Herdeiros da Guerra
15 Capítulo XIV – O mundo se despedaça PARTE I
Aethas nunca estava pronto para enfrentar a visão de sua terra natal devastada, ainda com uma mancha negra cortando a outrora esplendorosa Floresta do Canto Eterno. A dor ainda lhe corroía ao ver maculados e sem vida os lugares por onde correra e brincara quando criança junto de sua irmã. A antiga mansão dos Fendessol havia sido destruída na invasão do Flagelo e ele sequer olhava na direção onde estavam as ruínas do seu lar de infância.
Mesmo assim, estava feliz em voltar. Sentia muitas saudades de suas sobrinhas, principalmente de Kassyeh, com quem compartilhava tantos interesses em comum. Ainda não entendia como uma menina tão doce e delicada havia se interessado por um orc, mas no fundo não se espantava com aquilo. Afinal, ela era filha de Dhomm e tudo se podia esperar de quem carregava o sangue daquele patrulheiro.
O arquimago suspirou. Não gostara muito de Dhomm, verdade fosse dita, mas ele fizera sua irmã feliz e lhe deixara sobrinhas maravilhosas. Talvez, se o embate deles não tivesse ocorrido no dia da fuga do casal, poderiam ter sido amigos ou pelo menos não se detestariam. Mas eram apenas suposições, coisas das quais ele jamais teria certeza.
Quando atravessou a ponte seguindo a direção da casa de campo de Lady Luelly, percebeu sombras surgindo da floresta em direção à estrada. Diminuiu a marcha de seu falcoztruz e estreitou os olhos ao reconhecer quem se aproximava.
– Aethas Fendessol. — falou Vivithi em tom de deboche — Sempre me surpreendo quando não o encontro com o símbolo do Kirin Tor estampado no peito.
– E eu sempre me surpreendo ao encontrá-la usando roupas. — rebateu Aethas — Já que prefere se despir para qualquer um que o peça.
Vivithi riu alto, sem nenhum sinal de estar ofendida com as palavras do mago.
– Apenas aos que me interessam, querido Aethas. — respondeu maliciosa — Não perco meu tempo com quem não me causa pelo menos um arrepio na espinha.
Aethas fez uma careta para a patrulheira quando ela emparelhou sua montaria com a dele e fez um gesto para os demais patrulheiros irem atrás.
– É incrível como Lor'themar Theron, um lorde tão decente possa ter você como sobrinha. — resmungou o arquimago quando percebeu que teria escolta até a casa das sobrinhas.
– E eu acho incrível como aquelas meninas maravilhosas possam ter um tio tão ranzinza. — Vivithi se aprumou na montaria e o olhou de lado — Com certeza elas não herdaram o bom humor da sua parte da família.
Era sempre assim quando se encontravam. Aethas Fendessol e Vivithi Theron se detestavam e isso não era um segredo para ninguém. O mago achava-a uma péssima influência para sua sobrinhas, principalmente para Luxuriah. Sabia muito bem que o número de amantes que a jovem caçadora tivera nada mais fora que o resultado dos conselhos dados por Vivithi. Temia que ela fizesse o mesmo com Ashrial ou Karensky, afinal elas eram tão jovens e inocentes... Pelo menos nesse quesito tinha que agradecer a existência do orc, o que poupara Kassyeh de ter uma vida tão libidinosa quanto a da irmã mais velha.
Enquanto cavalgavam, Aethas notou que havia diversos guardas ao longo do caminho e que todos batiam continência quando Vivithi passava. Ela ainda parou uma ou duas vezes para dar ordens rápidas e logo voltava ao seu lado.
– Então, está liderando a guarda das meninas... — disse Aethas sem esconder o desagrado.
– Meu tio queria ter certeza que quem ficasse responsável por elas fosse de confiança. — respondeu calmamente — Ninguém se qualifica melhor para o cargo que eu.
– A que ponto chegou o nosso povo... — o mago meneou com a cabeça — Se você é a melhor, não quero nem imaginar que é o pior.
– Você verá, meu caro Aethas, que suas ideias errôneas sobre mim não atinge pessoas que tenham um pouco de sensatez. — retrucou Vivithi.
Aethas a encarou, aborrecido.
– Não são ideias. São fatos. E não são errôneos. Você é uma péssima influência para minhas sobrinhas!
Vivithi parou de repente sua montaria, esticou a mão e puxou as rédeas do falcoztruz de Aethas, que quase caiu quando o animal estacou de repente. Ele olhou a elfa irritado, mas viu uma fúria em seu semblante que freou sua língua.
– Gosto de você tanto quanto você gosta de mim, Lorde Fendessol. — havia escárnio em sua voz — Mas as meninas já têm problemas demais para se preocuparem com nossas picuinhas. Então façamos o seguinte: vamos ser dois adultos responsáveis e deixar nossas briginhas para lá. Pelo menos até o casamento da Kass. — e soltando as rédeas do falcoztruz, se aprumou em sua montaria — Feito?
Não havia como negar que a sugestão fora sensata, pensou Aethas. Imaginava como as coisas deveriam estar na casa, principalmente diante da indecisão de quem seria a Rainha. Evitando suas brigas com Vivithi Theron certamente ajudaria a não aumentar as tensões nos próximos dias. Ainda assim franziu o cenho em desagrado antes de confirmar:
– Feito.
Vivithi sorriu satisfeita e bateu com os pés ao lado de sua montaria para que ela voltasse a andar. Aethas fez o mesmo e eles não trocaram mais nenhuma palavra enquanto cavalgavam pela estrada que cortava a Floresta do Canto Eterno.
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A armadura de malha fez um barulho alto quando Karen caiu no chão pela quarta vez. O martelo de madeira que empunhava voou para longe de sua mão e a menina teve dificuldades para levantar.
– Você não está se concentrando Karensky. — repreendeu Huaru que usava apenas uma roupa de tecido e tinha um martelo de madeira na mão — Pare de olhar para Saba e preste atenção.
Huaru era um paladino calmo, tranquilo e bondoso, mas a pequena elfa descobriu que como professor ele era extremamente exigente. Estavam treinando desde que o sol nascera e ela não conseguia sequer chegar perto dele. Sentada próxima a porta da entrada, estava Saba com Galinha no colo. A menina torceu pela amiga por um bom tempo, até ter a atenção chamada pelo paladino. Depois disso, ficou calada, só observando Karen ser derrubada de novo e de novo e de novo.
– O que eu to fazendo de errado? — perguntou a menina ao se levantar e pegar o martelo.
– Você precisa de foco Karensky. — ele fazia questão de chamá-la pelo nome todo para dar ênfase ao seu papel de professor — Você não pode prestar atenção em mim e em outra coisa. Em um combate, o foco é o inimigo. Mantenha o foco em mim.
Karen respirou fundo. Jogou a trança loura para trás e segurou o martelo com as duas mãos. Procurou olhar apenas para Huaru. O que ele pedira fora simples, devia conseguir apenas chegar perto dele. Mas parecia que havia um muro ao redor do paladino. Só que não podia desistir assim, tão facilmente. Iria chegar tão perto do tauren que iria tocá-lo. Sorriu e avançou novamente.
Kassyeh chegou com uma bandeja com suco bem gelado no momento em que Karen aterrissou com um barulho alto de metal batendo na rocha.
– Quantas quedas já? — perguntou a maga colocando a bandeja numa mesinha ao lado de Saba.
– Cinco com essa. — a pequena orquisa desviou a atenção para a jarra de suco, encheu uma taça e a bebeu com avidez — Hoje tá gostoso, tá quentinho!
– É, estar fazendo um pouco de calor. — Kassyeh se sentou ao lado de Saba e passou a mão carinhosamente pela cabeça de Galinha — Pensei que você ia estar treinando com a Luxuriah.
Saba deu de ombros.
– Eu ia. Mas o Huaru disse que ela acordou, não quis levantar e voltou logo a dormir.
A maga franziu a testa, estranhando a situação.
– Luxuriah sempre acorda cedo... — comentou enquanto Saba via Karen sendo arremessada por Huaru pela sexta vez — Será que ela está doente?
O barulho de uma nova queda de Karen atraiu a atenção da maga, que olhou com dó a irmã esparramada mais uma vez no chão. Só que a menina não parecia nem um pouco inclinada a desistir. Levantou-se mais uma vez, sem nenhum sinal de desânimo, pegou o seu martelo e se aprontou para investir contra Huaru mais uma vez.
– A Karen é corajosa. — disse Saba admirada — Deve tá doendo e ela não desiste...
– É verdade. — Kassyeh estava orgulhosa da caçula. Mas a ausência de sua irmã mais velha ainda estava preocupando-a — Bem, vou ver como está Luxuriah. Aproveito e digo que ela está em débito com você. — e passou a mão nos cabelos escuros e espessos de Saba.
– Está mesmo! — a pequena orquisa sorriu — Quero meu treinamento!
– Pode deixar que eu cobrarei! — e entrou novamente na casa, ouvindo o som da sétima queda de Karen.
Dentro da casa, as servas andavam de um lado para o outro da casa ajeitando tudo com uma preocupação que deixava Kassyeh irritada. Lembrava-se de quando era criança e tinham servos, mas eles nunca pareceram incomodar tanto quanto aqueles enviados por Lor'themar. Lembrava que eram três, e todos haviam servido sua avó também. Lamentara suas mortes durante o ataque do Flagelo e, em respeito a suas memórias, seus pais não quiseram mais ninguém os servindo. Suspirou se perguntando o que Dhomm e Samanthah diriam diante daquela situação.
Subiu as escadas e já estava se aproximando do quarto de Luxuriah, quando foi surpreendida ao ser agarrada por trás e ter seus seios apertados.
– Tewdric! — exclamou — Aqui não!
O orc ignorou os protestos de sua elfa e a virou rapidamente, aplicando um profundo beijo na boca.
– Estou entediado. — justificou o guerreiro — Acho que está na hora de tentar o bebê de novo.
As bochechas de Kassyeh arderam de vergonha quando um servo passou rapidamente e os cumprimentou. Tewdric sequer reparou na presença do elfo.
– Passamos a noite ontem tentando. — disse ela tentando se livrar das mãos do marido, que apenas ria das tentativas dela — Meu tio vai chegar hoje a qualquer momento e preciso recebê-lo.
– Ah, ele vai entender! — o orc a agarrou com força — Ele quer mais sobrinhos, não?
Kassyeh ficou imaginando a expressão do seu tio se visse Tewdric a agarrando de modo tão libidinoso como ele fazia agora. Com certeza ela morreria de vergonha antes de ter qualquer bebê.
– Certo, jájá tentaremos. — disse a maga — Mas deixe-me primeiro ver como está a Lux.
Tewdric assumiu uma expressão preocupada e afrouxou o abraço.
– O que a Lulu tem? — perguntou.
– Não sei, mas ela ainda está deitada.
Agora o orc parecia preocupado de verdade. Todos sabiam que Luxuriah se levantava ao nascer do sol e começava suas atividades junto com o canto dos passarinhos. O fato de ela ainda estar deitada próximo a hora do almoço era realmente estranho.
– Certo, vai lá olhar a Lulu. — ele a soltou a contragosto — Vou descer e ver como tá o treinamento da Karenzinha. Me avisa depois se ela tá bem.
Como prêmio pela preocupação com suas irmãs, Kassyeh aplicou um generoso beijo na boca de seu orc até deixá-lo sem fôlego. Depois, ele lhe sorriu satisfeito, apertou seu bumbum e piscou o olho antes de descer as escadas.
Será que conseguiria manter as mãos do seu marido longe de seu corpo na presença de seu tio? Duvidava. Continuou então seu caminho.
Abriu a porta do quarto de Luxuriah lentamente. Não sabia se encontraria a irmã dormindo ou não, e se ela estivesse mesmo doente, a última coisa que queria era perturbá-la. Mas tão logo colocou a cabeça dentro do aposento, Luxuriah se remexeu na cama e abriu os olhos.
– Bom dia. — sussurrou Kassyeh entrando no quarto e fechando a porta.
– Dia... — murmurou Luxuriah sonolenta.
Kassyeh se aproximou da cama. Aparentemente Luxuriah estava bem, só parecia com muito sono.
– Você está bem? — perguntou.
Luxuriah se espreguiçou e fez que sim com a cabeça.
– Por que eu não estaria? — quis saber a caçadora.
– Já é quase meio-dia. — revelou a outra.
Luxuriah despertou de vez e encarou a irmã surpresa. Olhou para a janela, mas as cortinas ainda estava fechadas. Talvez por isso não tivesse reparado na passagem do tempo.
– Porque Huaru não me acordou? — perguntou Luxuriah sentando-se na cama e jogando as cobertas longe.
– Ele tentou, você voltou a dormir. — a maga respondeu, antes de insistir — Tem certeza que não está sentindo nada?
Para falar a verdade, a caçadora sentia algo estranho sim. Estava com sono, muito sono e seu corpo parecia tomado por uma letargia estranha. Mas se era realmente tão tarde, não podia ficar ali curtindo aquelas sensações. Prometera treinar Saba e seu tio chegaria até o fim da tarde. E também tinha que ver se Ash havia feito contato com o lobo assassino que Tewdric lhe dera. Por isso, não respondeu a irmã, mas passou as pernas para fora da cama e ficou em pé. Ao realizar esse movimento sentiu uma leve tontura, mas que foi o suficiente para ela cair sentada de volta na cama.
– O que foi? — perguntou Kassyeh alarmada quando a irmã levou a mão ao rosto, tonta.
– Tontura. — revelou — Nada demais Kass, deve ser fome... — e respirou fundo antes de ficar em pé novamente — Preciso comer algo antes do almoço. — comentou tentando parecer despreocupada e para tirar aquela expressão de medo do rosto da irmã.
– O que você quer comer? — perguntou a maga seguindo sua irmã pelo quarto, enquanto esta se dirigia pro banheiro.
– Panquecas com geléia de uva silvestre. — Luxuriah disse aquilo e já ficou com água na boca — E chá de maçã com canela.
– Vou pedir para as servas prepararem. — garantiu Kassyeh mais tranquila com a disposição que Luxuriah já mostrava.
– Quero que você prepare. — disse a caçadora enquanto lavava o rosto — Só você consegue deixar as panquecas sequinhas como eu gosto. — e fez uma careta — As de ontem estavam pingando a manteiga. — e um arrepio de nojo percorreu seu corpo.
– Bem, se me deixarem entrar na cozinha, prepararei com todo prazer! — brincou Kassyeh já aliviada.
Para a jovem maga, não havia mais motivos para se preocupar. Sua irmã estava bem. Só tivera uma manhã preguiçosa. Enquanto Luxuriah se vestia e pegava o arco e a aljava, Kassyeh pensou que provavelmente o cansaço da irmã se devia ao exercício intenso com Huaru na noite anterior. Afinal, ela sabia muito bem o que um macho ávido pelo prazer podia fazer com o corpo de pequenas elfas como elas.
– Vamos. — disse Luxuriah já pronta e encaminhando para fora.
Kassyeh a acompanhou alegremente, cantarolando, enquanto desciam as escadas. Depois, Luxuriah se dirigiu diretamente para a cozinha, e quando chegou lá, falou com a voz firme:
– Podem sair todas vocês.
Tanto Kassyeh quanto as servas a olharam, sem entender.
– Qual o problema alteza? — perguntou uma delas com a voz delicada e subserviente.
– O problema é que quero comer panquecas feitas pela Kassyeh. Então, chispem daqui e deixem-na preparar as panquecas!
A maga teve vontade de começar a rir, mas o horror na expressão das elfas na cozinha a fez se conter. Com certeza, acostumadas a servir a família real Andassol, jamais consideraram a hipótese de a realeza cozinhar.
– Podemos fazer a panqueca do jeito que a alteza deseja... — ainda tentou uma delas, mas se calou diante do olhar fulminante de Luxuriah.
– Quero panquecas feitas por Kassyeh. Ponto. Saiam.
Quando as elfas saíram, parecendo desoladas, Kassyeh teve um pouco de pena delas. Afinal, aquele era seu trabalho, cuidar para que nada faltasse às princesas. Depois, pensou a maga, conversaria com todas e diriam que podiam ajudá-la sem problema, desde que deixassem que ela fizesse o que mais gostava de fazer, que era alimentar sua família. Mas naquele momento, iria apenas fazer as panquecas sequinhas para sua irmã faminta.
– Ande logo Kassyeh. — reclamou Luxuriah sentando-se à mesa da cozinha — Estou azul de fome!
Kassyeh pôs o avental alegremente e começou a fazer o café da manhã para sua irmã.
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Ash caminhou em volta da jaula, observando a tenda que os servos armaram em torno do lobo para protegê-lo da luz excessiva. Depois que essa providência foi tomada, os uivos de Bolota diminuíram bastante e ele estava aparentemente mais calmo.
Só aparentemente.
Quando foram colocar comida na jaula, o lobo quase comeu um dos servos. O jovem elfo só se salvou porque se jogou para fora da jaula no último instante e seu companheiro fechou apressadamente a grade. Agora, Ash ouvia o barulho de ossos sendo mastigados e agradecia à Nascente do Sol por ser os ossos de um cervo e não de um servo.
Estava ansiosa. Queria logo entrar ali e ao mesmo tempo tinha medo. Meleth era muito mais calmo e ela ainda saiu com vários arranhões e mordidas. Apesar da empatia que sentia com a dor de Bolota, sabia que não seria fácil.
Se pelo menos Lor'themar estivesse ali...
Recebera uma breve missiva do lorde regente naquela manhã, se desculpando por não poder ir mais cedo para treiná-la por motivos de trabalho. Garantira que iria à tarde e a aconselhou a aproveitar a manhã e mandar consertar seu arco. Também aconselhou uma abordagem leve ao lobo.
– Abordagem leve? Sério? — falou ela em voz alta ouvindo o mastigar de ossos dentro da jaula — Como ter uma abordagem leve nisso?
Bem, não havia. Seria difícil e ela sairia machucada. Mas tinha de fazer.
Olhou brevemente para a casa de campo. Karen treinava com Huaru na parte da frente. Luxuriah ainda estava deitada. Kassyeh devia estar entretida com Tewdric. Podia aproveitar aquele momento de solidão para fazer o que tinha que fazer sem ninguém demonstrando preocupação exagerada com seu bem estar. Respirou fundo e se encaminhou para a tenda.
A seu pedido, Bolota estava o mais afastado possível da casa, embaixo de uma frondosa árvore que ajudava a segurar a tenda que cobria a jaula. Quando a elfa entrou na tenda, Bolota levantou a cabeça e rosnou. O lobo estava deitado, com as patas em cima de vários ossos, que estavam quase reduzidos a pó. Ash caminhou até a jaula, e sentou-se de frente para as grades. Bolota acompanhou o movimento com os olhos, mas não se mexeu.
– Olá. — disse a elfa.
O lobo rosnou.
Ash começou a rir nervosamente.
– Começar com um 'olá' foi meio idiota, não é? — ela suspirou — Mas eu realmente não sei como começar com você.
Bolota abocanhou outro osso, sem tirar os olhos da elfa.
– Tewdric me disse que iam te sacrificar... Que você vivia em um porão... Eu estive em um porão uma vez... Quando os humanos mataram meus pais... — ela olhou para as mãos e analisou os calos nos dedos, frutos do treinamento com o arco — Seus pais também foram mortos?
Calou-se como se esperasse uma resposta, mas tudo que teve foi o som da pata de Bolota remexendo os restos de sua comida.
– Talvez, não é? Ouvi dizer que os humanos não poupam nem mesmo os animais da Horda. — um arrepio de nojo percorreu seu corpo — São monstros, todos eles. — ela fechou as mãos, com a raiva dominando seu corpo — Eu os odeio! Eu os odeio!
A explosão de raiva chamou a atenção do lobo, que a olhou, não com a raiva de antes, mas com curiosidade. Parecia estar reconhecendo o sentimento, pois levantou o focinho e cheirou o ar à sua volta antes de se levantar e se aproximar da elfa. Quando Ash o olhou, Bolota rosnou, parou e deitou-se onde estava.
– Não sou uma boa domadora não é? — perguntou ao ver Bolota arreganhar os dentes em sua direção — Se fosse Luxuriah, já teria entrado ai e você já estaria no colo dela como um filhotinho. Eu sou um fracasso mesmo...
Inesperadamente, Bolota arremeteu contra as grades, assustando Ash e fazendo-a cair para trás. A boca do lobo ficou entre as barras de ferro enquanto ele tentava mordê-la com os olhos furiosos. Por um momento a elfa achou que aquela reação foi uma resposta bem mal humorada às suas palavras, como se o Bolota estivesse brigando por ela ter uma visão tão depreciativa de si mesma. Por um momento, pensou que o lobo se preocupava com ela o suficiente para lhe dar uma bronca e tentar tirá-la daquela letargia. E foi essa impressão naquele momento que fez Ash agir por impulso. Quando Bolota tirou a boca das grades e voltou furioso para sua pilha de ossos, a jovem caçadora se precipitou para a porta da jaula, abriu-a e entrou.
Se ela esperava uma reação diferente do lobo, não sabia dizer. Podia estar esperando que aquele rosnado fora realmente um rosnado de preocupação. Podia esperar que Bolota deitasse a cabeça em seu colo, como um filhotinho. Ou então esperava o que realmente aconteceu. Todavia, no final não importava. Ela criara coragem e se atirara na situação. Iria encarar o que quer que acontecesse.
E o que aconteceu foi que Bolota pulou em cima de Ashrial não para deitar a cabeça em seu colo, mas para despedaçá-la. A jovem conseguiu salvar o pescoço da mandíbula do lobo, mas suas presas cravaram em seu ombro, fazendo o sangue esguichar. Ela poderia ter gritado por ajuda. Podia ter atacado o lobo. Mas não fez nada disso, pelo contrário. Abraçou o corpo peludo carinhosamente e começou a cantar baixinho, a mesma música que Dhomm cantava para as filhas. Uma canção de ninar. Ela cantou enquanto as lágrimas de dor rolavam de sua face. Talvez estivesse em choque e não soubesse o que fazer. Mas seguiu seu coração e cantou para Bolota. No início, as presas do lobo continuaram cortando sua carne, mas a medida que a canção se estendia, a força da mordida diminuía, até que Bolota soltou a carne macia da elfa e passou a lamber seu sangue, ganindo como um filhotinho, como se pedisse desculpas à mãe-lobo pela brincadeira sem graça e pela dor causada.
– Sem problemas.... — murmurou Ash coçando as orelhas de Bolota — Isso não é nada...
E o lobo deitou sua cabeça no colo da elfa, subserviente e submisso.
Bolota agora pertencia a Ash, de corpo e alma.
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Saba era uma excelente arqueira, Luxuriah tinha que admitir. Apesar de se atrapalhar com o arco no início, logo ela estava com uma desenvoltura que faria crianças élficas se envergonharem. Mas a elfa acreditava que uma besta seria mais apropriada para as mãos da menina. Iria conseguir uma no dia seguinte.
Agora era a vez de Karen observar o treinamento da amiga. Depois de cair inúmeras vezes, Huaru achou melhor dar uma pausa e conversar com a menina. Não queria que ela desanimasse. Era o início do seu treinamento e era normal não conseguir fazer tudo o que se imaginava.
– O primeiro passo é sempre o mais difícil. — disse o paladino sabiamente — Não desanime.
– Não tô desanimada. — Karen tirou as luvas, revelando as pequenas mãos esfoladas do treinamento da manhã — Só desapontada comigo.
– Não fique. — e pegando nas mãos da menina, justificou-se — Serei rigoroso com você Karen, pois se eu não for, o mundo a devorará.
Karen lhe sorriu.
– Eu sei Huhu. Pode ser duro comigo, eu não me importo.
Aquela pequena elfa seria uma excelente paladina, Huaru tinha certeza disso.
– Vou curar suas mãos. — anunciou o jovem tauren com as mãos exibindo um brilho dourado.
– Deixa eu tentar! Deixa! — pediu a Karen.
– Mas você nem aprendeu a fazer magia de cura ainda. — retrucou o paladino docemente.
– Me ensina, ora! — e franziu a testa.
Enquanto corrigia a postura de Saba, Luxuriah deu uma olhada para trás e viu quando Huaru puxava um pergaminho que estava preso ao cinto e passou-o para Karen, enquanto falava algo. Um sentimento quente e aconchegante se espalhou pelo seu peito e fez um sorriso de felicidade surgir sem eu rosto. Não imaginava nunca que alguém pudesse fazer brotar tal sensação dentro dela, mas Huaru podia. Não entendia muito bem porque, mas nos últimos dias tudo que queria era se aconchegar ao corpo quente dele e esquecer o mundo. Estava se sentindo tão carente e solitária... Franziu a testa em reprimenda a si mesma. Esperava não se tornar uma daquelas elfas grudentas que exigem atenção do seu amado o tempo todo. Só que nunca precisava pedir nada. Huaru estava sempre ali, sempre presente, mesmo quando não estava perto. Era um sentimento de segurança que ela nunca imaginou que alguém pudesse lhe dar.
Huaru deve ter se sentido observado, pois levantou a cabeça e encarou Luxuriah. Sorriram um para o outro antes de voltarem suas atenções aos seus respectivos discípulos, o que foi sensato, pois Saba estava quase lançando a flecha na direção oposta da qual devia lançar.
– Não Saba, abaixe o cotovelo. — disse Luxuria, antes de corrigir novamente — Não tão baixo!
– A corda é dura... — reclamou a menina afrouxando a flecha.
– Não desista Saba você está indo muito bem. — a elfa estava sendo sincera — Acho que vou aconselhar sua mãe a deixá-la um pouco de tempo mais conosco, assim pode ter mais aulas, o que acha?
Luxuriah fez o convite sem raciocinar muito, mas depois que Saba lhe direcionou um enorme e feliz sorriso, deixando suas pequenas presas à mostra, viu que tinha feito o certo. Karen precisava de companhia. E a própria Luxuriah precisaria de uma também enquanto Huaru e sua irmã treinavam já que Kassyeh iria 'treinar' com Tewdric e Lor'themar se oferecera para dar aulas de espada a Ash.
Só então se tocou que Ash ficaria sozinha a mercê do Lorde Regente.
Antes que pudesse processar aquela ideia, ouviu o barulho de vários falcoztruz se aproximando. O som fez com que a atenção de todos que estavam ali se voltassem para a estrada e viram os viajantes que se aproximavam. Karen deu um gritinho, esqueceu todas as dores do treinamento e se atirou na direção dos recém chegados.
– Tio Tatá!!!! — gritava ela extremamente feliz.
Aethas abriu um imenso sorriso ao ver sua sobrinha caçula vindo em sua direção. Apeou da montaria e abriu os braços para receber o abraço. O que ele com certeza não esperava era que a menina estivesse usando uma pesada armadura de malha. Quando Karen pulou nos braços do tio, este se surpreendeu com o peso e acabou se desequilibrado, caindo dolorosamente no chão com Karen sobre seu peito, fazendo com que o mago perdesse todo o fôlego.
A risada de Vivithi se sobrepôs a todas as outras.
– Titio, você tá bem? — perguntou Karen preocupada, mas sem sair de cima de Aethas.
– Mais um pouquinho e você o matava, Karen. — Vivithi falou, mas não fez nenhuma menção de ir ajudar o mago, tarefa que coube a Luxuriah.
Depois de tirar a irmã de cima do tio, que se sentou no chão ofegante, Luxuriah reclamou com a caçula.
– Você sabe que está usando uma armadura de malha Karensky. Não devia se jogar assim em cima do tio. Ele é um mago, lembra?
– Desculpa tio Tatá... — pediu a menina fazendo bico.
Quando recuperou o fôlego,o mago colocou a mão no peito ainda sentindo a dor do impacto, antes de perguntar:
– Armadura de malha?
Foi então que reparou que a menina não usava seus habituais vestidos esvoaçantes, mas estava coberta do pescoço aos pés de uma armadura de malha vermelha e dourada que destacava os cabelos louros trançados de Karen. Levou um tempo para Aethas perceber que sua sobrinha não estava mais trilhando o caminho do sacerdócio.
– Não é legal minha armadura titio? — perguntou Karen sem atentar para o olhar de surpresa do seu tio — Huhu disse que quando eu me acostumar, terei uma de placas, igual a dele!
Aethas olhou para Luxuriah, implorando uma explicação que desse sentido àquelas coisas.
– Karensky decidiu ser paladina, tio. — Luxuriah ofereceu a mão a Aethas, que aceitou de bom grado a ajuda oferecida e levantou-se — Está treinando há alguns dias.
– Paladina? — Aethas, que batia nas vestes tirando a poeira, estava surpreso — E o sacerdócio Karensky? Por que mudou de ideia?
Karen o olhou como se aquela pergunta não tivesse lógica.
– Porque paladinos são muito, muito mais legais! — os olhos da menina brilharam — Eles usam espada, armadura estilosa, se curam e fazem PAFF com o escudo! — e juntando as mãos, empolgada, concluiu — E Temma disse que nunca tivemos uma rainha paladina!
Os olhos de Aethas se arregalaram.
– Rainha paladina?! — o arquimago encarou a menina, depois encarou Luxuriah — Rainha paladina?! — ele parecia que teria um troço a qualquer momento.
– Karensky será a Rainha. — não foi Luxuriah quem falou, mas Vivithi, que apeara de sua montaria e se aproximava — As outras meninas abdicaram do trono. — e olhando para Luxuriah, acrescentou — Se bem que ainda acho que você seria uma rainha fabulosa...
– Espere, espere! — Aethas estava confuso, muito confuso — Quando decidiram que Karensky seria a Rainha?
– Ué, no dia que Temma contou a gente que o rei Anasterian foi nosso vovô! — respondeu Karen sem entender porque o tio parecia tão perdido.
Vivithi não conseguia tirar o sorriso de satisfação do rosto. Aethas parecia totalmente perdido diante das informações que estava recebendo. Quanto mais Karen falava, mais o arquimago parecia que teria um colapso mental. E quando estava claro que ele iria explodir a qualquer momento, Luxuriah interveio:
– Tio, não falamos antes isso por carta porque não queríamos que o Kirin Tor soubesse dessa informação. — a caçadora cruzou os braços — Lor'themar desconfiou que eles pudessem abrir sua correspondência assim que você virasse as costas.
Exatamente a mesma coisa que ele próprio pensara. A constatação que Lor'themar Theron desconfiava tanto do Kirin Tor a ponto de esconder de Aethas a escolha de sua sobrinha mais nova como rainha era preocupante. Como era preocupante o fato de Karensky, que possuía um pouco mais de uma década de vida, seria a nova governante.
Aethas respirou fundo e a cor voltou ao seu rosto. Procurou ignorar as risadinhas de Vivithi e então perguntou:
– Por que Karensky? Por que não você Luxuriah?
Luxuriah arqueou as sobrancelhas.
– Você precisa realmente de resposta, tio?
Não, ele não precisava. Lembrou-se então do Príncipe Anduin e da Princesa Arshe e achou que, no final das contas, eles tiveram sorte. Karen era um amor de menina e com certeza seria mais fácil lidar com ela. Claro, quando ela tivesse idade para governar. Duvidava que Luxuriah ou Lor'themar deixassem a menina sozinha em suas resoluções sem nenhuma experiência. Com certeza era esse o motivo do segredo. Se vazasse quem seria a nova Rainha, mensageiros viriam tentar negociar e não seria possível esconder Karen dessas reuniões. Os mensageiros então perceberiam sua inexperiência e poderiam se aproveitar daquela fragilidade. E diante do sorriso imenso de Karen e sua empolgação, Aethas faria qualquer coisa para manter aquela felicidade protegida.
– Pelo visto eu não estou a par de todas as novidades... — comentou o arquimago passando a mão nos cabelos de Karen.
A menina não precisava de mais nenhum incentivo para começar a falar rapidamente, atropelando os pensamentos de Aethas.
– O senhor não conhece o Ted, nem o Huhu, nem a Saba, nem o Galinha, nem o Bolota...
– Calma Karen, calma! — pediu o elfo rindo — Vamos devagar... Preciso primeiro descobrir a quem pertence esses apelidos... — e suspirando acrescentou — Essa sua mania...
Sem que Aethas percebesse, Huaru e Saba haviam se aproximado para ouvir a conversa. Vivithi cansou-se de rir do mago e fez um sinal para os guardas que estavam com ela para guardarem as montaria e assumirem seus postos. Contudo, não saiu de onde estava; queria muito, muito mesmo, ver a cara de Aethas quando conhecesse Huaru e Tewdric. E se dependesse de Karen, aquilo ia acontecer da forma mais engraçada possível.
– Tio Tatá, essa aqui é Saba, minha amiga! — falou a aprendiz de paladina apontando para a pequena orquisa que chegara ao seu lado.
Aethas sorriu para a menina e se inclinou para cumprimentá-la. Saba então levantou as duas mãos e apalpou o peito do arquimago sem nenhum constrangimento. Depois, balançou a cabeça em afirmativa e falou seriamente:
– É macho!
Enquanto Aethas fitava Saba confuso, todos os outros riram com gosto.
– Claro que é macho Saba! — falou Karen — Não viu quando chamei ele de tio?
– É que ele usa saia! — explicou a pequena orquisa seriamente — Isso me confundiu!
– Perfeitamente plausível sua confusão, Saba. — disse Vivithi com a voz mais delicada que a patrulheira tinha.
Aethas a olhou com raiva, mas nada disse. Preferiu se dirigir a Saba.
– Não é saia Saba. São vestes. — explicou com delicadeza.
– Pra mim é saia. Mas tudo bem, não sou preconceituosa. — e a menina lhe dirigiu um sorriso.
Até o mago riu. Saba era muito fofa e ele estava surpreso. Sempre imaginara que as crianças órquicas eram versões em miniatura dos adultos, seres brutais e violentos. Mas ela era realmente apenas uma criança, curiosa e inocente como Karen. A empatia foi imediata; Aethas adorou a pequena orquisa.
– Você é parente do noivo da Kass? — perguntou ele carinhosamente.
A menina fez que não com a cabeça.
– O Ted não tem família. — disse Karen.
– Claro que tem. — replicou Luxuriah — Nós somos a família dele.
– Nossa Lux! — exclamou Aethas rindo — Pelas suas cartas, tive a impressão que você não gostava do orc.
– Eu gostando ou não, a Kass não deixaria Tewdric. — explicou dando de ombros — Então para evitar que eu arranque a cabeça dele e faça minha irmã infeliz, o melhor é aceitar.
Apesar da fala de Luxuriah, Aethas pode perceber que sua sobrinha gostava do orc companheiro de Kass. Claro que orgulhosa como era, Luxuriah não ia admitir aquele sentimento, mesmo falando que ele era da família. Não pode deixar de se surpreender com aquele fato. Na verdade, aquele encontro familiar com certeza seria recheado de surpresas, uma atrás da outra, para ele. Mas a principal, sem dúvida, era Luxuriah. Aethas notou que havia algo diferente em sua sobrinha mais velha. Ele não sabia dizer o que era, mas Luxuriah estava mudada. Seu olhar estava menos duro e o ar a sua volta, menos pesado. E notou então que, pela primeira vez, Luxuriah estava muito parecida com Samanthah de uma forma que ele não sabia explicar.
Huaru olhou atentamente para Aethas e gostou dele imediatamente. Ele esperava encontrar um mago metido e orgulhoso, como já ouvira falar que os membros do Kirin Tor eram. Todavia, ele não parecia um arquimago poderoso da cidade Dalaran, mas um tio amoroso que passara muito tempo longe e estava lidando com notícias inesperadas. O que será que ele diria de sua presença ali?
Luxuriah percebeu a preocupação de Huaru antes mesmo de olhar para seu semblante. O paladino estava de braços cruzados, ao seu lado, apenas observando a cena. E não demorou para que o olhar de Aethas recaísse sobre ele.
– Tio Aethas — começou Luxuriah — Esse é Huaru. Ele é paladino, o tutor de Karensky — e dando uma pausa, sorriu para Huaru — e também é meu namorado.
No primeiro momento Aethas não processou a informação, pois continuou encarando Huaru, sem nenhuma expressão. Depois, como se finalmente compreendesse o que sua sobrinha tinha lhe dito, seu queixo caiu e ele fitou o paladino como se ele fosse um ser de outro mundo. Nem Huaru nem Luxuriah riram, mas as meninas e Vivithi não se contiveram e caíram na gargalhada. As risadas pararam no momento em que Luxuriah as encarou com censura.
Quando se recuperou da notícia bombástica, Aethas colocou o punho na boca e tossiu como se limpasse a garganta. Sua mente trabalhava velozmente, pensando no que ia dizer de forma que não citasse o trauma de sua sobrinha, nem ofendesse o tauren paladino. Todavia, Aethas foi poupado de dar uma resposta imediata, pois Kassyeh surgira naquele momento na porta de casa e exclamou feliz ao vê-lo:
– Tio Aethas!
– Kass! — respondeu ele aliviado.
A maga se adiantou apressadamente e deu um abraço apertado no tio. Depois que se separaram, Aethas deu uma boa olhada na sobrinha e comentou:
– Você parece estar muito bem!
– Estou muito feliz! — e olhando para o lado, viu que sua irmã estava com os olhos apertados para o tio, parecendo chateada — Ah, o senhor conheceu Saba e Huaru?
Daquela vez não havia como fugir.
– Sim, conheci. — e olhando bem para o paladino que esperava placidamente, cumprimentou — É um prazer Huaru. — colocou a mão no peito e baixou um pouco a cabeça, como os elfos faziam quando conheciam alguém considerado especial — Confesso que estou muito surpreso. Não sabia que Luxuriah estava se relacionando com alguém.
– É um prazer também. — Huaru acenou a cabeça respeitosamente, como os taurens faziam — Nosso relacionamento é recente. — o jovem paladino colocou a mão carinhosamente no ombro de Luxuriah — Bebê provavelmente preferiu contar sobre nós pessoalmente.
– Não nego que estou bastante surpreso. — admitiu Aethas — Luxuriah é uma menina difícil de se conquistar.
– Ela apenas não tinha achado a pessoa certa. — respondeu Huaru com um sorriso.
– Eu gostaria que vocês não falassem de mim como se eu não tivesse aqui. — reclamou a caçadora colocando as mãos na cintura e encarando o tio e o namorado.
Huaru sorriu carinhosamente e deu um beijo carinhoso na bochecha de Luxuriah, que pareceu se derreter de felicidade com aquele gesto. Aethas passou a mão no cabelo e olhou para Kassyeh.
– Isso me deixa muito mais surpreso que seu casamento com o orc.
– Tewdric. — corrigiu Kassyeh delicadamente — O nome dele é Tewdric.
– Certo, e quando eu conhecerei Tewdric?
– Ele já está vindo.
Kassyeh mal acabara de falar quando Tewdric apareceu na porta. Aethas não pode deixar de se assustar um pouco; o orc era imenso e parecia bem perigoso. Mas quando ele se aproximou e sorriu para Kassyeh, o arquimago suspeitou do porquê do relacionamento daqueles dois. E quando Tewdric o encarou com seus olhos profundamente azuis, ele teve certeza. A postura, o ar em volta do orc, a forma como ele olhava para Kassyeh, tudo aquilo só lhe remetia a uma única pessoa.
Dhomm.
– Tewdric, esse é meu tio, Aethas.
Aethas fez menção de fazer o mesmo cumprimento que fizera para Huaru, mas Tewdric não permitiu. Deu um passou a frente e deu um poderoso abraço em Aethas, que levantou o mago do chão. Quem estava presente teve a impressão de ter ouvido os ossos do elfo estalarem.
– É um prazer titio! — disse Tewdric contente.
– Ted, você vai partir o titio Tatá no meio... — falou Karen preocupada.
– Se é que não já quebrou. — completou Saba.
– Tewdric, acho que seria melhor soltar esse ai. Ele não vai aguentar tanto carinho. — disse Vivithi com um sorriso satisfeito na face.
Tewdric largou Aethas, que precisou de um tempo para recuperar o fôlego. Kassyeh se adiantou e colocou a mão no ombro do tio, preocupada.
– Você está bem tio?
Ele fez que sim com a cabeça, ainda sem fôlego para falar nada. Luxuriah deu um beliscão no braço de Tewdric.
– Quer matar nosso tio é? — brigou.
– Ai Lulu! Eu só queria mostrar meu carinho...
– Seu carinho quase partiu ele no meio! — e apertando o beliscão, completou — E não me chame de Lulu!
A discussão com certeza se prolongaria, se não fosse um grito de alegria e triunfo chegou aos ouvidos de todos.
– Consegui! Eu consegui!
Todos se viraram em direção à voz e Luxuriah soltou um grito, esquecendo-se completamente de Aethas e Tewdric. Ash vinha correndo com Bolota ao seu lado, mas a sua corrida era cambaleante. Seu rosto estava pálido e havia sangue em toda a sua roupa. Quando ela chegou próximo aonde estavam todos, Vivithi se surpreendeu com o fato de ela ainda estar de pé.
– Eu... Consegui... — falou ofegante com um imenso sorriso no rosto.
– Ash! — Luxuriah estava tão pálida quanto a irmã — Você está coberta de sangue!
A jovem caçadora olhou para o ombro e viu que a ferida que Bolota havia feito estava bem aberta e ainda gotejava. A adrenalina da conquista que realizara ainda estava em seu corpo, mas logo começou a acabar e o rosto de Ash foi ficando mais pálido e sua cabeça mais pesada.
– Eu... consegui... — falou mais uma vez antes de sua vista escurecer e ela tombar para o lado, desmaiada.
E Aethas viu, em pânico, que Luxuriah caia desmaiada também.
É, aquela viagem prometia.
********************
Quando abriu os olhos, Ash precisou um tempo para que sua vista entrasse em foco. Respirou fundo e sentiu uma pontada de dor no ombro. Olhou para o lado e viu bandagens cobrindo o ferimento. Lembrou vagamente de ter sido atacada por Bolota antes que conseguisse domá-lo. Procurou pelo seu lobo e ficou aliviada de vê-lo deitado aos seus pés na cama. Sorriu.
Mas como chegara ali na cama?
– Que bom que você acordou.
Kassyeh estava na cadeira ao seu lado, lendo um livro. Quando viu que a irmã a olhava, sorriu e colocou a mão em sua testa.
– É, você não está com febre.
– O que aconteceu? — perguntou com a voz cansada.
– Seu bichinho quase te matou. — disse a maga, mas tinha um sorriso no rosto — Mas que bom que você conseguiu. Estou orgulhosa.
Ash sorriu satisfeita. Sim, tinha conseguido, apesar de Bolota já ter comido dois orcs, apesar do medo de Luxuriah, sim, ela conseguira. Assobiou baixinho e Bolota abriu os olhos antes de se levantar e ir até a cabeceira da cama e lamber o rosto de sua dona. A língua áspera do lobo fez cócegas no rosto da elfa, que riu.
– Para Bolota, faz cócegas!
– Ele tem sorte de Luxuriah ter desmaiado junto com você, ou já teria virado tapete! — riu-se Kassyeh se levantando e indo até a mesa no canto do quarto.
– Lux desmaiou? — perguntou Ash preocupada.
Kassyeh fez que sim com a cabeça.
– Acho que te ver coberta de sangue não fez bem aos nervos dela. — e voltando para a cama, viu o olhar de pânico da irmã e a acalmou — Não se preocupe, ela já acordou e está com Huaru agora. Tio Aethas e Tewdric estão com ela.
– Tio Aethas chegou? — Ash lembrava vagamente de o ter visto, mas não tinha certeza.
– Chegou. — Kassyeh sentou-se na cama e entregou uma poção de cura a Ash — E que surpresa, ele e Vivithi ainda não tiveram nenhuma discussão!
– Nossa! Sério? Por que não? — a dor no ombro fez Ash aceitar sem discussão a poção, mas teve que empurrar delicadamente Bolota para o lado — Bolota, isso não é para você, é pra mim! — o lobo parou de cheirar o vidro e deitou-se no colo da dona enquanto essa bebia o líquido e sentia-se imediatamente melhor — Que alívio...
A poção curou rapidamente o ferimento e a dor passou num piscar de olhos. Kassyeh ajudou-a a tiras as bandagens e depois a vestir uma camisola.
– Por que não posso vestir uma roupa e descer? — questionou a mais jovem.
– Porque você perdeu muito sangue e quero que você descanse.
– Estou cansada de descansar! — Ash coçou as orelhas de Bolota enquanto Kassyeh trançava seus cabelos — Descansei na casa do Huaru, descansei em Luaprata e vou continuar descansando aqui? Não aguento mais descansar! — e fez um bico chateado.
Kassyeh caiu na risada.
– Enquanto você estiver se aventurando por ai, vai continuar descansando quando se machucar! — e a maga amarrou a ponta da trança — Pronto, está linda!
– Se eu vou descansar, não precisava ajeitar meu cabelo... — resmungou.
– Você parece a Lux quando tá chateada. — e sorrindo misteriosa, acrescentou — E você tem visita.
Ash a encarou confusa, mas Kassyeh nada falou. Levantou-se, foi até a porta e falou para alguém que estava lá fora.
– Pode entrar.
O coração de Ash parou por um segundo quando ela viu Lor'themar surgir na porta de seu quarto.
– Vou trazer algo para vocês lancharem. A Ash não almoçou. — e sorrindo saiu do quarto fechando a porta — Fique a vontade lorde regente.
A boca de Ash ficou subitamente seca e ela desejou que Kassyeh não tivesse saído. Talvez percebendo o nervosismo da dona, Bolota olhou para Lor'themar, eriçou os pelos e rosnou mostrando os dentes para o elfo. Quando o lobo fez menção de atacar o patrulheiro, Ash o segurou rapidamente.
– Não Bolota! Quieto!
– Bichinho ciumento. — comentou Lor'themar sem se sentir ameaçado pela fúria de Bolota — Mas é compreensível. Com uma dona tão especial...
As bochechas de Ash queimaram, mas ela nada respondeu. Acalmou Bolota, que ainda mostrou os dentes para Lor'themar antes de se deitar amuado. Depois que o lobo foi contido, o lorde regente se aproximou.
– Fiquei preocupado quando me disseram que estava acamada novamente. — falou olhando-a fixamente.
– Não estou acamada. — retrucou Ash, mas muito feliz com a preocupação dele — Foi apenas uma pequena mordida...
Lor'themar riu.
– Claro que foi. — e dando uma pausa, mostrou um pacote que trazia — Trouxe algo para você.
– Pra mim? — se surpreendeu Ash.
– Sim, algo para ajudá-la em seu treinamento. — e lhe entregou um estojo dourado.
Ash recebeu o pacote, intrigada com o formato comprido. O que poderia ter ali? O fecho era de prata e fez um clique seco quando o levantou. Dentro do estojo havia a espada mais linda que Ash já vira na vida. Ela tinha o cabo vermelho, com detalhes dourados em forma de fênix, o símbolo de Luaprata. Da Lâmina, reluzia luz e magia e nela havia inscrições que a jovem caçadora não entendeu muito bem, já que estavam em tallasiano arcaico. Só conseguiu entender o nome da linhagem Andassol e algo sobre rapidez e ataque. Com cuidado, Ash tirou a espada de seus descanso e a admirou mais de perto.
– Você... Trouxe pra mim? — perguntou em um sussurro sem tirar os olhos da espada.
– Sim. — ele deu um sorriso, orgulhoso de si mesmo — Esta espada é do tesouro da família real. Ou seja, por direito ela é sua. Ela é uma espada própria para patrulheiros. — e dando uma pausa, satisfeito da ideia que teve, acrescentou — Agora você não precisa mais bater com o arco em seus inimigos. Poderá cortá-los.
Ash movimentou a espada lentamente e viu que a lâmina deixava um rastro de magia luminosa por onde passava. Bolota levantou de onde estava e ficou olhando admirado as pequenas estrelas brilhantes que caiam da espada e começou a tentar comê-las, mordendo o ar à volta de sua dona. Ash e Lor'themar riram.
– Muito obrigada... — murmurou ela tentando segurar o choro que teimava em queimar sua garganta — Muito obrigada Lor'themar...
– Não precisa agradecer milady. — e diante do olhar de censura dela, ele riu — Desculpe, Ash. Bem, espero que fique logo bem para começarmos os treinos.
– Mas eu to bem! — disse ela rapidamente, guardando a espada no estojo — Estou ótima, podemos treinar agora! — e se levantou rapidamente.
O ferimento podia estar curado, mas o corpo de Ash ainda não havia recuperado todo o sangue que perdera. Por isso, tão logo ela se levantou, uma tontura se apossou de seu corpo, nublando a sua mente, e Ash começou a cair no chão. Lor'themar a segurou rapidamente, abraçando-a e prendendo-a junto ao seu corpo. Ash encostou o rosto no peito do elfo e sentiu o cheiro de seu corpo. O mesmo cheiro que a acalmou há tantos anos atrás e que a perseguiu em sonhos pelo mesmo período. As mãos dele estavam em sua cintura e em sua nuca e um arrepio percorreu todo o corpo da jovem elfa.
– Acho que hoje realmente não vai dar, pequena Ash. — murmurou ele com a boca bem perto de seu ouvido — Seu corpo precisa se recuperar...
Na verdade o que ela precisava recuperar era a voz e a razão. Ele estava tão perto, tão próximo, tão quente e macio... Ash ergueu lentamente a cabeça e o encarou. Tentou ler alguma coisa no rosto dele, alguma coisa que dissesse se ele estava sentindo as mesmas coisas que ela, mas só via a preocupação em mantê-la ali, junto a ele, provavelmente com medo que ela despencasse no chão se a soltasse.
– Desculpe... — pediu num sussurro com as lágrimas já caindo de sua face.
– Não há o que desculpar, pequena Ash. — a jovem caçadora adorou aquela forma carinhosa pela qual ele a chamara — Amanhã treinaremos...
Ele soltou sua nuca cuidadosamente e limpou suas lágrimas carinhosamente com a mão livre. Sorriu para ela e Ash retribuiu. Ficaram e olhando por um momento e o coração de Ash disparou quando ele fez menção de baixar a cabeça em direção a sua. Só que naquele momento, houve uma batida na porta.
Bolota uivou e rosnou para a porta, com certeza reproduzindo exatamente o que sua dona sentia naquele momento. Lor'themar a afastou do abraço e a sentou na cama antes de dizer:
– Entre.
Uma serva entrou com uma bandeja e fez uma reverência.
– Eu trouxe o lanche que a princesa Kassyeh mandou e-
Antes que ela pudesse terminar a frase, Bolota avançou rosnando ameaçadoramente sobre a elfa, que gritou, largou a bandeja e saiu correndo. O lobo não passou da porta, mas sua investida foi o suficiente para se ouvir a serva correr para o mais longe possível do quarto. Ash caiu na risada; sentia-se vingada.
– Decididamente um ciumento. — comentou Lor'themar segurando a risada — Mas você precisa comer então não acho que foi bom seu lobo fazer isso...
– Vou me vestir e descer. — disse Ash se sentindo bem melhor — Comerei lá embaixo.
– Esperarei lá fora Ash. — falou Lor'themar e fez uma reverência — A ajudarei a descer. Quer que eu chame uma de suas irmãs para ajudá-la a se vestir?
Por um instante Ash ficou com vontade de pedir que ele a ajudasse a se vestir e o pensamento fez seu rosto corar.
– Não precisa... — murmurou com a voz fraca — Eu consigo me vestir...
– Qualquer coisa é só pedir que chamarei uma de suas irmãs. — e sorrindo, saiu do quarto.
Ash apertou as mãos sobre o colo e procurou ignorar a sensação que tomava conta de seu interior e que pedia loucamente que as mãos de Lor’themar continuassem em seu corpo.
***************
– Volte aqui seu orc imundo! — gritou Luxuriah.
Aethas, Vivithi e Huaru observaram, sem poder fazer nada, Luxuriah correr atrás de Tewdric segurando o machado de duas mãos que pertencia ao guerreiro, querendo visivelmente parti-lo ao meio. Enquanto o mago e o paladino permaneciam de pé perto da escada, se preparando para qualquer intervenção de emergência, a patrulheira estava muito bem sentada no sofá, tomando uma taça de vinho e rindo com o desenrolar dos fatos.
– Qué isso Lulu, pra quê essa violência toda? — perguntouTewdric fugindo da elfa pela sala, rindo alto, sem aparentemente se importar com o desejo assassino dela.
– Não me chame de Lulu! — gritou ela e jogou com força o machado, que passou rente à cabeça do orc e fincou-se na parede.
Tewdric gargalhou, nem um pouco amedrontado e retirou o machado da parede.
– Se isso faz você se sentir melhor, Lulu, eu te dou pra você correr atrás de mim de novo. – disse o orc com um sorrisão no rosto.
Luxuriah gritou enraivecida e jogou um vaso, dois vasos, o que quer que tivesse ao seu alcance em Tewdric, gritando:
– Não me chame de Lulu!
Vivithi riu alto e bebeu mais de sua taça. Aethas a olhou de canto de olho, incomodado com a postura desinteressada da elfa diante do que estava acontecendo, mas nada comentou. Pelo menos não para Vivithi. Ele aproximou-se mais um pouco de Huaru, e murmurou:
– Esse orc não tem nenhum senso do perigo. — Aethas estava visivelmente impressionado.
– Nenhum mesmo. — confirmou Huaru sorrindo — Mas ele é uma boa pessoa.
Tewdric ainda ria se desviando das coisas jogadas por Luxuriah.
– Disso eu não duvido. — concordou o arquimago.
Enquanto a cena se desenrolava, Kassyeh desceu as escadas e viu a tentativa de sua irmã de esmagar seu marido com qualquer coisa ao alcance de sua mão e não gostou nenhum pouco.
– Certo Lux, eu acho que já chega. — disse se aproximando — A Ash está bem e morrendo de amores pelo lobo. Não precisa matar meu marido por causa de uma mordidinha que ela levou.
Luxuriah desviou a atenção par a irmã, com os olhos em chamas.
– Uma mordidinha?! Aquela coisa quase arrancou o ombro dela!
– Como Totoso quase arrancou sua perna quando você estava domando-o. — retrucou a maga.
– É diferente! — gritou Luxuriah.
– Discordo. — quem falou foi Vivithi, que secou sua taça e colocou no aparador — Aquele raptor quase comeu seu pé e você ficou mancando por uns dias.
– Só enquanto Kass não chegava para fazer a poção. — retrucou a caçadora — E Totoso nunca comeu ninguém!- e urrando acrescentou — Não sei onde eu estava com a cabeça ao permitir que esse orc maldito ficasse com minha irmã!!!!
Luxuriah estava procurando mais alguma forma de causar dor a Tewdric e seu olhar já se voltava para o arco e flecha que estava no canto da sala, quando Huaru achou melhor intervir. Caminhou até ela, segurou seu rosto e a beijou. Aethas imediatamente desviou a vista para o canto da sala, ignorando a risada de Vivithi.
– Calma bebê... — murmurou ele passando a mão em seu cabelo — Calma... A Ash está bem, certo?
Imediatamente Luxuriah relaxou. Ainda lançou um olhar raivoso na direção de Tewdric, mas não fez mais nenhuma menção de tentar assassiná-lo. Kassyeh sorriu satisfeita e se aproximou da irmã.
– Lux, você devia estar orgulhosa. A Ash está se tornando uma boa caçadora. Ela é perseverante e teimosa, igualzinho a você. — e suspirando, acrescentou — Ainda vai se machucar muito, e nos resta apenas está aqui para apoiá-la e curar suas feridas.
Apertando os lábios, Luxuriah lutou contra as lágrimas. Kassyeh falava a verdade. Ash estava se tornando uma caçadora do melhor tipo, e aquilo era sim motivo de orgulho. Dhomm ficaria orgulhoso e também riria alto, como Tewdric fizera. E seria sua mãe que teria aquela reação extrema de preocupação, mas no final Samanthah também entenderia. Entenderia que Ash era uma elfa adulta agora. Respirou fundo e limpou a lágrima que escorreu atrevida pela face. Se tinha que aceitar, aceitaria de estômago cheio. Não comera nada desde o acontecido. Então, a primogênita da família se dirigiu à mesa de jantar.
– Mande aquelas servas inúteis servirem alguma coisa. — falou franzindo a testa e sentando-se. — Estou com fome. Muita fome!
Kassyeh sorriu e se apressou em dar as ordens. De repente uma serva apareceu correndo ao descer das escadas, gritando que o lobo queria comê-la e desapareceu porta afora. Luxuriah deu uma gargalhada.
– Gosto um pouco mais desse lobo... — comentou de repente mais feliz.
Aethas estava espantado demais para comentar qualquer coisa. No mesmo dia ele viu sua sobrinha fazer coisas que ele jamais suponha que ela faria: lhe apresentou um namorado, permitiu que sua irmã mais nova tivesse treinamento com espada, desmaiou, chorou e gargalhou. Tudo isso e nem ao menos matou Tewdric, que ele descobrira que fora o responsável por dar o lobo assassino, de nome Bolota, para Ash. Sim, havia alguma coisa muito diferente acontecendo com Luxuriah.
Seria a influência de Huaru?
Provavelmente. O paladino tauren tinha um olhar calmo e compreensivo, e transmitia tanta paz... Não havia dúvidas que ali estava exatamente o que sua sobrinha precisava: paz. Luxuriah era uma alma aflita, machucada e angustiada. E se aquele tauren fizera dela uma pessoa capaz de amar novamente, Aethas devia muito a ele. Muito mais que qualquer dia pudesse pagar.
Enquanto todos se acomodavam a mesa, voltou seu olhar para Tewdric. Ele não era de nenhum modo o que esperava. Se surpreendera muito com o fato do orc lhe lembrar tanto seu cunhado. Sim, sempre chamara Dhomm de selvagem, mas daí a achar que ele tinha o comportamento de um orc era um pouco demais. Mas Tewdric não era um orc típico. E se um dia já o fora, aquilo ficou perdido no passado. A forma como ele tratava Kassyeh e suas irmãs era cuidadosa e protetora, tal como o pai delas fizera no passado. E esse cuidado era bem maior com Karensky. A caçula fora privada da presença do pai, mas encontrara o conforto paterno nos braços de Tewdric.
Aquilo mexeu com Aethas. O papel de pai de Karensky deveria ter sido dele. Ele deveria ter estado lá, durante esse tempo. Assim, quem sabe, aquele olhar de tranqüilidade que Luxuriah exibia tivesse aparecido anos antes. E suas sobrinhas não precisariam se refugiar nos braços de machos de outras raças, tão diferentes de si próprias, para encontrar a paz.
Tão rápido quanto esse pensamento apareceu, Aethas o expulsou de sua mente. Não, não se deixaria levar pro seus preconceitos novamente. O fizera décadas atrás e o resultado fora seu afastamento de sua amada irmã e de suas sobrinhas. Não cometeria novamente o erro que cometeu com Dhomm. Não iria julgar. Iria aceitar o orc e o tauren em sua família como se fossem os mais nobres dos elfos. E com muito mais alegria, pois eles conseguiram o que nenhum elfo conseguira: trazer novamente a felicidade para dentro de uma casa que já for ao palco da maior tragédia dos cinco membros restantes da família Fendessol.
– Gostaria de falar algo. — disse o arquimago quando todos se sentaram à mesa.
– Se for sobre Karensky, não se preocupe. — quem falou foi Luxuriah — Ela deve estar se aventurando por ai com Saba e Galinha e voltará quando tiver fome. — e meneando com a cabeça acrescentou — Ela não vai descer à praia de novo, nós conversamos sobre isso.
– Você quer dizer que a castigou pelo caso dos murlocs. — corrigiu Kassyeh.
– O que importa é que ela não fará de novo. — retrucou a outra.
Aethas riu. Era bom ver que certas coisas não mudavam.
– Não é sobre Karensky. — e olhando para Huaru e Tewdric, falou — Gostaria de dizer que estou muito feliz pela presença de vocês dois na vida de minhas sobrinhas. Devo confessar que nunca as vi tão feliz e percebo que isso se deve a vossa presença. Espero que continuem fazendo tanto bem por todas elas. — e curvando a cabeça, acrescentou — Sejam bem vindos à família Fendessol.
Kassyeh se levantou rapidamente, em meio às lágrimas, e abraçou com força o tio. Aethas a consolou, dando tapinhas nas costas dela. Luxuriah não se mexeu de seu lugar, mas Huaru percebeu um brilho diferente em seus olhos.
– É para ficar feliz mesmo. — disse ela enchendo a xícara de chá — Tirando Tewdric, Huaru só nos fez bem.
O orc riu alto.
– Adoro o senso de humor da Lulu. — e olhou para Kassyeh e Aethas — Obrigado tio, farei a Kass muito feliz. — e assim que a elfa se soltou do abraço do tio, ele a puxou para seu colo — E o titio vai ficar ainda mais feliz quando a gente tiver nosso bebê né Kass? — e a beijou no pescoço.
– Tewdric, na frente do titio não! — reclamou ela com o rosto vermelho e agradeceu por Aethas virar o rosto para o lado.
– Certo, vou deixar para mais tarde então. — e a soltou.
– Acostume-se. — quem falou foi Vivithi, que sentara bem perto do arquimago — Tewdric não consegue deixar as mãos longe da Kass por muito tempo.
– Se eu posso me acostumar com sua presença, posso me acostumar a isso. — resmungou ele de modo que fosse ouvido somente pela elfa.
Vivithi lhe sorriu desdenhosamente.
– Há muito ainda que você vai descobrir Aethas Fendessol. E vamos ver se você vai se acostumar com tudo. — disse vendo Lor'themar descendo as escadas e servindo de apoio para Ash — Vamos ver...
*************
Os dias seguintes foram tão corridos que ninguém conseguia pensar em outra coisa que não fosse o casamento de Kassyeh e Tewdric. Faltando dois dias para a festa, Luaprata começou a ser invadida pelos membros da guilda dos noivos, que estavam ansiosos por outra noite memorável como a que acontecera em Orgrimmar.
Tewdric fizera questão de ir a Luaprata cumprimentar os companheiros e Luxuriah aproveitou a viagem para mandar Aethas acompanhar o orc na prova da roupa do casamento. Huaru acabou indo também, pois ficou de buscar seu irmão que chegaria a qualquer momento e Kassyeh fizera questão que Mhuu ficasse na casa delas.
– Eu me sinto nu com isso.
Huaru nunca tinha visto Tewdric reclamar de nada, mas agora o orc fazia uma cara de desgosto enquanto vestia a roupa de gala que a cunhada mandara fazer.
– Sinto falta da minha armadura. — continuou o orc com um muxoxo.
– Mas você ficou tão bem nessa roupa! Tão elegante! — elogiou Aethas.
E era verdade. A roupa que Luxuriah escolhera para Tewdric era negra com detalhes pratas, mas não era vestes e sim uma calça e uma camisa no estilo élfico. Uma fivela prateada, com o formato do símbolo da Horda, enfeitava o cinto e as botas eram em um preto mais escuro que o resto do conjunto. Huaru achou que o guerreiro estava realmente muito elegante, como dissera Aethas.
– Eu não sei não... — Tewdric se olhava no espelho, ainda receoso — Lulu podia ter me deixado usar a armadura... Era mais eu...
– Elfos não usam armaduras nos casamentos. — explicou o arquimago pacientemente.
– Mas eu não sou elfo!
– Bem, você concordou com um casamento élfico, não foi? — quem falou foi Huaru — Você prometeu.
– Para Luxuriah, certo? — quis saber Aethas — Não acho que Kassyeh se importaria com isso.
Ele já soubera que eles haviam realizado uma festa em Orgrimmar. Nas leis dos orcs, se você dava um lar a uma fêmea, ela se tornava sua companheira. Era simples e bem prático, raciocinou o elfo. E Tewdric havia dado uma casa a Kassyeh e eles celebraram. Não imaginava sua sobrinha exigindo um novo enlace para cumprir normas do seu povo. Mas sua irmã exigiria sim. Luxuriah gostava de fazer as coisas dentro das regras. Quando o assunto era suas irmãs, lógico.
– A Lulu fez questão. — confirmou Tewdric — E se é pra fazer a Lulu feliz, eu fico com essa roupa estranha. – e dando um sorriso malicioso acrescentou – Não vou ficar muito tempo com ela mesmo, vou rasgar a minha e a da Kass na primeira oportunidade. – e caiu na risada.
Apesar de constrangido com o comentário, Aethas riu e Huaru também. O arquimago então pigarreou antes de falar:
– Seus sentimentos pelas minhas sobrinhas são admiráveis Tewdric. — ele estava sendo sincero — Há muito tempo elas não tinham alguém que se importavam tanto com elas, além de mim.
"Desde que Dhomm e Samanthah morreram, elas não deixaram ninguém se aproximar tanto..." completou o arquimago em pensamento.
– Eu amo muito as quatro. — admitiu o orc com um enorme sorriso no rosto – Elas são tudo o que eu tenho nesse mundo.
– Seus amigos devem ficar com ciúmes de tanta devoção hein? — brincou Aethas.
Todavia, para a surpresa dos dois acompanhantes do noivo, este balançou a cabeça em negativa e falou sem nenhuma expressão no rosto:
– Não tenho nenhum amigo.
A revelação deixou Aethas e Huaru sem reação, principalmente pela falta de emoção com que ela foi feita. Os dois se entreolharam, mas não falaram mais nada.
Certo que a roupa estava dentro dos padrões desejados por sua sobrinha, Aethas mandou embalar a encomenda e foram os três, agora com um Tewdric bem mais feliz por estar vestido com sua armadura novamente, a uma taberna para beber e comer algo enquanto Mhuu chegava.
– Finalmente, me sinto melhor! — disse o orc depois que eles sentaram, pediram as bebidas e uma elfa as trouxe rapidamente – Com minha armadura, bebendo uma boa cerveja e em ótima companhia! — e levantou a caneca, propondo um brinde.
Huaru e Aethas ergueram também as canecas e eles brindaram. Apesar de o elfo preferir imensamente o vinho, achou a cerveja saborosa apesar do gosto forte. Deu dois goles e baixou a caneca. Huaru bebeu mais um pouco antes de também pousar a bebida na mesa. Já Tewdric bebeu toda de um gole só e fez sinal para a elfa trazer mais.
– Posso fazer uma pergunta pessoal, Tewdric? – perguntou Huaru com cautela.
– Claro! – permitiu o orc.
– Você falou que não tem nenhum amigo... Isso é verdade?
Tewdric ficou sério, pensou um pouco e depois afirmou com a cabeça.
– E sua guilda? – inquiriu Aethas – Não os consideram amigos?
– Eles são meus companheiros de batalha – explicou o orc – São pessoas com quem eu luto e por quem eu morreria. Mas... – ele franziu as sobrancelhas – Não acredito que possua um laço tão forte com algum deles a ponto de chamá-lo de amigo... – a elfa trouxe a bebida de Tewdric, que agradeceu com um aceno antes de tomar um longo gole – Algumas pessoas chamam de ‘amigo’ qualquer um com quem compartilhe uma cerveja, mas ser amigo é mais que isso. É você poder dar sua alma, seu sangue e sua honra por aquela pessoa. E até hoje não achei ninguém que merecesse minha alma, meu sangue e minha honra como minha Kass, a Lulu, a Ash e a Karenzinha. – e concluiu terminando sua segunda caneca de cerveja.
– Seu conceito de amizade é admirável Tewdric. – elogiou Aethas antes de acrescentar pesarosamente – E depois do que você disse, acho que posso dizer que nunca tive um amigo. Nenhum além de minha irmã Samanthah. – e um aperto no coração o fez beber o resto da cerveja.
– Tenho minha família. – quem falou foi Huaru – E meu mestre Taruu...
– O que aconteceu à sua família Tewdric? – perguntou repentinamente Aethas.
– Não sei. – admitiu o orc – Tudo que me contaram foram que eles morreram com honra lutando contra a Aliança. – ao falar essa palavra, o orc cuspiu no chão — Depois disso cresci num lar comunitário.
Tanto Huaru quanto Aethas sentiram-se tristes pela vida dura de Tewdric.
– Se continuarem a fazer essas caras de bundas, eu parto os dois ao meio. – vociferou o orc e pediu outra cerveja – Não quero compaixão de ninguém.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!– Não é compaixão. – esclareceu o mago – Estou triste pela vida que você levou.
– E eu feliz por você ter encontrado uma família. – completou o paladino.
A expressão de Tewdric se suavizou e ele sorriu abobalhado antes de falar:
– A Kass me deu o mundo quando eu a conheci. Sempre tentei ficar o maior tempo possível com ela, mas eu queria fama... Queria que ela se orgulhasse de mim como guerreiro.
– A Kass te amaria mesmo sem isso. – Aethas falou antes de pedir outra caneca quando a elfa trouxe a de Tewdric.
– Mas a fama é para protegê-la. – quem falou foi Huaru, surpreso por entender tão bem os motivos do guerreiro – Sendo famoso e estando com ela, ninguém ousaria fazer mal a ela.
Tewdric gargalhou e bateu pesadamente no ombro de Huaru.
– Você me entende cunhado! Fico feliz!
O jovem paladino então se perguntou se não devia fazer o mesmo por Luxuriah. Se tornar famoso e deixar claro para todos, inclusive para Grey, que não seria fácil sequer se aproximar de Luxuriah.
– É um bom motivo afinal. – ponderou Aethas – Faz sentido.
Eles se calaram um momento e voltaram a saborear a bebida. Enquanto Tewdric esvaziava sua terceira caneca e Aethas começava a segunda, Huaru terminou a primeira e pediu à elfa que os servia para trazer algum petisco e mais uma rodada de cerveja. A garçonete então trouxe várias coxas de pato assadas e três canecas de cerveja cheias. Aethas dispensou uma, afirmando que seu copo estava cheio; Huaru pegou uma para ele e Tewdric tomou o resto da dele, virou outra e pegou a caneca que restava antes de perguntar a Aethas:
– Mas me diga tio, tem alguma fêmea?
Aethas balançou negativamente a cabeça.
– Não tenho tempo para me dedicar a ninguém. – respondeu.
– E o que você faz quando tá com tesão? – questionou o orc, surpreso com a resposta.
Aethas passou a mão pelo cabelo, encabulado.
– Bom, em Dalaran tem um lugar sabe... Para solitários como eu...
– Você vai no bordel comer uma puta. – falou Tewdric sem nenhuma vergonha.
– É, por ai. — Huaru viu o rosto de Aethas ficar da cor do cabelo dele.
– Deve ser estranho. – comentou o paladino. E quando os outros dois machos olharam para ele, explicou – Ficar com alguém que não se ama, só por desejo... Não faz sentido para mim.
Tewdric pensou um pouco, antes de assentir com a cabeça.
– É diferente. Não tem o mesmo gosto. – e olhando para a cerveja, comparou – É como tomar uma caneca de cerveja humana fraca e amarga. Mata a sede, mas não tem o sabor de uma boa caneca de cerveja órquica fermentada em barris de carvalho e servida fresca após uma batalha. – o guerreiro tomou um gole antes de continuar – A nossa fêmea tem um gosto diferente. Viciante. Você prova e sabe que não quer mais nada nesta vida.
Era exatamente assim que Huaru se sentia com Luxuriah. Mas ele não a compararia com uma cerveja.
– Quando estou com a Luxuriah – começou o mais jovem – é como tomar água fresca e pura após uma manhã de caminhada num deserto. Eu me sinto... Vivo.
– Como nunca se sentiu né? – perguntou Tewdric pegando uma perna de pato e mordendo.
O paladino coçou o pelo da sua testa e deu um sorriso encabulado.
– Ela foi minha primeira. – confessou.
Tewdric riu alto, fazendo carne voar de sua boca direto no cabelo de Aethas, que ficou extremamente enojado com aquilo. Enquanto o orc ria e batia na mesa, o elfo pegou um lenço no bolso e tirou aquela coisa gosmenta de sua cabeça e Huaru ficava ainda mais encabulado.
– Desculpa Huaru! – pediu o orc depois que parou de rir – Não é de você que estou rindo. To aqui imaginando a cara da Lulu quando soube que tinha desvirtuado um paladino! – e riu mais.
– Eu acho que ela gostou. – Huaru relaxou mais e riu também.
– Com certeza gostou! – concordou o orc e continuou a comer a perna de pato.
Quando Aethas conseguiu se livrar da carne de pato mastigada e nojenta de seus cabelos e pensava já que teria que lavar a cabeça ao chegar em casa, percebeu que os olhos de Huaru e de Tewdric estavam postados nele. Os dois pareciam curiosos.
– O que foi? – perguntou.
– E você titio? – quis saber Tewdric – Quem já tirou sua cabeça dos livros e levou para lugares mais interessantes? — o orc riu de sua piada e Huaru o acompanhou acanhado.
Foi com surpresa que Aethas percebeu que nunca tivera um amor como aquele descrito pelos machos sentados com ele. Apesar de já ter vivido pelo menos três vezes mais que eles, nunca encontrara alguém que lhe despertasse aquelas coisas. Pensou na comparação que os dois jovens fizeram e se perguntou se algum dia alguma elfa tivera para ele o sabor do vinho mais doce e suave envelhecidos em garrafas de cristal nas adegas de Luaprata.
A resposta era óbvia. Não, nunca houvera nenhuma.
– Bem, vocês tiveram mais sorte que eu nessa área. – admitiu ele sem nenhum pesar – Nunca conheci ninguém que mexesse assim comigo. – e bebeu mais um gole de sua cerveja.
Tewdric parecia muito espantado com a resposta.
– Temos que resolver isso tio! – disse com convicção – Temos que achar uma fêmea que tire seus pés do chão.
Aethas apenas riu e não disse nada.
– Acho que ele tem que querer isso em primeiro lugar, Tewdric. – falou Huaru sabiamente.
– Quem não iria querer uma fêmea do seu lado que deixasse sua cabeça girando? – e como nenhum dos dois respondeu, ele continuou – Bem, tem um monte de elfa bonitona por ai... Não tanto quanto a minha Kass, mas deve servir... – ele pensou um pouco e depois falou – O que o titio acha da Vivithi?
Aethas o olhou como se ele tivesse dito que o mago deveria casar com Varian Wrynn.
– Você está louco? – Aethas exaltou-se – Aquela depravada! Eu nunca... – e apertou os lábios, enraivecido demais para falar qualquer coisa. Depois, continuou – Eu nunca iria querer aquela lá!
Mas o que Huaru e Tewdric leram no rosto dele fora algo bem diferente. A expressão facial de Aethas quando ouvira falar de Vivithi era uma mistura de raiva e... Algo mais. Sim, havia algo mais. O orc sorriu e Huaru arqueou as sobrancelhas. Antes que pudessem se alongar no assunto, um chamado na porta do lugar atraiu a atenção dos três.
Mhuu chegara.
O xamã tauren então cumprimentou todas, pediu cerveja e dominou a conversa.
O assunto “Vivithi” foi deixado de lado, mas não esquecido. E Aethas não fazia ideia do quão rápido ele voltaria a sua vida, nem do papel que Huaru e Tewdric desempenhariam àquele respeito.
******************
– Você está linda Kass. – elogiou Luxuriah.
O vestido verde com detalhes prateados caiu como uma luva no corpo da maga. Aquele era o mesmo vestido que pertencera a sua avó e fora com ele que sua mãe casara com seu pai. Agora, Kassyeh sorria emocionada, enquanto se olhava no espelho e girava, fazendo as pedras do vestido emitirem pequenos pontos luminosos que pareciam dançar ao redor da elfa.
Kassyeh e Luxuriah estavam no sótão da casa de campo. Mas não era um sótão escuro e mofado, mas bem limpo e levemente iluminado. Era o lugar onde Dhomm guardara as coisas de sua mãe, coisas que ele nunca tivera coragem de se desfazer. Então ali, havia enormes espelhos de moldura dourada, quadros e mais quadros de Lady Luelly, e vários cabides com os mais belos vestidos que já foram vistos.
– É impressionante como o vestido parece tão novo... – espantou-se Ash.
– Tecido mágico. – explicou Vivithi – Todos os vestidos de Lady Luelly eram feitos com esse material. Extremamente caro e extremamente resistente.
Todas as irmãs e também Vivithi estavam no sótão, vendo a prova do vestido de Kassyeh. A ideia de usar aquele vestido tinha partido da própria Kassyeh e Luxuriah adorara. Então decidiu que também iria usar um dos vestidos de sua avó, que pendiam lindos e maravilhosos em seus cabides no sótão. Ash também pediu para usar um. Assim elas subiram ao sótão, onde estavam guardadas aquelas relíquias e começaram as provas. Quem não gostou muito fora Karensky, pois não havia nada que ela pudesse usar. Por isso, Luxuriah encomendara os vestidos tanto de Saba quanto de Karen e as meninas já tinham provado as roupas naquela manhã.
A pequena elfa iria usar um lindo vestido rosa, com muitas saias que caiam como plácidas ondas uma sobre as outras. A parte de cima era de renda e tinha mangas bufantes. Um par de luvas da mesma cor completava o conjunto.
– Uma roupa digna de uma princesa. – havia dito Luxuriah e Karen então parou de reclamar.
O vestido de Saba era muito parecido com o de Karen, mas ele era branco e não tinha as mangas bufantes. A pequena orquisa dissera que elas incomodavam. Então as mangas do vestido eram curtas e a alfaiate fizera luvas mais longas para a menina, que adorara a ideia.
Ash ficou extremamente satisfeita em procurar um vestido entre aqueles que pertenceram à sua avó. E a busca não demorou muito, pois ela achara um vestido de um lilás plácido mais ao mesmo tempo brilhante, que tinha um justo corpete que deixava a mostra o colo alvo da elfa. Por cima, colocava-se uma echarpe da mesma cor, transparente que ficava quase no mesmo comprimento do vestido. A jovem caçadora ficara em êxtase.
Já Luxuriah teve um pouco mais de problema na escolha de suas vestes para o casamento. Experimentava um vestido após o outro, mas nenhum deles lhe servia: ficavam apertados no peito e na barriga. A caçadora não entendia o porquê.
– Por que nenhum deles serve?! – explodiu depois do sétimo vestido – Tenho o mesmo corpo da Ash!
– Você parece mais cheinha. – observou Vivithi – Seus seios estão enormes!
Luxuriah não sabia se ficava feliz ou triste com o comentário.
– Você está linda Lux. – Kassyeh já despia o vestido e entregava-o à serva – Nunca lhe vi tão bem!
E era verdade. A pele dourada de Luxuriah estava mais brilhosa, mais vistosa. As bochechas pareciam mais salientes, mas aquilo só reforçava a beleza de seu rosto. Os cabelos pareciam estar mais cheios e vivos e o corpo dela adquiria curvas impressionante. Luxuriah não estava bonita; estava deslumbrante.
– Deve ser carne de tauren. – brincou Vivithi – Tauren a noite deve fazer bem!
Saba e Karen foram as únicas que não riram, pois não entenderam o sentido da frase.
– A Lux morde o Huhu? – perguntou a jovem rainha com Galinha no colo.
– Eu não vi nenhum pedaço faltando... – ponderou Saba.
Enquanto as outras se acabavam de rir, a patrulheira explicou:
– Não é no sentido literal meninas. – e piscando o olho para as mais velhas, acrescentou – Estamos falando do amor de um tauren.
Soltando uma exclamação, as meninas assentiram como se entendessem.
Luxuriah então voltou sua atenção mais uma vez aos vestidos. Podia estar até mais bonita, mas tinha que arrumar um vestido.
– Tem que haver um que serve... – e passou a procurar entre os mais afastados.
– Devia ter mandado fazer um como eu mandei... – brincou Vivithi.
– Decidi usar um vestido da vovó Luelly e farei isso! – disse resoluta – E também não queria algo tão... — Luxuriah riu – Achei melhor não usar nada que pudesse fazer Huaru ter um acesso de ciúmes!
– Como assim? – perguntou Kassyeh vendo o olhar de cumplicidade trocado por Vivithi e Luxuriah – Como é seu vestido Vivithi?
A patrulheira fez ‘não’ com o dedo indicador.
– É segredo... – murmurou com um sorriso enigmático.
Enquanto Karen entrava na conversa e insistia em que Vivithi contasse como era seu vestido, Luxuriah passou a olhar os cabides mais afastados. Achou então vários vestidos, entre os últimos guardados, que pareciam ser maiores que os outros. E que surpresa, eram também mais vistosos e belos. Passou os dedos entre eles e escolheu o vermelho que se destacava entre os demais. Levou-o até onde estavam as irmãs e o vestiu. Ele era preso apenas nos seios, e três saias de seda caiam graciosamente sobre o resto de seu corpo. Havia um cinto de prata que o enfeitava embaixo dos seios e deixava-o ainda mais gracioso. As mangas do vestido eram folgadas e se assemelhavam a um véu envolvendo-a quando a elfa justava os braços ao lado do corpo. Todas ficaram extasiadas com o vestido.
– Esse ficou perfeito! – comemorou Luxuriah se olhando no espelho – O tamanho nos seios ficou ideal e a saia solta não aperta minha barriga!
– É mais bonito que todos os que você experimentou. – elogiou Kassyeh.
– Você está linda Lux! – os olhos de Ash brilharam de admiração.
– Muito, muito mesmo! – concordou Karen.
– Parece um espírito do fogo. – comentou Saba – Só que mais bonito.
Luxuriah não era de ficar encabulada, mas se sentia daquele jeito naquele momento.
– Obrigada meninas. – e se olhando mais uma vez no espelho, concluiu – Será esse!
As elfas entregaram os vestidos escolhidos para que as servas os deixassem limpos e prontos para o casamento.
– Agora é só esperar por depois de amanhã. – Luxuriah comentou quando voltaram à sala.
– Estou nervosa. – admitiu Kassyeh com um sorriso trêmulo.
Luxuriah arqueou a sobrancelha e encarou a irmã.
– Nervosa por quê? Você já é casada com ele, lembra? E vocês já dormem juntos há um bom tempo...
Todavia, Kassyeh balançou a cabeça em negativa.
– Não é por isso que estou nervosa. – e respirando fundo, explicou —
É a primeira vez que vamos aparecer como princesas. A pressão será grande... – e baixando a voz, falou só para Luxuriah ouvir – Principalmente sobre Karen...
A mais velha olhou para a caçula, que no momento estava entretida em escolher um laço de fita para enfeitar seu filhote de falcoztruz.
– Nós a protegeremos. – afirmou convicta – De qualquer coisa. Mesmo que seja de nosso próprio povo.
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