Herdeiros da Guerra
8 Capítulo VIII – Segredos
Notas iniciais
Samanthah se admirou no espelho e percebeu que realmente aquele vestido era a melhor escolha. Deu uma volta, vendo o brilho das pedras que o enfeitavam cintilarem, como se fossem pequenas estrelas. O vestido também tinha um belo decote, que acentuavam a curva de seus seios, além de ser de um vermelho sublime.
Vermelho era a cor favorita do príncipe Kael’thas.
– Samanthah! – a voz potente de seu irmão Aethas atravessou a porta de seu quarto – Vamos nos atrasar!
– Estou indo! – gritou de volta antes de afofar os cabelos e sorrir para o espelho uma última vez.
Naquela manhã estava decidida a se fazer notar pelo príncipe. Depois de mais uma temporada em Dalaran, ele viera passar o verão na capital e todos falavam que possivelmente seria naquele momento que ele escolheria uma noiva. Aethas, que era companheiro do príncipe nos estudos em Dalaran, comentara que Kael’thas não parecia muito interessado em casar tão cedo, mas que seu pai, o rei Anasterian, insistia que ele escolhesse uma noiva. E naquela tarde, o príncipe passearia por ali, e seria recebido na estrada principal com honras por todos os habitantes da vila Correventos.
E claro, ela estaria ao lado de Aethas, exibindo seu lindo vestido e o melhor sorriso que poderia dar para chamar a atenção dele.
– Você está maravilhosa minha irmã. – elogiou Aethas quando a viu.
Apesar da insistência da irmã, Aethas se recusara a falar em seu favor ao príncipe. Dizia que ela era muito jovem e devia ponderar suas ambições. Se quisesse realmente ter contato com o príncipe deveria ir estudar em Dalaran, como todos na família já haviam feito. Contudo, Samanthah adorava sua casa. E tinha certeza que não faria diferença nenhuma para seus pais se ela fosse para Dalaran ou não.
Afinal, para eles, só quem importava era Aethas.
Seus pais já os esperavam do lado de fora de casa. Seu pai olhou para sua aparência e assentiu. Já sua mãe não parecia muito satisfeita. Com certeza ela iria enchê-la de censuras e talvez até fazê-la trocar de roupa, se não estivesse preocupada em chegar o mais cedo possível à praça principal.
– Vamos. – disse o pai.
Os falcoztruzes esperavam na saída da casa, sendo segurados por alguns servos. Samanthah montou em sua fêmea com cuidado, afinal não queria que nada estragasse sua aparência. O trajeto não era longo, e logo eles estavam na praça principal e se juntaram a outras famílias que já esperavam pela chegada do príncipe. O ânimo de Samanthah minguou assim que ela apeou: havia pelo menos uma dúzia de garotas com vestidos vermelhos, e a maioria delas tinha sido bem mais ousada.
– O seu ainda é o mais bonito. – ouviu alguém dizer.
Sylvana havia chegado ao seu lado silenciosamente, como sempre. Estava usando seu uniforme de patrulheira e trazia consigo um enorme arco nas mãos. Com certeza ela era a responsável pela segurança da passagem do príncipe pela vila.
– Eu devia ter imaginado que todas as outras iriam ter a mesma ideia. – reclamou olhando mais três garotas chegarem com seus vestidos vermelhos – Agora eu serei só mais uma em meio às outras.
– Você deveria estar mais interessada em seus estudos que em casamento, Samanthah. – censurou Sylvana – Você tem uma aptidão fora do normal. É um desperdício imaginar você presa às questões domésticas.
– Nada do que eu fizer será novidade Sylvana. – comentou desanimada – Aethas sempre será melhor que eu nesse aspecto.
A patrulheira a encarou, com censura.
– Casar com o príncipe só para agradar seus pais? – ela meneou com a cabeça – Você deveria pensar mais em você Samanthah. E não se prender a essas coisas.
– Você só fala isso porque você, Alleria e Vereesa são todas maravilhosas, bem diferente de mim.
Era difícil arrancar um sorriso da sempre séria Sylvana, mas Samanthah era uma das poucas que conseguiam. Meneando a cabeça, como se a outra não tivesse jeito, a patrulheira sorria enquanto tentava entender a lógica da maga.
– Se isso é tão importante para você, – disse Sylvana diante de mais uma leva de jovens de vermelho – tenho uma ideia que talvez te ajude.
Os olhos de Samanthah brilharam em expectativa e ela quase deu pulinhos de excitação.
– O quê? – quis saber.
– O príncipe adora cardossangues. São as flores preferidas dele. Você poderia colher algumas e dar de presente quando ele passar. Isso com certeza irá chamar a atenção dele. — e olhando para o céu, acrescentou – Você ainda tem algum tempo.
Samanthah só não saiu correndo porque teve a consideração de dar um rápido abraço na patrulheira.
– Obrigada Sylvana! – disse antes de disparar em direção do estábulo para pegar sua montaria, deixando uma patrulheira risonha para trás.
Encontrar Sylvana ali e ter aquela solução para seu dilema com certeza era um excelente presságio! Tanto que ela nem ao menos pensou em informar seus pais e seu irmão de onde ia. Sabia que havia vários arbustos repletos de flores por ali e que não demoraria a providenciar um lindo buquê que ofereceria ao príncipe. Isso com certeza faria com que ele a olhasse diferente das outras inúmeras jovens de vestidos vermelhos provocantes que estavam por ali.
Todavia, achar as flores foi um pouco mais difícil que tinha imaginado, mas não se importou. Afinal, o fato de ser um pouco mais complicado de encontrá-la, só reforçava o fato de que mais especial seria o buque. Teve que se afastar um pouco mais da vila até que, finalmente, as encontrou. Desceu rapidamente da montaria, colheu as rosas e, tirando um dos laços de fita prateada do vestido, as amarrou. Satisfeita consigo mesma, subiu novamente no falcoztruz, pronta para voltar à praça.
Pelo menos era essa sua intenção.
Um barulho ensurdecedor preencheu o ar, assustando não só o falcoztruz de Samanthah, mas também todos os animais nas proximidades. Preocupada, ela imaginava que tipo de fera poderia produzir um barulho tão incomumente bizarro. Vindo de uma colina próxima, uma criatura de metal saltou por cima de sua cabeça, fazendo com que sua montaria entrasse em pânico, batesse as asas descontroladamente e empinasse, derrubando a jovem violentamente no chão, antes de correr em disparada.
A dor da queda não foi tão grande quanto o desespero de ver seu vestido novo totalmente arruinado ao cair em cima dos cardosangues, que ficaram completamente esmagados. Para completar, ouviu o som do tecido rasgando e vários enfeites caíram na grama.
– Uou, que queda hein?
A criatura de metal havia parado bem perto dela. Quando levantou a cabeça, a raiva tomou o lugar do choque de ver-se totalmente arruinada. A criatura de metal aparentemente era a montaria de um jovem elfo, que ostentava um sorriso divertido por causa da situação. O jovem tinha cabelos muito negros, curtos, espetados de forma bem rebelde para trás. Usava um óculos enorme, preso por uma tira de couro, provavelmente para proteger os olhos durante a corrida. Quando percebeu que ela o encarava, colocou os óculos para cima, revelando profundos olhos azuis.
– Seu... Seu... – sibilou Samanthah sem conseguir encontrar uma palavra suficiente agressiva.
– Acho que minha motoca assustou seu falcoztruz hein? – falou descontraído, sem se importar com a expressão de fúria do rosto dela – Parece que os bichos aqui não estão acostumados com o som de motores.
Além de tê-la derrubado, o idiota sequer fez menção de ajudá-la a se levantar. Samanthah então se ergueu desajeitadamente e gemeu, ao ver que estava totalmente imunda e que seu penteado havia sido arruinado. O elfo ainda a olhava, curioso.
– Você está bem? – perguntou.
Aquilo era demais.
– É claro que não estou bem, idiota! – explodiu – Você me derrubou, arruinou meu vestido, arruinou os cardossangues, e arruinou minha chance de impressionar o príncipe! – as lágrimas já enchiam seus olhos quando terminou.
O rosto do elfo, até então risonho, endureceu diante de suas palavras. Ele a analisou de alto a baixo por um momento. Parecia decepcionado.
– Ah, mais uma das fãs do grande príncipe Kael’thas Andassol. – havia ironia em sua voz – Bem, tenho certeza que chegar assim lá na praça vai com certeza chamar a atenção dele.
Samanthah não pensou duas vezes. Soltou uma lança de gelo na direção dele. Para sua surpresa, ele a desviou com facilidade, manobrando o bicho que ele chamava de motoca para o lado.
– Ei, ei! Eu não quero briga! – exclamou quando viu que ela preparava outro feitiço.
– Pensasse nisso antes de arruinar meu vestido! – gritou lançando outra lança de gelo nele.
Mais uma vez, ele conseguiu desviar, só que não totalmente. O feitiço pegou na traseira da motoca e congelou-a parcialmente. O metal trincou e o jovem elfo xingou antes de manobrá-la, dar as costas para Samanthah e partir em disparada na direção oposta.
– Volta aqui! – gritou ela correndo – Seu covarde!
Ele, contudo, não voltou. E Samanthah se viu sozinha, no meio do bosque, totalmente suja, com o vestido rasgado e as chances de se tornar rainha indo por água abaixo. Como se não fosse suficiente, pingos de chuva começaram a cair e logo ela estava completamente encharcada. Aos prantos, não teve outra alternativa a não ser caminhar até sua casa, se enfurnar no seu quarto, amaldiçoando o elfo em sua montaria metálica e esperar o sermão infinito que ouviria de seus pais quando estes chegassem em casa.
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– Convenhamos, poderia ter sido pior. – disse Sylvana.
Uma das coisas que mais detestava na amiga, era a capacidade que ela tinha de simplesmente achar que nada que se não se resolvesse com uma boa flechada merecesse atenção. Sylvana era prática demais, lamentou Samanthah. Não conseguia compreender que nada poderia ter sido pior do que acontecera. Chegar em casa ensopada e imunda; ter que explicar o que acontecera aos pais que , pra variar, não lhe deram ouvidos; ouvir sua mãe lamentar a grande oportunidade que perdera; e, para piorar tudo, saber por seu irmão Aethas que o príncipe perguntara por ela.
Agora estavam ali, sentadas em uma mesa de uma doceria no centro de Luaprata, tomando chá gelado e comendo doces, enquanto tentava convencer Sylvana a ajudá-la a escolher um vestido.
– Minha mãe me disse que dessa vez eu tenho que estar espetacular. – falou tristemente a maga – Afinal, a outra única oportunidade que terei além dessa visita do príncipe lá em casa é no festival de verão que se aproxima.
– E você quer a minha ajuda para escolher um vestido? – perguntou Sylvana surpresa – Você sabe muito bem que não sou muito chegada a vestidos Samanthah, se fosse pra escolher um arco ou uma boa armadura...
– Sylvana, se você me ajudar pelo menos ofendendo aquele elfo maldito que me pôs nessa situação, já serei eternamente grata. – implorou.
Sylvana riu.
– Certo, ele é um idiota. – disse a patrulheira.
– Um grande imbecil. – acrescentou Samanthah já se sentindo melhor.
– Um grande e imenso idiota e imbecil. – completou a outra.
As duas riram.
– Se sente melhor? – perguntou Sylvana.
– Muito melhor. – suspirou e tomou mais um pouco do chá gelado – Por que meus pais tem que ser tão complicados hein? Eles não poderiam simplesmente gostar de mim como eu sou? Sem ter que comparar cada passo meu ao de Aethas?
– Eu também não entendo Samanthah. Eu e minhas irmãs não temos esse tipo de competição entre nós. Nossos pais nos tratam da mesma forma, e não cobram que sejamos algo que não queremos ser. – a patrulheira colocou mais chá em sua taça e na da amiga – Eu acho que você deveria ser sincera com seus pais. Se tornar rainha é uma responsabilidade grande e tê-la apenas por conveniência social não é o melhor prognóstico de futuro.
Samanthah, contudo, não prestara a atenção em metade das palavras ditas por Sylvana, porque, naquele momento, estava vendo a pessoa que mais desprezava em todo o mundo. O maldito elfo da montaria de metal estava passando do outro lado da rua!
– É ele! – sibilou para Sylvana – Ali! O elfo de cabelo curto e roupa estranha!
Sylvana virou-se e o viu. O rapaz andava descontraidamente, com uma roupa de um couro estranho completamente preta, os óculos presos na testa e levando nas costas o que Samanthah supôs ser a parte da tal motoca que ela congelara.
– Ah! — exclamou Sylvana reconhecendo-o – Dhomm!
Como se tivesse ouvido seu nome ser pronunciado, Dhomm olhou exatamente naquela direção. Seus olhos se encontraram com os de Samanthah e ele parou de andar no mesmo momento. Para o total desespero da maga, o jovem mudou de rumo e começou a ir em sua direção.
Bem que ela pensou em correr. Só não sabia se corria dele e se corria em direção a ele e o transformava em um bloco de gelo para depois jogá-lo no rio e ficar assistindo-o afundar. Antes que chegasse a uma conclusão, Dhomm chegou onde elas estavam. Ele a olhou longamente antes de largar a peça de metal ruidosamente aos seus pés.
– Você me deve uma peça nova moça. – disse rispidamente.
Samanthah sentiu o sangue latejar em seus ouvidos.
– Eu lhe devo uma peça? Eu lhe devo uma peça?!! – antes que pudesse perceber, já estava de pé – Você arruinou meu vestido e eu lhe devo algo?!
Dhomm não se intimidou.
– Sim, você me deve! Sabe como é difícil fazer uma motoca? – e apontou para a peça rachada no chão — Levei meses para construí-la!
– E meu vestido demorou meses para ficar pronto! – rebateu furiosa – E tenho certeza que ele foi muito mais caro que esse pedaço de lata!
– Pedaço de lata?! – agora ele parecia realmente ofendido – Ela é uma legítima moto gnomída!
Eles continuaram a bater boca rispidamente enquanto Sylvana observava calmamente a discussão. Algumas pessoas passavam e paravam para observar a cena, antes de sair rindo dos argumentos que ambos usavam uns aos outros. Só quando percebeu que isso se estenderia muito mais do que o tempo que dispunha, a patrulheira resolveu por um fim. Após esvaziar sua taça, Sylvana se levantou e se pôs bem no meio deles, atraindo a atenção para si.
– Que tal encurtar a briga com um acordo? – propôs – Samanthah, você paga as peças da... – Sylvana hesitou um pouco — ...da motoca dele. – e antes que a jovem replicasse, continuou – E você Dhomm, paga o vestido dela. – e sorrindo satisfeita consigo mesma, concluiu – Pronto, resolvido! Agora tenho que ir. Até mais Samanthah. Dhomm.
E saiu deixando os dois jovens antes que houvesse qualquer manifestação dos mesmos.
Samanthah não podia acreditar no que acontecera! Sylvana a deixara sozinha com o elfo maluco da motoca e ainda por cima fugira de ir às compras com ela! Estava tão furiosa, que nem percebeu que Dhomm a olhava longamente.
– Parece que sua amiga a deixou na mão. – falou risonho.
Ela o olhou com fúria.
– Por sua culpa! – vociferou.
Dhomm sacudiu a cabeça.
– Olha Sam, você tem que parar de me culpar por tudo que acontece de ruim em sua vida. – ele estava visivelmente se divertindo com a raiva dela.
– Sam?! – ela praticamente gritou – Não te dei intimidade para me chamar assim!
O elfo deu de ombros e pegou novamente a parte da motoca que estava no chão.
– Bem Sam, acho que vamos ter que resolver isso nós dois não é? – falou displicente – Deve ter alguma loja de vestido nessa cidade não?
– Não me chame de Sam! – rosnou ela – E não farei compras com você, seu esquisito!
Para sua surpresa, ele desatou a rir animadamente. Não parecia estar nem um pouco ofendido de ser considerado esquisito.
– Muito bem Sam, é o material da motoca pelo vestido. É bem justo não? E eu acho que-
Antes que ele pudesse terminar, ela o trancou em um bloco de gelo. Estava frustrada com a situação, irritada com ele, chateada com Sylvana e sem paciência nenhuma para as brincadeiras do elfo. E ciente que enfrentaria mais uma rodada de sermões quando chegasse em casa sem o vestido, não viu porque estragar seu dia com algo mais que o que já tivera. Fazer compras com ele? Jamais! Enquanto ele continuava lá, congelado com uma expressão surpresa, ela jogou algumas moedas em cima da mesa, pegou a bolsa e, antes de se teleportar, fez um gesto muito grosseiro com o dedo para Dhomm.
Quando o gelo quebrou, segundos depois da conjuradora ter sumido em um rastro de magia, Dhomm estava ainda um pouco atordoado. Limpou os cristais de gelo que ficara em sua roupa preta e, para a surpresa de quem assistira a cena, começou a rir sozinho.
Ele adorava garotas atrevidas. E Samanthah com certeza era a mais atrevida que ele já conhecera em toda sua vida.
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Durante dois dias Samanthah não conseguiu tirar o sorriso de deboche de Dhomm de sua mente. Depois de se resignar a usar uma roupa que a mãe escolhera, e ouvir mil vezes as recomendações do pai para a visita do príncipe, a única coisa que a acalmara eram os livros e a companhia de seu irmão. Apesar da preferência visível de seus pais pelo primogênito, Aethas jamais utilizou isso contra ela, e até mesmo criticava os pais por sua postura. É claro que a defesa dele só fazia seus pais o admirarem ainda mais.
– Não acho que você deva casar com o príncipe. – disse Aethas pela milésima vez no dia em que iriam receber a visita.
Os dois estavam conversando no quarto de Samanthah. Enquanto o irmão estava sentado em uma luxuosa poltrona dourada, ela terminava se colocar a maquiagem e jogava perfume à sua volta.
– E eu tenho opção? – disse triste ao se ver no espelho. Definitivamente vermelho não era a sua cor – Acho que papai e mamãe já devem estar fazendo a cabeça do rei, senão o príncipe não viria aqui nos visitar.
– Bem, somos colegas em Dalaran. – Aethas cruzou os braços – É possível que seja apenas uma visita de amigos.
– E eu sou um presente de boas vindas. – disse com a voz triste – Mas se isso for fazer nossos pais felizes, é o que farei.
Aethas balançou a cabeça em reprovação e se levantou. Caminhou até a irmã e deu-lhe um beijo na testa.
– Não se sacrifique. Faça o que você tem vontade de fazer. – e com um sorriso de incentivo, saiu.
Era muito fácil para ele falar. Seria o próximo arquimago do Kirin Tor. Quem sabe, um dia viria a ser o líder daquela facção. Até mesmo o braço direito do futuro rei. E ela? O que seria? A esposa troféu? Isso se chegasse a ser esposa. As preocupações de Aethas não tinha um fundamente lógico, afinal, Kael’thas poderia escolher a vontade entre milhares de jovens muito mais bonitas que ela. E é claro, quando isso acontecesse, seus pais a culpariam por ser sem graça e comum.
Estava tentando não chorar diante da situação quando ouviu uma batida na porta.
– Entre. – disse sem ânimo.
Uma das servas de sua casa fez uma reverência, entrou no quarto e lhe entregou um bilhete.
– Mandaram entregar senhora. – disse a moça antes de fazer outra reverência e sair.
A única pessoa que pensou que podia ter lhe enviado aquilo era Sylvana. Provavelmente era um pedido de desculpas por ter sumido naquele dia. Ao lembrar daquilo, sentiu a raiva tomar conta de si novamente quando o rosto de Dhomm surgiu em sua mente. Esperava que as palavras de Sylvana fossem boas o suficiente para aplacar sua raiva.
Qual não foi sua surpresa ao ver, não um bilhete de Sylvana, mas do próprio Príncipe Kael’Thas! Ele pedia um encontro a sós com ela, antes de sua visita naquela tarde! E pedia segredo!
Então era isso? Realmente ele a via como pretendente? Ou queria dispensá-la privativamente para não constrangê-la?
Releu o bilhete para ter certeza. Ele marcara um local não muito longe de sua casa, perto do rio. Dava para ir rapidamente, falar com ele e voltar antes da visita oficial. Como ele não pedia resposta era perceptível que ele tinha certeza que ela iria. Achou estranho, mas com certeza se seus pais soubessem que tivera essa oportunidade de encontrar o príncipe e estragara, iriam colocá-la de castigo para sempre. Olhou no relógio arcano. Se queria encontrá-lo, tinha que sair naquele momento.
Não foi difícil sair à surdina, pois todos estavam muito interessados em receber o príncipe adequadamente. Foi até o estábulo, pegou sua falcoztruz e se dirigiu rapidamente ao local indicado. Amarrou a montaria em uma árvore e passou a mão pelos cabelos, para ajeitá-los. O príncipe não devia demorar.
Porém, o tempo começou a passar e ele não chegava. Samanthah releu o bilhete várias vezes para ter a certeza que não entendera errado. Tinha a convicção que estava no local certo, na hora correta, mas nada do príncipe. Pela hora, ele já deveria estar chegando a sua casa, mas sequer aparecera ali! Será que ele iria se atrasar tanto?
Enquanto conjecturava as possibilidades, sentiu algo bater em seu ombro e cair no chão. Olhou e viu uma semente preta no chão. Achou estranho, a árvore em que estava não era frutífera. Outra semente caiu, dessa vez bateu em sua cabeça. E mais outra. Intrigada, olhou para o alto da árvore e o que viu fez seu sangue ferver.
Dhomm estava de cócoras, em cima de um galho, comendo um cacho de uvas silvestre e jogando as sementes nela.
– Tá perdida? – perguntou com aquele tom debochado – Ou tá esperando alguém?
Samanthah analisou a distância. Não dava para atingi-lo com um feitiço.
– Não é da sua conta! – vociferou antes de se levantar.
Com a agilidade de um gato, Dhomm ficou em pé no galho e depois pulou para o chão. Ele vestia outra roupa de couro, agora verde, mas o padrão das escamas era a mesma da roupa preta que ele usara quando se encontraram da outra vez. Ainda usava os óculos na testa, mas em vez da peça da motoca era uma mochila e uma arma estranha que carregava nas costas.
– Gostou? – perguntou ele ao ver que ela o analisava – Legítimo couro de protodraco verde. Eu mesmo cacei!
– Como se isso me interessasse! – retrucou Samanthah.
– E isso aqui é meu trabuco. – continuou ele como se ela tivesse mostrando todo o interesse do mundo na conversa – É tipo um arco, só que com pólvora. Os anões chamam de arma de fogo.
– Não tenho interesse em suas roupas estranhas ou armas estranhas! – exclamou ríspida – Ainda não esqueci o que você fez!
– Você é bem rancorosa né? – comentou Dhomm calmamente – Eu também não esqueci que você quebrou minha motoca, mas mesmo assim não estou gritando com você.
– Eu não estou gritando! – gritou.
O elfo caiu na risada.
– Você é tão divertida Sam!
– Não me chame de Sam! – ela se perguntava com alguém podia ser tão, tão irritante – Eu não lhe dei essa intimidade!
Dhomm deu de ombros e terminou de comer suas uvas. Parecia não estar nem um pouco intimidado pela sua raiva. E olhe que Samanthah estava cega de raiva. Queria gritar, atacar, causar toda a dor que pudesse àquele elfo, e mesmo assim ele estava ali na sua frente tão descontraído como se tivesse na presença de uma velha amiga.
– O que você faz por aqui? – perguntou a maga por fim.
– Bem, vim tentar fazer as pazes. – disse com um sorriso singelo – Lhe trouxe um vestido. Assim, você pode pagar minha motoca!
Por um momento, Samanthah baixou a guarda. Ele parecia sincero. E realmente, trazia um pacote amarrado à arma, que parecia um volume de tecido. Mas era cedo demais para confiar totalmente.
– Deixe-me ver. – pediu sem sair do lugar.
O tom dela era mais calmo, e aquilo deixou Dhomm satisfeito. Ele rasgou animadamente o pacote e mostrou um vestido vermelho. Mas não era apenas um vestido vermelho. Era o vestido vermelho mais indecente que Samanthah já vira em toda a sua vida. Primeiro, o sangue subiu ao rosto só em imaginar em estar ali dentro. Aquilo não era mais que um pedaço de pano transparente! Depois, a raiva voltou com força total. Como ele podia achar que ela iria usar aquilo?!
– E então? – Dhomm pareceu interpretar o silêncio dela como aprovação – Bonito não? Eu que escolhi!
Então ela explodiu.
– Seu imbecil! – avançou pra ele com fúria – Você acha que sou o que para usar isso?!
– Mas é tão bonito! – o que mais a deixava com raiva é que ele parecia sincero demais falando aquilo – A vendedora me garantiu que qualquer elfa mataria por esse vestido!
– Só se for se matar para não usar! – ela estava tão irritada, tão irritada que Dhomm ficou surpreso que ela ainda não tinha explodido – Eu jamais usaria isso na frente do príncipe nem de ninguém!
O príncipe! Samanthah ficara tão irritada com a presença de Dhomm, que esquecera que estava esperando pelo príncipe. O que ele diria se a visse ali, na presença daquele elfo estranho que segurava um vestido tão indecente que duvidaria que uma prostituta usaria em sua companhia?
– Bem, eu comprei o vestido. – continuou ele empurrando o vestido para as mãos dela – Agora você tem que pagar pelas peças da motoca.
– Eu não quero esse vestido! – exclamou jogando o vestido de volta para ele – E não vou pagar porcaria nenhuma em troca dessa indecência! E vá embora! O príncipe Kael’thas deve estar chegando para me ver!
Dhomm começou a rir com gosto diante da fala dela.
– Não se preocupe. Ele não virá. – disse tranquilamente guardando o vestido na mochila – Fui eu quem mandou o bilhete.
O sangue fugiu do rosto de Samanthah.
– Você... O quê? – murmurou com a voz falhando.
– Bem, achei que você não viria se eu mandasse o recado. – respondeu com simplicidade – Então mandei dizendo que era o príncipe. – e sorrindo, acrescentou – Acho que a essa hora ele já deve estar saindo de sua casa.
O raio de magia o atingiu tão rápido quanto da outra vez. Só que agora, Dhomm não era um bloco de gelo, mas uma singela e felpuda ovelhinha.
Desejando ardentemente que houvesse um lobo pelas redondezas, Samanthah se dirigiu à sua montaria e voltou o mais rápido que pode à sua casa. Porém, havia perdido muito tempo esperando a falsa vinda do príncipe e também com Dhomm. E foi com o coração apertado que viu a carruagem do príncipe indo embora.
– Ótimo... – murmurou para si própria – Como se minha vida não estivesse ruim o suficiente...
Resignada, foi em direção da casa. Sabia o que a aguardava. Sermão, castigo. E daquela vez nem Aethas poderia salvá-la. Porém, algo lhe deixava menos deprimida. Aquilo não passaria em branco. Aquele elfo estranho chamado Dhomm iria pagar muito caro pelo que fizera!
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Lor’themar não se sentia bem cada vez que precisava entrar naquela sala. A visão as inúmeras estantes repletas de livros e documentos reais lhe deixavam com a sensação que era um intruso ali. E de certo modo, era o que realmente ele era. Não descendia da família Andassol e sua posição de regente nada mais era que uma mera consequência do acaso. O fardo sempre lhe fora pesado demais, e só o suportava porque não havia mais ninguém que o fizesse.
Por pouco tempo.
– E então, podemos começar? – perguntou uma voz feminina ao seu lado.
Entrar naquela sala era um privilégio para poucos, e o regente só o permitira para pessoas de sua extrema confiança. Rommath estava lá. Halduron também. E sua sobrinha, Vivithi, a dona da voz.
– Comecem. – disse em tom de ordem.
O trabalho levou dias. Vários dias. E não havia nada, absolutamente nada, sobre um outro ramo da família Andassol.
O Lorde-Regente então percebeu que, se havia algo escuso sobre a família, não estaria em documentos oficiais. Permitiu então que todos entrassem nos arquivos privativos.
– Que estranho... – comentou Vivithi pegando um lindo caderno com capa luminosa dourada em veludo negro depois de algum tempo de busca.
– O quê? – perguntou Lor’themar se aproximando, ansioso.
– Isso é um diário. – comentou girando-o na mão – Mas veja o nome que está escrito. – e estendeu o objeto ao seu tio.
– Realmente, ela não era da família real. – observou ele enquanto manuseava o objeto – O rei e a rainha era admiradores dela, mas não havia nenhum laço... – a voz de Lor’themar se perdeu no meio da frase.
– Tio? – chamou Vivithi estranhando o silêncio repentino.
Mas é claro! Pensou Lor’themar. Agora fazia sentido!
– Eu acho que achamos uma pista. – disse rapidamente antes de se retirar.
Precisava ler aquele diário. Com urgência. Se suas suspeitas se confirmassem, sua visita a Orgrimmar teria que ser mais cedo do que gostaria.
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O festival estava mais belo do que nunca. Luaprata era uma cidade bonita, reluzente, mas quando chegava o verão, quando o solstício se aproximava, ela era muito mais ornamentada e muito mais radiante que o normal. Era a época do ano que Samanthah aguardava com mais ansiedade. Menos naquele ano.
Caminhar com seus pais pelas ruas nunca fora tão entediante. Normalmente eles a liberavam para circular livremente pelo festival, mas com os acontecimentos recentes, eles estavam deixando-a a vista o tempo todo. Afinal, deixara de comparecer a dois eventos que seus pais consideravam de extrema importância para seu futuro.
Suspirou pensando no que aconteceria quando príncipe escolhesse outra noiva.
Foi com alívio que viu seus pais se aproximando da família Correventos. Acenou tristemente para Sylvana, que arqueou as sobrancelhas em sua direção. Queria se aproximar da amiga e contar tudo que acontecera, mas duvidava que seus pais permitisse sequer que ela abrisse a boca.
E foi para sua total alegria que Sylvana percebeu sua situação, pois logo estava puxando-a para seu lado, com o sorriso mais aberto que conseguiu dar.
– Senhor e senhora Fendessol não vão se importar se eu e Samanthah dermos uma volta não é? — e antes que eles pudessem responder, a patrulheira completou – Sabia que não se importariam! Venha Samanthah, temos muita coisa para ver.
E a arrastou para longe dali.
– Sylvana, você me salvou! – comemorou Samanthah quando já estavam longe dos pais, dando um abraço apertado na outra.
– Chega de abraço Samanthah! – reclamou a patrulheira se desvencilhando – Você gosta tanto desse contato físico que parece uma humana!
– É que estou muito feliz! Você me tirou de perto deles e foi o suficiente!
– Me conte o que esta acontecendo. – pediu Sylvana – Alleria me contou que seus pais não lhe deixam sequer sair de casa.
– É uma longa história... – murmurou lembrando-se de Dhomm e de tudo que acontecera.
Sylvana deu de ombros.
– Estou de folga. Temos tempo. Conte tudo.
Foi exatamente o que ela fez. Enquanto andavam pelas barracas e provavam diversas iguarias oferecidas, observavam o sol se mover no céu. Já tinha percorrido quase toda a cidade quando a maga terminou de contar o que acontecera entre ela e Dhomm, a reação exagerada de seus pais diante de sua perda da visita do príncipe e também da tentativa inútil de Aethas de comovê-los.
– Tudo culpa daquele imbecil! – vociferou ela ao terminar o relato – Se ele não tivesse aparecido! – e cruzando os braços irritada, pediu – Você pode matá-lo para mim?
Sylvana riu com gosto.
– Bem que poderia, mas agora ele é meu subalterno. — comentou displicente fazendo o queixo de Samanthah cair — O máximo que posso fazer por você é transformar a vida dele num inferno pior do que a que será sob meu comando.
– Como assim??? – questionou a outra estarrecida – Ele está nos patrulheiros?!
– Sim, ele entrou. Pensei que ele ia voltar para a terra dos anões depois que a mãe dele melhorasse, mas aparentemente não houve melhora.
– Anões? Mãe? – para Samanthah, Dhomm era só um elfo estranhou e ter referências sobre a vida dele pareceu mais estranho ainda.
Sylvana riu da confusão da outra.
– Você sempre me faz rir Samanthah, é por isso que gosto de estar com você. – comentou apontando uma mesa no largo do festival – Vamos sentar um pouco. Em breve começarão as apresentações musicais e eu adoro. – depois que sentaram, Sylvana percebeu que a outra ainda a olhava em expectativa – Você nem ao menos sabe quem Dhomm é, não é mesmo?
Samanthah não fazia ideia de nada sobre ele, a não que ele merecia seu ódio eterno.
– Ele é a criatura mais irritante, inconveniente, idiota e estúpida que eu conheço! – disse a maga, provocando risos na outra.
– Dhomm é filho de Lady Luelly. – revelou a patrulheira.
O queixo de Samanthah caiu mais ainda.
– Lady Luelly, “A” Lady Luelly?!! – perguntou sem acreditar no que ouvia.
– Sim, Lady Luelly, prima de seu pai. – falou calmamente a outra.
Bem, agora as coisas faziam mais ou menos sentido, pensou Samanthah.
Lady Luelly era ninguém menos que a pessoa mais conhecida e comentada de Luaprata, até mais que os próprios rei e rainha. E não era por menos. Linda, exuberante, rica, de uma simpatia que transcendia todos os padrões élficos, ela era portadora da voz mais melodiosa que seu povo já conhecera. Tinham a voz de uma deusa, costumavam dizer. Quando ela começava a cantar, até o mais duro coração amolecia. Diziam que não se sabia o que era mais lindo, sua voz ou a própria elfa em si. Não era por menos que era a mais desejada e cortejada nobre da cidade.
E a mais invejada também.
As más línguas falavam da quantidade imensa de amantes que já haviam passado pela cama de Lady Luelly. Os rumores se agravavam pelo fato de ela ter um filho, mas de nunca ter se casado. Esse filho, pelo que ouvira, tinha tido os melhores tutores que o ouro podia comprar, por isso jamais frequentara a academia da capital. E quando tinha idade o suficiente, ela o mandara estudar entre os humanos e outros povos. Diziam que ela queria manter o menino longe das fabulosas festas que ela dava em sua casa de campo, para que não atrapalhasse seu estilo de vida. Samanthah já ouvira muito falar das festas e dos recitais de Lady Luelly, mas seus pais nunca permitiram que ela fosse. Diziam que eram eventos inapropriados para ela, apesar de seus pais e Aethas serem presenças frequentes nos mesmos.
Agora fazia sentido as roupas, o jeito estranho e desleixado, o cabelo curto. Era um elfo crescido entre outros povos, que não conhecia o requinte e os protocolos da sociedade élfica, nem a beleza que um belo cabelo cumprido proporcionava aos machos da raça. E explicava também o fato de não o conhecer, mesmo que ele fosse seu parente. Só vira Lady Luelly a distancia e nunca a vira em companhia do filho.
– Lady Luelly está doente? – perguntou a maga só então se dando conta que fazia algum tempo que não ouvira falar em suas festas.
– Sim. Nenhum dos magísteres ou sacerdotes sabem o que ela tem. – Sylvana parecia pesarosa – Dhomm veio por causa disso, para ficar junto da mãe. E me procurou para ingressar nos patrulheiros assim que ela melhorar. — e diante do olhar confuso de sua amiga, acrescentou – Sei que vocês tiveram desentendimentos, mas Dhomm é uma boa pessoa Samanthah.
Samanthah lhe lançou um olhar de descrédito.
– Não consigo enxergá-lo como uma boa pessoa.
Sylvana suspirou e balançou a cabeça.
– Bem, quem sabe agora você pode mudar de ideia a respeito dele. — e apontou para o palco do festival com o queixo.
No palco, estava Dhomm, mas Samanthah quase não o reconheceu. Não usava as roupas esquisitas, nem os óculos, nem carregava o trabuco ou a motoca. Suas roupas eram negras, mas nos moldes élficos. Ele não usava vestes ou manto, mas um colete trançado de fios pratas e calças totalmente negras, sem adorno. Seus cabelos, contudo, continuavam arrepiados e penteados para trás, como se fosse para que não esquecessem quem ele era.
No momento em que todos se ajeitavam nas mesas e o sol se punha aos poucos, Dhomm se aproximou do meio do palco dourado e vermelho e olhou para a plateia. Seus olhos se encontraram brevemente com os de Samanthah e, para sua total surpresa, ele sorriu e piscou um dos olhos em sua direção. A maga sentiu o rosto queimar, mas preferiu não falar nada. Sylvana parecia não ter percebido.
E então, Dhomm cantou.
Foi como se o mundo parasse. A voz dele era forte e potente e ao mesmo tempo suave. As notas do piano apenas eram um simples detalhe: tudo girava em torno da voz dele. Todos ao redor se calaram e ouviam, encantados, a doce música que irradiava, absortos nela como se fosse pura magia. E talvez fosse realmente, pois Dhomm não cantava simplesmente, a música saia dele como se fosse parte de sua alma, com a mesma facilidade que a magia saia dos dedos de Samanthah.
Ela absorveu cada nota, cada som, como se tivesse achado água no deserto. Deixou-se levar pela sensação que aquilo produzia. Estava completamente hipnotizada.
Quando a música terminou, demorou-se um pequeno instante antes que as palmas estourassem. Talvez todos estivessem se dando conta que não sonhavam, mas que aquilo era real. Empolgados, todos os presentes se levantaram e aplaudiram entusiasmados.
– Lindo não? – falou Sylvana aplaudindo.
Samanthah tomou um susto. Tinha se esquecido da presença da amiga.
Então as palavras dela fizeram sentido. Ele realmente não parecia ser uma pessoa má. Por infelicidade do destino, as ocasiões em que se encontraram acabaram se tornando estressantes, mas não havia um motivo real e palpável para não gostar dele. Afinal, tinha muitos, muitos vestidos, mais do que poderia usar um ano inteiro se não repetisse um só modelo. Talvez devesse pedir desculpas por ter quebrado a motoca dele. Talvez devesse aproveitar enquanto estava calma e relaxada para resolver tudo. Afinal, se ele fosse ser subalterno de Samanthah, iriam se encontrar com frequência.
– Poderia despistar meus pais? – perguntou ela a Sylvana – Preciso fazer algo.
– Claro! – concordou a outra animadamente – Fique tranquila.
Samanthah se meteu entre as pessoas que ainda se aglomeravam em torno do palco. Viu que muitos ainda esperavam que Dhomm cantasse algo, e até pediam por isso. Mas ele não estava à vista. Talvez estivesse nos bastidores. A maga então deu a volta no palco e ficou à espreita, até que o viu. Ele saiu da parte de trás do palco e quando se encaminhava para o festival, também a viu. Samanthah respirou fundo e caminhou até ele.
– Oi. – disse ela se sentindo meio idiota.
– Oi. – respondeu ele simplesmente.
Silêncio.
– Er... – era mais difícil do que ela supunha – Eu... Eu vou pagar sua motoca. – foi a única coisa que passou por sua cabeça – Eu sinto muito.
Dhomm a analisou por um momento.
– Não precisa, eu já consertei. – disse por fim.
– Eu faço questão. – retrucou – Eu a quebrei num momento de raiva e... – percebeu que ele ria abertamente – Do que você está rindo?
– É a primeira vez que te vejo sem que você tente me matar ou algo assim. – comentou displicentemente.
Samanthah revirou os olhos, impaciente.
– Você mereceu, certo? Você me deixou louca! – e respirando fundo para não perder a compostura, continuou – Por isso espero que você me desculpe.
– Pensei que você me achasse um imbecil. – comentou ele rindo.
Nossa, como o sorriso dele era lindo! Samanthah pensou, mas rapidamente empurrou aquele pensamento de volta ao fundo de sua mente.
– Na verdade ainda te acho um imbecil – respondeu secamente – Mas não acho que você seja mau.
Dhomm gargalhou.
– É mesmo? E porque não sou mau? – questionou levantando uma sobrancelha, gesto que a maga achou muito charmoso.
– Bem... Alguém que canta da forma como você cantou não pode ter um coração mau.
Dhomm calou-se e uma vermelhidão começou a se espalhar por seu rosto. Então, para disfarçar, ele olhou para baixo e coçou o queixo, como se estivesse pensativo, mas já era tarde. Ela tinha percebido.
– Nossa, não achei que você pudesse ficar encabulado. – provocou Samanthah.
– Ah – ele ainda mirava o chão – não sou acostumado a receber elogios... Só da minha mãe...
– Como vai Lady Luelly? – perguntou para deixá-lo mais a vontade.
Dhomm a encarou um pouco surpreso, mas respondeu.
– Na mesma. Não piora, não melhora. Ninguém sabe o que ela tem. – ele suspirou – Hoje era para ela ter cantado, mas estava tão fraca que me ofereci para vir em seu lugar.
– Ela deve ter lamentado perder sua canção. – suas palavras eram sinceras, e Dhomm percebeu, pois sorriu novamente.
– Eu sempre canto para ela.
– Lady Luelly tem sorte de ter um filho com a voz tão linda para cantar para ela.
– Não, eu tenho sorte de ter ela como mãe.
A forma carinhosa e devota com que ele falou da mãe a surpreendeu. Não parecia alguém deixado de lado em favor de festas ou conveniência social. Parecia um amor sincero e profundo.
Depois da fala dele, a conversa se perdeu um pouco. Ambos se olhavam, como se ponderassem o que dizer, afinal a paz que se estabelecera com aquela curta conversa era frágil.
– O príncipe. – disse Dhomm de repente apontando para trás dela.
Samanthah se virou e viu que realmente o príncipe passava ali perto. Ele era seguido por um séquito de jovens alvoroçadas para chamar sua atenção, mas parecia não estar interessado em nenhuma delas.
– Ah... – murmurou desinteressada – Acho que tenho que ir. – e o encarando-o, concluiu – Me mande a conta da motoca, certo?
– E eu te mando o vestido? – perguntou singelamente.
A jovem maga franziu a testa.
– Sinceramente, me responda, você o comprou para brincar comigo, não foi?
– Não. – ele parecia confuso diante da pergunta – É um vestido muito bonito, e com certeza o príncipe te olharia se estivesse com ele.
O pior de tudo era que ele estava sendo sincero.
– Claro que ele iria olhar, eu estaria quase nua naquilo! — ela respirou fundo para espantar o aborrecimento que já se instalava nela – Deixemos o vestido para lá ok? Me mande depois a conta. – e olhando-o, falou – Bem, até mais.
Quando fez a menção de sair, sentiu uma mão segurando levemente em seu braço. Assustada, viu que Dhomm a segurara. Ele também parecia assustado com a própria reação.
– Espere. – disse antes de retirar a mão do braço dela – Tenho uma proposta para lhe fazer. Para selarmos definitivamente nossa paz.
Samanthah o olhou, intrigada.
– O que?
– Que tal dar uma volta comigo? – e diante do olhar de espanto dela, continuou – Olha Samanthah, você pode ir atrás do príncipe se quiser. Mas você só vai ser mais uma ali. Porém, se vier comigo, terá a minha atenção só para você e te prometo uma aventura que você lembrará por toda a vida. – e sorriu empolgado.
O primeiro impulso de Samanthah foi negar. Mas o ‘não’ ficou preso na garganta dela. Havia verdade no que ele dizia. Olhou para trás e ainda pode ver o príncipe e as dezenas de jovens ao redor dele. Se voltasse para a festa, teria que ficar ali, disputando a atenção que nem sabia se receberia. Além do mais, era isso que queria? Migalhas de atenção do príncipe, apenas para conseguir mais migalhas de atenção dos seus pais? Aethas havia dito que ela fizesse o que tinha vontade de fazer. E naquele momento, queria ir para bem longe do príncipe. Tinha que admitir também que havia algo na proposta de Dhomm que a intrigava. O brilho no olhar dele era o de alguém que queria compartilhar um segredo.
É claro que sair à noite, com um elfo quase desconhecido para um lugar igualmente misterioso não era prudente, tentou lhe dizer sua consciência.
Então porque estava com tanta vontade de ir?
– Você acha que consegue ser melhor que o príncipe? – perguntou petulante dando as costas para o festival e o encarando.
Dhomm caiu na risada. Pela Nascente do Sol, como ele era lindo quando ria!
– Prometo que serei. Vamos? – e estendeu a mão para ela.
Ainda deu uma última olhada na festa antes de assentir com a cabeça, aceitar a mão dele e segui-lo.
A noite se abriu para eles quando se afastaram das luzes que se acendiam por toda a cidade. Dhomm a levou até o lado de fora da muralha, onde a motoca estava parada ao lado de dezenas de falcoztruzes. O jovem pegou os óculos que estavam em cima da motoca e também um estranho elmo com fivela.
– Vamos por isso em você. – ele falou levantando elmo.
– O que é isso? – perguntou receosa.
– Chamam de capacete. – respondeu colocando-o na cabeça dela — É para se proteger no caso de queda.
– Queda? – Samanthah se assustou com a possibilidade.
– Não se preocupe, terei cuidado. – Dhomm riu com o medo dela e terminou de ajustar o capacete.
Enquanto ele colocava os óculos, Samanthah analisou rapidamente a motoca. Com certeza aquilo não era vivo, mas andava mesmo assim. Como será que funcionava?
– Para que serve esses espelhos? – perguntou apontando para dois espelhos pequenos, cada um de um lado.
– São retrovisores. – respondeu ele pacientemente, subindo na motoca e a aprumando – Serve para ver qualquer coisa atrás de mim, sem que eu precise virar a cabeça.
– Que engenhoso! – exclamou ela encantada.
– Os gnomos são um povo muito engenhoso. – concordou ele – Suba.
Para sua surpresa, Samanthah não teve nenhuma dificuldade em subir na motoca, apesar de seu longo vestido. Ela era mais baixa que um falcoztruz e sua saia se espalhou em volta de suas pernas quando sentou na estranha e cumprida sela. Seu rosto ardeu quando ela percebeu que a inclinação da sela a fazia ficar com o corpo colado no de Dhomm.
– Pronta? – perguntou ele – Segure-se bem.
– Me segurar? – assustou-se novamente – Onde?
Dhomm deu uma risada antes de responder:
– Em mim.
Ligou a motoca e deu a partida.
Samanthah gritou, fechou os olhos e o abraçou com força quando a motoca arrancou e saiu zunindo pela estrada. Era muito, muito mais rápida que qualquer outra coisa em que andara. Podia ouvir a risada de Dhomm enquanto eles iam cada vez mais rápido. Arriscou abrir os olhos e dar uma olhada. Tudo passava muito rápido, mas a sensação era inesperadamente boa. Eles logo se distanciaram da cidade, e o jovem saiu da estrada e entrou no bosque.
– Agora vem a melhor parte! – gritou ele por cima do barulho.
Antes que pudesse pensar qual seria a melhor parte que ele falava, a jovem maga viu que eles se aproximavam da beira de um penhasco. Ela gritou para que ele parasse, mas Dhomm apenas acelerou mais.
– Confie em mim! – gritou.
E por incrível que parecesse, ela confiou.
A motoca pulou em direção ao nada, o motor roncou mais alto e Samanthah sentiu algo se aquecendo perto da perna dela. Dois rastros de luzes brilharam e logo eles estavam voando. Subiram muitos metros, até as árvores lá embaixo parecessem pequenos pontos; Luaprata já não aparecia nem no horizonte. Voaram até que se aproximaram das montanhas que marcavam os limites das terras dos altos elfos. Por um momento ela achou que atravessariam a montanha, mas Dhomm começou a diminuir a velocidade perto de um pequeno monte e começou a descida.
Quando aterrissaram com um solavanco, e pararam no meio das árvores, Samanthah desceu e se sentiu tonta. Parecia estranho pisar em terra firme depois da viagem.
– Você está bem? – perguntou Dhomm preocupado quando ela se apoiou em seu braço.
– Só um pouco tonta. – respondeu, e ao perceber que estava agarrando o braço dele com mais força do que seria aceitável a uma dama, o soltou.
– Um pouco de tontura é normal. — tranquilizou.
A única luz presente era a da motoca. Dhomm segurou o globo de luz que ficava na parte da frente do veículo e colocou para cima, iluminando a árvore ao lado. Tirou os óculos e passou a procurar algo no chão. Samanthah tirou o capacete.
– A luz não está na direção errada? – perguntou vendo-o vasculhar o chão.
– Achei! – disse pegando o que parecia ser uma pedra comum – Não, está na direção certa. – e empolgado apontou para a árvore – Agora nós subimos.
– O que? Subir na árvore? – questionou horrorizada.
Dhomm já tinha subido dois galhos quando a olhou.
– O que? Você não sabe subir numa árvore? – estranhou – Você é uma elfa e não sabe subir numa simples árvore? Os humanos tem uma palavra para isso: poser!
E caiu na risada.
Sentindo-se insultada e desafiada, Samanthah tirou os sapatos de salto alto sustentando um olhar de desafio para o jovem elfo, que assoviava tranquilamente de cócoras no galho. Ela levantou a saia e caminhou decidida até o tronco. A quantidade de tecido a atrapalhou no começo, e demorou um pouco mais que o normal, mas logo estava ao lado dele no galho.
– Mais alto. – foi o que Dhomm disse.
A luz da motoca ajudou que eles pudessem galgar todos os galhos, até o topo da árvore. Quando estavam no topo dela, Dhomm jogou a pedra que trazia bem no globo de luz da motoca, e ela se apagou instantemente.
O céu se iluminou magicamente acima deles. Milhares de estrelas brilharam livremente, sem a concorrência de nenhuma outra fonte de luz. Os olhos de Samanthah se arregalaram de espanto e admiração, refletindo os pontos luminosos das constelações acima de sua cabeça. Dhomm apenas a observava, satisfeito.
– Isso... É lindo... – murmurou.
– Às vezes as luzes da cidade nos impedem de ver as maravilhas mais simples que o universo tem para nos mostrar. – disse ele.
Samanthah não disse nada. Não conseguia desgrudar os olhos do espetáculo acima. Dhomm sentou no galho e ajudou-a a fazer o mesmo. Ficaram um longo momento em silêncio observando o céu, sentindo o vento despentear seus cabelos e logo os barulhos noturnos de cigarras completaram o cenário. Samanthah se sentia em um sonho.
– Posso fazer uma pergunta? – a voz profunda de Dhomm parecia estranhamente harmoniosa no ambiente.
– Claro... – concordou sem tirar os olhos do céu.
– Você é apaixonada pelo príncipe Kael’thas?
A pergunta a tirou do devaneio e ela o encarou. Primeiro pensou que fosse uma brincadeira dele, mas sua expressão era séria e Samanthah teve o estranho impulso de ser sincera.
– Não.
Dhomm arqueou as sobrancelhas.
– Então porque quer chamar a atenção dele?
Samanthah suspirou.
– Meus pais querem que eu case com ele e seja a próxima rainha. – a resposta soou tão idiota que ela se perguntou como ainda aceitava aquilo como possibilidade.
– E porque eles querem isso? – Dhomm parecia interessado demais no assunto.
– Sei lá. – ela realmente não sabia – Conveniência social, acho.
O rosto de Dhomm se endureceu de uma forma tão brutal, que Samanthah se assustou. Teve medo de ter o ofendido profundamente. Mas antes que perguntasse, ele mesmo começou a falar, aborrecido.
– Conveniências sociais! – ele praticamente cuspiu as palavras – Por que nosso povo é tão idiota ao ponto de se subjugar a isso?! – como ela não falou anda, continuou – Essa tal sociedade nobre élfica me enoja! Todos se diziam os melhores amigos de minha mãe, frequentavam sua casa, comiam de sua comida, bebiam de seu melhor vinho e ouviam suas melhores canções, mas quando ela caiu doente, todos sumiram! Nenhum recado, nenhuma rosa! Como se ela não existisse!
Samanthah não sabia o que dizer.
– É muito mais fácil fingir que não conhecem Lady Luelly nem seu filho bastardo!
– Dhomm! Não fale assim! – reclamou.
– Mas é isso que eu sou Samanthah. – foi estranho ouvir seu nome todo sendo pronunciado por aquela voz tão intensa – Eu sou um filho bastardo. Posso ter direito ao título de minha mãe, às suas riquezas, mas sempre serei um bastardo para nossa sociedade.
– Isso não é justo... – murmurou ela compadecida – E seu pai?
Dhomm deu de ombros, indiferente.
– Não sei quem é.
– E sua mãe? Sabe quem é? – ela perguntou e depois se arrependeu. Cogitar a possibilidade de Lady Luelly não saber quem era o pai do filho dela era uma ofensa grande.
Mas aparentemente Dhomm não se importou.
– Ah, ela sabe quem é. – disse com desdém — Um grande e poderoso elfo da nobreza, que abandonou a amante quando ela engravidou para não comprometer sua família oficial. – havia mais que desdém na voz dele. Havia desprezo, ódio. – Ele a largou, deixo-a sozinha para encarar o mundo.
Samanthah teve o impulso de segurar a mão dele, mas achou melhor não. Não queria que ele considerasse o gesto como uma demonstração de pena.
– Ela não estava sozinha. – disse a jovem maga – Ela tinha você.
A expressão do rosto de Dhomm primeiro foi de surpresa. Depois, ele corou novamente.
– Acho que o mais importante para uma mãe são seus filhos não é? Até a minha, apesar dela amar muito mais Aethas. – ela disse em tom de brincadeira, apesar de saber ser verdade.
– É, você está certa. – concordou carinhosamente – Ela tinha a mim. Ainda tem. O mundo pode deixá-la, mas eu estarei lá.
– Adoraria conhecer Lady Luelly – admitiu de repente Samanthah – Meus pais sempre iam as suas festas, mas nunca me deixaram ir. Apesar dela se prima do papai...
– Você pode ir visitá-la amanhã. – convidou animado – Ela iria adorar receber uma visita.
– Claro! – aceitou sem nem pensar nos pais, no castigo, nem em nada. A oportunidade de conhecer Lady Luelly era algo que não devia ser negado, jamais. Era como negar um chamado do rei – Adoraria fazer perguntas sobre moda, afinal ela sempre lançou moda em Luaprata!
Dhomm deu uma risada e Samanthah gostou e ver que a tensão se esvanecia do rosto dele.
– Conversa de menina. – falou divertido.
– É claro! – Samanthah se endireitou – E ela sempre está a par das últimas fofocas. Quem sabe ela não me diz um segredo ou dois dos meus pais que eu possa usar pra barganhar meu não-casamento com o príncipe. — e naquele momento, um pensamento estranho lhe ocorreu – Dhomm, sei que você não gosta de seu pai e tal... Mas... – ele arqueou as sobrancelhas, mas deixou que ela prosseguisse – Será que você não poderia ser filho de meu pai hein? Tipo, ele se encaixa na descrição.
Para sua surpresa, o jovem negou veementemente com a cabeça.
– Não, não é. Eu perguntei isso a mamãe hoje de manhã. Não sou filho do senhor Fendessol.
– Você perguntou? – surpreendeu-se — Por que?
Os olhos deles brilharam tanto quanto as estrelas quando ele respondeu:
– Não queria correr o risco de estar apaixonado pela minha irmã.
E antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, ele a beijou.
********************
– Você tem certeza disso? – perguntou Rommath pela milésima vez.
– Não há dúvidas. – respondeu Lor’themar – Dhomm Fendessol era filho do rei Anasterian.
O grão-magíster estava boquiaberto. Halduron, o general-patrulheiro também. A única que parecia impassível diante da informação era Vivithi.
Os quatro estavam no salão de reuniões da Torre Solfúria e a noite já estava bem avançada. Em cima da mesa, dividindo espaço com as taças de vinho do Canto Eterno, estava o diário de Lady Luelly, lido e relido até a exaustão pelo Lorde-Regente, e junto a ela, duas cartas. Uma dela era de Lady Luelly para seus netos, e permanecia fechada. A outra tinha o selo oficial de Luaprata, estava aberta, e trazia escrito em letras finas e elegantes aquilo que Lor’themar supôs ser uma das últimas cartas do rei Anasterian antes de sua morte pelas mãos do Flagelo.
“Eu, rei Anasterian Andassol de Quel’thalas, por meio desta, reconheço Dhomm Fendessol como meu filho e legítimo herdeiro sendo o segundo na linha de sucessão. Seus filhos e suas filhas, caso os tenha, receberão os títulos de príncipes e princesas de Luaprata e terão os mesmos direitos dos filhos que meu primogênito Kael’thas venham a ter.”
A missiva estava assinada e a data marcava o dia anterior da morte do rei.
– Alguém deve ter escondido a carta junto com o diário. – supôs Halduron – Para evitar escândalos.
– A carta estava selada. – revelou Lor’themar – O próprio rei deve ter colocado dentro do diário. Com qual propósito, jamais saberemos.
– Ele podia temer uma briga pelo trono caso seu parentesco com o Lorde Fendessol fosse descoberto. – opinou Vivithi.
– Ou quis proteger Dhomm de Kael’thas. – falou sombriamente Rommath.
– Como eu disse, não há como saber. – Lor’themar se levantou e andou em volta da mesa – A questão é que essa carta e o diário de Lady Luelly nos comprovam que a linhagem Andassol não acabou. Temos quatro princesas. E uma delas vai assumir o trono.
Se alguém reparou no alívio com que proferira aquelas palavras, não se manifestou.
– Espero que você não esteja se referindo a Luxuriah. – o chefe dos patrulheiros balançou a cabeça – Ela não tem o perfil de rainha.
– E eu por acaso tenho de rei Halduron? – replicou o Lorde-regente – E não cabe a nós decidirmos. O trono é dela por direito, como primogênita de Dhomm e Samanthah, ou de uma de suas irmãs caso ela recuse.
– E se nenhuma delas quiser? – perguntou Vivithi antes de acrescentar – Eu acho que não devemos fazer nenhuma suposição antes de falarmos diretamente com elas.
Todos os presentes concordaram com a cabeça. Era o mais sensato a fazer.
– Vou mandar uma comitiva buscá-las em Orgrimmar. – ponderou Lor’themar – Temos que tê-las aqui o mais rápido possível.
– Uma delas se casou recentemente. – Rommath recostou-se a cadeira com uma expressão de desdém – Com um orc.
– Como muitas outras já se casaram com humanos antes. – cortou o lorde – Veleesa e Alleria são só alguns exemplos.
Rommath fez uma expressão de desagrado, mas não falou mais nada. Halduron parecia concordar com ele, mas a fala do Lorde-Regente já deixara claro que aquele assunto não estava em discussão. Com certeza o fato de ter alguém da família real para assumir o trono seria uma alegria inestimável para os sin’dorei. Uma alegria que não tinham há muito tempo. E a última coisa que Lor’themar queria era estragar aquilo com meros detalhes como um casamento inter-racial.
– Não concordo com a comitiva. – disse Vivithi de repente, chamando a atenção para si.
– E porque não? – questionou Lor’themar deixando a insatisfação transparecer na sua voz.
– A menos que você diga a Luxuriah o motivo da comitiva, o que eu acho que você não irá fazer em plena Orgrimmar, ela não virá. – e cruzando as pernas, completou — É mais fácil ela derrotar toda a comitiva, fazer um tapete com eles, e ignorar o chamado.
– Conheço Luxuriah. – Halduron ponderou – Ela é capaz de fazer isso mesmo. Principalmente se as irmãs estiverem com ela.
– E o que você propõe Vivithi? – quis saber Lor’themar depois que viu que Rommath não ia se manifestar.
– Deixe-me ir com uma missiva simples. Você apenas falará que documentos relacionados ao pai dela foram achados. Ela virá sem demora. – e sorrindo maliciosamente, acrescentou – Eu garantirei isso titio.
O Lorde Theron ponderou por um momento e assentiu.
– Façamos assim então. – e diante do sorriso de Vivithi, da preocupação de Halduron e do olhar frio de Rommath, acrescentou — Você partirá amanhã para Orgrimmar.
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O coração de Samanthah estava quase saltando do peito. Estava simplesmente em frente da casa de ninguém menos que Lady Luelly, a grande barda de seu povo. Mas não era por esse motivo que estava à beira de um colapso nervoso.
Seu coração batia descontroladamente porque ia se encontrar com Dhomm.
A noite passada fora como um sonho. A viagem, as estrelas e o beijo. Depois daquilo, não sabia exatamente o que acontecera com ela. Pedira para ir embora o mais rápido possível. Dhomm, cavalheiro, atendeu seu pedido. Eles não falaram mais nada no caminho de volta, e quando a deixou no festival, murmurou algo sobre a visita à sua mãe.
Não sabia por que tinha agido daquele jeito. Correspondera o beijo dele. Gostara do beijo dele. Tinha gosto de uva e mel silvestre. Tinha gosto de liberdade. E fora seu primeiro beijo.
Pensou sinceramente em não comparecer à visita. Estava com medo daquele sentimento que se esgueirava para dentro do seu coração.
Tranquilizou-se na ideia de que seus pais não a deixariam sair. Todavia, quando os encontrou mais tarde naquela noite, eles estavam extremamente felizes: o príncipe havia elogiado sua beleza e seu vestido, e por isso, estava retirando-a do castigo. Como o príncipe dissera aquilo se nem ao menos eles se viram era um mistério. Provavelmente ele a confundira com uma das dezenas de jovens ávidas por sua atenção. Mas aquilo não lhe interessou. Só pensava que não tinha mais desculpas. Ela teria que ir à casa de Lady Luelly.
Ela queria ir.
Queria ver Dhomm.
Era uma vontade tola e irresponsável, mas ela queria muito vê-lo novamente.
A casa não foi difícil de achar. Todos sabiam onde era a casa de campo de Lady Luelly. Por um momento pensara que ela estava em sua mansão em Luaprata, mas lembrou-se que ela estava doente, e todos sempre diziam que os ares da Floresta do Canto Eterno ajudavam na cura do corpo.
Como a tarde estava agradável e amena, pôs um vestido simples de linho branco, colheu algumas flores, montou sua falcoztruz e logo estava em frente ao jardim da casa. Apeou e amarrou a montaria em uma árvore antes de se dirigir à casa. Segurou a argola de ouro da porta, bateu e esperou. E qual não foi sua surpresa quando o próprio Dhomm, e não um servo, abriu a porta. Os olhos dele faiscaram diante de sua presença.
– Você veio... – murmurou ele com uma alegria incontida.
Por que se sentia tão bem sabendo que ele estava feliz em vê-la?
– Eu disse que vinha, não disse? – replicou tentando voltar à sua pose pré-beijo – Eu vim. Espero que sua mãe goste de botões-da-paz, pois eu-
Não conseguiu terminar a frase, pois ele a beijara novamente. Já? Ela imaginava que ia passar uma tarde agradável com Lady Luelly, que depois ele a acompanharia até a montaria onde iriam ter uma longa conversa na qual ela diria que não podia corresponder o sentimento dele, pois tinha obrigações, ele diria que não ia aceitar e eles discutiriam e aí sim iriam se beijar de novo.
Foi a primeira vez que percebeu que as coisas com Dhomm funcionavam com de uma forma muito peculiar e que ele nunca faria o que ela esperava que ele fizesse.
Quando o beijo terminou, Dhomm sorriu para ela e a puxou pela mão.
– Venha, minha mãe está esperando.
Ele a levou até o jardim de trás. Lá, em uma mesa ricamente decorada, cheia de frutas, doces e com um bule fumegante de chá, estava Lady Luelly. Quando a viu, Samanthah entendeu porque não se sabia quem era o pai de Dhomm. Apesar da pele dela estar pálida e duas linhas roxas embaixo de seus olhos insinuarem olheiras de cansaço, surpreendeu-se ao ver que Dhomm era tão parecido com a mãe que podia se passar por seu irmão gêmeo. Os mesmos cabelos negros, os mesmos traços, os mesmos olhos. Não havia nada no rapaz que indicasse que ele possuía qualquer outro laço de sangue que não fosse da mãe.
– Mãe! – chamou ele animadamente – Essa é Samanthah.
Samanthah corou, mas fez uma reverência perfeita.
– É um prazer conhecê-la Lady Luelly. – e estendeu as flores – Espero que goste desse singelo presente.
Lady Luelly riu. Seu riso era tão melódico quanto o canto dos passarinhos.
– Seus pais a instruíram muito bem Samanthah. – disse carinhosamente recebendo as flores – Mas não precisa ser tão formal comigo. Venha, sente-se ao meu lado.
A jovem olhou rapidamente para Dhomm, que a incentivou a sentar. Samanthah sentou-se ao lado da jovem senhora, que a serviu de chá e uma fatia de bolo. Havia uma serenidade tão grande à volta de Lady Luelly que se não fosse a palidez e as olheiras, ninguém diria que ela estava doente.
– Como está seu pai? – perguntou a barda depois de se servir.
– Bem senhora. – respondeu com mais formalidade do que esperava.
– Espero que ele não esteja pensando em desperdiçá-la com aquele garoto mimado. – comentou com um leve tom de censura na voz.
Levou um momento para que Samanthah entende-se que a senhora se referia ao príncipe Kael’thas.
– Mãe! – Dhomm a censurou.
– Qual o problema meu filho? Falei alguma mentira? – se defendeu ela – O príncipe é um jovem arrogante, mimado e que ainda levará nosso povo à ruína. E Samanthah é uma garota boa demais para ele.
As bochechas de Samanthah ficaram rubras.
– Obrigada milady.
– Ah querida, me chame de Luelly. – disse carinhosamente – Ou Lulu. É como meus amigos mais íntimos me chamam. – e sorrindo o mesmo sorriso lindo que Dhomm tinha, pediu- Posso chamá-la de Sam? Samanthah me parece um nome tão pesado para uma jovem tão leve quanto você...
Samanthah tinha certeza que ouviu uma risadinha vinda de Dhomm.
– Claro milady. – disse recebendo os olhares zombeteiros do rapaz.
– Lulu. – corrigiu com o dedo em riste.
Não houve como segurar o riso.
– Certo. Lulu.
As horas seguintes foram as mais agradáveis da vida de Samanthah. Lady Luelly era alguém que sabia conversar sobre qualquer assunto. Não havia dúvidas do porque dela ser tão popular; ela ia de um tema a outro com a suavidade do bater de asas de uma borboleta. Falaram sobre roupas, maquiagem, magia, política e até guerra. Apesar de ser constantemente interrompida por uma tosse seca e longa, ela logo voltava a falar como se nada demais tivesse acontecendo.
– Ouça o que eu digo, os humanos ainda vão nos trair. – falou Lady Luelly incisiva – Eles não têm os mesmos princípios que nós. Não tem o amor a terra e a família que temos. São mesquinhos e facilmente corrompíveis!
– E mesmo assim você mandou seu filho para uma alegre temporada em Ventobravo... – cantarolou Dhomm.
Por um momento Samanthah achou que o clima ficaria pesado, mas a senhora apenas soltou mais uma de suas risadas melodiosas.
– Meu filho, conhecimento é poder. – ela se recostou à cadeira — Você conhece mais povos, mais línguas e costumes que muitos elfos anciões. Esses conhecimentos lhe serão úteis no futuro, você verá. – e tossiu mais um pouco, cobrindo a boca elegantemente com um lenço.
Dhomm apenas meneou com a cabeça, como um adulto faz diante de uma criança birrenta. Samanthah estava simplesmente encantada com a relação deles. Mãe e filho se entendiam apenas com o olhar, e seus pensamentos pareciam estar na mesma sintonia o tempo todo. Percebeu, surpresa, que sentia um pouco de ciúme de Lady Luelly.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!– Querido! – falou ela de repente como se lembrasse de algo muito importante — Não estamos esquecendo algo?
Dhomm piscou surpreso, e então se levantou de um pulo.
– É mesmo. – e se dirigindo à Samanthah – Volto já.
E sumiu dentro da casa.
Samanthah se sentiu intimidada. Lady Luelly agora a encarava sem ressalvas.
– Finalmente a sós. – exclamou ela aliviada – Esse menino é muito desconfiado. – e balançou a cabeça em negativa, como se lamentasse o fato.
Remexendo-se na cadeira, a jovem maga ponderou se devia pensar em fugir. Ou se devia realmente fugir.
– Calma querida, não irei devorá-la. – tranquilizou a barda – Queria apenas ficar um momento a sós para saber se meu filho fez bem em se apaixonar por você.
Agora ela queria desesperadamente fugir. Sentiu a vermelhidão tomar de conta do seu rosto. Será que se ela ficasse invisível seria uma ofensa? Limpou a garganta para caso precisasse gritar por ajuda.
– Lady Luelly... – começou.
– Lulu. – corrigiu a outra.
– Certo, Lulu. — Samanthah respirou fundo – Eu não acho que Dhomm esteja apaixonado por mim... – Na verdade ela não fazia ideia do que pensar, aquilo era somente única coisa que passou por sua cabeça.
Lady Luelly meneou com a cabeça.
– Querida, eu conheço meu filho como conheço a música. Sei que ele está completamente apaixonado por você desde que a viu pela primeira vez. A propósito, um belo encontro não? – sua voz era singela e não parecia estar acusando-a de nada, apenas constatando um fato interessante – Eu sabia que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde quando ele voltou...
– Ele voltou para ficar com a senhora. – replicou.
A jovem senhora deu um sorriso triste.
– Eu não queria que ele passasse um verão tão lindo ao lado de uma moribunda...
– A senhora não é uma moribunda! – contestou a jovem alarmada – Está muito bem e irá se recuperar!
Houve uma pausa, onde Lady Luelly olhou para a casa e ao ver que o filho ainda não voltara, falou em tom de confissão.
– Eu estou morrendo Samanthah.
Não foi o que ela falou, mas como falou. Não parecia amedrontada, nem desesperada, e sim conformada. Talvez triste por partir tão cedo, mas ainda assim com uma serenidade invejável.
– Eu não disse nada a ele, mas os médicos disseram que a doença, seja lá qual for, chegou aos pulmões. Eu sinto o ar me faltando, não consigo cantar... E a febre somente me abandona em raros momentos como esse...
– Milady... – não conseguiu dizer mais nada.
– Não fique assim querida. – Lady Luelly segurou em sua mão delicadamente – Estou feliz de ter conhecido a futura mãe dos meus netos...
Por que esses dois eram tão desconcertantes? Pensou Samanthah sentindo sangue fugir para todo o seu rosto.
– Lulu... Eu acabei de conhecer Dhomm... – argumentou — E até ontem eu o detestava!
– E o que sente hoje?
Ah, como queria ter aquela resposta. E enquanto Lady Luelly a encarava à espera de uma resposta soube que jamais poderia mentir para ela, como não conseguira mentir para Dhomm antes.
– Eu não sei. Ele é... Desconcertante...
Lady Luelly jogou a cabeça para trás e soltou uma risada linda.
– O mesmo que eu sentia perto do pai dele. – ela suspirou – Ele é desconcertante mesmo querida. – e piscando o olho, aconselhou – Não resista. Deixe-se levar. Você não se arrependerá. Ele dará um ótimo marido. E como foi criado por mim, não fará você sofrer como o pai dele me fez.
– Você o amava? – perguntou sem conseguir se conter – O pai dele.
Ela suspirou antes de uma crise de tosse acometê-la. Samanthah ficou preocupada; aquela tosse pareceu durar mais que as outras.
– Ainda amo. – revelou nostálgica quando a tosse se foi – Por isso dormi com metade dos homens de Luaprata. Entreguei-me a outros para não sofrer por ele. – e endurecendo a face, acrescentou – Mas ele não merece a mim. Nem ao meu filho.
Uma coisa passou pela cabeça de Samanthah.
– Foi por isso que a senhora nunca o mandou para a academia de Luaprata? E porque mandou estudar longe?
Os olhos de Lady Luelly reluziram como se tivesse achado ouro.
– Como você é inteligente Sam! – disse encantada – E perspicaz! Espero que meus netos tenham essa capacidade de dedução!
– Senhora... Não sabemos se vou casar com seu filho... – murmurou timidamente.
– É claro que vai! – retrucou Luelly como se a ideia de não casar o filho com Samanthah foi algo que jamais poderia acontecer – Você só ainda não aceitou isso! — e antes que a jovem maga pudesse questionar, continuou – Quando Dhomm era criança o pai dele me procurou. Pediu para ser o tutor do meu filho. Dhomm estaria sob a proteção dele, mas sem saber que eram pai e filho. – jogando os cabelos negros para trás, Lady Luelly parecia muito ofendida com a simples lembrança daquilo – Como se eu fosse permitir que meu filho tivesse meio-pai! Dei um ultimato: ou assume meu filho ou esqueça-o! Como ele não queria ceder, tive que mandar meu menino buscar conhecimentos em outras terras... – a voz dela ficou tão pesarosa que doeu no peito de Samanthah – E me resignar a vê-lo uma ou duas vezes por ano... – e voltando sua atenção totalmente à jovem, apertou forte suas mãos – Nunca deixe que brinquem com sua vida Sam. Lembre-se sempre que, no final das contas, será você quem estará de pé em frente ao mundo. Não se sacrifique por nada que não seja pelo puro e simples amor.
A conversa poderia ter se estendido por eras se Dhomm não tivesse voltando alegremente com uma caixa azul debaixo do braço. Lady Luelly soltou sua mão, mas antes a olhou longamente. Não foram necessárias palavras; ela pedira segredo. Acenou discretamente com a cabeça antes de voltar sua atenção ao rapaz que chegava.
– Nossa mãe! Estava tão bem guardado que eu poderia jurar que a senhora o escondeu de propósito! – reclamou antes de entregar a caixa a Samanthah – Abra, é seu.
Sem entender, Samanthah pegou a caixa e abriu. Lá dentro, o vestido mais lindo que ela jamais vira na vida. Era da cor da relva no verão, entre o verde vivo e o opaco, como a grama atingida por raios de sol. Os fios de prata envolviam o tecido como um abraço.
– É o meu vestido favorito. – revelou Lady Luelly carinhosamente – E agora é seu.
– Milady eu-
– Vai aceitar. – disse a outra firmemente – Não aceito um não. – e se dirigindo a Dhomm, falou com a voz cansada – Dhomm querido, acho que está na hora de me recolher, estou cansada... – e voltando-se mais uma vez para Samanthah, que ainda mirava atônita o vestido, falou – Espero que venha me ver mais vezes Sam. Adorei lhe conhecer.
Samanthah retribuiu o sorriso.
– Claro que virei Lulu. – e acrescentou – Todos os dias.
Esperou que Dhomm acompanhasse a mãe para dentro de casa. Achou bom ficar alguns momentos sozinha. Lady Luelly era realmente uma mulher de tirar o fôlego. Em algumas horas ela conseguiu bagunçar completamente todos os planos que tinha feito para sua vida. Seu futuro agora parecia um borrão colorido.
Quando Dhomm voltou, ela entendeu por que. O sorriso dele deixava seu mundo de pernas para o ar.
O pior é que gostava disso.
Deixou que ele a guiasse para a montaria. Mas não falou nada. Não questionou seu sentimento. Não questionou os seus próprios sentimentos. Não queria pensar. Queria que ele a beijasse de novo. Queria sentir o mundo explodir novamente ao seu redor para então reconstruí-lo à sua imagem e semelhança.
E naquele mundo só existia ela, Dhomm e um grande futuro borrado e colorido.
Depois daquela tarde, os dias adquiriram outro significado para Samanthah. Seus pais voltaram novamente à sua idolatria habitual por Aethas e a deixaram em paz por algumas semanas. E foram semanas muito bem aproveitadas.
Durante as manhãs, Samanthah se jogara nos estudos. Os médicos poderiam ter desacreditado Lady Luelly, mas ela como um alquimista iniciante e persistente não iria ficar parada. Estudava com tanto afinco que o próprio Aethas parecia intrigado. Agradecia o fato de ele não questionar seus estudos nem suas visitas vespertinas à biblioteca.
Visitas curtas que sempre terminavam na casa de campo de Lady Luelly.
Passava todas as tardes com Dhomm. Quando a mãe dele estava disposta, sentava-se para tomar chá com eles. Mas na maioria das vezes ela preferia permanecer dormindo em seu quarto. Dhomm relutara a princípio em deixá-la aos cuidados dos servos, mas Lady Luelly insistia que ele aproveitasse o máximo que pudesse antes de se tornar um patrulheiro.
Quando estavam a sós, eles conversam sobre os estudos dela e as experiências dele. Faziam piqueniques na beira do rio, pescavam, brigavam quando discordavam e algo e, é claro, acabavam se beijando. Dhomm tentou ensiná-la a atirar com o arco, mas desistiu quando Samanthah quase atingiu o próprio pé. Ela tentou ensiná-lo a misturar as ervas certas para fazer remédio, mas ele criou uma gosma tão fétida, que eles precisaram trancar num pote e queimar, com medo que a coisa criasse vida. Eram dias repletos de alegria e quando menos esperavam, estavam falando do futuro.
– Quando vamos passar a noite juntos? – perguntou ele na maior cara de pau uma certa tarde, antes de receber um beliscão bem forte – Ai!
– Não temos idade para falar disso! – retrucou olhando para o nada, com o rosto rubro de vergonha.
Ele ficou em silêncio por um tempo. Muito tempo, percebeu ela. Quando o encarou ele estava com os olhos fitos nela e sorria. E levou outro beliscão.
– Ai! O que eu fiz? – reclamou.
– Está me olhando desse jeito! – respondeu.
– Que jeito? – quis saber alisando o local dolorido.
– Com esse olhar cheio de luxúria!
Dhomm caiu na risada.
– Olhar cheio de luxúria?! – ele riu mais – Só você mesmo Sam!
– Não me chame de Sam! – reclamou ela pela enésima vez.
– Minha mãe chama e você não se importa. – retrucou dando de ombros antes de encará-la.
– É sua mãe e... – ela se calou e ficou vermelha – Para de me olhar assim! – e deu outro beliscão.
– Com luxúria? – provocou recebendo mais um beliscão – Gostei dessa expressão ‘olhar com luxúria’ – ele falou a frase como se cantasse – Gostei mesmo. Vamos chamar nossa primeira filha de Luxúria, que tal?
Samanthah o trancou num bloco de gelo, gritou que jamais teria filhas com ele e saiu correndo. É claro ele saiu correndo atrás logo que se libertou. E terminaram o dia caindo no rio no meio de uma alegre perseguição.
Tudo parecia perfeito.
Até o dia que o príncipe voltou para sua vida.
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– Em dois dias, no máximo, estarei de volta. – informou Vivithi colocando a bagagem no falcoztruz encouraçado – Com as princesas de volta, lógico. – acrescentou sorrindo para seu tio.
Lor’themar parecia preocupado.
– Vivithi, você tem ideia da responsabilidade que está em suas mãos? – perguntou o lorde.
– Claro titio querido. – disse em tom brincalhão – E qual o perigo que pode haver? Ninguém sabe da carga valiosa que vou trazer de volta.
– É bom que tudo permaneça em segredo. – falou gravemente — Não quero correr nenhum risco. Você estará trazendo muito mais do que descendentes do rei Anasterian. Você está trazendo de volta a esperança de nosso povo.
Vivithi assentiu antes de subir na montaria.
– Pode deixar. – e olhando para Rommath, que assistia tudo de cara amarrada, provocou – Vamos meu lindo, o portal! Orgrimmar me espera!
********************
– Eu não vou aceitar isso! – bradou Dhomm.
Samanthah estava aflita.
– Não vai acontecer nada! Eu vou falar para ele que não sou nenhuma pretendente!
Eles estavam próximos à casa de campo, em meio do que era para ter sido um passeio agradável de fim de tarde. Porém, Samanthah jogara a bomba assim que se afastaram da casa: seus pais haviam prometido ao príncipe que ela iria a um passeio com ele no dia seguinte. O rapaz ficou inconformado e não era por menos. Já se ressentia o fato de não poder se apresentar como namorado para a família dela, mas pensar em Samanthah num passeio sozinha com o príncipe era mais do que podia suportar.
– Não me peça para aceitar isso Samanthah! – pediu inconformado.
– Eu te prometo, eu juro, eu vou dizer a ele que estou com você! — ela estava quase chorando — Ele volta semana que vem a Dalaran! Depois disso, só precisamos esperar uns dias e eu te levo lá em casa.
Dhomm andava de um lado para o outro, como um tigre enjaulado.
– Por favor! – implorou.
Como ele poderia fazê-la entender que aquilo doía como uma flecha no coração?
– Tudo bem. – disse depois de um momento de silêncio – Tudo bem.
Todavia, não falou mais nada. Virou-se e saiu. E não voltou quando ela chamou.
No dia seguinte, Samanthah vestiu a roupa que sua mãe escolheu, recebeu os elogios do pai, do irmão e foi para o maldito passeio. Ela se sentia um objeto sendo negociado, e não uma pessoa com sentimentos. Sentiu raiva dos pais e do irmão por colocá-la naquela situação, mas muito mais raiva sentiu de si mesma, por ter concordado. Podia estar bonita, mas não se sentia bonita. Havia chorado durante toda a noite anterior, mal comera e ninguém, ninguém mesmo, percebera sua tristeza. Podem ter julgado como nervosismo ou o que quer que fosse, mas ninguém parecia perceber o que realmente se passava em seu coração.
Dhomm teria reparado. Ele conhecia sua alma como ninguém.
O passeio foi a coisa mais monótona que já participara em sua vida. O príncipe Kael’thas era muito bonito, verdade seja dita, mas era extremamente fútil e vazio. Durante os minutos que seguiam, ele apenas falava. Falava sobre o quão magnífica era sua vida, seus afazeres, seus estudos. Tudo ele. Ele nem sequer perguntou o nome dela e quando o pronunciou foi de forma errada. No meio da conversa Samanthah se pegou bocejando e desejando que ele calasse a boca para que ela pudesse falar o que havia prometido a Dhomm.
Só que ele era irritantemente tagarela. Tentou até mesmo interrompê-lo, mas o príncipe conseguia atropelá-la facilmente. Por isso, quando Kael’thas finalmente calou-se e a convidou para sentar embaixo de uma árvore, ela agradeceu à Nascente do Sol e preparou para recitar seu discurso.
– Alteza, preciso falar algo. – falou rapidamente antes que ele recomeçasse a tagarelar.
Kael’thas a olhou com um sorriso malicioso.
– Ah, sei o que você quer... – disse com um tom meloso.
– Sabe? – perguntou inocentemente, acreditando que, de alguma forma, Sylvana poderia ter dado um toque de consciência ao príncipe. Sua amiga era a única que sabia do seu namoro com Dhomm.
– Sei...
E para seu total desespero, o príncipe a agarrou.
– Me solta! – gritou quando se deu conta do que estava acontecendo – Me solta agora! – exigiu furiosa.
– Ah querida... – murmurou Kael’thas em seu ouvido – Não precisa fingir... Eu sei muito bem o que uma garota como você quer...
Para seu desespero, ele colocou a mão dentro de seu vestido e acariciou sua perna. Samanthah sentiu vontade de vomitar quando a boca dele procurou a sua, e virou o rosto. Esperneou, tentou chutá-lo, mas nunca imaginou que o príncipe pudesse ser tão forte. Ele a subjugou com facilidade, segurando suas mãos, impedindo-a de conjurar qualquer feitiço para se proteger. Seu desespero só aumentava. O príncipe subiu sua saia e se colocou entre suas pernas, achando graça de seu desespero. Para ele, aquilo era só um jogo.
– Para! – gritava ela já em prantos – Para! Eu não quero!
– Você vai gostar querida... – disse o príncipe com um sorriso voraz – Não seja tão mal educada, seus pais me entregaram você com tanto gosto...
– Solte a moça. – uma voz potente ressoou no bosque – Agora!
O coração de Samanthah se encheu de alívio.
– Dhomm! – gritou ela desesperada.
Dhomm estava parado, com suas roupas pretas de couro, os óculos na testa e o trabuco na cintura. Do seu lado, uma águia voava em círculos antes de pousar no ombro do rapaz. O patrulheiro parecia furioso.
– Quem é você? – perguntou Kael’thas petulante.
– O namorado da moça que você está forçando. – respondeu entre os dentes – A mesma que você vai soltar.
O príncipe riu.
– Namorado... Que interessante... Veio assistir eu possuí-la?
Um tiro soou alto, assustando todos os animais nas redondezas, menos a águia no ombro do rapaz. Por um momento, Samanthah achou que Dhomm havia realmente atirado contra o príncipe, mas não. Ele atirara contra uma árvore ao lado, de onde agora escorria uma gosma preta muito estranha.
– Você não se atreveria a me machucar. – rosnou o príncipe.
– Machucá-lo? – Dhomm riu – Olhe bem para aquela coisinha preta ali. – e apontou – Aquilo não é pólvora... É graxa.
O príncipe arqueou as sobrancelhas. Havia parado de forçar Samanthah, mas ainda a segurava com força.
– E daí? – desafiou Kael’thas.
– Aquela gosminha ali – falou Dhomm se aproximando devagar. A águia saiu de seu ombro e passou a voar novamente em círculos acima deles – é algo que os gnomos usam para grudar as coisas. O acidente mais comum é quando ela gruda no cabelo. – ele deu um riso cruel – Eu tinha um lindo cabelo antes de um gnomo irritado jogar uma daquelas ali – e apontou novamente para a gosma – nas pontas do meu cabelo.
Samanthah sentiu que o príncipe se retesou.
– Você não ousaria...
– Ousaria sim “alteza” – ele pronunciou essa palavra com desdém – Uma balinha dessas nessa sua cabeça loira e você será uma “alteza careca”. – e ele apontou a arma para Kael’thas – Agora solte a Sam e fique com seu cabelo. Ou continue ai com essa cara de bunda que você VAI soltá-la e ainda ficará sem um fiozinho para contar a história.
Kael’thas olhou para Dhomm e viu que ele não estava brincando. Saiu de cima de Samanthah e praticamente a empurrou.
– Você não vale o sacrifício.
Samanthah saiu cambaleando na direção de Dhomm. Viu que ele não desgrudou os olhos de Kael’thas até que o príncipe sumiu de vista. Antes, porém, ainda deu um tiro para cima, que fez o outro se assustar, por a mão na cabeça e sair correndo.
– Você está bem? – perguntou ele preocupado.
Não, Samanthah não estava. Ela chorou convulsivamente, se sentindo suja, traída e principalmente, uma traidora. Essas sensações só pioraram quando Dhomm a abraçou. Não merecia o amor dele.
– Desc-desculpe... – soluçou nos braços dele.
– Você não teve culpa. – disse acariciando os cabelos dela – Ele é um imbecil. Venha, vou te levar para casa...
Samanthah não discordou. No momento, a única coisa que importava era estar com ele.
Não havia ninguém em sua casa. Samanthah não tinha cabeça para pensar o que aconteceria se seu pai visse Dhomm ali, abraçado a ela. Nem o escândalo que sua mãe faria se o visse subir as escadas em direção ao quarto dela. E Aethas provavelmente o mataria se sonhasse que ele trancou a porta, deitou-se na cama junto com Samanthah e a abraçou. Dhomm ficou ali a consolando, até que o choro passasse.
– Você realmente tinha o cabelo grande? – perguntou Samanthah depois de alguns minutos.
Não sabia onde exatamente aquele assunto se encaixava, mas achou melhor falar até deixá-la calma. E contou a breve historia de seu cabelo curto. Um belo dia, um gnomo apareceu revoltado na casa dos anões onde estava hospedado e o acusou de ter dado em cima da namorada dele. Depois de muito bate boca, uma bolinha de graxa nos cabelos e umas boas porradas no gnomo, ficou esclarecido que ele estava confundindo Dhomm com um anão chamado Dhan.
– Aí não teve jeito, tive que cortar o cabelo. – suspirou passando a mão na cabeça.
Samanthah riu roucamente.
– Fico imaginando você de cabelo longo...
– Sou mais irresistível ainda. – rindo ele balançou a cabeça jogando uma cabeleira imaginária para trás. A jovem maga riu. – Se você quiser, deixo crescer de novo...
Silêncio.
– Eu vou falar com meus pais... – prometeu Samanthah.
– Não vamos falar nisso agora... – interrompeu Dhomm.
– Não foi justo com você... – murmurou se sentindo a pior pessoa do mundo.
– Nem com você. – replicou – Isso tudo está errado Sam. Você não pode ser oferecida como um objeto. Você não é um objeto. Você é a Sam. – e olhando-a profundamente, completou – A minha Sam.
Não havia mais nada para ser dito, nada para ser provado. Samanthah o beijou com ânsia, como se somente o contato com a boca dele pudesse curar suas feridas. Dhomm retribuiu na mesma intensidade. Trocam um beijo atrás do outro, até que somente os beijos não eram suficientes. Samanthah colou seu corpo no dele e murmurou:
– Eu quero passar a noite com você...
Dhomm a olhou longamente.
– Tem certeza? Não quero que você tome essa decisão sem pensar bem, no calor do momento...
– Não há o que pensar... – respondeu sustentando o olhar – Não há mais ninguém que eu queria além de você...
Ele também a queria. Mas alguém tinha que manter a cabeça e as roupas no lugar.
– Sam... – ele disse tentando manter o controle mesmo diante do corpo quente de Samanthah grudado ao seu – Estamos na sua casa...
– Isso não importa... – ela estava desesperada. Precisa dele, precisava sentir ele – Eu quero você...
Até o mais lúcido e controlado elfo sucumbiria diante daquele pedido. E lúcido e controlado nunca foram adjetivos que se aplicaram a Dhomm.
Ele a beijou novamente, agora com mais voracidade. Samanthah retribuiu na mesma intensidade. Sentiu as mãos dele percorrerem seu corpo e estremeceu de prazer. O toque dele era tão bom quanto o sol tocando sua pele depois de uma noite fria. E não era aquilo que ele tinha se tornado? O sol de sua vida?
Despiram-se lentamente, apreciando o momento onde as últimas barreiras entre eles caiam. Ambos estavam nervosos, mas ansiosos. Samanthah apreciou a visão de Dhomm sem camisa com o coração aos pulos. Ele trazia diversas cicatrizes em seu torso: queimaduras, garras, presas e uma ou duas cicatrizes finas, provavelmente de espada. Tocou cada uma delas, deixando seus dedos correr livremente em sua pele. Dhomm estremeceu.
– Dói? – perguntou preocupada.
– Não... – respondeu com a voz rouca – Apenas... Ninguém nunca me tocou assim antes...
Ela sorriu.
– Toque-me também... – pediu num sussurro.
E teve seu desejo atendido. Seu vestido foi jogado displicentemente no chão, enquanto Dhomm passava as mãos por todo seu corpo, explorando-o. Samanthah suspirou e gemeu quando as mãos dele deram lugar a boca.
– Você é minha, Sam... – murmurou no ouvido dela – Para sempre...
– Sim, para sempre... – murmurou de volta.
As sensações eram novas para ambos. Descobriram juntos como dar prazer um para o outro apenas com as mãos e com as bocas. Com o passar dos anos, iriam conhecer tão bem o corpo um do outro como conheciam os seus, mas naquele momento tudo era novidade. Quando Dhomm finalmente deitou-se sobre ela, já estavam há horas se explorando. Porém, antes que consumasse todo o amor que sentiam um pelo o outro, ele a olhou profundamente.
– Eu te amo Samanthah.
Os olhos dela se encheram de lágrimas.
– Eu também te amo Dhomm.
E então aconteceu.
Dhomm fora tão cuidadoso, tão preocupado, que não houve dor, apenas prazer. Inexperientes, precisaram de um tempo para entender como funcionava aquela dança sensual, mas logo estavam no mesmo ritmo. Samanthah fechou os olhos, aproveitando cada sensação, cada toque, cada beijo.
– Olhe para mim... – implorava ele.
E ela olhava. Abria os olhos e encarava os deles, que estavam fitos em seu rosto. Ele a beijava, a abraçava, murmurava declarações de amor em tantas línguas que ela não compreendia as palavras, apenas as intenções. E quando as ondas de prazer se apoderaram do corpo dela, Samanthah o agarrou com força, tremendo, vendo o mundo explodir e percebeu que ele fazia o mesmo. Beijavam-se quando sentiu que ele também atingiu o clímax e depois continuaram ali, abraçados, como se não houvesse nada mais no mundo além deles dois.
Já era quase manhã quando Dhomm a convenceu que era melhor ir embora pela janela, sem levantar suspeitas.
– Fique. – implorava ela.
Ele abriu a janela e colocou o pé na madeira.
– Eu ficaria Sam, mas acho que a melhor forma de seus pais me aceitarem é sem que saibam que dormi com a filhinha deles — e piscou o olho para ela.
Samanthah enrubesceu.
– Promete que vem mais tarde? – perguntou ansiosa.
– Sem falta. – prometeu ele com aquele sorriso maravilhoso – Hoje à tarde eu e minha mãe viremos aqui. Ninguém diz não para Lady Luelly. – e depois e uma pausa, acrescentou – Não se quiser continuar com sua sanidade intacta.
Acompanhou ele nas risadas, antes de se atirar em seus braços e beijá-lo.
–Não demore. – pediu.
Dhomm assentiu, assobiou, e a águia que o acompanhara na tarde anterior apareceu. Ele pulou para a árvore mais próxima, acenou para ela e sumiu entre as sombras do final da madrugada.
O dia passou assustadoramente devagar. Samanthah aproveitou para dormir o máximo que pode, com medo que deixasse a ansiedade transparecer para os pais. Estes, por sua vez, queria que ela contasse como fora o passeio. Conseguiu se esquivar deles com a desculpa de que precisava estudar e à noite, no jantar, eles saberiam de tudo.
Após o almoço, ela tomou um banho demorado, colocou o vestido que Lady Luelly lhe dera, e esperou.
Mas Dhomm não apareceu.
Primeiro ela achou que era apenas um atraso. Só que Dhomm jamais se atrasara antes. Então ela começou a pensar que ele poderia simplesmente ter desistido dela. Lágrimas brotaram como cascatas enquanto o tempo passava, a noite se aproximava e não havia nenhum sinal de Dhomm ou de sua mãe.
A lua já brilhava no céu quando ela ouviu uma batida na porta.
– Quem é? – perguntou ansiosa.
– Sou eu, Aethas. – disse seu irmão do outro lado.
O coração dela murchou.
– O que é? – respondeu rispidamente.
Houve um momento de silêncio, antes que Aethas perguntasse preocupado:
– Samanthah, o que aconteceu? Por que não saiu do quarto a tarde toda?
A jovem maga se perguntou o que diria para o irmão. Que estava com o coração despedaçado? Que esperara todo aquele tempo para que o amor de sua vida viesse reivindica-la? Que estava desapontada porque achava que quando a lua chegasse ao céu naquela noite ela já estaria livre?
Poderia colocar em palavras o medo de ter sido abandonada?
Só que a conversa que ela temia, não chegou a acontecer. Um guinchado preencheu o quarto e o coração de Samanthah se acelerou. A águia de Dhomm entrou imperiosa em seu quarto, deu uma volta no aposento, jogou um pergaminho enrolado sobre a cama e pousou na janela.
– O que foi isso Samanthah? – perguntou mais preocupado ainda Aethas, agora tentando abrir a porta do quarto.
Ela não respondeu. Praticamente pulou em cima do pergaminho e o desenrolou, com os dedos trêmulos. Escrito em letras trêmulas, havia uma curta mensagem.
“Mamãe está morrendo.”
A porta do quarto foi escancarada e Samanthah saiu correndo, praticamente atropelando o irmão. Não respondeu ao chamado, nem o dele nem o de seus pais, que questionavam aonde ela iria vestida daquele jeito, naquela hora. Só que, para ela, aquilo não passou de murmúrios perdidos ao vento. Correu ao estábulo, pegou sua montaria e saiu galopando na maior velocidade que conseguia em direção à casa de campo.
Quando chegou lá, não quis perder tempo. Pulou da montaria, sem se importar em deixa-la solta, e entrou correndo na casa. Havia várias pessoas lá, na maioria servos, e outro tanto de médicos e sacerdotes. Eles a olharam espantados, mas a jovem não tinha tempo para pensar ou para explicar nada. Correu escada acima e entrou no quarto.
Lady Luelly estava deitada na cama, com a respiração ofegante, o rosto muito pálido e com profundas olheiras roxas ao redor de seus olhos azuis. Dhomm estava ajoelhado ao lado da cama, segurando a mão de sua mãe com força.
Não havia risos em seu rosto. Apenas lágrimas.
– Dhomm! – exclamou se aproximando dele e se ajoelhando ao deu lado – Lulu!
Lady Luelly abriu os olhos quando ouviu a voz dela e sorriu.
– Querida... – murmurou com a voz fraca – Você veio...
Dhomm também a olhou. Os profundos olhos azuis estavam imersos em duas piscinas vermelhas como sangue. Samanthah o abraçou forte antes de segurar também a mão da senhora enferma.
– Eu sabia... – ela falava com dificuldade – Que o vestido ficaria bem em você...
– Obrigada... – mesmo sem querer, as lágrimas já vertiam pelos seus olhos.
– Desculpe não ter ido... – falou Dhomm sem soltar a mão da mãe – Ela estava bem de manhã e então... – a voz dele falhou e ele fechou os olhos novamente, como se a dor fosse grande demais para que os mantivessem abertos.
– Querido... – Lady Luelly colocou a outra mão em cima da dele – Deixe-me um minuto a sós com a Sam...
Samanthah achou que ele fosse protestar, mas prontamente o rapaz obedeceu. Soltou relutantemente a mão dela, se inclinou e beijou sua testa antes de sair e deixa-las a sós. O médico que estava no quarto e que Samanthah sequer havia visto, também saiu. Lady Luelly fez menção de se sentar, mas Samanthah não permitiu. Ela mesma se aproximou mais da senhora, sentando ao seu lado na cama.
– Não se esforce Lulu. – pediu carinhosamente entre as lágrimas – Você tem que poupar suas forças...
– Preciso ser rápida... – falou ofegante – Eu partirei em breve...
– Não fale isso Lulu! – implorou Samanthah segurando suas duas mãos – Se a senhora morrer, não poderá conhecer seus netos!
Mesmo à beira da morte, o sorriso da barda era lindo.
– Você contará histórias sobre mim a eles. – disse com os olhos brilhando – E lhes dirá que eu os amei, antes mesmo deles existirem...
Samanthah não controlava o choro. As lágrimas caiam sobre as mãos de Lady Luelly que mal conseguia mantê-la fechadas. A jovem senhora respirou fundo e quando falou foi o mais firme que sua condição permitiu:
– Dhomm não quis saber o nome do pai dele – lamentou – E eu não posso morrer com esse segredo... – ela soltou a mão de Samanthah e apontou para a escrivaninha – No meu diário há toda nossa história... Dhomm me disse que iria por fogo nele... — mesmo naquela situação, ela encontrou forçar para rir – Tão impetuoso... Meu menino... – ela suspirou e voltou a colocar as mãos sobre as de Samanthah – Guarde-o em um local seguro... E só o entregue a Dhomm quando tiver certeza que ele o lerá...
– E se ele nunca quiser ler? – indagou imaginando se algum dia o rapaz estaria pronto para a revelação.
– Então entregue a seus filhos... Eles saberão o que fazer... Prometa-me... – todavia, antes que a maga pudesse responder, ela tossiu sofregamente e sangue começou a jorrar de sua boca.
– Dhomm! – gritou Samanthah desesperada, tentando acalmar Lady Luelly enquanto o rapaz entrava no quarto correndo – Eu prometo Lulu! Eu prometo!
– Cuide dele... – murmurou e fechou os olhos antes que o filho também se atirasse sobre a cama e segurasse em suas mãos.
– Mãe! – chamou ele desesperado – Mãe!
Lady Luelly abriu os olhos mais uma vez. Dhomm pareceu aliviado por um momento. Então, ela sorriu, e lentamente levou a mão ao rosto dele.
– Perdoe-me meu filho... – pediu com a voz quase inaudível.
– Não há o que perdoar... – disse com aquela sinceridade que somente ele tinha — A senhora foi a melhor mãe do mundo!
Lady Luelly suspirou.
– Cante para eu dormir... – pediu.
E Dhomm cantou. A música mais linda que Samanthah jamais ouvira em sua vida. Ele cantava em thallasiano, a antiga língua dos elfos. Falava sobre lar, música, sonhos e fantasias. Lady Luelly sorriu e fechou os olhos. A voz de Dhomm dançava pelo ambiente. Mesmo naquele momento, ela soava pura, límpida, reluzente, como a própria Nascente do Sol. Ele cantou toda a música, até o fim. E quando terminou, olhou para sua mãe.
Lady Luelly dormia.
– Mãe? – chamou Dhomm com a voz embargada – Mãezinha?
A maior barda dos altos elfos silenciara em seu sono eterno.
O grito de Dhomm estremeceu as almas de todos que estava naquela casa. Ele encostou a testa nas mãos de sua mãe e percebeu que elas jamais retribuiriam aquele toque. Chorou copiosamente, enquanto Samanthah o abraçava, também aos prantos. Ambos choraram por muito tempo, até que Dhomm se desvencilhou gentilmente do abraço de Samanthah, colocou as mãos de sua mãe sobre seu colo, beijou a testa fria e se levantou.
Eles não trocaram uma palavra. Ficaram em pé algum tempo, de mãos dadas, olhando para a mulher mais bela que já vivera entre seu povo.
– Não me deixe... – pediu Dhomm sem tirar os olhos a mãe.
Por um momento Samanthah achou que ele falava com Lady Luelly, mas o aperto em sua mão a avisou que ele esperava uma resposta dela.
– Jamais lhe deixarei. – era a segunda promessa que fazia naquela noite. E estranhou a convicção com que falara aquilo.
Nada a impediria de cumpri-la.
O resto dos acontecimentos foram borrões da realidade para ambos. Samanthah não o deixou um só momento. Como Dhomm não permitiu que ninguém tocasse o corpo de sua mãe, ele mesmo a banhou e a vestiu com o mais belo vestido que ela possuía. Samanthah o ajudou, penteou os cabelos e a maquiou. Quando, no dia seguinte, Luaprata em peso se reunia no bosque atrás da casa de campo, o que eles viram foram a elfa estonteante que Lady Luelly sempre fora, adormecida em seu caixão de cristal coberto por botões-da-paz.
– A morte também a amava. – disse Dhomm com a voz rouca sem soltar a mão de Samanthah mesmo diante de todos – Levou-a cedo para poder tê-la e deixou-a bonita para que continuássemos admirando-a.
Foram as únicas palavras que ele disse durante o sepultamento. No resto do tempo, ele cantava. E tudo ao redor, a floresta, o mar, os elfos, todo o mundo, ouvia sua dor em silêncio.
Samanthah sabia que era observada com surpresa e raiva pelos seus pais e seu irmão. Afinal, ela estava ali, ao lado de Dhomm, como se fosse companheira dele. E era. Seria sua companheira para sempre. Então não havia mais espaços para segredos ou fugas.
Um belo mausoléu foi erguido em uma pequena ilha que ficava próximo à enseada. Nele, os magos ergueram uma fiel réplica de Lady Luelly, de vestes esvoaçantes, uma mão estendida ao céu como se cantasse para o infinito. Lá a colocaram e a selaram, ao som da voz de Dhomm.
Após esse momento, o rapaz foi convencido por Samanthah a aceitar as condolências de todos que queria cumprimentá-lo. O patrulheiro só aceitou porque estava sem forças para ir contra a maga. Mas não falou com nenhum deles, apenas aceitava as condolências com um aceno de cabeça.
Em meio aos muitos elfos, um se destacava. Todos os outros abriram caminho para que ele, em suas vestes brancas e compridas, se aproximasse do casal.
– Eu sinto muito. – falou o rei Anasterian com a voz rouca. Samanthah percebeu, surpresa, que ele chorava – Sua mãe... Era uma criatura admirável.
Dhomm apenas acenou com a cabeça e não disse nada.
O rei não saiu de imediato. Ficou parado, como se esperasse algo. Samanthah notou que ele parecia ansioso. Talvez esperasse uma resposta do rapaz que se recusava a encará-lo.
– Dhomm... – sussurrou – É o rei Anasterian...
Dhomm levantou a cabeça e o olhou. O rei pareceu ficar aliviado.
– Obrigado por ter vindo, sua majestade. – falou formalmente – Minha mãe teria ficado feliz com a consideração.
Por um momento o rei se mostrou um pouco desapontado. Depois, colocou a mão no ombro de Dhomm, apertou em incentivo e se retirou.
Quando a noite chegou, todos já haviam ido embora. Samanthah notou que nem seus pais nem seu irmão cumprimentaram Dhomm. Preferindo não pensar no confronto que teria pela frente, deixou-se ficar na casa de campo, tentando fazer com que Dhomm comesse algo.
– Você não comeu o dia todo... – falou em tom de súplica a jovem, tentando fazer com que ele provasse da sopa que fizera – Coma algo...
– Não quero...- recusou Dhomm – Não tenho fome.
– Mas você precisa comer algo! – exclamou inconformada – Ou ficará fraco e adoecerá! – a simples ideia que ele também pudesse ficar doente a deixava apavorada.
Vendo que não a demoveria da ideia de alimentá-lo e também não querendo ver aquele olhar de pânico em seu rosto, Dhomm permitiu-se comer um pouco. Samanthah relaxou e o observou tomar a sopa. Lá fora, pingos de chuva começaram a cair e logo um grande temporal se despejava sobre Quel’thalas. O barulho do vento era tão forte que demorou um pouco para que eles percebessem que alguém batia a porta.
– Está esperando alguém? – perguntou Samanthah a Dhomm, que negou com a cabeça.
Como haviam dispensado os servos, pois o rapaz queria ficar sozinho, a própria Samanthah foi abrir a porta. E qual não foi a surpresa ao ver seus pais e Aethas do lado de fora.
– Mãe! Pai! — exclamou.
Eles não disseram nada. Seu pai a empurrou para o lado e foi em direção a Dhomm. Samanthah quis ir atrás, mas sua mãe a segurou firmemente pelo braço. Aethas nada fez.
– O que significa isso Samanthah?! – perguntou sua mãe, descontrolada.
– Não é obvio? – disse a garota sentindo uma coragem enorme tomar conta dela – Eu amo o Dhomm. Nós vamos nos casar!
– Só por cima do meu cadáver! – gritou a senhora Fendessol sacudindo-a – Você vai casar com o príncipe Kael’thas!
– Prefiro morrer a ficar com aquele imbecil! – vociferou, causando espanto de sua mãe e de Aethas.
– Você ouviu isso?! – perguntou a senhora para o pai de Samanthah, que parara de frente a Dhomm.
Naquele momento, o jovem se levantara e fez menção de ir até onde Samanthah estava, mas o senhor Fendessol o deteve.
– Você vai sair da vida de minha filha. – disse ele ameaçador – Vai sumir e nunca mais voltar.
Para a surpresa do velho senhor, o jovem soltou uma gargalhada seca.
– Não. – disse simplesmente – Eu e Samanthah vamos nos casar. Vocês querendo ou não.
O senhor Fendessol se virou para a filha.
– Era isso que você fazia de suas tardes Samanthah? – e apontou para Dhomm – Você ficava com esse.., Esse...
– Acho que a palavra que você procura é bastardo. – disse suavemente o patrulheiro – Não é, senhor Fendessol? Agora que minha mãe morreu, o senhor não precisa ter medo que ela conte seus segredos, não é?
Samanthah viu seu pai ficar pálido e então socar fortemente o rosto de Dhomm.
– Pare pai! – gritou Samanthah tentando se desvencilhar mais uma vez da mãe – O senhor não tem esse direito! Eu o amo!
E foi a vez dela levar um tapa na cara, dado por sua mãe.
– Cala a boca! – gritou a senhora – Cale a maldita de sua boca! Não criei uma filha para que ela virasse uma vagabunda que corre atrás de um mísero bastardinho por aí!
Dhomm olhou para o canto da sala, onde estava sua arma. Se fosse rápido, poderia dar um fim naquilo. Não iria machucar os pais de Samanthah, é claro, mas iria criar uma distração para que eles pudessem sair dali. Com sorte no dia seguinte, quando estivessem mais calmos, poderia haver uma conversa.
Porém, Aethas, que até então não havia feito nada, percebeu o olhar de Dhomm. E mais rápido do que as ações do rapaz foi a dele. Ele lançou um feitiço que derrubou Dhomm pesadamente no chão, deixando-o atordoado.
– Não! – gritou Samanthah aterrorizada.
– Leve-a mãe. – disse Aethas – Eu conversarei com o rapaz.
Todavia, ela não foi de bom grado. Esperneou, mordeu a mãe, gritou, xingou e por fim Aethas abriu um portal e jogou a irmã lá dentro, por onde os pais passaram.
– Muito bem... – disse o mago – Agora nós vamos...
Mas antes que pudesse dizer mais qualquer coisa, foi atingido bem em cheio por um tiro de Dhomm. A força do golpe foi tão forte que o lançou para fora da casa. Quando deu por si, havia uma enorme águia o bicando, o arranhando, enquanto ele tentava em vão, atordoá-la. Dhomm então se aproximou lentamente, deu uma coronhada em sua cabeça, derrubando-o e o pegou pelo colarinho das vestes.
– Eu só não vou matá-lo... – disse entre os dentes – Porque você é o irmão da Sam. Sua sorte é que hoje eu enterrei minha mãe hoje e não quero ver mais sangue de ninguém... – e o sacudindo completou – Senão eu o devolveria para seus pais, vivo, mas com algumas partes a menos. – e concluiu jogando-o numa poça de lama.
Aethas levou a mão ao peito. O tiro tinha sido de advertência, não para ferir. Quando tentou se levantar, a águia novamente o atacou.
– Seu selvagem! – gritou Aethas tentando se livrar do pássaro – Você não merece minha irmã! E tire essa ave daqui!
Dhomm não lhe deu ouvidos. Foi até lá, deu uma coronhada em Aethas, deixando-o desacordado, e o arrastou até a porta de casa. Pelos seus cálculos ele ficaria pelo menos uma hora apagado. Era tempo suficiente de por em prática seu plano.
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Samanthah foi arrastada pela casa, como se fosse uma prostituta sendo levada a força para a cadeia. Suas mãe a xingava com todas as piores coisas que se podia dizer para machucar uma filha. Seu pai apenas concordava com a cabeça, permeando os gritos da mulher com suas próprias observações de como estava desapontado com a única filha.
Sequer fizeram menção de escutá-la. Para eles, agora Samanthah era uma mentirosa, uma pária que trouxera vergonha paraa família. E para que ela pudesse se redimir, iriam mandá-la no dia seguinte para Dalaran, para que ficasse sobre os cuidados do Kirin Tor e de Aethas, que com certeza iria por algum juízo na cabeça da irmã.
Eles a trancaram no quarto, ignorando seu choro e suas súplicas. E ainda a advertiram, que se o príncipe não a quisesse mais, ela iria sofrer consequências bem maiores do que a que sofrera naquela noite.
Seu mundo desabava mais uma vez em tão pouco tempo. Samanthah se jogou no chão do quarto, chorando copiosamente. Seus olhos já ardiam; havia chorado imaginando a traição de Dhomm; chorara a morte de Lady Luelly; e agora chorava pelo fim de sua própria vida. Seus pais jamais se convenceriam a deixá-la ir com Dhomm. E o que Aethas ia fazer com ele? Dhomm não ouviria um ultimato daquele sem questionar. E se Aethas o matasse?
– Eu morro junto! – gritou para as paredes – Se ele morrer eu morro junto!
– Quem morrer? – perguntou uma voz conhecida às suas costas.
Samanthah mal pode acreditar. Dhomm estava ali, exatamente do mesmo jeito que estava quando se conhecera. A roupa, os óculos, o trabuco. E uma enorme mochila de viagem.
– Não se preocupe, deixei seu irmão vivo. – disse entrando no quarto e sacudindo a cabeça para tirar as gotas de água do cabelo.
– Dhomm! – exclamou correndo e o abraçando – Aethas te fez mal?
Dhomm deu uma risada irônica.
– Ele é um mago! – disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo – Ele é feito de papel!
– Eu também sou maga... – argumentou com as lágrimas escorrendo por seu rosto. Era bom ouvir a risada dele, ainda que ela ainda não tivesse o mesmo brilho que antes. Com certeza com o tempo, aquele brilho voltaria.
– Eu te aceito com seus defeitos, Sam. – disse solenemente como se estivesse fazendo a maior das caridades. E recebeu um beliscão – Ai!
– Seu bobo! – as lágrimas não paravam de cair – Eu amo você!
O sorriso brilhou novamente no rosto dele.
– Ótimo, então você não vai se importar em fugirmos daqui, não é? – comentou casualmente soltando-a delicadamente e se dirigindo para o guarda-roupa dela – Acho que nessa mochila aqui cabe o que você vai precisar, eu tenho quase tudo mesmo...
– Fugir? – perguntou atônica.
Dhomm largou a mochila dela no chão e a olhou seriamente.
– Enterrei minha mãe hoje Sam. – a dor voltou a voz dele, mas o rapaz a controlou — A única coisa que me prende a essa terra é você. Seus pais não nos deixarão em paz. Venha comigo. Vamos dar um tempo nisso tudo. Vamos esquecer nossas dores. – e estendeu a mão para ela – Nós dois apenas. Te prometo uma aventura que você lembrará por toda a vida.
Não havia o que pensar. Nem o que cogitar. Samanthah pegou a mão dele, como fizera meses atrás no festival.
– Voltaremos um dia? – perguntou.
– Claro. – ele sorriu — Voltaremos para ter nossos filhos aqui e criá-los correndo livres pela casa de campo, enquanto contamos histórias sobre Lady Luelly Fendessol e cantamos suas canções.
Samanthah sorriu e apertou a mão dele. O futuro ainda era colorido, mas não era mais borrado. Dhomm estava lá. E uma casa de campo cheia de crianças também.
– Vamos. – disse, antes de acrescentar – Só quero passar em sua casa rapidamente. Há uma promessa que fiz a sua mãe que tenho que cumprir.
Sem explicar a Dhomm os motivos, Samanthah entrou no quarto de Lady Luelly e pegou seu diário. Sem saber que o segredo de sua origem estava dentro das coisas da amada, se dirigiram rapidamente à vila Correventos. Sylvana ficou surpresa ao vê-los ali, naquela hora. Não houve muito tempo para explicar, mas não era necessário. A patrulheira já esperava aquilo. Estranhou o pedido de Samanthah escondesse o diário até que ela voltasse, mas aceitou. Abraçou a amiga e desejou toda a sorte do mundo para ela e lamentou perder um patrulheiro tão promissor.
– Voltaremos. – disse Samanthah abraçando a amiga – E você me entregará o diário e poderá tornar a vida dele num inferno.
– Espero ansiosamente. – disse Sylvana aceitando pela primeira vez um abraço apertado de Samanthah.
– Temos que ir Sam. – chamou Dhomm – Seu irmão vai voltar a qualquer momento para casa.
– Até mais Sylvana! – gritou a maga por cima do barulho dos trovões e se afastou da janela do quarto da elfa, que acenou até que eles se perdessem no meio da tempestade.
Quando Aethas chegou em casa, exatamente uma hora depois, Samanthah já partira. O som dos trovões havia abafado o som da motoca quando ela cortara o bosque, e ninguém viu quando os dois jovens amantes deixaram Quel’thalas. No quarto de Samanthah, uma curta carta de despedidas e um sincero pedido de desculpas. Ela não levara nenhum de seus vestidos, apenas o que ganhara de Lady Luelly e algumas roupas de passeio. Deixou joias, livros, varinhas e sapatos para trás.
E levou consigo apenas seus sonhos e sua vontade de ser feliz.
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“Querido Aethas,
Como está aí em Dalaran?
Aqui em Luaprata a primavera já chegou. As rosas já desabrocharam, o clima está ameno e o sol brilha todas as manhãs. No momento em que lhe escrevo essa carta, Dhomm está lá fora, consertando seu arco. Posso ouvir sua música embalando o trabalho, mas sei que ele canta para o bebê que dorme ao meu lado.
Sim, você é tio! Nossa filhinha nasceu há uma semana. Desculpe se não lhe escrevi antes, mas Dhomm não me deixou sequer me alimentar sozinha, imagine escrever uma carta. Talvez ele só estivesse muito nervoso com a forma com que ela veio ao mundo.
Chovia muito quando comecei a sentir as dores. Era noite, e estávamos só nós dois aqui. Sylvana viera na noite anterior junto com Lor’themar, mas eles estavam preocupados demais com uma movimentação estranha perto de nossas terras e disseram que não sabiam quando retornariam das fronteiras do reino. Quanto a mamãe e papai... Bem, você sabe. Ainda que eles já falem comigo e cumprimente Dhomm cordialmente, ainda não esqueceram minha fuga, mesmo após todos esses anos. Está sendo difícil para eles me perdoar por tudo.
Ainda bem que já nos entendemos não é irmãozinho?
A propósito, você ainda tem medo de pássaros?
Voltando ao nascimento, estávamos sozinhos em casa. Sugeri a Dhomm abrir um portal para que ele fosse buscar ajuda em Luaprata, mas ele se recusou a me deixar sozinha. Eu não sabia o que o teleporte poderia afetar no parto, então preferi não arriscar. E tínhamos um ao outro não é? Ia ficar tudo bem.
O parto não foi tão insuportável quanto me disseram. Foi até bem rápido. Acho que nossa menina estava ansiosa para ver o mundo. Dhomm fez o parto sozinho; eu não tinha como ajudar não é mesmo? Confesso que bateu um pouco de ciúmes quando eu vi que ele segurava nossa filha primeiro que eu, mas foi só uma bobagem ocasionada pela dor. Logo a pequena estava em meus braços, e estávamos chorando. Todos nós.
Dhomm jura até agora que o choro da bebê é mais afinado que todos os bardos de Luaprata. Exagerado, não?
Espero que você possa nos visitar logo. A pequena Luxuriah está ansiosa para conhecer o titio Aethas.
Sim, esse é o nome dela. Dhomm fez questão. É uma história engraçada, te conto quando você vier.
Transmita a novidade a papai e a mãe. Não sei se eles abriram a carta que mandei hoje.
Não demore a vir irmãozinho!
Um forte abraço
Da sua irmãzinha casada, mãe e feliz
Samanthah”
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