Herdeiros

1 Felson (Primeira parte)


Notas iniciais
"-Muito provavelmente você é o único homem de todo Hailthorn que é herdeiro de um trono e não almeja se tornar um rei, Davi."

A taça vazia, antes cheia do melhor vinho de que se tem conhecimento, foi depositada sobre a pequena e circular mesa. Felson apreciara até a última gota daquela bebida que poucos homens possuem o privilégio de tomar, e ele, por sua vez, tinha o quanto queria e quando quisesse.

Distraído com muitos pensamentos distantes, ele girava seu belo anel de prata em seu dedo enquanto sua mente ia mais longe do que queria. Era fim de tarde, e o belo Sol daquele horário derramava tons de laranja e amarelo no pequeno e reservado cômodo que escolhera para a reunião que não tardaria a acontecer. O clima estava agradável e perfeito, diferente do que é na maior parte do ano, onde o céu é carregado de nuvens negras e as temperaturas são sempre mais frias do que as pessoas gostariam. Naquele dia em questão, no entanto, estava tudo diferente e bom, pena que Felson não era um homem que podia tirar momentos de sua vida para aproveitar esses detalhezinhos que os dias trazem.

Pegou a garrafa de vinho recém aberta e serviu uma pequena quantidade do vinho para si novamente. Antes havia prometido a si mesmo que só tomaria uma taça e deixaria o restante para os convidados, mas conforme o tempo passava e ele continuava a vagar pelas suas preocupações, ignorou o que havia prometido e decidiu que o certo seria tomar o quanto lhe agradasse, desde que não extrapolasse os limites.

Felson era um homem mais velho. Seus cabelos já haviam caído há muito tempo e agora o que lhe restava era somente uma pálida e resplandecente careca. Sua pele era clara e em sua face algumas rugas criadas pela extrema preocupação jaziam espalhadas. Sua barba, já branca devido ao tempo, estava sempre bem feita e rala. Não era um homem de estatura muito invejável, muito menos de um porte físico que fosse intimidador, apesar do seu longo tempo em batalhas e lutas. Não era nem um pouco acima do peso, mesmo assim ainda possuía uma pequena e humilde barriga. Trajava-se como qualquer e bom rei devia ser, roupas longas e macias, com diferentes tons de vermelho e detalhes preto, que se alongavam delicadamente por todo o seu corpo. Anéis de ouro com pedras preciosas descansavam em seus grossos dedo, devidamente polidos e brilhantes. Uma coroa havia sido feita sob medida para ele também, mas quase sempre se recusava a usá-la por considerar aquilo nada mais do que um extremo exagero, e não seria diferente naquela reunião. Tanto ouro e pedras preciosas desperdiçados num objeto que somente ficaria pendido em sua cabeça onde quer que ele fosse. Talvez fosse um dos poucos reis que não gostavam daquele privilégio.

Levantando-se, Felson dirigiu-se para a bela e grande janela que permitia a entrada da luz naquela pequena sala. Tinha a taça em mãos e bebericava de quando em quando. Apreciava as ondas do mar inquieto se quebrando nos limites de seu reino e as muitas embarcações que iam e viam pelo litoral, trazendo pessoas, mercadorias e riquezas. O movimento na praia era tranquilo e quase não havia ninguém, diferentemente do que estava algumas horas antes. O Sol seguia descendo sem pressa pelo horizonte.

Dentro de si, os pensamentos que o martelavam a mente era variados, mas como todo rei, muitos similares ou repetitivos. Felson dizia para si mesmo que depois de quase três décadas no poder ele já devia ter se acostumado com isso, porém, é impossível.

Tirou então do bolso um papel amassado e com anotações dele mesmo sobre outro documento. Tinha que decidir logo qual seria sua posição perante a Igreja, se ia ou não assinar um tratado com ela. Muitos reinos já haviam assinados tratados e mais tratados com a Igreja, e agora ele se encontrava na mesa posição. Dos muitos assinados, boa parte gerou benefícios tanto para o reino quanto para a população e os reinos cresceram e prosperam mais rápido, em contrapartida, uma parcela de significância semelhante de reinos somente teve prejuízos com os pactos feitos, dois casos em especial causaram até mesmo o fim de reinados que duraram séculos e séculos. Os motivos eram os mais variados, e ele podia se espelhar em alguns deles para analisar a situação com inteligência e perceber as consequências. As riquezas da Igreja são praticamente ilimitadas, terras, ouro, castelos, tudo o que ele podia imaginar ele conseguiria; além disso, muitos habitantes de seu reino eram fiéis até o fim dos ensinamentos e pregações feitas e certamente achariam uma maravilha a decisão do rei, e ele ganharia apoio de centenas e centenas de pessoas num piscar de olhos, e como a Igreja não se concentra somente em seu reino, muito provavelmente suas áreas de influência de expandiriam para muito além de seus domínios; nos pontos apresentado no tratado em questão havia uma parte em especial que dizia que caso Felson fechasse o pacto, teria sua imagem transformada e glorificada e seria dito às pessoas que ele era um homem de Deus enviado à terra para o bem e para milagres, que sua linhagem e sua família eram abençoadas e que enquanto estivessem no poder não haveria com o que se preocupar, uma tremenda pressão e estrapolação dos limites. O que ele menos queria era ter sua imagem distorcida, ainda mais pela Igreja, isso não seria favorável a ele. E é aí que entram os pontos negativos de tudo aquilo. Inicialmente, o reino e toda a sua linhagem familiar que o antecedera havia decido manter a religião afastada de todas as questões políticas ou de qualquer coisa semelhante, o que, em sua opinião, era uma decisão sábia. E se assinando um tratado com a Igreja trazia mais fiéis para o seu lado, ao mesmo tempo levava pessoas para a oposição, pois havia pessoas de influência e poder no reino que, como ele, também não concordavam na união da Igreja com o reino pelos mais diversos motivos, e podiam sem problemas colocar muita gente contra ele.

Era uma questão delicada, até mesmo porque ele não achava correto assinar algo daquele tamanho com uma entidade religiosa, todavia, as circunstâncias o estavam obrigando a ir para aquele nível de apelação. Uma guerra estava prestes a eclodir, e as relações comerciais estavam se tornando cada vez mais limitadas. Não havia para quem vender o que produziam, e não podiam comprar o que precisavam.

Deu um último gole e acabou sua segunda taça de vinho, depositando-a sobre a mesa mais uma vez e se sentando na bela e grande cadeira acolchoada destinada ele mesmo para aquela reunião. Suspirou, fechando os olhos e relaxando por um momento, tentando espantar suas preocupações, afinal, teria que discuti-las daqui a pouco de qualquer maneira.

Pegou um livro que estava em cima da mesa e folheou o conteúdo das páginas, com delicadeza, pois o livro era antigo e vinha de gerações em gerações, chegando então a sua mão. Queria poder ter tempo para lê-lo, todas as pessoas que o leram disseram ser uma obra sem igual, e era um livro mais especial ainda por ser o único exemplar existente, porque fora feito exclusivamente para sua família há muitos anos, presente de um velho e sábio que ninguém sabe o nome ao certo.

Alguém bateu a porta então.

-Está aberta. –Disse fechando o livro e colocando-o novamente em seu lugar.

A porta grande e maciça abriu-se sem fazer nenhum barulho e revelou a figura do filho de Felson ali parado.

-Com licença, pai. –Davi disse entrando.

-Sem problemas. Alguma coisa? –Perguntou.

-Na verdade vim aqui dizer que há uns camponeses logo na entrada do castelo com foices e tudo o mais... –Disse baixinho e sem graça.

Felson levantou-se lentamente enquanto absorvia as palavras num ritmo gradual compreendendo o que estavam passando.

-Mais uma vez? O que querem agora, maldição? –Indagou.

-Não faço ideia pai, mas não parecem satisfeitos. –Respondeu.

Felson se dirigiu até a janela na tentativa de ver a manifestação na entrada, mas se esquecera de aquela sala estava virada para o lado contrário, consequentemente, sua única visão era do oceano e de algumas casas na periferia do reino. Praguejando, virou-se para seu filho.

-Davi, você não tem ideia alguma do que eles querem? –Perguntou tranquilamente.

-Como de costume, sabia que estava em reunião, portanto eu mesmo fui tentar tomar alguma providência. –Davi escolhia suas palavras com cuidado.

-Muito bem.

-Enfim, eles estão insanos... Gritando e bradando, não dá para se ter ordem naquele estado. Tentei fazer um acordo ou conversar civilizadamente com eles, mas era impossível, eles não querem me ouvir, querem falar com o senhor, e com o senhor somente.

-Não posso abandonar isso aqui, você sabe muito bem que essa reunião pode decidir o futuro de nosso reino e o desfecho da guerra que inevitavelmente acontecerá.

-Como se eles se importassem com isso pai. –Davi respondeu. –É claro que eu sei das suas obrigações, mas eles não são seus subordinados ou seus filhos, você é o governador e eles querem cobrar algo de você, seja o que for, e terá de ser com você.

-Não me diga o que eu tenho de fazer, pois eu sei muito bem minhas obrigações. –Felson o repreendeu.

Davi calou-se abruptamente e desculpou-se com seu pai.

-Mas se ainda serve, um dos motivos deles estarem aqui é porque reivindicam a mudança na taxa dos tributos. –Falou na esperança de continuar.

-Mais uma vez?! –Indagou retoricamente. –Já discuti isso com eles um milhão de vezes! Não importa o quanto deles venham aqui reivindicar ou gritar por algo, não importa! Eu não sou nenhum ganancioso desprezível que aumenta as taxas dos tributos somente para se dar ao luxo de ter uma vida de riquezas e maravilhas aqui na terra!

-Acalme-se pai, o rei de Esmeralda provavelmente chegará daqui alguns instantes, assim como o rei de Janus. –Davi tentou tranquiliza-lo. –Você precisa estar tranquilo para uma reunião desse tamanho.

Felson sentou-se novamente e suspirou tão fundo que o ar saiu de seus pulmões com tamanha força que assustou a ele próprio. Afundando sua face em suas mãos, o rei desejou poder desaparecer por muitos anos e só voltar quando tudo aquilo tivesse acabado e resolvido.

Davi puxou uma cadeira e sentou-se ao lado dele, pondo a mão em seu ombro.

-Será que eles não entendem? –Felson perguntou. –A qualquer segundo os reinos podem entrar em uma guerra! Uma guerra! Uma guerra capaz de devastar todas as terras que o ser humano tem conhecimento! Se eu aumentei os impostos é porque há um bom motivo, muitos reinos já se recusaram a negociar conosco alegando que feria seus tratados e porcarias do gênero... –Ele praguejou e xingou.

-Pai, eles são camponeses... São pobres, não tem estudo e os únicos conhecimentos que possuem são os que aprendem por si próprios, não entendem nem um pouco de tudo isso que o reino está passando, e mesmo se entendesse, tampouco ligariam. –Davi disse sério. –São ignorantes, e eu não os culpo, vivem uma vida muito diferente da nossa e também possuem problemas.

-Eu compreendo filho, mas é simplesmente complicado demais.Estou tentando fazer o melhor para o reino, só... Certamente aumentar os tributos não é a alternativa mais agradável, mas o que eu posso fazer se não temos mais como arrecadar como antes? O reino possui muito dinheiro, mesmo assim não é o bastante para os gastos que estamos tendo com armações e...

-Pai, peço perdão por interrompê-lo, mas desabafar comigo não vai adiantar de muita coisa... –Davi interveio. –Sei que o senhor está sobrecarregado e tudo mais, mas agora não é hora de pensar nesses problemas. Se preocupe com a reunião que está por vir e mantenha sua mente bem longe de tudo isso, pode deixar que eu mesmo me encarrego dessa situação.

Felson ergueu o olhar e se endireitou.

-Muito obrigado, Davi, é muita bondade sua... –O pai pôs a mão sobre o ombro do filho.

-Talvez seja o mínimo que eu deva fazer, afinal, serei sucessor do trono um dia, quer eu queira quer não, então... –Davi tentou tocar naquele assunto, mas seu pai ignorou. -Sou o seu herdeiro. -Ele finalizou.

Felson serviu mais uma taça do vinho e deu um longo gole. Ofereceu a bebida a seu filho, que recusou educadamente. O rei deu mais algumas goladas antes de acabar em segundos a taça e colocá-la com força em cima da mesa.

-Você não devia beber assim antes de... –Davi ia dar um conselho a seu pai, mas foi interrompido.

-É só que... –Felson começou ignorando o que seu filho dizia. –É só que tudo seria mais simples se sua mãe ainda estivesse aqui entre nós...

Davi fitou-o, rígido.

-Pai, não quero faltar com respeito para com o senhor, mas vamos evitar tocar nesse assunto da mamãe... –Sua voz fraquejou nas últimas palavras.

Felson calou-se no mesmo instante, sentindo-se repreendido, porém, não bravo.

-Eu também gostaria de evitar tocar nesse assunto, filho, mas uma hora ou outra ele sempre vem à tona e vamos ter que aceitar a verdade e entender nossa posição perante todos... –Disse sério, mas com um tom delicado na voz. –Sua mãe era meu braço direito e eu não me imaginava sem ela... E agora, veja só as surpresas deste admirável novo mundo...

Davi não respondeu nada.

-E se um dia isso chegar a você? Se um dia uma enfermidade me atacar também? Se eu for atacado? Davi, você é o sucessor de tudo isso, tem que ser duro e forte, e por mais que odeia, isso inclui ser um pouco... Frio...

-Ela era a minha mãe. –Ele respondeu simplesmente. –Como quer que eu seja indiferente?

-Ela era minha mulher, minha esposa. Não estou pedindo que seja indiferente, mas nesse uma hora vai ter que deixar seus sentimentos de lado para decidir o que é melhor para o reino. Davi, você é meu sucessor.

Davi levantou-se da cadeira num salto, empurrando-a violentamente para trás. Queria poder gritar e por tudo para fora, mas não podia, sabia, ainda mais com seu pai.

Inspirou e expirou lentamente algumas vezes até sua visão se normalizar e ele conseguir raciocinar e formar frases coerentes.

-Sabe que eu não tenho a mínima vontade de me tornar rei. –Disse com as costas apoiadas na parede e os braços cruzados.

Felson não pôde conter uma leve risada.

-Muito provavelmente você é o único homem de todo Hailthorn que é herdeiro de um trono e não almeja se tornar um rei, Davi

-E o destino é tão irônico... –Davi começou a andar, um pouco nervoso.

Ele pegou o livro que antes seu pai estava folheando e observando as páginas e fez o mesmo. Os gestos, a expressão facial, o jeito de fazer, as semelhanças foram tantas que o próprio Felson se assustou com as tantas semelhanças que seu filho tinha com ele. Podia ter certeza de que Davi era seu filho legítimo.

No olhar vago daquele jovem ele também reconheceu a si mesmo quando jovem. Confuso, com medo e com um monte de obrigações nas costas desde cedo, até nisso seu filho se assemelhava a ele. Dessa parte, porém, ele não podia dizer que sentia orgulho.

-Sabe que é o que tem que fazer, é o mais velho e meu único filho homem que tenho. –Disse. –Sei que sua irmã daria tudo para estar em seu lugar, mas simplesmente não posso... Tem que ser você.

-Você sabe o quanto ela deseja isso pai, por que não pode ser ela? –Davi indagou. -As leis não permitem que uma mulher tome o trono, e daí? Cada reino já cria seu lei há tempos mesmo. O que acontece se eu morrer, então? Um alguém vai se casar com ela e aí sim esse alguém vai ser o rei de Dauthson, e ele sequer tem o nosso sangue.

Seu olhar encontrou o de seu pai quase no mesmo instante e em questão de segundos os dois tiveram uma conversa onde não trocaram uma palavra sequer. Na seriedade do momento, Davi percebeu que aquele não era o momento para criar mais coisas para pensar e se preocupar.

-Me desculpe pai. –Disse. –Estou saindo e vou deixar o senhor a só, provavelmente eles já devem estar chegando.

-Foi bom conversar com você, Davi.

-Igualmente. –Ele abriu a porta e antes de fechá-la de vez, disse: — Até mais tarde.

O som da densa porta de madeira se fechando inundou a sala e no mesmo instante desapareceu, secamente.

Felson foi tomado pela solidão novamente enquanto esperava que os seus companheiros chegassem. Pelo menos ele não achava ruim ter de ficar esperando os outros, sozinho, muito pelo contrário, a solidão o reconfortava e o acalmava. Não havia pessoas para quem dar satisfação e explicações, ou problemas para falar, somente silêncio e tranquilidade.

Pegou o livro e abriu na primeira página, criando coragem para ler o que estava escrito enquanto não chegavam. Admirou cuidadosamente as belas letras escritas à mão e carinhosamente, percebendo o quanto trabalhoso fora produzir uma obra daquele nível e tamanho. Logo sua mente foi invadida por um universo completamente louco e maravilhoso, deixando de fora as preocupações que antes estavam lá. Dragões, reinos milenares, monstros, guerreiros, bruxas e heróis, tudo isso veio conforme ele ia adquirindo as mensagens das palavras, e ele se desligou do mundo real como não fazia há muito tempo.

Do lado de fora, o Sol terminou de desaparecer completamente do horizonte e se pôs definitivamente. Felizmente aquilo não fora problema nenhum, pois naquele cômodo em que se encontravam dezenas e dezenas de velas dispostas em candelabros e num belo e ornamentado lustre cuidavam da iluminação. A luz tremeluzia e criava sombras distorcidas e incertas nas paredes e no chão. O ambiente estava aconchegante.

Felson não tinha ideia de quanto tempo passara lendo o livro, se fora somente alguns minutos ou quase uma hora, não faria diferença. Sabia, no entanto, que as pessoas com quem iam se encontrar já se encontravam no castelo há muito tempo, e ele mesmo pediu para que lhes fosse avisado que a reunião transcorreria naquela sala mais isolada e reservada. Provavelmente muitos ficariam furiosos pelo atraso, ainda mais numa cerimônia de importância tão extrema quanta aquela, inclusive ele, porém, naquele instante ele não fez nenhuma questão de se preocupar com isso, estava inteiramente mergulhado no universo alternativo que a história estava lhe proporcionando.

De repente alguém bateu a porta e ele foi expelido instantaneamente das viagens de sua mente. Conversas podiam ser ouvidas do lado de fora, certamente havia mais do que uma pessoa apenas. Pondo o livro de lado, Felson se endireitou, levantou-se e fez questão de ir atender a porta.

O silêncio tomou a todos do lado de fora assim que a figura do rei apareceu no portal, sombreado pelas luzes das velas. Um homem se encontrava no meio de outros três soldados, provavelmente seus subordinados.

Estranhando tudo aquilo, Felson ia dirigi-lo uma pergunta, mas o homem o poupou disso se apresentando:

-Meus devidos comprimentos ao senhor, Rei Felson, governador do reino de Dauthson. –O homem curvou-se em comprimento. –Venho em nome de todo o reino de Janus e seu governante. É um prazer poder estar aqui.

Felson franziu a testa confuso.

-Onde está Samuel? –Indagou. -Pensei que a reunião seria com ele.

-Rei Samuel se encontra muito debilitado senhor, sinto lhe informar, mas as atrocidades dos de muitos anos de sua vida começaram a surtir efeitos. –Explicou-lhe. –Sei que isso pode desagradá-lo, mas pense em Samuel, que se encontra deitado em sua cama num estado crítico a quilômetros daqui.

Felson assentiu, entendia perfeitamente, afinal, ele mesmo já começara a ser vítima dos males de décadas de existência. Ao menos era um homem compreensível.

-Meus homens disseram que o rei havia chegado aqui no reino hoje mais cedo. –Felson estranhou.

-Bom, eu e meus homens chegamos aqui hoje mais cedo senhor, em nome de todo o reino de Janus, porém, somente nós. Sem comitivas ou muitas festividades, esse tipo de coisa é melhor evitar. Imagino que saiba disso. –Respondeu.

-Pois bem, peço então que entre... –Felson percebera que não sabia o nome dele.

-Dalton, me chamo Dalton. –O homem estendeu a mão e eles se cumprimentaram devidamente.

-Peço desculpas por não ter cumprimentando-o direito antes. –Felson disse.

-Não há problemas.

Dalton adentrou a sala e os soldados que o acompanhavam já iam fazer o mesmo quando Felson interveio:

-Receio que seus homens não poderão acompanhar a reunião... Não quero ser desagradável, mas acho que você compreende.

Dalton lançou a eles um olhar sério e eles compreenderam a mensagem.

-Como queira, entendo. –Ele respondeu, e então, dirigindo-se aos seus homens, falou: — Descansar soldados, podem voltar para seus quartos, se souberem o caminho de volta.

Os homens assentiram com um aceno e saíram sem fazer barulho, fechando a porta atrás deles com cuidado.

Dalton era um homem novo, devia ter no máximo uns trinta anos, o que era estranhamente jovem para alguém da idade dele estar dando ordens a outros soldados, e mais incomum ainda ele ter sido designado pelo próprio rei para algo daquele tamanho. Era alto, forte e musculoso, tinha a pele um pouco mais escura do que a de Felson, mas nada demais. Cicatrizes se alastravam por todo o seu braço e pareciam marcas originárias de sua própria pele. Seus cabelos negros e longos caíam-lhe até um pouco além da altura dos ombros, completamente bagunçados. Sua barba estava por fazer e seus olhos castanhos davam-lhe um belo destaque a sua face, que tinha uma expressão séria no momento. Trajava uma cota de malha que lhe cobria todo o tronco, além de ombreiras; tinha uma espada embainhada em sua cintura e um punhal prateado quase escondido. Por baixo de tudo uma roupa preta velha e simples cobria o resto de seu corpo.

-Não estamos indo para uma guerra agora, para que tudo isso? –Felson indicou tudo o que ele carregava.

Dalton passou o olhar pelos objetos que trazia consigo e sorriu.

-Ah, isso não é nada. –Respondeu. –Gosto de pensar que nunca deixei de ser um soldado, o que em parte é verdade, esse traje é meu caráter, ele me define. E, além disso, estava com pressa, não queria atrasar a reunião, achei que seria o último a chegar.

-Pelo visto não é. –Felson comentou. –Vamos, sente-se, aceita um pouco de vinho? É o melhor.

-Por favor.

Pegando uma taça banhada em ouro, ele serviu a bebida.

-Por que não me diz o que há com Samuel? –Felson questionou já sentado.

-Bom, você já deve imaginar. –Ele deu um gole no vinho. –Já é um homem bem mais velho do que os outros, e não é um dos mais saudáveis. Muitos problemas o perturbavam, tanto físicos quanto psicológicos, além das próprias questões do reino. De uns dias para cá uma doença terrível o atacou, ninguém consegue saber do que se trata... –Ele sacudiu a cabeça negativamente. –Os melhores curandeiros já o trataram e nada... Até mesmo sacerdotes rezaram em nome dele.

-Sinto muito... –Felson disse meio sem jeito. –Conheci Samuel há muitos anos, bom homem ele é, sempre tivemos uma bela harmonia, ainda mais quando se tratava dos assuntos do reino.

-Ele me contou, por isso pediu que fosse o mais cuidadoso possível com o senhor, para não dizer algo que não o agrade. –Disse.

Felson não respondeu no mesmo momento. Seus olhos mantinham-se fixos num canto esquecido da sala quando voltou à conversa:

-É muito bondoso da parte dele.

-Certamente.

Hesitando durante alguns segundos, Felson perguntou:

-Dalton, não lhe conheço e por isso não quero parecer insolente, mas você não aparenta ser uma pessoa muito velha, nunca havia falado de você antes e me surpreende que o rei tenha confiado a sua pessoa um papel de tamanha importância.

Dalton riu francamente.

-Bom, Samuel certamente não confiaria isso a ninguém além dele mesmo, mas ele está mal, muito mal. Mesmo que seja velho e bem ignorante é inteligente o bastante para ter noção de suas capacidades. Enfim, realmente eu sou novo para tudo isso que eu fui designado e tem razão de se sentir desconfiado, pode ter sido um erro nosso não ter-lhe avisado de nossa presença, mas saiba que Samuel confiaria a mim sua própria vida.

A resposta não satisfez a questão que Felson ainda tinha na cabeça.

-Como um homem tão jovem chega tão longe e tão rápido? –Perguntou.

-Ah, isso é realmente uma longa história, realmente muito longa senhor...

-Por favor, não precisa me chamar de senhor. –Felson interrompeu-o. –Pode ter todo o respeito do mundo por mim, mas enquanto estamos nessa reunião, vamos tratar um ao outro de igual para igual, como deve ser, afinal, todo nós estamos falando em nome de nossos próprios reinos, por que teria de haver um tratamento diferente se estamos todo na mesma posição?

Dalton mexeu sua taça com a mão, com expressões indecifráveis.

-Como queira, Felson. –Respondeu enfim.

Eles ficaram em silêncio durante aquele curto período de tempo. Nenhum som podia ser ouvido, nem mesmo o das velas que queimavam o pavio lentamente ao lado deles, derretendo-se e iluminando o local. O vento do lado de fora soprava rapidamente e batia na janela fechada, se dissipando para sempre como se nunca tivesse existido.

Era desconfortante para Felson saber que haviam enviado outro homem para aquela reunião, e o pior era que não haviam o avisado. Como ele podia confiar em Dalton? Como poderia saber que ele não estava mentindo? Por que ele estava armado?

Eram muitas perguntas que ele temia as respostas, era uma situação revoltante. E ao mesmo tempo, nada podia fazer, pois até onde sabia, Dalton era o representante de Samuel ali e por enquanto ele tinha que trata-lo como tal, as circunstâncias o exigiam isso.

-Queríamos ter trazido um presente para você, Felson, nosso anfitrião, mas não achamos nada que fosse digno para ser um presente decente. –Danton quebrou o silêncio.

-Presente ao anfitrião? –Felson sorriu. –Não ouço isso há muito tempo, achei que as pessoas nem se lembravam mais disso.

-Bons modos não devem ser esquecidos.

-Mas desde já agradeço sua generosidade e a de Samuel, realmente muito grato.

Depois de uns minutos em silêncio e em reflexão, Dalton perguntou:

-Lorenzo está a caminho?

-Que eu saiba, ele já está aqui nos aposentos do castelo, mas o motivo da demora eu não sei nem um pouco. –Respondeu

-Poderíamos começar colocando então alguns assuntos de menos destaque em foco agora enquanto o aguardamos. –Sugeriu.

-Não, seria mais prudente esperar, Lorenzo é rei do reino Esmeralda, com certeza ficaria revoltado se soubesse que começamos sem ele. –Respondeu.

-Oras, quem está atrasado é ele. –Dalton fez uma pausa enquanto pensava. –Mais do que estava até.

De repente alguém bateu à porta, e sem que ninguém tivesse tempo de responder, ela foi aberta, e a figura do rei surgiu na entrada.

-Já não era hora? –Felson perguntou sorrindo.

Notas finais
Apesar de ser um capítulo grande, trabalhei nele tudo o que eu julguei necessário para poder começar a trabalhar no meu próprio universo medieval, estabelecendo o mundo que eu tenho em minha mente e o tom que a história vai adquirir daqui para frente. Ainda não sei qual será a frequência que vou postar, mas prometo montar uma programação se o retorno for considerável. Espero que gostem de minha história.PS: Um mapa do mundo de Hailthorn logo será postado para auxiliar no andamento da história.