Herdeiros da Guerra

6 Capítulo VI – Sonhos despedaçados


Silêncio.

Um cervo andava despreocupado procurando grama verde e ramos baixos para se alimentar. A brisa balançava levemente as folhas, espalhando o perfume das rosas pelo ar. Nada parecia indicar perigo iminente ou mortal.

Um cenário enganador.

Luxuriah não se atrevia a sair do lugar. Fios do seu cabelo negro se soltaram da trança e caíram sobre seus olhos, mas ela os ignorou. A flecha já estava preparada, o arco retesado. Precisava apenas do anglo ideal e abateria sua presa.

Apenas uma oportunidade. Teria apenas uma oportunidade.

De repente, o vento mudou de direção. A jovem caçadora xingou mentalmente. O cervo levantou a cabeça e farejou o ar. Com medo de perder a presa, atirou imprudentemente, rezando para que o anglo estivesse certo. A flecha saiu cortando o ar com um zumbido fraco, mas não encontrou a carne tenra da presa, e sim se meteu entre as pedras próximas ao animal. O cervo, sentindo agora a ameaça, saiu galopando na direção oposta a que Luxuriah estava.

Praguejando, ela tirou os cabelos dos olhos, saiu de seu esconderijo e pôs-se a perseguir a presa o mais rápido que pôde. Enquanto corria, atirava uma flecha atrás da outra, todavia o animal era veloz e foi ganhando distância. Naquele momento, o som de uma flecha zumbiu próximo ao seu ouvido, e cortou o ar até o cervo. A flecha acertou o animal em cheio, que cambaleou e caiu morto na mesma hora.

Um gemido de frustração saiu da boca da jovem elfa. Era o segundo animal que perdia naquele dia.

– Você precisa se concentrar mais. – ouviu uma voz grave falar.

Um elfo sangrento saiu de seu esconderijo entre as árvores. Trazia um imenso arco na mão e vinha sendo seguido de perto por um tigre tão branco quanto a neve. Seus passos eram tão leves que não se ouvia nada mesmo quando ele caminhou sobre o chão coberto de folhas secas. Seus cabelos eram negros e longos e voavam soltos ao redor de seu rosto. Luxuriah fez uma careta quando ele seaproximou.

– Eu estava quase o pegando. – disse levantando o queixo, desafiadora – Você me atrapalhou.

O elfo a olhou intrigado. Ele era imenso, muito mais alto que Luxuriah e a analisou por um momento antes de cair na gargalhada.

– Você é uma péssima mentirosa Lulu! — e foi em direção à presa morta.

– Já falei para não me chamar de Lulu!- disse ela revoltada, seguindo-o – Eu não sou mais um bebê, pai!

– O quê? Você falou alguma coisa Lulu? – perguntou ele singelamente enquanto se ajoelhava ao lado do cervo e arrancava a flecha – Acho que os guardas do portão da cidade não ouviram seu grito.

Enquanto ela praguejava, ele ria. Por fim, Luxuriah desatou a rir também. Não adiantava reclamar com seu pai, só faria com que ele a provocasse ainda mais. Por fim, se dando por vencida, se ajoelhou ao lado dele, enquanto ele analisava o animal abatido.

– Sem traços de peste. – disse seu pai aliviado – Acho que vamos jantar bem esses dias. – brincou passando rapidamente o dedo sujo de sangue no nariz da filha.

– Eca pai! – gritou Luxuriah limpando rapidamente o sangue – Ainda deixo de caçar com você!

– Duvido, você me ama! – e disparou a rir – Você é igual a sua mãe, ela vive dizendo que vai me deixar se eu não parar de deixar as flechas espalhadas no chão da casa...

Ambos se olharam e riram. Luxuriah sempre se sentia a pessoa mais feliz do mundo quando estava ao lado de seu pai. Mesmo em tempos difíceis como aqueles em que viviam, ele nunca deixara de ser confiante e bem humorado. A resposta disso estava ali, no cervo abatido. Muitos já tinham deixado de caçar na Floresta do Canto Eterno, desde que o flagelo corrompera aquelas terras. Porém, seu pai dizia que não deviam desistir nunca de procurar um animal saudável, que isso era como desistir de seu lar. A jovem olhou o animal morto aos seus pés. Adorava quando o pai provava que estava certo.

– Bem, já está na hora de ir. – disse o pai se levantando e olhando para o horizonte – Sua mãe vai ficar preocupada se demorarmos.

Luxuriah assentiu. Seu pai lhe entregou o arco e a aljava de flechas e em seguida pegou o imenso animal e pôs nos ombros. Era incrível como ele carregava aquele animal imenso com a mesma facilidade que o abatia. Eles começaram a fazer o caminho de volta, voltando para a estrada. Enquanto andavam, seu pai começou a entoar baixinho uma canção élfica tenra, que falava sobre as maravilhas feitas por seu povo. A voz dele era potente, porém harmoniosa. Timidamente, Luxuriah começou a cantar junto, e logo estavam no mesmo ritmo, na mesma sintonia. Foram cantando todo o caminho, até chegarem a sua casa.

Naquela época, eles não moravam em Luaprata propriamente dita. Apesar de a família ter uma casa no centro da cidade, seu pai fazia questão de manter uma habitação perto dos lagos e da floresta. Talvez fosse sua natureza de patrulheiro, ou talvez simplesmente não gostasse da maior parte dos protocolos de convivência do seu povo. Sempre fazia questão em dizer que se sentia melhor olhando a floresta do que as imponentes construções da capital sin’dorei.

Ao chegarem perto da casa, um falcodraco dourado, que estava voando displicente no jardim, foi imediatamente em direção a Luxuriah, roçando suas asas transparentes no rosto da elfa.

– Rocco! Então você voltou para casa seu traidor! – disse ela brava, mas com um sorriso no rosto – Como você vai me ajudar a caçar se corre de medo quando vê outro falcodraco?!

– Devia ser uma fêmea e ele achou que não estava vestido apropriadamente. – gracejou seu pai – Eu o entendo!

Franzindo o cenho, Luxuriah sacudiu a cabeça incrédula. Seu pai detestava pompa, e suas vestes de couro eram as favoritas. Não conseguia ele imaginar não aparecendo para sua mãe por estar mal vestido.

Como se lesse seus pensamentos, sua mãe apareceu na porta da casa. Ela era uma elfa simplesmente fabulosa. Alta e esguia, ela tinha a pele dourada, mais escura que a do marido. Seu rosto era afilado e emoldurado por cabelos loiros que também refletiam uma cor acobreada. Seus lábios vermelhos se abriram em um enorme sorriso quando os viu chegarem. Luxuriah olhou para o pai de esguelha; ele sempre ficava com a expressão de bobo apaixonado quando via a esposa sorrir daquele jeito.

– Que bom que vocês chegaram, estava ficando preocupada. – disse ela se aproximando – Como foi a caça?

– Olha que animal lindo que a Lux abateu. – disse o pai orgulhoso, Quando Luxuriah o olhou, surpresa, ele piscou o olho, cúmplice – Dará uma boa janta não?

– Ah, querida, parabéns! – sua mãe alisou seu cabelo – Estou orgulhosa! Com certeza poderemos saborear essa carne, mas não hoje.

O elfo franziu a testa.

– Você vai sair?

– Fui convocada para uma reunião do conselho.

Luxuriah sentiu o sangue gelar nas veias. Na última vez que aquilo acontecera, a partida do príncipe Kael’thas para Terralém fora anunciada e dias tensos precederam a reunião. Seu pai provavelmente sentiu a mesma coisa, pois seu rosto endureceu e seus olhos se estreitaram.

– O que é dessa vez? – perguntou ele, com a voz endurecida pela raiva.

– Não sei. – respondeu suspirando – Mas talvez dessa vez você deva ir comigo Dhomm, o Lorde Theron ficaria grato com sua presença...

Dhomm não respondeu. Caminhou com o cervo até uma pedra de mármore no canto do jardim e depositou a presa abatida em cima dela. Luxuriah e a mãe se entreolharam, ansiosas, mas cada uma com um desejo diferente. Enquanto a mais velha desejava intensamente a companhia do marido na ocasião, Luxuriah rezava para que seu pai não fosse.

– Samanthah... – começou ele – Ficarei com as meninas aqui. Sei que você quer muito que eu vá – falou rapidamente quando ela abriu a boca para retrucar – mas nós dois sabemos que essas reuniões e seus protocolos não são meu forte. O que o conselho decidir, eu, como patrulheiro, acatarei e farei. Mas não entrarei em discussões prolongadas vendo cada um daqueles nobres querendo se exibir como um pavão para Lorde Theron. Basta ele saber que eu o apoiarei.

Samanthah cruzou os braços, descontente.

– Eu sou uma dessas nobres, Dhomm. – falou magoada.

– Eu sei. Por isso vou sujar esse lindo vestido com sangue. – e sorriu perverso.

Em um piscar de olhos, a conversa tensa se tornou numa perseguição hilariante. Quando percebeu as intenções do marido, Samanthah começou a correr na direção oposta, pronta para salvar seu belo vestido das garras do marido. Gargalhando, Dhomm correu atrás dela, com as mãos sujas de sangue estendidas prontas para o ataque. Luxuriah não se conteve e começou a rir e a seguir os pais.

Era sempre assim. Dhomm era um elfo atípico. Apesar de nunca fugir de suas responsabilidades, conseguia ver as coisas com leveza e, principalmente, quebrar a postura tão centrada de sua esposa. A jovem se perguntava como aqueles dois tinha se apaixonado, se casado e permanecer juntos com duas personalidades tão diferentes.

– Para Dhomm! – gritava a mãe correndo pela casa e usando os pilares da sala como proteção – Ash e Karen estão dormindo e Kass está estudando! Não quero barulho! — mesmo dizendo isso ela gritou quando ele avançou.

– Não sou eu quem esta gritando! – disse ele entre risos quando a esposa fugiu novamente de suas mãos – É você! – e avançou de novo.

– Vou te transformar em um bloco de gelo! – ameaçou ela correndo para as escadas.

– Serei o bloco de gelo mais sensual do mundo! – rebateu ele correndo atrás.

A perseguição iria prosseguir por muito mais tempo se uma pequena criatura loira não surgisse na escada. Ashrial vinha sonolenta, com os cabelos assanhados e segurando uma boneca.

– Já tá na hora da janta? – perguntou a menina bocejando.

– Oi minha princesinha! – exclamou Dhomm antes de tomar a menina nos braços e jogá-la para o alto – Hoje teremos cervo assado!

– Dhomm! – gritou Samanthah horrorizada – Você a acordou e ainda a sujou de sangue!

Dhomm olhou para a esposa, e depois para a filha em seus braços, que ria animadamente, e tomou uma decisão.

– Ok, vou ser justo. – disse solenemente – Vou acordar Karen também.

Não havia dia ruim em sua casa naqueles dias. Luxuriah só conseguia rir vendo sua mãe tentando impedir o marido de acordar a filha mais nova, sem sucesso, lógico. Logo em seguida Dhomm descia com as duas filhas menores no colo, girando-as e fazendo-as gargalhar. Então Kassyeh, curiosa, deixou a biblioteca, segurando um grosso livro, e foi ver o que se passava na sala. Logo, Dhomm puxara as filhas mais velhas e estavam em uma grande brincadeira pelo chão da casa, de onde o vestido da mãe não escapou impune.

Era sempre assim. Muito amor, muitas risadas. Apesar do momento difícil que seu povo passara, muito pouco chegava até aquela família. Como irmã mais velha e tendo acabado de atingir a idade madura para seu povo, Luxuriah tinha consciência do que acontecia, ainda que seus pais tentassem lhe preservar sempre. Kassyeh, um pouco mais nova, só se interessava pelos livros, e pouco sabia. Ashrial, ainda criança, só queria ser igual à irmã mais velha, brincando de arco e flecha e fingindo que sua boneca era um ajudante, e Karen era praticamente um bebê ainda. Seus pais faziam questão de mantê-las a salvo, protegidas, e cobertas de amor.

Se Luxuriah soubesse que em pouco tempo aquilo iria se acabar abruptamente, talvez não tivesse se chateado tanto quando seu pai decidiu ensinar Ash a imobilizar um animal a usando como exemplo.

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As lembranças daqueles dias vinham como cascatas na mente de Luxuriah. O silêncio pesado entre ela e Grey apenas aumentavam seu mergulho no passado. Quem poderia imaginar que já faziam quase uma década que separava aquela tarde quente da noite fria à sua volta? Sentia como se tivesse acontecido ontem... Como também parecia ter acontecido há uma eternidade...

Andaram até saírem de Orgrimmar. Luxuriah fez questão de levá-lo o mais longe possível da turba de orcs que caminhavam por ali. Era melhor que o que tinha de revelar a ele fosse dito em um lugar tão diferente de onde tudo acontecera. Assim, ficaria mais fácil lidar com os odiosos sentimentos que surgiam em sua mente sempre que os fatos vinham a sua memória. E a terra seca de Durotar combinava muito bem com seu interior. Não era assim que ficara depois de tudo? Seca e rachada como aquela terra?

– Luxuriah...

A voz dele cortou o silêncio da noite e fez com que a pela dela se arrepiasse. Juntou coragem para virar e encará-lo. Esperava que sua expressão mostrasse toda a determinação que não tinha.

– Hoje Grey. – murmurou ela como se tivesse medo de perturbar o silêncio – Hoje você saberá de tudo. E depois disso estará livre para seguir seu caminho. Sem mim.

Os olhos deles faiscaram.

– Eu te amo Luxuriah. – disse com fervor – Nada do que você vai me dizer mudará isso.

Ela sorriu tristemente.

– Veremos.

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– E o mais importante: não deixe seu pai manter as meninas acordadas até tarde!

Luxuriah assentiu com a cabeça enquanto observava a mãe colocar o cajado nas costas. Ela estava belíssima. Usava suas melhores vestes e na cabeça ostentava uma tiara brilhante, com dois pontos luminosos flutuando lentamente. Às vezes pensava que seria legal ser maga, apenas para usar aquelas coisas lindas que sua mãe usava. Claro, se tivesse nascido com a mesma aptidão para a magia que Kassyeh.

– Pode deixar mãe, eu cuido de tudo por aqui. – garantiu.

Samanthah abriu um lindo sorriso.

– O que seria de mim sem você querida? – disse a mãe carinhosamente, ajeitando uma mecha de cabelo que se desprendera da trança de Luxuriah atrás da orelha – Você é a única que consegue manter o louco do seu pai na linha.

Mal Samanthah terminou de proferir essas palavras e ouviu-se o som de algo se despedaçando na sala. O grito de triunfo do pai e de Ashrial apenas reforçou o que ambas sabiam: mais um dos vasos da casa sucumbira no treino de arco de flecha da menor. Luxuriah conteve o riso; o rosto de sua mãe estava em chamas.

– Vou embora antes que eu transforme seu pai em ovelha e lance no meio dos garrataques! – disse enraivecida, mas abrandou a expressão antes de dar um beijo na testa da filha – Até mais Lux.

E começou a conjurar um feitiço. Logo a mãe sumiu diante de seus olhos e ela suspirou. Não negava que gostaria de ir também. A preocupação sobre o que estava acontecendo em Luaprata, e como aquilo poderia afetar sua família, a consumia. Contudo, não havia nada a fazer, a não ser resguardar a integridade física da casa para impedir seu pai de ter como destino final se tornar um casaco de lã.

Na sala parecia haver uma festa. As risadas das meninas se misturavam com as gargalhadas do pai e o ronronar do enorme tigre branco deitado no canto da sala. Dhomm havia enfileirado vários vasos da casa e incentivava Ashrial a acertá-los com seu pequeno arco e flecha. Kassyeh estava sentada na enorme poltrona ninando Karen em seu colo. A mais nova se aconchegara a irmã e chupava um dos dedos, observando com interesse o ‘treino’ de Ash.

– Aco. – disse a caçula apontando para a mão de Ashrial.

– Isso mesmo Karen! – incentivava Kassyeh – É um arco!

– Logo você vai ganhar um, princesa! – disse o pai se aproximando e pegando a mais nova no braço – Quer brinca de upa upa?

– Upa upa! – gritou a pequena.

– Nem pensar! – disse Luxuriah chegando e tomando a irmã das mãos do pai – Ela acabou de comer pai. Se o senhor a jogar para cima, ela vai vomitar!

– Upa upa... – repetiu Karen meio chorosa quando voltou para o colo de Kassyeh.

– Deixa de ser estraga prazer Lulu. – disse o pai pegando Karen novamente – Só vou jogar um pouquinho!

– Não! – Luxuriah tomou Karen novamente – E para de me chamar de Lulu! – e entregou Karen a Kassyeh novamente.

Dhomm apenas riu e voltou sua atenção novamente para Ashrial, que rodeava o pai dando pulinhos, pedindo atenção.

– Pai, me ensina mais! Me ensina mais! – pedia a menina.

– Não, agora é hora do jantar! – Luxuriah tomou a dianteira e recolheu o arco de Ashrial – Pai, a perna de cervo já deve estar boa, porque não vamos lá para fora comer?

– Vejam meninas, a Lulu tentando salvar os vasos da mamãe! – as meninas riram e Luxuriah franziu a testa para o pai – Ok, vamos,vamos, to morrendo de fome.

Todas se sentaram à mesa do jardim, enquanto Dhomm tirava perfumados pedaços de carne assada do pernil que assava na fogueira. A maior parte dos elfos gostava de uma comida mais refinada, mas seu pai sempre dizia que nunca comera tão bem quanto ao morar com anões e que ali aprendera a apreciar o sabor da carne bem assada e da cerveja bem forte. Essas histórias eram constantes na maior parte das vezes que comiam, mas de uns tempos para cá, Luxuriah notara que seu pai falava cada vez menos nessas aventuras. E ela sabia o motivo.

A maior parte das famílias dos elfos morrera durante o ataque de Arthas. A família de Luxuriah, apesar do flagelo e da guerra, estava ali, viva e bem. Seus vizinhos, os Correventos, não tiveram a mesma sorte. Ouvira seu pai falar com tristeza do destino de Sylvana, grande amiga dele e de sua mãe. Sabia também que poucas crianças sobreviveram à tragédia, e aquelas que ficaram sem pais foram acolhidas por aqueles que perderam seus filhos. E tudo acontecera porque eles foram deixados à própria sorte por seus antigos aliados.

– Comam enquanto está quente. – alertou o pai – A mamãe deixou comida mágica para acompanhar, mas duvido que seja tão boa quanto esse churrasco!

– Urraco! – gritou Karen levantando os bracinhos.

– Vou cortar um pedaço pra você Karen. – disse Kassyeh ajeitando a irmãzinha no colo enquanto cortava a carne em pedaços pequenos.

– Corta pra mim também Lux! — pediu Ash empurrando o prato pra irmã

– Certo. – Luxuriah pegou o prato quando Karen fez o movimento para meter a mão no prato da outra. – Não Karen, você tem o seu.

– A Kass vai ser uma boa mamãe. – disse Dhomm sorrindo – E a Lulu também.

Luxuriah jogou a faca no pai, que desviou sem esforço. O objeto passou perto de Rocco, que saiu voando, assustado.

– Não me chame de Lulu! – vociferou a jovem.

O pai caiu na risada.

– Ou não! Acho que só você mesmo Kass!

– Vou ter muitos, muitos bebês! – disse a menina abraçando Karen com força – Tantos que o papai a mamãe vão precisar construir uma casa maior!

– Ah, mas para isso seu esposo vai ter que ser um guerreiro muito bravo. – falou o pai com uma falsa seriedade – Para poder passar por cima de mim. E da sua mãe, claro.

Foi a vez de Luxuriah cair na risada.

– Guerreiro? Do jeito que essa aí gosta é de um livro, vai se casar com um paladino bem careta, daqueles que vivem estudando na biblioteca de Dalaran no meio das traças!

Todos riram, menos Kassyeh, que fez uma careta para irmã.

– E você vai casar com um... um... – a menina fez força para lembrar algo que fosse bem ruim. – Um... – e olhou para o pai em busca de ajuda.

– Orc? – sugeriu o pai.

– Isso, com um orc! – exclamou vitoriosa.

As risadas continuaram, e Kassyeh ficou chateada por não conseguir ofender a irmã. O jantar prosseguiu divertido até que a maior parte da carne havia sido consumida (por Dhomm, lógico), e Luxuriah, com muito esforço, pôs as irmãs na cama no horário certo. Depois, convenceu o pai a arrumar a bagunça, pois provavelmente sua mãe chegaria estressada e sem paciência para brincadeiras e foi atendida prontamente.

Como havia acabado de atingir a maturidade e era a mais velha, ela tinha permissão de ficar acordada até mais tarde e decidiu aproveitar esse tempo treinando armadilhas no jardim. Seu pai, claro, fez questão de ajudá-la e quando a noite se tornou muito fria, entraram na casa e continuaram o treino na sala, próximo à lareira.

Foi com surpresa que Luxuriah viu a mãe voltar naquela mesma noite. Reuniões do conselho normalmente demoravam alguns dias, devido aos protocolos e a pompa a que os elfos seguiam para manter suas tradições. Era estranho um membro do conselho está em casa no mesmo dia em que começara a reunião.

– Imagino que Lorde Theron não teve muita paciência para os protocolos. – brincou Dhomm piscando paraa filha quando a mulher apareceu na sala, assustando os dois.

Porém, o tom descontraído se esvaneceu quando percebeu o rosto pálido da esposa. Luxuriah também notou e logo tratou de tirar toda sua tralha do meio da sala e correr para pegar um pouco de néctar doce para a mãe. Ela parecia tão assustada quando se tivesse encarado o próprio Lich Rei.

– Mãe, o que aconteceu? – perguntou quando voltou com a taça na mão.

– Querida, você está bem?

Samanthah fez que sim com a cabeça, e se encaminhou para a poltrona mais próxima.

– Sim, estou bem, só estou... Surpresa demais.

Luxuriah e Dhomm se entreolharam. O que teria acontecido naquela reunião para que a maga chegasse naquele estado em casa?

– Querida, como foi a reunião? Vocês discutiram o quê?

A maga balançou a cabeça.

– Não discutimos nada. — revelou sombriamente — A reunião foi um comunicado.

– Como assim? – estranhou o patrulheiro – Eles convocam vocês para discutir algo que já está decidido? Como isso é possível?

– É falta de consideração com o conselho! – exclamou Luxuriah e seu pai concordou com a cabeça – Isso com certeza não teria acontecido se tio Aethas estivesse...

Luxuriah parou de falar quando a mãe levantou a mão, interrompendo-a.

– Vocês dois, parem. – Samanthah pegou a taça que estava na mão da filha e sorveu todo o líquido – O Lorde Theron fez um acordo com o orc Thrall, Chefe Guerreiro da Horda. Um acordo de ajuda mútua.

Silêncio.

Dhomm levantou as sobrancelhas, surpreso. Luxuriah, boquiaberta, olhava para a mãe como se esperasse que ela começasse a rir e dissesse que era uma piada. Só que Samanthah não era uma pessoa dada a piadas. Enquanto a filha mais velha continuava pasma, Dhomm pareceu voltar à realidade devagar. Sentou-se também em uma poltrona e cruzou as mãos no colo, encarando a esposa.

– Isso significa... – começou ele mais calmo do que Luxuriah esperava que ele soasse – Que agora fazemos parte da Horda.

– Quê??? – gritou Luxuriah – A Horda???

Samanthah fez que sim com a cabeça. Ela parecia desolada.

– Soldados orcs e renegados devem chegar em breve a Luaprata. – a maga suspirou.

– Renegados... – murmurou Dhomm pensativo – Imagino que Sylvana deve ter intermediado as negociações, não?

– Aparentemente, sim.

Luxuriah achava que aquilo era demais.

– E vocês aceitaram isso assim, sem dizer nada? – explodiu a jovem caçadora – O Flagelo devastou nossas terras e vamos nos aliar a mortos-vivos? E orcs? – ela estava revoltada.

– Querida, — começou a mãe o mais paciente que pode – como eu disse não fomos consultados. A decisão coube ao Lorde Theron.

– Eu acho que Lorde Theron fez a coisa certa. – falou de repente Dhomm.

As duas elfas o olharam como se ele tivesse dito que queria virar um morto-vivo.

– Pai, o senhor tem noção do que tá falando? – perguntou Luxuriah revoltada.

– Tenho querida. – respondeu calmamente – Nós estamos sozinhos, sem nenhum apoio. Precisamos de aliados.

Samanthah sacudiu a cabeça, em negativa.

– Querido, há séculos somos aliados dos humanos...

– E eles nos abandonaram quando mais precisávamos deles! — retrucou o patrulheiro enraivecido – Você estava lá Sam! Você viu o que eles fizeram com o príncipe e com aqueles que voltaram para salvar nossas terras! Muitos dos nossos morreram tentando salvar Lordaeron, e o que ganhamos? Um belo chute no traseiro!

Luxuriah e a mãe se entreolharam. Dhomm não era alguém que costumava perder a calma, mas agora ele estava nitidamente nervoso. Levantou-se e passou a andar de um lado para o outro pela sala, como um tigre numa jaula.

– Eu vi toda a família Correventos perecer diante de meus olhos. E o que restava dos Andassol! Seus pais Samanthah! E muitos outros! Famílias inteiras! Mortas!– explodiu.Seus olhos pareciam faiscar de ódio — Eu vi corpos de crianças espalhados pela floresta enquanto eu levava minhas filhas nos braços, rezando para que atrás da próxima árvore não houvesse um monstro que as tomassem de mim! – ele deu um soco na parede, criando um buraco onde sua mão ficou – E a Aliança não fez nada! Nada! Deixou que morrêssemos feito moscas!

– Pai... – Luxuriah murmurou, mas não conseguiu encontrar nada que pudesse dizer. Sim, ainda lembrava-se do que presenciara, mas nunca tinha pensando que a culpa podia estar naqueles que considerava os aliados de seu povo.

– Ninguém veio... – a raiva de seu pai esmoreceu um pouco e a tristeza parecia estar tomando conta dele – Ninguém...

Samanthah se levantou e foi em direção ao seu marido. Segurou em seu rosto e o fez olhar para ela. Depois, o beijou singelamente e o abraçou. Luxuriah queria sumir naquele momento. Pela primeira vez teve a impressão de estar presenciando uma cena que não lhe era devida.

– Talvez... – disse Samanthah lentamente – Quando a Aliança ouvir desse acordo mande mensageiros com desculpas e novos acordos... – sua voz soou esperançosa.

– Não conte com isso Sam... – seu pai parecia mais calmo, mas sua voz ainda soou dura — A Aliança nos abandonou. – ele suspirou – Nunca pensei que diria isso, mas a Horda pode ser a nossa salvação... Podemos ficar em paz agora...

Samanthah não disse mais nada, apenas o beijou novamente. Era óbvio que a maga desaprovava o envolvimento do seu povo com a Horda. Apesar de sempre concordar com o pai em tudo, daquela vez Luxuriah achava que ele estava errado.

***************

– Muitos pensavam como sua mãe. – Grey olhou para o céu de Durotar – Eu era um deles.

– Eu também. – admitiu Luxuriah – A coisa toda soava meio absurda. Lutamos contra a Horda durante tanto tempo, e de repente fazíamos parte dela...

Eles haviam caminhado até a praia. Era interessante notar como o deserto encontrava o mar. Parecia uma combinação totalmente incompatível, no entanto, ali estava. Era como a Horda e os Sin’dorei. O deserto e o mar. E ambos se encontraram e se uniram.

– Eu não estava em Luaprata naquela época. – o paladino ficava imaginando onde a história que ouvia iria parar – O que aconteceu?

– Você sabe que meus pais morreram pouco tempo depois não? – perguntou ela.

– Sim, sei. E você passou a cuidar de suas irmãs.

Luxuriah sorriu tristemente.

– Queria que tudo tivesse sido tão simples como soa...

Grey a fitou atentamente.

– Então me conte como realmente foi.

Sim, era o que faria.

****************

Fazia muito tempo que Luxuriah não via Luaprata tão movimentada. Só que naquele momento não eram apenas elfos sangrentos que andavam pelas belas ruas da cidade.

Nunca vira um orc de perto antes, mas agora eles estavam ali aos montes. Estandartes com o símbolo da Horda foram erguidos em vários pontos da cidade, e um mural com os dizeres “Ordens do Chefe Guerreiro” foi colocadono Bazar, a rua que reunia o maior número de lojas e que também abrigava o banco. De mãos dadas com Kassyeh e Ashrial, Luxuriah assistia o desfile daqueles que agora eram seus aliados. E não havia somente orcs, percebeu. Havia também trolls, de uma tribo que se chamava Lançanegra, taurens, grandes seres com feições temíveis, mas de voz calma e olhar manso. E havia, é claro, os temidos renegados.

– Tô com medo! – disse Ash com os olhos cheios de lágrimas para a irmã mais velha.

Seus pais foram chamados em Luaprata quando todos os líderes da Horda iam se reunir para forjar o acordo que uniriam as raças. Samanthah queria ter deixado as filhas em casa sob os cuidados da mais velha, mas Dhomm fez questão que as meninas vissem a chegada dos chefes e também que tivessem contato com as outras raças da Horda.

– Elas irão lutar ao lado deles algum dia, ou precisarão de sua ajuda. Não podem temê-los. – dissera.

Bem, era óbvio que isso seria um pouco complicado, pois assim que vira Sylvana Correventos chegando em seu sinistro cavalo, Ashrial desabara no choro, e nada do que os pais disseram acalmou a menina. Por fim, Dhomm pegou-a no colo e a consolou. Karensky, ao contrário, parecia muito interessada naqueles que passavam na sua frente.

– Ede! – disse apontando para o grupo de orcs que chegaram liderados por quem Luxuriah imaginou que fosse o líder deles.

– Sim querida, são verdes. – disse a mãe carinhosamente para a caçula em seu colo.

– Zul! – e apontou para os trolls e seu enorme líder.

– O que ela quis dizer? – perguntou Kassyeh.

– Provavelmente azul. – respondeu Dhomm ainda acalentando Ashrial – Os trolls parecem uma grande massa azul não é querida?

Karen se calou quando os taurens passaram tendo um imenso ser de longos chifres. O chefe dos taurens parecia sereno, apesar de sua aparência assustadora.

– Muu! – exclamou Karen feliz apontando depois que eles passaram.

Quem estava perto e ouviu a exclamação da garota caiu na risada. Depois que os chefes passaram em direção à Torre Solfúria, as pessoas começaram a se dispersar. Como fazia parte de uma das poucas famílias nobres que sobreviveram ao ataque, Samanthah fora convidada a comparecer ao Pátio do Sol tão logo a reunião tivesse acabado. Embora relutasse, foi incentivada pelo marido a aceitar. A maga, por fim, respondeu afirmativamente ao convite, desde que as filhas e o marido pudessem estar presentes.

– Por que o papai não poderia vir? – perguntou Kassyeh a Luxuriah enquanto comiam doces e Ashrial, tendo vencido o medo, brincava com Karensky perto dela. Os pais tinha se distanciado um pouco para falar com alguns conhecidos.

– Quando tio Aethas aceitou entrar para o conselho do Kirin Tor deixou o lugar de representante da família Fendessol com a mamãe, e não com o papai, apesar deles serem primos.

– O tio não gosta do papai? – insistiu Kassyeh.

– Não sei. Mas ele costuma chamar o papai de bárbaro! — Luxuriah riu – Tudo porque o papai uma vez o jogou numa poça de lama, quando ele disse que o papai não era bom o suficiente pra mamãe!

Elas riram.

Ficaram falando sobre os convidados e como tudo aquilo afetaria suas vidas. Luxuriah ainda insistia, como a mãe, que aquilo não era certo, que se aliar a Horda não fazia sentido, mas Kassyeh, como o pai, acreditava que os humanos os abandonaram e que eles tinham que procurar quem os ajudasse.

– Espero que quando a Aliança veja a burrada que fez volte atrás e venham nos pedir perdão. – Luxuriah se agarrava a essa esperança – E tudo volte a ser como antes.

Kassyeh não disse nada. Era óbvio que ela não acreditava naquilo. Mas, o que Kassyeh sabia da vida afinal, pensou Luxuriah. Não tanto como ela, tinha certeza. E lhe irritava como ela parecia animada com as novidades.

Passado certo tempo, seus pais voltaram e as levaram para o Pátio do Sol. Lá, estavam o Lorde Regente Lor’themar Theron ao lado de um imponente orc, que tinha na cintura um martelo reluzente. Mesmo sem acreditar na Horda, Luxuriah sentiu uma imensa empatia quando seus olhos cruzaram com os do líder dos orcs. Ele parecia saber exatamente o que se passava em sua cabeça, pois lhe deu um discreto sorriso e um leve aceno de cabeça, como se pedisse um voto de confiança.

– Meu lorde. — disseram seus pais se curvando frente ao Lorde Regente. As mais meninas imitaram os pais, inclusive Karensky, que fez uma reverência desajeitada, mal conseguindo ficar em pé nas perninhas gorduchas.

– Lady Samanthah. – Lor’themar fez uma reverência – Dhomm – ele acenou com a cabeça e um pequeno sorriso para seu pai. Luxuriah tinha impressão que ambos tinham um acordo do não uso do termo “Lorde” para o patrulheiro – É uma honra tê-los aqui.

– Igualmente meu lorde. – disse sua mãe.

– Gostaria de lhes apresentar o Chefe Guerreiro da Horda, o xamã Thrall.

Xamã? Luxuriah franziu a testa. Pensava que todos os orcs fossem guerreiros.

Thrall era enorme, maior que Dhomm. E ele não era apenas grande, era imponente. Até Ashrial pareceu gostar dele, ou pelo menos não desabou no choro quando ele se aproximou.

– Chefe Guerreiro. – disse sua mãe fazendo uma reverência.

– Por favor, me chame apenas de Thrall. – disse ele com uma voz suave. Luxuriah se espantou novamente. Não era o tipo de voz que espera que um orc teria. – Lorde Theron me falou que vocês são da família Fendessol...

– O que sobrou dela. – disse seu pai. Havia um tom de mágoa em sua voz.

– E meu irmão, Aethas. – falou apressadamente Samanthah, ansiosa para não demonstrar os mesmos sentimentos que o marido.

– Sim, Aethas. Eu o respeito muito. – se o Chefe Guerreiro notou a mágoa de Dhomm, não deixara transparecer – Deu o nome de sua família a uma importante parte do Kirin Tor, se não me engano.

– Mamãe também é maga. – falou animadamente Kassyeh.

Os pais a olharam com repreensão, e a jovem se encolheu. Não era de bom tom crianças falarem com autoridades sem serem permitidas. Contudo, Thrall apenas abriu um sorriso para Kassyeh, que sorriu de volta.

– Uma grande maga pelo que eu soube. – elogiou o orc – Seu irmão com certeza deve desejá-la em suas fileiras.

Luxuriah ficou se perguntando se aquele comentário fora proposital ou se só fora educado da parte do Chefe Guerreiro. Será que ele pensava que sua mãe abandonaria Luaprata para ir a Dalaran? Um sentimento de pânico surgiu dentro dela. Sua mãe poderia ir facilmente embora para uma cidade neutra, já que não apoiava a entrada dos sin’dorei na Horda. Mas seu pai jamais deixaria sua terra.

Tudo isso passou muito rápido por sua cabeça, todavia, para seu alívio sua mãe foi incisiva.

– Jamais deixaria minha terra ou meu povo. Meu lugar é aqui, ao lado da minha família. – ela o encarou seriamente – Mesmo que para isso eu tenha que fazer algo que não concorde.

Thrall assentiu com a cabeça.

– Admiro sua coragem Lady Samanthah. Rezo para os ancestrais para que a Horda esteja à altura do seu sacrifício. – e fez uma mensura para a maga.

Dhomm olhou para sua filha mais velha, sorrindo. Aparentemente o patrulheiro simpatizara totalmente com Thrall. E ainda que tivesse ressalvas, Luxuriah tinha que admitir que o orc transpirava serenidade e confiança.

– Telo!

O grito de Karensky tirou todos daquele momento idílico. A menina, que estivera quieta até então, aproveitou que estava livre e solta pelo chão para se aproximar do Chefe Guerreiro. Depois de um tempo observando, ela saltara como uma pequena gazela e se pendurara no martelo de Thrall. A cor fugiu do rosto de Samanthah, que parecia que ia desmaiar de vergonha, mas Dhomm caiu na risada, sendo acompanhado por Thrall e Lor’themar Theron.

– Que pequena mais graciosa! – exclamou Thrall antes de pegar Karen no colo – Gosta do martelo? – ele tirou o martelo e o mostrou à menina – Chama-se Martelo da Perdição e pertenceu a um grande guerreiro orc.

– Telo Dição! – repetiu ela passando as mãozinhas no martelo.

– Mil perdões Chefe Guerreiro! – pediu Samanthah estendendo o braço para pegar a filha – Ela não costuma fazer isso.

– Não precisa pedir perdão, Lady Samanthah. – Thrall sorriu e entregou a menina à mãe — Sua filha demostra desde cedo a audácia de uma aventureira e o destemor que muitos guerreiros não possuem. Quantos verões ela tem?

– Dois. – respondeu Dhomm – Seu nome é Karensky, mas a chamamos de Karen. – e vendo que o Chefe Guerreiro olhava suas outras filhas, ele as apresentou – Essa aqui é Ashrial, tem oito verões. Kassyeh, tem quatorze verões, e essa aqui é nossa primogênita, Luxuriah, que já é patrulheira. Tem dezoito verões.

– É uma alegria saber que famílias conseguiram ser poupadas do mal que assolou suas terras.

– Lady Samanthah e Dhomm foram um dos poucos a ter essa sorte. – disse Lor’themar Theron a Thrall.

– Com certeza os espíritos têm grandes planos para suas filhas. – disse o xamã sorrindo – Foi um prazer enorme conhecê-los. – e olhando diretamente para Luxuriah, completou – Espero que possa em breve combater ao nosso lado.

Aquele encontro ficou na mente de Luxuriah por muito tempo. Tinha impressão que Thrall sabia exatamente o que se passava em sua mente. E quando o reencontrou, tempos depois, ele se lembrava daquela tarde com a mesma nitidez que ela própria. O Chefe Guerreiro lhe dissera depois que sentira suas dúvidas, mas que também sentiu a certeza que ela seria uma valorosa aliada da Horda.

Mas a que preço?

Os dias que se seguiram aquela reunião foram tranquilos, como uma bonança antes da tempestade. Sua mãe não questionara mais o acordo com a Horda, e fora surpreendida pelo o marido quando este falara que talvez fosse apropriado eles passarem um tempo na casa deles em Luaprata.

– Há muito a ser feito. – fora o que Dhomm alegara – E preciso introduzir Lux nas fileiras.

E assim começaram a arrumar a mudança. Seu pai tinha outros ajudantes, além do imenso tigre branco chamado Hotch, e os preparou para a mudança. Mandou primeiramente as coisas das meninas menores, e depois os objetos de valor, para só então decidir mandar as armas e utensílios domésticos.

Durante a mudança, Luxuriah compartilhou com o pai o que sentira quando Thrall falara de Dalaran e de Aethas, o medo de sua mãe querer ir para aquela zona neutra.

– Eu mesmo sugeri isso a sua mãe. – confessou Dhomm à filha mais velha – Disse que ela pegasse vocês e fosse para lá.

Luxuriah nem conseguiu responder, tamanho foi seu choque.

– Mas sua mãe me xingou e mandou eu parar de falar besteira. – o patrulheiro riu alto – Ela disse que jamais me deixaria. Isso é bom não é?

– Pai! Como você pode sugerir isso à mamãe?! – questionou abismada.

Dhomm sacudiu a cabeça.

– Querida, se ir para Dalaran fosse uma opção para sua mãe, significaria que eu já não teria o seu amor. – e diante do olhar confuso da filha, explicou – Quando você está com alguém e para esse alguém existe outra opção além de ficar com você, significa que você não tem o amor daquela pessoa. – e acrescentou – Para quem ama, não existe uma segunda opção. Dalaran nunca foi uma opção para sua mãe.

Aquelas palavras jamais saíram da mente de Luxuriah. Fora a última conversa que tivera com seu pai. A última vez em que sentaram juntos e compartilharam seus pensamentos. Se soubesse que o perderia tão cedo, Luxuriah teria pedido que ele falasse mais, que lhe desse outros conselhos. Queria saber como poderia ter se tornado mais forte sem carregar aquele ódio que agora carregava. Queria saber como se entregar de coração sem medo de se perder. Queria saber como lidar com o mundo que a aguardava lá fora, e como não permitir que ele a engolisse. Porque mesmo que ele não tivesse as resposta, ainda poderia contar com o sorriso maravilhoso que ele tinha. O sorriso que agora estava vivo apenas em sua lembrança e nos lábios de Kassyeh, tão idênticos ao de Dhomm.

Um dia.

Tudo teria sido evitado por um mero e singelo dia.

Se tivessem terminado a mudança um dia antes, o inferno jamais teria se abatido em sua vida. Se não tivesse feito questão de uma caçada com o pai antes de terminar de levar os animais, sua vida não teria virado do avesso. Todavia, não houve aquele dia. O que houve foi uma destruição em forma de horas, que separaram sua juventude de amor e alegria de todo o inferno que sua vida se tornara depois.

Um dia.

Poucas horas.

E seus sonhos foram despedaçados pela lâmina e o ódio dos humanos.

– Falta mais alguma coisa? – perguntou Dhomm a Samanthah, quando regressou da caçada com sua filha mais velha. Não tiveram muita sorte daquela vez, os animais que abateram estavam infectados.

– Já despachei o resto das coisas. – disse a maga – Só precisamos...

A frase de sua mãe se perdeu em meio a sons que na época ela não conhecia, mas que depois soube serem trombetas que os humanos usavam para avisar que haviam visto algo.

Seu pai e sua mãe se entreolharam, mas não trocaram nenhuma palavra. Com um grito, Dhomm chamou Hotch e correu para pegar o arco. Samanthah pegou na mão de Luxuriah e correu com ela para dentro de casa.

– Rápido! As meninas! – gritou sua mãe, assustada.

Não houve tempo para questionar. Havia um sótão escondido por um tapete invisível no canto da sala. A própria Luxuriah só tomara conhecimento esconderijo naquele momento.

– Entrem! – ordenou a mãe.

Kassyeh foi a primeira a entrar. Depois, pegou Karen no colo e Ash se juntou a elas. As meninas olhavam para a mãe com os olhos arregalados e surpresos.

– Não falem nada! — advertiu Samanthah – Não importa o que ouçam, não saiam daí certo?

As meninas assentiram.

– Entre rápido Luxuriah.

– Mão, eu não caibo aí! – disse a mais velha – Vou ficar com vocês aqui!

Samanthah analisou o espaço e depois assentiu. Antes de fechar o esconderijo, olhou para as filhas e falou pela última vez.

– Mamãe ama vocês. Volto logo para tirá-las daqui.

Nem mesmo Ashrial chorou. Havia um ar diferente naquela situação, uma sensação que elas não deveriam falar nada, apenas assentir com a cabeça. Talvez não tivessem noção do perigo. Ou talvez sentissem ele melhor do que a própria Luxuriah. O fato é que o alçapão foi fechado e o tapete posto no lugar. Não havia como ninguém saber que elas estavam ali.

– Talvez eles tenham vindo para negociar. – falou Luxuriah esperançosa pegando o arco e seguindo a mãe para fora.

– Não. – falou incisiva Samanthah – Já ouvi aquele som antes. É som de guerra.

Luxuriah nunca soube se tudo acontecera rápido demais ou se muito lentamente. Os humanos não falaram nada. Tão logo os viram, começaram o ataque. Fora seu primeiro combate, e suas mãos tremiam ao puxar as cordas do arco. Uma coisa era a caçada, outra era lutar por sua vida. Sua mãe conseguira erguer uma barreira de gelo ao redor da casa, dando lugar para que os dois caçadores cobrissem de flechas os atacantes. A jovem nunca presenciara a ferocidade dos animais de seu pai. Eles sempre foram tão tenros com ela, mas agora mordiam e estraçalhavam os cavalos e seus cavaleiros.

– Samanthah! – ouviu seu pai gritar – Mande uma mensagem à Luaprata!

– Certo!

Luxuriah não arriscava olhar para trás para ver o que sua mãe fazia, mas ela estava devastando os que viam na frente com suas magias. Infelizmente, os atacantes também perceberam isso. E quando o primeiro deles conseguiu furaro bloquei, a maga teve seu corpo perfurado pela espada deum guerreiro.

– Não!!!

O grito de Luxuriah se juntou ao seu pai. Rocco, percebendo o desespero de sua dona, atacou o humano com toda fúria. Mas ele era frágil demais para o aço, e foi cortado ao meio. Dhomm então se precipitou sobre o atacante e o atingiu no pescoço com suas flechas, enquanto Hotch se encarregou do resto. Luxuriah se lançou sobre a mãe, desejando com todas as forças poder estancar aquele sangue que saía aos borbotões de seu peito.

– Mão! Mãe! Onde estão suas poções? – dizia desesperadamente olhando ao redor enquanto suas mãos tentavam parar o sangue que escorria.

– Lux... – a voz de sua mãe estava fraca – Cuide deles querida...

E sorriu. O último sorriso que Luxuriah recebera dela. A magia resplandecente dos olhos de sua mãe apagou enquanto ela os fechava. Os sons da batalha chegaram aos ouvidos de Luxuriah, cada vez mais perto, mas ela só conseguia gritar, agarrada ao corpo de sua mãe. Ao ver sua esposa caída, Dhomm emitiu algo que parecia um rugido. Com um grito, todos seus animais foram reunidos e partiram para o ataque final. Luxuriah colocou sua mãe com delicadeza no chão e pegou seu arco. Tinha que lançar a flecha. Só uma. Mas suas mãos tremiam.

E eles se aproximavam.

Sem a proteção de Samanthah, o gelo se partiu em mil pedaços e se espalhou pelo ar. Foi como se nevasse ao redor da casa. Seria lindo, se não representasse o fim que estava por vir. Dhomm continuava na batalha, com as lágrimas lavando seu rosto, mas sem desviar a atenção dos alvos. Ele viu um a um seus animais caírem e os inimigos se aproximarem. Quando uma chuva de flechas veio em sua direção, ele soube o que teria que fazer.

Luxuriah ainda tentava por uma flecha no arco quando ouviu seu pai gritar seu nome. Logo em seguida, ele a abraçou e a jogou no chão, pouco antes de ter seu corpo perfurado por dezenas de flechas.

– Pai! – gritou ela quando viu os olhos de seu pai perder o brilho e o sangue escorrer por sua boca.

– Desculpe Lulu... – ele sorria ao balbuciar – Lulu não... Você não é mais um bebê... Certo...?

E o mundo de Luxuriah perdeu todo seu brilho.

Os humanos não se importaram com os corpos na entrada. Entraram na casa, xingando aqueles elfos pelas perdas que tiveram. Queria tesouros, comida, o que fosse, e ficaram irritados quando nada acharam. Só então repararam que ela estava ali, viva, ainda protegida pelo corpo de seu pai.

– Tem uma viva ainda! – um deles a pegou pelo braço e a puxou.

A flecha ainda estava na mão de Luxuriah. Foi instintivo. Ela golpeou o humano no pescoço, sentindo o objeto afundar sua carne e o sangue se esvair, da mesma forma que esvaiu de sua mãe. Foram necessários três para segurá-la, pô-la de joelhos em frente ao que parecia ser o chefe.

– Essa vaca matou meu irmão! – gritava um deles sacudindo-a.

– Cale a boca rapaz. – disse o líder irritado — Não há nada aqui? – perguntou ele. Diante do silêncio dela, segurou seu rosto com força e a forçou a levantar a cabeça e encará-lo – Então elfa sangrenta, me responda!

A resposta dela foi cuspir na cara dele.

– Maldita! – ele a bofeteou – Vocês me causaram muitas perdas sabia? Como vamos atacar Luaprata sem nossos sacerdotes? Viemos de longe sabia? E só vocês três reduziram nossa tropa pela metade! – e a esbofeteou novamente.

– Quero que vocês queimem no inferno! – gritou ela.

Todos riram.

– Talvez ela ainda tenha alguma serventia... – disse com malícia um dos que a seguravam.

Eles riram mais ainda.

– É, uma pequena diversão antes de chegarmos àquele lugar... – permitiu o comandante.

Luxuriah só soube o que eles queriam quando começaram a rasgar sua roupa.

*************

O rosto de Grey ficou branco como a neve. Luxuriah o olhava sem nenhuma expressão quando ele procurou uma das rochas do lugar e se sentou. Parecia que ele estava em choque.

– Eles... – começou com a voz hesitante.

– Sim. – respondeu ela sem emoção na voz – Todos eles. – e dando de ombros acrescentou — Pelo menos estavam distraídos o suficiente quando os reforços da cidade chegaram.

O vento soprou mais forte, e Luxuriah começou a sentir frio. A madrugada avançava e o deserto de Durotar iria esfriar mais até a aurora. Contudo, o vulcão de emoções dentro do peito dela a impedia de se abraçar. Há muito tempo já havia passado do estágio de sentir pena de si mesma.

– O próprio Lorde Theron deu cabo neles. – continuou ela ainda em pé – Minha mãe devia ter contado a ele sobre o esconderijo, pois ele foi direto para lá e trouxe as meninas. Naquele dia soubemos que realmente estávamos na Horda. Irremediavelmente. Para sempre.

– Luxuriah... – murmurou ele – Eu...

– Não! – cortou ela ríspida – Não sinta pena. Nem diga que sente muito. Eu não quero isso. Eu superei do meu próprio modo. — e dando uma pausa, falou — Mas a história ainda não acabou, Grey.

– Ainda há mais?! – perguntou o paladino, aflito.

– Quem dera não houvesse... – murmurou Luxuriah olhando para o céu que se erguia acima deles.

******************

– Você deveria comer Luxuriah...

As palavras doces de Aethas estavam repletas de preocupação. Seu tio chegara a Luaprata tão logo fora notificado do que acontecera à irmã e ao cunhado. Encontrara as sobrinhas assustadas, tristes e desnorteadas. O estado de Luxuriah era o pior. Mesmo tendo os ferimentos do corpo curados, sua alma ainda estava longe de ser a mesma que fora antes. A jovem nunca perguntara ao tio se ele sabia o que os humanos haviam feito com ela, mas notou que ele não a abraçou nem a tocou, como fez com as outras meninas. Agradeceu por isso. Não queria que ninguém a tocasse. Nunca mais.

Luxuriah se sentia suja. Suja e doente. Passava os dias encolhida na cama, com uma pesada coberta em torno de seu corpo. Não falava com ninguém, nem mesmo com as irmãs. Só queria morrer. Morrer e esquecer aqueles momentos horríveis. Nem mesmo voltar para a casa depois de passar aqueles dias na estalagem ajudara, muito pelo contrário. Ver tudo o que os pais tinham preparado com cuidado e amor para elas só fez a sensação de nojo que sentia de si mesmo aumentar. Trancou-se em seu quarto e se recusou a sair por vários dias. Somente quando o choro compulsivo de Ashrial na porta de seu quarto se estendeu por várias horas foi que ela deixou o aposento. E agora estava ali, aninhada no sofá, com seu tio lhe estendendo um vistoso prato de comida, enquanto a encarava com o olhar preocupado.

– Não quero... – murmurou com a voz rouca de quem não fala há dias.

– Você precisa comer. – disse seu tio carinhosamente – Você precisa de forças Luxuriah.

– Para quê? – perguntou olhando para os pés.

– Pelas suas irmãs... Elas precisam de você... – Aethas percebeu que ela não pegaria o prato então o colocou na mesa – Eu sei que é difícil querida, mas...

– Não. – retrucou Luxuriah secamente – Você não sabe como é! E não é de mim que elas precisam, elas precisam dos nossos pais, mas eles estão mortos!

Aethas não insistiu. Deixou a comida onde estava se se retirou da sala. Luxuriah preferiu assim. Ficou sozinha de novo com seus pensamentos. Não queria estar com ninguém. Queria apenas ficar sozinha.

Foi quando Ashrial apareceu na sala. Hesitante, ela caminhou até a irmã, agarrada com a boneca preferida. Com o coração apertado, Luxuriah lembrou que fora seu pai quem fizera aquela boneca com as próprias mãos. E lembrou também que ele jamais faria nada, para nenhuma delas.

Ashrial encarou a irmã e depois olhou para o prato intocado de comida. Foi até mesa, pegou-o e voltou até onde estava Luxuriah. Sentou-se de frente a ela e colocou a boneca em seu colo. Luxuriah ainda estava tentando entender o que a menina queria quando ela pegou uma pequena porção de comida e deu a boneca.

– Está bom Fifi? Está? Não? Mas eu fiz com carinho! – e olhando pra irmã disse — Fifi disse que estava ruim Lux! Depois de todo trabalho que eu tive pra fazer! – e balançando a cabeça como se ponderasse sobre aquilo, pegou a colher e estendeu pra irmã – Poderia provar um pouco e dizer pra Fifi que a comida está boa?

O coração de Luxuriah se apertou no peito. Fez que sim com a cabeça e aceitou a comida que sua irmã oferecia, enquanto as lágrimas escorriam silenciosas pelo seu rosto.

– Está bom Fifi.... – disse ela com a voz embargada – Você deveria comer...

Ashrial olhou vitoriosa pra boneca e novamente estendeu a comida para Fifi.

– Olha, eu disse que tava bom! – e colocando mais comida na colher estendeu para Luxuriah antes de sussurrar – Você tem que comer mais, ou ela vai achar que é mentira.

E foi assim que Luxuriah comeu sua primeira refeição em dias, partilhando com a boneca Fifi, enquanto chorava silenciosa e copiosamente.

No dia seguinte, Kassyeh a convenceu a tomar banho e se sentar à mesa com todos. Só acatou o pedido da irmã porque o rosto de Kassyeh estava tão pálido quanto o de um cadáver destacando as olheiras quase pretas embaixo de seus olhos. Ela não era a única a sofrer afinal. A refeição foi silenciosa, bem diferente das que tinham em casa. Até Karensky parecia sentir o peso da tensão. Luxuriah ficou calada o tempo inteiro, e só foi tirada de sua letargia quando ouviu seu tio comentar sobre a mudança delas para Dalaran.

– Vocês vão gostar de lá. – ele disse sorrindo – É uma cidade linda.

– Nós não vamos. – disse ela prontamente.

Aethas pareceu confuso por um momento.

– Mas querida... Eu sou tio de vocês. Vocês devem ir comigo. Eu preciso cuidar de suas irmãs.

– Eu cuidarei delas. – respondeu incisiva.

– Como Luxuriah, se você não cuida nem de você mesma?

Foi como um soco no estômago de Luxuriah. Foi então que as últimas palavras de sua mãe vieram à cabeça. Aethas estava certo. Ela não estava cuidando nem dela mesma, como iria cuidar das irmãs? Naquele momento que percebeu que não podia ficar acuada como um cachorro ferido.

– Estou comendo, não estou? – questionou.

– Você não está bem. – replicou Aethas.

– Mas vou ficar. – falou resoluta – Nenhuma de nós vai para Dalaran! Ficaremos aqui, em Luaprata!

Aethas se espantou com o vigor que surgiu na voz dela naquele momento. Ele não podia ver, mas Luxuriah sentia que algo mudava dentro dela. Dalaran... Uma cidade neutra. Neutra e cheia de humanos. Não. Não iria conviver com eles, nem permitir que suas irmãs o fizessem.

– Luxuriah... – Aethas começou devagar – Se ficarem aqui, vocês estarão no meio dessa guerra...

– Já estamos nessa guerra tio. – e com um furor que nem sabia que tinha, continuou – Já estamos, e o senhor sabe disso.

– Vocês ainda tem opção. – ele parecia decidido a fazer mudá-la de ideia.

– Não há opção para nós, desde que eles mataram nossos pais! – Luxuriah bateu com tanta força na mesa que seu prato virou. As irmãs olharam assustadas para ela, mas nada disseram. Luxuriah sentiu aquilo como se fosse uma forma das irmãs concordarem com ela – E você tio? Eles mataram sua irmã! Como pode permanecer do lado daqueles... Humanos!

– Nem todos os humanos são maus, querida...

Era demais para ela. Luxuriah levantou com um pulo e virou a mesa com fúria. Os pratos se espalharam pelo chão, alguns se partindo em vários pedaços, enquanto os talheres e taças tintilavam ao quicarem. Aethas estava abismado. Kassyeh impassível. Ashrial começou a chorar e Karensky, pela primeira vez em dias, gritou animada:

– Uhull!!! – e levantou os bracinhos.

Luxuriah encarou o tio.

– Os humanos destruíram a minha vida, a nossa vida! – gritou — E eu vou fazê-los pagar! Irei caçá-los como um tigre caça coelhos e derramarei seu sangue por toda Azeroth! – ela trincou os dentes e apertou os punhos — Farei com que aqueles malditos paguem por cada grito de dor de minha mãe, e por cada lágrima do meu pai! Vou vingá-los! — e respirando fundo, continuou – Vou vingar a mim! E as minhas irmãs! Se o senhor quiser continuar em cima do muro, fique! Um dia você também verá o que eu vi! E saiu intempestivamente da sala.

Sim, ela iria vingar. Iria mostrar.

No dia seguinte muito cedo já havia falado com o próprio Lorde Regente, que a autorizou a se juntar as fileiras, não antes de perguntar:

– Tem certeza que está pronta?

– Estou cheia de ódio. – disse secamente – Isso é o suficiente?

Lor’themar sorriu para ela.

– Para mim é.

Aethas não insistiu mais depois daquilo. Deixou claro, ao se despedir, que quando elas quisessem ir para Dalaran, seriam bem recebidas. Luxuriah não deu ouvidos a ele. Se dependesse dela, só pisariam naquela cidade quando fosse para matar qualquer humano que estivesse por lá.

Quando começou seu trabalho como patrulheira, Luxuriah percebeu que ela não era a única a sentir um ódio mortal pela Aliança. Todos que estavam ali, defendendo a Floresta do Canto Eterno, eliminando os mortos vivos tanto na Trilha da Morte como nas Terras Fantasmas, tinham perdido pessoas importantes de suas vidas após serem abandonados ao Flagelo. Luxuriah percebeu também que as outras elfas lhe tratavam com um carinho desmedido e isso a incomodava. A última coisa que queria era que alguém sentisse pena dela. Mas como evitar isso se ela própria ainda chorava escondida todas as noites antes de cair em pesadelos que a faziam acordar aos gritos?

Quando fechava os olhos ainda sentia as mãos deles em seu corpo. Ainda podia ouvir as risadas deles enquanto ela tentava se defender. Com o tempo não sabia se era pior ficar acordada ou dormir, pois ambos os atos lhe traziam péssimas lembranças. Por isso, preferia quando andava o dia todo, atirava contra os zumbis e via seus pedaços caírem por terra. Em sua mente, cada vez que matava um deles, matava também aqueles homens sem rosto que atormentavam seu sono.

Kassyeh assumiu as tarefas domésticas enquanto Luxuriah estava fora. E mesmo que não tivessem real noção do que acontecia, Ashrial e Karensky não perguntavam pelos pais. Apenas choravam em silêncio diante da mesa vazia. E aos poucos aquele silêncio foi se transformando na zona de conforto daquelas elfas.

Semanas se passaram. Luxuriah treinava freneticamente, ao mesmo ritmo que cumpria todos os desígnios que lhe davam. Queria que sua mente estivesse ocupada o tempo todo, para não pensar no que lhe afligia. Porém, começou a sentir os efeitos daquela vida corrida. Estava sempre com sono e sem apetite. Começou a sentir tonturas sempre que corria demais, ou passava tempo demais sentada. E em uma tarde específica, vomitou todo que havia ingerido naquele dia ao matar um morto-vivo e sentir o cheiro da carne pútrida.

Contudo, não estava realmente preocupada em pagar aquele preço, até que a patrulheira Jaela, sua superior, a procurou no final daquele dia.

– Luxuriah, gostaria de fala com você.

Jaela era uma patrulheira renomada e fora amiga de seu pai. Fora a primeira a apoiar sua entrada nos patrulheiros e sempre se dirigia a ela com carinho. Naquele dia, contudo, Jaela parecia preocupada.

– Pois não senhora?

– Luxuriah, seja sincera comigo: você tem um namorado?

Aquela pergunta a pegou de surpresa.

– Não. – respondeu franzindo as sobrancelhas – Por quê?

A expressão de choque dela intrigou a jovem.

– Eu sugiro que você procure a sacerdotisa Lorena Lorie, e peça que ela te examine. – disse como se medisse suas palavras.

– Mas por quê? – insistiu Luxuriah – Eu estou bem, é serio! Eu vomitei apenas... Bem, eles fedem!

A patrulheira riu, mas mesmo assim havia aquela estranha preocupação em seus olhos.

– Confie em mim Luxuriah. Procure Lorena. – e dando as costas, inteirou – Não precisa vir amanhã.

Luxuriah ficou intrigada. Sabia que não estava bem, mas não achava que uma ida à sacerdotisa de Luaprata iria ajudar. Mesmo assim, Jaela fora amiga de seu pai e não a mandaria buscar por ajuda se não imaginasse que algo estivesse errado. Assim, no dia seguinte, em vez de se dirigir à Trilha da Morte, foi em direção à Torre Solfúria, onde Lorena atendia.

Quando passou pelos guardas e entrou na imensa torre, seu coração se apertou. Na última vez que estivera ali seu pai e sua mãe estavam ao seu lado. Não conseguiu controlar as lágrimas, então baixou o rosto e tentou disfarçar a tristeza quando entrou na sala de Lorena.

– Luxuriah! – exclamou Lorena sorrindo quando a viu – Jaela me disse que você viria.

Luxuriah estranhou mais ainda. Desde quando a patrulheira chefe se importava a esse ponto? Também notou o olhar de preocupação que Lorena lhe dirigiu. Estava começando a ficar com medo. Será que tinha se contaminado com a peste?

– Eu peguei a peste?! – perguntou alarmada.

O pânico tomou de conta dela. Como? Nenhum deles a tinha mordido, nem havia comido nada envenenado! Como iria cuidar de suas irmãs se virasse um morto-vivo?

– Calma... – disse Lorena sorrindo – Tenho certeza que você não está infectada pelo Flagelo...

– Então porque Jaela me mandou aqui? – perguntou sentindo a irritação tomar de conta dela – Não tenho tempo a perder batendo papo quando há coisas lá fora a serem feitas!

Lorena não respondeu, apenas olhou para seu aprendiz e falou:

– Aldrae, poderia nos deixar a sós?

O jovem sacerdote assentiu com a cabeça e saiu da sala com um livro debaixo do braço. Quando ele saiu, Lorena foi até a porta e baixou as cortinas. Luxuriah estava achando aquilo tudo cada vez mais estranho.

– Deite-se Luxuriah. – e conjurou uma cama flutuante de energia.

Luxuriah achou melhor não contestar. Deitou e deixou que sacerdotisa a examinasse. Quando Lorena pressionou seu baixo ventre, Luxuriah emitiu uma exclamação de dor e deu uma tapa na mão da clériga. A expressão de Lorena era sombria.

– Luxuriah, você tem namorado? – perguntou ela.

A jovem revirou os olhos.

– Jaela já sabe da resposta, que é não. – Luxuriah se levantou e sentou na cama flutuante — Não vai me dizer que o que eu tenho?

– Quando você atingiu a maturidade? – Lorena continuava a perguntar.

– Cinco meses. – as perguntas estavam ficando cada vez mais estranhas.

– E desde então... Você esteve com algum elfo... Intimamente?

Luxuriah enrijeceu.

– Não.

Lorena balançou a cabeça. Parecia desolada.

– Lorena... – Luxuriah não estava gostando do que via no rosto dela – O que eu tenho Lorena? Eu estou doente?

– Doente não menina... – Lorena tinha uma expressão de pesar – Você está grávida.

Levou alguns instantes para que Luxuriah entendesse o que ela queria dizer. Afinal, como poderia estar grávida? Não tivera contato com nenhum elfo, nunca. Então como poderia...

Foi quando a verdade caiu sobre ela como se fosse um machado.

– Não! – gritou com todas as forças de seu pulmão.

Não! Não! Não! Não podia ser! Não podia estar grávida de um humano! Daqueles humanos! Os mesmos que mataram seus pais e a violentaram! Eles tinham arrumado mais uma forma de maltratá-la, plantando uma semente maldita em seu ventre?!

Luxuriah se levantou tão rápido da cama que caiu aos pés de Lorena. Enquanto tentava se levantar, gritava e se debatia em desespero. Lorena tentava falar com ela, mas a única coisa que Luxuriah conseguia fazer era sentir nojo de si mesma. Havia uma parte daqueles humanos dentro dela.

– Luxuriah! Se acalme querida! – pediua Lorena em pânico.

Mas Luxuriah não ouvia. As lágrimas voltaram aos seus olhos, e ela começou a vomitar em sua agonia. Lorena se desesperou e correu para pegar um remédio. Mas Luxuriah não estava raciocinando. Começou a dar golpes na barriga, xingando os humanos, a Aliança, seu destino e qualquer um que considerasse culpado. Quando a sacerdotisa tentou impedi-la, ela se livrou dela e correu. Sabia o que deveria ser feito.

Iria subir na torre e se jogar de lá.

Iria tirar aquela coisa de dentro dela.

Nem que isso custasse sua vida.

Em seu desespero, não viu quem saía da torre naquele exato momento. Luxuriah acabou então trombando em alguém, antes de cair.

– Menina, veja por onde anda! – disse o magister Rommath ríspido – Você trombou no Lorde Regente!

Ao levantar os olhos, Luxuriah percebeu que Lor’themar Theron também a olhava. A vergonha, a humilhação, o nojo que sentia de si mesma foi maior ainda. Ela desabou em um choro compulsivo aos pés dele, se encolhendo como um filhote machucado, perguntando à Nascente do Sol porque a amaldiçoara daquele jeito.

– O que está acontecendo? – perguntou Lor’themar a Lorena quando esta chegou.

Luxuriah não ouviu a resposta. Começou a vomitar e a tremer compulsivamente. E qual não foi sua surpresa quando o próprio Lorde a amparou e a levou e volta à sala da sacerdotisa.

– Luxuriah... – chamou ele com carinho.

Era isso. Ele era sua salvação.

– L-Lorde... – falou com a voz trêmula – P-por favor... Tire esse monstro de dentro de m-mim...

E caiu novamente no choro.

Houve um momento de silêncio. E então o ouviu falar em sua voz potente:

– Lorena. Faça o que tem de ser feito.

– Sim meu lorde.

*********************

– Luxuriah! — o grito de Grey varreu a noite – Não me diga que você matou seu próprio filho!

Ela estreitou os olhos.

– Eu não matei nenhum filho meu. – sua voz era fria e controlada – Eu tirei de dentro de mim o fruto de minha vergonha e de meu ódio. Nunca foi meu filho. Era algo que os humanos colocaram em mim, como uma doença que precisava ser exterminada.

Grey se levantou e passou a andar. Ele a olhava como se nunca ativesse visto antes.

– Era só uma criança! Ele não tinha culpa!

Luxuriah então perdeu a paciência.

– Vocês machos jamais vão compreender! – gritou, assuntando-o – Nunca vão saber o que é ser violada e humilhada ao extremo! Ele não tinha culpa?! E que culpa tinha eu?! Que pecado eu cometi para ser obrigada a levar esse fardo?!

– Mas era seu filho! – questionou ele.

– Não! – gritou ela com horror – Era um monstro! E sim, eu o matei! E não me arrependo disso!

O silêncio se abateu entre os dois. Luxuriah cruzou os braços e deu um passo para trás. Seu rosto estava seco, mas por dentro dela se derramava em sofrimento. Era exatamente aquela reação que sabia que ele teria. Era a mesma reação que qualquer macho de qualquer espécie teria ao saber de uma história com aquela. Afinal, eles não engravidavam, não eram violentados. Não sabiam como uma mulher se sentia ao passar por aquilo. Será que ninguém pensava que uma criança gerada daquela forma jamais seria feliz?

– Você poderia ter dado a criança a alguém... – murmurou Grey como se lesse os pensamentos dela.

Luxuriah riu alto.

– A quem Grey? A um casal de elfos? Quem em Luaprata criaria um meio-elfo, me diga?

O paladino não respondeu.

– Também eu poderia deixa-lo entre os humanos não é? – zombou ela – Oh, um meio-elfo teria uma vida muito linda e feliz em Ventobravo.

– Não fale assim! – criticou ele.

– E eu devo falar como Grey? Com amor? Me desculpe, mas quando se é violentada por sete homens você se torna um pouco insensível!

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Eles se encararam por um momento. Grey parecia estar lutando contra algo dentro dele. Claramente estava magoado por nunca ter sabido daquelas coisas. E mais ainda por saber o que ela tinha feito.

– Se isso te faz se sentir melhor – disse ela com ironia na voz – Eu quase morri. A poção era muito forte e eu ainda estava fraca. Fiquei muito doente. – ela abaixou a voz antes de dizer – E não poderei jamais ter filhos.

– Uma punição à altura. – disse ele secamente.

Luxuriah sentiu-se quebrar por dentro.

– Sim, à altura. – concordou.

Grey respirou fundo. Claramente Luxuriah não era a pessoa que ele supunha que ela fosse. Sempre nutrira a ideia de casar e ter filhos com ela... Mas agora... Ela jamais poderia conceber, porque havia abortado um filho. Um filho fruto de um estupro, ponderou ele, mas ainda um filho, certo? Ele a olhou longamente. Tinha consciência que ela tinha sofrido muito, e pela Nascente do Sol, ele a amava certo? Estava confuso, muito confuso.

– Eu... – disse ele de repente – Eu preciso pensar Luxuriah...

– Eu não estou lhe pedindo nada Grey. – a voz dela soou mais seca do que ela pretendia – Eu apenas lhe contei o que aconteceu. E antes que você pergunte, levou muito tempo para eu permitir que alguém me tocasse. E depois disso, eu dormi com muitos, muitos elfos. – ela deu de ombros – Lorena chamou isso de tratamento de choque. Transei com todos os elfos que você pode imaginar até parar se sentir nojo e começar a gostar. Levou algum tempo. – completou.

– Você está fazendo isso de propósito? – perguntou ele estreitando os olhos – Para que eu a deixe?

– Não preciso fazer isso Grey. Você já fez. – disse calmamente.

Ele pareceu confuso.

– Eu não disse nada. – se defendeu exacerbado — Apenas que preciso pensar. E convenhamos, depois de tudo que você jogou para cima de mim, eu realmente preciso ponderar!

Luxuriah sacudiu a cabeça, com pesar.

– Pensar se fica comigo ou não Grey? – perguntou. Quando ele apenas ficou em silêncio, ela continuou – Você já decidiu. Quando existe outra opção a não ser ficar comigo, é porque você realmente não quer.

– Luxuriah... – começou ele, mas foi interrompido.

– Grey, o passado não pode ser mudado. – ela foi incisiva – Ou você me aceita deste modo, ou não. É simples. Não há o que pensar.

Apesar de tudo, Luxuriah desejava ardentemente ver o sorriso dele de novo. Desejava que ele dissesse que nada daquilo importava. Que dissesse que, indiferente ao passado, iria construir um futuro diferente. Queria que ele a abraçasse, que dissesse que estava tudo bem. Mas não foi isso que Grey fez. Sem falar uma palavra, ele olhou para o chão, respirou fundo, deu as costas e foi embora.

Um grande vazio tomou de conta do peito de Luxuriah. Ela continuou a olhar para as costas dele até que elas sumiram na noite. Estava sozinha. Mais do que nunca estava sozinha em seu sofrimento. Como sempre estivera desde aquele dia. Amaldiçoou o dia em que o conhecera. E mais ainda o dia em que percebera que o amava. E agora ele a desprezava. Não fora por isso que ela mantinha segredo de tudo?

Jamais contara nada a ninguém. Os que sabiam se calavam sobre o assunto, respeitando a vontade dela. Luxuriah jamais teria coragem de contar a suas irmãs o que acontecera. Queria preservar na mente delas que o mundo ainda era bonito, apesar de tudo. Só que tudo aquilo não passava de uma mentira. O mundo não era bonito. Nem era justo.

E ela estava sozinha.

Para sempre.

Estava ali, parada, quando ouviu um barulho ao seu lado. Do meio das rochas, um enorme tauren branco surgiu. Huaru caminhou até onde ela estava, tirou o manto de suas costas e a envolveu com ele. Só então Luxuriah percebeu que estava com tanto frio que tremia.

Outro paladino. Era aquela realmente a noite de seu juízo final?

– Você ouviu tudo? – quis saber.

– Sim. – ele disse.

– Veio me julgar também? – perguntou numa voz áspera.

– Não. – respondeu ele calmamente – Não vim lhe julgar moça.

Sua risada ao ouvir aquilo foi de desdém.

– Então o que veio fazer?

– Isso.

E ele a abraçou. Com carinho. Como se dissesse que compreendia sua dor. Ele a envolveu no abraço que ela ansiara de Grey. A acomodou em seu peito e passou a mão em seus cabelos, como se faz com uma criança assustada. Foi quando Luxuriah desabou. O choro que contivera até ali saiu rasgado de sua garganta enquanto ela abraçava Huaru em um desespero febril. Ele a acalentou e cantou para ela, canções infantis de seu povo, embalando-a sem seus braços. Ficaram ali, abraçados, durante muito tempo. Luxuriah chorou até que toda a dor tivesse esvaído de seu coração. Nenhuma palavra precisou ser dita.

A única testemunha daquela cena foi a lua, que lentamente foi embora. E quando o sol chegou, ainda os encontrou da mesma forma, como se o mundo fosse se acabar no momento em que se separassem.