Herdeiros da Guerra
5 Capítulo V – Bebidas, melodias e desafios
A música se espalhava alegre pelo ar. Enquanto um enorme tauren tocava um tambor feito de couro e madeira, um troll dedilhava com seus três dedos um instrumento de cordas que lembrava muito um violão. Acompanhando-os, estava um elfo sangrento com uma flauta, dando maciez à música forte.
Por mais que tentasse, Kassyeh não conseguia dar um sorriso que exprimisse toda a sua felicidade naquele momento. Sua casa estava enfeitada com luzes, desde o quintal até o jardim da frente. Havia flores e também fitas, mas o mais importante: todos os seus amigos estavam lá.
Usando um vestido vermelho muito decotado e cheio de detalhes prateados,Kassyeh se perguntava por que Tewdric lhe dera algo tão ousado para aquela noite. A julgar pelos olhares que vinha recebendo desde que aparecera, deveria ser proposital: o orc queria que todos sentissem inveja dele. Rindo consigo mesma, ajeitou a tiara de diamantes dada por sua irmã, que reluziam em seus cabelos, agora mais curtos, e continuou a andar entre os convidados, se certificando que todos eles estavam sendo bem servidos pelos goblins garçons contratados.
A guilda tinha aparecido em peso para a comemoração. Tewdric fizera questão de proclamar para todos que eles estavam oficialmente juntos. Ainda que Luxuriah torcesse o nariz, eles estavam casados. Kassyeh quase explodia de felicidade ao pensar nisso.
– Só na lei dos orcs. – insistia Luxuriah em dizer – Para nosso povo há mais protocolos, você sabe.
Mas aquilo não seria problema. A caçadora insistira para Tewdric jurar pelos seus ancestrais que depois daquela noite iria até Luaprata e seguiria os protocolos dos elfos sangrentos, com o que o guerreiro concordara de bom grado.
Naquele mesmo dia, quando os ânimos se acalmaram, Kassyeh fizera questão de mostrar que suas irmãs tinham quartos em sua casa nova. A maga fizera de tudo para que eles ficassem o mais parecido com os que tinham em Luaprata, mas o resultado foi desolador. No final das contas, as próprias ocupantes dos quartos disseram que cuidariam da decoração. Como a casa não era tão espaçosa quanto a que elas tinham na capital sin’dorei, além do quarto do casal, havia mais dois: Ashrial e Karensky dividiam um quarto, enquanto Luxuriah tinha um só para ela, em frente ao das mais novas.
– Por que Lux tem um quarto só para ela e a gente não? – perguntou Karen, chateada a Tewdric.
– É, por quê? – reforçou Ash.
– Porque Luxuriah tem idade pra trazer os namorados aqui e vocês não. – respondeu o orc.
As duas elfas menores coraram e não fizeram mais perguntas.
Depois do choro do dia anterior, Luxuriah estava calma, mas um pouco distante também. Parecia estar ponderando sobre algo.Achando melhor deixar a irmã absorver os acontecimentos, Kassyeh deixou-a em paz. Agora, com todos ali comemorando, a caçadora relaxara mais. A princípio, ela fora contra o convite estendido a toda guilda; ainda não esquecera a briga que quase matou a irmã. E a última coisa que queria, era ver a orquisa Lyndonna perto de Kassyeh novamente.
– Você não soube? – perguntou a maga – Lyndonna saiu da guilda por vontade própria.
Luxuriah dera um sorriso enigmático e alisou a cabeça de Totoso.
– É, talvez eu fique uns dias aqui após a festa... – comentou displicentemente.
Kassyeh preferiu não pensar nos motivos que levara àquela decisão.Todavia, tinha que admitir que saber que não ia topar com Lyndonna a deixava também mais relaxada.
Enquanto verificava se tudo estava correndo bem em sua festa, Kassyeh sentiu uma mão passar por sua cintura e a puxar para trás. O grito de surpresa logo foi suprimido pelo beijo deTewdric e pelas gargalhadas dos convidados.
– Tewdric! – censurou Kassyeh – Aqui não!
– Por que não? – perguntou o guerreiro estreitando-a nos braços – Só tem amigos aqui, e todos sabem que você é minha.
– Não são só os amigos que estão aqui. – lembrou a maga.
E era verdade. Não foi só a guilda que fora convidada. Como um guerreiro famoso, Tewdric tinha recebido os parabéns de várias personalidades da Horda e de Orgrimmar, inclusive do próprio Chefe Guerreiro. Garrosh Grito Infernal fora convidado, mas devido ao que ele alegou serem“compromissos da Horda”, mandou emissários e seis javatuscos gordos e suculentos para serem assados.
– Certo, certo... – o orc não parecia feliz em soltá-la – Por enquanto deixarei você ir. – e sussurrando no ouvido dela, acrescentou – Tenho planos para mais tarde.
Kassyeh ficou da cor de seu vestido e se apressou em ir onde estava Luxuriah, que acenava chamando-a.
– Se você deixar, ele te come na frente detodo mundo. – foi a primeira coisa que a caçadora disse,
– Lux! – protestou a outra enquanto olhava nervosamente para Kayliel, o elfo sacerdote que sentara na mesma mesa que Luxuriah.
– Tudo bem Kassyeh, — falou calmamente ele — já ouvi coisas piores de sua irmã.
Ambos riram da expressão da maga.
– E então, cadê nosso “grande líder”? – perguntou ironicamente Luxuriah antes de levar o cálice de vinho aos lábios.
– Não poderá vir. Mas mandou representantes e presentes. – respondeu Kassyeh antes de acrescentar – Tewdric não se importou, mas eu sim.Para quem elogia tanto o “campeão da Horda”, o Chefe Guerreiro tinha a obrigação moral de vir!
– E desde quando Garrosh tem algum senso de moral, Kass? – falou a caçadora secamente – Ele sempre teceu comentários maldosos sobre vocês dois. É um preconceituoso, que pensa que só o povo dele presta.
– Shhh! – alertou a irmã – Você não deve falar mal do Grito Infernal por aqui Lux.
– Mas ela está certa. – disse Kayliel – O próprio Lorde Regente Theron anda descontente com Grito Infernal. — o sacerdote percebeu que a conversa incomodava a maga, então mudou de assunto – Kassyeh, você poderia pedir a um dos garçons que tragam vinho? Queria beber algo diferente, mas aparentemente os taurens estão monopolizando a cerveja...
– De novo? Vou saber por que Mhuu não larga os barris e deixa um pouco de cerveja para os outros convidados. Com licença. – e foi em direção aos taurens.
Quando Kassyeh se afastou, Luxuriah se encostou à cadeira. Tinha cedido aos pedidos da irmã e usava um vestido preto, muito mais provocante que o da outra. Fizera questão de sentar um pouco mais afastada do tumulto da festa, e assim poderia observar tudo melhor. Inclusive fiscalizar as irmãs menores, que zanzavam pelo lugar.
– Você não parece contente aqui. – comentou Kayliel quando Kassyeh já estava longe o suficiente para não ouvir.
– Orgrimmar não é um lugar tão seguro quanto dizem. E apesar de todos aparentemente aceitarem o relacionamento deles, ainda vejo alguns olhares tortos vindos de certas pessoas.
Luxuriah não disse abertamente, mas era lógico que se referia a Garrosh. A caçadora nunca aceitou o fato de Thrall ter passado a liderança para o Grito Infernal. Talvez tudo não passasse de desavença pessoal, pois quando trabalharam juntos, Luxuriah e Garrosh, eles se desgostaram mutualmente desde o começo.
Porém, Kayliel sabia que Kassyeh enfrentaria aqueles olhares do qual falava Luxuriah em qualquer lugar, inclusive em Luaprata. Ele sabia exatamente o que era a discriminação por amar alguém de outra raça. Talvez soubesse muito mais que qualquer outro.
Pois amar uma humana não era uma coisa muito saudável naqueles tempos.
– Kassyeh vai suportar qualquer coisa por Tewdric. Ele também está disposto a isso. Eles serão felizes. – concluiu o sacerdote.
– Sua humana não estava disposta a suportar por você, Kayliel? – quis saber Luxuriah, com um toque de censura na voz.
Kayliel esvaziou o copo antes de responder:
– Eu não quis que ela suportasse. – falou com o tom de quem não queria tocar naquele assunto.
Só que nem foi preciso o aviso silencioso do sacerdote, pois logo que este terminou suas palavras, dois taurens imensos apareceram em frente à sua mesa. Um deles carregava um grande barril de cerveja, enquanto o outro trazia quatro canecas nas mãos.
– Tá aqui Kayliel, pra você não reclamar! – Mhuu riu alto, já meio embriagado – Vamos beber essa excelente cerveja com vocês. A propósito, esse feioso aqui é meu irmão, Huaru. – e apontou para o tauren com as canecas.
– Acho que me lembro de você. – disse Luxuriah analisando o imenso tauren paladino com as canecas – Lá do penhasco.
– Olá moça. – disse Huaru um pouco envergonhado – Sim, nos conhecemos de lá.
– O meu irmãozinho entrou na guilda hoje! – Mhuu falava alto e já foi se sentando, empurrando Kayliel para o lado – Vai ser muito útil tê-lo por aqui!
Huaru parecia sem jeito de ser o foco das atenções e também pelo fato do irmão está bastante alegre devido à bebida. Luxuriah percebeu a vergonha do tauren e então apontou para uma cadeira ao lado da dela e falou:
– Sente-se conosco Huaru. Você é bem-vindo na guilda e na festa da minha irmã.
O tauren assentiu e sentou.
– Obrigado moça.
– Luxuriah. – disse a caçadora sorrindo – Pode me chamar de Luxuriah. E passe as canecas para cá, vamos ver se essa cerveja é boa mesmo.
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Ashrial nunca foi muito chegada em festas, principalmente naquelas em que não conhecia ninguém. Diferentemente de Karensky, que borboleteava pela festa enchendo os convidados de perguntas, ela preferia ficar mais afastada, praticando tiros nos besouros e lagartos que passavam por ali.
Também usava um vestido verde, escolhido por Luxuriah, e bem mais comportado que o das irmãs. Não que a irmã mais velha não tivesse tentado colocar algo bem depravado nela, mas Ashrial conseguia ser mais envergonhada que Kassyeh. Além do mais, se sentiria muito mal com todo mundo a olhando como olhavam para suas irmãs. Sabia que não ficaria bonita como elas e passaria a festa se escondendo.
A verdade, ela já passava a festa se escondendo mesmo, não teria mudado muita coisa.
Enquanto mirava em mais um pequeno lagarto que passava por ali, sua atenção foi chamada pela chegada da irmã caçula. Revirou os olhos e procurou não perder o foco do lagarto.
– Ash! – gritou Karen tirando sua concentração.
A flecha passou longe do lagarto, que a olhou antes de sair correndo. Ele estava rindo dela, tinha certeza!
– Karen! – protestou – Eu errei por sua causa!
Karen não parecia se importar nenhum pouco com a frustação da irmã.
– Vamos, vamos! O Ted vai medir a gente no machado! – a empolgação da outra era evidente.
– Não tenho mais idade para ser medida Karen, eu já cresci! – disse já pegando outra flecha para tentar matar o lagarto gozador, que agora passava na frente dela, sem um pingo de medo.
– Ah, vamos! Vamos! Vamos! – insistiu Karen pegando em seu braço e puxando – Aposto que você só estar com medo de eu ter crescido mais que você!
Ashrial pensou em dizer que era óbvio que a outra crescera mais, porque ela própria parara de crescer. Só que não adiantava falar com a caçula, era como falar com uma porta. Para evitar uma discussão desnecessária, acabou acompanhando-a em direção ao centro da festa, onde Tewdric colocara seu enorme machado em pé e o segurava.
– Achei ela Ted! – gritou Karen animada enquanto se aproximava. – Tava escondida lá atrás!
– Eu não estava escondida! – protestou Ashrial – Estava praticando!
– Você vai ter tempo para praticar depois Ash! – disse Tewdric tão animado quanto Karen – Vamos ver se você cresceu mais.
– Tewdric ela é uma elfa quase adulta já. – quem falou foi um troll que estava ao lado do orc – Já ta bem crescidinha pra mim... – havia malícia na forma como ele falara.
Foi tão rápido que quase ninguém viu quando aconteceu. Mas Tewdric pegou o troll pela gola da roupa e jogou na fogueira mais próxima. O troll gritou e saiu correndo e rolando tentando apagar o fogo, enquanto o orc dizia em alto e bom tom:
– Não quero ninguém com gracinha com essas meninas, entendido! São crianças e ponto!
Ashrial não aguentou. Teve um acesso de risos junto com Karen. Como ele parecia com Luxuriah!
Então, diante da demonstração de carinho excessivo da parte do guerreiro, Ashrial não disse mais nada e se submeteu alegremente à medição. Desde que Kassyeh e Tewdric ficaram juntos, sempre que via as irmãs menores de sua elfa, ele as media, usando seu machado, para saber o quanto elas tinham crescido. Tornara-se uma tradição.
– Vamos ver... – Tewdric analisava a altura de Ashrial, que se encostara ao machado. Era impressionante como ele podia erguer aquilo facilmente, já que a arma era maior que as elfas e quase tão grande quando o orc – Ei Ash! Você cresceu um pouquinho! – e marcou com a unha a altura dela no cabo do machado.
– Sério?! – se surpreendeu a caçadora iniciante analisando suas marcas – Eu cresci um pouco mesmo! – e vibrou.
– Aposto que não cresceu mais que eu! – proclamou Karen solenemente se encaminhando altiva para o machado.
– Não conte com o ovo dentro do pinote Karen! – disse Tewdric divertido.
Àquela altura vários membros da guilda se reuniram para ver a medição. A maioria estava tão bêbada que se acabava de rir com a cena tão comum. Medir a altura dos filhotes no machado era uma tradição dos orcs.
– Ih! Karen como você cresceu! — disse o guerreiro mostrando a marca – Daqui a pouco vai poder empunhar um machado!
– Sério?! – os olhos da menina brilharam – Um grandão assim?? – e apontou para o machado de Tewdric.
– Um maior que esse! – disse ele rindo com a empolgação dela – Tão grande que você vai precisar amarrar um dragão pra levantar!
O carinho que o orc sentia por aquelas pequenas era evidente e recíproco. Karen correu de braços abertos e abraçou o orc com carinho. Como não podia deixar de ser, ele jogou-a para cima inúmeras vezes, bem mais alto que o normal, provavelmente por causa da bebida que o guerreiro consumia desde o inicio da festa.
– Tewdric! – exclamou Ashrial em alerta – Ela vai...
O aviso veio tarde. Assim que Karen aportou nos braços dele mais uma vez, a menina vomitou bem em cima dele. É claro que todos que estavam presentes caíram na risada, inclusive o noivo. Ashrial riu tanto que as lágrimas escorriam de sua face. Kassyeh, ao ver a cena, correu em direção aos dois, antes que Luxuriah percebesse o que estava acontecendo.
– Eu tentei avisar! – disse Ashrial entre risadas.
O orc não parecia nem um pouco preocupado.
– Foi só um pouquinho, nada demais. – e colocou a menina no chão. – Acho que exageramos. Tá tudo beleza? – perguntou preocupado para Karen.
– Desculpa Ted! – pediu a menina com as bochechas vermelhas.
– Que nada guria, tá tudo bem.
– Tewdric! – Kassyeh chegou abrindo caminho entre os convidados que ainda morriam de rir com a cena – Ela vomitou em cima de você de novo? – e pegando um guardanapo em cima de uma das mesas tentou dar um jeito na armadura dele – Você vai ter que tirar pra limpar. – e olhando pra irmã, perguntou – Você sujou o vestido?
Karen, que usava um vestido rosa cheio de babados, fez que não com a cabeça.
– Só sujei o Ted.
– Vamos lá dentro limpar isso. – chamou a maga.
Tewdric seguiu obedientemente a companheira, com Karen e Ashrial em seus calcanhares. A pequena estava preocupada se levaria uma bronca da irmã e Ashrial não estava nem um pouco preocupada em se acabar de rir da situação.
Quando chegaram dentro da casa, subiram para o quarto para não atrapalhar o movimento dos goblins na cozinha. Kassyeh fez o noivo tirar a armadura e ir tomar um banho, enquanto ela usava um pano perfumado embebido em ervas para limpar a armadura. Karen olhava tudo com seriedade e tensão.
– Desculpa Kass. – pediu seriamente – Não vai acontecer mais.
– Tudo bem Karen, Tewdric não ficou chateado. – tranquilizou a outra.
– Mas Lux vai ficar quando souber. – avisou Ashrial.
A menor encheu os olhos de lágrimas.
– Lulu vai ficar chateada comigo e não com você. – disse Tewdric saindo do banheiro só se toalha – Olha, não teve nenhum dano, eu to limpo, a armadura tá limpa...
– E você só de toalha na frente das meninas... – advertiu Kassyeh vendo que as irmãs começaram a olhar para as paredes, envergonhadas.
Tewdric apenas riu.
– Vou mostrar como não estou chateado com você Karen! Vou deixar você usar minha armadura! – e pegou o peitoral de aço – Olha, sua irmã deixou bem cheirosinho.
– Eba!!! – comemorou a menina já levantando os braços para que ele colocasse o peitoral nela.
Ashrial bem que pensou em pedir também, mas isso só faria Karen tirar sarro com ela depois.
– Tewdric, ela não vaiaguentar andar com isso... – Kassyeh já pensava que Luxuriah ia ter mais um motivo pra ficar chateadacom o cunhado.
– É só o peitoral, ela aguenta. — e pôs o peitoral na menina, que quase caia para trás, mas se firmou no último minuto – E para Ash não ficar com ciúmes, o elmo!
A outra elfa não conteve os pulinhos enquanto Tewdric colocava o elmo em sua cabeça. As duas irmãs seolharam e caíram na risada. O coração de Kassyeh se encheu de emoção. Ver aqueles sorrisos tão sinceros e alegres era como revisitar o passado.
– É pesado... – admitiu Karen quando começou a andar pelo quarto em direção ao espelho recém-adquirido pela irmã – Como você aguenta Ted?
– Comendo muita carne! — e soltou uma risada – Fígado e tripas!
– Eca! – exclamou as três elfas.
– Isso incomoda um pouco nas orelhas... – falou Ashrial ajustando o elmo também em frente ao espelho – Mas ficou superlegal!
– Por que vocês não vão se exibir um pouquinho lá fora? – sugeriu o orc – Vaiser divertido.
Antes que Ashrial abrisse a boca para dizer que chamar a atenção não estava em seus planos, Karen deu um grito agudo de felicidade,pegou na mão da irmã e puxou-a. Ou tentou, pois ela mal saia do lugar.
– Bora Ash! Bora! Bora!
– Ok, ok! – assentiu a outra. Afinal com aquele elmo, mal iam ver seu rosto – Só ande perto de mim, porque se você cair, não vai conseguir se levantar!
– Oba!! — comemorou a caçula – Obrigada Ted!
E saiu caminhando com dificuldade. Se conseguisse levantar os dois pés do chão ao mesmo tempo com aquele peso, provavelmente a menina estaria pulando de felicidade.
Kassyeh viu as irmãs se afastarem com o coração cheio de ternura. Tewdric não apenas a amava, mas amava sua família também. O que alguém poderia querer mais naquele mundo cruel e cheio de ódio?
Tewdric tinha aquela resposta.
Tão logo se viu sozinho com sua elfa, o guerreiro tirou a toalha e a agarrou por trás, enquanto ela ainda olhava a porta. Estava ardendo de desejo, querendo possuir sua companheira desde que a vira naquele vestido vermelho.
– Kassyeh... – sussurrou ele em seu ouvido – Quero você. Agora.
– Tewdric! – exclamou Kassyeh surpresa – Está cheio de convidados lá embaixo, e as meninas...
Só que ele não estava disposto a ouvir. Virou-a e aplicou um beijo ardente, enquanto a encostava na parede. Kassyeh ofegou quando as mãos dele subiram seu vestido e apertavam suas coxas. O guerreiro interrompeu o beijo apenas para baixar sua cabeça, afastar o tecido do seu caminho para que pudesse sugar seus seios. A elfa queria protestar, pedir para que ao menos pudesse tirar o vestido, mas o desejo logo nublou sua mente e a única coisa que conseguia pensar era que queria que ele a possuísse o mais rápido que fosse. E o orc não a fez esperar muito. Suspendendo-a na parede, Tewdric afastou a calcinha dela apenas o suficiente para penetrá-la. Kassyeh gemeu e passou as mãos pelo pescoço dele, colando seus seios desnudos no peito do guerreiro, que passou a segurá-la pelo traseiro, enquanto arremetia para dentro dela com força.
Kassyeh ofegava, agarrada em Tewdric, sem se importar com o vestido amassado, o cabelo bagunçado, nem nada. A possibilidade de alguém abrir aquela porta a sua procura a deixava amedrontada, mas a adrenalina era só mais um tempero naquele mar de sensações.
Não demorou muito para os dois chegarem ao clímax. Foi rápido, intenso e extremamente inebriante. Tewdric a segurou por um tempo a mais, deixando que seus corpos relaxassem, respirando profundamente o perfume dos cabelos de Kassyeh, e então, sem que conseguisse pensar em mais nada além da existência dela, murmurou com sua voz rouca:
– Eu amo você Kassyeh.
A maga sentiu os olhos se encherem de lágrimas. O abraçou com mais força, enterrando o rosto no ombro dele. Era a primeira vez que ouvia aquelas palavras, e a sensação era indescritível.
– Eu também amo você, Tewdric. – e com a voz embargada, acrescentou – Muito mais do que você imagina.
E ficaram em silêncio, abraçados, por mais alguns momentos. Então se beijaram mais uma vez. Relutantemente se separam e sem dizer uma palavra, pois elas não eram mais necessárias, se preparam para voltar à festa.
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Luxuriah parou de beber quando começou a perceber que sentia vontade de dançar. A festa estava mais animada que nunca; a música se tornou mais alegre, possivelmente pela quantidade de álcool ingerida pelos artistas, e muitos começaram a abandonar as mesas e dançarem livremente pelos espaços vazios do lugar.
Era impossível não sorrir com a animação do local. Os trolls fizeram uma pequena roda e começaram a disputar quem conseguia, no embalo da música, dar o chute mais alto. Uma trollesa druida, que Luxuriah sabia se chamar Tappi, se transformou em um enorme urso de cabeleira vermelha e pôs-se a dançar em cima de uma mesa. Até mesmo Kayliel, o sério sacerdote, se levantou e tirou Bysteka, uma tauren de sua mesma classe para se juntar à turba. Não demorou muito e Mhuu se levantou aos tropeços e pegou Opiel, o pequeno goblin bruxo e saiu girando-o, numa dança estranha onde nitidamente o outro não queria se envolver.
– Mais cerveja?
A atenção da caçadora foi chamada pelo irmão de Mhuu, o paladino Huaru, que ainda estava na mesa.
– Não obrigada. – dispensou – Não quero correr o risco de começar a dançar.
– E porque não? – perguntou o tauren surpreso – Não quer participar da alegria de sua irmã?
– Já estou participando só em não matar aquele orc. – disse seriamente.
Para sua surpresa, Huaru começou a rir.
– Certo, entendo. – disse ele como se não estivesse acreditando muito nas palavras dela – Mas não quer participar mais ativamente?
Luxuriah o encarou e então entendeu.
– Está me chamando para dançar, Huaru?
O tauren baixou a cabeça, um pouco envergonhado. A elfa tinha certeza que, se ele não tivesse tanto pelo no rosto, estaria vendo-o corar. Um sentimento bom tomou conta do peito de Luxuriah. Não havia maldade nos olhos daquele paladino, da mesma forma que não havia em suas irmãs. Percebeu então que o mundo que havia sido tão cruel com ela e com Tewdric ainda não havia corrompido aquela alma.
– Se você aceitar moça – disse timidamente – poderia dançar comigo?
Bem que ela queria ter dito não. Mas, após tantos anos, uma pessoa que não fosse suas irmãs despertou uma simpatia imediata em Luxuriah. Isso era tão raro, que ela simplesmente não poderia dizer não.
– Tudo bem. – ela disse surpreendendo a si própria e se levantando – Só não estranhe se eu pisar no seu pé.
Huaru se levantou tão animado que acabou derrubando a cadeira em que estava sentado. Luxuriah riu e ele coçou o quadril, envergonhado.
– Faz tempo que não danço moça, acho que eu que vou acabar pisando no seu pé. – confessou ele tentando disfarçar a vergonha pela visível empolgação de dançar com a elfa.
– Já disse pra me chamar de Luxuriah. – corrigiu-o, mas sem deixar de sorrir – E acho que tenho a solução para a questão dos pés, venha.
Sem entender porque de repente ficara animada em dançar com o jovem tauren, Luxuriah o arrastou para o meio da festa, onde praticamente todos já dançavam. Ela segurou nos ombros dele e então pôs os pés em cima dos pés dele. Huaru ficou um pouco surpreso, mas logo tratou de passar a mão na cintura da caçadora, para que pudesse segurá-la sem derrubar.
– Pode dançar agora! – gritou Luxuriah por cima da música alta.
Não foi necessário repedir o pedido. Huaru começou a dançar, desajeitamente a princípio, com medo de derrubar a sua companheira. Quando viu que ela estava se divertindo, apertou mais o braço ao redor da cintura da caçadora, e passou a dançar alegremente, dando giros que arrancaram gritos de surpresa dela. As pessoas ao redor viram a dança alegre e inusitada e começaram a abrir espaço para os dois, que logo estavam no centro das atenções. Luxuriah estava tão entretida, admirada consigo mesma por estar gostando daquilo, que nem ligou quando viu suas irmãs chegaram, vestindo partes da armadura de Tewdric e visivelmente surpresas em ver a irmã mais velha naquela situação, e começaram a rir e bater palmas junto com os outros.
Nossa, ela devia realmente estar bêbada, pois estava rindo alto, adorando aquilo!
Huaru também demostrava está muito feliz com a situação. Além de também estar as gargalhadas como Luxuriah, ele arriscava cada vez mais fazer passos difíceis. Girava e girava, pulava, girava novamente. Depois, segurou Luxuriah pela cintura e jogo-a para o alto, pegando-a logo em seguida, com uma destreza impressionante. Os convidados riram mais alto e batiam palmas ao ritmo da música. Logo a atenção de toda a festa estava neles. Kassyeh e Tewdric voltaram do interior da casa e logo estavam juntos nas palmas com os convidados.
Luxuriah perdeu a noção do tempo. Não sabia quanto tempo ficou nos braços de Huaru, mas sabia que fazia anos que não se divertia daquela forma. O paladino despertara nela uma simpatia inusitada, com seus olhos inocentes e negros. Quando a música acabou e a dança também, ela precisou se segurar nele para não cair. O sorriso parecia colado em sua boca e não estava disposto a sair. Huaru fez uma mensura para seu par, e Luxuriah retribuiu. Estavam se olhando e rindo quando as palmas foram se acabando aos poucos, até sobrar apenas uma pessoa aplaudindo.
As palmas dessa única pessoa chamaram a atenção ao persistirem quando todos já haviam parado, e Luxuriah acabou olhando em direção ao som, curiosa.
E o sorriso morreu no rosto tão rápido como se nunca estivera ali antes.
Grey estava ali, parado, aplaudindo, com uma expressão sombria no rosto.
– Bela dança. – falou após parar as palmas – Belo casal também.
A raiva de vê-lo ali, tão perto de suas irmãs foi tanta que as palavras não lhe saíram da boca. Ficou olhando para Grey com o rosto pálido, como se tivesse visto um fantasma. Não havia percebido sua presença antes, pois ele usava um manto negro com capuz, que escondia seu corpo e seus os cabelos prateados. E agora estava completamente despreparada para encará-lo ali, com tantas pessoas por perto. Por um momento achou que iria vomitar, tamanha era sua tensão e raiva.
– Você de novo elfo! – gritou uma voz enfurecida.
Quem falou foi Tewdric. O guerreiro saiu da roda formada pelos convidados e passou a mão no machado, que ainda estava fincado no chão com a marca do crescimento de Ash e Karen. Quando chegou bem perto de Grey, ele cuspiu no chão e encarou o paladino.
– Esse é meu casamento elfo! – rugiu – Apenas a guilda e uns poucos foram convidados!Me dê um bom motivo para estar aqui antes que eu arranque sua cabeça!
Grey não parece intimidado e sorriu.
– Lhe darei seu motivo. – disse antes de tirar seu manto e revelar o tabardo da guilda presente em peso ali.
Tewdric ficou tão surpreso quanto os outros. Grey estava ali, vestido o tabardo da guilda, com um sorriso de triunfo tão grande no rosto que deixou o orc enojado. Enquanto o guerreiro encarava o elfo, decidindo se devia ou não parti-lo ao meio, sem se importar com os protocolos, Luxuriah pareceu recobrar os sentidos. O choque de ver Grey dentro de sua guilda foi o suficiente para tirá-la de seu estado de inércia.
Como, se perguntava, como ele pudera? Como fizera? E como ela fora burra de não pensar que mais cedo ou mais tarde Grey iria fazer algo do tipo? A presença dele em Orgrimmar por tanto tempo devia tê-la alertado que ele tentaria alguma coisa. Tentaria entrar na vida de suas irmãs, para que Luxuriah não tivesse outra saída a não ser assumi-lo. Ele ainda não entendera que um futuro com ela era impossível?
Já de posse de seus movimentos, afastou-se de Huaru em direção a Mhuu, que agora dançava ao som do silêncio com um barril de cerveja, e puxou-o violentamente pelo chifre.
– Pode me dizer o que significa isso Mhuu? – gritou Luxuriah apontando para Grey.
Mhuu pareceu desnorteado com a raiva da elfa, mas tentou focar sua vista para onde ela apontava.
– Ah! O paladino novo! – disse com a voz enrolada – Ele entrou hoje no lugar de Lyndonna... É conhecido do meu maninho ali, são da mesma Ordem. Legal não é?
Ela não respondeu, pelo menos não com palavras. Enfiou um soco bem forte na cara do tauren, que caiu para trás, nocauteado. Depois, caminhou em direção a Grey. Porém, antes de chegar até ele, alguém segurou em seu braço.
Era Huaru.
– Desculpe moça, mas o que tá acontecendo? – perguntou confuso.
– Seu irmão fez a maior merda que ele poderia ter feito Huaru! – vociferou ela ainda olhando para Grey – Não devia ter permitido que esse idiota entrasse na guilda!
– Mas por quê? – insistiu o jovem tauren, para então questionar – O senhor Grey lhe fez algum mal? Por que se fez, a Ordem pode...
– Não se meta novato! – rosnou Grey para Huaru — Estou aqui para resolver meu problema com esta senhorita, apenas isso.
Era o que Luxuriah temia. Ele iria falar. Iria meter suas irmãs na história dos dois. Iria obrigá-la a contar o motivo... O motivo pelo qual ela jamais seria feliz com ninguém. O sangue gelou em suas veias quando Grey fez menção de se aproximar dela.
“Não!” gritava Luxuriah dentro de sua cabeça “Não me obrigue a contar Grey!”
Mas ele não conseguiu chegar até ela. Kassyeh se interpôs no caminho do paladino, interrompendo sua caminhadapara a surpresa de todos, pois ela parecia furiosa. E Kassyeh nunca fora vista com tanta fúria em seu olhar. E pela primeira vez ela realmente parecia irmã de Luxuriah.
Se não estivesse com tanta raiva Tewdric a teria levado para o quarto para possui-la naquele momento. Ela estava simplesmente irresistível com aquela fúria no olhar.
– Escute aqui senhor Grey! – a palavra “senhor” foi dita em tom de escárnio pela maga – Este é meu casamento! Você pode ser um convidado por ser da guilda, mas mesmo assim há normas de conduta que o senhor deve saber – ela cruzou os braços em atitude desafiadora – e uma delas é que ofensas e brigas não são permitidas em festividades assim! Então se estar aqui para...
Kassyeh não terminou a frase, pois Grey a empurrou para o lado, para continuar o caminho em direção a Luxuriah. Kassyeh se desiquilibrou ao pisar no vestido e caiu no chão.
Não foi preciso nada mais. Tewdric soltou um rugido selvagem e avançou para cima do paladino. Grey conseguiu puxar a espada a tempo de aparar o golpe do guerreiro, para depois chutá-lo e tomar distância para invocar feitiços de proteção.
– Tewdric! – Kassyeh gritou tentando chamar a atenção de seu companheiro, mas já era tarde; o orc não se importava se não estava usando nenhum tipo de armadura, queria apenas arrancar sangue daquele que se atrevera a tocar em sua fêmea.
A guilda abriu espaço, mas agora não havia música nem alegria, apenas apreensão em relação ao combate. Se a guarda chegasse ali naquele momento, ambos seriam punidos por duelar dentro da cidade. Mas ninguém ousava se aproximar dos combatentes, que batiam suas armas uma na outra com tanta fúria que faíscas saltavam para todos os lados.
Luxuriah assistia a cena sem saber o que fazer. Olhou para Huaru, que parecia tão perdido quanto ela, e então olhou para Kassyeh, que se levantara e agora rodeava a disputa, como se quisesse arrancar o companheiro dali. Decidiu que deveria intervir. Não iria deixar seus fantasmas do passado estragar uma noite tão importante para a sua irmã.
Todavia, antes que Luxuriah pudesse impedir algo aconteceu. Esse ‘algo’ mudou drasticamente a vida da maioria dos presentes ali, mas com certeza as mais afetadas foram as vidas da elfa primogênita e da caçula. Aconteceu tão rápido que, mesmo anos depois, ninguém soube explicar exatamente como as coisas chegaram àquele ponto. Tewdric e Grey davam seus golpes mais poderosos, mas o orc estava em evidente desvantagem. A falta da armadura já produzira diversos ferimentos em seu peito, enquanto Grey continuava intacto, tanto devido a sua magia quanto ao seu resplandecente peitoral. Karen percebeu isso e decidiu que devia entregar a armadura a Tewdric, para que ele não se machucasse. Sem noção do perigo que poderia correr ao se por entre dois experientes guerreiros, a menina se aproximou de Tewdric o mais rápido que pode tão logo ele fora lançado para longe de Grey. Só que o paladino não jogara o orc em direção à casa sem ter um plano. Tewdric estava exatamente onde Grey queria que ele tivesse. Rapidamente, o paladino tirou o escudo do braço e o lançou em Tewdric.
Assim que o fez, percebeu que Karen se aproximava do orc.
– Droga! – gritou ele.
Mas já era tarde.
O escudo bateu no peito de Tewdric, que caiu para trás, e ricocheteou em Karen, que foi lançada contra uma pilha de barris de cervejas.
– NÃO! – gritaram Ashrial, Kassyeh e Luxuriah, em uníssono.
A menina soltou um grito alto de dor ao cair no chão. Mas o pior ainda estava por vir. Os barris de cerveja começaram a balançar violentamente, dando mostras que viriam abaixo.
E cairiam bem em cima de Karen.
Mesmo que não tivesse atordoada pelo golpe do paladino era óbvio que, vestindo a pesada armadura de placas,a menina não conseguiria sair em tempo de evitar que os barris a atingissem. Luxuriah correu desesperada em direção à irmã, já sentindo as lágrimas lavarem seu rosto, quando percebeu que não chegaria a tempo. Pois os barris despencaram em direção a Karen, soterrando-a, antes que pudesse tirá-la de lá.
Os gritos das irmãs preencheram o lugar. As forças deixaram as pernas de Luxuriah, que caiu e joelhos em frente à pilha de barris.
– Não... – a dor era tão intensa que a sua voz quase não saiu, rasgada de dor.
Ela estendeu a mão em direção à pilha, orando a Nascente do Sol que aquilo não fosse verdade, que sua irmãzinha não tivesse morta embaixo daquele entulho. Ela faria qualquer coisa, qualquer coisa!
Felizmente, o destino estava do lado de Luxuriah naquele dia. Enquanto o desespero ainda tomava de conta dela, nublando seus ouvidos para os gritos das outras irmãs que se aproximavam correndo e para a balbúrdia dos convidados à sua volta, a pilha de barris mexeu-se e foi violentamente atirada para o lado. Huaru surgiu, com Karen em seus braços e envolta em luz. Aparentemente o paladino conseguira, no último momento, se jogar tão rápido em cima da pequena elfa, que nem ao menos foi visto por ninguém. Ele a protegera, e agora a curava. Karen estava com os olhos abertos, extremamente assustada, e agarrada em Huaru. Mas estava viva.
O alívio foi tão grande que Luxuriah não conseguiu se levantar de onde estava. Apesar de amparada por Kassyeh e Ashrial, que tentaram levantá-la, Luxuriah não saiu do lugar. Só conseguia olhar para Huaru, resplandecendo de luz com Karen aninhada em seus braços.
Percebendo o estado que a elfa se encontrava, Huaru se aproximou, se ajoelhou em frente a elfa, e depositou Karen, sã e salva, nos braços da irmã.
– Ela está bem. – disse o jovem tauren em tom consolador – Não estava muito ferida, a armadura de Tewdric absorveu todo o dano. Ela estava apenas desnorteada.
Luxuriah abraçou a irmã com força, em prantos.
– Lux? – Karen falou com a voz hesitante – Você viu? O escudo me jogou longe!
– Vi. – Luxuriah fez um enorme esforço para a voz não sair trêmula – Mas já está tudo bem querida, já está tudo bem.
Kassyeh e Ashrial abraçaram as irmãs, visivelmente aliviadas por tudo estar bem. Quando o abraço findou, Luxuriah tratou de tirar o peitoral de Karen, para conferir se estava mesmo tudo bem. E a pequena elfa então se lembrou do que a deixara naquela situação.
– Cadê o Tewdric?! – perguntou preocupada – Ele tá bem não é?
– Tô aqui baixinha!
Tewdric veio andando rápido, sem se importar com os ferimentos que cobria seu peito. Além dos cortes que sangravam, uma mancha roxa escura surgira onde o escudo de Grey batera. O orc com certeza devia estar sentindo dores horríveis, mas sorria para Karen.
– Não é qualquer coisinha que me derruba pequena! – disse ele se agachando ao lado de Kassyeh, que soltou uma exclamação de horror ao ver o estado do marido.
– Tewdric! – Kassyeh levou a mão ao peito dele – Você está ferido!
Antes que Tewdric pudesse dizer qualquer palavra de conforto, foi envolvido por uma luz intensa. Huaru, ainda de joelhos em frente às elfas, agora curava o guerreiro.
– Que legal! – Karen exclamou com os olhos brilhando – Isso é muito melhor do que o que a sacerdotisa faz! – e olhando para a irmã mais velha, perguntou – Posso ser paladina Lux? Posso? Hein? Dar uma escudada assim forte, PAF! – a menina fez o gesto de jogar o escudo – E ainda curar!!
– Você não é normal Karen! – exclamou Ashrial limpando as lágrimas de alegria por ver a irmã menor a salvo – Você foi atirada e quase soterrada e agora fala que isso é legal?!
Quem estava próximo riu da situação. Contudo, apesar de todos estarem aliviados com o final da situação, alguns ainda não estavam satisfeitos com o desenrolar da situação. E Kayliel, Opiel e Tappi chegaram onde estavam os noivos e depositaram no chão Grey, que parecia não fazer esforço para se soltar das pesadas mãos que o seguravam.
– O que vamos fazer com esse aqui hein? – guinchouOpiel.
– Por mim ele vira espeto de elfo. – disse a trollesa colocando as mãos na cintura – Quem faz fuzuê na festa dos outros merece apanhar!
– Acho que quem deve decidir o que vai acontecer com ele são os noivos e Luxuriah. – opinou o sacerdote – Afinal a festa é eles, e a atingida foi a irmã mais nova de Lux e Kass.
Grey ficou calado, não se defendeu. Apenas olhou fixamente para Luxuriah.
– Por mim eu parto esse elfo em dois! – exclamou Tewdric se levantando e encarando Grey de frente – Um duelo elfo! Proponho um duelo honrado! Só nós dois, fora dos muros da cidade!
Antes que Grey pudesse dizer alguma coisa, Luxuriah se levantou e tocou no ombro do cunhado.
– Espere Tewdric. Grey veio aqui para resolver um assunto comigo. – e encarando o paladino, continuou – Vou resolver de uma vez por todas.
Grey conseguia ver nos olhos dela a resolução. Depois de anos se escondendo, negando o que eles tinham, ela parecia disposta a esclarecer as coisas. Contudo, o paladino teve o pressentimento que as coisas não sairiam da forma como ele esperava.
– Luxuriah... – finalmente Grey decidiu se pronunciar – Foi um acidente, você sabe. Eu jamais machucaria sua irmã...
– Eu sei Grey. – respondeu a caçadora, surpresa com a calma com que proferiu suas palavras – E só por isso não vou jogar você para a guilda e pedir sua cabeça.
Houve alguns protestos por parte dos convidados. Com certeza havia muitos ali que queria fazer exatamente o que Luxuriah dizia. Talvez até mais.
– Vamos. – chamou Luxuriah– Vamos conversar Grey. Em outro lugar
E fez menção de sair.
– Lux! – Ashrial segurou a irmã pelo braço – Você tem que ir mesmo? Eu não confio nesse cara aí! — e lançou um olhar raivoso na direção de Grey.
– Nem eu! – exclamou Karen segurando na outra mão de Luxuriah – Apesar de ele lançar um escudo assim, PAF, bem legal, eu não confio nele também!
Kassyeh, no entanto, começa a desconfiar do que poderia haver entre sua irmã e Grey. Havia algo na expressão deles que se acendia quando se encaravam. A maga não sabia se aquilo era bom ou ruim, mas percebera que, o que quer que fosse, seria resolvido naquela noite. E se Luxuriah não queria compartilhar com elas, havia um bom motivo para isso.
– Meninas – falou Kassyeh calmamente – deixem Luxuriah resolver as coisas dela. Karen, você precisa descansar, isso foi muito estressante. Ash, você não comeu nada ainda. As duas vão para dentro de casa, comer algo e depois cama. Já está na hora.
Luxuriah sorriu em agradecimento para a irmã.
– E vocês pessoal – falou alto a caçadora se dirigindo à guilda – continuem a festa! Não vamos nublar a alegria por isso! Tem cerveja e carne! Comemorem com os noivos!
E diante do olhar surpreso de Tewdric e Kassyeh, ela saiu, sendo seguida de perto por Grey.
A música recomeçou. Um pouco tímida no começo, mas depois ganhou força, e logo todos estavam festejando, como se nada tivesse acontecido. Kassyeh levou as irmãs menores para dentro da casa, enquanto Tewdric reclamava de não ter partido o elfo ao meio. Tudo pareceu voltar aos eixos.
Mas não era isso que Huaru sentia. Algo o estava incomodando. Grey sempre fora um paladino conhecido por seu orgulho e prepotência, o que fazia que muitos na Ordem não gostassem dele. O jovem tauren estava intrigado com o que havia entre Luxuriah e Grey. Era óbvio que era algum tipo de relacionamento, mas havia algo por trás daquilo, algo que com certeza viria à tona naquela noite. Huaru sabia também que não tinha nada a ver com isso. Contudo, não gostara das atitudes do elfo naquela noite e não iria deixar Grey sujar o nome de sua Ordem fazendo algo contra Luxuriah. Por isso, iria verificar.
Foi com essa ideia que ele se afastou sorrateiro da festa, pegando a direção que os dois elfos tomaram. Ninguém reparou em sua saída, nem mesmo seu irmão, que sem nenhuma noção do que acontecera, ainda gritava ‘Briga!Briga’ deitado embaixo de uma mesa, agarrado a um Renegado tão bêbado quanto ele próprio.
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