Herdeiros da Guerra

14 Capítulo XIII - Nada mais importa


Capítulo XIII — Nada mais importa

Pesadas nuvens cor de cinza cobriam o céu escurecendo a manhã. Uma forte e furiosa chuva começou cair na cidade de Ventobravo e seus pingos batiam violentamente contra o vidro da janela. Anduin olhou para fora, forçando a vista através da escuridão cinza que encobriu o dia repentinamente. Voltouavista para a mesa e percebeu que não daria para continuar com seu estudo daquele jeito. Então se levantou de sua cadeira, foi até o aparador em cima da lareira, pegou o candelabro e acendeu as velas. Levou a luz até a mesa para que pudesse continuar sua leitura.

Era assim que gostava de passar a maior parte do tempo, entre os livros. Agradeceu à Luz pela tempestade que caia naquela manhã, pois assim poderia fugir do treino de espada que seu pai insistia que deveria receber e ler livremente o quanto quisesse. Suspirou, perguntando-se quando o pai entenderia que ele não era um guerreiro e aceitasse sua vocação para o sacerdócio. Para Anduin curar e orientar era muito mais importante que lutar e guerrear. Era uma contradição ser filho justamente de um grande guerreiro e ex-gladiador que recebera o título de Lo'gosh, o lobo fantasma.

Enquanto passava as páginas do livro, aqueles pensamentos sumiram da mente do príncipe. Seu foco agora era o conhecimento que se revelava em cada linha, a cada frase do antigo tomo. Ficou feliz por Veleen, o profeta ter lhe enviadopergaminhos tão raros para que pudesse estudar, já que devorara praticamente toda a biblioteca da Bastilha. Achar livros interessantes em Ventobravo estava se tornando cada vez mais complicado.

Entretido em sua leitura, demorou a perceber que alguém batia à porta de seu quartoinsistentemente.

– Entre. — permitiu.

Uma moça muito bonita entrou no quarto de Anduin. Ela tinha pele branca e pálida, mas os seus cabelos eram negros e lisos. Os olhos eram de um azul profundo e havia um brilho divertido neles quando encarou o príncipe.

– Você realmente virou um ratinho de biblioteca? — perguntou ao entrar e se dirigiu até o rapaz.

– Mana Arshe! — exclamou feliz, se levantando para cumprimentá-la e recebendo um apertado abraço na moça.

Arshe Fordragon não era realmente parente de Anduin. Todavia, eles foram praticamente criados juntos e o pai da garota, Bolvar Fordragon, fora seu tutor quando o Rei Varian desaparecera. Logo, Anduin a considerava uma irmã mais velha. Depois da trágica morte daquele herói da Aliança na luta contra o Lich Rei, Varian havia assumido a tutela de Arshe, inclusive lhe dando o título de princesa de Ventobravo. Claro que muitos conselheiros se opuseram à elevação da garota à família real, alegando que se algo acontecesse ao rei ou a Anduin, Arshe herdaria o trono. Com seu jeito nada delicado, Varian respondera:

– Então que assim seja!

E agora, Anduin lembrou, havia uma disputa tão grande pela mão da moça que ela estava numa posição que poderia escolher a vontade entre os nobres de Ventobravo.

– Então, como anda a escolha do noivo? — perguntou bem humorado depois que ela o soltou do abraço apertado.

Arshe revirou os olhos.

– Na mesma. Nenhum deles até agora se mostrou interessante. — e franziu o cenho antes de gracejar — Você bem que podia ser um pouquinho mais velho não é?

Anduin corou absurdamente e Arshe caiu na risada. Ela sempre fazia piadinhas desse tipo desde que ele atingira a adolescência.

– Você sempre fica encabulado com isso. — disse ela e bagunçou seu cabelo — Quando meu irmãozinho vai parar de ficar vermelho na presença de garotas?

– Talvez quando conviver mais com algumas. — respondeu rindo.

Tirando a velha serva Wyll, Arshe e ocasionalmente Jaina Proudmore, Anduin praticamente não tinha contato com mulheres. Ele sabia como se comportar na presença das damas e como tratá-las, mas só aplicava esses conhecimentos quando havia celebrações que exigiam que ele lidasse com as nobres da corte. Mas na intimidade, seu contato com o sexo oposto era bem restrito.

– Então, me conte as novidades de Ventobravo! — disse a jovem sentando-se na cadeira dele — Quero saber de tudo o que aconteceu enquanto estive fora!

Arshe estava sempre de um lado para o outro, servindo como porta-voz para Varian juntos aos povos que formavam a Aliança. Anduin nunca sabia onde ela estava: Altaforja, Darnassus, Theramore... Arshe ficava pouco tempo no mesmo lugar.

– Não há novidades. — disse o rapaz sentando-se na cama — Ventobravo está tranquila e meu pai... Bem, continua meu pai.

Arshe suspirou e balançou a cabeça em negativa. Anduin definitivamente era um ratinho de biblioteca.

– E a sua noiva? — indagou — Escolheu?

O rosto do príncipe ficou rubro novamente.

– Ainda não estou pensando nisso. — falou desviando a vista

– Mas seu pai está. — revelou a jovem — Tio Varian veio me perguntar o que eu achava de algumas filhas de nobres... Queria uma opinião feminina.

– E o que você respondeu? — perguntou o príncipe assustado.

Arshe riu do pânico que se pronunciou na voz do rapaz.

– Eu disse a ele que treze anos é ainda cedo para pensar em casamento. — a resposta da jovem fez com que Anduin relaxasse — Disse também que você tem que se concentrar agora em estudar para ser um bom rei, pois sendo um bom rei, você será um bom marido.

– Obrigada maninha! — agradeceu sinceramente — Mal consigo fazer meu pai aceitar meu sacerdócio. Lutar contra a ideia de escolher uma noiva agora seria ainda mais desgastante.

– Ele vai acabar aceitando. – disse ela tranquilizadora – Tio Varian é esquentado e um pouco cabeça dura, mas quer seu bem.- e rindo, comentou maliciosa – Se você tivesse que fazer voto de castidade aí sim seria um problema... Afinal, como você iria produzir o próximo herdeiro de Ventobravo hein?

Anduin tentou falar alguma coisa, mas ficara tão envergonhado com as palavras da moça que engasgou e começou a tossir. Arshe riu alto da atitude e se perguntou se algum dia o menino deixaria de ser tão envergonhado naqueles assuntos. Mal conseguia acreditar que ele soubesse de onde viam os bebês.

– Bem, mas enquanto esse dia não chega – falou Arshe se levantando – seria muito bom que o ratinho pudesse passear um pouco ao ar livre. — e olhando para a chuva lá fora, continuou – Não aqui, lógico.

Já recuperado da fala da sua irmã do coração, Anduin franziu a testa e questionou:

– Como o ratinho vai aproveitar o ar livre se o lobo não o deixa sair da toca?

Arshe jogou a cabeça para trás e riu alto.

– Como é bom ver que, apesar de tudo, seu senso de humor não foi totalmente destruído. – e passando a mão carinhosamente nos cabelos loiros de Anduin, disse – Eu preciso ir a Dalaran hoje.

– Mas você acabou de chegar! – reclamou Anduin, agindo de acordo com a idade que tinha pela primeira vez naquela conversa – Eu sinto sua falta!

– Também sinto sua falta maninho. – falou carinhosamente – Mas dessa vez você vai gostar de minha viagem, porque você vai junto.

Se ela tivesse dito que era um orc, seria mais fácil acreditar. O garoto ficou olhando a jovem, com a boca aberta, sem acreditar no que ouvia.

– Eu vou como você? – perguntou estarrecido – Tem certeza?

– Claro que tenho! – retrucou fingindo-se de ofendida – Falei com o tio e o convenci que você devia sair um pouco desse quarto. Será uma viagem rápida. Nós vamos de portal para Dalaran falar com um membro do KirinTor e voltamos hoje ainda. – e sorrindo, acrescentou – Depois disso vou passar um tempinho em casa, para curtir meu irmãozinho. – diante do silêncio dele, ela perguntou – O que foi? Não quer ir?

– Claro que quero! – respondeu Anduin se levantando apressadamente –Me apronto em um minuto!

– Sem pressa ratinho, temos o dia todo. – e sentando-se na cadeira novamente, se espreguiçou – Podemos até almoçar lá.

E enquanto puxava o cordão escarlate que ficava ao lado da cama e que avisava a Wyll que precisava dela, Anduin lembrou-se de perguntar:

– Qual membro do Kirin Tor nós iremos visitar?

Arshe o encarou.

– Aethas Fendessol.

**********************

– Assim não Tewdric! – protestou Luxuriah – Você tem que pisar mais levemente no chão!

– Mais leve que isso e eu vou voar! – riu-se o orc animadamente.

Ash riu enquanto Luxuriah continuava inutilmente tentando ensinar Tewdric a dançar valsa. Após a revelação bombástica que as irmãs Fendessol tiveram sobre sua origem, a primogênita decidira que não queria estar em Luaprata quando fosse feito o anuncio oficial. Por isso, pegara as irmãs e foram para a casa de campo. No primeiro momento foi doloroso para todas encarar novamente o lugar onde suas vidas foram moldadas e destruídas. Exceto Karen, cujas lembranças não alcançavam aquele período, as elfas tiveram que segurar a dor. Ash e Kass choraram. Luxuriah encarou a casa friamente e cuidou em deixa-la habitável novamente.

E agora, estavam no salão da casa de campo, uma bela sala cercada de portas de vidro que davam para um jardim maravilho, enquanto Luxuriah tentava, em vão, ensinar o orc a dança tradicional dos casamentos élficos.

Para encarar novamente aquele lugar, Luxuriah decidira não trazer a antiga mobília, mas decorar a casa como se fosse outra. Teria com certeza demorado mais se não fosse os servos que Lor’themar insistira em mandar para auxilia-las. O elfo, ainda na posição de lorde regente, também mandara uma pequena guarda para ficar de prontidão próxima à residência. Ele, com certeza,estavadecidido a protegê-las.

A jovem caçadora sentiu o coração bater mais rápido novamente e suspirou. Ainda estava confusa com as sensações que Lor’themar lhe despertava. Com tantas coisas acontecendo naquele momento com a sua família, ficava difícil ter um tempo para meditar sobre aquele sentimento que se instalava em seu peito. Somente nas horas de sono que sua mente deixava-se ser preenchida com as imagens daquele elfo imponente e magnífico. Perguntava-se como nenhuma de suas irmãs reparara na beleza sisuda do elfo, mas ficava feliz com isso. Assim, poderia pensar nele sem peso na consciência.

Seus pensamentos foram interrompidos por mais um grito de dor de Luxuriah, cujo pé quase fora esmagado por Tewdric na frustrada tentativa de ensiná-lo a dançar. Ash também servia como instrutora de dança de Tewdric e esperava sua vez enquanto ajeitava a corda do arco novo sentada numa confortável poltrona vermelha.

– Por que vocês não deixam isso para lá? – perguntou Ash interrompendo os impropérios da irmã – Kass não vai se importar se não dançar na festa.

– Eu me importo! – sentenciou Luxuriah dando uma pausa na dança – Quero um casamento bem tradicional. É importante para que todos saibam que a união é verdadeira!

– Se Lulu acha importante, eu também acho. – disse o orc despreocupado.

– Então mostre que acha mesmo e se esforce mais! – reclamou a caçadora – E não me chame de Lulu!

– Tá bom Lulu, vou tentar. – e sem se importar com os xingamentos dela, a pegou novamente pela cintura. – Vamos de novo.

E recomeçaram a tentativa, apenas para parar pouco tempo depois com mais uma pisada forte nos pés da elfa mais velha.

– Minha vez Lux. – disse Ash se levantando da cadeira – Deixe-me tentar de novo.

Tewdric pareceu aliviado com o oferecimento da garota, que era bem mais paciente que Luxuriah. Todavia, a irmã mais velha sacudiu a cabeça em negativa e pegou na mão do orc novamente.

– Quero que você vá olhar onde está Karensky e Saba. Não ouço os gritos delas há alguns minutos e isso me incomoda. – ela franziu o cenho – Ainda acho que Huaru devia ter levado as meninas para Luaprata, já que ia ao correio.

– O lorde regente disse que não é bom que ficássemos nos expondo. – o coração de Ash acelerou novamente diante da mera lembrança dele –Eu concordo.

– Você anda concordando muito com o lorde regente. – disse Luxuriah com um tom malicioso.

Ash estremeceu.

– Bem, vou atrás das pestinhas. – disse rapidamente desviando a vista da irmã – Boa dança para vocês.

E partiu apressadamente com o arco e jogando a aljava nas costas.

Luxuriah percebera, Ash tinha certeza. Com o coração disparado, a jovem atravessou o jardim rapidamente, como se quisesse fugir de algo. E de certo modo era realmente o que estava fazendo. Nos últimos dias Luxuriah a rodeava, fazia insinuações e Ash apenas desviava e evitava qualquer assunto que de algum modo remetesse a Lor'themar Theron. O que sua irmã diria se soubesse que aquele dia no porão ainda estava tão fresco em sua memória? O que faria se soubesse que na última década o lorde regente povoara seus sonhos? Sonhos muitas vezes embalados pelos gritos da própria Luxuriah? Não, a irmã não precisava de mais para ficar preocupada. Que deixasse Ash com seus próprios tormentos e dúvidas. Ela tinha muito mais com o que se preocupar.

Quando passou pela frente da casa, alguns dos servos que foram enviados para ajudá-las estavam lá e rapidamente fizeram uma reverência a ela. A elfa ficou vermelha de vergonha, murmurou algo e apressou o passo. Definitivamente aquele negócio de ser princesa a deixava perturbada. E seu estômago embrulhava só de pensar que quase a coroa caíra em sua cabeça. Como alguém tão desprovida de atrativos e de carisma como ela comandaria algo?

Nesse sentido invejava a irmã caçula. Karensky cresceu protegida e feliz. Tinha Kassyeh para lhe ninar, Luxuriah para lhe proteger e Ashrial para brincar e brigar. Tewdric, quando chegara, só deixara a vida da menina ainda mais colorida. Sim, definitivamente a pequena elfa tinha tudo para ser uma boa rainha.

Mas primeiro, tinha que aprender a cumprir promessas, como a de não sair das vistas das irmãs.

Ash chegou até o limite da propriedade e não viu sombra de Karen ou Saba. Abaixou-se e analisou rapidamente os rastros na grama e percebeu que as meninas tinham seguido para o sul, na direção da praia. Suspirando contrariada, Ash se levantou, ajustou o arco nas costas e começou a caminhada naquela direção.

Desde que Saba e Karen se tornaram amigas, as coisas andavam bem mais agitadas por ali. E agora, na casa de campo, com espaço de sobra para correr, brincar, se esconder e fazer traquinagens, a vigia sobre o que elas faziam era mais intensa. Se bem que quando estava treinando com Huaru, Karen se mostrava até bastante controlada. Mas bastava o tutor dar as costas para a menina voltar à sua energia normal.

–Ah Huaru, porque você foi a Luaprata? — resmungou enquanto caminhava seguindo as marcas deixadas pelas meninas na areia da praia.

Todavia, Ash não precisou andar muito para encontrar as meninas. Ou melhor, ser encontrada por elas. Quando estava prestes a dar a volta em uma enorme pedra para continuar seu caminho, Karen e Saba surgiram por trás dessa mesma pedra, correndo alucinadamente em sua direção.

– Já não era sem tempo! — reclamou Ash em voz alta — Vocês duas não fazem...

Para sua surpresa, as meninas passaram direto por ela, correndo sem parar.

– Murlocs! — gritou Karen ao passar pela irmã.

A menina nem precisou repetir o aviso. Por trás da pedra, um grupo de seis ou oito murlocs apareceu aparentemente bem irritados, perseguindo as meninas. Ash soltou um palavrão que foi encoberto pelos urros das criaturas, tirou o arco das costas e começou a atirar contra eles.

O grande problema dos murlocs, e Ash sabia muito bem, era que eles não tinham muita noção do perigo até estarem quase mortos. Com certeza, Ashrial era visivelmente um perigo bem mais evidente que Karen e Saba, mas os bichos não se importaram e investiram diretamente contra a caçadora.

Ash deu alguns passos para trás e começou o ataque. Na primeira flechada, umdos murlocs caiu. A elfa sorriu satisfeita e mirou em outro. Aquele era mais ágil e a flecha não pegou em seu coração, mas no braço. A caçadora então atirou outra flecha, que finalmente abateu a presa.

Um após o outro, os murlocs caíram. Ash já estava relaxando quando mais deles surgiram, dessa vez liderados por um murloc bem maior que os outros. A caçadora praguejou alto e continuou o abate, até perceber que suas flechas haviam acabado. Naquele momento, o murloc grande se precipitou sobre ela ameaçadoramente. Ash pulou rapidamente, antes de ser pega e caiu em uma poça de água formada pela maré. Levantou-se rapidamente e procurou algum cadáver perto de onde pudesse retirar uma flecha. Mas o murloc não parecia disposto a deixá-la fazer isso. Pegou-a pela perna e jogou-a longe. Ash caiu pesadamente na areia da praia e saiu rolando quando o monstro se precipitou novamente contra ela. Sem alternativa, a garota investiu contra ele usando o arco. Bateu com tanta força na cabeça do bicho, que ele saiu desorientado. Ash então pulou em cima de um dos cadáveres e tirou uma flecha. Uma gosma azul e fedorenta atingiu-a, mas ela não se importou. Virou-se rapidamente e quando o murloc arremeteu de novo, ela o atingiu bem na cabeça, derrubando-o.

Quando viu que estava segura, a garota caiu sentada no chão, ofegante. Era a primeira vez que participara de um combate sem Meleth. Apertou os lábios para não chorar e respirou fundo. Pronto, sobrevivera. Restava ver se as meninas estavam machucadas. Procurou pela praia por Karen e Saba e as encontrou encolhidas atrás de uma pedra, com a maior cara de culpadas do mundo.

– Muito bem! — exclamou Ash enraivecida — Quem provocou os murlocs?!

Saba apontou para Karen e Karen apontou para Saba.

– Eu não acredito que vocês não tiveram noção do perigo! — a jovem caçadora estava exasperada — Esses bichos parecem inofensivos, mas são muito perigosos e... — ela parou quando viu que as meninas estavam dando risadinhas — Do que vocês estão rindo?!

– Você ta engraçada Ash. — disse Karen sem conter o riso — Tá toda suja de lama e gosma...

– E areia! — completou Saba gargalhando — E tem uma alga na sua cabeça!

Certo, aquilo já era demais. Ash apertou os olhos e se precipitou, enraivecida, na direção das meninas que, assustadas, saíram correndo.

– Voltem aqui suas pestinhas! — gritou correndo atrás — Quando eu por as mãos em vocês vão desejar estar com os murlocs!

A perseguição durou até à casa de campo. As meninas corriam gritando mais alto e mais assustadas que quando os murlocs as perseguiam e não era por menos, Ash achou que estava até mesmo rugindo tamanha era sua raiva. Sua aparência com certeza devia estar muito ruim mesmo, pois os servos que trabalhavam no jardim, já enfeitando o local para o casamento, a olharam com surpresa e assombro. Karen e Saba conseguiram evitar as garras de Ash correndo casa adentro. Como estava pingando lama, ela parou na porta de casa, rangendo os dentes e já pensando no que ia fazer quando colocasse suas mãos naquelas duas. Por enquanto, teria que pensar num meio de entrar em casa sem acabar com o trabalho de limpeza feito nos últimos dias.

Estava tão absorta naqueles pensamentos que não ouviu a aproximação de alguns falcoztruzes às suas costas.

– Lady Ashrial?

A voz soou um pouco surpresa, e Ash sabia exatamente a quem pertencia. Sentiu vontade de sumir, desaparecer, correr casa adentro chorando de ódio dos murlocs, de Karen, de Saba, do mundo. Sim, sentia tudo isso porque sabia exatamente a quem pertencia àquela voz.

Por que Lor'themar Theron tinha sempre que encontrá-la em alguma situação constrangedora?

Virando-se devagar, a jovem encarou o lorde regente. Ele ainda estava montado em seu falcoztruz e a olhava com a testa franzida. Estava acompanhado de dois guardas que a olhavam zombeteiramente. Ótimo, além de tudo com plateia, pensou desesperada. Ash passou a mão rapidamente pelo cabelo, numa tentativa desesperada de parecer um pouco melhor, mas seus dedos engancharam numa alga e teve que fazer um pouco de força para arrancá-la dos cabelos. Depois, passou a mão no rosto tentando limpá-lo, mas só conseguiu deixá-lo ainda mais pegajoso. Já podia sentir as lágrimas chegando aos seus olhos quando o lorde regente apeou de sua montaria.

– Levem o filhote e minha montaria para o estábulo, irei em seguida. – disse para os elfos que estavam com ele.

Os guardas rapidamente ficaram sérios, pegaram as rédeas do falcoztruz de Lor’themar e saíram. Ash os olhou rapidamente e percebeu que eles traziam um grande cesto com eles. Quando voltou seus olhos para o lorde regente, este já se aproximava. Seu coração acelerou.

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– Milady está bem? — perguntou preocupado — Está machucada?

– E-eu... — balbuciou ela tentando encontrar sua fala, mas parecia que esta tinha saído correndo — B-bem... — e passou a mão novamente no rosto, sujando-o mais ainda.

– Deixe-me ajudá-la. — ofereceu-se Lor'themar solicito.

O lorde regente tirou um lenço branco de seda do bolso. Então, segurou o queixo de Ash com delicadeza e passou delicadamente o tecido em seu rosto, removendo a lama e o sangue de murloc. Por um momento, a jovem achou que iria desmaiar diante do toque gentil e preocupado de Lor'themar, mas seus olhos estavam tão fixos na face dele que não ousaria perder a oportunidade de encarar o sisudo e belo elfo.

– Pronto. — disse ele satisfeito. — Está bem melhor. — e franzindo a testa, perguntou — O que aconteceu? Está ferida em algum lugar?

A voz de Ash voltou mais rápido do que se fora.

– Murlocs! — disse em um tom um pouco mais alto que o normal — Karen e Saba foram perseguidas por murlocs e eu... — ela olhou para o arco e viu que ele estava um pouco empenado — Ah não...O arco novo que a Lux me deu... – e a preocupação com a presença de Lor’themar sumiu. Como iria explicar aquilo à sua irmã?

Lor’themar percebeu sua preocupação e estendeu a mão em direção ao arco.

– Permite-me? – pediu educadamente.

Ash assentiu pesarosamente e passou o arco para ele. O patrulheiro o examinou atentamente, passando o dedo na envergadura da arma, puxou a corda e mirou no vazio.

– É um excelente arco. – elogiou devolvendo-o a Ash. – E não se preocupe milady, apenas um conserto e ele ficará novo em folha.

A jovem suspirou aliviada e olhou com carinho para o arco. Ficaria muito triste se inutilizasse o presente de Luxuriah na primeira vez que o usava.

– Murlocs hein? – perguntou o elfo e a jovem assentiu — Essas pestes estão importunando nosso litoral de novo. Tenho que mandar alguém dar um jeito neles. Você bateu em algum deles com o arco? — quis saber com um toque de curiosidade na voz.

– As flechas acabaram. — justificou voltando a ficar tensa com a presença dele e sentindo o rosto ficar vermelho — E eu não tinha levado nenhuma adaga...

Lor’themar assentiu com a cabeça e cruzou os braços.

– Milady deveria portar uma espada curta. – aconselhou — Para esse tipo de situação. Todos os patrulheiros têm uma. — e para enfatizar, segurou o cabo de sua espada.

Apesar de ele falar num tom suave e tranqüilo, Ash sentiu-se envergonhada e incapaz. Baixou a cabeça e não pode evitar que duas lágrimas rolassem de seus olhos. Ao perceber que ela chorava, Lor'themar entrou em pânico.

– Lady Ashrial? Eu a ofendi? — perguntou extremamente preocupado — Não era minha intenção...

– Eu não sei usar espada curta! — disse ela revelando o motivo das lágrimas — Sou uma vergonha como patrulheira e como caçadora! Não tenho espada nem ajudante!

– Milady, acalme-se, por favor. – pediu o lorde regente em um tom quase desesperado – Você não é incapaz, só precisa de...

Lor’themar não terminou sua frase porque sua atenção desviou-se em outra direção, ao sentir perigo. Ele pulou para trás e puxou a espada, no momento em que Tewdric caia pesadamente no lugar que o elfo ocupara antes, rachando o solo. O orc portava seu machado e rugia mostrando suaspresas para o patrulheiro. Ash observou a cena, assustada.

– Eu te avisei elfo! Não mexa com minhas meninas! – gritou Tewdric investindo contra Lor’themar.

– Do que você tá falando orc?! – perguntou o patrulheiro aparando o golpe do guerreiro com sua espada – Eu não fiz nada!

– Fez! A Ash ta chorando!

A jovem então entendeu a raiva de Tewdric.Afinal, ela estava chorando, com uma aparência bem desagradável, em frente a Lor’themar. E como sempre, o espírito protetor de Tewdric se sobrepujara a qualquer bom senso que o orc pudesse ter.

Lor’themar forçou sua espada contra o machado de Tewdric e conseguiu empurrá-lo. Tewdric deu dois passos para trás, rugiu e atacou o elfo novamente, que pulou agilmente para o lado antes de falar:

– Eu não fiz nada contra Lady Ashrial!

Tewdric balançou o machado perigosamente para um lado e para o outro.

– Cala a boca e lute, elfo! – e fez menção de avançar novamente.

Ash sabia que não podia permitir aquilo.

– Tewdric, não! – a jovem gritou e correu até o orc, agarrando seu braço – Não foi o lorde regente que me fez chorar! Foram os murlocs!

Tewdric parou de avançar abruptamente e começou a olhar para os lados, segurando o machado com mais força.

– Murlocs? Onde? Onde?

Antes que Ash pudesse explicar qualquer coisa mais a Tewdric, Luxuriah surgiu pela porta da casa, aparentemente chateada. Já ia começar a gritar com o guerreiro, por ele ter escapado do treino de dança para, como ele explicou, “matar alguma coisa”, quando encontrou a inusitada cena de Lor’themar com a espada empunhada e em postura de defesa, Ash com uma aparência bizarra pendurada no braço de Tewdric, e Tewdric olhando para os lados gritando pelos murlocs.

– Certo, o que diabos está acontecendo aqui? – quis saber colocando as mãos na cintura.

Ash, sem soltar-se do braço de Tewdric, resumiu apressadamente a história. Ao ouvir que os murlocs estavam mortos e não havia motivos para partir Lor’themar no meio, Tewdric baixou a contragosto seu machado. O lorde regente então embainhou sua espada.

– Mas você está bem? – Luxuriah se adiantou para a irmã e pôs a examiná-la.

– Tô legal, só podre de suja. – disse tentando não olhar para Lor’themar – E morrendo de raiva de Karensky e Saba!

Luxuriah riu.

– Pode deixar que com as duas eu me entendo. Agora vá tomar um banho.

– Mas a casa tá limpa, se eu entrar assim... – Ash parou de se justificar quando viu o olhar da irmã – Certo, estou indo.

Não resistindo, ela deu uma última olhada no lorde regente antes de entrar na casa. Ele sorriu para ela e acenou com a cabeça. Não parecia estar chateado com o ataque sofrido. Discretamente, Ash retribuiu o sorriso e sumiu casa adentro quando percebeu que Luxuriah a encarava.

Quando a irmã entrou na casa, Luxuriah aproximou-se de Tewdric e Lor’themar, que ainda se encaravam, desconfiados.

– Tewdric você não devia ter fugido da aula de dança. Nem atacado Lor’themar sem um bom motivo.

Lor’themar ergueu as sobrancelhas diante da fala dela. Quer dizer que ela apoiaria que o orc o atacasse se houvesse um motivo que a ela achasse bom?

– Eu achei que ele tinha feito a Ash chorar. – se justificou com a voz um pouco amuada. O lorde regente não deixava de se impressionar como ele podia mudar tanto de uma hora para outra ao falar com as princesas.

Luxuriah não respondeu às desculpas de Tewdric e olhou diretamente para Lor’themar.

– E você, o que faz aqui? – perguntou petulante.

Essa era outra coisa que precisava se acostumar, pensou Lor’themar. Luxuriah podia não gostar de ser princesa, mas isso não era empecilho para que ela usasse de sua atual posição para descarregar o ressentimento de ver Karensky como rainha por causa da descoberta dele.

– Vim trazer o filhote de falcoztruz branco para a rainha. – disse recuperando sua compostura – Ela deve conhecê-lo, lhe dar um nome e crescer junto com ele.

– Conheço as tradições Lor’themar. – respondeu secamente – E Karensky não é rainha ainda. Porque não esperou que ela fosse coroada para trazê-lo?

– Acredito que será bom para ela ter a responsabilidade de cuidar de sua montaria logo cedo, para se acostumar com o seu papel – respondeu educadamente.

Luxuriah conhecia Lor’themar o suficiente para saber que ele estava se segurando bastante para não criticá-la ou ser irônico com ela. Era divertido imaginar a cara que seu pai faria ao ver seu amigo sendo tão cauteloso ao falar com a menina que um dia ele disse que era “espevitada como um anão bêbado”.

– Certo, certo. – disse ela displicente – Vou chamar Karensky para ver o filhote. E aproveitar e lhe dar um belo cascudo pelo que fez a Ash. – e diante do olhar de censura de Lor’themar, acrescentou – Ela é minha irmã Lor’themar e ainda é minha obrigação educá-la. Venha, entre e sente-se enquanto chamo Karensky.– e voltando-se para Tewdric ordenou – Você, para o salão. Você vai aprender a dançar nem que eu tenha que quebrar suas duas pernas!

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Aethas encarou o quadro na parede, sem conseguir conter as lágrimas. Eternamente preservada pela pintura, Samanthah sorria. O arquimago sabia que nunca conseguiria se livrar da dor por perder sua irmã caçula, nem da culpa por estar longe e não conseguir protegê-la. E agora, mais uma sombra recaia sobre a sua família, sobre as meninas que ainda o mantinham são para encarar a solidão do mundo.

Luxuriah se recusara a ir para Dalaran quando os pais morreram. Lor’themar o aconselha a não deixar o Kirin Tor e se mudar para Luaprata; os elfos sangrentos perderiam sua representação mais forte junto à cidade neutra. Dividido entre a família e seu posto, optara por deixar que as feridas das suas sobrinhas se curassem um pouco, para então tentar novamente ficar com elas.

Deveria saber que feridas como as que Luxuriah levava na alma jamais sarariam.

E agora estava diante da indecisão novamente. Com uma de suas sobrinhas ascendendo à rainha, ele estava irrevogavelmente preso à Luaprata, ainda que soubesse que suas meninas jamais pediriam que ele renegasse à sua neutralidade por elas. Porém, algumas pessoas do Kirin Tor não pensavam assim. Rhonin, o líder da facção, fora claro, mas gentil, quando perguntara se aquilo influenciaria sua posição entre os magos da Cidadela Violeta e aceitara seu posicionamento sem duvidar de sua integridade. Modera, ao contrário, fora ácida e irônica, e o mago teve que usar de toda sua paciência para não manda-la calar a boca. Suspirando, ele sabia que sua viagem só iria levantar ainda mais rumores, mas não estava disposto a desistir.

– Pronto para ver as suas princesas?

A voz ácida de Modera invadiu seu escritório. Aethas respirou fundo, enxugou discretamente as lágrimas e se voltou para encarar à humana com toda a placidez que se permitia ter na presença dela.

– Estou indo ver minhas sobrinhas, cara Modera. – disse satisfeito em perceber que sua voz soou firme e segura – E não as princesas.

A velha senhora apertou os lábios, desgostosa com a resposta. Aethas sorriu placidamente.

– Sua visita a elas nos preocupa. Comprometem nossa neutralidade. Suas sobrinhas são princesas. – disse secamente — Você não pode mudar isso.

– Como você não pode negar que eu sempre as visito várias vezes ao ano. – ele se encaminhou para sua mesa, onde repousavam as cartas que ele recebera recentemente. A de Kassyeh estava em cima de todas, e falava sobre seu casamento, e como ele não podia deixar de ir – E estou indo agora para assistir um casamento. A viagem estava marcada antes do anúncio oficial.

Modera sabia que ele tinha razão e isso a deixava ainda mais chateada. Porém, conseguiu se controlar.

– Eu espero que você faça uma boa viagem. – desejou falsamente – Acredito que fará muito bem para suas sobrinhas vê-lo novamente. Afinal, deve ter sido surpreendente saber de sua origem real depois de tanto tempo...

Estava claro que ela não acreditava que ele desconhecesse a ligação entre as meninas e o rei Anasterian. Talvez estivesse imaginando que as cartas trocadas discretamente entre ele, Luxuriah e Kassyeh, sempre pelas mãos de uma pessoa de confiança, continham revelações que acusassem o mago de traição à neutralidade do Kirin Tor. Talvez até vasculhassem suas antigas correspondências em sua ausência. Ele adoraria ver a cara de Modera ao ler as cartas onde Kassyeh descrevia meticulosamente todas as coisas estranhas que Karensky comia do chão e regurgitava em cima de Ashrial.

– Pois é, muito surpreendente. – confirmou – Mas elas saberão lidar com isso.

– Com sua ajuda? – alfinetou a maga humana.

Aethas sorriu.

– Como tio, estarei pronto para ajuda-las em qualquer aspecto da vida delas. – e delicadamente completou – Ajudar a família não vai contra nenhuma norma do Kirin Tor, não é mesmo?

Ele acertara em cheio. A expressão de Modera se fechou rapidamente.

– Não, não vai. – respondeu – Mas saiba que seu caso é diferente Aethas. Ficaremos de olho.

Ali estava a real Modera. Aethas se parabenizou por tirá-la de dentro de seu disfarce.

– Não haverá problema em relação a isso Modera. – disse em um tom tão falsamente gentil que a fez se fechar ainda mais – Se isso fosse mudar meu relacionamento dentro do Kirin Tor, porque eu aceitaria de bom grado receber a princesa emérita de Ventobravo, Arshe Foldragon?

– É o que veremos. – disse a anciã antes de virar-lhe as costas e sair da sala.

Aethas respirou fundo. Aquilo era só o começo, tinha certeza. Já não bastava ter que lidar com o ódio escrachado de VereesaCorreventos, agora Modera decidira se unir à elfa contra ele. Sentou-se em sua mesa pesadamente se perguntando se Luxuriah não tinha razão no final das contas.

Luxuriah... Fora ali, naquela mesa que ele soubera que ela estava a caminho. Lembrava perfeitamente do dia. As visitas de Samanthah sempre eram aguardadas com ansiedade por ele. Depois da fuga da garota, ela lhe enviara cartas pedindo perdão por tudo. Aethas logo a tranquilizou, pois amava a irmã demais para permitir que a raiva dos pais se infiltrasse nele. Assim, passaram a trocar cartas com frequência e Samanthah passou a visita-lo em Dalaran. Sempre que ela vinha, era uma festa entre os dois irmãos. Sentavam-se ali no escritório e passavam horas e horas conversando. Aethas tinha que admitir que sentia uma pontada de inveja da irmã, pois enquanto ele estava preso às paredes da Cidadela Violeta, aprendendo entre tomos e livros empoeirados, ela corria o mundo livremente, vivendo a magia em sua essência, aprendendo com qualquer um que dispusesse a ensiná-la e criando suas próprias magias.

Samanthah jamais tivera consciência que se tornara uma maga muito melhor que ele.

Talvez por ver sua irmã assim, livre e desprendida com tudo, ficara tão chocado com a revelação que ela lhe fez enquanto devorava os doces que ele conjurara para ambos.

– Grávida?! – perguntou perplexo.

Samanthah fez que sim com a cabeça, mordendo um pedaço de bolo com voracidade.

– Eu não acredito que aquele moleque fez isso com você! – exclamou exasperado.

A jovem maga quase engasgou rindo da reação do irmão. Quando engoliu tudo que tinha na boca, falou:

– Você realmente achava que após todos esses anos eu e Dhomm nunca tínhamos...

– Certo, certo, não preciso saber. – interrompeu causando mais risadas na irmã – É óbvio que vocês estivessem... – ele ficou vermelho enquanto procurava uma palavra – íntimos. Mas gravidez...

– Bem, não foi planejado. – defendeu-se Samanthah pegando mais um doce – Mas estamos muito, muito felizes! Dhomm já mandou cartas para os servos em Luaprata, para que eles coloquem a casa de campo em ordem para nossa chegada. – e diante do olhar ainda mais espantado do irmão, ela perguntou – Você não achava que eu e Dhomm iríamos criar essa criança andando pelo mundo, achava?

– Eu não ficaria surpreso. – e imaginou Dhomm, de arco em punho, com uma criança pendurada em suas costas no meio de uma floresta desconhecida – Mas fico feliz que vocês vão voltar para casa. – e dando uma pausa, franziu a testa – Ah não...

– Pois é... – concordou a maga entristecendo-se – Tem o papai e a mamãe...

A raiva dos pais dele não havia passado. Apesar de o senhor Fendessol ter confessado a Aethas que chorava escondido da mulher de saudades da filha, duvidava que eles fossem receber a menina de braços abertos. Duvidada que eles sequer a receberiam. E havia uma grande possibilidade deles não quererem reconhecer o casamento dos dois fugitivos, o que criaria sérios problemas para seu sobrinho ou sobrinha no futuro.

– Bem, vocês tem que casar. – disse Aethas finalmente.

Samanthah deu de ombros.

– Eu não me importo com isso. Mas Dhomm faz questão.

Aethas franziu o cenho.

– Devo confessar que, pela primeira vez, Dhomm parece ter mais juízo que você.

Ambos riram.

– Eu vou ajudá-los. – disse por fim o mago segurando a mão de sua irmã – Eu como representante da família e seu irmão mais velho, vou reconhecer seu casamento. Amanhã mesmo procuro um sacerdote e vocês oficializam tudo aqui em Dalaran, com tranquilidade e na minha presença.

Os olhos de Samanthah se encheram de lágrimas e ela se levantou rapidamente da cadeira e o abraçou com força. Aethas retribuiu o abraço, também entre lágrimas.

Sua garotinha havia crescido. Mas ficava feliz que ela ainda precisasse dele.

– Bem... – disse ele quando o abraço cessou – Acho que é agora que tenho que falar com o noivo...

Aethas e Dhomm não tinham se visto depois do acontecido na noite em que o casal fugira. Sempre que Samanthah vinha lhe visitar, o cunhado não aparecia, preferindo acampar nas proximidades da cidade e esperar a volta da companheira. Contudo, agora era inevitável. Eles teriam que se encontrar e conversar.

O encontro aconteceu naquele mesmo dia, durante o jantar numa requintada taverna da cidade. Aethas se impressionou com a aparência de Dhomm. O seu cabelo agora estava longo, bem mais do que o de Samanthah, e estava preso em um rabo de cavalo. Ele também parecia mais forte e imponente, e ao seu lado havia um imenso leão que encarou o mago com desconfiança. Bem, pelo menos não era um pássaro.

Samanthah encarou os dois elfos que mais amava na vida e sorriu. E foi o sorriso dela que fez com que ambos sentassem-se, um em frente ao outro, civilizadamente, e não tentassem se matar.

– Bal'adash, malanore. – saudou Aethas quando viu o patrulheiro.

Dhomm apenas acenou com a cabeça.

–Vou buscar uma bebida para nós! – disse Samanthah alegremente antes de deixa-los a sós.

Os elfos ficaram um pouco desconfortáveis ao serem deixados sozinhos, e Aethas se perguntou se a irmã fizera de propósito. Bem, iria aproveita a oportunidade. Limpou a garganta e olhou para Dhomm.

– Gostaria de lhe agradecer. — e dando uma pausa, acrescentou — E pedir desculpas.

Dhomm o encarou.

– Pelo que? — perguntou.

Aethas se surpreendeu com a voz do jovem. Apesar do tom grave, ela era clara, límpida e melodiosa.

– Agradecer por ter cuidado de minha irmã durante esse tempo. — disse com sinceridade — Por fazê-la feliz. Desde que éramos crianças que eu não via esse sorriso tão espontâneo de Samanthah.

– Você não precisa agradecer por isso. — retrucou — Eu a amo. Ela me ama. Ser feliz é consequência.

Havia pelo menos uma dúzia de respostas ácidas que Aethas poderia dar a Dhomm, mas preferiu deixar para lá. Não valia a pena brigar com o cunhado.

– E as desculpas, — continuou o mago — é por ter lhe atacado aquela noite. Não era minha intenção machucá-lo. — falou rapidamente quando Dhomm arqueou as sobrancelhas — Queria apenas impedi-lo de atacar meu pai e dificultar as coisas. Eu nunca fui a favor do compromisso entre minha irmã e o príncipe Kael'thas, e se ela gostava de você eu iria ajudá-los. — dando de ombros ele finalizou — Você não me deu tempo para explicações, então achei que deveria saber que nunca foi minha intenção ficar entre vocês.

– Até porque você não conseguiria. — disse Dhomm com um sorriso cruel de canto de boca, e Aethas sabia que era verdade. — Mas aceito suas desculpas. Pela Sam. — e estreitando os olhos, completou — Eu não gosto de você.

Aethas deu de ombros.

– Nem eu de você. — respondeu o mago calmamente — Mas não precisamos gostar um do outro para garantir que Samanthah e a criança que ela carrega sejam felizes.

– Concordo.

E assim foi selada a paz entre Aethas e Dhomm.

Naquela noite, eles jantaram como se fossem grandes amigos e Samanthah parecia que ia explodir de felicidade. Aethas nunca se arrependeu de ter dado a chance de Dhomm mostrar seu valor como marido de Samanthah, pois sabia que o período em que a irmã foi mais feliz em sua vida foi o tempo em que estivera com o jovem caçador. E era reconfortante saber que ele parecia amá-la até mais que o próprio Aethas. E esse amor foi demonstrado naquela noite, quando Dhomm pegou o violão de um homem que tocava no local, pediu a atenção de todos e ofereceu a canção que compusera para sua futura esposa.

A música ecoou pela taverna e atingiu as ruas de Dalaran. Não houve uma só criatura, elfo, humano, anão, gnomo que não se emocionasse com a ternura daquelas palavras. Aethas teve que fazer um grande esforço para não acompanhar a irmã nas lágrimas, mas não sabia se choraria de ciúme ou de alegria pela irmã ter encontrado o grande amor de sua vida. Algo que, Aethas suspeitava, nunca iria alcançar.

Todavia, sua irmã estava feliz.

Nada mais importava.

No dia seguinte, Dhomm e Samanthah se casaram na capela de Dalaran. A noiva usou o vestido de Lady Luelly e o noivo aceitou as vestes da gala do cunhado emprestadas, por insistência de sua companheira. O sacerdote os casou em uma cerimônia simples, mas romântica, e Aethas deu um grande jantar depois.

Durante o jantar, Aethas fez questão de apresentar a irmã para todos os grandes magos do Kirin Tor. Dhomm, apesar de não gostar muito dos protocolos, sabia se virar muito bem, surpreendendo o cunhado com sua simpatia e desenvoltura, além de agraciar os ouvidos de todos com músicas que eram composições de sua mãe e dele próprio.

– Por que ele não pode ser sempre assim, agradável? — perguntou Aethas quando se viu a sós com a irmã.

– Porque esse não é ele. — riu-se Samanthah — Mas ele me prometeu que iria se comportar como um lorde hoje, porque seria isso que a mãe esperaria dele.

É, definitivamente aquele lorde encantador não era Dhomm, mas parecia a versão masculina de Lady Luelly.

– Aqui está meio quente. — reclamou Samanthah se abanando — Vamos dar uma volta no jardim?

– Claro. — e Aethas ofereceu o braço à irmã.

Eles saíram para o ar fresco da noite e a maga respirou aliviada. Aethas analisou o rosto da irmã e notou que suas bochechas já estavam mais cheinhas, o que a deixava imensamente mais charmosa. Imaginou como seria a criança que nasceriam daquele casal tão inusitado. Com certeza teria uma beleza descomunal e inteligência fora do comum. E seria imensamente amada pelos pais e pelo tio.

Aethas e Samanthah circularam um pouco pelo jardim até que uma figura que não se esperava surgiu pelo portão. Samanthah estacou e ficou rígida. Aethas encarou a irmã, confuso diante da reação.

– Está dando uma festa Aethas? — perguntou o príncipe Kael'thas divertido.

Aethas fez uma curta reverência e se surpreendeu que Samanthah não o acompanhasse.

– Bom revê-lo alteza. — cumprimentou o mago — Não sabia que havia voltado.

– Cheguei a pouco e vim trazer uma carta que seus pais enviaram por mim. — e como se reparasse pela primeira, olhou para Samanthah — Lady Fendessol, que surpresa... Está mais bela que a última vez que a vi... — seu tom era malicioso e Samanthah sentiu vontade de vomitar.

Samanthah apertou o braço do irmão, como se pedisse proteção. Aethas estranhou mais ainda. Estaria a garota receosa por encontrar o antigo pretendente? E porque o príncipe a encarava com aquela malícia? O mago não gostou nenhum pouco daquilo.

– Não é apenas um jantar, alteza. — o tom saiu mais seco que o normal — Estamos comemorando o casamento da minha irmã.

– Casamento? — se surpreendeu Kael'thas.

– Sim, casamento. Samanthah se casou com o filho da prima de nosso pai, Dhomm. — explicou Aethas segurando mais forte o braço da irmã — Estamos comemorando isso.

Kael'thas encarou Samanthah por um momento e depois falou com um tom pesaroso:

– Uma pena. Achei que quando se cansasse dessa aventura tola, Samanthah, seria minha rainha. — e se curvando um pouco, sorriu maliciosamente.

Samanthah apertou os lábios e não respondeu. Bem que queria gritar que preferia morrer a ser rainha dele, mas teve receio de vomitar em cima de seu irmão.

– O que esse idiota está fazendo aqui?

A voz de Dhomm explodiu atrás de Samanthah e Aethas e quando eles se viraram, viram o jovem caçador se dirigindo até onde eles estavam. O príncipe deu dois passos para trás, mas logo recuperou a compostura e encarou Dhomm com altivez.

– Ah, o bastardo selvagem... — murmurou Kael'thas com os olhos faiscantes.

– Você vai ver como esse bastardo é selvagem quando eu por as mãos em você! — rugiu Dhomm que iria direto em direção à garganta do príncipe se não fosse Samanthah que se soltou do irmão e segurou o marido.

– Não Dhomm, não! — Samanthah se agarrou a Dhomm.

– O que está acontecendo? — Aethas estava confuso — Dhomm, por que está ameaçando o príncipe?

– Não se meta Aethas! — vociferou Dhomm sem tirar os olhos de sua presa.

Kael'thas provavelmente percebeu que não demoraria para que Samanthah perdesse o pouco controle que tinha sobre o caçador e se virou para a saída.

– Quando você estiver em melhor companhia, Aethas, voltarei. — e dando um último olhar em Samanthah, foi embora sem esperar resposta.

Quando o príncipe sumiu das vistas de todos, Aethas se voltou para o cunhado, perplexo com a atitude dele.

– Dhomm, o que significa isso?! — perguntou irritado — Você tem ideia que isso pode prejudicar a criança que vocês vão ter?!

Dhomm o olhou como se ele tivesse dito a coisa mais absurda do mundo.

– Como você tem coragem de defender esse pulha depois do que ele tentou fazer com sua irmã?! — gritou-lhe o caçador.

– Dhomm, não! — Samanthah pareceu desesperada com a fala de Dhomm

Aethas franziu o cenho.

– Como assim? — e olhando para a irmã, perguntou — O que o príncipe fez a você Samanthah?

Dhomm parou de tentar se soltar da esposa e a olhou longamente.

– Você não contou ao seu irmão o que o príncipe fez? — perguntou surpreso.

– Não era necessário... — murmurou desviando a vista para o chão.

– Será que vocês dois podem me dizer o que eu não sei? — exasperou-se Aethas.

Sem que Samanthah pudesse impedir, Dhomm contou com detalhes o que acontecera no dia que a garota fora passear a sós com o príncipe. Aethas ficou pálido de ódio. Como o Kael'thas ousara fazer aquilo com sua irmãzinha?! E como assim com a permissão de seus pais?! Eles chegaram a esse ponto para ascender socialmente, entregar a filha como se ela fosse um objeto?!

– Ah, ele vai me pagar... — vociferou Aethas com as mãos em chamas — Irei queimá-lo até sobrar apenas ossos!

– Só depois que eu o encher de flechas e transformá-lo em um porco-espinho! — Dhomm retrucou.

O mago pensou um pouco.

– Eu o silencio e você ataca. — propôs Aethas.

– Depois que eu mandar Leo e o envenenar com minhas flechas, você pode tacar fogo. — completou Dhomm.

Os elfos se encararam e concordaram com a cabeça e iriam com certeza colocar aquilo em prática se Samanthah não tivesse se colocado na frente dos dois, angustiada.

– Parem já os dois! — gritou desesperada — Vocês não podem fazer nada contra o príncipe! Vocês serão executados!

– Não me importo. — disseram eles em uníssono.

Samanthah se enfureceu.

– Como assim não se importam? E essa criança hein? — e colocou a mão no ventre — Como vocês acham que ele ou ela vai crescer sem um pai e um tio hein? Ou pior, com um pai e um tio com a mancha de serem assassinos do príncipe herdeiro? — e com as lágrimas já rolando nos olhos, continuo — Vocês vão deixar nós dois sozinhos no mundo? Se não se importam com suas vidas, se importem com a dessa criança!

Aethas e Dhomm rapidamente esqueceram seu ódio diante das lágrimas de Samanthah. Passaram uma boa parte do tempo tentando acalmar a jovem, que só ficou satisfeita quando ambos prometeram que jamais fariam nada contra o príncipe. Depois disso, acabaram voltando para a festa, Samanthah de braços dados com ambos.

Depois desse dia, o relacionamento entre Aethas e o príncipe Kael'thas se tornou bem frio. Apesar de muitos perguntarem o que acontecera entre eles, o mago se esquivava. Kael'thas logo soube que seus atos haviam sido descobertos, pois não se esforçou para retomar a amizade. Era irônico, pensou Aethas, que se ele e Dhomm tivessem levado a cabo sua vingança naquele dia, poderiam ter poupado seu povo de tanto mal que o príncipe causaria no futuro. Hoje sabia que o rei dificilmente mandaria executar o próprio filho. Já Aethas com certeza pagaria pelos dois. Mas o futuro teria sido diferente. Samanthah e Dhomm poderiam ainda estar vivos. E os elfos sangrentos poderiam jamais ter se unido a Horda.

Mas aquilo eram somente suposições. Jamais saberia o que teria acontecido se não fosse o pedido de Samanthah.

Será que ela se arrependera daquilo no final das contas?

Houve uma batida na porta que trouxe Aethas de volta ao presente.

– Entre. — disse.

Uma serva entrou e fez reverência antes de anunciar.

– A princesa Arshe já está aqui, Lorde Fendessol.

Aethas suspirou. Chegara a hora de ver o que a Aliança pretendia.

– Mande-a entrar.

***********************

Kassyeh estava irritada, muito irritada. Olhou para aquelas elfas perambulando por sua cozinha e se perguntou como ainda não havia transformado todas elas em blocos de gelo.

A ideia parecia boa no começo, admitiu. Servos que as ajudassem a por ordem na casa e a organizar o casamento. Só que agora, aquelas ali não a deixavam sequer encher um copo de água! Cozinhar então, nem pensar. Então era assim que seria sua vida de princesa, não poderia sequer cortar um pão?

– Vossa alteza precisa de algo? — perguntou educadamente uma das servas ao vê-la parada na porta da cozinha.

"Quero que vocês saiam da minha cozinha!" pensou Kassyeh, mas sua natureza pacífica impediu a grosseria de sair de sua boca.

– Nada não, obrigada. — disse e se virou antes que sua educação sumisse de vez.

Afastou-se apressadamente e foi em direção às escadas. Parou nos primeiros degraus e se perguntou o que faria para passar o tempo. Não estava com vontade de ler, queria cozinhar. Tewdric havia dito que estava com vontade de comer bolo de carne. A raiva subiu novamente e ela apertou o corrimão da escada. Já estava pensando em voltar lá e expulsar todas as elfas da cozinha a pontapés quando Ash apareceu na sala, enlameada. Kassyeh a olhou, assustada.

– Ash! — exclamou se dirigindo até a irmã — O que aconteceu?!

– Karen e Saba aconteceram. — murmurou tentando arrancar uma alga da cabeça.

– Venha aqui em cima, vou te ajudar. — e caminhou-se com a irmã para a escada.

Do nada uma serva apareceu e se interpôs entre elas com um sorriso prestativo que deixou Kassyeh mais irritada ainda.

– Posso ajudar vossa alteza a se assear.

A maga apertou os olhos para ela.

– Não precisa. — disse áspera — Eu ajudo.

Ash se surpreendeu com a atitude de Kassyeh. Por um momento achou quea irmã bateria na serva. Pensou então em falar alguma coisa, qualquer coisa queimpedisse a maga de pular no pescoço da prestativa elfa. Lor'themar foi seu primeiro pensamento.

– Er... Kass... — a jovem caçadora chamou a atenção da irmã cutucando seu ombro- O lorde regente está aqui...

– Ótimo! — respondeu Kassyeh e se virou radiante para a serva — Preparem um chá com doces. Quero tudo perfeito para a visita do lorde regente! Agora vá! — ordenou.

A serva sumiu tão rapidamente quanto apareceu. Enquanto subiam as escadas, Ash apontou para a serva com a expressão confusa e começou:

– Kass... O que foi aquilo?

– Não me deixam cozinhar. — respondeu franzindo a testa.

– Ah.... — aquilo explicava tudo.

Desde que a mãe morrera, Kassyeh assumira o seu papel na cozinha. Adorava alimentar as irmãs e cozinhava com prazer. Retirar aquilo que a maga mais apreciava fazer chegava a ser uma maldade. Mas Ash sabia que dificilmente ela arrumaria alguma confusão por isso.

O que era uma pena. Ash amava a comida de Kass.

– Venha e me conte o que aconteceu. — pediu a irmã mais velha.

Elas foram até o quarto da caçadora e entraram no banheiro. Kassyeh ajudou Ash a tirar as algas do cabelo e, apesar dos protestos da outra, ajudou-a também a se despir. Depois, a maga esquentou a água da banheira, colocou a irmã lá com bastante sabonete cremoso e sais de banhos e com uma esponja retirou o sangue pegajoso de murloc do corpo da jovem, enquanto ela contava toda a história desde a procura pelas meninas na praia, o ataque dos murlocs, a chegada do lorde regente e a atitude de Tewdric. Quando relatou aquele último fato, Kassyeh sorriu carinhosamente.

– Eu amo quando Tewdric é super-protetor. — falou com os olhos brilhando — E acho que o lorde regente já está se arrependendo da descoberta que fez! — e riu alto sendo acompanhada pela irmã.

– O que você sabe do lorde regente? — perguntou Ash sem conseguir se conter.

Kassyeh, diferente de Luxuriah, não era a pessoa mais antenada de Azeroth, logo não se surpreendeu ou questionou a pergunta da irmã.

– Não sei muito. — confessou — Sei que ele não ficou muito feliz em assumir de vez a liderança de nosso povo, mas tem trabalhado bem.

– E a vida pessoal dele? Ele tem alguém, assim, namorada, noiva, esposa? — perguntou o mais inocente que pode.

Para seu alívio, Kassyeh aparentemente não percebeu seu real interesse naquela pergunta.

– Bem, quando eu era menor, lembro-me do papai falando que o lorde regente deveria investir em Sylvana.

Ash abriu a boca, surpresa.

– Sylvana? Sylvana Correventos? A Rainha Banshee?!

– Claro que na época ela não era a Rainha Banshee, era apenas a patrulheira-chefe e amiga da mamãe. — Kassyeh explicou — Parece que eles chegaram a ter algo, mas nada duradouro... — a maga pensou mais um pouco — O papai costumava falar que o lorde regente devia se ajeitar na vida, casar e ter filhos. Bem, é óbvio que ele não seguiu o conselho do papai...

O ânimo de Ash minguou. Sylvana Correventos? Se era esse tipo de elfa que interessava o lorde regente, suas chances eram nulas. O olhar dele jamais se voltaria para ela na mesma intensidade que o olhar dela se voltava para ele. Não era poderosa, forte, nem tinha uma personalidade marcante. Nada tinha a ver com o que a Rainha Banshee fora durante a vida.

Após o banho, Kassyeh penteou os cabelos de Ash e a ajudou a se vestir com uma de suas melhores roupas.

– Se o lorde regente está ai, temos que nos apresentar como princesas, não é mesmo? — riu-se a maga, com a raiva da falta da cozinha já praticamente esquecida.

– Nunca vou ser uma verdadeira princesa. — murmurou Ash olhando sua imagem no espelho.

– Bobagem. Você é linda. E tenho certeza que o lorde regente vai acabar vendo isso. — e piscou o olho de forma cúmplice.

O rosto de Ash adquiriu uma vermelhidão intensa e Kassyeh começou a rir.

– E-eu n-não... — gaguejou Ash.

– Não se preocupe, não falarei nada a Lux. — garantiu.

– Falar o que? — perguntou tentando se esquivar.

Kassyeh riu alto.

– Você está apaixonada. — disse a maga carinhosamente — Percebi que seus olhos brilham quando você fala dele. Isso é bom.

Apaixonada? Esse era o sentimento que se instalava em seu peito quando olhava para Lor'themar Theron? Então estava perdida mesmo. Iria sofrer e morrer de amor, como sua avó Luelly fizera no passado.

– Se você percebeu, Luxuriah percebeu também... — murmurou Ash desanimada — Mas que isso importa? Ele nunca vai olhar para mim...

– Isso é algo que você não tem como saber. — garantiu Kassyeh — Dê tempo ao tempo. Deixe que ele saiba a pessoa maravilhosa que você é. Não tem como não te amar!

Ash olhou incrédula para a irmã.

– Não chego aos pés de Sylvana Correventos. — retrucou.

– Que bom, não? — e diante da surpresa da irmã, explicou — Ela não ficou com ele, não é mesmo? — e piscando o olho, puxou-a pela mão — Agora venha. Karen tem que te pedir desculpas e eu quero ver pessoalmente esse filhote branco.

*************************

Anduin estava tão admirado com Dalaran que não sabia para onde olhar. Havia os prédios imensos que cintilavam, as ruas limpas e lustrosas, as fontes de água cristalina onde muitos pescavam... Mas o que realmente mais agradou o príncipe era o constante movimento de diversas raças, tanto da Horda quanto da Aliança, sem que nem mesmo uma palavra rude fosse dita.

– Seria ótimo se todo nosso mundo fosse assim não? — perguntou ele a Arshe.

A maga olhou para seu irmão de criação e sorriu.

– Seria sim. — concordou — Mas o caminho até que Azeroth seja uma grande Dalaran ainda está longe.

– Mas ainda é possível. — insistiu o príncipe.

Arshe passou a mão nos cabelos loiros de Anduin, feliz que a vida ainda não o tivesse privado de seus sonhos infantis.

– Você acha? — perguntou enquanto se encaminhavam à Cidadela Violeta

– Se papai me deixou vir até aqui com você, estou inclinado a acreditar em tudo hoje.

Os dois caíram na risada. Na verdade, não fora difícil convencer Varian a deixar Anduin fazer aquela viagem. Arshe usara bons argumentos e lembrou ao rei que a presença de Anduin na reunião com Aethas Fendessol mostraria confiança e boa vontade.

– Queria que eu tivesse convencido seu pai a deixar o pelotão de guarda para trás. — reclamou a jovem.

– Por quê? Você os convenceu a tomar cerveja enquanto resolvemos tudo. — e rindo, acrescentou — E aqui estamos somente nós dois!

– Você só tem que saber usar os argumentos certos. — falou ela piscando o olho.

Anduin franziu a sobrancelha.

– Mais um pouco de argumentos e você convenceria a guarda a pular de Dalaran e ainda agradecer por isso.

As risadas continuaram até que eles chegaram a porta da Cidadela Violeta. Anduin tinha uma ideia do que sue pai pretendia mandando Arshe ali, para falar com Aethas Fendessol. Como o menino sabia, Arshe era uma excelente negociadora e embaixatriz. Por isso estava sempre viajando, resolvendo pendências para o Alto Rei, ou mesmo para os demais líderes da Aliança. Anduin invejava a habilidade que a jovem tinha com as palavras e sua desenvoltura para falar sobre praticamente qualquer assunto. O único assunto que Arshe evitava, sempre que possível, era a morte do pai.

Anduin ainda sentia falta de Bolvar e acreditava que aquele sentimento devia ser ainda mais intenso para Arshe. Todavia, a jovem sempre tinha um sorriso ou de uma frase bem arquitetada para esconder seus sentimentos. Vir a Dalaran, lugar tão perto de onde aconteceu todo o horror do Lich Rei consumiria a alma de qualquer um que perdera tanto nas mãos daquele monstro. Mas Arshe parecia serena e tranquila. O príncipe a admirava muito.

Quando adentraram o salão do castelo, uma elfa sangrenta ao recebeu e os encaminhou para uma antessala. Lá ficaram esperando poucos minutos, até que a mesma elfa voltou e disse que eles podiam entrar. O coração do príncipe acelerou. Era a primeira vez que encontraria um mago tão poderoso e desconhecido.

A sala de Aethas Fendessol era luxuosa e elegante, como todo aposento típico dos elfos sangrentos. Havia estantes que flutuavam, diversos livros e instrumentos mágicos e um enorme quadro na parede retratando uma bela e estonteante elfa. Aquele quadro deveria ser antigo, pensou Anduin, pois a elfa retratada tinha os olhos azuis e não verdes, como eram agora os olhos daquele povo.

O mago se levantou quando eles entraram. Anduin se sentiu um pouco desconfortável, pois Aethas mantinha o rosto coberto com um capuz que caia sobre suas vestes. Não dava para ver seu rosto, nem mesmo seus olhos. O príncipe acreditava que aquilo poderia ser um problema para Arshe, já que ela não teria como saber se suas palavras estariam afetando o ouvinte. Porém, a jovem não parecia afetada e retribuiu com elegância a reverência que Aethas lhe fez.

– É um prazer, Princesa Arshe de Ventobravo. — disse o mago — E é um prazer maior ainda vê-lo, Príncipe Anduin de Ventobravo. — a voz dele não demonstrou surpresa em ver o herdeiro da Aliança ali.

– Igualmente milorde. — disse Anduin retribuindo o cumprimento.

– Obrigada por ceder um pouco de seu tempo para nós, milorde. — falou Arshe numa voz doce e calma fazendo uma delicada reverência.

– Não há de quê. Sentem-se, por favor.

Eles se acomodaram ao redor da mesa de Aethas e o mago, com um simples mover das mãos, conjurou doces e chá para os convidados. Anduin aceitou de bom grado o oferecimento, pois o almoço há muito parecia ter se esvaído de seu estômago, enquanto Arshe serviu-se apenas de um pouco de chá. Trocando algumas trivialidades formais enquanto bebiam o chá, até que o mago iniciou a conversa.

– Sou todo ouvidos, princesa. — falou educadamente Aethas depois de todos terem se servido.

Arshe pousou a xícara no pires e o encarou.

– Foi com imenso prazer que o Rei Varian soube da notícia que a linhagem Andassol dos Sin'dorei não havia se extinguido. — começou calmamente — Nós de Ventobravo sabemos o quão difícil é perder nosso líder e ficarmos incertos quanto ao futuro. Por isso, regozijamos com o achado de seu povo.

Anduin nunca ouvira Arshe falar de forma tão eloqüente e ao mesmo tempo sereno. Era surpreendente a fluidez com que ela se comunicava.

– E foi ainda mais gratificante a descoberta que as herdeiras do trono estão ligadas a um mago poderoso e sensato do Kirin Tor. — ela deu uma pequena pausa, possivelmente para ver como seu elogio havia sido recebido. Aethas apenas acenou de leve com a cabeça, no que Anduin supôs ser um agradecimento, e a jovem continuou — Vemos nesse fato um milagre da Luz, um sinal para que nossos povos, que já foram aliados valorosos, possam novamente se unir a uma causa comum.

Aethas cruzou as mãos em cima da mesa e continuou calado, mas a atitude não desanimou Arshe, que continuou no mesmo tom:

– O Rei Varian gostaria de retomar o contato com os Sin'dorei. Com a ascensão de suas sobrinhas ao poder, essa pode ser a oportunidade. A futura rainha pode ser mais receptiva a um acordo de paz que o lorde regente Lor'themar Theron, sei que isso seria significativo tanto para os Sin'dorei, como para os humanos. — e dando uma pausa, tomou mais um pouco de chá antes de acrescentar -E seria vantajoso principalmente para milorde e o Kirin Tor.

Então era quilo que seu pai queria, pensou Anduin. Levando os Sin'dorei de volta à Aliança, ele não só arrebanharia mais aliados como também minaria as forças da Horda nos Reinos do Leste. Os Renegados perderiam seu principal apoio, o que poderia levar a uma investida para a recuperação de Lordaeron e também de Guilnéas. Talvez os Quel'dorei pudessem se reintegrar ao seu povo de origem.

E o Kirin Tor pertenceria completamente à Aliança.

Mas para que aquilo acontecesse, Aethas seria de um apoio inestimável. Afinal, suas sobrinhas eram herdeiras, e uma delas viraria rainha. Com certeza ele deveria ter uma influência grande sobre elas. E o mago teria muito a ganhar com isso também. Não era segredo para ninguém que o mago era visto com desconfiança pela maioria do Kirin Tor, principalmente por Vereesa Correventos e a anciã Modera. Ter familiares no trono de um dos povos da Horda com certeza complicaria a vida de Aethas e a proposta de cooperação que Varian mandara por intermédio de Arshe era uma excelente oportunidade para acabar com as desconfianças.

Aethas sabia de tudo isso, Anduin não tinha dúvidas. Todavia, para sua surpresa, ao invés de se dirigir a Arshe o elfo virou-se para Anduin e falou:

– Desculpe a inconveniência vossa alteza, mas poderia me dizer quantos anos tem?

Arshe também ficou surpresa com a pergunta, mas fez um sinal com a cabeça para que Anduin respondesse.

– Treze, milorde.

Aethas assentiu.

– Minha sobrinha mais nova é um pouco mais jovem que vossa alteza. E como vossa alteza, também foi privada da presença de sua mãe ainda jovem. Essa é uma falta muito difícil de superar, não é mesmo?

– Sim, é. — respondeu sinceramente o príncipe.

Depois de receber aquela resposta, Aethas se voltou para Arshe.

– Fico satisfeito ao saber que a redescoberta da Linhagem Andassol tenha sido tão bem recebida pelo Alto Rei. Como vossa alteza mesma disse, um povo sem seu líder fica desnorteado e vulnerável. — e descruzando as mãos, acrescentou — E acredito que foi essa situação que levou o lorde regente a se unir a Horda.

Por um momento, Anduin achou que a fala do mago era um bom presságio. Porém, quando olhou para sua irmã de criação, notou que ela ficara um pouco tensa, ainda que mantivesse a expressão serena no bonito rosto. O que Arshe notara que ele deixara passar?

– Nos unirmos de novo com a Aliança seria, sem dúvida muito bom para meu povo, principalmente para aqueles que moram aqui em Dalaran. — Aethas se recostou à cadeira antes de continuar — Contudo, Princesa Arshe, devo ser sincero com vossa alteza.Mesmo que eu atenda ao seu pedido para ser intercessor junto às minhas sobrinhas, terei tanto sucesso quanto qualquer um outro que tentasse o mesmo.

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A princesa arqueou as sobrancelhas, mas não aparentemente não se abalou com a resposta.

– Gostaria que milorde fosse um pouco mais claro. — pediu Arshe delicadamente.

– Minhas sobrinhas não se unirão à Aliança, Princesa Arshe, não importa o quanto eu interceda.

Anduin se espantou com a fala direta do mago. Com certeza sua irmã também não esperava algo assim. A maga estava acostumada a horas de discussão e conversas delicadas para chegar a algum lugar. Aethas, todavia, parecia querer terminar aquilo o mais rápido possível. Só que a Princesa de Ventobravo não era de desistir fácil

– Milorde, acredito que é muitíssimo bem quisto pelas suas sobrinhas. Afinal, milorde é sua única família viva. Então acredito que elas o ouvirão.

Anduin se perguntou de onde Arshe conseguira aquela informação. A AVIN devia ter trabalhado muito para que aqueles fatos chegassem até a princesa.

– Sim, minhas sobrinhaspodem chegar a me ouvir. — afirmou Aethas — Amo-as e sei que elas me amam também. Contudo, há um sentimento que é mais forte e mais destrutivo que o amor. — e voltando-se para Anduin novamente, perguntou — Sabe qual é esse sentimento Alteza?

– O ódio. — respondeu sem pestaneja o garoto.

– Exato. — Anduin achou que Aethas sorria por baixo do capuz — Minhas sobrinhas têm motivos para odiar a Aliança, alteza, e esse ódio com certeza supera e muito o amor que elas têm por mim.

– Milorde disse que tem uma sobrinha da idade de Anduin. — disse Arshe sem se dar por vencida — Uma criança dessa idade não pode carregar esse ódio todo. Não poderia ser essa jovem princesa um caminho para as irmãs?

Aethas pensou um pouco.

– É possível que sim. Karensky é uma alma ainda pura e inocente. — a voz dele era calorosa ao falar da sobrinha caçula.

– Então ainda há esperança. — disse Arshe sorrindo — Pelo que sabemos, ainda não está definido qual delas herdará o trono. Se a herdeira fosse a mais jovem, teríamos então uma chance de reaproximação.

Sem dúvida a AVIN trabalhou muito nos últimos dias, pensou o príncipe.

– Talvez sim, talvez não. — Aethas dava mostras que não estava nem um pouco convencido — Elas são muito unidas alteza e duvido que Karensky, Ashrial ou Kassyeh fiquem contra Luxuriah, ainda que esta não aceite o direito de ser rainha.

– Luxuriah é a mais velha? — perguntou Anduin.

Aethas fez que sim com a cabeça.

– E se a princesa Luxuriah for rainha, não podemos contar com nenhuma negociação? — insistiu Arshe.

– Se Luxuriah se tornar rainha, a Aliança deve começar a tremer de medo vossa alteza. Perto dela, Garrosh Grito Infernal é um pacifista.

Anduin estremeceu. Arshe ficou sem expressão.

– Então não há nenhuma delas disposta à conversação? — perguntou a jovem.

– Sinto dizer que não. — ele parecia sentir mesmo — Minhas sobrinhas tem o coração leal à causa da Horda, princesa Arshe. E meus apelos não seriam nada mais que sussurros em meio a uma ventania. — ele deu uma pausa, olhou para ambos (ou Anduin achou que aquilo foi um olhar, não dava para saber com o capuz) e disse algo surpreendente — Mas posso levar sua causa a elas, vossa alteza. Como membro do neutro Kirin Tor, não serei acusado de traição e o máximo que posso receber é um não delas.

Arshe sorriu novamente.

– É bom saber que podemos contar com sua voz, milorde. — falou sem conter o alívio.

– Eu vou levar seu recado princesa. — retrucou Aethas — Apenas isso.

Estava claro o que o mago dizia. Ele continuava neutro, em cima do muro, e iria se aproveitar disso para levar a petição deArshe como membro do Kirin Tor, sem usar sua influência como parente na decisão das princesas. Anduin achou a posição dele muito justa e honesta.

Sabendo que não conseguiria mais que aquilo, Arshe se levantou e Anduin a imitou. Aethas se levantou depois deles.

– Obrigada por ceder seu tempo e cooperação milorde. — ela fez uma breve reverência — Esperamos a resposta com ansiedade.

– E a terá o mais rápido possível, princesa.

Aethas já os acompanhava para fora da sala quando ocorreu a Anduin fazer uma pergunta que o deixara curioso durante a reunião.

– Milorde, gostaria de fazer uma pergunta íntima. — disse o príncipe.

Arshe o olhou, surpresa, mas não fez nenhum comentário.

– Faça vossa alteza, que se eu puder, responderei. — respondeu educadamente o mago.

– Como a mãe das princesas morreu?

Aethas olhou rapidamente para o quadro de Samanthah na parede.

– Da mesma forma que a sua, vossa alteza. Ela foi morta por mãos humanas.

E Anduin soube exatamente qual seria a resposta que as princesas dariam à Aliança.

*********************************

Quando Ash e Kass chegaram ao andar de baixo da casa de campo, as servas já estavam aprontando a mesa do chá. A maga analisou o serviço e viu que realmente não tinha do que reclamar. Tudo estava muito bem arrumado e parecia saboroso. Kassyeh suspirou, desapontada.

– Eu ainda prefiro a sua comida. — sussurrou Ash para a irmã.

Kassyeh sorriu e alisou o cabelo da irmã.

– Obrigada Ash. — agradeceu.

– Você devia pensar pelo lado bom de ter servos. — disse a jovem caçadora na tentativa de animar a outra — Se você não tem que cozinhar, sobra mais tempo para tentar fazer seu bebê. — e riu.

– Ora, você tem razão! — concordou rindo também — Vou aproveitar esse tempo livre para lhe dar um sobrinho ou sobrinha!

Ash pensou um pouco.

– Seria bom se fosse menino, sabe, seria diferente. Somos quatro elfas. Ter um elfinho em casa seria muito fofo. — disse a caçadora com os olhos brilhando.

Kassyeh deu um grande sorriso.

– Meio-elfinho. Lembre que o pai dele será um orc.

– Será que ele vai ser verdinho? – os olhos de Ash brilharam mais ainda – E terá pequenas presinhas?

– Tomara! – Kassyeh se animou com as palavras da irmã – Quero que ele pareça com o pai e seja tão lindo quanto Tewdric!

As duas começaram a fazer conjecturas sobre como seria o filho de Kassyeh e Tewdric até que ouviram os gritos de Luxuriah do lado de fora e fortes uivos de lobos. Elas se olharam assustadas.

– O que será que está acontecendo? – perguntou Ash.

Kassyeh não respondeu nada, mas se precipitou para a porta, sendo acompanhada de perto pela irmã. Quando chegaram do lado de fora da casa, viram qual era a situação. Havia uma grande lobo dentro de uma gaiola em frente a casa. O animal era negro, usava algo parecido com uma armadura, que ostentavam o símbolo da Horda. Enquanto Luxuriah apontava para o bicho e gritava com Tewdric, o lobo uivava e arremetia contra as grades sendo observado por Lor’themar e Huaru.

– Você é louco?! – a caçadora estava irada – Como você pode mandar trazer um bicho desses para cá?! E você ainda ousou pedir para o meu Huaru ir buscar essa besta em Luaprata!!

– Tá tudo bem, bebê. – Huaru, que aparentemente fora no correio pegar a encomenda para o orc, tentava acalmar a situação – Ele não é tão feroz assim...

Huaru mal fechou a boca e o lobo deu uma grande investida contra as grades, emitindo um som assustador. Luxuriah o encarou com as sobrancelhas levantadas.

– Bem, talvez seja um pouco feroz... – corrigiu o paladino – Mas não me fez nada de mal...

– O Bolota é mansinho! – disse Tewdric chegando perto da jaula – Ele não vai fazer mal a Ash!

– Esse bicho comeu dois orcs!! – gritou a elfa.

– Sim, comeu dois orcs, mas não comeu nenhuma elfa! – se defendeu o guerreiro.

Luxuriah ficou ainda mais irritada e parecia que ia pular no pescoço de Tewdric e sufocá-lo.E com certeza iria fazer exatamente isso se Ash não decidisse intervir.

– Por que esse lobo faria mal a mim? – perguntou inocentemente.

Todos a olharam e o rosto dela ficou vermelho. Estava tão distraída observando a confusão que tinha até esquecido que Lor’themar estava ali, até o momento em que ele a encarou.

– Ash! – Tewdric deu um enorme sorriso, mostrando todas as presas quando a viu – Veja o que eu trouxe para você! – e apontou para o lobo enraivecido.

– Pra mim? – perguntou ela sem muita certeza.

– Sim, sim! – respondeu o orc indo até onde ela estava, pegando-a pela mão e levando para perto da jaula – Como você ficou muito tristinha quando o Meleth morreu, eu procurei um bicho lá em Orgrimmar que pudesse substituir ele! E me indicaram o Bolota aqui.

– Ela não vai treinar esse bicho Tewdric! – exclamou Luxuriah enfurecida – Não vou deixar minha irmã virar refeição de um lobo selvagem!

– Ele não é selvagem! – disse Tewdric franzindo o cenho – Só é um pouco incompreendido. – e colocou a mão na mão na jaula tentando acariciar o lobo.

– Incompreendido? – Luxuriah estreitou os olhos – Nenhum domador conseguiu dar um jeito nesse lobo maluco e você quer empurrar ele para a Ashrial?!

Tewdric olhou para a cunhada e tirou a mão da jaula no exato momento em que Bolota arremeteu tentando abocanhá-la. Ao invés de comer a mão do guerreiro, ele fincou as presas na grade e começou a roê-la, irritado.

– A Ash vai conseguir. – exclamou o orc com convicção – Porque ela é muito boa com os animais! Você também disse que o Meleth iria machucá-la.

– É, mas o Meleth não era uma besta assassina que comia orcs como passatempo!

– Se me permitem. – Lor’themar se aproximou dos dois. Tanto Luxuriah quanto Tewdric o olharam como se ele fosse um mosquito irritante zumbindo durante uma discussão importante. O lorde regente fingiu não ver os olhares enraivecidos e começou a falar — Percebe-se que é um animal instável e possivelmente perigoso. Mas quem deve decidir se vai treiná-lo ou não, é Lady Ash.

O rosto de Ash ardeu de vergonha quando seu olhar se encontrou com o de Lor’themar. Ela tinha ouvido bem? Ele a chamara de Ash? Seu coração se acelerou ainda mais quando ele sorriu, encorajando-a a dar uma resposta. Tentando evitar que sua irmã mais velha visse algo em sua expressão, ela se forçou a não sorrir para ele e desviou sua vista para o lobo.

Bolota era imenso e assustador. O nome não condizia em nada com a fera selvagem que arremetia contra as grades. Ficou o observando por alguns instantes, até que o lobo também a encarou. Os olhos verdes da elfa se encontraram com os olhos cinza da besta e Ash percebeu que não havia apenas fúria ali, mas também havia dor. Bolota sofria por algum motivo.

– Onde ele vivia antes de você trazê-lo Tewdric? – perguntou sem tirar deixar de encara Bolota.

– Ah, ele tava preso num porão lá em Orgrimmar. Iam sacrificar o bichinho quando eu o comprei.

Ash analisou um pouco mais o animal e entendeu.

– A luz. – disse – Ele está incomodado com a luz. Passou tempo demais na escuridão.

E de repente sentiu uma empatia muito forte por Bolota. Ela também estivera num porão. Provavelmente ele também tivera medo e ficara confuso. Talvez também tenha sido privado de sua família. Talvez aquelas placas que colocaram nele ainda doessem. Talvez... Ele estivesse apenas sofrendo e se sentindo sozinho.

Enquanto Ash o encarava, Kassyeh pediu que os servos providenciassem uma manta grande e eles cobriram a jaula de Bolota. Quase que imediatamente e o lobo parou de espancar a jaula. Ouviu-se um pequeno ganido, que mais parecia pertencer a um filho e então o barulho do lobo deitando-se. Ash sentiu os olhos se encher de lágrimas.

– Vou ficar com ele. – disse com a voz embargada para Tewdric – Eu vou treiná-lo.

Tewdric soltou uma risada triunfante e Luxuriah colocou a mão no rosto, desconsolada.

– Se acontecer algo com ela Tewdric, eu arranco seu pênis! – ameaçou.

– Não, não! – falou Kassyeh amedrontada – Como eu terei meus bebês se você aleijar meu marido?!

– Então reze pra Nascente do Sol proteger Ash! – respondeu.

Enquanto Kassyeh e Luxuriah começavam a debater sobre o destino de Tewdric caso algo acontecesse a Ash, a mesma continuava olhando para a jaula. Só teve sua atenção desviada quando Lor’themar chegou do seu lado e perguntou:

– Tem certeza?

Ash fez que sim com a cabeça.

– Ele só está assustado. – disse ajovem em voz baixa – Ficar sozinho no escuro é ruim... Ele tem motivos de estar assim...

O lorde regente a encarou longamente. Então, ela lembrava.

– Sei como se sente milady...

– Ash. – interrompeu sem tirar os olhos da jaula coberta – Me chame apenas de Ash.

Lor’themar sorriu.

– Muito bem, Lady Ash. Imagino que você tem empatia por esse lobo porque vocês passaram por algo semelhante. – e dando uma pausa, baixou a voz antes de dizer – Sinto falar sobre isso, mas fui eu quem a tirei do porão no dia em que seus pais morreram.

Ash mudou sua atenção da jaula para Lor’themar. Eles se fitaram por um momento até ela responder, com o coração aos pulos.

– Eu sei. – disse num murmúrio – Eu me lembro de você... De sua voz... Do seu cheiro...

O elfo arqueou as sobrancelhas, extremamente surpreso. Abriu a boca para falar algo, mas foi interrompido por um grito animado, que só podia pertencer a uma pessoa.

– É verdade que tem um lobo assassino aqui??? – gritou Karen chegando correndo com Saba em seus calcanhares.

– Quero ver! Quero ver! – gritava a pequena orquisa.

As duas já se dirigiam a mil para a jaula quando foram pegar rapidamente por Huaru, que as levantou pela gola da roupa, sem nenhum esforço.

– Não, não mocinhas. – disse o paladino – Esse animal é perigoso. Vocês não podem chegar perto.

As meninas começaram a reclamar e só se calaram quando Luxuriah parou de frente a elas com as mãos na cintura.

– Ah, que bom que as senhoritas apareceram... Me poupam o trabalho de caçar vocês... — a voz de Luxuriah deixou claro que as meninas estavam em apuros.

Karen e Saba se entreolharam, assustadas.

– Coloque-as no chão Huaru.

O paladino pôs gentilmente as meninas no chão, que ficaram imóveis diante do olhar gélido da caçadora. Luxuriah então pegou na orelha de cada uma e as arrastou até onde estava Ash e Lor'themar.

– Muito bem pestinhas, peçam desculpas a Ash!

– Desculpa Ash... — pediram com as orelhas ainda presas entre os dedos fortes de Luxuriah.

A jovem caçadora tinha um coração bom demais para ficar chateada com as meninas. Sabia que, no fundo, elas não fizeram de propósito. O motivo real de sua raiva, percebeu, era o medo do que teria acontecido com aquelas duas se ela não tivesse aparecido naquele momento. Os murlocs podiam ter pegado as duasferindo-as gravemente ou pior.

– Estão desculpadas. — disse — Mas me prometam que não vão mais se afastarem tanto da casa e se colocarem em perigo.

As meninas fizeram uma careta diante do pedido, mas Luxuriah apertou mais as orelhas das duas que começaram a choramingar.

– Eu prometo! — falou Karen chorosa.

– Eu também!! — concordou Saba no mesmo tom.

Luxuriah pareceu satisfeita e largou as meninas. Karen e Saba ficaram alisando as orelhas, com os olhos marejados de lágrimas, mas não ousaram reclamar nem dizer uma única palavra. Quem estava visivelmente insatisfeito com a atitude da primogênita era Lor'themar.

– Acredito que não deva assim que você deva tratar a futura rainha, Luxuriah. – censurou ele.

A caçadora virou a cabeça na direção do lorde, com os olhos faiscando.

– Como é? — perguntou eriçada.

Lor'themar não se abalou com a raiva presente na fala da jovem.

– Karensky será nossa próxima rainha, e você não deve tratá-la dessa forma. Qualquer agressão física pode ser considerada traição e o desrespeito à figura dela deve ser punida. Então, você não pode...

– Sério? Eu estou ouvindo isso mesmo?

A pergunta, para a surpresa de todos, não partiu de Luxuriah, mas de Ash que estava ao lado de Lor'themar. O lorde regente a olhou, surpreso, tanto pela agressividade com que aquela pergunta fora feita, quanto pelo olhar decepcionado que agora Ash lhe dirigia.

– Karensky é uma criança! — continuou a jovem caçadora com o tom de voz alterado — Ela deve ser educada sendo rainha ou não! E a obrigação de fazer isso é nossa, como irmãs! Luxuriah e Kassyeh nos criaram e vão continuar fazendo isso, independente de nossa ligação com a linhagem Andassol! — Ash apertou os olhos para o lorde — A Karensky tem que aprender que os erros dela têm consequências sim! E se eu não tivesse chegado? E se os murlocs tivessem pegado as duas? Você não teria rainha, nós não teríamos uma irmã e os pais de Saba perderiam a única filha! E milorde acha que isso deve ficar impune?!

Lor'themar engasgou antes de responder:

– Não, claro que não, mas chegar ao castigo físico...

– Não é da sua conta como a Lux nos repreende! — cortou Ash secamente — Karensky deve aprender a não se colocar em risco, nem a desrespeitar as ordens dos mais velhos! Ou isso acontece, ou teremos uma regente egoísta e inconsequente! Um outro príncipe Kael'thas!

Se Lor'themar parecia chocado com a atitude inesperada de Ash, Luxuriah estava radiante de felicidade. Ver o lorde regente tão desestruturado por estar ouvindo aquelas palavras tão duras da boca daquela que ele achava ser a irmã mais dócil era esplêndido. E ele não era o único espantado. Huaru e Tewdric estavam igualmente surpresos, apesar de que, no caso do orc, era uma agradável novidade em ver aquela fúria de sua irmãzinha. Kassyeh, ao contrário, não estava surpresa; sabia que quando o assunto era a segurança da caçula, Ash podia virar uma besta tão feroz quanto Bolota.

Quando Lor'themar se recuperou do susto, pigarreou antes de falar.

– Você tem razão milady. — e se curvando, acrescentou — Peço perdão.

Ash ainda estava furiosa demais com ele para ficar encabulada com o olhar que ele lhe dirigiu. Continuava com a cabeça erguida, altiva e com a certeza que estava fazendo o melhor para sua irmãzinha irritante, sapeca, mas muito amada por ela.

– Muito bem. — falou Luxuriah extremamente satisfeita — Desculpas aceitas Lor'themar. Agora que já resolvemos esse problema, pode mostrar o que você trouxe para Karensky.

A pequena elfa, que até então tinha se mantido calada e resignada com a bronca que levara, voltou ao seu estado normal de excitação, olhando para a jaula com ansiedade.

– Oba, oba, o lobo assassino é pra mim? — perguntou empolgada.

– Ah, deixa eu brincar com ele Karen, deixa! — pediu Saba se animando também.

– Claro, claro! — respondeu a menina — Vamos brincar nós duas!

– Podem ir tirando o falcoztruz da chuva baixinhas! — falou Ash com o nariz empinado — O lobo assassino é meu. E o nome dele é Bolota.

As meninas ficaram extremamente desapontadas.

– Ninguém aqui vai brincar com o lobo assassino. — falou logo Luxuriah para evitar qualquer pedido das meninas — O que o lorde regente te trouxe foi outra coisa.

– Se me permite... — pediu ele olhando para Luxuriah.

A caçadora o encarou.

– Podem ir. — respondeu.

Lor'themar ofereceu uma mão a Karen e a outra a Saba. As meninas aceitaram o oferecimento com empolgação e seguiram com o lorde regente na direção do estábulo. Huaru, Tewdric e Kassyeh foram em seguida, curiosos também em relação ao filhote branco de falcoztruz. Ash ficou para trás, ainda olhando para a jaula e pensando em pedir para que os servos levassem Bolota até um lugar fresco e silencioso para que o lobo pudesse se acalmar antes dela começar as tentativas para domar a fera. Seria bom também que ele estivesse bem alimentado, para não tentar comer sua futura dona.

– Estou orgulhosa de você.

Luxuriah também tinha ficado para trás e agora falava com a irmã. Ash sorriu timidamente para a irmã.

– O lorde regente pode querer nos ajudar e nos proteger, mas se meter em como você cria Karen é demais. — se justificou a jovem — Você acha que fui dura demais? — perguntou preocupada, agora que a raiva havia passado um pouco.

– De forma alguma! — respondeu Luxuriah — Se você não tivesse dito, eu o faria. — e encarando a irmã, continuou — Você me deixou tranquila com sua atitude. Achei que estava apaixonada demais pelo lorde regente.

O coração de Ash disparou e seu rosto ficou extremamente vermelho.

– Então... — a jovem caçadora sabia que tinha que falar com cautela — Você acha que não estou apaixonada pelo lorde regente, não é?

Para sua surpresa, Luxuriah caiu na risada enquanto balançava a cabeça em negativa.

– Minha querida Ashrial, eu tenho certeza que você está apaixonada por Lor'themar Theron. Mas fiquei feliz em ver que esse sentimento não vai fazer você baixar a cabeça para ele e aceitar suas palavras como indiscutíveis. — olhou com carinho para a irmã encabulada — É bom saber que você pode dizer um belo e redondo "não" para ele e que não tem medo de expressar suas opiniões.

Ash teve vontade de pular dentro da jaula de Bolota e implorar para que ele a comesse. Mas antes que fizesse isso, foi puxada pela irmã, que a tomou pelo braço.

– Não faça essa cara Ash, isso aconteceria mais cedo ou mais tarde. E apesar de tudo, Lor'themar Theron é um bom elfo — e sorrindo maliciosamente, acrescentou — Além de ser muito bonito...

A jovem não respondeu. Achava que vomitaria se respondesse. Por isso, deixou-se ser levada até o estábulo, apesar da vontade de desaparecer da vista de todos.

Lá dentro do estábulo estava o motivo da visita do lorde regente. Em um cesto forrado com seda vermelha e dourado estava o filhote de falcoztruz branco. Tudo sumiu da mente de Ash, pois aquilo era coisa mais linda que ela já vira em toda vida. Era um pequeno falcoztruz, com a pelagem branca como a neve, mas que nas pontas das penas das asas tinha uma cor arroxeada bem clara. O bico do filhote era dourado e ele possuía brilhantes olhos azuis, que encaravam a plateia com curiosidade. Ash estava fascinada, e não era a única.

– Que lindo... – murmurou Kassyeh.

– Muito lindo mesmo. – concordou Luxuriah.

– Ele realmente parece mágico. – comentou Huaru.

– Esse bicho se come? – perguntou Tewdric antes de receber uma cotovelada de Luxuriah – Ai, porque você me bateu?!

– Falcoztruzes não são comida Tewdric! – ralhou a caçadora — Da mesma forma como vocês orcs não comem os lobos de vocês!

– Posso tocar nele? – perguntou Saba a Lor’themar.

– Claro Saba. Só seja carinhosa.

A pequena orquisa esticou a mão e com cuidado passou os dedos na cabeça do filhote, que piou de satisfação.

– Acho que ele gostou do mim! – comemorou a menina.

Karen era a única que continuava calada. Desde que vira a coisinha branca no cesto vermelho, não conseguia acreditar que aquela criatura maravilhosa seria dela, não como propriedade, mas como um companheiro. Imaginou-se usando uma armadura reluzente como a de Huaru, montada na majestosa criatura que o filhote se tornaria e defendendo seu povo. Seu coração se encheu de alegria e a menina sorriu para o falcoztruz. O animalzinho fixou seus olhos nela e piou como se concordasse com seus pensamentos.

– Ele é seu, princesa. –disse Lor’themar carinhosamente – Pode pegá-lo se quiser.

A pequena elfa estendeu as mãos e pegou com cuidado o filhote. O filhote de falcoztruz se acomodou em seu colo e bicou de leve sua orelha. A menina riu com as cócegas que o carinho fez e inclinou o filhote na direção de Saba para que ele fizesse o mesmo na amiga. Saba deu um gritinho e soltou risadas enquanto o filhote também bicava sua orelha. Os adultos se entreolharam e toda a tensão que permeara entre eles se esvaiu diante da cena fofa que se seguiu.

– É sua responsabilidade cuidar para que ele possa crescer e se tornar seu companheiro, princesa. – falou o lorde regente –É bom também que você dê um nome para ele. Um nome significativo, que possa representar suas ambições futuras, seu papel como rainha e-

– Galinha! – disse Karen de repente.

– Como? – perguntou Lor’themar confuso.

– O nome dele será Galinha! – exclamou a menina, muito animada com sua ideia.

– Poxa, que nome legal Karen! – disse Saba admirada – Você escolheu bem!

Foi impossível os presentes não caírem na risada diante da expressão mortificada de Lor’themar Theron.

– Princesa Karensky. – começou ele depois que sua voz voltou – Não acha melhor pensar um pouco mais e dar um nome mais...Digo menos... – ele procurava uma forma de falar o que pensava sem ofender a menina que o encarava placidamente –Um nome diferente de algo comum como... Galinha... – essa última palavra foi dita em um murmúrio.

– Não, gostei desse nome. – disse Karen tranquilamente – Vai ser Galinha mesmo! – e se virando para Luxuriah, perguntou – Ele pode dormir comigo no quarto?

– Deixa Lux, deixa! – pediu Saba dando pulinhos.

Luxuriah estava feliz demais com o choque dado pelas duas irmãs mais novas em Lor’themar para negar qualquer coisa naquele momento.

– Claro meninas, vocês podem dormir com ele no quarto. Mas serão as responsáveis por limpar o cocô dele.

– Certo! – gritou Karen empolgada. O filhote de falcoztruz branco, agora chamado Galinha, piou alto como se comemorasse também sua ida pro quarto da dona. A menina então olhou para Lor’themar e sorriu – Obrigada Temma por trazer meu falcoztruz. Vai ficar pra merendar com a gente?

– Claro que vai! – respondeu Luxuriah. Ela não perderia de ficar olhando a expressão desesperada de Lor’themar por nada em Azeroth – O lorde regente não recusaria esse convite da futura rainha.

Lor’themar encarou Luxuriah e viu o quanto ela estava se divertindo com a situação.

– Claro que ficarei princesa. – respondeu derrotado – Será um prazer.

Karen soltou um gritinho de aprovação e então saiu correndo com Galinha nos braços, sendo seguida por Saba. Kassyeh e Tewdric seguiram logo atrás com Ash e Huaru. Luxuriah ainda olhava com um sorriso divertido para Lor’themar.

– Não vem bebê? – perguntou o tauren se virando para ver porque sua elfa não o seguia.

– Claro amor. – e batendo de leve no ombro de Lor’themar, falou sorridente – Não se preocupe. Esse é apenas o começo. — e saiu.

Lor’themar suspirou. Sim, não duvidava nada que aquele era apenas o começo de uma longa, espinhosa e dolorosa jornada.

*************************

Anduin encarou sua irmã de criação e ficou seperguntando se ela estaria decepcionada ou não com a visita feita a Aethas Fendessol. A expressão da jovem, contudo, nada demonstravam. Estava quase na hora de voltar a Ventobravo, mas mesmo assim Arshe fizera questão de fazer um lanche com ele na sua doceria preferida e o rapaz, que não negava comida em hipótese alguma, a seguiu alegremente.

– Como você acha que será a reação do papai ao seu relato, mana Arshe? – perguntou após se sentarem numa mesa próxima à janela da doceria e fazerem seus pedidos a uma gnomida muito simpática.

– Não vamos nos preocupar com isso agora irmãozinho. – respondeu a maga tranquilamente – Sei o que vou falar com tio Varian de uma forma que ele não fique muito frustrado com a falta de uma resposta imediata.

– Que a Luz te abençoe nessa empreitada.

Ambos caíram na risada.Os pedidos logo chegarame Arshe tratou de desviar a conversa para algo mais leve que os problemas da coroa de Ventobravo. Afinal, quando fosse rei, dificilmente Anduin teria tempo para fazer o que estava fazendo aquele momento: conversar livremente com ela, se empanturrando de doce e podendo ser ele mesmo e não o príncipe por uma tarde.

Anduin e Arshe tinham uma relação estreita, mais que muitos irmãos de sangue. O rapaz sabia que podia conversar sobre tudo com a jovem de forma honesta e sentia-se seguro em confiar seus medos e seus sonhos para ela. Como compartilhavam o amor pelos livros e pelo conhecimento, invariavelmente a conversa se voltava para isso. E era sobre um novo tomo que ela achara entre os elfos noturnos que eles conversavam enquanto terminavam de devorar o delicioso lanche.

– Não se preocupe, darei um jeito para você lê-lo. – garantiu Arshe para a felicidade de Anduin – Tyrande disse que ele não pode sair de Darnassus, mas vou dar um jeito.

– Você é demais maninha! –o garoto não se continha de alegria – Está ficando cada vez mais difícil achar coisas interessantes para ler e...

A voz excitada de Anduin foi se perdendo de Arshe no momento em que ela olhou casualmente para a entrada da doceria e congelou diante da visão de alguém que entrava. Foi como se um vulcão adormecido entrasse em erupção dentro de seu peito. Sua mente foi invadida por uma torrente de memórias que há muito a jovem maga achara que estavam esquecidas e por um momento, toda e qualquer outra coisa perdeu a importância. Tudo que ela queria era sumir.

– Maninha? – chamou Anduin forçando-a a retornar à realidade – Você está bem?

Não, ela não estava. Tinha que sair o mais rápido possível dali.

– E-eu... – a voz dela falhou – Acho que já está na hora de ir... Vou pedir a conta.

– Você está passando mal? — a mudança brusca de humor deixou o príncipe extremamente preocupado. Aquilo não era comum a Arshe. – Está sentindo algo?

– Apenas um mal estar... – murmurou ela sabendo que não disfarçara o impacto da visão que tivera – Apenas vamos embora.

Arshe se levantou para pagar a conta, mas estava tão cambaleante que derrubou a bandeja que estava na mesa. A porcelana se espatifou no chão, atraindo a atenção de todos que estavam ali. Arshe entrou em pânico.

– Tudo bem, tudo bem, eu limpo tudinho! – adiantou-se a gnomida, sem demonstrar irritação.

– Vou pagar pelo prejuízo. – garantiu o príncipe pegando sua algibeira – Se puder me dizer quanto deu nossa conta...

Antes que o problema fosse resolvido, uma sombra se projetou próximo a eles.

– Arshe...

O coração de Arshe praticamente parou. Quando Anduin ouviu alguém chamar sua irmã, desviou a atenção do pagamento que fazia e olhou para quem a chamara. Era um elfo sangrento, de cabelos dourados e longos, cujos olhos verdes pareciam faiscar enquanto encarava a jovem humana. Pelas vestes que ele usava, Anduin sabia se tratar de um sacerdote e pelo discreto broche de Luaprata preso em sua roupa, o rapaz sabia que não era alguém neutro.

– Kayliel... – murmurou Arshe com o rosto pálido.

Anduin pagou rapidamente a gnomida e se colocou ao lado de Arshe, em atitude protetora. Kayliel percebeu o gesto e sorriu tranquilamente para o rapaz.

– Você deve ser o Príncipe Anduin. – disse Kayliel calmamente fazendo uma breve reverência – É um prazer conhecer o jovem que Arshe considera um irmão.

– Igualmente. – falou educadamente o rapaz, mas sem fazer nenhum cumprimento – Mas sinto dizer que minha irmã nunca falou sobre você.

Kayliel não pareceu abalado com a revelação.

– Claro que não. – concordou antes de olhar novamente para a jovem – Eu soube do seu pai. Sinto muito... – ele parecia sentir mesmo.

– Todos sentimos a falta de Bolvar. – Anduin queria continuar falando enquanto Arshe parecia tentar recuperar a voz – Foi uma perda muito significativa para nosso povo.

– Imagino que foi mesmo. – concordou o elfo.

– Algumas perdas são sentidas, outras não. – falou de repente Arshe. Além de ter recuperado a voz, a garota aparentemente recuperou também algo mais. Era mágoa. –Temos que ir agora Anduin. – falou rapidamente e começou de sair do ambiente, puxando o irmão pelo braço.

Kayliel estendeu a mão, como se quisesse tocá-la, mas o olhar rápido que o jovem príncipe lhe deu foi o suficiente para que ele a recolhesse.

– Não vai se despedir, Arshe? – perguntou o sacerdote entristecido.

Arshe parou por um momento e virou o rosto na direção de Kayliel.

– Não me lembro de você ter se despedido de mim da última vez, Kayliel.

E sem mais uma palavra, saiu da doceria.

Anduin estava confuso e cheio de perguntas para fazer para a irmã. Todavia, o semblante dela estava transtornado, como o rapaz nunca vira antes. Jamais vira alguém desestabilizar Arshe daquela forma, e ele se perguntou que mal o sacerdote poderia ter feito à maga.

Após se reencontrarem com os guardas e voltarem a Ventobravo, Arshe acompanhou Anduin até o quarto do príncipe. Parou na entradado aposento e verificou se estavam sozinhos para então dizer:

– Irmãozinho, não fale nada sobre Kayliel para seu pai ou qualquer outra pessoa, eu lhe peço. – sua voz era desesperada.

– Não falarei nada maninha. – garantiu Anduin e Arshe relaxou – Mas me diga, o que aconteceu entre você e aquele elfo sangrento?

Arshe respirou fundo, acariciou o cabelo do príncipe com as duas mãos e depois segurou seu rosto delicadamente.

– Prometo a você que um dia lhe contarei. –jurou – Mas não hoje.

Algo passou pela cabeça de Anduin e ele desejou estar totalmente errado. Mesmo assim, não conseguiu se controlar e perguntou:

– Ele é o motivo de você não ter escolhido seu noivo ainda?

Arshe sorriu para ele e deu um carinhoso beijo em sua bochecha.

– Tenha uma boa noite irmãozinho. Vemo-nos amanhã. – e se afastou pelo corredor deixando Anduin confuso e preocupado.

Apesar de saber que seu tio Varian esperava as notícias que ela tinha com ansiedade, se dirigiu até seu quarto. Ele não se importaria se ela demorasse um pouco sob a alegação de tomar um banho e se arrumar para entrar na presença do rei. Talvez até risse se soubesse contar da forma certa. Todavia, assim que entrou em seus aposentos e fechou a porta com o ferrolho, Arshe caiu pesadamente de joelhos sobre o carpete e chorou copiosamente toda a dor que sempre achara que o tempo havia curado.

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Lor’themar sempre soubera que passaria por dificuldades com as irmãs Fendessol, mas logo percebeu que o tudo o que imaginara não correspondia à realidade.

Era infinitamente pior.

E Luxuriah faria o possível para piorar ainda mais a situação.

Para sua surpresa, percebeu que teria em Huaru um aliado, ainda que indiretamente. O paladino era sensato e aparentemente que era a única pessoa a quem Luxuriah realmente dava ouvidos. Fora ele quem intercedera em seu favor quando o lorde regente comentara, durante o chá que Kassyeh mandara preparar, a necessidade delas se mudarem para a Torre Solfúria.

– Eu acho uma excelente ideia bebê. – disse Huaru quando Luxuriah mostrou seu desagrado com a sugestão – Vocês ficariam mais seguras e protegidas.

– Perderíamos toda nossa intimidade. – contestou ela, mas de uma forma suave, já que falava com seu namorado.

– Isso eu posso garantir que não vai acontecer. – falou o lorde regente – Vocês terão toda a liberdade quem sempre tiveram.

– Vou ter acesso à cozinha? – perguntou Kassyeh interessada.

– Vocês terão acesso a tudo na Torre. Há espaço para o treinamento de paladina da princesa Karensky, para o treinamento de magia da princesa Kassyeh e também acesso aos animais do estábulo e área dos patrulheiros para as princesas Luxuriah e Ashrial.

Ash estremeceu quando ele falou seu nome, mas evitou olhá-lo diretamente.

– Saba vai poder dormir no meu quarto? – quis saber Karen enquanto dava biscoitos à Galinha.

– Saba poderá ter seu próprio quarto lá. – garantiu Lor’themar.

– Que legal! Vou ter um quarto! – animou-se Saba.

– Os quartos podem ser vizinhos e terem uma porta! – sugeriu Karen – Para a gente brincar o tempo todo!

– Podemos fazer uma portinha pra Galinha também! – completou a pequena orquisa.

E elas se esqueceram dos adultos em meio aos seus planos.

– Você vai se arrepender disso. – disse Luxuriah franzindo a testa.

– E então? – perguntou Lor’themar ansioso.

Luxuriah olhou para as irmãs e para Huaru. Não podia contar com a opinião de Tewdric, já que orc parecia mais interessado em tentar bolinar Kassyeh por baixo da mesa. Quando todos assentiram, ela respondeu.

– Tudo bem. Iremos morar na Torre Solfúria. Porém – ela fez uma pausa – vamos manter nossas casas funcionando e iremos para elas quando bem entendermos.

– Nada mais justo. – concordou Lor’themar.

Após o chá, Lor’themar se despediu das princesas. Antes mesmo que ele pudesse sair, a atenção das anfitriãs fora desviado para outros assuntos. Luxuriah teve que ralhar com Karen por estar tentando colocar Galinha para voar, jogando-o em cima do sofá, enquanto Huaru orientava sua pupila a ser mais responsável com o filhote. Kassyeh e Tewdric sumiram escada acima e Saba continuava comendo doces vorazmente, enquanto observava Galinha pousar mais uma vez desajeitadamente no sofá e Karen receber um cascudo da irmã. Percebendo que fora totalmente ignorado, Lor’themar se dirigiu até Ash, que olhava com ansiedade pela janela para a jaula de Bolota que fora colocada no quintal da casa.

– Lady Ash. – murmurou ele para que apenas ela ouvisse – Gostaria de lhe falar em particular.

Ash estremeceu da cabeça aos pés. Pensou que tudo que acontecera naquele dia tinha nublado as sensações que Lor’themar, mas é claro que estava muito enganada.

– É claro lorde regente. – murmurou de volta enquanto tentava manter a voz sob controle.

– Me acompanha então até o estábulo?

Ash fez que sim e o seguiu.

O elfo abriu a porta educadamente para que ela passasse e Ash torceu para que Luxuriah não prestasse atenção em sua saída com o lorde regente. Lá fora a noite já estava caindo e o ar fresco do campo os envolvia repleto de aromas de ervas e flores silvestres. Os dois andaram até o estábulo, sem falar nenhuma palavra. Os elfos que acompanharam o lorde regente naquela tarde ainda estavam ali, e rapidamente fizeram uma reverência quando eles se aproximaram.

– Preparem minha montaria. – ordenou.

Os elfos assentiram e sumiram estábulo adentro. Lor’themar então a olhou e o coração deAsh acelerou.

– Gostaria de me desculpar por qualquer coisa que eu possa ter dito que a machucou, Lady Ash.

– Você não me machucou. – disse com sinceridade – Apenas falou coisas que eu não concordei.

– Fico aliviado. – ele sorriu e Ash teve que segurar o suspiro. Lor’themar era simplesmente lindo demais!

– Também peço desculpas pelo meu comportamento. – pediu a jovem – Acho que fui rude com milorde quando falávamos de Karen...

– Sua atitude foi correta e demostra seu amor por sua irmã, milady. Jamais a censuraria por isso.

Houve um momento de silêncio em que eles se encararam.

– Tenho uma proposta para fazer à milady. – disse ele finalmente.

– Uma proposta? – Ash achou estranho que de repente todo seu corpo pareceu ferver diante das palavras dele, e ela torceu para não entrar em combustão.

– Fiquei preocupado com sua situação hoje, com os murlocs. Acho imprescindível que milady tenha um treinamento com uma arma corpo-a-corpo, ainda que seja uma espada leve e curta.

Ash tentou esconder o desânimo. Não sabia exatamente o que esperar, mas com certeza não era nada relacionado ao seu desempenho em combate.

– Bem, não há nada que eu possa fazer. – disse – Não há ninguém disponível para me ensinar no momento.

– Por isso estou me colocando à sua disposição para ensiná-la. – e fez uma reverência.

Lor’themar ensinando-a? A mente de Ash entrou em parafuso. Iria aprender a lutar com espada? Iriam ficar momentos sozinhos? Poderia melhorar seu desempenho com o arco?Iriam ficar momentos sozinhos? Ele compartilharia seu conhecimento e experiências? Iriam ficar momentos sozinhos? Poderia se tornar uma caçadora e patrulheira melhor?Iriam ficar momentos sozinhos?

Pela Nascente do Sol, seriam apenas eles dois! Sozinhos!

O elfo percebeu a surpresa dela, mas interpretou da forma errada.

– Desculpe-me a ousadia milady, esqueça meu ofere-

– Quando começamos? – perguntou apressadamente antes que ele concluísse a frase.

Surpreso com a aceitação repentina dela, Lor’themar sorriu.

– Amanhã mesmo, se milady quiser...

– Quero! – ela não iria deixar aquela chance escapar de jeito nenhum. – Quer dizer, seria uma honra aprender espada com milorde. – e fez uma reverência.

– Lor’themar. – falou ele com a voz suave – Se seremos mestre e pupila, talvez tenhamos que deixar algumas formalidade de lado. Pode me chamar apenas de Lor’themar.

O coração dela deu uma volta completa por todo seu corpo.

– Só se você em chamar de Ash. – respondeu franzindo o cenho – Não Lady Ash. Apenas Ash.

– Tudo bem. – concordou.

Os elfos chegaram com a montaria de Lor’themar e Ash ficou triste por ver que a despedida se aproximara. O lorde regente fez-lhe uma reverência que a jovem caçadora retribuiu antes de ele subir na montaria. Quando estava prestes a partir, ele lhe lançou um olhar e um sorriso antes de dizer:

– Até amanhã, Ash.

Ela retribuiu o sorriso.

– Até amanhã, Lor’themar.

O patrulheiro então bateu os calcanhares no falcoztruz que se pôs a andar. Ash ficou parada, observando ele sumir no horizonte e, pela primeira vez na vida, amou intensamente a existência dos murlocs nas praias de Quel’thalas.