Notas iniciais
" 'É esse o deus que vocês adoram?' Ela indagou mentalmente enquanto os via sofrer, tremendo de frio e rezando para as pedras. 'Que deixa seus filhos morrerem de frio em frente à sua própria casa? Que não os abriga por serem pobres e sujos?' "

O dia havia acabado de raiar, o Sol vinha nascendo imponente no horizonte banhando o mundo e as pessoas com sua agradável e aquecedora luz. Havia no céu poucas nuvens, que não eram muito grandes. Alguns bandos de pássaros passavam voando de tempo em tempo, cruzando seus caminhos e voando para longe, desaparecendo de vez. Um leve sopro do vento úmido e frio se abatia nas construções da cidade, gerando aquela sensação típica daquela época do ano.

Pouco a pouco, as pessoas iam acordando e deixando o conforto de suas camas e colchões para começar mais um dia de trabalho em suas vidas, afinal, o tempo não espera ninguém. Das ruas da cidade era possível ouvir de dentro das construções rochosas os murmúrios de homens e mulheres, com suas vozes ainda sonolentas e cansadas. Já outras pessoas, que haviam acordado antes mesmo do Sol nascer, já andavam pelas sinuosas ruas, carregando caixotes e garrafas, ou então uma variedade enorme de produtos, andando sempre rápido para onde tinham que ir.

Presos ali perto, dois cavalos de tom marrom praticamente cochilavam enquanto estavam amarrados num grosso poste de madeira no fim daquela rua. Nenhum dos dois animais emitia qualquer tipo de som, e nem mesmo sua respiração podia ser ouvida. A única prova que mostrava que os dois ainda estavam vivos era que se mantinham de pé até aquele momento.

Apesar de ser um dia que aparentava trazer tudo o que era necessário para ser uma boa manhã, de dentro do reino de Esmeralda, as construções altas e acinzentadas bloqueavam qualquer sinal de qualquer tipo de emoção que a cidade poderia demonstrar. Os tons pálidos das casas e prédios davam um clima monótono a tudo por ali, tirando qualquer sensação boa de qualquer pessoa. As janelas escuras e enegrecidas, muitas vezes tortas e quebradas, davam às construções uma aparência de abandono, mesmo que ainda houvesse gente morando lá dentro.

Fora tudo isso, nas ruas, o mau cheiro e a sujeira espalhada por todos os lados não era não era mais um fator positivo para alegrar aquela manhã. Águas com tons de marrom desciam escorrendo pelas extremidades enegrecidas dos blocos de pedra que agrupados formavam a estrutura da rua. Muitas vezes essas águas impuras desciam por rachaduras ou então por falhas que estavam localizadas entre um bloco e outro e sumiam para sempre. Porém, não era somente isso, lixo estava jogado por muitos lados e dejetos de animais estavam caídos pelos cantos.

Não demoraria mais do que vinte minutos, e logo tudo aquilo estaria infestado de pessoas frenéticas e apressadas, correndo, andando a cavalo ou de qualquer outra maneira existente. Logo muitas pessoas estariam se acotovelando, atropelando umas a outras, passando uma por cima das outras para fazerem o que tem de fazer, ignorando completamente o belo dia que estava sendo lhes proporcionado. Apesar de que mesmo que quisessem aproveitar o dia, não poderiam, pois o clima pálido do reino deixava tudo aquilo muito mais difícil.

O reino de Esmeralda é conhecido por muitos como um dos muitos reinos ricos existentes em todo o continente de Hailthorn, mas tudo aquilo que ela estava vendo não chegava nem perto do que ela imaginava que o reino realmente era. Ainda mais com esse nome que possui, uma bela pedra que não podia ser comparada a nenhum a outra. Aquela situação em que o povo vivia não era digna de ser de um reino com tal nome.

Também não se preocupando muito com tudo o que estava acontecendo a sua volta ou com as pessoas que passavam ao seu lado, Maya andava apressada e de cabeça baixa, sempre olhando para trás e para tudo ao seu redor, mesmo que discretamente. Coberta por sua manta marrom, ela escondia seu rosto em seu capuz, não deixando que ninguém a visse. Estava um pouco nervosa e não sabia se aquilo que ela estava fazendo era o que ela realmente quis para sua vida um dia, realmente parecia tudo muito diferente e distante de seus planos.

Tomando cuidado para não pisar nas poças de águas sujas, ela andava praticamente aos saltos e pulos. Imaginava como as pessoas conseguiam viver numa situação como aquela, era desumana, nem mesmo animais conseguiriam viver em sua própria sujeira.

Estava um pouco perdida, tinha que admitir, mas já era de se esperar, pois não havia como saber para onde se estava indo num lugar como aquele. As ruas não seguiam uma única direção, constantemente ruelas surgiam em cada lado e entre as construções, e até mesmo havia horas em que o caminho se bifurcava. Maya, para sua sorte, seguia seu instinto e tinha ao menos uma noção da onde era o local que procurava. Não era possível vê-lo da onde ela estava, mas se estivesse indo na direção certa, logo aquela enorme construção surgiria no seu campo de visão e se tornaria claro o caminho até lá.

No caminho, homens pobres e provavelmente sem uma casa para viver vagueavam sem rumo pelas ruas imundas, tão sujas quanto eles. Cambaleavam, e outros já estavam caídos e encostados, pedindo por ajuda. Num momento um deles se dirigiu até ela e pediu um pouco de comida, de água, de dinheiro, qualquer coisa. Maya tentou ignorá-lo, e seguiu sem sequer olhar para o homem. Ele, no entanto, segurou sua mão e tentou mantê-la por ali.

-Por favor... –Ele sequer tinha voz para conseguir dizer algo. –Por favor...

Maya se livrou do aperto de mão pegajoso dele e somente balançou a cabeça negativamente, tentando retomar sua caminhada mais uma vez. Porém, fora impedida de novo.

-Não... Socorro... –O homem insistia. –Estou morrendo...

Maya, percebendo que não ia sair dali se não tomasse uma decisão, disse com a voz baixa:

-Meu senhor, eu não tenho nada aqui, agora, por favor, me solte e deixe-me ir.

Foram palavras curtas e diretas, mas que parecera não surtir efeito nenhum no sem-teto.

-Não... É só... Qualquer coisa, por favor... –Sua voz era rouca e saía com dificuldade de sua boca.

Ela suspirou. Aquilo já estava acabando com a paciência dela.

Para Maya, seria muito mais fácil dar ao homem uma moeda apenas e então seguir seu caminho, mas não era tão simples assim. Ela não tinha como saber se alguém a estava observando, ao mesmo tempo em que também não sabia se aquilo era o certo a se fazer. Dar uma esmola àquele senhor podia ser o sucesso ou o fracasso daquilo que ela viera buscar. Ainda era muito desinformada, uma iniciante, e não tinha nem os conhecimentos básicos daquilo que ela precisava.

Um pouco nervosa, ela respondeu:

-Meu senhor, se não me soltar agora vou ter que apelar para uma medida mais drástica. –Sua voz era séria e não mostrava nenhum um pouco de comoção pelo necessitado ao seu lado.

Ele, receoso, soltou o braço dela lentamente e perguntou:

-Seria capaz de fazer algo ruim a uma pessoa como eu? –Ele perguntou antes que ela partisse.

Maya parou a caminhada e, sem olhar para trás, respondeu:

-Não sei ainda.

Mesmo que ainda sentisse um peso na consciência por não fazer nada para aquele homem quando ela podia, Maya continuou andando pelas ruas do reino de Esmeralda tentando ignorar os sem-teto que se concentravam especialmente naquela parte da cidade.

Enquanto andava, ela mantinha uma de suas mãos na adaga que ela trazia presa a sua cintura, caso ela precisasse recorrer à arma, coisa que ela duvidava muito.

Andou cerca de mais uns oito minutos e, nesse período de tempo, as pessoas que antes despertavam dentro de suas casas e iam vagarosas tomar sua primeira refeição já estavam andando frenéticas e a pleno vapor nas ruas da cidade. Homens carregando caixotes cheios de verduras e frutas fritavam para crianças que os seguiam ordens; mulheres cuidavam de potes cheios de leite enquanto os carregavam para suas casas; guardas do reino montados a cavalo foram aparecendo aos poucos e logo estavam espalhados por diversos pontos da cidade, com armaduras reluzentes e polidas, onde um brasão verde com branco estava estampado no canto superior esquerdo. Havia um grupo de pessoas amarradas pelas mãos andando em fila e sendo guiadas por um homem gordo e careca, todas usavam trapos e estavam mais sujas do que os mendigos que ela havia visto antes. A única situação mais normal por ali talvez fosse um pequeno grupo de crianças que corriam e brincavam despreocupadas dos acontecimentos ao seu redor, onde tentavam se esconder para não serem pegas por seus companheiros.

Começou então a ficar mais complicado andar pelas ruas, a cada segundo alguém esbarrava nela e nem parecia perceber que havia trombado com alguém. Homens suados carregavam enormes pesos em suas costas e estavam mais preocupados em chegar onde deviam do que se iam machucar alguém em sua corrida. Logo tudo ficou barulhento e bagunçado, e a calmaria que abatia a cidade alguns minutos atrás pareceu nunca ter existido.

Maya tentava evitar deixar que seu capuz caísse e assim mostrasse seu rosto. Não havia um motivo para isso ainda, mas era o que ela sempre fez a vida toda. Mas num momento, um homem forte e robusto passou por ela tão rápido que ao colidir com ela, fez com que seu capuz caísse e seu belo rosto foi exposto à luz fraca do Sol que conseguia chegar àquela parte da cidade sem que as construções cinzentas a impedissem. Maya era uma mulher jovem, de não mais de vinte anos de idade. Seus longos cabelos loiros caíram por sobre o seu ombro assim que o capuz os descobriu e, reluzentes, eles balançaram delicadamente. Sua pele era branca e delicada como a de uma garotinha, e às vezes, mesmo que ela não gostasse muito disso, sorria sem querer e logo ela adquiria a expressão mais bonita que um homem poderia ver. Seus olhos castanhos eram sempre sérios e, em seu braço direito, ela tinha uma pequena cicatriz de uma longa história de quando ela ainda era criança.

Cobrindo seu rosto novamente, ela apertou o passo e seguiu andando.

De repente, em meio às casas e prédios tortos e sinuosos, a imagem de uma gigante igreja surgiu, erguendo-se muito além do que as outras construções eram capazes de ir, com vidrais gigantes e coloridos e uma torre que era tão alta que se fosse um pouco maior poderia encostar-se aos limites do céu. Diferentemente de todas as outras casas e prédio ali, a igreja em questão não era feita daquela mesma pedra acinzentada e sem vida, e sim de uma pedra branca e muito reluzente, tão limpa e brilhante que não era digna de estar concentrada num imundice como aquela.

Agora, se ela seguisse a imagem da igreja, logo chegaria onde devia. Não precisando mais se preocupar se estava tomando o rumo certo ou indo na direção errada, Maya somente começou a andar sem preocupação para onde tinha que ir e como antes as pessoas estavam fazendo com ela, saía esbarrando em todos na rua sem parecer se importar.

Não demorou muito mais do que antes, e não tardou para ela logo se encontrar numa enorme e movimentada praça. Agora, em vez de uma apertada e escura rua, estava num local amplo e aberto, e ainda que houvesse bastantes pessoas por ali, havia muito mais espaço livre do que nas ruelas imundas que Maya se encontrava antes.

No centro da praça, uma fonte de pedra ilustrando um anjo derramando água por um vaso ocupava o maior espaço. Ao redor da fonte, muitas pessoas se concentravam em algo que parecia ser uma feira. Barracas e mais barracas de madeira e lona estavam espalhadas irregularmente, com caixas e mercadorias deixadas ao seu lado enquanto os homens montavam suas barraquinhas. Alguns animais estavam presos por ali também, não somente cavalos, mas havia também porcos, cabras, carneiros e galinhas, enfim, uma variedade de bichos que, quando não estavam a venda, estavam presos esperando seus donos fazerem o tinham que fazer.

Era uma zona completa, e apesar de tudo isso, ainda estava mais fácil para se transitar do que nas ruas da cidade. Muitas e muitas pessoas caminhavam por ali esperando que tudo terminasse de ser montado para que pudessem trocar e comprar o que precisavam.

Maya atravessou a praça cheia andando sem pressa, e tomando cuidado para não esbarrar em nada e derrubasse todas aquelas mercadorias num efeito dominó. Estava, no entanto, morrendo de fome, e durante a noite toda e o praticamente todo o dia anterior, ela não comera nada, e não se conteve quando deu de cara com um caixote cheio até o topo de maçãs vermelhíssimas. Hesitou, parando de andar e olhando para os lados. As pessoas andavam apressadas e pareciam nem perceber que ela estava ali, o dono do caixote estava agachado montando os pés que sustentariam sua barraquinha de madeira e estava tão concentrado em sua tarefa que nem percebeu a presença dela ali. Maya, então, colocou a mão sobre uma das frutas e, ainda hesitante, puxou e escondeu-a debaixo de sua manga, olhando ao redor para se certificar de que ninguém vira nada. Assim que constatara que ninguém percebera nada mesmo, seguiu caminhando, como se não tivesse feito nada, afinal, pensava, uma maçã a mais ou a menos para aquele homem não iria lhe fazer diferença.

Um homem guiando um monte de bodes amarrados em uma fila passou bem diante dela, impedindo a passagem. Maya assustou no inicio, e recuou um pouco para dar passagem para os animais. Eles faziam diversos sons ao mesmo tempo e não ficavam calados nem por um segundo, além de que quem os guiava gritava como um louco anunciando os animais ali. Tudo isso somado ao barulho crescente da feira era ensurdecedor. Desviando para conseguir passagem, ela se esquivou para o lado e continuou o caminho.

Agora, com os passos um pouco mais abertos, ela tentou evitar que algo mais a parasse pelo caminho, fosse pela tentação ou somente por bloquear seu caminho mesmo. Passou ao lado da fonte e algo reluzindo dentro da água a chamou a atenção. Evitando olhar, a única coisa que percebeu era que a água estava cheia de moedas douradas tremeluzindo abaixo de todo aquele líquido sujo. Muitas moedas estavam amontoadas dentro daquela fonte, e mesmo que a riqueza ali dentro fosse enorme, ninguém ao redor parecia se importar.

Será possível que as pessoas ainda fazem pedidos jogando moedas em fontes e poços? Ela pensou consigo mesma. Essa a maior bobeira de todas...

Deixando se levar somente mais uma vez, ela arregaçou a manga de seu braço esquerdo e o enfiou na água, não ligando se alguém a visse fazendo isso, afinal, as moedas estavam jogadas ali e qualquer um que quisesse podia simplesmente se agachar e pegar, como ela estava fazendo. Colheu algumas moedas porque estava realmente necessitando de algo com que pudesse comprar suprimentos para viver durante o tempo que passasse ali no reino, além de que o dinheiro estava jogado ali, dando bobeira, ela não era tola de deixa-lo para trás.

Assim que colheu uma quantidade que considerou significativa, ela guardou a quantia em seus bolsos e continuou andando. Algumas pessoas ao longe a olhavam com um olhar desconfiado, e ela não ligou, tirou a maçã que estava escondendo e começou a comê-la. Alcançou o fim daquela praça movimentada e saiu logo dali. Quando saiu, o caminho para o qual ela ia dava em uma larga e longa rua, muito espaçosa e tão tranquila para andar quando a praça, até mais. Carroças estavam estacionadas no canto da rua e algumas outras estavam andando sendo guiadas por bois ou cavalos, fora as pessoas que andavam a pé mesmo, como ela mesma. Havia uma calçada na qual as pessoas podiam andar, mas era tão estreita que não compensava, e ela seguiu assim mesmo.

No final daquele trajeto, estava a igreja, branca, imponente e enorme. Vidrais coloridos, uma enorme e alta torre com pontuda, onde um sino dourado pendia. Um muro igualmente grande a cercava, delimitando seus limites, e, diferentemente de tudo que Maya havia visto até ali, a igreja era um monumento muito bonito e bem cuidado. Estava certa de que ali mesmo onde ela devia estar indo.

No caminhou, terminou sua maçã e jogou os restos num montinho de lixo acumulado num canto da rua e alcançou então os muros da igreja. Com enormes tijoles de uma pedra polida que ela desconhecia, imagens se santos e de anjos estavam entalhadas nas rochas, e de tempo em tempo, uma janelinha se abria em meio àquele monte rochoso. Cruzes também estavam entalhadas no muro, profundas e destacadas. O portão enorme estava aberto para que os fiéis pudessem entrar à vontade e fazer suas preces. As barras de metal do portão não estavam enferrujadas e brilhavam perante a luz fraca do Sol.

Mas se a igreja era bela, a imagem do lado de fora era tão feia quanto o resto da cidade. Apoiados no belo muro, alguns dormindo, outros somente escorados por ali mesmo, estavam mendigos. Muitos mesmo, se aquecendo em fogueiras improvisadas e fazendo preces desesperadas para as imagens entalhadas nas pedras do muro. Estavam todos praticamente morrendo de frio, tentando se cobrir com mantas e trapos velhos. Maya perguntou a si mesmo porque eles não entravam e pediam por abrigo dentro da igreja em vez de ficar congelando do lado de fora e rezando para imagens decoradas em uma pedra. Ocorreu-a então quem muito provavelmente eles já deviam ter feito isso.

É esse o deus que vocês adoram? Ela indagou mentalmente enquanto os via sofrer, tremendo de frio e rezando para as pedras. Que deixa seus filhos morrerem de frio em frente à sua própria casa? Que não os abriga por serem pobres e sujos?

Atravessando os portões e deixando aquela imagem para trás, ela se deparou com uma situação bem diferente dentro dos domínios da igreja. Verdes e belos gramados e jardins dispostos de maneira simétrica no terreno estavam enfeitados dos mais belos jeitos. Flores coloridas eram cuidadas por jardineiros, enquanto uma cruz de madeira alta e brilhante estava presa ao solo dos dois lados (direito e esquerdo). Havia também, próximas a essas cruzes, pequenas casinhas que Maya não tinha ideia de para o que serviam. Algumas pessoas andavam alegres por aqueles pequenos campos enquanto conversavam.

Andando mais um pouco, ela logo se deparou com a entrada da igreja. Uma porta de mais ou menos quatro metros de altura por uns três de largura estava escancarada deixando à vista o interior. Maya adentrou receosa e desconfiada do lugar.

Caminhou e enquanto andava, seus passos ecoavam por todos os lados. O interior era imenso e era muito mais belo do que qualquer coisa que ela poderia imaginar. O teto em formado de arco e sustentado por pilastras ornamentadas dispostas na lateral da igreja cobria uma construção tão bela que era digna de ser a moradia de um ser divino. Bancos extensos e de carvalho estavam dispostos em fileira do lado direito e esquerdo de Maya, onde algumas poucas pessoas estavam ou ajoelhadas ou sentadas fazendo suas preces, mas sempre de olhos fechados. No fim, havia o altar, de uma pedra negra e brilhosa, onde os pontos brancos pareciam com as estrelas salpicadas numa noite de Lua cheia; a enorme imagem de uma cruz e de um homem crucificado estava entalhada logo atrás; um livro grosso e desgastado se encontrava aberto ao lado de um monte de velas que derretiam lentamente e derrubavam cera quente no chão; um órgão se encontrava escondido nas sombras, esperando para ser tocado. Vidrais coloridos e com imagens de passagens de contos permitiam a entrada distorcida da luz do Sol. Havia escadas em forma de espiral disposta nos quatro cantos, e quem subisse se encontraria em um andar superior, onde havia mais bancos para que os fiéis pudessem acompanhar os ritos quando a igreja estivesse cheia. Havia algo além, mas Maya não conseguia ver dali onde estava.

Andando devagar e olhando ao redor à procura da pessoa que a esperava, Maya desconfiava de que aquilo não era o que ela pensava se tratar, e sim um tipo de peça. Dentre os homens e mulheres que ali se encontravam, ela conseguia ver uma senhora muito velha, de cabelos tão brancos como a neve; um casal jovem que rezava de mão dadas; um homem que estava ajoelhado e chorando; uma mulher grávida e com uma criança de colo dormindo; e lá na frente um rapaz sozinho que somente apreciava os vidrais e o local. Nenhuma dessas pessoas se parecia com quem quer que fosse que Maya precisava se encontrar. Esperava uma mulher não muito mais velha do que ela, sentada sozinha e isolada em algum, com a face coberta, mas não havia ninguém assim por ali.

Desconfiando de que talvez fosse parte daquele processo de iniciação, ela escolheu um local mais afastado e reservado das outras pessoas e se sentou, suspirando. Não tirou o capuz em momento algum e embora estivesse numa igreja, estava muito desconfortável naquele ambiente. Observava aos outros fazerem suas preces e escutava atentamente enquanto eles balbuciavam palavras rápidas e vigorosas, com vontade e intensidade. Sua mente se voltou aos homens e mulheres sem um lugar para viver morrendo de frio e fome do lado de fora, e novamente ela pensou em motivos para eles não estarem ali dentro. Se afinal são todos irmãos, porque aqueles mais necessitados e sem estrutura não podiam ser acolhidos num lugar grande e rico como aquele? Era uma hipocrisia gigantesca, ela pensava, não sabia como os padres podiam ir se deitar sabendo que recusavam alimento e abrigo para mendigos somente para não estragar a imagem de nobreza de sua igreja. Maya não sabia se o motivo era de fato esse, mas conhecendo muito e por tantas vivências que ela passou, não tinha dúvida.

Enquanto o tempo passava e ela esperava sentada e sozinha, as pessoas que rezavam logo iam deixando a igreja e outras iam entrando e lentamente se acomodando, se preparando e fazendo suas preces. Ninguém veio até ela, somente um garoto de pouco mais de catorze anos se sentou próximo a ela, se ajoelhou, rezou, levantou-se e foi embora. Na saída, ele a cumprimentou. Maya retribuiu com um aceno de mão e o rapaz saiu realizado.

Ocorreu-a então que a pessoa que a esperava poderia estar na parte superior da igreja, afinal, havia muitos lugares vagos lá em cima, e isolados da maioria era um lugar mais apropriado para uma reunião como aquela do que em meio a todos aqueles que rezavam lá embaixo. Hesitou antes de se levantar e ir para o andar de cima, pois ainda achava que a pessoa poderia aparecer por ali, mas cerca de três minutos se seguiram e ninguém mais veio até ela. Então, levantando-se, ela andou em meio aos bancos para chegar até uma das quatro escadas.

Andando, passou por algumas pessoas que estavam saindo, e dentre essa gente, uma mulher alta e de cabelos negros e encaracolados passou por ela, esbarrando em seu ombro e dizendo alguns pedidos de desculpa. Maya não respondeu e a mulher seguiu. Continuando como se nada tivesse ocorrido, ela iniciou a subida da escada, e foi então que seu olhar, oportunamente, avistou o lugar em que ela estava aguardando antes, e Maya vira que o lugar onde ela estava sentada antes agora estava sendo ocupado pela mesma mulher que esbarrara com ela antes, e assim que seus olhares se encontraram, a mulher dos cabelos encaracolados cobriu seu rosto com um véu transparente. Maya sorriu, era muita coincidência para que estivesse errada, e voltando, retornou para o mesmo lugar que estava antes.

Sentou-se no mesmo lugar e se aproximou da mulher com a face coberta. Tentou evitar um contato direto demais. A mulher parecia rezar e não fez a mínima questão de olhar para Maya assim que ela se aproximou. Esperando para um momento oportuno, ela esperou até que a moça houvesse terminado suas preces, e demorou mais do que ela esperava, realmente muito mais. Ela dizia as palavras lentamente e não e sempre que errava alguma coisa, recomeçava de novo para que sua prece fosse a mais impecável de todas.

Ao fim da oração, a mulher retirou o véu, olhou de esgueira para Maya, parecendo desconfiada.

-Não vai fazer sua oração, minha jovem? –A mulher perguntou.

Maya estranhou a pergunta, e pensando do que diria, respondeu:

-Já fiz minhas preces. –Sua resposta foi direta.

-Não a vi em momento nenhum dizer uma palavra sequer. –A mulher continuou. –Nem se mover você movia, está bem?

-Estou sim, e na verdade eu prefiro rezar para mim mesma... –Ela disse sem muita convicção. –É melhor guardar para mim o que eu rezo.

A mulher fez menção de se levantar, e Maya já estava perdendo as esperanças de que ela fosse quem realmente esperasse que fosse. As duas se moveram inquietos, e com o olhar fixo, Maya não desviava o olhar da mulher esperando alguma frase dela.

-Algum problema? –Ela perguntou incomodada por ser encarada.

-Não... Desculpa, pensei que você fosse uma pessoa que eu conhecia... –Ela disse e já ia se levantando quando ouviu:

-Bom, você ainda não me conhece, Maya.

Maya cessou seus passos e olhou para trás, e as esperanças que ela tinha, por mais míseras que fossem, voltaram, e ao mesmo tempo, um sentimento de desconfiança brotou dentro de si.

-Gostei de sua persistência, ficou aqui ao meu lado o tempo todo, e em momento nenhum me interrompeu pois não sabia de fato quem eu era. –A mulher continuou. –Chegou aqui no horário combinado e não fez mais do que realmente devia, a paciência e a persistência são os valores humanos que eu mais prezo, e devo dizer que você cumpriu o que eu esperava. Mas devo acrescentar que furtar aquela maçã foi desnecessário.

-Eu estava faminta... –Ela ia tentar se justificar, e sentando-se ao lado da mulher, iniciaram uma conversa.

-Até mesmo para nós o furto pode ser abominável... Mas não vamos entrar em detalhes agora. –Ela disse, e tirando completamente e véu e pondo-o de lado, ela apresentou-se: — Me chamo Aurora.

-Creio que já saiba quem sou. –Respondeu, e fez-se uma rápida pausa, e ela arriscou perguntar: — Tenho que lhe perguntar o motivo da igreja.

Aurora dirigiu-lhe um olhar de canto de olho, expressando um pouco de dúvida. Um delicado sorriso surgiu no canto de sua boca. Ela era uma mulher um pouco mais velha que Maya, talvez uns três ou quatro anos, no máximo. Cabelos negros, longos e encaracolados que lhe desciam até quase a cintura. Usava um vestido branco e luvas também. Tinha olhos castanhos e brilhantes e era realmente uma mulher atrativa. Em seus braços, largas argolas e pulseiras das mais variadas cores e formas pendiam, balançando e tinindo conforme ela se movia. Colares longos e variados também pendiam pendurados em seu pescoço, além de brincos dourados com uma pedra vermelhas que ela usava.

Aurora sorriu, e disse:

-Está me perguntando o motivo de estarmos em uma igreja?

Maya assentiu.

Aurora alongou-se em seu lugar, suspirando e olhando em volta, apreciando o belo e decorando interior, cheio de cor e objetos dourados de valor inestimável.

-Me perguntei isso na primeira vez, mas guardei somente para mim a indagação... –Ela começou. –Depois de um tempo, ouvindo e pensando, cheguei num entendimento.

-Tem tantos outros lugares mais reservados e... –Ela procurava a palavra certa. –Apropriados, eu diria.

-E por que não aqui? –Ela perguntou retoricamente. –Bem Maya, não sei se tudo o que sei sobre você é o bastante, na verdade sei que não é, só tenho certeza de que você ainda deve estar muito confusa quanto a tudo isso que está prestes a enfrentar e passar, é um processo longo e difícil, tenho que dizer.

-Não sei nem se realmente devia estar aqui...

-Isso aqui Maya, — Ela continuou indiferente ao comentário dela. –é a casa de nosso inimigo. Talvez sejam palavras fortes, mas é a verdade, o que estamos destinadas a fazer é visto com maus olhos pelos membros da igreja, e não devia ser diferente, mas é o nosso destino, é o que estamos destinadas a fazer e é o que iremos fazer, independente de quem se opor aos planos dele!

Maya observava Aurora ficar estupefata e agitada enquanto explicava. Ela gesticulava a cada palavra e parecia estranhamente alegra demais. Antes de conhecê-la, esperava encontrar alguém sério e mais oculto, só que quem conhecera estava bem longe disso.

-Talvez você ainda não compreenda tudo como nós vemos, mas logo você irá entender do que tudo isso se trata. Não há um lugar melhor para nosso primeiro encontro do que na própria casa de nosso inimigo! Veja só, é tudo tão bonito, delicado, carinhoso, com tantos detalhes... Mas não se engane, você se assustaria com as atrocidades que a igreja seria capaz de cometer.

Conforme ela falava, mais gente ia entrando e se acomodando em lugares próximos a elas, sentando-se perto de onde estavam, e Aurora não fez questão de diminuir seu tom de voz e continuou a falar do assunto como se estivessem sozinhas.

Na mente de Maya muitas perguntas vinham à tona, e ela não tinha capacidade de sequer dirigir uma a ela, porque não tinha certeza se era o que devia fazer naquele momento.

-Mas também cometemos atrocidades. –Maya disse.

Aquilo estranhamente abriu um sorriso exageradamente largo na expressão enigmática de Aurora.

-Aí está Maya! Você está no caminho, na linha do raciocínio, mas não pare aí. Sim, cometemos atrocidades, matamos, queimamos, destruímos, mas qual o problema nisso?

Ela dirigiu um olhar completamente arregalado para Maya, claramente esperando uma resposta.

-Bom, pessoas vão morrer, vidas vão ser destruídas... Aonde você quer chegar com isso?

-Não, isso são consequências de nossos atos, eu te pergunto, qual o problema de cometermos esses atos? –Ela continuou instigando.

Sem querer prolongar mais aquilo, Maya deu de ombros e disse:

-Se me puder dizer logo seria melhor do que ficar me tentando a responder algo que eu não vou descobrir tão cedo.

-Não há problema, Maya. –Ela respondeu simplesmente e parecendo um pouco sombria. –Não há problema, porque o que nós estamos fazendo não vai contra o que seguimos. Agora a Igreja, como um todo, está muito bagunçada. O que matou mais pessoas até o dia de hoje? Doenças? Guerras? Brigas? Acidentes? Não, foi a Igreja.

Uma pausa dramática foi dada entre o discurso de Aurora, como se ela já não desse bastante vida às suas falas gesticulando e interpretando suas palavras. Suas pulseiras e argolas parecendo pequenos sinos tocando conforme ela se mexia e movimentava os braços.

-A Igreja, que devia ser a instituição de paz, aquela que iria aproximar os reinos, apaziguar as nações, e em vez disso está matando. Os padres, em suas pregações, dizem que matar é um pecado, que adultério é mais do que um simples crime, e por trás disso estão queimando e enforcando inocentes a cada dia que se passa... Hipocrisia é um eufemismo... –Ela riu. –Lotes no céu, até isso eles começaram a inventar agora, já ouviu falar? Até parece que há como você comprar uma casa no paraíso! Não sei quem é mais tolo nessa história, se são as pessoas que compram ou quem inventou toda essa calúnia.

Tudo o que Maya ouvia Aurora dizer era difícil de ser compreendido, o que ela dizia não era falado como normalmente uma pessoa se expressaria, ia muito, além disso, e ela gostava de enfatizar tudo que dizia. Até mesmo porque Aurora não era uma mulher das mais comuns.

-Imagino que você deve saber que eu conheço as atrocidades da Igreja mais do que ninguém. –Maya disse. –Caso contrário, não haveria motivo para eu estar aqui.

-Eu sei disso Maya, e tenho que dizer que também me incomoda um pouco, afinal, seu motivo de se juntar a nós é somente por ódio, por raiva, não é um motivo verdadeiro ainda, que vem lá de dentro de sua mente. –Aurora respondeu com seu olhar perdido em algum objeto muito distante da conversa entre as duas.

Maya pensou em se justificar, entretanto, não havia o que dizer, pois ela estava ali exatamente por aquilo mesmo, e tentar falar mais tentando esconder sua verdadeira intenção de não ia servir de nada.

-Mas um dia você vai compreender do que se trata tudo isso e vai deixar suas motivações pessoais em segundo plano. –Finalizou.

Nenhuma das duas disse uma palavra a mais depois dessa conclusão de Aurora. Maya passou a palma da mão sobre as falhas que estavam cravadas na madeira do banco, enquanto sua mente girava num turbilhão de pensamentos e ela não queria dirigir nenhum a Aurora, pelo simples fato de que as respostas poderiam desagradá-la. Já Aurora estava mergulhada em suas viagens pessoais e o que quer que fosse que passasse por sua mente, estava indecifrável em suas expressões.

O barulho e o som de conversas lá dentro eram mais intenso agora, muito mais gente havia entrado e ia se sentando, e não demoraria mais de alguns minutos para que o padre subisse no altar e iniciasse o encontro.

Desconfortável e nem um pouco a fim de ouvir o que iria suceder aquele momento, Maya perguntou:

-Nosso encontro acaba por aqui? Quero dizer, para onde vamos agora?

-Gostaria de esperar um pouco para ver como que ia ser o dia de hoje por aqui, mas a prioridade por agora não é essa... –Ela se levantou e disse: — Vamos lá fora, vai acontecer algo que eu preciso que você veja.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.