Herdeiros da Guerra
11 Capítulo XI - O Poço das Visões
Se existisse alguma criatura que simbolizasse a essência do que o povo élfico era, com certeza ali estava. Mas não era apenas uma. Eram duas pequenas e belas criaturas que corriam com leveza pela floresta do Canto Eterno como pequenas gazelas ágeis e vivazes, com os vestidos rodopiando ao redor do corpo, os cabelos negros ao sabor do vento e risos cristalinos e melodiosos como uma harpa recém-afinada.
A menor trazia uma boneca nos braços e vinha um pouco atrás. A maior carregava uma pequena cesta de vime e tinha um arco vermelho, próprio para seu tamanho, nas costas junto com uma pequena aljava de flechas.
– Vamos Kass! — chamou a mais velha pulando uma pedra com agilidade — Estamos quase lá.
– Estou indo! — gritou a mais jovem pulando a pedra também, mas tropeçando um pouco antes de se firmar novamente — Calma Lux!
Elas eram perfeitas, pensou Anasterian observando agora as meninas subindo um pequeno morro. Saudáveis, alegres, espertas, inteligentes, amorosas. Tinham porte e altivez, mesmo na corrida desenfreada que empreendiam. Seu coração se encheu de orgulho e ao mesmo tempo de tristeza ao perceber que ambas eram a personificação do que ele acreditavaser o modelo exemplar de princesas para o seu povo.
– Aqui Kass! — falou Luxuriah parando e colocando a cesta embaixo de uma árvore — Aqui tá bom!
– Tem certeza? — perguntou a menor franzindo a sobrancelha — Papai falou que não devíamos cruzar as colinas sozinhas...
– Tudo bem, eu to armada! — disse a mais velha tirando o arco das costas — Se alguém vier, leva flechada!
O rei riu consigo mesmo. Luxuriah ainda estava aprendendo a atirar, mas já se sentia uma perfeita arqueira. Observara os primeiros ensinamentos que a menina recebera do pai e a alegria em ganhar seu primeiro arco. A primogênita de Dhomm herdara sua aptidão e sua audácia.
Kassyeh, porém, acreditara piamente nas palavras da irmã e parecia mais tranquila. Aproximou-se da cesta de vime, colocou a boneca carinhosamente ao lado da árvore, abriu a cesta, tirou uma toalha vermelha de lá e a estendeu no chão.
– Certo, vamos fazer o piquenique aqui.
– Ah, quero caçar antes! — disse Luxuriah puxando a corda de seu arco — Venha Kass, vamos caçar primeiro!
Seria uma coisa divertida de se ver, as duas meninas caçando. Anasterian sabia que Kassyeh não era muito chegada em armas e seu pai ainda tentava ensiná-la alguma coisa, mas a menina preferia os livros e já lia com uma desenvoltura invejável para uma criança de sua idade. Mesmo assim, pegou a boneca e acompanhou a irmã com animação. Era muito bonita a forma como elas eram unidas.
As meninas caminharam um pouco e o rei acompanhou-as a distância. Sua magia o deixava imperceptível aos olhos delas, então podia observá-las sem medo de ser descoberto. Viu quando Luxuriah avistou um coelho, parou, ergueu a mão para a irmã parar também e se agachou estrategicamente atrás de uma moita. Kassyeh imitou-a.
– Ali. — sussurrou a menina colocando a flecha no arco — Um coelho. Vamos levá-lo para a mamãe fazer ensopado. — e mirou.
– O que você vai fazer? — perguntou a caçula com os olhos arregalados olhando para o arco e para o coelho.
– Vou caçá-lo lógico. — respondeu puxando a flecha.
Antes que Luxuriah pudesse atirar a flecha, Kassyeh a empurrou. A flecha saiu torta, passou longe do coelho e se fincou numa árvore. O coelho, assustado, saiu saltitando para longe das meninas. Luxuriah olhou para irmã, muito irritada.
– Por que você fez isso?! — questionou enraivecida.
– Você ia matar o coelhinho! — respondeu a outra chorosa.
– Claro que ia! É assim que se caça!
– Você não pode matar os coelhinhos! — insistia Kassyeh agarrada na boneca.
Luxuriah suspirou e revirou os olhos.
– E como você acha que a mamãe faz ensopado de coelho? — perguntou colocando as mãos na cintura — O papai mata os coelhos!
Os olhos de Kassyeh se encheram de lágrimas.
– O papai não mata coelhinhos! — retrucou.
– Mata sim!
– Não mata não! — insistiu.
Normalmente uma discussão daquelas entre duas crianças duraria um bom tempo, mas aparentemente Luxuriah não tinha a intenção. Dando de ombros, com certeza pensando que um dia provaria que estava certa, ela apontou a flecha na árvore e falou em tom mandão:
– Certo, certo. Agora vá buscar a flecha que perdi por sua causa!
Satisfeita por acreditar que o pai não matava coelhinhos inocentes, Kassyeh foi buscar a flecha da irmã sem reclamar. Anasterian sempre ficava encantado com as duas e triste, por ter que se esconder para observar as netas. Se tivesse sido mais corajoso, se tivesse sido mais inconseqüente, não precisaria se esgueirar pela floresta para observar o crescimento das meninas que nem ao menos imaginavam que tinham sangue real nas veias. Seria um sonho acompanhá-las de perto, no castelo, ajudá-las, orientá-las e, principalmente, amá-las sem reserva.
Os devaneios do rei dos altos elfos foram interrompidos por um grito. Kassyeh se encaminhara para a árvore para recuperar a flecha da irmã, mas antes que chegasse até o tronco, uma corda enroscou-se em seu pé e a ergueu violentamente deixando-a pendurada no galho mais alto. A menina largara a boneca e agora gritava de medo e de dor.
– Kass! — Luxuriah gritou largando o arco e correndo para onde estava a irmã — Calma, vou tirar você daí!
Anasterian se aproximou mais, preocupado. Kassyeh ainda chorava pendurada de cabeça para baixo, mas parecia não estar muito machucada. Luxuriah escalou agilmente a árvore até o galho e logo chegou onde estava amarrada a corda. Primeiro tentou puxar a corda, mas Kassyeh gritou de dor. Seu tornozelo com certeza estava sensível.
– Ta doendo! — gritava a menina.
– Calma, calma! — Luxuriah mantinha a voz controlada, na tentativa de acalmarairmã — Vou te tirar daí Kass!
A menina pensou um pouco, depoisse deitou no galho, e estendeu a mão.
– Venha Kass, tente me dar sua mão! — pediu.
Kassyeh fez força para tentar alcançar a irmã, mas não conseguia fazê-lo. Continuava pendurada de cabeça para baixo e não pode erguer o tronco na direção da irmã. Anasterian estava preocupado. Queria intervir, mas não era prudente. O que responderia quando as meninas perguntassem o que fazia por ali?
Todavia, a cautela foi deixada de lado quando a corda começou a desfiar. Kassyeh gritou e Luxuriah tentou novamente puxá-la. Mas já era tarde, a corda rompeu-se. Quando deu por si, o rei estava embaixo da árvore, aparando a queda da sua neta mais jovem com seus braços.
– Pronto, você está salva. — falou em tom confortador quando acomodou a menina no seu colo. — Não chore...
Kassyeh chorava assustada e se agarrou em seu salvador. Anasterian a consolou enquanto tirava a corda de seu pé. Bastou um olhar para ele saber que aquilo não era coisa de nenhum elfo. A corda era frágil e mal acabada, como toda corda humana. Suspirou. Seria um problema diplomático falar com o embaixador de Lordaeron que instruísse sua comitiva a não colocar armadilhas na floresta que pudessem machucar crianças élficas.
Luxuriah desceu da árvore tão rápido quando subira. Pegou a boneca da irmã do chão e ficou olhando enquanto o elfo verificava o tornozelo dela. Anasterian sentiu o olhar penetrante de Luxuriah em sua direção e a olhou. Ela não riu e sustentou um olhar desconfiado, até que o rei sorriu, tentando passar tranqüilidade.
– Sua irmã está bem, só assustada. — disse com suavidade.
Seu longo reinado não forapor acaso. Anasterian tinha a capacidade de transmitir confiança absoluta não apenas em sua fala, mas em seu olhar e seus gestos. Por isso, Luxuriah logo relaxou. Percebeu que não se tratava de ninguém perigoso.
– Uma corda humana. — disse de repente a mais velha apontando para o pedaço de corda que ele tinha nas mãos — Isso é uma corda humana. O que ela faz aqui na floresta?
– Como você sabe que é uma corda humana? — perguntou interessado o rei colocando Kassyeh delicadamente no chão e indagando a ela — Você consegue caminhar?
– Não sei... — e colocando o pezinho no chão, fez uma careta de dor — Dói... — choramingou.
– Acho que posso dar um jeito. — disse ele pegando-a novamente nos braços — Luxuriah, você sabe o que são botões-da-paz?
A menina o fitou surpresa. Com certeza se perguntava como ele sabia seu nome. Mas assentiu com a cabeça, mais interessada no estado da irmã que com a curiosidade.
– Você vai fazer uma poção de cura? — perguntou esperta — E quer que eu cate alguns botões-da-paz?
Anasterian estava impressionado. Como uma menina tão pequena tinha uma capacidade de raciocínio dessas?
– Sim, é isso mesmo. — disse rindo — Você poderia pegar, por favor? — pediu gentilmente.
Luxuriah fez que sim com a cabeça.
– Ótimo, vou esperar onde vocês colocaram a cesta.
Anasterian levou a chorosa Kassyeh até a toalha vermelha e sentou com a menina no colo. Normalmente, o peso leve de uma criança élfica não iria deixar um machucado daquele e o rei passou a analisar a corda. O objeto estava úmido e cheio de fios de cobre. Isso explicava porque fora capaz de machucar o pé de Kassyeh. Quantas armadilhas daquelas os caçadores humanos tinham posto em sua floresta?
– O-obrigada... — murmurou a criança com os enormes olhos ainda assustados — Por ter me salvado...
– Não precisa agradecer Kassyeh. — disse passando a mão no cabelo da menina — Só fiz o que era o certo.
Kassyeh pendeu a cabeça para o lado, curiosa.
– Como o senhor sabe meu nome?
– Por que ele é o rei.
Luxuriah chegou naquele momento com os braços cheios das flores brancas que haviam lhe pedido. Havia ficado curiosa diante daquele elfo grande, de vestes pomposas, até que se lembrou de onde o conhecia. Aquele era o rei Anasterian de Quel'thalas. Luxuriah se aproximou e fez uma reverência.
– Obrigada por ter salvado minha irmã, majestade.
Anasterian ficou incomodado com aquela situação. Pensar em sua neta se curvando perante ele não era agradável.
– Não precisa dessa formalidade toda, Luxuriah. Hoje, sou um simples caminhante da floresta.
– O rei é sempre o rei. — retrucou a menina — Mas se o senhor prefere sem formalidade, por mim tudo bem. — e sentou defronte a ele e lhe estendeu as flores.
– Então o rei sabe do nome de todas as crianças? — Kassyeh ainda se mostrava admirada por ele saber seu nome.
– Claro né Kass? — respondeu Luxuriah.
Bem que ele queria dizer que não sabia o nome da maioria das pessoas de seu povo, afinal, eles eram numerosos. Mas era perceptível que aquelas meninas não iriam aceitar a resposta sem que isso levasse a outras perguntas. Elas eram atentas e curiosas e achou por bem que elas continuassem a pensar que ele sabia seus nomes porque era sua obrigação como rei.
– Muito bem meninas, vamos ver o que posso fazer com isso. — e com habilidade, esmagou algumas ervas com a mão e colocou no tornozelo de Kassyeh.
Luxuriah observou a cena, abriu a cesta de vime e tirou um copo e uma colher de lá e estendeu para ele.
– A mamãe disse que isso também serve pra misturar as ervas. — falou.
Anasterian sorriu para a menina.
– Sua mãe tem razão. — e pegou os objetos oferecidos.
Sob o olhar atento das suas netas, o rei esmagou o resto das folhas no copo, retirando o excesso do bagaço com uma colher. Pediu um pouco da água que as meninas haviam trazido e misturou, dando para Kassyeh beber em seguida.
– É um pouco amargo, mas vai te fazer bem.
A menina assentiu e tomou. Fez uma careta quando engoliu o líquido, mas pareceu extremamente aliviada em seguida. O machucado sumira rapidamente.
– Obrigada majestade. — agradeceu a menor — O senhor é muito bonzinho.
Foi tão tocante a forma como Kassyeh falara que Anasterian temeu, por um momento, chorar emocionado.
– Não há de quê, Kassyeh.
Colocou a menina sobre a toalha, e ela rapidamente recuperou a boneca que a irmã tinha trazido. Luxuriah sorriu para a irmã, visivelmente aliviada e depois olhou para o rei e seu olhar parecia um pouco inquisitório.
– Majestade, o que o senhor pretende fazer com os humanos? — inquiriu.
Ele ficou um pouco surpreso com a pergunta.
– A respeito de quêLuxuriah?
– Disso. — e mostrou a corda que prendera Kassyeh — Isso é coisa dos humanos que estão nos visitando não é?
– Sim, é verdade. Como você sabe que são dos humanos? — ele repetiu a pergunta que fizera anteriormente.
A menina deu de ombros.
– Meu pai me mostrou os tipos de corda de cada raça usa. E além do mais, nenhum elfo faria uma armadilha estúpida como aquela.
Foi inevitável gargalhar. Luxuriah era orgulhosa e altiva a respeito de seu povo e ele gostou daquilo. Se um dia viesse a ser rainha seria uma muito desconcertante, com certeza.
– Pode deixar que tomarei providências. — assegurou para a tranqüilidade da menina.
– O senhor gostaria de fazer piquenique conosco? — perguntou Kassyeh calorosa.
– Claro que não né Kass? Ele é o rei, tem mais coisas a fazer que ficar aqui com a gente!
Anasterian meneou com a cabeça para Luxuriah.
– Na verdade, acho que preciso de uma boa folga hoje. E porque não aproveitá-la em duas companhias tão agradáveis?
Kassyeh abriu um enorme sorriso e Luxuriah ficou surpresa. Mas logo as meninas estavam à vontade com Anasterian. A caçula abriu a cesta, tirando todas as guloseimas que tinham trazido e arrumando com perfeição sobre a toalha. Luxuriah pegou uma jarra arcana e serviu chá quente ao rei. Tudo estava extremamente delicioso.
– Foi a mãe de vocês quem fez? — perguntou ele.
Para sua surpresa, elas fizeram que não.
– Foi o papai. — respondeu Luxuriah.
– Mas eu ajudei. — retrucou rapidamente Kassyeh.
O coração de Anasterian estava transbordando de felicidade. Estava em uma agradável manhã, no meio da mais bela floresta do mundo, na companhia de suas encantadoras netas e provando de iguarias feitas por seu filho. Por um momento esqueceu-se de todos os erros que cometera com Luelly e se deixou levar pela sensação de que aquela poderia sim ser sua vida. Um avô atencioso num dia comum com suas netinhas.
Foi ótimo conversar com as meninas. Pode saber seus gostos, suas vontades e suas peculiaridades. Luxuriah era atrevida, intrépida, questionadora. Kassyeh era calma, atenciosa, cuidadosa. Luxuriah tinha o ímpeto de uma patrulheira. Se bem trabalhada, poderia herdar o trono sem nenhum problema, pois era uma líder nata. Kassyeh se sairia bem como embaixatriz e poderia casar com algum comandante ou lorde. Juntas, elas seriam uma força primaz entre os altos elfos.
Se fossem herdeiras legítimas, lembrou-se ele amargurado.
Mas aquela não era hora para aquele tipo de sentimentos. Deixou-se levar pela conversa e os três passaram horas conversando. Era muito fácil amar aquelas meninas.
– Então, — falou ele depois de Luxuriah descrever como treinava todos os dias com seu pai — ele não tem pretensões de te mandar para a Academia de Luaprata?
– Não. — respondeu a menina comendo todo o morango que estava em cima do bolo — Ele diz que se ele não precisou ir para lá, a gente também não precisa. Ele vai ensinar tudo a nós.
– Mas sua irmã não me parece pretender seguir os caminhos de seu pai, não é? — questionou carinhosamente olhando para Kassyeh que devorava seu bolo e tinha glacê espalhado por todo o rosto.
– Vou aprender magia com a mamãe. — disse a menina feliz — Papai disse que sou um perigo pra mim mesma com um arco na mão!
– Kass, você se sujou toda, de novo. — ralhou Luxuriah pegando um lenço e limpando o rosto da irmã.
– Desculpa... — pediu envergonhada.
– Você tem aptidão para magia, então. — o rei estava orgulhoso. Sua linhagem era conhecida por suas aptidões arcanas. Ele era um mago poderoso. Seu pai também o fora e seu filho também era. Saber que uma das netas ia trilhar aquele caminho o deixava em êxtase. — Imagino que em alguns anos vá para Dalaran.
Kassyeh negou veementemente com a cabeça.
– Eu não vou estudar em Dalaran.
– Por que não? — quis saber o rei surpreso. Sabia que o tio materno dela, Aethas Fendessol, estava lá.
– Papai disse assim — a menina engrossou a voz, imitando o pai — "Você só vai pra Dalaran por cima do meu cadáver!" — e caindo na risada, acrescentou — Titio Aethas não gostou.
– Claro que não, ele só falta lamber as botas do Kirin Tor! — Luxuriah riu também.
– Mas somos aliados do Kirin Tor há dois mil anos. — questionou o rei — E lá é onde estão reunidos os maiores magos do mundo. O que seu pai tem contra Dalaran?
– Ele disse que Dalaran mexe com a cabeça das pessoas. — disse a pequena.
– Deixa a gente meio doido. — acrescentou Luxuriah.
– As pessoas acabam esquecendo a família e as responsabilidades com seu povo. — concluiu Kass.
Anasterian percebeu que havia certa lógica no pensamento de Dhomm. Não que o Kirin Tor deixasse realmente as pessoas perturbadas, não, mas absorvia tanto o indivíduo que qualquer um acabava consumido pelas responsabilidades juntos ao Kirin Tor, deixando as outras de lado. Infelizmente, percebeu, era o que estava acontecendo com Kael'thas. Ele deveria já estar de volta ao lar, ter se casado e tido filhos. Começado a assumir seu lugar como futuro rei. Mas preferia ficar na cidade humana, em meio aos outros magos.
Se tivesse assumido Dhomm como filho, poderia ter tirado o fardo do trono de seu primogênito e deixá-lo livre para praticar seus estudos arcanos sem preocupações. Dhomm tinha o amor pela terra que faltava a Kael. E já constituíra família. Era bem quisto por todos e um patrulheiro exemplar. Recusara a liderança dos patrulheiros para poder se dedicar mais a família. Era alguém que estava disposto a sacrifícios pelos que amava.
Como um rei deveria ser.
– Seu filho tá em Dalaran, não é? — perguntou Kassyeh tirando-o de seus devaneios — O Príncipe Kael'thas?
– Sim está. — respondeu sorrindo.
– Papai não gosta dele. — revelou Luxuriah.
Com certeza aquela era uma manhã de revelações, pensou consigo mesmo.
– E por que seu pai não gosta do meu filho? — e irmão dele, acrescentou em seu pensamento.
– Ele tentou beijar a mamãe uma vez. — quem respondeu foi Kass.
– Aí papai ficou com ciúmes e ameaçou jogar uma bolinha de piche no cabelo dele. — continuou Luxuriah.
– Ai ele largou a mamãe e saiu correndo. — completou Kassyeh.
– Com medo do cabelo! — riu-se Luxuriah.
As meninas se entreolharam e caíram na risada. Anasterian acompanhou-as no riso. Lembrava bem que estava planejando casar Kael com Samanthah Fendessol quando Dhomm fugiu com ela. Uma ironia do destino.
– Bem, o cabelo é algo muito importante para qualquer elfo. — disse o rei com uma falsa seriedade.
As meninas riram.
– Eu gosto do seu cabelo majestade. — disse Luxuriah inesperadamente — É prateado e luminoso, como a lua cheia.
O comentário o deixou sem jeito.
– Obrigado Luxuriah. — e estendendo a mão, tocou nos cabelos da menina — O seu também é lindo, negro como a noite sem lua. Como os de sua avó.
– Vovó Fendessol tem cabelos ruivos. — corrigiu Kassyeh.
O rei riu.
– A outra avó de vocês. A mãe de seu pai.
As meninas o olharam, boquiabertas.
– O senhor conheceu a vovó Luelly?! — perguntou Luxuriah admirada.
– Sim conheci. — seu coração se apertou ao lembrar-se da pele pálida emoldurada por cabelos negros e olhos azuis brilhantes como o céu. — Ela era excepcional.
– Papai fala muito dela. — Luxuriah estava fascinada com o fato de o rei conhecer sua avó –Tem um quadro dela desse tamanhão na parede lá de casa. Eu não a conheci, mas gosto mais dela que da senhora Fendessol.
Anasterian franziu a testa.
– Por que não chama Lady Fendessol de vovó?
Luxuriah deu de ombros.
– Ela não gosta do papai. Então, eu não gosto dela. Prefiro a vovó que não conheci.
Era de seu conhecimento o fato de Lady Fendessol não gostar de Dhomm. O casamento entre Samanthah e Kael'thas era praticamente certo antes da menina fugir com Dhomm. Apesar do apreço que os mais jovens tinham pelo patrulheiro, os mais velhos aindao chamavam de 'bastardo' pelas costas. Ninguém tinha coragem de falar pessoalmente, afinal, Lady Luelly sabia de muitos segredos e ninguém tinha certeza se ela compartilhara com o filho ou não. Por isso, fingiam.
O que faria se descobrissem que o rapaz que discriminavam era seu filho? O bajulariam? Ou o ignorariam? Kael ficaria chocado, com certeza, mas não achava que o mago iria ignorar o irmão. Talvez brigasse com o pai por ter ele ter traído sua mãe, mas seu filho tinha um bom coração e receberia aquela família de braços abertos.
Porém, depois do que as meninas contaram, não sabia se Dhomm aceitaria o abraço do irmão ou atiraria uma flecha nele. O patrulheiro era conhecido por ser ciumento.
– Se o senhor conheceu a vovóa ouviu cantar não foi? — perguntou Kassyeh curiosa.
– Sim, ouvi. — ele ouvira as mais belas músicas de Luelly. Aquelas que ela não cantava para ninguém. As compostas para ele, de amor puro e sincero. Um amor que ele mesmo matara ao negar reconhecer a criança que nascera daquele sentimento.
– Papai nos ensina canto e piano também. — a mais nova terminou o bolo e raspou o prato — Tem mais Lux?
– Desse jeito você vai ficar com dor de barriga! — advertiu a outra, mas dando outra fatia de bolo para a irmã.
– Então, vocês cantam? — o rei estava maravilhado. Teriam as netas herdado a doce voz de sua amada?
– Um pouco. — Luxuriah sorriu — Ainda estamos aprendendo.
– A Lux canta melhor que eu. — choramingou Kassyeh.
– Mas você toca piano melhor que eu. O que é uma surpresa, já que você não consegue puxar a corda de um arco sem se enroscar nela.
– Será... — o rei começou esperançoso — Que vocês poderiam cantar para mim?
– Claro. — responderam em uníssono.
As meninas cochicharam rapidamente, para escolher o que iam cantar, limparam a garganta e começaram. Luxuriah começou a cantar a cantiga infantil que seu pai costumava cantar e Kassyeh a acompanhou. Não houve como segurar as lágrimas. Anasterian deixou que seus olhos despejassem toda a dor que ainda estava em seu peito, mesmo depois de tantas décadas. Sim, sua amada Luelly ainda estava ali, viva, na figura de suas netas. A voz das meninas ainda era aguda como de toda criança, mas a leveza com a qual cantavam, os sentimentos que punham naquela singela canção, mostrava claramente que haviam herdado o dom da avó.
As lembranças inundaram sua mente. Lembrou-se da primeira vez que vira Luelly cantar. Lembrou-se de como se apaixonaram. De todos os anos em que viveram o amor em segredo. A gravidez e o rompimento. Quantas vezes durante a infância de Dhomm não tentara se aproximar de novo de sua amada? Mas ela o rechaçara, o enciumara com seus diversos amantes e por fim morrera, sem que ele tivesse a chance de falar que ela sempre fora seu único e verdadeiro amor.
Só que já era tarde de mais.
Quando as meninas perceberam que o rei chorava, elas pararam de cantar, assustadas.
– O que foi majestade?! — perguntou Luxuriah preocupada.
– N-nada meninas... — gaguejou — A-apenas... C-continuemp-por favor...
As meninas se entreolharam e Luxuriah fez que sim com a cabeça. Elas voltaram a cantar e Anasterian continuava seu pranto. Quando a música acabou, ele respirou fundo, limpou as lágrimas e olhou para as netas.
– Será que vocês poderiam me dar um abraço? — pediu.
Não foi necessário repetir o pedido. Tocadas com o pranto do velho rei, elas o abraçaram com força, como se sentissem que isso era o correto a fazer. Anasterian deixou-se ficar o máximo que pode com suas netas nos braços, afinal, não sabia se algum dia poderia ter aquele prazer novamente. Antes de soltá-las, depositou um beijo na cabeça de cada uma e falou com a voz embargada:
– Não importa o que aconteça meninas, eu quero que vocês saibam que eu as amo.
E as soltou.
Comovida com a tristeza do rei, Kassyeh pensou um pouco e estendeu a boneca para ele.
– Essa é a Sissi, minha boneca favorita. Mas vou lhe dar ela de presente para o senhor sorrir de novo.
Apesar de comovido com o ato da menina, ele perguntou:
– Tem certeza? É sua boneca favorita.
Kassyeh fez que sim com a cabeça e o rei pegou a boneca.
– Obrigado Kass. – agradeceu sorrindo.
O momento foi interrompido por uma voz preocupada que chegou até eles.
– Kass! Lux! — a voz potente de Dhomm atravessou as árvores do bosque — Onde vocês estão?!
O coração de Anasterian saltou no peito. Dhomm estava por perto, à procura das filhas. As meninas tinham realmente se afastado mais que o normal e demoraram bastante. Era lógico que pais preocupados como Samanthah e o marido iriam à sua procura quando percebessem a ausência. Por um momento, pensou em ser inconsequente. Ficar ali, falar com Dhomm, parabeniza-los pelo trabalho excelente que fazia com suas filhas. Mas o senso do dever se sobrepôs. Não podia ver o filho. Diferente das meninas, Dhomm não acreditaria que ele estava apenas dando uma volta na floresta e decidira fazer um piquenique com duas crianças desconhecidas.
– É o papai! — disse Kassyeh assustada — Ele vai brigar porque atravessamos as colinas!
– Então não façam mais isso. Não desobedeçam ao pai de vocês. — disse o rei se levantando — Eu preciso ir meninas. Foi ótimo passar essa manhã com vocês.
– Venha nos visitar! — convidou Luxuriah se levantando também — Papai e mamãe ficarão felizes em recebê-lo. Principalmente quando souberem que o senhor salvou a Kass!
Anasterian colocou a mão na cabeça da menina e acariciou seus cabelos.
– Infelizmente eu não posso Luxuriah.
– Como assim não pode?! — surpreendeu-se ela — Você é o rei! Você devia poder tudo não?!
Luelly lhe dissera a mesma coisa, muito tempo atrás. Anasterian controlou-se para não chorar novamente.
– Eu adoraria que fosse assim. — ele respirou fundo. O que iria fazer agora iria quebrar seu coração, mas era para o bem delas. De Dhomm. E do reino — Eu amei essa manhã meninas, jamais irei esquecer — Suas mãos começaram a brilhar e ele mexeu-as com agilidade — Mas acho mais seguro vocês esquecerem. Pelo menos por enquanto. Um dia as lembranças voltarão, eu prometo.
Quando Dhomm e Samanthah as acharam, elas estavam sentadas na toalha, com o olhar ainda um pouco confuso. Cheios de preocupação, os pais não perceberam.
– Meninas! — ralhou Dhomm se ajoelhando ao lado das filhas — O que eu disse sobre cruzar as colinas?!
– Eu fiquei morta de preocupação! — Samanthah se abaixou também e abraçou as meninas — Quase morri quando vocês não atenderam meu chamado!
– Mas eu to armada! — Luxuriah mostrou o arco. – Ta tudo bem!
– Mesmo assim, eu disse que não. — Dhomm começou a recolher as coisas. — Vocês me desobedeceram!
– Desculpa pai... — pediram as meninas em uníssono.
– Venham, vamos embora. — Samanthah pegou Kassyeh no colo enquanto Dhomm e Luxuriah terminavam de arrumar as coisas — Onde está Sissi, Kass?
A menina olhou para um lado e para o outro em busca da boneca.
– Não sei...
– Tudo bem, eu faço outra. — disse Dhomm se levantando com a cesta na mão e beijando a cabeça da filha mais nova — Faço um robozinho gnômico para você.
Os olhos da menina brilharam.
– De jeito nenhum. — Samanthah cortou — O último "robozinho" que você fez queimou as cortinas!
– Ah, é só não colocar lança-chamas nesse! — opinou Luxuriah pegando na mão do pai.
– Não, sem robôs! — Samanthah estava irredutível.
E enquanto voltavam para casa, Anasterian observou aquela família feliz. Podia não ter tido a coragem de assumir Dhomm, mas faria tudo que estivesse ao seu alcance para manter ele e sua família seguros.
E quem sabe, um dia, poderia aceitar o convite de estar com suas netas sem precisar recorrer à magia para apagar seus rastros das vidas dela.
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Karen passou o dedo no nariz dolorido. Um curativo tinha sido feito por Linore, mas o ferimento ainda latejava. Normalmente aquilo poderia ter sido curado facilmente por Huaru ou Mhuu, mas Luxuriah proibira expressamente o uso de magia enquanto Ash não melhorasse.
Sentada debaixo de uma árvore, ao lado da casa de Huaru, pensava sobre tudo que estava acontecendo. Não podia negar que estava com muito medo da situação em que se encontrava sua irmã. Já ouvira relatos sobre os ignóbeis, elfos que sucumbiram ao vício da magia e se tornaram pouco mais que monstros. A própria Ash tivera que matar alguns, certa vez, que ameaçavam entrar em Luaprata. Logo, era angustiante pensar que aquele poderia ser o destino dela.
Todos os adultos estavam dentro da casa, menos Huaru. O paladino partira de volta ao Penhasco do Trovão tão logo Luxuriah dissera que precisavam de Kassyeh. E daquela vez, ele pedira a mantícora do pai emprestada, para que pudesse ir mais rápido. Se suas contas tivessem certas, entre Huaru chegar ao Penhasco, mandar a carta à Kassyeh, a maga atender e eles chegarem ali, demoraria a noite toda e talvez uma parte da manhã. Isso supondo que a irmã viesse de teleporte até a capital tauren.
Enquanto isso restava ouvir os gritos de dor de sua irmã e as súplicas por magia, que mantiveram todos acordados a noite toda.
Seu coração se acelerou quando viu dois pontos no céu que se aproximavam. Ficou de pé rapidamente, ignorando latejar do nariz e correu na direção em que vira os vultos. Rapidamente os pontos foram ficando maiores e ela viu que era uma mantícora e um imenso lagarto dourado.
Mal esperou Kassyeh descer da montaria que compartilhava com Tewdric para se jogar nos braços da irmã, aos prantos. Kassyeh abraçou a irmã com carinho, passando a mão nos cabelos loiros da menina.
– Karen, querida, não chore. – disse em tom confortador – Vai ficar tudo bem...
– A Ash vai virar um ignóbil? – perguntou em meios às lágrimas.
– Claro que não. – assegurou a outra confiante – Eu vou ajudá-la a voltar ao normal, ok? — e beijando a menina na testa, acrescentou – Vou lhe dar uma poção de cura para esse nariz. Vai parar de doer logo, logo.
A maga abriu a mochila, tirou um pequeno frasco com um líquido vermelho e entregou para a irmã. Depois, olhou para Huaru, que já desmontara da mantícora e pediu:
– Me leve até onde elas estão.
Huaru assentiu e saiu com Kassyeh. Karen olhou para o frasco, o abriu e tomou o líquido. Seu nariz parou imediatamente de doer, e ela suspirou aliviada.
– Só a Kass ganha abraço?
Tewdric também descera do lagarto dourado e colocou, sem nenhuma delicadeza, Hotch e Litleflame no chão. As mascotes de Kassyeh reclamaram com grunhidos da queda e saíram correndo atrás da dona. Karen sorriu para o orc, seu coração ficando mais tranquilo com a presença dele, e o abraçou com força. Tewdric levantou a menina e a jogou para cima três vezes. Karen não pode deixar de rir alto.
– Ted, senti tanto sua falta! – falou se pendurando no pescoço do orc.
– Também senti a sua Karenzinha! – ele a colocou no braço sem nenhum esforço, como se ela ainda fosse uma criança de colo – Por isso, agora que tô aqui, não quero choro viu? Quero riso nessa carinha bonita.
Karen riu para ele.
– E deixa eu tirar isso. – ele arrancou o curativo do nariz dela – Você já ta boa mesmo...
– Obrigada...
– Você ta com a cara de quem não dormiu nadinha. – disse preocupado se encaminhando com a menina para a casa – Como estão as coisas?
– Horríveis Ted, horríveis... – murmurou a menina se agarrando mais ainda no pescoço dele – To com muito medo por Ash.
– Vai ficar tudo bem. – ele sorriu – Você vai ver. Por enquanto, me conte que história é essa de você virar paladina!
Enquanto Tewdric mantinha Karen entretida, Kassyeh foi levada por Huaru até onde estava Luxuriah e Ash. Linore e Raziel foram apresentados rapidamente à elfa, que agradeceu o que eles estavam fazendo pela irmã e pediu desculpas pelo incômodo. A xamã e o caçador simpatizaram de cara com a maga e garantiram que não havia nenhum incômodo e que dariam todo o apoio que elas precisassem. Depois, Kassyeh subiu as escadas e chegou ao quarto onde estavam as irmãs.
Luxuriah estava com uma aparência cansada, sentada ao lado de Ashrial, atenta à menina. Kassyeh reparou logo que a irmã doente estava sendo mantida amarrada, com certeza para que não atacasse ninguém em sua sede por magia.
– Lux? — chamou
A caçadora a olhou, com a expressão cansada. Kassyeh se ajoelhou ao seu lado e lhe deu um forte abraço. Huaru saiu de fininho, para dar privacidade às irmãs. Sabia que elas tinham muito que conversar.
– O que aconteceu? — perguntou Kassyeh ainda abraçada a Luxuriah.
Rapidamente, Luxuriah fez um resumo da caçada de Ash com o grupo de taurens e o ataque empreendido pelos humanos a eles. Foi o momento em que os olhos da elfa brilharam de fúria.
– Sempre eles! — vociferou entre os dentes — Sempre esses malditos humanos que nos machucam!
Kassyeh a soltou devagar. Passou a mão no rosto da irmã e falou carinhosamente:
– Vamos esquecer a raiva por enquanto, certo? Vamos nos concentrar em ajudar Ash.
Luxuriah concordou com a cabeça e Kassyeh passou a examinar Ashrial. Segurou sua mão e examinou o braço, depois os cabelos, o peito e as pernas. Ficou aliviada a constatar que não era a pior corrupção que já vira e que com o elixir certo, a irmã ficaria boa em poucos dias.
– Não é tão grave Lux. — tranquilizou a maga — O pior de tudo é que realmente foi a primeira vez Ash passou por isso.
– E espero que seja a última. — Luxuriah disse — Que ela nunca mais me desobedeça!
– Mas Lux, você sabe que às vezes não dá para evitar. E pelo que estou vendo — ela olhou novamente as marcas pelo corpo de Ash — O bruxo a atacou de propósito, forçando-a a sugar a magia dele. E acredito que ele também deve ter lançado alguma maldição para que a magia penetrasse tanto...
– O que você vai fazer? — quis saber.
Kassyeh suspirou pensando um pouco.
– Vou dar um elixir para ela liberar essa magia, e uma poção para que ela possa dormir. Ela está tendo alucinações?
Luxuriah fez que sim com a cabeça.
– Passou a noite ontem gritando por papai e mamãe...
Houve um momento de silêncio. Sempre era difícil lidar com o fato que os pais não estavam mais ali, apesar de já ter passado uma década. Kassyeh sabia que por mais que vivesse milênios, jamais se esqueceria do quanto amou e foi amada por Dhomm e Samanthah. Luxuriah compartilhava sua dor, mas sempre fora um alívio saber que Ash e Karen haviam sido poupadas da saudade crônica.
Mas, teriam sido mesmo?
– Ela lembra? — perguntou a maga com um aperto no coração.
– Mais do que dá a entender, pelo visto. — respondeu Luxuriah tristemente.
– Por que ela esconderia isso de nós? — para Kassyeh aquilo não fazia sentido.
– Para que não nos preocupássemos com ela, é lógico. — a caçadora colocou a mão na testa — Nisso ela é parecida com você, sempre querendo assumir tudo para si sem compartilhar a dor.
Kassyeh deu uma risada triste.
– Só comigo? — perguntou.
As duas se olharam e Luxuriah apertou os lábios. Não, todas eram assim. Exceto Karen, pela graça da Nascente do Sol.
– Faz tempo que ela ta dormindo? — perguntou a maga para mudarem de assunto.
– Ela não está exatamente dormindo... — respondeu a caçadora.
Foi quando Kassyeh percebeu que havia três grandes manchas roxas no queixo de Ash. Ela olhou para a irmã com reprovação.
– Você bateu nela?!
– Era isso ou ela sairia descontrolada por ai. — se defendeu Luxuriah — E depois que a amarrei não precisei bater mais.
Kassyeh suspirou.
– Certo, se foi para o bem dela. — e se levantando, avisou — Vou começar a preparar o elixir. Vai demorar um pouco para ficar pronto. Será que tem onde eu trabalhar aqui?
– Claro, é só pedir pro Huaru que ele te mostra. — e colocando a cabeça na cortina, chamou – Hu!Pode vir aqui, por favor?
O paladino apareceu logo em seguida, com um olhar preocupado.
– O que foi bebê?
– Bebê? — estranhou Kassyeh.
Huaru ficou envergonhado e Luxuriah ignorou a irmã.
– Kass precisa fazer o elixir... Tem algum lugar que ela possa trabalhar?
Huaru assentiu.
– Claro. Venha comigo Kass. — e parando de repente, perguntou preocupado — Posso te chamar de Kass?
– Pode sim. — Kassyeh sorriu para ele — Com a ajuda que você e sua família estão nos dando, você pode até me chamar de humana e não ficarei ofendida.
– Eu jamais a ofenderia assim! — disse ele sorrindo de volta.
Luxuriah não pode deixar de sorrir também. Era perfeitamente visível que os dois se dariam bem. Enquanto eles desciam as escadas em buscar do lugar para Kassyeh poder trabalhar, Luxuriah recostou-se à parede e fixou seu olhar em Ash.
– Não se preocupe maninha. — sussurrou para a irmã adormecida — Vai passar, eu prometo.
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Luaprata se erguia impressionante aos seus olhos infantis. Cintilante, luminosa, imponente. Tudo que a capital dos elfos sangrentos já fora estava ali, bem à sua frente.
Ash caminhou com suas curtas pernas pelas ruas prateadas. As cores, os aromas, as risadas, tudo enchia seus sentidos e a faziam se sentir plena e feliz. Suas mãos seguraram com força as mãos de seus pais e ela ergueu a cabeça para encará-los. Dhomm e Samanthah olharam para a filha e sorriram. Ash não podia estar mais feliz.
De repente tudo começou a desmoronar. Os prédios começaram a se derreter. Um fogo incontrolável passou a varrer as ruas da cidade e os elfos corriam gritando de dor e agonia.
– Papai? Mamãe? — chamou ela assustada.
Mas eles não responderam. E quando ela olhou em volta, estava sozinha, em meio às chamas. O fogo começou a subir por seu corpo e ela gritou. Tentou correr, mas suas pernas pareciam presas no mesmo lugar. O ar quente entrava por sua boca e queimava sua garganta, fazendo-a sentir a pior sede que já sentira na sua vida. Estava em pânico.
– Papai! — gritou aos prantos — Mamãe! Onde vocês estão?! — e olhando para as pequenas mãos, gritou mais alto — Eu estou queimando! Papai! Mamãe! Eu estou queimando! Me ajudem!
Mas eles não vieram, e o fogo aumentou. Ela gritava e se debatia em meio às chamas, sentindo a dor de ser queimada e a dor de ser abandonada.
– Papai! Mamãe! — continuava a gritar.
– Ash! — uma voz conhecida a chamou — Ash acalma-se!
– Mãe? Mãe! — ela procurava a voz em meio às chamas e não via. -Mãe?! Cadê você mãe?
– Abraos olhos querida, por favor...
Ash fez um esforço sobrenatural para abrir os olhos. À sua frente, por um momento, pensou que realmente sua mãe estava ali, amparando-a, mas quando seus olhos entraram em foco, viu Kassyeh a olhando, preocupada.
– Kass? – perguntou com a voz embargada – Onde... Onde está a mamãe?
Kassyeh sorriu tristemente e passou a mão no rosto de Ash.
– Está em um belo lugar nos protegendo Ash. – e pegando um frasco, despejou o conteúdo numa colher e ofereceu à irmã – Abra a boca.
Ash estava cansada e virou o rosto. Seu corpo doía, como se ainda estivesse em chamas. Quando sua consciência foi se acendendo aos poucos, reparou que havia bastante magia ali. Era Kassyeh. A magia de sua irmã era tão forte que Ash pode ver claramente uma poderosa luz azul ao seu redor. Nem mesmo a magia de Huaru era tão brilhante.
Ou tão tentadora.
– Magia... – murmurou ela olhando para a irmã com os olhos arregalados.
– Sim, eu tenho bastante. – disse Kassyeh calmamente – Mas você não vai me sugar Ash. Porque eu sei que no fundo você não quer isso. É a maldição falando, não você.
Ash respirou fundo. A magia que rodeava Kassyeh era tão forte que o ar estava impregnada por ela. Puxou as cordas com força, querendo se libertar. Diferente de Luxuriah, Kassyeh não tentou contê-la, nem parecia preocupada.
– Me dê um pouco Kass! – implorou com lágrimas nos olhos – Só um pouco...
– Não. – respondeu a irmã suavemente – Você não vai beber de mim Ash. Nem de ninguém. Você é mais forte que isso. – e dando uma pausa, acrescentou – Ou você não quer que papai e mamãe fiquem orgulhosos de você?
A garota parou de se debater e fixou os olhos na irmã. Kassyeh falava sério. De repente, foi como se a mente que Ash clareasse. Estava sendo fraca. Fraca como um ignóbil. O vício estava dominando-a e ela não fazia nada para contê-lo. Parecia não querer fazer. As lágrimas começaram a rolar com força em seu rosto, ao perceber o quão fraca devia parecer aos olhos de suas irmãs e de seus pais. Será que nunca, nunca ia ser forte o suficiente?
– E-eu sou fraca... – balbuciou – F-fraca...
– Não é fraqueza querida. – consolou a outra – Você ainda é jovem demais para lidar com isso. Na verdade, ninguém é forte o suficiente que não precise lutar um pouco contra o vício...
Ash soluçava, desejando ardentemente nunca ter nascido, nunca ter existido. Queria que tudo acabasse que a dor parasse, queria sugar a magia de sua irmã até não sobrar mais nada, mas também queria vencer aquilo. Queria ser forte. Queria magia. Queria resistir. Queria ceder. Queria tudo e nada ao mesmo tempo. Por isso, debatia-se em agonia.
– Deixe-me ajuda-la... – murmurou a irmã se aproximando – Abra a boca.
Relutantemente, Ash abriu. Kassyeh rapidamente despejou o conteúdo da colher na garganta da jovem caçadora, que gritou de dor logo em seguida. O elixir queimava seu interior como se tivesse acabado de beber fogo líquido.
– Vai passar, vai passar! – garantiu Kassyeh carinhosamente.
Tão rápido quanto veio, a queimação foi embora. Ash sentiu os braços pesados e a cabeça grogue. Tentou manter os olhos abertos, mas eles não queriam abrir. Fechou-os por um momento. Apenas um momento.
Quando os abriu, estava em outro lugar.
Era escuro e cheirava a incenso. Não sabia o que estava acontecendo, mas podia ouvir gritos do lado de fora. Os gritos pertenciam a Luxuriah. Abraçou as pernas, tremendo. Tentou se concentrar na canção de ninar que Kassyeh cantava baixinho, mas não conseguia. Apenas os gritos, risadas desconhecidas e por fim o silêncio.
Ficou na expectativa. Seus pais ainda iriam demorar?
Então a porta do alçapão abriu. Ash se precipitou, mas não foi os pais que viu. Um elfo enorme, com os cabelos prateados, e um tapa-olho no lado esquerdo do rosto apareceu. Era o elfo mais bonito que já vira, mais até que seu pai. Ele a olhou longamente, e depois a pegou nos braços.
– Calma menina. – disse sua voz rouca e um pouco trêmula em seu ouvido – Vai ficar tudo bem.
– Cadê papai e mamãe? – perguntou assustada.
– Não se preocupe com isso agora criança. – falou passando a mão por seus cabelos — Vamos sair daqui. – e encostou a cabeça dela em seu peito.
Ash fechou os olhos e respirou fundo. O elfo tinha um cheiro bom, muito bom. Isso a deixava tranquila e aliviada. O abraçou com força e deixou-se levar. Quando abriu os olhos novamente, viu um telhado de madeira simples com uma grossa camada de pele cobrindo-o. Ficou totalmente confusa. Onde estava? Onde estava o elfo de cabelos prateados?
– Finalmente acordou. – disse uma voz aliviada.
Mexendo a cabeça para o lado, viu Luxuriah. Sua mente então clareou. Não estava em Luaprata. Não havia nenhum elfo. Seus pais não iriam voltar. E ela sucumbira ao vício. As lágrimas começaram a rolar de seus olhos, mais abundantes que antes. Chorou, chorou, mas rapidamente ficou cansada. Estava exaurida, sem forças nem mesmo para lamentar.
– Não chore. – Luxuriah se aproximou dela e limpou seu rosto – Elfos mais velhos e mais fortes que você sucumbiram ao vício e nunca mais voltaram a ser quem eram.
– E-Eu... – balbuciou, mas não conseguiu completar a frase.
– Você vai ficar boa. – a voz de Luxuriah era calorosa e confortante e Ash se apegou aquelas palavras como um bote de salvação – Você tem a sorte de ter como irmã a única alquimista de Azeroth que conhece o Elixir Anti-Magia.
Respirando fundo, Ash deixou a cabeça pender no travesseiro. Pela primeira vez, sentiu algo mais desconfortante que a sede e percebeu que seus braços doíam, não a dor de queimação do vício, mas uma dor cansada. Quando olhou para eles, viu que estavam firmemente amarrados e onde a corda apertava, estava vermelho e ferido.
– Tive que amarrá-la. – Luxuriah falou em tom de quem pede desculpas – Não queria você correndo por aí.
Ash fez que sim com a cabeça.
– A Kass tá aqui mesmo? – perguntou – Ou foi um sonho?
– Ela tá aqui. Veio com Tewdric.
– Claro, eu tinha que estragar a lua-de-mel dela... – Ash até tinha vontade de chorar mais, só que seus olhos pareciam ter ressecado de tanto que já chorara – Eu sempre estrago tudo...
– Você não estragou nada. – Kassyeh entrou no quarto naquele momento, com uma bandeja de comida fumegante e um sorriso confortador no rosto – Eu e Tewdric aproveitamos bastante esses dias.
A magia de Kassyeh ainda era apetitosa, mas a mente de Ash estava mais lúcida. Queria sugar a magia da irmã, mas não iria fazê-lo.
– Claro que aproveitaram. – Luxuriah revirou os olhos – Você está até mais magra. Ele pelo menos te deixou comer ou não saiu de cima de você?
O rosto de Ash adquiriu uma tonalidade vermelho escarlate e ela desejou do fundo do coração que Kassyeh não respondesse.
– E essa história de “bebê”? – Kassyeh sentou-se ao lado de Ash e colocou a bandeja no chão – Desde quando você deixa alguém ser tão íntimo assim?
– Bebê? – perguntou Ash confusa.
Para a surpresa de Ash e Luxuriah, Kassyeh começou a desamarrar as cordas que prendiam a irmã. Luxuriah tentou impedi-la, mas Kassyeh foi categórica:
– Ela está mais lúcida, precisa se soltar para comer.
– E se eu te atacar? – perguntou Ash com os olhos marejados.
– Você não vai. – garantiu confiante – Não é Lux?
Se dependesse de Luxuriah, Ash ficaria amarrada até que as tatuagens sumissem completamente e o cabelo voltasse a ser loiro e brilhoso como sempre o fora, e não aquele amarelo opaco. Se bem que já era um avanço as madeixas brancas sumirem, mas ainda faltava muito para a irmã deixar de ser um perigo para ela mesma. Ainda assim, percebeu que Kassyeh queria incentivar a mais jovem a lutar, dar um voto de confiança. E mesmo achando que isso era uma estupidez das grandes, acabou concordando com a cabeça.
– Claro, você não vai. – disse a mais velha.
Satisfeita que Luxuriah tivesse concordado, Kassyeh desamarrou os braços de Ash. A jovem caçadora no primeiro momento teve dificuldade de mexê-los, pois estavam feridos e pesados. Movimentou devagar os membros e Kassyeh ajudou-a a sentar. Por um momento, pensou que não iria aguentar a magia pulsante da maga tão próxima ao seu corpo, mas ela prendeu a respiração e se concentrou em sentar.
– Pronto. – falou suavemente Kassyeh, colocando a bandeja no colo da irmã – Quer que eu te ajude a comer?
Ash fez que não com a cabeça e pegou a colher. Foi um esforço grande o simples fato de colocar a colher na sopa e leva-la até a boca, mas ficou satisfeita em ver que podia.
– Sim, mas que história é essa de “bebê”? – insistiu Kassyeh agora mais aliviada que sua irmã estava comendo e não tinha a atacado.
Luxuriah revirou os olhos.
– O que foi? – perguntou na defensiva – Você é a única que pode ter um caso com machos de outras raças?
A colher estava a meio caminho da boca de Ash e parou no ar. As duas irmãs mais jovens olharam, boquiabertas, para Luxuriah, que não pode deixar de exibir um sorriso malicioso e presunçoso.
– Você... Está tendo um caso com Huaru? – perguntou Kass com os olhos arregalados.
– Está? – Ash esqueceu até a sede por um momento.
– Um caso não. – a caçadora abriu um lento sorriso – Estamos namorando.
Silêncio.
– O que foi? – perguntou Luxuriah vendo as expressões chocadas das irmãs – Não tenho direito a ter um namorado?
– Pensei que aquele elfo Grey fosse seu namorado. – disparou Ash.
Luxuriah fez uma careta.
– Ele nunca foi.
– Você está namorando um tauren... – Kassyeh ainda a olhava sem acreditar – Cadê aquele discurso que não devíamos nos envolver com machos de outras raças? Na verdade, cadê o discurso que nenhum macho presta?!
Luxuriah suspirou e sorriu carinhosamente.
– Huaru é diferente...
Silêncio.
– Pela Nascente do sol! – exclamou a maga – Você está apaixonada?!
– Estou.
Ash depositou a colher no prato e olhou para Kassyeh, que ainda não conseguira fechar a boca.
– Kass, podia me ajudar a comer? – pediu envergonhada – Acho que não consigo levantar a colher.
Luxuriah caiu na gargalhada.
– Ah meninas, não ajam assim. Não é nada demais. Eu só demorei a gostar de alguém mais que a Kass. – e olhando maliciosamente para Ash, acrescentou – Daqui a pouco, tenho certeza que será sua vez.
– Quem é que vai querer alguém que nem sabe lidar com um probleminha desses? – perguntou amuada.
– Isso não é um probleminha Ash. – retrucou a mais velha – E não quero você se menosprezando por isso. – e se aproximando a irmã, pegou a bandeja e pôs na sua frente – Deixe-me ajuda-la, já que parece que a Kassta chocada demais para isso.
E era verdade. Kassyeh parecia estar processando a informação.
– Lux. – falou de repente.
– Oi. – respondeu a outra dando uma colherada de sopa a Ash.
– O pênis dele é muito grande?
Ash engasgou-se violentamente com a sopa e Luxuriah caiu na risada. Enquanto batia nas costas da irmã, a caçadora olhou para a outra, com um sorriso sarcástico na face.
– Safadinha você hein? – disse brincalhona.
– É? – insistiu a outra.
– Não responda! – pediu Ash assustada – Eu não preciso saber disso!
As duas mais velhas sorriram.
– Vamos respeitar a virgindade de nossa jovem irmã aqui. – disse Luxuriah para o alívio de Ash – Quando ela dormir, eu lhe conto tudo.
Quando uma pontinha de curiosidade de saber o que seria esse ‘tudo’ surgiu em Ash, a menina sacudiu a cabeça e continuou a comer a sopa oferecida pela irmã. Com certeza aquela sensação de querer detalhes sobre a vida sexual de sua irmã ainda era a magia demoníaca agindo em seu corpo.
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Huaru passou a mão pelo grande lagarto dourado, admirado com a beleza do bicho. Ele era resplandecente e sequer tocava o chão com suas patas curtas, se mantendo o tempo todo planando com suas gigantescas asas. Apesar de ser enorme, o lagarto era tranquilo, e permitiu o toque do paladino sem medo.
– Você é muito bonito. – disse ele – Gosta de carne?
Uma das obrigações de Huaru quando estava em casa era alimentar os animais. Os kodos gostavam de folhagens e grama, e não precisavam ser alimentados com frequência. Mas as mantícoras e o lobo negro que Mhuu comprara em Orgrimmar preferiam carne, de preferencia ainda pingando sangue. Jogou pedaços de pinote para os carnívoros e ofereceu um pedaço particularmente suculento ao lagarto.
– Quer?
O lagarto virou a cara e não quis saber da carne. Surpreso, Huaru jogou o pedaço para o lobo de Mhuu e ofereceu um repolho à montaria de Tewdric.
– Folhas?
Continuou sendo ignorado.
– O que você come? – perguntou exasperado.
– Maçãs. – respondeu Tewdric chegando ao estábulo, com Karen pendurada em seu pescoço e sendo seguido pelas mascotes de Kassyeh – O Toblerone aí gosta de frutas doces, mas tem preferência por maçã.
E para reforçar o que disse, jogou uma maçã para o alto. O lagarto a pegou no ar, e deu um giro de satisfação.
– Pensei que ele comesse carne. – admitiu o paladino procurando uma laranja na cesta de hortaliças e oferecendo ao bicho – Pelo tamanho dele.
– Todos se confundem. – riu Tewdric passando a mão em Toblerone, que emitiu um som de satisfação – Mas Kass gostou dele tanto pela beleza como por adorar frutas.
– Ela não gosta de montarias que comem carne. – disse Karen se balançando no pescoço de Tewdric. Huaru se perguntou se o orc não estava sentindo falta de ar.
– Até que ela gosta. – disse o orc – Mas prefere as que não estraçalham bichos que passam em sua frente.
E seu uma risada rouca. Huaru riu também. Não tivera muito contato com Tewdric, mas o achava uma companhia agradável. Bem, agradável dentro dos padrões dos orcs, claro.
– Cadê o Mhuu? – perguntou Karen olhando para trás de Huaru – Achei que ele tivesse aqui.
– Mamãe o mandou verificar os pacientes dela. – Huaru continuou alimentando os animais – Ela não quer sair de casa, para o caso de Luxuriah e Kassyeh precisarem de algo.
As mascotes de Kassyeh começaram a correr ao redor de Huaru alegremente. Elespareciam querer um pouco da carne que era servida. Sorrindo, ele deu dois pedaços pequenos ao tigrinho e ao cãozinho de magma, que abocanharam o que foi oferecido sem nenhuma cerimônia.
– Com relação às mascotes, Kassyeh não faz objeção a carnívoros. – comentou Huaru.
– Eles não caçam. Só comem o que é dado. – respondeu Tewdric se aproximando – Quer ajuda?
– Não precisa, já estou terminando. – agradeceu o paladino.
Porém, mesmo com a recusa, Tewdric continuou por perto. Primeiro Huaru achou que ele estava querendo verificar se sua montaria estava sendo bem tratada, mas depois de dar algumas frutas ao lagarto, ele deu uma tapinha em suas ancas e Toblerone voou alegre pelo céu. Ciente que o orc continuava observando-o, Huaru terminou seus afazeres e o encarou:
– Posso ajudá-lo em algo? – perguntou educadamente.
– Karenzinha me disse que você tá namorando a Lulu. – falou sem rodeios.
O paladino olhou para a menina, que sorriu sem um pingo de constrangimento.
– Era segredo? – perguntou ela ainda agarrada a Tewdric.
Huaru riu e colocou o balde em que trouxera as carnes no chão. Hotch e Littleflame então, se precipitaram sobre o objeto, caindo dentro dele, derrubando e saíram rolando até bater na parede do estábulo. Todos caíram na risada.
– Não era segredo. – falou o jovem paladino – Eu estou com Luxuriah.
Tewdric franziu o cenho e cruzou os braços.
– Olha aqui... Huaru né? – quando o outro assentiu, ele continuou sério – Muito bem Huaru, essas meninas são tudo o que eu tenho nesse mundo. A Lulu é cabeça dura como uma orquisa, mas tem coração de elfa. Se você machucar ela, vou fazer churrasco com você!
– Ted! – reclamou Karen apertando o pescoço dele com mais força – Não era para ameaçar o Huhu!
– Não? – perguntou o orc confuso virando a cabeça para olhar a menina – E era pra que?
– Para mandar ele cuidar bem da Lux! – Karen balançou a cabeça em reprovação.
– Mas eu achei que ameaçar era mais legal. – retrucou o orc com o tom de voz muito mais calmo e nem um pouco amedrontador – Ai ele vai pensar duas vezes antes de fazer mal a Lulu!
– Você pode ter ofendido ele! – Karen falou.
– E daí? – essa não parecia ser uma preocupação de Tewdric.
Huaru ficou assistindo, tentando conter o riso a todo custo, enquanto Karen e Tewdric discutiam sobre o que deveria ser falado a ele ou não. Não pode deixar de sentir como se estivesse diante do pai e da mãe de sua namorada, e pensou que era uma ironia sentir-se assim perto de uma criança élfica e um orc. Quando finalmente eles pareceram chegar a um consenso, Tewdric falou, no mesmo tom forte de antes, mas um pouco menos agressivo.
– Huaru, espero que você cuide bem da Lulu, ela faz parte da minha família. – Karen assentiu aprovando o que ele falara e o orc continuou, agora rosnando ameaçador – Mas se você fizer mal a ela, eu vou fazer a você o que eu não consegui fazer com aquele elfo filho da puta e te parto no meio!
– Ted! – reclamou novamente Karen.
– O quê?! Ficou bom!
Antes que eles começassem a discutir, Huaru levantou as mãos, chamando a atenção deles.
– Eu entendi o recado. – disse rindo – E não estou ofendido Karen. Na verdade, fico feliz em saber que você, Tewdric, tem tanta consideração pelo meu bebê. Sei que é recíproco.
Tewdric olhou confuso para Karen.
– De que bebê ele ta falando? – perguntou.
– É como ele chama Lux. – revelou a menina soltando um risinho.
– Ah... – falou balançando a cabeça – E recíproco?
– É que ela também gosta de você.
– Claro que ela gosta de mim! – Tewdric parecia achar absurdo pensar o contrário – Sou da família também!
– Claro que é. – Huaru não aguentou e soltou uma risada – Bebê gosta muito de você. – e ficando mais sério, completou — Espero também poder fazer parte dessa família.
Tewdric se aproximou e bateu no ombro de Huaru, em cumplicidade.
– Só de você ter a coragem de encarar a Lulu, você já merece meu respeito rapaz. E bem vindo à família.
Karen soltou um gritinho de alegria e levantou uma das mãos, vibrando. Huaru e Tewdric riram um para o outro e, antes de irem embora, o orc foi tirar as mascotes de sua esposa de dentro do balde de carne, já que eles pareciam não conseguir se desentalar sozinhos.
– Só uma última pergunta. – disse Tewdric quando estavam voltando para a casa.
– À vontade. – permitiu Huaru.
– Luxuriah não ficará aqui para sempre. O que você pretende fazer para lidar com a distância?
Huaru respondeu sem pestanejar.
– Nunca tive pretensões de deixa-la partir sozinha.
Tewdric sorriu.
– Gostei de você tauren. Você honra as bolas quem tem!
– Que bolas? – perguntou Karen curiosa.
Os dois machos riram e Huaru ficou feliz de não estar na pele de Tewdric naquele momento em que Karen começou a despejar centenas de perguntas sobre machos, fêmeas e bebês.
***********************
Vivithi respirou fundo e tentou não se odiar muito, mas era impossível. Como, pela Nascente do Sol, como ela se esquecera de perguntar a Saba onde Kassyeh ia ficar no Penhasco do Trovão?!
Estava ali, sentada no balcão da taverna, havia uma hora e ainda não pensara em uma solução. Perdera o dia todo indo de lugar em lugar, em todas as lojas de magia e alquimia, em todos os lugares que pudessem interessar a Kassyeh, perguntando por ela e ninguém soube informar de uma elfa maga acompanhada de um orc em nenhum daqueles lugares.
Como iria explicar isso ao seu tio?
Suspirando, ela tomou um gole grande de cerveja. Se não conseguisse nenhuma pista de onde estava as irmãs Fendessol, teria que se resignar, pagar uma boa quantidade de ouro para algum mago abrir um portal para Orgrimmar, falar novamente com Saba, torcendo para a menina saber de algo e então desembolsar mais dinheiro para voltar novamente. Não podia se dar ao luxo de perder tempo com o zepelim.
Enquanto apertava as têmporas, tentando pensar numa solução, um tauren sentou no banco ao lado do seu na taverna, e colocou um caixote na mesa.
– Ei Kauth! – disse o tauren chamando a atenção do estalajadeiro – Eu trouxe. Vem dar uma olhada.
O estalajadeiro se aproximou e olhou para a caixa, curioso.
– Você conseguiu? – perguntou animado.
– Claro! – o tauren deu uma enorme gargalhada – O que o velho Elki não consegue? A armadura ficou perfeita!
Eles falavam com tanta animação que Vivithi não pode deixar de olhar interessada no conteúdo daquele caixa. E qual não foi sua surpresa ao ver a menor e mais delicada armadura de malha que já vira em toda sua vida. Com certeza não era para um tauren, nem mesmo uma criança, já que a estrutura da armadura era com certeza para alguém de corpo esguio.
– Ficou perfeita Elki! – elogiou Kauth – A pequena elfa vai ficar muito bem nesse traje.
Elki assentiu.
– Espero que a irmã dela fique satisfeita.
As orelhas de Vivithi tremeram ao ouvir as expressões “pequena elfa” e “irmã” na mesma conversa. Era coincidência demais.
– Com licença. – falou educadamente.
Os dois taurens a olharam.
– Pois não? – perguntou Kauth assumindo novamente a postura de taberneiro – Quer mais cerveja moça?
– Não, obrigada. – agradeceu sorrindo – Eu não pude deixar de ouvir a conversa de vocês, e devo dizer que estou impressionada com a delicadeza dessa armadura.
Elki sorriu escabulhado.
– Receber um elogia sobre a beleza de minha criação de uma sin’dorei é uma honra. – falou ele inclinando a cabeça paraela.
– Um elogio justo, está lindo. – disse sinceramente – Mas eu gostaria de fazer uma pergunta sobre quem encomendou esse traje.
– Faça. – permitiu sorridente Elki.
– Por acaso foi uma elfa chamada Luxuriah? Para sua irmã Karen?
O coração de Vivithi transbordou de alívio quando o ferreiro assentiu com a cabeça.
– Graças a Nascente do Sol! – exclamou alegremente – Eu estava justamente querendo saber onde elas estavam hospedadas!
– Por quê? – perguntou o taverneiro, desconfiado – Espero que não esteja procurando confusão aqui, moça.
– Eu sou amiga dela, vim visita-la de surpresa. – aquela informação não era mentira, afinal – Por isso não sei exatamente onde ela está hospedada...
Elki e Kauth balançaram a cabeça em concordância, dando credibilidade às palavras dela.
– Ela não está aqui. – respondeu o ferreiro e a alegria de Vivithi murchou – Ela está na Aldeia Narache, ao sul. Fica a meio dia de viagem.
Vivithi olhou para fora e suspirou desanimada. Já era noite, e não era prudente viajar para um local distante e que não conhecia sem o beneficio da luz do sol. Elki deve ter percebido seu desapontamento, pois falou.
– Realmente não é bom sair à noite. – disse confirmando as suspeitas de Vivithi – Tivemos um ataque da Aliança recentemente. Mas não se preocupe, ela está vindo buscar a encomenda amanhã. É só aguardar aqui mesmo.
A alegria voltou ao rosto de Vivithi, com força total.
– Muito obrigada Elki! Vou esperar minha amiga aqui mesmo! – e pegando o copo, fez um sinal para Kauth – E em agradecimento, a próxima rodada é por minha conta!
*************************
A única razão pela qual Luxuriah fora convencida a deixar Ash aos cuidados de Kassyeh fora dada pela própria maga:
– Karen precisa sair um pouco daqui. Essa situação está mexendo com ela.
Montando a mantícora que pertencia à mãe de Huaru, ela só partira porque sabia que não iria demorar muito. Huaru a acompanhava, na mantícora do pai e logo à frente deles, Karen vinha com Tewdric em Toblerone. Com montarias terrestres eles levariam muito tempo para ir e voltar, talvez tendo até mesmo que pernoitar no Penhasco do Trovão. Voando, todavia, demorariam no máximo uma hora para chegar lá.
Luxuriah se remexeu um pouco tensa em cima da sela, mas não era desconforto da viagem. Fazia dois dias que não dormia e não sabia quando conseguiria fazê-lo adequadamente. Sabia que havia olheiras embaixo de seus olhos e mal conseguia comer. Huaru estava preocupado, e procurava fazer o que estivesse ao alcance dele para melhorar a situação e Luxuriah era imensamente grata por isso. Agora, com os cabelos ao vento e o bater rítmico das asas da mantícora, ela se esforçava para não dormir em pleno voo e despencar daquela altura.
Tentou prestar atenção nos malabarismos que Tewdric fazia com seu lagarto e as risadas de Karen. Ainda não entendia muito bem porque o orc preferira acompanha-las em vez de ficar com Kassyeh, mas agradecia o fato. Karen sempre ficava muito mais feliz com ele por perto.
Suspirou ao se dar conta que a figura mais próxima que Karen tinha de um pai era o guerreiro orc. Ele a protegia e a mimava da mesma forma que Dhomm fizera com ela, Kassyeh e Ashrial. Sabia que, se qualquer coisa ameaçasse a menina, Tewdric seria o primeiro a levantar seu machado para protegê-la e o último a tombar. Talvez por isso, estranhou quando Tewdric emparelhou a montaria com a de Huaru e passou a menina para o tauren, dando meia volta e indo em sua direção.
Aquilo não estava certo.
– Luxuriah. – ele falou tão logo se emparelhou com ela – Preciso falar com você.
A caçadora estranhou ainda mais.
– Você me chamou de Luxuriah e não de Lulu. – constatou consternada – Deve ser sério mesmo! – e tentando imaginar o que poderia ter deixado o orc com aquela expressão sombria, indagou – O que aconteceu?
Tewdric bem que tentara não pensar mais naquilo, mas o pensamento martelava em sua cabeça, como um martelo moldando uma placa de aço. Nazgrim. Kassyeh. O elfo. Não estava acostumado a lidar com sentimentos, talvez por isso se sentisse completamente perdido.
– A Kass... — começou ele lentamente – Você acha que... Bem... Você acha que ela vai me deixar?
A pergunta com certeza devia ter soado tão absurda para Tewdric como soara para Luxuriah, mas ainda assim ele estava falando sério. Todo o cansaço da elfa se evaporou, tamanha foi a surpresa diante da pergunta.
– Você está falando sério, Tewdric? – questionou ainda sem acreditar – Você realmente me perguntou isso?
– Sim, perguntei. – respondeu com a voz rouca.
– Então lhe responderei com outra pergunta: por que diabos você está me perguntando isso?!
Então, ele contou. Contou do que Nazgrim lhe dissera, da reação do Chefe Guerreiro, da atitude estranha de Kassyeh naquele mesmo dia, do elfo, enfim, de tudo que acontecera naqueles poucos dias que se separaram.
– Eu não sabia que ela queria tanto ter filhotes. – resmungou – E sei que pode ser que a gente não tenha... Eu fiz de tudo para acalmá-la, mas...
– Não consegue se acalmar. – completou Luxuriah.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Tewdric fez que sim.
– Eu fui bruto com ela. Eu vi o medo nos olhos dela. Medo de mim. – as palavras pareciam penetrar seu interior como uma espada afiada na carne macia de um inimigo – Eu... – as palavras se perderam e o olhar dele ficou vazio.
Luxuriah o observou sem saber exatamente o que pensar. E entendeu que talvez aquela fosse a primeira na vida do orc que ele compartilhara seus sentimentos com alguém. Não sabia se devia se sentir lisonjeada ou preocupada.
– Tewdric – começou ela depois de alguns segundos – Kassyeh já sabia que poderia nunca ter filhos quando ficou com você. – e diante do olhar surpreso do orc, achou por bem completar – Na verdade, ela me disse certa vez que, para ficar com você, ela abriria mão disso.
– Então... –as coisas estavam dando um nó na cabeça dele – Por que ela chorou naquele dia? Por que ela achou que eu a deixaria? Por que achou que eu não queria ter filhos com ela?
– Não sei. –admitiu a caçadora – Mas tenho certeza que isso não é coisa de Kassyeh. Alguém pôs isso na cabeça dela.
Tewdric rosnou.
– Nazgrim!
Para sua surpresa, Luxuriah negou com a cabeça.
– Ele é um orc, um macho, Tewdric. Um general que luta com o machado e não com as palavras. Não acredito que foi ele.
– Então quem foi? – o orc com certeza queria alguém para partir no meio.
Luxuriah sorriu.
– Vou descobrir não se preocupe. – e achando por bem que devia acalmar o coração de Tewdric falou – Kassyeh te ama Tewdric. Ela deixou o lar dela, a família, para ir ao seu encontro. Deixou até mesmo o sonho que cultivava desde criança de ser mãe. Nunca, jamais, duvide dos sentimentos dela por você.
Tewdric sorriu mais aliviado, porém, ainda havia uma sombra sobre sua cabeça.
– Eu sei de tudo isso ai que você falou, mas é que... Só de pensar em que ela pode me deixar, eu... – a voz dele falhou – Eu sinto algo... Não sei... Que aperta aqui – ele apontou para o peito – e me faz pensar que vou quebrar com essa dor.
– Isso se chama medo, Tewdric. — disse calmamente – Sei que você nunca deve ter sentido isso antes, por isso não sabe lidar com ele.
– Medo... – repetiu o guerreiro como se não acreditasse – Medo de perder minha Kass...
– Porque você a ama.
– Amo. – admitiu com fervor – Eu faria qualquer coisa por ela, morreria por ela... E morreria se ficasse sem ela...
Luxuriah não pode deixar de sentir uma pontada de ciúmes da irmã, mas também ficou feliz. Kassyeh merecia toda aquela devoção de Tewdric, talvez até mais.
– Ela não vai te deixar. – garantiu.
– Mesmo que não tenhamos bebês? – perguntou ele.
– Mesmo assim. – e dando uma risada, completou – Mas de certa forma vocês já tem um não? Soube que Karen atrapalhou a noite de vocês ontem!
A menina estava ainda muito assustada com tudo que estava acontecendo e fora pedir para dormir com a irmã e o cunhado. Lógico que eles a acolheram no quarto em que estavam e permitiram que a menina dormisse entre os dois. Tinha ouvido a canção de ninar cantada por Kassyeh para acalmar a irmã e se sentira calma também.
– Ah, Karenzinha nunca atrapalha. – disse o orc com um sorriso bobo na face. A sombra sobre ele desaparecera – Apesar de que ela me chutou a noite toda.
– Foi bom para ela, animou-a. — e visualizando o Penhasco do Trovão que se aproximava, ela direcionou a mantícora para baixo – Venha, vamos acelerar. Quero voltar o mais rápido possível.
Tewdric assentiu e acelerou. Huaru também o fez, quando eles passaram por sua mantícora. Em poucos minutos tinham pousado e entregue as montarias para um tauren muito simpático cuidar enquanto eles tratavam de negócios. Logo que colocaram os pés no chão, Karen se precipitou sobre Tewdric, o agarrando pelo pescoço. O orc sorriu.
– Vamos, vamos! Quero ver como ficou minha armadura!
Karen passou a guiar Tewdric animadamente, enquanto Huaru adiantou-se para ficar do lado de Luxuriah. A caçadora então pegou sua mão e a apertou com força.
– Você parece mais preocupada do que quando saiu lá de casa. – comentou o paladino, franzindo a testa.
– Realmente estou. – admitiu – Nunca penseique um dia eu veria Tewdric com medo.
Huaru arregalou os olhos, surpreso.
– Medo de quê?
– De ficar sem a Kass.
Um grupo de crianças taurens passou por eles rindo, chamando por Karen. A menina soltou-se de Tewdric e passou a correr ao lado deles, apresentando todos ao orc. As crianças pareciam admiradas com o orc e o rodearam fazendo um monte deperguntas.
– O medo dele tem fundamento? – perguntou Huaru depois de um tempo.
– Não. Kassyeh o ama mais do que ele imagina.
– Então porque ele pensa isso?
Luxuriah sentiu a raiva ferver dentro dela.
– Alguém quer prejudica-los. Pôs coisas na cabeça de minha irmã... E quando eu descobrir quem é...
A caçadora não pode completar a frase, pois o grito de alegria de Karen abafou qualquer pensamento de qualquer um que estava por perto. A menina saiu correndo em direção à porta da ferraria e por um momento Luxuriah achou que era somente animação por causa da armadura. Até Karen chamar um nome.
– Vivi! – gritou a menina pulando em cima de uma elfa e quase a derrubando – Que saudades!! O que você tá fazendo aqui??
– Eu também estava com saudades! – disse Vivithi retribuindo o abraço apertado de Karen – E você está parecendo um molequezinho não é? Soube que vai ganhar até uma armadura... Ah, oi Tewdric. – disse levantando a vista para o orc.
– Oi Vivithi. – retribuiu o orc.
– Vivithi! – Luxuriah se adiantou um pouco, surpresa em estar vendo a amiga por ali – Que surpresa!
Vivithi soltou Karen e foi em direção a Luxuriah, dando um abraço apertado nela.
– É bom te ver Luxuriah! – e soltando-a, olhou para a elfa – Onde estão Kass e Ash?
A tensão tomou de conta da caçadora por um momento e Vivithi percebeu.
– Aconteceu algo?
– Aconteceu. – disse por fim – Mas aqui não é lugar nem hora para conversarmos. Vamos pegar a armadura de Karen e depois bebemos uma coisa. – e olhando para o lado, vendo Huaru olha-la com ansiedade, sorriu. – Ah, deixe eu te apresentar. Esse é Huaru.Meu namorado.
Os olhos de Vivithi se arregalaram e ela olhou incrédula para Luxuriah. Huaru sorriu um pouco constrangido e a elfa tratou de recuperar a compostura.
– É um prazer conhecê-lo, Huaru. –disse Vivithi sorrindo – Sou Vivithi Theron. Amiga de Luxuriah.
– Theron? – Huaru coçou o pescoço, pensativo – Esse nome não me é estranho.
– Ela é sobrinha do Lorde Regente, Lor’themar Theron. – revelou Luxuriah.
– Ah! – exclamou.
– Lux! – gritou Karen de dentro do prédio – Vem cá!
Luxuriah apontou o a entrada com a cabeça para Vivithi e entraram. A caçadora sentiu-se ficar mais tensa ainda, depois de ver a amiga ali. Era óbvio que não era uma coincidência. Vivithi não estava ali a passeio; se estivesse, não usaria o tabardo de Luaprata. Estava em uma missão oficial e alguma coisa dentro de Luxuriah lhe incomodou, pois o pensamento que a missão oficial de Vivithi estava ligada a ela e as suas irmãs a assaltou. Iria questioná-la, mas não iria abordar o assunto ali. Precisava primeiro resolver o que viera fazer.
Karen já estava vestindo a armadura quando eles entraram. Tewdric colocara a menina em cima de um banco e estava ajudando-a a ajustar as peças ao redor de seu corpo. Luxuriah ficou tão impressionada com o trabalho feito por Elki que, por um momento, esqueceu-se de todos seus problemas. A armadura era vermelha com detalhes dourados, como o símbolo de Luaprata. Cobria todo o torso da menina e também suas pernas. Estava tão bem ajustada que não dava para ver onde terminava a perneira e começava as botas. Havia luvas também e um pequeno martelo de madeira estava pendurado em sua cintura. O ferreiro não havia feito nenhum elmo, mas Luxuriah sabia que era necessário primeiro acostumar-se com a armadura antes de qualquer equipamento que pudesse atrapalhar a visão.
Sem saber exatamente porque, Luxuriah deu meia volta e saiu do prédio rapidamente. Quando chegou lá fora, lágrimas rolavam fartas em seu rosto. Todas elas haviam crescido, todas. Todas estavam expostas ao mundo agora. Kassyeh era uma excepcional maga, Ashrial uma caçadora promissora e Karensky... Seu bebezinho já tinha o porte de uma guerreira, uma atitude de desafio que lembrava muito bem que o pai possuía. Ela encostou-se à tenda do ferreiro e deixou que as lágrimas lavassem todos aqueles sentimentos conflitantes de dentro dela.
Quando sentiu uma mão forte apertar seu ombro, estremeceu. Huaru chegara silenciosamente e agora a olhava preocupado. Sem dizer nada, Luxuriah apenas o abraçou. Respirou fundo e procurou se acalmar.
– Isso não sou eu. – disse a ele – Essa pessoa fraca e chorona...
– Esses dias tem sido difíceis bebê. – disse ele com a voz calma – Você está no limite, apenas isso.
Ela levantou a cabeça e respirou fundo. Limpou as lágrimas e o soltou, a contragosto.
– Karensky viu?
Ele balançou a cabeça.
– Está animada demais se olhando no espelho. – ele tentou parecer animado e Luxuriah gostou disso.
– Então vamos lá.
Porém, antes dela se afastar, ele a segurou gentilmente.
– Quando sairmos daqui, vamos ao Poço das Visões. – propôs – Você precisa limpar sua mente. Relaxar. O Poço pode te dar respostas para suas aflições.
Luxuriah achou uma boa ideia e assentiu.
– Tudo bem. Agora vamos ver como Karen ficou.
Realmente Karen não tinha dado por falta da irmã e estava animada demais se olhando no espelho. Se com as roupas folgadas ela já parecia um menino, agora que realmente adquirira a aparência de um escudeiro mirim. Todavia, Vivithi havia notado a repentina saída de Luxuriah e aolhou longamente. A caçadora balançou a cabeça discretamente e a outra entendeu. As explicações iriam demorar.
– Olha só, temos um aprendiz de paladino saindo do forno. – disse a caçadora procurando mostrar apenas empolgação para a irmã – Essa armadura ficou perfeita!
Elki sorriu, satisfeito.
– Foi a armadura que mais caprichei durante toda minha vida. – disse o tauren orgulhoso – Tomei a liberdade de fazer nas cores de seu povo.
– Amei! – Karen ainda não desgrudara os olhos de sua imagem – Ficou perfeita.
– Deixei alguns alargadores embutidos aqui, aqui e aqui. – disse mostrando a base da cintura, dos braços e das pernas — Assim, quando ela crescer, vai poder continuar usando a mesma armadura por um tempo mais.
– Quando começamos a treinar Huhu? — perguntou a menina com os olhos brilhando.
– Amanhã mesmo. – garantiu o paladino.
– To doido para ver Karenzinha batendo! – Tewdric bagunçou os cabelos loiros da menina – Vou lhe ajudar também.
Karen tentou dar pulinhos, mas o peso da roupa só deixou que a menina desse um único pulo e depois se agarrasse com Tewdric, sem equilíbrio.
– Vai virar Andarilha do Sol, Karen? – perguntou Vivithi se aproximando da menina e analisando a armadura.
– Sim, sim! – respondeu animada.
Com certeza era mais uma coisa que ela ia perguntar a Luxuriah depois. Ela estava namorando, chorando e deixara a irmã treinar para ser uma paladina. Muita coisa tinha acontecido nos poucos dias que as separavam da última vez que se viram.
Luxuriah acertou o pagamento com Elki, agradeceu sinceramente o maravilhoso trabalho que fizera e saiu de lá acompanhada pela irmã em êxtase, um orc orgulhoso de sua menina, uma amiga confusa e um namorado muito preocupado.
– Vamos? – chamou Huaru.
Luxuriah assentiu e se voltou para Tewdric.
– Tenho mais uma coisa para resolver. Poderia me esperar lá na taverna? Faça Karen comer alguma coisa, certo? – Tewdric fez que sim e ela se voltou para Vivithi – Poderia esperar também?
– Claro. – concordou a patrulheira – Vai ser bom colocar as fofocas em dia com Karen!
Huaru e Luxuriah se afastaram em direção ao Platô dos Espíritos. A caçadora não sabia o que esperar o que iria encontrar, mas tinha certeza que não havia como ficar mais confusa do que já estava.
O Poço das Visões era guardado por dois enormes vigias taurens, que acenaram para eles quando se aproximaram. A visita ali era permitida para qualquer um que procurasse respostas. Luxuriah ficou um pouco surpresa com a quantidade de Renegados que havia ali, mas achou que eles deviam preferir aquele clima úmido de dentroda caverna que o sol forte de Mulgore. Huaru a conduziu por uma ponte de madeira até que chegaram a uma piscina natural, de águas límpidas. Luxuriah podia não ser uma sacerdotisa ou xamã, mas podia sentir o poder espiritual do lugar. Abaixou-se e tocou com a ponta dos dedos às águas.
– Posso entrar com você bebê? – perguntou Huaru.
– Claro. – disse ela. – Na verdade, eu prefiro que você entre comigo.
Então sorriu e pegou na mão dele. Olharam-se rapidamente e entraram na água, com todo respeito. Abaixaram-se e sentaram na piscina natural. Luxuriah esperava que a água estivesse fria, como a caverna, mas ela era morna e lhe dava uma sensação de tranquilidade imensa. Respirou fundo, fechou os olhos e esperou.
Huaru também fechou os olhos. Não era a primeira vez que entrava ali. Sua mãe o trouxera quando era menor e começou a ouvir alguém lhe chamando. Era os ancestrais, chamando-o a tomar as armas e defender seu povo. Fora ali também que conhecera seu futuro mentor, Taruu, o respeitável líder dos Andarilhos na época. Agora, o ancião tauren passara o cargo adiante e não recebia mais pupilos, apenas aconselhava aqueles que procuravam a sua sabedoria.
Talvez por estar pensando em seu antigo mestre, Huaru começou a se ver tal como estava agora, adulto, com sua armadura e seu martelo,em pé, em frente a um abismo. Havia dois caminhos à sua frente, ambos levavam a lugares que não podia visualizar que não sabia se eram seguros. Sentiu-se perdido e não sabia o que devia fazer. Avançar ou ficar parado? Qual caminho escolher? De repente, uma luz surgiu em cima de sua cabeça. Ele olhou maravilhado enquanto a luz dançava ao seu redor e aninhou-se em seus braços. Huaru sentiu um calor aconchegante e o ser iluminado se mexeu, como se quisesse dizer algo, como se quisesse pedir algo. Huaru o acariciou e a luz parou, se sentindo segura e confortável. E então ele soube que caminho seguir.
Todavia antes de dar o primeiro passo, ele acordou de repente. A visão cessara e ele olhava para os lados, desnorteado. Procurava o ser iluminado, mas era óbvio que ele não estava mais ali. Então, olhou para Luxuriah. Ela também estava com os olhos abertos, e o encarava com incredulidade.
– Bebê? – sussurrou.
Luxuriah levantou-se rapidamente e saiu da piscina. Atordoado, Huaru a seguiu. Saiu da caverna onde ficava o Poço das Visões quase correndo, para conseguir acompanhá-la.
– Bebê! – chamou novamente enquanto cruzavam a ponte de madeira de volta ao centro do Penhasco do Trovão.
Ela parou de repente e voltou-se de repente para ele.
– Eu achei que isso não me deixaria mais confusa. – disse por fim.
Huaru a olhou, sem entender.
– Você já ouviu falar do rei Anasterian Andassol de Quel’thalas? – quis saber.
– Foi o último rei que seu povo teve não foi?
Ela assentiu.
– Agora me diga: qual o sentido de um rei dizer para duas crianças desconhecidas que as amava?
– Essa foi a sua visão? – perguntou impressionado.
– Eu não tive uma visão Huaru. – ela não percebeu, mas tremia enquanto falava – Eu revivi uma memória que tinha sido apagada.
E contou a ele.
O paladino pareceu tão atordoado quanto ela com a lembrança. Realmente não fazia nenhum sentido. Nem mesmo um rei que amasse seu povo mais que tudo poderia ter uma reação tão emotiva.
– Você não desconfia de nada? – quis saber ele.
Luxuriah apertou as mãos com força.
– Tudo o que sei Hu, é que ninguém nunca soube quem era o pai do meu pai. – disse com a voz gélida.
– Você acha...
– Eu não acho nada. – disse ríspida, mas logo se arrependeu – Desculpa, eu... Eu não sei...
Mas ele não deixou que ela prosseguisse. Abraçou-a fortemente e a acalmou, como só ele sabia fazer. Depois, ela passou a mão em seu peito e levantou o rosto na direção do rosto dele. Huaru se abaixou e a beijou.
– Vai ficar tudo bem bebê. – seu tom era confortador – É só uma fase.
– Não sei o que seria de mim sem ter você agora. – ela riu nervosamente – Eu não sei como estaria suportando.
– Do mesmo jeito. – respondeu ele sorrindo – Porque você é forte.
Luxuria soltou uma risada e Huaru ficou aliviado.
– E sua visão? – perguntou ela voltando a caminhar, agora ao seu lado, de mãos dadas com ele – Sobre o que foi?
Ele balançou a cabeça.
– Não entendi bem. Acho que vou procurar meu antigo mestre. Ele pode me esclarecer.
Caminharam até a taverna onde iriam encontrar os demais. Logo que chegaram, ouviram as risadas de Karen e de Tewdric. Ao entrarem, viram a menina segurando seu martelo e tentando investir contra o orc. Ela tropeçava, ameaçava cair, se firmava segurando na roupa do orc e se afastava de novo pegando distancia para realizar outra tentativa.
– Você está fazendo errado, Karen. – disse Huaru rindo e se aproximando – Esse ataque é de guerreiro, não de paladino. E você nunca deve investir de peito tão aberto.
– Ahh!!! Eu disse que tava fazendo errado Ted!
– Ele nunca vai achar que você tá errada. – disse Luxuriah sentando-se à mesa onde estava Vivithi. E olhando para o taverneiro, pediu – Uma cerveja, por favor.
Enquanto Huaru, Karen e Tewdric discutiam sobre posições de ataques que a pequena elfa deveria fazer, Vivithi olhou longamente para Luxuriah e sorriu maliciosamente.
– Karen me falou tudo. – revelou – E devo dizer que estou muito feliz que você tenha se livrado de Grey antes que fosse tarde demais.
– Eu me livrei dele tarde demais. – retrucou friamente — Eu contei tudo. Por isso ele foi embora.
Houve um momento de silêncio, que foi preenchido pela conversa dos demais frequentadores do lugar e da vinda do taberneiro com a cerveja de Luxuriah. Quando ele saiu, Vivithi balançou a cabeça.
– Eu sinto muito que tenha terminado desse jeito. – falou pesarosa.
– Eu não. – Luxuriah bebeu um grande gole da cerveja antes de continuar — Foi melhor assim. E Huaru... – seu rosto se suavizou quando olhou para ele, que mostrava a Karen como devia ficar a posição de seus pés para um ataque – Ele é minha chuva...
Vivithi não entendeu a referência e deu de ombros.
– Mas não é começar tudo de novo? O segredo, o medo...
– Ele sabe. — e diante da expressão incrédula da amiga, resumiu os acontecimentos desde o casamento de Kassyeh até o dia anterior à volta de Ash da caçada. – Não há segredos dessa vez. – finalizou.
– Estou impressionada. – admitiu – E feliz. Você merece Lux. Depois de tudo.
– Mas não acredito que você tenha vindo até aqui só para ouvir fofocas, não é? – alfinetou Luxuriah terminando sua caneca de cerveja.
– Não, não vim. – a expressão de Vivithi ficou séria –Durante uma busca por documentos sigilosos, meu ti... O Lorde Regente achou documentos relacionados à família de seu pai. Como são documentos muito importantes, ele gostaria de discuti-los com você pessoalmente.
Luxuriah lhe lançou um olhar tão profundo que Vivithi, por um momento, estremeceu.
– Sobre o que são esses documentos?- perguntou displicente.
– Não tenho autorização para falar, desculpe. – ela estava sendo sincera e Luxuriah sabia disso – Mas ele pede que você retorne com urgência a Luaprata.
Luxuriah passou o dedo pela borda da caneca.
– Por acaso esses... Documentos... Também tem relação com o rei Anasterian Andassol?
Com um grito de triunfo, Karen atacou Tewdric que pegou a menina e a girou bem alto. Huaru riu e bateu palmas quando o orc colocou a elfa debaixo do braço, como se fosse uma saca de trigo. E nenhum deles reparou na expressão mortificada que Vivithi exibia para Luxuriah, nem na caneca de cerveja que caíra no chão e rolara até o canto da taberna.
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Normalmente Ashrial não permitiria que nenhuma de suas irmãs a visse sequer de roupa de baixo, muito menos nua. Mas estava tão fraca, tão desanimada, que não se importou que Kassyeh lhe ajudasse no banho. Sentada na banheira, deixou que a irmã lhe ensaboasse os cabelos delicadamente, usando um xampu feito por ela própria e que exalava um cheiro fresco de lavanda.
– Que bom que eles voltaram à cor normal. – disse a maga animada – Esse xampu vai ajudá-los a ficar lisos e sedosos.
– E as tatuagens? – perguntou tirando as mãos da água e encarando seus braços – Elas parecem riscos finos...
– Depois de mais uma dose do elixir e uma boa noite de sono, amanhã você estará pronta para outra!
Ash virou a cabeça para olhá-la, com a expressão séria.
– Não diga isso nem de brincadeira.
Kassyeh não pode deixar de rir.
– Certo, sem brincadeiras. – e limpando a garganta, falou – Amanhã, você estará pronta para voltarmos para casa!
– Melhor. – Kassyeh ficou satisfeita em ver que a irmã deu um leve sorriso – Apesar de achar que ficaremos mais um pouco.
– Bem, se nossa irmã está mesmo apaixonada por Huaru, acho que ficaremos sim um pouco mais. – e riu, se afastando para pegar um balde com água.
– Você vai ficar também? – surpreendeu-se a caçadora.
– Alguns dias, talvez. – a maga murmurou algumas palavras e a água, antes fria, começou a emitir um leve vapor. Tocando a agua com a mão, sorriu satisfeita – Está bem morna. — e passou a enxaguar os cabelos dairmã.
Era uma das vantagens de ter uma irmã maga, pensou Ash sentindo a água morna descer por seu busto. Não precisavam nunca tomar banho frio, a menos que realmente quisesse.
– Pronto. – anunciou Kassyeh depois de tirar toda a espuma dos cabelos – Agora saia.
Com o rosto vermelho de vergonha, ela saiu da banheira. Sua irmã ainda jogou mais água morna em seu corpo antes de envolvê-la com uma grossa e felpuda toalha. Depois, a fez se sentar em um banquinho ao lado do banheiro e começou a pentear os longos cabelos loiros.
– Seu cabelo é tão lindo. – disse Kassyeh – Quando você nasceu eu chorei, porque queria ter os cabelos como os seus.
– Eu preferia que ele fosse negro, como o seu e o de Lux. – respondeu desanimada.
– Ah não, o seu é lindo como o da mamãe. Os cabelos dela eram tão claros...
– Mas tinha uma tonalidade avermelhada, não? – perguntou.
Depois que fez a pergunta, Ash se arrependeu. Afinal, ela não deveria lembrar-se de detalhes tão específicos quanto aquele. Mas lembrava. Os cabelos da mãe eram loiros, mas às vezes ele exibia reflexos avermelhados, que mostravam a herança dos Fendessol. Já os de seu pai eram tão negros quanto a escuridão. Lembrava-se da risada deles e, se fechasse os olhos e se concentrasse, poderia ouvir perfeitamente a canção de ninar que seu pai cantava todos os dias.
Kassyeh, porém, não fez qualquer comentário. Desembaraçou cuidadosamente os fios dourados e os secou usando um pouco de magia de fogo. Quando terminou, entregou um espelho a Ash, para que ela visse o resultado.
– Eles realmente voltaram ao normal! – exclamou Ash satisfeita e aliviada – E as tatuagens do rosto já sumiram!
– Eu disse, amanhã você estará nova. – e se levantando perguntou – Quer ajuda para se vestir?
Ash fez que não com a cabeça e procurou a roupa. Quando estava se vestindo, Kassyeh falou.
– Eu sei que você lembra-se deles mais do que dá a entender. Só não sei por que esconde isso.
Ash congelou com o blusão de linho a meio caminho da cabeça. Mas foi só por um momento. Sem olhar para a irmã, continuou a se vestir, sem dizer uma palavra.
– Tudo bem se não quiser falar comigo. – disse a maga compreensiva – Sei que você irá compartilhar isso com alguém, algum dia. E com certeza será com alguém muito especial.
A caçadora sacudiu a cabeça em negativa e sentou-se no banquinho novamente, para calçar as sandálias.
– Não sou como você e Lux. – falou secamente – Não atraio olhares de nenhum macho.
Kassyeh suspirou.
– Não sei de onde você tira essas ideias Ash. Você é linda. Mais até que eu e Lux. – e diante do olhar incrédulo da outra, continuou – Você seria a cópia da Vovó Luelly, se tivesse os cabelos negros. E é justamente seus cabelos dourados que a fazem diferente da vovó e até mais bonita.
– Você diz isso porque é minha irmã. – resmungou.
– Não, digo por que é verdade. E não olhe assim para mim! – reclamou quando Ash lhe lançou um olhar de dúvida – Você ainda é jovem demais para esse desânimo todo. Quando eu conheci Tewdric, eu tinha mais idade que você. E veja Lux! Ela só se apaixonou agora!
– Mas ela teve amantes antes, não teve? – quis saber se levantando e se dirigindo para a porta. Kassyeh a seguiu.
– Que importa os amantes? Ela não ficou com nenhum deles. – e se aproximando da irmã, colocou a mão em seu ombro — Não adianta ser desejada e não ser amada. E você será muito amada. Mas que tal começa a se amar também?
Ash revirou os olhos.
– Tá, amar uma fraca dessa que cai com a primeira magiazinha demoníaca que tem contato!
Kassyeh se exasperou com a irmã e pegou em sua orelha. Ash deu um gritinho de dor e acabou sendo conduzida novamente ao banquinho do banheiro. A maga a fez se sentar e sentou-se em sua frente.
– Muito bem. – começou – Aconteceu quando sai de casa pela primeira vez. Não me interrompa! – exclamou quando Ash fez menção de falar. A caçadora fechou a boca, a contragosto –Eu estava coletando ervas quando me deparei com um gnomo bruxo. Lógico que ele me atacou. Eu não consegui fugir e... — Kassyeh fez uma pausa, como se estivesse envergonhada — Bem... Eu o matei.
– Você? Matou alguém?! — admirou-se Ash.
– Não me orgulho disso. — lamentou Kassyeh — Uma vida ceifada sempre é uma grande perda.
– Era um ally. — retrucou a outra — Não foi uma perda.
Kassyeh a encarou.
– Você parece a Lux falando assim. — e ignorando a expressão satisfeita de sua irmã, continuou — Pois bem, eu e o bruxo. Ele me amaldiçoou lógico, é o que os bruxos fazem. Como você, fui obrigada a sugar da magia demoníaca para sobreviver. Mas, diferente de você, eu estava sozinha.
Ash tinha consciência que, nos últimos dias, havia passado pelo inferno. Apesar de ter se sentido fraca, de ter se sentido um fardo e um incomodo, em nenhum momento desejou estar sozinha. A dor e a angústia foram grandes demais. Imaginar que Kassyeh passara por aquilo sem ninguém para lhe ajudar lhe causou uma sensação desesperadora.
– Como aconteceu? — perguntou sem conseguir resistir à curiosidade.
– Eu suguei o bruxo, suas vestes, suas armas. Suguei a magia de tudo que ele tinha. E não fiquei satisfeita. Ataquei por livre e espontânea vontade outros que atravessaram meu caminho. Eu queria mais daquela magia.
Era impossível imaginar a pacífica e doce Kassyeh atacando alguém de propósito, mas o brilho das lágrimas garantia que o relato era verdadeiro.
– Eu precisei atacar outro elfo sangrento para perceber que aquilo estava indo longe demais. Eu não o matei. — apressou-se em dizer diante do olhar assustado de Ash — Ele fugiu a tempo, acho que nem ao menos me viu claramente, e isso me fez ver o que eu estava me tornando. Então, aproveitei o momento de lucidez e me isolei, usando uma caverna. Me algemei, joguei a chave fora e esperei o surto passar. Durou mais de uma semana.
Boquiaberta e chocada com a narrativa, Ash ainda conseguiu perguntar:
– Como você se manteve presa? Você é maga! Poderia ter se teleportado, congelado e quebrado a corrente!
– Você conseguiria atirar uma flecha ontem? — questionou.
Ash compreendeu.
– E depois? — perguntou.
– E depois, consegui me acalmar, me concentrar o suficiente para usar a magia e me libertar. Depois disso, decidi que iria encontrar um remédio para aquela sede.
A história era extraordinária demais para ser verdade. Mas era. Ash estava assombrada.
– Nossa... — murmurou — Não consigo imaginar o que a Lux lhe disse quando soube o que tinha acontecido.
– Ela não sabe. — revelou — Nem Tewdric. Ambos sabem que já enfrentei o vício, mas desconhecem as circunstâncias. Você é a primeira pessoa para quem eu falo.
– Oh, Kass... — murmurou Ash com as lágrimas rolando em sua face. Não sabia o que dizer. Sua irmã havia lhe confidenciado um segredo que não compartilhara antes com ninguém, nem mesmo com seu companheiro. Kassyeh colocou a mão no ombro dela e deu um aperto carinhoso.
– Você não é fraca, Ashrial Fendessol. Nem nunca será. Só precisa de um pouco de confiança em si mesma. — e lhe dirigiu um sorriso encorajador — Tente certo?
A caçadora jamais poderia negar aquele pedido.
– Vou tentar... — garantiu.
Kassyeh estava feliz por ter conseguido arrancar pelo menos aquela promessa da irmã. Sorrindo de forma encorajadora, saiu da tenda onde era o banheiro, acompanhada de Ashrial. Ao saírem para o ar livre, um trovão reboou assustadoramente, fazendo as duas elfas pularem de susto. Apesar de ainda ser tarde, o céu escurecera rapidamente enquanto estavam ocupadas e pequenas gotas de chuvas ameaçavam cair. Dirigiram-se à casa o mais depressa que puderam e Kassyeh assobiou assim que chegou na porta. Suas mascotes saíram de uma moita próxima e correram para debaixo da saia da dona, que precisou se segurar na porta para não cair para trás.
– Vem uma tempestade forte. – comentou Raziel quando elas entraram.
– Espero que todos cheguem logo. – falou Linore preocupada – Vou preparar uma sopa quentinha. É capaz de eles chegarem ensopados.
– Deixe-me ajudá-la – se ofereceu Kassyeh se adiantando.
– Ah querida, não precisa. – recusou a xamã gentilmente – Você deve estar cansada...
– Imagina, adoro cozinhar!
Ashrial então se sentou ao lado do pai de Huaru, que esculpia pequenas figuras em madeira. A elfa olhou, admirada.
– O que o senhor está fazendo? – perguntou curiosa.
– São totens. – explicou sorrindo – Para Linore. Ela gosta de tê-los de reserva. E estes – apontou para pequenos animais ainda inacabados – São para presentar os órfãos de nosso povo.
– O senhor tem um coração muito bondoso. – disse Ash encantada – Se preocupar com os órfãos...
– É obrigação de todos cuidarem daqueles que perderam seus pais. – e olhando-a demoradamente, continuou – Poucos têm a sorte de ter uma irmã como Luxuriah.
Ash assentiu.
– Verdade... – e olhando Kassyeh cortando pacientemente legumes enquanto suas mascotes corriam um atrás do outro alegremente, completou – Ou Kass. Eu e Karen temos sorte de ter ambas.
– Quando os meninos eram apenas novilhozinhos e os centauros não nos deixavam em paz, eu tinha medo de que nós morrêssemos e eles ficassem sozinhos. – confessou o caçador – Hoje, me pergunto quando terei netos...
– Raziel! – a voz de Linore soou com tom de censura – Espero que não esteja perturbando a menina!
– Claro que não dona Linore! – falou Ash apressadamente – Estamos tendo uma conversa muito boa!
– Ele está lamentando não ter netos de novo! – Linore ralhou – Eu já disse que eles virão quando os espíritos acharem o tempo certo deles virem!
Raziel apenas suspirou e balançou a cabeça em negativa.
– Se formos esperar o Mhuu tomar juízo e casar, não teremos netos nessa vida.
Mesmo contra a vontade, Linore riu. Ash e Kass a acompanharam, e a maga não pode deixar de se perguntarse Luxuriah e Huaru poderiam ter filhos. Talvez fosse a mesma situação que ela e Tewdric, não dava para saber até que acontecesse. Ficou empolgada ao imaginar que ela e a irmã poderiamser mães em breve. Com certeza seria uma dádiva muito grande que a Nascente do Sol lhes daria.
A tempestade não demorou. Apesar de ser uma casa feita de couro, a tenda era habilmente costurada e não entrava uma só gota de água. Mas o frio era forte, por isso todos se sentaram em volta da lareira, onde borbulhava um caldeirão de cheiro apetitoso. Já haviam começado a jantar quando o bater de asas do lado de fora se fez ouvir. Um a um os recém-chegados foram entrando, ensopados, como Linore havia previsto. Tewdric trazia Karen habilmente enrolada em sua capa, e os cabelos da menina estavam grudados no rosto. Luxuriah tremia dos pés à cabeça e Huaru parecia bem menor com os pelos molhados. Para a surpresa de Ash e Kassyeh, havia outra pessoa com eles, Vivithi, que também estava visivelmente congelando.
– Pelos espíritos, venham para perto do fogo! – chamou Linore preocupada – Vou buscar toalhas.
Rapidamente, Kassyeh começou a encher tigelas com sopa e Ash a ajudou a distribuir. Todos se sentaram perto do fogo e Linore logo voltou com as toalhas e os enrolou cuidadosamente.
– Foi muito legal! – exclamou Karen quando os dentes pararam de bater – Os raios caiam assim CRASH do nosso lado. ... – e com um sorriso empolgado tomou da sopa.
– Não sei se era você ou Tewdric que atraiam os raios. – Luxuriah se enrolou bem na toalha e se aconchegou a Huaru e o olhou –Ou você.
– Acho que todos nós. – falou Huaru tomando a sopa diretamente na tigela esvaziando-a rapidamente – Pode por mais Kass?
– Claro! – Kassyeh rapidamente encheu e devolveu-a ao tauren.
– O clima às vezes nos prega peças. – Raziel atiçou mais o fogo da lareira –Mas quem é essa nova visita?
Vivithi sentiu todas as atenções voltarem para ela, e engoliu rapidamente a sopa antes de falar.
– Desculpe, não queria incomodar, mas o Huaru fez questão...
– É amiga das meninas. – esclareceu o paladino, com um sorriso acolhedor – Não quis deixá-la no Penhasco.
– Fez bem. – elogiou a mãe – Se é amiga das meninas, é bem vinda. – e abrindo um enorme sorriso, continuou – Adoro ver a casa cheia.
Tomaram o resto da sopa em silêncio, aproveitando o calor da lareira. Logo que estavam aquecidos o suficiente, Linore tocou todos para trocar as roupas molhadas por outras secas. Luxuriah cochichou algo com Huaru e foi em direção de Kassyeh, que olhava a armadura que Karen trouxera num caixote e mostrava empolgada.
– Kass, venha aqui. – disse e sem esperar resposta, a arrastou para o quarto.
– O que foi Lux? – perguntou assustada – Se for Ash, ela tá bem, as tatuagens...
– Não é Ash. – cortou a caçadora. Kassyeh se calou, surpresa demais para falar – Kass, você lembra-se de um piquenique que fizemos quando éramos crianças, onde você perdeu sua boneca Sissi?
Kassyeh pensou um pouco antes de responder.
– Muito vagamente. Lembro-me de cruzarmos as colinas e depois do papai indo nos buscar... Por quê?
Luxuriah olhou rapidamente para fora e depois fechou novamente a cortina. Sabendo que estavam sozinhas, contou a Kassyeh tudo o que vira no Poço das Visões. A maga a olhava, incrédula.
– Você tem certeza que isso é verdade? Que não foi uma ilusão?
– Tenho Kass. Nossas memórias foram manipuladas pelo rei. – afirmou convicta.
– Mas porque ele faria isso? – perguntou ainda sem querer acreditar.
– Não sei, mas acho que em breve saberemos. Vivithi trouxe uma mensagem do Lorde Regente. Acharam documentos de nossa família, mas ela não quer dizer o que é. Precisamos voltar com urgência a Luaprata.
– Você acha que esses documentos esclarecem as lembranças apagadas? – Kassyeh começava a entender a urgência dairmã.
– Acho. – e só então se deu conta que ainda usava as roupas molhadas. Começou rapidamente a se trocar e perguntou — Quando Ash pode pegar um portal?
– Amanhã mesmo. – Kassyeh então se alarmou — Mas eu não posso ir! Minha casa tá em reforma e eu preciso buscar Saba!
Luxuriah lançou um olhar indiferente à irmã.
– Você pode ir buscar Saba por portal e enquanto a mãe dela arruma as malas, você verifica sua casa. Depois volta e nós estaremos no Penhasco te esperando para você abrir um portal para Luaprata. – e suspirando, acrescentou – Kassyeh, isso é muito importante.
A caçadora terminou de se vestir e jogou a roupa molhada em um canto. Kassyeh a olhou com censura, pegou a roupa e a dobrou, colocando-a num cesto com outras roupas sujas.
– Se você acha necessário, tudo bem. – disse a maga pegando o cesto e se encaminhando para a porta – Vou buscar Saba amanhã mesmo, enquanto vocês ajeitam as coisas por aqui.
– Acredite, mais que ninguém eu gostaria de voltar logo a Orgrimmar. – confessou.
Kassyeh franziu a testa.
– É mesmo? Para quê?
Era a oportunidade que a outra estava esperando.
– Para matar quem andou pondo minhocas em sua cabeça.
Um trovão mais forte reboou e os gritos de Ash e Karen foram ouvidos. Tewdric começou a rir e aparentemente Huaru também. Kassyeh e Luxuriah apenas se fitavam.
– Tewdric me contou tudo. – Luxuriah cruzou os braços – Quem foi Kass?
A maga desviou a vista e apertou os lábios.
– Ninguém. – respondeu sem muita convicção. Luxuriah soltou uma risada seca.
– E você quer que eu acredite que um dia você acordou e descobriu que Tewdric poderia te deixar por querer filhos? – Luxuriah balançou a cabeça – Você está insultado minha inteligência Kass...
Kassyeh poderia contar tudo à irmã, mas sabia no que isso ia dar. E não queria ela envolvida em mais problemas ainda.
– Deixe para lá Lux. – pediu – Eu e Tewdric já nos acertamos...
– Ele acha que você vai deixa-lo. – revelou sem cerimônia.
Se Luxuriah não estivesse com tanta raiva da pessoa misteriosa, teria caído na risada com a cara que Kassyeh fez. A maga parecia ter perdido a força do maxilar, pois sua boca ficou aberta e ela não conseguiu fechá-la por um bom tempo.
– Então? – quis saber a primogênita – Você vai?
– Claro que não! – retrucou a outra exasperada – Eu o amo!
– Eu sei disso. Mas ele está com dúvidas. Por causa do seu espetáculo. – e dando uma pausa para ver a reação da irmã, completou – Ele está desesperado Kass.
Uma lágrima solitária rolou pelo rosto de Kassyeh e ela a limpou rapidamente.
– Não queria fazê-lo sofrer... – murmurou com a voz embargada.
– Quem foi Kassyeh? – insistiu Luxuriah.
Mas Kassyeh não precisou responder. Bastou um olhar para que Luxuriah percebesse de quem estavam falando.
– Lyndonna! – vociferou Luxuriah fechando os punhos em fúria – Ah, ela vai se ver comigo!
– Lux... – começou Kassyeh, mas foi brutalmente interrompida.
– Calada! – a voz de Luxuriah era ríspida – Eu vou acabar com a raça daquela orca!
– Orquisa. – corrigiu a maga.
– O diabo que ela seja! – a caçadora colocou as mãos na cintura e começou a andar para um lado e para o outro – Ela me paga por ter colocado essas ideias absurdas em sua cabeça! — e olhando longamente para a irmã, perguntou – Sinceramente Kassyeh, me diga: o que você faria se Tewdric a trocasse por ela?
As mãos de Kassyeh apertaram o cesto e ela fechou os olhos por um instante. Imaginar perdendo Tewdric para quem quer que fosse era doloroso demais. Mas deixou-se levar pela possibilidade, e uma raiva incontrolável começou a queimar dentro dela. Sim, ela sabia exatamente o que faria.
– Eu mataria Lyndonna. – disse depois de um momento – E depois furaria os olhos de Tewdric para que ele nuncamais olhasse para nenhuma outra fêmea!
Luxuriah jogou a cabeça para trás e riu alto. Não por duvidar da irmã, mas por estar aliviada ao perceber que havia verdade na fúria da pacífica maga.
– E o deixaria amarrado ao pé de sua cama? – provocou Luxuriah com um sorriso malicioso – Para servir como objeto sexual?
Kassyeh considerou a ideia.
– Sim, amarraria. – disse por fim.
A caçadora se aproximou da irmã e colocou as duas mãos em seus ombros.
– Você ainda tem salvação, minha irmã. – e tomando o cesto de suas mãos, continuou – Vá acalmar Karen, se ela gritar mais um pouco, vai derrubar a tenda. E vamos deixar Lyndonna achar que ganhou essa por um tempo. Temos que resolver nossas coisas em Luaprata. Os documentos e seu casamento.
Os olhos de Kassyeh brilharam de felicidade.
– Você vai me ajudar a organizar a festa? – perguntou ansiosa.
– Sim. Tewdric pode ter muitos defeitos, mas ele te ama e te faz feliz. – e passando pela porta, acrescentou – E convenhamos, um orc que toma banho todos os dias e escova sempre os dentes por você é digno de respeito.
E saiu, deixando a irmã entre risos e com o coração muito mais aliviado do que estivera há muitos dias.
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