Herdeiros

2 Felson (Segunda parte)


Notas iniciais
"-Por isso que eu sempre ando com uma espada..."

-Você não imagina o quanto foi complicado achar isso aqui. –Lorenzo respondeu.

-Imagino. –Felson disse e cumprimentou calorosamente o rei. –Seja muito bem vindo Lorenzo.

-Muito obrigado Felson. –Lorenzo recusou o aperto de mão e abraçou-lhe amigavelmente. –Há quanto tempo nós não nos encontramos?

-Não sei, realmente não faço ideia. –Disse. –Nem me lembro da última vez que não tinha preocupações a me atormentar.

Lorenzo foi entrando na sala e notou a presença de Dalton, que não tardou a se levantar e cumprimentá-lo.

-Muito prazer rei Lorenzo, me chamo Dalton.

-Muito prazer Dalton. –O rei apertou-lhe a mão com a testa franzida.

-Sei que deve estar se perguntando o motivo de eu estar aqui. –Dalton leu suas expressões. –Estou aqui em nome do rei Samuel, que não está em condições de sair de sua cama. Falo em seu nome e de todo o reino de Janus.

-Bom, você não parece com um representante de nação, tão jovem. –Respondeu.

-O mundo e suas surpresas, não? Rei Samuel não deixou herdeiros... Vivos... Então eu tomo sua posição em conselhos como esse.

Lorenzo não era muito mais novo que Felson, porém, estava muito mais preservado. Era um homem alto e forte, com cabelos loiros lisos que não eram muitos compridos. Seus olhos verdes e um sorriso branco e bem cuidado entravam em contraste com uma bela coroa dourada que ele usava, e nela, muitas pedras preciosas, principalmente Esmeraldas, estavam incrustadas. Usava uma túnica de tom esverdeado com detalhes brancos, e um belo anel dourado, que também possuía uma pedra verde incrustada.

O rei entrou e logo atrás dele outro homem veio, vestido não muito diferente, somente com roupas menos cuidadas e ornamentadas. Era baixinho e carrancudo, com as feições sérias e num tom raivoso, e suas sobrancelhas grossas só ajudavam nessa aparência raivosa.

O homem baixinho estava fechando a porta por conta própria quando Felson disse:

-Lorenzo, não posso tratá-lo diferentemente de Dalton, até mesmo porque ele é representante de Janus agora, por isso tenho que pedir que seu subordinado não acompanhe a reunião.

O homem pareceu não ouvir e fechou a porta mesmo assim, ignorando completamente Felson.

-Ora Felson, Ferdinando é meu empregado mais fiel de todos. –Respondeu. –Confiaria a ele o que o rei Samuel confiou a Dalton, não precisa se preocupar, ele é de confiança absoluta.

-Pode até ser, mas pedi que Dalton dispensasse seus homens e não posso trata-lo diferente.

Lorenzo se mexeu inquieto e pensativo.

-Não entendo o que te aflige para querer que ninguém acompanhe essa reunião. –Disse.

-São assuntos sérios e oficiais, temos muito que falar e discutir e o que será dito deve ficar somente sob os ouvidos dos reis para que isso não se espalhe pelas pessoas. –Lorenzo ia intervir, e prevendo esse acontecimento, Felson continuou: — Independentemente se ele é de confiança ou não.

O rei continuou hesitante, e depois de alguns segundos, dirigiu-se até Ferdinando, disse-lhe algumas palavras em particular e deixou que o homem saísse. Ferdinando abriu a porta e ela fechou-se num baque surdo.

Lorenzo puxou então uma cadeira e sentou-se, logo após, pegou uma taça que estava na mesa e serviu o vinho por conta própria, como se fosse de casa.

-Para que um lugar tão escondido? Demorei a achar isso aqui. –Disse tomando a bebida. -Seus próprios criados pareciam uns bêbados que não sabiam para onde me levar.

-Reuniões em salões enormes, com mil mordomias e tanta luxúria só servem para chamar atenção. –Respondeu. –As pessoas iam especular o motivo de tudo isso aqui e acabariam criando mais intriga do que já há. Já nessa sala reservada, quase ninguém sabe da existência de nossa conversa.

-Entendo o motivo de sua preocupação... –Ele disse vagamente encarando Dalton, que continuava de pé. –E você homem, parece que está indo para uma guerra, para que tudo isso?

-Foi o mesmo que eu perguntei. –Felson observou.

-Somente gosto disso tudo, mesmo não sendo nada confortável. –Respondeu se sentando.

Lorenzo deu de ombros.

Felson puxou então sua cadeira e sentou-se, respirando fundo e pondo as ideias em ordem dentro de sua mente.

-Pois bem, são muitos os assuntos que temos que debater e temo que apenas um dia não seja o bastante para que tudo seja feito. –Disse.

-Certamente não é. –Lorenzo comentou.

-Portanto vamos por as ideias para fora, debater o que precisa ser debatido, tomar as melhores decisões, enfim, analisar tudo com cuidado e inteligência.

-Naturalmente.

Segundos de silêncio antecederam a séria conversa que se seguiu logo após.

-Então vamos. –Disse decidido. –Como sabemos, todos os reinos estão a um passo de entrarem numa guerra, e por mais coisa que façamos, está quase certo que evitar a guerra não é uma opção, portanto, quero saber a posição de você perante tudo isso.

Lorenzo assentiu.

-Vamos deixar o novato aqui começar. –Disse tranquilamente indicando Dalton.

Não sabiam se era a primeira vez de Dalton numa reunião daquelas, mas se fosse, ele não parecia nem um pouco nervoso. Somente lançou um olhar para Felson para ter certeza de que a palavra era dele e começou:

-Bom, tudo o que eu disser estará de acordo com as vontades de Samuel, não vou expressar nenhuma opinião de minha parte, somente direi o que ele acha melhor e explicarei o que for devido.

-Deixe dessa embolação e vamos logo. –Lorenzo disse.

-Como já é de conhecimento de todos, há muitos motivos e fatores que nos levaram a esse estágio de tensão dos dias de hoje, e eles são os mais variados. –Começou. –O ponto principal de tudo isso é o que ronda o reino de Ícarus e Vultrocanis, a disputa territorial e as questões religiosas que atingem os dois reinos são certamente os pontos principais que levaram nosso mundo a esse estado de guerra. Sabemos que o rei de Ícarus inveja o reino de Vultrocanis por toda sua extensão territorial, e saber que antes tudo aqui já havia sido de seu reino com certeza o perturba mais, mas não vamos entrar em questões históricas agora; voltando, a quantidade de terras que o reino possui perturba o rei, e os fatos de a maior parte de tudo ter sido tomada há anos atrás não ajuda nada nisso. O reino de Vultrocanis ainda persiste em sua incompreensível política de expansão à força, o que acaba perturbando um pouco membros reais de dentro do reino, os motivos eu desconheço. Além de tudo isso, os dois reinos já estão numa guerra religiosa que se estende por décadas, o reino de Ícarus segue uma religião politeísta como todos devem saber, e Vultrocanis não, o que acaba gerando um conflito fútil entre os fiéis e, querendo ou não, por ser uma guerra, os governantes acabam envolvidos. Eles não querem ir contra os membros religiosos dos quais seus reinos já são aliados e possuem um pacto há centenas de anos, e, portanto, não podem parar a batalha.

“Os demais reinos de Hailthorn estão se aliando a um dos dois, naturalmente ao que eles acham correto apoiar, e por mais que Samuel ache ridículo o estágio dessa tensão e os motivos, uma guerra desestrutura um continente inteiro e vira o mundo que conhecemos de cabeça para baixo, ou seja, querendo ou não temos que escolher nosso lado. Os senhores menores que tem suas fidelidades juramentadas a esses dois reinos já estão afiando suas espadas, se o que ouvimos pode ser tomado como verdade, e com ou sem a gente, a terra vai ser regada em sangue.”

Ambos ficaram em silêncio assim que Dalton terminou de falar e o que quer que fosse que eles pensavam no momento, ficou indecifrável.

-Você fala bem garoto. –Lorenzo observou.

-Realmente, muito bem. –Felson concordou. –Mas vamos ao ponto, Dalton pôs as cartas na mesa, basicamente nos disse exatamente a situação que passamos, e que temos que admitir para seguir em frente.

-Temo dizer que não acho motivo para apoiar nenhum dos dois. –Lorenzo disse.

-Essa nossa reunião certamente causaria muita intriga se fosse descoberta pelos reis e rainhas dos outros reinos. Dauthson, Janus e Esmeralda são reinos que possuem uma aliança que perdura há quase dois séculos, e se nos separamos num momento como esse seria praticamente uma facada pelas costas. –Felson falou. –Estou com Lorenzo, escolher um lado para apoiar vai ser difícil, afinal, o problema ali são questões somente entre os dois reinos, não há motivos para nós nos envolvermos. Entretanto, Vultrocanis e Ícarus são reinos milenares e os mais ricos de Hailthorn, se um deles cair, os reinos que os apoiam vão cair junto, por isso temos que tomar nossa decisão. Se escolhermos o lado errado estaremos nos condenando à ruína. Não só a nós assim como todos nossos esforços. Somos reinos livres, não estamos juramentados a ninguém senão a nós mesmos e a nosso Deus, mas não duvido que em algum momento uma carta de algum dos lados vai chegar, e é bom que até lá já tenhamos todo nosso repertório pronto.

-Vamos ver o que podemos fazer. –Lorenzo tomou iniciativa.

Teve início então uma conversa árdua que apresentou todos os pontos de vista e as mais diversas questões envolvidas ali. Analisaram a posição que podiam tomar perante aos dois reinos, sabendo que a partir do momento que escolhessem um deles para apoiar, o outro, assim como mais um monte, se virariam contra eles.

Por mais novo que fosse Dalton falava muito bem e com clareza, talvez o próprio Samuel não fosse capaz de se expressar tão bem quanto ele estava fazendo. Felson não estava muito atrás, nunca deixando passar um mínimo detalhe, questionando tudo quanto era possível e argumentando sempre. Já Lorenzo era o mais quieto entre eles, mantinha-se calado e atento a maior parte do tempo. Parecia tenso e tamborilava com os dedos freneticamente na mesa, assim como seus pés batiam no chão fora de ritmo. Constantemente ele enchia sua taça de vinho e bebericava a cada segundo.

Uma hora se passou, e depois dela mais uma, mas para eles, foi tão rápido que não fora possível ver quase nada do que precisavam. Felson chamou um criado e pediu-lhe mais uma taça de vinho, somente para terem algo para se distraírem durante aquele momento todo, desde que o foco não saísse por completo, aliás, precisavam ter uma coisa para molhar a garganta.

Já com o assunto mais desenvolvido, Lorenzo bradou, em determinado momento:

-Bah! Isso é besteira! Não há como fazemos isso!

-Acalme-se, não precisa elevar a voz. –Felson advertiu-o.

-Como pensam que podemos criar um bloco militar à parte?! –Indagou batendo com sua taça dourada na mesa e derramando alguns pingos sobre a mesa. –Simplesmente não podemos pensar nessa possibilidade, não tem sentido! Os reinos do leste tem suas tropas de homens treinados desde que nasceram, e só assim conseguem alguma coisa, não podemos começar a criar iniciativas do nada aqui!

-Vamos analisar com calma, você está muito nervoso. –Dalton disse.

-É claro que estou nervoso. –Disse sério.

-Só temos duas opções, ou nos juntamos ao reino de Vultrocanis ou nos aliamos a Ícarus. –Dalton continuou. –Mas, e se nós criássemos uma terceira opção? Nossa própria saída! Veja bem, ninguém quer entrar nessa guerra que está por vir, concorda? Os reinos mais distante sequer disseram sua posição quanto a isso.

Era para ter sido uma pergunta retórica, porém, Dalton não disse mais nada logo após isso e ficou parado encarando Lorenzo à espera de uma resposta.

-Certamente que não. –Respondeu enfim.

-Então! Veja bem! –Exclamou. –Os outros reinos só estão se enganchando nessa batalha que está por vir por que temem o que fim dela. Está certo que se qualquer um dos dois for derrotado e cair, aqueles que estavam ao seu lado vão cair consequentemente, e por quê? Porque esses dois reinos são mais ricos que todos os outros de Hailthorn juntos! Os reis e rainhas estão com medo de terem seu mundinho abalado com a queda de um deles, e por isso estão fazendo suas apostas e escolhendo um dos lados, o que julgam melhor.

-E não é o que devíamos fazer? –Ele questionou sério.

-E correr mais risco do que já corremos? –Dalton respondeu com uma pergunta. –Essa é a questão, de um jeito ou de outro, teremos de nos aliar a um dos lados, e ficaremos sujeitos a uma derrota. Se perdermos, as desgraças que recaíram sobre nós serão tantas que tenho medo só de pensar. Nossas famílias possuem nomes seculares, quem sabe até milenares. Talvez possa não ser fim de nossa linhagem, mas o declínio dela. O mundo é mais inconstante do que aparenta.

“É por isso que criaremos uma terceira alternativa, se nossas opções são nos aliarmos a um dos dois, nossa terceira será forjar a nossa própria aliança e botar de lado os dois enquanto resolvem eles mesmos suas diferenças."

-Quem sabe se fizermos isso não precisamos nem entrar na guerra sequer. –Felson continuou.

Lorenzo tomou de uma vez só todo o conteúdo que tinha em sua taça e engoliu com dificuldade. Serviu mais um pouco e não respondeu de imediato. Sua perna direita tremia muito e ele revirava os olhos pensando.

-Prossigam. –Disse.

-Vamos criar nossa aliança, Lorenzo! –Felson explicou. –Vamos constatar os outros reinos, vamos convencê-los de que não há motivo para que eles se aliem com Ícarus e Vultrocanis, que há outra opção! Se tivermos todos os outros reinos de um lado só, deixaremos de lado Vultrocanis e Ícarus.

-Eles podem ser reinos extremamente ricos, mas não são nada se não tiverem os outros para sustentar sua economia. –Dalton seguiu. –Comprar, vender, esse tipo de coisa. Com nosso bloco militar, nossa aliança, deixaremos isolados esses dois reinos e não precisaremos sequer entrar na guerra! Podemos deixar que eles próprios resolvam suas diferenças!

-Quem sabe se eles não forem tão cegos quanto penso que são, vão desistir dessa loucura e deixar de lado todo esse clima de guerra. –Felson finalizou.

Lorenzo se levantou e começou a andar pela pequena sala, hesitante. Sua mão repousava o tempo todo sobre algo que ele trazia sobre a cintura e constantemente ele se certificava de que continuava lá.

Rondando no mesmo lugar, ele disse:

-É um assunto que vai muito além do que essa reunião requer, quero dizer, não é uma decisão qualquer, e não envolve somente a nós.

-Sabemos disso. –Felson respondeu.

-Temos que saber se os outros reis e rainhas apoiam essa iniciativa, porque não pode ser simplesmente a gente. Pense só, todos os outros reinos aliados e somente nós três isolados do resto do mundo!

-Você sabe que isso aqui não vai acabar hoje. –Felson disse. –É um assunto muito delicado e que exige muito atenção, decidir tudo numa noite é impossível.

Lorenzo não respondeu. Deixou sua taça em cima da mesa e incrivelmente não a repôs. Não se sentou novamente, no entanto, continuou de pé e andando nervosamente de um lado para o outro.

-Você pode se sentar Lorenzo? –Felson perguntou. –Há algo errado?

Parado repentinamente, o rei de Esmeralda olhou para os dois lados rapidamente e fechou os olhos, murmurando alguma coisa. Mantinha sempre a mão na cintura, por algum motivo.

-Vocês podem me aguardar por um momento? –Ele perguntou.

-Como assim? O que quer dizer com isso? –Felson indagou.

Mas já era tarde para uma resposta, Lorenzo já havia aberto a porta e saído com uma velocidade sobre-humana, batendo-a assim que saíra.

Dalton dirigiu um olhar de canto de olho para Felson, e este retribuiu. Levantando-se, Dalton falou:

-Sei que não sou um rei nem nada parecido, mas já participei de muitas conferências assim e tenho certeza de essa atitude não é nem um pouco aceitável.

-Com certeza não. –Concordou. –Mas ele deve ter algum motivo, suponho.

-Eu espero que seja realmente muito bom.

-Lorenzo é conhecido meu de longa data, não faria uma coisa dessas, se o conheço bem, ele não é desse tipo. –Continuou.

Dalton sentou-se novamente, suspirando.

-O que fazemos então?

-Não sei se devo ir atrás dele... O que acha?

-Eu lhe digo que não tenho a mínima ideia. Quem sabe ele passou mal e foi pegar um pouco de ar...

-Não sei...

-Acho que deve esperar um pouco, caso ele não volte mande alguém atrás dele. –Respondeu. –Você é um rei, não deve se preocupar com tamanha falta de respeito a ponto de você mesmo ir atrás dele.

Felson decidiu então aguardar alguns minutos e, caso Lorenzo não voltasse, faria o que Dalton sugerira.

Durante o tempo em que eles ficaram esperando que ele voltasse, nenhum dos dois disse uma palavra. Ambos estavam se sentindo deslocados com a ação que acabaram de presenciar e o pior era saber que vinha de um rei. Estavam numa reunião diplomática que não era uma qualquer, como Lorenzo podia fazer aquilo.

Do lado de fora o vento soprava mais violentamente e agora mesmo com a janela fechada era possível ouvir o uivo que ele emitia, gelado e imponente. O mar estava agitado e ondas quebravam sem parar, e uma bela Lua cheia repousava no céu negro ao lado de uma dúzia de estrelas.

-Acho que já devo tomar alguma atitude. –Felson disse se levantando.

-Concordo. –Dalton se levantou e foi seguindo-o.

De repente a figura de Lorenzo surgiu na entrada, e log atrás dele estava seu criado baixinho e carrancudo. Os dois entraram na sala e fecharam a porta com cuidado.

-Onde você estava?! Por que saiu daquele jeito?! –Felson indagou.

-Eu queria que você pudesse entender isso Felson, mas sei que é impossível. –Lorenzo sorriu com o canto da boca. –Mas pelo menos saiba que faço isso pelo mesmo motivo que me trouxe até aqui: Procuro o melhor para o meu reino e meu povo.

O que aconteceu então foi simplesmente rápido demais para que Dalton ou Felson pudessem entender o que se passava. Simultaneamente Lorenzo e seu criado reagiram numa agilidade sobrenatural. O homem baixinho foi num salto e pulou em cima de Dalton, sacando uma adaga e quase a fincando no pescoço do jovem. Ao mesmo tempo, Lorenzo sacou uma de sua cintura e atirou-a em Felson.

A adaga atravessou o peito do rei e ele caiu de joelho. A dor foi agoniante, a sensação do metal gelado e afiado furando e penetrando sua pele percorreu-o todo e fez com que desabasse. A lâmina gélida penetrou cortando a pele e a carne que estavam em seu caminho, e no mesmo instante a visão de Felson vacilou e ele ficou momentaneamente cego. Quis tirar na mesa hora a adaga de seu peito, mas sabia que se o fizesse estaria condenando a si mesmo à morte.

-Me desculpe Felson, você não entenderia mesmo. –Lorenzo andou até o rei e se ajoelhou ao seu lado.

Felson queria poder falar muita coisa, mas estava tão confuso que nada lhe vinha à mente naquele momento. Estava sendo assassinado pelo seu colega, um dos poucos reis em que ele mantinha uma relação social que não era superficial. Pensara que Lorenzo fosse a única pessoa que estava com ele sem pensar em segundas intenções, mas só naquele momento se deu conta de que estava mais do que errado.

Colocando a mão sobre o cabo da adaga, ele puxou-a com toda a sua força e sangue espirrou por todo o lado, inclusive nele, manjando sua túnica com um borrão. A dor daquele momento não pode ser comparada a nada que ele sentira antes em sua vida, e assim que sentiu a lâmina gelada saindo de dentro de si, não suportou e desabou completamente no chão, batendo sua cabeça.

O mundo começou a girar ao seu redor, indo de um lado para o outro, para frente e para trás. Conseguia sentir o sangue quente sair de sua ferida e escorrer pelo seu peito e barriga, descendo até chão ao seu lado e criando uma poça vermelha que somente cresceria. Tentou mover suas mãos, mas até seus dedos se recusaram a se mover.

A figura de Lorenzo então surgiu no seu campo de visão. Um sorriso sádico estava estampado em seu rosto, na sua mão estava a adaga ensanguentada, pingando o líquido vermelho sem cessar. Ele bloqueava a luz de modo que a única coisa que Felson conseguisse distinguir fosse sua figura.

Não posso morrer olhando para a cara desse desgraçado. Pensou enquanto jazia sangrando no chão. Não desse jeito.

Ao lado dele, alguma coisa estava acontecendo entre Dalton e o criado de Lorenzo, mas seja o que fosse não era possível saber. Constantes barulhos e colisões podiam ser ouvidos vindos de lá, e o máximo que se podia deduzir é que os dois estavam em uma luta corporal intensa.

-Por quê... –Felson balbuciou.

Lorenzo sorriu e girou a arma que tinha em suas mãos. Sua gargalhada foi abafada pelos sentidos desnorteados de Felson.

Num ato inesperado, Lorenzo fincou a adaga mais uma vez no peito de Felson.

-Não posso dizer muita coisa, Felson. –Respondeu com uma expressão demoníaca. Sangue estava respingado em sua face, e aquele sorriso psicótico fazia-o parecer um monstro. –Mas uma coisa que eu aprendi com todo esse tempo de vida é que nunca se pode dar satisfação a seu inimigo.

Lorenzo tirou a adaga do peito dele e desferiu mais um golpe. Felson tossiu sangue. Queria poder gritar de dor para que todos ouvissem seu clamor, mas não tinha forças.

-Adeus. –Disse.

Lorenzo ia desferir o último golpe, aquele que seria fatal e que tiraria de vez a vida do rei, e foi então que o inesperado aconteceu mais uma vez.

Mesmo que sua visão estivesse vaga e confusa, Felson conseguiu enxergar a lâmina de uma espada atravessar o tronco de Lorenzo bem diante de seus olhos. A expressão de surpresa e pavor daquele momento estampadas na face do rei foram surreais, e seu olhar congelante ficou pavoroso. Foi algo tão repentino que não parecia ter realmente acontecido, um momento antes ele estava para ser morto com um último golpe e no outro uma espada atravessou o tronco de seu inimigo.

A espada recolheu-se então e o corpo morto do rei Lorenzo caiu duro ao lado de Felson, que não tardaria a fazer o mesmo.

Dalton largou sua espada no chão na mesma hora e saiu gritando por socorro pelos corredores do castelo, e cerca de um minuto depois, com sua visão quase totalmente perdida e com extremas dificuldades para respirar, Felson sentiu alguém lhe levantando e carregando-lhe para fora daquela sala. O sangue quente escorrendo de seus cortes profundos. Seus sentidos estavam começando a perder suas funções e nada mais fazia sentido ao seu lado, e a noção de tempo também foi completamente nocauteada. O tempo que ele passara no chão não tinha sentido para ele, ele não conseguia compreender naquele momento de agonia.

-Por isso que eu sempre ando com uma espada... –Felson ouviu Dalton balbuciar ao seu lado enquanto o carregava.

E estas foram as últimas palavras ouvidas antes que seus olhos se fechassem de vez e seus sentidos deixassem de funcionar.