Herdeiros da Guerra
9 Capítulo IX – Não vamos falar sobre isso
Notas iniciais
As crianças corriam felizes comemorando a surpresa. Na mesa do orfanato, muita comida, brinquedos e principalmente, uma jovem maga sentada à cabeceira da mesa e que contava as histórias mais maravilhosas que os pequenos já ouviram.
Kassyeh fazia questão de ir visitar o orfanato de Orgrimmar sempre que tinha tempo e como naquele dia Tewdric havia recebido um chamado do general Nazgrim e teve que, a contragosto, deixar sua elfa e atender a convocação, ela antecipara a visita.
– Vá. – dissera incentivando Tewdric, que ainda relutava em sair de casa – Não se preocupe, eu vou visitar as crianças.
Passar a manhã com aqueles pequenos sempre a deixava feliz. Todas ali eram órfãs, como ela própria. Seus pais haviam perecido pelas mãos de monstros ou da Aliança e agora aquele lugar era seu lar. Kassyeh tivera a sorte de ter Luxuriah para cuidar dela, sorte que aquelas crianças não tiveram. Por isso, proporcionar uma alegria simples como alguns doces e alguns brinquedos de madeira, a deixava satisfeita e plena.
Enquanto as crianças corriam e brincava com seus dois mascotes, Hotch e Littleflame, Kassyeh conversava com a responsável pelo local. Queria saber se estava faltando alguma coisa e como ela poderia ajudar.
– Obrigada Kassyeh, aqui não está faltando nada. – agradeceu a Matriarca – As crianças sempre ficam felizes com sua visita.
– Estou morando em Orgrimmar agora. – disse a maga – Virei mais vezes visitá-los.
– Ah, cuidado para não mimá-los! – riu-se a orquisa.
– Vou tentar. – prometeu – Saba! Vamos?
Antes de visitar o orfanato, Kassyeh fizera uma pequena parada da estalagem de Gryshka e Morag. Estava com saudades de Saba e também fora fazer uma reclamação formal pela ausência do casal em seu casamento.
– Com a quantidade de gente pro seu casório, não podíamos perder a oportunidade de ganhar dinheiro! – disse a dona da estalagem.
– Você falou como um goblin, Gryshka! — brincou Kassyeh arrancando risos de todos os presentes.
Quem não gostara de não ter ido à festa fora Saba, que há muito queria conhecer Karen. Depois de muita conversa, a elfa conseguira convencer os pais da menina a permitir que ela fosse para a cerimônia em Luaprata. Saba ficara encantada com a oportunidade de conhecer os Reinos do Leste e fizera questão e acompanhá-la ao orfanato para brincar um pouco com as crianças enquanto faziam planos para a viagem.
– Como é a cidade dos elfos? – perguntara a menina pela milésima vez, quando saíram do orfanato.
– Grande e bela. – respondera Kassyeh segurando a mão de Saba enquanto andavam de volta a estalagem – As vassouras lá trabalham sozinhas, sem ninguém que as manuseei, há fontes de águas límpidas nas praças, e os prédios que reluzem mesmo a noite.
A menina pensou um pouco, imaginando a cena.
– É maior que Orgrimmar?
– Sim, é maior. – Kassyeh riu – E era mais do que é hoje, mas o Flagelo destruíu uma parte da cidade...
– Vou gostar muito de conhecer Luaprata! – disse Saba empolgada.
– Ah, vai sim! – riu Kassyeh.
Quando chegaram à hospedaria, Saba entrou correndo, louca pra contar a mãe o quanto tinha se divertido. Gritou um ‘até mais’ para Kassyeh e desapareceu escada acima. Kassyeh sorriu e acenou, imaginando o quanto ela e Karen se divertiriam na capital dos sin’dorei.
– Babá. Profissão perfeita para você.
A voz que falou atrás de Kassyeh era conhecida e fez seu sangue gelar. Lentamente, a elfa virou-se e deu de cara com a última criatura que gostaria de encontrar sozinha.
– Lyndonna. – murmurou.
A orquisa estava parada ao lado da hospedaria, com um estranho sorriso nos lábios. Kassyeh ainda lembrava muito bem o que acontecera no último encontro delas; as cicatrizes já haviam se curado, mas o seu orgulho ainda não. E mesmo que não quisesse admitir, o medo se instalou em seu peito, afinal se a guerreira tentasse alguma coisa, qualquer coisa, não haveria Luxuriah agora para salvá-la.
– Que cara é essa maga? Parece que está vendo um fantasma... – disse a guerreira em tom de deboche.
Kassyeh tinha que por na cabeça que podia vencê-la, no caso de um conflito. Se conseguisse manter distância, evocasse os feitiços certos, podia se manter viva e fazer um bom estrago na orquisa antes que a guarda interviesse.
– Você não está morta Lyndonna. Ainda. – replicou o mais calmamente que conseguiu.
Lyndonna estreitou os olhos. Kassyeh ficou feliz em ver que tinha conseguido atingi-la.
– Está me ameaçando elfa?
– Não. – e depois de uma pausa acrescentou confiante – Ainda.
– Devo lembrar que quem acabou quase morta no nosso último encontro foi você? – vociferou a outra.
Kassyeh poderia acabar com a discussão dizendo simplesmente a verdade: por não querer matar a rival, tinha poupado-a nos golpes. É claro que aquilo poderia levar a um desafio para um duelo, que é claro ela iria negar. E as coisas poderiam crescer,acabar se prolongando muito. E ela não queria brigar. Estava feliz demais para perder tempo com alguém como Lyndonna. Tinha passado uma ótima manhã e queria voltar para casa para preparar um belo almoço para Tewdric. Decidiu então que perder tempo com uma invejosa não iria levá-la a lugar nenhum.
– Olha Lyndonna, tive uma manhã ótima hoje. — falou com a voz conciliadora — Não quero estragar meu dia batendo boca com você. Adeus. – e dando as costas para a guerreira, começou a andar.
– Passar o dia brincando de mamãe te deixa feliz não é? Já que você nunca será mãe de verdade.
Kassyeh estancou. As palavras perfuraram seu peito e provocaram muito mais dor que os golpes físicos que a orquisa desferira contra seu corpo naquele combate. Jamais imaginara que uma simples frase a atingisse tão fortemente quanto a atingiu. Lyndonna percebeu e sorriu satisfeita.
– Uma pena não? — continuou Lyndonna se aproximando agora — Alguém que leva tanto jeito com essas pestinhas como você... — ela balançou a cabeça em negativa.
Kassyeh respirou fundo. Não podia começar a chorar na frente dela.
– Existem meio-orcs... — queria que sua voz tivesse saído confiante, mas ela não passou de um murmúrio.
– Sim, é verdade não é? — Lyndonna falou alegremente — E meio-elfos também não é? Mas quais deles nasceram de um orc e uma elfa? Hein? Quantos meio-orcs-meio-elfos existem por aí não é? — ela deu uma pausa e como Kassyeh não respondeu, ela continuou — Deixa eu responder... Nenhum! — a voz da guerreira era cruel -Porque você nunca vai poder dar um filho a Tewdric! — a outra praticamente cuspiu aquelas palavras.
Hotch e Littleflame sentiram que a dona não estava bem, pois começaram a rosnar e rodear Lyndonna como se a desafiassem a atacar sua dona. Mas o que os pequenos não entendiam era que a guerreira destroçava a outra sem precisar de seu machado. Suas palavras eram suficientes para abrir grandes rasgos na alma de Kassyeh, que continuavam sem reação.
Ela precisava falar. Precisava se defender. Não podia sair daquele segundo encontro derrotada novamente. Respirou fundo e tirou de dentro do seu coração as palavras quejá falara em outro embate. As mesmas que falara para Luxuriah.
– Eu não me importo... — murmurou primeiro hesitante, e depois ganhou mais força — Eu não me importo de não ter filhos. Eu sabia disso quando fiquei com ele. — e olhando para Lyndonna, sustentou um olhar firme — Eu sabia que tinha que abrir mão disso para ficar com ele.
Lyndonna, ao contrário do que Kassyeh supunha, não ficou como raiva, e sim soltou uma gargalhada.
– Me responda elfa, Tewdric também tem essa mesma opinião?
Kassyeh abriu a boca para responder mas a fechou logo em seguida, em choque. Percebeu que nunca tinham falado sobre isso. Lyndonna viu o choque em sua face e riu ainda mais.
– Ele sequer sabe não é? — ela se divertia com o desespero da elfa — Não sabe que jamais terá filhos para acender sua pira funerária... Não terá filhos para honrarem seu nome e lhe prestar homenagens...
Kassyeh não tinha mais forças para segurar. As lágrimas começaram a verter de seus olhos. A guerreira estava em êxtase.
– Quando ele perceber isso... — murmurou Lyndonna bem perto do ouvido de Kassyeh — Ele vai embora... E vai procurar quem realmente possa lhe da ruma descendência forte, que um guerreiro como ele merece...
Era mais que podia suportar. Kassyeh não se preocupou com o orgulho, nem com a vitória que entregava pela segunda vez a Lyndonna. Se pôs a correr, se afastando o mais rápido que pode de sua algoz. Ainda pode ouvir as risadas da guerreira as suas costas, se divertindo de seu desespero e se regozijando pela batalha vencida. Mas a maga não se importava com isso. Só queria correr, correr, se esconder daquela que supunha ser uma verdade irremediável.
Nem a chegada em casa a confortou. Apenas fez com que ela desabasse tão logo fechou a porta, caísse no chão e chorasse toda a sua dor ali mesmo, quanto seus bichinhos tentavam consolá-la com lambidas e afagos.
Mas nada adiantava. Tudo estava tão claro como o dia.
Ela e Tewdric jamais teriam um filho.
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Luxuriah observou, com preocupação, enquanto Ash ajustava alegremente seu equipamento. Seria a primeira caçada que a sua jovem irmã faria sem sua supervisão, ou a de algum elfo de sua confiança. Ela estaria lá, com desconhecidos, enfrentando perigos de uma terra desconhecida.
– Não me olhe assim Lux. — falou a jovem caçadora verificando as flechas — Vai ficar tudo bem!
– Você não conhece essas terras Ash. — a outra não conseguia parar de se preocupar — Estamos perto de territórios em disputa, nunca sabemos o que pode aparecer...
– O que quer que apareça, vai encontrar minhas flechas! — falou a outra com uma convicção que surpreendeu a mais velha — E além do mais, quem pensaria em atacar aquele grupo ali?
Eram cinco taurens enormes com ajudantes igualmente grandes. Alguns usavam arcos; outros bestas. E havia Raziel, pai de Huaru, que fizera questão de acompanhá-los. E mesmo assim Luxuriah parecia insegura.
Ashrial suspirou e colocou o arco nas costas.
– Você devia está preocupada com aquela ali. — e apontou com a cabeça.
Karen parecia que tinha sido atingida por um feitiço de confusão mental. A menina não parava quieta um só instante: subia na carroça, descia, rodeava as irmãs, rodeava Huaru, perguntava incessantemente a Linore sobre o roteiro do passeio, para depois subir na carroça novamente e começar tudo de novo.
– Karensky! — exclamou Luxuriah fazendo a irmã menor parar no mesmo instante.
– O que foi Lux? — perguntou com a voz mais doce que uma elfa poderia ter.
– Fique quieta um instante. — ralhou a irmã mais velha, que não caia naquele truque há muito tempo.
– Mas eu to tão empolgada!!!! – se defendeu a menina dando pulinhos sem sair do lugar – A dona Linore diz que tem muitas, muitas crianças onde vamos!!!!
– Ah tem sim. – disse Linore sorrindo chegando com um cesto cheio de ervas – E eles vão adorar ter uma convidada de tão longe para as brincadeiras.
– Lá em Luaprata não tem muitas crianças. – falou Karen cercando Linore enquanto ela colocava a cesta na carroça – Nosso povo tá quase acabando... – a voz da menina ficou de repente muito triste — É o que dizem...
Luxuriah e Ashrial se entreolharam, preocupadas. Linore percebeu que o assunto deixava todas elas perturbadas. E entendia por que. Se os taurens estivessem na mesma situação dos elfos sangrentos, ela também ostentaria o semblante pesaroso que as suas convidadas agora ostentavam.
– Criança, não fique assim. – a xamã passou a mão na cabeça de Karen – Seu povo só precisa de um tempo para se recuperar. – e piscando o olho, acrescentou – Você vai ver, assim que essa guerra toda tiver uma pausa, vocês terão tempo para namorar e nascerão muitos bebês.
Karen abriu um imenso sorriso para a taurena, visivelmente aliviada. As suas irmãs mais velhas também riram, apesar de Luxuriah manter ainda certa reserva em seu sorriso. Ela sabia que aquela guerra demoraria muito a ter fim e sim, eles poderiam acabar sumindo de Azeroth.
Karen e Ash, porém, tinham o direito de continuar sonhando com um mundo melhor.
– Estamos prontos. — Raziel se aproximou de Luxuriah e Ashrial, mancando com sua perna de madeira — Iremos para o norte, seguindo a trilha de uma matilha de lobos que está atacando as ovelhas. — ele sorriu para as caçadoras — Com sorte, estaremos voltando amanhã ao entardecer. Vamos Ashrial? — chamou apontando para o grupo que já se agrupava.
Luxuriah sentiu o coração apertado, mas não podia deixar de também sentir orgulho do sorriso de sua irmã diante de uma caçada. Lembrava muito bem que costumava ostentar o mesmo sorriso ao ouvir o convite de seu pai. Tentou lembrar de como ficava feliz em sair pela Floresta do Canto Eterno sem medo quando Ash a olhou, ansiosa.
– Tome cuidado. — disse a mais velha colocando uma mecha de cabelo de Ash atrás da orelha — Que a luz da Nascente do Sol te guie, minha irmã. — e segurando o rosto dela entre a mãos, beijou-a na testa antes de murmurar — Shorel’aran.
– Shorel’aran... — murmurou Ash com um sorriso singelo e lágrimas brilhando nos olhos — Amanhã estou de volta...
– Tente não morrer Ash! — gritou Karen já em cima da carroça com Linore — Senão, quem eu vou perturbar?! — e caiu na gargalhada.
Ash apertou os olhos de raiva e mostrou a língua para a irmã caçula, antes de colocar a aljava nas costas e se afastar altiva ao lado de Raziel. Enquanto a menor ainda ria e pulava na carroça, Luxuriah acompanhou com os olhos Ash subir em sua montaria, acenar e partir com o grupo de taurens.
É, mais uma cresceu e saiu de suas asas.
– Não fique assim... — Huaru se aproximou naquele momento, e falou com a voz mais confortadora que conseguiu — Ela vai ficar bem, está com pessoas de confiança.
Luxuriah assentiu.
– Eu sei. — e respirando fundo, passou a mãos nos cabelos — Mas não consigo não me preocupar...
Huaru colocou a mão em seu ombro e apertou de leve. Luxuriah o encarou e sorriram um para o outro. Percebeu que era a primeira vez que tinha com quem compartilhar a angústia que sentia, sem medo.
– Lux! Lux! — a voz de Karen estava mais aguda e mais alta — Já estamos indo!!
Aquela partida era muito menos preocupante. Karen e Linore iam até a vila, onde a menina brincaria e a xamã atenderia. Estariam de volta no final daquele mesmo dia, e Luxuriah já previa um número considerável de arranhões e uma roupa suja, talvez até rasgada. A caçula sabia se divertir.
– Não dê muito trabalho à Linore certo? — disse a caçadora se aproximando da carroça com uma expressão séria — Lembre-se de se comportar.
– Certo! Certo! — concordou a menina e sentou-se elegantemente ao lado da xamã na carroça, como se quisesse provar que iria fazer exatamente o que a irmã estava mandando.
– Boa viagem vocês duas. — disse Huaru acenando para a mãe e para Karen.
– E vocês dois, juízo! — respondeu a xamã olhando para Luxuriah e Huaru com a expressão séria — Até mais.
– Tchau!! — gritou Karen acenando alegremente quando a carroça entrou em movimento.
Logo, o transporte sumiu no horizonte, levando as duas tripulantes para a Aldeia Narache. Luxuriah suspirou. Suas irmãs tinham o mesmo espírito aventureiro que ela. Não sabia se ficava feliz ou triste.
– Então, vamos lá? — Huaru chamou.
Foi quando a elfa percebeu que Huaru trazia mas mãos uma enorme cesta de vime. Ele também não usava sua armadura brilhante, mas vestia apenas uma calça marrom de linho e uma camisa folgada de algodão. Luxuriah também abandonara seu traje de caça e vestia um conjunto de calça e colete, ambos vermelhos, de seda.
– Vamos para onde? — perguntou ela encarando a cesta e o tauren sorridente.
– Fazer um piquenique. — falou com quase tanta empolgação quanto Karen — Perto do rio, na colina aqui do lado.
– Faz tempo que não faço um piquenique... — comentou nostálgica.
– Ótimo! Vamos! — ele pegou em sua mão e puxou-a levemente — Por aqui.
Luxuriah riu e deixou-se levar. Seguiram por uma trilha que ficava bem atrás da casa de Huaru, caminhando durante alguns minutos até chegarem a uma clareira. De lá, tomaram o caminho da esquerda e começaram a subir por outra trilha, dessa vez em uma colina. Levaram quase meia hora para chegar ao lugar, e durante toda a caminhada, o paladino não soltou a mão de Luxuriah em nenhum momento. Conversaram no caminho sobre os animais e as plantas da região. Finalmente, quando a vegetação se abriu, Luxuriah pode ver porque tinha sido levada até ali.
– Nossa... — murmurou ela encantada — Que lindo...
Não era apenas um rio. Havia uma bela cachoeira, que derramava água pura e cristalina nas rochas aos seus pés para então formar o rio do qual Huaru falara. Ao redor se formava uma pequena praia de areia branca e fina, que logo dava espaço para uma grama verde e saudável crescer despreocupadamente. Árvores frondosas rodeavam o lugar, emoldurando a cachoeira como em um quadro vivo.
Huaru colocou a cesta embaixo de uma árvore próxima a cachoeira. Lá, ele estendeu uma toalha na grama e sentou-se. Luxuriah foi logo em seguida, ainda embevecida com a paisagem.
– Gostou? — perguntou o jovem tauren com um sorriso.
– Sim, muito. — respondeu a caçadora se sentando do lado dele — Eu sempre admirei a beleza de Mulgore, mas... — ela suspirou — isso aqui me deixou sem fôlego!
– Achei que você fosse gostar. — ele abriu a cesta, remexeu e tirou alguns bolinhos e colocou na toalha — Elfos e taurens amam a natureza.
– É simplesmente perfeito — reiterou Luxuriah aceitando o bolinho — Obrigada por me trazer aqui.
Huaru deu de ombros e mordeu seu bolinho.
– Não precisa agradecer. Você está precisando de um lugar bonito e tranquilo para acalmar seu coração.
– Você é um amor Huaru. — disse ela passando a mão no rosto dele — Obrigada.
Huaru apenas sorriu e baixou a cabeça, envergonhado.
Luxuriah deu outra mordida no bolinho feito por Linore e olhou mais uma vez para a cachoeira. Recordou das tardes em que ela, os pais e as irmãs sentavam em frente ao mar e passavam horas cantando, comendo e se divertindo.
– Houve um tempo — falou ela com o pensamento longe — em que Quel'thalas era tão bela quanto Mulgore. — ela olhou para o bolinho — Onde podíamos sentar e ver a natureza sem que uma mancha negra e fétida cruzasse nosso olhar...
– Não vamos falar sobre isso. – interrompeu Huaru suavemente – Não lhe trouxe aqui para você falar de coisas tristes.
Luxuriah sorriu e encarou Huaru, que também sorria. Eles se olharam por alguns momentos antes de desviarem a vista um do outro ao mesmo tempo. Luxuriah sabia que era errado, que a última coisa que podia fazer era manchar a vida de Huaru com sua presença, mas era tão bom estar com ele que quase não havia culpa em se permitir aquilo.
– Você falou que seu pai cantava. – comentou o jovem paladino tentando ter a atenção da elfa novamente – Mas ele era patrulheiro, certo?
Ela assentiu.
– Patrulheiro, caçador e bardo nas horas vagas. – respondeu sem conseguir tirar um sorriso do rosto – Era assim que ele se referia a si mesmo. – e com orgulho, completou – Ele, assim como minha avó, escreveu muitas músicas que são cantadas até hoje nas tavernas em Luaprata.
– Sério? – Huaru ficou curioso com o comentário – Nossa, queria ouvir uma música élfica qualquer dia desses...
Ele não precisou repetir o pedido. Luxuriah ficou em pé no momento em que ele finalizou a frase e respirou fundo. Fazia anos que não fazia aquilo para alguém que não fosse suas irmãs. Todavia, sentiu uma vontade imensa de cantar para Huaru, para aquela paisagem e, surpreendentemente, para si mesma.
Deixou que a voz saísse suavemente, primeiro bem baixo, para depois ganhar mais força. Cantou sua música favorita, aquela que seu pai sempre cantava para que elas dormissem. A música que ele escrevera em homenagem a sua avó, à sua infância, às suas memórias. Deixou que o sentimento contido naquela música lhe lavasse a alma, e antes que percebesse, lágrimas brotavam dos seus olhos. Mas não eram lágrimas de tristeza. Eram lágrimas melancólicas, que pertenciam à música e não à Luxuriah. Talvez aquela canção estivesse triste por estar tantos anos aprisionada em sua garganta. Ou talvez fosse lágrimas por todos os elfos sangrentos que, pelo mundo, ainda choravam a dor da perda de seu reino e de suas famílias. Ou talvez, fosse aquela menina que corria pelas florestas que chorasse por, finalmente, estar de volta.
Não soube quanto tempo cantou. Mas levou a música até o fim, sem que desafinasse, sem que sua voz falhasse. Quando terminou, com o rosto molhado, mas que ostentava um sorriso de triunfo, soube que seu pai ficaria orgulhoso por ela ter conseguido acertar todas as notas sem nenhum erro. Sua mãe estaria aplaudindo entusiasmadamente, palmas eufóricas e desmedidas até. Palmas, como as que ouviam agora.
Huaru a aplaudia, boquiaberto.
– Uau. – murmurou. E como se não conseguisse pronunciar outra coisa, repetiu – Uau.
– Obrigada. – ela sentou novamente, limpando as lágrimas, mas com um sorriso no rosto – Meu pai quem escreveu essa música. Chama-se ‘Campos do Paraíso’, em thalassiano.
O jovem paladino nada disse, apenas continuou fitando-a. Luxuriah retribuiu o olhar, até perceber o que havia por trás dos olhos negros dele. Um medo infinito a invadiu quando percebeu que os lábios deles começaram a se mover, e que aquelas palavras iriam sair.
– Luxuriah... – começou ele – eu...
– Não! – interrompeu colocando um dedo na boca dele – Não, não, não, não! Não fale, por favor! – suplicou.
Huaru segurou sua mão delicadamente e a afastou de seu rosto.
– Eu estou apaixonado por você. – disse por fim.
O coração de Luxuriah batia tão descontroladamente que parecia que iria sair de seu corpo. Não era a primeira vez que ouvia aquilo; na verdade, já ouvira tantas vezes de tantos machos diferentes que se tornara até uma coisa comum, sem sentido. Porém, aquelas palavras, ditas por aquele jovem tauren, aquele menino de grandes olhos negros e ingênuos a deixava atordoada. Atordoada porque não era um sentimento provocado por puro êxtase sexual apenas; era a mais pura e singela verdade.
– Huaru... – murmurou sentindo a mão quente dele apertar a sua – Eu... Eu não posso...
– Por que não? – questionou ele – Você sente algo também, não sente?
Sim, ela sentia. Desde aquela noite. Não podia negar que ele mexera com ela muito antes de ser quebrada por Grey. Muito antes de ele saber a verdade. Quando estava em seus braços, quando dançavam e riam, ela sentia que, se permitisse, ele invadiria seu coração, justamente como fizera. E a pior parte, é que queria o deixar entrar.
– Entenda uma coisa – falou com a voz resoluta – eu jamais poderia te fazer feliz!
– Por que não? – questionou ele apertando ainda mais a mão dela.
– Por que... – ela olhou em volta, como se procurasse ajuda – Meu coração é como uma terra seca Huaru!
Ele a olhou intensamente.
– Então me deixe ser a sua chuva. – pediu singelamente.
Luxuriah não respondeu. Não conseguia responder. Ficou calada, encarando-o, segurando sua mão e sem ter uma resposta para dar. Mas Huaru achou uma. Segurou seu rosto delicadamente e limpou as lágrimas que caiam e que nem ela mesma sabia que existiam. Depois, aproximou seu rosto do dela. Luxuriah fechou os olhos. Não conseguia lutar. Não tinha forças. Huaru a deixava vulnerável, exposta. Deixou que ele a beijasse uma, duas, várias vezes. Permitiu-se deitar-se sobre a toalha na grama, e aconchegar seu corpo no dele. Mostrou às mãos dele o caminho que deviam fazer e fez o mesmo. E quando seus lábios se separaram, ela o encarou e murmurou:
– Eu sou seu pecado Huaru... Está disposto a se macular comigo?
– Sim... – respondeu sem tirar os olhos dela – E não. Nos redimiremos juntos.
A elfa riu.
– O que eu quero fazer com você agora... – sussurrou no ouvido dele – Não trará nada do que a pura e simples luxúria para nossos corpos... – e mordiscando a orelha dele completou – Não há redenção nisso...
Antes que ele pudesse responder, ela o beijou. Estava no controle novamente. Aquela era sua área. Prazer. Perdição. Luxúria. E se Huaru queria se perder com ela, não iria negar isso a ele.
Depois do beijo, afastou-se um pouco. Huaru reagiu, tentando mantê-la em seus braços, mas Luxuriah apenas sorriu, tranquilizando-o. Quando começou a tirar a roupa, bem devagar, ele compreendeu. Sentou-se e observou-a despir-se lentamente. Depois, deixou que ela guiasse sua mão até seus seios, e a acariciou como ela pedia. Um arrepio percorreu todo o corpo dele; era a coisa mais excitante que já fizera na vida. O corpo dela era macio e sedoso, e o jovem tauren foi possuído pelo desejo de prová-lo.
Aproximou-se dela, que não se afastou e o fitava com um sorriso malicioso nos lábios. Apesar da vontade de beijá-la novamente, havia algo que ele queria com muito mais fervor. Baixou a cabeça até o colo dela e passou a língua em seus seios. Luxuriah gemeu e segurou seu cabelo com força, não para afastá-lo, mas como se quisesse mantê-lo ali. Confiante, ele passou a apertar um dos seios dela com a mão enquanto lambia e mordiscava o outro. Suas mãos então desceram para a cintura dela e assegurou enquanto a língua agora percorria a barriga dela, em direção ao umbigo.
– Sem pelos... – murmurou ele – Você não tem pelos no corpo.
Quando ela riu de suas palavras ele se sentiu um idiota. Claro que ela não tinha pelos, era uma elfa.
– Sem pelos. – concordou ela levantando o rosto dele na direção do dela – Tire a sua roupa.
Não fora um pedido, fora uma ordem. E ele atendeu imediatamente. Tirou toda a sua roupa, se sentindo pela primeira vez envergonhado por estar daquele jeito na frente dela. Imaginava que devia parecer estranho aos olhos da jovem elfa. Contudo, Luxuriah não parecia se importar com seus pelos, ou seu corpo diferente, muito pelo contrário. A elfa parecia simplesmente encantada enquanto passava as mãos pelo corpo do jovem tauren. E quando suas mãos encontraram o membro ereto dele, ela mordeu o lábio inferior.
– Nossa... – murmurou com um sorriso de satisfação – Maior que qualquer um que eu já vi...
– Isso é bom? – perguntou ele sentindo um prazer indescritível quando ela o tocou lá.
– Isso é muito bom... – murmurou antes de descer seu rosto naquela direção. Huaru observou, em êxtase quando ela tomou o membro em sua boca e começou a beijá-lo e apassar a língua nele. Gemeu de prazer quando ela o pôs completamente na boca e passou a fazer movimentos com a boca e com as mãos simultaneamente. Ele fechou os olhos e não conseguiu raciocinar em mais nada, a não ser que aquela era a melhor coisa que já provara na vida. Mas logo abriu os olhos novamente, pois desejava vê-la. E Luxuriah o olhava, observando sua reação com um sorriso no rosto enquanto continuava com seus movimentos. Então, subitamente, ela parou. Confuso, Huaru viu ela se levantar e colocar a mão em seu peito.
– Deite-se. – ordenou ela.
Ele não questionou. Deitou-se e observou-a subir por seu corpo. Ela o acariciou, o beijou novamente, e então segurou seu membro com as mãos e sentou-se nele. Huaru gemeu alto; aquela sensação era muito melhor que a primeira. E o melhor de tudo, era que Luxuriah parecia sentir a mesma coisa. Agora ela não estava brincando com ele, ao contrário. Seus lábios entreabertos, suas bochechas rosadas e o brilho em seus olhos lhe diziam que compartilhavam o mesmo prazer. Ela começou a mexer os quadris em cima dele e Huaru acariciou seu corpo. Luxuriah gemeu e segurou as mãos dele em seus seios, enquanto continuava os movimentos, sem desgrudar os olhos dos dele. Logo, Huaru também se mexia, primeiro timidamente, mas logo depois passou a arremeter para dentro dela. Luxuriah gemia ainda mais e sorria, o que o incentivava a fazer cada vez com mais força. Depois de um tempo, ele largou os seios dela e logo estavam segurando as mãos um do outro, com os dedos entrelaçados, enquanto continuavam compartilhar aquele momento. Luxuriah nunca sentira uma conexão tão intensa com um macho. Não era apenas os corpos que se uniam, mas também suas almas, pois não conseguiam desgrudar os olhos um do outro. E quando chegaram ao ápice do prazer, ao mesmo tempo, ele sentou-se e a abraçou com força, enquanto tremiam juntos e a semente dele se espalhava pelo seu corpo. Beijaram-se mais uma vez e não se separavam. Continuaram abraçados, sentindo a respiração se acalmar e o barulho da cachoeira se tornar novamente mais alto que as batidas de seus corações.
E Luxuriah soube que estava irremediavelmente apaixonada por Huaru.
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Tewdric bufou de raiva e chutou uma pedra, que bateu num dos guardas da rua. O orc até olhou raivoso para ele, até reconhecê-lo e acenar alegremente, como se aquela pedrada tivesse sido a melhor coisa que recebera naquele dia.
E não podia culpa-lo. Qualquer um que visse a expressão de raiva em seu rosto e conhecesse sua fama, receberia um soco dele feliz e ainda agradeceria, na esperança que pudesse sumir logo de sua vista. Pois nunca, ninguém, vira Tewdric tão furioso como naquele dia.
Como assim seu casamento não era válido?! As palavras de Nazgrim ainda o deixavam com o sangue fervendo. Se Eitrigg não tivesse o impedido, estaria agora cortando a carne do general com seu machado. Mas o velho orc dissera que um duelo não resolveria aquilo. E que Nazgrim tinha que respeitar a tradição.
Como orc recém-casado, Tewdric não poderia ser mandado para nenhuma missão perigosa por pelo menos um mês. Era o tempo que, de acordo com as antigas tradições órquicas, era suficiente para um jovem casal aproveitar e gerar descendentes.
– Sua fêmea é uma elfa! – dissera Nazgrim com um sorriso de deboche – Você não precisa de um mês se não vai gerar filhos que possam servir à Horda!
E naquele momento, se o velho orc não tivesse se metido, haveria um general a menos na Horda. Mas o pior de tudo, Tewdric tinha que admitir, era a expressão de concordância que vira no rosto do Chefe Guerreiro. Garrosh parecia concordar com Nazgrim. E tinha certeza que se não tivesse sido contido, o Chefe Guerreiro seria o próximo alvo do seu machado.
Naquele momento, só queria chegar em casa. Chegar em casa e se aconchegar no sorriso belo de sua esposa. Queria abraça-la, sentir seu corpo, amá-la e esquecer aquela fúria que insistia em se apoderar dele.
Quando abriu a porta e não viu Kassyeh na sala, franziu as sobrancelhas. Pela hora do dia, ela deveria estar ali, estudando seu livro enquanto o esperava para o almoço. Passou pela cozinha, não havia nada no fogão. Estranhou ainda mais. Será que ela tinha perdido a hora lá no orfanato?
– Kass? – chamou enquanto subia as escadas.
Ele a encontrou na cama. Primeiro, pensou que ela tivesse dormido, talvez de cansaço por passar a manhã brincando com as crianças. Mas depois, viu que os ombros dela se mexiam ligeiramente.
– Kass? – chamou novamente.
Kassyeh levou um susto. Sentou-se prontamente na cama, enxugando os olhos e tentou sorrir para o marido.
– Oi. – sua voz não estava melodiosa como sempre, e sim um pouco rouca – Pensei que fosse demorar mais... – e se levantando sem o olhar, ajeitou o vestido – Vou fazer o almoço rapidinho, espere só um pouco.
Ela fez menção de sair, mas Tewdric a segurou. Talvez ele tenha colocado um pouco mais de força que o normal, devido a raiva que ainda pulsava dentro dele, ou talvez Kassyeh só estivesse com receio de encará-lo; o certo é que ela se encolheu diante do toque dele, que não a largou.
– Kassyeh, olhe pra mim. – sua voz soou mais ríspida do que queria, pois Kassyeh o olhou, assustada – Você estava chorando?
– E-eu? – gaguejou fitando-o com seus imensos olhos verdes.
– Sim. – o guerreiro respondeu a própria pergunta – Você estava chorando. O que aconteceu?
Ele queria uma desculpa, um motivo pelo qual pudesse sair pela porta e matar alguém. E se fosse alguém que machucara sua elfa de alguma forma, o prazer da matança seria ainda melhor.
– Nada. – respondeu Kassyeh– Não aconteceu nada. – e tentando se soltar dos braços dele, acrescentou – Preciso fazer o almoço.
Contudo, Tewdric não a soltou. E a raiva que sentia até então, se transformou em tristeza.
– Kass... Depois de tanto tempo... Você vai começar a mentir pra mim? – perguntou com o semblante entristecido.
Kassyeh arregalou os olhos ao perceber o tom magoado de sua voz. Percebeu então, que o que dissera o machucará e se desesperou. Ela nunca, nunca havia machucado Tewdric antes.
O choro agora saiu rasgado. Kassyeh caiu em um pranto desesperado. Gritava, chorava e tentava se livrar dos braços dele. Tinha posto tudo a perder, tudo!
– Kassyeh! – chamava Tewdric assustado – Kassyeh!
– Você vai me deixar! – gritava ela em meio ao choro convulsivo – Não vai?! Vai procurar uma orquisa para poder ter filhos!!
– Kass! – ele gritou mais alto que o choro dela e a segurou com força. A maga parou subitamente o choro, assustada com a raiva contida no grito dele e mais ainda, com a força com que ele segurava seus braços,que já os deixava dormente, e com o brilho ameaçador em seus olhos – Me diga o que significa essa porra toda! Agora!
Kassyeh já tinha visto aquela fúria antes em Tewdric, mas nunca dirigida a ela. Sua respiração ficou ofegante e percebeu, pasma, que estava com medo dele. Contudo, uma vozinha de consciência lá no fundo de sua mente, dizia que era óbvio ele ficar com raiva. Mentira para ele. Estava deixando-o confuso. E principalmente, notou, estava deixando-o assustado.
Tewdric percebeu o medo nos olhos dela e viu que tinha ido longe demais. Soltou-a devagar, deixando que ela escorresse de seus braços até sentar-se na cama. Agora era o medo que tomava de conta dele. Nunca, jamais, fora bruto com sua elfa. Somente nos momentos de prazer, e porque sabia que ela gostava. Mas agora, ele a assustara.
– Desculpe... – se ouviu dizendo num tom mais desesperado do que previra – Desculpe Kass, minha Kass... Eu não queria...
– Você vai me deixar? – interrompeu – Vai me deixar para poder ter filhos?
Ele a olhou como se ela tivesse pedido pra levar uma machadada na cabeça.
– Como é?
Kassyeh se levantou e segurou na camisa dele com força.
– Você vai me deixar pra poder ter bebês? – repetiu com os olhos se enchendo de lágrimas.
Tewdric então se lembrou de Nazgrim.
Um rugido descomunal foi emitido por Tewdric. Foi tão alto e tão furioso, que Kassyeh praticamente pulou para trás, amedrontada. E tinha motivos para isso. Tewdric, em sua fúria, precisava quebrar algo, imediatamente, ou teria um colapso. Por isso, foi direto para a parede do quarto e passou a socá-la, enquanto gritava. Socou uma, duas, dez vezes. Socou até sua mão começar a sangrar. Socou até a madeira ceder e abrir um imenso buraco na parede. Socou até que Kassyeh, em pânico, o puxou para longe da parede.
– Tewdric! O que aconteceu?! Tewdric! – gritava ela assustada.
– Nazgrim! – gritou ele apertando o punho coberto de sangue – Ele falou algo para você? Ele se atreveu a dirigir a palavra a você?!
– Não! Não sei nada do general Nazgrim! – respondeu confusa.
Apesar de não entender, percebeu que Tewdric se acalmou mais diante de sua resposta. Aproveitou então para correr até o armário e pegar remédio. Passou então a cuidar das mãos dele, com medo que aquela fúria toda pudesse afetar seu desempenho de luta. Enquanto cuidava dos ferimentos, Tewdric respirava fundo, visivelmente exausto.
– Por que você acha que vou lhe deixar? – perguntou o guerreiro com a voz cansada.
Kassyeh parou por um instante o que estava fazendo e o encarou.
– Você quer ter bebês? – perguntou.
– Claro que quero. – respondeu franzindo a testa – Você não quer?
– Quero... – respondeu ela voltando a atenção ao punho dele – É o que mais quero...
– Então, qual o problema? – o orc estava confuso, muito confuso com toda a situação.
– Eu... – Kassyeh respirou fundo – Eu acho que nós dois... – os olhos dela se encheram de lágrimas – Não poderemos ter filhos... Juntos...
Silêncio.
– Quem lhe disse isso? – indagou secamente.
– Não importa. – ela deu de ombros – O que importa que isso é verdade...
Tewdric puxou sua mão de volta, pôs no rosto dela e fez com que o olhasse. Havia dor nos imensos olhos verdes.
– Nazgrim me disse a mesma coisa hoje. – revelou – E sabe o que eu disse a ele?
Kassyeh prendeu a respiração.
– O que?
– Que ele não tinha como saber isso. Ninguém tinha como saber isso. Quem pode garantir que não é possível?
– Mas... – Kassyeh lutou contra o brotinho de esperança que começava a surgir em seu peito – Nunca ouvi falar de um meio-orc meio-elfo...
Para sua surpresa, Tewdric caiu na gargalhada.
– Quantos casais como nós você conhece Kass? – e diante do silêncio dela, ele abriu mais o sorriso – Minha Kass... Nos livros que você tanto ama, alguma vez, você leu que não poderíamos ter filhos?
– Não. – respondeu prontamente. Ela procurara aquela informação. Muito, durante todo aquele tempo. Nunca ouvira que era impossível. – Mas também nunca li que é possível. – completou seu pensamento em voz alta.
– Será. – disse ele com um sorriso confiante – Seremos os primeiros.
Havia tanta confiança na voz dele, que Kassyeh acreditou. Acreditou que sim, que era possível. O sorriso então voltou a sua face e Tewdric respirou aliviado. Ali estava sua Kass de volta.
– Vamos esquecer isso ok? – pediu ele puxando-a para o colo – Vamos esquecer tudo o que nos disseram, e vamos começar a treinar para fazer esse bebê logo, ok?
A jovem maga não pode deixar de rir alto. Seu coração estava tranquilo mais uma vez.
– Mas você abriu um rombo no nosso quarto! – e apontou.
Tewdric olhou indiferente para o buraco que dava para a rua. Levantou-se, pegou o guarda-roupa e puxou-o ate esconder a vista. Depois, tirou toda a roupa e riu selvagemente para Kassyeh. A elfa riu de volta e, com um olhar malicioso, tirou a roupa também.
– Certo, vamos começar. – disse ela ficando de joelhos na cama – Sem perder tempo.
Tewdric riu.
– Sem perder tempo.
E mergulhou nos braços dela.
*******************
– Você deveria ter nascido menino. – disse Luxuriah risonha.
Depois de um dia maravilhoso com Huaru na cachoeira, Luxuriah tinha a sensação de estar flutuado. Estava se sentindo tão bem, tão bem, que quando Karen chegou,no fim do dia, com a roupa toda rasgada, suja e desgrenhada, ela nem reclamou. Tocou a irmã para o banheiro, deu um belo banho nela e agora, após a janta, terminava de trançar seus cabelos já secos.
– Eu sou melhor que todos os meninos juntos! – protestou a menina.
– Isso é verdade querida. – concordou Linore – Nunca vi tanta energia... Nem em Mhuu!
– Eu apenas sei me divertir! — Karen deu de ombros — Só isso!
– Aproveite enquanto pode. — Luxuriah verificou a trança de Karen e, satisfeita, amarrou a ponta — Quando você voltar para Luaprata, vai continuar seus estudos.
Para sua surpresa, Karen negou veementemente com a cabeça.
– Não quero mais estudar com a sacerdotisa. Quero ser paladina, como o Huaru.
– Andarilho do Sol, querida. — corrigiu suavemente a xamã — Entre os taurens, chamamos os paladinos de Andarilhos do Sol.
Luxuriah suspirou e encarou a irmã.
– Você tem certeza Karensky? — perguntou receosa — São anos de estudo, há todo um código de ética...
– Mas ser paladino é muito legal! — a menina ainda parecia ter fôlego para muito tempo ainda, tal era sua animação — Paladino usa uma armadura legal, bate com espada, bate com o escudo e ainda se cura! — os olhos dela brilharam de excitação — Eu quero muito ser assim!
Linore e Luxuriah apenas riram da explosão de Karen.
– Vamos deixar para falar sobre isso amanhã? — sugeriu a caçadora apertando carinhosamente a ponta da orelha da irmã — Você precisa descansar, afinal subir em árvores, cair de árvores e arrumar briga com uma criança tauren maior que você deve ter te deixado exausta não?
– Esqueceu de dizer que ganhei a briga! — falou a menina orgulhosa de si.
– Já te falei para não chutar no meio das pernas dos meninos. — censurou Luxuriah — Não importa o que Tewdric diga, esse é o último recurso que deve ser usado...
– Mas ele me chamou de bunda lisa! — se defendeu Karen — Quando meu bumbum apareceu na queda...
As gargalhadas foram inevitáveis.
– Certo, certo, bunda lisa, vá dormir. — mandou a irmã mais velha — Amanhã conversamos sobre seu futuro paladinesco! — e deu um beijo na irmã — Boa noite.
– Tá, tá... — disse parecendo chateada, mas mesmo assim retribuiu o beijo da irmã e ainda foi até Linore dar um beijo na taurena também — Boa noite para vocês duas. — e subiu correndo a escada.
– Você acha realmente que ela vai dormir? — perguntou a xamã.
– Com certeza! — Luxuriah começou a trançar os próprios cabelos — Quando deitar na cama essa energia toda some e ela dorme como se tivesse desmaiado.
A taurena, que até então trançava uma enorme manta, se levantou e foi até Luxuriah, pegando gentilmente a escova da mão dela.
– Deixe-me trançar seus cabelos. — pediu — Assim eles ficam mais firmes.
– Claro. — permitiu Luxuriah um pouco surpresa.
O toque de Linore era delicado, apesar das mãos muito maiores que as da elfa. Habilmente, desembaraçou os cabelos de Luxuriah e depois começou a fazer a trança. Enquanto realizava aquele trabalho, suspirou e confessou:
– Queria ter tido uma menininha — seus dedos continuavam o delicado trabalho — para poder fazer tranças e colocar laços de fita em seus cabelos...
– Seu marido não quis mais crianças? — perguntou Luxuriah lembrando que Huaru dissera que seus pais decidiram parar nele.
– Na verdade nós queríamos muito mais que uma criança. — revelou tristemente — Mas os espíritos não nos presentearam com nenhuma mais. Apenas nossos dois meninos.
– Sinto muito. — e a caçadora realmente sentia. Se seus pais não tivessem morrido, tinha certeza que sua família seria maior. Dhomm e Samanthah sempre falaram sobre querer um menino.
Linore, contudo, balançou a cabeça.
– Não sinta, as coisas são como tem que ser. — e parando momentaneamente o trabalho, colocou as mãos nos ombros de Luxuriah — Estou muito feliz em meu filho ter escolhido você.
Luxuriah sentiu o rosto queimar, e não soube o que dizer.
– Não fique envergonhada. — acalmou a xamã, voltando para a trança — Eu realmente não acreditava que Huaru conseguisse chegar em você em tão pouco tempo.
– Como assim?
– Ele não lhe disse? — o tom de Linore era surpreso — Ele está encantado por você desde sua última visita a Mulgore. Fez questão de acompanhar o irmão apenas para poder te encontrar. E veja só... Vocês já estão tão ligados...
Chocada com a informação, a mente de Luxuriah começou a conectar os pontos. Então, muito antes daquela noite, ele já se sentia atraído por ela... E esse interesse não acabou quando ele soube a sua história, muito pelo contrário. Seu passado não parecia atingi-lo.
– O q-que... — sua voz saiu sem força, e a elfa respirou fundo antes de continuar — O que ele disse?
Linore apenas riu.
– Acredito que seria melhor você perguntar diretamente a ele. — e amarrando a ponta da trança, concluiu carinhosamente — Cuide bem do meu bebê, certo?
– E-eu... — Luxuriah voltou-se para Linore — Eu gosto do Huaru. — admitiu surpreendendo asi própria por admitir aquilo para a xamã — Muito mais do que acho seguro para mim e para ele.
– Então, está tudo bem. — e apertando de leve as bochechas de Luxuriah, pediu — Poderia levar a toalha para o Hu lá no banheiro? Vou me deitar agora... O dia foi cheio, e quanto mais cedo eu dormir, mas rápido amanhã chega. — ela deu uma risadinha marota — Sinto falta do meu Raziel.
– Claro. — a caçadora sorriu — Eu levo.
Linore entregou uma enorme e felpuda toalha a Luxuriah, apertou uma última vez a bochecha dela, deu um carinhoso 'boa noite', e se retirou. Luxuriah encarou a toalha, e respirou fundo antes de se levantar.
Huaru já gostava dela.
Grey dizia que a amava e a deixou. Huaru nada disse; ele fez. Isso a deixava surpreendentemente feliz e assustada.
Chegou em frente a tenda que funcionava como banheiro e respirou fundo. Somente a perspectiva que iria vê-lo deixava-a com o coração aos pulos. Afastou a cortina e entrou. Huaru estava na banheira, passando um grande escovão nas costas. Quando a viu, ficou surpreso, mas logo em seguida abriu um grande sorriso. O estômago de Luxuriah se encheu de borboletas.
– Sua mãe foi se deitar. — disse ela mostrando a toalha — Pediu para eu entregar.
– Eu sempre esqueço. — admitiu aumentando o sorriso — Ela trançou seu cabelo? Ficou muito bonito.
Luxuriah passou a mão pelo cabelo e teve uma ideia. Pegou a ponta da trança e prendeu habilmente no alto da cabeça enquanto perguntava:
– A água está boa?
– Está ótima. Morna e perfumada.
– Que bom. — e começou a tirar a roupa.
Huaru pareceu surpreso, mas muito feliz. Luxuriah tirou toda a roupa e entrou na banheira. A água estava realmente ótima, mas muito melhor era o corpo quente no qual ela se aconchegou. Tomando cuidado para não molhar o cabelo, sentou-se em frente a ele, em suas coxas, e passou as pernas nos quadris de Huaru.
– Nunca pensei que tomar banho fosse tão bom. — disse o jovem rindo quando ela tomou o escovão de suas mãos e passou a escovar seus pelos.
– Qualquer coisa comigo fica melhor. — falou com um sorriso malicioso.
– Não duvido!
Huaru pegou um sabonete de ervas que estava ao lado da banheira e começou a ensaboar o corpo dela. Luxuriah viu que ele já estava excitado, mas queria provocá-lo um pouco mais. Largou o escovão e começou a passar as mãos no corpo dele.
– Huaru... — murmurou encarando-o.
– Fale. — disse fechando os olhos e saboreando as mãos dela em seu corpo.
– Você já estava apaixonado por mim desde Mulgore? — ela precisava ouvir aquilo da boca dele.
O paladino abriu os olhos, a encarou e depois riu.
– Mãe. — ele balançou a cabeça — Ela sempre fala demais... — e vendo que a caçadora ainda esperava a resposta, falou — Sim. É verdade. — e passando as mãos na cintura dela, completou — Desde a primeira vez que te vi.
Luxuriah apertou os lábios.
– Por que? Eu... Não...- suspirou — Por que?
Huaru pensou um pouco.
– Foram seus olhos. — e diante da surpresa dela, explicou — Seus olhos... Eu achava que você tinha olhos tristes... Isso me deu uma vontade imensa de proteger você daquela dor.
Luxuriah sentiu um aperto na garganta.
– Eu perguntei a Mhuu — continuou ele — sobre você. Ele não sabia muito, então decidi ir a Orgrimmar.
– Apenas para me proteger da dor? — indagou com a voz rouca.
– Sim. — e passando o dedo no rosto dela, suspirou — Parece loucura, mas foi assim. Eu sei que você não precisa de proteção. Você é forte. Mas seria uma honra ter o privilégio de te proteger.
Luxuriah não respondeu. Pelo menos não com palavras. O abraçou fortemente e o beijou com ânsia. Huaru correspondeu o abraço e o beijo, a estreitando ainda mais no seus braços. Toda aquela situação era nova e assustadora para ambos, só que aquilo não importava mais. Luxuriah se viu decidindo arriscar, querendo arriscar. Mergulhar de cabeça, sem se importar nas pedras que poderia encontrar no fundo daquele lago. Huaru, ao contrário, já tinha se entregado àquilo muito antes dela, e o sentimento que o tomava naquele momento era o êxtase da conquista. Ele a queria, e ela retribuía. O futuro e o passado não importavam.
Estavam prontos para se entregar àquele fogo, e o fariam, se uma figura não entrasse alegremente na tenda, sem ternoção do que acontecia ali.
– Ei Hu!! — Mhuu já chegou entrando no banheiro — Acabei de chegar, a mãe ta dormindo e... — ele parou chocado com a cena.
Luxuriah rapidamente mergulhou na banheira até o pescoço, escondendo o corpo nu. Huaru bufou de raiva e encarou o irmão, irado.
– Mhuu, vocênão pode ir entrando assim! — reclamou.
Mhuu parecia totalmente sem jeito.
– Eu não sabia que você tava acompanhado... Luxuriah? — ele ficou extremamente surpreso ao reconhecê-la – Por que você tá aqui? E o que você tá fazendo na banheira com meu irmão?!
– Não é da sua conta! — respondeu Huaru extremamente irritado — Vá embora!
Mhuu só então se tocou do que acontecia ali. Deu uma risada maliciosa, e colocou as mãos na cintura.
– Então irmãozinho, você conseguiu... — e deu uma longa olhada na banheira, focando no corpo submerso de Luxuriah.
Aquilo era demais para Huaru. Ardendo de ciúmes e raiva, ele passou a mão em seu martelo, que estava ao lado da banheira, e jogou com força contra o irmão. A arma chocou-se violentamente contra a cabeça de Mhuu, que levou as mãos ao local do machucado e saiu correndo do banheiro gritando:
– Mãe!!!!! O Huaru jogou o martelo dele na minha cabeça!!
Huaru se levantou da banheira, passou a mão na toalha, enrolou-se, pegou o martelo e saiu correndo atrás do irmão.
– Ele tava querendo ver minha namoradapelada! — gritou de volta.
Namorada? Luxuriah pôs a mão na testa e riu. Ela era namorada de alguém. Não amante. Namorada.
Ainda sem tirar o sorriso do rosto, decidiu que era melhor sair da banheira e impedir que seu namorado cometesse um assassinato.
Seu namorado.
É, parecia que Huaru estava mesmo destinado a mudar sua vida.
*****************
Ashrial encolheu as pernas e esfregou as mãos. Sua respiração condensava a sua frente e ela se aproximou um pouco mais da fogueira. A temperatura caíra drasticamente no início da noite, e Raziel atribuiu o frio à proximidade do grupo com as montanhas. Preocupados com a noite nublada, montaram acampamento em uma caverna já conhecida pelo grupo e combinaram o revezamento da vigia. Naquele momento era seu turno, mas mesmo em seu horário de descanso, a jovem elfa não tinha conseguido dormir. A adrenalina corria em seu sangue e a deixava completamente acordada, com um único pensamento na mente.
Seguir o rastro dos lobos não fora difícil. A matilha seguiu para o norte, perseguindo um grupo de pinotes. Seria fácil localiza-los e dar cabo nas feras antes que voltassem a atacar as ovelhas da Aldeia Narache. E fora seguindo esses rastros que Ashrial se deparou com pegadas que nunca vira antes. Poderiam ser de elfos, mas eram profundas demais. Elfos tem passos leves, não deixavam aquela marca na terra. Eram pequenas para serem de orcs e com certeza não eram de taurens, trolls ou goblins. Que tipo de criatura poderia ter uma pegada como aquela?
– Raziel. — ela tinha chamado — Olhe essas pegadas...
O tauren bufou e bateu o pé no chão quando reconheceu a marca.
– Humanos! — ele dissera alto o suficiente para que todos ouvissem.
O sangue de Ashrial gelou. Depois ferveu. Humanos. Aquela raça maldita que tinha matado seus pais! Então era assim que eram seus rastos. Gravou bem na memória, para jamais esquecer.
Nunca vira um humano. Nem queria. Seus sentimentos eram muito claros com relação àquela raça. Os odiava com todas as forças do seu ser. A saudade que sentia dos seus pais ainda palpitava cada minuto de seu dia. Não era a saudade crônica de Luxuriah; não era a saudade nostálgica de Kassyeh; nem mesmo como a saudade efêmera de Karensky; era uma saudade frustrante, saudade de algo tão bom mas que foi-se tão rápido. Não lembrava dos pais com a clareza que as irmãs mais velhas, nem tinha o beneficio de sequer lembrá-los que a mais jovem tinha. Lembrava o bastante para sentir falta daqueles poucos momentos, mas não era o bastante para sentir que realmente tivera pais que a amaram. Talvez por isso tinha aquele asco tão grande pelos humanos, pois eles não apenas roubaram seus pais, eles roubaram todo o seu futuro.
Nunca conversara a respeito daquela dor que latejava tão intensamente em seu peito com ninguém. Preferia que as irmãs pensassem que ela, como a caçula, tinha apenas um breve vislumbre de seus pais. Ambas já tinham seus próprios problemas e suas próprias dores para lidar, não queria jogar mais um fardo em seus ombros. E todo aquele ódio fazia sentir-se uma pessoa má, por desejar que todo um povo sumisse da forma mais cruel e dolorosa que o mundo conseguisse dar.
Porém, até mesmo aquela maldade era culpa deles.
As lágrimas arderam em seus olhos, mas ela rapidamente limpou. Elas eram a única forma que Ash tinha para se livrar de toda a raiva que a consumia por dentro, por isso detestava chorar. Tinha a impressão que, a qualquer momento, Luxuriah iria olhar dentro dos seus olhos e saber de tudo que se passava em seu coração.
Não queria que sua irmã soubesse a alma maculada que carregava.
Estava imersas nesses pensamentos quando algo no ar ao seu redor mudou. Suas orelhas instintivamente ficaram retesadas e sentiu a tensão tomar de conta de seu corpo. Não era nenhum som, nenhum vulto. Era algo diferente. Algo que estava ao seu redor, e parecia ter gosto, apesar de nada entrar em sua boca. Uma sensação de bem estar passou a tomar conta de seu corpo, como se estivesse provando uma droga.
– Raziel. — chamou ela baixinho, passando a mão no arco que estava ao seu lado.
O tauren abriu imediatamente os olhos e pegou sua besta. Seu movimento despertou os animais ao seu redor, que despertaram seus donos. Quando o grupo de 5 humanos surgiram no meio da escuridão, os encontrou acordados e prontos para o revide.
Ashrial logo descobriu de onde viera a magia que lhe chamara a atenção. Havia um bruxo naquele grupo, que emanava grande quantidade de energia arcana demoníaca. Luxuriah sempre lhe dissera que mantivesse distancia desse tipo de magia, pois ela era poderosa e viciante. Iria fazer exatamente o que a irmã dissera, e matar aquele bruxo antes de qualquer um outro no grupo.
Os humanos pareciam surpresos por não terem conseguido pegar os caçadores desprevenidos. Provavelmente não haviam previsto uma elfa sangrenta no grupo formado por taurens. Era provável que suas pegadas tivessem sido facilmente camufladas pelos cascos dos caçadores e como estava andando sempre junto de Raziel, seu pequeno corpo ficou camuflado entre os deles. Ash até sorriu quando o provável líder do grupo disse algo que parecia um palavrão para o caçador deles.
Tinha que focar no bruxo. Mandou seu ajudante contra ele e passou a atirar uma flecha após a outra. Mas ele também tinha ajuda. O pequeno diabrete passou a atacá-la e seu garrataque correu na mesma hora para ajudá-la.
– Não! — gritou Ash acima do barulho da batalha — No outro!
O imenso felino fez o que ela disse, mas o bruxo já tinha voltado sua atenção para ela. Ele riu, consciente que sua magia a afetava de forma diferente. Tinha que atordoá-lo, por isso pegou uma flecha com a ponta mais robusta e atirou contra o bruxo. Ele ficou sem ação, mas o efeito passaria rápido. Deu seu melhor tiro contra o diabrete e a criatura sumiu. Respirou aliviada e passou a se concentrar no bruxo. Porém ele soltou um poderoso feitiço e Meleth, o garrataque, caiu morto.
– Não!! — gritou Ash.
Ela não pensou. Correu e pulou bem em frente ao bruxo. Esticou a mão em direção a ele e fez exatamente o que Luxuriah dissera para não fazer: absorveu energia dele, deixando-o mudo por alguns segundos. Vendo que estava sem poder conjurar seus feitiços, o bruxo a atacou com um cajado, que Ash agilmente segurou com a mão. A magia formigou por seus braços e ela se sentiu mais forte. Seus olhos brilharam em um tom esverdeado mais intenso e o bruxo a olhou, amedrontado. A elfa conseguiu tomar a arma do inimigo e rapidamente o acertou bem no peito. a flecha atravessou o corpo dele, que caiu morto.
A luta continuava às suas costas, mas a sua atenção estava voltada para o cajado no chão. Ela o segurou e sentiu aquela mesma sensação de formigamento. Era estranho que se sentisse tão bem segurando aquela arma. Era como se ela pedisse para fazer parte dela.
Um grito chamou a sua atenção e ela percebeu que não podia ficar ali. Mas não conseguia se livrar daquela arma. Quando viu Raziel ser atingido, sua mente clareou e ela jogou o cajado no chão, quebrando-o com o pé. Um lampejo de energia demoníaca a rodeou e ela se sentiu mais forte. Suas flechas pareciam muito mais letais, enquanto atacava.
Logo a luta estava ganha. Todos os humanos foram mortos, mas ajudantes de Ash e de mais dois taurens também. Enquanto o líder do grupo analisava os mortos, Raziel se aproximou dela, com a expressão de preocupação. Os outros taurens a olhavam surpresos.
– Ash! — disse ele tomando sua mão — Você está bem? O que é isso?
Seu braço estava tomado por tatuagens verdes. Tatuagens de mana. Imaginava que seus olhos estavam em chamas, pois eles ardiam.
Estava cheia de magia arcana demoníaca.
Luxuriah não ia gostar nada daquilo.
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