Notas iniciais
"-Nossa vida é aqui, nessa vila, com nossa família. Nosso sustento é a terra em que plantamos e criamos o que precisamos, e não precisamos empunhar espadas para viver."

Soltando o machado no chão, Malcolm alongou as costas para aliviar sua dor na coluna por carregar tanto peso. As vértebras em suas costas estralaram e ele sentiu subitamente uma pontada de dor, que logo se dispersou. Largando a corda também, ele esfregou suas mãos uma nas outras, procurando aliviar a ardência que sentia.

A noite estava vindo já, e ele não chegaria à aldeia tão cedo, por isso, decidiu que seria melhor acampar por ali mesmo. Ia ficar muito frio, mas desde que ele fizesse uma boa e bela fogueira e suas roupas realmente lhe mantivessem aquecido, Malcolm não precisaria se preocupar com nada.

Tinha acabado de sair de um trabalho árduo e que ele considerava bastante interessante, podia descontar toda sua raiva e energia de sobra sem se preocupar se estava exagerando. Sentando-se no tronco da árvore que havia acabado de derrubar, ele limpou o suor da testa com um pano velho e amarronzado que sempre levava consigo, suspirando aliviado pelo bom trabalho por ele feito.

Uma brisa fria soprou levemente em sua face e ele se deliciou com a naturalidade de tudo aquilo, além de que depois de tanto esforço era bom sentir seu corpo quente ser tomado por uma ventania gelada e repentina. Seus cabelos foram jogados para trás e ficaram balançando no ritmo do vento, enquanto sua respiração pesada logo se acabava.

Malcolm era um garoto jovem, de não muito mais de vinte anos de idade. Forte e alto, nascido e criado por camponeses, sabia muito bem como se virar sozinho. Mãos grossas e fortes, braços avantajados e um físico razoavelmente invejável por colegas que com eles viviam. Cabelos negros e bagunçados, lisos e que ele estava deixando crescer para poderem ficar o mais longo que pudessem. Olhos verdes e uma grossa barba que ele sempre deixava por fazer, mas não de modo que ficasse algo muito cheio. Vestia-se da maneira mais simples que podia, afinal, somente rasgava e sujava as roupas que usava.

Teria que se apressar caso não quisesse morrer de frio logo, a noite estava chegando e com ela as temperaturas iriam gradualmente cair. Sabia que tinha que se mover e fazer algo, mas a partir do momento em que se deitou no solo gelado e macio, coberto de folhas caídas e alguns poucos musgos, levantar não era mais uma opção. Descansar e relaxar um pouco eram somente o que ele queria naquele momento, só um pouco.

Pensando nos acontecimentos dos últimos dias, ele fechou os olhos e ficou por ali mesmo. Estava ficando cada vez mais complicado de produzirem o que eles precisavam. Desde que receberam o aviso de que se quisessem ter suas terras mantidas teriam que produzir mais do que antes, seus pais entraram em desespero. Os impostos que o reino começou a cobrar dos camponeses somente aumentava, e o tempo que eles tinham não era nem um pouco necessário. O clima não ajudava nem um pouco também. Tudo o que plantava demorava a florescer e quase sempre não vinha com a qualidade que devia, sendo muita coisa desperdiçada.

Certo dia, enquanto conversava com Lucius, seu irmão de criação, ficou sabendo que o reino estava em clima de guerra e que a qualquer momento uma batalha poderia eclodir. Aquilo pareceu não ter nenhum impacto inicialmente para Malcolm, afinal, o que o reino iria querer com um pequeno grupo de camponeses que vivem nas redondezas da cidade e que não acrescenta muita coisa a nada? Foi então que Lucius o disse que o rei mandara alistar todos os homens como soldados do reino, até mesmo os camponeses, pois eles não poupariam esforços para vencer essa guerra. Poderia não acrescentar muita coisa, mas quanto mais soldados tivessem à disposição, melhor.

Sabia que Lucius sempre sonhou em empunhar uma espada por aí e usar uma armadura, como um verdadeiro herói do mundo das fantasias, e aquela oportunidade lhe caíra como uma luva. Apesar disso, Malcolm não se sentia à vontade com tudo isso, ir para guerra era praticamente ter a certeza de que você não iria voltar para casa tão cedo.

-Como assim você já se alistou? –Malcolm indagou quando Lucius lhe contou que já havia se alistado e que a qualquer hora já seria convocado.

-É uma nova oportunidade! Veja isso, posso finalmente ser o que sempre quis. –Respondeu.

Malcolm sentou-se na cama ao lado de seu irmão e suspirou.

-Acho que você devia deixar essa fantasia de infância para trás e aceitar nossa realidade... –Disse tentando parecer o mais delicado possível, mesmo que fosse difícil dizer o que pensava numa situação como aquela.

-Fantasia de infância?! –Ele riu. –Ser um soldado, um guerreiro, não é uma fantasia de criança! Acha que não conheço os riscos que vou correr apostando nessa empreitada? Estou muito ciente disso, e posso garanti-lo que tem gente lá empunha espadas há anos e sabe tanta coisa quanto eu, que trabalha com uma velha enxada.

-Mas não precisamos disso! –Malcolm continuou. –Nossa vida é aqui, nessa vila, com nossa família. Nosso sustento é a terra em que plantamos e criamos o que precisamos, e não precisamos empunhar espadas para viver. Para que quer deixar tudo isso para trás? Somente para poder usar uma armadura e carregar uma espada?

-É mais do que isso, além de que o rei disse que quem se alistar no exército não precisará se preocupar com a cobrança dos impostos, além de que se ganharmos a guerra seremos todos recompensados financeiramente. –Explicou.

-Ainda continuam nos cobrando, parece que não adiantou muita coisa. –Respondeu sério.

-Mas vai mudar, eu posso te garantir.

-E quem vai te garantir? –Ele perguntou sereno.

Lucius não respondeu e fechou a cara.

-Por que você não pode pelo menos me apoiar? –Questionou se levantando. –Vivi toda a minha vida até agora plantando e plantando, sempre sonhando e nunca podendo fazer nada do que sempre quis, e agora que posso você vai ficar falando que é errado?

-Não estou dizendo que é errado. É arriscado. Você vai para a guerra, vai lutar, vai matar gente, muita gente, e pode ser morto também. –Respondeu. –Só estou de dizendo isso porque me importo com você, e sabe disso, caso contrário, não iria dizer muita coisa. Como acha que eu, como seu irmão, vou ficar sabendo que meu irmão está numa guerra matando gente e correndo o risco de ser morto? Só ficaríamos tranquilos no dia em que víssemos você chegar da última batalha, mas não seríamos mais os mesmos.

Lucius se mexeu inquieto, andou de um lado para o outro e não disse nada. Pisava forte no chão e sua expressão estava sempre séria e fechada.

-Já contou a nossa mãe? –Malcolm perguntou então para não ficarem por aquilo mesmo.

Lucius respondeu com uma risadinha baixa e frenética, e balançando a cabeça negativamente, ele respondeu:

-De maneira alguma, se nem mesmo você está me apoiando, o que dirá ela? Imagine só...

-Não dá mais para voltar atrás, não é? –Lucius encarou-o com a testa franzida. –Oras, você já se alistou, não há mais como mudar isso, uma hora ou outra ela via ficar sabendo, e tenho certeza de que não vai gostar nem um pouco disso.

-Se ela precisar sabe uma hora, irá. Mas vamos deixar que as coisas aconteçam de modo natural.

-Natural... –Malcolm disse com desprezo.

Levantou-se e ia saindo do quarto quando seu irmão interveio:

-Não conte nada a eles ainda, tudo bem?

Malcolm parou de andar e se virou.

-Não preciso, ou você conta, ou como disse, as coisas irão acontecer de modo natural.

-Certo... –Ele disse sem muita confiança em suas afirmações.

-Só se prepare para ouvir muita coisa, fazer isso sem o conhecimento deles com certeza não vai agradá-los nem um pouquinho. –Avisou.

-Vou estar bem preparado para ouvir o que tiver de ser. –Respondeu. –Só me dê um tempo.

-Boa noite.

Nesse momento alguma coisa passou correndo ao lado de Malcolm, provavelmente um coelho, e ele acordou então de seus pensamentos. Percebendo que acabara adormecendo deitado ali, logo se levantou e se deu conta de que a noite já havia caído, e a temperatura também. Não era muito seguro e inteligente ficar ali parado e nos escuro.

Pegando velhos galhos e alguns outros materiais em sua mochila, ele foi tratando logo de ir aprontando seu acampamento improvisado para passar aquela noite. Acendeu a fogueira e com cuidado atiçou o fogo para que ele não se apagasse, alimentando a fogueira sempre que possível. Aprontou uma pequena cama com o monte de tecidos e panos que ele tinha consigo e colocou suas luvas porque suas mãos estavam praticamente congelando.

Sentando-se, ele pegou um pão que ele tinha em sua mochila e começou a comê-lo. Fora seu cantil cheio d’água, pão era a única outra coisa que ele tinha para se sustentar, então não reclamou quando começou a comer sua refeição mole e amassada. O gosto não era dos melhores, mas a fome dele era tanta que podia ter gosto de pedra que ele comeria com a mesma intensidade.

Malcolm tinha que admitir que tinha um pouco de medo de que algum animal selvagem que ali vivesse viesse para cima dele, apesar de não saber ao certo quais os animais que habitavam aquelas redondezas, não podia parar de desconfiar. Às vezes ele jurava que escutava o uivo de lobos vindo da floresta quando ele estava em casa, mas nunca pôde confirmar que realmente havia tais criaturas na mata, até mesmo porque nem ele nem ninguém haviam visto nenhum.

Frequentemente alguma coisa se movia na mata, ou então o vento soprava mais forte e as folhas balançavam, qualquer coisa já deixava Malcolm alerta, e era por isso que ele mantinha seu machado sempre o mais perto possível de si.

O machado dele era algo que ele sempre carregava quando saía, além de ser necessário em muita das atividades que ele pratica, é uma ótima ferramenta de defesa, mesmo que ele não o tenha usado com essa função ainda. Sabia, no entanto, que se gostasse tanto de guerra quanto seu irmão, sua arma não seria uma espada, ou um arco, ou uma lança, enfim, seria seu machado. Podia ser algo engraçado de se ouvir, mas em histórias por todos os cantos do mundo há heróis que lutam usando as mais alternativas armas, por que ele não poderia ganhar uma guerra com seu machado se um homem já ganhou com um martelo? Não devia ser muito mais difícil.

Isso, claro, se ele almejasse a guerra, pois diferentemente de Lucius, Malcolm não tem vontade nenhuma de abandonar sua terra e ir para um campo de batalha. Talvez até gostasse da adrenalina e da tensão do momento, mas sabia que um segundo depois que a batalha tivesse começado ele estaria se tremendo todo e estaria completamente sem reação.

Relaxando e deitando-se novamente, já de barriga cheia e satisfeito, ele ficou pensando em algo que já tinha em mente havia bastante tempo. Havia uma garota em sua aldeia, Grace, uma bela jovem dos cabelos dourados e dos olhos verdes, com o sorriso mais doce que ele já vira em toda a sua vida, e como já era de se esperar, ele estava apaixonado. Malcolm não gostava nem um pouco desse termo, mas numa noite conversando com sua irmã, acabou confessando que sentia alguma coisa a mais por ela. Sua irmã lhe disse que era o amor, mas eram termos que ele considerava muito femininos, e ele não queria passar essa impressão. Talvez fosse só besteira de sua mente, ele só sabia que estava nervoso e precisava dizer à garota o que ele tinha em sua mente havia tempo.

Malcolm também já havia conversado aquilo com Lucius, e sua reação não fora muito diferente do que ele já esperava. Houve aquela típica implicância de irmão quando um descobre algo muito sério sobre o outro, mas logo depois ele acabou descobrindo que Lucius não gostou muito de descobrir aquilo porque também gostava um pouco dela. Algo que já era de se esperar, afinal, não haviam muitas garotas na aldeia em que vivem, e as outras, comparadas à beleza de Grace, não são nada. Mesmo assim, Lucius desejou-lhe sorte e lhe disse que caso ele não tomasse nenhuma iniciativa de ir falar com ela, ele mesmo faria, e Malcolm iria perder a garota para seu irmão mais novo.

Não era algo que exigisse muito esforço da parte dele, no máximo ele ia se embolar ao falar com ela e ia acabar dizendo o que não queria. O pior que podia acontecer era Grace lhe dizer um não, mas só, sua vida ia continuar a mesma.

Conforme o tempo passava, mais frio ele sentia. Se mexendo de um lado para o outro, procurava achar uma posição onde a brisa gelada que soprava não o deixasse congelado como estava fazendo. Advertiu a si mesmo mentalmente por ter vivido toda a sua vida naquela região e não ter se acostumado com o clima ameno de lá.

Percebendo que não ia conseguir muita coisa se revirando enquanto estava deitado, ele se sentou e ficou mais próximo à fogueira, sentindo o bafo quente do fogo esquentando todo o seu corpo instantaneamente. Foi uma sensação chocante no inicio, mas logo se acomodou com o calor confortável e aproveitou em silêncio.

Ouvindo o crepitar das chamas e sentindo a agradável onda de calor que constantemente ia e voltava, Malcolm pegou seu machado e colocou-o em seu colo, analisando-o como sempre gostava de fazer. Já havia passado tanto tempo olhando e observando-o que praticamente decorara todas as falhas, detalhes e arranhões que neles havia. Havia sido feito por seu próprio pai, um ferreiro habilidoso e que tinha anos e anos de trabalho para contar como experiência.

Para não ficar somente sentado à beira do fogo sem nada para fazer, ele se levantou, pegou o machado e começou a desferir golpes no ar. Era somente uma atividade para que ele pudesse se manter aquecido e se distrair. Com movimentos brutos e nem um pouco delicados, ele atacava um inimigo imaginário em sua frente, dilacerando tudo e cortando tudo o que podia imaginar. O barulho do zunido que o machado produzia quando descia cortando o ar era simplesmente maravilhoso.

Ele ia para frente e para trás, para a esquerda e para a direita, desferindo golpes ferozes e defendendo outros que ele imaginava. Recuava, avançava, pisava ora com força, ora com cuidado. Estocava, cortava, defendia, tudo o que ele pensava serem movimentos de um verdadeiro guerreiro.

Em um dado momento alguma coisa passou voando rapidamente e sorrateiramente sobre ele, e por pouco não foi atingido por Malcolm, que estava tão envolvido em sua atividade que ignorava completamente o mundo ao seu redor.

Estava ofegante e suado quando menos esperava, mas não ia parar, estava simplesmente muito ligado e alerta para parar àquela altura. Sua mão e seus braços manejavam o pesado objeto como se ele fosse outro qualquer, sendo erguido com tanta facilidade quanto qualquer outro. Golpes cruzados, alternativos e rápidos, ele surpreendeu a si mesmo com aquela atividade, pois não imaginava que ele mesmo fosse capaz de ser tão rápido com um machado.

Foi então que uma estranha sensação subitamente o atacou. Quando desferia um de seus muitos golpes aleatórios, uma dor imensa atingiu-lhe o braço direito e ele deixou o machado cair no chão, produzindo um barulho estridente.

Espantando com o ocorrido inesperado, ele parou para ver o que tinha acontecido e ficou de olho em seu braço, esperando que alguma coisa a mais acontecesse. Balançou-o para frente e para trás e lhe tocou em várias partes, só para constatar de que estava tudo em ordem, e fora algumas dores em locais específicos, ele supôs que tudo o que sentira instantaneamente não passara de um mau jeito que dera quando estava lutando, aliás, não havia nem alongado.

Ainda esperando que algo acontecesse, mais uma dor repentina ou outro tremor como aquele, ele continuou imóvel e massageando seu braço para se certificar de que tudo estava normal novamente. Sabendo que tinha extrapolado seus limites, andou até o tronco da árvore que ele havia cortado horas mais cedo e se sentou.

Já parado e ofegante, Malcolm conseguia ouvir as batidas de seu coração num ritmo frenético e descontrolados, enquanto ele tentava se normalizar.

Puxou o machado com seu pé e se agachou para pegá-lo, guardando-o perto de si. Ficou ali naquele lugar retomando o fôlego e repreendendo a si mesmo por não ter sabido a hora de parar, certamente seu braço ia ficar dolorido por muito tempo.

Os sons noturnos seguiram pacificamente e o crepitar do fogo continuou como se não houvesse passado nem um segundo sequer. Malcolm apreciava a serenidade e a tranquilidade daquele momento de olhos fechados e sentindo tudo a sua volta. E de repente a dor. Ela voltou tão rápida quanto antes. Foi aguda, repentina e inesperada. Ele se contorceu e caiu de joelhos na terra enquanto tentava se segurar. A dor lhe percorreu todo o corpo, saindo de um ponto desconhecido e terminando em seu antebraço. Parecia-se com ondas elétricas lhe possuindo e queimando tudo o que se encontrava dentro dele, deixando apenas sua alma para que sentisse a dor de tudo o que estava indo embora. Seu braço tremia e dava espasmos violentos que a cada segundo aumentavam mais e mais, chegando a um ponto que seu membro direito parecia ter vida própria e estava prestes a sair de seu corpo. Era tudo insuportável.

Se foi cerca de dez segundos ou um minuto, ele não sabia, mas quando a dor parou, ele olhou ao seu redor completamente nocauteado. Estava suando frio e todo o seu corpo, que antes estava completamente aquecido pelo esforço da atividade, agora jazia gelado e trêmulo no chão.

Malcolm tocou todas as partes que ele jurara ter sentido aquelas pontadas agoniantes e dolorosas, se dando conta de que seu braço se encontrava completamente rígido. Os músculos se recusavam a se contrair e permaneciam tão duros e estáticos quanto uma estátua. Cada toque do dedo dele se assemelhava a toques de espinhos afiadíssimos, fazendo-o recuar a cada instante.

Um grito de dor e de susto quebrou o silêncio tranquilo da noite quando mais um ataque nervoso o atingiu e seu braço começou a ser inundado por outra onde de dor, e os espasmos voltaram. Caindo no chão e rangendo os dentes para tentar vencer a agonia que vinha lhe tomando, ele tremia e ia de um lado pra o outro na terra. Fazia de tudo para que sua atenção fosse desviada da dor, tentando inutilmente ignorá-la.

Batia os pés no chão, dava socos da terra fofa e mordia o canto de sua bochecha tão forte que o mesmo começou a sangrar. Esse ataque fora mais forte do que os outros dois anteriores juntos e ele já estava começando a perder o controle de si mesmo, desesperando-se. Apertava seu braço direito com tanta força que suas unhas perfuraram sua pele e pequenas gotas de sangue começaram a escorrer. No entanto, sua adrenalina no momento era tão alta que ele nem se deu conta de que estava causando mais ferimentos a si mesmo. Continuou apertando seu braço mais e mais, num ato que ele não tinha nenhuma consciência, e mais e mais suas unhas se afundavam em sua carne, rasgando todos os tecidos de sua pele.

Talvez ele causasse mais essa dor para si mesmo na esperança de que tal ato o tirasse a atenção da dor que ele sentia no braço, mas não estava funcionando, o problema era que ele nó não percebia isso e continuava.

O suor lhe escorria a testa, a nuca e suas costas e o deixava gelado e rígido. Sua respiração estava fora de ordem e ele sentia dificuldade de somente inspirar uma pequena quantidade de ar. Sua visão o enganava e ele via pontos brilhantes saltando bem diante de seus olhos, indo e vindo, surgindo e sumindo no mesmo segundo.

Numa outra ação desesperada, ele mordeu sua própria mão com violência. Já não tinha mais controle sobre si mesmo e qualquer coisa que ele pensasse em fazer lhe pareceria algo são. Seus dentes afundaram na pele e causaram feridas superficiais, mas para sua sorte, ele logo não precisou mais continuar fazendo isso. A dor e os espasmos que haviam começado há apenas alguns segundos atrás sumiram com a mesma intensidade que surgiram, desaparecendo aos poucos e logo parecendo que nunca existiram. Seu braço abandonou a rigidez de antes e se tornou membro dele novamente.

Malcolm continuou caído no chão, arfando e gemendo. Sua cabeça girava de um lado para o outro mesmo parecendo estar imóvel. Pontos brilhantes surgiam simultaneamente em seu campo de visão e dançavam, enganando seus sentidos. Podia sentir o sangue correndo dentro de suas veias e levando energia para o resto do seu corpo, renovando novamente tudo o que ele havia perdido naquele momento de desespero. A batida de seu coração parecia ricochetear dentro de sua cabeça, como se lá dentro houvesse um grande tambor sendo tocado o mais alto possível. As veias em sua cabeça latejavam e o suor lhe banhava por completo.

Girando no chão, ele ficou apoiado em suas costas enquanto tentava renovar as energias, tentando criar coragem para se erguer. Ainda permanecia desconfiado de que aquela dor súbita voltasse a ataca-lo de novo e por isso não conseguia deixar de ficar sempre alerta e desconfiado de qualquer sinal que seu corpo demonstrasse.

Apoiando-se no tronco ao seu lado, ele se levantou com cuidado e cautela, sempre evitando colocar muito peso sobre o seu braço direito. No inicio pareceu que ele precisaria de muita mais força do que ele sozinho poderia conseguir, mas depois que a exaustão do momento foi saindo de cena, ele não precisou de muita coisa, para sua sorte.

Sentou-se no tronco, ainda ofegando e massageando o braço. Limpou o suor e de sua testa com a manga de sua roupa e suspirou relaxado por ter quase certeza de aquela dor súbita não voltaria a atormentá-lo mais por enquanto.

-Mas o que foi que aconteceu aqui... –Ele balbuciou para si mesmo tentando compreender o que havia simplesmente acontecido.

Antes ele já havia sentido um pouco de dor em seu braço, mas não dera nem um pouco de importância, pois seu trabalho acaba exigindo um pouco mais do que deveria dele, e sentir dores musculares era a reação mais normal do mundo. Em outros momentos, no entanto, a dor surgia mais forte, e ele tirava um descanso de alguns minutos para se recuperar e se alongar e tomar um pouco d’água. Mas o que aconteceu naquele momento foi surreal, nunca esperaria algo daquele tamanho, nem sabia o que poderia ter causado aquilo. Seu braço parecia que simplesmente não era mais parte dele, ficara duro como uma pedra e rígido como um diamante, além de tremer e gerar uma dor que nem se uma lâmina incandescente o penetrasse doeria tanto assim.

Pegando seu cantil, ele despejou um pouco de sua água em seu braço. O líquido não ajudou a diminuir a pressão em seu músculo, e ele se sentiu mais estúpido por pensar que isso seria de alguma ajuda.

Deitando-se, ele conseguiu enfim se acalmar, e aos poucos o sono foi voltando e o cansaço típico de um dia inteiro de trabalho árduo foi dominando-o. Ele deixou que isso acontecesse da forma mais natural possível, logo esquecendo que antes quase tivera um desmaio de tanta dor. Acomodou-se no calor que sua fogueira estava lhe proporcionando e fechou os olhos.

Certamente não demoraria mais do que cinco minutos para que ele dormisse, mas ao longe o som de cascos de cavalo batendo no chão foi surgindo no silêncio sereno da noite. O animal parecia estar correndo pelo ritmo de suas passadas que a cada segundo ficavam mais altas, indicando que quem quer que fosse estava se aproximando.

Malcolm tentou ignorar, achando que se tratava de algum outro camponês, mesmo que as condições daquele encontro indicassem que aquela pessoa tinha muito mais chance de ser um ladrão do que um mero camponês.

Então, cerca de alguns segundos depois o animal parou diante do acampamento improvisado de Malcolm e o homem que o montava desceu do cavalo, caindo com delicadeza no chão. Instintivamente ele despertou e se levantou num salto, preparado para o que quer que fosse que estivesse prestes a acontecer. Para sua sorte, não era nenhum intruso ou ladrão.

Lucius era o homem que se encontrava sobre a luz alaranjada de sua fogueira, com expressões sérias e apreensivas. Ele estava imóvel, olhando fixamente para seu irmão.

-Uspiam está em chamas. –Foi a única coisa que ele disse.