Herdeiros da Guerra

10 Capítulo X – Encontros e desencontros


Vivithi enrolou o manto ao redor do rosto no momento em que emergiu em Orgrimmar. O portal aberto por Rommath dava direto em uma região escura e estranha que os orcs chamavam de Antro das Sombras. E o lugar fazia jus ao nome.

Logo que apareceu, seu falcoztruz se assustou com um imenso lobo que andava ao lado de uma orquisa muito mal encarada. Ela olhou para Vivithi de cima a baixo, como se medisse a elfa e seguiu seu caminho. Vivithi então deu de ombros e subiu para a cidade.

A poeira estava tão forte na capital da Horda que se podiam enxergar pequenos ciclones de areia pelas ruas. Nas bancas,os comerciantes cobriam as mercadorias com lonas e praguejavam em alto e bom som contra a ventania. Diante da situação, apatrulheira teve que se abrigar com sua montaria num recanto entre as lojas e esperar o vendaval diminuir.

Enquanto esperava, repassou mentalmente o plano que havia feito. Seria o mais sincera possível com Luxuriah: diria que foram achados documentos referentes à sua família e que o Lorde Regente gostaria de conversar pessoalmente sobre isso. Se Luxuriah perguntasse o que era, diria que não tinha autorização para falar. Não havia nenhuma mentira naquilo. Luxuriah insistiria claro, se não insistisse não seria Luxuriah, mas no final compreenderia. Ela tinha um respeito muito grande por Lor’themar.

Vivithi suspirou. Não era por menos. Lor’themar fora o principal suporte daquelas meninas depois da morte dos pais. Uma morte violenta, cruel e injusta. E o que eles fizeram depois com a pobre Luxuriahera digno de nojo e repúdio.

A cena fora tão chocante que o próprio Lorde Regente ficara horrorizado por dias. E proibira qualquer um de comentar o assunto, em qualquer situação que fosse. Mas todos os elfos estavam escandalizados o suficiente para não querer sequer lembrar o horror que presenciaram naquele dia. Um bando de humanos imundos violentando uma criança praticamente em cima dos corpos dos seus pais. Vivithi sabia que, não importa quantos séculos vivesse, jamais esqueceria aquela cena. Seu tio ficara tão transtornado de ódio que ele próprio dera cabo dos humanos.

Sem dó, nem piedade.

Fora um milagre que Luxuriah tivesse sobrevivido àquela violência. Mas sua alma estava para sempre comprometida. Vivithi, então, começou a nutrir um sentimento de simpatia muito grande pela jovem elfa e se aproximara dela, na intenção de oferecer auxílio e conforto.

Ela não conhecia metade dos palavrões que Luxuriah lhe jogou quando tentou se aproximar pela primeira vez.

Fora difícil, mas depois de um tempo conseguiu fazer amizade com a esquiva elfa e com suas irmãs.A aproximação, infelizmente acontecera numa situação delicada. Depois do aborto a que Luxuriah fora submetida, ela ficara tão fragilidade e doente, que suas irmãs entraram em desespero. Kassyeh não tinha ideia do que estava acontecendo e não sabia o fazer naquela situação; além disso, a perspectiva de também perder a irmã a deixara completamente sem ação.

Vivithi então as ajudou a lidar com tudo aquilo. Ajudou a Kassyeh cuidar da irmã e as confortou quando elas precisavam. Depois daquilo, Luxuriah permitira, ainda que relutante, que ela adentrasse em sua vida. E Vivithi sabia muito bem que era a única amiga que a caçadora tinha, além das irmãs.

O vento começou a diminuir. Seu falcoztruz também se acalmara, e a poeira estava dando uma trégua. Pelos contatos que tinha na capital da Horda, sabia que Kassyeh tinha ganhado uma casa de Tewdric e que pelas leis dos orcs eles agora eram casados. Não conseguiu evitar rir alto ao pensar na possibilidade dos elfos sangrentos terem um consorte real orc.

Quando finalmente o vento parou, Vivithi subiu novamente na montaria e foi em direção à casa de Kassyeh. Não foi difícil encontrar a residência; assim que chegou à rua informada, viu as cores douradas e vermelhas contrastando fortemente a casa das demais. Balançou a cabeça; Kassyeh não tinha jeito mesmo.

Foi uma surpresa chegar à porta e encontrar, não a elfa e seu marido orc, mas uns seis goblins carpinteiros, com muitas madeiras, pedras e máquinas estranhas trabalhando numa das paredes superiores da casa.

– Bom dia. – falou educadamente.

Os goblins a olharam rapidamente e voltaram ao trabalho. Vivithi balançou a cabeça. Lidar com goblins não era seu forte.

– Com licença, estou procurando a dona da casa. – disse agora em alto em bom tom – Será que algum de vocês poderia fazer a gentileza de me informar? – seu tom de censura deixou claro para os trabalhadores que não iria sair dali enquanto não tivesse a resposta.

Um dos goblins se adiantou.

– Não sei não. – disse com sua voz esganiçada – Mandaram a gente ajeitar a parede e estamos fazendo.

Se não tivesse com pressa, Vivithi pegaria o goblin pela perna e o sacudiria até ele vomitar a resposta. Contudo, uma rápida olhada no estábulo a fez mudar de ideia. Não havia nenhuma montaria lá. Talvez, o casal tivesse decidido ficar um pouco numa estalagem enquanto consertavam a casa.

Sem agradecer, Vivithi bateu nas laterais da sua montaria e fez questão de passar entre os goblins, assustando-os, antes de seguir para a hospedaria mais próxima. Ainda ouviu os xingamentos dos pequenos verdes, mas apenas riu. Eles mereciam muito mais que um simples susto.

Todavia, seu sorriso sumiu quando chegou à hospedaria de Gryshka. Não havia nenhum falcoztruz lá no estábulo. Estava começando a ficar preocupada. Luxuriah já havia lhe falado que Kassyeh não gostava da outra hospedaria de Orgrimmar. Mas se a maga não estava ali, suas irmãs provavelmente também não estavam. Precisava perguntar.

Uma pequena orquisa correu em sua direção quando ela se aproximou da porta da hospedaria.

– Olá! – disse Saba alegremente – Posso cuidar da sua montaria?

– Oi! – era muito melhor falarcom alguém que lhe dava atenção – Você é Saba, não é?

Saba ficou surpresa por um momento, mas logo abriu novamente um sorriso.

– Sou sim! Como você sabe?

– Minha amiga Kassyeh sempre fala de você. –respondeu Vivithi – Ela costuma se hospedar aqui, não é?

– Ah!! A Kassyeh! — o sorriso de Saba ficou maior ainda – Eu adoro a Kassyeh! Ela ficava aqui antes da casa dela! Mas eu vou sempre brincar lá com ela!

– Então, você pode me dizer onde a Kassyeh tá? Eu fui lá na casa dela e não a vi...

– Ah! Ela foi pro Penhasco do Trovão!

Vivithi franziu as sobrancelhas.

– O que ela foi fazer lá?

Saba coçou a cabeça, pensativa.

– As irmãs dela foram passear lá, mas parece que aconteceu algo... Aí a Kassyeh foi lá... – a menina ficou um pouco triste, mas depois completou mais animada — Mas ela disse que volta, ela vem me buscar pra eu ir pra Luaprata com ela!

Algo tinha acontecido? Vivithi não estava gostando daquilo.

– Você sabe o que aconteceu Saba? – insistiu.

A menina fez que não.

– Kassyeh não disse. Mas ela parecia muito, muito preocupada.

Preocupar Kassyeh era uma tarefa difícil. E se fora algo que a fizera largar sua casa em reforma e partir rapidamente para Mulgore, a situação devia ser muito ruim mesmo.

Precisava ir lá, saber o que estava acontecendo e prestar toda ajuda possível. Afinal, Lor’themar não ficaria feliz se algo acontecesse às herdeiras do trono.

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O ferreiro tauren estava tendo dificuldades com Karen. Apesar de ter posto a menina em cima do banco mais alto que possuía, e estar usando a fita menor que tinha, ele ainda parecia desajeitado ao tirar as medições dela.

– Tem certeza que isso é necessário? – perguntou Luxuriah a Huaru, que estava ao seu lado – Eu mesma ainda não me acostumei a usar armaduras de malha. Só uso em missões. Elas arranham e incomodam.

– Para ser paladina, Karen tem que se acostumar com armaduras pesadas. A malha é só o começo.

Depois de uma noite agitada, com irmãos brigando e uma mãe furiosa tentando contê-los, a manhã chegara com relativa calma na casa que ficava aos arredores da Aldeia Narache. Linore obrigara seus novilhozinhos a fazerem as pazes, coisa que Huaru relutou em fazer, mas cedeu depois de fazer o irmão prometer que não ia mais olhar para Luxuriah com segundas intenções.

Luxuriah achara o ciúme dele muito fofo, e fizera questão de compensá-lo pelo estresse quando se deitaram no quarto dele. Tudo muito silencioso, claro, para não incomodar ninguém.

Logo que amanheceu, Karen fez o pedido: queria se tornar uma paladina. Antes que Luxuriah questionasse a menina, Huaru aceitou a incumbência de ensiná-la. Assim que ela tivesse os equipamentos adequados, claro. O paladino só não sabia que a menina não sossegaria enquanto não arrastasse a irmã e o futuro professor para comprar tudo o que precisava naquele mesmo dia. Ela estava muito ansiosa para começar.

– Você deveria ter dito não. – censurou Luxuriah.

Huaru riu.

– Adiantaria? – perguntou.

Luxuriah olhou a irmã, que se remexia inquieta no banco enquanto o ferreiro tirava suas medidas.

– Não. – disse suspirando – Não adiantaria.

– Foi melhor assim. – disse ele procurando-a animá-la – Eu vou cuidar bem dela.

Luxuriah não conteve o sorriso.

– Eu sei. Melhor você que qualquer outro. – e coçando carinhosamente a orelha dele, acrescentou – Só não entendi porque o Mhuu veio também.

O xamã estava visivelmente entediado ao observar a medição de Karen. Por um momento ele chegou a cair no sono e quase despencou da cadeira, se firmando no último minuto. Sua mãe o mantivera acordado um bom tempo na noite anterior, cuidando do galo em sua cabeça. Depois, o acordara ao nascer do sol, para conferir se ele estava bem.

– Mãe quer que passemos a manhã juntos, para ter certeza que fizemos as pazes. – Huaru balançou a cabeça – Ela se preocupa demais.

– Eu a entendo perfeitamente. – Luxuriah olhou para Karen, que sorriu animada para a irmã – Costumo fazer a mesma coisa quando Ash e Karen brigam.

– Você e a mamãe são muito parecidas. – Huaru sorriu – Muito mesmo.

– Ah, não concordo. – a medição de Karen parecia estar quase terminando, pois o tauren pediu que ela sentasse e passou a medir seus pés – Sua mãe é um doce de pessoa. Eu não.

Huaru se inclinou, quase encostando sua boca no ouvido dela e sussurrou:

– Eu te acho um doce.

A pele da elfa arrepiou-se. Não sabia se foram as palavras gentis ditas num tom tão inocente quanto malicioso, ou se foi o sopro morno da respiração dele em seu pescoço. O certo foi que a vontade de Luxuriah fora beijá-lo ali mesmo, e só não o fez porque o ferreiro já tinha acabado o serviço, e Karen agora se aproximava, saltitante, dos dois.

– Acabou! – anunciou animadamente a menina.

O ferreiro chegou logo depois.

– Fica pronta em dois dias. – disse ele – Normalmente eu não demoro tanto, mas como essa será a menor armadura que eu já fiz, quero caprichar.

– Tudo bem, não temos pressa. – disse Luxuriah, recebendo olhares chateados de Karen – E não faça essa cara mocinha. Realmente não temos pressa. Quanto será o serviço?

– Terei o preço somente quando ela ficar pronta. – respondeu o tauren.

– O serviço de Elki são as melhores. – disse Huaru animado – Ele quem fez minha primeira armadura!

– Obrigado Huaru, sempre gentil. – Elki sorriu para ele – Já escolheram qual vai ser a arma da menina?

– Já! – respondeu Karen – Uma maça cheia de pregos como aquela ali na parede!

– Não! – disseram Huaru e Luxuriah ao mesmo tempo. Elki riu e a menina cruzou os braços chateada, antes do paladino tranquilizá-la – Você começará com um martelo de madeira Karen. É menos perigoso.

– Posso fazer um do tamanho adequado para ela. – disse o ferreiro ainda sorrindo – E ele fica por conta da casa.

– Muito obrigada, mas não precisa. –respondeu Luxuriah.

– Ah faço questão. – insistiu o ferreiro — Nunca fiz uma arma nesse porte, vai ser um bom desafio.

Luxuriah ainda pensou em retrucar, mas o tauren parecia tão feliz com possibilidade de se testar que ela desistiu.

– Obrigada Elki. Voltaremos em dois dias.

– Tudo estará pronto até lá. – prometeu Elki.

Despediram-se do ferreiro, acordaram Mhuu, que babava encostado à parede e saíram em direção ao centro do Penhasco do Trovão.

– Agora precisamos comprar uma calça de linho e um blusão para você. – falou Luxuriah pegando na mão de Karen – Não quero você mostrando sua bunda lisa por ai, ao cair das árvores.

– Oba, vou ganhar calças!! – comemorou a menina.

– Mais compras? – reclamou Mhuu esfregando os olhos.

– Você veio porque quis. – Huaru ainda parecia chateado com o irmão – Ninguém te obrigou.

– Claro que obrigou! – exclamou o xamã – A mamãe arrancaria meu couro e faria um tapete se eu não viesse.

– Eu vou ganhar calças!! – Karen não parecia esta se importando com a discussão dos irmãos.

– Por que não fazemos o seguinte: você vai beber algo para acordar Mhuu, enquanto compramos as coisas? – propôs Luxuriah que realmente não queria ficar ouvindo os lamentos de Mhuu.

O xamã pareceu se animar.

– Tem razão! Vamos Hu, vamos beber algo!

– E quem disse que eu vou com você? – reclamou o paladino, nada satisfeito em se separar de sua elfa.

– Quer que eu diga a mamãe que você não quis ficar comigo? – provocou o mais velho.

Huaru bufou e já estava pensando em pegar o martelo e terminar de abrir a cabeça de sue irmão, quando Luxuriah passou a mão em seu braço, acalmando-o.

– Vá um ficar pouco com ele, Huaru. Não demoraremos. – disse com a voz suave antes de aplicar um belo beijo na boca dele, e dar uma tapinha em seu bumbum – Ficaremos bem.

– Ahh!! A Lux tá namorando!!! – gritou Karen dando pulinhos e batendo palmas.

Mhuu pareceu extremamente surpreso e imensamente encabulado com a cena. Ou chocado mesmo, já que ele não conseguiu fechar a boca depois disso.

– Certo, certo. – concordou Huaru com um sorriso nos lábios –Até mais bebê. – E deu um beijo na bochecha dela.

Bebê? Luxuriah tinha ouvido bem? Ele a chamou de bebê? Ninguém nunca tinha chamando-a de nenhum apelido carinhoso assim antes. Suas irmãs e sua mãe a chamavam de Lux, seu pai sempre a chamara de Lulu. E agora, mais uma vez Huaru provava que estava sendo diferente de tudo em sua vida.

Ela era o seu bebê.

Enquanto Huaru e Mhuu, ainda boquiaberto, seguiam para a taverna, Karen e Luxuriah seguiram para o alfaiate mais próximo. A menor não conseguia para de pular, rodeando a irmã, com os olhinhos brilhando de animação.

– É seu primeiro namorado né Lux? Né?

– É sim Karensky, é sim. – respondeu pacientemente com um sorriso ainda no rosto.

– Vocês vão casar?! Como a Kass e o Ted? – ela pulava tanto que Luxuriah se perguntou se o espírito de um coelho não tinha tomado posse de seu corpo.

– É cedo para pensar nisso. –e segurando a mão da irmã a conteve – Se você pular mais um pouco abre um buraco no chão.

– É que tô animada, muito animada! – explicou, mas sem dar os pulinhos – Nunca te vi com esse sorriso bobo na cara! – e dando risadinhas, perguntou – Você tá apaixonada Lux?

Luxuriah parou de andar e olhou bem para a irmã. De repente, uma vontade imensa de ser sincera a dominou. Sempre mantivera Karen e as demais em uma redoma, mas percebera que era inútil. Na verdade, o quanto sua irmã a conhecia de verdade? Ajoelhando-se, Luxuriah ficou da altura de Karen. Colocou uma mecha de cabelo dela atrás da orelha. Era impressionante como todas suas irmãs tinham o cabelo tão liso que chegava a ser rebelde, sempre se soltando das tranças. Karen a olhava, em expectativa.

– Sim Karensky, eu estou apaixonada. – respondeu com um sorriso nos lábios.

Karen soltou um gritinho animado.

– Huaru é o máximo! – exclamou a menina — Conseguiu namorar a Lux que nunca namorou ninguém!

– Eu meio que já namorei outros rapazes Karensky. – revelou.

– É? – a menina estava extremamente surpresa – E por que você nunca disse?

– Porque eles nunca foram importantes. – lembrou-se rapidamente de Grey e percebeu que talvez tivesse superestimado a importância dele em sua vida — E eu só queria que vocês conhecessem alguém com quem eu estivesse somente se essa pessoa valesse a pena.

– O Huaru vale muito a pena! – disse Karen seriamente – Você não pode deixa-lo escapar!

Luxuriah riu alto e deu um abraço apertado na irmã.

– Pode deixar, ele não vai escapar. – e soltando-a, cutucou a ponta de seu nariz – Nem que eu tenha que amarrá-lo lá em casa!

– Aí terei meu professor em tempo integral! – comemorou a menina.

– Sim, você terá! – e levantando-se, pegou novamente na mão dela – Agora vamos bunda lisa, temos calças a comprar.

Perto dali, outra conversa de irmãos também se desenrolava, só que bem menos sentimental. Mhuu ainda lançava olhares surpresos, mas já se recuperava o suficiente para dar um sorriso maroto para o irmão mais jovem. Ao chegarem à taverna, o xamã pediu, animadamente, duas canecas de cerveja.

– Eu não vou tomar cerveja a essa hora da manhã. – reclamou o paladino – E você também não deveria.

– Ah irmãozinho, temos que comemorar! – e pegando as canecas do garçom, entregou uma ao irmão — Você conseguiu fazer o que dez entre dez machos da Horda já tentaram! Você conseguiu!

Huaru estreitou os olhos, sem entender.

– Como assim?

Mhuu deu um grande gole na cerveja antes de responder:

– Luxuriah é mais escorregadia que uma naga coberta de lodo. – disse num tom que ele provavelmente pensou que o deixava com ar de mais sábio – Em todos os anos que eu a conheço, ela nunca demonstrou aquele carinho por ninguém.

– E?

– Ora irmãozinho, ela continua com você! – exasperou-se Mhuu – Normalmente ela dorme com o cara e depois você o vê chorando durantes uns três dias depois que ela o dispensou! E você catou ela!

– Olha como fala! – reclamou Huaru pegando o martelo e colocando em cima da mesa – Ela não é qualquer uma!

– Ei, ei! – Mhuu levantou as mãos em sinal de paz. – Eu não estou dizendo isso! Eu estou tentando dizer, irmãozinho que você é o cara! Tipo, Luxuriah é...

– Certo, certo, entendi. – interrompeu Huaru guardando o martelo – Não fale como se a conhecesse bem.

Mhuu arqueou as sobrancelhas.

– Eu a conheço bem. – disse.

– Não, não a conhece. – Huaru segurou a alça da caneca de cerveja e olhou para o líquido, decidindo se bebia ou não. Por fim, tomou um gole. – Você não soube responder nenhuma das minhas perguntas sobre ela daquela vez.

– Porque você fez perguntas que ninguém, nem as irmãs delas devem saber. – e imitando a voz de Huaru, começou – Por que ela é tão triste? Ela nunca sorri? O que aconteceu para ela odiar tantos os humanos? – e balançando a cabeça, bebeu um pouco mais de cerveja – Eu sei que Luxuriah é fechada como uma ostra embaixo de uma pedra no fundo do oceano. Que ela ama as irmãs mais que tudo, e nunca, nunca deixou ninguém se aproximar dela. – e sorrindo parao irmão, acrescentou orgulhoso — Até hoje.

Huaru sorriu, envergonhado. Não se importava se ele tinha sido o primeiro a chegar nela. Só importava que estivesse ao lado dela.

Os irmãos sorriram um para o outro e, apesar do jeito bonachão, Huaru sabia que o irmão estava muito contente por ele. O xamã levantou a caneca, no que foi imitado pelo irmão e brindaram. Mhuu tomou toda a cerveja de um gole só, enquanto Huaru bebia aos poucos. Ele ainda não tinha chegado ao final do copo, quando o outro se ajeitou na cadeirae falou abruptamente.

– Agora vamos falar de um assunto sério. Vocês já treparam?

Huaru cuspiu toda a cerveja na cara do irmão.

– Ei! – protestou.

– Isso é coisa que se pergunte?! – gritou Huaru pegando novamente o martelo e pondo em cima da mesa.

– Ei, ei! – Mhuu levantou novamente as mãos – Somos irmãos, você pode me contar essas coisas!

– É pessoal! – Huaru guardou o martelo novamente, sentindo o rosto em brasa – Não vou falar do que faço ou não com minha namorada para você.

Mhuu o analisou por um momento.

– Vocês treparam. – sentenciou.

Huaru terminou a cerveja e não respondeu.

– Como foi? – insistiu Mhuu.

O martelo voou na direção do xamã, que daquela vez estava preparado. Desviou-se bem a tempo e o martelo bateu em cheio em um tauren que vinha entrando.

– Sinto muito! — Huaru se levantou de um pulo, pegou seu martelo, curou o tauren que desorientado deu meia volta e saiu, e o paladino voltou para a mesa – Isso foi culpa sua!

Mhuu estava se acabando de rir.

– Não tenho culpa se você tem a necessidade incontrolável de atirar essa coisa dourada e faiscante por ai. — e fazendo um sinal para o garçom, pediu mais duas cervejas – Já que você não quer me dizer, vou ser um bom irmão mais velho e te dar uns toques de como tratar uma fêmea.

– Eu não quero saber! – protestou o mais novo.

–Mas vai ouvir ou vou dizer para mamãe que você se recusou a ouvir conselhos do seu irmão mais velho que só estava tentando ser legal. – e sorriu abertamente.

Huaru bufou.

– Tá, fale o quanto quiser, não vou lhe dar ouvidos mesmo...

– Veremos irmãozinho,veremos...

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O machado cortou o ar com um zumbido e o orc foi atingido com tanta força que o sangue espirrou para todos os lados. Os espectadores rugiram de alegria quando o atingido caiu no chão e não se moveu mais. Tewdric então levantou os braços, vitorioso, arrancando mais aplausos da plateia.

– Tragam um sacerdote! — gritou uma goblina sobrevoando o ringue com uma estranha mochila voadora — Acho que ainda dá pra salvar esse!

Kassyeh batia palmas freneticamente e abriu um grande sorriso quando Tewdric a olhou da arena. O guerreiro vestia sua melhor armadura e já derrotara seis adversários. Era uma tarde animada na Guilda dos Brigões.

Depois de todo o estresse do dia anterior, Kassyeh e Tewdric retomaram a lua-de-mel com força total. O copo da elfa estava todo dolorido e já havia perdido a conta de quantas vezes ela e o marido haviam feito sexo. O orc estava muito animado para ser pai. Só deram uma trégua no "processo de fabricação", como Tewdric chamava, porque o guerreiro recebera um convite da Guilda dos Brigões. Muitos desafiantes estavam loucos para ter um combate com ele e Kassyeh o convenceu que era uma boa oportunidade de extravasar um pouco da raiva que ele ainda sentia do general Nazgrim.

Agora, seis batalhas depois, Tewdric exibia um sorriso de triunfo magnífico. Tinha tido luta, com direito a muito sangue, e logo mais teria muito sexo com sua elfa.

Havia coisa melhor?

Enquanto o marido recebia os aplausos e goblins brigavam pelo dinheiro ganho e perdido com as apostas da luta, Kassyeh estava se dando ao luxo de comemorar com um pouco de vinho. Perdera a conta de quantas taças tinha bebido, mas com certeza foram muitas já que a bebida estava deixando-a animada e ela lançava olhares maliciosos na direção do seu guerreiro. Iria recompensá-lo bem pelas vitórias.

– Uma bela luta hein?

Um elfo sangrento, vestindo uma armadura pesada e segurando uma imensa espada chegou ao seu lado. A maga não o conhecia, então o ignorou.

– Não entendo porque o desafiam. — continuou ele querendo chamar a atenção dela — Eu não sei se me arriscaria tanto.

– Então você é um covarde. — cortou Kassyeh seca, sem tirar os olhos de seu marido — Se não tem coragem de enfrentar um guerreiro de verdade no ringue.

O elfo pareceu surpreso com as suas palavras rudes. Olhou para a maga, e depois olhou para Tewdric, e então entendeu.

– Você é a elfa esposa desse orc? — perguntou visivelmente espantado.

– Sou sim. — disse com orgulho — E se você quiser continuar inteiro, saia de perto de mim. Você me incomoda.

Normalmente Kassyeh não seria tão grossa, mas estava bebendo há algum tempo e o elfo estava deixando-a irritada. Como podia contemplar seu guerreiro vitorioso se outra pessoa se não parava de falar com ela?

– Na verdade, — continuou o elfo — sei por que não param de desafiar o seu... Marido. — havia um tom de deboche na fala dele.

Kassyeh continuou ignorando-o.

– Acham que ele amoleceu por casar com uma elfa. — concluiu com um sorriso malicioso no rosto.

Talvez tivesse sido o álcool. Ou apenas a situação do dia anterior que, ainda fresca em sua memória, doeu novamente. O certo é que Kassyeh, rapidamente, transformou o guerreiro elfo numa ovelha, pegou-o pelo pescoço e jogou na arena.

– Tewdric meu amor! — gritou subindo em um caixote — Espera essa ovelha ai voltar ao normal e trucida este idiota!

Tewdric olhou a ovelha berrando pela arena e sua expressão ficou sombria. Quando o elfo voltou ao normal, olhou para os lados, confuso, e viu-se bem em frente a um orc muito bravo.

– Ele lhe incomodou, minha Kass? – perguntou sem tirar os olhos do elfo.

A maga riu alto.

– Sim! – gritou animada — E disse que estão todos achando que você amoleceu quando casou comigo!

Houve um momento de silêncio no lugar. Ficou claro que as palavras do elfo eram verdadeiras. Tewdric estreitou os olhos e encarou toda a plateia, antes de voltar sua atenção para o guerreiro sin’dorei. Então, oorc cuspiu no chão, pegou seu machado e apontou bem para seu pescoço.

– Vamos elfo... – rosnou enfurecido — Venha ver se eu amoleci ou não...

O elfo pensou um pouco. Podia muito bem não aceitar a provocação, pois as regras da guilda eram claras: só lutava quem queria. Contudo, a multidão saiu do seu estado de espanto e começou a gritar pedindo por mais uma luta. Os goblins rapidamente recomeçaram as apostas. O elfo podia saber que estava diante de um dos mais poderosos guerreiros da Horda, mas seu orgulho ferido não deixou que abandonasse o ringue. E se ganhasse a luta contra o orc, deixaria uma bela elfa viúva.

– Vamos orc. — disse ele recuperando a compostura e puxando a espada — Uma luta por aquela bela criatura. — e apontou Kassyeh com o queixo — Se eu ganhar, ela será minha. — concluiu com um sorriso debochado.

A luta não durou trinta segundos. Em pouco tempo, o elfo jazia morto partido ao meio no centro da arena.

A plateia não parava de vibrar, e Kassyeh bebeu mais uma taça de vinho que lhe foi servida. Estava claro que não importava o casamento com a elfa: Tewdric ainda era o Campeão da Horda. Todos começaram a gritar seu nome e ele andava pela arena com os braços levantados segurando o machado ainda pingando sangue. Depois dessa sétima luta, a maga olhou para seu orc e fez um gesto com a mão, chamando-o. Ele entendeu e deu por encerrada sua participação naquele dia. Falou rapidamente com a goblina organizadora do evento, encheu os bolsos de ouro, e foi em direção à sua esposa, que o recebeu com um profundo e caloroso beijo na boca.

– Você é o máximo! — disse ela entre risos.

– Você está bêbada, Kass? — perguntou ele rindo, mas preocupado.

– Um pouco. — ela riu e o agarrou — Vinho do Canto Eterno. Melhor safra dos últimos anos.

– O melhor vinho para a dama do guerreiro! — grasnou um goblin garçom excepcionalmente simpático, enchendo novamente a taça de Kassyeh — Só servimos o melhor para ela, Campeão.

Tewdric tirou a taça da mão de Kassyeh e entregou ao garçom.

– Certo, entendi, mas vamos parar ok, Kass? — pediu.

– Está preocupado? — sussurrou sensualmente colando o corpo no dele — Tem medo que eu fique incontrolável?

Tewdric a agarrou e a beijou com vontade. Quando o beijo terminou, Kassyeh estava tonta e repletade desejo.

– Sim, estou preocupado. — e passando o dedo nos lábios dela, continuou — Não quero esse sorriso encantando mais ninguém por aí, além de mim. Vamos para casa?

Kassyeh assentiu.

– Vamos continuar nossa lua-de-mel... — disse a maga.

O guerreiro pagou uma boa quantidade de ouro ao garçom, e a julgar pela alegria dele, bem mais do que Kassyeh tinha gastado, passou o braço pela cintura dela e seguiu para fora da arena da Guilda dos Brigões. Não demorou para que ele reparasse que a maga realmente tinha passado dos limites, já que ela tropeçava constantemente ao andar.

– Kass, quantas taças você bebeu? — perguntou preocupado.

– Muitas... — disse entre risos — Estou tão, tão feliz que acabei bebendo demais...

Tewdric parou de caminhar. Virou-se para Kassyeh, com a mão ainda na sua cintura e a encarou demoradamente. As bochechas dela estavam bem rosadas, os olhos cintilavam de uma alegria ébria e fios de seu cabelo escuro caiam sobre os olhos. Gentilmente, ele afastou os fios rebeldes e segurou o queixo dela, levantando um pouco mais o belo rosto na direção do seu.

Era difícil colocar em palavras o que sentia quando a olhava daquele jeito. Ele nunca fora bom com palavras. Mas se fosse comparar o que sentia com uma arma, seria a mais destrutiva e poderosa do mundo. Capaz de cortar qualquer coisa e ferir qualquer um.

– O que foi? — perguntou Kassyeh sem parar de rir — Tem alguma coisa no meu rosto?

Tewdric sorriu.

– Não é nada. — e soltando sua cintura, falou — Acho melhor eu te carregar nas costas, você não parece capaz de andar.

Kassyeh soltou um pequeno grito de alegria e subiu desajeitamente nas costas de Tewdric. Abraçou forte seu pescoço e passou as pernas pela cintura dele. O guerreiro então carregou sua pequena maga pelas ruas de Orgrimmar que já escureciam ao pôr do sol.

Quando chegaram em casa, Kassyeh escorregou habilmente das costas dele para o chão. Para alguém que tinha bebido tanto, ela estava demonstrando uma agilidade surpreendente. Trancou a porta e sorriu maliciosamente, mordendo o lábio inferior.

– Então... — começou ela se aproximando devagar dele.

– Então, você tira a roupa. — disse Tewdric gostando do jogo dela.

Kassyeh jogou a cabeça para trás e riu alto.

– Você vai ter que me pegar primeiro... — e saiu correndo em direção à escada.

É claro que ele poderia pegá-la sem nenhum esforço, mas aí não teria graça. Então, permitiu que Kassyeh corresse, se esquivasse, enquanto ele procurava pegá-la. Mas é claro que havia um bônus: ele rasgava uma parte de seu vestido a cada investida, e quando chegaram ao andar superior, a maga estava apenas com a roupa de baixo. Quando Tewdric a agarrou, agora em definitivo, por trás e segurou com força seus seios, Kassyeh gemeu alto. Deixou que Tewdric explorasse seu corpo à vontade e arrancasse suas últimas peças de roupa. Cego de desejo, jogou-a ali mesmo, no chão do corredor e a beijou com fúria.

– Você me faz perder a cabeça! — grunhiu o orc enquanto tirava, apressadamente, a armadura.

– Espero que você jamais a ache... — gemeu Kassyeh passando as mãos no peito nu dele.

– Ah, Kass, Kass... — ele se livrou de toda a indumentária e deitou-se sobre ela — Acho que você vai ficar roxa novamente...

– Não me importo! — disse ofegante passando as pernas pelos quadris dele — Só me possua logo... Com força...

Ele riu e suas presas cintilaram.

Não iria desapontá-la.

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Huaru olhava atentamente para um buraco na parede, tentando se concentrar nele com todas as forças do seu ser. Mas estava muito difícil ignorar todas as coisas que Mhuu falava. Tinha que dar o braço a torcer e admitir que o irmão falava com a segurança de quem dominava totalmente aquela área.

– Vamos Hu. — Mhuu pediu cutucando o nariz do caçula — Eu sei que você tá ouvindo!

– Sério que você acha que as fêmeas gostam disso? — perguntou incrédulo afastando a mão do irmão.

– Mas é claro! Experiência própria, elas vão à loucura!

Huaru o olhou de esguelha.

– Luxuriah é elfa, seu ignorante! Como vou agarrar o pelo dela e puxar com força?!

Mhuu deu de ombros.

– Ela tem cabelo, não tem? Pega pelo cabelo.

Huaru bufou, irritado.

– Ela nunca mais me olha na cara se eu fizer isso!

– Irmãozinho caçulinha do meu coração, não to mandando você escalpelar a elfa, to dizendo que se você fizer na hora certa, do jeito certo, ela vai gritar de prazer. — e sorriu cruzando os braços.

O jovem paladino ainda resistia a deixar o outro perceber que ele queria saber mais sobre aquele assunto. Afinal, Luxuriah era alguém muito experiente; com certeza conhecia toda a arte de se fazer sexo como ninguém. Ele era virgem até o dia anterior. Poderia realmente atender a todas as necessidades dela?

– Humm... — Huaru cutucou o buraco na parede — Fale mais...

Mhuu abriu um largo sorriso.

Nos minutos seguintes, Huaru conseguiu ficar chocado com a vasta experiência de seu irmão. Sempre imaginou que ele já havia curtido bastante a vida, afinal, saíra de casa cedo e adorava passar temporadas em Orgrimmar. Descobrira, naquele momento, que seu irmão já tivera casos com orquisas, trollesas, elfas e, para sua total surpresa, com uma goblina que ele definiu como 'muito fogosa'. Mas sua preferência mesmo eram as taurenas.

– Você é um pervertido. — conclui o jovem paladino quando o irmão encerrou o relato de suas experiências.

– Obrigado. — agradeceu o xamã.

– Isso não foi um elogio.

– Para mim foi. — e abriu um largo sorriso — Mas você vai agradecer a minha perversão mais tarde.

Huaru duvidava que, algum dia, fosse agradecer seu irmão pelos conselhos imorais que ouvira naquele tempo. Mas não conseguia deixar de sentir uma imensa curiosidade de saber se ele estaria realmente certo. Será que, fazendo o que Mhuu dissera, iria deixar Luxuriah satisfeita? Ou ela iria pensar que ele era um pervertido?

Antes que pudesse chegar a uma conclusão satisfatória, Luxuriah e Karen apareceram na taverna. Quando a elfa lhe dirigiu um imenso sorriso, Huaru sentiu sua face arder e seu coração bater descontrolado no peito.

– E então? — perguntou ela se aproximando, sentando e tomando a caneca de Mhuu — Já se entenderam?

– Ei! — protestou Mhuu — Essa era minha cerveja!

– Disse bem, era. — Luxuriah tomou o resto da caneca e fez um sinal para o garçom –Mais uma dessas! To morrendo de sede, Karensky me deixou exausta!

– Como eu to Huaru? — quis saber a menina.

O vestido já tinha sido trocado. Karen usava uma calça de linho marrom e um blusão de algodão branco, que estava elegantemente dentro da calça e um cinto de couro prendia a roupa. As sapatilhas vermelhas foram substituídas por botas pretas e a única coisa que mostrava que ali havia uma menina, eram os brincos que cintilavam em suas orelhas.

– Você está um perfeito menino. — disse Huaru rindo.

– Agora ela pode subir em árvores sem mostrar a bunda lisa! — disse Luxuriah acompanhando-o no riso.

– A Lux comprou várias, olha.

Karen começou a abrir os pacotes e mostrar todas as roupas que Luxuriah tinha comprado para ela. Preocupada com as estripulias da irmã e também com seu futuro treinamento, Luxuriah comprara não somente roupas para a menina usar no cotidiano, mas também que pudessem ser usadas por baixo da armadura que foi encomendada. Mas os muitos pacotes não eram somente para Karen, a caçadora também comprara um arco cintilante para Ashrial e alguns livros para Kassyeh. Huaru e Linore também foram lembrados e o paladino ganhou uma pulseira feita de tiras de couro, onde havia entalhado em madeira, o símbolo dos elfos sangrentos.

– Puxa, não precisava bebê. — agradeceu.

– Claro que precisava, para você não se esquecer de mim. — disse com um sorriso malicioso — Você acha que sua mãe vai gostar desse vestido?

– E eu? — quis saber Mhuu — Não vou ganhar nada?

Luxuriah lhe lançou um olhar irritado.

– Agradeça o fato de eu ter deixado você vivo depois de ontem.

– Não tenho culpa se vocês ficam por ai tomando banho juntos, sem se importar quem entre no banheiro! — reclamou o xamã.

– Quem tava tomando banho junto? — perguntou Karen prestando atenção na conversa depois de mostrar todas as compras para Huaru.

– Ninguém querida, quer beber algo? — a irmã mais velha tentou desviar a atenção da caçula.

– Quero, cerveja!

– Pegue Karen. — Mhuu tomou a caneca de Huaru e entregou a menina — Pode beber.

Luxuriah tomou a caneca da mão de Karen e bateu com ela na cabeça de Mhuu.

– Ai, porque você fez isso?! – reclamou o xamã.

– Você está oferecendo cerveja para minha irmã de onze anos?! – rosnou Luxuriah.

– Quase doze! – corrigiu Karen.

– Esse povo vai me matar com essas pancadas... – choramingou.

– Deixa de frescura, um tauren desse tamanho choramingando! – reclamou a caçadora – E vamos aproveitar que estamos aqui para almoçar, estou morrendo de fome.

O almoço foi bem divertido. Depois que parou de choramingar, Mhuu começou a contar a Karen diversas histórias. Huaru e Luxuriah passaram o almoço trocando olhares e o paladino imaginava se, naquela noite, ela iria dividir o quarto com ele novamente. Se pedisse para ela ir, estaria sendo inconveniente?

– Algum problema Huaru? – perguntou ela baixinho ao ver a irmã entretida com Mhuu.

– Hmm... Se eu pedisse para você dormir no meu quarto hoje de novo, você me acharia um pervertido? – quis saber no mesmo tom de voz dela.

Luxuriah deu um sorriso de canto de boca.

– Claro que não! Eu iria adorar... – e dando uma rápida olhada em Mhuu, indagou – Mhuu te perturbou muito perguntando sobre nós, não foi?

Huaru pareceu surpreso.

– Como você sabe?! – e rapidamente acrescentou – Eu não contei nada, juro.

A elfa passou o dedo pelo rosto dele, acalmando-o.

– Calma Hu. Os machos costumam conversar sobre essas coisas... E conheço o Mhuu, ele é mais curioso que Karensky. – e deu uma rápida olhada nos dois, que conversavam animadamente – Sério, parece que eles têm a mesma idade...

A conversa entre Karen e Mhuu estava bem animada.

– É verdade mesmo?! — a menina perguntou amedrontada – Os humanos comem os bebês elfos?!

– Comem! – disse Mhuu convicto – E também orcs e taurens. Com os elfos eles fazem pastel, com os orcs fazem torta, e com os taurens, hambúrguer.

– Que maldade!!! — Karen estava quase em prantos.

– Mas não se preocupe, sempre que sabemos de algum bebê que vai virar refeição, nós vamos lá e os salvamos.

– E como vocês sabem? – quis saber mais calma.

– Nossas primas nos avisam. As vacas que tem em frente à Ventobravo. São todas espiãs da Horda! – concluiu dramaticamente.

– Ohh!! – exclamou a pequena elfa deslumbrada.

Huaru franziu o cenho e olhou para Luxuriah.

– Não vai desmentir ele? – perguntou apontando para o irmão que passou a falar como os humanos fazem espetinho com os goblins e usavam os mortos vivos como cimento.

– Não. – respondeu tomando mais cerveja – Quero mais que ela tenha medo dos humanos. O medo nos mantem vivos. — e chegando mais perto do paladino, perguntou maliciosa – Seu irmão tentou te dar... Conselhos?

Huaru ficou totalmente constrangido e não conseguiu responder. Luxuriah riu e passou o dedo pelo braço dele.

– Não precisa falar... Você me mostra mais tarde... – e deu um beijinho no rosto dele.

– Ei! – reclamou Mhuu – Parem com isso, eu to comendo, poxa! Ficam fazendo essas coisas sebosas aí na frente dos outros...

– Arranque os olhos então! – disse Luxuriah pegando o rosto de Huaru e dando um demorado beijo nele.

Mhuu ainda resmungou um pouco, mas logo voltou a contar histórias mirabolantes a Karen, que estava acreditando em tudo que o xamã dizia. Quando terminaram o almoço, Luxuriah decidiu que era melhor irem andando. Quando estavam saindo do Penhasco do Trovão, Karen apontou para uma direção, para onde vários taurens se dirigiam e perguntou:

– Nós não fomos para lá. O que tem ali?

– O Poço das Visões. – respondeu Huaru – É um local aonde você vai se tiver procurando respostas ou se estiver angustiado.

– Quero ir lá! – pediu olhando para a irmã.

– Outro dia Karen. Quero chegar à Aldeia antes do anoitecer. E também, temos que embrulhar os presentes de Kass e Ash não é?

A menina concordou, ainda que relutante.

Fizeram a viagem devagar, aproveitando a vista e a suave brisa que balançava as folhas das árvores. Se estivessem em Durotar, àquela hora seria praticamente impossível de se cavalgar, mas em Mulgore, o clima era ameno mesmo no início da tarde. Huaru e Luxuriah iam lado a lado, conversando sobre o futuro treinamento de Karen e Mhuu entretinha a menina com piadas.

– Tenho que admitir, ele é bom com crianças. – disse a caçadora se referindo ao xamã.

– É uma das poucas qualidades dele. – disse Huaru.

– Mhuu é uma boa pessoa, só é meio inconveniente. – disse por fim Luxuriah.

– Meio? – Huaru balançou a cabeça – Você está sendo bondosa com ele.

Ambos riram.

– Vai começar o treinamento de Karen quando? – perguntou a caçadora.

– Amanhã. – e diante do olhar surpreso dela, esclareceu – Quero começar a falar sobre a importância e a responsabilidade que é ser um paladino.

– Ah. – Luxuriah pensou em perguntar o que ele faria quando eles voltassem a Luaprata, mas deixou para lá. Não queria dar vazão àquela dorzinha incomoda que começa a se instalar ao pensar nisso.

Demoraram um pouco mais que o normal na volta. Chegaram à casa de Huaru quando o sol começa a se por, e Luxuriah ficou extremamente feliz quando viu a montaria de Raziel e Ashrial no estábulo. Poderia ficar sossegada agora que sua irmã estava em casa.

Porém, quando Linore apareceu na porta da casa com a expressão sombria, o coração de Luxuriah apertou no peito. A xamã apertava as mãos nervosamente e parecia assustada. Luxuriah já vira aquela expressão no rosto de muita gente para se deixar iludir. Desmontou apressadamente e correu na direção da casa.

– Onde está ela? – perguntou ofegante.

– Lá em cima. – respondeu Linore –Mas Luxuriah, ela está...

Não a deixou terminar. Livrou-se rapidamente dos presentes e também dos itens que trazia consigo. Sabia o que acontecera, podia sentir a energia demoníaca irradiado do quarto acima. Muita magia demoníaca.

Quando entrou no quarto, confirmou todos seus temores. Ashrial estava encolhida na cama, com tatuagens verdes de mana cobrindo seu corpo. Seus olhos cintilavam como se estivessem em brasa e algumas mechas do cabelo dela estavam brancas.

– Lux... – gemeu ela.

– O que você fez Ash! – disse se aproximando dairmã e a tocando.

Ashrial soltou uma exclamação de dor e se encolheu.

– M-minha p-p-ele d-dói... – murmurou ela com lágrimas de mana escorrendo de seus olhos – Co-como... S-se...

– Como se estivesse em carne viva. – completou a outra – Não é?

A jovem fez que sim com a cabeça.

– Ela nos salvou – disse uma voz às suas costas. Luxuriah olhoue viu que era Raziel – Se ela não tivesse sentido o bruxo, teríamos sido pegos de surpresa.

– M-Meleth... – Ashrial continuavam a chorar – E-le... Mm-morreu...

– Oh, querida, te ajudo a treinar outro. – Luxuriah começou a tirar a armadura de couro dela. Toda a magia do traje já tinha sido absorvida por Ash – Por enquanto vamos cuidar disso.

– Se-sede... – balbuciava ela – To com tanta sede...

– Vou pegar mais água. – disse o tauren caçador – Ela bebeu toda a que tínhamos na viagem de volta.

– Não é de agua que ela tem sede. – esclareceu Luxuriah – É de magia.

Assim que terminou de falar, Huaru apareceu na porta do quarto.

– O que aconteceu? – perguntou preocupado.

As orelhas de Ashrial ficaram em riste e ela olhou diretamente para o paladino. Fez menção de se levantar, com a mão estendida para Huaru, mas Luxuriah rapidamente segurou seu braço e o prendeu junto ao corpo dela. Ash gritou de dor.

– Só um pouco!- gritou ela- Me deixa pegar só um pouco! — e começou a se debater.

– Huaru, se afaste, por favor! –pediu Luxuriah angustiada – Ela não ta conseguindo se controlar!

Huaru deu um passo para trás sem entender bem o que estava acontecendo. Karen, atraída pelos gritos de Ash, se esgueirou para dentro do quarto e parou perto da cama, estarrecida com a aparência da irmã.

– Ash! – chamou se aproximando da cama.

Mas Ash estava cega pelo vício. Sua boca estava rachada e não importava quanta agua tivesse tomado aquela sede não passava. Bebera a magia de seu traje, do traje dos seus companheiros e quase bebera de Linore quando chegara. Mas nenhuma dessas tinha o mesmo sabor da que provara do bruxo. Quem sabe a magia de Huaru pudesse acabar com aquela dor? Então ia tentar pegar um pouco, só um pouco, só para a dor passar. Por que Luxuriah não entendia que ela queria aliviar a dor?

– Não Ash! – gritava Luxuriah tentando contê-la.

A jovem se desvencilhou de Luxuriah por um segundo e avançou para Huaru. Karen, mesmo sem entender o que estava acontecendo, tentou segurar a irmã e acabou sendo atingida por uma cotovelada, que fez seu sangue espirrar. Luxuriah gritou, puxou Ash pelo cabelo e aplicou um soco forte o suficiente para nocauteá-la. Ash caiu, desmaiada na cama, enquanto Karen saiu do quarto chorando, segurando o nariz que sangrava profusamente. Luxuriah olhou para Huaru, desesperada.

– Precisamos de Kassyeh aqui. Com urgência.

*********************

Kassyeh acordou e sentou-se na cama, assustada. Uma forte dor tinha se instalado em sua cabeça, e ela apertou as têmporas com força. Parecia que sua cabeça ia estourar se as largasse.

– Muita dor? – perguntou Tewdric animadamente entrando no quarto.

– Sim... – murmurou – Já é de manhã?

– Não. Ainda é madrugada. – e se sentando ao lado dela, ofereceu uma xícara – Tome, beba.

Kassyeh bebeu e fez uma careta.

– Quantas horas eu dormi? – quis saber.

– Quase nada. – e rindo, passou a mão nos cabelos dela – Você parece perdida.

– Eu estou... — e lembrando-se da tarde que se passara, o olhou rapidamente, fazendo a cabeça doer mais ainda – Oh, pela Nascente do Sol! Eu matei alguém! – e seus olhos se encheram de lágrimas.

Para sua surpresa, Tewdric caiu na risada.

– Não Kass, eu matei. – corrigiu carinhosamente

As lágrimas começaram a rolar no rosto dela.

– Mas eu o transformei em ovelha e joguei-o pra morte!

Tewdric deu de ombros.

– Sabia que ele queria me matar para ficar com você? – revelou.

– Sério?

– Sério.

A elfa parou de chorar imediatamente.

– Então ele mereceu. – sentenciou.

Tewdric caiu na risada e deu um beijo na cabeça de Kassyeh.

– Sim, minha elfa, ele mereceu. – e tocando na caneca, disse – Beba toda, vai fazer a dor de cabeça passar. É aquele seu chá milagroso, acho que fiz certo.

– Fez sim. – disse ela provando e sentindo um alívio quase imediato – Você está aprendendo bem. – e sorriu.

– Então tome tudo, quero continuar nossa lua-de-mel!

Kassyeh riu, mas parou logo, quando a cabeça deu uma latejada mais forte.

– Interesseiro!

Naquele momento, alguém bateu na porta da casa. Tewdric e Kassyeh se olharam, admirados. Não estavam esperando nenhuma visita.

– Vou atender. – disse Tewdric pegando o machado que estava do lado da cama – Não saia daí.

Um mau pressentimento tomou conta de Kassyeh. Não era chamada para missão, Tewdric estava de lua-de-mel e deixara claro que não iria atender nenhum chamado. Tinham estado naquele dia na Guilda dos Brigões, então não era um desafio. Só tinha então duas explicações. Podia ser um problema para a guilda.

Ou um problema com suas irmãs.

Ignorando a dor de cabeça, se levantou rapidamente e começou a se vestir. Quando Tewdric entrou, trazendo uma carta, ela já estava pronta. E soube qual das duas opções era quando ele a olhou, preocupado.

– É de Luxuriah.

Kassyeh pegou a carta e leu. E seu rosto ficou pálido.

– Temos que ir agora. – correu para o armário e tirou sua bolsa de lá – Precisamos chegar à Aldeia Narache antes do sol nascer!