijou-lhe o pescoço. A cabeça da caçadora já estava totalmente embriagada com aquelas sensações quando Aethas simplesmente interrompeu as carícias e a empurrou para longe.
– Sim... – murmurou ele com os olhos faiscando – Eu sou capaz de lhe causar um arrepio...
Ela era mais deliciosa do que ele imagina e foi difícil interromper o contato. Porém, seu orgulho ferido falou mais alto. E vendo o olhar surpreso de Vivithi por ter sido provocada e dispensada, ele sorriu e então fez menção de sair.
Todavia, se o orgulho ferido de Aethas o fez soltá-la, foi o orgulho mais ferido ainda de Vivithi que a fez praticamente pular em cima dele e o encostar na porta.
– Você pensa que é fácil assim é?! – gritou enfurecida – Pensa que pode despertar meu desejo e sair andando tranquilamente?!
Aethas não teve tempo de responder. Vivithi o beijou novamente, colando seu corpo no dele. Levou apenas um instante para Aethas entender que ela queria que ele terminasse o que começou. Primeiramente pensou em dizer não, ferir mais ainda o ego daquela elfa depravada e então ir embora rindo. Mas o prazer dominou seu corpo como se fosse o encantamento mais forte do mundo. Mesmo que ele não quisesse, seu corpo agora gritava por Vivithi. E em um momento de insano desejo, ele se deixou levar.
O corpo de Vivithi era firme, quente e macio. Aethas deslizou suas mãos por toda aquela extensão libidinosa parando apenas nos lugares que ainda não estavam acessíveis. Mas logo iria resolver isso. Soltando-se de Vivithi por um momento, ele a empurrou em direção da mesa do escritório, onde ela se encostou com um baque surdo enquanto mordia os lábios maliciosamente. Aethas então enfiou seus dedos por baixo do bustiê feito de fios de ouro e diamantes e os puxou com uma força pouco comum para um mago. As pedras preciosas caíram ciltilando pelo chão e logo o mago cobria os seios desnudos com sua boca.
Vivithi estremeceu e enfiou os dedos nos cabelos dele. Até que o maguinho sabia o que estava fazendo. Deixou que ele sugasse seus seios com voracidade enquando arqueava o corpo em sua direção. Aethas entendeu o pedido e logo se ajoelhou em frente a ela. Passou a língua pelas coxas desnudas da elfa, até chegar em seus quadris, onde prendeu o fio dourado que segurava a parte de baixo de sua roupa com os dentes e rompê-lo violentamente. Vivithi gemeu quando Aethas pressionou sua boca contra seu sexo, como se beijasse uma boca e então colocar a língua no centro de seu prazer. Gritando de prazer, ela levantou uma das pernas e colocou o pé no ombro dele, dando-lhe total acesso àquela parte de seu corpo. Segurando fortemente naqueles maravilhos quadris curvilíneos, Aethas mergulhou sua língua dentro dela, que gritou ainda mais. Continuou com o movimento até sentir que ela estremecia, chegando ao ápice do prazer.
Não satisfeita com o prazer proporcionado pela boca dele, Vivithi o pegou pelos cabelos e o puxou para cima. Beijou-lhe os lábios com volúpia enquanto tirava as vestes que atrapalhava que sentisse o corpo dele. Depois de despi-lo totalmente, Vivithi o virou, encostou ele à mesa e ordenou com a voz rouca:
– Deite-se!
Aethas passou o braço pela mesa, arremessando no chão todos os objetos que estavam lá e deitou-se de costas. Vivithi então subiu na mesa e sentou-se em cima do membro dele e começou a calvagá-lo com vontade. Era a vez de Aethas gemer de prazer. Enquanto ela realizava aqueles movimentos em cima dele, Aethas não conseguia desgrudar os olhos dos seios que se mexiam sensualmente à sua frente. Então os apertou, com força, fazendo a elfa arfar de prazer. Deixou que ele a segurasse pelos seios e continuou a se lançar sobre ele cada vez mais ferozmente. Quando atingiu o ápice pela segunda vez, percebeu que Aethas também o fazia, derramando-se dentro dela.
Mas nenhum dos dois ainda estava satisfeito.
Sentando-se na mesa, Aethas segurou-a novamente pela nuca, beijando-a, enquanto se levantava. Seu plano era chegar ao sofá, mas o desejo não permitiu. Jogou-a no carpete macio na sala e deitou-se sobre seu corpo, penetrando-a novamente. Vivithi gemeu alto e passou as pernas ao redor dos quadris dele. Era a vez dele se movimentar violentamente para cima dela, como se fosse um animal selvagem devorando uma presa. Enquanto o mago arremetia para dentro dela, Vivithi lhe puxava os cabelos e enfiava as unhas nas costas dele. E quando o sangue surgiu pelos vergões abertos pela patrulheira, ela levou os dedos à boca, provando do gosto do líquido vermelho como o vinho que mais apreciava. Aethas, todavia, não sentia dor. Tudo que ele queria era continuar dentro dela, uma duas, quantas vezes fossem necessárias para matar a fome que despertara dentro dele. Foi quando sentiu que ela mais uma vez chegava ao orgasmo, estremecendo e gritando enquanto se agarrava ao seu corpo. Sem conseguir mais se conter, deixou-se levar pelo mesmo clímax até que as ondas de prazer foram embora e ele se viu exausto em cima da elfa que sempre detestara, mas que possuíra com uma fúria que nunca possuíra ninguém antes.
Vivithi sorria satisfeita. A festa, no final das contas, foi bem melhor que esperava. Sentiu quando Aethas saiu de cima dela e deitou-se pesadamente ao seu lado no tapete. Até pensou em dizer algo, mas sua voz parecia perdida. Respirou fundo e fechou os olhos. Deixaria para zombar dele em outro momento.
Ah, ela faria isso, sem sombra de dúvida.
**************************
Lor’themar estava sentado distante da festa. Encostado à cadeira, ele segurava uma taça de vinho e observava o casamento. Ficou satisfeito em ver que Karensky teria energia pra uns dez casamentos sem se cansar de dançar, conversar e ganhar a admiração de todos. Ele próprio nunca imaginara que a menina poderia ter tanto brilho e simpatia. Não era a toa que estava sendo comparada à fabulosa Lady Luelly.
Aquela, todavia, não era sua preocupação. Sua cabeça no momento só conseguia pensar nas sensações que Ashrial lhe despertava. Sim, havia algo, ele forçou-se a admitir. Havia algo que se remexia intensamente dentro dele quando a encarava. E isso aumentava mais quando tocava-a. Já havia sentido aquilo antes e sentia-se o elfo mais indigno que já existira.
O que Dhomm diria se soubesse que seu melhor amigo deseja sua jovem filha, que mal atingira a maturidade?
Entornando o resto da taça, Lor’themar tentou afastar aqueles pensamentos. Não podia nem devia alimentar aquilo. Vira Samanthah grávida daquela menina, trocara suas fraldas, a carregara no colo. Como podia então estremecer ao tocá-la novamente dez anos depois?
Só que não havia como negar que Ashrial era simplesmente linda. Ele adorava a forma com seus olhos brilhavam e seus cabelos dourados pareciam faiscar em torno de seu rosto. O sorriso dela era tão raro, mas tão deslumbrante quanto o resto de seu corpo. Um corpo de linhas suaves, que parecia implorar para ser tocado.
Um corpo do qual ele devia manter distância.
Levantou-se rapidamente. Não queria ficar ali nutrindo aqueles pensamentos. Uma caminhada pelas redondezas iria ajudá-lo a tirar a pequena Ash de seus pensamentos.
Contudo, o destino não parecia que ia facilitar aquela tarefa, pois logo que começou a caminhar para longe da casa, ele viu um vulto passar mais adiante, com um vestido lilás esvoaçante, como se fugisse em desespero. Ele reconheceria Ash em qualquer lugar. Um pânico tomou conta dele. De que ela estaria fugindo? Seu instinto de patrulheiro despertou imediatamente e sem pensar, começou a seguí-la.
Não permitiria jamais que algum mal acontecesse a ela.
**********************
Com os pés em chama, Ash se dirigiu à casa antes que mais alguém lhe pedisse uma dança. Precisava fugir da festa o mais rápido possível. Já tinha cumprido sua obrigação, não era mesmo? Já dançara com praticamente todos os elfos solteiros de Luaprata, aguentando todos os gracejos possíveis com um sorriso forçado.
Tinha certeza que seu rosto jamais voltaria ao normal depois de tanto esforço.
Foi um alívio chegar à porta da casa sem ser interrompida. Entrou rápido fechando a porta atrás de si, jogou-se pesadamente no sofá da entrada e tirou os sapatos. Mexeu os dedos aliviada e prometeu a si mesma que nunca mais participaria de um casamento, a menos que fosse o dela própria.
Ou seja, a probabilidade dela vir a dançar de novo era quase nula.
Suspirando, Ash se encostou ao sofá e fechou os olhos. Tudo o que queria era dormir e torcer para que quando acordasse a mudança já estivesse sendo feita. Apesar de amar aquela casa, ainda havia lembranças que a assaltavam de vez em quando ao observar uma porta, uma sombra emitida pela janela, o cheiro do mar misturado ao das flores... Voltar a cidade ajudaria a deixar aquilo para lá.
E haveria, lógico, seus treinos com Lor’themar.
Não o vira mais desde que dançaram juntos. Bem, mesmo que o tivesse visto, ponderou, não conseguiria conversar com ele, pois estava sempre sendo solicitada para uma dança atrás da outra. Todas as festas seriam assim? Pois se fosse teria que providenciar uma perna quebrada tão logo marcassem a próxima.
Estava pensando sobre isso quando teve a impressão de ter ouvido seu nome. Ajeitou-se no sofá e apurou os ouvidos, torcendo para que não fosse nenhum pretendente procurando-a. Ouviu novamente a voz, gritando ali perto e reconheceu como sendo a de seu tio Aethas. Logo em seguida, ouviu os gritos também de Vivithi e então entendeu. Aqueles dois estavam brigando mais uma vez. Pelo visto, a trégua acabara no dia do casamento.
Mas porque seu nome estaria sendo mencionado na conversa? Não havia dito a Aethas que Vivithi a ajudara? Foi quando a ficha caiu. Ash bateu na testa, sentindo-se estúpida. Lógico! Seu tio não devia ter gostado de Vivithi ter lhe dado uma bebida! Como fora burra em contar! Levantou-se rapidamente e seguiu as vozes. Não, ninguém iria brigar por causa dela. Principalmente duas pessoas que amava tanto. Iria pará-los e lembrar que Kassyeh e Karensky ainda estavam por ai se divertindo e eles deixassem as briguinhas deles para quando estivessem longe dali.
A briga vinha do escritório. Ash respirou fundo, se aproximou e pôs a mão na maçaneta, pronta para entrar e interromper tudo quando a voz de Vivithi disse claramente do outro lado:
– E você, Lorde Fendessol, o que fez por sua sobrinha quando ela foi violentamente estuprada por sete humanos hein? A propósito, devo lembrá-lo que eles fizeram isso em cima do cadáver de Dhomm e Samanthah!
Ash ficou paralisada com a mão na maçaneta. O quê? Estupro? Quem havia sido estrupada? E porque o nome de seus pais estavam sendo mencionados junto com um fato tão horrendo? Um arrepio percorreu sua espinha, como uma premonição do que estava por vir. Apurou mais os ouvidos e aproximou o rosto da porta, rezando para que seus ouvidos a tivessem enganado.
Por um momento não escutou nada da conversa, até que novamente Vivithi gritou. Suas palavras vieram cobertas de mágoa, ressentimento e raiva:
– Ela foi estuprada Aethas! Estuprada! Não foi uma simples batalha! Ela viu os pais morrerem e foi desonrada da pior forma que uma elfa podia ser! Ela era uma criança! Eu estava lá! Eu vi! A Lux tem sorte de estar viva! Se tivéssemos demorado mais um pouco, eles a teria matado, não com suas armas, mas com seus corpos! Ela sangrava entre as pernas, Aethas, como se uma espada tivesse atravessado seu ventre!
E a voz ficou novamente inaudível.
Ash só percebeu que andara para trás quando suas costas bateram na parede. Levou a mão trêmula à boca e sufocou um grito. As lembranças que tanto evitava voltaram como um furacão dentro de sua mente. Sua mãe as escondendo. Os sons da batalha. O silêncio. Os gritos de Luxuriah. O silêncio novamente. Lor’themar. Sempre suspeitara que os gritos que ouvira de sua irmã eram frutos de sua mente amedrontada ou tivessem sido provocados por algum tipo de tortura. Mas a coisa fora pior muito pior.
Sua irmã fora estuprada.
Pelos assassinos de seus pais.
Em cima de seus cadáveres.
Humanos.
Com a mente em parafuso, Ash levou as mãos à cabeça, numa tentativa de fazer pará-la de rodar. Mas nada adiantou. Continuou ouvindo os gritos de Luxuriah, acompanhada agora de imagens produzidas pela sua imaginação. Em seu pesadelo de olhos abertos, via Luxuriah mais jovem, nua, com aqueles humanos nojentos a maltratando. E em sua mente, eles tinham os rostos dos homens que atacaram em Mulgore.
Algo quebrou-se dentro de Ash. Sempre sentira raiva pela morte de seus pais, mas havia esperança no mundo. Havia ainda algo pelo qual se lutar, algo pelo qual se acreditar. E de repente, tudo ruiu à sua volta como um castelo de areia que se desmorona diante de uma onda forte. E agora, aquela onda estava afogando-a.
Levando a mão ao pescoço, Ash percebeu que sufocava. Sufocava em suas lágrimas que vertiam como uma tempestade. Precisava respirar. Começou a cambalear pelo corredor e chegou até a sala. Ao olhar para o cômodo, não viu a mobília, mas o vão que ficara no dia da morte de seus pais. Assustada, andou aos trôpegos até a porta e saiu para o ar da noite. Sua mente estava perturbada de uma forma tal que seus olhos não viram a festa, mas seus pais mortos e Luxuriah deitada sem roupa no chão. E os humanos. Os mesmo de Mulgore. Que agora olhavam para ela.
Começou a correr. Não sabia pra onde ia. Em sua mente ainda tinha oito anos mas eles a queriam também. Havia matado sua irmã e agora queriam matá-la. Uma voz fraca dentro de sua mente quis chamar a atenção, dizer que Luxuriah estava viva, mas estaria mesmo? Com seus olhos tristes e seu coração amargurado, Luxuriah estaria viva?
Um galho da mata enroscou-se em seu vestido e por um momento seu delírio disse que era um humano. Ash gritou e caiu no chão, chutando o galho até que ele a soltasse. O pânico era muito real agora. Eles estavam perto. Iriam matar todas. Iriam destruir seu mundo. Despedaçá-lo. Por isso precisava fugir. Continuou sua fuga desenfreada pela floresta, ferindo seus pés, rasgando o belo vestido lilás até que seus pés perderam a força ao se enroscarem em uma raiz, derrubando-a enquanto sua articulação fazia um barulho alto que gerou uma dor imensa. Ash então tentou se levantar, mas a dor era insusportável. Encolheu-se sentada, protegendo o corpo e esperou o pior.
Uma mão tocou seu ombro.
– Não me toque! – gritou desesperada se afastando do toque e fechando fortemente os olhos – Não me toque!
– Pequena Ash... – sussurrou uma voz conhecida – O que aconteceu?
A mente perturbada de Ash a disse que era um truque. Que ali estava alguém que iria machuca-la como machucaram Luxuriah. Tentou novamente se soltar, sair dali, mas só houve dor. As lágrimas escorriam mais forte ainda.
– Por que? – gritou em meio ao choro – Porque vocês machucaram minha irmã?! Por que fizeram isso com ela?! – e começou a soluçar.
Houve um momento de silêncio até que a voz retornou:
– Não há mais ninguém aqui além de mim, pequena Ash. Sou eu, Lor’themar... – ela continuou com os olhos fechados e os lábios comprimidos. – Olhe pra mim, e veja que estou falando a verdade.
Ela queria acreditar. Quis que aquilo não passasse de um pesadelo. Relutantemente abriu os olhos. Primeiro só viu a grama e então levantou lentamente a cabeça. Lor’themar estava sentado na grama ao seu lado e a olhava com uma espressão que misturava carinho e preocupação.
O alívio percorreu o corpo de Ash.
– Lor-Lor’the-mar-mar... – gaguejou com os lábios tremendo.
Ele parecia aliviado.
– Sim, sou eu pequena Ash. – ele se aproximou mais e ela voltou a se encolher – Eu nunca faria mal algum a você. Você sabe disso, não sabe?
Sim, ela sabia. Assentiu devagar com a cabeça e permitiu que ele se aproximasse.
– Vou tirar seu pé da raiz. – disse ele com as mãos levantadas – Vou te tocar, certo?
Ela fez que sim com a cabeça.
Gentilmente, o lorde regente tirou o pequeno pé do meio de um emaranhando de raízes. Ficou feliz em ver que Ash não tinha quebrado o pé, apenas torcido o tornozelo. Tirou então a faixa que enfeitava sua calça e improvisou uma tala com alguns galhos. Depois de fazer isso, encarou-a. Ash tinha os olhos arregalados, assustados, e parecia perdida e confusa.
– O que aconteceu pequena Ash? – perguntou delicadamente.
Ash estremeceu.
– Os humanos... – murmurou ela se encolhendo novamente – Eles maltrataram a Lux. Virão me maltratar também... – e começou a chorar baixinho.
– Não. Não virão. – disse ele confiante – Não há humanos aqui. Eu matei todos.
Ash o olhou, esperançosa.
– Matou?
– Sim, matei. – havia um brilho mórbido de triunfo em seus olhos – Eu matei os monstros que feriram sua irmã. Eles nunca mais vão fazer mal a ninguém.
Eles estavam mortos. Mortos. Seu herói os matara. O medo de Ash começou a se esvair e seu corpo a relaxar. Lor’themar se aproximou mais um pouco e tocou seu ombro. Dessa vez ela não gritou.
– Pequena Ash, eu posso te abraçar? – perguntou.
Ela fez que sim.
Lor’themar a abraçou carinhosamente como havia feito a dez anos atrás. Colocou a cabeça dela em seu peito, e deixou que a jovem se aconhegasse. Ao sentir o cheiro dele, a mente dela voltou aquele momento a dez anos atrás, mas logo retornou ao presente. Pois agora, o cheiro dele não significava mais apenas proteção. Significava algo a mais.
– E-Eu enlouqueci? – perguntou assustada.
– Não. Apenas visitou o passado de uma forma que ninguém deveria.
Houve um momento de silêncio.
– É verdade? – perguntou hesitante – O que fizeram com a Lux?
Por um momento Lor’themar pensou em mentir. Mas entendera tudo no momento em que Ash gritara com ele. De alguma forma a menina soubera do que acontecera a irmã e sua mente surtara. Era compreensível que alguém com a sensibilidade de Ash, que cresceu protegida pelas irmãs e pelo cunhado, simplesmente perdesse a cabeça diante de algo tão horrível que acontecera com alguém amado. Por isso, decidiu ser sincero. Se entenderia com Luxuriah depois.
– Sim, é verdade.
Ash estremeceu.
– Você realmente os matou? – quis saber.
– Sim.
– Espero que você os tenha feito sofrer. – sibilou Ash com uma fúria que não esperava para aquele momento.
– Tenha certeza, pequena Ash, que lhes dei uma morte digna do que eles fizeram a sua irmã.
– Que bom. – falou a jovem.
Claro que o elfo não contaria à já fragilizada menina que mandara arrancar os órgãos sexuais de cada um deles, os enfiou goela abaixo dos donos antes de enche-los de flechas em pontos não vitais de forma a eles morrerem lenta e dolorosamente.
Eles se calaram por um momento, e quando o patrulheiro tinha certeza que ela já estava calma o suficiente, perguntou:
– Quem lhe contou?
Ash não respondeu.
– Pequena Ash... – murmurou — Preciso saber... Não acredito que você queira que Kassyeh e Karensky saibam, não é mesmo?
Imaginar sua pequena e irritante irmã tendo contato com aquela verdade dolorosa atingiu Ash como um raio. Não, Karen não merecia saber. Devia continuar acreditando que o mundo era bonito. Coisa que, para ela, havia se perdido totalmente.
– Ninguém me contou. – respondeu sinceramente – Ouvi tio Aethas e Vivithi brigando...
Lor’themar levou a mão à testa, preocupado. Aqueles dois cabeças-duras havia chegado a esse ponto? Precisava conversar com ambos antes de Luxuriah soubesse do ocorrido.
– Você pretende contar a sua irmã que você sabe?
Ash estremeceu.
– Não sei... – murmurou temerosa.
– Não precisa saber agora. – disse acalmando-a – No momento, precisamos tirá-la daqui.
Enquanto Ash se perguntava como voltaria andando para casa, Lor’themar já tinha a solução. Pegou a garota suavemente nos braços, de modo a deixar seu pé ferido confortável, e iniciou a volta para a casa de campo dos Fendessol. Ash encostou a cabeça no peito dele e fechou os olhos. Sentia-se exausta. Parecia que o peso de todo mundo tinha caído em seus ombros. Não conseguia imaginar o que teria acontecido com ela se Lor’themar não tivesse aparecido. Ficaria presa àquela alucinação? Alguém a acharia quando já estivesse louca? E se fosse Karen ou Saba a encontrá-la? Ou Tewdric? O confundiria com um humano?
– Como me encontrou? – quis saber.
– Eu a vi correndo para a floresta, como se fugisse de alguém. Te segui para te manter segura.
– Eu realmente fugia de alguém... – Ash estremeceu novamente – Eu fugia dos humanos...
– Shh.... – sussurrou ele carinhosamente – Não vamos falar sobre isso. Já passou.
Se calaram e ele continuou o caminho.
Ao chegarem na casa, Lor’themar evitou a entrada principal e entrou por uma porta lateral que dificilmente era usada. Discretamente, entrou na casa e subiu as escadas. Sem perguntar a Ash, se encaminhou diretamente pro quarto da menina, abriu a porta e entrou. Depositou-a com cuidado na cama e acendeu os globos de luz mágica.
– Estraguei o vestido da vovó... – murmurou Ash pesarosa ao ver-se sob a luz.
– Mandarei consertá-lo. – disse Lor’themar – Será um presente.
– Não precisa. – respondeu ela rapidamente com a voz fraca.
– Eu insisto.
Ash se calou e deixou que ele examinasse seu pé. Estava roxo e inchado na articulação do tornozelo. Lor’themar tirou a tala improvisada e usou o tecido apenas para enfaixar firmemente o pé.
– Acho que você terá que esperar até amanhã para resolver isso. – e olhando-a, quis saber – A menos que queria que eu chame alguém.
– Não. – falou rapidamente – Não quero que ninguém me veja assim.
Ele assentiu e levantou-se.
– O que mais posso fazer por você, pequena Ash?
O pânico tomou conta novamente dela. Ele iria embora. Iria embora e a deixaria ali com seus fantasmas. Não, não queria que ele fosse. Não queria voltar àquele pesadelo. Tinha a sensação que, se ele se fosse, mergulharia novamente naquelas sensações desesperadoras e poderia jamais acordar novamente. Não, ele não podia ir embora. Por isso, tomou sua mão e a apertou.
– Não vá.... – pediu com as lágrimas voltando aos olhos – Não me deixe sozinha... Por favor...
Lor’themar sabia que não deveria ficar. Ash estava fragilizada e assustada, uma combinação perigosa para quem a desejasse. Mas jamais poderia virar as costas e deixa-la sozinha depois de tudo que acontecera. Respirou fundo e rezou para a Nascente do Sol para continuar sendo o lorde que sempre fora.
– Sim, eu ficarei. – respondeu para o alívio dela.
Ash então afastou os leçois da cama e deitou-se. Puxou a mão dele e Lor’themar sentou-se ao seu lado. Ficou acariciando seus cabelos, consolando-a, esperando que ela logo caísse no sono para que pudesse sair, quando ouviu a voz melodiosa pedir:
– Deite-se... Durma aqui comigo...
O estômago de Lor’themar revirou. Sabia que não era aquilo que pensava que Ash queria. Não, a menina queria conforto, apenas. Por isso, ordenou-se a dar aquilo que ela precisava. Deitou-se ao seu lado e aconchegou-a ao seu peito. O cheiro dela era simplesmente delicioso e Lor’themar procurou ignorá-lo.
– Durma pequena Ash. – murmurou – Durma, que amanhã será outro dia.
Ela negou com a cabeça.
– Nada será igual depois de hoje. – disse pesarosa.
– Não, mas você não pode deixar isso te consumir. – aconselhou.
Ash se desvencilhou do braço que a protegia, ergueu-se e o encarou.
– Como?
– Você saberá como.
Encararam-se por um momento. Lor’themar acariciou seu cabelo e pôs atrás da orelha. Sim, faria tudo para protege-la. Não porque ela era uma princesa, mas porque sentia dentro dele que queria, que precisava protege-la. Precisava cuidar dela. Sim, precisava. Mas era só isso? Instinto protetor? Não, era mais. Precisava dela. Mas não podia precisar. Queria que ela não tivesse pedido pra ele ficar. Queria não perceber o mesmo interesse no rosto dela. Queria não perceber que Ash agora o olhava em expectativa, como se esperasse algo. Ele então aproximou o rosto do dela, e desejou que ela se afastasse. Mas Ash não se afastou. Lentamente, Lor’themar aproximou sua boca dos pequenos lábios avermelhados e os beijou. Queria que Ash o esbofeteasse, gritasse, que dissesse que ele não deveria fazer aquilo. Mas não. Ash entreabriu os lábios e aceitou o beijo. Timidamente, lentamente, como se tateasse um lugar desconhecido, mas aceitou. Lor’themar estremeceu diante da maciez de sua boca e do gosto de uva que ela tinha. Deixou que sua mão apertasse a nuca dela, aprofundando mais o contato. A beijou como nunca beijara alguém antes e Ash retribuiu de uma forma como nunca foi retribuído antes. E quando o beijo findou-se, ele a encarou e prometeu:
– Não deixarei o mundo te consumir. – e se espantou com a força de suas próprias palavras.
O sorriso voltou ao rosto de Ash. Aquele mesmo raro sorriso que o fascinara.
– Agora durma. – pediu o patrulheiro.
Então, ela aconchegou-se novamente em seu peito, ainda com um sorriso em sua face e adormeceu, enquanto Lor’themar sentia-se cair dentro de um profundo abismo com a certeza que jamais sairia dele.
Fale com o autor